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3 Sinopse Bailey, Zo, Annabelle e Delia são melhores amigas desde sempre, dessas que se

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Sinopse

Bailey, Zo, Annabelle e Delia são melhores amigas desde sempre, dessas que se implicam o tempo todo, mas se protegem e se defendem do resto do mundo. Bailey não é do tipo de garota que gosta muito de se mostrar. Annabelle é quieta e tímida, assim como Zo, que está sempre usando um velho moletom masculino. Já Delia, a mais vaidosa, adora se exibir, principalmente para os garotos.

Num passeio pelo shopping, elas decidem colocar tatuagens que duram apenas três dias. Delia tem certeza de que, com as tatuagens à mostra, as quatro amigas vão arrasar na festa da escola. O que não podiam imaginar é que as tatuagens seriam mágicas!

Cada uma das meninas recebe um dom um poder sobrenatural que vai ajudá-las numa fantástica luta. Bailey é capaz de criar fogo com sua mente, Annabelle lê o pensamento das pessoas, Zo prevê o futuro e Delia pode mudar a aparência dos objetos que toca apenas com o seu desejo.

Acontece que os sonhos assustadores de Bailey aos poucos revelam a natureza de sua inimiga. Fica claro para as meninas que cabe a elas salvar o mundo isso se elas conseguirem fazer com que Delia pare de utilizar seus novos poderes para transformar papel de chiclete em sapatos Prada

IMAGINE

VOCÊ

E

SUAS

TRÊS

MELHORES

AMIGAS

FANTÁSTICA PARA SALVAR O MUNDO?

NUMA

TRÊS MELHORES AMIGAS FANTÁSTICA PARA SALVAR O MUNDO? NUMA 4 MISSÃO Tatuagem é uma divertida e

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MISSÃO

Tatuagem é uma divertida e fantástica história sobre amizade que mistura, com muito humor, mitologia celta e práticas de Wicca. Jennifer Lynn Barnes cria uma fantasia maravilhosa com base em um cenário totalmente realista que faz com que o leitor se apaixone pelas amigas Bailey, Zo, Annabelle e Delia.

Tatuagem é uma viagem emocionante que prende o leitor do início ao fim!”

Melissa De La Cruz

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6 — Roxo paixão, fúcsia frutado, rosa lúdico. — Delia Cameron sorriu ao chegar ao

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6 — Roxo paixão, fúcsia frutado, rosa lúdico. — Delia Cameron sorriu ao chegar ao esmalte

Roxo paixão, fúcsia frutado, rosa lúdico. Delia Cameron sorriu ao chegar ao esmalte rosado. De acordo com Delia, rosa era o novo rosa. Ela já havia tentado me explicar o mesmo sobre a cor laranja, mas moda não era meu forte, e eu tinha quase certeza de que não tinha entendido o que ela estava querendo dizer. Aos quinze anos, tive que encarar o fato de que, ao contrário da minha melhor amiga, Delia Cameron, deusa da moda, havia uma grande chance de que eu realmente não tivesse um forte.

Amarelo divino. Continuou Delia, pegando o próximo esmalte na prateleira e examinando como um detetive que procura por provas em um caso de suma importância.

Ao meu lado, Annabelle deu um sorriso retorcido, e o semissorriso suavizou seus atributos geralmente sérios.

Para quem estava de fora, Annabelle Porter era quase uma figura de outro mundo: quieta e tímida, séria demais para o próprio bem e esperta demais para o dos outros. Há algum tempo (no oitavo ano), eu também a via assim, mas agora três anos, duzentas e seis noites dormindo na casa uma da outra, treze noites embaraçosas no karaokê, que com certeza todas nós preferiríamos esquecer, e uma iniciação informal ao nosso grupinho seleto, eu conhecia Annabelle bem o suficiente para saber que aquele sorriso torto era uma espécie de comentário à manifestação de Delia sobre o esmalte.

Sorri para Annabelle, e ela reprimiu um sorriso ainda maior. Nós duas já tínhamos estado nessa situação muitas, muitas vezes.

Completamente desatenta (ou talvez ignorando propositalmente) à troca silenciosa entre nós duas, Delia pegou outro vidro de esmalte e ficou imediatamente hipnotizada por ele.

7 — Manga Sereia. — Sussurrou, no tom de reverência que a maioria das pessoas

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Manga Sereia. Sussurrou, no tom de reverência que a maioria das pessoas reservava para o nascimento do primeiro filho.

Manga Sereia? Perguntou a quarta integrante do nosso grupo, com a

voz baixa, seca e incrédula. Ela olhou para mim. Manga Sereia? Repetiu

secamente, lançando-me um olhar de tortura.

Acariciei o ombro dela em sinal de solidariedade. Pobre Zo. Fazer compras com Delia exigia certa paciência, e Zo Porter, prima de Annabelle e mais ou menos minha alma gêmea praticamente desde que nos conhecíamos, não tinha nenhuma.

É. Repetiu Delia, virando os olhos para Zo. Manga Sereia. Olha só o brilho e a composição. E perfeito.

Encontramos o esmalte perfeito. Disse Zo, a voz continuava completamente seca. Oba. De compleição pequena, quase como uma fada, cabelos louros e olhos azul-bebê, Zo não parecia moleca, mas não há dúvidas de que não fazia o estilo menininha, nem nunca tinha feito. Mesmo antes do dia em que, quando ela estava com cinco anos, sua mãe a deixou na minha casa para brincar e foi embora, sem nunca olhar para trás.

Delia, segurando firmemente o esmalte Manga Sereia na mão esquerda, colocou um chumaço de cabelo castanho atrás da orelha com a direita. Num jeito tipicamente Delia, ela não se abalava nem um pouco com as caretas de Zo para todas as coisas femininas.

E isso vem da menina que está usando o casaco do irmão. Disse Delia, lançando um olhar de desaprovação ao moletom cinza de Zo.

Eu não tenho irmão. Respondeu ela imediatamente.

Delia ergueu uma sobrancelha.

Ah! Disse com um ar de falsa surpresa. Foi mal.

Annabelle observou a troca de farpas entre a prima e Delia e inclinou a cabeça para o lado.

Você ouviu isso? Perguntou-me ela.

O quê? Perguntei. Demorei a ver sua piscadela.

8 — Isso — Disse ela, com a voz séria e suave de sempre. —

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Isso Disse ela, com a voz séria e suave de sempre. foi o som da civilidade saindo pela janela.

Eu, Zo e Delia éramos melhores amigas desde sempre. Elas gostavam de fingir que se toleravam apenas por minha causa, mas, na verdade, discutir era praticamente um esporte olímpico para aquelas duas, e não havia ninguém com quem Delia gostasse de discutir mais do que com Zo. Eu, por exemplo, não caía no teatrinho delas, e, apesar dos comentários sobre civilidade, Annabelle também não.

Praça de alimentação? Sugeri em voz alta, sabendo que havia duas

razões pelas quais Zo tolerava nossas idas de sexta-feira ao shopping. Primeiro porque o resto de nós gostava de lá, e, apesar da pose de durona, não havia nada, exceto implantes de silicone, que Zo não fizesse por nós. A segunda e mais forte razão para Zo tolerar os passeios ao shopping eram o cachorro-quente com chili e queijo triplo, o cheese-bacon e o milkshake de chocolate que ela pedia toda vez que

íamos à praça de alimentação.

Já era hora. Disse Zo, dando um show de resmungos. Mesmo assim, ela

pegou outro vidro de Manga Sereia e o entregou a Delia. Estou morrendo de

fome, Falou se explicando e é "pague um leve dois".

Sabiamente, eu, Annabelle e Delia não falamos nada sobre Zo ter comido antes de sairmos. Seu corpinho minúsculo e seu apetite insaciável eram tão misteriosos para mim quanto à compreensão natural de Delia sobre assuntos de moda e o fato de que Annabelle dizia mais com um único olhar do que eu conseguia expressar com uma frase inteira.

Com o cabelo esvoaçante, Delia saiu para comprar o esmalte Manga Sereia, e cinco minutos depois, nós quatro saíamos da loja para o pátio aberto do shopping.

Sabe o que mais gosto no shopping? Perguntou Delia, a voz animada.

As liquidações? Arrisquei.

 

O

cartão

de

crédito

do

seu

pai?

Sugeriu

Annabelle

com

outro

semissorriso Annabelle.

A tortura? Zo ainda não tinha desistido de bancar a mártir no

shopping.

9 — Não, não e não se engane. — Disse Delia, respondendo em ordem. —

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Não, não e não se engane. Disse Delia, respondendo em ordem. O

cheiro.

Cheirei o ar cuidadosamente enquanto Zo e Annabelle, pela primeira vez em concordância, compartilharam um olhar confuso.

Não estou sentindo cheiro de nada. Eu disse. Parei por um instante,

imaginando se sequer deveria insistir no assunto. É cheiro de quê? Rapidamente desviei de um estande de acessórios de néon para telefones celulares enquanto falava. Infelizmente, manobrei um pouco rápido demais e acabei atingindo o estande da frente. Por um breve instante, lutei para manter o

equilíbrio. Não consegui, e caí no chão com a delicadeza de um elefante.

Isso não foi bonito. Disse Zo antes de falar o que lhe veio à cabeça

como conselho útil. Primeiro levantar o pé, depois equilibrar o peso, Bay.

Eu não caí. Respondi, franzindo os olhos para ela. Dei de cara com

Possibilidades. Interrompeu Delia alegremente.

Hã? Ela me confundiu com esse comentário.

Sinto cheiro de possibilidades. Disse Delia, passando por cima de mim

para entrar na cabine. O shopping é cheio de possibilidades. Esses brincos, por

exemplo.

Zo resmungou em voz alta, lembrando-nos:

Fome.

Delia espantou a reclamação em um breve gesto da mão direita.

Sem querer que o showzinho semanal que elas costumavam dar no shopping sobrasse pra mim, comecei a me levantar, e, ao fazê-lo, senti uma mão no meu braço, me ajudando a levantar.

Obrigada. Agradeci, sacudindo a sujeira e me virando. Eu

Assim que vi os olhos dele, minha boca parou de funcionar, o que foi uma coisa boa, pois meu cérebro tinha desligado um microssegundo antes.

Kane Lawson, gatíssimo. Rei dos gatos. Deus dos gatos.

10 — Obrigada. — Eu disse, me forçando a formar uma palavra decifrável enquanto minha

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Obrigada. Eu disse, me forçando a formar uma palavra decifrável

enquanto minha mente congelava ao processar o excesso de charme. Emergência,

emergência, pensei. Preciso formar uma frase coerente.

O que vocês estão fazendo aqui, meninos? Perguntou Delia, que nunca

ficava sem palavras, principalmente em companhia de membros do sexo oposto.

Meninos no plural? Ponderei sobre suas palavras e olhei além de Kane para ver dois de seus amigos. Era como uma overdose de gatos.

Só de bobeira. Disse Kane, a mão dele ainda na minha. Tudo bem com você?

Não, eu queria responder. Leve-me para a UTI, na ala de constrangimento

fatal.

Eu estou

Procurei a palavra certa, mas meu cérebro não estava

ajudando.

Bem? Instigou Zo.

Isso. Eu disse, fracamente. Para garantir, fiz que sim com a cabeça vigorosamente, como se isso fosse me fazer parecer menos idiota.

Ao contrário de Delia, que tinha uma paixão nova a cada semana, eu só tivera duas na vida. A primeira tinha sido um amor profundo e incondicional pelo menino de cabelo castanho encaracolado do jardim de infância. A segunda foi Kane.

Você é a Hayley, certo? Perguntou Kane, preenchendo o silêncio. Acho que você é da minha turma de geometria.

Bailey. Corrigi, meu nome ficando preso na garganta. E é história

geral.

Ele fez que sim com a cabeça e sorriu. Ah, o sorriso.

Delia começou a conversar com o menino à esquerda enquanto o que estava à direita de Kane movia os olhos para cima e para baixo, olhando primeiro o corpo de Annabelle, depois passando para Zo. Aparentemente, mesmo com o moletom cinza, ela era mais atraente que eu. Acontece o tempo todo.

11 — Ei, rapaz. — Disse Zo, com a voz casual, porém implacável. — Olhos

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Ei, rapaz. Disse Zo, com a voz casual, porém implacável. Olhos no

rosto.

Annabelle reprimiu uma risada, e resmunguei internamente. Zo não tinha o menor tato e menos ainda controle de impulsos, e, apesar de não ter mais de um metro e meio de altura, o olhar que lançava ao menino à minha direita me convenceu de que, se ele não conseguisse afastar os olhos da figura perfeita escondida sob aquele moletom, ia sofrer muito em cerca de trinta segundos.

Bailey. Disse Kane novamente, repetindo meu nome e tirando minha

atenção de Zo. Olhei para ele e, por um instante, nos encaramos. Finalmente, ele

acenou com a cabeça e sorriu. Te vejo por aí.

Retribuí o aceno, embasbacada, com um sorriso estampado no rosto. Kane Lawson ia me ver por aí.

Os meninos saíram, e, assim que estavam fora de alcance auditivo, Delia perguntou com a voz esganiçada:

O que ele disse?

Te vejo por aí. Respondi. Ele finalmente tinha me dito mais de cem

palavras. Havia levado mais de cinco anos para chegar lá, mas eu finalmente estava

na casa dos três dígitos.

Delia considerou minhas palavras.

Foi "eu te vejo por aí" ou "te vejo por aí"? Perguntou com seriedade.

Isso importa? Perguntei.

Delia fez que sim com a cabeça.

Em se tratando de meninos, Disse ela. tudo importa.

Tudo importa. Repetiu uma voz musical. Eu me virei de costas e me vi encarando olhos tão azuis que olhar para eles chegava a doer. Posso ajudá-las em alguma coisa? Perguntou a mulher, apontando para a cabine.

Zo olhou para Delia e depois para a vendedora.

Não dê corda. Disse Zo, secamente.

12 Encarei a mulher, sem conseguir desviar meus olhos dos dela, todos os pensamentos sobre

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Encarei a mulher, sem conseguir desviar meus olhos dos dela, todos os pensamentos sobre Kane saindo da minha mente enquanto os encarava.

Preciso de alguma coisa ousada que tenha um look retrochic de festa de gala. Disse Delia.

Zo reprimiu um sorriso e deu de ombros para a vendedora.

Eu disse para não dar corda.

A mulher pensou um pouco e sussurrou calmamente enquanto abria uma

gaveta no topo do estande.

Experimente isto. Sugeriu, entregando a Delia uma gargantilha preta metálica, com um pequeno laço no meio. É retrô e ousado.

Ela voltou à atenção para Zo.

E para você

Disse ela.

Zo levantou a mão em sinal de protesto.

Ah, não. Recusou ela. Não estou interessada. Não uso acessórios.

A mulher a ignorou e entregou um cristal pequeno, roxo-escuro em um

cordão de ouro quase invisível. Ele balançou de um lado para outro na frente do rosto de Zo e, apesar de não ligar para acessórios, ela estava fascinada.

Observando o cristal, senti minha mente vagar e praticamente podia ouvir a mulher me dizendo "você está ficando com sono, com muuuuuuito sono". Sacudi a cabeça para clarear as ideias.

Continuou a vendedora, voltando-se para Annabelle

enquanto colocava o cristal na mão calejada de Zo. Não vai discutir comigo como

ela? Perguntou, apontando com a cabeça para Zo.

E para você

Zo e eu somos muito diferentes. Disse firmemente Annabelle, rainha dos eufemismos.

Zo resmungou para si mesma. Era a única pessoa que conseguia irritar A- Belle. Por serem primas em primeiro grau e filhas únicas, sempre achei que fosse uma espécie de rivalidade entre irmãs.

13 — Para você, alguma coisa clássica. — Disse a mulher a Annabelle. — Moderada.

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Para você, alguma coisa clássica. Disse a mulher a Annabelle.

Moderada.

Prática. Disse Annabelle, e Zo resmungou novamente. Annabelle era

uma daquelas pessoas que nasceram práticas. É claro que o fato de ter crescido viajando pelo mundo com uma mãe linguista e um pai antropólogo, cercada

somente por adultos, também pode ter tido alguma influência.

A mulher examinou o pedido de Annabelle.

 

Às vezes. Sussurrou ela. Às vezes prática. Certamente observadora

e

sincera.

Por que eu me sentia como se tivesse ligado para um daqueles telemédiuns?

0-800-VENDEDORAESTRANHA.

Os olhos azuis da mulher se voltaram para mim enquanto passava os dedos pelas pontas de diversos prendedores prateados. Olhei para o rosto dela, e meus dentes doeram com o brilho azul daqueles olhos.

Isso. Disse ela, fechando as mãos em torno de um prendedor de cabelo

redondo prateado-escuro e voltando a atenção novamente para Annabelle. Isso

é para você.

Olhei para minha amiga. Bem ao seu estilo, Annabelle não disse nada. Em vez disso, virou o prendedor para olhar o preço, e depois de um instante, fez que sim com a cabeça.

Tudo bem. Limitou-se a dizer. Sua boca se curvou formando um leve sorriso. Gostei.

Mordi o lábio inferior e esperei. A mulher não disse nada.

E a Bailey? perguntou Delia, ainda admirando o colar. Alguns

acessórios não fariam mal a ela. Pode acreditar. Delia não disse para me atacar, e, como vinha falando a mesma coisa desde que tínhamos quatro anos, não me ofendi com o comentário. No mundo de Delia Cameron, a deusa das compras, todo

mundo precisava de conselhos de moda, exceto é claro, Delia.

Disse a mulher. Por um segundo, não ouvi nada além

daquela voz melódica. O resto dos ruídos do shopping desapareceu, e as cores em

Para você

14 frente aos meus olhos se misturaram ao fundo de tal forma que eu não

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frente aos meus olhos se misturaram ao fundo de tal forma que eu não enxergava nada além da mulher. Não sou eu quem pode escolher para você.

As palavras dela ecoaram na minha cabeça.

Você mesma deve escolher.

Não havia como argumentar contra essa ordem. Quando pensei a respeito, era meio patético o fato de que eu nem sequer conseguia discutir com a moça do quiosque. Mais um ponto para Bailey Morgan, a idiota da escola.

Com grande esforço, desviei a atenção dos olhos dela e dos meus próprios pensamentos e olhei para a cabine. Bijuterias de todas as espécies estavam penduradas por todos os lados. Cuidadosamente, deixei meu dedo passar por cima de um relógio que parecia um rio visto a partir de um avião, esculpida em madeira.

A mulher me observou cautelosamente, mas balancei a cabeça. Ao retirar a mão do relógio, minha camisa prendeu em uma pequena gaveta, abrindo-a. Com o susto, recuei inconsciente de que minha manga estava presa à gaveta. O conteúdo caiu todo no chão, batendo com estrondo suficiente para que todos em um raio de quinze metros virassem para mim exatamente ao mesmo tempo.

Talvez ser estabanada fosse meu forte.

Mil desculpas. Eu disse. Mesmo aos meus ouvidos, minha voz soou aguda. Não funciono bem sob pressão.

Eu me abaixei para pegar os anéis e pedras que tinham caído da gaveta, e alguma coisa chamou minha atenção. Um pedaço de papel? De algum jeito não combinava com o resto das bijuterias. Peguei-o e descobri que estava coberto com um plástico protetor. Virei-o, e, ao fazê-lo, as palavras piscaram diante dos meus olhos, preenchendo a frente da página.

"Tatuagens temporárias." Li em voz alta.

Ah, legal. Disse Delia. Você total devia fazer, Bay.

Toquei o plástico sobre as tatuagens com o dedo. Eram quatro, todas com um lindo tom de azul-esverdeado.

Azul Sídhe. Verde sangue.

15 As palavras ecoaram na minha cabeça enquanto passava os dedos pelas linhas de uma

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As palavras ecoaram na minha cabeça enquanto passava os dedos pelas linhas de uma das tatuagens. Elas não pareciam constituir nenhuma forma reconhecível, retorcidas e entrelaçando-se umas às outras em formas estranhas que ficavam marcadas em brasa na minha mente.

Eu preferia fazer uma de verdade. Disse Zo. Ela falava em fazer uma tatuagem desde os nove anos.

Sério, Zo? Perguntou Annabelle em uma daquelas frases de duas

palavras que na verdade continha um discurso de cinco minutos sobre como o pai

de Zo enlouqueceria.

Zo deu de ombros.

Pode ser que valha a pena. Respondeu ela, lançando um sorriso endiabrado na minha direção.

Ou Retruquei olhando para as tatuagens pode ser que não.

Bem, você vai fazer ou não? Perguntou Delia impacientemente.

Refletir sobre o que se compra é bom, mas ficar indecisa? Uma fraqueza e tanto,

Bailey.

Acenei com a cabeça, tentando digerir o fato de que Delia tinha acabado de me acusar de ser má compradora.

Muito bem. Eu disse. Vou levar.

Os olhos azuis da vendedora ao mesmo tempo encaravam e penetravam os meus, afiados e inquisidores.

Tem certeza?

Delia tirou as tatuagens da minha mão e as colocou no balcão, decidindo por

mim.

Uma por uma, pagamos nossas compras, e, ao terminarmos, Delia já estava praticamente dançando de euforia por isso.

Que sorte foi essa? Quer dizer, acessórios podem fazer ou destruir uma

Ela parou de falar. E você vai dividir as

roupa, e encontrarmos tantos

tatuagens, não vai, Bailey? Indagou, meio perguntando, meio comandando.

16 Olhei para a bolsa prateada em que estava minha única aquisição do dia. —

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Olhei para a bolsa prateada em que estava minha única aquisição do dia.

Vou. Concordei. É claro.

É o máximo. Disse Delia. Vai ser o máximo. A redondinha é minha, está escolhido.

São da Bailey. Lembrou Zo imediatamente. Ela cuidava de mim há tanto tempo que já era automático. Ela não deveria selecionar primeiro? Zo fez sinal de aspas ao falar "selecionar". Claramente, não era algo normal no vocabulário dela.

Delia franziu os olhos para Zo, e eu podia sentir outro comentário sarcástico vindo da direção de Annabelle, mas um segundo depois Delia deu de ombros.

Claro. Disse ela, passando o braço em volta do meu ombro. O que você quiser, Bay.

Eu olhei para Zo e reprimi um sorriso.

Comida eu disse, falando por nós duas. Quero comida.

E, com isso, fomos para a praça de alimentação enquanto Delia começava um discurso extenso sobre nossas opções de roupas para a festa da escola que se aproximava. Zo caminhava ao meu lado, com as mãos nos bolsos, e Annabelle seguia um passo atrás.

Só mais uma tarde de sexta-feira no shopping.

Nós nem imaginávamos.

17 — Sim, sim, não e você perdeu a noção? — Delia julgou nossas roupas

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17 — Sim, sim, não e você perdeu a noção? — Delia julgou nossas roupas uma

Sim, sim, não e você perdeu a noção? Delia julgou nossas roupas uma a

uma ao sairmos dos provadores e posarmos em frente ao espelho triplo. Eu e ela tínhamos recebido os "sim" e Annabelle o "não". Zo olhou para a calça esportiva e a camiseta que havia achado na seção que simulava uma academia da Escape, a loja

favorita da Delia, e nossa localização atual.

Qual o problema? Perguntou Zo defensivamente. Annabelle olhou para sua própria saia longa com o rosto franzido.

Estamos falando de uma festa, Zo, não de uma aula de dança.

Como se Zo já tivesse entrado em um estúdio de dança alguma vez na vida.

Com uma expressão pensativa no rosto, Delia se afastou e voltou alguns minutos mais tarde com um vestidinho preto. Ela o entregou a Zo e apontou para o provador.

Zo desdenhou.

Queridinha, você só pode estar louca. Vindo de Zo, "queridinha" era um termo carinhoso. Mais ou menos.

Delia continuava apontando. Ao meu lado, Annabelle estava se esforçando para não rir. Durante o resto da semana, ninguém dizia a Zo o que fazer, mas o shopping era jurisdição da Delia, não da Zo, e com um olhar furioso que era mais encenação do que qualquer outra coisa, ela voltou para o provador.

Annabelle esperou pacientemente, preparando-se para o Furacão Delia, o tornado da moda.

Você precisa mostrar um pouco mais de pele. Disse Delia. Ela olhou o modelito de cima a baixo. As cores não são ruins, e caiu bem, mas

Não. Annabelle simplesmente balançou a cabeça. Eu gostei.

18 — Ah. — Delia parou. Com Zo ela podia discutir, mas, nas raras ocasiões

18

Ah. Delia parou. Com Zo ela podia discutir, mas, nas raras ocasiões em

que Annabelle expressava suas opiniões verbalmente, nada nem ninguém poderia

fazê-la mudar de ideia.

Você disse que as cores eram boas e que caiu bem. Lembrei a Delia em

tom de consolo. Depois olhei para Annabelle. E não se sinta mal porque sua roupa não foi aprovada pela Delia. Disse a ela. A minha só passou no teste

porque ela mesma escolheu para mim.

Isso é verdade. Disse Delia com um sorriso, recuperando-se da pequena derrota. Zo, por que você está demorando tanto?

Você sabe quantas alças têm nesse negócio? Zo parecia tão incrédula e intrigada que ao ouvir sua voz por cima do provador, dei uma risadinha.

Enquanto estamos esperando

Delia entrou na minha cabine aberta

depois com um

largo

sorriso

no rosto.

do provador

Tatuagens!

e saiu

um segundo

Ela

balançou

a

folha

na

nossa

frente,

seus

olhos

brilharam

com

a

movimentação.

Achei que você quisesse guardá-las para a festa. Eu disse.

Delia examinou a parte de trás do pacote.

Não tem instruções. Só diz três dias. Sexta para sábado, sábado para domingo, domingo para segunda. Perfeito.

As palavras dela ecoaram na minha cabeça.

Três dias.

Perfeito.

Apesar de o fato de nossa escola fazer a maior festa do ano em uma

segunda à noite, Continuou ela. ser completamente errado. Perverso, na

verdade.

Você quer ver uma coisa perversa? Perguntou Zo de dentro do

provador, onde eu só podia concluir que ela estava se recuperando de uma luta

perdida contra as alças. Se olhe no espelho.

19 — Você já está com o vestido, não está? — Perguntou Delia com um

19

Você já está com o vestido, não está? Perguntou Delia com um sorriso

enorme.

Silêncio.

Acho que estááááá. Eu disse, prolongando a palavra.

Vamos, Zo. Encorajou Annabelle, entendendo meu tom de provocação

e se apropriando dele. Mostre pra gente. Ela parou e deu uma piscadela para nós. Aposto que está lindo.

Annabelle sabia exatamente como provocá-la.

Fique quieta, A-Belle. Rosnou Zo.

Annabelle deu de ombros e fechou a boca, com um sorriso maldoso, quase de irmã mais nova, no rosto.

Enquanto

esperamos,

Disse

Delia,

enfatizando

apalavra

"esperamos."quer fazer as honras, Bay? Ela me entregou as tatuagens.

Por um instante, olhei para elas em uma espécie de transe, sentindo meu sangue pulsar pelas veias e ouvindo-o fluir em minhas orelhas.

Bailey? perguntou Annabelle, tocando meu ombro gentilmente. Você está bem?

Tudo bem. Forcei-me a recuperar o foco e peguei as tatuagens da mão

de Delia para "fazer as honras" e abri-las. Assim que minhas mãos encostaram no

embrulho, um calafrio correu a partir da minha nuca por toda minha espinha. Encarei as quatro tatuagens e passei o dedo por cima do plástico. Puxei a capa cuidadosamente, mas nada aconteceu. Segurei com mais força e tentei novamente. Assim que senti o pacote ceder à pressão, fechei os olhos.

Lutar, viver;

Nós, dois de três, concedemos esse presente

Bailey? Planeta Terra chamando?

Isso Resmunguei. foi bizarro.

20 — O quê? — Perguntaram minhas três amigas ao mesmo tempo, a voz de

20

O quê? Perguntaram minhas três amigas ao mesmo tempo, a voz de Zo abafada por trás da cabine do provador.

Vozes. Respondi. Na minha cabeça. Estavam falando alguma coisa

sobre conceder um presente

completamente louca e concluí que não era a melhor ideia do mundo sair por aí falando em vozes na minha mente, principalmente em lugares públicos.

Nessa hora percebi que eu estava parecendo

Brincadeirinha. Amenizei. Quem são vocês, as trigêmeas ingênuas?

Annabelle olhou para mim, com o rosto completamente vago e com os olhos analíticos. Após uma longa pausa, ela pôs a mão na bolsa e pegou uma tesoura.

Quando os escoteiros criaram o lema "sempre alerta", eles não conheciam Annabelle. Ela dava um novo significado à expressão.

Delia retirou delicadamente as tatuagens da minha mão e pegou a tesoura de Annabelle. Com um único golpe, tinha uma tatuagem em mãos.

Parece um pouco uma borboleta

ou meia borboleta. Disse Delia.

Exceto por essa linha aqui. Ela passou o dedo no centro do símbolo.

Annabelle pegou as tatuagens e tocou na ponta de uma delas. Onde as de Delia eram dois círculos com uma leve interseção divididos por uma única linha curva, a tatuagem para a qual Annabelle estava apontando era mais fina e comprida, como duas luas crescentes se cruzando. Ou, eu notei, como dois olhos estranhíssimos me encarando.

Pode pegar. Eu disse, dando de ombros, respondendo à pergunta em seu olhar. É sua.

Annabelle pegou a tesoura de Delia e rapidamente cortou a tatuagem. Simulando um gesto solene, ela me entregou o resto da folha.

Olhei para as duas tatuagens que sobraram. Uma era perfeitamente circular, com linhas entrelaçadas se destacando no centro, como um sol desenhado por uma criança "criativa" de quatro anos. A outra era quase indescritível, uma mistura de linhas, pontos e triângulos sobrepostos. Dava tonteira só de olhar.

Você tem alguma preferência, Bay? Perguntou Zo, finalmente saindo

do provador para participar da escolha da tatuagem. Fiquei de queixo caído. O

21 vestidinho preto era incrível, e a maneira como modelava seu corpo atlético era meio

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vestidinho preto era incrível, e a maneira como modelava seu corpo atlético era meio provocante, mas de um jeito fofinho. Quieta. Advertiu Zo com um semissorriso. Se eu fosse outra pessoa, ela simplesmente teria me encarado até tirar aquele olhar embasbacado do meu rosto, mas em vez disso ela apenas o afastou gentilmente. Se Zo tinha um ponto fraco, era eu. Escolha uma, Bay.

Tentei não olhar novamente para as duas tatuagens que estavam sobrando, mas eu não conseguia desgrudar os olhos do sol.

Eu Disse Delia, analisando o vestido de Zo. sou um gênio.

Você gosta dessa do sol. Zo interpretou meu gesto e ignorou Delia completamente.

Se importa se eu ficar com ela? Perguntei.

Se eu me importo? Repetiu ela. Claro que não. Por acaso pareço o tipo de garota que escolheria um solzinho?

Com o contraste do vestido preto e o cabelo brilhante, Zo parecia bem radiante. Aliás, à exceção da expressão oblíqua em seu rosto, ela parecia à senhorita Sol Radiante, mas eu não ia dizer isso a ela.

Não. Respondi enquanto cortava as últimas tatuagens, separando-as. Você não parece alguém que escolheria um solzinho.

Amém. Acrescentou Delia. Agora vamos fazer as tatuagens. Vou

colocar a minha na barriga. Com um pedacinho aparecendo, vai ser o máximo. Só um gostinho do fruto proibido. Ela se olhou no espelho triplo admirando a blusa

que deixava a barriga exposta escolhida para usar na festa.

A minha não vai ser na barriga de jeito nenhum. Disse Zo.

Annabelle cruzou os braços de forma protetora em torno da cintura, e Delia suspirou, como uma mártir da moda.

Acho que vou colocar a minha na nuca. Disse Annabelle, puxando o

cabelo castanho claro por cima do ombro. Assim sei que ela está lá, mas

ninguém mais precisa saber.

E vocês? Bay? Zo? Delia olhou de Zo para mim.

22 Zo parecia comicamente horrorizada com a feminilidade da situação, e eu fiquei só olhando

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Zo parecia comicamente horrorizada com a feminilidade da situação, e eu fiquei só olhando para Delia, completamente perdida. Eu não fazia ideia de onde ia colocar minha tatuagem, ou, já que estamos no assunto, como arranjaria um cara (ou O cara) para ir comigo à festa na segunda-feira. Por que ser uma garota era tão fácil para algumas pessoas (cof, Delia, cof, cof), e eu era completamente perdida?

Na região lombar. Decidiu Delia após um longo instante, como um

artista finalmente tocado por sua musa inspiradora. Com esse modelito de duas peças, que, por sinal, foi outro momento genial de minha parte, vai ficar perfeito.

Não tão óbvio quanto à barriga, mas ainda sexy. Misterioso, até.

Assim é a nossa Bailey. Brincou Zo. Um grande mistério.

Eu a belisquei na barriga.

Gostei do vestido. Disse a ela. Muito radiante. Ela mal percebeu.

"Então, onde vai colocar a sua?" Perguntei, cruzando os braços sobre o

peito.

Zo não hesitou nem por um segundo e, apesar de eu conhecê-la bem o suficiente para saber que ela não tinha decidido até o momento em que perguntei, respondeu com toda a certeza do mundo:

Vou colocar a minha no pé.

No pé. Repetiu Delia com desdém.

Zo fez que sim com a cabeça.

No pé? Perguntou Annabelle, com um sorriso se formando no canto dos lábios.

Zo fez que sim com a cabeça outra vez.

É. Disse ela. No peito do pé.

Delia passou dois segundos revirando os olhos e depois voltou à atenção para a própria barriguinha no espelho de três faces.

O que as instruções dizem a respeito da aplicação? perguntou, segurando a tatuagem próxima ao umbigo. Acho que essas coisas geralmente

23 precisam de água ou algo do tipo. — No momento em que as palavras

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precisam de água ou algo do tipo. No momento em que as palavras saíram de sua boca, a mão de Delia pressionou rapidamente contra sua barriga, e a tatuagem, como se estivesse sendo sugada por um aspirador de pó, transportou-se rapidamente para o umbigo.

Delia olhou para baixo dando de ombros.

Acho que descobri como funciona. Disse ela. Não respondi. Em vez

disso, olhei fixamente a barriga de Delia, para a quase meia borboleta verde. Por uma fração de segundo as linhas rodopiaram sozinhas, a cor azul-esverdeada

escurecendo até se tornar quase preta.

Sangue de Sídhe.

As palavras ecoaram na minha cabeça. No instante seguinte já tinham desaparecido, e Delia estava tirando a mão da barriga, revelando uma tatuagem brilhante, quase negra.

Perfeito. Disse Delia, satisfeita. Então percebeu que eu a olhava. Alguma coisa errada, Bay?

Enquanto encarava a barriga dela, vi o preto da tatuagem brilhar em uma explosão de cores e, no instante seguinte, a cor voltou ao azul-esverdeado que tinha no pacote. A luz diminuiu, e ouvi Delia chamando meu nome.

Desviei os olhos da tatuagem e olhei para Annabelle e Zo. Nenhuma das duas tinha visto nada.

Sua vez, Bailey. Declarou Delia. Você queria nas costas, não é?

Abri a boca para responder, mas não saiu nenhuma palavra, e enquanto eu estava lá, tentando lembrar o que a voz sussurrante havia dito na minha cabeça, Delia interpretou o silêncio como permissão para pegar a tatuagem da minha mão, levantar a blusa que ela havia escolhido para mim e colocá-la nas minhas costas.

No instante em que tocou a minha pele, a sala explodiu em cor. Azul, verde, preto, fúcsia e o amarelo mais brilhante que eu já tinha visto. As cores giravam e pulsavam e senti uma pedra de gelo percorrer a minha espinha, seguida de uma incrível explosão de calor na região lombar. Vozes inundaram o ar, e o mundo ao

24 redor ficou em câmera lenta, uma confusão de cores cujas formas eu não conseguia

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redor ficou em câmera lenta, uma confusão de cores cujas formas eu não conseguia definir.

Lutar, viver

As palavras se repetiram infinitamente na minha cabeça, pronunciadas por duas vozes consonantes. A primeira era profunda, e meu corpo doía com seu som. A segunda, mais suave e feminina, aliviava a dor, mas fazia com que o mundo a minha volta girasse enquanto as vozes se desvaneciam numa espécie de cântico. Eu o ouvi atrás de mim e ao meu redor. Dentro de mim. Frescas e reconfortantes, profundas e escuras, as vozes pressionavam minha mente.

Lutar, viver

Nós, dois de três, concedemos este presente;

Ver, sentir

Repousar sobre um Selo antigo

Saber, alimentar

Mudar, l’Sídhe;

Da terra ela vem

Do ar respira

Da água, sua prisão sob os mares

Queime o fogo

Sangre o desejo

Como nós, também um grão de poeira irá.

As cores ao meu redor misturavam-se umas nas outras e, com uma explosão de luz, elas e as vozes se foram. O silêncio pesava no ar e, sem qualquer aviso, o mundo inteiro ficou preto, e então não havia mais nada.

25 — Seu cabelo é como o luar. Olhei fixamente nos olhos de Kane, azuis

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25 — Seu cabelo é como o luar. Olhei fixamente nos olhos de Kane, azuis contornados

Seu cabelo é como o luar.

Olhei fixamente nos olhos de Kane, azuis contornados por uma moldura de cílios escuros.

Meu corpo todo estremeceu quando olhei para ele, mal conseguindo acreditar que aquilo estava acontecendo, que era verdade. Eu era Bailey Morgan, parte do elenco de apoio da escola, e ele estava me olhando do jeito que os meninos normais olhavam para Delia.

Ele

quadris.

colocou

os

braços

gentilmente

na

minha

cintura,

envolvendo

meus

Luar? Murmurei suavemente. Ninguém jamais havia comparado o meu

cabelo ao luar. Ninguém jamais havia comparado meu cabelo a nada, exceto um garoto chamado Randy Vinelli que me disse, quando tínhamos quatro anos, que

parecia um esquilo morto.

Luar. Repetiu Kane, e delicadamente tirou o cabelo do meu rosto.

Nós balançamos para frente e para trás, os braços dele na minha cintura, e os meus nos ombros dele, olhando nos olhos um do outro, sem dizer nada.

Há tanto tempo quero isso. Sussurrei contra o peito dele. Cinco anos, para ser exata.

Eu sei. A voz de Kane transformou-se em um sotaque cantarolado que não reconheci e quando levantei os olhos, ele não estava mais lá.

Ele havia me dito que meu cabelo era como o luar, e agora não estava mais lá. Mordendo o lábio inferior, desci o olhar para o cabelo no meu ombro. Ele brilhava sob a luz da pista de dança, todos os fios do meu cabelo castanho-louro, que não é nem louro nem castanho, substituídos por um prateado profundo e brilhante.

26 — Ela está bem? Talvez alguma de vocês devesse jogar um pouco d'água nela.

26

Ela está bem? Talvez alguma de vocês devesse jogar um pouco d'água

nela.

Bailey? Você está me ouvindo, Bay? A voz de Zo entrou na minha mente, e a visão do cabelo prateado começou a se desintegrar.

Tente beliscar.

Eu não acho que

Começou Annabelle, mas a outra voz a interrompeu:

É só dar uns tapinhas de leve nas bochechas dela e

Ei! Para trás, Barbie.

Abri os olhos para ver Zo encarando uma vendedora peituda da Escape.

Você está bem, Bay? Perguntou-me Delia, as palavras saindo de sua

boca em velocidade descomunal. Você estava bem, e aí, um segundo depois, bum, seus olhos ficam estranhos, e daí você vai parar no chão, e não estava

acordando, então fomos buscar ajuda e

E depois Interrompeu Zo, com seu jeito de leoa protegendo a prole.

a Barbie ali queria te bater pra ver se te acordava. Ela gesticulou com a cabeça na direção da vendedora, que de repente se viu dominada pela necessidade de

rearrumar as bijuterias da promoção "compre um leve dois".

Sua roupa está bem? Perguntou Delia assim que a vendedora saiu do alcance auditivo.

Você está bem? Corrigiu Annabelle imediatamente.

Eu já perguntei isso. Respondeu Delia prontamente. E dá para

perceber que ela já está bem. Delia descartou a pergunta com um aceno de mão.

Sua saia não está amarrotada ou rasgada, ou algo assim, está?

Olhei para baixo. Por uma fração de segundo, me vi como estava ao dançar com Kane: cabelo iluminado pelo luar, pele perolada.

Ela vem.

Estas palavras vieram espontaneamente à minha cabeça e ecoaram como uma música sem melodia na função "repetir".

Ela vem. Ela vem. Lutar, viver, ela vem.

Ela vem. Ela vem. Lutar, viver, ela vem. 27 — Qual é, Bailey. — Disse Zo,

27

Qual é, Bailey. Disse Zo, interrompendo o refrão incessante na minha cabeça. Você desmaiou com a dor de uma tatuagem falsa. Como assim?

Assim que a palavra "tatuagem" saiu de sua boca, me levantei e minha mão voou para minha região lombar.

posicionada, por sinal.

Está

ótima.

Disse

Delia,

cruzando

os

braços.

Perfeitamente

Fiquei de pé, lutando para ver a tatuagem no espelho de três faces. Lá estava, no meio das minhas costas e como um sol nascendo da calça.

Sacudi a cabeça para livrá-la de metáforas estranhas.

Você não gosta? Perguntou Delia, desapontada.

Abri a boca e depois fechei de novo. O que eu deveria dizer? Que a tatuagem tinha feito vozes falarem comigo na minha mente e as cores do vento embaçarem?

Em vez disso, olhei para Zo e Annabelle.

É melhor não colocarem as de vocês. Adverti. Acho que elas podem Parei, procurando pela palavra certa. Acho que podem estar com

estar

defeito ou coisa parecida.

Tarde demais. Olha só que coisinha feminina. Zo esticou o pé.

Sem dizer uma palavra, olhei para Annabelle. Sabendo o que eu estava pensando, ela tirou o cabelo da frente e vi os crescentes em interseção, colocados em sua nuca, um azul-esverdeado brilhante em contraste com sua pele clara.

Quando fizeram isso? Perguntei, a boca seca.

Na mesma hora que você. Respondeu Zo, me olhando de um jeito

estranho.

Você

Parei e olhei para o nada. Aconteceu alguma coisa estranha

quando você colocou a tatuagem?

28 — Aconteceu. — Disse Zo, e eu praticamente suspirei aliviada. — Percebi que estava

28

Aconteceu. Disse Zo, e eu praticamente suspirei aliviada. Percebi

que estava deixando Delia me indicar acessórios e tive o impulso de arrancar meu

pé. Continuou.

Como se mesmo todos os acessórios do mundo pudessem te transformar

em uma garota. Rebateu Delia, mas havia um tom de brincadeira na voz dela.

Elas já tinham tido essa "discussão" mais ou menos um milhão de vezes.

Então não aconteceu nada estranho? Perguntei.

Tipo o quê? Perguntou Annabelle, examinando minha expressão cuidadosamente.

Não sei. Disse, completamente consciente de que eu era a pior

mentirosa do mundo. Você não ouviu nenhuma voz, não viu ou sentiu algo

estranho?

Todas as três me olharam confusas.

Então tá. Falei, desviando o olhar. Talvez eu estivesse enlouquecendo

mesmo. Como elas ainda estavam me encarando, fiz o que pude para mudar levemente de assunto. Acho que estou um pouco tonta, só isso. Disfarcei.

Acho que preciso comer alguma coisa. Sorvete?

A gente acabou de comer Lembrou Delia, ao mesmo tempo em que Zo se manifestava com um largo sorriso no rosto.

Achei que você nunca fosse pedir. Disse ela.

Delia olhou para a prateleira da liquidação e Annabelle olhou para mim, seus olhos investigativos, antes de olhar para baixo, para os próprios pés.

Talvez devêssemos mesmo. Sugeriu, levantando os olhos para

encontrar os de Delia. Dar comida a Bailey, quer dizer. Ela desviou o olhar para mim. Annabelle tinha um jeito de observar as pessoas que era sutil se você não procurasse, mas eu a conhecia bem o suficiente para saber que havia entrado em seu modo observador: agora, ela tinha certeza de que alguma coisa estava

acontecendo. Só ainda não descobrira o quê.

Ela vem. Ela vem. Lutar, viver, ela vem.

29 Eu ouvia e não ouvia as palavras. Elas estavam ali na minha cabeça, sussurradas

29

Eu ouvia e não ouvia as palavras. Elas estavam ali na minha cabeça, sussurradas no fundo da minha mente, repetidamente, mas, de algum jeito, eu não conseguia assimilar o que diziam.

Vamos. Disse Zo, levantando-se com um sorriso. Agora que o sorvete

tinha entrado em cena, ela estava com pressa. Se eu não sair desse vestido de

uma vez por todas, vou acabar agredindo alguém.

Delia franziu os olhos para Zo.

Eu já disse alguma vez que você não é nada visionária? Perguntou a Zo. Porque você não é.

Troque logo de roupa, Ordenou Zo. pra que a próxima diva vestindo

uma mini sei lá o quê de veludo verde-limão que passar possa usar sua cabine pra

experimentar uma supercalça tamanho trinta e quatro.

Uma minissaia de veludo verde-limão? Reclamou Delia ao voltar para a cabine do provador. Isso seria um horror.

Annabelle reprimiu um sorriso ao ouvir o tom dramático de Delia, mas manteve seus olhos castanhos nos meus, perscrutando.

Pronta para uma fuga, voltei à minha cabine, a cabeça ainda apitando com as palavras que eu não conseguia entender e a imagem de Kane com as mãos nos meus quadris ainda frescas na mente.

Finalmente. Disse Zo, cinco minutos depois quando o resto de nós acabou de pagar. Vamos

Você tem essa aqui no tamanho trinta e quatro? Essa trinta e seis é muuuuuito grande.

A voz aguda, que chamava muita atenção, atravessou a sala, e nós quatro viramos ao mesmo tempo para olhar aquela ruiva conhecida que estava ali. Alexandra Atkins era magra como uma modelo de roupas de praia, tinha um busto exuberante e um jeito bem específico de combinar. Estava usando uma minissaia verde-limão de veludo que qualquer uma de nós poderia usar como bandana.

Estranho, pensei. Delia tinha razão. Aquela saia era um horror.

30 Alex continuou lamentando o fato de não terem aquela calça irada em um tamanho

30

Alex continuou lamentando o fato de não terem aquela calça irada em um tamanho "que não fosse uma aberração", e o resto de nós tentava evitar que os olhos rolassem para fora das órbitas.

Quer dizer, alô-ô, por que uma pessoa que veste quarenta ia querer essas calças? Reclamou Alexandra.

Ei! Pensei. Eu era tamanho quarenta.

Tem certeza de que trinta e seis é o menor tamanho que você tem? Resmungou Alexandra.

Seguinte. Disse Zo, dando um passo para a frente, seu controle de

impulso (ou a falta dele) tomando conta dela enquanto ela quase pulava para

resgatar a vendedora. Vá comer alguma coisa. Dirigiu a Alexandra em voz alta. Qualquer coisa.

Como? Perguntou Alex, a voz fria enquanto ela se virava, ofendida por

termos interrompido seu discurso "Sou-tamanho-trinta-e-quatro-coitadinha-de-

mim".

Vá comer alguma coisa. Disse Zo, enunciando as palavras. Então

talvez você vire tamanho trinta e seis, e aí vai poder experimentar a calça. Isso

vindo de Zo, que, apesar de ingerir comida do mesmo jeito que pessoas normais inalam ar, era mais ou menos tamanho trinta e dois.

Por acaso eu disse que você podia falar comigo? Perguntou Alex. — —

Acho que não. Por que você e suas

Dee-Dee! Exclamou com a voz esganiçada falsamente doce que as garotas populares usam quando veem umas às outras fora do colégio. Delia e Alex se conheciam bem o suficiente para que Alex soubesse que Delia não deixava

A ruiva parou de falar quando viu Delia.

ninguém (exceto Zo) chamá-la por apelido nenhum.

"Essas são suas amiguinhas". Disse Alex, como se não conseguisse

conciliar o fato de que Delia era nossa amiga, só porque era linda e líder de torcida,

e

bem

Delia.

Acho que Zo é um pouco "inha". Admitiu Delia com um sorriso

imparcial, respondendo ao "amiguinhas" de Alexandra sem qualquer surpresa.

31 Mas você adoraria ser tamanho trinta e dois, não? — A voz de Delia

31

Mas você adoraria ser tamanho trinta e dois, não? A voz de Delia era tão agradável que Alex levou alguns segundos para processar suas palavras.

Meninas como Alexandra Atkins me enojavam, e, enquanto ela e Delia se atacavam, fingindo serem simpáticas, não pude deixar de perceber as farpas que ela atirava descontroladamente no resto de nós.

Quando fez um comentário sobre Annabelle ser "adoravelmente antissocial", abri a boca para responder alguma coisa, qualquer coisa para defender minha amiga, mas A-Belle simplesmente balançou a cabeça com uma espécie de dignidade silenciosa, e, em resposta ao seu olhar, fechei a boca. Também estiquei a mão para deter Zo, que não reagia bem a pessoas ofendendo sua prima. Naquele momento, literalmente segurando Zo e basicamente permitindo que Alex falasse o que quisesse me senti completamente frustrada. Meu corpo esquentou, o calor se espalhava a partir da minha região lombar, e um único fiapo de fumaça cinza levantou-se do carpete.

Sangue de Sídhe.

Mais palavras que eu não conhecia permearam meu cérebro, e minha própria pele começaram a apitar ao som do ritmo delas.

A propósito, você viu Kane? Perguntou Alex a Delia como se fosse um grand finale.

O jeito que ela falou o nome dele interrompeu meu estado de transe. Kane e Alex? Meu Deus, tomara que não.

Alex mediu minha reação e, em seguida, sorriu.

Bem. Disse ela de forma irreverente, sem se incomodar em esperar

por uma resposta à sua pergunta estratégica. As compras me chamam.

Zo solou um suspiro bastante evidente de desdém. Por alguma razão, achei aquela reação estranhamente reconfortante.

Alex, no entanto, não achou.

Algumas de nós se importam com essas coisas. Dirigiu-se a Zo. Não que você entenda. Seu senso de moda é

32 — Estou esperando. — Disse Zo, a voz desafiadora e inabalada. Ela permitia que

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Estou esperando. Disse Zo, a voz desafiadora e inabalada. Ela permitia

que Delia ofendesse seu senso de moda sem o menor problema, mas Alex não era Delia, e Zo não tinha se esquecido de que aquela garota metida ofendera Annabelle.

Alex franziu os olhos.

Bem, na verdade Disse Alex suavemente. seu senso de moda é de quem não tem mãe, entende?

Meu corpo inteiro explodiu em fúria enquanto assistia a Zo absorver o comentário de queixo erguido. Calor se espalhou do meu pescoço pelos braços, correndo pela espinha. Os pelos da minha nuca se levantaram um por um, e uma segunda onda de calor partiu da lombar, onde a tatuagem havia sido aplicada. Racionalmente, eu sabia que o calor deveria ter me queimado, mas alguma coisa na forma como pulsava pelo meu corpo me fazia querer mais. Uma doce ira em chamas. Calor.

O ar chiou, literalmente, e o sapato de Alexandra Atkins pegou fogo.

Assisti pasma a Alex começar a gritar; vi Zo dar um salto para derrubar a garota popular e bater o pé dela no chão; observei a chama se extinguir tão depressa quanto começara; e, durante todo o tempo em que assistia, as palavras estranhas se repetiam incessantemente em minha cabeça.

Sangue de Sídhe.

Alex, chocada, finalmente calou a boca o suficiente para que Zo tivesse chance de falar. Ela se levantou e limpou as mãos, lutando contra um sorriso triunfante, mas falhando completamente.

Seu pé não está mais pegando fogo. Disse ela, sorridente. Meu trabalho aqui já está encerrado.

Tentei tirar aqueles sons estranhos da minha mente e processei as palavras de Zo. O pé de Alex tinha pegado fogo. Ela havia mencionado a mãe de Zo, eu tinha ficado furiosa, e em seguida, o sapato dela entrou em combustão sem qualquer razão aparente. Tentei não me lembrar da sensação de calor dominando meu corpo; tentei não pensar em como meu sangue tinha pegado fogo: um fogo forte e intoxicante; e o tempo todo eu estivera pensando em Alex e no que ela dissera para Zo.

33 Minha região lombar pulsou levemente, e no fundo da mente ouvi as palavras que

33

Minha região lombar pulsou levemente, e no fundo da mente ouvi as palavras que tinha escutado antes, duas vozes falando de forma uníssona, algo terrível e maravilhoso de se ouvir ao mesmo tempo.

Queime o fogo

Sangre o desejo

Como nós, também um grão de poeira irá.

Queime o fogo. Enquanto encarava Alexandra, minha mão procurou minha lombar. A tatuagem estava quente e, quando as pontas dos meus dedos a tocaram, minha cabeça foi tomada por novas palavras.

Está no sangue. Coisas de poder sempre estão.

Ótimo, pensei, debilmente, minhas orelhas apitando com essa proclamação. Não só estava louca, e possivelmente homicida sem querer, mas agora, ao que parecia, isso envolvia sangue.

Annabelle olhou para Alex.

Queimou seu pé através do sapato? Perguntou ela. Era bem a cara de

A-Belle se certificar de que Alex estava bem, mesmo depois do comentário sobre

ela ser "adoravelmente antissocial". Como está seu pé?

Como você acha que está? Sibilou Alexandra, apontando para o próprio pé. Estava pegando fogo, é como ele está!

Annabelle deu um único passo para trás. Instintivamente, estiquei a mão para Zo, que estava a um centésimo de segundo de pular em defesa da prima. A última coisa de que precisávamos agora era o já mencionado pé de Zo chutando Alex na

Vamos. Chamei, minha mente ecoando a palavra "fogo" e com a

sensação e o poder que a haviam precedido. Fomos em direção à porta, e Delia, que se manteve suspeitamente quieta durante todo o processo, ficou olhando para

baixo, na direção dos sapatos de Alexandra enquanto saíamos.

Que pena. Lamentou enquanto atravessávamos a porta. Aqueles

sapatos eram lindos. Depois, como no quesito roupas ela não conseguia parar na

34 metade do caminho, Delia continuou: — Mas aquela minissaia verde era o horror materializado.

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metade do caminho, Delia continuou: Mas aquela minissaia verde era o horror materializado.

Mal ouvi a declaração de Delia, perdida em pensamentos enquanto digeria o que tinha acabado de acontecer e tentando não olhar diretamente para Annabelle, que me encarava com a expressão mais estranha do mundo.

Enquanto andávamos em direção à saída, meus dedos voltaram à tatuagem na lombar.

Ela vem.

Lutar, viver.

Começou.

35 Decidimos deixar o sorvete de lado. Eu não disse nada durante o caminho para

35

35 Decidimos deixar o sorvete de lado. Eu não disse nada durante o caminho para casa,

Decidimos deixar o sorvete de lado.

Eu não disse nada durante o caminho para casa, mas, a cada passo que dávamos, via na mente as imagens do pé de Alex e do fogo, pelo qual eu estava cada vez mais convencida de ter sido a responsável. Minha lombar pulsava, e espantei o impulso de levar a mão até a tatuagem cada vez que a tocava, me enchia de perguntas que não conseguia entender, quanto mais responder.

Quem estava vindo? O que havia começado? Por que tocar a tatuagem parecia com colocar o dedo em uma tomada?

Enquanto andávamos, Annabelle me lançava olhares, tentando descobrir meus pensamentos a partir da minha expressão, e, como Zo havia se tornado estranhamente silenciosa desde o acidente com Alex, Delia foi obrigada a preencher o silêncio nos passando suas impressões da Cosmo desse mês.

Ao chegarmos ao meu quarto, não conseguia mais me segurar. Nunca em toda a minha vida eu tinha conseguido guardar um segredo das minhas três melhores amigas, e, do jeito que Annabelle me olhava, com as engrenagens de seu cérebro girando, era mera questão de tempo até que ela me fizesse às perguntas certas e eu soltasse a verdade.

Hummm

meninas? Um começo brilhante. E agora, o que eu deveria

Meninas, acho que tenho poderes pirotécnicos e acabei de utilizá-

dizer? Hummm

los na senhorita "sou toda empinada e meus peitos também"?

Bailey. Disse Annabelle, girando os olhos. Aquele fogo não foi culpa sua. Não foi você que o começou.

Delia e Zo a encararam.

Do que está falando, A-Belle? Estranhou Zo. Até parece que Bailey

acha que começou aquele fogo. Não que eu não fosse total aprovar, porque,

36 honestamente, acho que esse foi um dos melhores momentos da minha vida até agora.

36

honestamente, acho que esse foi um dos melhores momentos da minha vida até agora.

Annabelle franziu o cenho, enrugando a testa.

Você não estava ouvindo? Perguntou ela a Zo, genuinamente confusa.

Bailey acabou de dizer que achava que tinha poderes pirotécnicos e que tinha

começado o incêndio no pé da Alexandra.

Você quer um pouco de loucura para acompanhar o seu Bailey-super- não-disse-nada-disso? Perguntou Delia.

Elas tinham razão. Eu não havia dito nada. Eu tinha pensado.

Ela disse, sim. Insistiu Annabelle. Há um segundo.

Não, Annabelle, Falei eu não disse.

Annabelle me encarou como se eu tivesse acabado de dizer que estava pensando em pintar meu dachshund de azul.

Isso não podia estar acontecendo.

O

que

não

pode

estar

acontecendo?

Perguntou

Annabelle,

verdadeiramente espantada. E por que alguém pintaria um dachshund de azul?

Meu queixo caiu.

Annabelle. Pensei. Você está me ouvindo?

Estou, sim.

Annabelle observe meus lábios.

Ela se virou para me olhar.

Eles estão se movendo? Perguntei em silêncio. Meus lábios estão se movendo?

Lentamente, Annabelle balançou a cabeça em negativa.

Estou emitindo algum som? Perguntei.

Ela balançou a cabeça novamente.

37 — Ah. — Disse finalmente. A maioria das pessoas estaria xingando alucinadamente, mas a

37

Ah. Disse finalmente. A maioria das pessoas estaria xingando

alucinadamente, mas a única coisa que Annabelle tinha a dizer era um "ah" contido.

Estou ouvindo seus pensamentos, não estou? Perguntou levemente.

A-Belle, você está começando a me assustar.

Ela está realmente ouvindo meus pensamentos, Zo. Confirmei.

Assim como eu realmente coloquei fogo no pé de Alexandra sem querer. Alguma

coisa muito estranha está acontecendo aqui.

Ela vem. Dessa vez não era a voz falando na minha cabeça. Era eu, lembrando as duas palavras que não conseguia esquecer. Alguém, alguma coisa estava vindo. A consciência disso estava lá, em algum canto da minha mente, enquanto Annabelle e Zo zanzavam de um lado para outro.

Ela não acredita na gente. Informou Annabelle. Depois se voltou

novamente para a prima. Zo, pense em um número entre um e cinquenta

milhões.

Annabelle parou por um instante.

Chocolate. Disse finalmente, sua voz pouco mais que um sussurro ao

interceptar o pensamento da mente de sua prima e a realidade da situação se

confirmar. Zo, isso não é um número entre um e cinquenta milhões.

Zo ficou de queixo caído.

Pegadinha.

Agora você acredita na gente? Perguntei.

Duas coisas: Começou Zo. Primeiro sim, eu acredito. Segundo, A- Belle, se não sair da minha cabeça, vou ter que te machucar.

Annabelle deu de ombros, ignorando completamente a ameaça infundada

de Zo.

Eu sou a única aqui que está totalmente confusa e um pouquinho mais

que assustada? Perguntou Delia. Quer dizer, então a Annabelle é toda

o alarme da bizarrice que toca na minha

paranormal, e você toda pirotécnica, Bay

cabeça quando coisas estranhas acontecem está disparando loucamente. Isso é

simplesmente estranho demais e certa.

simplesmente estranho demais e certa. 38 — Delia parou de falar, procurando a palavra — Bizarro.

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Delia parou de falar, procurando a palavra

Bizarro. Dissemos Annabelle, eu e Zo em uníssono. Delia fez que sim com a cabeça.

Coisas desse tipo não acontecem do nada. Continuou Delia. Quer

dizer, uma hora Annabelle é um gênio chato que não fala muito e tem um senso de

moda mediano, na outra é médium. Como funciona uma coisa dessas?

Eu não sou um gênio. Retrucou Annabelle automaticamente. Por um

segundo, fiquei imaginando a razão pela qual ela não se importara em ser chamada

de chata, mas eu tinha coisas mais importantes para pensar.

Eu sei como funciona. Falei. Ou, pelo menos, sei quando começou.

Como eu poderia explicar para elas? A sensação que recebi do pacote de tatuagens. A maneira como o ar se transformou quando Delia aplicou a tatuagem

como

eu poderia explicar as vozes que vinha ouvindo e as palavras que diziam? Fogo queimando, alguém vindo, desejo sangrando, verde Sídhe. Como uma pessoa explicava isso tudo, principalmente quando a cada segundo ficava mais difícil se

lembrar de qualquer coisa?

dela. O calor incandescente e a tonteira quando colocou a minha, e as vozes

É só explicar devagar Disse Annabelle, com pena de mim, usando seu

modo didático. e possivelmente com quadros e tabelas. Por mais quieta que fosse, quando tratávamos de algo que exigia organização de informações,

Annabelle ficava iluminada como uma árvore de Natal.

Zo resmungou:

Odeio tabelas.

Annabelle parou por um instante.

Acho que não precisamos de tabelas. Decidiu em um tom quase

comicamente triste. A-Belle falava de quadros e tabelas do mesmo jeito que Delia falava de esmalte. Mas os pensamentos de Bailey são tão complicados que

pensei que talvez

sabe

quadros e tabelas pudessem ajudar.

39 Eu estava a ponto de ficar com pena dela e dizer que poderíamos utilizar

39

Eu estava a ponto de ficar com pena dela e dizer que poderíamos utilizar quadros e tabelas quando as implicações do que ela estava dizendo me atingiram. Annabelle estava lendo pensamentos, e, enquanto eu pensava em como contar tudo desde a aplicação da porcaria da tatuagem, ela me ouviu.

Annabelle respirou fundo.

Tudo começou Iniciou solenemente, ainda sofrendo com o sacrifício das tabelas. com as tatuagens.

Annabelle contou tudo a elas. Eu nunca a ouvira falar tanto de uma vez só e, quando terminou, cedeu ao impulso de pegar alguns papéis na minha escrivaninha

e começou a fazer anotações sobre o que havia dito. Eu me inclinei para frente para tentar ler o que estava escrevendo, mas não consegui identificar nenhuma palavra.

Havia uma boa chance de que ela estivesse fazendo gráficos.

O que eu quero saber Exigiu Zo é por que você é a mulher incêndio,

e a garota dos quadros ali Zo apontou com a cabeça para Annabelle, que parecia

estar fazendo legendas coloridas em alguma coisa é a senhorita médium, e eu e Delia não ganhamos nada. Quer dizer, nós também fizemos as tatuagens. Zo inclinou-se para trás na minha cama, esticando o pé e o balançando na minha

frente.

Olhei para a tatuagem dela por um instante, a cor azul-esverdeada saltava em minha direção, como se tivesse sido feita de pura luz brilhante.

Cabelos louros-prateados. Sangue, olhos azuis.

Começou.

Eu não sei. Falei, fechando os olhos. Minha cabeça estava latejando. Por que apenas eu tinha ficado tonta só de olhar para as tatuagens?

Eu não sei. repetiu Annabelle, respondendo minha pergunta silenciosa

e consultando suas anotações. Pode ter tido alguma coisa a ver com o fato de

que, na verdade, foi você que comprou as tatuagens. Elas eram suas, você só as

dividiu conosco.

Até parece que as tatuagens sabiam quem era a dona delas. Disse Delia, completamente cética.

40 — Isso vindo da garota que insiste em dizer que seus sapatos detestariam ser

40

Isso vindo da garota que insiste em dizer que seus sapatos detestariam

ser vestidos por outra pessoa. Implicou Zo. Abri os olhos bem a tempo de ver

Delia jogar uma almofada nela.

Ei, os sapatos de uma mulher são sagrados.

A palavra ecoou na minha mente por um instante. Sagrados.

Talvez. disse Annabelle, tirando o pensamento da minha cabeça antes que eu sequer o verbalizasse. Talvez haja alguma coisa sacrossanta sobre as tatuagens.

Não me surpreendi por meus pensamentos soarem mais inteligentes quando Annabelle os dizia. Quando ela voltou para os Estados Unidos, na sétima série, utilizava palavras tão difíceis que o resto de nós não conseguia entendê-la. Eventualmente aprendemos.

Foi aí que Annabelle parou de falar com todo mundo, exceto por nós três.

Delia ajeitou o cabelo atrás do ombro.

Por mais interessante que seja esse papo de superpoderes, acho que

temos outros assuntos para nos preocuparmos, como, por exemplo, o fato de que esse esmalte Manga Sereia precisa de três camadas para chegar ao tom que estou

procurando.

Algumas pessoas entram em pânico em uma crise. Delia pintava as unhas.

Ou talvez pudesse misturar. Disse Delia. Se eu pintar por cima com uma camada fina de Loucura Nebulosa

Ninguém além de mim viu o flash de luz azul-esverdeada na barriga de

Delia.

Lutar, viver.

Nós, dois de três, concedemos este presente

Sacudi a cabeça para livrá-la das palavras já familiares. Delia ficou olhando para a própria mão. Depois de um instante, ela falou.

Uau. Simplesmente uau.

41 — O quê? — Falamos eu, Zo e Annabelle ao mesmo tempo. Delia levantou

41

O quê? Falamos eu, Zo e Annabelle ao mesmo tempo.

Delia levantou a mão direita.

Estão notando alguma coisa diferente? Perguntou ela.

A mão me parecia normal.

Seu "uau, simplesmente uau" tem alguma coisa a ver com suas unhas? Zo se acomodou novamente na cama.

Delia levantou a outra mão. Mesmo de onde eu estava, conseguia ver que as unhas da direita tinham uma cor diferente das unhas da esquerda.

Ligeiramente misturado. Disse Delia com a voz trêmula. Como se eu tivesse acabado de pintá-las com Loucura Nebulosa.

Você consegue fazer isso outra vez? Perguntou Annabelle, a caneta

deslizando rapidamente pelo papel enquanto falava. Você consegue mudar a cor

das outras unhas?

Delia passou a mão direita na esquerda.

Loucura Nebulosa. Falou em voz alta. Novamente, vi uma fraca luz

azul-esverdeada sair em uma onda da barriga dela, e Delia iluminou-se ao levantar

a mão esquerda com o esmalte recém-misturado.

Isso Constatou é muito legal.

Então Comecei lentamente eu tenho o poder de provocar incêndios,

Annabelle lê mentes e Delia consegue mudar a cor do esmalte simplesmente passando a mão sobre ele? Alguma coisa nesse último poder não parecia certa.

Talvez não seja simplesmente a cor do esmalte. Arriscou Delia.

Talvez seja qualquer cor. Com um sorrisinho no rosto, ela levou as mãos à cabeça e passou as duas pelo cabelo. Louro. Pronunciou, e, enquanto suas mãos passavam pelas volumosas madeixas, o cabelo se tornou louro, das raízes às

pontas.

Delia virou-se para olhar-se no espelho.

42 — Não tem nada a ver comigo — Constatou e, no instante seguinte, estava

42

Não tem nada a ver comigo Constatou e, no instante seguinte, estava voltando ao normal.

Sem dizer uma palavra, Annabelle foi até o meu computador e o ligou.

O que está fazendo? Perguntei a ela.

Vou tentar descobrir que espécie de poder telecinético permitiria que

Delia mudasse alguma coisa de uma cor para outra. Respondeu com toda a naturalidade do mundo, como se esse fosse o tipo de coisa que fizesse todos os

dias.

Telecinético? Estranhei. Só porque Annabelle conseguia ouvir o que se passava na minha cabeça, não queria dizer que eu podia saber o que havia na dela.

Estava com dificuldades para acompanhá-la, e isso me incomodava muito, considerando que eu me julgava completamente fluente (ou quase isso) em Annabelle, incluindo gestos, palavras complicadas e tudo o mais.

Um poder mental. Explicou Annabelle enquanto os dedos voavam

pelas teclas. Eu consigo usar a mente para ler a dos outros. Bailey, você

consegue usar a sua para provocar incêndios, Delia consegue usar a dela para

mudar as cores e

desculpa. Tenho certeza de que a sua mente faz alguma coisa. Falou para Zo.

Annabelle olhou para Zo com um sorriso de quem se

Reprimi um sorriso. Zo pegou a almofada que Delia havia jogado nela e com precisão artística, lançou-a em direção à cabeça de Annabelle. Ela revirou os olhos.

Não foi isso que eu quis dizer. Explicou. Não precisa se sensibilizar tanto assim. Zo? Sensível?

É verdade. Concordou Zo, depois franziu a testa e continuou a falar, em tom gentil: Desculpe, priminha. Foi indevido e desnecessário.

Zo olhou para os sapatos, e Delia, Annabelle e eu paramos o que estávamos fazendo e a encaramos.

Indevido? Perguntei. Desde quando alguma coisa era indevida no mundo de Zo?

43 — Priminha? — estranhou Delia em tom agudo. — Desde quando você chama Annabelle

43

Priminha? estranhou Delia em tom agudo. Desde quando você chama Annabelle de priminha?

É claro que eu não disse isso. Rebateu Zo. Por que eu diria uma coisa dessas?

Sua voz até estava com um tom de Annabelle. Apontou Delia. Totalmente estranho.

Assim que as palavras saíram da boca de Delia, o silêncio se abateu sobre o quarto.

Zo havia falado com o tom quieto e subestimado de Annabelle.

Você! Disse Zo, apontando um dedo para a prima. Você colocou

essas palavras na minha boca, não foi? Como fez isso? Zo olhou fixamente para Annabelle. Eu sabia que jamais te chamaria de priminha por conta própria.

Não

foi

de

propósito.

Desculpou-se

Annabelle

docemente.

Sinceramente, Zo, não foi. Eu nem sabia que conseguia fazer isso.

Não tem problema. Ameaçou Zo, suavizando o tom ao ver a expressão

no rosto da prima. Não foi de propósito e eu exagerei um pouquinho.

Olhei primeiro para Annabelle, depois para Zo.

Um pouquinho?

Mas que droga,

A-Belle Gritou Zo,

oscilando entre ligeiramente

entretida e completamente exasperada. Sai da minha cabeça.

Annabelle ficou ali parada por alguns segundos, sem dizer nada.

Não sei se consigo. Disse, finalmente. Mas vou tentar.

Eu olhei para Annabelle, e um entendimento silencioso se estabeleceu. Eu também não tinha tido a intenção de incendiar o sapato de Alexandra. Annabelle não tinha tentado colocar as palavras na boca de Zo, assim como não queria ouvir todas as conversas mentais que eu tinha comigo mesma.

Lutar, viver;

Nós, dois de três, concedemos este presente

44 — Dois de três o quê? — Murmurei em voz alta, tentando esquecer as

44

Dois de três o quê? Murmurei em voz alta, tentando esquecer as palavras que não conseguia evitar de lembrar.

Sem resposta.

Enquanto isso Delia estava se divertindo com seu poder recém-descoberto.

Quero vestir ágata ou pérola? Indagou-se baixinho. Com um movimento rápido de mão, sua camisa branca escureceu para um tom cremoso de marrom-claro. Ela abaixou a mão e a blusa ficou branca outra vez, com um pouquinho de brilho. A mão ia para frente e para trás enquanto debatia consigo mesma. Ágata ou pérola? Ágata ou pérola?

"Transmogrifação". Leu Annabelle em voz alta a palavra na tela do

meu computador. “A capacidade de transformar um tipo de matéria em outro

tipo de matéria". Fez uma pausa. Se eu estiver lendo certo Disse, franzindo

a testa se Delia tem Transmogrifação, então ela deve ter a capacidade de mudar

a característica das coisas, como a cor, mas também deve conseguir mudar a forma.

Transformar uma coisa em outra? Perguntou Zo. Ela olhou de um jeito melancólico para o pé. Porcaria de tatuagem no pé. Resmungou. Delia pode mudar as coisas e eu consegui um monte de nada.

Espere um minuto. Pediu Delia. Você está dizendo que basta eu

balançar a mão, e, sei lá, um pedaço de papel pode virar uma bolsa Coach?

Existe a chance de que seu poder seja simplesmente limitado a cores

Observou Annabelle, ainda de forma didática, fazendo gráficos e anotações. mas

não encontrei nenhuma

Delia a interrompeu.

Esse é oficialmente o melhor dia da minha vida. Comemorou. Sem

qualquer outra palavra, foi até a minha lata de lixo e pegou um papel de chiclete. Meias de cashmere azul-bebê. Disse, passando a mão sobre o papel. A luz azul- esverdeada emanou da palma de sua mão, enrolando-se no papel, vibrando com palavras que só eu podia ouvir.

Saber, alimentar;

Mudar, I’Shide;

45 A próxima coisa que percebi foi Delia segurando um par de meias de cashmere

45

A próxima coisa que percebi foi Delia segurando um par de meias de cashmere azul-bebê.

Eu amo minha vida. Falou. Mais alguém quer mais alguma coisa?

Acho que vou fazer um vestido igual ao que a Nicole Kidman usou na festa do Oscar

do ano passado.

Talvez você não devesse. Advertiu Annabelle, mordendo o lábio

inferior. E se tiver algum efeito colateral que a gente ainda não descobriu?

Você só pode estar completamente louca. Rebateu Delia. Eu tenho o

toque mágico, e nada vai me convencer a não utilizá-lo. A meu ver, os deuses da

moda estão sorrindo para mim.

Delia virou-se de costas para a lata de lixo e, um instante depois, caiu no

chão.

Delia!

Só um pouco tonta. Amenizou Delia, virando-se de barriga para cima. Só isso.

Você está sentindo como se tivesse corrido uma maratona. Revelou

Annabelle, inclinando a cabeça para o lado ao extrair os pensamentos da cabeça de Delia. Utilizar os poderes exige muito de você. Mais do que os meus exigem de

mim ou os de Bailey dela.

Delia se curvou com suas novas meias de cashmere (antes papel de chiclete) ainda em mãos.

Vale super a pena.

Isso é o que você diz agora Preveniu Zo mas quando a mãe da

Bailey entrar aqui e começar a cismar que você está com cara de doente, talvez essas meias não pareçam grande coisa.

Você só está amarga porque a sua tatuagem no pé não compensou como

a minha tatuagem superfeminina na barriga Retrucou Delia. Ela nunca estava

cansada demais para discutir com Zo. Você não suporta o fato de que eu

46 As palavras de Delia foram interrompidas por uma batida na porta. — Pode entrar.

46

As palavras de Delia foram interrompidas por uma batida na porta.

Pode entrar. Consenti. Delia ajeitou a blusa sobre a barriga para

esconder a tatuagem no segundo que antecedeu a entrada da minha mãe.

Só vim perguntar se vocês queriam um lanche antes que eu vá dormir.

Ofereceu minha mãe. Ela parou e olhou para Delia. Você está se sentindo bem,

querida? Está um pouco pálida.

Imediatamente, meus olhos voaram na direção de Zo, e, obviamente, a tatuagem no pé dela brilhou como luz estroboscópica bem diante dos meus olhos, deixando meus ouvidos apitando com palavras que eu já tinha ouvido antes.

Ver, sentir;

Repousar sobre um Selo antigo.

É isso. Eu disse no segundo que a minha mãe saiu. Ver.

É isso o quê? Perguntou Zo. Ver o quê?

O seu poder. Continuei. Lembra aquela coisa da minissaia verde-

limão? Quer dizer, quais são as chances de a Alex estar vestindo uma saia verde- limão de veludo e querer experimentar uma calça jeans de arrasar logo depois de

você dizer que alguém ia fazer isso?

Delia parecia estar prestes a começar a calcular a probabilidade de isso acontecer em termos de moda, por isso continuei antes que ela pudesse interromper:

E depois esse negócio com a minha mãe. Você sabia que ela estava vindo.

"Premonição". Leu Annabelle na página da Internet. "Um poder

precognitivo em que o vidente sabe ou enxerga o futuro antes que ele ocorra”.

Só isso? Perguntou Zo. Annabelle faz essa coisa de controlar a

mente, Delia pode transformar lixo em joias, Bailey faz as coisas pegarem fogo, e eu

às vezes sei que um evento insignificante vai acontecer antes que aconteça?

Por um instante, ficamos todas em silêncio.

47 Por quê? Pensei. Por que podíamos fazer todas essas coisas? Quem estava vindo? O

47

Por quê? Pensei. Por que podíamos fazer todas essas coisas? Quem estava vindo? O que havia começado? Mesmo sem tocar a tatuagem ou lembrar as coisas que havia escutado, eu não podia fugir das perguntas.

Isso é um porcaria. Chateou-se Zo. Por que eu não pude ficar com o poder do incêndio?

Controle de impulso? Sugeriu Annabelle. Ela deu de ombros, e eu não

sabia se ela estava brincando ou não. Provavelmente é uma coisa boa ter sido a

Bailey quem ficou com a pirotecnia.

Pirotecnia. Repeti, lembrando a sensação das chamas oscilando pelo meu sangue.

Claro

Ironizou

Zo

pode

esfregar

na

minha

cara.

E

você

provavelmente nem vai incendiar a lata de lixo.

Não incendeie a lata de lixo. Disse Delia, imediatamente. Você sabe quantos pares de sapato eu posso fazer com o conteúdo dela?

Confie em mim. Pedi a Zo. Você é a mais sortuda. Quer dizer, fiz

uma pessoa pegar fogo. Annabelle poderia fazer alguém andar na frente de um carro em movimento se quisesse, ou fazê-lo dizer coisas horríveis à outra pessoa,

ou quem sabe o que mais, sem ter a menor intenção. Delia provavelmente vai se transmogrifar em uma pessoa em coma, e nós nem sabemos o que está acontecendo.

Annabelle arregalou os olhos. Aparentemente, ela não havia pensado que seus poderes de controle mental não se limitavam ao discurso.

Delia bocejou.

É de fato uma possibilidade. Admitiu sonolentamente referindo-se ao

meu comentário do coma. Mas vou ser a paciente em coma mais bem-vestida

que já se viu.

Annabelle passou os olhos pelas anotações que havia feito, relacionando algumas páginas.

48 — Você tem razão, Bay. — Concluiu, afinal. — Não sabemos por que ou

48

Você tem razão, Bay. Concluiu, afinal. Não sabemos por que ou o

que temos de fazer, nem como podemos evitar machucar as pessoas. Só sabemos

que isso tudo remete às tatuagens e às vozes que você não para de ouvir.

Então o que faremos? Verbalizei a pergunta que todas estávamos

pensando.

Em primeiro lugar, você deve escrever tudo o que ouve, Bailey. Disse

Annabelle. Agora que estávamos sob o domínio dela, ela estava feliz em tomar as

rédeas da situação.

Mais tabelas. Eu praticamente podia ver Zo pensando o mesmo, e, com os novos poderes mentais, Annabelle com certeza nos ouvira, mas continuou:

Amanhã, vamos diretamente à fonte.

O resto de nós olhou uma para a outra. Que fonte?

A mulher que nos vendeu as tatuagens. Respondeu Annabelle, fazendo

uma anotação final na margem de uma das folhas. Se alguém sabe alguma coisa

sobre as tatuagens, é ela.

Delia se sentou.

Vocês sabem o que isso significa, não sabem? Perguntou Delia, um sorriso gigantesco se espalhando pelo rosto.

O quê? Indaguei.

Amanhã de manhã, vamos voltar ao shopping.

49 Aquela noite marcou um fato inédito nas nossas dormidas de sexta-feira na casa umas

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49 Aquela noite marcou um fato inédito nas nossas dormidas de sexta-feira na casa umas das

Aquela noite marcou um fato inédito nas nossas dormidas de sexta-feira na casa umas das outras. Eu geralmente era a primeira ou segunda a cair no sono, mas, naquela noite, enquanto todas dormiam, eu, no meu saco de dormir no chão, fiquei olhando para o teto. E se quem quer que "estivesse vindo" chegasse enquanto dormíamos? E se eu tivesse um pesadelo e incendiasse a casa? E, por falar nisso, e se Delia transformasse a casa inteira e todas nós em uma espécie de gigantescos Jimmy Choos? E até onde eu sabia, Annabelle, que dormia no chão ao meu lado, poderia, sem a menor intenção, estar transformando a vizinhança inteira em zumbis que diziam coisas enroladas enquanto olhavam para os próprios sapatos.

Não é fabuloso? Sussurrou Delia no próprio travesseiro. Ela sempre falava dormindo. Très Chic.

Minhas pálpebras fecharam, e virei de lado, dizendo severamente a mim mesma que devia manter os olhos abertos. Até que eu soubesse controlar essa coisa do logo, estava determinada a não dormir.

Então, evidentemente, adormeci trinta segundos depois.

Ouvi a cachoeira antes de ver qualquer coisa. O ar agitado pelos sons dela, o ruído de água caindo sobre pedra saturava o silêncio da sala. Abri os olhos e percebi que não me lembrava de tê-los fechado. Olhei para o teto. Não o meu. Havia água circulando ali, de um lado para outro, depois escorrendo pelas paredes e chegando ao chão. Minhas mãos foram pegar meu saco de dormir para tapar os olhos, mas, em vez disso, tocaram pedras geladas. Sentei e percebi que não estava no saco de dormir, e, dada a situação estranhíssima da cachoeira no teto, isso não deveria ter me surpreendido.

Passei a mão pela pedra abaixo de mim. A superfície era lisa, mas ocasionalmente minha mão passava por uma espécie de entalhe. Levei um instante para perceber que alguma coisa tinha sido esculpida nessa pedra. Levantei e me

50 afastei, ansiosa para ver a coisa toda. Era redonda e erguia-se levemente acima do

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afastei, ansiosa para ver a coisa toda. Era redonda e erguia-se levemente acima do chão. Ao me afastar da pedra entalhada, senti grama sob meus pés; grama molhada em um agradável dia quente de verão.

E sempre verão aqui, quando queremos que seja.

Aquela voz. Eu conhecia aquela voz. Suave e feminina, mas tão poderosa. Tão velha. A dona da voz riu.

Nenhuma dama gosta de ouvir que é velha, minha criança. Repreendeu

ela.

Fechei os olhos com força. Isso não estava acontecendo.

Nem mesmo uma dama imortal. Acrescentou uma segunda voz. Esta era

grave e profunda, e não menos terrível ou maravilhosa que a primeira.

Imortal? Repeti com a voz esganiçada. Em seguida fiquei com raiva de

mim mesma. Meus olhos estavam fechados e eu tentava me convencer de que aquilo não estava acontecendo, mas, ainda assim, conversei com eles? Brilhante.

Olhe para nós, criança.

Eu não queria, mas a voz era tão bonita que não pude evitar. Virei lentamente e, após respirar fundo, abri os olhos.

O cabelo da mulher tinha um tom tão escuro de vermelho que me fazia duvidar se não era mesmo preto. Caía em ondas grossas, passando pelos ombros, indo até a cintura, e brilhava tanto que, se o quarto estivesse completamente escuro, ela teria sido capaz de iluminar tudo com aquele brilho.

O mesmo tipo de luz saía dos olhos dela, tão azuis que eu mal suportava olhar para eles.

O homem ao lado tinha cabelos mais escuros que os dela, preto com um brilho azulado, e os mesmos olhos irresistivelmente azuis.

Imortal? Indaguei outra vez, e um milhão de outras perguntas melhores passaram pela minha cabeça. Onde eu estava? Por que estava aqui? Quem eram eles? Por que estavam falando comigo? O que queriam de mim?

51 — Acalme-se, criança. — Aconselhou a mulher, afastando meus medos e as perguntas na

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Acalme-se, criança. Aconselhou a mulher, afastando meus medos e as

perguntas na minha cabeça com toda a calma.Não estamos aqui para machucá- la. Está segura aqui. Por milhares dos seus anos, este lugar permaneceu puro e

imaculado de violência. Por ora, é seguro.

Ela apontou para a pedra redonda entalhada no chão.

O Selo. Falou suavemente. Protege este lugar daqueles que fariam mal a este mundo ou ao seu.

Esta mulher disse a palavra "mal" vezes o suficiente para me deixar nervosa.

Deu um passo a frente e segurou minha mão nas suas. Tinha apele macia e ligeiramente fria, como o próprio selo de pedra.

Eu sou Adea. Disse ela. Ele é Valgius. Devemos falar rapidamente. Não podemos trazer nosso mundo para os seus sonhos por muito tempo.

"Respondendo a sua pergunta: não somos imortais. Algum dia, daqui a centenas e milhares dos seus anos, vamos envelhecer. Poderemos morrer antes disso se algum grande mal atingir a nós ou ao equilíbrio, e através do equilíbrio, ao Selo, mas já vivemos dezenas de milhares dos seus anos. Para você, a extensão da nossa vida pode parecer infinita, mas essa é simplesmente a sua palavra para um tempo muito longo. Você está aqui porque a trouxemos e porque você se trouxe. Você está aqui por causa do sangue."

Sangue de Sídhe. Disparei, lembrando-me de suas vozes na minha cabeça quando vi as tatuagens pela primeira vez.

Nós somos Sídhe. Disse simplesmente o homem. E precisamos da sua

ajuda.

Então, do nada, o sonho acabou, e eu estava olhando para o teto, a testa encharcada de suor e a tatuagem nas costas latejando como se alguém tivesse esfaqueado o local.

Respire, Bailey Disse a mim mesma. Simplesmente respire.

Falar era fácil. O eco da voz do homem na minha cabeça era tão alto, tão poderoso, que nada, nem a necessidade de oxigênio podia superá-lo.

52 Nós somos Sídhe e precisamos da sua ajuda. — Shee. — Reproduzi em voz

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Nós somos Sídhe e precisamos da sua ajuda.

Shee. Reproduzi em voz alta, tentando imitar o leve sotaque da

maneira como a voz pronunciara a palavra estrangeira na minha cabeça. Sheeee.

Bailey? Annabelle estava sentada no saco de dormir. Olhou para mim,

com os cabelos castanhos bagunçados e os olhos sonolentos. Ela parou,

pacientemente esperando que contasse tudo a ela.

Você não sabe? Perguntei. Quer dizer, você não pode simplesmente

fazer aquela sua coisa

Você não pode fazer aquela sua coisa psíquica e tirar as informações da minha

cabeça?

Fiz movimentos giratórios com o dedo próximo à testa.

Annabelle franziu ligeiramente a testa e me encarou com olhos castanhos solenes.

Não estou vendo nada. Alguma coisa sobre um sonho, mas é só o que

estou captando. Parou. Sabe, acho que eu nunca soube exatamente o que você se lembrava das vozes dizendo. Eu só captava as suas impressões sobre o que elas disseram. Aproximando as pernas do peito, ela repousou o queixo nos joelhos. É como se eu não tivesse um dom completo. Definiu. Não consigo acessar nada diretamente sobre as vozes, só que elas te assustaram e você está confusa. Ela esticou a mão e tocou suavemente a minha.

Finalmente, me lembrando de respirar, exalei e soprei o cabelo para longe do meu rosto.

Assustada e confusa é um eufemismo total. Falei. Tive um sonho e

Enquanto Annabelle se inclinava para frente para ouvir, ela deu uma olhada rápida, porém intensa, na direção das anotações que havia feito mais cedo naquela noite.

Você quer que eu escreva, não quer? Perguntei. Mordendo o lábio

inferior e me lançando um olhar de desculpas, ela fez que sim com a cabeça

timidamente.

Um pouco zonza e com as costas ainda latejando, me levantei e fui nas pontas dos pés até minha escrivaninha, passando por Zo, que continuava

53 dormindo. Depois de ligar a lâmpada da mesa, peguei uma folha de papel da

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dormindo. Depois de ligar a lâmpada da mesa, peguei uma folha de papel da impressora e uma caneta na gaveta e comecei a escrever tudo que lembrava.

Adea, escrevi. O nome da mulher estava preso na minha mente, e, ao escrevê-lo, podia ouvir sua voz, gentil, porém firme; serena, porém desesperada. Qual era a das vozes? Elas eram tão

Tão não humanas.

Anotei uma descrição bastante boba da voz da mulher, e do cabelo ruivo brilhante, depois me voltei para o homem. Qual era o nome dele, que Adea havia dito?

Fechei os olhos, tentando me lembrar. Com uma onda de dor na região lombar, o nome veio a mim.

Valgius. Escrevi e encarei o nome. Será que eu tinha escrito direito? Será que era um j no lugar de g? E que espécie de nome era Valgius?

Batuquei de leve com a caneta na escrivaninha. O que mais?

O Selo. Quando abri os olhos no sonho, eu estava dormindo em uma espécie de pedra circular. Adea havia chamado aquilo de o Selo, com S maiúsculo, e tinha dito mais alguma coisa sobre ele. Mas dessa vez nem minhas costas doloridas me trouxeram repostas. O sonho se tornava cada vez mais embaçado e, apesar de conseguir me lembrar da cachoeira e dos olhos dolorosamente azuis de Adea, o resto estava se perdendo rapidamente.

Adea havia dito que eu estava segura ali, e isso tinha alguma coisa a ver com o Selo. Anotei essa informação no papel, me sentindo tola por não me lembrar de mais nada. Finalmente, acrescentei os dois últimos itens no meu diário artesanal.

"Sangue de Sídhe". Escrevi, e ver a palavra "Sídhe" escrita me surpreendeu. Era assim que se escrevia? E como eu sabia? Será que esse conhecimento havia sido implantado em minha mente junto com as palavras de Adea? Ou será que eu sempre soubera?

Sempre.

Sacudi a cabeça e escrevi mais uma coisa.

54 — Eles precisam da nossa ajuda. — Acrescentei em voz alta enquanto escrevia. —

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Eles precisam da nossa ajuda. Acrescentei em voz alta enquanto

escrevia. Precisam da nossa ajuda para quê? Olhei sobre meu ombro para a

Annabelle.

Ela não disse nada, e, por um instante, desejei ter recebido o poder dela. Às vezes era tão difícil saber o que ela estava pensando, e agora ela tinha um passe VIP para todos os nossos pensamentos.

Estou pensando que podemos fazer isso. A-Belle me deixou a par da

situação. Seja qual for a razão para precisarem da nossa ajuda, seja lá quem

estiver vindo. Você, eu, Delia, Zo

por um instante e depois pegou o papel gentilmente das minhas mãos. Apesar de a única luz ser o brilho da lua iluminando através da janela, Annabelle imediatamente começou a aplicar seu código de cores. Eu nem sequer sabia como

ela havia encontrado os marcadores no escuro.

nós podemos fazer isso. Ela desviou o olhar

Mas e a roxa? Disse Delia alto de sua cama, com os olhos ainda

fechados.

Eu e Annabelle reprimimos uma risadinha. Delia ia ficar sabendo de tudo isso pela manha.

Boa

noite,

Bailey

Desejou-me

Annabelle,

guardando

o

papel

e

apertando meu braço uma última vez antes de voltar para o saco de dormir.

Boa-noite, A-Belle.

Durante um longo tempo depois disso, fiquei deitada, encolhida no saco de dormir, ouvindo o barulho do sangue correndo pelas veias e o vento do lado de fora da janela.

Conheço-te, uivava o vento. Conheço-te.

Eu estava tão próxima de um sonho que mal conseguia identificar as palavras e, antes que pudesse imaginar se já estava sonhando ou não, caí em um sono pesado, o barulho do vento e as batidas do meu coração desaparecendo ao fundo. Meu último pensamento consciente foi imaginar por que Adea e Valgius não haviam dito nada sobre a misteriosa "ela", fosse quem fosse, e por que eu não tinha pensando em perguntar nada até agora.

Seu cabelo é como o luar.

— Seu cabelo é como o luar. 55 De algum jeito, eu sabia que já tinha

55

De algum jeito, eu sabia que já tinha estado aqui antes, mas a voz dele era tão grave e doce que espantei o pensamento da mente e repousei a cabeça em seu peito.

Luar. Repetiu Kane e, delicadamente, tirou o cabelo do meu rosto. Dessa

vez, levantei a mão para tocar a dele e, durante muito tempo, apenas tocamos as

pontas dos dedos um do outro. Lentamente, ele desceu a mão pelo meu braço, em seguida estávamos dançando.

Movíamo-nos como um, nossos corpos próximos, balançando ao som de uma música que eu quase conseguia reconhecer.

Há muito tempo eu queria isso. Confessei gentilmente a ele. Eu quase

não conseguia me lembrar de querer qualquer outra coisa que não fosse aquilo.

Dessa vez, ele levou a mão ao meu rosto e colocou um pedaço do meu cabelo atrás da orelha.

Eu sei. Respondeu. Eu te conheço. Ele moveu seus lábios em direção aos meus, e quando falou de novo, pude sentir sua respiração no meu rosto. Eu sempre te conheci.

E aí ele desapareceu.

56 — Estou falando, Bay. Temos quatro permissões. Cinco se levar em conta que eu

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56 — Estou falando, Bay. Temos quatro permissões. Cinco se levar em conta que eu tenho

Estou falando, Bay. Temos quatro permissões. Cinco se levar em conta

que eu tenho duas porque a minha primeira foto estava tão horrível que tive que

fingir que perdi e tirei uma nova. Cinco permissões carteiras de motorista e meia. No mínimo.

é como se fossem duas

Encarei Delia. Ela não podia estar seriamente acreditando que eu ia deixá-la dirigir o carro da minha mãe, podia?

Duvido. Disse Annabelle, respondendo à minha pergunta mental.

Duvida de quê? Perguntou Zo, desconfiada. Eu queria que vocês

parassem com as conversas ocultas. Zo ainda estava um pouquinho irritada com o fato de que eu podia fazer as coisas pegarem fogo e ela só tinha sensações vagas a respeito de minissaias verde-limão.

Delia, você não vai levar o carro da minha mãe para lugar algum. Nós não

vamos levar o carro da minha mãe para lugar algum. Nós vamos a pé, ou pegar um

ônibus, mas não vamos dirigindo até o shopping.

Delia estalou os dedos.

Mas como sou tola. Falou. Eu me esqueci de dizer que já peguei

Ela remexeu na bolsa.

Após alguns segundos, mordeu o lábio inferior, e uma luz esverdeada iluminou a bolsa. Aqui está. Anunciou, me entregando a permissão, ou pelo menos um objeto que tinha sido a permissão havia cinco segundos, antes de Delia realizar o

minha carteira de motorista? Está aqui em algum lugar

feitiçozinho de mudança e transformá-la em uma carteira definitiva.

E quando você fez dezesseis anos? Perguntou Annabelle, com uma expressão entretida no rosto outrora sério.

Há alguns dias. Delia sorriu levemente. Você me conhece, não gosto de criar alvoroço por causa de pequenas coisas como aniversários.

57 — Quatro meses e três dias. — Lembrou-a Zo. Delia ficava contando os dias

57

Quatro meses e três dias. Lembrou-a Zo. Delia ficava contando os dias

que faltavam para o seu aniversário de dezesseis anos, como vinha fazendo desde

os oito.

Dois dias. Corrigiu Delia automaticamente. Ela suspirou com força. Valeu a tentativa.

Franzi a testa. Não havia a menor chance de nenhuma de nós acreditar na história da carteira falsa. A parte assustadora era que discussões como essa sempre acabavam favoráveis a Delia, por mais ridículas que fossem. Menos conosco. Tal era a glória de ser Delia Cameron.

Os olhos de Delia brilhavam de forma travessa.

Quer que eu transforme a sua permissão em carteira definitiva? ofereceu ela.

Era uma oferta muito tentadora.

Mais tarde. Respondi. Agora temos que encontrar um jeito de ir para o shopping.

Delia fez um beiço exagerado.

Vamos andando. propôs Zo. Qual a vantagem de se morar perto do shopping se não for para andar até ele de vez em quando?

A sensação de saber que o shopping está perto. Retrucou Annabelle,

enquanto nós quatro pegávamos nossas bolsas e andávamos até a porta da frente. Eu e Zo encaramos Annabelle. A resposta é da Delia, não minha. Esclareceu.

Eu tive um sonho ontem à noite. Declarei assim que atravessamos a

rua. Alguma coisa sobre estar com elas três me fazia querer desabafar tudo e mais

um pouco.

Um sonho com Kane? Supôs Delia com conhecimento de causa. Ele estava gato? O que você estava vestindo?

Não, não foi um sonho com Kane. Respondi. Pude sentir o sorriso

besta se formando no meu rosto só de falar o nome dele. Bem, na verdade tive

58 um desses também, mas não era dele que eu estava falando. — Olhei para

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um desses também, mas não era dele que eu estava falando. Olhei para Annabelle. Eu sonhei com as vozes que tenho ouvido.

Apesar de saber que elas acreditavam em tudo o que eu havia falado, ainda tinha a sensação de que soava como uma louca.

Quer dizer, sonhei com os donos das vozes. Parei. Acho que eles são

reais.

Silencio. Silêncio absoluto.

Andamos um pouco até eu começar a falar outra vez.

Eles disseram que precisavam da nossa ajuda. Não disseram pra quê, mas

acho que temos esses poderes por causa deles. Era tudo muito confuso na minha mente, e estava ficando ainda mais à medida que eu pronunciava tudo em voz alta, como se a confusão estivesse dentro da minha boca.

Eles têm nomes? Perguntou Annabelle, sempre perguntando as coisas certas, na hora certa.

Adea. Revelei. E Valgius.

Por que vocês estão sussurrando? Perguntou Zo secamente. É algum segredo de estado?

Eu não estava com o menor humor para sarcasmo.

Não me faça atear fogo em você. Ameacei.

Zo sorriu e gargalhou.

Você não tocaria fogo nem na lata de lixo. Observou, colocando o braço em torno do meu ombro. E é por isso que eu te amo.

Éramos amigas havia tanto tempo que às vezes eu me esquecia de que Zo tinha um lado doce.

Não demorou mais de cinco segundos para que o abraço carinhoso virasse uma gravata.

Pode confessar. Ordenou. Você também me ama.

Delia revirou os olhos.

Delia revirou os olhos. 59 Dei uma cotovelada na barriga de Zo e, em retaliação, ela

59

Dei uma cotovelada na barriga de Zo e, em retaliação, ela bagunçou o meu

cabelo.

Cuidado Zo. Advertiu Delia, não conseguindo se conter. A Bailey

morde. Annabelle e Zo começaram a rir descontroladamente e cometi a imprudência de começar a rir com o cabelo no rosto, e acabei com a boca cheia de

fios de cabelo.

Hã. Disse uma voz que eu não estava com a menor vontade de ouvir. A Bailey morde?

Zo me soltou, eu me recompus e encarei, horrorizada, o dono da voz.

Seu cabelo é como o luar.

Kane estava sentado atrás do volante do seu carro esportivo preto, olhando para nós com seus olhos perfeitamente lindos.

Por que todas as vezes que Kane me via na vida real eu estava em alguma situação vergonhosa? Nas últimas vinte e quatro horas, ele tinha me visto no chão e numa gravata, me engasgando com meu próprio cabelo.

E agora pensava que eu mordia as pessoas. Era oficial. Os deuses do amor me odiavam. E queriam que eu sofresse. E

Não se preocupe, Kane. Provocou Delia, com um sorriso malicioso. Bailey não morde com força.

Meu queixo caiu.

Delia. Sibilei.

Kane gargalhou também.

Também não mordo com muita força. Declarou.

Kane parou por uma fração de segundo, me encarando, e minhas bochechas esquentaram.

60 Sem incêndio! Pensei furiosamente. A última coisa que eu queria fazer era atear fogo

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Sem incêndio! Pensei furiosamente. A última coisa que eu queria fazer era atear fogo em Kane. Eu tinha certeza de que isso seria esquentar as coisas até demais. Respirei fundo, forçando-me a me acalmar.

Meninas, vocês precisam de carona para algum lugar? Perguntou

Kane.

Aleluia, ele tem um carro. Disse Delia.

Adoraríamos uma carona. Disse Annabelle interpretando a resposta

de Delia.

Trinta segundos depois, eu estava no banco da frente, com Delia, Annabelle e Zo apertadas no banco de trás.

Aonde estão indo? Perguntou Kane.

Ao shopping. Respondi.

Sempre uma boa escolha. Falou ele, e eu não conseguia saber se ele estava tirando sarro da nossa cara ou se falava sério.

Abri a boca, depois fechei novamente. O que eu deveria dizer? Ele era o senhor Importante e eu era Bailey, a Rainha de Nada.

Você vai ao baile na segunda-feira? Perguntou Delia do banco de trás. Ela nunca teve problemas para falar com meninos.

Provavelmente. Respondeu Kane.

Bailey provavelmente vai também. Informou Delia. Era claramente uma garota em uma missão.

Virei para trás e a encarei. Primeiro, ela faz parecer que eu gosto de morder pessoas, depois praticamente me joga para cima dele? Eu ia matá-la. Ia matá-la tanto que sobraria apenas uma pilha de roupas de grife cobertas por cinzas de Delia.

Olhei pela janela, determinada a não virar para Kane. Obviamente, ele não tinha prestado muita atenção à proposta de Delia. Paramos no shopping mais ou menos dois dolorosos minutos depois.

61 — Obrigada pela carona. — Disse Annabelle. — Nos vemos no baile. — Delia

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Obrigada pela carona. Disse Annabelle.

Nos vemos no baile. Delia deu uma piscadela para Kane. Todas nós. E acrescentou um olhar significativo na minha direção.

Garota morta andando, pensei, enquanto saltava do carro.

A gente se vê. Resmungou Kane. Delia o encarou.

A gente se vê na festa. Corrigiu-se ele com um sorriso. Bailey?

Ele tinha acertado meu nome. Era um milagre.

Sim? Não era exatamente uma resposta brilhante, mas pelo menos

consegui dizer alguma coisa em vez de ficar ali parada encarando aqueles olhos azuis maravilhosos. E o jeito que o lábio dele se curvava nas pontas quando ele

olhava para mim. E

Guarde uma dança para mim.

Essas palavras realmente saíram da boca dele.

Claro. Eu disse, completamente incapaz de dizer uma frase com mais de uma palavra.

Claro.

Respondeu

Kane,

e

nossos

olhares

se

cruzaram

por

uns

instantes, presos em outro momento de silêncio.

A gente se vê. Disse ele.

Isso.

Isso? Perguntou Delia assim que Kane se afastou. O garoto por

quem você é apaixonada desde os onze anos diz que vocês vão se ver e você diz

"isso"?

Eu não acredito que você fez isso! Delia me lançou um olhar inocente.

O quê?

Você praticamente me jogou para cima dele. Acusei.

62 — E você pode me agradecer depois. — Devolveu Delia. — Por enquanto temos

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E você pode me agradecer depois. Devolveu Delia. Por enquanto temos um assunto sério de tatuagens para resolver.

Eu a teria esmagado, mas, como estava sorrindo feito uma idiota, não consegui. Kane queria dançar comigo.

Seu cabelo é como o luar. Lembrei-me do sonho. Conheço-te, conheço-te. Talvez eu tivesse pegado um pouco da premonição de Zo junto com minha pirotecnia.

curiosa.

Por

que

você

acha

que

tem premonição?

Perguntou

Annabelle,

Eu estava começando a ver o lado ressaltado por Zo, a parte negativa de Annabelle ter esse poder de leitura de mentes.

Foi só um sonho que tive. Falei, surpresa por ela não ter percebido

nada antes. Eu mal tinha pensado em outra coisa durante toda a manhã. Deixa

para lá. Eu disse quando ela abriu a boca novamente. Não tem importância.

As três me encararam, sorrindo.

O quê? Eu quis saber.

Bailey está apaixonaaada. Disse Zo, alongando a palavra.

Cala a boca. Resmunguei, mas não conseguia apagar o sorriso do meu rosto. Não era paixão. Não exatamente. Isso era

Será que a gente simplesmente pode fazer o que viemos fazer aqui?

Perguntei.

Delia agarrou meu braço.

Bailey tem razão. Concordou ela.

Lancei-lhe um olhar agradecido.

A gente pode falar sobre a vida amorosa dela mais tarde. Agora vamos. Com o conhecimento de causa de quem passaria pelo shopping com os olhos vendados mais rápido que nós, meros mortais, com os olhos arregalados, Delia

63 dirigiu-se ao estande onde havíamos comprado as tatuagens. Quando chegamos lá, vimos à placa.

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dirigiu-se ao estande onde havíamos comprado as tatuagens. Quando chegamos lá, vimos à placa. FECHADO EM PREPARAÇÃO PARA MABON.

Mabon? estranhou Delia. O que é Mabon? Parece nome de marca de maquiagem.

É um nome chique para Equinócio de outono. Disse Annabelle. Nós a

encaramos. Como era possível que ela soubesse essas coisas? Ela enrubesceu.

Eu li em algum lugar. Explicou, e tive a sólida impressão de que Mabon logo passaria a integrar as anotações coloridas que ela estava fazendo.

Mas isso é uma grande porcaria. Declarou Zo, que nunca disfarçava nada. Voltamos à estaca zero.

Toque a sua tatuagem, Bailey. Comandou Annabelle repentinamente.

Por quê? Perguntei, mas a minha mão já estava se mexendo. Olhei

para Annabelle, alarmada. E você que está movendo a minha mão ou sou eu?

Annabelle olhou para mim, espantada.

Eu

eu não sei.

Balancei a cabeça para clareá-la, depois deixei as pontas dos dedos tocarem a tatuagem na região lombar.

Ela vem. Furiosa, vingativa. Nada poderá impedi-la de nos destruir. Ela vem.

Repeti as palavras em voz alta para minhas amigas.

E quem é essa tal que aparentemente está vindo? Perguntou Zo.

Não sei. Respondi. Só sei que, seja quem for, está vindo desde ontem à tarde. Logo depois que aplicamos as tatuagens, as vozes só diziam coisas do tipo "ela vem". Fechei os olhos, querendo que as vozes dissessem mais, mas não veio nada. E isso. Concluí. É só o que estou recebendo.

Tente tocar a bancada. Disse Annabelle. Ou a placa. Se a pessoa que

nos vendeu as tatuagens tiver alguma coisa a ver com isso, talvez tenha deixado

alguma espécie de

em tudo para ver se ouve alguma coisa.

sei lá, alguma espécie de rastro. E melhor você passar o dedo

64 Era um pouco estranho, mas eu estava me acostumando com A-Belle assumindo as rédeas

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Era um pouco estranho, mas eu estava me acostumando com A-Belle assumindo as rédeas da situação.

Mas, se as vozes realmente forem Adea e Valgius falando comigo

Sussurrei de volta, cuidando para não falar alto demais a respeito das vozes, afinal, eu não queria que o shopping inteiro pensasse que eu era maluca. por que elas

simplesmente não me dizem o que querem que eu saiba?

Annabelle mordeu o lábio inferior pensativa.

Talvez precisem falar com você por intermédio de alguma coisa.

Sugeriu. Como a tatuagem. Ou alguma outra coisa nessa bancada.

Pensei por um instante, depois passei as pontas dos dedos pelo quiosque. Nada. Toquei a placa levemente, e ao tocar a palavra "Mabon" as vozes preencheram minha mente.

Ela vem, ela vem. Lutar, viver, ela vem.

A mesma coisa de sempre, pensei.

Nossas vidas. Sua luta. Ambos os mundos.

Transmiti as novas informações ao grupo, e elas me encararam, querendo mais do que uma sugestão críptica de que precisaríamos lutar por nossas vidas em breve.

Por

que

mais

ninguém

consegue

ouvir

essas

vozes

esquisitas?

Perguntei, me sentindo completamente inútil. Por que sempre tem que ser eu?

Minhas amigas não disseram nada. Zo passou a mão pela placa e, sem qualquer aviso prévio, engasgou, seus olhos revirando e a luz azul-esverdeada que eu suspeitava seriamente de que só eu podia ver afluindo de seu rosto.

Acho que tem mais alguém ouvindo as vozes esquisitas. Constatei, minha voz tremia. Que coisa boa

Não acho que ela esteja ouvindo nada. Corrigiu Annabelle suavemente.

Acho que ela está vendo alguma coisa. Ela olhou para mim e engoliu em seco. Alguma coisa ruim.

Zo?

Zo não respondeu.

Zo não respondeu. 65 — Sério, agora você está me assustando de verdade. — Eu disse.

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Sério, agora você está me assustando de verdade. Eu disse.

Zo? A voz de Delia estava estranhamente baixa. Vamos, querida,

saia disso.

Sem qualquer indicação, a luz desapareceu, e Zo caiu para frente, por sobre o quiosque, tentando recuperar o fôlego.

O que você viu? Perguntamos Delia, Annabelle e eu ao mesmo tempo.

Uma garota. Respondeu Zo. Com cabelos extremamente louros. Quase brancos. Ela estava cantando baixinho para si mesma uma música de dar arrepios que parecia uma mistura de canção de ninar, marcha fúnebre e uma espécie de boy band dos anos noventa. Ela estava em uma varanda ou coisa parecida, e depois os olhos dela simplesmente se fixaram, como se ela estivesse vendo alguma coisa que o resto de nós não enxergava. Zo parou. E ela simplesmente olhava fixamente para o nada, depois os olhos dela brilharam, como se tivessem literalmente se acendido, e ficaram azuis, depois as pupilas desapareceram e eu a vi sair do próprio corpo.

Sair do próprio corpo? Perguntei. Alguém parecia louca e, pela primeira vez, não era eu, mas eu não conseguia me alegrar com isso. Não com Zo daquele jeito, parecendo prestes a cair no choro. Zo, que eu só tinha visto chorar uma vez desde que ela tinha quatro anos.

Ela simplesmente saiu. Vi o corpo dela, e a vi: ela não estava no corpo. E

depois algo a puxou para longe, ela desapareceu, e o corpo ficou ali parado, e o azul deixou seus olhos, que se fecharam. Zo engoliu em seco, e senti os cabelos da minha nuca se arrepiarem, um por um. E depois Continuou Zo, olhando para o chão, sua voz reduzida a um sussurro. o corpo caiu para a frente, para fora da

varanda.

Zo levantou os olhos para nós, com a voz enrijecida.

Ela estava no décimo primeiro andar.

66 Comecei a compreender suas palavras sem conseguir afastar a imagem da bum, não tinha

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Comecei a compreender suas palavras sem conseguir afastar a imagem da

bum, não tinha mais

minha cabeça. A menina, ali sozinha, cantando, e em seguida garota.

Premonição

Sentenciou Annabelle

com seu tom

de

eu-conheço-

minhas-definições significa ter visões do futuro.

Apertei o ombro de Zo.

Então, o que quer que você tenha visto