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MARIA DE LOURDES LABUTO

PREVENÇÃO E EDUCAÇÃO EM DIABETES MELLITUS TIPO 2:

A VISÃO DE LÍDERES DE GRUPOS DE 3ª IDADE

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E ECONÔMICAS DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GERONTOLOGIA SOCIAL

2000

Maria de Lourdes Labuto

Curso de Pós-Graduação em Gerontologia Social

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MARIA DE LOURDES LABUTO

PREVENÇÃO E EDUCAÇÃO EM DIABETES MELLITUS TIPO 2:

A VISÃO DE LÍDERES DE GRUPOS DE 3ª IDADE

Monografia elaborada para atender exigência acadêmica para conclusão do Curso de Pós-Graduação – Lato Sensu – em Gerontologia Social do Departamento de Serviço Social do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da Universidade Federal do Espírito Santo, realizado sob a orientação da Professora Maria Lúcia Teixeira Garcia.

VITÓRIA ESPÍRITO SANTO

2000

Maria de Lourdes Labuto

Curso de Pós-Graduação em Gerontologia Social

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BANCA EXAMINADORA

Professora Maria Lúcia Teixeira Garcia Graduada em Serviço Social - UFES Mestre em Psicologia Social - UFES Doutoranda em Psicologia Social - USP (Orientadora)

Maria da Penha Almeida Fehlberg Graduada em Serviço Social – UFES Pós-graduada em Políticas Sociais e Gerontologia Social – UFES Pós-graduada em Educação e Saúde Pública UNAERP Mestranda em Educação e Saúde pela CENAPEN - CUBA

Sheilla Diniz Silveira Bicudo Graduada em Enfermagem/Educadora em Diabetes Mestre em Psicologia Social – UFES Doutoranda em Enfermagem – EEAN/UFRJ

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AGRADECIMENTOS GERAIS

À minha professora orientadora MARIA LÚCIA TEIXEIRA GARCIA, pela sua inesgotável paciência e incansável dedicação à realização da minha pesquisa

À SEMUS DA PREFEITURA MUNICIPAL DE VITÓRIA e ao DEPARTAMENTO DE AÇÃO SOCIAL, em especial, pela colaboração na realização desse trabalho

À SHEILLA DINIZ SILVEIRA BICUDO, pelo fornecimento de material teórico para a realização de minha pesquisa

À LUIS AUGUSTO LABUTO, pela sua prestimosa colaboração fazendo a correção ortográfica e realização do ABSTRACT da minha pesquisa

Aos LÍDERES DOS GRUPOS DE 3ª IDADE, por mim entrevistados, que se dispuseram a responder às perguntas formuladas, dando contextualização a essa pesquisa

À TODOS que de forma direta ou indiretamente, contribuíram para a elaboração deste trabalho

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AGRADECIMENTOS PESSOAIS

Agradeço primeiramente a DEUS, fonte de inspiração e sabedoria, que me deu força e proteção para enfrentar e vencer os obstáculos surgidos no decorrer deste trabalho.

Agradeço aos meus pais (in memorium) que me ensinaram a ter amor pelos estudos;

Agradeço às minhas três filhas, Miriã de Lourdes, Geórgia Christina e Elizabeth Rachel por me acompanharem durante este estudo com estímulo, paciência e carinho;

Agradeço ao meu amor, pela compreensão nos momentos de minha ausência;

Agradeço também ao meu genro Vinícius Rossoni Ribeiro pela atenção e paciência quando minha filha Miriã me orientava nos trabalhos de impressão da minha pesquisa;e aos meus grandes amigos Leonardo Mota Scardua, pela gentileza com que me atendia, dando-me a imprescindível assessoria técnica ao meu computador para que a impressão desse trabalho saísse a mais perfeita possível, e, Ricardo Spelta Rocha, pela sua atenção e colaboração no atendimento da confecção do meu material de estudo;

Agradeço aos meus irmãos e amigos, pelo incentivo que me deram nessa jornada.

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“Você receberá de retorno, tudo o que der aos outros, segundo a lei que nos rege os destinos”. (André Luiz, Psicografado por Chico Xavier, do livro Sinal Verde, editado pela CEC).

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RESUMO: Prevenção e Educação em Diabetes Mellitus Tipo 2: a visão de líderes de Grupos de 3ª Idade.

Analisou-se a visão de 14 líderes de Grupos de 3ª Idade de Vitória (ES) em relação à instituição de Programas de Prevenção e Educação em Diabetes Mellitus Tipo 2, objetivando uma melhor qualidade de vida para o idoso. A amostra foi composta por 11 grupos do Projeto Conviver (SEMAS/PMV), selecionados por sorteio, acrescido de 02 grupos, também do referido projeto, cujos líderes eram homens e mais 01 grupo de uma Unidade de Saúde (US). A coleta dos dados foi através de questionário semi-estruturado, visando identificar o líder, o funcionamento do grupo e a visão do líder em relação à problemática pesquisada. As respostas deram suporte para

a Análise de Conteúdo. Constatou-se maciça presença feminina nos grupos e comparou-se com

a taxa vital, tendo como referencial o sexo dos indivíduos. A idade dos líderes equiparou-se

com a idade dos membros dos grupos. Tendo por base a idade mínima nos grupos e a idade onde surge com maior freqüência os sintomas da doença, considerou-se 50 anos como o limite inicial da 3ª Idade.O grau de instrução é mediano. Na concepção dos líderes, a busca e a permanência das pessoas nos grupos é definida pelo desejo de se envolver em atividades. A saúde ocupa o 3º lugar dentre as atividades mais solicitadas. No entanto, apenas 50% dos grupos solicitam avaliação médica de seus membros, apesar de situarem-se próximos a Unidades de Saúde (US). No grupo da US, todos têm carteira de saúde. Classificou-se como regular o conhecimento dos líderes em relação à doença Diabetes Mellitus Tipo 2. Há casos da doença em todos os grupos. Em 587 pessoas, apenas 40 possuem conhecimento de que tem Diabetes. Dentre os familiares, também, há casos, inclusive 01 óbito. Todavia, apenas em 02 grupos foi realizado trabalho de prevenção do diabetes: em um grupo, do Projeto Conviver, o trabalho resumiu-se a palestras; em outro, o grupo da Unidade de Saúde, além de palestras, houve exame de glicemia e encaminhamento para tratamento médico. Com relação a Projetos de Prevenção e Educação em Diabetes Mellitus Tipo 2 nos Grupos de 3ª Idade, na visão dos líderes, é unânime a opinião de que eles são muito importantes para a qualidade de vida do idoso e de que são uma melhor dinâmica em Políticas de Saúde.

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ABSTRACT: Prevention and Education in Mellitus Diabetics Type 2: before the vision of leaders of 3rd Age Groups

There was an analyses of the vision from 13 leaders of Groups of 3 rd Age in Vitoria (ES) in relation to organizing programs of Prevention and Education in Mellitus Diabetics Type 2, aiwing a better quality of life to the aged. The sample was composed by 11 groups in the “Conviver Project” (SEMAS/PMV – Institution belowuing to the city Hall of Vitória), selected by chance, added by 2 groups, belowging to that project where the leaders were wen and one group belowging to the Healt care Unit (US). The collection of the data was through a partially structured guiz, aiming the indentification of the leader, the group functioning and the vision of the leader referring to the research. The replies were support to the Contents Analyses. There was a notable feminine presense in the groups and this was compared to the life tax, in reference to the age of the members of the group. Having as basis the minimum age in the groups and the age shen appears the illness symptome more frequently, it was concluded as being 50 years old as the inicial limit of the illness. The educational level is secondary. In the leaders point of view the presence of the people in the groups is defined as the wish of involving themselves in activities. The health is on 3 rd position among the activities most required. Only 50% of the groups ask for medical orientation of the members of the groups, even though they are hear Units of Health Care. In the group belowging to the Unit of Health Care, each one has a Health care card. It was classified as regular the knowledge of the leaders in reference to Mellitus Diabetics Type 2. There are cases of sickness in every group. In 587 persons, ony 40 have known that they have Diabetcs. Among the families, there are also cases, including one death. On the other hand, only in 2 groups it was made a prevention work on diabetics: in one group, of “Conviver Project”, the work was reduced only to speeckes; in another group of the Health Unit, besides speeckes, there were glicemic exam and direction to medical care. In relation to Prevention Projects and Education in Mellitus Diabetics Type 2 in the groups of the 3 rd Age, in the vision of the leaders it an agreement that those are very important for the quality of life of the aged and that they are the best dynamics in Health Care Politcs.

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PRIMEIRA CORÍNTIOS 13, HOJE:

Se eu aprender inglês, francês, espanhol, alemão e chinês e dezenas de outros idiomas, mas não souber me comunicar como pessoa, de nada valem todas as minhas palavras.

Se eu concluir um curso superior, andar de anel no dedo

e freqüentar cursos e mais cursos de atualização, mas viver distante dos problemas do povo, minha cultura não passa de uma inútil erudição. Se eu morar numa cidade do interior

mas desconhecer os sofrimentos da minha região,

e fugir para as férias na América ou até na Europa

e nada fizer pela promoção do homem, não sou cristão. Se eu possuir a melhor casa de minha rua, a roupa mais avançada do momento e o sapato da onda, e não me lembrar que sou responsável por aqueles que moram na minha cidade, andam de pé no chão e se cobrem de sujos e de mulambo, sou apenas um manequim colorido. Se eu passar os fins de semana em festas,

boates, farras e programas, sem escutar o grito abafado do povo que se arrasta à margem da história, não sirvo para nada.

O cristão não foge dos desafios de sua época.

Não fica de braços cruzados, de boca fechada, de cabeça vazia. Não tolera a injustiça nem as desigualdades gritantes do nosso mundo. Luta pela verdade e pela justiça com as armas do amor.

O cristão não desanima, nem desespera diante

das derrotas e das dificuldades, porque sabe que a única coisa que vai sobrar de tudo isso é o AMOR. (autor desconhecido)

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SUMÁRIO

 

Pág.

Apresentação

010

Considerações Iniciais

013

Capítulo I : O idoso no contexto da pesquisa

016

1.1: O idoso na sociedade

018

1.2: O idoso e os Grupos de 3ª Idade

021

1.3:

Direitos Civis dos Idosos

035

1.4: Qualidade de Vida na 3ª Idade

036

Capítulo II : Diabetes Mellitus Tipo 2: a amarga certeza de uma doença

 

crônica

049

Capítulo III: Em busca de resposta – O Diabetes Mellitus Tipo 2 como

questão para os Grupos de 3ª Idade

071

3.1 Procedimentos Metodológicos

072

3.2 O Contexto da Pesquisa

079

3.2.1 O Projeto Conviver

080

3.3

Resultados

084

Considerações Finais

140

Referências Bibliográficas

150

Referencias Bibliográficas Via Internet

157

Anexos: Questionário aplicado aos líderes

161

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APRESENTAÇÃO

“De um Pedaço de Céu, eu fiz um lago. De um pedaço de Lua, eu prateei o mar,

De um pedaço de estrela, eu salpiquei a vida ”

De fagulhas luminosas, tornando-a iluminada (Milton Tironi)

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APRESENTAÇÃO

A

realização

desse

trabalho

deveu-se

aspirações acadêmica e profissional.

a

interesses

vinculados

a

Em experiência adquirida no cumprimento do estágio curricular do

curso de graduação em Serviço Social da UFES (Universidade Federal do Espírito

Santo) na APACEFES (Associação de Pais e Amigos de Pessoas Portadoras de

Deficiência da Caixa Econômica Federal do Espírito Santo), constatou-se um

universo marcado pelo impacto do Diabetes Mellitus, doença causadora de grande

número de deficiências visuais e físicas. Visando divulgar informação a respeito do

Diabetes, promoveu-se uma campanha de prevenção da doença junto aos

funcionários da CEF/ES, com o apoio da ACAD (Associação Capixaba de

Diabéticos).

Durante o desenvolvimento do TCC (Trabalho de Conclusão do Curso),

acumulou-se conhecimentos a respeito da doença com uma reflexão intitulada 3ª

Idade e Diabetes Mellitus Tipo 2: Estratégias de Enfrentamento. Em tal pesquisa

analisou-se

as

estratégias

utilizadas

por

sujeitos

de

terceira

idade

para

enfrentarem a doença Diabetes Mellitus Tipo 2. A instituição pesquisada foi a

ACAD, e buscou-se identificar essas estratégias através de vários itens e sub-

itens: Formas de aceitação e não-aceitação da doença: enfrentamento (ou fuga?)

do sujeito frente à doença, preocupações próprias do sujeito em relação à doença;

Estratégias de apoio no cotidiano do sujeito: apoio dos familiares, apoio da

religião, a importância do lazer na vida do sujeito; Barreiras sócio-econômicas que

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dificultam o controle da doença Diabetes Mellitus Tipo 2: acesso ao tratamento

médico, aquisição de medicamentos, fator idade, manutenção da dieta.

Em trabalhos voluntários realizados junto a ACAD, foi observado o

cotidiano dos indivíduos diabéticos, analisando-se o quanto às campanhas de

prevenção e educação poderiam servir de apoio a essas pessoas, minorando, em

muito, as conseqüências provocadas pela doença.

No curso de Pós-Graduação em Gerontologia Social da UFES, foi

obtido um maior referencial teórico para aprofundar a questão da prevenção e

educação

em

Diabetes

Mellitus

Tipo

2

em

indivíduos

de

terceira

idade,

visualizando uma melhor qualidade de vida para o idoso.

Dessa forma surgiu a proposta desse trabalho, intitulado Prevenção e

Educação em Diabetes Mellitus Tipo 2: a visão de líderes de Grupos de 3ª

Idade. Esta monografia tem por objetivo constatar a existência ou não de

programas de prevenção da doença em Grupos de 3ª Idade do Município de

Vitória (ES), e a visão dos líderes sobre a necessidade de implantação de projetos

de prevenção e educação para a doença Diabetes Mellitus Tipo 2 para que os

idosos em geral tenham uma melhor qualidade de vida. A pesquisa foi dividida em

três capítulos. No Capítulo I, buscou-se contextualizar o idoso e a saúde como

condição primordial para a qualidade de vida do indivíduo na terceira idade. No

Capítulo II, analisou-se a doença Diabetes Mellitus Tipo 2, enquanto doença

crônica, capaz de proporcionar conseqüências irreversíveis na vida do diabético,

ainda mais quando esse indivíduo é um idoso. E, no Capítulo III, além dos

Procedimentos Metodológicos utilizados neste trabalho, tratou-se da análise dos

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dados

e

os

resultados

obtidos.

Por

fim,

traçou-se

algumas

considerações

visualizando o exercício de melhores Políticas Sociais na área da Saúde de modo

a oferecer ao indivíduo, uma maior capacidade de enfrentamento da doença,

baseado em reforço bio-psico-social e econômico e obtido através de campanhas

de prevenção e de educação em Diabetes Mellitus Tipo 2, objetivando melhor

qualidade de vida para o idoso.

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CONSIDERAÇÕES INICIAIS

“Se você for esperto e conseguir se manter em boas condições físicas, também terá conservado sua argúcia, embora possa demorar mais tempo para provar o fato aos sessenta e cinco anos do que aos vinte e cinco, e os tipos em que as letras forem impressas talvez precisem ser maiores”.

Ward Edwards)

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CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Esta pesquisa tem como objetivo principal à identificação da visão de

líderes de Grupos de 3ª Idade em relação a Programas de Prevenção e Educação

para o Diabetes Mellitus Tipo 2.

O

aumento

da

estatisticamente.

Segundo

população

idosa

no

Brasil

a

Organização

Mundial

da

é

fato

Saúde,

demonstrado

em

2025

a

população idosa do país será de aproximadamente 32 milhões de pessoas com

mais

de

60

anos.

De

acordo

com

o

Ministério

da

Saúde,

o

crescimento

populacional do país é o mais acelerado do mundo, só comparável com o do

México e o da Nigéria.(Brasil, 2000) (1)

Sabe-se, também, que é na faixa etária a partir dos 40 anos onde se

verifica a predominância do diagnóstico do Diabetes Mellitus Tipo 2. É uma

doença crônica, de origem genética e, se não for tratada adequadamente, torna-se

causadora de conseqüências gravíssimas, capazes de levar ao óbito ou provocar

deficiências físicas, tais como a cegueira e a amputação de membro inferior.

(Brasil, 1996).

Por outro lado, entende-se que a prevenção de doenças através da

educação em saúde tem um caráter de intervenção ex-ante, capaz de promover a

conscientização dos indivíduos, prevenindo doenças ou complicações clínicas

decorrentes de uma má administração terapêutica.

De acordo com o Grupo Científico sobre Pesquisa em Educação em

Saúde da OMS, só através de uma educação em saúde que os indivíduos se

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conscientizariam da responsabilidade de manterem a sua própria saúde e a da

comunidade a qual pertençam. (Brasil, 2000).

De fato, saúde é um direito e uma responsabilidade de todos.

Uma Política de Saúde visando atuar num projeto dessa estirpe seria

de grande importância para o diabético. É imprescindível conscientizar o indivíduo

da necessidade de seguir a dieta e de praticar exercícios físicos adequados, para

que tenha uma vida normal como a de qualquer outra pessoa.

Por outro lado, uma comunidade consciente, promove atitudes político-

sociais capazes de desmistificar ações de valorização de hábitos inadequados

para uma boa qualidade de vida.

Ao analisar-se as atividades realizadas em grupos de terceira idade,

poder-se-ia identificar a existência de trabalhos similares.

Tais reflexões pautavam-se na premissa da importância de inclusão

desse tipo de abordagem nos Grupos de 3ª Idade.

Buscou-se,

obter,

através

dos

líderes,

enquanto

informantes

privilegiados e, portanto, aptos a transportaram para as suas respostas os fatos

vivenciados no cotidiano dos grupos, dados que refletiriam, em sua totalidade, o

problema e a problemática pesquisada.

Selecionou-se 14 grupos de 3ª Idade, sendo que 13 deles são ligados

ao Projeto Conviver da SEMAS (Secretaria Municipal de Ação Social) da PMV

(Prefeitura Municipal de Vitória) e um outro, não ligado a esse projeto e que

funciona numa Unidade de Saúde. O princípio importante que se quis atingir é o

de uma amostra representativa de líderes que atuassem em grupos de Vitória.

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Através dos procedimentos utilizados, buscava-se verificar o pensamento do idoso

em relação à instituição de um projeto de prevenção da doença Diabetes Mellitus

Tipo 2, para a promoção do bem-estar bio-psico-social e econômico do seu devir.

Isso porque, para que um cidadão, tenha garantido o seu direito de ter

uma velhice, se não ótima, ao menos normal, faz-se necessário à implantação de

programas de prevenção e educação de doenças.

Mellitus,

A presença

implica

na

de

doenças

dependência

crônico-degenerativas,

como

constante

de

medicamentos

o

Diabetes

caríssimos,

internações hospitalares e de acompanhamento médico, na maioria das vezes,

constante.

E, por outro lado, para que seja verdadeira uma boa qualidade de vida

no envelhecimento, há de ter que existir a promoção de campanhas direcionadas

para a saúde do idoso.

Iniciou-se, então, este estudo, tomando-se por base a análise dos

dados obtidos através da visão dos líderes e das ações promovidas nas reuniões

dos grupos sobre a dicotomia saúde x doença. Dessa forma, tentar-se-ia obter

respostas que abalizassem a temática que se propôs pesquisar.

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CAPÍTULO I

O IDOSO NO CONTEXTO DA PESQUISA

“Pois assim como me agrada o jovem em que reside um algo de velhice, da mesma forma me apraz o velho em que se verifica um quê de juventude; todo aquele que seguir essa máxima será idoso apenas em corpo, jamais em espírito”.

(Cícero)

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CAPÍTULO I

O IDOSO NO CONTEXTO DA PESQUISA

Segundo Debert (1998), foi a sociedade que construiu o conceito de

velhice. Esse conceito

tem

sua

variabilidade de acordo com os

diferentes

contextos histórico-culturais de cada comunidade.

Cada sociedade, de acordo

com a sua própria cultura tende a ordenar em ‘grades de idade’ os diversos

períodos etários da vida dos indivíduos. Para Debert (1998), a velhice não é uma

categoria determinada naturalmente na existência das pessoas. (In Folha de São

Paulo, Caderno Especial, Folha Trainee, 1998).

Na atualidade, o nome ‘velhice’ vem sendo postergado. Designações

diferentes estão sendo dadas à etapa de vida dos indivíduos que ultrapassaram

um determinado (e ambíguo) limite de idade. Dentre essas designações a mais

comumente utilizada é a de ‘terceira idade’.

“Da mesma forma como a velhice, outras etapas da vida como infância,

adolescência e juventude são produtos sociais”. (A Folha de São Paulo, 1998).

De acordo com estudiosos do assunto, a expressão ‘terceira idade’

originou-se na década de 70, com a implantação, na França, das ‘Universités de

Troisième Age’, ou seja, ‘Universidades da Terceira Idade’. Essa expressão não

era usada como uma forma de tratamento depreciativo direcionado aos indivíduos

mais velhos, mas, sim como uma designação dada às pessoas com um maior

número de anos vividos e sem uma idade cronológica previamente estipulada. (A

Folha de São Paulo, 1998).

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Nessa

pesquisa,

tentou-se

visualizar

parte

da

vivência

e

da

problemática

provocada pela doença crônica Diabetes Mellitus Tipo 2 em função da qualidade

de vida de indivíduos com idade variável a partir dos 50 anos e que, de acordo

com os grupos de pertencimento, são considerados pessoas de ‘terceira idade’.

1.1 O IDOSO NA SOCIEDADE

“A inteligência, a reflexão e a sensatez constituem qualidades intrínsecas à velhice; se não houvesse idosos no mundo, a política seria uma atividade inexistente”. (Cícero)

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1.1 O IDOSO NA SOCIEDADE

O indivíduo idoso é o mesmo indivíduo

que

um dia foi criança,

adolescente, adulto e agora é idoso. Desde o nascimento, os seres humanos são

seres em permanente busca do “vir-a-ser”. Ao atingir o status de idoso, o indivíduo

não é uma pessoa findada, acabada e imutável. Persiste a continuidade do ser em

mutação da sua própria identidade. (Ciampa, 1987).

O indivíduo, enquanto idoso, é uma pessoa que continua a ser, a

permanecer e a existir com vistas permanentes para um futuro, muitas vezes

repleto de mutações. Outras tantas vezes, ocorrem, apenas, algumas mutações.

Mas as mutações existem, muitas ou poucas, e persistem a cada

minuto da vida de qualquer indivíduo, seja ele criança, adolescente, adulto ou

idoso. E é isso que o iguala a todo e qualquer ser humano, em qualquer faixa

etária. O indivíduo idoso é o mesmo ser, que um dia foi criança, adolescente e

adulto jovem e que realiza o seu processo constante de transformação.

E, como tudo que está em mutação permanente, o indivíduo idoso não

pode estar condicionado a algo projetado em finitude e sim, a alguém em

processo de continuidade da própria vida.

Isto posto, descaracteriza-se a ideologia do idoso como elemento

símbolo do fim, da finitude de vida e percebe-se a veracidade de que, ao atingir a

condição de idoso, o indivíduo acrescentou e permanece acrescentando, um

constante movimento em seu próprio crescimento. As modificações da sua

identidade, enquanto concebida como algo em permanente e constante modus do

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devir de cada um para si e para o outro, traz, em si mesmas, vários papéis (de

filho, de pai ou de mãe, de irmão, de amigo, etc), várias perdas em seu círculo

social e o acréscimo de novos membros.

ideologia

De fato,

definir o idoso como exemplo de finitude de vida é uma

que

deve

ser

desmistificada.

E,

grande

parcela

disso,

cabe

a

Gerontologia Social, na busca constante de aplicação metodológica adequada, no

repasse dos conhecimentos, buscando um amplo entrosamento do indivíduo idoso

com a sociedade em que vive.

“Cabe à sociedade a responsabilidade de redefinir, sócio e culturalmente, o significado da velhice, possibilitando a restauração da

) e cabe

a cada idoso o compromisso de lutar, pois se a sociedade inventou a velhice, devem os idosos reinventar a sociedade”.(Salgado, 1992, p.157-164).

dignidade para esse grupo etário (

Se o idoso possui a capacidade de reinventar uma sociedade fundada

na ideologia de que idoso é símbolo de finitude, é porque ele é alguém capaz de

continuar crescendo através das mutações de sua identidade.

Ao analisar os mitos e preconceitos que a sociedade tem em relação ao

velho, observa-se que todos os seres humanos possuem os mesmos defeitos e

qualidades em qualquer uma das fases de sua vida. (informação verbal).

Pode-se citar como exemplo, o conceito (ou preconceito?) de que velho

é rabugento, teimoso, ranzinza. Por outro lado, existem adolescentes rabugentos,

teimosos e ranzinzas. O mesmo ocorre com a criança. Quem não presenciou o

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quanto uma criança é rabugenta, teimosa e ranzinza? E o que dizer dos adultos?

É o stress do corre-corre do dia de trabalho que o torna rabugento, ranzinza e

teimoso ao chegar em casa e descarregar toda a tensão sobre os seus familiares?

Todos têm, no cotidiano de suas vidas, seja qual for à faixa etária, “rabugices”,

teimosias e "ranzizisses" similares às do idoso.(informação verbal).

Todavia, o mais importante para o ser humano é crescer ao longo do seu curso de

vida sem esquecer de sonhar e de buscar concretizar, pelo menos, alguns dos

seus muitos sonhos.

1.2 O IDOSO E OS GRUPOS DE 3ª IDADE

Senhor,Senhor,Senhor,Senhor,

outrooutrooutrooutro diadiadiadia fizfizfizfiz umaumaumauma colchacolchacolchacolcha dededede retalhos.retalhos.retalhos.retalhos.

TodosTodosTodosTodos osososos restinhosrestinhosrestinhosrestinhos dededede panopanopanopano quequequeque guardeiguardeiguardeiguardei iamiamiamiam memememe servir.servir.servir.servir.

acontecimentos

AoAoAoAo pegarpegarpegarpegar cadacadacadacada pedaço,pedaço,pedaço,pedaço, recordavarecordava-recordavarecordava--me-mememe dasdasdasdas pessoas,pessoas,pessoas,pessoas, dosdosdosdos acontecimentos

acontecimentos

acontecimentos

ComoComoComoComo sesesese cadacadacadacada umumumum tivessetivessetivessetivesse suasuasuasua históriahistóriahistóriahistória paraparaparapara contar.contar.contar.contar.

FuiFuiFuiFui costurar.costurar.costurar.costurar.

CoresCoresCoresCores quequequeque àààà primeiraprimeiraprimeiraprimeira vistavistavistavista nãonãonãonão combinavam.combinavam.combinavam.combinavam.

PadrõesPadrõesPadrõesPadrões eeee desenhosdesenhosdesenhosdesenhos totalmentetotalmentetotalmentetotalmente diferentes.diferentes.diferentes.diferentes.

TudoTudoTudoTudo sesesese juntou.juntou.juntou.juntou.

AAAA colchacolchacolchacolcha ficouficouficouficou pronta.pronta.pronta.pronta.

EEEE comocomocomocomo ficouficouficouficou bonita!bonita!bonita!bonita!

EEEE ficoficoficofico pensando:pensando:pensando:pensando: VósVósVósVós criastescriastescriastescriastes todostodostodostodos osososos seresseresseresseres diferentediferentediferentediferentes.s.s.s.

NinguémNinguémNinguémNinguém éééé igualigualigualigual aoaoaoao outro.outro.outro.outro.

NadaNadaNadaNada dededede repetição,repetição,repetição,repetição, dededede monotoniamonotoniamonotoniamonotonia

EEEE nãonãonãonão sãosãosãosão diferentesdiferentesdiferentesdiferentes sósósósó fisicamente.fisicamente.fisicamente.fisicamente.

TodosTodosTodosTodos pensampensampensampensam diferentes,diferentes,diferentes,diferentes, sentemsentemsentemsentem diferentes,diferentes,diferentes,diferentes, agemagemagemagem didididiferentes.ferentes.ferentes.ferentes.

UmUmUmUm completacompletacompletacompleta oooo outro,outro,outro,outro, umumumum apóiaapóiaapóiaapóia oooo outro.outro.outro.outro.

QueQueQueQue maravilhamaravilhamaravilhamaravilha éééé umaumaumauma “colcha”“colcha”“colcha”“colcha” dededede tantostantostantostantos seresseresseresseres diferentdiferentdiferentdiferentes,es,es,es, formandoformandoformandoformando aaaa HumanidadHumanidade.HumanidadHumanidade.e.e.

PorPorPorPor quequequeque queroqueroqueroquero quequequeque todostodostodostodos sejamsejamsejamsejam iguais,iguais,iguais,iguais, pensempensempensempensem iguais,iguais,iguais,iguais, sintamsintamsintamsintam iguais?iguais?iguais?iguais?

EuEuEuEu sousousousou umumumum pedacinhopedacinhopedacinhopedacinho nononono grandegrandegrandegrande conjunto.conjunto.conjunto.conjunto.

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CadaCadaCadaCada umumumum dodododo seuseuseuseu modo,modo,modo,modo, formaformaformaforma aaaa grandegrandegrandegrande colcha:colcha:colcha:colcha:

aaaa colchacolchacolchacolcha dadadada unidadeunidadeunidadeunidade nananana pluriformidade.pluriformidade.pluriformidade.pluriformidade.

Obrigado,Obrigado,Obrigado,Obrigado, Senhor!Senhor!Senhor!Senhor!

(autor(autor(autor(autor ignorado)ignorado)ignorado)ignorado)

Maria de Lourdes Labuto

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21

1.2 O IDOSO E OS GRUPOS DE 3ª IDADE

O idoso ao buscar o convívio de seus pares nos Grupos de 3ª Idade

pode estar buscando alianças para vencer a realidade do seu cotidiano e adquirir

elementos que proporcionem a materialização dos seus sonhos.

Em qualquer grupo há sempre uma expectativa no ‘outro’.

Busca-se no ‘outro’ o fortalecimento que muitas vezes não se possui.

Pode estar aí, uma das razões da necessidade de se viver em grupos numa

sociedade.

O idoso já participou de uma variedade de grupos bastante extensa ao

longo do seu curso de vida. A aposentadoria ou, então, o ‘ninho vazio’, quer seja

pela ausência dos filhos ou pela perda do cônjuge, projeta carência de afeto e de

companhia.

A vivência em grupo pode minorar situações similares. Isso faz com que

os idosos procurem nos Grupos de 3ª Idade, elementos de fortalecimento para o

seu ‘devir’.

“A reflexão sobre a própria existência está vinculada à existência do outro, uma vez que, eu só sou na relação com o outro no mundo. O viver em grupos permite o confronto entre as pessoas e cada um vai construindo o seu ‘eu’ neste processo de interação, através da constatação de diferenças e semelhanças entre nós e os outros”.(Lane, 1981, apud Oliveira, 1995).

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22

O idoso, ao conviver em grupo, pode adquirir através do contato com o

‘outro’ reforços psico-sociais para aumentar a sua resiliência.

O conceito de “resiliência” tem, nessa pesquisa, por base principal, as

definições de Garmezi (1991) e de Rutter (1987), que definiram o termo com

sendo

a

capacidade

de

recuperação

e

manutenção

do

comportamento

adaptativo, quando ameaçado por um evento estressante” em referencial “ao pólo

positivo das diferenças individuais entre as pessoas, quanto à sua capacidade de

responder ao estresse e à adversidade”, respectivamente. (apud

p.198).

Néri, 1995,

Ou, ainda, de acordo com Néri (1995), “as definições de resiliência

existentes na literatura dizem respeito a dois tipos de respostas adaptativas: a)

manutenção do desenvolvimento normal, apesar da presença de ameaças ou

riscos (internos e externos), e b) recuperação após um trauma”. (p.198)

Através das estratégias de resiliência e de coping, o indivíduo adquire

fortalecimento para o seu self, proporcionando-lhe meios para superar seus

problemas, e para capacitá-lo para interagir no grupo social em que vive,

ressurgindo muito mais forte do que antes. È através do coping, esse mecanismo

auto-regulador da personalidade e das emoções, que o indivíduo enfrenta os

elementos estressores ocorridos no seu cotidiano, moldando reações adequadas

à manutenção do equilíbrio de seu self. Ter resiliência é muito importante para o

idoso. É um reforço psicológico, adquirido ao longo do curso de vida do indivíduo e

obtido, na maioria das vezes, através do enfrentamento de situações altamente

estressoras. É uma estratégia psicológica, adquirida no devir de cada um e

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23

proporcionadora da capacidade de resistência às agruras do cotidiano. Através

dela

a

pessoa

adquiri

forças

eliminadoras

de

stress,

capacitando-se

para

recuperar-se de eventuais traumas, reagindo e assumindo a vida que continua.

Quando o indivíduo possui resiliência, ele não se deixa abater pela depressão. Ele

não assimila os elementos causadores de stress, ele supera-os.(Néri, 1995,

p.198).

Por outro lado, o grupo inspira algo em movimento constante. Isso pode

repassar a sensação de não finitude, de permanente, de vida. E isso é algo

bastante desejado pelo idoso.

Segundo Lane (1984), um grupo não é algo estático, parado. É algo em

movimento, onde os seus membros sofrem constantes mutações e são capazes

de interagir entre si, criando novos valores diferenciados, para si próprios e para

os outros. (apud Oliveira, 1995).

Para Lane (1984), isso ocorre porque “o próprio grupo só poderá ser

reconhecido enquanto um processo histórico”, deixando de ser grupo para se

tornar um processo grupal. (apud Oliveira, 1995) .

A inserção do indivíduo no grupo de 3ª Idade é algo significante e de

significado, capaz de dar sentido vital à sua condição de idoso numa sociedade

discriminadora. É aí que observamos o que alguns estudiosos do assunto

perceberam ao analisar as transformações ocorridas no modus vivendi do idoso

inserido num grupo de convivência.

Essas

transformações

são

capazes

de

influir

no

seu

cotidiano,

alterando a sua maneira de encarar o mundo e a sociedade na qual vive. Até a

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24

sua atitude para consigo mesmo e para com os outros, modificando sentimentos,

ações e reações. Através da convivência com o outro, novos horizontes são

visualizados. Novos costumes são adquiridos e outros tantos são relegados ao

esquecimento.

Novos desejos e “novos interesses individuais e também coletivos vão

sendo criados e se misturam, às vezes se confundem de modo tal, que os sujeitos

dessa interação nem sempre se dão conta (tem consciência) do fenômeno”.

(Lapassade, 1989, apud Oliveira, A., p.11-33, 1997).

No entanto, tanto para Lane (1984), como para Baró (1983) e para

Lapassade (1989), não se pode generalizar o procedimento do todos os grupos

como único. Para esses estudiosos, o que marca um grupo é a historicidade e a

realidade social do mesmo. (apud Oliveira, A., p.11-33, 1997).

Portanto, um grupo de idosos da década passada difere histórica e

socialmente de um grupo que tem a sua realidade atada aos anos 90. O fato é

que, na atualidade, os Grupos de 3ª Idade têm sido de singular importância para

as pessoas. É neles que os idosos buscam realizar seus desejos relacionados à

emoção e à afetividade, com eles próprios e com os outros, numa afirmativa de

que,

“sentimentos são compartilhados a todo momento por todos os membros do grupo – em geral inconscientes – manifestam-se em todos os níveis da vida do grupo, - os sentimentos individuais estão em relação com os sentimentos coletivos”. (Pagés, 1976 apud Oliveira, A. , p.11-33, 1997).

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25

O idoso inserido num Grupo de 3ª Idade, ao interagir nas diversas

atividades ali desenvolvidas, (recreação, lazer, participação, companheirismo,

trabalhos de artes manuais, teatro, culinária, danças e palestras sobre assuntos

diversos e sobre saúde), obtém elementos condicionadores de uma vida com mais

qualidade,

eliminando

elementos

estressores

e

adquirindo

conhecimentos

relacionados com a manutenção de sua saúde e a prevenção de doenças. Os

conhecimentos adquiridos influenciam na conscientização da necessidade de ser

saudável para obter uma melhor qualidade de vida.

E, qualidade de vida para o idoso está inerente à saúde orgânica e

psíquica do mesmo.

É na terceira idade que surgem inúmeros problemas tanto de saúde

como os provocados por situações estressantes diversas que isoladamente ou em

conjunto, aumentam

a

vulnerabilidade

do

idoso.

É

nesse

período que

se

observam mais comumente as primeiras alterações nos exames médicos de

rotina”.(Ribeiro, 1995, p.69).

São alterações orgânicas que devem ser observadas com cautela

como se fossem “as pontas de um iceberg que escondem um bloco de gelo

enorme por debaixo”. (Ribeiro, 1995, p.69).

Podem ser alertas do organismo que, se observados e tratados em

tempo, previnem doenças. É nessa faixa etária que são detectados, na maioria

das vezes, disfunções da glicose no sangue, do colesterol, dos triglicérides, do

ácido úrico e da pressão arterial. Os indivíduos estão tão ocupados com a própria

rotina de suas vidas que sequer observam as mudanças que ocorrem nos seus

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26

organismos. E, quando essas pessoas são informadas das alterações em seus

exames de saúde, não acreditam, alegando não sentirem nada, portanto, não se

considerando doentes. O fato é que na realidade, não estão atentas aos alarmes

do próprio corpo e, portanto, são incapazes de perceber quaisquer sintomas do

seus organismos. (Ribeiro, 1995, p.70).

Para Wenger et al (1984),

“A qualidade de vida de um indivíduo pode estar influenciada pela percepção que ele tem do seu estado de saúde. A qualidade de vida pode ser alterada pela severidade dos sintomas da doença crônica e por intercorrências clínicas ou ”

(apud Trentini et

complicações paralelas al, 1990, p. 21).

Por outro lado, há outros fatores que influenciam na qualidade de vida

do idoso. A atual situação econômica do país atua com barreiras que dificultam a

vida do idoso, tanto social como financeiramente.

Dentre essas barreiras, pode-se detectar a dificuldade de acesso ao

tratamento médico, devido ao atual sistema de saúde não conseguir atender à

demanda da população usuária do SUS. Em contrapartida, nem todas as pessoas

possuem recursos para manter um plano de saúde particular.

E a dificuldade para aquisição de medicamentos atua como empecilho

para a manutenção de tratamentos de doenças crônicas, tão freqüentes nos

idosos. Alguns não dispõem sequer de recursos financeiros suficientes para a sua

sobrevivência. Daí sobrevém a dificuldade para a manutenção de uma dieta

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27

equilibrada, com alimentos ricos em proteínas e vitaminas, tão necessárias ao

organismo do indivíduo idoso.

Por outro lado, a saúde do indivíduo é abalada devido a hábitos

alimentares pouco saudáveis adquiridos ao longo de sua vida, tais como a

ingestão de alimentos gordurosos, doces em excesso, bebidas alcoólicas, etc. Já

o lazer, utilíssimo para a manutenção saudável do organismo humano, enquanto

elemento redutor de stress, é pouco praticado, devido, na maioria das vezes, às

dificuldades financeiras enfrentadas por todos.

No entanto, apesar do enfrentamento desses problemas citados e de

outros tantos mais, que afetam a base principal do bem estar do Homem na Terra,

que é a saúde, algo potencial persiste no íntimo de cada ser vivente, que é a

esperança de vida. Dados estatísticos apontam para a diminuição na taxa de

natalidade e o aumento da expectativa de vida.

Segundo Campanário (1998), no Brasil, a partir da década de 1980,

teve início um acelerado processo de descenso, considerado um dos mais rápidos

do mundo, chegando a cair a taxa de fecundidade total (TFT), isto é, o número

total de filhos de mulheres até os cinqüenta anos, de cerca de 6 filhos (1960), para

2,5 filhos no período de 1990-1995, equivalente a uma diminuição de 60% em

apenas 20 anos. (apud Palma, 2000, p. 25).

Para

Campanário

(1998),

ao

contrário

do

que

é

constantemente

divulgado nos meios de comunicação, a taxa de envelhecimento no país, se deve

muito mais à diminuição da taxa de nascimento do que à diminuição da taxa de

mortalidade.

Segundo

esse

demógrafo,

os

fenômenos

que

provocaram

a

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28

diminuição do ritmo do crescimento populacional e o aumento da taxa de pessoas

idosas, tem a mesma origem: a modificação nos padrões de reprodução da

população brasileira. A diminuição da taxa de mortalidade pode causar tanto um

envelhecimento como um rejuvenescimento da população, dependendo apenas

da faixa etária afetada. (apud Palma, 2000, p.25).

“Assim é que, entre 1940 e 1960, segundo Berquó (1996), a população experimentou um aumento em seu ritmo de crescimento anual de 1,34% ao ano na década de 1940, crescimento que passou para 3,05% no decênio seguinte. Essa transição deveu-se exclusivamente a um declínio da mortalidade, traduzido por um ganho de dez anos na esperança de vida ao nascer (de 41,5 anos, em 1940, para 51,6 anos em 1960), já que a taxa de fecundidade total manteve-se constante no período e igual a 6,2 filhos por mulher. (Gráfico 01)”.(Palma, 2000, p.25).

Gráfico 01 – Transição demográfica brasileira 1940-1991

(apud Palma, 2000, p.25)

(apud Palma, 2000, p.25)

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29

Os cientistas já preconizam, baseados nos progressos da ciência e

alicerçados na veracidade das campanhas de prevenção, tanto das doenças

crônicas como das não-crônicas, que o Homem pode atingir a faixa etária de 120

anos. (informação verbal).

Os dados estatísticos revelam que vem ocorrendo um significativo

aumento de idosos no mundo, sendo que no Brasil, esses dados tem demonstrado

que no ano 2025 estaremos com uma população de 34 milhões de idosos, o que

poderá nos colocar entre os seis países com maior número de pessoas idosas do

planeta. Tal perspectiva imprime ao Estado a formulação de ações de caráter

preventivo e curativo dirigido a esse segmento da população. (informação verbal).

Paralelamente a isso, nós temos de superar a ideologia de que o idoso

é estorvo para a sociedade. Ao contrário, o idoso deve, também, ser elemento

ativo na busca de melhores políticas sociais.

Muitos idosos ficam confinados em seus lares ou em asilos, tornando-

se indivíduos em situação de exclusão. Isso, talvez faça prevalecer o falso

conceito de que o idoso é minoria. Através dos grupos de convivência, o idoso

pode ter acesso ao cotidiano da sociedade e buscar conscientizar a mesma da

sua necessidade de participação, enquanto legítimo cidadão que é.

Segundo Oliveira (1997), os grupos sociais deveriam ser mesclados e

dessa forma seria eliminada a problematização de transformar-se os grupos de

convivência em guetos capazes de reforçar o processo discriminatório impingido

ao indivíduo idoso. Somente com a finalização da apartação social (diferenças

preconceituosas relacionadas com etnia, religião, classe social, faixa etária, etc,

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30

existente entre os indivíduos, enquanto membros sociais de uma comunidade,

capazes de forçar o afastamento das pessoas discriminadas, isolando-as das

demais), as diferenças demarcadas entre os seres humanos seriam minimizadas.

E a apartação etária é uma das piores segregações sociais. Apesar de parecer à

primeira vista, que os grupos de convivência possam possibilitar o fortalecimento

dessa apartação, cabe aos idosos utilizarem-se desses espaços para fazerem

gerar ações democráticas, capazes de desmistificar a ideologia dominante sobre a

velhice, buscando, através da solidariedade mútua dos integrantes dos grupos,

uma nova realidade social. (Oliveira, A., p.11-33, 1997).

A Gerontologia Social aí está para reforçar os alicerces dessa nova

conquista da Humanidade, que não está restrita, apenas, às descobertas de

medicamentos que prolongam o tempo de vida do ser humano ou a técnicas de

rejuvenescimento exterior e/ou interior do indivíduo.

Segundo Salgado, (1982, 121 p.), a Gerontologia Social, se propõe

basicamente, a ajudar o homem a viver o tempo de sua existência terrestre da

forma mais satisfatória possível tanto biologicamente como psicossocialmente.

Enfim, é a busca constante e permanente da viabilização plena e completa do

existir do idoso.

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31

“Nesse sentido, a presente Política Nacional de Saúde do Idoso tem como propósito basilar à promoção do envelhecimento saudável, a manutenção e a melhoria, ao máximo, da capacidade funcional dos idosos, a prevenção de doenças, a recuperação da saúde dos que adoecem e a reabilitação daqueles que venham a ter a sua capacidade funcional restringida, de modo a garantir-lhes permanência no meio em que vivem, exercendo de forma independente suas funções na sociedade”.(Brasil, 1999).

Para que o idoso tenha preservada a sua qualidade de vida importa que

sejam repassados conhecimentos sobre as doenças, como melhor identificá-las e

como se prevenir de conseqüências decorrentes das mesmas.

Á doença, enquanto perturbação grave da saúde (Luft, p.221, 1991), é,

logicamente, uma ação alteradora das funções orgânicas do indivíduo e pode ser

provocada por agentes físicos, psíquicos ou sociais e sua ocorrência independe

de qualquer faixa etária. O fato é que qualquer doença é um fator preocupante.

Não só pelo desconforto causado pela sua sintomatologia, mas, também, quando

a mesma traz consigo, conseqüências mais graves, ou, até mesmo, a ‘causa

mortis’ do indivíduo. (informação verbal).

As doenças agudas, caracterizadas por possuírem um curto período de

duração, afetam menos o curso de vida do indivíduo. Já as doenças crônicas, que

são

aquelas

que

requerem,

na

maioria

das

vezes,

cuidados

terapêuticos

especiais,

exigem,

quase

sempre,

um

período

de

tratamento

permanente,

causando mudanças diversas na vida dos pacientes, interagindo nos hábitos do

indivíduo, desde os alimentares, até os culturais, sociais e econômicos.

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32

Para Craig e Edwards (1982), “os indivíduos com doenças crônicas,

bem como suas famílias, necessitam se adaptar a mudanças como, por exemplo,

às perdas de ‘status’ no trabalho, na família e na sociedade, e também à sua nova

auto imagem”.(apud Trentini et al, 1990, p.18).

O Diabetes Mellitus Tipo 2 é uma destas doenças crônicas que ao

serem constatadas, provocam modificações nos hábitos de vida das pessoas

afetadas.

O idoso com doença crônica torna-se muitas vezes dependente dos

cuidados

dos

seus

familiares.

E,

ao

mesmo

tempo,

sofre

conseqüências

psicossociais devido às mudanças que ocorrem em sua vida em decorrência do

seu estado de saúde.

Para Wenger et al (1984), “a principal meta terapêutica da maioria dos

indivíduos em condições crônicas não é a cura, mas sim a redução da severidade

da doença ou a detenção de sua progressão”. (apud Trentini, 1990, p.18/19).

Atualmente, o governo vem implantando políticas sociais de prevenção

de doenças. Através dessa metodologia, ocorre uma menor incidência de doenças

e, conseqüentemente, tornam-se menos onerosos os gastos do sistema de saúde.

Isso porque, “a prevenção, mais do que uma exigência moral é também uma

necessidade

econômica,

senão

os

custos

da

assistência

tornar-se-iam

insustentáveis

e

quem

realmente

tem

necessidade,

não

poderia

mais

ser

tratado”.(Giovanni, 1988, p.72).

Essa realidade pode ser vislumbrada através da atuação da AÇÃO

SOCIAL da PMV, junto aos Grupos de 3ª Idade. Apesar de serem realizadas

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33

apenas palestras sobre determinadas doenças, já é um largo passo para que se

instaure, em definitivo, programas permanentes de prevenção e educação do

indivíduo para as diversas doenças. Nessa pesquisa, programas direcionados

para a prevenção e educação em Diabetes Mellitus Tipo 2 nos indivíduos de 3ª

Idade, são relevantes para que o idoso tenha preservada a sua boa qualidade de

vida.

 

“A Educação em Diabetes, além de ampliar a compreensão que o indivíduo tem da doença, capacita-o para melhor assumir o seu tratamento, evitando descompensações, tornando-se, portando, de suma importância no atendimento ao diabético”.( Labuto et al, 1998, p.24).

 

Para o Professor Zan Mustachi, “o índice cultural de uma nação é

medido

pelo

seu

grau

de

prevenção

das

doenças”.(In

entrevista

à

Rede

Bandeirantes de TV, 28/03/2000).

 
 

E,

o

ultra-moderno

Projeto

Genoma

também

preconiza

melhor

qualidade

de

vida

para

a

Humanidade

através

da

prevenção

obtida

pelo

conhecimento da pré-disposição genética dos indivíduos.

“Políticas de prevenção de doenças, como o Diabetes Mellitus, proporcionadoras de forte discriminação no âmbito da sociedade, possuem um caráter “ex-ante”, isto é, um caráter preventivo da ação assistencial, desmistificando a ação “ex-post”. (Pereira,

1996).

Paralelamente ao aumento da longevidade dos indivíduos, amplia-se o

discurso de profissionais da área da saúde, enfocando a importância da adoção

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34

de um novo estilo de vida, através de uma alimentação mais saudável e da prática

de exercícios físicos, como elementos hábeis para a prevenção de doenças.

É premente a necessidade da existência de uma melhor Política de

Saúde direcionada aos idosos. Através de dotação orçamentária eficiente poderá

ser composta nas Unidades de Saúde equipe multidisciplinar e interdisciplinar.

Essas equipes devem ser dotadas de profissionais da área da saúde e de outras

áreas que possuam atividades direcionadas para o idoso, além, é claro, de

Gerontólogos

Sociais.

Dessa

forma,

qualidade de vida para o idoso.

pode-se

ousar

visualizar

uma

melhor

O importante é que se entenda aqui, como Qualidade de Vida para o

idoso, uma vida digna, plena de todos os direitos e garantias de cidadania, dentre

elas, condições que propiciem a saúde e o verdadeiro exercício pelo Poder

Público das ações determinadas pela Constituição Federal e pela Lei nº 8.842/94

que trata da Política Nacional do Idoso, cujo principal propósito é.

“A promoção do envelhecimento saudável, a manutenção e a melhoria, ao máximo, da capacidade funcional dos idosos, a prevenção de doença, a recuperação da saúde dos que adoecem e a reabilitação daqueles que venham a ter a sua capacidade funcional restringida”. (Brasil, 1999).

Enfim, para que o idoso tenha preservada a sua qualidade de vida,

basta

que

os

seus

direitos

constitucionais

sejam

realmente

respeitados

e

cumpridos. Entre os direitos civis pode-se destacar o direito ao respeito, ao bem-

estar e à saúde (Brasil, 1999).

1.3 DIREITOS CIVIS DOS IDOSOS

“A velhice, principalmente se for vivida com honra, é algo tão respeitado que nem todos os prazeres da juventude conseguem excede-la em valor”.

(Cícero)

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35

1.3 DIREITOS CIVIS DO IDOSO

Direito ao respeito

São crimes e são sujeitos a punição:

Negligência, desrespeito, atos de violência, abusos sexuais, amarrar braços e

pernas ou obrigar a tomar calmantes. Ameaças de punição e abandono.

Agressões verbais como “Você é um inútil”.

Apropriação dos rendimentos, pensão e propriedades sem autorização.

Recusa em dar alimentação e assistência médica.

Impedir de sair de casa ou manter a pessoa em local escuro e sem higiene.

Direito ao bem estar

Não sofrer discriminação de qualquer natureza.

Ser amparado pelos filhos maiores na velhice, carência ou doença. Viver

preferencialmente com a família. A União, Estados e municípios providenciarão

asilo ao maior de 60 anos sem família, ou com família sem condições de

sustentá-lo

Direito à saúde

Não ficar em asilo se precisar de assistência médica permanente, devendo ser

atendido em hospital. Receber assistência integral à saúde pela rede pública.

Receber remédios, próteses e órteses (cadeira de rodas, óculos, aparelho

auditivo, etc)

Preferência no atendimento em órgãos públicos e particulares.

(Brasil, Política Nacional de Saúde do Idoso, 1999)

1.4 QUALIDADE DE VIDA NA 3ª IDADE

“Nada neste mundo se equipara em beleza a um homem idoso pleno de vitalidade e sabedoria”.

(Lin Yutang)

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36

1.4 QUALIDADE DE VIDA.NA TERCEIRA IDADE

Apesar do dito popular de que a saúde no Brasil ‘está doente’, a

expectativa de vida tem aumentado significativamente. Isso se deve à diminuição

cada vez maior da taxa de nascimentos e ao limite de idade cada vez maior na

taxa de mortalidade.

O fato é que, dentre outras coisas, a melhoria da qualidade de vida foi

alcançada através do avanço tecnológico da medicina moderna.

Por

outro

lado,

pressionados

por

um

contingente

expressivo

da

população, até então excluídos de ações governamentais, os indivíduos da

terceira idade são incluídos pelo Estado, ao propor (em meados da década de 90),

a Política Nacional do Idoso, instituída pelo Decreto nº 1.948, de 03 de julho de

1996, em conformidade com a Lei nº 8842, de 04 de janeiro de 1994.

No Capítulo IV, da Lei nº 8842 (Brasil, 1988), que trata do exercício das

Ações Governamentais referentes a políticas públicas para proteção e promoção

dos direitos humanos no Brasil, observa-se no Art.10, Inciso II, referente à área da

saúde, que é de competência dos órgãos e entidades públicas,

a)garantir ao idoso a assistência à saúde, nos diversos níveis de

atendimento do Sistema Único de Saúde;

b)prevenir, promover, proteger e recuperar a saúde do idoso, mediante

programas e medidas profiláticas;

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37

c)adotar e aplicar normas de funcionamento às instituições geriátricas e

similares, com fiscalização pelos gestores do Sistema Único de Saúde;

d)elaborar normas de serviços geriátricos hospitalares;

e)desenvolver formas de cooperação entre as Secretarias de Saúde

dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e entre os Centros de

Referência em Geriatria e Gerontologia para treinamento de equipes

interprofissionais;

f)incluir a Geriatria como especialidade clínica, para efeito de concursos

públicos federais, estaduais, do Distrito Federal e municipais;

g)realizar

estudos

para

detectar

o

caráter

epidemiológico

de

determinadas doenças do idoso, com vistas à prevenção, tratamento e

reabilitação; e

h)criar serviços alternativos de saúde para o idoso.

No entanto, no Brasil, de acordo com BUSS (p 61-101), só se gasta,

aproximadamente, com a saúde da população em geral, cerca de 4,5% do PIB, o

que correspondia, em 1989, a um gasto per capita anual de apenas US$135.

Essa talvez seja uma das causas que contribuíram para que a OMS

(Organização Mundial de Saúde), classificasse em 125º o lugar no mundo o

sistema de saúde do nosso país, numa seleção de 191 países, ficando, até

mesmo, atrás de países como Paraguai, El Salvador e Butão. (Folha de São

Paulo, 2000).

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38

Apesar

da

discordância

do

Ministério

de

Saúde,

que

contesta

a

metodologia aplicada nesse levantamento pela OMS, as evidências estão no

cotidiano de todo brasileiro, principalmente no caso do idoso.

“Estudos têm demonstrado que o idoso, em relação às outras faixas etárias, consome muito mais recursos do sistema de saúde e que este maior custo não reverte em seu benefício. O idoso não recebe uma abordagem médica ou psicossocial adequada, não sendo submetido também a uma triagem rotineira para fins de reabilitação”.(Brasil, 1999). )

Sabe-se que o tratamento de saúde de um idoso torna-se caro,

ocasionado pela sua fragilidade adquirida pelo desgaste físico ao longo dos anos.

Por outro lado, o indivíduo, ao atingir a condição de idoso, tem, muitas vezes, a

saúde precária devido às más condições de subsistência, conseqüência de uma

má distribuição de renda e uma política econômica excludente.

A escassez de profissionais dotados de conhecimentos geriátricos é

muito grande em relação à demanda de pacientes idosos. Isso se reflete no

atendimento médico, muitas vezes, precário em relação ao idoso.

Tanto as instituições de ensino, como a maioria dos órgãos públicos e

até mesmo organizações privadas, ligadas ao atendimento à sociedade, não

perceberam ainda a enormidade desse ‘boom’ de idosos na sociedade.

Por

isso,

em

todos

os

setores

e

não

apenas

no

da

saúde,

o

atendimento aos idosos ainda é bastante precário, enquanto o hábito, já arcaico,

de serem considerados minoria.

Maria de Lourdes Labuto

Curso de Pós-Graduação em Gerontologia Social

39

Segundo PEREIRA, M. (1996), o envelhecimento é um processo

fisiológico que deve ser bem conhecido para que possam ser atendidas as

necessidades

das

pessoas

idosas,

de

modo

a

diminuir

as

conseqüências

provocadas por processos patológicos, ditos como próprios da idade avançada e o

ciclo de vida humano é acompanhado por importantes perdas fisiológicas:

Diminuição de água nas células, que causa a desidratação do idoso;

Musculatura atrofiada, podendo até ocorrer à diminuição de algumas fibras;

A pele aos poucos vai perdendo a elasticidade, somada à desidratação e aos

movimentos de expressão e à gravidade, dando origem às rugas;

Diminui a musculatura e com isso há perda da força, flexibilidade, resistência e

equilíbrio;

A massa óssea também diminui, e no caso dessa perda ultrapassar 30%, já é

osteoporose, não sendo mais fisiológico;

Ocorre endurecimento das artérias devido ao depósito de gordura e cálcio ao

longo da vida;

O coração, por ser um músculo, vai perdendo lentamente sua elasticidade,

comprometendo o débito cardíaco, com diminuição da reserva funcional;

Alvéolos e brônquios diminuem sua elasticidade, aumentando o ar residual o

que faz com que o idoso tenha mais problemas respiratórios;

O aparelho digestivo sofre uma certa atrofia da mucosa que diminui a acidez

gástrica e as atividades enzimáticas, ocorrendo alteração na absorção de

algumas substâncias;

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Curso de Pós-Graduação em Gerontologia Social

40

o aparelho geniturinário, compromete a unidade funcional do rim, diminuindo

E

a

filtração, reabsorção e eliminação facilitando a ocorrência de infecções. Nas

mulheres há uma queda de estrogênio na menopausa provocando atrofia

vaginal. Nos homens ocorre um aumento da próstata podendo causar retenção

urinária e conseqüente infecção;

No sistema nervoso diminui o número de neurônios, ocorrendo após os 40

anos uma perda de 200.000 dessas células por dia.

O indivíduo idoso, pela lei natural da vida, possui um organismo mais desgastado,

tanto psíquico como fisiologicamente. E isso faz com que esteja mais propenso a

doenças. Todavia,

“A velhice não precisa, necessariamente, estar acompanhada por enfermidade, e, a forma de minimizar as tendências naturais da velhice, está inter-relacionada com a prevenção das doenças. As normas de prevenção quando observadas desde a infância refletem na vida futura dos indivíduos, fazendo com que, através destas variáveis, tenham uma vida mais saudável.”(Labuto et al-1998).

Na atualidade, tudo que se relaciona com qualidade de vida, tem,

embutido em sua gênese a prevenção das doenças.

Não se pode deixar de observar que, mesmo precariamente, as

Políticas de Saúde vem implantando campanhas de prevenção. Mesmo porque,

através desse método, ocorre a melhoria de saúde da população, proporcionando

Maria de Lourdes Labuto

Curso de Pós-Graduação em Gerontologia Social

41

um gasto menos oneroso, tanto para o sistema de saúde, como para o próprio

indivíduo.

Até bem pouco tempo, a tradição limitava cada profissional a sua

competência específica. Com a modernidade, veio a compreensão de que o

indivíduo

é

um

todo

inserido

numa

abordagem

biopsicossocial,

capaz

de

influenciar e alterar o diagnóstico de qualquer enfermidade.

Laurell (1983), ao defender o conceito de ‘doença’ como tendo um

caráter histórico e social, enfatiza que “a natureza social da doença não se verifica

no caso clínico, mas no modo característico de adoecer e morrer nos grupos

humanos”. (p.137).

Ao

paradigma

médico-biológico

sobrepõe-se

o

paradigma

sócio-

histórico. Nesse novo conceito o processo de intervenção sobre o binômio saúde-

doença

incorpora

toda

uma

equipe

de

profissionais

direcionada

para

uma

abordagem de detecção dos múltiplos fatores que envolvem o processo.

“Uma mistura de profissionais, cada um possuindo competências particulares; cada um responsável por tomadas individuais de decisões; que juntos repartem um propósito comum. Que encontram-se formal e informalmente para comunicar, colaborar e consolidar o conhecimento, através disso elaboram os planos, as ações são determinadas e as futuras condutas são influenciadas”.(Brasil, 2000).

No caso do idoso, segundo a Dra. Kane (Brasil, 2000), 162 equipes de

diferentes profissionais foram detectadas. Isso fez com que concluísse que não

havia uma combinação única e perfeita para uma equipe de trabalho.

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Curso de Pós-Graduação em Gerontologia Social

42

“O tamanho e a composição qualitativa da equipe deve ser influenciada por diversos valores, tais como: objetivos do programa, extensão dos problemas presentes, características do local de trabalho, características do paciente, etc. Idealmente na criação de uma equipe, os membros devem ser selecionados devido aos seus interesses e competências no tratamento de pacientes geriátricos, completado com o desejo de participar de uma equipe”. (Kane, Brasil, 2000).

No cômputo geral, a composição de uma equipe geriátrica deve,

inicialmente,

avaliar

quais

os

cuidados

 

que

o

paciente

necessita

para,

posteriormente,

compor

a

equipe

com

os

profissionais

necessários

a

sua

reabilitação. (Brasil, 2000).

Após a avaliação

clínica

geral, que envolve

uma equipe nuclear

composta dos profissionais médico, enfermeiro e assistente social, vários outros

profissionais podem ser envolvidos tanto para o reforço psicossocial do paciente,

como para ações decorrentes de avaliações mais pormenorizadas, dentre outras:

problemas

relacionados

com

audição,

visão,

odontológicos,

fisioterápicos,

psicológicos, de terapias de reabilitação nutricional e de caráter ocupacional, etc.

(Brasil, 2000).

Uma equipe geriátrica interdisciplinar ampliada, envolve, dentre outros

profissionais: médico, terapeuta ocupacional, enfermeiro, técnico em educação

física,

assistente

social,

odontólogo,

psicólogo,

psiquiatra,

fonoaudiólogo,

nutricionista, educador em saúde, fisiatra, sociólogo, fisioterapeuta, farmacêutico,

etc (Brasil, 2000).

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Curso de Pós-Graduação em Gerontologia Social

43

Na realidade, o que vai determinar os profissionais componentes de

uma equipe geriátrica interdisciplinar ou multidisciplinar é o estado de saúde do

paciente idoso.

“A Geriatria estuda e trata as doenças associadas à idade avançada e propõe o tratamento. A Gerontologia estuda o processo de envelhecimento. Estão aí incluídos, não só os profissionais de saúde, como todos que têm algo a oferecer para as pessoas idosas, como os arquitetos, advogados, engenheiros de trânsito, professores de educação física, etc.” (PEREIRA, 1996).

Segundo Dra. Rosaline Kane (Brasil, 2000), o trabalho de uma equipe

assim constituída deve ter por base o enfoque do bem-estar físico, mental e social

do paciente.

Pode-se ir mais além, enfocando o bem-estar econômico do indivíduo,

através

de

melhores

condições

de

vida

governamentais específicas.

proporcionadas

por

políticas

Ao ser direcionada à população idosa, a política de saúde “é um

componente essencial na avaliação do estado de bem estar social de uma

nação”(Brasil, 2000). E, para que ela subsista, tem que ter em sua gênese, um

trabalho bem feito de prevenção das doenças.

A prevenção

é

a regra

população saudável.

máxima para um

país que

quer ter uma

Maria de Lourdes Labuto

Curso de Pós-Graduação em Gerontologia Social

44

De acordo com RIBEIRO (1995), o primeiro passo para garantir uma

vida com mais qualidade consiste em assegurar que as diversas funções de nosso

organismo se apresentem bem. É preciso se interessar, informar-se sobre o que

seja importante fazer para tal. (p.74-79).

Por isso, é mais do que urgente à implantação de programas hábeis,

capacitados

para

educar,

desde

o

nascimento,

até

a

idade

adulta.

inter-

relacionando as diversas facetas, da nutrição à higiene, até dos costumes básicos

de saúde que incluem boas condições de trabalho e moradias adequadas. Até

mesmo, o lazer, enquanto elemento antiestressante, proporcionador do equilíbrio

orgânico, deve ser valorizado para que os indivíduos possam chegar a uma

velhice saudável e uma conseqüente melhor qualidade de vida.

Poder-se-ia colocar aqui, para referendar o que já foi dito, o Inciso II do

Art.3º, da

Seção I, do Capítulo

II,

da

Lei

8.842,

que diz:

“o processo de

envelhecimento diz respeito à sociedade em geral, devendo ser objeto de

conhecimento e informação para todos”(Brasil, 1988)

Sabe-se, no entanto, que a aderência e o cumprimento da terapêutica

prescrita, cabe, na maioria das vezes, ao próprio paciente.

A OMS (1993), enfatizou que um dos principais entraves no processo

de tratamento é a adoção de um padrão de comunicação inadequado entre

profissional e paciente.

Segundo Bicudo (1997), o paciente deve ser motivado para obter

autodeterminação,

adquiridos

através

de

conhecimentos

e

atitudes

que

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45

possibilitem o autocuidado. E, por outro lado, não se pode descartar a família

como elemento de apoio no cuidado ao idoso portador de doença crônica.

“Considera-se, que o estímulo para a mudança de comportamento

dessas

pessoas,

deve

partir

do

núcleo

familiar,

cujos

comportamentos

relacionados ao doente devem também serem estudados”. (Bicudo, 1997).

Conforme Carta da 10ª Conferência Nacional de Saúde, é no SUS que

está a garantia da população ao acesso à ações de prevenção, promoção e

reabilitação da saúde. (Brasil, 2000).

“O texto constitucional de 1988 consagra a saúde como produto social, portanto, resultante de um conjunto de direitos que envolvem o emprego, o salário, a habitação, o saneamento, a educação, o transporte, o lazer, etc. Torna-se necessária uma nova cultura de intervenções, com fortalecimento de ações intersetoriais, com participação da sociedade, parcerias e solidariedade, que dependem, também, de soluções urgentes a favor da redistribuição de renda, de políticas urbanas adequadas, de geração de emprego e reforma agrária imediata”. (Brasil, 2000).

Para Silva (1994),

entre as influências sócio-culturais, o fator

econômico – o dinheiro ou sua falta – desempenha, ao menos no mundo

ocidental, um importante papel na gênese do adoecer”. (375 p.).

Essa ascendência do dinheiro na saúde das pessoas é constatada com

rigor

ao

serem

analisadas

questões

como

condições

de

moradia,

higiene,

alimentação e transporte. (Silva, 375 p., 1994).

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46

Segundo Achutti, professor de cardiologia preventiva, desde a década

de 90, a pobreza passou a ser o fator preponderante no agravamento de doenças

do coração no Brasil. (apud Silva, 375 p., 1994).

A influência do dinheiro na saúde do indivíduo transcende a pobreza.

Os ricos são afetados pelo medo e pela ansiedade de perder ou pela necessidade

de acumular bens materiais. Esse estado angustiante reflete no organismo

provocando doenças as mais diversas e que são denominadas ironicamente de

doenças da civilização: a pressão alta, os derrames cerebrais, a angina, o infarto

do miocárdio, o diabetes mellitus, o câncer, etc. (Silva, 375 p., 1994).

Daí a necessidade de melhores condições de vida para que haja um

menor índice de doenças na população.

Por isso, a construção de um novo modelo de atenção à saúde deve

estar inserido na sociedade, através de uma maior autonomia dos municípios e,

também,

pela

deliberativos.

participação

popular

nos

conselhos

paritários,

tripartites

e

Só através de uma correlação de forças: governo, universidades,

entidades privadas, assistenciais, religiosas, e a sociedade em geral, é que obter-

se-á o real exercício de uma Política Social direcionada à população em geral, em

todos os âmbitos de direito, visando o futuro, para um envelhecimento saudável,

direito de todo cidadão brasileiro e base precípua para uma verdadeira qualidade

de vida.

No

entanto,

a

base

para

um

satisfatório, é indiscutivelmente, a saúde.

ideal

bio-psico-social

e

econômico

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47

Essa pequena palavrinha de cinco letras apenas, “saúde” é condição

‘sine qua non’ para que se tenha uma boa qualidade de vida.

Aliás, o próprio conceito de saúde na atualidade já mudou bastante.

Para RIBEIRO (1995), paralelamente a essa mudança, o conceito da palavra

“saúde”, ganhou “com ele mais autonomia, passamos não mais a ‘reverenciar’ as

doenças, mas, a nos reforçarmos com as armas certas para preveni-las e

combate-las. A saúde deixou de ser vista como ausência de doenças”. (p. 74-79).

Para a Organização Mundial da Saúde, “ A saúde, que consiste num

estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas na ausência

de doença ou enfermidade, é direito fundamental dos seres humanos”. (OMS,

1978).

Assim, falar em saúde é articular as condições de vida-produção e

reprodução, com a maior ou menor exposição aos agravos à saúde.

Além das situações que não são previstas por ninguém, tais como as de

ordem

genética, já é

do

conhecimento de todos

que

se

mantiverem

uma

alimentação adequada, praticarem exercícios físicos, evitarem comportamento de

risco, como o álcool e o fumo, preservarem as horas de sono e evitarem situações

estressantes, buscando reservar horas para o lazer, possivelmente, a saúde

estará presente.

No entanto, no caso do indivíduo portador de Diabetes Mellitus Tipo 2,

faz-se mais do que necessária a educação para evitar ou retardar essa doença e

as suas conseqüências prejudiciais à saúde do indivíduo. Geralmente ela só é

descoberta quando ocorre alguma sintomatologia acentuada. Há casos que só

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48

quando o indivíduo esta em vias de amputação de um membro inferior é que vem

a constatação da doença.

“Somente através de Programas de Prevenção e Educação para o Diabetes, é que as pessoas encontrarão o caminho para uma melhor qualidade de vida, pelo conhecimento adquirido da compreensão de todos os fatores que interferem no controle da doença, podendo assim, prevenir as complicações agudas e/ou crônicas, e, conseqüentemente, diminuir o número de internações e o alto custo do tratamento”.(Bicudo, 134 p., 1997).

Segundo o Ministério da Saúde (1996), no Brasil estima-se em 5

milhões o número de pacientes diabéticos e metade das pessoas que possuem a

doença, não sabe que tem. O Diabetes é uma doença silenciosa. Evolui sem

apresentar, muitas vezes, nenhum sintoma que identifique a sua presença no

organismo. E, dentre os que têm conhecimento do diagnóstico das doenças,

estima-se que ¼ não faz nenhuma espécie de tratamento, na maioria das vezes,

devido a dificuldades financeiras.

CAPÍTULO II

DIABETES MELLITUS TIPO 2: A AMARGA CERTEZA DE UMA DOENÇA CRÔNICA

“As dificuldades por que passei e provavelmente ainda passarei não me demovem do firme propósito de me controlar bem, e não será o diabetes que me impedirá de viver a vida e alcançar a realização profissional e pessoal”.

(Rogério Oliveira) (médico e diabético desde os 3 anos de idade)

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49

CAPÍTULO II

DIABETES MELLITUS TIPO 2: A AMARGA CERTEZA DE UMA DOENÇA

CRÔNICA

O Diabetes Mellitus Tipo 2 é considerado uma doença crônica de alta

prevalência.

É

genética,

isto

é,

os

indivíduos

possuem

uma

predisposição

hereditária, podendo a doença passar de geração para geração. Quanto mais

diabéticos na família, mais chances de transmissão da doença. Pode tornar-se

degenerativa, apresentando complicações, na maioria das vezes, severas, e de

caráter vascular e neuropático. É causadora de alto índice de morbidade e de

mortalidade. É proveniente de uma desordem no metabolismo do indivíduo e é

associada a uma deficiência absoluta ou relativa de insulina no organismo, que é

um hormônio produzido pelo pâncreas, glândula localizada atrás do estômago.

Ocorre mais freqüentemente em pessoas com mais de 40 anos de idade. (Fonte:

Ministério da Saúde, 1996).

Segundo Pieper (1997), a origem da palavra diabetes é grega e tem

como significado “correr através de alguma coisa” e a origem da palavra mellitus é

do Latim (língua morta) e significa “adoçado como mel”. Onde se conclui que o

nome Diabetes Mellitus, tem em sua gênese, o significado de “algo que corre

através de alguma coisa e é adoçado como mel”, ou seja, “o sangue que corre

através das veias do indivíduo, carregado de níveis altíssimos de glicose”.

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50

FIGURA 01

COMO OCORRE O DIABETES MELLITUS NO CORPO HUMANO

50 FIGURA 01 COMO OCORRE O DIABETES MELLITUS NO CORPO HUMANO

Disponível:http.//www.saúde.gov.br.programas/diabetes/diabete.htm

Capturado em 04/07/2000

Quando a doença atinge o setor macrovascular do organismo, o indivíduo

diabético em relação ao não diabético, corre um risco de duas a quatro vezes

maior para acidentes relacionados com:

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51

Cardiopatia: problemas cardiovasculares, hipertensão arterial, arteriosclerose e

infarto.

Neuropatia: alteração nos nervos periféricos das extremidades (pés) e nos nervos

autônomos, levando, se não tratado em tempo, até a perda dos membros

inferiores, causada por gangrena.

Já,

ao

atingir

a

área

microvascular,

pode

causar

as

seguintes

complicações:

Nefropatia: alteração nos vasos dos rins, levando à diminuição da função renal

Retinopatia: alteração nos vasos da retina, levando à diminuição da visão e até a

cegueira. (Pieper, 1998).

Aliás, o Diabetes é considerada a causa que mais provoca a cegueira

nos indivíduos.

Apesar do Diabetes Mellitus Tipo 2 atingir mais freqüentemente os

indivíduos de 3ª Idade, vem se tornando numa crescente ameaça a crianças e

adolescentes,

provocado

por

obesidade

devido

alimentação

inadequada

e

sedentarismo, além da história genética dos indivíduos.

“Ainda não dispomos de estudos sistematizados sobre o assunto,mas já

é possível observar em consultório o crescimento do número de jovens com

Diabetes Tipo 2”. (Cagliari, 1999, artigo Jornal Diabetes, Saúde & Cia).

Segundo a Federação Nacional de Associações de Diabéticos e o

Ministério da Saúde, o número de diabéticos no Brasil, varia em torno de nove

milhões, sendo que, desse total, 50 % desconhece que tem a doença e 23 % não

fazem nenhum tratamento, ceifando 24 mil vidas por ano, assumindo, dessa

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52

forma, proporções epidêmicas. A média é de que 6 a 7 pessoas em cada 100

possuem a doença. (Revista VEJA, 22/07/1998).

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), está previsto

para este ano, um total variável de 160 milhões de diabéticos no mundo. (Revista

VEJA, 22/07/1998).

Para a Federação Nacional de Associações de Diabéticos e o Ministério

da Saúde, o diabetes é uma doença que está assumindo proporções epidêmicas.

No Brasil, a prevalência do Diabetes Mellitus a partir dos 50 anos,

atinge um percentual de aumento muito maior do que o de outras faixas etárias:

7,14% (SBD - Sociedade Brasileira de Diabetes, SBEM - Sociedade Brasileira de

Endocrinologia e Metabologia, APPD - Ação Pró Paciente Diabético, 1999) (13)

Quadro 01: Prevalência de diabetes mellitus, por grupo etário, na população brasileira de 30 a 69 anos

30 – 39 anos: 2,7% 40 – 49 anos: 5,52% 50 – 59 anos: 12,66%
30 – 39 anos: 2,7%
40 – 49 anos: 5,52%
50
– 59 anos: 12,66%
60
– 69 anos: 17,49%

Disponível:http.//www.saúde.gov.br.programas/diabetes/diabete.htm

Capturado em 04/07/2000

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53

No Município de Vitória, segundo o Departamento de Ações Integradas

da Saúde, da Secretaria Municipal de Saúde, PMV, existem cadastrados até

março/2000, no Programa Saúde da Família, através de demanda espontânea

1.123 Diabéticos. Esse número corresponde a todos os tipos de patologias

diabéticas.

Segundo a literatura médica, além das causas genéticas, outros fatores

de ordem ambiental e psicológica podem desencadear a doença nos indivíduos.

Dentre esses fatores, pode-se citar o stress, doenças do pâncreas, gravidez e

vírus de doenças infantis, como a caxumba, quando atacam as células Beta do

pâncreas. (Brasil, 1996).

Outros fatores também podem facilitar o aparecimento da doença,

dentre

eles

a

obesidade

e

o

sedentarismo.

O

diagnóstico

do

Diabetes

é

constatado quando, através de exames específicos, detecta-se alteração dos

limites considerados normais de glicose no sangue, que é um tipo de açúcar

proveniente

dos

alimentos

ingeridos

pelo

indivíduo.

Isso

ocorre

porque

o

organismo

não

está fabricando

insulina

ou

está

fabricando

em

quantidade

insuficiente. (Brasil, 1996).

Quando o organismo deixa de fabricar a insulina, ocorre o Diabetes

Mellitus Tipo 1 e o indivíduo necessita do uso exógeno da insulina de forma

definitiva.

E quando o organismo produz pouca insulina, é o Diabetes Mellitus

Tipo 2. Nesse caso, basta a ingestão de antidiabéticos orais para regular a

produção de insulina no organismo. No entanto, se o indivíduo portador de

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54

Diabetes Mellitus Tipo 2 não seguir a terapêutica correta para o tratamento da

doença, pode necessitar de receber doses de insulina para normalizar o nível de

glicose no organismo. (Brasil, 1996).

Existem outros tipos de Diabetes, dentre eles o Diabetes Gestacional,

que ocorre durante a gestação de determinadas mulheres, sem necessitar haver

história familiar.

No entanto, em qualquer tipo de Diabetes, o tratamento terapêutico exige

que

o

diabético

apropriados.

Tais

tenha

uma

dieta

procedimentos

específica

devem

ser

e

pratique

exercícios

físicos

sempre

acompanhados

por

profissionais da área da saúde. (Brasil, 1996).

É devido a isso que é por demais importante a Educação em Diabetes, pois

só conscientizando-se da necessidade de seguir a terapêutica própria para a

doença é que o indivíduo poderá ter uma melhor qualidade de vida, evitando as

graves conseqüências provenientes de um diabetes mal controlado.

Quando o indivíduo é saudável, todos os alimentos ingeridos, mesmo

os que não são doces, transformam-se em glicose. A glicose é o alimento

essencial para o funcionamento da célula. Quando o organismo não produz

glicose, a célula deixa de viver. O mesmo ocorre quando não existe insulina no

organismo. Isto porque, a insulina é a responsável pela presença da glicose na

célula. Quando não há insulina, o açúcar se acumula no sangue, não ocorrendo a

produção de energia. Quando a glicose não entra na célula, acumulando-se no

sangue, provoca no indivíduo a hiperglicemia. O processo de eliminação da

glicose

excedente no sangue é feito através da

urina

e

dá-se o

nome de

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55

glicossúria. Para que isso ocorra, o organismo necessita de muita água para ser

misturada à glicose. Esse processo é chamado de poliúra. Isso faz com que a

pessoa tenha polidipsia, que é caracterizada por muita sede, fazendo com que o

indivíduo beba água em excesso. Essa é uma das características que identificam

o paciente diabético. (Brasil, 1996).

Já se a célula não recebe a glicose, o indivíduo sente fraqueza. Isso faz

com que o cérebro reaja e se desencadeia no organismo a sensação de que está

faltando alimento. Devido a isso, o paciente diabético começa a sentir fome

exagerada e busca alimentar-se em excesso. Essa fome característica da doença

denomina-se polifagia e é outro fator que identifica a presença do diabetes no

organismo. (Brasil, 1996).

Com

o

Diabetes

descontrolado,

quanto

mais

o

indivíduo

ingere

alimentos, mais aumenta a glicose no sangue. O organismo começa a fabricar

então, as cetonas que são eliminadas através da respiração. Esse fenômeno é

detectado pelo hálito do indivíduo. É um hálito característico e com cheiro

adocicado, denominado de hálito cetônico. As cetonas podem também ser

eliminadas através da urina, que passa a ter um odor característico. A esse

fenômeno chama-se de cetonúria. (Brasil, 1996).

Portanto, cinco são os sintomas característicos da presença do Diabetes no

organismo do indivíduo: urinar em excesso, cansar-se facilmente, ter fome

exagerada, sede excessiva e emagrecimento notório.

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Figura 02

COMO SE MANIFESTA

(Sobretudo no Diabetes Tipo 1 e no Tipo 2 descontrolado)

(Sobretudo no Diabetes Tipo 1 e no Tipo 2 descontrolado) Urina muito (Poliúria) (urina doce) Desânimo,

Urina muito (Poliúria) (urina doce)

Tipo 2 descontrolado) Urina muito (Poliúria) (urina doce) Desânimo, fraqueza, cansaço físico Tem muita fome

Desânimo, fraqueza, cansaço físico

Tem muita fome (Polifagia)

2 descontrolado) Urina muito (Poliúria) (urina doce) Desânimo, fraqueza, cansaço físico Tem muita fome (Polifagia)

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57

Tem muita sede (Polidipsia)

em Gerontologia Social 57 Tem muita sede (Polidipsia) No Diabetes Mellitus Tipo 1 e no Diabetes

No Diabetes Mellitus Tipo 1 e no Diabetes Mellitus Tipo 2

Perda de peso

No Diabetes Mellitus Tipo 1 e no Diabetes Mellitus Tipo 2 Perda de peso No Diabetes

No Diabetes Mellitus Tipo 2

Ganho de Peso

No Diabetes Mellitus Tipo 1 e no Diabetes Mellitus Tipo 2 Perda de peso No Diabetes

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58

Estes sintomas são os mais freqüentes e eles não aparecem isolados. No Diabetes Tipo 1 eles surgem de maneira rápida e no Diabetes Tipo 2 eles podem estar ausentes ou aparecem de forma lenta e gradual

podem estar ausentes ou aparecem de forma lenta e gradual Lesões nas pernas ou nos pés

Lesões nas pernas ou nos pés

Difícil cicatrização

Lesões nas pernas ou nos pés Difícil cicatrização Infecções freqüentes (pele, urina e genitais)

Infecções freqüentes (pele, urina e genitais)

Infecções freqüentes (pele, urina e genitais) Alterações visuais podendo levar à cegueira

Alterações visuais podendo levar à cegueira

Disponível:http.//www.saúde.gov.br.programas/diabetes/diabete.htm

Capturado em 04/07/2000

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59

Distribuição dos pacientes diabéticos na população brasileira de 0 a 69 anos segundo o conhecimento prévio da doença:

Previamente conhecidos: 53,5% Desconhecidos: 46,5%
Previamente conhecidos:
53,5%
Desconhecidos:
46,5%

Pacientes diabéticos previamente diagnosticados na população brasileira de 30 a 69 anos segundo o tipo de tratamento

Nenhum tratamento 23 % Apenas dieta 29% Hipoglicemiante oral 41% Insulina 7%
Nenhum tratamento
23 %
Apenas dieta
29%
Hipoglicemiante oral
41%
Insulina
7%

Disponível: http.//www.saúde.gov.br.programas/diabetes/diabete.htm

Capturado em 29/10/00

Estes sintomas são os mais freqüentes e eles não aparecem isolados.

No Diabetes Tipo 1 eles surgem de maneira rápida e no Diabetes Tipo 2 eles

podem estar ausentes ou aparecem de forma lenta e gradual.

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60

Outros sintomas também podem sinalizar a existência da doença.

Dentre

eles,

destacamos:

nervosismo,

visão

turva,

infecções

cutâneas,

dormências ou dores nas pernas, coceiras no corpo, principalmente na genitália.

No entanto, o diagnóstico só é preciso, ao serem realizados exames de

laboratórios para verificar a dosagem de glicose existente na urina ou no sangue

do indivíduo. Se estiver acima de 126 mg/dl em jejum, o indivíduo possui Diabetes

Mellitus. (Brasil, 1996).

No

entanto,

o

Diabetes

Mellitus

é

uma

doença

de

tratamento

considerado, à primeira vista, como banal: dieta, exercícios e medicamentos.

Contudo, o que torna amarga à vida do diabético é justamente a dieta,

que é indispensável e fundamental em todos os tipos de diabetes.

Conforme Almeida (1997), “a alimentação adequada permite um bom

controle metabólico, mas só é possível com a cooperação do paciente”.(p.11).

Ela deve ser equilibrada e oferecer todos os tipos de nutrientes, em 5

ou 6 refeições ao dia. E, é claro deve ser orientada pelo médico, pelo nutricionista

ou por enfermeira especializada. De um modo geral, o paciente pode comer

vegetais (verduras e legumes), proteínas (carne de boi, peixe, frango, leite e

derivados), carboidratos (arroz, batatas, pães e biscoitos).O diabético é orientado

a não fumar ou ingerir bebida alcoólica.

Para Almeida (1997) “O planejamento da dieta e a orientação alimentar,

bem conduzidos e adequados às situações específicas de cada paciente, são

essenciais para se alcançar os objetivos do tratamento dietético.”(p.11).

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Este controle permite que o diabético viva de “bem com a vida” sem

impedimentos.

“Os maus hábitos alimentares e as condições socioeconômicas e culturais são os fatores que mais influem na falta de cumprimento das orientações sobre a dieta e devem ser considerados ao se fazer o planejamento da mesma”. (Almeida, 1997,p.11)

Segundo Labuto et al (1998), na pesquisa “3ª Idade e Diabetes Mellitus

Tipo

2:

estratégias

de

enfrentamento”,

ficou

constatado

que

os

sujeitos

pesquisados,

para

resistirem

aos

alimentos

considerados

por

eles

como

“proibidos” pela dieta, buscavam reforço na religião e no apoio dos familiares,

mas, que utilizavam, também, de uma estratégia denominada pelas pesquisadoras

como estratégia de ‘fuga’, pois o indivíduo, ao se ver frente ao alimento não

permitido na dieta, afastava-se para não ceder à tentação de comê-lo, em

apologia similar à atitude da raposa, da célebre fábula de Lafontaine, que, ao não

conseguir alcançar as uvas que almejou comer, virou as costas, afastando-se e

alegando que as mesmas estavam ‘verdes’. (166 p.)

“ As estratégias de controle secundário podem ser orientadas a três aspectos de ação: a expectativa de alcance da meta (isto é, otimismo ou pessimismo estratégico, ajustamento do nível de aspiração), o valor

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associado à meta (isto é, as uvas estão verdes, afastamento) e a atribuição causal do resultado da ação (isto é, atribuição personalista).”(Heckhausen apud Néri, 229 p., 1995)

Essa é uma estratégia que o indivíduo usa como um controle ilusório e

de ação funcional, através da desvalorização de metas inatingíveis, e, ao mesmo

tempo

possui

característica

disfuncional,

por

exagerar

o

valor

das

metas

consideradas como inatingíveis. (Heckhausen apud Néri, 229 p., 1995).

No entanto, devido a costumes alimentares inadequados, adquiridos ao

longo do curso de vida e, muitas vezes, estimulados pelas propagandas através

da mídia, que projetam determinados produtos como sendo ‘a delícia das delícias’,

o indivíduo, inserido em uma sociedade consumista por excelência, além de

possuir a característica ‘fome do diabético’, extrapola a dieta alimentar. Isso,

aliado à falta de exercícios físicos e a situações estressantes, tais como, o preço

altíssimo dos medicamentos e políticas de saúde que, por não oferecerem

assistência médica adequada, exigem que o indivíduo constitua planos privados e

de custos absurdos, mais ainda no caso do idoso, predispõe o paciente diabético

a um quadro de enorme agravamento da doença. Aliás, a ansiedade provocada

pela própria dieta já se constitui em elemento causador de estresse.

O

lazer

que

possibilitaria

muito

a

aquisição

de

reforços

antiestressantes, não era usado a contento. Para a maioria dos indivíduos, a atual

situação econômica do país não permite que as pessoas utilizem o lazer em

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escala satisfatória. Apenas locais públicos (ex: praias, praças), são utilizados

como lazer pela população em geral.

Para Bicudo, (1997), em sua pesquisa “Diabetes Mellitus Tipo II e

Suporte Social Familiar: suas relações com o controle da doença”, também

constatou os fatos anteriormente relacionados como estratégias do indivíduo

diabético frente à doença e, percebeu também que, principalmente pessoas do

sexo feminino, buscavam reforço para manter o seu self ideal, em ocupações do

tempo, como, por exemplo, trabalhos manuais. Dessa forma esqueciam um pouco

a doença e o stress decorrente da tensão provocada pela necessidade de manter

a dieta exigida.

Para Abreu e Wagner (1989),

“A doença é sempre uma ameaça, de dor, de desconforto, de perdas e até mesmo de morte. Como será para uma pessoa que já conta em seu currículo com quatro ou mais décadas de vida perceber em si ou receber o diagnóstico de uma doença que ela conhece como mais comum em pessoas mais velhas?” (p.129).

No entanto, a velhice não precisa estar sempre acompanhada de

doenças.

Para

que

isso

seja

evitado,

campanhas de prevenção.

faz-se

necessário

à

realização

de

A atual Política de Saúde transfere para o âmbito municipal e para as

comunidades

locais,

a

responsabilidade

do

exercício

e

da

prioridade

dos

programas de saúde a serem executados em cada município.

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64

De acordo com a SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes), a SBEM

(Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e a APPD (Ação Pró-

Paciente Diabético), com uma assistência médica adequada e através de rigoroso

controle metabólico, pode-se, através de simples medidas preventivas e curativas,

prevenir ou retardar o aparecimento de complicações crônicas decorrentes da

doença Diabetes Mellitus. (SBD, SBEM, APPD, 1999).

Conforme dados do Centro Internacional de Diabetes de Minneapolis,

nos EUA, cada dólar investido em campanhas de prevenção e educação da

doença Diabetes Mellitus, resulta numa economia estimada de 6 dólares para a

rede de saúde. (SBD, SBEM, APPD, 1999).

Maior ainda seria essa economia se a doença fosse controlada antes

do aparecimento de suas

complicações crônicas: cegueira, amputações de

membros, insuficiência renal, doenças cardiovasculares e outras mais, que exigem

um número maior de recursos médicos, hospitalares e financeiros.

O

Ministério

da

Saúde,

as

associações

de

diabéticos,

entidades

médicas inter-relacionadas com a doença e a iniciativa privada, tais como,

laboratórios farmacêuticos, têm buscado a realização de programas de prevenção

do Diabetes Mellitus, a nível federal, estadual e municipal. (informação verbal).

Visando o bem estar da comunidade, poderiam ser realizadas alianças

entre os setores público e privado, de modo a oferecer à população, serviços de

saúde de qualidade que priorizassem a prevenção e educação das doenças.

Para a SBD, a SBEM e a APPD, ações de implantação de um programa

de municipalização da assistência ao paciente diabético, dependem apenas da

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65

vontade política dos prefeitos e dos vereadores de cada município.(SBD, SBEM,

APPD, 1999).

Segundo Bicudo, (1997), apenas com uma Educação para o Diabetes,

o indivíduo encontraria um caminho para uma melhor qualidade de vida. Ao

adquirir conhecimentos e compreensão dos fatores que interferem no controle da

doença, tais como, alimentação inadequada e falta de exercícios físicos, poderá

prevenir-se das complicações agudas e crônicas, próprias do diabetes. E, dessa

forma, ocorrerá a diminuição do número de internações e, conseqüentemente, a

redução do alto custo do tratamento, tanto para o Governo, como para o próprio

paciente diabético. (134 p.)

Somente através da Educação para o Diabetes Mellitus, poder-se-á

conscientizar os indivíduos, promovendo a mudança de comportamentos errôneos

e a aquisição de hábitos e atitudes adequadas a uma qualidade de vida melhor.

“O Ser Humano é um Ser passível de mudança e, como tal é capaz de

transformar o meio em que vive e modificar as suas atitudes, deixando-se sempre,

influenciar pela sociedade a qual pertence”. (Labuto et al,166 p., 1998).

Portanto, a Educação para o Diabetes pode mudar as atitudes de um

indivíduo de modo que ele possa conviver melhor com a sua doença.

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“A experiência social de um indivíduo modificará suas atitudes, bem como, suas atitudes modificarão suas percepções sociais. Sendo assim, as atitudes podem mudar ou serem mudadas de diferentes maneiras, dependendo da informação e experiência que uma pessoa adquire, bem como da possibilidade de mudança em seu grupo de pertença. Vivemos em um meio social em permanente mudança. Muito do que acontece tem a ver com as atitudes dos grupos a que pertencemos ou não, e a mudança das relações entre grupos exige reajustamentos permanentes da nossa compreensão dos acontecimentos e constantes atribuições causais sobre o porque e o como das condições de mudança da nossa vida” (TAJFEL, 1982).

Ainda em sua pesquisa, Labuto et al (1998), constatou que dentre os sujeitos

pesquisados, apenas um mantinha o controle ideal do seu diabetes, seguindo

rigorosamente todo o tratamento: medicação, dieta e exercícios físicos. E, tinha

como reforço dos elementos estressores provocados pela doença, a família e a

religião.(166 p.)

Esse

indivíduo

freqüentava

assiduamente

as

palestras

proferidas

através da Associação Capixaba de Diabéticos, direcionadas para a problemática

da prevenção e educação para o enfrentamento da doença Diabetes Mellitus.

Há que se reconhecer o mérito do apoio dos familiares, da religião e de

ocupações diversas que ocupem o tempo ocioso (lazer, trabalhos manuais, etc),

para que um programa de prevenção e educação para a doença, tenha sucesso.

Para Craig e Edwards (1983), “os indivíduos com doenças crônicas,

bem como suas famílias, necessitam se adaptar a mudanças como, por exemplo,

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67

às perdas de ‘status’ no trabalho, na família e na sociedade, e também à sua nova

auto-imagem”. (apud Trentini et all, 1990, p.18).

Para Miller (1983), “manter a esperança na vida está associado a ter

algo ou alguém por quem viver ou seja, um relacionamento bom com familiares e

amigos leva o paciente a manter a esperança e enfrentar melhor os desafios

provocados pela doença”. (apud Trentini et al, 1990,p.23).

De fato, a família desempenha fundamental importância através do

reforço psico-social ao paciente diabético. Em casos de urgência que necessitam

de uma intervenção rápida e precisa, e, que ocorrem tão freqüentemente entre

pacientes com doenças crônicas e, mais ainda, entre indivíduos idosos, o apoio da

família se faz sentir de modo fundamental.

De acordo com Figueroa et al (1993):

“As reações da família ante a presença da doença dependem de vários fatores: do tipo de família, da cultura e da educação de cada membro e das atitudes dos parentes acerca da dor, da invalidez, dos regimes terapêuticos de uma enfermidade como o diabetes, podendo influenciar no estabelecimento da reação do paciente perante os sintomas ou complicações da doença. Um indivíduo com diabetes se encontra todos os dias frente às suas próprias necessidades, precisando, quase sempre, da sua família para auxilia-lo a solucionar seus problemas de saúde. A maneira como a família procede, influirá positiva ou negativamente sobre sua conduta terapêutica e portanto, no controle do seu diabetes”. (tradução nossa).

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Além da família, a religião, também, fornece ao indivíduo, um apoio, na

maioria das vezes, bastante eficaz.

De acordo com Laplatine (1991), em estudos que envolviam a doença e

a saúde, constatou-se uma forte relação mística e de comparação, envolvendo a

“doença e o sagrado, a medicina e a religião, a saúde e a salvação”.

Com o advento da genética, paira no ar, um misticismo eminente de

uma promessa de uma mensagem messiânica. A ciência promete num futuro

próximo, a cura de doenças consideradas incuráveis. Isso faz com que se

vislumbre

um

verdadeiro

“Paraíso”

na

Terra.

Para

o

indivíduo

religioso,

o

prognóstico da Saúde vencendo a Doença, traz embutido, através do simbolismo,

a luta do Bem vencendo o Mal. (informação verbal).

A maioria dos idosos, por si só, já é voltada para a religiosidade. Muitos,

ao se tornarem portadores de uma doença crônica, como, por exemplo, o

Diabetes, buscam, na religião, um apoio capaz de oferecer estratégias para o

enfrentamento da doença. (informação verbal).

Para que campanhas de prevenção e educação em Diabetes encontre

respaldo e retorno dos esforços empregados, há que se capacitar o indivíduo para

o enfrentamento da mesma e de suas conseqüências.

No caso do Diabetes Mellitus, todos os estudiosos são unânimes em

afirmar que a maior dificuldade encontrada para a administração da terapêutica, é

a dieta alimentar.

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“Parece claro que não adianta simplesmente recomendar a dieta, mas sim, traçar um plano de ação com o diabético, tentando buscar o melhor caminho para a resolução do problema, através de alternativas metodológicas que sejam capazes de estimular e motivar estas pessoas a participar e cumprir uma meta estabelecida em parceria: profissional de saúde/diabético/família.” (BICUDO, 134 p.,

1997).

O fato é que se convive numa sociedade onde os produtos dietéticos,

disponíveis para o consumo são uma minoria nas prateleiras dos super-mercados.

E os alimentos que existem são caríssimos. Ao participar de reuniões sociais, o

diabético raramente encontra alimentos apropriados a sua dieta.

Seria interessante que, com o apoio de profissionais especialistas, o

indivíduo diabético obtivesse capacidade de desenvolver um reforço psicossocial,

possibilitador

de

domínio

de

estratégias

de

coping

capazes

de

facilitar

a

assimilação de uma educação que visualize a prevenção do aumento da doença

no seu organismo, mantendo o permanente equilíbrio do self. (informação verbal).

Isso

porque,

o

cumprimento

da

dieta

depende

praticamente

do

paciente. Daí a importância de educar, conscientizando o indivíduo para realizar a

terapêutica recomendada.

O reforço psicossocial se faz muito necessário porque a dieta do

diabético reflete perdas de status anteriormente alcançadas.