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Universidade Federal do Paraná Faculdade de Direito Direito Civil B Profa. Rosalice Fidalgo Monitor: Thiago Dolberth

Início das atividades: 20/02/2014

MATERIAL DE REVISÃO PARA A PRIMEIRA PROVA BIMESTRAL

Caros e Caras,

Considerando que não iniciei a monitoria desde a primeira aula de civil, o material restará um pouco prejudicado no que tange os conteúdos iniciais. Seguirei o programa, explicando, brevemente, cada um dos dispositivos e indicando fontes para maiores esclarecimentos.

1. INTRODUÇÃO AO DIREITO DAS OBRIGAÇÕES

1.1. Direito das Obrigações. Importância. Objeto. Origens e transformações. Relações obrigacionais contemporâneas e o trafego obrigacional e contratual. A teoria da relação obrigacional como processo.

Importância: O direito das obrigações é o direito mais presente em nossas vidas. Pessoas podem nascer, crescer e morrer sem conhecer o direito das sucessões, grande parte do direito de família, mas conhecerá e muito dos direitos das obrigações.

As normas do direitos da obrigações “disciplinam os processos através dos quais as pessoas, nas relações que estabelecem, adquirem, modificam ou transferem os direitos que integram a sua esfera jurídica, ou disciplinam os modos de cooperação entre elas, com vistas ao aproveitamento de tais direitos 1 ”.

É por meio das relações obrigacionais que se estrutura o regime econômico. Pode-se afirmar que o direito das obrigações retrata a estrutura econômica da sociedade e compreende as relações jurídicas que constituem projeções da autonomia privada na esfera patrimonial. Manifesta-se sua importância prática ainda pela crescente frequência, no mundo moderno, da constituição de patrimônios compostos quase exclusivamente de títulos de crédito correspondentes a obrigações.

1 NORONHA, Fernando. Direito das Obrigações. 3ed.rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2010.

p.109

Ao contrário do direito das coisas, que segue o princípio do numerus clausus e se esgota em limitada tipificação submetida a disciplina uniforme, o direito das obrigações se estende a todas as atividades de natureza patrimonial, desde as mais simples às mais complexas 2 .

Objeto: O objeto do direito das obrigações são aquelas relações jurídicas que envolvem direitos de crédito ou direitos pessoais, também denominados direitos obrigacionais 3 .

No Direito das Obrigações vocês vão conhecer as normas que tratam das relações das pessoas entre si, é por isso que o Direito das Obrigações é também conhecido como Direito Pessoal. As obrigações entre as pessoas se originam de vários modos, especialmente do contrato.

Podemos conceituar o Direito das Obrigações como a disciplina que

trata das relações harmônicas entre as pessoas para a satisfação dos seus

Digo “relações harmônicas” porque a sociedade

exige harmonia, sob pena de conflito e caos social. Digo “satisfação de interesses” porque uma pessoa não consegue produzir sozinha tudo que precisa para viver, e por impulso precisa se relacionar com outra para obter bens de seu interesse. As relações obrigacionais acontecem a todo instante e são o suporte econômico da sociedade moderna de consumo, especialmente através do contrato de compra e venda.

interesses individuais.

Quanto mais a gente compra, aluga, troca, empresta, etc., mais dinheiro circula na economia, mais as lojas vendem, mais as fábricas produzem, mais os empresários lucram, mais empregos são gerados e mais impostos são arrecadados. Todos ganham! Mas para gastar é preciso ter dinheiro, e para isso é preciso trabalhar, e para isso é preciso estudar. Estudem pois! 4

Origem e Transformações: vide livro do Caio Maio disponível no link:

Teoria da Relação Obrigacional como Processo: Essa teoria foi trazida para o Brasil com o professor Clóvis de Couto e Silva. Trata-se de uma teoria que observa a relacional obrigacional além do mero “débito+crédito+partes” e passa

2 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro, Volume II: Teoria Geral das Obrigações. 8ed. São Paulo: Saraiva, 2012.p. 19 3 Ibidem. p.18 4 MENEZES, Rafael. Direitos das Obrigações. Disponível em:

a ver a relação como um conjunto de direitos, deveres, princípios, relações, partes e cada um desses elementos como processos.

A relação obrigacional tem sido visualizada, modernamente, sob o ângulo da

totalidade. O exame do vínculo como um todo não se opõe, entretanto, à sua compreensão como processo, mas, antes, o complementa. Como totalidade, a

A relação obrigacional pode

se entendida em sentido amplo ou em sentido estrito. Lato sensu, abrange todos

os direitos, inclusive os formativos, pretensões e ações, deveres (principais e secundários, dependentes e independentes), obrigações, exceções e, ainda, posições jurídicas. Stricto sensu, dever-se-á defini-la tomando em consideração

os elementos que compõe o crédito e o débito, como faziam os juristas romanos 5 .

relação obrigacional é um sistema de processos. (

)

A expressão "obrigação como processo", como já dito no início desse estudo,

pretende grifar a característica dinâmica das obrigações, em todas as suas fases,

desde seu nascimento até o adimplemento, que é a finalidade da obrigação. Todos esses atos que compõe as fases da obrigação tendem a esse fim: o adimplemento, e é exatamente essa também a finalidade da obrigação como um processo.

Sendo assim, percebemos que a obrigação como um processo só se aplica às obrigações que possuem, na finalidade, uma posição relevante.

Importante perceber também que a obrigação como um processo está intimamente ligada com as fontes e com o desenvolvimento do vínculo obrigacional, principalmente no que tange as fontes não enumeradas pela doutrina tradicional (teoria da crise das fontes).

Inúmeros fatores decorrentes da cultura e da imersão de valores passaram a influir poderosamente nas obrigações. A lei, no caso o código civil, não consegue

e nem poderia tentar abarcar todas as condutas sociais possíveis que gerassem

obrigações. O código civil Napoleônico tentou e fracassou nessa árdua missão.

O renomado professor Clóvis do Couto e Silva ressalta que para o conceito de

obrigação como processo é importante a distinção entre fontes com suporte

fático normado e negociais. "Larenz inclui entre as fontes normadas os atos ilícitos, a responsabilidade pelo risco, o enriqucimento sem causa, a gestão de

Em

negócios, a administração legal de patrimônio alheio, além de outros. (

ambas haverá, é certo, a separação entre a fase do nascimento e a do

adimplemento ou satisfação [31] ".

Também não há como se falar em obrigação como processo sem percebermos que em sua estrutura, a obrigação, apresenta dois elementos: o débito (schuld)

e a responsabilidade (haftung). Essa teoria (teoria dualista) nasceu na doutrina

Alemã. O devedor se obriga e seu patrimônio responde. Desenvolveu-se assim o conceito de débito, de dever de prestar, a que corresponde o direito de exigir do credor, transformando-se a responsabilidade pessoal em patrimonial. 6

)

5 SILVA, Clóvis V. do Couto e, A obrigação como processo. Rio de Janeiro: FGV, 2007. p. 20. 6 OLIVEIRA, Ricardo Lima de. A obrigação como processo. Jus Navigandi, Teresina, ano 15, n. 2708, 30 nov. 2010. Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/17974>. Acesso em: 17 abr.

2014.

1.2. Novos princípios em matéria de obrigações. A “repersonalização” das relações obrigacionais. Complexidade intraobrigacional e boa-fé objetiva.

Novos Princípios em matéria de obrigações:

Além dos princípios clássicos do direito das obrigações, como o da autonomia da vontade, pacta sund servanda, o da patrimonialidade, da exata indenização, manutenção do patrimônio, com a constitucionalização do direito civil, tivemos a incorporação de princípios constitucionais pelo direito civil, quais sejam:

i) Boa-fé objetiva: O princípio da boa-fé, por sua vez, reflete a confiança que as partes depositam em seus comportamentos recíprocos, vedando cláusulas abusivas. Importa conduta honesta, leal e correta, explicitada no paradigma da confiança;

ii) O princípio da função social foi consagrado em nosso ordenamento jurídico, através do art. 421 do Código Civil, que elenca a necessidade do exercício dos interesses individuais das partes do contrato em conformidade com os interesses sociais, que são prevalecentes. Busca-se a criação, por meio dos princípios sociais do contrato, de uma justiça distributiva na sociedade, perspectiva que pode ser encontrada no próprio texto constitucional brasileiro, no art. 170, que estabelece que toda atividade econômica está submetida à primazia da justiça social. O contrato, vale dizer, é o instrumento de realização da atividade econômica e de promoção do tráfico jurídico, motivo pelo qual deve ser interpretado segundo a ótica do equilíbrio justo, contemplando a tutela da parte mais vulnerável, em proteção ao interesse socialmente aferível.

A “repersonalização” das relações obrigacionais:

Mediante a incorporação de princípios constitucionais às relações obrigações, passamos a ter a obrigação como processo, que deve estar atenta às relações sociais. Há aqui uma ruptura do princípio da relatividade contratual de que o negócio jurídico só gera efeitos entre as partes adota-se a ideia de que o contrato surtir efeitos em terceiros, desde que esses puxem para si confiança em relação à obrigação.

Para uma leitura mais ampla acerca deste ponto, compartilho um texto curto e muito bom:

https://www.dropbox.com/s/uq1jzehtbcgqr2m/A%20TRANSPERSONALIZA%C3

%87%C3%83O%20DOS%20DEVERES%20OBRIGACIONAIS.pdf

Complexidade intra-obrigacional e boa-fé objetiva:

A complexidade intra-obrigacional prega que a obrigação não é o simples débito e credito que liga dois sujeitos. Na relação obrigacional repousam muitos outros elementos que devem ser observados, isso sob a luz dos princípios constitucionais e norteadores das relações contratuais.

Na abordagem intra-obrigacional, diga-se que a boa-fé exerce função integrativa, obrigando os partícipes da relação obrigacional à observância de deveres outros que não digam necessariamente com a prestação principal que caracteriza a obrigação. Chamados de deveres de acessório por João de Matos ANTUNES VARELA, acentua o autor que tais “recaem sobre o devedor, como afectam o credor, a quem incumbe evitar que a prestação se torne desnecessariamente mais onerosa para o obrigado e proporcionar ao

Em outras

devedor a cooperação de que ele razoavelmente necessite

palavras, a sua existência reforça a afirmação de que a relação obrigacional

é algo a mais do que a simples obrigação em sentido estrito, e que seu cumprimento comporta entendimento que vai além da satisfação da prestação principal.

”.

Antes de estudar as reverberações deste entendimento na situação patológica do descumprimento, dedica-se, o próximo capítulo, ao estudo dos grupos de deveres laterais que compõe a relação obrigacional entendida como processo e complexidade 7 .

Para ler mais sobre o assunto, acesse o seguinte link:

https://www.dropbox.com/s/q1jc5xow7a4m4dw/Versao%20Final%20Renat

a%20Steiner.pdf

20/02/2014 Início da Monitoria

Distinção entre direitos pessoais (obrigacionais ou de crédito) e direitos reais.

7 STEINER, Renata Carlos. Complexidade Intra-obrigacionale descumprimento da obrigação: da violação positiva do contrato. Dissertação. UFPR. 2009

Não devemos confundir direitos da personalidade com direitos obrigacionais, pois aqueles tutelam direitos intransmissíveis, irrenunciáveis.

O primeiro critério utilizado para a diferenciação dos direitos reais com os direitos pessoais é a eficácia.

a) Eficácia: Vamos pensar a seguinte hipótese:

João é proprietário de uma imóvel e ele locou esse imóvel para Pedro. Pedro, na qualidade de locatário, não restituiu o imóvel ao final do contrato, tornando- se inadimplente. Pedro, então, utilizou-se de uma procuração falsa e vendeu o imóvel para Antônio. Antônio, acreditando que a apropriação era verdadeira, emprestou o imóvel para Joaquim, de tal modo que o Joaquim é o possuidor do imóvel, por meio de um contrato de comodato.

João acionará Pedro, desfazendo o contrato de locação, para depois fazer o contrato de compra e venda, tendo em vista que foi feito por meio de uma procuração falsa, e alegando a nulidade do contrato de comodato.

João pode acionar diretamente Joaquim, sem antes fazer o caminho acima. O direito real tem uma eficácia ABSOLUTA, ou seja, é oponível a todos, a quem quer seja, ele tem oponibilidade erga omnes. Além disso, temos também o “Poder de Sequela”, pois o detentor do direito real pode perseguir a coisa onde quer que ela esteja.

Outra hipótese: João (credor) comprou e pagou todo o imóvel para Pedro (devedor). O imóvel já foi pago por João, mas Pedro resolve vender o imóvel para Antonio, que ofereceu um valor bem acima do de João. Pode João opor seu direito em face de Antonio?

Não. João só pode opor seu direito em face de Pedro, porque o direito de crédito não é oponível a terceiros, pois não tem eficácia absoluta, mas sim RELATIVA. O direito de crédito só pode ser oponível em relação ao devedor, pois a relação obrigacional se dá entre o Credor e o Devedor, e não atinge terceiros.

O texto

enviado

TUTELA

EXTERNA

DO

CRÉDITO

ZECA

PAGODINHO trata da questão da eficácia relativa e absoluta.

b) Objeto: No direito obrigacional o objeto é a PRESTAÇÃO (FAZER, NÃO FAZER E DAR). Não é um bem material, uma coisa. Mas sim a prestação, um comportamento do devedor, que é considerado bem, mas não um bem material.

Os direitos reais têm por objeto a própria COISA. O Direito recai sobre a

coisa.

c) Constituição: Os direitos reais são em número fechados, são somente aqueles previstos no art. 1.225, do Código Civil tipicidade. NÃO EXISTEM DEMAIS DIREITOS REAIS. Isso significa que os direitos reais são regidos pelo princípio da tipicidade. Não há possibilidade dos particulares criarem direitos reais além daqueles criados pelo Legislador.

Não existe tanta liberdade nos direitos reais como há no direito obrigacional. Em relação a este, o art. 425, do Código Civil diz que é lícito às partes celebrarem qualquer forma de contrato, inclusive aqueles que não estão previstos no CC, desde que atentem-se às normas gerais dos negócios jurídicos.

Por isso, os direitos obrigacionais são regidos pelo Princípio da Atipicidade.

Por conta desse princípio, discute-se acerca da “multipropriedade”, que é mais um “direito real” criado pelos particulares. Mas é um tema bastante discutível.

Dentro dessa distinção elaborada, há figuras que não se encaixam nem em uma nem em outra, estão localizados numa zona cinzenta, intermediária no direito, que passaremos a analisar.

Figuras Intermediárias

a) Obrigação Real (propter rem): É uma relação obrigacional que nasce por conta do direito real, é acessoriamente ligada. Exemplo: A é proprietário de um imóvel no condomínio B. Logo, ele é devedor da “taxa” de condomínio ao B. A obrigação proter rem tem estrutura de obrigação, mas ela tem função de direito real, porque ela tem uma funcionalidade que é dada pelo Direito Real e NÃO DEPENDE DE VONTADE DAS PARTES. Essa obrigação liga-se ao TÍTULAR DA COISA e não à própria coisa.

A Taxa de condomínio está prevista do art. 1.336, I, do CC. Outro exemplo de obrigação propter rem é o Condomínio tradicional, previsto no art. 1.315, CC uma vez que mais de uma pessoa tem a propriedade de um imóvel, cada um deles é responsável pelas despesas de conservação da coisa, na proporção da sua parte ideal.

Outro exemplo também é o caso do art. 1.297, do CC, que trata da obrigação que têm os proprietários de imóveis contínuos de dividir as despesas de muros, tapumes que dividem os imóveis.

b) Ônus Real: é uma obrigação que recai sobre uma coisa, é uma obrigação

que onera a própria coisa. Todos os anos, o Município de Curitiba faz a cobrança do IPTU, temos uma relação jurídica obrigacional atrelada à coisa. Essa obrigação tem uma natureza um pouco diferente da “propter rem”, porque esse ônus está atrelado à própria coisa, que, no caso de inadimplemento, pode o Município levar o imóvel à venda judicial, o imóvel é garantia de pagamento do ônus real.

c) Direito pessoal com eficácia de direito real: Um ex: é o caso do

promitente comprador, previsto no art. 1.417, do CC. Art. 27, da Lei nº 8.245/91.

Nascem como direitos obrigacionais, mas com o preenchimentos de certos requisitos passa a atuar como direito real.

O promitente comprador é aquele que fez um compromisso de compra e

venda de bem imóvel e sobre ele discute-se se é um contrato promessa ou uma promessa de contrato, é um contrato que antecede o outro no caso o de

Compra e Venda Dec. Lei nº 58/37.

A mesma coisa ocorre em relação ao locatário de imóvel urbano, que tem

preferência na aquisição do imóvel, com eficácia de direito real.

Fontes das Obrigações

a) Definição: As fontes não se confundem com as fontes do direito. As fontes das obrigações são a lei, os contratos e atos ilícitos.

Fonte de obrigações é, segundo Orlando Gomes, ato jurídico a que a lei atribui efeito de gerar a obrigação.

A Lei é sempre uma fonte imediata de obrigações. As demais, os contratos e os atos ilícitos, são fontes mediatas.

Quais são as fontes mediatas?

b) Definição das fontes: O CC não fala em nenhum momento quais são,

mas arrola uma série delas: i) contrato; ii) Responsabilidade civil; iii) atos unilaterais de vontade; iv) pagamento indevido; v) enriquecimento sem causa; vi) gestão de negócios; vii) títulos de crédito

***************** CADERNO DE UMA ALUNA ****************

Fontes das Obrigações - RUPTURA DA DUALIDADE DAS FONTES DAS OBRIGAÇÕES

Classificação que era a lei ou a vontade das partes (fonte das obrigações), sofreu uma ruptura, tem outras fontes. Boa-fé objetiva TJRS, AP. cível 70002735074 família foi a uma festa na empresa, foram no shopping depois, quando eles retornaram o carro tinha sido furtado. O shopping era responsável porque, com base na súmula nº 130 do STJ, o shopping deve pagar, tendo em vista que se beneficia do estacionamento. Quando eu entrego um bem móvel para guarda e posteriormente o pego, isso configura um CONTRATO DE DEPOSITO depositante deixa nas mãos do depositário o bem móvel para que a outra pessoa, o depositário, depois de certo prazo o restitua. Mas no caso do shopping ocorre o contrato de deposito? Declaração de vontades? Acordo vinculativo de vontades? Ocorre um comportamento social, deixa o carro e volta para buscar, não tem troca de declarações de vontade. Realizando uma aproximação entre as partes, a jurisprudência brasileira considerou um CONTRATO DE DEPOSITO TÁCITO. Mas neste caso o TJRS mudou o fundamento, não com base no contrato de deposito tácito. Responsabilidade civil dever de vigilância de boa fé objetiva (sem decorrer em contrato de deposito) descumprimento do dever de proteção originado na boa-fé objetiva. “contato social” – espera que o carro seja bem cuidado, deposita uma confiança, a conduta é chamada de “contato social”, que desperta a confiança e impõe ao shopping o dever de proteção. Como o veiculo foi furtado, o dever de proteção não foi cumprido, o shopping tem o dever de indenizar o dono do veiculo. Fonte da obrigação é o contato social, a BOA-FÉ objetiva.

Art. 422 probidade e boa fé tem que se comportar em conformidade a boa-fé.

Clovis do Couto e Silva – “obrigação como processo” – Larenz a obrigação, herdada do direito romano, confirmada pelos modernos os romanos não conheciam a obrigação, o direito romano é baseado nas relações, tem que ter o direito de ação para ter direito.

Nexum a obrigação do devedor é patrimonial. Relação estática onde o devedor só tem deveres e o credor somente direitos. Larenz diz que a obrigação não pode ser estática, a perspectiva estrutural da relação e vê uma finalidade da obrigação, que é o credor receber a divida adimplemento (para finalizar a obrigação. Tem q ver a obrigação como dinâmica, cooperação entre devedor e credor. Totalidade de atos que vão ser praticados tanto pelo credor quanto pelo devedor para alcançar o adimplemento da obrigação.

Locação locatário em face do locador todo locatário tem obrigação de pagar aluguel, todo locador tem obrigação de transferir a posse do imóvel para

o locatário. Dever principal de prestação. São os deveres de prestar que as partes tem obrigação de prestar uma em função da outra. No final do contrato o locatário tem obrigação de restituir o imóvel locado. Dever secundário do locatário juros e mora (atraso). Os deveres Principais e secundários ou derivam da vontade das partes ou da lei. Art. 422, do CC deveres não previstos no contrato, e não positivados em lei. DEVERES ACESSÓRIOS DE CONDUTA. Ex. na locação se um terceiro privar o locatário (ameaça de privar também), o locatário tem o dever de informar esse fato ao locador. Deveres de informação, cooperação, lealdade, etc relação jurídica de caráter DINÂMICO. Conjunto de atos das partes. Ex: relações de consumo toda relação de consumo é uma obrigação e

é uma relação com processo concepção de processo. Art. 6º, III CDC: direito básico do consumidor informação adequada e clara de características, preço, riscos, e tec. Dever de informar do vendedor e um direito do comprador. A fonte disso

é a lei constante do CDC, antes disso seria a boa-fé objetiva. O principio da boa- fé foi positivado na lei. Ex: proteção a saúde do consumidor não pode causar prejuízo ao consumidor alguns produtos que têm risco próprio (fósforo, querosene, etc). dano à saúde do consumidor, deve o produtor ou o comerciante adotarem dever se segurança. Um indivíduo comprou refrigerante, observou um sapo em estado de putrefação, o refrigerante estava estragado, o fornecedor foi condenado por danos patrimoniais e morais não sofreu dano à saúde, mas sofreu danos morais.

Relação obrigacional como processo.

************** FIM DO CADERNO DA ALUNA **********

Elementos da obrigação: são três:

a) duplo sujeito: o Direito das Obrigações trata das relações entre pessoas, então toda obrigação tem dois sujeitos, um ativo, chamado credor, e um passivo, chamado devedor. Não existe relação obrigacional com apenas um

sujeito (art. 381). Pode haver num dos pólos mais de um credor e mais de um devedor (art. 257). Numa relação simples, sabe-se exatamente qual das partes

é a credora e qual é a devedora (ex: José bate no carro de Maria, então José é devedor e Maria é credora), mas numa relação complexa ambos os sujeitos são simultaneamente credores e devedores (ex: contrato de compra e venda, onde

o comprador deve o dinheiro e é credor da coisa, e o vendedor deve a coisa e é

credor do dinheiro). Tais obrigações complexas são também chamadas de sinalagmáticas. Os sujeitos precisam ser bem identificados para que o devedor

saiba a quem prestar, e o credor saiba de quem receber. Excepcionalmente o devedor pode ser desconhecido (ex: qualquer pessoa que adquira imóvel hipotecado responde pela dívida, apesar de não ter originariamente assumido a obrigação; art. 303, mais detalhes em Civil D) e o credor também pode ser desconhecido (ex: o credor faleceu ou desapareceu, deve então o devedor pagar na Justiça, por meio de depósito judicial, para se livrar da obrigação, art. 334; outro ex: art. 855).

b) vínculo jurídico: o vínculo liga os sujeitos ao objeto da obrigação. O vínculo é a força motriz da relação obrigacional. O vínculo seria qualquer acontecimento relevante para o direito capaz de fazer nascer uma obrigação (ex:

um acidente de trânsito gera um ato ilícito, um acordo de vontades produz um contrato, etc).

c) objeto: atenção com o objeto! O objeto da obrigação não é uma coisa, mas um fato humano/uma conduta ou omissão do devedor

chamada prestação. A prestação possui três espécies: dar, fazer, ou não- fazer. Na obrigação de dar o objeto da prestação é uma coisa (ex: dar dinheiro, dar uma TV), mas o objeto da obrigação é a ação de entregar a coisa, não

a coisa em si. Na obrigação de fazer o objeto da prestação é um serviço (ex: o cantor realiza um show, o advogado redige uma petição, o professor ministra

uma aula). Finalmente, na obrigação de não-fazer, o objeto da prestação é uma omissão/abstenção (ex: o químico da fábrica de perfume é demitido e se obriga

a não revelar a fórmula do perfume).

Quando se fala em objeto da obrigação, estamos falando do OBJETO IMEDIATO que é a conduta humana de DAR, FAZER ou NÃO FAZER. O objeto da prestação, que aí sim é a coisa, chamamos de OBJETO MEDIATO, que pode ser o dinheiro, das obrigações de DAR, pintar um quadro nas obrigações de FAZER ou, ainda, não construir um muro, nas obrigações de NÃO FAZER.

Como o objeto da obrigação é a prestação, mesmo na obrigação de dar o credor não tem poder sobre a coisa, mas sim sobre a prestação (ex: compro uma

geladeira e a loja promete me entregar em casa, mas a loja não cumpre, não posso por isso invadir a loja e pegar a geladeira à força, devo sim exigir perdas

e danos, art. 389 trata-se da responsabilidade patrimonial do devedor, como dito acima).

As obrigações de dar e de fazer são positivas, e a de não-fazer é a chamada obrigação negativa.

comprar

drogas, contratar o serviço de um “pistoleiro”, etc), possível (ex: viagem no

O objeto da obrigação para ser válido precisa ser lícito (ex:

tempo, procurar um anel no mar, encontrar um dinossauro vivo), determinável (a coisa devida precisa ser identificada, art. 243) e ter valor econômico para viabilizar o ataque ao patrimônio do devedor em caso de inadimplemento (art.

947). Acrescentem “valor econômico” ao art. 104, II, do CC.

vimos o sujeito, o objeto e começamos a estudar o vínculo jurídico.

O

VÍNCULO JURÍDICO é um elemento imaterial da obrigação. Por que

imaterial? Ele é o elemento que liga os sujeitos ao objeto da relação. O VJ seria um elemento “espiritual” da relação. Atualmente, entende-se que

ele composto por dois elementos:

i) Débito: De caráter espontâneo e voluntário, pessoal direito de

devedor.

exigir do credor mais

o

dever

de

prestar

do

ii) Responsabilidade: De caráter forçado, porque está sendo o devedor forçado a cumprir a prestação, por não ter o feito de forma voluntária e de caráter patrimonial, porque há uma consequência pelo não cumprimento.

Hoje entende-se que o VJ é composto por estes dois elementos. Mas nem sempre foi assim, isso é resultado de uma discussão que se passou no direito alemão no século XIX.

Savigny defendia que o VJ tinha um caráter unitaristas: Teoria Unitária a respeito do vinculo jurídico da obrigação, que é composta apenas pelo débito, não fazendo parte a responsabilidade da relação de direito material, sendo a responsabilidade elemento de direito processual. Savigny se inspirava no direito romano entendendo que a obrigação seria caracterizada como um direito real, como um direito de propriedade que o credor tinha sobre determinados atos do devedor.

Brinz consolidou o entendimento que o VJ tem um caráter dualista Teoria Dualista, porque o VJ da obrigação seria composta pela “Shuld” – Débito e a “haftung” – Responsabilidade. Para os autores que adotaram essa teoria era mais valorizada a responsabilidade, dando ao vínculo jurídico um caráter patrimonial.

Numa terceira teoria, a eclética, que acabou se desenvolvendo no direito alemão, manteve-se o padrão da dualista, mas dizia que tanto o débito como a responsabilidade tinham a mesma importância.

No nosso direito, adotamos a teoria dualista. Tudo isso é importante para voltarmos um pouco do que estudamos de “obrigação como

processo”, como visto a aula passada. O VJ é composto, além do direito de exigir, direitos principais, é composto por deveres secundários e deveres acessórios.

Clóvis de Couto e Silva só utilizou o termo “deveres secundários”, para abordar aqueles que facilitam o cumprimento dos deveres principais como os demais deveres. Fernando Noronha chama os deveres acessórios, de deveres fiduciários. Judith Martins-Costa fala em deveres principais, em deveres secundários e acessórios/laterais de conduta.

O processo é um conjunto de atos que tem por objetivo atingir um fim, que

é o cumprimento da obrigação. E neste processo as partes tem direitos que são atribuídos não somente ao credor, superando a ideia de que só o credor tem direitos, mas o devedor também tem direitos potestativos na relação obrigacional.

O credor tem seu direito de crédito, ele tem a pretensão: é o poder de exigir de outrem um comportamento positivo ou negativo. A pretensão faz parte do próprio conteúdo do direito de crédito, dando ao credor o poder de exigir o comportamento por parte do devedor. Tanto que o que prescreve é a pretensão

e não o direito subjetivo.

Podemos falar também em “faculdades”: poderes de agir contidos do direito subjetivo se revela mais quando se fala de direito subjetivo real, em direitos reais: usar, gozar e reaver a coisa onde e de quem quer a tenha.

Exceções: Orlando Gomes = é direito que assiste a uma pessoa de impedir

o exercício, contra si, do direito de outrem. Numa relação jurídica também há

exceções, que é um contra direito. Vamos imaginar que A é devedora de B, em R$ 500 reais. Há outra obrigação entre essas partes em que B é devedora de A, também em R$ 500. Se B cobrar de A o pagamento, o que A pode fazer? Declarar

“exceção”. Teremos aqui “compensação”, forma alternativa de adimplemento.

- Martins-Costa – “A boa-fé no direito privado”; “Comentário ao Código Civil” – a parte que trata da obrigação como processo.

ESPÉCIES DE OBRIGAÇÃO

São três, duas positivas (dar e fazer) e uma negativa (obrigação de não-

fazer).

1 obrigação de dar: conduta humana que tem por objeto uma coisa, subdividindo-se em três: obrigação de dar coisa certa, obrigação de restituir e obrigação de dar coisa incerta.

1.1 obrigação de dar coisa certa: vínculo jurídico pelo qual o devedor se compromete a entregar ao credor determinado bem móvel ou imóvel, perfeitamente individualizado.

Aqui temos a aplicação de três princípios básicos: i) O acessório segue a sorte do principal; ii) identidade da coisa devida; e iii) res perit domino a coisa perece para o dono.

Tal obrigação é regulada pelo Código Civil a partir do art. 233, salvo acordo entre as partes, ou seja, se as partes não ajustarem de modo diferente, vão prevalecer as disposições legais. Na autonomia privada, como dito em a aula, a liberdade das partes é grande, e o Código Civil serve mais para completar a vontade das partes caso haja omissão no ajuste entre elas. Diz-se por isso que a maioria das normas de direito privado são supletivas, enquanto a maioria das normas de direito público são imperativas = obrigatórias.

O que vai caracterizar a obrigação de dar coisa certa é porque o objeto da prestação é coisa única e preciosa, ex: a raquete de Guga, o capacete de Ayrton Senna, a camisa dez de Pelé, etc. (art. 235). O devedor obrigado a dar coisa certa não pode dar coisa diferente, ainda que mais valiosa, salvo acordo com o credor (art. 313 mais uma norma supletiva).

Se o devedor recebe o preço e se recusa a entregar a coisa, o credor não pode tomá-la, resolvendo-se o litígio em perdas e danos (art. 389). A obrigação não gera direito real ( = sobre a coisa), mas apenas direito pessoal ( = sobre a conduta). Excepcionalmente, admite-se efeito real caso a coisa continue na posse do devedor (ex: A combina vender a B o capacete de Ayrton Senna, B paga mas depois A recebe uma oferta melhor e termina vendendo o capacete a C; B não pode tomar o capacete de C, mas caso estivesse ainda com A poderia fazê- lo através do Juiz; esta é a interpretação do art. 475 do CC que vocês estudarão em Civil C). Então o art. 389 é a regra e o art. 475 (execução forçada do contrato) é a exceção.

E se a obrigação não gera direito real, o que vai gerar? Resposta: a tradição para as coisas móveis e o registro para as coisas imóveis. Tradição e registro são assuntos de Direitos Reais mas que já devo adiantar. Tradição é a entrega efetiva da coisa móvel (art. 1226 e art. 1267), então quando compro uma geladeira, pago a vista e aguardo em casa sua chegada, só serei dono da coisa quando recebê-la. Ao contrário, se compro um celular a prazo e saio com ele da loja, o aparelho já será meu embora não tenha pago o preço (art. 237). Eventual perda/roubo da geladeira/celular trará prejuízo para o dono, seja ele a loja ou o consumidor, a depender do momento da tradição. É a confirmação do brocardo romano res perit domino (= a coisa perece para o dono), seja o comprador ou o vendedor, até a tradição (art. 492). Se o devedor danificar a coisa antes da tradição, terá que indenizar o comprador por perdas e danos (art. 239).

Por sua vez, o registro é a inscrição da propriedade imobiliária no Cartório de Imóveis, de modo que o dono do apartamento não é quem mora nele, não é quem pagou o preço ou quem tem as chaves. O dono da coisa imóvel é aquele cujo nome está registrado no Cartório de Imóveis (art. 1245 e § 1º). Mais detalhes sobre tradição e registro em Civil 4.

Melhoramentos: Acréscimos antes da tradição, aplica-se o art. 237, CC os acréscimos são do devedor, tendo o direito ao aumento do valor da coisa. Os frutos percebidos são do devedor. Se os frutos surgirem após a tradição, serão estes do devedor ou seja, de quem comprou a coisa.

Avulsão: art. 241 melhoramentos sem emprego do devedor. Com emprego, art. 242, benfeitorias e frutos necessárias, úteis e voluptuárias.

Se a coisa perece sem culpa do devedor, quem sofre o prejuízo é o proprietário, resolvendo-se a coisa.

Se a coisa perece por culpa do devedor, art. 234, o devedor responderá pelo valor equivalente mais perdas e danos (danos emergentes e lucros cessantes).

Deterioração: Se a coisa se deteriora sem culpa do devedor, art. 235, do CC, o credor pode aceitar a coisa e abater o valor ou resolver a coisa. Se a coisa se deteriorar com culpa, art. 236, do CC, cabe indenização por perdas e danos, ou o credor pode aceitar a coisa mais a indenização pelas perdas e danos.

1.2 obrigação de restituir: é também chamada de obrigação de devolver. Difere da obrigação de dar, pois nesta a coisa pertence ao devedor até a tradição, enquanto na obrigação de restituir a coisa pertence ao credor, apenas

sua posse é que foi transferida ao devedor. Posse e propriedade são conceitos que serão estudados em Direitos Reais, mas dá para entender que quando se aluga um filme, a locadora continua sendo proprietária do filme, é apenas a posse que se transfere ao cliente. Então na locação o cliente/devedor tem a obrigação de restituir o bem ao locador após o prazo acertado (art. 569, IV). Como se vê, na obrigação de restituir a prestação consiste em devolver uma coisa cuja propriedade já era do credor antes do surgimento da obrigação. Igualmente se eu empresto um carro a meu vizinho, eu continuo dono/proprietário do carro, apenas a posse é que é transferida, ficando o vizinho com a obrigação de devolver o veículo após o uso. Locação e empréstimo são exemplos de obrigação de restituir, ficando a coisa em poder do devedor, mas mantendo o credor direito real de propriedade sobre ela.

Como a coisa é do credor, seu extravio antes da devolução trará prejuízo

ao próprio credor (art. 240), enquanto na obrigação de dar o extravio antes da tradição traz prejuízo ao devedor. Em ambos os casos, sempre prevalece a máxima res perit domino. Mas é preciso cuidado para evitar fraudes (art. 238, ex:

alugo um carro que depois é furtado, o prejuízo será da loja, por isso é prudente

a locadora sempre fazer seguro). Outro exemplo de obrigação de restituir está no art. 1.233, então se “achado não é roubado”, também não pode ser apropriado, devendo quem encontrar agir conforme o p.ú. do mesmo artigo. Aqui, não havendo culpa do devedor, de quem alugou o carro, por exemplo, o credor não terá direito à indenização, tendo de suportar todo o prejuízo.

Se a coisa perece por culpa do devedor, por exemplo, se a loja aluga

o carro para o sujeito e ele faz um racha, ele deverá pagar à loja o equivalente ao carro mais as perdas e danos decorrentes, art. 239, do CC.

Bem feitorias: art. 242, do CC:

a) Boa-fé terá direito aos frutos percebidos e à indenização pelas benfeitorias úteis e necessárias, tendo direito de levantar as voluptuárias sem detrimento da coisa. Terá, ainda, direito de exercer a retenção até ser reembolsado do valor dos melhoramentos úteis e necessários.

b) Má-fé - terá direito à indenização apenas pelas benfeitorias necessárias, sem direito de levantar as voluptuárias. Deve responder pelos frutos percebidos e pelos que, culposamente, deixou de perceber; tendo, porém, direito às despesas de produção e custeio.

Impossibilidades das Obrigações de dar ou restituir:

As impossibilidades podem ser originárias ou supervenientes.

Originárias: quando ligadas a vícios que geram a nulidade do negócio jurídico lembrar dos defeitos do negócio jurídico. Supervenientes: casos em que a obrigação nasceu válida, m mas por algum motivo ela se torna impossível, antes da tradição. Podemos ter aqui o perecimento, a coisa deixa de existir, perde sua essência; e deterioração, o bem existe, mas desvalorizado.

1.3 obrigação de dar coisa incerta: nesta espécie de obrigação a coisa não

é única, singular, exclusiva e preciosa como na obrigação de dar coisa certa, mas

sim é uma coisa genérica determinável pelo gênero e pela quantidade (art. 243). Ao invés de uma coisa determinada/certa, temos aqui uma coisa determinável/incerta (ex: cem sacos de café; dez cabeças de gado, um carro popular, etc). Tal coisa incerta, indicada apenas pelo gênero e pela quantidade no início da relação obrigacional, vem a se tornar determinada por escolha no momento do pagamento. Ressalto que coisa “incerta” não é “qualquer coisa”, mas coisa sujeita a determinação futura. Então se João deve cem laranjas a José, estas frutas precisam ser escolhidas no momento do pagamento para serem entregues ao credor.

Esta escolha chama-se juridicamente de concentração. Conceito: processo de escolha da coisa devida, de média qualidade, feita via de regra pelo devedor (art. 244). A concentração implica também em separação, pesagem, medição, contagem e expedição da coisa, conforme o caso. As partes podem combinar que

a escolha será feita pelo credor, ou por um terceiro, tratando-se este artigo 244 de uma norma supletiva, que apenas completa a vontade das partes em caso de omissão no contrato entre elas.

Após a concentração a coisa incerta se torna certa (art. 245). Antes da concentração a coisa devida não se perde pois genus nunquam perit (o gênero nunca perece). Se João deve cem laranjas a José não pode deixar de cumprir

a obrigação alegando que as laranjas se estragaram, pois cem laranjas são cem

laranjas, e se a plantação de João se perdeu ele pode comprar as frutas em outra

fazenda (art. 246).

Todavia, após a concentração, caso as laranjas se percam (ex: incêndio no armazém) a obrigação se extingue, voltando as partes ao estado anterior, devolvendo-se eventual preço pago, sem se exigir perdas e danos (art. 234, art. 389, art. 402). Pela importância da concentração, o credor deve ser cientificado quando o devedor for realizá-la, até para que o credor fiscalize a qualidade média da coisa a ser escolhida.

2 obrigação de fazer: conduta humana que tem por objeto um serviço. Conceito: espécie de obrigação positiva pela qual o devedor se compromete a praticar algum serviço lícito em benefício do credor. Enquanto na obrigação de dar o objeto da prestação é uma coisa, na obrigação de fazer o objeto da prestação é um serviço (ex: professor ministrar uma aula, advogado redigir uma petição, cantor fazer um show, pedreiro construir um muro, médico realizar uma consulta, etc.). E se eu quero comprar um quadro e encomendo a um artista, a obrigação será de fazer ou de dar? Se o quadro já estiver pronto a obrigação será de dar, se ainda for confeccionar o quadro a obrigação será de fazer.

A obrigação de fazer tem duas espécies:

2.1 fungível: quando o serviço puder ser prestado por uma terceira pessoa, diferente do devedor, ou seja, quando o devedor for facilmente substituível, sem prejuízo para o credor, a obrigação é fungível (ex: pedreiro, eletricista, mecânico, caso não possam fazer o serviço e mandem um substituto, a princípio para o credor não há problema). As obrigações de dar são sempre fungíveis pois visam a uma coisa, não importa quem seja o devedor (art. 304).

2.2 infungível: ao credor só interessa que o devedor, pelas suas qualidades pessoais, faça o serviço (ex: médico e advogado são profissionais de estrita confiança dos pacientes e clientes). Chama-se esta espécie de obrigação de personalíssima ou intuitu personae ( = em razão da pessoa). São as circunstâncias do caso e a vontade do credor que tornarão a obrigação de fazer fungível ou não.

Em caso de inexecução da obrigação de fazer o credor só pode exigir perdas e danos (art. 247). Viola a dignidade humana constranger o devedor a fazer o serviço por ordem judicial, de modo que na obrigação de fazer não se pode exigir a execução forçada como na obrigação de dar coisa certa (art. 475 sublinhem exigir-lhe o cumprimento). Imaginem um cantor se recusar a subir no palco, não é razoável o Juiz mandar a polícia para forçá-lo a trabalhar “manu militari”, o coerente é o credor do show exigir perdas e danos (389). Ninguém pode ser diretamente coagido a praticar o ato a que se obrigara. Assim, a execução “in natura” do art. 475 do CC deve ser substituída por perdas e danos quando for impossível (ex: a coisa devida não está mais com o devedor) ou quando causar constrangimento físico ao devedor (ex: obrigação de fazer).

Se ocorrer recusa do devedor de executar obrigação fungível, o credor pode pedir a um terceiro para fazer o serviço, às custas do devedor (art. 249). Havendo urgência, o credor pode agir sem ordem judicial, num autêntico

caso de realização de Justiça pelas próprias mãos (pú do 249, ex: consertar o telhado de casa ameaçando cair).

Mas se tal recusa decorre de um caso fortuito (ex: o cantor gripou e perdeu a voz), extingue-se a obrigação (art. 248).

3 Obrigação de não-fazer: trata-se de uma obrigação negativa cujo objeto da prestação é uma omissão ou abstenção. Os romanos chamavam de obrigação ad non faciendum. Conceito: vínculo jurídico pelo qual o devedor se compromete

a se abster de fazer certo ato, que poderia livremente praticar, se não tivesse se obrigado em benefício do credor. O devedor vai ter que sofrer, tolerar ou se abster de algum ato em benefício do credor. Exemplos: o engenheiro químico que se obriga a não revelar a fórmula do perfume da fábrica onde trabalha; o condômino que se obriga a não criar cachorro no apartamento onde reside; o

professor que se obriga a não dar aula em outra faculdade; o comerciante que se obriga a não fazer concorrência a outro, etc. Pode haver limite temporal para

a obrigação (art. 1.147).

Como na autonomia privada a liberdade é grande, as obrigações negativas podem ser bem variadas, mas obrigações imorais e anti-sociais, ou que sacrifiquem a liberdade das pessoas, são proibidas, ex: obrigação de não se casar, de não trabalhar, de não ter religião, etc. Tudo é uma questão de bom senso, ou de razoabilidade. Gosto muito da expressão “razoável”, é uma expressão muito ligada ao Direito, inclusive tem um artigo no site sobre a razoabilidade na aplicação da lei, confiram!

A violação da obrigação negativa se resolve em perdas e danos, então se o engenheiro divulgar a fórmula do perfume terá que indenizar a fábrica. Mas se for viável, o credor poderá exigir o desfazimento pelo devedor (ex: José se obriga a não subir o muro para não tirar a ventilação do seu vizinho João, caso José aumente o muro, João poderá exigir a demolição, art. 251). No caso do perfume não há como desfazer a revelação do segredo, então uma indenização por perdas e danos é a solução (art. 389).

Neste exemplo do muro, se José se mudar, o novo morador terá que respeitar a obrigação? Não, pois quem celebrou o contrato não foi ele. Mas se João, ao invés de um simples contrato de obrigação negativa, fizer com José uma servidão predial, todos os futuros proprietários da casa não poderão aumentar o muro (art. 1.378). Servidão predial é assunto de Civil D, e por se tratar de um direito real, já se percebe sua maior força em relação a um direito obrigacional. Enquanto uma obrigação vincula pessoas (João a José), uma servidão predial

vincula uma pessoa a uma coisa, então a segurança para o credor é bem maior.

Mais detalhes em Civil D.

Ainda tratando do exemplo do muro, e se a Prefeitura obrigar José a aumentar o muro por uma questão de estética ou urbanismo? José terá que obedecer e João nada poderá fazer, pois o Direito Público predomina sobre o Direito Privado (art. 250 – é o chamado “Fato do Príncipe”, em alusão aos monarcas que governavam os países na Europa medieval).

CLASSIFICAÇÕES DAS OBRIGAÇÕES.

Estudaremos cada uma das modalidades de obrigação. Umas estudaremos de forma mais sucinta e outras estudaremos de forma mais detalhada, pois elas têm disposição no CC.

01. Quanto ao vínculo:

O vínculo jurídico da obrigação é composto por débito e responsabilidade. Isso é uma questão bem abstrata, porque o próprio vínculo é imaterial. Por que eu tenho que saber sobre o VJ?

a) Obrigações perfeitas ou civis: são aquelas que contêm todos os elementos da obrigação, definidos pelo direito positivo. Seu vínculo é perfeito, constituindo-se no débito e responsabilidade. Uma vez não cumprida a obrigação, ou seja, o não adimplemento do débito, tem-se a origem da responsabilidade, que é patrimonial.

b) Imperfeitas: são aquelas que não contêm todos os elementos indispensáveis à obrigação. Seu vínculo constitui-se apenas do débito ou da responsabilidade, conforme seja natural, moral ou de garantia. Enquanto a obrigação natural é desprovida de coercibilidade e de sanção, como acontece no exemplo da dívida prescrita, a obrigação moral constitui-se em um mero dever de consciência (aqui não há débito e nem responsabilidade).

Falta um dos elementos, como ocorre nas obrigações naturais. Aqui temos o débito, mas não temos a responsabilidade. Outro exemplo são as obrigações morais, nessas não temos a responsabilidade, porque não são juridicamente exigíveis e não temos o débito. Isso demonstra que a obrigação moral sequer chega a se transformar numa obrigação civil. Outro exemplo é a obrigação de garantia. Nessa, não temos o débito, mas temos a responsabilidade fiador se

obriga a pagar a dívida se o devedor não pagou ligação acessória. Temos também a hipoteca, o penhor, a anticrese.

Obrigação Natural: Muitas vezes a obrigação natural se aproxima demais da obrigação moral, mas não podemos confundi-las. A obrigação moral não é exigível e não possui nenhum dos elementos do VJ. Nosso tema de estudo será a obrigação natural.

As obrigações Naturais são aquelas que “a cuja execução não pode ser

constrangido o devedor, mas cujo cumprimento voluntário constitui verdadeiro e próprio pagamento”.

Obrigação Natural: a obrigação civil produz todos os efeitos jurídicos, mas a obrigação natural não, pois corresponde a uma obrigação moral. Há autores que a chamam de obrigação degenerada. São exemplos: obrigação de dar gorjeta, obrigação de pagar dívida prescrita (art. 205), obrigação de pagar dívida de jogo (art. 814), etc.

A obrigação natural não pode ser exigida pelo credor, e o devedor só vai pagar se quiser, bem diferente da obrigação civil. Vocês sabem que se uma dívida não for paga no vencimento o direito do credor mune-se de uma pretensão, e a dívida se transforma em responsabilidade patrimonial. Mas tratando-se de obrigação natural, o credor não terá a pretensão para executar o devedor e tomar seus bens (189). A dívida natural existe, mas não pode ser judicialmente cobrada, não podendo o credor recorrer à Justiça.

Conceito: obrigação natural é aquela a cuja execução não pode o devedor ser constrangido, mas cujo cumprimento voluntário é pagamento verdadeiro.

Por que a obrigação natural interessa ao Direito se corresponde a uma obrigação moral? Porque a obrigação natural, mesmo sendo moral, possui um efeito jurídico: soluti retentio ou retenção do pagamento.

Mesmo tratando-se de uma obrigação moral, o pagamento de obrigação natural é pagamento verdadeiro e o credor pode retê-lo. Então se João paga dívida prescrita e depois se arrepende não pode pedir o dinheiro de volta, pois o credor tem direito à retenção do pagamento (882). Como diz a doutrina, “a obrigação natural não se afirma senão quando morre”, ou seja, é com o pagamento e sua extinção que a obrigação natural vai existir para o direito, ensejando ao credor a soluti retentio.

Mas não se confunda obrigação natural com obrigação inexistente: se João paga dívida inexistente o credor não pode ficar com o dinheiro, e João terá direito à repetitio indebiti ( = devolução do indébito; em direito “repetir” significa “devolver”, e “indébito” é o que não é devido). Então quem efetua pagamento indevido pode exigir a devolução do dinheiro ( = repetitio indebiti) para que outrem não enriqueça sem motivo. O credor de obrigação natural tem direito à soluti retentio, mas quem recebe dívida inexistente não (ex: pago a meu credor João da Silva, mas por engano faço o depósito na conta de outro João da Silva, que terá que devolver o dinheiro, 876). Na obrigação natural não cabe a repetitio indebiti, pois o credor dispõe da soluti retentio. Falaremos mais de enriquecimento sem causa e pagamento indevido na aula 12.

Em suma, a obrigação natural não se cumpre por bondade ou liberalidade ou doação, mas por um dever moral, e a moral influencia o Direito, tanto que a lei lhe atribui o efeito jurídico da soluti retentio.

Falando de doação, vocês verão em Civil 3 que o donatário deve ser grato ao doador, então se João doa um carro a Maria, Maria lhe deve gratidão pelo resto da vida, não podendo agredi-lo ou ofendê-lo sob pena de perder a doação (557). Mas se por trás dessa doação existe uma obrigação natural, tal doação não se revoga por ingratidão (564, III; ex: João deve dinheiro a Maria mas a dívida prescreveu, porém mesmo assim João resolveu pagar e doou uma jóia a Maria; pois bem, caso Maria venha no futuro a agredir João, tal doação não se extinguirá já que não foi feita por liberalidade, mas sim em cumprimento de obrigação natural).

Finalizando, gostaria de transcrever a valiosa opinião de Washington de Barros Monteiro sobre a raridade da obrigação natural e a absurda proteção que a lei dá ao devedor no nosso ordenamento:

- numa época em que a noção do prazo tende a desaparecer, substituída pelo espírito de moratória e pela esperança da revisão; em que o devedor conhece a arte de não pagar as dívidas e em que aquele que paga com exatidão no dia devido não passa de um ingênuo, que não tem direito a nada; em que as leis se enchem de piedade pelos devedores e em que as vias judiciárias se mostram imprescindíveis como imposição ao devedor civil, aparece como verdadeiro anacronismo a obrigação natural, suscetível de pagamento voluntário,

apesar de desprovida de ação (vide Direito das Obrigações, 1ª parte, Ed. Saraiva, 32ª edição, pág. 215).

02. Quanto ao objeto:

a) Quanto à natureza do objeto

i) Positivas

Obrigações de dar: seu objeto é uma prestação de coisa,

que consiste no dever de entregar ou restituir coisa certa ou incerta.

Quem toma emprestado alguma coisa obriga-se a restituir (dar) 8 .

Constituem-se em modalidades de obrigação de dar:

Obrigação específica seu objeto consiste na prestação de entregar ou restituir coisa certa, isto é, determinada, individualizada, identificada, por exemplo: Veículo Corsa, modelo 2010, cor preta, Chassi XYZ. Sabe exatamente qual é o objeto. Coisa certa é coisa

móvel ou imóvel individualizada e identificada, com características determinadas e inconfundíveis 9 .

Obrigação genérica seu objeto consiste na prestação de entregar ou restituir coisa incerta, isto é, determinável, sendo indicado apenas pelo gênero e quantidade (art. 243, CC).

É indispensável, portanto, nas obrigações de dar coisa incerta, a indicação, de que fala o texto [art. 243, CC]. Se faltar também o gênero, ou a quantidade, a indeterminação será absoluta, e a avença, com tal objeto, não gerará obrigação. Não pode ser objeto de prestação, por exemplo, a de “entregar sacas de café”, por faltar a quantidade, bem como a de entregar “dez sacas”, por faltar o gênero. Mas constitui obrigação de dar coisa incerta a de “entregar dez sacas de café”, por o objeto é determinado pelo gênero e pela quantidade 10 .

Obrigação de fazer seu objeto é uma prestação de fato,

que consiste na realização de uma atividade material ou imaterial.

A obrigação de fazer (obligatio faciendi) abrange o serviço humano em geral, seja material ou imaterial, a realização de obras e artefatos, ou a prestação de fatos que tenham utilidade para o credor 11 .

ii) Negativas

Obrigação de não fazer seu objeto é uma prestação de

fato, porém, negativo, configurando-se em uma abstenção ou na tolerância de um ato. Nesta obrigação, a abstenção da parte é elemento fundamental para a o interesse do credor.

8 LÔBO, Paulo. Direito Civil Obrigações, 2ed. São Paulo: Saraiva. 2011. p. 112 9 Ibidem, p. 113. 10 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil brasileiro. Volume II: Teoria Geral das Obrigações. 8ed. São Paulo: Saraiva. 2011. p. 77. 11 Ibidem, p. 84.

b) Quanto à liquidez do objeto

i) Obrigações líquidas - são certas quanto à sua existência e determinadas quanto ao seu objeto.

Essa modalidade é expressa por uma cifra, por um algarismo, quando se trata de dívida em dinheiro. Mas pode também ter por objeto a entrega ou restituição de outro objeto certo, como, por exemplo, um veículo ou determinada quantidade de cereal 12 ;

ii) Obrigações ilíquidas - sempre dependem de prévia apuração, visto ser incerto o montante da prestação.

Líquida é a obrigação certa e determinada, ou seja, certa quanto à sua existência e determinada quanto à sua qualidade, quantidade, natureza e objeto. Em outras palavras, obrigação líquida é aquele cuja existência é certa e cujo valor

é conhecido.

Vocês sabem que se uma dívida não for paga no vencimento o credor mune-se de uma pretensão e a dívida se transforma em responsabilidade patrimonial. Esta pretensão consiste no poder de executar o devedor para tomar

seus bens através do Juiz e satisfazer o credor. Pois bem, a ação de execução só

é possível quando a obrigação é líquida.

Sendo a obrigação ilíquida e não havendo acordo entre as partes, precisa ser apurada pelo Juiz em processo de liquidação para poder ser executada, afinal não se pode executar obrigação ilíquida (art. 947).

Inclusive entendo que o Juiz deve sempre proferir sentenças líquidas para evitar mais demoras ao credor. Exemplo: o Juiz condena João a indenizar Maria porque João matou o pai dela, devendo o Juiz dizer logo o valor da indenização, e não deixar isso para uma fase posterior do processo, art. 946. E de quanto é essa indenização por morte? A lei responde no art. 948. Assim, um crime interessa ao Direito Penal para a punição com a prisão do infrator, e também interessa ao Direito Civil para a punição ao bolso do infrator. A punição civil é mais rápida e não depende de Delegado e nem de Promotor, dispensando parte do burocrático aparelho estatal. Mas se o infrator não tiver bens, só haverá punição penal, pois liberdade todos têm para perder. Mais detalhes na importante disciplina Responsabilidade Civil.

12 Ibidem, p. 208.

c) Quanto à divisibilidade do objeto:

Diante da pluralidade de sujeitos, importa saber se a prestação pode ser cumprida de modo fracionado ou não. Portanto, seu fundamento está no objeto, originando dois tipos de obrigações:

i) Obrigações divisíveis: são passíveis de cumprimento fracionado, pois a

prestação é divisível. A divisibilidade é sempre jurídica, porque ou depende de convenção dos interessados ou da lei. [ A divisibilidade da obrigação é relativa a seu objeto, ou seja, à prestação, e não ao objeto desta (a coisa, a atividade, a abstenção) 13 ;

]

ii) Obrigações indivisíveis a prestação deve ser cumprida por inteiro, pois não é passível de cumprimento fracionado, sob pena de importar em perda de sua substância ou de sua economicidade.

Em geral, numa obrigação existe apenas um credor e um devedor. Mas caso existam na mesma relação vários devedores ou vários credores, o razoável é que cada devedor pague apenas parte da dívida, e que cada credor tenha direito apenas a parte da prestação. Essa regra sofre exceção nos casos de indivisibilidade, que veremos hoje, e de solidariedade, na próxima aula. Tanto na indivisibilidade como na solidariedade, embora concorram várias pessoas, cada credor pode reclamar a prestação por inteiro, e cada devedor responde também pelo todo (art. 259 e art. 264). Comecemos pela divisibilidade e indivisibilidade:

Obrigação divisível é aquela cuja prestação pode ser parcialmente cumprida sem prejuízo de sua qualidade e de seu valor (ex: uma dívida de cem reais pode ser paga em duas metades; um curso de Direito Civil pode ser ministrado em várias aulas). Mas a depender do acordo entre as partes, o devedor deve pagar de uma vez só, mesmo que a prestação seja divisível (art.

314).

Já na obrigação indivisível a prestação só pode ser cumprida por inteiro (ex: quem deve um cavalo não pode dar o animal em partes, art. 258; mas se tal cavalo perecer e a dívida se converter em pecúnia, deixa de ser indivisível, art. 263).

13 LÔBO, Paulo. Direito Civil Obrigações. Op. Cit. p. 130 - 131

Como dito, a indivisibilidade vai despertar interesse prático quando houver mais de um credor ou mais de um devedor.

- pluralidade de devedores: imaginem que um pai morre e deixa

dívidas, seus filhos irão pagar estas dívidas dentro dos limites da herança recebida do pai (art. 1792, art. 1997). Então o credor do pai terá mais de um filho para cobrar esta dívida. Se a prestação for divisível, cada filho responde pela parte correspondente a sua herança, e a insolvência de um deles não aumentará

a quota dos demais (art. 257). Mas se a prestação for indivisível, cada filho

responde pela dívida toda, e aquele que pagar ao credor, cobrará o quinhão correspondente de cada irmão (art. 259 e pú veremos sub-rogação em breve).

A relação obrigacional antes era do credor com os filhos do pai morto, agora é

do irmão pagador contra os outros irmãos. O irmão se sub-roga nos direitos do credor.

- e se a pluralidade for de credores? Sendo divisível a prestação, cada credor só pode exigir sua parte (art. 257). Mas sendo indivisível aplica-se o art, 260,I, do CC, pelo que o devedor deverá pagar a todos os credores juntos, para que um não engane os outros. Ou então o devedor deverá pagar àquele credor que prestar uma garantia (= caução) de que repassará o pagamento aos outros (ex: João deve um carro a três pessoas, mas não encontra os três para pagar, assim, para se livrar logo daquela obrigação, paga ao credor que ofereceu uma fiança; se este credor não repassar o carro aos demais credores, o fiador poderá ser processado pelos prejudicados; fiança é assunto de Civil C). Se o devedor pagar sem as cautelas do art. 260, terá que pagar de novo àquele credor que, eventualmente, venha a ser lesado pelo credor que recebeu todo o pagamento, afinal quem paga mal paga duas vezes, concordam? Diz-se por isso que o pagamento integral da dívida a um só dos vários credores pode não desobrigar o devedor com relação aos demais concredores. Mas pagando o devedor corretamente, caberá aos credores buscar sua parte com o credor que recebeu tudo (art. 261). Tratando-se de coisa indivisível (ex: carro, barco, casa), poderão os credores usar a coisa em condomínio, ou então vendê-la e dividir o dinheiro (art. 1320).

Espécies de indivisibilidade:

a) física: a prestação é indivisível pela sua própria natureza, pois sua divisão alteraria sua substância ou prejudicaria seu uso (ex: obrigação de dar um cavalo, obrigação de restituir o imóvel locado, etc);

b) econômica: o objeto da prestação fisicamente poderia ser dividido, mas perderia valor (ex: obrigação de dar um diamante, art. 87);

c) legal: é a lei que proíbe a divisão (ex: a lei 6.766/79, que dispõe sobre o parcelamento do solo urbano, determina no art. 4º, II, que os lotes nos loteamentos terão no mínimo 125 metros quadrados, então um lote deste tamanho não pode ser dividido em dois);

d) convencional: é o acordo entre as partes que torna a prestação indivisível (art. 88, ex: dois devedores se obrigam a pagar juntos certa quantia em dinheiro, o que vai favorecer o credor que poderá exigir tudo de qualquer deles, 258 in fine, e 259).

Percebe-se que qualquer das três espécies de obrigação (dar, fazer e não-fazer) pode ser divisível ou indivisível (ex: dar dinheiro é divisível, mas dar um cavalo é indivisível; pintar um quadro é obrigação de fazer indivisível, mas plantar cem árvores é divisível; não revelar segredo é indivisível, mas não pescar e não caçar na fazenda do vizinho é divisível).

03. Quanto aos sujeitos

Diante da pluralidade de sujeitos, não importa a divisibilidade ou indivisibilidade do objeto da obrigação, pois seu fundamento é de ordem subjetiva. Deste modo, há:

a) Obrigações conjuntas cada sujeito é responsável por uma parcela da prestação.

Nas ‘obrigações unitárias’ ou ‘conjuntas’ há pluralidade de devedores respondendo todos por toda a dívida. Não há, por conseguinte, divisão da prestação, nem responsabilidade de um por todos. Quando várias pessoas se obrigam em conjunto ao pagamento de uma dívida, o credor não pode exigi-la de uma ou de algumas delas, nem parcial nem totalmente. Há de se dirigir a todos, que formam, com efeito, uma unidade, isto é, que figuram na relação obrigacional como um só devedor 14 .

b) Obrigações solidárias: Caracteriza-se a obrigação solidária pela multiplicidade de credores e/ou de devedores, tendo cada credor direito à

14 GOMES, Orlando. Obrigações. rev. atual. E aumentada por Edvaldo Brito. Editora Forense: Rio de Janeiro. 2008, p. 75.

totalidade da prestação, como se fosse credor único, ou estando cada devedor obrigado pela dívida toda, como se fosse o único devedor 15 .

Como visto na aula passada, quando numa obrigação indivisível concorrem vários devedores, todos estão obrigados pela dívida toda, como se existisse uma solidariedade entre eles (art. 259). Assim, se várias pessoas devem coisa indivisível, a obrigação é também solidária. Mas pode haver obrigação solidária mesmo de coisa divisível devida por várias pessoas.

Conceito legal: há solidariedade quando na mesma obrigação concorre mais de um credor, ou mais de um devedor, cada um com direito ou com responsabilidade pela dívida toda, como se fosse o único (art. 264).

No que tange as obrigações solidárias temos duas teorias: i) unitarista e ii) Pluralista.

Teoria Unitarista: Prega que existe um único vínculo ligando os devedores e os credores. Essa teoria se funda no art. 271, do CC, pois, mesmo quando convertida em perdas e danos a obrigação solidaria mantém sua característica da indivisibilidade/solidária.

Teoria Pluralista: Teoria desenvolvida por Pontes de Miranda, sustenta que nas obrigações solidárias há vários vínculos ligando os devedores e os credores, estando todos esses vínculos enfeixados em um só, utilizando como fundamento o art. 266, do CC, o qual dispõe que a obrigação, ainda que solidária, pode ser a prazo para um e a vista para outro.

As obrigações solidárias e indivisíveis têm consequências práticas semelhantes, mas são obrigações diferentes, vejamos:

a) a obrigação indivisível é impossível pagar por partes, pois resulta da natureza da prestação (ex: cavalo, lote urbano, diamante, barco, fazer um quadro, etc). Já a obrigação solidária até poderia ser paga por partes, mas por força de contrato não pode, tratando-se de uma garantia para favorecer o credor.

b) Na solidariedade cada devedor deve tudo, na indivisibilidade cada devedor só deve uma parte, mas tem que pagar tudo diante da natureza da prestação. Pelas suas características a solidariedade não se presume, decorre de contrato ou da lei (art. 265). Exemplo de solidariedade decorrente de lei é a

15 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro: Teoria Geral das Obrigações. Op. Cit, p. 129

patroa que responde pelos danos causados a terceiros por sua empregada doméstica (art. 932, III, art. 942 e pú).

c) pode haver obrigação solidária de coisa divisível (ex: dinheiro), de modo que

todos os devedores vão responder integralmente pela dívida, mesmo sendo coisa divisível. Tal solidariedade nas coisas divisíveis serve para reforçar o vínculo e facilitar a cobrança pelo credor.

d) o devedor a vários credores de coisa indivisível precisa pagar a todos os

credores juntos (art. 260, I), mas o devedor a vários credores solidários se

desobriga pagando a qualquer deles (art. 269).

e) se a coisa devida em obrigação solidária perece, converte-se em perdas

e danos, torna-se divisível, mas permanece a solidariedade (art. 271 e art.

279). Se a coisa devida em obrigação indivisível perece, converte-se em perdas e danos e os co-devedores deixam de ser responsáveis pelo todo

, sendo cada um devedor da sua cora parte (art. 263).

f) o devedor de obrigação solidária que paga sozinho a dívida ao credor, vai

cobrar dos demais co-devedores a quota de cada um, sem solidariedade que não se presume (art. 265 e art. 283). Então A, B e C devem solidariamente

dinheiro a D. Se A pagar a dívida toda ao credor, A vai cobrar a quota parte de

B e C sem solidariedade entre B e C.

Elementos da obrigação solidária: a) multiplicidade de credores ou de devedores, ou ainda, de uns e de outros; b) unidade de prestação; c) co- responsabilidade dos interessados.

Solidariedade ativa

Configura-se pela presença de vários credores, chamados concredores, todos com o mesmo direito de exigir integralmente a dívida ao devedor comum (art. 267).

A solidariedade ativa é rara porque na sua principal característica está sua principal inconveniência (art. 269). Assim, o devedor não precisa pagar a todos os concredores juntos, como na obrigação indivisível (art. 260, I). Pagando apenas a um dos credores solidários, mesmo sem autorização dos demais, o devedor se desobriga, e se este credor for desonesto ou incompetente, e reter ou perder a quota dos demais, os concredores nada poderão reclamar do devedor, terão sim que reclamar daquele que embolsou o pagamento.

Mas caso algum dos concredores já esteja executando judicialmente o

devedor, o pagamento deverá ser feito ao mesmo (art. 268), perdendo o devedor

a faculdade, o que se chama de prevenção, ficando tal credor prevento para receber o pagamento com prioridade em nome de todos os concredores.

Outro inconveniente é que se um dos credores perdoar a dívida, o devedor fica liberado, e os demais concredores terão que exigir sua parte daquele que perdoou (art. 272).

Como se vê, na solidariedade ativa cada credor fica sujeito à honestidade dos outros concredores. Por estes inconvenientes a solidariedade ativa é rara, afinal não interessa ao credor.

Solidariedade passiva

Esta é comum e importante, devendo ser estimulada já que protege o crédito, reforça o vínculo, facilita a cobrança e aumenta a chance de pagamento, pois o credor terá várias pessoas para cobrar a dívida toda.

E quanto mais se protege o credor, mais as pessoas emprestam dinheiro,

e com mais dinheiro os consumidores se equipam, as lojas vendem, as fábricas

produzem, os patrões lucram, geram empregos e o governo arrecada tributos. Como se sabe: proteger o crédito é estimular o desenvolvimento sócio- econômico.

Conceito: ocorre a solidariedade passiva quando mais de um devedor, chamado coobrigado, com seu patrimônio (art. 391), se obriga ao pagamento da dívida toda (art. 275).

Assim, havendo três devedores solidários, o credor terá três pessoas para processar e exigir pagamento integral, mesmo que a obrigação seja divisível. O credor escolhe se quer processar um ou todos os devedores (pú do art. 275). Aquele devedor que pagar integralmente a dívida, terá direito de regresso contra os demais coobrigados (art. 283).

Na solidariedade passiva não se aplica o benefício de divisão e nem o benefício de ordem. O que é isso?

Pelo benefício de divisão o devedor pode exigir a citação de todos os coobrigados no processo para juntos se defenderem. Isto é ruim para o credor

porque atrasa o processo, por isso a solidariedade passiva não concede tal benefício aos co-devedores.

Pelo benefício de ordem, o coobrigado tem o direito de ver executado primeiro os bens do devedor principal (ex: fiança, art. 827). Mas o fiador pode renunciar ao benefício de ordem e se equiparar ao devedor solidário (art. 828, II). O avalista nunca tem benefício de ordem, sempre é devedor solidário, por isso se algum amigo lhe pedir para ser avalista não aceite, mas se ele insistir seja seu fiador com benefício de ordem, mas jamais fiador-solidário ou avalista.

Fiança e aval são exemplos de solidariedade passiva decorrente de acordo de vontades. Então a Universidade quando financia o curso de um estudante, geralmente exige um fiador ou um avalista (art. 897), de modo que se o devedor não pagar a dívida no vencimento, o credor irá processar o devedor, o fiador ou o avalista. Fiança será estudada em Civil C e aval em Direito Empresarial.

na

responsabilidade civil (art. 932), no comodato (art. 585) e na gestão de negócios (pú do art. 867).

Exemplos

de

solidariedade

passiva

decorrente

da

lei

estão

4 Quanto ao modo de adimplemento

a) Obrigações simples - são aquelas que coexistem numa só

prestação, ou para outros, aquelas que comportam apenas um sujeito ativo, um sujeito passivo e um objeto.

Obrigações simples são as que se apresentam com um sujeito ativo, um sujeito passivo e um único objeto, ou seja, com todos os elementos no singular 16 ;

b) Obrigações compostas ou complexas - são aquelas nas

quais há uma pluralidade de objetos ou sujeitos. Considerando a pluralidade de

prestações, podem ser:

i) Obrigações cumulativas os objetos estão cumulados no título da obrigação, de tal modo, que devem ser todos cumpridos para que se configure o adimplemento da obrigação.

16 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro: Teoria Geral das Obrigações. Op. Cit, p.54

[Nas obrigações cumulativas] os objetos apresentam-se ligados pela conjunção “e”, como na obrigação de entregar um veículo e um animal, ou seja, os dois, cumulativamente. Efetiva-se o seu cumprimento somente pela prestação de todos eles 17 ;

Caracteriza-se pela pluralidade de prestações (ex: troco uma casa por um carro e uma lancha). Não se trata de obrigação alternativa (carro OU lancha), mas obrigação cumulativa (carro E lancha). Na obrigação cumulativa todas as prestações interessam ao credor, na alternativa apenas uma delas. Na cumulativa, muitas prestações estão na obrigação e muitas no pagamento. Já na alternativa, muitas prestações estão na obrigação e apenas uma no pagamento. Exemplo legal de obrigação cumulativa é o contrato de empreitada onde o engenheiro pode fazer o serviço E dar os materiais para a construção de uma casa (art. 610).

iii) Obrigações alternativas os objetos constituem-se em alternativas no título da obrigação, colocados à escolha do devedor, do credor ou de um terceiro. Eis que basta o cumprimento de apenas um deles, para que se configure o adimplemento da obrigação.

Nas alternativas, os objetos estão ligados pela disjuntiva “ou”, podendo haver duas ou mais opções 18 .

A obrigação simples só possui um objeto, mas a obrigação alternativa tem por objeto duas ou mais prestações, mas apenas uma será cumprida como pagamento. É muito comum na prática, até para facilitar e estimular os negócios (ex: vendo esta casa por vinte mil ou troco por terreno na praia; outro ex: um artista bate no seu carro e se compromete a fazer um show na sua casa ou a pagar o conserto; mais um ex: o comerciante que se obriga com outro a não lhe fazer concorrência, ou então a lhe pagar certa quantia; exemplo da lei: art. 1701, outro exemplo da lei, art 442).

Características da obrigação alternativa:

a) nasce com objeto composto, ou seja, duas ou mais possibilidades de prestação;

b) o adimplemento de qualquer das prestações resulta no cumprimento da obrigação, o que aumenta a chance de satisfação do credor, sem ter que se partir para as perdas e danos, caso qualquer das prestações venha a perecer. Como o credor aceitou mais de uma prestação como

17 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro: Teoria Geral das Obrigações. Op. Cit, p.54 18 Idem.

pagamento, qualquer delas vai satisfazer o credor (253 e 256); a exoneração do devedor se dá mediante a realização de uma única prestação.

c) o devedor pode optar por qualquer das prestações, cabendo o direito de escolha, de regra, ao próprio devedor (252); mas o contrato pode prever que a escolha será feita pelo credor, por um terceiro, ou por sorteio (817); essa escolha chama-se de concentração, semelhante a da obrigação de dar coisa incerta; ressalto todavia que não se confunde a obrigação alternativa com a de dar coisa incerta; nesta o objeto é único, embora indeterminado até a concentração; já na obrigação alternativa há pelo menos dois objetos;

d) se o devedor, ignorando que a obrigação era alternativa, fizer o pagamento, pode repeti-lo para exercer a opção. É um caso raro de retratação da concentração, e cabe ao devedor a prova de que não sabia da possibilidade de escolha (877).

e) nas obrigações periódicas admite-se o jus variandi, ou seja, pode- se mudar a opção a cada período (§ 2 o do art. 252). A doutrina critica essa mudança de prestação porque gera instabilidade para o credor.

iii) Obrigações facultativas: Alguns autores incluem as obrigações facultativas, dentre as obrigações compostas ou complexas, entretanto, possuem um único objeto, que se encontra em obrigação, ficando o outro, em faculdade de prestação, prerrogativa conferida tão-somente ao devedor. Portanto, há apenas um objeto devido, restando o outro, como mero substituto do objeto da obrigação. Isto significa que esta obrigação é simples.

Trata-se de obrigação simples, em que é devida uma única prestação, ficando, porém, facultado ao devedor, e só a ele, exonerar-se mediante o cumprimento de prestação diversa e predeterminada. É obrigação com faculdade de substituição 19 .

É parecida, é uma prima pobre, mas não se confunde com a obrigação alternativa. É também muito rara, tanto que nosso Código não reservou para ela um capítulo próprio. Sua fonte está mais na lei do que no contrato, conforme exemplos que veremos abaixo. Ou seja, há casos específicos na lei que

19 Ibidem, p. 55.

contemplam obrigações facultativas, porque as partes dificilmente contratam prevendo uma obrigação facultativa.

Conceito: é aquela cujo objeto da prestação é único, mas confere ao devedor o direito excepcional de substitui-lo por outro.

Exemplo: art. 1234, assunto de Civil 4, então quem encontra coisa perdida deve restitui-la ao dono, e o dono fica obrigado a recompensar quem encontrou; mas o dono pode, ao invés de pagar a recompensa, abandonar a coisa, e aí quem encontrou poderá ficar com ela; pagar a recompensa é a prestação principal do devedor, já abandonar a coisa é prestação acessória do seu dono. O abandono da coisa não é obrigação, mas faculdade do seu dono. Ao invés de pagar a recompensa, tem o devedor a faculdade de dar a coisa ao credor.

Outro exemplo: art. 1382, assunto de Civil D, então imaginem que da Fazenda A sai um aqueduto para a Fazenda B, levando água, com a obrigação, ajustada em contrato, de que o dono da Fazenda A deverá conservar a obra. Pois bem, ao invés de manter o aqueduto, tem o dono da Fazenda A a obrigação facultativa de abandonar suas terras para o dono da Fazenda B. Ao invés de conservar o aqueduto, o devedor tem a faculdade de abandonar suas terras, dando-as ao vizinho.

Ao nascer a obrigação o objeto é único, mas para facilitar o pagamento, o devedor tem a excepcional faculdade de se liberar mediante prestação diferente. É vantajosa assim para o devedor.

Na obrigação facultativa, ao contrário da alternativa, o credor nunca tem a opção e só pode exigir a prestação principal, pois a prestação devida é única e só o devedor pode optar pela prestação facultativa.

Ressalto que a impossibilidade de cumprimento da prestação principal extingue a obrigação, resolvendo-se em perdas e danos, não se aplicando o art. 253, pois, como já dito, a prestação acessória não é obrigação, mas faculdade do devedor. Então quem encontrar coisa perdida e não receber a recompensa, não poderá exigir o abandono da coisa, mas sim deverá processar o devedor pelo valor da recompensa.

5 Quanto ao tempo de adimplemento

a) Obrigações instantâneas - são as que se cumprem em um só ato e fato. Ex: compra e venda à vista.

b) Obrigações duradouras - são as que se cumprem ao longo

do tempo, de modo contínuo, periódico ou fracionado:

i) Obrigações contínuas consistem em um único ato que se estende ao longo de certo lapso de tempo. Ex. o locador deve se abster de interferir na posse do locatário, durante o contrato de locação;

ii) Obrigações periódicas consistem na prática de vários atos,

reiterados, que renascem a cada período de tempo, e cujo cumprimento importam em solução parcial da obrigação. Ex. pagamento de aluguéis;

iii) Obrigações fracionadas resultam do fracionamento de prestação única, resultando na prática de atos reiterados, ao longo de certo lapso de tempo. Ex. compra e venda a prazo.

6 Quanto ao conteúdo

Refere-se à finalidade da obrigação:

a) Obrigação de meio - aquela na qual o devedor obriga-se a

empregar toda sua diligência, a conduzir-se com prudência, para alcançar um resultado útil ao credor. Ex. médico que obriga-se a tratar o paciente de uma

doença respiratória.

Diz-se que a obrigação é de meio quando o devedor promete empregar seus conhecimentos, meios e técnicas para a obtenção de determinado resultado, sem no entanto responsabilizar-se por ele. É o caso, por exemplo, dos advogados, que não se obrigam a vencer a causa, mas a bem defender os interesses dos clientes 20 .

b) Obrigação de resultado aquela na qual o devedor obriga-

se a alcançar um resultado específico para seu credor. A falta deste resultado

20 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. Teoria Geral das Obrigações. Op. Cit. p. 190.

importa em presunção de inadimplemento culposo por parte do devedor. Ex. contrato de transporte.

Quando a obrigação é de resultado, o devedor dela se exonera somente quando o fim prometido é alcançado. Não o sendo, é considerado inadimplente, devendo responder pelos prejuízos decorrentes do insucesso. Exemplo clássico de obrigação dessa natureza é a assumida pelo transportador, que promete tacitamente, ao vender o bilhete, levar o passageiro são e salvo a seu destino. 21

7 Quanto aos elementos acidentais

Elementos acidentais são, assim, os que se acrescentam à figura típica do ato para mudar-lhe os respectivos efeitos. São cláusulas que, apostas a negócios jurídicos por declaração unilateral ou pela vontade das partes, acarretam modificações em sua eficácia ou em sua abrangência 22 .

a) Obrigações puras - aquelas cuja eficácia não está subordinada a qualquer das modalidades dos elementos acidentais dos negócios jurídicos, enumeradas nos artigos 121, 131 e 136 Código Civil.

b)

Obrigações

impuras

contrariamente,

seus

efeitos

subordinam-se à condição, termo ou encargo:

i) Obrigações condicionais - dependem de acontecimento futuro e incerto, que pode se verificar ou não. Ex. venda com pacto de melhor comprador.

Os requisitos ou elementos para que haja condição na acepção técnica são: a voluntariedade, a futuridade e a incerteza. É necessário, portanto: a) que a cláusula seja voluntária; b) que o acontecimento a que se subordina a eficácia ou a resolução do ato jurídico seja futuro; c) que também seja incerto 23 ;

21 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. Teoria Geral das Obrigações. Op. Cit. p. 191

22 Ibidem., p. 198

23 Ibidem, p. 199

- obrigação condicional: subordina a obrigação a evento futuro e incerto (ex: o alfaiate compra tecido da fábrica e combina só pagar o preço se vender as roupas; vender as roupas não é uma certeza, pode ou não acontecer, 121, 876) Condições absurdas são proibidas (ex: alugo minha casa a você, mas você não pode entrar nela, isso é o que a lei chama de “privar de todo efeito o negócio jurídico”, no art. 122).

ii) Obrigações a termo - a eficácia do ato é submetida a prazo certo ou incerto. Ex: Pagar uma dívida em certo dia do calendário.

Obrigação a termo (ou a prazo) é aquela em que as partes subordinam os efeitos do negócio jurídico a um evento futuro e certo 24 ;

- obrigação a termo: subordina a obrigação a evento futuro e certo (ex: pagarei o tecido em trinta dias; trinta dias são o prazo e o prazo é um evento certo, só depende do inexorável passar do tempo, art.132).

iii) Obrigações modais - impõe-se um ônus ao devedor beneficiado por uma liberalidade. Ex. doação com encargo.

Obrigação modal (com encargo ou onerosa) é a que se encontra onerada por cláusula acessória, que impõe um ônus ao beneficiário de determinada relação jurídica.

Trata-se de pacto acessório às liberalidades (doações, testamentos), pelo qual se impõe um ônus ou obrigação ao beneficiário. É admissível, também, em declarações unilaterais da vontade, como na promessa de recompensa, e raramente nos contratos onerosos (pode ocorrer na compra e venda de um imóvel, com o ônus de franquear a passagem ou a utilização por terceiros, p. ex.) 25

- obrigação modal: o modo (ou encargo, ou ônus) é imposto ao beneficiário de uma liberalidade como uma doação ou herança. Então pode-se doar uma fazenda com o ônus de construir uma escola para as crianças carentes da região (553, 136). Ou pode-se deixar uma herança para um sobrinho com o ônus de mandar rezar mensalmente uma missa para o falecido. O encargo precisa ser pequeno para não caracterizar uma contraprestação (ex: dou um carro a meu vizinho com o ônus de levar meus filhos e eu para a escola e o trabalho diariamente; ora, isso não é doação, mas contratação de um motorista). Se o encargo for de interesse público (ex: construir uma escola), o Promotor de Justiça fiscalizará sua execução (pú do 553, este é um dos poucos casos de participação

24 Ibidem, p.204 25 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. Teoria Geral das Obrigações. Op. Cit. p. 207

do Ministério Público no direito patrimonial, afinal o Ministério é público e o Direito Civil é privado. Se o encargo for absurdo (ex: mandar rezar missa todo dia para o falecido) o Juiz pode interferir na obrigação privada para modificá-la.

8 Obrigações reciprocamente consideradas

a) Obrigação principal - é aquela que tem existência própria e autônoma e, por isso, não está relacionada a nenhuma outra obrigação jurídica;

b) Obrigação acessória - é aquela cuja existência depende da obrigação principal, seguindo sua sorte. Ex. obrigação de pagar juros; obrigação de fiança.

Principal é a obrigação autônoma, ou seja, tem vida própria, já a obrigação acessória depende da principal, agregando-se a ela. Então uma compra e venda, um empréstimo e uma locação são contratos que geram obrigações autônomas. Por outro lado, a fiança, a hipoteca e o penhor produzem obrigações acessórias que vão se agregar a uma obrigação principal, por exemplo, como a locação.

Então quem aluga uma casa celebra um contrato principal de locação e pode exigir um contrato acessório de fiança para garantir o pagamento do aluguel na hipótese de inadimplência do inquilino. A locação existe sem a fiança, mas o contrário não. Inclusive, sendo nula a locação, nula será a fiança, mas o inverso não (art. 184, 2ª parte).

************** FIM DO CONTEÚDO DA PRIMEIRA PROVA ***********