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Refletindo sobre a linguagem do cinema

Laura Maria Coutinho1

Cinema é espetáculo. Ou seja, tudo o que chama a atenção, atrai e prende o olhar. Se
não, não é cinema, na sua mais pura acepção. O cinema criou os grandes planos e as
panorâmicas e, da mesma forma, espetacularizou o ínfimo, o detalhe, com tal nitidez
e de uma forma tal, que nenhuma outra linguagem é capaz de criar. Revela até o que,
perfeitamente presente, é apenas pressentido, não se ouve, nem se vê. “O espectador
identifica-se, pois, menos com o representado – o próprio espetáculo – do que com
aquilo que anima ou encena o espetáculo, do que com aquilo que não é visível, mas
faz ver, faz ver a partir do mover que o anima – obrigando-o a ver aquilo que ele,
espectador, vê, sendo esta decerto a função assegurada ao lugar (variável – de
posições sucessivas) da câmera”2. O cinema seria, então, o espetáculo visto, proposto
pela câmera, numa revelação direta olho e máquina.
Esta série quer trazer para a discussão os principais elementos da linguagem
cinematográfica que se revelam e se escondem nas narrativas que cada filme, a seu
gosto e a seu modo, apresenta. Apreender o que os filmes dizem e o que cada
espectador, ao ver o filme, quer dizer, talvez seja a experiência educativa mais
profunda que o cinema possa proporcionar. Cinema pode ensinar, para muito além do
conteúdo que os filmes parecem apresentar à primeira vista. Ir ao cinema, ver filmes
em vídeo ou na tevê são sempre ações que se confundem em um mesmo processo de
fazer emergir pressentimentos e atribuir sentidos ao que se desenrola nas telas, em
linguagem feita de imagens e sons. São as imagens e os sons que primeiro se
apresentam, mas a linguagem audiovisual, movimento, cor, é composta de muitos
elementos e muitas nuanças, sintetizados em uma narrativa. Os elementos que
compõem o cinema estão, desde há muito, partilhando da vida de todos os que
habitam este planeta girante. Assim, ver filmes, mesmo aqueles mais banais, pode ser
uma experiência profundamente humana.
Cinema é também a primeira arte em movimento e para grandes públicos, sem prérequisitos. Todos podem, rápida e minimamente, compreender um filme, ainda que a
língua do cinema exija, sim, estudos talvez muito mais profundos e complexos do que
a língua escrita. Contar histórias em imagens e sons é parte do modo de viver do
homem contemporâneo. Hoje, estamos no mundo das imagens, é o que alardeiam
especialistas, ou não. Todas as histórias, mesmo as mais antigas, contadas em filme,
trazem nelas aquele certo gosto de atualidade que lhes confere o fato de emergir das
telas, sempre de novo e pela primeira vez.
A história que um filme conta é a história do filme, mas também a que cada
espectador assiste. A história de cada um, espectadores e personagens, é parte da
história de todos; em meio a uma enormidade de fios, se entrelaçam novos enredos
em muitos plots, sejam eles reais ou ficcionais. Desvelar o que isto representa para a
formação, para a educação e para a aprendizagem deste homem contemporâneo é um
desafio para todos, educadores ou não. A linguagem audiovisual atua em uma esfera
que conjuga espaço e tempo, locação e deslocamento, o passado, presente e futuro
em permanente transformação.
Luis Buñuel, no seu livro biográfico, O último suspiro, refere-se a Eugênio d’Ors como
“autor de uma frase que cito freqüentemente contra aqueles que buscam a
originalidade a qualquer preço: Tudo o que não é tradição é plágio.” E completa: “Algo

Tempo e espaço. mais que as películas. tradição. uma vez que está baseada. para quem cinema é esculpir o tempo7. revelada e novamente impressionada pela luz. traduz um conceito artificial. . na tela. cinema é. o artefato é uma película sensibilizada pela luz. uma arte popular. O cinema é cultura e entretenimento. o estranhamento que muitos filmes causem a seus espectadores. ainda. precedência. Mas. em fragmentações constantes. configurando assim um processo interativo razoavelmente complexo. alegoria e realidade. no filme. diz que “regras cambiantes e ambigüidades espaçotemporais constituem o universo narrativo dos filmes de David Linch tornando-os. por sua vez. se desvincula do tempo físico da projeção. sendo somente daquele filme. personagens. luz e sombra. Quando expressa essa percepção por meio da visão e da audição. configurado pela convivência de figuras. Não há mistérios sem que os elementos dramáticos estejam muito bem encadeados. Penso que o cinema de David Lynch tem a capacidade de trazer. um artefato. antes de tudo. Cinema é. em muitas outras. se visto nessas salas apropriadas. Além das paisagens privativas que o tempo histórico dos filmes expressa – em locações. dois tempos que. por isso. uma ambigüidade narrativa. síntese poética. seu cinema é identificado como pós-moderno5. com o estilo cinematográfico que adota. Suas histórias se constroem sobre um terreno móvel e desconcertante. mas está também na paisagem. que o cinema tão bem retrata. no momento da projeção. no seu sentido etimológico. nos gestos. inspirada. Há. nas roupas. Está no que é falado pelos personagens. conteúdo e forma. copiada. pode ir aonde a imaginação e a energia elétrica permitirem. Nesse sentido. O tempo. na sua duração que. em muitos filmes. descontínua e infinita. Talvez. O tempo na narrativa cinematográfica está na ação que imprime o ritmo. e que.” Assim. Sempre. um artifício. cenários e situações que não respeitam um princípio pronto e reconhecível de ordens. assim. para o cosmo de um filme. portanto. tem hora e local próprios para acontecer e. além das clivagens tradicionais (entre elas as que separam o natural do sobrenatural. numa seqüência espiralada. a partir da luz. muitas vezes. Das nostálgicas lanternas mágicas às modernas técnicas de projeções digitais. No entanto. em muito. o âmbito de abrangência que esse conceito pretende ter. Amaranta César3. as narrativas cinematográficas falam. histórias e narrativas. Toda arte é. envolve o espectador numa situação de desconforto e incômodo”. é o “ato de transmitir ou entregar” e original é “princípio. E é também a confluência de muitos mistérios. Para lembrar Tarkoviski. além do tempo que a história pretende relatar. paradoxalmente. Portanto.” Paradoxal ou não. cria um tempo que lhe é peculiar. No caso do cinema. Vejo o mistério. em análise dos filmes de David Lynch4. Cada filme. pelo menos. vão revelando uma escultura de muitas faces. E sugere que toda história é uma tradução. talvez. muito bem definidos. compreender cinema é também compreender o tempo no seu transcorrer. pode proporcionar espetáculos de rara emoção e beleza. originalidade e tradição parecem fundir-se em uma mesma e sempre outra experiência humana. uma maneira de percepção. não se restringe ao descrito pela ação da câmera. o sublime do grotesco).sempre me pareceu profundamente verdadeiro nesse paradoxo. extrapole. proveniente de um mistério que nunca é totalmente esclarecido. fitas cassete e DVD. vai além das palavras ditas pelas personagens. de um tempo que transcorre de maneira própria. estúdios e cenários exclusivos –. assim como está no verbo nas linguagens escritas6. na arquitetura. o universo narrativo que ultrapassa as tramas que envolvem o próprio homem contemporâneo e não apenas os personagens que transitam por suas histórias cinematográficas. nos enfeites de corpo e de ambientes. situados nas fronteiras dos gêneros. Cinema é arte contemporânea.

que se realiza nos inúmeros fotogramas que. vão se constituir um filme com história própria. comover. Ou. A educação. A escola e as disciplinas percebem o cinema como o receptáculo de um conteúdo próprio para uma aula. entre famílias. no filme. podendo levar ao riso ou às lágrimas. artes – oficial ou oficiosamente embalada pela pergunta: é adequada para que nível? (. seja no grande plano-sequência em que se constitui o filme – do momento em que acende a luz ao instante em que se apaga. ficando muito aquém das possibilidades que este meio – o cinema – oferece.. PGM 2 – Som. o controle remoto. concorrem para a construção das narrativas que falam diretamente ao emocional. E há muito o cinema já foi pensado para se aproximar da educação e da escola. Procura ressaltar a eloqüência do vazio. Luz e sombra são elementos dramáticos. ou na Córsega. mas poderiam também ser na Albânia. Língua Portuguesa. quanto menos colocar em seus centros a obra original”. seja de História. ainda que multiplicado em inúmeras cópias.. “como sujeitos separados. Walter Benjamin9 diz que “a arte contemporânea será tanto mais eficaz quanto mais se orientar em função da reprodutibilidade e. E de como. Estes aspectos são observados nessa vendeta nordestina que o filme retrata. portanto. etapas. poderia ser o de estudar esse artefato cultural. que será apresentada no Salto para o Futuro/TV Escola. Dessa forma. o programa apresenta os aspectos que estão embutidos no filme. para educadores e professores que se interessam por cinema como método de trabalho. mas não os níveis. em vários projetos e em vários momentos. os alunos-espectadores se aproximam dos filmes com certa reserva. silêncio e fala (trilha sonora) Tendo como referência o filme Abril despedaçado. desmistificaram a arte cinematográfica que já surgiu para ser reproduzida e tornaram as histórias. O desafio. de certa forma.) A cultura das artes e das ciências – poucas vezes produzida em escolas e muitas vezes produzida fora delas – leva em conta a tradição e o aprendizado técnicos. Matemática. justapostos. então. indo além do enredo. sobretudo. o retorno e o avanço de imagens e sons. dá início ao processo fotográfico. especialidades. o suporte. organizada por séries. traz a cultura – ciência. a divisão etária. película de celulóide. Geografia. . ou seja. nos pequenos planos – cortes para mudança de imagens – que vão se somando pouco a pouco para constituírem a totalidade do filme. provocado por um assassinato ou uma ofensa. Estes são os programas dessa série. de 4 a 8 de abril de 2005: PGM 1 . na linguagem cinematográfica. a tradição escolar dos pré-requisitos8”. os lugares dos filmes ainda mais próximos de nós. Filme – O carteiro e o poeta. a partir da decomposição de seus dois elementos básicos – imagens e sons – abordados de várias formas. os programas rígidos. fases. e suas possibilidades expressivas. onde foi escrito o livro em que o filme se baseou. Filme – Abril despedaçado.Luz e sombra (iluminação) Este programa trata dos elementos luz e sombra nos seus muitos aspectos expressivos. a educação e a cultura falam de si e entre si coisas distintas. ainda que. nos momentos de silêncio.transportam imagens e sons para todos os lugares e todas as pessoas. os personagens. onde teve origem a palavra vendeta: espírito de vingança. Os meios eletrônicos e portáteis de cópia e projeção. para dentro de suas paredes. impressionado pela luz. a multiplicação de cópias.

Filme – Nenhum a menos. tendo como referência o filme Mamma Roma. p. Belo Horizonte: Autêntica. Cinema e educação. Filme: Mamma Roma. A escolha do filme Nenhum a menos.) A escola vai ao cinema. que é a edição. 1999. se aproxima do trabalho dos professores. o cinema Aspectos da linguagem cinematográfica serão tratados neste programa.PGM 3 – Editando a realidade (montagem) Nesta série. Salto para o Futuro. [2] Baudry. Consultora dessa série. PGM 5 – O real. São Paulo: Brasiliense. Jean-Louis. Teixeira. Campinas-SP: Autores Associados. TV Escola/Salto para o Futuro. Magia e técnica. 1987. José de Sousa Miguel (orgs. deveu-se à possibilidade de pensar a edição por meio de um universo tão familiar na educação: a relação professor-aluno. quanto mais repetidas. Estudos de Cinema 2000-Socine. do diretor Zhang Yimou. retratando sob os diversos ângulos as mais variadas faceta da vida humana. Walter. mais interessantes se tornam. Partindo da premissa de que o que sustenta esse trabalho é sempre uma interrogação: Que história queremos contar? O que. de Pier Paolo Pasolini. PGM 4 – A origem dos enredos Estudiosos de literatura. A partir da narrativa fílmica. arte e política. Belo Horizonte: Autêntica. Alguns falam em 40 histórias. por analogia. os indianos dizem que a história que não estiver contida no Mahabharata não existe! De certa forma as histórias sempre se repetem e. Filme – O Senhor dos Anéis. Almeida. 2002 Notas: [1] Professora Doutora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília. Rosália. que ao fazer e refazer os planejamentos. deseja deixar a vida que leva. sobre o que faz do “cinema” cinema. em que estamos refletindo sobre as diferentes linguagens do cinema. Milton José de. a linguagem da realidade. ou dito de outra maneira. Amaranta. pela relação com o filho. Ismail (org. Rio de Janeiro. In: Xavier.P. 397. ou seja. É um filme que emerge da realidade. “A tela-espelho: espetacularização e dupla identificação”. Referências bibliográficas Benjamin. Duarte. Cinema arte da memória. Boletim Diálogos: cinema e escola. cenário (subúrbios de Roma) e personagens fundem-se numa narrativa contundente. vamos nos deter na análise do processo de edição. precisam ter sempre em mente que alunos querem formar. tudo nesse filme é para ser visto como real. In: Ramos. F. [3] Cesar. escritores. 2002. Por isso.) A experiência do cinema. buscaremos compreender e refletir sobre o sentido desse elemento constitutivo do cinema. Porto . “Esse estranho mundo: um estudo poético do cinema de David Linch”. Em meio à história da prostituta romana que. de Castro e Lopes. Inês A. roteiristas de cinema e de TV sabem que o número de histórias originais é limitado. Rio de Janeiro: Graal/Embrafilme. 1983.

[4] Diretor americano de A cidade dos sonhos. Fredric. Perry. é variação que indica o momento em que se dá o fato expresso pelo verbo.) [7] Tarkoviski. 1985.BR/SALTO . 1987. E o tempus. Maria Luiza Monteiro. Jameson. 1994. Verbo é a palavra que exprime um fato representado no tempo. São Paulo: Ática.COM. SALTO PARA O FUTURO / TV ESCOLA WWW. [8] Almeida. 1986. As origens da pós-modernidade. São Paulo: Cortez. a lógica cultural do capitalismo tardio. (Coroa. Obras escolhidas. 1999. [6] “Não são poucas as línguas que incorporam ao conceito de palavra temporal o verbo. por sua vez. São Paulo: Brasiliense. O tempo nos verbos do português: uma introdução à sua interpretação semântica. vol. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2001. A história real. 1998. Imagens e Sons – a nova cultura oral.Veludo Azul. 1999. [9] Benjamin. Andrei. 1997. Walter. p. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. 13. [5] Ver Anderson. O homem elefante.TVEBRASIL. Thesaurus. Coração Selvagem. arte e política. Milton José. Brasília. Magia e técnica. Esculpir o tempo. 1980. 1990. 1.Alegre: Sulina. 2001. São Paulo: Martins Fontes. Pós-modernismo.