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sintese & precisa por exempla, ‘composto de apego e ‘ivalidade deve ser, “0s objetos das paixdes sio ai - simples valncias, zonas de atra¢ao e de repulsao, estad encontrando seu lugar componente essenci compreensao do homem como ser. linguageiro, mas também como ser J afetivo © social. ml) ano8 ri ISBN 85 08 04472 0 Apesar de sua evidente atualidade, est lvo se inscreve numa tradigao jd milenar do pensamento ocdenta: 0 es- tudo sistent erigoroso das paixdes humanas. Na Grécia antiga, o impulso passioal(catalogado na metre da me- icing hipocrtcl foi compreendido en ‘quanto manifestagao de um “tempe- Tamenta,truto da mistura especifica de certos humores, capazes de engen Arar desde 0 violento furor até a me lencolia mais profunda, Jécom Montesquieu, no século XVII, 023 que se ocupou exaustivamente do tema pelas mais diferentes éticas, o estudo das paixdes vai ganar uma dimenséo politica, pois ¢ através de las que 0 autor das Cartas persas ex plicita os fundamentos do poder des- pati. Os costumes dssolutos do dés ota lentregue a toda espécie de apelo sensorill, somados ao cima de calor @ lubricidade que o envalve, é que vo criar as condigdes necesséras ao exer- cicio da tirenia Enfim, a partir dos anos 70 destes Algirdas Julien Greimas e Jacques Fontanille SEMIOTICA DAS PAIXOES » Dos estados de coisas aos estados de alma TRADUGAO Maria José Rodrigues Coracini Sumario shri Temas Introdusdo ee volume 33 © mundo como descontinuo > —____________.._ 9 Estudos semidticos A existéncia semitica —__________________ 10 © mundo como continuo 1 Titulo original: Sémiotique des passions CAPITULO I Editions du Seuil, 1991 A epistemiatog nace we ‘Fernanda Paitio DO SENTIR AO CONHECER 21 ee vie > Oicheita: gen Sorina MRE Wales wBPRAEE 9p PREPARAGAO DE TEXTO. a Fae rg re Jones Perc foe Santee O horizonte tensivo are HA 2B Lidia Angela ba Marck * As precondicdes (da significaca0) ee 24 As valéncias EDIGKO DE ARTE (nil Divina Rocha Come Instabilidade e regressio 28 ee ees = A estese Maria Ines Rodrigues, — A instabilidade actancial 30 Eason Batista dos Santon © transformar-se e as premissas da modalizagao 32 Exore Botini = Protensividade e devir ss 3 = As modulagdes do devir 3 — Modulacées, modalizasées e aspectualizagdes 36 eaatemis Para um mundo cognoscivel 88 aie =A somagae Siti 5 thar Ss WN 5 Hixon oh tv 38 . — A categorizagan 388 ISN bE ise stay seins O49 A SINTAXE NARRATIVA DE SUPERFICIE: OS INSTRUMENTOS DE UMA SEMIOMCA DAS PAKOES ea ISBN 85 08 04472 0 As estruturas modais aD O sujeito, 0 objeto e ajungio Da valencia a0 valor a ae 1993 X £3 Ss estruturas actanciais Se Todos os direitos reservados Os sujeitos modais ag Editora Atica S.A. no ft painted faa a =. Rua Bario de Iguape, 110 — CEP 01507-900 = 0 sser do fazer 31 Tel.; PABX (011) 278-9322 — Caixa Postal 8656 — Modos de existéncia e simulacros existenciais 52 End. Telegrafico “Bomlivro” — Fax: (011) 277-4146 — Sujeitos modais e simulacros existenciais 55 ‘Sao Paulo (SP) Os simulacros 56 = Os simulacros modais 56 — Os simulacros passionais SB Os actantes narrativos ¢ as paixdes a ee DISPOSITIVOS MODAIS: DO DISPOSITIVO A DISPOSICAO eal. © agrupamento modal do ser 61 = O excedente passional «2 = Os paradoxos da “obstinagio” Descrigio do dispositivo modal 64 — Ainda a obstinagao 65 — As contradigées internas do sujeito 67 Do dispositive a disposigdo 69 — A disposigao como “estilo semidtico”” 70 — A disposigio como programagdo discursiva 71 — A disposigéo como aspectualizagao = iT A sintaxe intermodal ——______. METODOLOGIA DAS PAIKOES A terminologia As taxinomias passionais conotativas 79 — A praxis enunciativa ¢ os primitivos 79 — Espécies e nfveis da taxinomia 81 — A nomenclatura passional universo passional socioletal — A humilhagio didética — Teoria das paixdes teoria do valor O universo passional idioletal = Um desespero otimista — Um querer pessimisia Filosofia e semiética das paixdes — A taxinomia cartesiana — Algoritmos e sintaxe em Spinoza CAPITULO I A propésito da avareza ‘A.CONFIGURAGAO LEXICO-SEMANTICA 102 A performance: @ acumulagio © a retengio' 102 — A competéncia passional LIS 104 — Uma modulagao comunitdria 106 Sone RE _ erence TS Os parassin6nimos = A avider =A sovinice, a mesquinkez — A poupanga ea economia Os anténimos — A dissipagao —A prodigalidade — A generosidade, 0 desinteresse ¢ a largueza CONSTRUGAO DO MODELO O microssistema e sua sintaxe ‘A dupla modalizacio Os niveis do objeto Os simulacros existenciais do sujeito Simulacros ¢ modos de existé “A leiteira e a bilha de leite”: investimento ou dissipagao? ‘ — Paixdo e veredicgao — A reembreagem sobre 0 sujeito tensioo DOIS GESTOS CULTURAIS: A SENSIBILIZAGAO EA MORALZACAO A sensibilizagio — Variagées culwurais — A sensibilizagdo em ato — 0 corpo sensivel — A constituigdo passional — Esbogo de um percurso patémico ‘A moralizagao — Da ética a estética — Paixées socializadas — A estratificagdo do discurso moral — A moralizacao do comportamento observdvel — 0 esbogo do esquema patémico (seqiténcia) Observagées finais Seta OBSERVAGOES SOBRE A COLOCACAO EM DISCURSO. DAAVAREZA A praxis enunciativa A actorializacao: papéis tematicos e papéis patémicos 107 107 109 M1 4 4 15, 417 120 120 122 124 128 131 133 136 137 140 140 142 143, 145, 147 148 148 149 150 153, 155 156 157 158 159, A aspectualizagio = A escansdo — A pulsagao — A intensidade CAPITULO IIT O ciime ACONFIGURAGAO Apego e rivalidade Primeira configuragio genérica: a rivalidade — Rivalidade, concorréncia e competigao — A emulagao —A inveja = Da sombra ao citime — Ponto de vista e sensibilizagio = 0 ciumento no espetéculo Segunda configuragio genérica: 0 apego — 0 apego intenso — 0 selo — A possessdo ¢ 0 prazer — A exclusividade citime na intersegdo de duas configuragdes A CONSTRUGAO SINTATICA DO CIGME Os constituintes sintéticos do citime — A inguietude — Difidéncia ou desconfianga? = Esbogo do modelo do citime — Papéis dispositivos patémicos © CIUME, PAIXRO INTERSUBJETIVA O simulacro do objeto-sujeito amado: da estética = Um resto de esperanza — Universalidade e exclusividade A conversio de actante Os simulacros dos rivais ¢ a identificagao = 0 mérito do rival 164 164 165 166 172 172 174 174 174 176 7 178 180 181 181 184 185 187 190 192 192 193 195 199 200 a bantam taliban bin sblhenebinabitnc: = Da emulagdo ao édio 2 210 = A presungio do ciumento OD ‘Manipulagdes passionais es 213 — Pedido e confissao de dependéncia ss 213 = A cena ea imagem 216 — Contramanipulagdo: fingir ndo acreditar mais. 218 A moralizagio 2 a 29 — Desprezo ou superestima? 219 — Honra e vergonha do ciumento 201 — A pressdo da to.alidade social 222 —A moral da postura 24 Dispositivos actanciais e modais do ciime 227 — Dispositivos actanciais ae St Bh 97 wo Apiataxe modal 2 OB — Macrossegiténcia e microssegiéncia 231 = A mucrossegiténcia = a A microssegizéncia 233 — 0s simulacros existenciais 288 ACOLOCAGAO EM DISCURSO: © CIUME NOS TEXTOS =. 239 Aspectualizagio: 0 componente sintético _ 240 Os esquemas discursivos passionais: formas can 242 — A macrossegiitncia 282 — A microsseqiténcia 283 (Os esquemas passionais: realizagdes concretas 245 — Os amores fiducidrios de Roxane 285 — 0s vestigios do esquema narrativo em La jalousie 247 — Disseminagao e agitagdo em Um amor de Swann 250 — Perturbagées e saidas prematuras______ 254 Formas realizadas da microsseqiiéncia 255 — A inguietude de Swann 255 — As suspeitas de Oreo _________ 259 — Swann e a paixdo pela verdade 262 — A prova: Otelo no labirinto 266 — Um investigador lobotomizado 268 = Uma aspectualizagao sensicel 270 — A janela iluminada: simulacros figurativos e aspectualizagio expatadl seoutuice da agin, consttlely progiessivsnucaie pQ7y — Da cena enquanto armaditha 272 — La jalousie: ego desapareceu 275 citime posto em discurso: o componente semintico =O pequeno detalhe comcreto =O mineral ¢ 0 vital — O poder isotopante do sofrimento: idioletos e socioletos Nota sobre a quantificagio A guisa de conclusio 217 277 278 280 pS umes b 287. 292 Introdugao Jcomo disposigdo hierérquica dos modelos que se implicam uns nos outros € pelos outros, deve constantemente interrogar-se sobre esse percurso, considerado como atividade de construcio. Besa atividede ‘de construgao, captada em sua “historicidade’ entio reformulada como “percurso gerativo”, € seu sujeito deve, em cada nivel, tornar-se_competente_para_produzit_o seguinte. ‘Uma teoria com objetivo cientifico, nessas condicdes, fica perma- nentemente alerta as prOprias lacunas e falhas, a fim de preenché- las, retificé-las. O edificio te6rico no pode ser construido, por esse aspecto, num gesto fundador acompanhado de uma seqiéncia de dedugoes teorematicas: uma descoberta localizada na superficie do texto, uma inconsisténcia que ai se perceba nao deixam de ressoar em profundidade na teoria e de provocar perturbagdes, suscetiveis de questionar a economia do percurso gerativo em seu conjunto. Isso significa que, dedutiva quanto 4 forma que assume o desdobra- mento de seu percurso, a mejodologia semidtica é‘indutiva”” na ‘ocasiéo da exploragéo de sua instincia ad quem e “hipotética” em ‘suas formulagdes epistemolégicas ab que. A consiugao da teoria, ‘considerada como discurso genético e gerador, visa a adiantar-se “as arrecuas” para ultrapassar-se, transformando-se em discurso gerativo, isto €, coerente, exaustivo e simples, que respeita o prin- cipio do empirismo, ~~ Nao € de espantar, pois, que a parte mais bem explorada, ¢ tal- vez a mais eficaz, do percurso gerativo encontre-se justamente no espaco intermediério, situado entre seus componentes discursive € epistemol6gico: trata-se, sobretudo, da modelizago da narratividade ede sua organizacio actancial. A concepsio de actante desembara- ado de sua gangue psicolégica e definido unicamente por seu fazer a condigio sine qua non do desenvolvimento da semistica da aco. Berea que se concebe como percurso, isto é, © mundo como descontinuo Tal semiética da ago, construida progressivamente @ partir de generalizagdes, € da exaustividade postulada das formas narrati- vas consideradas para’ além das variagdes culturais, implica uma 10 SEMETICA DAS PADIDES interrogagio sobre a racionalidade e, em.particular, sobre a coerén- cia dos conceitos que a fundam “‘a montante”’, para que as conse- qiiéncias extraidas dedutivamente autorizem um fazer semidtico “a jusante”. Q fazer do sujeito narrative encontra-se assim reduzido, num nivel mais profundo, ao conceito de transformagao, isto & a uma espécie de pontualidade abstrata, esvaziada de sentido, que produz tuptura entre dois estados. O desenvolvimento narrativo pode, ‘entdo, justificar-se como segmentag3o de estados que se definem ‘unicamente por sua “transformabilidade”. O horizonte de sentido que se perfila por detrés de tal interpretagdo € 0 do mundo conce- bido como descontinuo, 0 que corresponde, alids, a0 nivel episte- mol6gico, a colocagdo do conceito indefinivel de “‘articulagio”, pri- meira condigdo para poder falar do sentido enquanto significagdo. Desde entio, a possibilidade de uma sintaxe narrativa, conce- ida como conjunto de operagoes que afeta unidades discretas, con- ‘voca uma epistemologia racional, representando as primeiras articu- ipoerda Senificagdo ‘— como 0 quadrado semiético —, sob a forma de termos que no passam de puras posigSes manipuladas por um sujeito de somagio. Trata-se, portanto, afinal de contas, de um modelo epistemolégico clissico, que poe em rela¢o um’ sujeito conhecedor, enquanto operador, em face das estruturas elementa- _Fes como espeticulo do mundo cognoscivel, O sujeito da atividade de construgdo tedrica s6 € a esse respeito competente para conhe- cer e categorizar, em comparagio com uma discretizagio do hori- zonte de sentido. Ws Aba Entretanto, 2 transformagio como quebra pontual, constitutiva do descontinuo analisivel, requer outras condig&es e abre novas inter- rogacdes: operacio abstrata, mas formulada, em nfvel mais superfi- cial, como fazer do sujeito, ela obriga a imaginar condigdes prévias a esse fazer, uma competéncia modal do sujeito narrative tornando possivel sua execugo. Duas questdes surgem . Somes levados, primeiramente; a perguntar-nos em que consiste-g que s= chana 6: “modal” e, em particular, se ele diz respeito de todo ao desconti- nuo cognoscivel; no. podemos deixar de interrogar-nos. a seguir sobre o “modo de existéncia”” de uma competéncia modal, fonte A existéncia semistica A rode, Cork "0 pero Ws wus" U n Cwwedttols, \Ye toda operatividade. A tradicZo lingistica, apoiando-se mais pre- cisamente na distingio saussuriana entre lingua e fala, habituou- nos @ oposi¢do entre virtual ¢ atual (ou atualizado e realizado), uti- lizados em geal como conceitos instrumentais sem que um debate de fundo, ao menos que se saiba, tenha sido realizado pelos pré- prios lingilistas: A semiética ndo pode, no entanto, permanecer af. Enquanto se opunha simplesmente a fala “‘foneticamente” -reali- zada a uma lingua considerada como sistema virtual, podia-se, no final das contas, remeté-la a um alhures extralingifstico: referindo- se a uma “logica da linguagem”, a Iingua como “ato: social” ou como manifestagio do’ “espirito humano”, importava sobretudo preservar-Ihe 0 status de “objeto cientifico auténomo”. No caso que temos de considerar, 0 do status do sujeito do fazer, forcoso nos € distinguir dois modos de existéncia no espaco da fala saussu- riana, isto é no discurso ou, o que significa quase a mesma coisa, na vida captada c cnccnada como discurso. Considerada como pré- requisito, como_potencialidade do fazer, a competéncia existe pri- “ineiro como estado do sujeito; esse estado é uma forma de seu “ser”; forma atualizada, anterior a realizago. Muito mais, se examinarmos, no nivel epistemol6gico, as con- digdes nas quais a significago pode aparecer sob a forma de unida des discretas (no quadrado semidtico, entre outros), a mesma pro- blemética surge: somos levados a perguntar-nos, ingenuamente € como por projecio, qual seria 0 modo de existéncia de um sujeito operador antes de suas primeiras somagGes. Ele também, enquanto sujeito epistemolégico, deveria atravessar um modo de existéncia virtual antes de atualizar-se, como sujeito conhecedor, pela discre- tizagdo da significagdo; a semelhanca entre 0 percurso do sujeito epistemolégico ¢ aquele reconhecido para o sujeito narrativo (v tualizagdo, atualizacao, realizagdo) ndo deve surpreender: a conta-~ iminagao da descrigio pelo objeto descrito é fenémeno bem comum, pelo menos nas ciéncias humanas. Pouco importam as denomina- ‘gOes que receberdo esses modos de existéncia sucessivos; uma das questdes centrais da ‘semi6tica parece ser atualmente =" tanto ‘quanto para Saussure, outrora, quando cle postulava a autonomia do objeto cientifico “lingua” — 0 reconhecimento de uma dimen- ‘sGo auténoma e homogénea, de wm modo de existéncia semiético, dimensdo na qual se situam as formas semisticas, que se podem hierarquizar a seguir, distinguindo diferentes estases: 0 “potencial”, o “virtual”, o “atual”, 0:“realizado”, que, por sua ordem ¢ inter- elih Seth Gece, 9 Sit Wp hint 2 SEWOTEA DAS PADIOES definicdo, constituiriam as condigbes necessirias da semiose: Para a semiética, a questo consiste, portanto, em afirmar essai pracsen tia in absentia, que €a existéncia semiética como objeto de seu dis curso e como condigZo de sua atividade de construgio te6rica, man- tendo, entretanto, a distancia necessdria com relagio aos compro- missos ontolégicos. Manter um discurso no “horizonte éntico”” & para a semistica, interrogar um conjunto de condigdes ¢ de precon- digoes, esbogar uma imagem do sentido anterior ¢ necessiria a0 mesmo tempo a sua discretizagao, ¢ no procurar fazer reconhecer seus fundamentos ontolégicos. E a esse custo apenas que a teoria semitica pode justificar sua propria atividade, sem para tanto trans- formar-se numa filosofia que ela ndo conseguiria ser. reconhecimento da homogeneidade fundamental do modo de existéncia das formas semisticas permite, assim, desfraldar um espaco proprio em que se exerce o fazer semidtico e a0 mesmo tempo auténomo com relac3o aos dois pontos-limite que si0 as tancias ab quo e ad quem, para além das quais se perfila 0 horizonte Sntico. Isso significa que 0 objeto semistico € fenomenal ¢ parado- xalmente “real”” ao mesmo tempo; do ponto de vista da instincia ab quo, a existéncia semistica das formas € da ordem do “manifes- tado”, € a manifestante € 0 “ser” suspeito e inacessivel; do ponto de vista da instincia ad quem, as formas semiéticas sio imanentes, suscetiveis de manifestagdo por ocasiéo da. semiose..O.discurso semidtico é, desde entdo, a descricdo das estruturas imanentes ¢ a construgao dos simulacros que devem dar conta das condicées ¢ das ‘precondicées da manifestacdo do sentido e, de certa maneira, do_ ser”. a eR SES Conceber a teoria semidtica sob a forma de percurso consiste, portanto, em imaginé-lo como caminho marcado por balizas, € ver- dade, mas sobretudo como escoamento coagulante do. sentido, como seu espessamento continuo, partindo da imprecisdo original € “potencial”, para chegar, através de sua “‘virtualizaga0” € de sua “atualizagio”, & fase da “realizagio”, passando das precondigbes epistemolégicas as manifestagdes discursivas. Entre a instancia epistemol6gica, nivel profundo da teoriza- do, € a instincia discursiva, a enunciagdo € lugar de mediagao, onde se opera — essencialmente gracas as diferentes formas de debreagem/embreagem e de modalizagio — a convocagio dos uni- versais semi6ticos utilizados em discurso. A colocacio em discurso 6a efetuagdo mesma dessa convocagio enunciativa, mas ela é mais emcougio B que isso: na verdade, ela no se contenta em explorar em sentido inico os componentes da dimensio epistemol6gica; ela engendra por si mesma, € porque ¢ uma pritica histérica ¢ cultural, fsto é, socioletal (e, em certa medida, individual-idioletal), formas que se fixam, se transformam em_estere6tipos e se remetem:“‘a montante”, para ser de algum modo integradas 4 “Iingua’’; ela constitui, assim, um repertério das estruturas generalizaveis — que se poderia talvez designar como “primitives”, por oposigio aos “‘universais” — que funcionam no interior das.culturas e dos universos individuais, ¢ que a enunciagio, por sua vez, pode convocar nos discurs0s realizados, Avinstancia da enunciacao é, pois, uma_verdadeira praxis, lugar de vai-e-vem enire estrututas convocaveis ¢ estruturas integré- veis, insténcia que concilia dialeticamente a geragdo — pela convo- cacio dos universais gemisticos —e a géese — pela integracio dos produtos da historia. (is configuragdes_pasional ‘para falar ape- nas delas, estio, desse- modo, ae ae instancias, j_que requerem, para sua maniestagio, certas condi- ‘Goes e precondigses especificas de ordem epistemolégica, certas operagdes particulares da enunciagio ¢, finalmente, “grades” culru- Fea gh tape nop lapcarnbsecacan peor ocean ‘modo de existéncia semiético, a0 mesmo tempo “real” € “imaginario”, talvez seja mais facilmente compreensivel, em outro nivel, por outra abordagem, sugerindo, sempre a partir das linguas naturaisy como pode ser considerada’ sua homogeneidade interna. Observou-se que 0s tragos, a8 figuras, os objetos do mundo natural, de que constituem por assim dizer 0 “‘significante”, acham-se trans- formados, pelo efeito da percepgdo, em tragos, figuras ¢ objetos do “significado” da lingua, substituindo-se ao primeiro um novo significante, de natureza fonética. E pela mediagio do corpo que percebe que 0 mundo transforma-se em sentido — em lingua —, que as figuras exteroceptivas interiorizam-se e que a figuratividade pode entdo ser concebida como modo de pensamento do sujeito. ‘A mediagao do corpo, de que 0 proprio ¢ 0 eficaz so 0 sentir, esti longe de ser inocente: ela acrescenta, por ocasiio da homoge- neizacdo da existéncia semistica, categorias. proprioceptivas. que constituem de algum modo seu “perfume” timico, e até sensibiliza — dir-se-d ulteriormente “patemiza” — c4 ¢ 14 0 universo de for- mas cognitivas que ai se delineiam. Pode-se considerar, a titulo de hipétese, que esse processo de homogeneizagio pelo corpo — com 4 SEMOTEA DAS PACES. suas conseqiiéncias timicas e sensiveis — nfo poupa nenhum uni- verso semidtico, qualquer que seja seu modo de manifestacdo, ja que nfo ha nenhuma tazio para pensar que.cle s6 diz respeito as Jinguas naturais, A homogeneizagio da dimensio semiética da exis- ‘téncia obtém-se assim pela suspensio do elo que une as figuras do mundo com seu “significado” extra-semistico, isto 6, entre outros, com as “leis da natureza”, imanentes a0 mundo, € por sua coloca- 40 em relagdo, enquanto significado, com diversos modos de arti- Culagio e de representasao semidticos; 0 que Ihes acontece de mais notével na circunstincia € que as figuras do mundo s6 podem “far zer sentido” a custa da sensibilizacdo que thes impde a mediagdo do corpo. E por isso que 0 sujeito epistemoldgico da construcio te6rica nfo pode apresentar-se como puro sujeito cognitivo “racio- nal”; com efeito, em seu percurso que conduz ao advento da signi- ficagdo e sua manifestacio discursiva, ele encontra obrigatori mente uma fase de “‘sensibilizagao” timica. © mundo como continuo A postulago da homogeneidade do universo das formas semis- ticas permite retornar aos problemas concretos suscitados pelo des- dobramento discursivo ¢ aos instrumentos metodolégicos necessé- rios, nesse nivel, a andlise. Vimos que a semistica da agio, atri buindo o status formal aos conceitos de actante ¢ de transformacio, condigfo para a instauracdo de sua sintaxe, ndo fez outra coisa senio deslocar a problematica dos investimentos semanticos, descar- regando-se sobre a nocdo de estado. Ora, 0 estado, na perspectiva do sujeito que age, ¢ on o.resultado.da-acdo, ou seu ponto de-par- tida: haveria, portanto, “estado” e “estado”, ¢ as mesmas dificulda- “Ges ressurgem; o estado é antes de mais nada um “‘estado de coi. _ sas” do mundo que se acha transformado pelo sujeito, mas € tam- bém o “estado de alma” do sujeito competénte em vista da agio ¢ a propria. competéncia-modal, que sofre.ao mesmo tempo transfor- mages. Com base nessas duas concepgées do “estado”, reaparece ‘0 dualismo sujeito/mundo. Apenas a afirmac3o de uma existéncia semidtica homogénea — tornada tal pela mediago do “corpo que sente” — permite enfrentar essa aporia: gragas a essa transmutagio, © mundo enquanto “estado de coisas” vé-se rebaixado 20 “estado do sujeito”, isto € reintegrado no espaco interior uniforme do wmoncAo ve 8 sujeito. Em outras palavras, a homogeneizagio do interoceptivo-e— do exteroceptivo, por intermédio prioceptivo, institui uma equivaléncia-formal entre os “estados de coisas”? eos» “testados de alma” do sujeito. Nao seria demais insistir, ainda aqui, no fatode que se as duas concepgdes do estado — estado de coisas, transfor- mado ou transformével, e estado de alma do sujeito, como compe> téncia para e depois da transformacio — se reconciliam numa dimen sdo semidtica da existéncia homogénea, isso ocorre & custa de uma mediagao somitica ¢ “‘sensibilizante”. O “sentir” seria, nesse caso; no que diz respeito & instaura+ 40 € a0 funcionamento do discurso epistemol6gico, © minimo exi- gido para poder resolver a aporia que ameaga. ‘A lingiiistica frastica, em alguns de seus desenvolvimentos que interessam a semistica, percebeu que 0 predicado era suscetf vel de ser sobredeterminado — modificado e confundido a0 mesmo: tempo — de duas manciras difcrentes: pela modalizagio ¢ pela aspectualizagao. A modalizagio — ao menos como foi desenvolvida pela semidtica no 4mbito das modalidades da competéncia — pode- ria eventualmente dar conta da articulagdo descontinua da narra vidade. Entretanto, a introdugio, na teoria semistica, do conceito de “estado modal”, mas sobretudo um exame mais atento do dis- curso, dava a imagem de uma “‘ondulagdo” continua, capturivel entre outras, sob a forma de variagdes de intensidade e de emara- nhados de processos, que poderiamos considerar como sua “‘aspec- tualizagdo; em face da segmentagao discreta dos estados, os emara- nhados de processos ¢ suas variantes de intensidade tornam inde sas as fronteiras entre estados ¢ embaragam com muita freqtiéncia © efeito de descontinuidade. Ora, esse embaraco ¢ essa ondulagdo no podem se explicar — seria ficil demais — pela complexidade de superficie dos discursos analisados, nem ser apresentados, sem outro exame, como simples “efeitos de sentido”. As consideragdes sobre a natureza dos estados e, mais particularmente, sobre sua ins- tabilidade, unidas a uma reflexdo mais geral sobre 0 estado do mundo, levam, pois, a interrogar sobre a concepcao de conjunto do nivel epistemol6gico profundo da teoria ea perguntar se, para além da percepcio cognitiva da significagio que a discretiza e a torna “‘compreensivel”, nao hé lugar para a instauragdo de um hori- zonte de tensées mal esbocadas que, embora situando-se num aquém do sentido do “ser”, permitiria dar conta das manifestagdes “ondu- lat6rias” ins6litas reconhecidas no discurso. 16 SEWOTICA DAS PAIS A solugo aparentemente mais simples consistiria evidente- mente em considerar essas tens6es subjacentes como propriedades da propria colocagdo em discurso. Mas ocorre que elas permitem também dar conta da categorizagio ¢ da modalizagio narrativas; com efeito, € nesse horizonte de tenses inarticuladas que se exer- cem justamente as primeiras somagdes do sujeito operador; discre- tizando e fazendo aparecer_as. primeiras unidades. significativas: Em outras palavras, em confronto com as dificuldades metodol6; cas que surgem na andlise discursiva de superficie, a teoria semié- tica obriga-se a repercuti-las e a procurar resolvé-las no nivel episte- mol6gico profundo. Esse retorno critico € caracteristico da semi6- tica considerada como “projeto cientifico”’: para dar conta das difi- culdades que faz surgir a anslise na rasante do discurso — indugio, depois generalizagio —, ela obriga-se a supor outro modo de fun- cionamento hipotético, que vai, se for 0 caso, até as premissas, a fim de poder proceder, ein seguida, & colocasdo dos procedimentos hipotético-dedutivos. Tal metodologia s6 € concebivel num quadro epistemolégico em que a coeréncia ¢ o valor cientifico por excelén- cia; a0 contririo, uma epistemologia “modular”, como parece exbo- gar-se nas cigncias cognitivas, porque ela accitaria uma relativa inde- pendéncia das problemiticas umas com relagZo as outras, em detri- mento da coeréncia, dispensaria de uma s6 vez grande parte do retorno critico que, a cada novo avango te6rico, obriga a medir e a expandir suas conseqiiéncias sobre toda a construgio teérica. A colocago de um sujeito operador, capaz de produzir as pri- meiras articulacSes da significagio, € 0 primeiro passo para estabe- lecer a teoria da significagdo como economia que gera as condicdes de produgio e de captacio da significagdo; trata-se agora de conce- ber e de realizar um esboco das precondigées prévias 20 surgimento das condigées propriamente ditas. O “‘ser” do mundo e do sujeito no diz respeito a semiética, mas & ontologias ele é, para usar outro jargdo, a ‘‘manifestante” de uma “manifestada” que entrevemos. Espera-se da semistica, por sua vez, que ela capte o “parecer” € constitua um discurso epistemol6gico que formularia tais precondi- {g0es, como tantos simulacros explicativos, em particular no que concerne as dificuldades e as aporias levantadas na andlise discur- siva, Esse discurso hipotético, que captaria em filigrana o “parecer do ser”, nao € evidentemente proprio para suscitar a certeza; mas 6, de certa maneira, 0 mesmo tipo de discurso que mantém a epis- temologia das ciéncias da natureza, quando ela fala, por exemplo, emcoxgho 7 do universo ¢ de suas origens, do acaso ¢ da necessidade. E prova- velmente proprio de todo projeto cientifico que; dando um minimo epistemol6gico — aqui: 0 imperativo fenomenolégico =, se cria, a0 mesmo tempo, um espaco tebrico “imaginirio” © até mitico, um pouco & maneira desses anjos newtonianos, condutores da atra- glo universal. E evidente que esse “imaginario da teoria”, essas poucas linhas tragadas no fundo do horizonte Ontico, esses conceitos mal esbogados nao devem dizer respeito @ ordem do arbitrérios sua razo de ser repousa nas restricdes epistemol6gicas anteriormente reco- nhecidas e nas exigéncias metodolégicas que as suscitam e desafiam. Trata-se af, € claro, de um “parecer do ser”, mas fundado na pri- tica operat6ria e visando a sua eficacia. Na busca de materiais que permitam reconstituir imaginariamente o nivel epistemol6gico pro- fundo, dois conceitos — os de tensividade e de foria — parecem-nos portadores de rendimento excepcional. A tensividade, fendmeno ampla e devidamente constatado, caracteristica inseparivel de todo desenrolar processual fréstico ow discursivo, parecia poder ser dominada, num primeiro tempo, pela projecio das estruturas do descontinuo, com o risco apenas de adiar a construgao de uma gramética aspectual que desse conta, 20 mesmo tempo, de ondulagdes temporais ¢ de sinuosidades espa- ciais. Entretanto, a urgéncia de completar a teoria das modalida- des, equilibrando as modalidades do. ser ¢ uma interrogacio insis- tente sobre a natureza dos estados, dindmicos e inquietos, obrigava a enfrentar diretamente a problemética das paixdes. Ora, um fato perturbador surgiu de imediato: nao apenas 0 sujeito do discurso € suscetivel de transformar-se em sujeito apaixonado, perturbando seu dizer cognitiva e pragmaticamente programado, mas também © sujeito do “dito” discursivo € capaz de interromper e de desviar sua prépria racionalidade narrativa para emprestar um petcurso passional, ou mesmo acompanhar 0 precedente, perturbando-o por suas pulsagdes discordantes. O fato € not6rio no tanto porque revela novas formas de disfuncionamento narrativo, mas porque mostra relativa autonomia das seqiiéncias passionais do discurso, espécie de autodindmica das tensdes visivel em seus efeitos, e sobre~ tudo porque nos convida a situar 0 espago tensivo no aquém do sujeito enunciante, € no apenas como 0 principio regulador “tar- dio” de uma sintaxe aspectual: Uma vez admitido isso; 0 conceito de tensividade € suscetivel de transcender a insténcia da enunciagio discursiva propriamente dita e pode ser vertido por conta do imagi- 18 SEIETCA DAS PAIKOES nario epistemolégico, em que ele encontra outras formulagdes, filo- s6ficas ou cientificas, jé conhecidas; nisso ele poder surgir como “simulacro tensivo”, como um dos postulados que originam 0 per curso gerativo do sentido. Nao h4 nada de embaragoso em que a tensividade encontre dessa forma, quando se trata da concepco do universo; 0 signifi- cado ‘‘cientifico” do mundo natural formulado em termos de leis da atragio, por exemplo: a tensividade nfo passa, para o mundo humano, de uma das propriedades fundamentais desse espago.inte- rior que reconhecemos € definimos como rebaixamento do mundo natural sobre 0 sujeito, com 0 objetivo de constituir 0 modo pré- prio da existéncia semiotica. Ainda que precondigio necesséria, ela ndo € suficiente para dar conta de nosso imaginirio éntico e, em primeiro lugar, do fato passional. Primeiramente, a andlise de algumas ‘paixdes de papel” mostrou bem 0 que todo antropélogo atento ao relativismo cultu- ral no pode ignorar, a saber, que a idéia que se faz do que seja uma “paixio” varia de um lugar para o outro, de uma época para a outra, e que a articulagio do universo passional define mesmo, até certo ponto, especificidades culturais. Fato aparentemente mais surpreendente para o semioticista: ele péde constatar que uma parte de discurso (ou uma parte da vida), comportando uma organizacio actancial, modal e aspectual idéntica, podia, conforme o caso, ou ser levada em conta como paixdo, ou como simples arranjo da com- peténcia semantica (social, econdmica etc.); 0 que equivale a reco- nhecer, por outro lado, que, sendo todas as coisas iguais, existiria um “excesso” patémico, e que uma seqiéncia de discurso (ou de vida) s6 se tornaria passional gracas a uma “‘sensibilizagdo” particu lar. Independentemente da tensividade que se encontra também nese caso, haveria outro fator a reter: 0 da “sensibilidade” Se, em lugar de considerar as formas cotidianas do discurso passional em que a sensibilizag3o ondulante € por vezes dificil de distinguir do desenvolvimento discursivo, voltéssemo-nos para cas0s- limite, para paixdes “‘violentas”, tais como a célera, 0 desespero, (0 deslumbramento on o terror, veriamos snrgir a sensibilizacio, em sua pontualidade incoativa, como quebra do discurso, como fator de heterogeneidade, espécie de transe do sujeito que o transporta a.um alhures imprevisivel, que o transforma, gostariamos de dizer, em um sujeito outro. E ai que a paixio aparece em sua nudez, como a negacSo do racional ¢ do cognitivo, e que o “sentir” trans- borda 0 “perceber’”. ssmanugso 19 Tudo se passa como se outra voz se elevasse repentinamente para dizer sua propria verdade, para dizer as coisas de outro modo. Enquanto 0 corpo humano desempenhava, na percepgio, 0 papel de instancia de mediagio, isto é, de lugar de transagio entre 0 éxtero € 0 interoceptivo, instaurando um espago semistico tensivo mas homogéneo, € a carne viva, a proprioceptividade “‘selvagem” que se manifesta e reclama seus direitos como “sentir” global. Nao € mais 0 mundo natural que vem em diresio ao sujeito, mas 0 sujeito que se proclama mestre do mundo, seu significado, € 0 reor- ganiza figurativamente-a seu modo. O mundo dito natural, 0 do sentido comum, torna-se entio 0 mundo para 0 homem, mundo que se poderia dizer humano. Esse “entusiasmo” que, segundo Diderot, sobe calorosamente das entranhas para abafar-se na gar- ganta, € evidentemente um caso-limite, mas nos é necessirio para dar conta, entre outros, da criagio artistica, e também de todos os ‘excessos semidticos da eélera e do desesperos além disso, ele explica, ‘moderato cantabile, 0 desdobramento da figuratividade, 0 caréter “re- presentacional” de toda manifestagdo passional, em que © corpo afetado torna-se, gracas a seu poder figurativo, 0 centro de referén- cia da encenaco passional inteira. E esse aquém do sujeito da enun- ciaglo, esse substituto perturbador, que designamos de foria. ‘Quando, apés uma série de tateios, tenta-se construir um modelo, 2 metodologia semiética pode tomar duas vias distintas. Pode-se procurar imaginar 0 estado de coisas mais simples possivel = tal como'a estrutura elementar da significagio — e conferir a0 modelo uma vocagio de complexificaso. Mas € possivel também que nos encontremos diante de uma situaso turbulenta € tentemos ver um pouco mais claro e que a fagamos arrebentar em seus extre- mos: é assim, por exemplo, que Hegel produz a estrutura bindria a partir da polarizagao excessiva e tensiva do um. Querendo tornar pensivel a foria — no ambito semitico, evidentemente —; pareceu- nos dificil introduzi-la como doce acompanhamento da narrativi- dade por uma misica de fundo patémica. Apenas as situagdes extre- mas e paradoxais estdo em condigdes de evidenciar a especificidade € a irredutibilidade do fendmeno, com 0 tinico inconveniente de que se possa, em seguida, conceber uma diminuico das distancias entre o que hi de tensivo e de forico na ondulagio do discurso. Esse tipo de desdobramento do sujeito em sujeito-que-per- cebe e sujeito-que-sente — talvez um pouco “figurado” demais — pareceu-nos, no entanto, necessirio para justificar os disfuncio- f i i 20 Seana DAS PADS namentos do discurso, os transes do sujeito, apropriando-se € meta- forizando no apenas © mundo, mas também a existéncia, por um fio ténue, a fidiicia intersubjetiva, que sustenta a veredicgio discur- siva. Essa passagem obrigatoria pela instincia da enunciagio per- mite, entlo, operar a transferéncia da problemitica do nivel episte- molégico profundo aquele que poder4 inscrever-se no horizonte Gntico como “simulacro férico”, regendo 0 percurso gerativo. E assim, mas desta vez sem medo de confusio, que encontramos a0 mesmo tempo as diferentes formulagées filoséficas do “vitalismo” e do “energetismo”, e até o “eld vital’? bergsoniano, e mesmo as interpretagdes ditas cientificas da concepcio do universo, em que a “necessidade”, espécie de dever-ser estendido a unidade, acha-se confrontada com 0 “‘acaso”, essa fratura primeira, o acidente epis- temol6gico que condiciona a aparigao do sentido. Isso permite cir- ccunscrever 0 espago tedrico da semiética a duas precondigdes, mode- Tando-as sob a forma de dois simulacros, tensivo ¢ férico, e conce- ber a tela do “ser” como uma tensividade férica. Isso ndo quer dizer, contudo, que uma vez nesse ponto a teo- ria semiética deveria unir-se a uma dessas filosofias: sua justifica- do propria é a coeréncia de seu discurso, chamado a sustentar sua pritica, a integrar em seu seio observagSes insélitas ¢ incémodas, a deciftar numerosas caixas-pretas em todas as etapas de seu per- curso, A hist6ria da lingilistica do século XIX 6, desse ponto de vista, instrutiva: apesar dos arrazoados organicistas ou fisicalistas dos te6ricos que se sucedem ¢ se opdem de uma geracdo a outra, 1a lingiistica ndo deixou de prosseguir seu caminho. ( fato de considerar 0 componente passional do discurso con- duz.a tais ajustamentos que ressoam até nos patamares mais profun- dos da teoria semiética. A partir dai, tratar-se-4 de remontar progres- sivamente a superficie, verificando a validade das premissas ¢ dos instrumentos metodolégicos. CAPITULO | A epistemologia das paixoes DO SENTIR AO CONHECER O cheiro “As paixdes aparecem no discurso como portadoras de efeitos de sentido muito particulares; ele exal como que um cheiro con- fuso, dificil de determinar. A interpretacdo que a semistica reteve € que esse perfume especifico emana da organizagao discursiva das estruturas modais. Passando de uma metéfora a outra, poder-se-ia dizer que esse efeito de sentido provém de certo arranjo molecular: nio sendo propriedade’ de nenhuma molécila em particular, ele resulta de sua disposigao do todo. Uma primeira constataclo impde-se: a sensibilizagao passional do discurso e sua modalizagao narrativa slo co-ocorrentes, nJo se compreendem uma sem a outra, e, no entanto, so auténomas, submissas provavelmente, ao menos em parte, a lgicas diferentes. Em segundo lugar, captar os efeitos de sentido globalmente como ‘‘cheiro” dos dispositivos semionarrativos postos em discurso € reconhecer, de certa maneira, que as paixdes-nio s4o proprieda:— des exclusivas dos sujeitos (ou do sujeito), mas propriedades do dis- curso inieiro, e que elas emanam das estruturas discursivas pelo efeito de um “estilo semi6tico” que pode projetar-se seja sobre os sujeitos, seja sobre os objetos, seja sobre sua juncio: ‘Se nos situamos agora na outra extremidade do percurso gera- tivo, 14 onde acabamos de pér, no horizonte do sentido, uma pri- meira projecio do mundo enquanto tensividade forica, somos leva- 92 SEWOTEA OAS PAUDES dos a dizer-nos que essa massa férica'mével, para emergir progres- sivamente a superficie das coisas, € suscetivel de tomar duas vias distintas: enquanto a modalizaco obedece a uma organizagio cate- gorial e produz estruturas modais discretas, as modulagies passio- nais, tais como se manifestam por efeitos de sentido, parecem pro- vir de arranjos estruturais de outro tipo, dos dispositivos patémi- cos que ultrapassam as simples combinagdes de contetidos modais que eles associam e que escapam, numa medida que se trata de determinar,-& categorizagio cognitiva. Poder falar de paixao €, por- tanto, tentar reduzir esse hiato entre_o “‘conhecer” ¢ o “sentir”. Se a semidtica dedicou-se, num primeiro momento, a evidenciar 0 papel das articulagdes modais moleculares, € bom que éla procure dar conta agora dos perfumes passionais que suas ordenagies pro- duzem. A vida sentir se oferece a primeira vista como uma maneira de ser natural, anteriormente a toda marca ou gragas a eliminacdo de toda Tacionalidade. Situar a paixdo num além da emergéncia da significa- 0, anteriormente a toda articulagio semi6tica, sob a forma de puro “‘sentir”’, seria como captar o grau zero do vital, o “parecer”? minimal do “ser”, e que constitui sua tela Ontica, Entretanto, a homogencidade'do sentir dificilmente escapa A constatagao, também ingénua, de sua polarizagdo: 0 primeiro grito do recém-nascido, arito de alegria libertéria ou sufocacdo do peixe saido d’égua, a pri- meira aprendizagem do Weltschmerz? Pode-se repetir inconsidera- damente a concepgio segundo a qual o ser vivo € uma estrutura de atragdes e repulsdes? E a foria pensavel anteriormente a cliva- gem da euforia e da disforia? ‘A aporia que somos levados a evocar apresenta-se sob duplo aspecto. Trata-se, primeiramente, de pronunciar-se sobre a priori- dade de direito do ‘‘sensitivo”” com relagdo 20 “‘cognitivo", ou inver- samente. Eo universo regido por uma metal6gica das “forcas"” (3 maneira da fisica ondulat6ria; por exemplo) ou das “posicdes” (se~ gundo a interpretagdo corpuscular)? Eis dois conceitos “indefint- veis”, como diria Hjelmslev. Mas outra interrogacao, tao funda- mental quanto a primeira; surge paralelamente, retomando as inquietagdes do pensamento pré-socratico: 0 mundo é um, transbor- | ERSTEMOLOGI OAS PAGES 3 dando em sua plenitude, uma estrutura do misto pronta a explodir, ou uma mistura ca6tica tendente a unidade? Em outras palavras, € em termos brgndalianos: a estrutura elementar do “ser”? — ou melhor, do simulacro formal, que dela podemos dar-nos — procede de um termo complexo suscetivel de polarizacao ou de-um:termo neutro, lugar de um encontro bindrio inconcilivel? Seré uma coa bitagdo dessas duas logicas e dessas duas visdes formulivel e repre sentivel em termos de precondigdes? © horizonte tensivo Voltemos por um momento a superficie lexical, a uma aborda gem mais empirica das coisas. Observa-se que certas paixdes, a admiragio, por exemplo — pelo menos em sua acepgio no francés clissico mas também o “espanto” ou o “stupor” sugerem ja a possibilidade de um horizonte tensivo ainda nio-polarizado, O_ espanto e © estupor apresentam-se como duas formas aspectuais dife- rentes, uma incoativa; a outta durativa, de unt tiesmo sentir nao- polarizado. Nao faltam, aliés, percursos passionais textualizados que comecem por tais configuragGes: € assim que, em La princesse de Cleves, 0 principe de Cleves, antes mesmo de amar a mile. de Chartres, ao encontré-la numa joalheria, ndo para de se “espantar”’ (sempre no sentido do francés cléssico) por tudo 0 que lhe concerne; to &, colocados em tensdo € em condigdes de amar (quatro ocor- réncias em uma pagina); da mesma forma, o citime ¢ 0 amor de Swann no comecam apenas com o “grande sopro da agitacao” que 0 faz percorrer Paris em todos os sentidos para encontrar Odette de Crécy, agitagio que se apresenta como outra modulacio da mesma tensio ndo-polarizada. A polarizagio em euforia/disforia pode, portanto, mesmo no nivel teatiora a eseal goa _lizada ou até considerada como nao tendo acontecido, A neutraliza- 40, no sentido gramatical desse termo, remete a um sincretismo que 6, de direito, hierarquicamente superior. oposicdo, bindria. Eis um dos paradoxos da semistica, no nivel epistemol6gico: ela é levada a procurar dar conta ao mesmo tempo do ‘nada’, do. ‘va zio”, ¢ do, “tudo” — da plenitude das tenses foricas. Segundo a logica. das “forgas", a0 maximo de tensio corresponderia — ic. daria conta de ou se explicaria por ~ a auséncia total de articula- ges. A aparicdo das “‘posigdes” caracteristicas das articulagdes do 24 SEMONCADAS PAIES contetido requereria, a0 contrétio, redistribuigio e divisio das “for- gas”s em outras palavras, 0 “vazio do contedido”,:caracterizado pela auséncia de articulagées, s6 pode ser preenchido pelo abalo da plenitude tensiva. A coabitagio de duas exigencias inversas, res- pectivamente ligadas as “orcas” e as ““posigdes”, permite compreen- der que, antes de toda categorizacao; 0 sentir, bombardeado. entre / duas tendéncias, 's6 pode engendrar instabilidade. ! Ele € no entanto, enquanto tal, diretamente manifestivel, como atestam as figuras do “estupor” e do “espanto””. Notar-se~i a esse respeito que a neutralizacio, tal como a formulamos aqui, é fungio da intensidade do sentir. A admiragdo “clissica” particular mente intensa é indiferente a polarizagdo, a positividade ou a nega, tividade do objeto. Pareceria aqui que € 0 reconhecimento do valor enquanto tal que pde 0 objeto na sombra e torna inoperante a pola- rizagio; poder-se-ia fazer observar que o sujeito admirativo aban- dona 0 valor, enquanto valor investido num objeto, para melhor captar em seu aquém 0 “valor do valor”. Em compensagio, a admi- ragio, em sua acepeio moderna, ao mesmo tempo. que Fequer a positividade do objeto, ¢ acompanhada de enfraquecimento notvel, Tudo se passa como se a intensidade passional — nogio por defi- nir — neutralizasse © sujeito ¢ 0 mergulhasse numa camada mais profunda do percurso gerativo, ou ainda, como se a subida para 0 valor do valor, a partir do objeto de valor propriamente dito, se acompanhasse de intimidade mais estreita com a zona “energéti- ca” onde nasceria a paixdo. O mesmo se passa com 0 “estupor”, que sofre condensaso comparavel, fixando o sujeito num puro sen- tir, até anular o proprio sentir — nao € a “estupidez” uma regres- sio a um estado de tensividade anterior a vida, ponto-limite entre 0 vivo € 0 nao-vivo? As precondigées (da significagao) Para estender o véu de {sis sobre 0 rosto do “ser”, propuse- ‘mos antes dar as primeiras formulacdes de seu parecer sob a forma de simulacros, imaginando’o mundo humano em seu estado ab quo, como “tensividade f6rica”,, conjugando, assim, © universo que pode ser justificado unicamente pela necessidade tensiva com a fo: ria; esta seria introduzida pelo acidente, pela fratura, pela intrusio insdlita do vivente, Estamos conscientes de que € apenas uma tepre- ABISTENOLOGIA DAS PAIDES % sentagio quase trivial e que seu valor s6 pode ser vivenciado em ‘suas conseqiiéncias, isto ¢, na modelizagdo progressiva da “massa timica” congruente, que , a0 mesmo tempo, tensio ¢ foria, na medida em que suas articulagdes ndo abalam a coeréncia teérica € resistem aos “fatos”, permanecem conformes a eles até as manifes- tagdes de superficie. (Que a tensividade original ~ tensdo para um transbordamento do cheio-demais — estoure, e 0 “posicionamento”, a polarizagao do que cessa por um momento de ser-um, coloque-se como pri meiro acontecimento decisivo. A polarizagio cumulativa das ener- gias nao é, no entanto, ainda sua “tomada de posic0” € ndo implica a discretizagio dos pélos, que s6 pode resultar da projecio cogni- tiva do descontinuo. Nessas condigées, ainda ndo € possivel falar das “posigdes actanciais”, mas apenas dos protétipos. de actantes, dos quase-sujeitos ¢ dos quase-objetos, da protensividade do sujeito, para utilizar a palavra de Husserl, ¢ da potencialidade do objeto. Antes de “colocar” um sujeito tensivo em face de valores investi- dos em objetos (ou 0 mundo como valor), convém imaginar um patamar de “‘pressentimento”” em que se encontrariam, intimamente ligados um a0 outro, 0 sujeito para‘ mundo e 0 mundo para‘o sujeito. Jé fomos levados @ reconhecer uma situacdo comparivel quando se tratou de distribuir, em vista da modalizacdo, 0 conjunto da massa timica sobre os termos constitutivos do enunciado elemen- tar: se a carga modal sobredetermina primeiramente 0 predicado ‘em sua fungio flexivel (como é 0 caso, por exemplo, das modaliza- ‘96es aléticas reconhecidas em logica), ela € suscetivel de distribui se separadamente, investindo cada qual posigdes actanciais. Se 0 investimento do sujeito de fazer nio levanta dificuldades particula- res (cf. as modalidades deénticas, por exemplo), 0 mesmo nio ‘corre com o do sujeito de estado: percebe-se que o sujeito enquanto estando nfo pode ser modalmente afetado, sendo pela mediagio do investimento do objeto, cuja carga modal, desde que ele seja colocado em relagdo de jungdo com o sujeito, modaliza, por sua vvez, este tltimo. Em outras palavras, a modalizacao do estado do sujeito — ¢ € disso que se trata quando se quer falar das paixdes — 86 € concebivel passando pela do objeto, que se transforma em “valor”, se impée ao sujeito. E uma situagio compariivel, mas ante- rior ao posicionamento actancial, que se trata de imaginar: um sujeito protensivo indissoluvelmente ligado a uma ‘sombra de valor”, perfilando-se assim na tela da ‘“tensividade férica’’. % SOMOTEA DAS PAOES As valéncias A protensividade do sujeito, um tanto quanto apressadamente identificada a intencionalidade, que € entéo interpretada ora como ‘“metaquerer”, ora como: “‘metassaber”, ndo exige, nessa fase da investigagio, justificagdes complementares. O mesmo nJo ocorre com esse protétipo de objeto que acabamos de designar como “‘som- bra de valor”. Convém, portanto, retornar, uma vez mais, & super- ficie, & manifestaco discursiva, a fim de tornar mais sensivel esse simulacro ¢ justificar certa pertinéncia de nosso propésito. Tem- se a impressio de que a forma mais corrente que assume essa “'som- bra’” é uma espécie de.pressentimento do valor. Assim, a leitura de Capitale de la douleur, de Eluard, oferece uma bela ilustrago de uma primeira articulacdo projetada pela protensividade. Percebe- se; olhando mais de perto, que, nessa coleténea, 0 conteddo dos valores importa pouco; 0s sujeitos semidticos conhecem af, € ver- dade; 0 amor, a natureza, a obra, 0 pensamento ea vida em todas as suas formas; mas, seja qual for 0 contetido semantico dos obje- tos visados, 0 que faz seu valor ¢ sempre de outra ordem: 0 amor 86 € aceitivel em seu inicio; o olhar, quando as palpebras abrem- se ao despertar; o dia, no momento em que se liberta das trevas; a vida humana, em sua infincia, Tudo se passa ‘Como se 0 aspecto incoativo tivesse a preeminéncia sobre todos os contetidos semanti- 0s investidos nos objetos e nos fazeres, como se apenas a meta inci- dente importasse, e no 0 objeto visado. ‘A aspectualidade parece aqui como que situada 20 mesmo tempo acima e aquém do valor propriamente dito; ¢ uma espécie de “valor” do valor e, nesse sentido, poderia ser chamada “‘valén- cia”, na acepcio quimica desse termo, como que designando 0 ndmero de “moléculas”” associadas na composi¢ao de um corpo. E assim, por exemplo, quando, no momento da troca, dois valores semanticamente distintos so estimados comparaveis e trocaveis, fundando-se em sua (equivaléncias: pode-se supor entdo que haja alga de constante que se communica, que naa tem mais grande coisa que ver com 0s objetos semdntica e diferentemente investidos, trans- feridos de um sujeito a0 outro, Observou-se, por outro lado, que @ aspectualizago constitui no discurso uma dimensdo hierarquica- mente superior & temporalizacdo, mas também & espacializacio € até a actorializagao: 0 “amor” em Eluard € captado no eixo tempo- ral, as “pélpebras ao despertar” situam-se espacialmente, a “vida [A EPSTEMOLOGIA DAS PACES a humana” € captada como crescimento do ator, 0 todo ¢ dominado pelo aspecto incoativo, Mas hé alguma coisa a mais nessa valoriza- ‘slo da incoatividade, e somos obrigados a levar em conta a segunda definicéo, de tipo “psicolégico”, da valéncia, considerada como potencialidade de atragdes € de repulsbes associada a um objeto: a valencia seria, a esse respeito, o pressentimento, pelo sujeito proten- sivo, dessa sombra de valor que, em seguida & cisdo férica, o envolve como num casulo para manifestar-se mais tarde sob a forma mais articulada da incoatividade. Em suma,.a aspectualidade manifesta- ria a valéncia da mesma maneira que.as figuras-objetos manifestam 08 objetos de valor. ‘Nao nos espantaremos entdo se 0s julgamentos éticos e estéti- cos, implicitos ou explicitos na coletdnea de Eluard, fundam-se no carater incoativo dos gestos e das figuras, uma vez que este ultimo, no nivel discursive que é 0 seu, reata com a dissociacdo original, aquém de toda polarizagio e de todo investimento semantico dos objetos. Em Eluard, a valéncia escothida procede de uma “‘abertu- ra” da protensividade; mas ela poderia também, por exemplo, pro- ceder de seu “fechamento”, que se traduziria no nivel do discurso pelo aspecto terminativo e daria lugar, eventualmente, a uma ética do desencantamento, a uma estética da evanescéncia, explorando as figuras da ruina e da deliqiescéncia ou do apagamento de todas as coisas. Camus tentou, por seu lado, em La chute, ilustrar um mundo sem valores, de onde a confianga seria excluida; sua descrigio do Zuiderzee procede, de fato, por diluicao das valéncias: Ai esté, nfo € mesmo, @ mais bela das paisagens negativas! Vejam a rnossa exquerda esse monte de cinzas que se chama aqui uma duna, © dique cinza & nossa dreita, a areia pélida a nossos pése, diante de n6s, ‘o mar cor de lixvia frac, 0 vaso cfu, onde se refletem as Aguas ivida. Um inferno mole, realmente! [..] Nio € o apagamento universal, 0 nada sensivel aos olhos!? Horizontalidade indefinida, paisagens longinquas, auséncia de toda referéncia topografica e temporal, apagamento de todas as diferengas figurativas, tudo se perde numa duragio estagnante: eis © fim de toda valencia, e a fortiori dos sistemas de valor articula- dos que poderiam emergir dat. Tudo se passa como se os compo- + Paris, Le Livre de Pochey p: 79. 98 SEMOTA DAS PAMOES nentes figurativos da colocagao em discurso, para se dar a ler de maneira distinta e com alguma forga icdnica, pressupusessem justa- mente esse nivel em que a protensividade enfrenta valéncias por ocasido da cisao actancial. Em Camus, pelo contrario, estende-se ‘uma protensividade “mole”, captada antes de sua primeira articula- ¢40, ¢ isso permite compreender, como num raciocinio pelo absurdo, por que a primeira articulagdo da foria, separando o quase-sujeito, engendra a fidiicia: retornar ao caos mole das tensdes ndo-articula- das é, literalmente, em La chute, no mais acreditar em nada, e sobretudo no crer mais no crer; a f€ neste ou naquele valor parti- cular pressupde sempre na verdade um “metacrer”, que nada mais € que a fiddcia generalizada (ndo-especifica) de toda crenga particu- lar. Além disso, 0 “juiz-penitente” de Camus, actante sincrético por exceléncia, pratica, 4 maneira dos cinicos antigos, a difamacio sistemitica € a provocacio sarcéstica. Parece bastante claro, nesse exemplo, que as valéncias, cujo conjunto constitui o que acabamos de chamar de fidtcia, proporcionam ao mundo dos objetos sua armadura, sem a qual eles nao recebem valor, E preciso também enfatizar rapidamente 0 papel do “aciden- te” nessa narrativa de Camus. O Zuiderzee nfo oferece Renhuma tomada & atividade interpretativa do observador, porque nao apre- senta nenhuma diferenca sensivel, nenbuma referéncia, € verdade, mas também porque, aquém mesmo de toda articulac3o, ndo apre- senta nenhum “acidente” figurativo, 0 que se poderia compreen- der como a imagem de um mundo sobre 0 qual 0 acaso nao tem mais lugar. Inversamente, 0 que fez tudo desequilibrar-se para 0 “juiz-penitente” € ainda um “acidente”: 0 acaso que pés em seu caminho uma desesperada que se langou 20 Sena e que ele no socorreu. O que o acaso ajuda a construir, 0 acaso pode desfazer: o acidente que desencadeia 0 desabamento de um mundo de valo- res nfo passa da imagem virtual e invertida do acidente que abala a necessidade Ontica para af fazer advir a valéncia num primeiro tempo ¢ o valor num segundo tempo. Instabilidade e regressao ‘Seguindo Camus, chega-se a conclusao de que o embasamento frico de toda significagdo ndo é estavel e de que 0 que 0 acaso faz, ele pode desfazer. Por um lado, 0 primeiro abalo do sentido AEDSTEOLOGA DAS PADS 9 niio € suficiente ainda para engendrar a significagio; por outro, a cisio devida a intervengio do acaso sobre a necessidade esta amea- gada pela impregnacio da propria necessidade. O “duplo” tende ao “um”, com o risco de retomada da necessidade sobre © acaso da cisio. Em outra ordem de idéias, estudando os objetos ¢ 0s movimentos “imprecisos” do mundo natural, os matemiticos (em particular B. Mandelbrot) prepararam a teoria da fractalizacdo, que, entre outras coisas, mostra como o indiferenciado reaparece sob a influéncia do acaso e da recursividade; com efeito, os objetos ditos “fractais”’ so engendrados ao mesmo tempo pelo acaso (0s proces- ‘sos estocasticos) e pela recursividade (a aplicagao indefinida do pro- cesso estocistico aos produtos das operagdes precedentes); ora, se nada cessa nem orienta a recursividade, a fractalizagdo acaba num ‘objeto que, embora regido por um princfpio de homotetia interna, torna-se insignificante de uma irredutivel singularidade. Da mesma maneira, se a cisio aplica-se a0 mesmo tempo “estocéstica” e “re+ cursivamente”, ela reproduz as condig6es da “fusio” ¢ da pleni- tude tensiva ou, 0 que di no mesmo, da dispersao maximal. A estese Essa tensfo para a unidade € prépria da estese, que aparece ‘como movimento inverso ao que resolve os sincretismos. Em sua nova relagdo com © mundo, o sujeito experimenta o valor na pri- meira dissociagio de que ele mesmo é engendrado; a emoglo esté- tica poderia ser interpretada como “ressentir” dessa cisio, como @ nostalgia da “tensividade: forica”” indiferenciada. Isso permitiria dar conta do fato de que as manifestagdes da estese acompanham- se, na maior parte do tempo, de uma troca de: papéis sintaticos: mergulhado na foria, 0 sujeito estético encontra 0 momento em ‘que sua configuraclo prototipica teria podido instaurar-se tio bem ‘como objeto quanto como sujeito. Vé-se também por vezes, nas representagdes figurativas, 0 objeto estético transformando-se em sujeito de um fazer estético, cujo sujeito da propria emocio pode- ria ser, por sua vez, 0 objeto. Constata-se com freqiiéncia, por outro lado, que no discurso, ‘quando se trata de decidir sobre essa ou aquela valéncia, ¢ nao se pode ter acesso a um sistema axiol6gico constituido, ou quando se recusa seu principio, 0 sujeito opta por um discurso estético. Para ‘um sujeito que nfo reconhece os valores instituides, que despreza 30 SOMOTCA DAS PACES 08 que sio geralmente admitidos, 0 mal torna-se feitira, 0 bem, beleza; de igual maneira, o cinico, mas também o socialista revolu- ciondrio ou o anarquista do século passado permanecem sensiveis ao sucesso estético de uma conduta moral (ow imoral), da mesma forma que buscam também expor a feitira de uma conduta imoral (ou moral) por uma encenagio caricatural. A tensio em diregio a um, essa ameaga — ou a esperanca — do retorno ao estado fusional abre duas possibilidades que mere- cem ser assinaladas. Primeiramente, a concepcio da estese como “ressentir” do estado-limite e espera do retorno a fusdo, repousando sobre'a fidticia, permite prever, no nivel discursivo, a existéncia de uma dimensdo estérica. A dimensio passional, construfda sobre a foria, como sua precondigio e visando sua manifestacio, teria como contrapartida a dimensio estética, que, quanto a ela, repousa- ria na eventualidade — expectativa ou nostalgia — de retorno a pro- tensividade forica, ao universo indiferenciado postulado como pre- condicdo de toda significagio. A instabilidade actancial Por outro lado, a instabilidade da cisio, ¢ a intercambialidade dos papéis de sujeito e de objeto, observada na manifestasio discur- siva, faz pensar que, no intervalo que separa 0 estado fusional do estado cindido, a apari¢ao do “duplo” pode ser interpretada tanto como prefiguragdo da intersubjetividade quanto como a da relacdo sujeito-objeto. Voltando a maneira pela qual a emergéncia do sujeito protensivo foi considerada, pode-se dizer que ele parece solicitado por duas forcas congruentes, mas quase contraditérias: de um lado, a protensividade, gracas 4 qual o sujeito diferencia-se do objeto, e que the proporciona uma imagem de sua “ipseidade”; do outro, a fiddicia, esse modo de ser do “‘sujeito para o mundo”, que, por sus- pender tal diferenciagio, torna-Ihe presente uma espécie de “alteri- dade". Quer uma, quer outra, a protensividade ou a fidiicia, predo- mine, a cisio do “um” em “dois” acaba ou em reforco das po- sigdes especificas do sujeito protensivo ¢ das “sombras de valor”, ou na aparigio de dois “‘intersujeitos”, cujas respectivas posicdes ainda ndo-fixadas seriam, por causa de sua imprecisio, intercambisveis. ‘Num jogo de trocas tensivas no interior da foria aparecem, ortanto, quer projesdes de intersujeitos, quer papéis de sujeito e de objeto ora como duplas idénticas, ora como duplas diferentes, NERSTEMOLOGIA DAS PAIKOES 3 gragas as quais se constroem alternadamente e em congruéncia 0 ‘sujeito para si ¢ a intersubjetividade. Esse jogo de alternincias per- mitiria compreender como, reatando com 0 estado fusional, o sujeito estético guarda certa imagem de alteridade e por que a manifestar gio discursiva radica a emogio estética na intersubjetividade. O Conjunto dessas formas proto-actanciais parece provir de fato de uma mesma instancia: a tensividade forica; ora, na andlise dos dis- cursos concretos, em particular dos que desdobram os percursos de sujeitos passionais, encontram-se freqiientemente uma instabili- dade € uma intercambialidade comparaveis aos papéis actanciais; mais surpreendente ainda, 0 imaginério do sujeito apaixonado parece conter, as vezes, toda uma populagio actancial cujos papéis se trocam ¢ se cruzam, No ir-e-vir indispensével entre a conceitua- lizasio do nivel profundo ¢ a manifestagao discursiva, somos leva- dos a supor um eco entre, de um lado, 0 funcionamento proto-actan- ial caracteristico da tensividade férica ¢, de outro, 0 funciona- mento actancial do imagindrio do sujeito apaixonado, Longe de aparecer como simples ator que manifestaria enquanto tal varios papéis actanciais ao mesmo tempo, este tiltimo assume a forma de verdadeiro sujeito discursivo que teria “interiorizado” (ou “interna- lizado”) todo um jogo actancial, gracas a0 qual a paixio se encon- traria em cena; melhor que um sincretismo ordinério, esse sujeito seria, em suma, definido principalmente por essa capacidade de suscitar toda a panéplia dos papéis actanciais necessarios a encena- gio discursiva da paixio; essa propriedade 36 sera pensivel — no Ambito semistico, entenda-se — se tivermos previamente acionado no espaco tensivo a possibilidade de divisdo do “um” em vérios “proto-actantes”. £ facil conceber que, no seio da tensividade forica, feita de ten- s6es do “um” para a “dupla”, gragas a0 dominio do acaso sobre a necessidade, e de tenses da “‘dupla” para 0 “um”, pela retomada da necessidade sobre 0 acaso, a massa férica tende a polarizar-se: ainda no estamos numa verdadeira polarizagio em euforia-disforia, mas apenas na oscilacio entre “atragio” e *'repulsio”; dita polariza- G40 86 ocorrerd, por sua ver, no momento da’ categorizagio: tudo se passa’ como seo sentir’ minimal confirmasse e invalidasse, a0 ‘mesmo tempo, a primeira inflexdo da foria, como se ele oscilasse entre a fusio, a cisfo e a reunido. Uma configuragio passional, a da “inquietude”, permite reconhecer, no nivel do discurso, uma mani+ festagao dessa instabilidade constitutiva, jé que ela €:uma agitacao 32 NOTA DAS PANES anterior & cuforia ¢ a disforia, que ela suspende de algum modo a polarizagio; seria preciso notar, a esse respeito, que a inquietude interdita toda evolugdo das tensdes da foria ¢ que, conseqilente- mente, obstaculiza a formaclo das “‘valéncias” e de toda orientacéo firme da protensividade. E por isso que 0 sujeito discursivo inquieto no tem outra expectativa que ndo a de dominar a oscilasao que 0 carrega; € por isso, enfim, que a inquietude apresenta-se; na maio- ria das vezes, como ascensio da insignificincia ao nivel da manifes- tagio discursiva. © transformar-se e as premissas da modalizacao (© reconhecimento da tensio propria da foria permite encarar uma primeira representag3o do engendramento das modalidades, que deviam, no nivel da sintaxe narrativa, transformar-se nas moda- lizagdes do fazer e do ser. A dificuldade deve-se ao fato de que essas modalidades, tais como conhecemos, 0 querer, 0 dever, 0 poder € 0 saber, sio devedoras da categorizacio racional, a0 passo que, de outro ponto de vista, considerando os efeitos de sentido passionais, elas parecem obedecer a outros modos de organizagio, mais “‘configuracionais” que propriamente estruturais. Gostaria- mos de mostrar aqui que, jé no nivel das precondigGes da significa- G40, a evolugo da protensividade esboca, entre outras, prefigura- g6es tensivas das quatro modalidades, e que essas prefiguragdes, cujo universo modal, uma vez categorizado, guardaria, por assim dizer, a meméria, repercutem sobre 0 funcionamento passional das modalidades. Protensividade e devir [A cisio do proto-actante indiferenciado s6 pode resistir 20 retorno a fusdo original se assumida por uma “orientagdo”, jé pre- sente no proto-espago-tempo sobre 0 qual se desenha o horizonte Gnrico; recuando um pouco, pode-se considerar que, no conjunto das tensdes que animam a foria, as que sio favordyeis a cisao ¢ as que visam a fusdo podem tanto equilibrar-se quanto prevalecer uumus sobre as outras; em caso de equilibrio, permanecemos na oscila- los se, a0 contrario, as tensdes favordveis a fusio prevalecem, a necessidade retoma seus direitos ¢ a significacio no pode acontecer. ‘Ve-se que, para que a significagZo possa libertar-se da tensividade [A ERSTOMOLOGIA DAS PACES 3 forica, € preciso que predominem as tensdes favordveis a cisio: por conta disso apenas, a protensividade desenha-se, como orientagio. Por outro lado, tal orientacio € a condigdo necesséria para que a foria possa prefigurar a sintaxe, uma vez que s6 esse tipo de dese- quiltbrio parece favordvel a emergéncia do “quase-sujeito” e das valéncias. Poder-se-ia chamar devir 0 desequilfbrio ‘‘positivo”, 0 que € favordvel a cisio da massa férica. Para tentar compreender como a foria pode ver reconhecida em si um esbogo de sintaxe, parece-nos possivel convocar aqui essa nogdo pouco utilizada em semiética, que apresentaria a vantagem de repercutir, no nivel epistemol6gico, as manifestagdes do conti- nuo observadas na sintaxe discursiva. Em sua definigao corrente como “‘passagem de um estado a outro”, ou como “série de mudan- gas de estados”, 0 devir nio leva em conta a distingdo entre o ser € 0 fazer e subsume estados € transformagSes; em outras definicSes mais filoséficas ou quate semiéticas, o devir & apresentado como © principio de uma mudanga continua, pura direcio evolutiva, num nivel de andlise em que a mudanga “humana” ndo se distingue ainda da mudana “natural”: a coisa acontece, a coisa transforma- se, poder-se-ia dizer. Com relagio as duas grandezas descontinuas que sdo o ser e 0 fazer, o devir seria de algum modo sincretismo € precondicdo; entre o “quase-sujeito” e as “sombras de valor”, ndo se trata de jungio, nem de estados ¢ de transformagées, mas de tensio fiducisria, dinamizada pelas oscilagdes da atracao ¢ da repulsio, € desequilibrada em favor da cisdo. Se a protensividade € compreendida como 0 efeito modal arcaico da cisio no espaco da foria, 0 devir seria a versio “positiva”, favordvel & aparicio da significagio. Pouca coisa separa de fato essas nodes: “protensividade”, “orientagdo” e “‘devir” designam, com algumas nuangas e diferen- tes luzes, a mesma coisa; a’protensividade € 0 primeiro efeito modal da cisfo, a orientagio sua propriedade figural, o devir € © produto de um desequilibrio das tensdes que confirma a cisio. Todavia, 0 termo ‘‘devir”, além de ser intuitivamente de manejo mais facil que “protensividade”, oferece dupla vantagem, De um lado, enquanto precondicio a respeito do nivel epistemol6gico, ele convida a afinar a andlise da protensividade; obriga, com efeito, a pensé-la como orientagio € evolugio ao mesmo tempo, isto é como portadora de uma historicidade; nesse caso, 0 devir € compati- vel com hipSteses que tém que ver com a evolucio antropolégica € couunsse ass 8 s1UEIpE steus souFarEITO\ “OST, “SIP op 0 ‘oaniesse-orwas op 0 ‘sagSipuooard sep ojnpout 0 25905 ado sod sopeaty ,,so[npow,, $911 wo ets00) ep [e198 erurou0D9 Ep opSequssazdas eum aodns va anb “eraepor “sei0w osppard g “oan ‘Osss2010 Op osmssIp Wd ogse2ojoo eum exed of-oures0auos ‘sagSeinpour sewisour sep opt aed ‘98 “epruedenuos wa ‘sagSeztpepout wo seprraatos ogs sej> Soateszeu-oruas oszaantm ot @ oattera8 osmosed 0 opus sas op-ourozey ‘opseziogaie9 e as-eoqde “taep op saoSempour saz sep mied & 9s “orraj9 woo “seiuazanp sieUeo soups -o1d stop 40d seprigo ogs seu ‘opepsaa 9 ‘oimaumesequia omsour o ranssod :sepes0aa sagSeztjepour sgn se woo 19a ® oonod onnut tuai ‘ossaoozd op varsimosip eunsoy onsenbua ‘{emsadse open ¥ anb seasesqo osizaid 9 seu {, oatteupuar-oanemp-oaneoout,, renisadse apejn e ‘osimostp op faaju ou “pseus01 as anb o “ossip wpye ‘uemsyard «eatsino,, > ,owusuress20u9 ap,, <,eNIAqB ap,, aiusureanpadsas “SagSeinpows san sy “opsID & [eagioaey oNGIIND -98ap 0 za1ueur exed ‘sagSeniny sens sequeduooe ‘s1aap op ,,osin> © seiwaisns,, ap waszeoua as aya ‘sapod op odnoiosd ov ommend ‘opriuas ap osreatun op eapruSoo opSezyjeuorses ap apepryiqissod & sp304 a8 omod ‘grtige ‘sagstar se opuEzTTIqeisa ‘e103 ep oSedsa op 2peprjeion x ogSefnpow essap opsezr|esauss e SopSnjoxa ens spat ured ‘1Aap op osimo o evrered aja {,,ezu,, ap o1faJ9 op ossaAuT © ‘,,orseideo,, ap oye um opuezyente ‘nasp 0 e1zey>ay “ord -estuaduroa wa ‘ages op odngiord ¢ ‘opSesa[208 exou no eMU9qe eAoU eLeUTULZaIEp sosaNb Op B19U91I090 BAOU epeD ‘oxSIsod ens 40g yenb vfos “2 ‘stsap op ogSexajaoe eum sod oatsusr joagu asso eussayuosas 9s 3 esW 9p OM1IYD U OpuRZEMIE *,,ermUIOge,, EN ap z9pasoad eprapod ‘ojdmaxa sod ‘saranb op odnoio:d Q vopSeiuoizo ep [eqo}8 apeprouasouroy & 9 sagsuar sep apeprouadoraiay & oduzar omsour ov ses98 ap esroueur ‘81399 owoo ‘opour umngje ap “seprqasuod 138 wapod 1149p op s20Se] se Saou 5¥0 WOOTOWEISIG ¥ e aiuattTe20] warewosduH0d $03 -saaut souugytmbasap so ‘sousoras so ‘opeurxorde , Jopearasqo,, wun wed 9 ‘ouyeisp ou oruenbus §,,jaagsoaey otzqsrmbesep,, um seuade a1A9p © opus “eroueisip & opemuis ,,Jopeazasqo,, wn ezed “ouauTeg of8 wsaoayeaaid os OBSI> wp so4Nj WH soosuial se f01T2yo wD seUISTTH oeStuyep ens wo seatiosut ops ‘s1A9p op sesasumnur sepepardord ssaqduimea sessq “sozead sop no sagsuadsns sep ‘So1uaueysay Sop 2 seanuiage sep ‘Suy sop 9 suaSui0 sep “ommamrexnoyye ap no o¥Ses9] -208 ap Sosey B tuIsse sen] opuEp ‘saqsud1 9p sesmudns 9 opeoUquIE sod apasoid 2 sooSeurxoide sep e189] eum & ewusat tje a2peq0 ‘oquenbud sod aquauizenonsed sreu essazaur sou anb ‘opSeosewrap Y ‘seiaiosip sopeprun s1ms zey anb “searsuar sogSersea sep opSeo -rourap van :onuUOD op o1uaUIEIEN ap eLIZIEU WHE erp we 2104 SOP -eqyiin sowmaumpacoid sapues8 stop sov 209p2go stA2p ov opeoyide ‘oqusureyen © “onno sod ‘oanesieu faaju ou eae anb yepour og5 -e71io8a1e9 8 2 “ope| um sod “ey9s ep oSedse ow ovsuai ep s2oSerseA se auiua surely © eLsz0ajaqeisa “opSezrpepour ep sopernsas $0 oAow 2p opuriesn “opundas Q “ealsmosip opSeztenisedse ep opSein3 -yoid eum euminsuos ofaund Q ‘s2oSezrqepour se psespusdus and ‘epmos wa ‘opSoerzsonip ep 0 2 “ostaunad ‘opdynpous ep o :soyuture> stop 2IWoUMRATSs2ons FIeWOL owstIaxsUIS assap oBSNJOsIZ_Y 4IAap Op sagdeinpow sy oralgo 6) vrau-onafe (01 -ralns 0) 21uof-on.afo ura orsodwodap 498 apod estu 2p 011239 0 anb esuad 9s 26 zemmonied wa aagsuad 9 axeiurs eum yenb ov svSeid Spaius ap onafo 0 vtx9 213 ‘oeSnyoxa ap > yerareyTUM ogSeItatI0 ap ord -joutid um svo1s9} sogsus3 se sepoi anuap opureuois2}2s ‘sag5!pu0s -aid sop Joayt ou “opSesuaduros wy “siuepumpos avazed owsa) a8s9p osn 0 ftaysadns ap somaya ste ap e1u09 zep zed eiseq oajssnosip tunnuszuco op opis98 & oUro> epiqaouos ogSeztqenuDadse Eun apuo «qaayu assou “ezaepor eagsinostp opSeisaylueu & OESE|S1 WO “opel oxNO Jog -sssoi9dTy stei 9p voxe0e Joasssod 9 ozssnasip e anb “opSea1tuBis ep segSrpu0o -ard sup 0 ‘v913991 opSnunsuo> ep faatu 2ssaz 9 anb ‘squauriuapnud stew ‘Seur “eo1991 opseauT Jemtuaas eum exed ,,21uod-2p-e50qe9,, eum eumapsuoo aja anb ‘oqammTemien ‘eoxsTUsts OU osst SeOxSOIOIg ssn S¥0 YOUDMES a 6 SEMOTICA DAS PAROS Quanto ao protétipo do dever, ele se apresentaria como sus- pensio do devir, no sentido que o transforma em outra necessidade: no lugar da fusio do “um”, ele propée a coeréncia do “todo”. Pois, uma vez estabelecido o principio da cisfo, outro perigo amea- a: 0 da dispersio; com efeito, se nada se opde as forgas dispersi- ‘yas postas em acdo pelo primeiro abalo do sentido, depois da insig- nificdncia do “um” instala-se outra insignificncia, a do caos, isto 6 da cisio indefinida, de que j4 encontramos um dos efeitos com a agitagdo desordenada ¢ estéril que caracteriza a inguictude. A esse perigo opde-se 0 protétipo do dever como forca coesiva, que visa a constituigdo de uma totalidade das tensdes; praticamente, {sso significa adotar para com o devir o ponto de vista do observa- dor distante, que, como vimos, homogeneiza os acasos da foria € negligencia as variagdes e as fases. Em suma, 0 protétipo do dever procederia por “‘pontualizagio” da modulagio, neutralizando nisso 0s efeitos ‘de abertura”, ‘de encerramento” e “‘cursivos”. Tal hipé- tese permitiria dar conta do funcionamento muito particular da modalizacao que dai decorre. Modulagdes, modalizacées ¢ aspectualizacdes [A preeminéncia do incoativo em Capitale de la doulewr, que interpretamos como a manifestagdo de uma valéncia, tomaria aqui todo 0 seu sentido: assinalaria a dominagéo de um prot6tipo do querer, a modulacdo “de abertura”” € seu efeito de mira, que apa- rece muito explicitamente na coletanea como resisténcia & necessi- dade. Mais geralmente, entrando no texto por suas variagSes ou suas escolhas aspectuais, € possivel reconhecer af formas dominan- tes da tensividade; na medida em que essas escolhas definem certo modo de acesso & significagao para 0 sujeito epistemolégico € de acesso a0 valor para os sujeitos narrativos — € 0 que ocorre com ‘© incoativo em Eluard —, pode-se considerar que elas manifestam o que se poderia chamar “estilos semi6ticos”: a agitac3o do inquieto, a hesitagdo do veleidoso, o estilo “profundo” do voluntério sio todas manifestagSes aspectuais da maneira cuja significagao e valor ‘ocorrem em diferentes tipos de discurso ou para cada um dos sujei- tos assim caracterizados. De outro ponto de vista, na auséncia de manifestagdo direta ou indireta das modalizagdes, a observagdo das escolhas aspectuais dominantes permite postular a existéncia desta A SASTEMOLOGIADAS PAID ES 7 ou daquela modulagdo dominante no nivel profundo, que teria sido convocada prioritariamente para a discursivizagdo; suposta essa modulago como predominante, pode-se entdo suspeitar € prever que a organizaco modal, se houver uma em imanéncia, deveria estar afetada ou orientada. Assim, a hesitagio, que reme- teria a uma modulagio ao mesmo tempo de abertura e suspensiva, permitiria prever um avatar complexo do querer (querer e nflo- querer) e incitaria a buscar eventuais tragos especificos na mani- festagio discursiva. Igualmente, a agitag4o, como forma aspec- tual superficial, trai um modo particular de modulagio suspen- siva: © que proporciona a pura oscilagio das tensdes, 0 equilibrio insohivel entre a fusio e a cisio; tal equilibrio instavel pode ser interpretado como a coexisténcia de duas modulagies cujos efei- tos se anulam: por exemplo, uma modulacdo de abertura e uma modulagio de encerramento, ou ainda, uma modulagio cursiva e uma modulagdo pontualizante; s6 entdo € que seriamos convida- dos a realizar a hipétese, no nivel narrativo, de confrontagio modal, seja entre querer ¢ saber, seja entre poder ¢ dever; tanto num caso como no outro, cercar-se-iam assim os contornos da inquietude e da angistia. Parece, por outro lado, que essa meto- dologia de descoberta € a mesma que utilizam, intuitivamente ou com outros instrumentos de investigagio, os psiquiatras, quando inferem a partir da forma aspectual e superficial de um comportamento (cf. a agitagdo) uma disposicao psiquica de tipo modal ¢ passional (cf. a angistia ou o componente ansioso da depressio). As trés insténcias — modulago, modalizagio e aspec- tualizacio, distribuidas respectivamente sobre a tensividade férica, © nivel semio-narrativo ¢ a manifestagdo discursiva propriamente dita — constituem de algum modo 0 tridngulo teérico cujo valor heurfstico nos esforgamos por mostrar. Para retornar a tensividade férica, 0 mimero de modulagdes possiveis para o devir acha-se atualmente indefinido; provavel- mente ele o seja por definigfo: por um lado, as poucas formas que sugerimos e parcialmente ilustradas no esgotam os casos de figura possiveis e, por outro lado, jé que permanecemos num modo continuo, a légica das aproximagées € das imbricagdes que preside esse nivel autoriza tantos tipos mistos ou intermediérios quantos se queira imaginar. E claro que se identificamos por prio- Fidade as modulagbes de abertura, de encerramento, cursiva € pon 38 SEMOTICA DAS PAREES. tualizante, € em razo da categorizago modal que os selecionaré, segundo um principio que examinaremos em breve, para integré- los a0 nivel semio-narrativo. Para um mundo cognoscivel A soma¢ao. sujeito, modalizado pela fidiicia na camada forica cujos prin- cipais tragos acabamos de esbocar, ¢ associado as “sombras de valor” pela protensividade, ainda ndo € capaz de conhecer 0 valor: ele pode apenas sentir sua valéncia, em particular no modo da apre- ciagdo estética, Para conhecer, é necessdrio primeiramente negar. E verdade que uma vez que “‘proformas” de objetos oferecem-se a cle, as modulacées do devir introduzem imediatamente uma espé- cie de “respiragdo” — um ritmo? um tempo? — na protensividade, mas ainda nada esta af categorizado, nada apresenta contornos dis- cretos. A negacdo é a primeira operagio pela qual o sujeito funda- se como sijeito operador e funda o mundo como cognoscivel. Seria de alguma forma outro tipo de disjungdo; a primeira era disjuncéo com a necessidade éntica pelo efeito do acaso; a segunda é disjun- G0 com a modulac&o continua das tensdes e um mundo de valores no-cognoscivel. Essa negacio analisa-se em dois tempos. O pri- meiro gesto € um ato puro, ato por exceléncia: somacio; 0 sujeito operador soma uma posigdo que, a partir de uma sombra de valor, cerca a zona de uma categoria; essa somacio € ela mesma negacio, ou melhor, captacdo, parada nas flutuacdes da tensio. Com efeito, © mundo como valor oferecia-se inteiro ao sentir do sujeito tensivos ‘mas para conhecé-lo € preciso parar 0 desfile continuo, isto & genc- ralizar 0 “encerramento” — essa €, pois, a fonte da primeira nega- do —, cercar uma zona, somar um lugar, ou seja, negar 0 que no € esse lugar?, Assim, Swann é em Proust, antes de ouvir a frase de Vinteuil, um individuo banal, sem ideal, sem projeto, subsistindo, intelectual ¢ afetivamente, de pequenas coisas, vacante num mundo: 2 Essa concepgio de advento da significagao faz eco, de certa maneira, aquela desen- volvida por R- Girard em Des choes caches depuis la fondation du monde (Das coi- ‘sas escondidas desde a fundacao do mundo) (Grasset, 1978); a culmra e a significa- {lo emergem da indiferenciagso natural ¢ da propagacio da violénca social, gre- {2s eleigio de uma vitima emisséria, Trta-e aqui também de uma somapio-nega- {#0 que, segundo o proprio Girard, erige o primeira signficante cultural. [A E™STEMOLOGIA DAS PARDES 39 insignificante; a frase de Vinteuil é a figura desse sujeito operador limi- nar, pois ela vai efetivamente somar um lugar, desenhar em seu espirito a zona onde, como escreve Proust, vird se inscrever o nome de Odette: De modo que essas partes da alma de Swann em que @ pequena fase bhavia apagado a preocupagio dos interesses materais, as consideragdes ‘humanase validas para todos, ela as havia deixado vacantes e em branco, «ele estava livre de af inserever o nome de Odette © segundo gesto, que € apenas a outra face do primeiro, é ‘uma contradigdo, a negac30 no sentido categorial. A somaclo-negacdo aplicada a uma sombra de valor s6 pode instalar ndo-S,, primeiro termo do quadrado semidtico. Com efeito, o sujeito tensivo, tornado sujeito operador por essa disjuncao, nio pode discretizar sombras de valor cuja cisio o separou: ele ndo tem outra coisa a “somar” sendo a auséncia; em outros termos, para fazer advir a significacdo estabilizar a tensividade, o sujeito operador no tem outra solucio a niio ser categorizar a perda do objeto, ¢ & por isso que a primeira operacio discreta é uma negacio; € s6 nessa condig4o que, pela intro- dugdo do descontinuo no continuo, 0 sujeito poders, por detrés das sombras de valor, conhecer 0 objeto. Sem a contradicao, a somacio determinaria apenas uma pura singularidade no continuo tensivo ¢ fracassaria em fazer advir a significagio; € assim que, depois de ter surgido como “singular” ¢ irredutivelmente individual, a frase de Vinteuil desenha-se como rede de contrastes, de negacdes internas, para ser conhecida e reconhecida, e acabara por ser o signo de uma auséncia, auséncia de cuja existéncia Swann nao tinha idéia antes, € a partir da qual sua vida vai retomar sentido. ‘A justificagdo da somacio € bastante ficil, se se quer pensar no que pode advir do sujeito tensivo e de suas valéncias: uma vez confirmada e sustentada como devir, a cisfo actancial ¢ a distribui- gGo das tens6es equilibram-se globalmente; atinge-se assim uma fase de equilibrio em que a dindmica interna da foria choca-se com a estabilizacio do devir; uma alternativa se apresenta, entdo: ou a fidticia prevalece, e com ela a tendéncia ao retorno a fusdo, ou a protensividade do sujeito converte-se em ato, € esse sujeito torna- se sujeito operador; tal evolugio inscreve-se na propria definicZo do devir, jf que a manutencio de um desequilfbrio “positivo” s6 pode resultar em sua acentuacio e, portanto, em determinado prazo, 3A la recherche du temps perdu (Em busca do tempo perdido), t. 1, Du dtd de chee ‘Swann (Do lado de Swann), Paris, Gallimard, Bibliothéque de la Pléiade (“Un amour de Swann” — Um amor de Swann, p. 237). 40 SENDA DAS PANOES em estabilizagdo, Em altima instincia, a confirmagio da cisio assume, de algum modo, a forma de constatagio-— que funda 0 cognitive — da separagio entre o mundo ¢ 0 sujeito. A categorizaco © quadrado semiético, ou outro modelo que ocupe o lugar no percurso gerativo, instala entdo uma racionalidade significante ‘exatamente onde suptinhamos, como “horizonte do ser”, uma sim- ples necessidade. Ao contririo, a emogio estética, por exemplo, parece dificilmente discretiz4vel; ou 0 mundo € marcado estetica- mente ou nao o 6 ele pode ser mais ou menos estetizado, num modo continuo, mas escapa, entdo, ao jogo das diferencas semidti- cas categoriais. Em compensagio, a protensividade “mole” de La chute acompanha-se de uma suspensio universal das diferencas: somos todos semelhantes, todos culpados, ndo hé nem valor no sen- tido axiol6gico, nem valor no sentido estrutural. Esse modo de engendramento das estruturas elementares da significagdo permite compreender de uma s6 vez seu papel estabili- zador. Pela somagdo-negacio, 0 sujeito operador suscita uma nova grandeza, @ categoria, que € como que uma réplica em busca da unidade orjunda da necessidade original; mas essa unidade € agora rede de relacdes estaveis, em que a composigdo das contradicées, das contrariedades ¢ das implicagSes, fuzendo eclodir a categoria em varios termos, proporciona uma imagem. totalizante ¢, no entanto, em devir. As estruturas elementares da significagao chegam a reconciliar um principio de evolugio, gracas a uma sintaxe diale- tizante, ¢ uma forma categorial da totalidade. Assim se acha resol- vida a tensio entre o “um” e 0 “miltiplo”, pela instalagio de rela- g6es dialetais e descontinuas entre a categoria € seus termos. Por outro lado, a discretizagio transforma o devir em suces- sio de disjung6es e de conjungdes descontinuas. A primeira soma- 20, seguida das operacdes constitutivas da estrutura elementar, transmuta as modulagdes em uma sucesséo de “antes” ¢ de “‘de- pois”, de fases e de limiares de fase. Nessa perspectiva, 0s estados as transformagées se definirio respectivamente nesse nivel como as zonas isoladas por somacio no desenvolvimento orientado do devir ¢ como os caminhos que levam de um estado ao outro. Com relagio a isso, a sintaxe elementar nio se acrescenta tardiamente as estruturas elementares da significagdo © procede da resolucio ‘A EmSTEMOLOGIA DAS BAIDES " do mesmo sincretismo; observa-se, em particular, que, se a estru- tura elementar procede de uma somagao das:"‘sombras de valor”, isto é, das valéncias que se delineiam sobre o fundo da fidiicia, a sintaxe elementar dos estados ¢ das transformacies procede, por sua vez, de uma somago das fases de protensividade. © mesmo procedimento, essa ‘‘captagio-parada’” que identificamos como 0 primeiro ato negador e fundador, € suscetivel de engendrar simulta- neamente a categoria ¢ sua sintaxe, por uma simples variagdo de seu aleance: uma captagio de alcance local, no primeiro caso, uma captagio do efeito dindmico global, no segundo. A SINTAXE NARRATIVA DE SUPERFICIE: OS INSTRUMENTOS DE UMA SEMIOTICA DAS PAIXOES. Tendo chegado a esse nivel da sintaxe narrativa propriamente dita, estamos em condigées agora de definir instramentos concei- tuais diretamente utilizdveis na andlise das paixdes. As estruturas modais Intervindo depois, e sobre a modulagdo das tensdes do devir, a discretizagio pode, conseqiientemente, aplicar-se aos resultados dessa modulagdo. Ela converte em particular modulacdes obtidas por “‘demarcacio” (de abertura, de encerramento, cursiva, pontua- lizante) em categorias modais*. Se se admite que a somacio deve confirmar e estabilizar a cisdo, resistir & necessidade Gntica e proceder por megagdo, entio a 4G. Ziberberg tena conciliar a tensividede © a categoizagéo teunindo, num mesmo quadrado semistico, quatro formas tensivas que se parecem muito com as rodulagdes do devi: pa ai Essa opgfo, sedutora em muitos aspectos, nfo &, no entanto, compativel com nossa ‘descrigio do nivel profundo: se as formas tensivas sio categoriziveis € porque sto estabilizadas €, conseqientemente, jf nfo sZo mais tensivas;talvez se trate de sim: ples questio de formulas a2 SENOTEA DAS PAIDES primeira operagio modalizante consiste em negagio do dever pelo querer. A categoria modal desdobra-se em seguida como quadrado semiético: Si: DEVER, Sz PODER (Cf. pontualizagzo) (Cf. cursivo) NAO-S;: SABER NAO-S): QUERER (Cf. de encerramento) (Cf. de abertura) Obtem-se assim dois eixos modais, respectivamente o eixo das moda- lizagbes exégenas, modalizagdes do sujeito heterénomo (dever vs. poder), € 0 eixo das modalizagées endégenas, modalizagées do sujeito auténomo (saber vs. querer). Dois esquemas modais aparecem tam- bém: 0 das modalizagdes virtuatizantes, modalizagbes do sujeito vir- tualizado (dever vs. querer), ¢ 0 das modalizagies artabisantes, moda- lizagdes do sujeito atualizado (saber vs. poder). As duas déixis apa- recem entdo respectivamente como a déixis das modalizagées “esra- bilizantes” (dever vs. saber) € a das modalizagées “mobilisantes” (poder es. querer). ‘Nao € indtil, entretanto, reter na meméria 0 embasamento tensivo das organizades modais e a modulagdo que € sua fonte. Primeiramente, a propria idéia de fazer surgir as quatro modaliza- ges a partir de uma mesma categoria modal s6 tem sentido se essa ‘categoria oferece um contetido homogéneo — 0 que em semantica estrutural chamava-se de “eixo semantico””. Ora, esse conteiido nao € senio o resultado de uma somagio sobre a massa timica; em outros termos, ¢ negligenciando os detalhes da construcdo teérica das precondigdes epistemol6gicas, poder-se-ia dizer que, uma vez ‘que o sistema modal escora-se na massa timica, esta tiltima encarna ‘© contetido da categoria modal. Em seguida, sera eventualmente possivel apoiar-se na modulacZo tensiva e na interpretago homogé- nea por ela autorizada do conjunto das modalizagSes para estabele- cer a sintaxe modal das configuragdes passionais. © sujeito, o objeto e a jungéo Os diferentes termos ¢ as diferentes relacdes evidenciadas no seio da categoria modal relacionam-se no essencial, nas formula- ges que precedem, com 0 sujeito, e ndo com o objeto e com a jun- [A EDSTEMOLOGIA OAS PAIKOES 3 405 isso nao significa, no entanto, que o objeto € a jungio nao sejam concernidos pela modalizacio. Bem ao contrario, j4 que, no ‘momento em que a categoria modal € discretizada, os sujei objetos sintéticos da jungio ainda no se constituiram. O tinico ver- dadeiro sujeito de que disptinhamos até entZo era 0 sujeito opera- dor (0 da somacao), mas 0 tinico “objeto” que se Ihe podemos reco- nhecer € aquele mesmo que se dé pela somacio, isto & um con- junto de relagdes no seio de uma categoria — 0 quadrado semistico ‘como objeto cognitive formal. Ademais, s6 nos referimos a “‘quase- sujeitos” ¢ a “sombras de valor”. Tradicionalmente, 0 sujeito € 0 ‘objeto so considerados como indefiniveis, como os termos limitro- fes da relagdo predicativa concebida como “‘orientagio" ou “mira”. Poder-se-ia lembrar que a “mira” j4 foi definida aqui como “efei- to” resultante do cardter unilateral € tensivo da orientagao e que, esse aspecto, 0 sujeito e 0 objeto podem ser considerados, no espago da foria, como efeitos de segundo grau (efeito-fonte © efeito- meta). O sujeito operador, que se constitui como tal pela somagio, evacua as modulagées suscetiveis de desenhar sombras de valor (va~ Iéncias) e as substitui pelas estruturas elementares da significaga A partir desse momento, ele € suscetivel de percorrer as estruturas elementares da significado, no seio da categoria somada, tratando 0s diferentes termos discretos (S1, NAO-S1, $2, NAO-S2) como for- mas diferentes da jungio, (conjungdo, nfo-conjungio, disjungao, nao-disjungdo); essa descri¢do esté conforme ao procedimento de discretizagio do devir que propusemos mais atrés. Mas, entio, 0 ‘objeto ndo passa de uma forma sintatica no seio da categoria, e ele se definira, conseqiientemente, nesse nivel como conjunto de pro- priedades sintaticas que aparecerao como simples restrigdes impos- tas no percurso do sujeito. O caréter ‘“participativo” de um objeto determina um tipo de jungdo. Seria preciso supor que 0 novo sujeito operador, depois da primeira somagio, persiga um itinerdrio cujo termo ele ndo conhe- ceria ainda, no lance de uma dindmica anterior: pode-se admitir aqui que a protensividade € recursiva ¢ que, se a somacdo para ¢ converte suas modulagies, ela nfo afeta a orientagia dinimica. Os dois actantes sintiticos sujeito e objeto seriam, pois, colocados a partir dessa orientagio dindmica recursiva, 0 primeiro como opera- dor das forgas de transformagio de uma posicdo & outra, o segundo como conjunto das propriedades (as regras do jogo de algum modo) proprias a cada uma das posig6es adotadas sucessivamente. Desde entdo, a modalizagdo oriunda das modulacdes do devir aplica-se 44 SENOTEADAS PANDES por prioridade a essas “regras do jogo’; ow a essas “'propriedades”” caracteristicas de cada lugar ocupado pelo sujeito, ¢ nao ao préprio sujeito. Com efeito, tendo-se liberado das flutuagdes da foria pela primeira somacio, 0 sujeito operador ndo é mais animado apenas pela “orientacdo dindmica” que se mantém nesse nivel; em contra- partida, mostrar-se-4 sem problemas, no decorrer da anélise da ava- reza € do citime, que as modulagdes subjacentes (por exemplo, 2 modulagio “‘retensiva”, para 0 avaro) encontram-se sob a forma de propriedades sintéticas que sobredeterminam esta ou aquela posi- do da jungio (uma conjungio cumulativa com objetos indestruti- veis ou uma nio-disjungio com objetos que deveriam circular). As valéncias so, em conseqléncia, parcialmente convertidas em pro- priedades dos objetos sintaticos, Da valéncia ao valor ‘A questdo que permanece é a da formacao dos abjezos de valor. Com efeito, “valor” é empregado em semiética em duas acepgdes, diferentes’: 0 “valor” que sustenta um projeto de vida ¢ 0 “valor” no sentido estrutural, como entende Saussure. A conciliacdo entre essas duas acepodes permite forjar 0 conceito de objeto de valor: uum objeto que da um “sentido” (uma orientagio axiolégica) a um projeto de vida, e um objeto que encontra uma significagio por dife- renga, em oposicio a outros objetos. A aparigdo do objeto de valor depende de fato do que advém das valéncias. A valéncia € uma “Sombra” que suscita o “pressentimento” do valor; 0 objeto sinta- tico é uma forma, um “contorno” de objeto comparavel aquele que projeta diante dele 0 sujeito, por ocasido da percepgao da Ges- talt, € que € co-definicional do sujeito; 0 objeto de valor € um ‘objeto sintatico investido semanticamente; mas — ¢ essa é a chave — 0 investimento semintico repousa sobre uma categorizacio oriunda da propria valéncia. Esta claro, por exemplo, que a frase de Vin- teuil ndo propde um objeto de valor propriamente dito; ela designa 5 C£ J, Pettor, “Les deus indcibles, ou la sémiotique face & Yimaginaire comme chais" in Parret ¢ Ruprecht (ed), Bvigences et perspecices de la sémiongne, Ams {etd8, Benjamins, 1985, Se permanecemos na conffontapio entre esas duas acep- Bes de “valor, ha efetivamente “aporia”; mas € fazer pouco-caso da valencia, 0 “Nyalor dos valores", que reg, 8s ocultas; ao mesmo tempo, 0 engendramento do valor no seio da categoria ¢o do valor no objeto visado pelo sueito. -AEDISIENOLOGIA DAS PAMOES 45 primeiramente uma valéncia, por somacdo; depois, a partir dessa valéncia, um tipo de objeto sintitico delineia-se como “‘vélido para © sujeito”, sem que se possa saber ainda qual & seu investimento semintico: {1 Swann encoatrava em si, na lembranca da frase que ele havia escu- tado [..} a presenga de uma dessas realidades invisiveis nas quais ele deixara de crer © as quais, como se @ misica houvesse tid, sobre a secura moral de que ele sofra, uma espécie de influtncia eetiva, ele sentia de novo o desejo e quase que a forga para consagrar sua vida’, Uma vez instaladas essas determinag6es, qualquer contetido semintico pode investir o lugar assim definido, desde que ele esteja em conformidade com a valéncia; para Swann, sero amor, € esse amor satisfard as condigées impostas pela frase de Vinteuil. Se 0 sujeito sintatico pode ser definido, semanticamente falando, pelo valor a que ele visa, & porque esse valor obedece aos critérios impos- tos pela valéncia, a valéncia controlando também, como vimos, as propriedades sintéticas das posigdes adotadas pelo sujeito, Poder- se-ia dizer, seja como for, que nesse assunto sujeito ¢ objeto esco- them-se reciprocamente; 0 sujeito, porque impée protensivamente 420 objeto propriedades sintaticas seletivas, ¢ 0 objeto, porque seman- tiza 0 sujeito, sendo a valéncia 0 critério regulador desse encontro. investimento semantic, reconhecido em conformidade com a valéncia, recebe ento, recursivamente, as “‘atragdes-repulsdes” pro- prias da foria e que, polarizadas desta vez, constituem uma axiologia. As estruturas actanciais Os actantes sujeito e objeto obtidos na etapa precedente tornam- se, No momento em. que assumem o nivel narrativo, “‘proto-actan- tes”, suscetiveis de, ser, por sua vez, projetados sobre 0 quadrado semiético € tratados como categorias. O principio dessa categoriza- g20 do proto-actante ¢ bem conhecido e permite obter quatro posi- ‘goes principais: ACTANTE [> ANTACTANTE NEGANTACTANTE NEGACTANTE SOp.cits p21. 6 SEMOTIA DAS PANES Podem-se engendrar desse modo modelos actanciais que servem a encenagio das estruturas polémico-contratuais. Sua aparigao faz tam- bem eco, de certa maneira, 20 primeiro “abalo do sentido”, j@ que a separagio entre o “quase-sujeito” ¢ a “sombra de valor”, que se interpreta como a emergéncia da ficticia e da protensividade, pode- ria também ser atribuida @ intervengao de uma forma de adversi dade — nao se pode ainda falar nesse nivel de anti-sujeito; o princi- pio mesmo de uma coabitagao indecisa entre as estruturas contra- tuais ¢ as estruturas polémicas j4 estaria funcionando no seio da foria, ja que ai encontramos tendéncias coesivas e tendéncias dis- persivas que podem ser compreendidas seja como favoriveis, seja como desfavordveis ao advento da significagio. No nivel das estra- turas semionarrativas, o principio polémico assumira duas faces dife- rentes: ou 08 sujeitos visam ao mesmo objeto de valor e, na medida fem que partilhum o mesmo sistema de valores, cles encontram-se ‘em concorréncia; ou entéo, uma vez investidos em seus programas narrativos, os sistemas de valores diferentes acham-se em conflito. ‘Além do mais, J. Petitot sugeriu, apoiando-se nas diferentes cama- das da catéstrofe de conflito, que a contrariedade entre dois termos de uma categoria podia tanto funcionar como relago polémica entre sujeito e anti-sujeito quanto como diferenga entre dois objetos. Ha af dois problemas diferentes por distinguir. O primeiro €0 da aparigo, no percurso gerativo, das relagdes polémico-contra- tuais enquanto tais; 0 espago fiducidrio evocado precedentemente forneceria um ponto de partida conveniente para a comunicagio contratual dos objetos; uma modulagio do devir, afetando a fidi- cia, conviria para explicar a aparigdo das relagdes polémicas, em particular se se admite que a cisio do “um” pode engendrar tanto a dupla “sujeito-objeto” quanto uma dupla de “intersujeitos”, entre os quais 0 jogo das atragdes-repulsdes prefiguraria as estru- turas polémico-contratuais. Essa hipétese € interessante por mais de uma razdo. Primeiro, ela esclarece um fendmeno descrito com freqiigncia, mas raramente explicado, que diz respeito a transfor- ‘macdo dos objetos em sujeitos: o objeto torna-se sujeito porque resiste, esconde-se, recusa-se a0 sujeito de busca, por uma espécie de projegio sobre 0 objeto dos “‘obstéculos” encontrados pelo sujeito: 0 anti-sujeito se instalaria de algum modo na figura-objeto, fe mais particularmente para um sujeito apaixonado. Se a converséo [A EASTEMOLOGIA DAS PAIKOES 47 objeto — sujeito acompanha-se de efeito polémico, & em razio, parece, do retorno & cisio tensiva e a fase dos “‘intersujeitos” que ela supde. Em seguida, ela permite dar conta de um dos aspectos do segundo problema que evocévamos antes. Esse segundo problema 0 que est sendo tratado aqui, a saber: a categorizacio dos proto-actantes ¢, em seguida, a categori- zagio das estruturas polémico-contratuais, Esta se estabelece atual- ‘mente como segue: coLusio ANTAGONISMO CONTRATO POLEMICA concitagio DISCORDIA, A coabitagio das estruturas contratuais ¢ das estruturas polémicas € constante ¢ as vezes determinante no universo passional, entre outros; muitas paixdes, de fato, aparecerdo como a organizagio de ‘uma zona contratual num universo polémico: a “emulaclo”, por exemplo, que se apresenta como paréntese contratual e fair play, acompanhada de eventual recompensa, no interior de um campo de rivalidades; a0 contrério, outras paixdes consagram a irrupgio da polémica num universo contratual: assim ocorre com a *céle- ra”, que suscita frustrag2o a partir de um horizonte contratual € pacifico, Tais encaixes entre 0 polémico e contratual, que tornam de algum modo a vida suportivel, entre uma paz sem peripécias € um dilaceramento incontrolavel, poderiam ser descritos como 0 resultado de uma aspectualizagdo proporcionada pela colocagéo em discurso; mas s6 podem ser explicados mediante o reexame de certas modulagdes da tensividade forica. Se se quer mesmo admitir, com efeito, que as estruturas polé- mico-contratuais so prefiguradas no momento da cisio e do. pri- meiro abalo do sentido, pode-se entdo explicar que elas obedecem 2 l6gica das aproximagGes e & das imbricagdes; pode-se mostrar sem problemas que uma paixio como 0 “‘conservantismo”, nos roman- ces do século XIX, em particular em Balzac ¢ Stendhal — endo apenas nos romances —, opondo ao fluxo do devir politico e histé- rico uma resisténcia (uma “desaceleragio"), suscita, a partir dessa modulasio retensiva, uma zona conflitual de onde nascerio todos ‘5 antagonismos politicos e sociais. Essa visio das coisas, que toma indiretamente de Bréndal a idéia do termo complexo, suporia no 48 SEMIOTICA DAS PADKOES. seio mesmo das estruturas polémico-contratuais’ uma forma do misto obedecendo a domindncias variaveis; na medida em que as variagSes de dominancia fazem-se obrigatoriamente sobre um modo continuo, gragas ao aumento de influéncia de um termo, correla- tiva a diminuicdo de influéncia do outro, elas confirmam sua anco- ragem nas modulagées tensivas da foria. A luz dessas observag6es, 0 sistema (categorial) do polémico-contratual poderia ser repensado como série de desigualdades em que cada posicao seria compreen- dida como novo equilibrio nas variagdes de dominancia; 0 percurso sobre 0 quadrado seria entéo concebido como sucesséo de inver- s6es de dominincia entre as formas polémicas ¢ as formas contratuais. © proto-actante objeto reflete, no que lhe diz respeito, a cate- gorizagio dos sistemas de valor: depois da binarizagdo da foria, as “sombras de valor” marcadas pela euforia ¢ pela disforia sio proje- tadas sobre 0 quadrado semiético. Na relagio entre o sujeito ten- sivo e as valéncias, nfo fazia sentido distinguir “antiobjetos” ¢ “nio- objetos”, visto que 0 objeto nfo passava, nesse nivel, de contorno impreciso; mas, depois da categorizacio, a multivaléncia dos obje- 10s revela-se, fazendo aparecer “bons” e “maus” objetos; estes tlti- mos recebem assim uma polarizagio independente da atracio e da repulsdo caracteristicas do sentir e que projeta o sujeito para diante dele, gracas 4 protensividade, Sem essa objetivagao das valéncias, gracas a euforia ¢ a disforia, o sujeito nfo conheceria nunca, a0 Tongo de seu percurso narrativo, mais do que zonas valorizadas para ele ¢ por ele, sentidas como atraentes ou repulsivas, mas nio podendo ter acesso ao scatus de uma axiologia autonoma, Muitas historias passionais resumem-se, portanto, num percurso dos avata- res do objeto; assim, no momento em que o narrador de Em busca do tempo... deve desposar Albertina, ela torna-se um “ndo-objeto”, fonte de tédio ¢ de cansago, que se pensa em abandonar; em seguida, logo depois da revelagio de suas relagdes com a Srta. de Vinteuil sua amiga, ela torna-se um “antiobjeto”, do qual nao é mais pos- sivel separar-se: um sofrimento, Ié-se nesse momento, bastou para aproxima la do narrador, ou melhor, para “fundi-lo a ela”; a cate- gorizacdo timica parece aqui independente tanto da jungio quanto da atragdo-repulsio: com eftito, embora seja explicitamente disfé- rico, esse antiobjeto — a amiga das lésbicas — € atraente ¢ reativo a protensividade do sujeito; € desse paradoxo que o amor renasce. Em outras palavras, a independéncia adquirida pelas axiologias auto- riza virios niveis de modalizago, com 0 isco, para 0 sujeito, de ACISTENCKOGIA BAS PACES 49 encontrar-se diante dos dilemas insoliveis: em nosso exemplo, a jungio continua a obedecer a uma modalizagao do objeto sintatico que sustenta uma “valencia” (isto € um “hd af alguma coisa que vale a pena...”), enquanto @ axiologia modaliza 0 objeto de valor como disférico. Tudo se passa como se’o' percurso gerativo ‘da significagao obedecesse a regras cumulativas € mnésicas a0°mesmo tempo; 0 conjunto’de procedimentos gerativos nao “esquece”, com efeito, as propriedades de um nivel quando advém o seguinte, no mais do que as propriedades de um nivel alcancado ‘do obliteram as propriedades do nivel precedente; a categorizacio do objeto de valor no impede que as l6gicas da aproximacdo € da imbricagdo que a le preexistem continuem a fazer sentir seus efeitos; muitos dos objetos de valor caracterizados guardam assim uma parte de ambi- valencia, sob certas condigées. No discurso dos médicos de clinica geral, por exemplo, a respeito da diabete, 0 “acticar”” pode tanto aparecer como objeto positive, euférico num programa narrative de nutrigdo, “quanto ‘como objeto megativo; verdadeiro veneno = origem da diabete — num antiprograma de ‘m4 nutrigio”. A mudanga de estatuto € gradual e continua, ja que tudo é, no caso, assunto de medida (para 0 objeto positive) e de excesso (para 0 objeto negative) no nivel discursive; mas o excesso a medida no sio propriedades intrinsecas do objeto, pois 0 efeito positivo ou negative do objeto € de fato fngio da sensibilidade (fisiolégica)s serfamos tentados a aproximar esse funcionamento do de certas pogdes mégicas que podem tanto decuplar as faculdades dos herdis que as ingerem quanto destruir os que nao seriam dignos ou no seriam 0s destinatérios predestinados. O objeto, eufbrico enquanto tal, € entretanto, nefasto ao sujeito; ndo se pode dar conta disso sendo supondo que o discurso manifeste 20 mesmo tempo os resul- tados da categorizacdo ¢ da objetivacdo dos sistemas de valores, por um lado, ¢ as valéncias, definindo o valor do ‘“mundo-para-o- sujeito”, por outro. Os sujeitos modais No processo de complexificagio progressiva em que estamos agora envolvidos, a recursividade das operagdes € determinante: cada nova conversio (somagio;-discretizagio; ‘categorizacio etc.) 50 SEMONCA OAS PARDES aplica-se aos resultados da precedente ¢ des-multiplica, assim, as categorias ou grandezas subjacentes; também. as modalizagdes afe- tam os actantes, em particular, 0 sujeito, por intermédio das moda- lizagbes do objeto e da jungio. Distinguir-se-4, para comecar, um sujeito proprio para cada tipo de enunciado narrativo: um sujeito de estado e um sujeito de fazer, conforme forem consideradas as junges, como resultado ou como operagio, como “fase” ou como “caminho”; estabelece-se desde ja como principio, & guisa de hips- tese de trabalho, que as paixdes concernem, na organizacio de con- junto da teoria, a0 ‘‘ser”” do sujeito e no a seu “fazer”, 0 que ndo significa, é claro, que as paixdes ndo tenham nada que ver com 0 fazer e 0 sujeito do fazer, nem que seja porque também este ltimo comporta um “ser”” que sua competéncia. O sujeito afetado pela paixio seri, portanto, sempre, em dltima anélise, sujeito modali- zado segundo 0 “ser”, isto & sujeito considerado como sujeito de estado, ainda que, por outro lado, ele seja responsével por um fazer: a questio ja {oi colocada, ¢ distinguimos entre estados de coisas estados de alma e propusemos reconhecer um conjunto de procedi- mentos de homogeneizagio fundadora da paixio © que repousa sobre a mediagdo do corpo que-sente-que-percebe, A paixao e 0 fazer ‘Nem por isso ignoraremos que a paixio do sujeito pode resul- tar de um fazer, seja desse mesmo sujeito, como no “‘remorso”, seja de outro, como no “furor”, e que ele pode também desembo- car num fazer, que os psiquiatras denominam a “passagem ao ato” € assim que 0 “entusiasmo” ou 0 “desespero”, por exemplo, pro- gramam sobre a dimensio patémica um sujeito de fazer potencial, seja para criar, seja para destruir; a propria paixdo, enquanto apa- rece como discurso de segundo grau incluso no discurso, pode em si ser considerada como um ato, no sentido em que se fala, por exemplo, de “ato de linguagem”: 0 fazer do sujeito apaixonado nao deixa de lembrar 0 de um sujeito discursive, a0 qual ele pode, alids, substituir-se, se for 0 caso; € entio que o discurso passional, encadeamento de atos patémicos, vem interferir com o discurso de acolhida — a vida enquanto tal, de alguma forma — e perturbé- lo ou infleticlo. Além disso, na andlise, a paixio revela-se constituida sintaticamentecomo-encadeamento de fazer: manipulagdes, sedu- es, torturas, investigagdes, encenagdes etc. Desse ponto de vista 1 EDSTEMOLOGIA DAS PADEES 51 e nesse nivel de anilise, a sintaxe passional ndo se comporta dife- rent sintaxe pragmética ou cognitiva; ela assume a forma “de programas narrativos, em que um operador patmico transforma estados patémicos; as dificuldades comegam quando se examinam as interferéncias entre as diferentes dimensdes. O ser do fazer Voltando as modalizagdes propriamente ditas ¢ aos sujeitos de estados suscetiveis de ser afetados pela paixao, distinguir-se-do, para comegar, dois tipos, Certos sujeitos so modalizados em fun- Gio dos valores modais investidos nos objetos, segundo um con- junto de procedimentos que j& evocamos; outros serio modalizados em vista do fazer, em nom: peténcia; essa distincdo foi iden- tificada outrora, gracas 4 oposigio terminolégica entre comperéncia. ‘modal e existéncia modal. E evidente, por exemplo, que 0 sujeito da “inveja” € puro sujeito de estado que s6 se torna sujeito modal por intermédio do querer-ser veiculado pelo objeto de valor, ou mesmo, eventualmente, pela mediagdo do rival; nao é necessario, pata compreender a “invet”, cone com asi gbmpeteciasrigo ‘sensu; em contrapartida, a descrigao da “‘éiiulacao” nao pode pres- indir de certa representacdo do fazer e das modalidades necessé- rias para cumpri-la: 0 émulo s6 € sujeito modal em razo do pro- “grama particular em que sua competéncia est engajada e colocada em questo, Todavia, a traducio das modalizagdes do segundo tipo nos termos do primeiro é sempre possivel, em raz4o do processo de homogeneizagio ja abordado; com efeito, a “emulacia” i sum _guerer-fazer — “‘to-bem-ou-melhor-que-o-outro”; mas esse gue-_ fazer procede. jwerer-ser — “‘aquele-ou-como-aquele- ‘que-faz”, isto é, de uma identificagio com certo estado modal de outrem; em outros termos, a emulacio na tem-por-finalidade a seproduto do programa dates, mes-0-de imagem” model qe _o outro oferece ao cumprir seu programa, seja ele qual for: um “es- tado de coisas”, a competéncia de outrem, vé-se assim convertido em “estado de alma”, a imagem modal visada por ela mesma pelo sujeito da emulacao. Ao lado da modalizacdo do sujeito por intermédio do objeto ou da jungdo, somos, pois, convidados, no mbito de uma semié- tica das paixdes, a encarar a modalizacao do sujeito atra ‘pio “grama de fazer em que ele engnjou-se. A paixio concerne, portanto, qualquer que seja 0 sujeito de primeira categoria envolvido, sujeito 52 SEMOTEA DAS PARES de estado e sujeito de fazer, a um sujeito. de segunda categoria, 0 sujeito modal que dele decorre. Tanto de um lado como do outro, evoluindo a carga modal, quer em fungdo dos avatares sucessivos da juncio, quer em virtude do avango no programa, .o sujeito modal aparece de fato como seqiiéncia de identidades modais dife- rentes; assim, conforme seja 0 objeto modalizado como “desejavel”, “til” ou “‘necessario”, 0 sujeito mudaré de equipamento modal € percorreré uma série de identidades modais transitérias, que se pode ria representar assim: S55 5555 onde “1, 2, 3, ... m’” representam as cargas modais sucessivas. Esses sujeitos modais so necessarios ao estabelecimento das transforma- ‘ges modais que seremos levados a postular no interior das configu- ragées passionais. Modos de existéncia € simulacros existenciais Reconhece-se, por outro lado, em semiética narrativa, uma série de papéis do sujeito repertoriados, que caracterizam os dife- rentes modos de existéncia do actante narration no decorter das trans- formagées. Em seu uso mais corrente, essa série limita-se a trés papéis, cada um fundado num tipo de jungao: ‘sujeito virtualizado (nio-conjunto) sujeitoatuslizado (dsjunto) sujeito realizado (conjunto) Todavia, se levarmos em conta os diferentes termos possiveis de ser construides a partir da categoria da junclo, constataremos a existéncia de uma quarta posigio, que no aparece no inventério dos modos de existéncia: coNsuNcAo DISJUNCAO > do. | NAO. pisqstno, CONTUNGAO Como os modos de existéncia do sujeito da sintaxe de superficie definem-se em fungdo de sua posicao no seio da categoria da jun- G40, pode-se considerar que a “‘nio-disjuncio” define,. também la, uma posigdo ¢ um modo de existéncia do sujeito que néo teriam A ERSTENOLOGIA DAS PAKS 53, sido levantados até 0 presente. Propde-se denominar esse papel “‘su- sito potencializado”, na medida em que ele resulta de uma nega- 40 do sujeito atualizada e pressuposto pelo sujeito realizado. Hi duas questdes com relagio a isso. A primeira, que nos obriga a retroceder, diz. respeito a0. uso que se pode fazer desse termo e da nogdo que ele recobre na econo- mia da teoria. Com efeito, na perspectiva de uma teoria semitica considerada como percurso de construgio da existéncia semistica, os modos de existéncia caracterizam as diferentes etapas dessa cons- trugdo ¢ demarcam 0 percurso do sujeito epistemologico desde 0 nivel profundo até a manifestacdo discursiva, E nessa perspectiva epistemologica que 0 sujeito do discurso pode ser dito “realizado”, enquanto 0 sujeito narrativo ¢ apenas “atualizado”, e 0 sujeito ope- rador das estruturas elementares da significagio é, por sua vez, “vir- tualizado”’. Na seqiiéncia das tentativas que precedem para instalar ¢ conceimalizar um nivel anterior so das estruturas elementares da significacdo, € tentador reservar 0 papel de “‘sujeito potencializa- do” ao sujeito tensivo que aparece no espago da foria, Esse “quase- sujeito” é bem da ordem do potencial, suscetivel ao mesmo tempo de ser convertido em sujeito virtualizado/atualizado por dupla nega- ¢fo-somagio e de ser convocado diretamente por ocasifo da coloca- gio em discurso para a realizado do sujeito discursivo apaixonado, ‘Mas essa afetagio no deixa de suscitar algum problema, ja que, situado entre 0 sujeito atualizado € 0 sujeito realizado, na sintaxe estabelecida a partir da categoria da jungio, 0 sujeito potenciali- zado se poria, nesse ‘caso, no inicio de percurso, antes do sujeito virtualizado. Voltaremos ainda a essa dificuldade. ‘A segunda questo alude a telacao com os sujeitos modais anteriormente definidos. Claro est que os modos de existéncia do da sintaxe narrativa de superficie no se confundem com ‘08 papéis modais evocados mais atris, nem mesmo coincidem neces- sariamente com eles no plano sintético. Sabe-se, por exemplo, que, por ocasido da conversio da sintaxe em sintaxe narrativa antropo- morfa, © no momento da aquisicio das competéncias, 0 querer € 0 dever determinam ‘um sujeita’ narrative “‘virtualizado”, enquanto © saber e 0 poder determinam um sujeito “atualizado”; sera neces- sirio esperar a performance para vé-lo se “realizar”. Nao se vé muito bem, na auséncia de anilises mais concretas, que lugar se poderia designar desde jé ao sujeito potencializado nese percurso. Poder-se-ia imaginar, provisoriamente, que 0 sujeito de busca, antes de receber 0 querer ¢ o dever, ¢ instaurado quando descobre a exis- 34 SEMOTCA DAS PABCES téncia de um sistema de valores e que essa instauragdo prévia faria dele um sujeito potencializado. Mas, seja 14 qual for a solugio ado- tada, restaria o fato de que, ao longo de todo esse percurso, dois modos de existéncia apenas corresponderiam a modalizacées “clés- sicas”. Os dois outros, 0 “sujeito potencializado” e 0 “sujeito reali- zado”, parecem escapar a série canénica das quatro modalidades. Poder-se-ia observar, entio, que a instauraglo, embora reatando com 0 “‘pressentimento do valor”, nao @ estranha a modalizacao, nem que seja aquela que proporciona a fidicia, € teriamos, pois, que ver, nesse caso, com 0 crer. Da mesma forma, a performance no deixa de ter certo efeito modal, pois 0 fazer pode ser captado no segundo grau como ser do fazer; seria, intuitivamente, toda a diferenca entre um sujeito “agente”, sujeito do fazer, captado no primeiro grau, e um sujeito “ativo”, sujeito do ser do fazer, cap- tado no segundo grau; em outras palavras, 0 sujeito dito “ative” € caracterizado em seu ser pela realizacao da propria performance, caracterizag3o que ndo comporta nenhuma consideragdo sobre a “competéncia modal” propriamente dita. Essas poucas observagdes fizem pensar que os sujeitos passio- nais ndo podem ser definidos unicamente gragas 3s quatro modali- zagOes geralmente identificadas, em particular no quadro da compe- téncia, em vista do fazer. Falar-se-4, por exemplo, de “hiperativida- de” para designar um estado modalizado que no deve nada especi- ficamente a0 querer, 20 saber, a0 poder, a0 dever ou ao crer, mas nem por isso esta menos sensibilizado e convocado, por exemplo, como critério de identificagdo de certa forma de ansiedade. Independentemente das cargas modais definidas em termos de categorias (querer, poder etc.), 0 sujeito apaixonado € de fato suscetivel de ser “modalizado” pelos modos de existéncia, 0 que equivale a dizer que a jungdo enquanto tal 6 uma primeira modaliza- lo, Captado fora de toda configuragio passional, 0, modo de exis- téncia apenas traduz certa etapa no percurso das transformagbes narrativas; mas, no interior das configuragdes passionais, torna-se ‘modalizante para o sujeito. Examinemos brevemente, a titulo de exemplo, a “humildade”: 0 “‘humilde”, que se considera de bom grado como insuficiente, em decorréncia competente, pobre € idiota? Sem tomar partido numa discussio de ética religiosa, poder- se-ia observar que a humildade nio diz respeito a um modo de exis- téncia caracteristico de um estado de coisas, mas a'um modo-de existéncia caracteristico de um estado de alma; em outras palavras, [A EISTENOLOGIA DAS PADXOES 55 no humilde, seja pobre, seja rico, disjunto ou conjunto, © que importa € a disjungdo na qual ele se representa ¢ para a qual cle tende. Para distinguir entre os dois tipos de funcionamento, convi- ria provavelmente designd-los de duas maneiras diferentes; reser- vando a expressio “‘modos de existéncia” aquilo para o que ela ser- vviu em semiética até presente, denominaremos “simulacros exis- tenciais” essas projegées do sujeito num imagindrio passional. Sujeitos modais e simulacros existenciais A independéncia relativa dos simulacros existenciais e das car- gas modais especificas nao deve dissimular 0 fato de que € por intermédio das cargas modais que tais simulacros podem constitui se. Por exemplo, fora da configuracdo passional, um sujeito atuali- zado € sujcito disjunto, ¢ essa disjungio € atestada no apenas por seu ponto de vista, como também no discurso-enunciado inteiro; mas na “apreensio”, por exemplo, que comporta um guerer-ndo-ser, se 0 sujeito pode projetar-se como “atualizado” e disjunto, nao em fungdo de um estado de coisas, mas por intermédio da carga modal do “querer”; da mesma forma, na “avide2”, se 0 sujeito pode ser representado como “realizado” ¢ conjunto, qualquer que seja sua posigio no estado de coisas e, portanto, qualquer que seja © modo de existéncia efetivo que o afeta, é ainda pelo efeito da carga modal. O exame dos simulacros existenciais modais conduz~ xnos, pois, a conceder um papel fundamental as cargas modais na constituigdo dos imagindrios passionais: imiscuindo-se entre 0 enun- ciado narrativo ¢ sua efetuagio no discurso, a carga modal abre sum espaco semiético imaginério em que o discurso passional pode desfraldar-se. Em tal perspectiva, os “imagindrios passionais”’, longe de nascer numa eventual psigue dos sujeitos individuais, resultam das propriedades do nivel semionarrativo, que € geralmente reco- nhecido como a forma semiética do imaginério humano, no sentido antropalégico nao psicolégico. . Eis por que a confrontacio entre as duas séries, a das identida- des modais transitérias € a dos simulacros existenciais, ser um dos processos da anilise das paixées. De fato, a carga modal principal que caracteriza um sujeito apaixonado no proporciona necesséria € dirctamente todos os simulacros existenciais requeridos para a interpretagdo de seu percurso; por exemplo, um sujeito “terroriza- 56 SEMOTEA OAS PAOES ser, mas seu percurso imagind- rio permanece fundado numa conjungio (temivel) com um anti- objeto, isto é, numa imagem disforica de um sujeito realizado; no espago imagingrio aberto pela carga modal do querer, o estado vir- tualizado pressupde um estado realizado; este tiltimo é, por sua vez, sobredeterminado por um crer prospectivo, uma expectativa disf%- rica que o modaliza, ¢ assim por diante. A superposi¢o das duas séries teria, além disso, uma virtude heuristica. Os simulacros A cmergéncia de um “‘imaginério modal” obriga-nos a interro- gar sobre 0 status da dimensio passional do discurso. Com efeito, a paixo presentifica, no seio do discurso de acolhida, um conjunto de dados a0 mesmo tempo tensivos © figurativos, como faz, por exemplo, a nostalgia numa situacdo estereotipada, reunindo 0 objeto amado_e 0 rival, que constitui 0 objeto de forte apreensio. Em numerosos casos, somos obrigados a constatar que a paixio € indi- ferente ao modo de existéncia efetivo concedido ao sujeito no estado de coisas, no momento da referéncia do discurso. A nostalgia, ¢ 0 pesar de uma época remota que ela comporta, pode muito bem inva- dir um sujeito perfeitamente feliz. Os simulacros modais. E por isso que a colocagdo dos objetos modais deve ser acom- panhada, no mbito da semiética das paixdes, de uma teoria dos simulacros modais. Essa teoria pode muito bem dar-se por ponto de partida uma observagdo’ mais geral, que consistiria em fazer 0 Ievantamento da enorme instabilidade dos papéis actanciais nas con- figuragdes passionais. Na paixdo amorosa, por exemplo, vé-se 0 objeto amado transformar-se em sujeito, 0 que € ainda mais surpreen- dente no caso em que esse objeto nfo é um ser amado, na narra- tiva fanrastica entre outras, mas também mais banalmente nas con dutas fetichistas. A curiosidade também tende a transformar seu objeto em sujeito, e até em anti-sujeito, que resiste, que foge, que dissimula ete. Também no faltam avatares para tratar sua “cas sete” como sujeito, verdadeiro alter ego. Em suma, 0 objeto, na paixo, tenderia a tornar-se 0 parceiro-sujeito do sujeito apaixona- do. Daf a hipétese de que apenas a estrutura generalizavel, para ‘AERSTMOLOGIA Ons PADS 87 descrever a paixdo, seria uma estrutura intersubjetiva, ou, mais pre- cisamente, uma estrutura em que toda relagio objetal recobriria uma interactancialidade. com contornos. imprecisos; tentaremos mostrar, a respeito da avareza, que se dé obstinadamente como pair xio de objeto, como protétipo da paixao solitéria, que ela reco- bre, faz dela uma (des)regulacao intersubjetiva, e que 0 que pode- ria passar por propriedades dos objetos no passa de fato de con- junto de regras funcionando no seio de uma comunidade de sujeitos. A instabilidade dos papéis revela de fato a dissociagao entre dois universos semidticos: 0 do discurso de acolhida da paixio e 0 da propria paixio; “objeto” com relacao a0 primeiro, a cassete torna- se “sujeito”” para 0 avaro, no segundo. O sujeito apaixonado pode ser ele proprio desdobrado em sujeito “efetivo”” de um lado — ates- tado como tal no discurso de acolhida — ¢ sujeito de estado “simu- lado” na configuracao passional, como projetado numa representa- go de segundo grau. Essa divisdo do sujeito em duas instdncias mostra-se particularmente nitida na “obstinagio”, entre outros, em que um observador exterior compara um sujeito de estado efeti- vamente disjunto ¢ um sujeito passional cujo simulacro é 0 de um sujeito realizado, e depois conclui pela heterogeneidade das duas instancias; mas nio ha divida de que, para 0 obstinado, a conjun- go permanece na ordem do dia, enquanto ela parece pouco previ sivel no discurso de acolhida. De uma maneira ou de outra, a semi6- tica das paixdes deve dar conta desse desdobramento imaginério. Claro esta que 0 encaixe discursivo atrés evocado, mesmo acompa- nhado de operagdes de debreagens e embreagens, constitui apenas uma facilidade de apresentacio, pois ndo € delegacZo enunciativa, mas desdobramento bem especifico’ ‘A concepgio dos sujeitos modais, como resultante, a0 mesmo tempo, das modalizacdes adquiridas no percurso gerativo da signifi- cagio € das modulagdes da tensividade, oferece um comego de solu- Go. Na verdade, parece que os efeitos da massa timica enquanto tais, 20 mesmo tempo que softem conversio categorial, continuam 7 Poder-se-ia pensar em apelar aqui para uma teoria dos mundos possiveis, tal que, para 0 obstinado, a conjuncio permanecesse possivel, mesmo que ela ndo o fosse ‘mais no mundo atual; mas ela nlo nos diz nada de um mundo possivel que seria especificamente passional, Tal desdobramento evoce também o self, essa relacio e si consigo que a metapsicologia considera determinante nos fen6menos passio- ‘ais; mas resta teorizar em termos semisticos essa relacio de si consigo, s6 sendo fecunda a importagio conceitual se, justamente, ela for mais que uma importacio, 58 SEMOTKA DAS PAGES a coexistir em discurso com 0 produto dessa conversio, € em parti- cular com a modalizacdo propriamente dita. Uma das conseqiién- cias dessa remanéncia tensiva € conservar no sujeito, tornado sujeito operador, depois sujeito sintético, sujeito de busca e sujeito do dis- curso, a possibilidade de projetar representagdes actanciais € modais complexas, isto 6, mais uma vez, de representar-se como estrunura do misto. Essa possibilidade manifesta-se no discurso gragas a uma dupla convocagéo: por um lado, a convocagio das formas semionar- Tativas da subjetividade, por outro, a das formas tensivas da actan- cialidade. Dai o efeito que a metapsicologia diria de “internaliza- so”, que permitiria, a partir de um sujeito apaixonado, aparente- ‘mente tinico € homogéneo, projetar verdadeiras “encenagdes” pas- sionais, comportando varios papéis actanciais € varios sujeitos modais em interagZo. Os sujeitos modais, tal como j os definimos, determinados ao mesmo tempo pelas modalizagdes dos sujeitos de fazer e dos sujeitos de estado, €, no entanto, auténomos, sfo os ins- trumentos do desdobramento passional, Os simulacros passionais Tal concepgio ndo deixa de acarretar conseqiiéncias para a teoria da comunicacao e da interagdo em seu conjunto, Pode-se, ‘uma vez reconhecida sua existéncia, optar entre duas extensdes dos “simulacros”. Numa versio restrita, a evocada até o presente, con- sidera-se que o simulacro € uma configuracao que resulta apenas da abertura de um espaco imaginério pelo efeito das cargas modais que afetam o sujeito: papéis actanciais, isto ¢, mdo o que afeta a representagio sintética dos enunciados de jungdo, s4o as principais propriedades desses simulacros no sentido restrito. Eles aparecem no discurso como 0 efeito de debreagens localizadas, pelas quais 0 sujeito apaixonado insere cenas de seu ‘“imaginério” na cadeia dis- ccursiva; a confrontagio dos enunciados embreados pode entio dar lugar a julgamentos de tipo veredict6rio e epistémico. Mas limi- tamo-nos, entdo, justamente a uma interpretacdo em termos de vere- diego discursiva. ‘Numa versio mais radical, que teria o mérito de extrair todas as conseqiiéncias das particularidades levantadas na anilise das pai- x0es, 0 status dos interlocutores ou dos interactantes na comunica- gdo em geral poderia ser recolocado em questio. Esse requestiona- ‘AERSIENOLOGA DAS PAIOES 59 mento jé est em parte comprometido quando se diz, em psicolin- gilistica ou em sociolingiistica, que cada locutor constréi seu dis- curso e até adapta seu vernéculo, em fungio das “imagens” que ‘seu interlocutor lhe remete, bem como daquelas que ele tem de si mesmo. Tirar todas as conseqiiéncias da andlise das paixdes € pos- tular que toda comunicaglo ¢ comunicagio (¢ interago) entre simu- lacros modais e passionais: cada um dirige seu simulacro ao simula~ cro de outrem, simulacros que todos os interactantes, bem como as culturas as quais eles pertencem, ajudaram a construir. Tal posi- ‘slo apenas concretiza as sugestdes emitidas, desde 0 nivel epistemo- légico, sobre 0 modo de conceber a intersubjetividade, no momento ‘em que © sujeito tensivo desdobra-se em um “outro” ¢ interioriza ‘0 corpo outro como “‘intersujeito” com base na fidiicia. (Os simulacros dos atores em interagdo so, no essencial, agru- pamentos de sujeitos modais figurativizados e sensibilizados. Duas conseqiiéncias saltam ao espirito: em primeiro lugar, 0 funciona~ mento caracteristico do universo passional, consistindo em proje- g6es imagindrias de sujeitos modais sensibilizados, longe de ser um dispositivo descritivo ad hoc, nfo passa de um caso particular da interagZo em geral; em segundo lugar, toda comunicagdo seria virtualmente passional, nem que seja porque basta que um dos simu- lacros modais, utilizados por ocasio da interacdo, seja sensibili- zado — na cultura de pelo menos um dos interlocutores — para que a totalidade da interacdo veja-se afetada. Essa versio estendida dos simulacros, designados entdo como “simulacros passionais”, integra a totalidade do equipamento modal (exterior a0 préprio simulacro) que abre o espaco imaginério do sujeito apaixonado; na verso estendida, é a comunicacdo toda que repousa na circula- ¢40 dos simulactos. Os actantes narrativos e as paixdes Praticamente no evocamos, sendo de maneira incidente e indireta, as estruturas actanciais antropomorfas que dispéem, 20 lado do objeto de valor ¢ do sujeito de busca, sobre o eixo da commu- nicagdo dos valores, o destinador € o destinatirio; esses dois papéis ser-nos-o de pouca utilidade aqui. Com eftito, ainda que o destina- trio esteja diretamente concernido pelas paixses, apenas a coloca- go do ou dos sujeitos de estado basta, na maior parte do tempo, 60 SEOTOA DAS PAIRS para tratar economicamente as configuragées passionais. Quanto a0 destinador, seu papel esta consideravelmente reduzido pela pai- xo; que 0 destinador esteja na origem ou nio de um programa, percebe-se que a paixio do sujeito é suficiente para 0 desenvolvi- mento do dito programa, no ponto em que ele aparece como aut6- nomo com relacdo a um eventual mandador ou manipulador; 0 que nao quer dizer que o destinador no possa. instaurar paixdes no sujeito; isso significa apenas que, tal como,o monstro que escapa a0 doutor Frankenstein, 0 sujeito apaixonado escapa ao controle de seu destinador, tendo uma disposigao passional substituido o mandar fazer do destinador. Esse funcionamento é facilmente compreendido quando se admite a diferenga entre espago fbrico e sistema de valores, ou entre valencia e objeto de valor: para o sujeito apaixonado, o objeto esté sempre sob 0 regime da valéncia, e a fidicia confunde-se com 0s primeiros esbocos do objeto; em outros termos, ele funciona sem- pre ainda, grosso modo, como projecao da protensividade do sujeito. Em compensa, numa perspectiva narrativa nio-passional, a ins- tituigdo de um objeto de valor, no seio de um sistema de valores, procede de uma objetivago que delineia de algum modo o lugar de um destinador. Ambos os fiuncionamentos so combiniveis, & bem verdade, mas a tendéncia do sujeito apaixonado serd sempre expulsar a referéncia ao destinador. Essa expulsio, que pode nao passar de suspensZo proviséria, é uma das condigdes para que a sin- ‘taxe passional possa desenvolver-se de maneira auténoma. ‘A analise discursiva faz aparecer, entretanto, grandes classes de paixdes fundadas na tipologia dos actantes narrativos e nos diver- 80s papéis que eles adotam, seguindo as etapas sucessivas do esquema narrative canGnico, Por exemplo, seria possivel encarar paixbes do sujeito de busca, seja no momento do contrato, como o “entu- siasmo”, seja por ocasido da performance, como a “tenacidade”’; haveria também paixes da sancZo, quer na perspectiva de um des- tinador, como a “estima” e 0 “desprezo”, ou ainda o “furor”, em sua acepciio sagrada, entre outras, quer na perspectiva de um desti- natario, como 0 “desespero”. Essa classificagao’ permanece, pois, insatisfatéria; ela permite 20 menos situar tal ou qual paixio no interior de uma problematica mais geral; mas parece a anilise dos discursos concretos que qualquer actante esté dispontvel para 0 con- junto das configuracdes passionais, isto é, por exemplo, que um sujeito de busca € suscetivel de conhecer o furor ou 0 desprezo; 0 [A ERSTENOLOGIA DAS PADOES or que levaria a provar que o sujeito apaixonado remete a um “proto- actante”” que teria “‘internalizado” todos os jogos actanciais e que seria suscetivel, por conseqiiéncia, de adoti-los sob 0 efeito da pai- xo, e isso independentemente do papel actancial efetivo que the € atribuido na dimensdo pragmética ou cognitiva. Por outro lado, o que costumamos chamar de “estruturas nar- rativas” tem que ver com dois niveis diferentes: 0s actantes narrat vos pertencem ao nivel semionarrativo, bem como suas modaliza- Ges como universais sintéticos, enquanto o esquema narrativo cané- nico nao passa de estrutura generalizivel, provavelmente especifica de certas Areas culturais ¢ remetida a titulo de primitivo a0. nivel semionarrativo pelo efeito da préxis enunciativa. Quanto as proprias paixdes, a questdo narrativa se dé em dois niveis também: de um lado, procuraremos instaurar, de par com a dimensio pragmética € a dimensio cognitiva, uma dimensao timica aut6noma, tentando isolar um funcionamento propriamente passional dos actantes ¢ das modalizacdes do nivel semionarrativo; do outro lado, a quest2o € saber se um esquema patémico candnico pode ser concebido € cons- truido como estrutura generalizével. Com efeito, se se consegue mostrar, no nivel semionarrativo, 2 autonomia da dimensdo sobre a qual se desfraldam as transformagOes passionais, tem-se o direito de esperar, por ocasifo da anilise dos textos, ver esbocar-se progres- sivamente um esquema discursivo de generalidade suficiente, susce- tivel de assumir as diferentes etapas da paixio e de organiza-las em “narracio”. Mas antes de enfrentar tais generalizagdes, que requerem numerosas andlises concretas, podemos, para comecar, debrucar-nos sobre a colocac#o em discurso das modalizagdes dos dispositivos passionais. DISPOSITIVOS MODAIS: DO DISPOSITIVO A DISPOSIGCAO, © agrupamento modal do ser ‘A maior parte das configuragées passionais encontra-se defi- Aida nos dicionérios de lingua como ‘‘disposigio a”, “sentimento que leva a”, “estado interior daquele que se inclina a”, € a descri- Cy SEINETCA DAS PAIOES ‘sfo da “‘disposigio” ou da ““inclinagdo"”¢ feita, em seguida, em ter- mos de comportamento ou de agdo. Se a disposicio ou a inclinagio desembocam no “fazer”, temos o direito de supor que elas reco- brem certo agrupamento do “ser” em vista do “fazer”; mas discu- tir a eficiéncia da paixdo nesses termos significaria considerd-la como simples competéncia, cujas modalizagdes produziriam ipso facto um efeito de sentido passional. O excedente passional Se paréssemos af, 0 universo passional seria coextensive do ‘universo modal, ¢ nfo haveria lugar para distingui-los e, a fortiori, para buscar extrair os principios de sua articulagio. Ora, mesmo quando a paixéo € em parte traduzivel como “‘competéncia para fazer”, esta tltima nifo esgota e nfo explica nunca por si s6 0 efeito- passional. Tor cxcmplo, a “impulsividade” pode ser traduzida ‘como certa associacdo de querer-fazer e de poder-fazer, ¢ se descre- veré como uma “maneira de fazer”; mas tal paixdo apresenta um “excedente” modal que aparece em superficie sob as espécies do “intensivo” e do “incoativo”; 0 que caracteriza o impulsive pois, mais uma maneira de ser fazendo, uma maneira de ser (i.c.: “intensive + incoativo”) que repousa na associagdo querer-fazer + poder-fazer. Encontra-se nesse caso o grande principio de homo- geneizagio, na medida em que a competéncia para fazer € aqui tra- tada como estado, Todavia, esse “excedente” modal desempenha ‘um papel que faz dele bem mais que um simples suplemento de sentido; com efeito, se se considera apenas uma “conduta” impul- siva, 0 duplo trago “intensivo + incoativo” apresenta-se como sim- ples sobredeterminacZo acidental da competéncia modal de base; mas se, por outro lado, caracteriza-se 0 sujeito como “impulsivo”, considera-se ento que essa sobredeterminacio rege ¢ patemiza a com- peténcia modal e assegura sua atualizagio em todas as circunstén- cias; mais precisamente, tudo se passa como se, nesse caso, 0 exce- dente modal permitisse prever a aparica concomitante do querer e do poder ¢ garantisse de algum modo a passagem 20 ato. ‘A configuracio passional. compreenderia, na medida em que a observacdo que precede € generalizivel, um principio regente, parcialmente independente das modalizagSes propriamente ditas, ¢ em particular das modalizacdes do fazer. Esse princfpio, ao menos no exemplo escolhido, manifestar-se-ia sob a forma de aspectualiza- ‘A EASTEMOLOGIA DAS PAIKOES 63 do € remeteria, no nivel das modulacdes tensivas, a um “estilo semiético” especifico. E por isso que € preciso apelar em todos os casos para uma organiza¢io modal do ser, autOnomo e nfo direta- mente dedutivel a partir da performance, e consideré-lo como dispo- sitivo modal caracteristico e definitério de cada paixdo-efeito de sen- tido. Os paradoxos da “‘obstina¢éo” Outro exemplo permitira ilustrar e precisar essa posicio. A “obstinagio”, definida em lingua como “disposicdo para prosse- guir num caminho previamente tracado, sem sc deixar desencora- jar pelos obsticulos”, apresenta a particularidade de manter 0 sujeito em estado de continuar a fazer, ainda que o sucesso da empresa esteja comprometido. A “disposicio” em questio pée, portanto, © sujeito em estado de “fazer apesar de X”, mesmo quando X € uma previsio que recai sobre a impossibilidade do fazer; 0 sujeito deveria ser dotado, para tanto, das seguintes moda- lizagdes: . © um saber-ndo-ser (0 sujeito sabe que esté disjunto de seu objeto); © um poder-ndo-ser ou um ndo-poder-ser (0 sucesso da empresa est comprometido); * um querer-ser (0 sujeito insiste de todo jeito em ser conjunto e tudo fara para isso). Embora 0 conjunto da definigao oriente-se por um projeto de fazer, © dispositivo modal caracteristico da paixdo “obstinagio”” constitui-se por modalizacdes do ser; com efeito, um simples querer- fazer no bastaria para explicar 0 prosseguimento indefectivel do fazer nesse caso, j4 que se encontrarfo tantos exemplos quantos necessarios em que, apesar da presenga de um querer-fazer pressu- posto pelo fazer, 0 sujeito abandona seu programa e renuncia diante do obsticulo. E, pois, o “excedente modal” regente que garante a perseguicdo da performance, apesar do obstaculo, e carac- teriza especificamente a obstinacao; ¢ € também a presenca desse excedente que obriga a formular o dispositivo passional em termos de “organizacgZo modal do ser”, e nio em termos de “‘competéncia em vista do fazer”. Essa paixdo € particularmente interessante, pois acumula os paradoxos: um querer-fazér que sobrevive a um ndo-poder fazer, que Ihe serve até de reforgo; um fazer que ndo cessa, enquanto tudo 64 ‘SeaROTIA DAS PARES se decide em certa organizagdo modal do ser. Seria preciso supor aqui que os dois segmentos sintiticos, um concernente & sintaxe modal do fazer, 0 outro a sintaxe modal passional, sejam ao mesmo tempo auténomos ¢ articulados um ao outro. Essa articulagdo mani- festa-se também ai como uma forma aspectual — “‘continuar”, “re- sistir” —, traduzindo também um “estilo semi6tico” gracas ao qual o devir permanece aberto, Além disso, est claro agora que as modalizagées do ser proprias da configuragdo passional ndo sio diretamente as modalizagdes da competéncia para fazer, mas consti- tuem-se mais numa “representago”, numa “imagem virtual”, isto 6 num simulacro; no que chamamos o simulacro passional da obs- tinacdo, o obstinado “quer ser aquele que faz", 0 que no equivale a “‘ele quer fazer”. ‘De imediato, surgem dois problemas, que € preciso evocar aqui de maneira sucinta: de um lado, somos levados a perguntar- rnos como um inventario modal como o precedente organiza-se em “dispositive”; de outro lado, € preciso tentar cercar 0 status da “‘disposigg0”, como “potencialidade” de comportamentos ou de programas. ‘Um dos corolarios dessas duas questdes consiste ainda em perguntar s¢ a descricio do dispositivo, essa organizagio do ser que postulamos por detris de cada paixdo, esgota a da disposicio ¢ basta para caracterizar 0 sujeito apaixonado, ou se, eventualmente, esta ditima acrescenta alguma coisa de essencial ao funcionamento passional. A presenca insistente de formas aspectuais ¢ de “‘estilos semiéticos” encoraja a olhar tudo isso mais de perto. A superficie, as “disposigées” apresentam-se como dois tipos de programagées discursivas, que podem comutar, como se vers, com papéis teméticos, mas tal observacio no responde & questio formulada, dado que o fendmeno que buscamos circunscrever, entre modalizagdes do fazer, diz respeito ainda, parece, a0 nivel semio- narrativo. Descricdo do dispositive modal ‘A modalizacdo subjacente as paixdes ndo se organiza como estrutura modal. Por um lado, a competéncia constitui-se progressi- vamente para chegar ao fazer; cada modalizagio que afeta o fazer constitui um predicado modal (querer-fazer,, por. exemplo), que ‘A EOSIEMOLOGIA OAS PaNDES 6 pode ser, por outro lado, tratado como categoria modal e projetado no quadrado semiético. A estrutura modal € como que uma maneira de descrever os modos de ser de uma modalidade; resultando 20 mesmo tempo da projecdo dessa modalidade sobre as estrunuras ele- mentares da significagio e da distingdo entre set e fazer, segundo processo ja descrito. Assim, a “desirabilidade”, projetada sobre 0 quadrado, engendra as variedades do querer-ser Por outro lado, um dispositive modal é, por defini¢ao, um conjunto heterétopo, sobre 0 qual é impossivel projetar, no nivel das modalizagdes propriamente ditas, um’ modelo categorizante como 0 quadrado semiético. O dispositive nao € uma estrutura, mas a intersegdo de varias estruturas, de que alguns termos agru- i descobrir. © mesmo ocorre para a competéncia do sujeito pragmiitico do fazer: se se sabe como descrever cada modalizaco tomada em separado, ndo se sabe bem como proceder para descrever 0 percurso do sujeito de uma moda- lizagZo & outra, isto é, 2 maneira como a competéncia constitui-se progressivamente para chegar ao fazer. A solugo proposta por J.-C. Coquet, sob 2 forma de seqiléncias modais agrupadas por pressupo- sigdo e determinacio, € um primeiro passo nessa diregdo; mas resta examinar como as modalidades transformam-se umas nas outras no interior dessas seqiiéncias. Se se considera apenas 0 caso do sujeito heterénimo, que permanece sob a dependéncia de um desti- nador, a solugio deve ser buscada no percurso proprio do destina- dor, que, acompanhando 0 sujeito na aquisicio da competéncia, desempenha 0 papel de “‘adjutor”” ¢ transmite-Ihe, a esse respeito, 0s objetos modais necessirios. Mas desde que se trate de um sujeito auténomo, ainda que provisoriamente, o encadeamento das modali- dades nao pode mais ser explicado por uma intervencio exterior € no pode resultar sendo de uma dindmica intrinseca. Ainda a obstinagao Para ilustrar a dificuldade, retornemos 2 obstinagio; obter-se- ia o dispositive modal na intersegio entre as trés estruturas modais do saber-ser, do poder-ser ¢ do querer-ser. Mas esse encontro entre cate- gorias modais s6 se toma um dispositivo se dois tipos de relacées entram em jogo; primeiro, enquanto termos tomados numa estrutura, as modalizagdes, uma vez confrontadas, esto em relacio, seja de con- trariedade, seja de contradicio, seja de pressuposicio, seja de confor- 66 SOMCTEA DAS PANOES midade. Assim, na obstinacdo, 0 querer-ser contradiz 0 poder-ndo-ser ‘ou contraria 0 ndo-poder-ser, enquanto 0 saber-ndo-ser pressupde 0 ndo-poder-ser ou se conforma a0 poder-ndo-ser. Em seguida, enquanto conjunto de termos suscetivel de ser linearizado, o dispositivo deve ser ordenado, seguindo um principio de pressuposicéo. Aqui, por exemplo, 0 saber-ndo-ser pressupde 0 poder-ndo-ser, © querer-ser pressup6e, paradoxalmente, os dois outros. O paradoxo, no caso, resulta da projecio sobre o eixo sintagmético (regido por pressupo- sigdo) de relagdes de ndo-conformidade. O dispositivo, assim linea- rizado, apresentar-se-ia como uma seqiiéncia modal: /poder-nao-ser, saber-nto-ser, querer-serl A primeira dificuldade € quanto & existéncia de uma “pressu- posigdo paradoxal”; essa expresso é, em semiética, um verdadeiro oximoro. Em sua acepedo logica mais geral, pressuposigto € relagio que une duas proposicées, de tal modo que a negagio ou a falsifica- do da pressuponente no questione a pressuposta. Essa definicdo pela negativa € substitufda, em semiética, em particular para as diuas pressuposigées sintéticas, pela nogdo de necessidade: 0 enun- ciado pressuposto € necessirio ao enunciado pressuponente; por isso ‘9 fato de um enunciado ser nécessério & sua propria negagio, por contrariedade ou por contradicio, é, de certa maneira, paradoxal. U. Eco e/P. Violi, dentre as numerosas variedades de pressuposi- ges que levantaram®, propéem algumas que sio paradoxais; por exemplo, para “forgive”, 0 pressuposto fundado no dever-ser ("Sz should be punished”) € negado pelo pressuponente (“S; not punish 2"), que comporta a0 menos um ndo-querer-punir ou um ndo-querer- seraqueleque-pune, Para esses autores, a transformagio € simples- mente correlata a uma mudanga temporal ({t! > t‘]). © principio mesmo da transformagio modal, isto é a mudanga de contetdo modal (dever > querer), € a negaglo (dever —> ndo-querer), nao se acha em contradigio com 0 fato de que o pressuposto nao € questio- nado — na verdade, 0 fato de que S} udo queira ser punido no ques. tiona 0 fato de que Sp deva ser punido —, mas, se consideramos a coisa pelo angulo da necessidade, tal necessidade é 20 menos surpreen- dente: como o fato de que S; deva ser punido pode ser necessario 20 ‘8 “tnseructional semantics for presuppositions”, Semiorca, 64, 1987, 1/2. A EASTENOLOGIA OAS PaNbES o fato de que Sno queira puni-lo? Talvez porque se Sj no devia ser, Sp no teria necessidade de nao querer, para que ele no seja punido! A “pressuposi¢ao paradoxal” pée, portanto, a luz sobre- determinagbes entre modalidades: 0 querer-perdoar pressupde 0 dever-punir, na medida em que € um querer resistente, querer pelo qual o sujeito individual afirma sua autonomia em face da regra coletiva. No exemplo que nos ocupa, a obstinagdo, ¢ com mais proba- bilidade ainda em sua versio modalizada, a “teimosia”’, o efeito de sentido passional é sem diivida produzido pela confrontagao entre um saber que recai ao mesmo tempo sobre uma impossibili- dade, de um lado, ¢ um querer indefectivel, de outro. O obstinado quer, embora saiba, a menos que nao queira porque sabe. Nao se pode sair da dificuldade alegando um observador exterior, que cons- tataria a inutilidade proviséria dos esforcos do obstinado; esse abser- vador exterior esta presente, & bem verdade, no julgamento de valor que comporta justamente a denominagao “obstinagao” em lingua francesa; mas 0 préprio sujeito apaixonado deve também saber que seu objeto escapa-lhe, sendo ele deixa de ser obstinado, para tornar- se “‘inconsciente” ou ‘“inconseqiiente”. As contradigées internas do sujeito i. Haveria outra solugao, que consistiria em parar apenas na confrontagio modal ¢ consideri-la uma explicacio suficiente. Mas a comparagio com outra configuracZo passional, a do “‘desespero”, bastard para mostrar que 0 fenémeno permaneceria de fato aqui inexplicado, Se comparamos a obstinagio e o desespero, as diferen- gas modais so minimas. 0 desesperado € modalizado segundo 0 dever-ser © 0 querer-ser &, pot outro lado, ele ndo pode ser € sabe no ser. Em ambos os casos, a modalidade regente € 0 querer ser, que- pode desembocar tanto numa revolta ow numa depressfo, de um lado, como num fazer teimoso, do outro. A tinica diferenca noté- vel reside na organizagao sintatica do dispositive. Admitamos que as confrontagées entre as modalizagdes podem fazer surgir incom idades nos dispositivos: elas traduzem contradigdes internas do sujeito, Ora, essas contradigées internas podem ser de duas espé- cies: ou a modalidade regente afetada pelas outras, ou nfo 0 No primeiro'caso, 0 dispositive modal seré “paradoxal””: 0 querer 68 SEMOTEA DAS PACES do obstinado tornou-se, por causa da presenga no dispositivo da impossibilidade, um querer “resistente”; no segundo caso, 0 dis- positive modal sera tao-s6 “‘conflitual””: 0 querer do desesperado nfo esté em nada mudado pela consciéncia da impossibilidade. No caso do desespero, a coesdo modal do sujeito é ameacada, até a ruptura; no caso da obstinagdo, a coeso modal do sujeito € con- firmada. desespero comporta um dispositive modal de tipo confli- tual, no que 0 querer-ser, de um lado, ¢ 0s saber-ndo-ser € ndo- poder-ser, de outro, coabitam sem se modificar reciprocamente, contradizem-se € contrariam-se, provocando a ruptura interna do sujeitos também nesse caso 0 querer-ser nao pressupde as outras modalizagées: 0 desespero € de fato constituido de dois universos modais incompativeis; 0 saber sobre o fracasso ¢ 0 proprio fra- casso nao sao necessirios a apariga0 du quercr, 0 inverso também nao. © desesperado dispde, de certo modo, de duas identidades modais independentes, a do fracasso e da frustragio, por um lado, ea da confianca ¢ da expectativa, por outro; ¢ a ruptura é um feito de sua independéncia e de sua incompatibilidade. Apenas © procedimento da confrontacdo modal basta, em conseqiiéncia, para dar conta do efeito de sentido passional ligado a esse tipo de dispositive modal. ‘Tanto num caso como no outro, sujeitos modais acham-se em conflito; mas, para o desespero, 0 conflito é insoliivel € s6 pode chegar & aniquilac3o do ser, isto é pelo menos, a uma solu- gio de continuidade no ser do sujeito; ao passo que, para a obsti- nagdo, 0 conflito resolve-se pela vit6ria do sujeito volitivo, o que supde modificagio e adaptacio reciproca das modalidades em pre- senga, Em suma, apesar do conflito, tudo se passa como se, para © obstinado, 0 conhecimento do obstéculo suscitasse 0 querer, ‘como se as duas modalizagées pressupostas produzissem ou nutris- sem a modalizacéo pressuponente. Nao € indtil observar que 0 efeito de sentido “resistencia”, presente na obstinaco, é de natu- reza aspectual e remete 2. um “‘estilo semiético”” favorével ao des- dobramento do devir, 0 que nfo é 0 caso no desespero. Isso leva ria a provar que os efeitos de sentido passionais ndo podem encon- trar explicagio satisfat6ria apenas no seio do nivel semionarrativo, ‘A ESTEMOLOGIA OAS PAGES co constituem “realizaveis” do esquema semiético, mas as paixdes que deles se nutrem constituem-se de fato no seio do nivel dis- cursiv Do dispositivo & disposi¢gio Estamos no cerne da dificuldade, j4 que se trata de saber em que condigdo(6es) os dispositivos modais podem produzir efei- tos de sentido passionais. Abordando a “disposi¢a0” passional, deixamos 0 dominio estritamente semionarrativo e nos prepara- mos para entrar no dominio discursivo. Nesse nivel, podem ser convocados tanto os resultados da modulacdo tensiva quanto os do percurso generativo categorizante, ou seja, tanto grandezas da ordem do continuo, oriundas das precondigdes da significagio, quanto grandezas da ordem do descontinuo, provenientes do nivel seunidgeatl ea uropeteucate die Rial aue te crue ene sentam-se, no nivel das estruturas discursivas, a0 mesmo tempo modulados num modo continuo, gragas as variagSes aspectuais propriamente ditas, e segmentados no modo descontinuo, gracas 2 concatenagdo das etapas, das provas e das seqiiéncias. A repre- sentagio,em trés médulos da economia geral da teoria retornow varias vezes a nossos propésitos; ela poderia dar lugar a uma representagio deste tipo: nivel das precondigdes | “(ensividadeforica) | = sujeito tensive prosensividade | = valencia efi nivel do discurso mal z (instancia da enuncia- discretizagao convocago} Gio, operagdes de colo- C casio em discurso) nivel semionarrative (categorizagio) = estruturas elementares conversio = estrururas narratives 68 SEMOTEA GAS PANGS do obstinado tornou-se, por causa da presenga no dispositive da impossibilidade, um querer “resistente”; no segundo caso, 0 dis- positive modal seré tdo-s6 “‘conflitual””: 0 querer do desesperado nfo esté em nada mudado pela consciéncia da impossibilidade. No caso do desespero, a coesdo modal do sujeito é ameacada, até a Tuptura; no caso da obstinacZo, a coesio modal do sujeito € con- firmada. O desespero comporta um dispositive modal de tipo confli- tual, no que 0 querer-ser, de um lado, ¢ 0s saber-ndo-ser € ndo- poder-ser, de outro, coabitam sem se modificar reciprocamente, contradizem-se ¢ contrariam-se, provocando @ ruptura interna do sujeitos também nesse caso 0 querer-ser nao pressupde as outras, modalizagées: 0 desespero € de fato constituido de dois universos modais incompativeis; 0 saber sobre 0 fracasso ¢ 0 proprio fra- casso nao sao necessirios a apariga0 do quercr, 0 inverso também nao. © desesperado'dispde, de certo modo, de duas identidades modais independentes, a do fracasso e da frustracio, por um lado, ea da confianga ¢ da expectativa, por outro; € a ruptura é um efeito de sua independéncia e de sua incompatibilidade. Apenas © procedimento da confrontacdo modal basta, em conseqiiéncia, para dar conta do efeito de sentido passional ligado a esse tipo de dispositive modal. Tanto num caso como no outro, sujeitos modais acham-se ‘em conflito; mas, para 0 desespero, 0 conflito é insoliivel € s6 pode chegar & aniquilacZo do ser, isto é, pelo menos, a uma solu- gio de continuidade no ser do sujeito; a0 passo que, para a obsti- nagio, 0 conflito resolve-se pela vit6ria do sujeito volitivo, o que supde modificagio e adaptacio reciproca das modalidades em pre- senga. Em suma, apesar do conflito, tudo se passa como se, para © obstinado, 0 conhecimento do obstéculo suscitasse 0 querer, ‘como se as duas modalizagdes pressupostas produzissem ou nutris- sem a modalizacdo pressuponente. Nao indtil observar que 0 efeito de sentido “resistencia”, presente na obstinaco, é de natu- reza aspectual e remete a um “estilo semi6tico”” favoravel ao des- dobramento do devir, 0 que nao é 0 caso no desespero. Isso leva ria a provar que os efeitos de sentido passionais ndo podem encon- trar explicacao satisfat6ria apenas no seio do nivel semionarrativo, Os dispositivos modais pertencem de direito a0 semionarr: A E>STEMOLOOIA DAS PANES 6 constituem “realiziveis” do esquema semiético, mas as paixdes que deles se nutrem constituem-se de fato no seio do nivel dis cursiv Do dispositivo & disposigao Estamos no cerne da dificuldade, j4 que se trata de saber em que condigdo(6es) os dispositives modais podem produzir efei- tos de sentido passionais. Abordando a ‘disposi¢a0” passional, deixamos o dominio estritamente semionarrativo e nos prepara- mos para entrar no dominio discursivo. Nesse nivel, podem ser convocados tanto os resultados da modulacdo tensiva quanto os do percurso generativo categorizante, ou seja, tanto grandezas da ordem do continuo, oriundas das precondigdes da significagio, quanto grandezas da ordem do descontinuo, provenientes do nivel seunidastcall pace eure Gli Reese ie cca sentam-se, no nivel das estruturas discursivas, a0 mesmo tempo modulados num modo continuo, gragas as variagdes aspectuais propriamente ditas, e segmentados no modo descontinuo, gracas A concatenagio das etapas, das provas e das seqiiéncias. A repre- sentagdo,em trés médulos da economia geral da teoria retornow varias vezes a nossos propésitos; ela poderia dar lugar a uma representagio deste tipo: nivel das precondigées | (censividade forica) — sujeito tensvo e protensividade | = valencias e fidicia nivel do discurso al Line (instancia da enuncia- discretizagio convocago} Gio, operagdes de colo- if casio em discurso) nivel semionarrative (categorizagio) = estruturas elementares conversio 70 SEMOTCADAS PAKOES No que diz respeito a nosso propésito imediato, as relagdes entre 10s dispositivos e as disposicoes, obter-se-ia @ seguinte representacio: MODULAGOES pes convoeagio | ASPECTUALIZAGOES ier MODALIZAGOES Poderiamos perguntar-nos por que a representagio adotada € triangular ¢ nao linear; a razdo é simples: uma representacio linear supde homogeneidade minima das operagSes que asseguram a pas- sagem de um nivel a0 outro; ora, parece cada vez mais que, se as Conversdes propriamente ditas definem-se como aumento e coagul fo do sentido, elas s6 operam como tais no conjunto dos niveis onde reinam exclusivamente a categorizacdo ¢ a discretizacio, isto & no seio do que se convencionou chamar “‘semionarrativo”. Em compensa¢do, a passagem 20 nivel discursivo, em esséncia por causa do carter de vai-e-vem que Ihe foi reconhecido ¢ ao qual retornare- ‘mos mais adiante, ndo pode mais ser tratada como conversio, mas ~ apenas como convocagio; 0 ideal (teérico) seria agir de forma que 0 discurso no invente mais nada, que apenas ‘‘convoque” por ope- races especificas de colocacio em discurso o que as duas outras instancias teriam engendrado; seja como for, ele “‘inventaria” ainda, rnem que fossem apenas os primitivos que, sob a forma dos estereé- tipos elaborados pelo uso, ele remete para a “Lingua’”. Da mesma maneira, a evolugdo das tensdes no nivel das precondigdes, assim como a passagem das precondigdes as estruturas elementares da sig- nificagdo, nfo pode ser tratada como “aumentos” e “coagulagdes” do sentido, ja que a evolugdo das tenses no diz respeito ainda & significacdo e 0 primeiro gesto da categorizagao ¢ da discretizagdo uma operacdo epistemol6gica que constitui, € bem verdade, uma conversio, mas diferente de todas as que seguem. A disposicao como “estilo semidtico” Nessa perspectiva, 0s dispositivos modais, uma vez que per~ tencem 20 nivel semionarrativo, vém a0 encontro das modulagdes continuas do devir que postulamos no nivel das precondigdes. Seguindo esse raciocinio, os dispositivos modais se tornariam disposi- AERSTEMOLOGIA DAS PADOES a ses gracas a sua aspectualizagdo. Com efeito, a dinimica interna que caracteriza as disposiges passionais parece também dar lugar a uma série de imbricagdes e de aproximagdes e procede por desli- zes progressives € por sincopes, nfo deixando, a0 mesmo tempo, de obedecer a um princfpio de orientagio tensiva que homogeneiza de algum modo uma forma superficial do “‘devir” do sujeito. Pude- ‘mos constatar, por exemplo, que, se 0 conhecimento de seu fracasso ou do obsticulo podia suscitar ou reforgar o querer do obstinado, 86 fazia em virtude de um estilo semistico “resistente” e ‘‘durati- vo” (um ‘“‘continuar apesar de X”) que tem por efeito, gracas a uma espécie de imbricagio do ndo-poder e do querer, modificar este em fungio daquele; em outros termos, se as transformagées entre modalizagdes incompativeis no aparecem como verdadeiras fratu- ras internas, mas como simples transigies paradoxais, elas & que sfo condicionadas e controladas por uma protomodalizacao, tensiva ¢ homogeneizante, que identificamos intuitivamente mais atrés como “excedente modal regente” e que no € mais que 0 eftito da convocagio discursiva das modulagoes do devir. A disposi¢ao como programagéo discursiva Essa propriedade das disposigdes passionais explica em sin- tese muitas coisas. Para comecar, a existéncia de um principio regente emanando da protensividade permite definir as disposicoes como “‘programagées discursivas” e explicar que elas podem apare- cer, no nivel do discurso, como potencialidades de fazer ou stries de estados ordenados (que em geral se chamam “atitudes”). A esse espeito, 0 sujeito passional funciona como certas memérias de computador: de um lado, 0s fichérios so estocados de maneira compacta, ilegiveis ¢ inutilizaveis tais quais, e, por outro, existe Juma encomenda que os restaura ¢ 0s torna acessiveis ao utilizador; © dispositive modal estaria na imagem dessa versio “comprimida” € ndo-acessfvel, o principio protensivo e regente seria a ordem de Testauracdo, € a disposicio seria 0 resultado legivel e acessivel e, conseqientemente, operacional do conjunto do proceso. A disposicéo Como aspectualizac3o Por outro lado, a sintaxe aspectual que preside a colocagio das. disposigges.traduz-se mais superficialmente sob a forma de uma aspectualizacio temporal, que € um dos tragos mais evidemtes de mais imediata identificasio do universo passional, em particu: 78 SONOTWA DASPANES lar nas definigdes que propdem os dicionérios de lingua dos diferen- tes sentimentos ou paixdes. O “rancor” € “ressentimento duravel”, a “paciéncia®, “capacidade para suportar”, a “esperanca”, 0 “espe- rar alguma coisa com confianga”; 0 encolerizado € visto como semt- pre prestes a encolerizar-se. Outros, em compensagio, parecem comportar uma aspectualidade intrinseca: a esperanga, porque con- siste em esperar com confianga, funda-se num dever-ser e mum crer- ser cuja interpretagdo € quase temporal; esse dever-ser poderia ser fandado, na versio aspectualizada proposta aqui, na modulasio do devir que opera, como vimos, por suspensio pontualizante; 0 dever-ser funda a espera exatamente no que assegura a identidade de todos os instantes com respeito ao devir: a duraglo nada mais & entdo, que prazo, os diferentes instantes que a compoem nJo comportam mais nenhuma potencialidade de mudanca, pois essas “micropotencialidades” foram neutralizadas pela modulagao. "Esse rapido exame faz upurecer, no dispositive modal que se tomou disposigdo, uma aspectualidade especifica do efeito passio~ nal, eventualmente temporalizada por ocasizo da colocacdo em dis- ‘curso e que pode ser captada a partir de dois pontos de vista com- plementares. Em primeiro lugar, a respeito do percurso gerativo fem seu conjunto e das condigbes ¢ precondigdes da significagio, a aspectualidade projetada sobre 0 dispositive modal resulta, como jf foi sugerido, da convocagio das modulagdes do devir; a aspectua Tidade como “forma” s6 pode manifestar-se depois de ter infor- mado quer 0 tempo, quer 0 espago, quer © ator; é, em suma, a forma primeira do discurso, seu ritmo, sua dindmica e, enquanto tal, encarna em discurso as tensGes que se delineiam no horizonte Sntico. Tendo sido 0 devir construido e definido no espago teérico do sentir minimal, sua encarnagio discursiva € totalmente apro- priada para transformar seqiéncias modais em disposigSes passi hais, na medida em que ela implica, ao mesmo tempo, uma suspen sfo da pura racionalidade narrativa e cognitiva, Do ponto de vista do sujeito discursivo, e no quadro das operagles de colocagdo em discurso, 0 ressurgimento do sentir minimal apresenta-se como uma reembreagem sobre 0 sujeito tensive. Em segundo lugar, no que tange ao proprio dispositivo modal, ‘a aspectualizagio transforma uma seqiiéncia descontinua em pro- ccesso homogéneo, em “programaclo discursiva”. Todavia, da mesma maneira que um processo narrativo classico ndo remete apenas a uma seqiéncia de estados narratives, mas também a transforma- Bes entre estados, © processo passional nao pode fundar-se apenas A EPSTEMCKOGA DAS PACS 73 nas seqiiéncias modais, que nao sio, tal como correntemente utili= zadas, mais que seqiiéncias de estados modais.. Somos, pois, leva> dos a supor, anteriormente @ sua convocacko como disposi¢io no discurso, que 08 dispositivos modais se organizem em uma sintaxe completa, compreendendo estados modais ¢ transformacdes modais, que chamaremos sintaxe intermodal, para diferencié-la da sintaxe que faz mudar tal ou qual modalizagio de.“posi¢ao”” no-interior de um sistema modal isétopo. E posstvel agora, sob a forma de hipotese de trabalho, consi- derar, paralelamente a série das conversdes que levam da sintaxe fundamental & figutatividade narrativa, uma série de etapas que, no percurso do sujeito epistemol6gico, seriam mais especialmente solicitadas pela teoria das’paixées: no nivel da tensividade forica, 0 sentir ¢ 0 devir; no nivel semionarrativo, os dispositivos modais ¢ 4a sintaxe intermodal que os dinamiza; no nivel discursivo, as dispo- sigdes e a aspectualizagao que as rege, na maioria das vezes tempora: lizada, mas nao exclusivamente; quanto 4 enunciagio, ela procede por reembreagem sobre 0 sujeito tensivo e delimita, assim, no dis- curso, os simulacros passionais. A sintaxe intermodal ‘A sintaxe intermodal langa, ao que parece, um postulado cujas conseqiiéncias ainda so mal medidas, segundo o qual existiria uma sintaxe que nfo repousaria sobre a sintaxe elementar deriva- da do modelo constitucional. Resta, pois, agora uma questo por resolver € que ndo pode ser por mais tempo camuflada: como asse~ gurar teoricamente a transformagdo de uma modalidade em, uma outra, que, além de ser-lhe obrigatoriamente heterétopa, pode ser- Ihe também contréria ou contraditéria? As condigdes da resposta foram longamente descritas, mas a resposta mesmo ainda estd para ser formulada. Para que um saber transforme-se em querer, por exemplo, seria necessério supor, numa semiética que apenas conheceria 6 descontinuo ¢ 0 categorial, por um lado, uma categoria comum que se chamaria /M/e, por outro, tragos distintivos que fariam 0 objeto da transformagio, e que se chamaria /m/ e /m/; a categoria /MJ garantiria a homogeneidade da transformagio /m* — mY/; 0 que equivaleria a introduzir uma restrigio isot6pica onde € habi- 4 SNOTEA DAS PADS tual postular, pelo fato da discretizagio, a heterotopia modal. A cexisténcia de categorias comuns as modalidades nao resolveria nada, pois isso significaria, no final das contas, deslocar a dificuldade para os “‘tragos modais distintivos”. De fato; j4 dispomos da base ‘modal, amide assinalada, cercada e descrita, e que, por recursivi- dade, perpetua no percurso gerativo as modulagdes do devir: trata- se da tensividade férica. Partindo dessa base modal, constata-se, por exemplo, que o saber no pode transformar-se em poder, a menos que a modulagao “de encerramento” que sustenta o primeiro seja neutralizada (depois da “parada”, a “parada da parada””, como diria C. Zilberberg) ou que 0 dever s6 possa substituir o querer & custa de uma suspensio do devir, ¢, portanto, de uma anulagio da modulacéo “‘de abertura” que caracterizaria o querer. A base tensiva da sintaxe intermodal poderia, pois, ser a modulacdo de um devir que adquire (ou que perde) progressivamente sua autono- mia com relacdo & necessidade. E por isso que as posi¢des modais sucessivas aparecem como diferentes formas de “‘submissio”, de “arrancadura”, de “tergiversagdes” com respeito a uma necessi- dade que reclama sem cessar seus direitos, Assim, querer, saber, poder etc. remetem sempre a diferentes ‘“estilos semi6ticos”, a dife- entes estilos de captacio da cisfo forica. A existéncia de tais “esti- os semi6ticos”, que jé foi sugerida a respeito do devir, est patente nas transformagées intermodais das paixdes; para a obstinagio, por exemplo, 0 poder-ndo-ser ou 0 ndo-poder-ndo-ser repousam num estilo semiético. “cursive”, em que 0 sujeito modal contenta-se em acompanhar o desfraldar do acontecimento; com 0 saber-ndo-ser, © sujeito modal para o curso dos acontecimentos; € entdo que inter- ‘vém outro estilo, 0 do querer, pelo qual 0 sujeito modal desdobra novamente 0 acontecimento como devir. A base modal comum, fun- damento da sintaxe intermodal, e seja qual for 0 nome que se Ihe dé, tem origem, epistemologicamente falando, na resisténcia a fusio, no jogo das forcas coesivas e dispersivas que permitem a0 sujeito tensivo escapar & necessidade Ontica. ‘Na auséncia de articulagSes propriamente ditas, é dificil, no entanto, teoricamente falando, atribuir & tensividade forica a pro- priedade de engendrar por si mesma ¢ em si mesma “estilos semi6- ticos’” distintos ¢ identificdveis, sejam quais forem as precaugdes adotadas para sua formulagdo. Qual seria, pois, 0 starus desses “es tilos semiéticos”, que parecem determinantes na sintaxe intermo- dal? A anilise da obstinaglo, cujo querer, por imbricagio € retroacdo [A EISTEMOLOGA OAS PANGS B sobre 0 ndo-poder, produz, como vimos, um efeito de sentido pas- sional especifico, faz-nos entrever a possibilidade de uma resposta. Observa-se que 0 querer do impulsivo, por exemplo, na medida em que é seguido da aparigZo imediata de um poder que parece dai derivar bem naturalmente, nfo produz 0 mesmo efeito de sentido que o querer do obstinado, que segue um ndo-poder de que ele parece paradoxalmente nutrir-se e reforcar-se, Esses diferentes efeitos de sentido traduzem-se no nivel do discurso como aspectualizagSes dis- tintas, mas remetem também, por pressuposicdo, € no nivel do con- inuo tensivo, a diferentes maneiras de modular o devir. Faremos, pois, a hipétese seguinte, em cinco proposicdes: 1. Os dispositivos modais sio convocados em discurso ¢ sub- metidos a uma aspectualizaglo, que resulta da convocagdo das modu- lagGes tensivas € que as transforma em disposigdes passionais, 2. Pelo efeito do uso (societal ou idioletal), esses dispositivos slo fixados e estereotipados para entrar em taxinomias passionais conotativas. 3, Uma vez estereotipados, eles so remetidos ao nivel semio- narrativo ¢, entdo, convocaveis tais quais. 4. No seio das seqiiéncias modais estereotipadas, a sintaxe intermodal € a forma fixa, ela mesma estereotipada pelo uso, da aspectualizacao evocada no ponto 2, e, portanto, também de certas modulag6es tensivas; 0s efeitos de sentido produzidos pe- la insergo de dada modalidade num dispositivo fixo resultam, portanto, da codificago pelo uso das disposigdes do nivel dis- cursivo. 5. Convocando os dispositivos estereotipados em discurso, convocam-se ai também essas codificagdes de disposigées ¢, conse- qientemente, das formas fixas da modulacSo tensiva, Os “estilos semi6ticos” resultariam, nessa perspectiva, de modulagSes. tensivas,estereotipadas, captadas e congeladas pelo uso, ao mesmo tempo que os dispositivos modais selecionados para as taxinomias passionais. Assim como as paixdes nfo podem ser pensadas sem a praxis enunciativa que as forja, os “estilos semisti- cos” (os “‘ambientes”, como diria P..A. Brandt) ndo aparecem nas modulagées tensivas sendo por intermédio do uso. 76 SEWOTEA DAS PAGES METODOLOGIA DAS PAIXOES A terminolog Um rapido sobrevéo pelo conjunto teérico que acabamos de percorrer evidencia varias nogées que,,seja qual for o grau de con- viegdo que as precedentes sugestdes ¢ proposigdes tedricas possam suscitar, permanecem indispensiveis a uma semiotica das paixdes. Parece, pois, til fazer aqui um breve balango terminolégico, 0 ‘balango dos instrumentos necessarios a descrigdo do universo pas- sional. ‘A tensividade férica designa 0 conjunto das precondigdes da ~ significago, dentre as quais identificamos, por um lado, a provensi- vidade, definindo um sujeito tensive, ou “quase-sujeito”, ¢ que engendra, sob 0 efeito das tensdes favaraveis & cisdo, 0 devir e, por ‘outro lado, a fidiicia, sobre a qual se desenham “sombras de valor”, destinadas a engendrar as valéncias. Deixando 0 modo continuo préprio das precondigées, encon- tramos, em seguida, no nivel semionarrativo, a discretizagio das modulagées do devir, que engendra as modalizagdes. Essas modali- zagbes so de dois tipos: em sentido restrito, elas recobrem apenas ‘o que se chama tradicionalmente de modalidades; em sentido amplo, recobrem também os simulacras existenciais, isto €, as jungdes proje- tadas pelo sujeito no espaco imagindrio aberto pelas modalidades. Captadas no nivel das estruturas narrativas de superficie, as moda- lizagdes que afetam as duas dimensbes ja conhecidas — 2 dimensio pragmitica e a dimensio cognitiva — podem funcionar sob certas condigdes como dispositivos modais, espécies de simulacros em que 68 sujeitos modais recebem identidades transit6rias ao longo do des- dobramento sintético dos dispositivos. A especificidade desse fun- cionamento sintatico, €, em particular, 0 que chamamos de sinzaxe intermodal, garante a autonomia da dimensdo timica, terceira dimen- sio (na ordem dedutiva da construcio teérica) da sintaxe narrativa de superficie. As variagdes entre “cuforia”” ¢ “dieforia”” participam das trés dimensées, mas funcionam mais particularmente sobre a dimensio timica como objetos témicos, manifestados entre outros pelas figuras do “‘sofrimento”” ou do “‘prazer”, conseqiiéncias das transformagies timicas. Pode ser instrutivo comparar a histéria teérica dessa dimen- sio com a da dimensfo cognitiva. Esta tltima foi de inicio reco- STENCLOGIA DAS PAKOES ” nhecida como constitutiva da dimensio pragmatica, em particular por ocasio do contrato e da sancio; em seguida, ela adquiriu sua autonomia, desde que foi constatado que as defasagens de saber, 0s acasos da circulagao da informagdo, bem como numerosas varia- Ses modais préprias do cognitivo, podiam funcionar sem referén- cia e sem elo necessério com as transformagdes da dimensio prag- matica. Depois de ter sido concebida como caminho sintatico tra- gado transversalmente através do conjunto dos efeitos cognitivos produzidos pela sintaxe narrativa pragmitica, a dimensdo cogni- tiva tomou-se, pois, dimenséo narrativa integral. Da mesma maneira, 0 dominio timico constitui-se progressivamente, num primeiro momento, como constitutive das duas outras dimensées, como resultante dos efeitos “passionais”” das seqiiéncias modais, que acompanham os programas narratives e pragmaticos, bem como na alterndncia da euforia e da disforia que decorre da ins- crigio dos objetos de valor em axiologias: Num segundo momen- to, aparece ai também que os constrangimentos modais ¢ os efei- tos de euforialdisforia das dimensdes pragmitica cognitiva nao sio mais suficientes para explicar os efeitos de sentido passionais. Eis por que, para dar conta de percursos passionais que ndo devem mais nada & sintaxe narrativa pragmitica ou cognitiva, a dimen- sdo timica é instituida como dimensdo auténoma da sintaxe narra- tiva de superficie. A relagiio entre o nivel das precondigdes, a respeito do contet- do, € 0 do semionarrativo, a respeito do: descontinuo, nao pode ser, como j4 sugerimos, simples relagdo de conversio; com efeito, se se consideram os dois tipos possiveis de conversdo — conversio “horizontal”, ou “transformagao”, ¢ conversio “vertical” —, eles operam apenas entre grandezas continuas; 0 mesmo ocorre com © conceito de “integragio" em Benveniste, gragas 20 qual s6 se podem “‘integrar” as iunidades discretas de um nivel dado as uni- dades discretas do nivel seguinte. Parece que a discrerizagéo, com seus subcomponentes, a somagdo © a categorizagao, € mais apro- priada no caso. Para passar as estruturas discursivas, em compensagdo, ape- lamos para a convocagdo, conjunto de processos que sao vistos como manifestando no discurso as grandezas manifestaveis do nivel epistemolégico ou do nivel semionarrativo; essas grandezas sfo con- tinuas, para o que diz respeito & tensividade forica, e desconti- 8 Seance DAS PACES nuas para 0 que diz respeito a0 semionarrativo. A titulo de exem- plo, a convocacao das modulacdes do devir manifesta-se como aspec- tualizagdo, e a convocacio da dimensio timica faz-se sob a forma de uma dimensdo patémica do discurso, que compreende 0 conjunto das propriedades manifestaveis do universo passional. Da mesma forma, os patemas definem-se como 0 conjunto das condigdes dis- cursivas necessério A manifestagdo de uma paixto-efeito de sentidos. Distinguimos, quanto a esses, os paremas-processos e os papéis paté- micos, conforme se procurem captar sintagmas passionais, ou iden- tidades transit6rias do sujeito discursive nesses sintagmas. Se tomarmos como exemplo a “suscetibilidade”, veremos que 0 ‘patema-processo desdobra o conjunto da seqiiéncia, compreendendo a recepslo, a interpretacio e a ferida de amor-proprio, depois a rea- ‘cdo e 0 comportamento decorrente; em compensaco, o papel paté- mico, identificvel gracas & recorréncia de um mesmo processo desse tipo para um mesmo sujeito, pode caracterizar o sujeito entre outros, tanto na etapa da interpretagdo da ferida de amor-proprio quanto na do comportamento ‘‘atormentado”. Além disso, se for possivel, a partir da anilise concreta dos discursos, reconhecer ‘uma forma generalizavel dos patemas-processos, esta levard o nome de exquema patémico canénico. Por outro lado, a nogio de “‘papel patémico”” invade a nogio de disposigao, no que ambas caracterizam uma “programacio dis- cursiva” do sujeito apaixonado. De fato, se a mesma propriedade discursiva do sujeito apzixonado pode receber dois nomes diferen- tes, € pelo efeito de uma diferenga de procedimento. Se se recons- troem as propriedades do sujeito apaixonado por pressuposicdo, ‘com base numa iteragao funcional e por um célculo cognitive fun- dado nos resultados de um processo — isto é, em grandezas descon- tinuas —, ele é identificado e denominado papel patémico; se, em contrapartida, buscamos captar essas mesmas propriedades como uma maneira de sentir, como programago que decorre de uma forma aspectual, somos levados a aplicar-lhes uma légica das moti- vagées e a traté-las, entio, como disposi¢io. Em suma, a disposicao comporta um componente aspectual, porque o procedimento pelo qual ela € construida permanece conforme ao embasamento tensivo do universo passional, enquanto o papel tematico n3o.o comporta porque resulta de um procedimento de reconstrugio cognitiva das classes de comportamentos passionais. ‘AERSTEMOLOGIA DAS PADS 9 As taxinomias passionais conotativas O balango terminolégico constitui de certo modo a contribui- do da reflexdo epistemol6gica a metodologia; mas a construcio dos universos passionais, partindo das paixdes-efeitos de sentidos, choca-se, seja qual for a teoria adotada, com uma dificuldade maior, que nem a epistemologia nem a terminologia podem resolver: trata- se, no caso, da tela que constituem para 0 analista, seja ele semioti- cista, filésofo ou lexicélogo, as variagSes culturais no préprio cora- 0 dos efeitos de sentido passionais. E facil compreender que, se do ponto de vista te6rico a anilise das paixdes nfo pode prescindir da préxis enunciativa e da colocagdo em discurso, ela encontraré, do ponto de vista metodolégico, idioletos e socioletos passionais. A praxis enunciativa e os primitivos A lingistica distingue a Zinguagem, fato humano universal, que enquanto tal seria suscetivel de compreender “universais lin- gilisticos”, e as /inguas, sistemas especificos nas éreas culturais que completam e reinterpretam os universais. Ora, uma e outras, lin- guagem e Iinguas, dizem respeito ao virtual ou & atualizacdo e dio lugar, para sua realizacio, ao discurso. Em termos de semistica geral, endo mais de lingtiistica, no sentido estrito do termo, 0 nivel semionarrativo, ordenado como percurso gerativo, deveria compreen- der, por um lado, grandezas universais, caracteristicas da significa- ‘go, concebida como fato humano universal, €, por outro, grande- zas generaliz4veis no interior de dada cultura e caracteristicas da significagdo como fato cultural; continuando a pertencer 20 nivel semionarrativo e distribuindo-se igualmente pelo conjunto do per- curso gerativo, essas duas espécies de grandezas semisticas tem ‘umas e outras como caracterfstica o virtual e o atualizado. As ‘‘cul- turas”, entendidas como sistemas de selecdo, de inflexio ou de com- plemento, aplicados aos universais da significagio, seriam, para las, 0 que as linguas sio para a linguagem. Sabe-se, por exemplo, que se as estruturas elementares da significacio, por um lado, € 0 sistema dos elementos naturais — que sustentam as axiologias figu- rativas mais conhecidas —, por outro, podem figurar na teoria ‘como universais, 0 mesmo nao ocorre com as axiologias figurativas propriamente ditas, em que os quatro elementos distribuem-se, segundo os autores e as culturas, de modo variavel ¢ especifico. Ha uma maneira relativamente simples de abordar essas gran- dezas culturais, € de distingui-las dos universais, que consiste em 20 SOAOTICA OAS PADIOES tratéclas como “taxinomias conotativas”; com efeito, & grande, as vezes, a tentagdo de considerar as “‘sclegdes”, as “inflexdes” ¢ outros “complementos”s cujos universais so afetados pelas cultu- ras individuais ou coletivas, como operagées isoladas, caracteriza- das unicamente pela iniciativa do sujeito de enunciacio, ¢ de fazer delas um inventério: vertido diretamente. na conta das operagdes ‘enunciativas. Ora, acontece que, nem que seja apenas porque elas incluem a “lingua”, o conjunto.dessas,particularidades constitui lum sistema que, uma vez estabelecido, adquire de direito um modo de existéncia independente da enunciagio: elas sio realiza- veis — virtualizadas ou atualizadas — ¢ néo realizadas. # 2 prixis enunciativa que cabe operar essa mudanga de sta- tus; com efeito, 08 particularismos culturais integram-se no nivel semionarrativo gragas a0 uso: 0 discurso social constitui-se no ape- nas por convocagio dos universais, mas também por uma espécie de retorno do discurco sobre si mesmo, que produz configuragbes prontas, estereotipadas, e os esteredtipos assim obtidos sio remeti- dos ao nivel semionarrativo para af figurar como primitivos, tio organizados e sisteméticos quanto os universais. A praxis enuncia- tiva € esse ire-vir que, entre 0 nivel discursivo e os demais, per mite constituir semioticamente culturas. Na maioria das vezes, ‘mas nao exclusivamente, 08 “primitivos” assim obtidos apresentam- ‘se como taxinomias que, subjacentes as configuragdes convocadas no discurso, af funcionam de algum modo como conotagdes, distin- tas das denotagdes que resultam da convocacio dos universais. Nesse sentido, a préxis enunciativa concilia um proceso gerativo € um proceso genético ¢ associa no discurso os produtos de uma articulagdo atemporal da significagio ¢ os da historia. [As paixdes oferecem terreno notavelmente fértil a tais taxino- mias conotativas, ¢ 0 analista reconhece af, de pronto, um campo privilegiado para o estudo dessas “grades” culturais, sociais ou indi- viduais que se projetam sobre 0s universais. De fato, sendo o “dis- positive” modal a grandeza final do percurso gerativo das paixdes, sua insergdo em discurso produz “disposigSes”, conforme 0 proce: dimeuto de convocasio; mas a convocacso é, em principio, conce- bivel para o conjunto das combinagées modais logicamente pos- siveis; de fato, nada disso ocorre, e constata-se que cada cultura se- leciona apenas uma parte para manifesté-las como paixdes-efeitos de sentidos ou como paixdes-lexemas, Por definicdo, a disposicio, ao mesmo tempo ancorada na sintaxe intermodal ¢ na protensi dade, € mais ou menos previsivel; ela é com certeza, fator de pre- ‘A ERSTEMOLOGIA Das PAIKCES 8 visibilidade do comportamento do sujeito, mas comporta sempre uma parte de indeterminagdo e de “‘invengao”; em compensacio, 0 “papel patémico”’, construido por pressuposigio e sobre a base de uma iteragio, € fortemente previsivel ¢ tende a implantar-se no discurso como estereétipo. E de algum modo o “uso” de certo dis- positivo modal como disposicdo, em dada drea discursiva e cultu- ral, que faz dele um esterestipo, depois, por retroagie, um primi- tivo passional; € apenas entdo que, na cultura considerada, unica- mente os dispositives modais que sofreram esse tratamento consti- tuirio objeto de convocagio discursiva no interior das configura- ges passionais, Se ndo se tratasse de estruturas ou de categorias modais, a influéncia das “grades” culturais ficaria limitada; mas na medida em que se trata de “dispositivos”, isto é, de intersegdes centre estruturas e de combinagdes potenciais entre categorias, as paixdes s6 podem aparecer enquanto tais no discurso se uma instin- cia gera © atualiza cssas combinagées potenciais, © essa instdncia € a praxis enunciativa, que cria as taxinomias passionais a fim de af recolher os primitivos produzidos pelo uso. Espécies € niveis da taxinomia ‘A propria lingua procede por classificagdo, na medida em que cla conceitualiza 0 mundo natural. Quanto as culturas, elas dis- tinguem-se como etnotaxinomias, caracterizando uma 4rea ou uma €poca inteira, € como sociotaxinomias, especificando as diferentes camadas taxinémicas de uma area ou de dada época; segundo o cri- tério assumido, essas tiltimas poderio ser socioculturais, socioecond- micas, sociogeogrificas: paixdes do norte e do sul, paixdes corsas (Mérimée) ou normandas (Maupassant), paixdes aristocriticas, bur- guesas ou populares. De outro ponto de vista, certas taxinomias podem surgir como imanentes a dada cultura, enquanto outras, con- tinuando constitutivas de uma cultura, surgirdo como construidas, pois pertencem a um sistema mais geral: as teorias das paixdes apa- recem assim no interior de sistemas ideol6gicos, filoséficos, e até com vocaslo cientifica, como em biologia e mesmo... em semidtica, Enfim, a distingdo entre os socioletos e os idioletos sera também igualmente pertinente no caso das paixdes. Poder-se-a dizer, por exemplo, que a teoria das paixdes de Descartes apresenta uma taxi- nomia socioletal imanente, por um lado, na medida em que ela repousa numa tradigo sociocultural e ¢ influenciada pela ideologia 82 SEETA OAS ANOS aristocrética, ¢ uma taxinomia idioletal construfda, por outro lado, porque participa de um sistema filos6fico. ‘Vem & mente um exemplo que ilustra concretamente a rel vidade das taxinomias conotativas: a “ambicio”, a “inveja” e a “emu- lacio” partilham uma mesma configuragdo passional, mas de maneira varifvel, seguindo as culturas ¢ as épocas. Essas variag6es obedecem em particular & natureza das clivagens socioecondmicas: a emulagio fica circunscrita no interior de cada classe ou grupo social, a ambiggo ¢ a inveja transpdem os limites; por outro lado, a ambicZo ¢ a emulagio sio “ascendentes”, enquanto a inveja supo- ria um principio igualitario. Por isso, 0 que apareceré como ambi- do numa sociedade fortemente clivada, comportando grande niimero de camadas sociais com fronteiras bem definidas, passara por emulago numa sociedade que comporta poucas camadas sociais ¢ clivagens fracas. Além disso, por menos que a norma social vise ‘a manter firmemente cada um em sua classe de origem, a emulagao se encontrard assentada numa ambiglo, ¢ a propria ambigdo levada a uma inveja; Dupuy ¢ Dumouchel esforgaram-se por mostrar, em Lienfer des choses, & luz das teorias de R. Girard, que as relagbes intersubjetivas € sociais sio organizadas, nesse caso, por uma estra- tégia cujo objetivo principal € canalizar o desejo mimético. Se se admite, como sugerimos indiretamente com a nogo de “‘intersujei- to”, que um fendmeno como o desejo mimético € anterior a existén- cia dos objetos de-valor, é-se levado a constatar que a selecdo ope- rada pelas taxinomias conotativas opera desde as precondigdes da significacdo e que, sem ser sistemas axiol6gicos — 0 que seria incom- ppativel com 0 starus das precondigdes —, elas ja acolhem normas, principios reguladores que definem 0 modo de funcionamento do sujeito coletivo. Parece aqui que 0 sujeito de enunciagdo comunité- ria inscreveria como primitivos, no amago do continuo tensivo, seus proprios mecanismos de regulagio interna. As sugestdes feitas mais atrds a respeito dos “estilos semisticos” vdo no mesmo sentido. Conhecemos vérias teorias que propéem, por exemplo, no nivel do que chamariamos as estruturas elementares, organizar os sistemas passionais, ou a afetividade em geral, conforme os grandes tipos de axiologia reconhecidos como dominantes no estudo dos dis- cursos: a axiologia abstrata, vida/morte, de que a psicanilise fez ‘uso incomparavel, opondo quer as pulses de vida as pulsbes de morte (S. Freud), quer 0s “bons objetos”” aos ‘“maus objetos” devo- adores e atraentes, a0 mesmo tempo (M. Klein), e também a axiolo- |AERSTEMOLOGIA DAS PAGES 83 gia figurativa, 4guafar/terra/fogo, que funda a teoria dos humores ¢, mais particularmente, as taxinomias passionais medievais. No nivel semionarrativo, no que se refere mais em particular as modalizagSes, as taxinomias conotativas operam em» grande escala, j@ que autorizam ou interditam a manifestago como paixio de cada um dos dispositivos modais logicamente possiveis. Assim, todo um conjunto de comportamentos a respeito da honra € excluido do dominio passional, no século XVII ¢ no século XVIII, ¢ em certa medida no século XIX, 20 passo que esse conjunto apareceria, hoje, como “suscetibilidade”, “irritabilidade”, “‘cardter desconfia- do” ou violéncia colérica, Enquanto esses. comportamentos sio socialmente normatizados, codificados como papéis teméticos na competéncia dos sujeitos, permanecemos no mbito de um contrato coletivo € de uma competéncia modal ordinaria; quando essa codi- ficagdo e a norma que a acompanha caem em desuso, os mesmos comportamentos nao remetem mais a uma estrutura modal isot6- pica, como a do dever-ser ou dever-fazer, mas a um dispositive modal complexo, que nenhum contrato regula, que possui sua propria autonomia sintética e que s6 pode ser interpretado, na nova cultura em que se manifesta, como “disposi¢io” passional. ‘Da mesma forma, as posturas de preparacio ao desafio e de res peito & posigdo social de outrem, que P. Bourdieu descreveu nos kabyles, so extremamente funcionais, reguladas como poder-fazer ¢ saber-ser, mas sio correntemente recategorizadas, por outros ‘olhos que no 0s do sociélogo, como patemas: “desdém’, “arro- gincia”,, “orgulho” etc,’ A nomenclatura passional _-A\lingua prope sua propria conceitualizagdo do universo pas- sional, cuja primeira formulagdo encontra-se mum campo lexical especifico, 0 da “‘nomenclatura passional””, que revela as grandes Esses exemplos mostram bem que uma seqléncia modal que nfo € convocads como “'disposigdo”, por ocasido da colocagio em discurso, nlo aparece, de fatoy como um “dispositivo”; verifica-se aqui que, enquanto intersecio entre categorias ‘modais, 0 dispositivo permanece virtual e apenas o feito retroativo da prixis enun- ciativa pode atualizé-lo ¢ torndlo manifestavele sensivel a0 enunciatfio. Mais con- cretamente, & a existéncia de uma dinimica interna do dispositive, sob 2 forma de sintaxe intermodal, que o assinala 20s cuidados do analista como dispositive. ‘Chegariamos a concluir, mas resta ainda verificar, que a presenga de uma sintaxe intermodal nas seqGéncias modais seria também o efeito etroativo da praxis enun-