A TATUAGEM
POR PAULO RIBEIRO
Vais partir naquela estrada onde um dia chegaste a sorrir.
Vais deixar abandonada… essa coisa
Fazem bem? Fazem mal? Fazem bem à pele? Essa coisa é luz. Aqui, de agora em diante, vão restar sombras. Aqui,
de agora em diante, só vão habitar os senhores
seus clones. Lobos. Lobos com pele de cordeiro. Lobos mascarados de ovelhas. Lobos raivosos que projectam a sua sombra pavorosa em noites de lua cheia. Podemos sempre acreditar que o mundo físico está sobrevalorizado. Olhar. Ouvir. Cheirar. Tocar. É dentro da cabeça que se passa quase tudo, bem sei. O bom, o mau e o vilão. É na cabeça que se urdem conspirações e desejos. Crimes e castigos. Guerra e paz. Ódios e amores. Mas a minha cabeça pensa na dor da solidão física. Não tenho eu o direito de ter pena de mim? Talvez não. Mas tenho. Para o diabo quem diz o contrário! Ponto final. Se quiser sofrer, sofro. Ponto final. O sofrimento é meu. Ponto final. Pelo menos isso ninguém me leva… em nenhuma estrada onde um dia chegou a sorrir. Mas será que o Clemente, que cantava essas coisas com tanta assertividade, não sabe que já não há estradas? Só aviões e rotas aéreas. Mais rápidas. Quase nem dá tempo de chorar. Ainda menos de sorrir. Rotas e mais rotas. Desembarques na Normandia e no fim do mundo. Lá onde Judas perdeu as botas. Eu tenho o direito de ficar com o cérebro roto (como as tuas rotas). Vais brilhar a tua luz para cascos de rolha e eu se quiser lamentar, lamento, ora essa. Tu não mandas!
e os
Esses raios de luz.
Estávamos uns seis sentados à mesa. Paredes despidas. Era o fim. O que estava com o fato verde de fazenda disse:
“vocês pensam que eu ando a dormir, mas eu já tratei da minha vida”. Posto aquilo, o único otário que não tinha tratado da sua vida era eu. Saíram todos. A minha missão
era fechar a barraca. Coisa que eu fiz com brilhantismo, como já vem sendo hábito, diga-se. Mas antes, ainda tomei um café. Era a última cápsula. Raios! Descafeinado… Que
treta!
E esta dor no peito? Foi uma coisa tua que ficou em mim,
como canta um cantor brasileiro. Não me lembro qual. E meu? O que levas tu meu? Levas meses de aborrecimento
e tédioooooooo. Eu não sou nada de especial. Na verdade,
sou um bocado enfadonho. Se eu disser uma piada, provavelmente já a ouviste anteriormente. Sou bizarro. Um esquisitoide. Um quisto. Um quistoide. Na minha voracidade de engolir o mundo, acabei por ser engolido por algo que nunca posso possuir. Acabei engolido por um conceito. Por uma representação perfeita da suprema criação estética, cuja essência ninguém pode domar. Um mito. Muito para lá do humano. Quase divino. Para lá de todos os desejos carnais irrealizáveis.
Eu sei que tenho esta tendência para me armar em desgraçadinho. E não serve para nada. Bater no fundo, claramente, não cumpre o que promete. Não quero intelectualizar, mas a decadência é uma espécie de promessa de felicidade. É a promessa de um mundo melhor. Da terra prometida. É o contrário de ganhar o mundo. É ganhar o mundo pela negativa. O outro lado da moeda. Quando a frustração é a meta, não há como ficar frustrado pelo facto do clímax da frustração não ser o que se esperava. Não consigo explicar isto como deve ser, eu sei. Enquanto estamos a descer, acompanha-nos a melancolia, a mágoa, o desencantamento, um crescendo
de desalento. A descida compensa. Mas não há descidas eternas. Se houvesse, provavelmente, seriam subidas e seria uma questão de encarar os sentimentos de outra perspectiva. Olhar para eles de outro ângulo. Poderiam ser considerados ânsia. Inquietação por um lado, afã por outro. Desassossego ou sofreguidão.
Não espero mais nada. A largada. A fugida. A anulação do ponto de partida.
Luz, trevas. Excitação, nojo. Agonia, repulsa. Se conseguir voltar ao ponto de partida, tudo será diferente, vazio e imprestável. Nem os cães ladram. As caravanas não passam. Há um tédio que carrega melancolia. Nunca vem a bonança. O tempo não cura. Não há feridas. Não há necessidade de cura. Só cuidados paliativos. Golfinhos de plástico boiam sozinhos em piscinas insufláveis abandonadas. Não há crianças, ainda menos gritos. Nem gritos mudos. Nem silêncios ensurdecedores. Não há nada depois de se voltar à casa da partida. Não se recebe dinheiro, só um pontapé no rabo. É o fim.
Disse ela, a páginas tantas:
– Também não exageres. Não é o fim do mundo.
Não é o fim do mundo… Eu nem respondi. Ela não conhece o meu mundo. Há tantos mundos diferentes. Claro que não é o fim do mundo. Os mundos nunca acabam. Sabes como é o meu mundo? Tive vontade de lhe explicar, mas fiquei calado que nem um rato. Um rato asqueroso. No meu mundo há choro infindável. Lágrimas ácidas que corroem a pele. Vermes gigantes que dilaceram. Insectos
asquerosos que engolem centenas de pessoas de uma só vez. Mutantes assassinos. Bordéis cujos clientes são demónios. Monstros que têm o estômago em lume. Corpos nus, amarrados uns aos outros, cozidos em caldeirões. A única comida que existe é sangue e cinzas. Nunca nada desaparece ou se consome totalmente. Cinzas renascem para mais tormentos. Excrementos humanos ganham vida em corpos monstruosos que devoram outros corpos. Criaturas inumanas que vivem eternidades dentro do ventre de outras criaturas. Serpentes com pele de barata. Gafanhotos gigantes que cospem gás sarin. Pessoas desmembradas, recriadas diabolicamente, por cientistas decrépitos, das formas mais inacreditáveis. Tortura. Agonia. Pranto. Desespero. Ânsia (incontrolável) por um momento de paz. Que nunca chega. Chega o tédio. O indizível tédio da solidão. O tédio do sofrimento. O infinito aborrecimento da dor e da desolação. Céus de um negrume incalculável. Chuvas de vómito. Granizo de bílis. Ampulhetas com sangue coagulado. Mastronças com corpo de porco. Galifões em brasa. Fontes de anthrax. Cocktails de napalm. Acepipes de carne assada humana.
Ausência de luz. Distância da
. Separação da luz. Dor e
fastio. O paradoxo pacífico. Todos os prazeres invertidos ou hiperbolizados para lá do limite da agonia. O abismo.
Na véspera da partida dela tive um pesadelo horrível. Ainda pensei correr até ao aeroporto para lho contar. Sei lá para quê. Para ela ficar com uma imagem mais concreta do meu mundo. Mas cheguei à conclusão que o meu mundo em ruínas não lhe podia trazer qualquer proveito. E se eu gosto dela (ai se gosto!), não me vou querer vingar. Não vou querer imprimir imagens decadentes na sua mente amorosa. No seu jardim mental. Não faço ideia com
que tintas se imprimem coisas na mente, mas sei que às vezes são tintas muito permanentes. Não quero correr esse risco. Por amor. É uma flor que lhe ofereço, sem que ela o saiba.
Sonhei com uma versão distorcida da história da
. Dava um livro que ninguém leria. Pelo menos,
com prazer.
Era uma vez (o sonho começou mesmo com estas palavras) uma rainha muito parva que valorizava a beleza acima de todas as coisas. Ficou contente com a filha que teve.
. Depois morreu. O rei
como não era de modas, casou-se logo a seguir. A madrasta de Branca era uma bruaca da pior espécie. E maluca. Diz-se que ouvia o espelho a falar. Este, em vez de se pronunciar sobre as grandes questões do mundo, aferia a beleza das donzelas. A nova rainha saiu a perder em comparação com a sua enteada e não gostou nada da brincadeira. Orientou um lenhador rude do campo para despachar a miúda. Mas o pobre homem não era assim tão rude e foi incapaz de cravar um balázio na testa da princesa do povo. Vai daí, deixou-a à solta na floresta e manchou o lenço, que deveria levar à rainha como prova, com o seu próprio sangue. Teste de ADN, está quieto. Eu cá não lhe pagava um tostão. Ainda se trouxesse a cabeça ou uma selfie com a morta. Agora assim?
Pôs-lhe o nome
Branca de Neve
Assustada, Branca foi correndo floresta fora, fugindo de ursos, cobras e aranhas. Por fim, chegou a uma pequena casinha. Muito bonitinha. Bonita por fora. Por dentro era um autêntico pardieiro. Que espécie de animal viveria naquela estrumeira? Não era um animal. Eram sete
animais. Sete anões. Os seus nomes: Pervertido, Sabujo, Ofendido, Asqueroso, Ranhoso, Tarado e Energúmeno. Assim que os sete imundos anões lhe meteram a vista em cima deu-se uma algazarrada das antigas. “Agarrem-na, é minha!”, “Tá calado, Tarado, vamos metê-la a limpar esta pocilga”, “Qual limpar, qual carapuça, isto não precisa de limpeza nenhuma!”, “Estejam calados, imbecis!”, “Cala-te tu, ó anão Asqueroso”, “Anda cá, fofura!”. Etc. e tal.
Foram 15 dias de agonia. Tomada refém sem pedido de
resgate. Escravizada para todo o tipo de serviço. Príncipe salvador, nem vê-lo. A libertação veio em forma de bruxa.
como se
”, pediu. Uma
maçãzinha para cada um dos anões. Fim daquela quinzena infernal. Pior, só 15 dias no Algarve em Agosto. Depois de uma refeição de badalhoquices, tarte de maçã para sobremesa. Cinco minutinhos e estavam todos a espumar da boca. Espuma-se com cianeto? Se calhar não. Que rico cenário! E ainda levaram uma cuspidela cada um. Daquelas bem puxadinhas das entranhas mais recônditas.
ela fosse parva! “
Pobre velhinha. A vender maçãs envenenadas
São
oito, se
faz favor
Quando caiu em si, ficou perturbada com a sua própria vileza. Era como se tivesse absorvido os nomes dos sete
anões.
como quem guarda uma última bala. Ingeriu-a com irritação. Caiu redonda em cima do tacho com sopa já a cheirar a azedo.
Branca de Nojo
. Tinha guardado para si uma maçã,
Como a família real era muito fina, o caixão da Branca de
. O corpo ficou em câmara ardente no
panteão lá do sítio. O príncipe ainda pensou que se tratasse de algum encantamento mágico e beijou a morta
Nojo era de
de todas as maneiras e feitios, mas nada resultou. Não consta que beijos produzam algum efeito contra cianeto.
Acabou assim. Os anões mortos. A Branca morta, cheia de remorsos pela sua maldade. Cheia de remorsos antes de morrer, naturalmente.
Caem nódoas nos melhores panos. Em todos os panos, aliás. Não há panos imaculados. Não há panos brancos como a neve. Nem panos há, diga-se. Só trapos de imundície. Querem que repita? Trapos de imundície. O caminho é este. O dela. E o meu. Não há volta a dar. Claro que não há volta a dar. Quem me susterá agora? Quem achará possível entrar neste ser atroz um rasgo de luz? Condenação. Crítica. Julgamento. Sim! Tenho muito disso à espera. Tenho disso a rodos. Doutoramento Honoris Causa em desprezo. Mestrado em olhar de lado. Licenciatura em repulsa. Técnico-profissional em falta de amor. Na minha vida, ninguém. Zero (0). Madrasta, anões, príncipes, reis, máquinas de café. Cápsulas. Aviões que te levam para longe. Balelas!
Mas eu sabia. Eu sabia! Juro! Vocês podem não acreditar, mas eu sabia, aliás, eu tinha a certeza absoluta. Quase absoluta. Tanto é que um dia, sem pudor nenhum, saiu- -me este lamento da boca para fora:
– Eu bem sei que, mais dia, menos dia, tu vais deixar-me.
– Pára com isso! – respondeu-me sem pachorra nenhuma.
– Não me estou a queixar. Só estou a constatar um facto. Provavelmente só estás comigo por pena. Mais vale eu ir-me preparando. Não há bem que sempre dure…
– Se acontecer… usas a imaginação.
E assim foi. Deixou-me. Aqui estou eu a fazer o que ela recomendou. Na altura não percebi, mas agora percebo. Gostava de lhe ter dito duas ou três coisas sobre usar a imaginação. O Erasmo Carlos tem aquela canção perfeita para retratar a minha situação. O primeiro verso vai assim:
“De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar Se você não vem e eu estou a lhe esperar Só tenho você no meu pensamento E a sua ausência é todo o meu tormento”
Imaginar é horrível. Já tentei imaginar quase tudo. Os abraços que demos. O teu sorriso. O teu ventre suado depois de chegares do ginásio. O timbre da tua voz. O teu cabelo ao vento. Essas coisas… Fecho os olhos e quanto mais me concentro menos vejo. Vejo tudo preto. Acho que vou para o computador abrir a pasta com o teu nome e ficar ali a fazer zapping nas tuas fotos. Isso da imaginação é muito abstracto para mim. A tua ausência é todo o meu tormento, isso é. Ah! Já sei como é que se chama a canção. “Quero que tudo vá para o inferno”. Menos eu, claro. E também me custa pensar em ti a arder.
? Eu tenho esta coisa com
o Benfica… não consigo evitar. Ela só queria estar de mão de dada, mas eu lá podia estar de mão dada durante um jogo do glorioso?! Nessas alturas as mãos servem para
Terá sido por causa do
bater nas pernas, as unhas para roer e a língua para soltar palavrões.
A verdade é que eu não estava ao nível daquela mulher.
Sad but true. Ela queria que eu gostasse de poesia, imagine-se… Era importante para ela que eu entrasse naquele mundo. Eu tentei, mas não percebia nada daquelas coisas. Não dava mesmo para mim. É engraçado como existem pessoas que se sentam a escrever coisas que mais ninguém entende. Não foi para isso que inventaram as palavras. As palavras são para as pessoas se entenderem. Raios! Agora por causa do diabo dos poetas
patetas fiquei sozinho. É uma dor desgraçada, parece que
levei uma bastonada. Olha! Cá está uma rima
Pronto, já
sou um deles! Se eu me tivesse lembrado disto antes… talvez ela não tivesse chegado a partir.
Neste momento a nossa interacção resume-me a eu esperar o “like” dela no facebook quando publico alguma graçola. Às vezes fico tão ansioso que até tenho de tomar um . Outras, nem tanto. Nesses casos, meio comprimido é suficiente. É o que me resta. É triste, o estado a que um indivíduo pode chegar. Gostava tanto que
a culpa fosse mesmo do Benfica, ou da poesia, ou dela.
Dava tudo para lhe poder chamar todos os nomes feios do mundo, com propriedade. Mas não posso. Seria injusto. Só queria que ela estivesse aqui.
Acho que devia ir confessar o meu pecado a um padre. Senhor padre, perdoe-me porque pequei! Ele perguntaria:
“qual é o seu pecado, meu filho?”. Confessar-lhe-ia o que só a ela confessei. E ela não era nenhuma parede. O meu pecado é a idolatria. Eu idolatro essa mulher que me abandonou. A idolatria, senhor padre! Ainda é pecado isso? Mentir, roubar e trair, toda a gente sabe que continuam em vigor. E idolatrar uma mulher? Aposto que o padre haveria de desvalorizar semelhante confissão. Se eu tivesse adorado uma estátua do buda, talvez ele me punisse. Mas adorar uma mulher? “Deixe lá isso e vá para casa em paz”. Mas como é que eu posso ter paz no meio desta dor? Por favor, mande-me rezar um milhão de pais-nossos, a ver se isto vai ao lugar.
És um deus insuficiente. Um deus com letra minúscula. Não és uma deusa, também. Nem grega, nem romana com nome de planeta. És só uma pessoa. Se fosses deus não haverias de querer nada comigo. Serias um deus impessoal que não ofereceria salvação. Serias, talvez, uma divindade distante. Nada mais. Como se, neste momento, não o fosses também… Coloquei a minha vida nas tuas mãos e… nada. Tinhas-me na mão, mas deixaste-me cair. Eu estalei-me com estrondo. Ando a tentar colar os cacos com saliva. Endeusar humanas dá nisto. O padre não está a ver bem a gravidade da coisa. Só se preocupa com pecados palpáveis. E o resto? O resto que está entranhado nas entranhas mais recônditas da alma? Quem chega lá?
– Eu amo-te! – disse-lhe eu uma vez.
Sabem o que me respondeu ela?
– Não digas isso! Não quero que me ames. Não quero que me pressiones dessa forma.
Fiquei triste, mas não respondi. Ela estava farta de mim. Eu cansava-a, tenho a certeza. Eu cansei-a. Insisti:
– Pronto
Adoro-te!
– Pior. Isso quer dizer o quê? Que te pões de joelhos a rezar diante de uma fotografia minha?
Até perdi a vontade de ver o Benfica.
Eu desejo-a desde o dia em que a vi pela primeira vez. Desejar é um bocadinho diferente de cobiçar. Ela não era a mulher do próximo. Não há nenhum mandamento a proibir o desejo. Nunca o cheguei a compreender (o desejo). Só sei que quando a tive (a ela), a continuei a desejar. Talvez nunca tenha chegado a tê-la. Acho que nunca foi, realmente, minha. Mas eu fui dela. Ainda sou. Desde novo que olho para essa mulher embevecido. Toma, sou teu. Um dia, condescendeu, mas nunca me quis, no fundo. Um fundo não tão fundo assim. Foi tudo uma ilusão. Corri a vida toda atrás dela. A maior crueldade que me fez foi deixar-se apanhar, só para depois voltar a fugir. As pessoas são más.
Foi o meu castigo. Deixar o amor entrar. Ou qualquer coisa assim. Aqui, sentado à frente do computador, hipnotizado pelo desespero… não me lembro do que ia dizer…
Tenho um computador à frente. Uma centena de colegas. Um carro estacionado à porta. Um apartamento hipotecado. Uma televisão. Um monte de coisas que não
tenho vontade de fazer. Nenhum amigo. Nenhum compromisso. Nenhuma ida ao cinema. Nenhuma inscrição em sites de encontros. Tenho a dedicação de uma vida que acabou. É a pré-reforma do amor. O fim do sentido da vida. Foi tudo em vão. Mas eu sabia, raios, eu
sabia! Eu já esperava o fim. Antes de
A
esperava
inquietude.
amanhecer já eu
O
o
Pelo
meio,
a
espera.
tédio.
Ainda que esse desejo idólatra fosse um pecado grave, era somente mais um neste caixote do lixo imundo que é o
planeta Terra. Só um Criador cheio de misericórdia para
não incinerar de vez esta estrumeira. Homicídio, injúria, calúnia, difamação, latrocínio, extorsão, usurpação, estelionato, peculato, adultério, antropofagia, cobiça, inveja, ira, gula, mentira. Imundície atrás de imundície. O meu é só mais um pequeno detrito. Eu sou apenas escória miúda neste CHIQUEIRO. Mas não somos todos?
Como tinha um computador à frente fui-me pôr a ouvir as músicas de que ela gostava. Tinha uma paixão desalmada pelo Nick Cave. Foi música que eu nunca percebi. Parecia-me um bocadinho chata e quando não era chata era estranha. Mas gostos são gostos. Dizem que não se discutem. E não é que dou comigo no youtube a pesquisar canções dele? São todas tão tristes. Deu-me cá uma vontade de chorar. Coisa que fiz. Não consegui evitar. Uma das canções dizia assim, mais coisa, menos coisa: “Oh baby don't you go”. Ai agora? Se ela se tivesse metido no meu lugar e deixado que o Cave a aconselhasse… Mas não.
A canção que ouvi a seguir era ainda pior. Triste como a
. Cada verso pior do que o outro: “When you're sad
and when you're lonely / And you haven't got a friend /
Just remember that death is not the end”. Eu ali sozinho… parecia que o tipo me estava a sussurrar aquilo directamente ao ouvido. O reverendo Nick a pregar para uma poça de água. Eu sei que a morte não é o fim. O fim foi ela ter-se ido embora. A morte será libertação. Quanto mais sofrimento agora, melhor me saberá depois. Será a morte libertação de quem sofre por ter sido abandonado por um falso deus? Mas se eu já estou no inferno… só pode melhorar!
O que sabe Dante? Nada! O inferno não tem nove círculos. Tem muitos mais. Só aqui menciono Dante porque ela gostava muito dele. Era fã. Mas tenho ideia que de infernos não percebia aquela mulher nada. Em mandar gente para lá, talvez. Que inferno! Arrasto-me eternamente na obscuridade. Ad nauseum. Contornos esbatidos. Sorrisos inexpressivos. Indiferença para lá do prazer ou da dor. Doença auto-imune sem esperança de cura. Corpo que luta contra si próprio. Carne contra carne. Corpo contra corpo.
Passei uma vida inteira a construir-lhe um magnífico
arte. Um dia, ela
chegou lá e urinou-lhe em cima. Desfez-se em segundos. Uma vida deitada para o bacio. Duas vidas, na verdade. A minha vida exterior e a minha vida interior. Constrói-se tudo dentro da cabeça. Todas as infraestruturas. Todos os castelos. Os aposentos da princesa. O casamento real. E depois? Sobra esta dor surreal. Pior do que a dor física. Uma dor sem explicação. A dor da ausência. A crueldade do abandono. O meu mundo era ela. Agora, a espécie
castelo na areia
. Ficou uma obra de
humana foi extinta. A minha cabeça é um pós-armagedão. Eu perdi. Tudo destruído. Tudo em chamas. Desolação interna.
Ela bem tentou dar-me o toque, mas eu nada…
– Estou cansada…
– Vai dormir um bocado – sugeri.
– Desta relação! Isto não vai a lado nenhum.
– A lado nenhum… Porque é que isto haveria de ir a algum lado?
– Tu não percebes.
– Pois não.
Suspirou, levantou-se do sofá e foi até à janela. Parecia entediada da vida que levávamos.
– Sabes que eu te amo, não sabes? – perguntei-lhe. Sorriu com um sorriso deslavado.
Ela detestava que eu falasse em amor. Como é que podia estar cansada de uma coisa que não saía do sítio? O movimento cansa, mas pelo que vim a descobrir, a inércia cansa muito mais.
No momento em que carregou a última mala para o elevador, exactamente antes de me abandonar para sempre, arrisquei perguntar:
– Alguma vez gostaste de mim? Porque é que me fizeste isto?
– Isto o quê?
– Isto, bolas! Dares-me esperança… Porque é que não me
continuaste a desprezar, como fazias quando éramos miúdos? Odeias-me assim tanto para me dares esperanças
e depois espetares-me uma estaca no coração?
– Olha! Acabou. Há coisas que acabam. Não vamos meter
o ódio ou o amor ao barulho. Tu nunca me percebeste. Vivemos em universos diferentes. Nem paralelos são. No meu universo não há cenas quando as relações acabam. Processas a amargura e segues o teu caminho.
Fiquei assim um bocado indignado com o bafo gelado daquela resposta. Respondi-lhe:
– Sigo o meu caminho? Só assim? Não custa nada, certo?
O meu caminho eras tu. Agora estou num beco sem saída. Alguma vez chegaste a sentir alguma coisa por mim? Não consigo perceber…
– Alguém conhece alguém, verdadeiramente? Alguém percebe alguém?
– Hum…
– Ainda bem que as pessoas não se deixam conhecer. Se
todas fossem verdadeiras na exposição dos seus estados de espírito acho que ninguém perceberia ninguém. Nem vagamente. O mundo seria ainda mais caótico e cruel.
– Tu foste das verdadeiras?
– Não, claro que não. Eu sou das puramente caóticas. Das ideologicamente caóticas.
Agonizo pelo facto do meu sofrimento ser a coisa mais importante do mundo. Acima de todas as tragédias e todas as mortes. Não quero saber das violações na Índia. Não me importam as torturas na Nigéria. As torturas sei lá onde. Nada disso me afecta, a não ser esta pena que tenho de mim. Ela deixou-me. Isso é mais grave do que todo o horror que tem lugar neste mundo. Isso é mais grave do que a noção que tenho da minha própria maldade. A minha dor é mais grave do que a compreensão intelectual do meu egoísmo. O meu egoísmo não me faz doer o peito. O meu egoísmo não me corrói como ácido. A falta dela sim. Mói-me. Tritura-me a alma. Sinto-me como cristão atirado aos leões, mas por uma causa vã. Ela mascou-me o coração e depois cuspiu-o para a estrada. Coração- -pastilha-elástica arrastado pelo alcatrão, de sola de sapato em sola de sapato. Despedaçado. Pisado. Macerado. Esmagado. O meu coração é ainda menos biodegradável do que a pastilha. Não creio que daqui a cinco anos esta treta já tenha desaparecido, engolida pelo universo. Não creio. Vai continuar esborrachado eternamente. Tenho quase a certeza.
Um dia. Um dia (para acabarmos em beleza) passou-se isto:
– Tem marcação?
– Não – respondi.
– Hum… deixe-me lá ver se a Andy tem alguma vaga.
– Andy?
– É nome artístico.
A recepcionista foi lá dentro e voltou:
– Está com sorte. Sente-se um bocado que ela já vem falar consigo.
Sentei-me. Estava nervoso até dizer chega. Tenho pavor de agulhas. Até fico mal disposto só de pensar. O coração parecia que me ia sair pela boca fora a qualquer momento. Esse tal coração elástico, como a pastilha.
Vestido preto, curto, meio rasgado. Pernas tatuadas e botas da tropa. Cabelo preto com madeixas roxas. Era a Andy. Um bocadinho excêntrica, mas encantadora. Pele branca, perfeita. Vida não muito sofrida. Eu disse o meu nome e ela perguntou o que é que eu queria tatuar.
– Este nome, bem grande, no peito. – Mostrei-lhe um papel com um nome rabiscado.
– Alguém importante?
– Sim.
– Quem?
– Isso é mesmo necessário?
– Os nomes são a maior causa de arrependimento em tatuagens. Gosto sempre de avisar os meus clientes desse facto… – Esperava uma resposta. Percebi pela expressão facial dela que não mexeria uma palha enquanto eu não dissesse quem era a mulher. Ainda pensei em inventar uma peta qualquer, mas não me apeteceu.
– É a minha ex-mulher.
– Ex-mulher? Bem, essa é nova…
– Acredito.
– Divorciaram-se?
– Ela deixou-me… por outro. Na verdade, vim a saber que
durante o último ano já mantinha um caso com um colega
lá do escritório. Vidas tristes.
– E queres tatuar o nome dela? Porquê? Não percebo.
– Ela é a minha vida. Sempre foi. A rainha do meu castelo
de areia. Não tenho como fugir e não me quero esquecer. Quero uma razão para continuar a viver. Algo que faça sentido. Algo dela em mim, nem que seja só um resquício. Uma memória.
Ela ficou em choque.
– Pá, não sei o que dizer a isso. Por um lado acho fascinante, por outro parece-me patético. Desculpa
– Não tens de pedir desculpa. Eu sou patético.
Lá fomos. Desmaiei umas 3 ou 4 vezes. Aquilo é mesmo horrível. Desconfio que ela acabou por fazer quase toda a tatuagem comigo inconsciente. Acordei, depois do último apagão, já com a película aderente no peito. Pareceu-me bem, mas reconheço que na altura não vi convenientemente. Só queria sair dali. Cheguei a casa e
deitei-me no sofá. O peito doía-me
Fisicamente,
entenda-se. Doía-me a carne. Não era uma dor psicossomática. Era mesmo física. Carne pisada. Costelas agredidas. Acordei no dia seguinte bem cedo. Lavei a tatuagem com água fria. Olhei para o espelho. Desviei o
olhar e voltei a centrar-me na tatuagem. Fiquei incrédulo. Será que ela não percebera bem o nome? E agora? E AGORA? O papel tinha o nome bem escrito. Eu tinha-lhe pedido que tatuasse o nome da minha ex.: “Adriana”. Adriana! Adriana! BOLAS! Mas que diabo fez ela? Agora não passo de um aborto. Tenho um nome estranho tatuado no peito. Um nome de alguém que não existe. Fiquei sem nada. Voltei lá. Pedir satisfações, claro.
– Quero falar com a Andy – exigi exaltado.
– Tem marcação?
– Qual marcação, qual carapuça! A sua colega, Andy,
enganou-se. Eu estive aqui ontem a fazer uma tatuagem. Pedi-lhe para tatuar “Adriana” e ela tatuou outro nome. Quero falar com ela imediatamente.
A miúda lá foi, visivelmente atrapalhada. Abriram-se as cortinas e a Andy saiu de lá resplandecente, com um
sorriso nos lábios
. Eu abri a camisa à bruta e disse-lhe:
– O que é isto? Quem é a Andreia? Andreia? Eu queria “Adriana”! – Gritei.
– Eu sou a Andreia – sussurrou a tatuadora. – Tens planos para o jantar, hoje?
FIM
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