You are on page 1of 18

EGON SCHIELE/PAIR EMBRACING (1917)/REPRODUÇÃO

CON
TI
NEN
TE

CAPA

CONTINENTE ABRIL 2015 | 22

Revista_172.indb 22

27/03/2015 09:04:21

indb 23 27/03/2015 09:04:21 . o prazer da leitura de textos licenciosos evidencia muito mais o que é esse tipo de literatura do que classificações de gênero TEXTO Priscilla Campos CONTINENTE ABRIL 2015 | 23 Revista_172.A ESCRITA ERÓTICA Impulsionado pela imaginação de cada um.

Uma forte característica de epifania é associada. “A definição do que seja erótico ou pornográfico não depende do gênero em si. podemos encontrar o impulso para iniciar abordagem crítica sobre aspectos da literatura erótica. urdir a tal arte de mostrar o que se é. e continua. não é algo intrínseco (se mostra mais ou menos genitália. se tem ou não enredo etc. Os detalhes apresentados naquela determinada obra e a capacidade inventiva do leitor é que vão construindo. São eles: Os efeitos de uma literatura furtiva ou a arte de mostrar o que se é. professor titular em Teoria da Literatura na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O conteúdo textual que aparece em cada uma dessas partes não será. pornográfica. Alfredo Cordiviola. tomemos como exemplo os títulos de dois capítulos presentes na análise ensaística Esses livros que se leem como uma só mão – leitura e leitores de livros pornográficos do século 18. então. em diferentes graus. há sempre uma sereia cantando para naufragares. O entusiasmo erótico pode se dar na literatura enquanto a narrativa consiga sustentar uma suposta fantasia sexual do leitor. destaca os pormenores que envolvem esse processo de receptividade. em particular. ressaltando o teor proibitivo dos impressos lascivos: “Tudo se passa como se. o sujeito processa uma inversão no posicionamento do seu desejo. livros. da imaginação. a sensação de prazer”. e. “Na medida em que a narrativa avança. assinada pelo acadêmico francês Jean-Marie Goulemot. Ao estabelecer vínculos com a libertinagem de Sade ou com os poemas lésbicos e fúnebres de Swinburne.CON CAPA TI NEN TE IMAGENS: REPRODUÇÃO Com o intuito de articular uma circunscrição precisa da temática obscena em escritos literários. do ponto segundo o qual são observados e das expectativas e pressupostos que são gerados na sua recepção. No enfoque na troca entre escritor e leitor. Wilson Alves-Bezerra. sites – são associados a esse fim. O canto da sereia. 1 de que o erótico e o pornográfico prestam-se. brinquedos. mas não ao tentar desmontá-la”. os produtos eróticos – sejam eles filmes. às obras obscenas. que sempre esteve no mar. garante-nos o Radiohead). crítico literário e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). explica. sob o ponto de vista CONTINENTE ABRIL 2015 | 24 Revista_172. agora se transpõe em direção à terra (afinal. a produzir a excitação sexual. Unidades ocultas de nosso imaginário erótico estabelecem novo perímetro na superfície. O quanto ela vai ser rica e detalhada depende do quanto ele se permite. De acordo com a psiquiatra. em nossa sociedade. Depende da recepção desses textos. enfim. Assim. Goulemot escreve que “Por meio da escrita.). da leitura e da censura do romance erótico. Carmita Abdo. o leitor tende a dar vazão a uma fantasia erótica. na qual podem. A proposta é demonstrar a força de uma titulação bem-feita: nesses dois elementos editorais. “Existe um consenso tácito. necessariamente. o prazer proporcionado pela leitura de obras licenciosas tem como origem o estímulo do pensamento. afirma o escritor.” Em seu ensaio. e Dos poderes da imaginação literária. o imaginário literário”. citado. professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM–USP) e fundadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex). em menor ou maior frequência.indb 24 27/03/2015 09:04:21 . questiona-se o funcionamento da imaginação.

totalmente extraordinária. sem dúvida. Ao longo dos séculos. Esculpida em calcário. a obra foi encontrada na Áustria e data de 2.C.1 VÊNUS DE WILLENDORF Achado arqueológico é considerado a primeira representação do nu na arte 2 KHAJUHARO Templo indiano tem parte de sua fachada revestida com esculturas de erotismo ligado ao sexo tântrico deste guardião da moral pública (censor). Na Grécia Antiga. Mas. houve a misteriosa figura de Safo. O arqueólogo Josef Szombathy foi o responsável pela descoberta. das capacidades de resistência do espírito humano a estas formas de subversão”. o conteúdo erótico e pornográfico foi tido pela Igreja e governantes como “uma coisa rota e sagrada. “A definição do que seja erótico ou pornográfico depende da recepção desses textos” Alfredo Cordiviola LABIRINTOS OCIDENTAIS No encalço da pista deixada pelo Atlas de Borges.500 a 2. estatueta considerada a primeira representação do nu na arte.indb 25 27/03/2015 09:04:22 . os parágrafos a seguir pretendem ser “monumentos dessa vasta aventura” que engloba a história da pornografia. poetisa nascida entre CONTINENTE ABRIL 2015 | 25 Revista_172. Em História da literatura erótica. a Vênus seria uma espécie de símbolo do culto à fertilidade. que está exposta no museu de Genebra. da Vênus de Willendorf. definição de Borges para a escultura da Deusa Gálica. o livro fosse investido de uma força de convicção contra a qual nada poderia prevalecer. antes de apresentarmos os contraventores responsáveis por novos rumos filosóficos. Há. em toda censura. que nossa ociosa imaginação pode enriquecer irresponsavelmente”. deste modo. o filósofo francês Sarane Alexandrian afirma 2 que o berço do moderno erotismo literário foi a Europa. Com proporções exageradas. temos representações femininas ancestrais importantes para a formação do entendimento ocidental sobre o corpo e a volúpia. do erotismo e os seus entrelaçamentos com a literatura. em 1908. uma exaltação dos poderes do livro e uma degeneração.000 a.

à poeira e à Igreja permanecem na pauta de pesquisadores e curiosos. na ilha de Lesbos. “Entendo que a exaltação do sexo no âmbito das artes depende. É a partir dessa relação com o sagrado e com essas divindades que se estabelecem elementos de definição do erótico como força que.. comporta a noção do intercurso sexual e dos encontros com o outro. e o conflito alma versus corpo”. se entendemos esse vocábulo no sentido de representar da forma mais realista possível um encontro sexual (os vasos gregos. CONTINENTE ABRIL 2015 | 26 Revista_172. e de outro. Sua família. O termo aparece como um neologismo para se referir à prostituição. Isso porque não há como separar a ideia de erótico de Eros ou Cupido. advém do Caos./ no instante em que te vejo: dizer não posso mais/ uma só palavra”. “Já a noção de pornografia é bem posterior ao que entendemos por erotismo. Cordiviola lança um olhar acerca da utilização da palavra:“Em muitas épocas. conforme observa Ferreira. A dimensão da mercadoria e do corpo como objeto de desejo a ser comprado ganham destaque e ligam 3 a pornografia ao contemporâneo. completa. houve representações que poderiam de alguma forma ser consideradas pornográficas. De acordo com o historiador e professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). à tua frente/ sentado. em sua origem./ o coração no peito estremece de pavor. explica.C. tua voz deliciosa. ao mesmo tempo. permitiu à cultura ocidental alimentar uma rica produção artística para pensar o erótico. como o mais famoso de todos. sua sexualidade. um novo manuscrito com alguns fragmentos atribuídos a Safo foi descoberto. Neste ano. quer pensemos no mundo grego ou no romano. como êxtase. Nesse sentido. inclinando o rosto. o Kama Sutra. os quais envolvem o conceito de beleza.indb 26 27/03/2015 09:04:22 . amores e componentes sensuais ao divino: “Pareceme ser igual dos deuses/aquele homem que. Vários dos seus versos ligam paixões. Daniel Wanderson Ferreira. as imagens fálicas) e textos que explicitavam o assunto. de acordo com a revista norte-americana The New Yorker. os templos indianos./ escuta. de uma dimensão sagrada. seus poucos escritos sobreviventes ao fogo.// e teu sorriso luminoso que acorda desejos – ah/ eu juro. A perspectiva da paixão como sofrimento e. essa simetria com o olímpico é intrínseca ao limiar do erotismo. de perto. a pornografia é filha da modernidade e já coloca o corpo no mundo com o enfraquecimento dos elementos mágicos. que teria assumido o papel de líder local e intelectual. sagrados e essencialistas”. de um lado.CON CAPA TI NEN TE JOHN WILLIAM GODWARD/IN THE DAYS OF SAPPHO 630 e 612 a.

Na navegação turbulenta por uma Itália religiosa e imersa na suspensão da estrutura medieval surgem as narrativas satíricas de Aretino. circulação aberta) para o espalhamento dos “Descobrir o desconhecido não é uma especialidade de Simbad. vários artigos tratam sobre o tema. Na compilação A invenção da pornografia. A BARCA DOS LIBERTINOS ou os romances filosóficos franceses. ‘cu’. diga ‘foda’. pautadas pela intenção realista. ‘boceta’. Foi o criador dos Sonetos luxuriosos quem a tornou acessível a um público mais amplo.indb 27 27/03/2015 09:04:23 . teríamos que ver que lugar tinha a sexualidade nessas sociedades. organizada por Lynn Hunt. a historiadora norteamericana Paula Findlen fala da importância do Renascimento como momento histórico propício (novas tecnologias de impressão. Moraes grafa: “Antes de Aretino. diz Jorge Luis Borges. por outro lado. não fosse também o aparecimento de novas formas de representação da atividade sexual que. Não há um único homem que não seja um descobridor”. implicavam uma transgressão deliberada da moral”. esse tipo de literatura – marcada pelo emprego dos nomes técnicos – ficava restrito a um seleto círculo de patronos e amigos doutos dos escritores licenciosos. “Mas a popularização do material licencioso dificilmente teria se consolidado. de Érico o Vermelho ou de Copérnico. seria incorrer em um anacronismo. através dos conselhos das prostitutas criadas pelo poeta: “Fale claramente e. só os sábios da Universidade de Roma não vão entendê-la”. Pietro Aretino foi responsável por reverter a Atlântida do desejo no coletivo. Nascido na cidade de Arezzo. em seu artigo intitulado O efeito obsceno. se você quiser alguém. De outra maneira. Por meio do comércio clandestino de seus sonetos. o então pintor encontrou em Roma e na convivência com o papa Leão XX motivos catalisadores para sua escrita.3 SAFO DE LESBOS Representação da poetisa grega pelo pintor pré-rafaelita John William Godward. Num deles. em um dos prólogos mais bonitos da literatura latinoamericana. julgando diferentes culturas e tempos a partir dos nossos critérios”. desprovidas de qualquer tipo de compostura. muitas vezes inovando seu conteúdo para atender às demandas desses leitores”. Os efeitos de uma literatura furtiva explodem pelos quatro cantos do Império Bizantino. ‘pau’. datada em 1904 escritos obscenos na sociedade em seu total. CONTINENTE ABRIL 2015 | 27 Revista_172. para poder considerar essas representações como ‘pornográficas’. Mas. escreve a crítica literária e doutora em filosofia Eliane Robert Moraes (confira entrevista com ela nas páginas 32 e 33).

na introdução de Discursos ímpios. Donatien Alphonse François de Sade atira uma flecha no desamparo humano. o furto e o parricídio. o marquês aniquilou categorias da moralidade. alma. “Tudo permite a natureza. “Divertime (…) escrevendo os sonetos que podeis ver (…) sob cada pintura. ressalta o historiador Daniel Ferreira. os jogos lésbicos de Safo.” Do outro lado do Mediterrâneo. A extinção da espécie era considerada inevitável. desde a ideia da cristandade ocidental. que resultam. devido ao poder autodestrutivo dos homens. subverteu definições políticas. Assim. era o único consolo antes da destruição terminal da raça humana”. 4 4 MARQUÊS DE SADE Gravura de Donatien Alphonse François 5 PIETRO ARETINO Seus escritos satíricos foram os primeiros a nomear explicitamente partes eróticas do corpo 6 GEORGES BATAILLE Autor estabelece em sua obra a relação entre erotismo. “Existe uma importância que reside na própria centralidade da cultura francesa para o Ocidente. a concepção de corpo cristão. parte para Veneza e constrói. A indecente memória deles.indb 28 27/03/2015 09:04:23 . A satisfação de todos os caprichos inimagináveis. pois não tenho mais paciência para as suas mesquinhas censuras. através do mais amplo delírio erótico. cortesãs e obscenidades literárias./ Todos os prazeres de Sodoma. a França transformava-se numa paisagem cintilante nas esferas culturais e sociais. / Tudo aquilo que destrói e envia os homens para o túmulo.CON CAPA TI NEN TE IMAGENS: REPRODUÇÃO Publica e escandaliza os católicos com seus sonetos. Do centro do Iluminismo. manifestou-se a maior violência transgressora discursiva da história moderna. pecado. Na filosofia libertina. também. e não havia sequer motivos para lamentar tal fato.” Nesses versos. Escreve o doutor em História Social Eduardo Valadares. da interdição ao prazer e tantos outros aspectos relacionados ao corpo foram enunciados em língua francesa”. refundada por Carlos Magno no Império Carolíngio. publicado pela editora Hedra: “Para Sade. não havia esperança alguma para humanidade. sagrado e transgressão 5 CONTINENTE ABRIL 2015 | 28 Revista_172. em um mecanismo manipulador da nobreza em decadência. uma vida de festas. para o seu sujo costume de dizer aos olhos que não podem ver o que mais os deleita. professor da Sorbonne). por suas leis assassinas:/ O incesto e o estupro. eu a dedico a todos os hipócritas. naquela terra com geografia ainda incompreensível. ou na ideia de amor apresentada por Abelardo (importante filósofo tomista.

ao mesmo tempo. Nessas escritas. Funcionário da Biblioteca da França. encontra-se Georges Bataille. lateja. converge a uma das ações mais difíceis de descrever: o ímpeto de alguém diante do mundo e do gozo. Na opinião do crítico literário Wilson Alves-Bezerra. religiosas e afetivas. axioma difundido pelo regime econômico. quando não for reduzido à mera mercadoria”.indb 29 27/03/2015 09:04:23 . pelo “gasto de energia”. em 1928. em vez de armazená-la. Em O erotismo. Nessa linha do que está acaçapado. “O frei espanhol Luis de León (1527–1591). uma virtualidade hesitante”. A literatura erótica. “A urina. “uma espécie de projeto impossível. pornográfica. sereias e castelos submersos. um conjunto literário – e. Sade e sua literatura ultrapassam qualquer metáfora encantadora que envolva tridentes. o francês amarra o termo por todos os ângulos: morte. identidade. também imagético – de elementos em mortífero regojizo. o estímulo sexual seria uma busca psicológica pelo inútil. e o relâmpago. o desprezo e a marginalidade associados aos textos eróticos estão inseridos na nossa cultura ocidental cristã. 1552–1591). Com isso o vienense está 6 afirmando tanto o poder transgressor da sexualidade – que pode colocar em crise as instituições – quanto o tamanho da repressão social. arremata. conservação) e da transgressão (de acordo com o escritor. foi perseguido e preso por traduzir do latim. Para ele. Juan de Yepes (depois conhecido como San Juan de la Cruz. MARES INTRANQUILOS Na conclusão de Esses livros que se leem como uma só mão – leitura e leitores de livros pornográficos do século 18. agressivas e sexuais. então. não sei por quê. o Cântico dos cânticos. a arte de mostrar o que se é dói de forma enlouquecedora. o erotismo estaria no meio do interdito (trabalho. Seu contemporâneo. CONTINENTE ABRIL 2015 | 29 Revista_172. cristianismo.terreno fértil e movediço. porque o desejo é tão cruel quanto a bestialidade descontrolada de certos demônios. o que fica para além do imaginário e da contínua revelação é um senso de mapeamento caótico. Desse modo. por sua vez. de algo que merece toda atenção que se possa dedicar. ele estreou na literatura com A história do olho. A evolução do erotismo é paralela à da impureza”. um horizonte jamais alcançado.” Para Bataille. com veemência. sacrifício religioso. “A concepção de corpo cristão e da interdição ao prazer foram enunciados em língua francesa” Daniel Ferreira por exemplo. a um penico antigo de terracota. além de aproximar. Tanto nos seus livros lascivos quanto na construção teórica de seus estudos. diz Freud. foi muito influenciado por aqueles versos e depois também foi obrigado a explicar o sentido espiritual de seus poemas eróticos… A vida na cultura. está associada ao salitre. no século 16. Um crime e tanto: traduzir um texto bíblico à língua corrente. Bataille consegue manter em prolongamento as questões que este texto procurou responder. As obras seriam. ratifica: “O erotismo caiu no domínio profano ao mesmo tempo que se tornou objeto de uma condenação radical. Assim. o obsceno e a morte. substantivo que atinge. reprodução. o território das experiências libidinais será sempre potente e transformador. JeanMarie Goulemot questiona-se sobre a real existência de um livro pornográfico diante de tantos tipos de “confusões”.sociais. Narrativas e desejos formam esse atlas que não é atlas. o humano e a coisa). se dá à custa da repressão de muitas pulsões. A respeito do último. justamente por não sabermos delimitar sua presença. para mim. abandonado num dia chuvoso de outono sobre o telhado de zinco de uma lavanderia de província.

PRISCILLA CAMPOS Poemas e fragmentos (Safo de Lesbos) A antologia foi resultado do que restou da obra da poetisa grega. A criação na literatura erótica remete à dinâmica do turfe (esporte que envolve corridas de cavalo) – a beleza da velocidade dos corpos convive. Fanny Hill ou Memórias de uma mulher de prazer (John Cleland) Censurado nos Estados Unidos até 1966. ao mesmo tempo. No Brasil. Ao narrar a iniciação sexual da jovem Fanny. tantas vezes censuradas. foi chamada de a “décima musa”. O virtuosismo também é analisado ao longo da narrativa. políticos. forçado a abandonar a corte papal. dos editores e impressores.indb 30 27/03/2015 09:04:25 .. A divulgação de Sonetos luxuriosos revelou seus inimigos e. centrada na personagem de Wanda von Dunajew. o livro foi traduzido pela primeira vez em 2011. transformou avassaladoras paixões por mulheres em bonitas construções estéticas. Por Platão. Cleland empreende uma escrita elegante. acusados de obscenidade. Com uma biografia controversa e carregada de pontos incertos. A Vênus de peles (Leopold von Sacher-Masoch) O sadomasoquismo e a figura feminina dominadora. CONTINENTE ABRIL 2015 | 30 Revista_172. principalmente entre a parcela religiosa da população. como indicam obras clássicas do gênero reunidas a seguir. O nobre europeu Severin von Kusiemski encontra em Wanda a oportunidade de realizar seu maior desejo. amor. que se muda para Londres aos 15 anos. de uma queda mortífera em qualquer parte da pista. Sonetos luxuriosos (Pietro Arentino) A sátira e o despudor dos escritos de Arentino renderam-lhe a alcunha de “O flagelo dos príncipes”. discutidas com afinco séculos depois. pelo poeta e ensaísta José Paulo Paes. A obra traz a essência da filosofia libertina: as ideias do Marquês sobre política. que envolve a completa submissão às crueldades de uma mulher. O livro ficou em evidência quando a palavra masoquismo (que deriva do sobrenome de Leopold) entrou como vocábulo no debate psiquiátrico. Ao promover. O resultado foi a prisão do escritor. com o êxtase físico e com a constante possibilidade de violação. Safo produziu uma poesia erótica considerada sublime. por meio da linguagem obscena. a produção literária erótica encontra o seu elemento comum na busca pela sensação de autonomia. estão todas ali. são a base temática dessa novela austríaca. a partir da relação entre a personagem e seus torturadores. O que une essas obras. Sade constrói Justine como uma protagonista do sofrimento. à sociedade e ao comportamento. a quebra de padrões ligados ao corpo. O livro causou tumulto na época. igreja e sexo. escritores estiveram em confronto com conceitos filosóficos. o poeta mudou-se de Roma para Veneza. proibidas e motivadoras de escândalos. Justine ou os infortúnios da virtude (Marquês de Sade) Preso há cinco anos na Bastilha. Fanny Hill foi considerado o primeiro romance erótico moderno.CON CAPA TI NEN TE O EROTISMO OCIDENTAL No vórtice temporal que parte dos fragmentos da poetisa grega Safo de Lesbos e vai até os diários e contos da francesa Anaïs Nin. Por meio de seus versos. é o simples desejo de ruptura.

o terceiro livro do nova-iorquino traz a temática erótica entrelaçada ao exílio. Citações a Freud. ao mesmo tempo. Lawrence) Ada ou ardor – crônica de uma família (Vladimir Nabokov) Neste romance. A decadência social e a novidade em torno de experimentos sexuais e emocionais estão presentes em todos os contos. CONTINENTE ABRIL 2015 | 31 Revista_172. na década de 1930. A história do olho apresenta o erotismo através do conceito transgressor duplo (a ideia de ser coisa e. H. Último romance do autor britânico. prostitutas. blue. Flaubert e Proust são algumas das que aparecem ao longo da história. Delta de Vênus (Anaïs Nin) O total de 15 narrativas. floração. o texto ainda sofria na Inglaterra com processos por obscenidade. Ada.JANIO SANTOS Trópico de Câncer (Henry Miller) Por meio de um relato autobiográfico. Constance Chatterley e o guarda-caças Oliver Mellors. Simone e Marcela conduz um dos mais belos e perturbadores clássicos da literatura erótica. Objeto de estudos filosóficos. O amante de lady Chatterley também foi banido após o seu lançamento. azul. O personagem deixa os Estados Unidos rumo ao ambiente caótico e libertino da capital francesa. Entre os personagens. ser humano) defendido por Bataille. bliss (irmãos. O amante de lady Chatterley (D. escritas na década de 1940 sob encomenda feita por uma figura misteriosa. A história do olho (Georges Bataille) O trio formado pelo jovem narrador. Trópico de Câncer tornou-se exemplo da ideia de anarquia nos escritos eróticos. focada na paixão de Van Veen por sua irmã. De acordo com o escritor. modelos e artistas em busca do culto ao corpo e à beleza. bloom. Com ritmo urgente e um trabalho de linguagem ansioso. Nabokov trabalha a convergência entre sexo. Em 1960. a temática incestuosa foi escolhida porque ele gostava do som bl em siblings. incesto e referências literárias. literários e psicológicos. A história evidencia transições sociais e políticas através da relação tórrida entre a personagem principal.indb 31 27/03/2015 09:04:25 . compõe o livro mais famoso da escritora francesa. glória).

Autora de diversos ensaios sobre o imaginário erótico nas artes e na literatura. Ou seja. psicológicos. se quisermos. Mas a popularização do material licencioso também deve muito ao aparecimento de novas formas de representação do erotismo que. analisa o poder de transformação filosófica presente na literatura erótica e na obra do Marquês de Sade. Ou. CONTINENTE Como e quando a cultura erótica surgiu na história moderna? ELIANE ROBERT MORAES O ponto de partida dessa tradição foi dado pela nova tecnologia de impressão do século 16. além de livros como Sade – a felicidade libertina e O corpo impossível – a decomposição da figura humana: de Lautréamont a Bataille. implicavam uma transgressão deliberada da moral. pautadas pela intenção realista. França e Portugal para discutir a temática. os elementos decisivos para a formação dessa cultura foram dados pela literatura. criando um próspero mercado para o obsceno. Eliane Robert Moraes. pelos escritos licenciosos de Aretino. que colocou em circulação reproduções baratas. a doutora em Filosofia e professora de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia. DESMEDIDA É O QUE DISTINGUE O TEXTO LICENCIOSO” Nesta entrevista. Eliane esteve em centros universitários dos Estados Unidos. EXCESSO. Nos escritos licenciosos. textos que conferiram a certidão de nascimento à moderna CONTINENTE ABRIL 2015 | 32 Revista_172. como os Sonetos luxuriosos (1525) ou os Ragionamenti (1534-1536). nada permanece inocente e neutro: o leitor está submetido a uma conversão que envolve excesso e deslocamentos sociais. Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP).CON CAPA TI NEN TE DIVULGAÇÃO 1 Entrevista ELIANE ROBERT MORAES “VERTIGEM.indb 32 27/03/2015 09:04:26 .

ele está. como também demonstra que a experiência da crueldade é a única consequência lógica a ser tirada dessas teorias. posto que abre ao pensamento a possibilidade contínua de alargar a escala humana para além da vida em sociedade. senão moralista. em 1795. O repertório de subtemas que o erotismo aciona – bestialização. A diferença entre eles não está no grau de obscenidade. um “gênero erótico” teria que se definir pela reprodução de certos critérios formais. de Glauco Mattoso ou de Reinaldo Moraes são muito mais obscenos do que a pornografia comercial de uma Bruna Surfistinha ou de uma E.C. Contudo. remonta ao final do século 16. a partir daí. diz ela. se aos romancistas libertinos do século 18 cabe o mérito de reunir a libertinagem erudita e o deboche de conduta. perturbadora. (P. mas ainda pelas divergências históricas acerca do que seria efetivamente imoral.) CONTINENTE ABRIL 2015 | 33 Revista_172. e sobretudo de propor. Essa distinção é falsa” alcova libertina como lugar para onde convergem a filosofia e o erotismo –. funda um sistema em que pensamento e corpo unem-se para realizar a experiência soberana do mal. livros como os do marquês de Sade. semelhante ao que encontramos nas literaturas de cunho eminentemente religioso. sem implicarem um conjunto próprio de convenções. na medida em que. na medida em que privilegia as formas do excesso e. Em seu artigo O efeito obsceno. Sade não só coloca em prática as teorias do primado das sensações no homem. salvo algumas exceções. A ficção erótica. Como podemos definir esse gênero literário? Quais as diferenças entre pornografia e erotismo? ELIANE ROBERT MORAES Para o senso comum. nesta ou naquela convenção literária.indb 33 27/03/2015 09:04:26 . CONTINENTE Você poderia falar sobre a filosofia libertina? Como a produção de Sade encaixa-se na ideia apresentada por Lucienne Frappier-Mazur: “(…) a palavra obscena não só representa. –. de Georges Bataille. Representação privilegiada da atividade erótica. necessariamente. Tradição essa que. seja de forma trágica ou cômica. desmedida – não importa que nome se dê a tal capacidade –. enquanto o erótico é ‘o velado’. CONTINENTE Por que existe uma sensação de perigo quando se associam sexo e pensamento? Que tipo de subversão inconveniente os escritos eróticos despertam? ELIANE ROBERT MORAES Gosto de lembrar a escritora e ensaísta norte-americana Susan Sontag. o pornográfico é o que “mostra tudo”. CONTINENTE O escritor norte-americano Theodore Schroeder escreveu que “não existe livro ou quadro pornográfico. O erotismo literário coloca um problema estético particular. Desnecessário dizer que uma tal filosofia vai se expressar por meio de uma linguagem igualmente lúbrica. para ele. ao marquês cabe uma glória ainda maior: a de deduzir. enquanto o erótico é “o velado”. Contudo. L. visando desorientar o sujeito. A isso seus libertinos dão o nome de “filosofia lúbrica”. nada existe que seja obsceno “em si”. com os pensadores que opõem aos ensinamentos da fé as constatações da experiência cotidiana e da percepção sensorial. aponta para essa constante problematização da noção de ser humano e de humanidade. assim. Ao transportar a filosofia para a alcova. essa distinção é falsa. embora encontre na literatura licenciosa setecentista a sua expressão mais bem-acabada. James. antes de mais nada. para o estudioso do erotismo literário. a palavra pornográfica acaba subvertendo sua função abstrata de signo para ganhar um corpo próprio que. tal qual um espelho que transforma. E. o que seria confirmado não só pela diversidade de obras consideradas pornográficas em tal ou qual contexto. abrangentes. assim. Ao adotar a forma do diálogo entre mulheres – que se inicia interrogando as melhores profissões femininas para afirmar a superioridade da prostituta sobre a freira e a esposa –. Eu diria ainda mais: trata-se de uma forma de conhecimento que coloca certa questão filosófica maior. A tese de Henry Miller vem reforçar a impossibilidade de se fixar o estatuto literário da erótica. mas na composição formal: o valor de um texto nunca se mede por sua moralidade. deforma e sobretudo amplia tudo o que nele se reflete. dessa síntese. A rigor. o que supõe. realizando uma notável síntese de toda uma tradição de pensamento. tendo como força motriz a relação entre prazer e dor. Acredito que a particularidade da fabulação sexual está no inesgotável poder de multiplicar as imagens do desejo. Porém. o pornográfico é o que ‘mostra tudo’. pois ela é tãosomente uma qualidade do espírito daquele que lê. Daí a dificuldade de delimitá-la neste ou naquele livro. o livro pretendia expor “a coisa em si”. para Sade. aciona estados extremos do sentimento e da consciência humana. perda de si no outro etc.ficção erótica ocidental. tal ordem de consequências até então jamais concebida. mas é a própria coisa”? ELIANE ROBERT MORAES Quando o marquês de Sade. A rigor. deslocálo mental e fisicamente. que caracteriza a “imaginação pornográfica” como uma forma particular de consciência que transcende as esferas sociais e psicológicas. a obscenidade seria fundamentalmente um “efeito”. trata-se de uma literatura que jamais se aprisiona num só gênero literário. esse é por excelência o traço que distingue o texto licencioso. escreve La Philosophie dans le boudoir – afirmando a “Para o senso comum. viabiliza a passagem de uma consciência “social” para outra. e se mantém viva durante todo o século seguinte. violência. ou daquele que olha”. a obediência a determinadas normas de composição. existe é um olhar diante daquilo”. A se crer no escritor. opera em paralelo ao corpo material. A linha entre o erótico e o não-erótico parece tênue e as discussões. tão em voga entre os simpatizantes do materialismo na época. mas por sua qualidade estética. excesso. seu próprio sistema filosófico. em qualquer quadro. você traz para a análise um ensaio de Henry Miller no qual ele defende:“Não é possível encontrar a obscenidade em qualquer livro. as obras obscenas participam do movimento geral da literatura. Talvez por isso. Vertigem. Por isso os textos obscenos seriam portadores de certo princípio de conversão do leitor.

espírito versus matéria. Ambas configuravam importantes centros urbanos durante o período colonial. muitas vezes denominados de “profanos”. questões sexuais versus ascetismo.CON CAPA TI NEN TE DIVULGAÇÃO BRASIL Boca do Inferno. nasceu Gregório de Matos./ CONTINENTE ABRIL 2015 | 34 Revista_172. por uma significante mostra de poesia satírica e erótica em língua portuguesa. imperial e primeiros momentos da República. Nessa mesma linha de pensamento. as musas dos poemas possuíam duas personalidades: anjo e demônio. o precursor Fragmentos de uma literatura obscena nacional indicam a presença de autores que usam o erótico para a crítica social A produção de escritos eróticos e pornográficos no Brasil traz como referência geográfica inicial as cidades de Salvador e do Rio de Janeiro. Por meio da galhofa obscena. Seus versos./ uma união de barrigas. Na terra de Iemanjá. no século 17.indb 34 27/03/2015 09:04:26 . o Boca do Inferno redefinia conceitos amorosos ainda tão conservadores: “O amor é finalmente/ um embaraço de pernas. poeta barroco responsável. tinham como temática a dualidade. pureza e corrupção.

os poemas eróticos de Drummond. mas para dá-lo é preciso primeiro escrever. ao descrever o ato sexual. a literatura de temática sexual para. com profundidade. analisa a historiadora Cristiana Schettini Pereira. escrever sem fim. não se trata de mero jogo de palavras. No Brasil contemporâneo. do ponto de vista da linguagem. com A casa dos budas ditosos. romances de Dalton Trevisan e Glauco Mattoso que o erotismo perdura. o Rio Nu em pouco tempo afirmou-se com um estilo peculiar de humor malicioso”. a disseminação de impressos cresce e surgem jornais voltados para sátira e construções narrativas libidinosas. Já uma sensação plena de autonomia está presente nos escritos do paulista Glauco Mattoso. por isso saboreio com voluptuosidade cada vocábulo culto./ um reboliço de ancas. abre as asas – “Fique de quatro. do grotesco. o intervalo de tempo que compreende duas passagens do Sol pelos equinócios de primavera/outono e pelos solstícios de verão/inverno corresponda aos limites da obra pornográfica realizada por Hilda Hilst. a escritora paulista subverteu tal premissa. encaixam-se na proposição feita por Lucienne FrappierMazur acerca da palavra obscena: “ao contrário das outras palavras. “Tendo surgido em 1898 como despretensioso jornal de humor ‘cáustico’. concretizando assim o ideal de toda fantasia masturbatória”. arte. ele se diferencia da “escrita comum” não só porque desenvolve o erotismo ligado a estranhas obsessões (um dos fetiches de Mattoso é direcionado aos pés). Contos d’escárnio – textos grotescos e Cartas de um sedutor. Em tal cenário. O Rio Nu foi um deles. do próprio Rio Nu. “De fato. amor. Licença poética ou não: abra a perninha./ uma batalha de veias. contos. defendida por Blanchot. Olhe pra mim. no livro póstumo O amor natural (“Quero sempre invadir essa vereda estreita/ onde o gozo maior me propicia a amada”). formada por O caderno rosa de Lori Lamby. Quer mais? Minha Modigliani nua de bolso. quando misturo aos palavrões mais vulgares que caracterizam o discurso erótico. afirma. GOZO & TRALHAS Talvez. destacamse João Ubaldo Ribeiro. além da sólida e discutida obra de Rubem Fonseca. “Sabemos que só escrevemos quando o salto foi dado. a antologia Novos contos eróticos inclui 30 textos do recluso escritor curitibano. (…) Devagarinho.” De seu lado. mas. Mas é nas poesias.” Valendo-se de uma espécie de “performance do olhar” (o susto do leitor quando apreende. Johnny Martins. O ambiente típico da poesia tende a ser erudito. o paulista Reinaldo Moraes. fizeram parte da escrita lasciva da época. Para o doutor em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).indb 35 27/03/2015 09:04:26 . devido a seus recentes livros Pornopopeia e O cheirinho do amor: crônicas safadas. Do que você gosta. a escritora aponta para o estudo que empreendeu da tradição erótica 1 um breve tremor de artérias. determinado discurso). mãe santíssima dos Gracos?” – os leitores estão diante de exemplo do “impulso linguístico propulsor” abordado por Maurice Blanchot. as cidades do Rio de Janeiro e Salvador são referências iniciais que tenho direito.1 HILDA HILST Em suas obras de escárnio. a pornografia CONTINENTE ABRIL 2015 | 35 Revista_172. é besta. de forma inesperada. Nascido em 1951 e detentor de um imponente projeto poético. o resplendor social carioca fundamenta-se nas múltiplas influências francesas – arquitetura. Em entrevista à Continente. para me referir ao chulismo e àquilo que lambo fisicamente em termos de falta de higiene. além de outros textos eróticos como Bufólicas. como frequentemente utilizo em minha poesia (tipo ‘língua suja’. e apresentando o programa de ‘passear com seus sapatos trocistas por sobre as conveniências sociais’. fazer com que o erotismo e a pornografia dialogassem com seu projeto estético. na pesquisa Um gênero alegre – imprensa e pornografia no Rio de Janeiro (1898 – 1916). pois pesquisou. o autor se excita tanto quanto o leitor e ambos copulam mentalmente sem estarem juntos no mesmo espaço. de verdadeiro fetiche que transita entre o verbal e o oral. sim. moda. mas também por concentrar-se em um universo tão codificado como o dos sonetos. O Vampiro de Curitiba pratica a chamada “transformação assustadora” na esfera linguística. tudo tem um quê de belle epóque parisiense durante a Primeira República. Faça gostoso. mas é a própria coisa”. para a linguagem poética. Acho que a ‘narração do jogo’ é tão afrodisíaca quanto o jogo em si. Tudo a Na historiografia literária licenciosa brasileira. pela editora Record. escrever a partir do infinito./ quem diz outra coisa. como pés suados ou solas de botas empoeiradas). Sua trilogia obscena. Outras publicações como o Sans dessou e a coleção Contos rápidos. O lirismo é instalado na narrativa. Lançada em 2013. Agora mexa. Glauco avalia a relação escritor versus linguagem em sua obra erótica: “Para mim. dado que. Em O livro por vir. bem aberto. então. comportamento. a palavra obscena não só representa./ Uma confusão de bocas. Trevisan salta da sordidez. o ensaísta fala sobre o “salto” que é a literatura. No trecho de Amor.

na verdade. PRISCILLA CAMPOS CONTINENTE ABRIL 2015 | 36 Revista_172. Para o pernambucano. ele afirma concordar com a crítica feminista Elaine Showalter. assim como Sade usou o sexo para incutir nos leitores questionamentos filosóficos”. a mulher não escapa de ser representada sob um olhar machista” Johnny Martins por certo acordo ético e moral velado durante a primeira parte da publicação. mas. Alcir Pécora. o período de estio dura apenas três meses. as obras de autoria feminina. e isso bastou para chocar o pudor de muitos leitores e leitoras”.indb 36 27/03/2015 09:04:27 . segundo Johnny. sobre pedofilia. Após colocar uma criança narrando. em maior ou menor grau. Na obra obscena hilstiana. acompanhada por possibilidades de queimaduras definitivas e mergulhos no abismo. No erotismo de Hilda. A relação lasciva (e machista) com a garota Corina é marcada por penetrações em animais.CON CAPA TI NEN TE LEILA FUGII/ DIVULGAÇÃO busca o fetichismo envolvido na representação do sexo através da palavra. Hilda Hilst não pretendia escrever pornografia como a compreendemos atualmente. nas entrelinhas. a figura feminina pretende anular ideias estanques de gênero. é essencial associá-la ao humorismo de Luigi Pirandello. sobretudo no âmbito do Brasil. a chave de tudo poderia ser colocada no termo ‘sedução’. a mulher. contido 2 “Na indústria do livro. que ele ia dar um beijinho na minha coisinha” – Hilda arquiteta uma história marcada pela comicidade desesperada. crítico literário e professor do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). com displicência e excitação. A pornografia de Hilda Hilst é equivalente à de um Marquês de Sade. no erotismo hilstiano. quando ela ratifica que a literatura produzida por mulher é um discurso de duas vozes: uma dominante (machista) e outra silenciada (feminista). (…) Daí o homem disse pra eu ficar bem quietinha. abuso – “Eu deitei com minha boneca e o homem que não é tão moço pediu para eu tirar a calcinha. Tem início o relato das aventuras sexuais do jovem Edenir. em que os homens tornam-se quase irrelevantes. além de passagens nas quais a descoberta do sexo é muito mais entrega que conflito. O posicionamento da mulher na literatura de uma sociedade tão machista sempre vai ter influência. embaraços familiares e religiosos. mesmo que reafirmem arquétipos. No panorama da literatura erótica. “Mesmo quando a mulher é colocada no centro da indústria de livros eróticos. Aí ele pediu para eu abrir as perninhas e ficar deitada e eu fiquei. afirma que. “O dramaturgo italiano afirma uma quebra de representação do cômico que se sustenta no paradoxo em que os contrários coexistem e produzem um riso próximo da aporia. Hilda usou o sexo para chamar a atenção para sua crítica à mediocridade dos leitores e às relações ‘obscenas’ com que o mercado editorial oprime os escritores. ela não escapa de ser representada sob um olhar machista. a atmosfera solar permanece (sem data para mudanças naturais significativas). cuja obra tinha mais passagens filosóficas do que descrições de atos sexuais. da incapacidade de eliminação do equívoco. Eu tirei. Então ele começou a passar a mão na minha coxa que é muito fofinha e gorda. história que configura algo próximo ao segundo capítulo de Lori Lamby. possui um lugar ambivalente: ela é submissa e dependente de uma contemplação masculina. da ideologia patriarcal dominante”. geralmente. sobretudo enquanto escritora. Aqui. No ano trópico. Hilda destrói mais um padrão. sempre vão revelar. O riso. convencionado pelo calendário ocidental.” Uma amostra interessante da opinião explicitada por Pécora é Corina: a moça e o jumento. Muitas delas possuem a mesma liberdade sexual de que o homem goza em nossa sociedade. mas também é estrela em alguns contextos. para entender a questão do obsceno em Hilda. Aqui. conclui. e pediu que eu abrisse as minhas perninhas. a paulista não imprimiu um feminismo panfletário sobre suas personagens. “Em outras palavras. Entretanto. 2 GLAUCO MATTOSO Projeto poético do escritor traz erotismo ligado a obssessões Contudo. a figura feminina ocupa um lugar de subversão de estereótipos sobre a mulher. muitas vezes. observa. acaba saltando para fora do leitor. pontua. a opressão social de que as mulheres são vítimas. da perplexidade.

“A Lívia deu a ideia e eu topei. A lista do Flavorwire serviu para aguçar a nossa curiosidade e fazer a gente pensar além dos clichês esperados”. Anäis Nin foi o encontro literário cativante que estava faltando entre Cristiane Olímpio. desejo e literatura pareciam um bom ponto de partida para discussões relevantes. uma perspectiva feminina da sexualidade. e História de O. tive a sorte de conhecer aquela que. Lembro que o livro.indb 37 27/03/2015 09:04:27 . Chéri. projeto criado pela dupla paulista Isadora Sinay. de Marguerite Duras. de Colette. é trazer para o debate o olhar feminino sobre o desejo. Um vídeo novo por semana mobiliza o canal do projeto no YouTube. Isso me despertou o desejo de encontrar uma literatura direcionada ao erótico. jornalista. entre outras. de Pauline Réage. para mim. a partir de uma lista de obras eróticas divulgada num site norte-americano. explica Sinay. de Catherine M. misturado a tantos vlogs e blogs literários. Buscando obras que falassem sobre sexualidade de maneira mais sofisticada. é a maior e melhor referência no gênero. Na adolescência. Isadora acumulou na sua lista de leitura clássicos eróticos como Lolita. algo que eu não tinha encontrado em nenhum outro lugar. CONTINENTE ABRIL 2015 | 37 Revista_172. Além disso.DIVULGAÇÃO COMPORTAMENTO Gente que é louca por (discutir) sexo Clubes de leitura. e Lívia Furtado. de Sidney Sheldon. relata. estudante de Design. e dos diários de Anäis Nin que surgiu a vontade de discutir literatura erótica com mais afinco.” Assim é descrito o Clube do Livro Erótico. Ainda hoje penso que o que mais me interessa na literatura erótica e nas discussões do Clube. era um gênero meio esquecido. fala um pouco da descoberta da sexualidade. li Escrito nas estrelas. pela primeira vez. Assim como aconteceu com a crítica paulista. fãs clubes e fanfics são alguns dos sintomas do interesse de públicos heterogêneos pelo gênero literário “Livros.. Na lista de obras analisadas: O amante. “Aos 14 anos. O vlog (tipo de blog que utiliza o vídeo como plataforma) literário começou em outubro de 2014. a partir de sua protagonista. o que coincidia com questões que estavam passando pela minha cabeça na época. putaria. e o erotismo. percebemos que. Durante o mestrado em Ciências da 1 Religião descobriu a importância de Sade como filósofo e pensador. Mas foi após a leitura de A vida sexual. “Esses dois livros trouxeram. Mas também porque sexo. meio por impulso. crítica cinematográfica. que me parece sempre (ainda) tão raro”. chá e gatos.

porque o filme seria lançado. a trilogia de Cinquenta tons de cinza vendeu mais de 5. a lição moral de Perrault é que a mulher deve se manter em seu papel definido. ou. avalia a editora Danielle Machado. “Embora eu tenha começado por Sade. estão O outro lado da moeda. 2 ensaístico. sejam as bagatelas do ‘politicamente correto’”. onde prevalecem os desregramentos da imaginação. “A meu ver. O conservadorismo travestido de obscenidade selvagem converte-se num dos elementos mais irritantes em Cinquenta tons de cinza. Há uma ideia do CONTINENTE ABRIL 2015 | 38 Revista_172. afinal. Cinquenta tons de cinza trouxe um acréscimo positivo no comportamento social diante dos hábitos de leituras alheios. submissa ao marido e resguardada por ele do universo masculino. detalha. Já o jornalista Breno Pessoa. trouxeram a atenção para outros produtos na mesma linha. Como defende Danielle Machado. “Nós nem íamos falar dele. e o quarto de jogos de Grey (o dominador de Anastasia). em seu texto. de Oscar Wilde e um clássico moderno. mas vimos tantas questões surgindo. L. algumas pessoas parecem encarar com maior naturalidade alguém com um livro erótico por perto”. amor. Daniel Wanderson Ferreira. Submissão. “Não encaramos a série como um produto erótico – E. Sobre o comportamento da protagonista do romance. de Charles Perrault. obsessão. “Agora. tudo me parece crível e natural”. de fato eróticos”. BDSM (Bondage. claro. Anastasia (padronizado e normativo). a interdição ao quarto e a curiosidade da mulher conduzem ao suplício feminino. A conjectura parece certeira. Delta de Vênus e A fugitiva são os meus preferidos”. Em alguns momentos. observa. Acho que talvez essa tenha sido a contribuição da trilogia para o mercado erótico: romances palatáveis. às vezes. no que diz respeito ao aquecimento do mercado editorial erótico brasileiro. Eliane Robert Moraes. com isso. Disciplina. sensuais.” Derivada de uma fanfiction da série Crepúsculo. achava tudo muito visceral ou soando panfletário demais na questão da libertinagem. assíduo leitor de narrativas libidinosas. e seus congêneres. A professora de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia. literatura. responsável pela publicação dos livros por aqui. Não há um só ponto em comum. os livros possuem um enredo romântico. Porém. “No primeiro caso. de acordo com Lívia. Entre os títulos da série. segundo dados da editora Intrínseca. foi também “uma reação à diluição cheia de tons de cinza que essa literatura enfrentou recentemente”. comparado às melhores produções da ficção sexual. Gosto de Nin pois. os romances da autora inglesa. constrói uma análise comparativa entre o conto Barba Azul. James conta. estranha que o livro seja. que resolvemos aproveitar a oportunidade e fizemos um especial. que alcançaram milhões de leitores e. lembra a espontaneidade presente na obra da francesa. do psiquiatra americano Robert Stoller. não há nada mais equivocado que tal associação: entre o desejo de absoluto que preside a erótica de Sade ou de Sacher-Masoch e o desejo de inclusão que orienta o imaginário da tola trilogia. Dominação. sobre o tema. lançado em 2014. Sadismo e Masoquismo) e. o selo Sexo. sejam os signos mais óbvios do consumismo. Segundo Jorge Sallum. Perversão. mas antes preferem conformar suas fantasias ao que está na ordem do dia. não me senti tão fisgado. essencialmente. compara.CON CAPA TI NEN TE FOTOS: DIVULGAÇÃO Anäis Nin.indb 38 27/03/2015 09:04:28 . também voltado para a ostentação do consumo. 50 TONS DE CINZA O programa do Clube do Livro Erótico mais comentado até o dia da nossa entrevista foi o de Cinquenta tons de cinza. editor da Hedra – um dos catálogos que mais investem em livros libidinosos do Brasil –. Os comentários me ajudaram a indagar o livro de maneira mais crítica e aconteceram debates ricos sobre abuso. acho que muitas vezes o sexo soa pouco natural em seus escritos. o historiador e professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio).5 milhões de exemplares no Brasil. criam um mundo sexual autônomo. Para o jornalista Breno Pessoa. Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP). Bem adequados à sensibilidade contemporânea. uma história de amor.

produzida num esquema de dominação que é complexo e ambivalente. o que sobra é pouco: uma sexualidade conformada Diferente do pornôchic dos adeptos de E. eles enfim brindam o ‘sadomasoquismo’ com seus portavozes ideais. afinal Anastasia é convidada a entrar no quarto. porque. deleite ou terror”. inventivas. isso ocorre justo num momento em que a prática da transgressão vem sendo cada vez mais normalizada pelo mercado”. apuros e intensas tentativas de discutir o delírio do corpo na literatura. Afinal. que trazem consigo a linguagem da violência também. nem mesmo a ordem romântica do amor.Eliot sobre Ulisses. (P. no qual se utilizam as ferramentas da sexualidade promovidas até agora. James. pontua. serem felizes para sempre. L. mas renovadas a partir da perspectiva de fêmeas fortes. L. o que nos faz pensar se estamos em uma nova dimensão do corpo feminino. propositivas. que este ano pretende lançar. escrito 3 pela psicóloga e pesquisadora Fabiane M. mas sem assumir as rédeas de si mesma e do jogo erótico. agressivas. A ideia é incluir novos recursos sexuais performativos dentro da sexualidade cotidiana”. poderosas. está o movimento pós-pornô e seus derivados. Já em Cinquenta tons. a perspectiva aparentemente é outra. James. uma tradução do livro Pornoterrorismo. realizado pela espanhola Diana Torres.Página anterior 1 50 TONS DE CINZA Adaptado de livro de E. Sentinelas de um pressuposto narrativo sempre escorregadio e catastrófico à sua maneira. parafraseando declaração de T. um erotismo reduzido às demandas da utilidade.S. o pornoterrorismo propõe feminismo e guerrilha erótica às exigências da ordem social. libera-a para festejar com amigos. no filme. desde que não entre no quarto interdito. Não por acaso. Haveria mesmo nos Cinquenta tons uma ideia libertadora e emancipadora da mulher? – essa é a questão”. como chefe e como dirigente. afirma Borges. “Impossibilitados de recorrer ao absoluto de seus imaginários.indb 39 27/03/2015 09:04:28 . os leitores de escritos licenciosos estão sujeitos a “toda surpresa. “Não vejo. em Charles Perrault. Eis a promessa do casal Christian e Anastasia: perfeitamente adaptados ao jogo dos papéis sociais. A mulher fica em um papel submisso para ser protegida da violência masculina. desejo e literatura 3 ANAÏS NIN Autora francesa cativa o público com o célebre Delta de Vênus homem como livre. junto com Carola Gonzáles e Ana Girardello. “O movimento tem uma intenção real de inovação do imaginário pornográfico em geral. De acordo com Ferreira. Na direção oposta a qualquer algema ou chicote. os sádicos e masoquistas de plantão devem se dar as mãos para formar um par e. uma proposta para se ‘refazer’ a sociedade e as hierarquias de gênero. tal como ela passa a ser vista desde o século 18. estão expostos os conceitos feministas e de guerrilha erótica que catalisam a vertente. reflete. Numa espécie de manifesto.) CONTINENTE ABRIL 2015 | 39 Revista_172. de quebra.” Para Eliane. filme mobiliza fãs no cinema Nestas páginas 2 CLUBE DO LIVRO ERÓTICO Vlog criado por Lívia Furtado e Isadora Sinay discute sexo. Joyce ficaria mesmo feliz de ter sua obra associada a enigmas. James entra no quarto por convite e por vontade. Borges. está claro que o Barba Azul quer sua mulher feliz. L.C. como o pornoterrismo. a personagem de E. É uma visão tradicional.