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s

lide seguro

AnoXXVIIII nO148

Maio 2008

R$ 12,00

EscolaNacionalde Seguros www.funenseg.org.br

Resumenen Espaííol

A percepção de riscos

e o meio ambiente

.

Umagestãopela

culturadobemcoletivo

Antonio Fernando Navarro e Mônica lopes

Gonçalves'

Introdução

A questão da percepção de riscos sempre foi um ponto

muitodiscutido no processo de gestão de riscos envolvendo

o meio ambiente. Muitasvezes incluía-sea percepção nas questões relacionadas à psicologia, outras vezes ela era relacionada à comunicação. No período de agosto de 2003 a fevereiro de 2005

foram realizadas inúmeras visitas para fins de pesquisa em um bairro periférico da cidade de Joinville, ocupado por moradores das classes de renda "O"e "E",denomi-

nado Jardim Sofia, com o objetivo de avaliar, através do

preenchimento de questionário específico, as questões relacionadas ao_meio ambiente. Após visitas iniciais, de reconhecimento da área e da situação, incluindo

conversas com alguns moradores, detectou-se que, no tratamento das questões ambientais, não seria possível

deixar de lado os temas relacionados à percepção dos riscos ambientais por parte dessa população, ainda

mais considerando que muitos haviamsofrido, por

inúmeras vezes, fortes e expressivos danos materiais,

causados pelo alagamento do rio do Braço, afluente do rio Cubatão, que nessas ocasiões chegou a deixar várias residências submersas.

No preenchimento dos questionários de percepção de riscos foram abordados moradores de 211 residências uni-

familiares,sendo 32 em terrenos em aclivese 179 em locais

planos, além de 44 proprietários de imóveis comerciais,

abrangendo cerca de 35%dos moradores do local.

maio2008

23

Discussão

Segundo Lima (2002), citando os resultados de análises

efetuadas

tituto

lançou, em 2000, um inquérito sobre questões ambientais.

Esse inquérito constitui mais uma edição do International

Social Survey progràmme (lSSP), rede internacional de es-

tudos longitudinais e 'transnacionajs

se

encontra representado, desde 1997, pelo ICS.Referindo-se

a esse inquérito, Lima informa:

por rVranuelVillaverde Cabral e Jorge Vala, o Ins-

de Ciências Sociais da Universidade

de Lisboa (lC5)

na qual Põrtugal

Os problemas ambientais estão hoje n~turalmente pre-

sentes no nosso quotidiano. Habituamo-nos a ver uma seção

sobre ambiente nos jornais e revistas, a assistir a notícias

sobre protestos ambientais nos noticiários, e a sermos alvo

de campanhas de informação e sensibílização para melho-

rar o ambiente. É hoje para nós pacificamente aceite que a

poluição das águas ou do ar é preocupante, ou que é uma

causa nobre contribuir para que não se extingam espécies

selvagens. Também não achamos estranho sermos interpela-

dos para responder a questões sobre as nossas opiniões sobre

o estado do ambiente, como aconteceu com o questionário

do Intemational Social Survey Programme (ISSP) que agora

apresentamos.

'No âmbito das atitudes

acerca do ambiente

incluem-se

indicadores relativos tanto a crenças como a preocupações

ou atitudes face a diversos aspectos relacion~dos com o am-

biente e questões gerais relativas ao ambiente e à natureza.

Caracteriza-se, ainda, o envolvimento relativo às questões

ambientais, considerando a percepção de auto-eficácia

ambiental (por exemplo: "É difícil para uma

eu fazer muito pelo am~iente. Em Portugal, a percepção de

ameaça ambiental é mais elevada nas mulheres, nos mehos

instruídos, nos mais velhos e nos que têm menores rendi-

pessoa

como

. mentos"). Além destas

características

sociodemográficas,

procurou-se analisar a relação com posições sociais mais

gerais. A percepção quanto ao grau de periculosidade é

apresentada na Tabela 1.

Tabela 1 - .Graude periculosidade para o ambiente (extremamente + muito perigoso -%)

Centrais nucleares

 

91

Poluição dos rios, lagos e albufeiras

87

Aumento da temperatura do planeta

88

Poluição do ar

causada

pela indústria

86

Poluição do

ar causada

pelos automóveis

84

Pesticidas e produtos 'q.uímicosusados na agricultura 79

Modificaçãogenética de produtos agrícolas

77

Fonte: Intemational

Social Survey programme

(ISSP) 2000.

Ainda segundo Lima,a progressivadegradação das con-

dições ambientais e, sobretudo, a sua crescente visibilidade,

transformaram a questão ambiental num problema social

.que tem vindo a ganhar terreno na sociedade portuguesa,

suscitando emergência no surgimento de novas atitudes,

valores e comportamentos que corporizam um processo

progressivo de mobilização social pela def~sa do ambiente e

das condições ecológicas em geral. No que diz respeito a di-

mensões como a,disponibilidade para aceitar sacrifícios em

nome da preservação ambiental, os níveis de preocupação

com o estado do ambLente ou, ainda, algum sentido crítico

face à vida moderna e suas consequências, as respostas dos

portugueses não se distanciam significativamente das res-

Rostas dos alemães, britânicos ou espanhóis (Tabela 2).

.

\

Tabela 2 -Activismo, disponibilidade

3S

30

25

20

15

10

5

o

e crítica ao crescimento

(%)

~Alemanha

. Grã-Bretanha

. Espanha

-Portugal

Disponibilidade

Confiança

Crítica ao crescimento

Fernandeset ai (2005),em trabalho de pesquisajunto aos alunos da Faculdade

Brasileira' Univix, enfocando a temática ambiental em um segmento específico _

da sociedade (alunos de uma instituição de ensino super!or), escolheram como

objeto da amostra os estudantes desta faculdade, tendo como base o seu Projeto

Interdisciplinar (PI)adot'tdo em seu Curso de Engenharia de Produção Civil (EPC).

Para tanto, desenvolveram o estudo "Percepção Ambiental", abrangendo um

universo de 1.449 alunos. Em alguns dos inúmeros questionamentos, os alunos

assim se pfOnunciaram sobre os temas (Tabela 3):

Tabela 3 - Você tem interesse por assuntos relacionados ao meio ambiente?

Classe

Ocorrências

Sim

118

Não

5

Não Responderam

8

Total

131

Fonte:

% do Total

90,1

3,8

6,1

Faculdade

100,0

Brasileira

-

Univix_

Faggionato (2005), quando aborda a questão da percepção ambiental, declara

que o homem está constantemente agindo sobre o meio a fim de sanar suas neces-

sidades e desejos. Você já pensou-em quantas das nossas ações sobre o ambiente,

. naturalou construído,afetama qualidadede vidade váriasgerações?Enos diversos

projetos arquitetônicos ou urbanísticos .!Lueafetam as respostas dos seus usuários e

moradores? Enão estamos falando de respostas emocionais, que dependem do-nosso

humor ou predisposição do momento, mas da nossa própria satisfação psicológica

com o ambiente. Cada indivíduo percebe, reage e responde diferentemente frente

às ações sobre o meio. As respostas ou. manifestações são, portanto, resultado das

percepções, dos processos cognitivos,julgamE!ntos e expectativas de cada indivíduo.

Embora nem todas, as manifestações psicológicas sejam evidentes, são constantes,

e afetam nossa conduta, na maioria das vezes, inconscientemente.

Questionamentos

Abordando especificamente a questão da percepção de riscos com relação aos

questionamentos feitos aos moradores do Jardim Sofia, como contido na Tabela

4, foram desenvolvidos questionamentos

pessoal e algumas genéricas.

com uma série de perguntas,

de caráter

Através da análise desses

dados

consegue-se

entender

por que as p:ssoas

se a

população é afetada por uma tragédia, não seria natural que buscasse o apoio

dos órgãos públicos, através de reclamações? Por outro lado, será que a opinião

de terceiros é importante para a sua compreensão ou maior envolvimento? Será

que a população acredita e espera algum tipo de apoio dos órgãos

se preocupam

mais com certas situações

do que com outras.

Por exemplo,

públicos?

Procurou-se

trabalhar

mais o resultado

dessas

análises

através

de várias

associações de respostas.

Tabela 4 - Comparativo (%)entre depoimentos de homens

(H) e mulheres (M)

1)

Foi você mesmo quem construiu o imóvel?

 

2)

Você tem preocupação quanto

local?

à segurança

de sua família por residir neste

3)

O que você faria para melhorar a segurança de sua família? Mudaria de local Investiria mais na proteção do terreno Investiria mais na segurança da casa

4)

5)

6)

7)

8)

9)

Você

acredita

que,

ao

desmatar

o seu

lote,

poderá

envolvendo seu imóvel e os demais da

região?

provocar

acidentes

Seus vizinhos estão preocupados com a segurança deles?

-

Seus vizinhos já comentaram com você a respeito do risco de morarem neste

local?

Você já fez alguma reclamação na Prefeitura?

Já aconteceu

algum

tipo de acidente

-

neste local?

Você acredita que as chuvas fortes podem prejudicar sua segurança?

10) Você acredita que sua fossa pode prejudicar a qualidade da água que todos irão beber depois?

11) Você acha que o seu poço artesiano pode estar contaminado com

provocada pelas fossas

das casas das famílias próximas?

a infiltração

12) Você ou alguém de sua família deposita lixo nas encostas?

13) Você acredita

que os órgãos

de seus vizinhos?

públicos

,

estão preocupados

com sua segurança

e

14) Você ou seus vizinhos já foram procurados pelas assistentes sociais da Prefeitura ou de outro Órgão?

15) Você acha

importante

que a Prefeitura

se preocupe

com você?

16) Você gostaria de fazer algum comentário específico?

Fonte:

Dados

da pesquisa

de campo.

 

im

.

.

>

NãÇ!

H

I

M

H

I

65,0

I

61,8

35,0

I

--

Sim

Não

H

I

M

H

I

53,8

I

70,6

46,7

I

M

38,2

M

29,4

Homens

Mulheres

H= 28,6%

M= 28,4%

H= 30,3%

M= 35,2%

H= 41,2%

M= 40,4%

,

Sim

 

-

 

H

I

M

40,6

1

42,6

 

Sim

 

H

I

M

57,4

I

75,0

 

sim

.

.

 

H

1

M

37,8

T

57,4

 

il!1

 

H

I

M

12,6

I

17,6

 

Sim

 

H

T

M

62,93

I

69,12

 

Sim

 

H

I

M

74,8

I

85,3

 

Sim

 

H'

T

M

14,0

I

42,7

 

Sin:t

.

 

H

I

M

0,0

I

0,0

 

Sim

 

H

T

M

30,1

1

35,3

 

Sim

 

H

I

M

29,4

I

42,6

 

Sim --

 

H

I

M

6,29

1

1,48

 

$Im

-.

 

H

I

M

69,93

I

72,05

 

Sim

 

H

I

M

44,1

T

51,5%

-.,

H

59,5

Não

I

I

F

M

57,4

.

 

Nãó

 

H

I

 

- 42,7

I

 

-'

_Não

 

H

I

62,2

I

 

Não

 

.

H

I

87,4

I

 

>

No

 

H

I

37,07

I

 

No

 

H

I

25,2

I

 

,Não

 

H

I

 

-

86,0

I

 

Não

 

H

I

100,0

I

 

, ãó

 

H

I

69,9

I

 

Não

 

,

H

I

70,6

I

 

J.

 

H

I

93,71

I

 

Não

 

.

M

25,0

.

M

42,6

M

"

82,4

M

30,88

M

14,7

M

57,4

M

100,0

M

64,7

.-

M

57,4

M

98,72

.

,

H

I

M

30,07

I

27,95

H.Ao _

H

I

M

56,0

I

48,5%

.

-

-

,.

.

ambosdisseram

"sim" à possibilidade das chuvas fortes

prejudicarem seus imóveis. Ou seja, todos têm a preocu-

pação com a incidência de chuvas fortes e as associam a

alagamentos.Também em épocas passadastiveram preju-

ízos por causà da subida das águas do rio.

Na resposta à pergunta: "Você acredita que os órgãos

públicos estão preocupados com sua segurançae de seus

vizinhos?", enquanto os homens são peremptórios edizem

"não",as mulheres deixam à mostra certa ansiedade.Dema-

neirageral, os órgãospúblicos encontram-sedesacreditados

para uma parceladaquela população,já que suasaçõesnão

são tão evidentes assim, pelo menos para eles.

No cômputo geral, analisando-se todas as respostas

dadas, obteve-seo seguinte:

66,35% declaram gue os órgãos públicos não estão

preocupados com <asegurançadeles;

70,62%declaram que é importante que a Prefeitura se

preocupe com eles.

Com relação às duas últimas perguntas, as mulheres

apresentamum nívelde percepçãoparaas questõesambien-

tais um pouco maior do que o os homens.Conversandocom

elas,verificou-se que, em parte, isso se deveao sentimento

de proteçãoda família e a um nívelmaior de esclarecimento.

O interessantetambém é que sãoos homfns que mais parti- cipam das reuniões periódicasda associaçãode moradores.

Talvezaí esteja embutida a questão do machismo,já que as

reuniões são à noite. Entretanto, sãoas mulheres que mais

discutem as questões com as amigas, durante o dia.

Do total de moradores entrevistados 46,45% não qui-

seram fazer qualquer comentário ou sugestão a respeito de acidentes afetando ou envolvendo seus imóveis. Para

aqueles que optaram por fazer comentários, o que mais se

ouviu foi o seguinte: ,

"Não acredito nos órgãos públicos";

"A

Prefeitura deve fiscalizar mais a região";

"A

Prefeituradevedisponibilizar caçambasde lixo junto

às

margens do rio";

"A

Prefeituradevefiscalizar as construções irregulares";

"As valas negras precisam ser fechadas";

"As encostas dos morros precisam ser reflorestadas";

"O rio não deveria ter as margens desmatadas";

"As Assistentes Sociais deveriam/isitar atingidos pelas catástrofes";

"A populaçãodeveser conscientizadaparaa preseryação

do Meio Ambiente".

Paratodos os moradores entrevistados foram feitos os

os moradores

seguintes questionamentos:

Vocêtem preocupaçãoquanto à segurançade suafamília

por residir neste local?

59,24% disseram "sim";

O que você faria para melhorar a segurança de sua

família?

28,52%disseram que mudariam de local;

Você acredita que, ao desmatar o seu lote, poderá

provocar acidentes envolvendo você e sua família e as

demais famílias da região?

58,77%dos depoentes disseram "não".

A maioria dos depoentes, 62,559§do total de entrevista-

dos, declarou que ocorreram acidentes ambientais em seu

bairro, mas apenas 28,52% desses mudaria de local. Em

_parte, essaaparentecontradição se deveao fato de que nos últimos anos a inçidência de alagamentosfoi muito menor,

ficando restrita às proximidades das margens do rio, na

época daschuvasmais fortes. Em 59,24%dos depoimentos

observou-seque os moradorestêm preocupaçãopor morar

naquele bairro.

Analisando-seas respostas dadas em funçãoda classe de renda dos depoentes,

estratificadas

como abaixo, verificou-se (Tabelas 5 e 6):

Classe "A"- renda de até 2 salários mínimos;

· Classe "B" - rendaêompreendida

entre 2 e 5 salários mínimos;

Classe "(" - renda superior a 5 salários mínimos.'

Tabela 5 - O que você fal"iapara melhorar a segurança de sua família? Considerando-se classes de renda e sexo

a)

b)

c)

Classesde renda

Sexo

Mudariade local.

Investiriamais na proteção do terreno.

A 8

68,20

9,10

26,30

33,50

Investiriamais na segurançada I22,70 I 40,20

casa.

C

Masculino

Feminino

12,90

28,57

28,40

37,10

30,28

35,22

I 50,00 I

41,15 'I

40,38

Fonte: Dados da pesquisa

de campo.

Tabela 6 - Você acredita que os órgãos públicos estão preocupados com a sua segurança e a de seus vizinhos?

Sim

Não

Cltfsses

de renda

SeJlo

A

8

C

Masculino

Feminino

40,9

41,5

15,3

29,4

42,6

59,1

58,5

84,7

70,6

57,4

Fonte: Dados

da pesquisa

de campo.

Percepção de risco: conceito científico ou reação subjetiva?

Quando se fala sobre percepção de riscos, quase sempre se notam dúvidas nas respostas, porque os conceitos sobre riscos algumas vezes não são perfeita-

mente claros. Aprópria distinção técnica entre "riscoobjetivo"e "riscosubjetivo" é controversa, pois, numa área complexa e pouco explorada como a análise de risco, o "risco objetivo",que deveria ser reprodutível (isto é, gerar resultados iguais, independente de quem realize a análise), não o é, pois a sua determina-

ção possui subjetividade,já que requer o exercício do julgamento. Julgamento científico, mas, ainda assim, julgamento. Abordando a questão da percepção sob a ótica das indústrias, De Martini

(2005) declara que este desprezo foi respondido com pressões sociais, que se concretizavam nos países desenvolvidosatravés da reversão da opinião pública sobre a indústria, o que impulsionoua ampliação exponencial de uma legislação ambiental, a qual passou a agir como instrumento regulador. Aconstatação pela indústria de que percepção é realidade, força uma mudança de postura, exempli- ficada pelo singularepisódio em que a Shelldecidiususpender o afundamento de

uma plataforma obsoleta de petróleo no Mardo Norte por ter sido pressionada por uma campanha popular, lideradapela organização ambientalistaGreenpeace,

30

/

que denunciavaefeitos ambientais negativos relevantesda

operaçãode afundamento. A alternativa de rebocar a plata-

forma paraterra firme e seudesmonte geraria uma despesa

extra para a Shell de US$100 milhões. Três mesesapós a

suspensãodo afundamento, porém, o Greenpeaceadmitiu

um erro de avaliaçãoe refez sua posição: Emboraa aborda-

gem técnica atenda às decisões de caráter exclusivamente

técnico, ela mostra-se incompleta quando são incluídos na

análise os aspectos sociais. Portanto, deve-seconsiderar a

percepçãopública no gerenciamento de risco tecnológico,

mas não deve ser a mesma para todos os grupos, pois, as

experiênciassociaisvariame a seleçãodostipos de atributos

de percepção, e suas respectivas magnitudes, mudam em

cada situação.

Confiançae credibilidade sãovalores construídos, pau-

latinamente, através da coerência e consistência de ações,

competência e ética. Contudo, podem ser rapidamente~

desconstruídos se for percebida a incompetência, omissão

ou manipulação.Os segmentosenvolvidos na comunicação

de risco devem perceberconfiança e credibilidade para que

o processoseconcluade forma consensual.Oaparecimento

de incertezascientíficas, em geral por variaçõesnasestima-

tivas consideradasnasanálisestécnicase pelacomplexidade

das informações, comuns no gerenciamento de risco tec-

nolÓgico, é um dos problemas principais na comunicação

de risco, pois provocam, pela desconfiança,uma percepção

pública negativa (DEMARTINI,2005).

Usinasatômicas,petroquímicas,automóveis, pesticidas,

fertilizantes, enfim, os diversos elementosda atividade eco-

nômica chegaram, ainda que silenciosamente,aos ambien-

tes de trabalho e moradia, e até mesmo ao próprio corpo,

atravésdos reflexos de suainserçãona cadeiaalimentar. Éa

convivênciacom o risco,cujos reconhecimentoe concepção,

conforme lembram Thompson & Dean (1997), são muito

mais fáceis para os estudiosos que para os leigos.

cadernosdeseguro

Foi sob estaótica e perante a consideraçãoda crescente

universalidade da noção de perigo e risco ambiental que a

antropóloga social MaryDouglasiniciou seutrabalho de pes-

quisa sobre perigos.Douglas(1966)estabeleceu,em termos

antropológicos, as primeiras análisesparaa sistematização

de um conhecim~ntoque pudesseexplicar como os perigos sãoculturalmente entendidos pelaspessoase organizações.

Apenasatítulo de lembrança,destaca-seque, nessamesma

época, paralelamente,desenvolvia-seo pensamentoecoló-

gico que ganhou força através de uma nova visão, a qual

levou à criaçãodasescolasatuais do pensamentoecológico,

conforme se observa em Diegues (1996).

A continuidade de tal perspectiva de análise veio a

fundar, mais tarde, a Teoria Cultural do Risco, ou Teoria

Cultural, como foi proposta por Douglas em seu trabalho

mais importante, escrito em parceria com Wildavsky(DOU-

, GLAS& WILDAVSKY,1983). A relevância dessa teoria foi.

amplamentereconhecida,e mesmoalguns dos seuscríticos

,

atuais, como Boholm(1996) e Sjõberg(1996), entre outros,

, assinalamo quanto a mesmatornou-se influente no campo

interdisciplinar da percepçãoe comunicaçãodo risco.

Deacordo comThompson & Dean(1996),duas posições

têm marcado as discussõessobre a percepçãode risco. De

um ladoestãoos positivistas,que entendemquea percepção

de risco é um conceito puramentecientífico, admitindo uma

completa caracterizaçãoe análiseatravésda coleta de dados

e do uso de métodos quantitativos. De outro lado estão os

relativistas, que entendem que a percepçãode risco é uma

reaçãopuramentesubjetiva a um fenômenodentro da expe-

riênciade vida pessoalou social e organizacional.A primeira

po.siçãoreferenciaobjetivamenteascondiçõesdo munc!ofisi-

cd.Jáa segundaassumeuma construçãopuramentemental,

que expressareaçõesemocionais,moraise políticas(VIEIRA,

2005).A rigor, Douglas& Wildavsky(1983:5)assinalamquea

falta de sincroniaestána raizdo problemacon~emporâneoda

avaliaçãode risco. Porum ladotem-sea possibilidadedo conhecimentosobre o risco

ser certo ou incerto, e por outro há a condição da aprovação de encaminhamento

sobre o risco ser completa ou contestada. A constituição dessa dualidade resulta

em situações onde a solução para o risco pode ser calculada, pesquisada, imposta

ou discutida, ou até mesmo absolutamente aberta e indefinida.

Demodocomplementar,Douglas& Wildavsky(1983)defendemque, em função

do fato de que cada grupo social tem seu próprio e típico "portfólio" de riscos,

são os diferentes princípios que guiam o comportamento das pessoas que afetam

as suas percepções de risco.

.

f

No sentido negativo, o risco deixa implícito o perigo de conseqüências adver-

para

sas e sugere

o esforço gerencial

para a conscientização

de sua existência,

evitá-Io ou minimizá-Io. Estar em risco é estar vulnerável ao acaso ou a fatores

que provocam danos, independentemente de ações individuais. Evitar o risco é

tentar precaver-se contra o perigo do inesperado, do não-familiar ou do inusitado.

Quando visto como algo ruim, o risco incentiva a busca de segurança. Miniinizar

ou reduzir risco são expressões

como algo positivo, a percepção de risco:

(1) revela a coragem de arriscar apesar das

(2) conscientizaas pessoas sobre ameaças e danos potenciaise reaisà empresa; e (3) valofiza o espírito empreendedor e de prosseguir e se aventurar em direção ao êxito. O risco chega a fascinar algumas pessoas.

Vista

que procuram

dar segurança

à decisão.

adversidades;

Risco, uma percepção individual e uma construção mental

j

Não é por acaso que dirigentes

se vangloriam

de sua capacidade

de;éorrer

riscos. Muitas vez~s, exageram a inexistência de dados ou sua inexatidão para

realçar a sua capacidade de intuir e de prosseguir apesar de conselhos por cau-

tela. Proclamam-se mais intuitivos do que realmente são para parecerem mais

corajosos, hábeis e autônomos perante o risco.

Ademais, a preocupação e a ansiedade fazem companhia à pessoa, ocupam

a sua mente em momentos de mais solidão e podem até ser prazerosas como

parte da aventura de decidir e de dirigir uma organ{zação. Em esportes de maior

risco, parte da aventura é ficar amedrontado por antecedência.

A ansiedade tem suas dimensões positivas porque, antes de tudo, provoca a aten-

ção para os problemas,

e da incerteza (BECKER,1999;PEURIFOY,1997; BOURNE,1995; EMERY,2000).

além de gerar comportamentos

cautelosos diante do risco

A ansiedade alerta a pessoa e a faz agir no sentido de evitar o perigo ou safar-

se dele. Na realidade, é melhor receber alarmes falsos do que não perceber uma

~ituação ameaçadora. O anúncio do risco traz a ajuda de terceiros. Gerentes se

beneficiam da colaboração adicional. Por essa razão, muitos

tentar reações mais efetivas e tomar decisões mais radicais, que seriam difíceis

provocam o medo para

se todos não fossem conscientizados da ameaça iminente. Exageros ajudam a

mobilizar pessoas, mas conduzem a uma percepção mais generalizada do risco

e, portanto, a mais medo e ansiedade.

No entanto, quando se induz ao medo, também se desloca a atenção das

. pessoas

--

de recursos

importantes

para

ações

baseadas

em ilusões

pré-fabricadas.

Possivelmente,esses recursos se destinariam melhor a

outros projetos da própria organização.

O medo surge na mente da mesma maneira que apare-

cem os sonhos. Quando pensam sobre possibilidades, as

pessoasimaginam coisastanto positivas quanto negativas.

Como as possibilidades são infinitas, os sonhos e as preo-

cupaçõesevoluem de fqrma interminável e recorrente. Nos

sonhos, as pessoas ampliam seus desejos e encontram

alternativas para quase tudo, mas não para a redução da

ansiedadee do medo. Nossonhos, repete-sea tensão entre

o imagin"adoe a realidade, e entre o êxito e o fracasso.

Quanto maior a percepçãode risco, maior a predispo-

sição para a ação cautelosa. Se no futuro há imprevisibi-

lidades, não se conhecem, na verdade, os resultados das

decisões presentes.Ademais, por serem obrigados a ante-

cipar, a prever e a agir para o futuro, os dirigentes jamais

podem ser inconseqüentese valorizar somente o presente.

Há uma pressãO'paraa cautela, ou seja, evitar o perigo, ou

reduzir a exposição a fatores de risco.

A percepçãosobre perigos, em grande parte das vezes,

pouco tem a ver com as referências e os dados coletados

sobre o problema.A possibilidade de haverdanos é normal-

mente menor do que a imaginaçãodas pessoasao tomarem

decisões e, portanto, a percepçãode risco é maior do que

a realidade demonstra.

Apesar de existirem situações materiais de perigo, o

risco é, antesde tudo, uma percepçãoindividual e umacons-

trução mental. Os estudos mais profundos sobre percepção

de riscos sociais,originados na perspectivacognitiva, presu-

mem o risco como subjetivamente definido pelo indivíduo,

e influenciável por uma variedade de fatores psicológicos,

sociais, institucionais e culturais {SLOVIC,2000).

Portanto,a percepçãode risco tem suadimensãointerna

e subjetiva; a maneira como as pessoassentem e atribuem

pesoao risco influenciaos comportamentosadministrativos

defensivos e preventivos (STARR,1969; SLOVIC,1987).

Medo e ansiedade

Nasteorias contextuais, a ansiedadee o medo são pro-

dutos de uma relação social com a informação oriunda do

meio externo e processadaatravésde percepçõesindividuais

típicas. A ansiedadeaumenta pela atençãoexcessivaa fato-

res verificados na realidade, mastambém por imaginações

de como esses fatores poderiam atingir a própria pessoa

negativamente (MOITA, 2005). Ansiedade e medo são formas mais intensas de se

demonstrar uma preocupação. O medo está na interface do mundo exterior com o mundo interior. Exteriormente,

começa pela consciência de fatores de risco que variam

fora do controle da pessoa.O risco é uma probabilidade de

dano relacionado ao acaso: significa uma ameaçaàs insti-

tuições, às empresas,às pessoase a seusvalores. Cabeao

indivíduo reagir a esses fatores para preservara suaprópria

segurançae a das pessoase instituições pelas quais é res-

ponsável.Portanto, à consciênciado risco estão associadas

a percepçãointerna da pessoasobre a sua vulnerabilidade

a essesfatores e sua capacidadede reaçãoexitosa. Assim,

pode-sedizer que o medo administrativo compõe-sede três elementos básicos:

Percepçãode risco:a consciênciade que algo negativo

ou danoso pode acontecer.

Vulnerabilidade: o sentimentode que a própria pessoae

sua organizaçãopodem ser atingidas por essesfatores.

Capacidade de resposta: seos recursosdisponíveise as

habilidades gerenciais serão suficientes para tratar com

êxito a incidência desses fatores sobre a organização.

O medovaria na medidada alteraçãodesses três fatores.

Por exemplo, quanto maiores as habilidades e as competên-

cias para a resposta, menor a percepção de vulnerabilidàde,

e, portantõ, menores são a preocupação e o medo. Se cres-

cem os sentimentos

de vulnerabilidade

e de incapacidade

de resposta, aguça-se proporcionalmente a intensidade do medo. O medo é a preocupação com o risco e a incerteza

"Quanto

maior a percepção

de risco, maior a

predisposição para a ação cautelosa: evitaro perigo ou reduzira exposição a fatores de risco"

32

cadernosdeseguro

rão a ser mais precavidosao construírem suas residências. Os ribeirinhos de rios que costumam alargar seu leito em épocas de cheias, como na região amazônica, costumam edificar suas casas sobre estacas de madeira (palafitas),

"-

.

precavendo-se dos fenômenos de alagamento. Nesses casos,

os indivíduos praticam a prevenção de riscos.

Entendemos que" como nem todos os cidadãos têm essa

sensibilidade para as questões ambientais, cabe aos órgãos

públicos oferecer as orientações adequadas, assim como

fiscalizar as ocupações de espaços urbanos feitas de modo

inadequado, de maneira a prevenir as populações contra

riscos aos quais possam estar sujeitas.

que,

têm a correta percepção para os riscos, mas não têm como

construir suas casas em locais mais seguros, ou já não

mais encontram espaços disponíveis nas áreas onde podem

pagar por um lot!!de terra. "I.ambém nestes casos, cabe aos

órgãos fiscalizadoresdefiniráreas destinadas a essetipo de

ocupação

de modo diferente.

Deve-se ter em mente

muitas

vezes,

as pessoas

urbana. Todavia, nem por isso devem ser vistas

Deve-se

criar

a cultura

do

bem

e

do

mal coletivo,

principalmente

nás questões

ambientais.

Ações isoladas

podem ser nefastas maior recado. ~

"

a muita

gente.

Esse talvez

seja

o

Antonio Fernando Navarro

Engenheiro civil, especialista em Gestão de Riscos, mestre em Saúde e Meio Ambiente pela Universidade da Região de Joinville (IIniville) afnavarro@terra.com.br

Mônica

Lopes

Gonçalves

GeóloÇ{.a,mestre em Geologia pela UFRJ,doutora em Recursos

Minerais e Hidrogeologia pela USP,coordenadora do Programade 'Mestrado em Saúdee Meio Ambienteda Univille mlopes@univille.br

34 cadernosde seguro

--

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