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UNIVERSIDADE FEEVALE

EVANDRO MACHADO LUCIANO

CLASSE OPERÁRIA:

PERSPECTIVAS, BALANÇO E POSSIBILIDADES DE ESTUDO EM NOVO HAMBURGO (1969-1979)

NOVO HAMBURGO

2016

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EVANDRO MACHADO LUCIANO

CLASSE OPERÁRIA:

PERSPECTIVAS, BALANÇO E POSSIBILIDADES DE ESTUDO EM NOVO HAMBURGO (1969-1979)

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial à obtenção do grau de Licenciado em História pela Universidade FEEVALE

Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Perla Martins

NOVO HAMBURGO

2016

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EVANDRO MACHADO LUCIANO

Trabalho de Conclusão do Curso de Licenciatura em História, com título Classe Operária:

perspectivas, balanço e possibilidades de estudo em Novo Hamburgo (1969-1979), submetido ao corpo docente da Universidade Feevale, como requisito necessário para obtenção do grau de Licenciado em História.

Aprovado por:

Prof. Dr. Rodrigo Perla Martins (Orientador)

Prof.ª Dr.ª Sueli Maria Cabral (Banca examinadora)

Prof.ª Me. Márcia Blanco Cardoso (Banca examinadora)

Novo Hamburgo, 07 de julho de 2016

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Aos operários que me orgulham diariamente, Jaqueline e Ricardo.

5

AGRADECIMENTOS:

Escrever uma monografia é uma tarefa que transcende os limites do termo árduo. São horas de pesquisa empírica, meses de intensa leitura teórica e muitos dias de escrita do texto que é apresentado ao final do curso. Por isso, neste pequeno espaço, eu gostaria de agradecer

a algumas pessoas especiais que tornaram possível a escrita deste trabalho de conclusão de curso.

Primeiramente, tenho muito a agradecer ao Prof. Dr. Rodrigo Perla Martins, que me orientou neste trabalho, muito antes da ideia do estudo surgir. Orientador de projetos

acadêmicos e de vida: obrigado! Posteriormente, agradeço a presença das professoras na banca de minha apresentação final. Prof.ª Dr.ª Sueli Cabral e Prof.ª Me. Márcia Blanco Cardoso. Ainda no âmbito acadêmico, agradeço à Universidade FEEVALE pelo suporte que tive durante os três anos de pesquisa científica, trabalhando no projeto História, Memória e Cultura da Comunidade. Aproveito para agradecer também pela influência positiva que a Prof. Dr. Magna Lima Magalhães depositou em meu crescimento científico e acadêmico.

Obrigado!

Ao companheiro Gilnei Andrade, historiador e militante do movimento operário de Novo Hamburgo, que despendeu horas de boas conversas e muitas contribuições importantes para a realização deste texto. Aos programas Universidade Para Todos (PROUNI) e Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID-CAPES), um agradecimento mais que especial. Sem o primeiro, minha permanência na universidade não aconteceria, e mais um trabalho sobre a

Classe que ergueu esse país seria descartado por uma política de exclusão sociocultural. Sem

o segundo, eu não teria condições de sair da graduação como um Professor de História, com

segurança de falar o que é preciso em sala de aula, com atitude para defender os Direitos Humanos e com serenidade para tratar de assuntos amenos. Obrigado! E por fim, agradeço imensamente à Jaqueline Machado e a Ricardo Luciano, minha mãe e meu pai, por terem me fornecido o suporte psicológico e material que me fizeram concluir esta graduação e este trabalho. À minha companheira de vida e de luta, Tayara Maronesi, por estar ao meu lado em diferentes momentos, de alegrias e de dificuldades, e por compreender as horas de trabalho que resultaram nesta monografia. A todos os meus amigos e

colegas de curso, meu muito obrigado.

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Agradeço imensamente a todos os que, de uma forma ou de outra, colaboraram na construção desta caminhada, que hoje culmina no texto que apresento aqui, mas que prossegue em uma jornada ininterrupta, rumo à construção de um mundo melhor.

7

“[

E um fato novo se viu Que a todos admirava:

O que o operário dizia Outro operário escutava.

]

E foi assim que o operário Do edifício em construção Que sempre dizia sim Começou a dizer não. [

]

E

o operário disse: Não!

E

o operário fez-se forte Na sua resolução.

O operário em construção Vinícius de Moraes

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RESUMO

O presente trabalho tem como tema central a Classe Operária e as possibilidades de estudo na cidade de Novo Hamburgo. Apresenta-se o seguinte questionamento: Quais são as possibilidades de se estudar a Classe Operária em Novo Hamburgo no período do boom do calçado (1969-1979)? A hipótese apresentada é a possibilidade de análise de dados estatísticos contidos em instituições de pesquisa demográfica, bem como a leitura e análise de entrevistas, subsidiadas pela História Oral e o levantamento de documentos contidos no Sindicato dos Trabalhadores do Calçado de Novo Hamburgo. Como objetivos apresentamos a definição do conceito de Classe, o levantamento bibliográfico sobre a historiografia específica da temática e a apresentação de possibilidades de estudo sobre a Classe Operária em Novo Hamburgo. A carência de trabalhos que enfoquem o operariado desta região, em oposição ao número significativo de estudos com o olhar voltado às questões econômicas e de âmbito empresarial, justifica essa proposta. O trabalho utiliza pressupostos da História Oral, quando da análise de entrevistas de trabalhadores industriais. Os resultados obtidos respondem ao problema de pesquisa e transcendem sua pretensão inicial. Compreende-se que é possível estudar a Classe Operária em Novo Hamburgo a partir de dados estatísticos, de documentos e de entrevistas com trabalhadores do período; mas para além disso, neste trabalho, analisa-se estes documentos e levanta-se considerações que permitem entender o período do boom do calçado como momento de amadurecimento da Consciência de Classe do operariado.

PALAVRAS-CHAVE: Classe. Sindicato. Movimento Operário. História Oral.

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ABSTRACT

This paper is focused on the working class and possibilities of study in the city of Novo Hamburgo. It presents the following question: what are the possibilities of studying the working class in Novo Hamburgo in the period of the footwear industry growth comprised between the years of 1969 and 1979? The hypothesis presented is the possibility of analyzes of statistical data raised by institutions of demographic research, as well as the reading and the analysis of interviews subsidised by the oral history and the survey contained in the documents owned by the Footwear Workers Union (Sindicato dos Trabalhadores do Calçado de Novo Hamburgo). Our goals are defyning the concept of class, literature on the specific historiography on the theme and the presentation of educational opportunities to the working class in Novo Hamburgo. The lack of studies that address the working class of the region, as opposed to the relevant number of studies looking back onto the economic issues and the business scope justifies this proposal. This work is based on oral history, in view of the interviews with workers of the footwear industry. The results address the problem and transcend their initial claim. It is understood that it is possible to study the working class in Novo Hamburgo from statistical data, documents and interviews with workers of the referrred period; but beyond that, this work analyses these documents and makes suggestions that allow us to understand the boom period of the footwear industry as a moment of maturation of the working class’s consciousness.

KEY-WORDS: Class. Union. Working Class. Oral History.

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TABELAS

TABELA 1 DISTRIBUIÇÃO DE RENDA NO BRASIL (19601976)

54

TABELA 2 SINDICATOS EM NOVO HAMBURGO (19331964)

55

TABELA 3 ESTABELECIMENTOS FABRIS DE CALÇADO (19711979)

59

TABELA 4 FORÇA DE TRABALHO EM NOVO HAMBURGO NO CALÇADO (1971

1979)

59

TABELA 5 FORÇA DE TRABALHO NO VALE DO SINOS NO CALÇADO (1975

1979)

64

TABELA 6 FORÇA DE TRABALHO NO RS NO CALÇADO (19751979)

65

TABELA 7 - ASSOCIADOS NOS SINDICATOS INDUSTRIAIS NO RS (19691974

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ABREVIAÇÕES E SIGLAS

ACINH ASSOCIAÇÃO DE COMÉRCIO E INDÚSTRIA DE NOVO HAMBURGO

ANL ALIANÇA NACIONAL LIBERTADORA

BOC BLOCO OPERÁRIO CAMPONÊS

CEB COMUNIDADE ECLESIAL DE BASE

CLT CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS TRABALHISTAS

DIEESE

SOCIOECONÔMICOS

DEPARTAMENTO

INTERSINDICAL

DE

ESTATÍSTICA

E

EUA - ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

ESTUDOS

FGTS FUNDO DE GARANTIA POR TEMPO DE SERVIÇO

FORGS FEDERAÇÃO OPERÁRIA DO RIO GRANDE DO SUL

IBGE INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA

IPEA INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA

JK JUCELINO KUBITSCHEK

MTIC MINISTÉRIO DO TRABALHO, INDÚSTRIA E COMERCIO

PCB PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL

PT PARTIDO DOS TRABALHADORES

RS RIO GRANDE DO SUL

SAB SOCIEDADE AMIGOS DO BAIRRO

SENAI SERVIÇO NACIONAL DE APRENDISAGEM INDUSTRIAL

SESI SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO

13

2. A CLASSE EM PERSPECTIVA

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2.1. CLASSE EM MARX

21

2.2. CLASSE EM THOMPSON

25

2.3. CLASSE EM HOBSBAWM

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2.4. O ELES” E O “NÓS”: CLASSE EM SI, CLASSE PARA SI

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3. BALANÇO: O TRABALHADOR NA HISTORIOGRAFIA

43

3.1. A CLASSE TRABALHADORA NA PRIMEIRA REPÚBLICA (1888-1930)

44

3.2. O BRASIL E A CLASSE TRABALHADORA EM NOVO ESTADO (1930-1945).48

3.3. A CLASSE TRABALHADORA ENTRE 1945 E 1979

52

3.4. O ESTUDO DA CLASSE EM NOVO HAMBURGO

54

4. POSIBILIDADES DE ESTUDO EM NOVO HAMBURGO

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4.1. LEVANTAMENTO QUANTITATIVO

58

4.2. HISTÓRIA ORAL 66

4.3. OS SINDICATOS DE TRABALHADORES DA INDÚSTRIA (1969-1979)

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5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

81

6. REFERÊNCIAS

85

7. ANEXOS

88

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1 INTRODUÇÃO

Ao meio dia em ponto a greve geral começou. Os operários do Frigorífico Pan- Americano, os da Cia. Franco-Brasileira de Lãs e os da Cia. De Óleos Comestíveis Sol do Pampa abandonaram, como de costume, seus postos para o almoço, mas não voltaram para o turno da tarde. O mesmo aconteceu com os encarregados da Usina Termoelétrica Municipal, que cortaram a luz da cidade, com exceção da dos cabos que forneciam energia aos dois hospitais. Bancários, empregados de hotéis, cafés, bares e restaurantes, bem como caixeiros de casas comerciais, recusaram-se a retornar ao trabalho, solidarizando-se com os industriários, embora eles próprios não tivessem no momento reivindicações salariais específicas. Motoristas que dirigiam carros de propriedade alheia, abandonaram-nos na rua quando ouviram o sino da Matriz bater as primeiras badaladas do meio-dia (VERÍSSIMO, 1979, p. 194).

A greve geral na cidade de Antares é o ponto central na trama de Érico Veríssimo. É a

partir deste incidente que diversos desdobramentos da narrativa se apresentam, o que faz com

que o envolvente enredo da obra desmantele muitos paradigmas existentes na sociedade brasileira do período Médici-Geisel, momento em que o livro foi publicado (1973).

O romance, dividido em dois momentos, tem na segunda parte a problemática que nos

motivou a incorporá-lo no início da escrita deste trabalho. Ao narrar a paralisação geral de trabalhadores que acontece na fictícia cidade de Antares, Veríssimo é sutil ao comentar o desejo dos trabalhadores que aderiram à greve. A falta de motivação salarial, em detrimento da solidariedade para com seus companheiros de outras categorias, é exaltada, bem como a delicadeza com que os operários da Usina Termoelétrica cortam a energia de toda a cidade, com exceção dos hospitais. A cidade para, mas não sem consciência da real necessidade dessa paralisação, que é feita de forma a não prejudicar a integridade física de ninguém. É justamente sobre essa consciência, na obra Incidente em Antares que teceremos alguns breves comentários iniciais. Portanto, buscamos nos próximos parágrafos, colocar o leitor a par da história contada por Veríssimo. Ocorre que na primeira noite de greve geral, sete mortos que não puderam ser enterrados no cemitério municipal, levantaram-se, indignados por estarem insepultos, e resolveram buscar seus direitos junto à administração da cidade. Dentre os “mortos-vivos”, uma, em especial, merece nossa atenção aqui. Dona Quitéria Campolargo era uma típica senhora de respeito de uma cidade de interior, do século XX. Beata, conservadora e a favor de toda moral que favorecesse a ordem e o progresso, estava contra a desordem promovida pelos grevistas, a ponto de falecer no dia em que a primeira greve geral da cidade foi deflagrada. Quando o cortejo que levava seu corpo inanimado em direção à sepultura parou, em frente ao cemitério, os grevistas avisaram

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que o cadáver não poderia ser enterrado, por conta da greve. Os coveiros tinham aderido ao movimento, e estavam sem trabalhar até que as reivindicações fossem atendidas. Ao saber disso, outro personagem da narrativa, Tibério Vacariano, saltou à frente e disparou os dizeres:

“Esses homens foram forçados a se meterem na greve. Eles nem sequer sabem direito o significado dessa palavra” (VERÍSSIMO, 1979, p. 219). A frase de Tibério Vacariano abre uma discussão sobre um dos assuntos que buscaremos desenvolver ao longo deste trabalho: a ideia de que a massa de operários que aderem a greves no Brasil, são forçados e/ou, não tem compreensão da amplitude do movimento que participam. Este discurso deslegitimador do movimento operário busca diminuir a profundidade do debate ideológico e político que as organizações de trabalhadores urbanos promoveram ao longo do século XX, bem como nos últimos anos do século anterior. Avancemos na narrativa de Veríssimo. Após intensa discussão, os membros do cortejo resolvem deixar o caixão com o corpo de dona Quitéria em frente ao cemitério, junto aos esquifes de outros seis mortos naquele dia. Quando acordaram do sono da morte, e decidiram ir reclamar às autoridades locais sua necessidade de sepultamento, foram informados de que só seriam enterrados quando findasse a greve geral. Ficaram, então, como atitude de protesto ao desejo não atendido, no coreto da cidade, no centro da urbe, onde diversas manifestações ocorreram. Durante um longo diálogo iniciado pelo defunto Cícero Branco, já ao final do livro, Tibério Vacariano interpela a senhora da alta sociedade antariense:

Quita! Quita! Quita! Não te lembras mais deste teu velho amigo? [

usando a tua presença, o prestígio do teu nome para atacar a classe a que pertences.

Mas tu é das nossas, eu sei! Fala, Quita! Conta ao povo de Antares que ele é um

intrigante[

O Cícero está

]

]!

(VERÍSSIMO, 1979, p. 356).

Ao que a senhora responde em alto e bom som: “Tibé, estás muito enganado. Não tenho nada mais a ver com vocês” (VERÍSSIMO, 1979, p.356). Dona Quitéria não se enxerga mais como pertencente à classe burguesa, típica da elite antariense. Sua experiência ao reivindicar seus direitos, após lhe ser tolhido o direito máximo de ser enterrada como desejava em vida, lhe proporcionou uma visão de mundo diferenciada, que a distanciava da classe a que pertencia em vida. Essa experiência de classe faz com que dona Quitéria mude de opinião quanto à greve, quanto à ordem política da cidade e quanto à futilidade de relações entre os cidadãos de Antares. Esse processo faz com que dona Quitéria adquira, grosso modo, uma consciência de classe.

15

***

Entendemos que o tecido das relações sociais em ambientes urbanos são traçados, não apenas por estruturas materiais determinantes, mas também por códigos sociais que estão contidos em diferentes níveis simbológicos. A literatura representa uma fração do imaginário social de determinada época projetada em uma narrativa ficcional. A narrativa que envolve a personagem Quitéria Campolargo e seu processo de “experiência de classe” dá a partida no debate que propomos nesta monografia. O trabalho que desenvolvemos nas páginas que seguem, trata de realizar um balanço sobre a historiografia do movimento operário brasileiro, perspectivas que esta historiografia nos permite estabelecer e a possibilidade de uma escrita da história operária na cidade de Novo Hamburgo 1 , no período de 1969-1979, a fim de inserir esta região em um debate nacional. Em primeiro lugar, gostaríamos de justificar a necessidade deste trabalho, e o faremos sob três perspectivas: conceitual, nacional e regional/local. Existe um debate no âmbito da história operária no Brasil, sobre o ponto de vista do historiador com relação às organizações operárias versus classe operária. Deixemos que um dos principais estudiosos no assunto fale por si. Conforme Batalha (1997, p. 91):

No campo de estudos do movimento operário há muito que foi incorporada a perspectiva crítica de que o historiador deve priorizar o trabalhador comum aos

Se esse novo enfoque

permitiu escapar de uma historiografia reducionista e legitimadora da atuação e das ideias da militância, é preciso recolocá-la em novos termos. Evitar o equívoco de confundir a classe operária com suas instituições e o conjunto dos trabalhadores com os militantes não pode significar deixar de lado o estudo dos dirigentes, dos militantes e nem das instituições operárias.

militantes ou aos dirigentes, a classe às instituições [

].

O que Batalha se propõe a discutir é o objeto de pesquisa da história operária. Antes de seguir adiante nesse debate, apresento outra visão não oposta, mas complementar:

As análises historiográficas da produção sobre a classe operária brasileira [ ] acentuam frequentemente uma transformação ocorrida na década de 1980: de um interesse prioritário pelas manifestações organizadas e pelas idéias políticas

formalizadas teria se passado para uma ênfase na cultura, na vida quotidiana e nas

visões de mundo difusas e informais [

Pareceme, contudo, e não se trata de uma

crítica apenas de uma constatação, que a maioria dos estudos voltados à história operária no Rio Grande do Sul não acompanhou, ou ao menos não totalmente, tal

transformação. Nas nossas investigações a atenção continuou recaindo

].

1 Cidade da região do Vale do Rio dos Sinos, Rio Grande do Sul, localizada a 48 km da capital, Porto Alegre.

16

predominantemente sobre o movimento operário, suas formas de ação e de expressão (SCHMIDT, 2011, p. 151).

Temos aqui duas visões sobre a historiografia especializada no proletariado brasileiro, que valem uma pausa para breve análise. No entender de ambos os autores, ao findar da

década de 1980, a história operária brasileira distanciou-se de narrar e problematizar acontecimentos e processos históricos que envolviam organizações operárias, militantes e partidos políticos formados por trabalhadores ou em prol destes e passou a analisar questões do cotidiano, da cultura, e da classe operária em si e para si. Para Batalha (1997) esse agravante configura um problema para os estudos da temática. Sua análise visa a importância de organizações operárias, sejam elas sindicatos, associações beneficientes, mutualistas, círculos operários, etc. Em sua visão, não é possível ter uma compreensão do todo, se olharmos apenas para o ambiente fora das fábricas e das instituições. Longe de defender uma História institucional, sua preocupação é de que as histórias de vida de trabalhadores militantes não se percam, bem como a importância dessas organizações para o a história do país. Em contrapartida, Schmidt (2011) levanta outra questão: a de que o Rio Grande do Sul não acompanhou, efetivamente, essa mudança na historiografia brasileira pós-1980. E dessa visão, exposta no excerto supra, depreendemos que o movimento operário, tanto quanto a classe operária, são passíveis de um estudo aprofundado, que compreenda a interligação entre ambos. As organizações operárias e o estudo do cotidiano fora das fábricas, em consonância, podem nos possibilitar uma compreensão mais ampla do proletariado brasileiro no século XX

se a história institucional não pode ser isolada da ação dos

e no anterior. Noutros termos, “[

sujeitos, a recíproca é verdadeira” (PETERSEN, 1997, p. 76). Entretanto, é preciso “desmitologizar” (PETERSEN, 1997) o espaço institucional de organização operária. Assim como na crítica feita por Hall e Pinheiro (1985), entendemos que não se deve buscar nas organizações operárias uma teoria explicativa de fracassos ou vitórias do proletariado, que

muitas vezes foi denominado como incompetente de suas funções revolucionárias. Desse modo, sob essa perspectiva, é possível entender que o estudo do operariado brasileiro sob a ótica da História, deve englobar tanto a Classe como objeto quanto os sindicatos, estes como objeto ou como elemento importante na formação e na articulação da Classe.

O segundo ponto de vista que justifica nossa escolha por esse temática, se encontra no âmbito nacional.

]

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Há muito tempo historiadores preocupados com a história operária no Brasil apontam para a necessidade de pesquisas que envolvam o operariado brasileiro numa localização espacial fora do eixo Rio-São Paulo. 2 Trabalhos de grande respaldo no ambiente acadêmico, provenientes destes estados, são imprescindíveis no que tange ao estudo historiográfico nesta temática. Para citar apenas alguns dos trabalhos mais clássicos, lembramos os nomes de Batalha (1991/92; 1999; 2000), Hall e Pinheiro (1985) e Decca (1997). O que se propõe no debate da ampliação geográfica da discussão sobre o estudo da história operária é a visão de que a regionalização de conceitos referentes ao operariado, pode levar a uma generalização que não compreende as diferenças entre relações sociais existentes em cada região, distintas entre si, em muitos casos. A necessidade de abrir um leque de discussões concernentes à temática do movimento operário em outros locais se mostrou mais urgente no período inicial deste século. O trabalho proposto por Petersen (2009) realizou um grande avanço no estudo historiográfico, ao compilar em uma bibliografia abrangente os diversos estudos sobre o proletariado brasileiro em outros locais do país. Essa descentralização proporciona uma visão mais aprofundada da importância que associações, sindicatos, uniões, e organizações operárias em geral, tiveram na trajetória de nosso país. As características do operariado de cada região diferem entre si, e para que possam ser respeitadas como tal, é preciso que haja uma produção diversificada, englobando as nuances de cada estado do Brasil. Por outro lado, uma história operária que tenha por base uma “construção regional” pode impossibilitar a compreensão de significados no âmbito nacional. Por isso a necessidade de uma inter-relação de pesquisas é necessária, para que a compreensão de pesos relativos a cada região seja estabelecida 3 . O terceiro ponto que respalda nossa justificativa está no âmbito regional. Sabendo que a descentralização do estudo historiográfico sobre o operariado brasileiro se baseia numa “exigência” científica, busquemos compreender como ela passou a ser realizada em nosso estado. No Rio Grande do Sul, de acordo com Petersen (2009), 394 trabalhos (entre eles:

teses, dissertações, livros, monografias, etc.) tendo o operariado gaúcho como objeto de pesquisa, foram realizados entre 1970 e 2006. É uma quantia generosa, visto que outros estados não chegam a contabilizar uma centena cada um, excluindo-se o eixo Rio-São Paulo. Ainda sim, uma outra problemática pode ser levantada.

2 Um exemplo se encontra no debate proposto por Silvia Petersen (PETERSEN, 2009).

3 Sobre a necessidade de inter-relação entre trabalhos regionais, ver Petersen (1997).

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A grande maioria dos trabalhos do Rio Grande do Sul levantados por Petersen, dá

conta de esmiuçar o operariado de três cidades: Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre. Não por acaso estas cidades são notáveis pelo alto índice de industrialização no século XX. É preciso que outros trabalhos envolvam as organizações de trabalhadores urbanos, bem como o cotidiano e as relações sociais entres estes, em outros ambientes fora dos grandes centros, consagrados pela historiografia recente como lócus privilegiado para a formação do proletariado, por ter um grande contingente de trabalhadores 4 . Ao deslocar estes estudos para outros locais a historiografia fornece subsídios para que possamos estabelecer relações entre estas regiões e compreender a formação e atuação do

operariado gaúcho de modo mais denso, tamanha complexidade de existência. Desse modo, justificamos nossa intenção em focar na cidade de Novo Hamburgo, não apenas por uma questão regional ainda que ela seja importante , mas também, por entendermos que esta localidade se acentua pela relevância no cenário capitalista internacional, de acordo com trabalhos recentes (MARTINS, 2011). A cidade de Novo Hamburgo é conhecida nacionalmente como a Capital Nacional do Calçado. O setor coureiro-

calçadista foi objeto de inúmeras pesquisas 5 no início do milênio, e todas com sua importância ímpar. Contudo, poucas obras dão conta de problematizar a atuação do operariado hamburguense 6 . Entendemos que uma cidade com tantas histórias de vida relevantes para a História do país, necessita de um estudo que contemple um período que ainda permanece obscuro para a historiografia. Sendo assim, o que nos propomos neste trabalho é pensar em possibilidades de pesquisa para o estudo do operariado hamburguense no período que vai de 1969 até 1979.

A razão do ínterim se encontra no processo macroeconômico desenvolvido no país

naquele momento e que atingiu a cidade em seu âmago. O projeto desenvolvimentista aplicado no Brasil desde o governo JK, nos anos 1950, se ampliou ao final da primeira década de ditadura civil-militar. Nesse contexto, que desenvolveremos ao longo de nosso trabalho com maior tempo e cuidado, a cidade de Novo Hamburgo passa por um crescimento industrial, baseado numa política de exportação - momento em que ocorre o chamado boom do calçado. Não encontramos pesquisas que trabalhem a importância do operariado neste

4 Sobre a crítica dessa historiografia regional, ver Schmidt (2011).

5 Ver, por exemplo, o trabalho desenvolvido com figuras importantes da indústria hamburguense em:

SCHEMES, C., et. al. Memória do setor coureiro-calçadista: pioneiros e empreendedores do Vale do Rio dos Sinos. Novo Hamburgo RS: FEEVALE, 2005.

6 O trabalho clássico de Marcus Saul é um dos poucos estudos de peso historiográfico desta região (SAUL,

1983).

19

momento. Portanto, de antemão é necessário advertir: o trabalho que desenvolvemos aqui não tem pretensões de findar em si mesmo. Muito antes, busca abrir a discussão sobre as possibilidades de realizar um trabalho historiográfico partindo das fontes sobre o operariado hamburguense. O que queremos afirmar nesta introdução é que, durante nosso trabalho, apresentado nas páginas que seguem, buscaremos refletir sobre a história operária brasileira levando em conta organizações operárias, o estudo da Classe Operária, suas formas de resistência, e outros quesitos, sem pensar numa “missão revolucionária”, ou num fim “reformador”, cujo papel outorgado aos proletários foi cumprido ou não. Nos propomos a permear setores institucionais e sociais. Não obstante, a pergunta que nos motivou a desenvolver este estudo é: quais são as possibilidades de estudar a classe operária na cidade de Novo Hamburgo, durante o período do boom do calçado (1969-1979)? Apresentamos a hipótese de que, a partir de dados estatísticos com relação ao número de trabalhadores do calçado e quantidade de estabelecimentos industriais, informações existentes acerca dos sindicatos e agremiações na cidade, , bem como os subsídios da História Oral, é possível pensar numa historiografia do proletariado hamburguense. Objetivamos, de modo geral, analisar a historiografia brasileira no que tange ao movimento operário. Mais especificamente, nossos objetivos se concentram na definição do conceito de Classe, na contextualização sobre o movimento operário no período que vai da I República até os governos Médici-Geisel e, por fim, apresentar as possibilidades de pesquisa no estudo do movimento operário em Novo Hamburgo, a partir dos dados disponibilizados em diferentes espaços. Portanto iniciaremos nosso texto com uma questão mais teórica que prática. Por entender que as possibilidades de estudo da história operária em Novo Hamburgo só podem ser pensadas quando existir, por parte do historiador, uma construção de conceitos bem solidificada, nos propomos a estudar de modo um pouco mais intenso o conceito de Classe. Classe em si, Classe para si, Consciência de Classe, são derivações que buscaremos definir através de um debate que circundará alguns teóricos centrais na análise do conceito. No capítulo seguinte, buscaremos fazer uma revisão bibliográfica sobre algumas das principais obras escritas no Brasil, que envolvam o estudo do movimento operário e da Classe Operária. Neste capítulo nos limitaremos a abarcar o estudo em período determinado, que inicia na Primeira República (1889) e termina no governo Geisel (1979).

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Por último, no terceiro capítulo, iniciaremos o debate ao entorno das possibilidades de

pesquisa sobre o operariado hamburguense. Através de documentos contidos na Associação de Comércio e Indústria de Novo Hamburgo (ACI-NH) e outras fontes de estudos estatísticos, bem como dados relativos a instituições do movimento operário e entrevistas de trabalhadores, buscaremos apresentar perspectivas de pesquisa sobre o movimento operário nesta região. Encerramos estas palavras introdutórias com o seguinte pensamento, proposto por

Petersen (1997, p. 8): “Qual o significado de estudar [

neste velho tema, aspectos já tão trilhados como suas organizações e resistências?”. Somente resolvendo este imbróglio é que estaremos prontos a desenvolver nosso texto. Portanto, respondemos à autora, afirmando que, mesmo se conhecêssemos profundamente todas as histórias de todos os operários brasileiros, ainda teríamos espaço para escrever algumas linhas a mais; porque a História não tem fim, e o estudo do passado se enriquece com cada informação anexada. Nosso papel neste cenário é tentar anexar uma minúscula nota de rodapé num pequeno capítulo da história do operariado brasileiro. Se conseguirmos, já teremos cumprido nosso dever de historiadores. Boa leitura!

e

]

algo tão aparentemente velho [

]

21

2 A CLASSE EM PERSPECTIVA

Por classe, entendo um fenômeno histórico, que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto na matéria-prima da experiência como na consciência (THOMPSON, 1987, p. 9).

As palavras do excerto mostrado acima foram publicadas pelo pesquisador britânico que, junto de Eric Hobsbawm, mais se dedicou ao estudo do operariado inglês durante, pelo menos, a segunda metade do século XX 7 . Na concepção de Thompson (1987), classe, é um conceito que imprime em si, outros desdobramentos conceituais, mas que não pode ser relativizado. Outrossim, é um termo que não pode ser dissociado de sua aplicação no tempo e no espaço. Distanciar a classe das ações datadas dos sujeitos que a envolvem, é um equívoco. O que Thompson promove na introdução de seu estudo clássico, é uma conceituação bem elaborada e respaldada do termo que irá utilizar durante os três tomos de sua obra sobre o operariado inglês. Portanto, neste primeiro capítulo de desenvolvimento de nossa pesquisa, nos debruçaremos sobre este conceito, a fim de que possamos compreender sua real aplicação nos processos históricos, e suas delimitações conceituais. Colocaremos em debate a perspectiva do termo classe, trazendo à tona autores renomados no estudo desta temática, no intuito de facilitar a compreensão no processo do estudo da classe operária e suas organizações. Por fim, definiremos o conceito de Classe, no intuito de continuarmos a escrita desta monografia, embasados teoricamente.

2.1 CLASSE EM MARX

É o próprio Thompson (1987, p. 11) que provoca um debate acadêmico, ao inferir que uma “tosca noção de classe [foi] atribuída a Marx”: a noção de que uma classe nasce a partir de relações restritas às estruturas de produção. Segundo essa interpretação, grupos sociais se distanciam - um em oposição a outro, na medida em que se identificam, entre si, no processo produtivo - e se antagonizamno processo cotidiano das relações de produção. Essa teoria,

7 Dentre os trabalhos de destaque de ambos os autores, destacamos os que utilizaremos neste estudo. Portanto, aos leitores interessados em buscar informações nos textos originais, ver Hobsbawm (2008). Para um estudo geral do movimento operário daquele país, ver Thompson (1998). Sobre a relação entre trabalho e cultura, no campo e na cidade, ver Hobsbawm (2012). Uma compilação de ensaios do autor, problematizando questões como o luddismo, trabalhismo, metodismo no meio operário, etc.

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que não ousamos bruscamente refutar mas, tão somente, contrapor com outros estudos mais recentes , atribuía a Marx essa conceituação. Em verdade, os próprios escritos do teórico alemão não favorecem no que concerne à

explicitação de sua noção do termo Classe. A frase, “[

nossos dias é a história da luta de classes” (MARX; ENGELS, 2011, P. 23), é famosa por abrir o texto do Manifesto do Partido Comunista, publicado originalmente em 1848. Entretanto, em nenhum momento do texto, os teóricos explicam o que concebem como Classe. Tanto nesta obra, quanto em outras posteriores, Marx utilizou o conceito permitindo interpretações abrangentes.

Na opinião de Hobsbawm (2008, p. 34), “Marx usou o termo ‘classe’ em dois sentidos bastante diferentes, de acordo com o contexto”. O primeiro deles é aquele em que os agentes envolvidos se relacionam e se identificam através de similaridades com relação aos meios de produção. Sob essa perspectiva, o elemento econômico ganha ênfase sobre todos os outros possíveis elementos. Desse modo, houve agrupamentos de sujeitos com interesses - estritamente materiais em comum, formando, de um lado, um contingente pequeno de exploradores, e do outro, um contingente maior de explorados. Mas há ainda uma segunda acepção do conceito de Classe utilizado por Marx, que não se esgota no materialismo de cunho economicista: o uso da ideia de Consciência de Classe. Há que se levar em conta que a expressão em si consciência de classe não é utilizada por Marx, mas em sua escrita é possível encontrá-la, de modo implícito, sem muito fadigar. Observemos a seguinte passagem do livro 18 Brumário de Luís Bonaparte, publicado em 1852:

a história de toda sociedade até

]

A república burguesa significava o despotismo ilimitado de uma classe sobre as outras. Provara que em países de velha civilização, com uma estrutura de classes desenvolvida, com condições modernas de produção, e com uma consciência intelectual na qual todas as idéias tradicionais se dissolveram pelo trabalho de séculos - a república significava geralmente apenas a forma política da revolução da sociedade burguesa e não sua forma conservadora de vida, como por exemplo nos Estados Unidos da América, onde, embora já existam classes, estas ainda não se fixaram, trocando ou permutando continuamente os elementos que as constituem em um fluxo contínuo, onde os modernos meios de produção, em vez de coincidir com uma superpopulação crônica, compensam, pelo contrário, a relativa escassez de cabeças e de braços, e onde, finalmente, o febril movimento juvenil da produção material, que tem um novo mundo para conquistar, não deixou nem tempo nem oportunidade de abolir a velha ordem de coisas. (MARX, 1852, p. 6, grifo nosso).

Em sua crítica mais famosa sobre o processo que levou à revolta de 1848, conhecida como Primavera dos Povos, Karl Marx fornece algumas pistas sobre seu entendimento do

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conceito de classe. No excerto acima, algumas considerações devem ser feitas, e podemos dividi-lo em duas partes. Na primeira (grifada), em que Marx aponta as características constitutivas da república burguesa francesa do início do século XIX, conseguimos compreender que o teórico tenciona uma luta de classes tangente, sem ainda, definir os papeis destes conflitantes. Ainda sim, afirma que em países da Europa, onde uma estrutura de classes estava desenvolvida cujo papel importante foi desempenhado pela Revolução Industrial , e uma consciência intelectual renovada fora estabelecida, o ambiente social não é representado pela forma política de governo. No âmbito político, a revolução fora feita, mas sua “forma conservadora de vida”, ou seja, o lócus em que a massa se estabelece, ainda permanecia intacta. A segunda parte de nossa divisão, diz respeito exclusivamente à concepção do conceito de classe na teoria de Marx. Quando escreve que nos Estados Unidos existem classes, podemos analisar uma primeira condição existencial da classe. Ao acionar a temporalidade Marx dá sinais de que havia a possibilidade de não existirem classes nos EUA, mesmo existindo produção. Logo na seqüência, afirma que estas classes “ainda não se fixaram, trocando ou permutando continuamente os elementos que a constituem em um fluxo contínuo”. Ele não dá indícios ainda sobre os elementos que constituem essas classes, mas afirma que são mutáveis, e que podem estar em constante troca. Ainda termina lembrando que aqui (América) os meios de produção compensam a escassez de operários, mas que mesmo assim, “a velha ordem das coisas”, o status quo de opressão a que é relegado o proletariado, permanecia. Compreende-se deste excerto algumas interpretações da teoria de Marx sobre o conceito de classe: 1) existia uma luta de classes na Europa do início do século XIX, ainda que o modelo monárquico antigo não existisse mais, e uma estrutura de classes desenvolvida. 2) a classe não pode ser concebida como uma estrutura automática, inerente à condição de produção. 3) existem alguns elementos que compõe uma classe, e que podem ser trocados e mudados, de acordo com o período e a maturidade dos sujeitos envolvidos nessa formação. Entretanto, ainda não é possível compreender por completo a forma como Marx encarava o conceito de classe em sua essência. Quando aponta que existem elementos que compõem as classes, não explicita que elementos são esses. Mas talvez o próximo excerto possa colaborar:

A grande massa da nação francesa é, assim, formada pela simples adição de grandezas homólogas, da mesma maneira que batatas em um saco constituem um saco de batatas. Na medida em que milhões de famílias camponesas vivem em

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condições econômicas que as separam umas das outras, e opõem o seu modo de vida, os seus interesses e sua cultura aos das outras classes da sociedade, estes milhões constituem uma classe. Mas na medida em que existe entre os pequenos camponeses apenas uma ligação local e em que a similitude de seus interesses não cria entre eles comunidade alguma, ligação nacional alguma, nem organização política, nessa exata medida não constituem uma classe (MARX, 1852, p. 54, grifo nosso).

Aqui temos uma interpretação mais concisa sobre o conceito de classe. No início dessa passagem, Marx aponta sua crítica para o problema da massa francesa. Ao compará-la a um saco de batatas, remonta à ideia de incapacidade de atuação em níveis diferentes, principalmente pelo que ele chama de “grandezas homólogas”. Mas nos deteremos sobre o que ele escreve na sequência. O que constitui uma classe, para Marx, de acordo com este excerto, são as condições econômicas aliadas ao modo de vida. Visto sob outra perspectiva, os interesses de um conjunto de indivíduos, em oposição a outros de outro conjunto, bem como suas culturas, separarão estes sujeitos em duas classes diferentes. A oposição entre o “nós” e o “eles” – que trabalharemos com maior dedicação ao final deste capítulo é fundamental nessa formação de classe. Mas não é possível excluir a informação de que o fator demográfico é importante para Marx. Tanto é, que ao citar um exemplo do que não é uma classe, apresenta o exemplo de um pequeno grupo de camponeses que não se ligam de modo mais amplo, mas tão somente, numa dimensão local. Assim sendo, ao analisar as duas passagens do texto de Marx, interpretamos sua concepção do conceito de classe da seguinte forma: A formação de uma classe, para Karl Marx, está sujeita a formação de uma estrutura social embasada em elementos formados por ações. Estas ações são compostas de interesses e culturas em comum, ao passo que se distanciam de interesses e culturas de outras classes. A condição econômica e o contingente demográfico interligado, bem como a questão territorial ligação nacional entre membros de uma classe também são elementos constitutivos, e sem eles não é possível haver classe. E por fim, mas tão importante quanto, a organização política, ao redor da qual, estes sujeitos se agremiarão, é o elemento que complementa o processo de formação da classe. Obviamente que em um trabalho com a dimensão dessa monografia, não seria possível estudar a completa e densa obra de Karl Marx. Nem tampouco seria correto de nossa parte afirmar que no texto analisado aqui, Marx encerra sua conceituação sobre classe. O que fizemos neste início de texto foi provocar o leitor interessado no assunto, levantando problematizações acerca do conceito.

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Mas para que o debate se aprofunde um pouco mais, apresentamos também a perspectiva do conceito de classe para outros dois historiadores. O primeiro deles, o já mencionado Thompson, aprofunda o estudo da classe operária, ao buscar nos dados empíricos, a história do operariado inglês, e seu processo de formação enquanto classe.

2.2 CLASSE EM THOMPSON

Se para Thompson (1987, p. 9), a Classe é “[

]

um fenômeno histórico”, ainda sim,

ele não encontra nela uma identidade de estrutura, ou uma categoria específica, mas “algo que

nas relações humanas’”. Noutros termos, a classe acontece; e só pode

acontecer na medida em que os próprios sujeitos envolvidos percebam sua existência nas relações sociais do cotidiano. Ela acontece quando homens sentem a necessidade de articular entre si interesses em comum. A partir dessas necessidades de articulação - experiências, que Thompson (1987) chamou de “experiências de classe” – é que se forma a Consciência de Classe, tão importante

para o autor, e para o trabalho que desenvolvemos agora. Para ele, é através da Consciência de Classe que estas experiências comuns entre os sujeitos aparecem, geralmente em forma de tradições, valores, instituições e ideias. Em sua obra o autor rememora os escritos de Marx, afirmando que pelo fato de que as atribuições feitas ao pensador alemão, quando do conceito de Classe, qualquer noção deste conceito passa a ser vista sob o viés pejorativo. Nesse sentido, o historiador inglês busca, através da empiria, mostrar que a formação da Classe está ligada a uma formação social e

surgindo de processos que só podem ser estudados quando eles mesmo operam

durante um considerável período histórico” (THOMPSON , 1987, p. 12). E para que isso possa ser feito da forma mais objetiva possível, Thompson busca encontrar a formação da Classe Operária inglesa entre os anos de 1780 e 1830. Ele divide sua obra em 3 volumes: no primeiro, “A árvore da liberdade”, escreve sobre a pré-formação da classe operária, ou seja, o que corroborou este acontecimento. No segundo, denominado “A maldição de Adão”, desenvolve a participação do metodismo na formação da classe e as formas que as relações sociais e a cultura britânica interferem na Consciência de Classe. E no terceiro e último volume, “A força dos trabalhadores”, argumenta sobre o luddismo, formas de organizações operárias britânicas no século XIX.

cultural, “[

ocorre efetivamente [

]

]

Desde o princípio das organizações operárias, na Inglaterra do século XVIII, era possível ler nos escritos dos trabalhadores a seguinte frase: “Que nossos membros sejam

26

ilimitados” (THOMPSON, 1987, p. 18). O que revela que no movimento operário inglês a necessidade de que a organização fosse dotada de forças quantitativas. Neste mesmo ponto, o autor busca compreender como essas organizações chegaram a esta necessidade. Por que a necessidade de organizar um conjunto de homens em prol de uma ideia, nasce de algum descontentamento. Desse modo, Thompson (1987) aponta que o início dessa movimentação pode ter várias datações, dependendo do ponto de vista. Por exemplo; se considerarmos o ano de 1789, o jacobinismo inglês e, portanto o radicalismo neste local, se inicia pelos desdobramentos da Revolução Francesa. Mas se tomarmos o século XIX como ponto de partida, o radicalismo passa a ser considerado como subproduto da Revolução Industrial. Em sua opinião, tanto a Revolução Industrial quanto a Francesa têm uma relativa parcela de responsabilidade nas agitações entre os trabalhadores. A última precipitou novas experiências, baseadas em ideais diferenciados; a primeira, alterou as estruturas produtivas, causando na massa trabalhadora, sentimentos novos, e como conseqüência, um modo de se manifestar distinto (THOMPSON, 1987). Tentando encontrar elementos da sociedade para a unificação em prol de um ideal, o que seria um excelente elemento para que a Classe acontecesse, Thompson coloca em debate um elemento social muito importante: a religião. Segundo ele, o metodismo foi responsável por estabelecer extremos em uma sociedade baseada na dualidade.

Na vila mineira ou agrícola, a polarização entre capela e Igreja podia facilitar uma polarização com formas políticas ou industriais. Pareceu durante anos que se poderia conter a tensão; mas quando ela se rompeu, veio por vezes carregada de uma tal paixão moral onde o velho Deus puritano das Batalhas novamente agitava seus estandartes raramente suscitada pelos líderes seculares. Enquanto Satanás se manteve indefinido e sem domicílio de classe estabelecido, o metodismo condenou a classe operária a uma espécie de guerra civil moral entra a capela e o bar, os perversos e os redimidos, os perdidos e os salvos (THOMPSON, 1987, p. 47).

Neste excerto é possível compreender como o autor concebe a relação entre a política e a religião. Ao destacar os antagonismos sociais, fortemente ressaltados pela religião, Thompson (1987) infere a proximidade com a dicotomia política e industrial. O trecho transcrito aqui expõe as sociedades mineiras ou agrícolas, mas transcende esta categoria produtiva; se aplicarmos ao que mais tarde viria a ser uma sociedade insipidamente industrial, veremos que o resultado não foi muito diferente. Essa luta entre o bem e o mal, corroborou os acontecimentos que viriam a mudar as organizações operárias nos anos subseqüentes, e que fortaleceria o acontecimento da classe operária inglesa.

27

Ao mero exercício de imaginação, podemos nos flagrar desenhando em nossas mentes

uma sociedade majoritariamente agrícola, sem estudo ou instrução formal de nível algum. É nessa sociedade que a religiosidade se baseará, e entrará com força. O que Thompson nos mostra é que, a partir do momento em que a população passou a ler, encontrou em alguns escritos, tanto da Escola Dominical (de linha teológica metodista), quanto de pensadores liberais, o dispositivo que faltava para acender o fogo do desejo de mudança. Mas não nos enganemos ao pensar uma sociedade sem instrução, como uma sociedade

sem reivindicação. Thompson (1987, p. 66) informa que “[

como nas urbanas, uma consciência de consumidor precedeu outras formas de antagonismo político ou industrial”. Assim, muito mais que o salário, o valor dos produtos a serem consumidos era supervisionado. A ponto de que, ainda no apagar das luzes do século XVIII, existiu o “tribunal do pão”, que buscava regular o tamanho, sabor, qualidade e preço do alimento. Diversas formas de manifestação foram sentidas na Inglaterra do final do século XVIII. As “turbas”, movimentos rebeldes contra determinados varejistas e motins populares, não eram sentidos pontualmente, senão em momentos relevantes para a história daquele país (THOMPSON, 1987, p. 62). Mas faltava algo que unificasse o pensamento ao redor de uma luta em comum. E esse algo se encontrava nos textos de Thomas Paine. Paine, em seu texto Direitos do Homem, incutiu na mente de muitos ingleses um “efeito profundamente libertador”; plantou nos homens a “árvore da liberdade” (THOMPSON, 1987, p. 106-137). O texto, como o título anuncia, se rebela contra a falta de direitos e elenca uma série de atitudes que deveriam ser revistas. Se aplicarmos novamente nosso exercício de imaginação, não será difícil compreender que em uma sociedade agrícola, com um nível baixo de leitura e que esta provinha da religião a adesão a uma literatura liberal como a de Paine, faria um estardalhaço sem precedentes. Um fato, narrado por Thompson, serve como exemplo para a efervescência rebelde instaurada na Inglaterra após a disseminação deste texto. No final do Setecentos, indo abrir a sessão do Parlamento Inglês, o rei George III foi vaiado e apedrejado por populares na rua. Segundo o autor, aproximadamente 200.000 londrinos se encontravam na manifestação, gritando contra o rei e contra o sistema instaurado. No que se refere a esse dia, as fontes utilizadas por Thompson informam que “um mascate na multidão que vendia ‘Os Diretos do Homem’ por um pêni foi detido, resgatado e carregado em triunfo” (THOMPSON, 1987, p. 158). Este dia atemorizou as autoridades, pois foi um momento de ruptura. O rei, autoridade máxima e intocável para os franceses, fora contestado.

tanto nas comunidades rurais

]

28

Ainda sim é errado encontrar nessa situação o início de um fim; na década de 1790 “[ ] ocorreu algo como uma ‘Revolução Inglesa’, de profunda importância para moldar a consciência do operariado pós-guerra” (THOMPSON, 1987, p. 195). As mudanças, inspiradas por intelectuais como Paine, oriundas de um sentimento revolucionário que ecoava quase de modo utópico das guilhotinas francesas, e sentidas na pele pelos trabalhadores e por boa parte da burguesia inglesa, alteraram estruturas fundamentais nas relações humanas da Inglaterra; alterações que seriam sentidas no século XIX, quando do fortalecimento de entidades de representação política. Este momento de ruptura é frisado por Thompson (1987, p. 196), que afirma que após 1795, período em que a população se rebela de forma mais pragmática, houve uma espécie de “apartheid”, cujos efeitos podem ser sentidos ainda hoje. Desse modo, o autor apresenta um diferencial da Inglaterra, em relação ao restante da Europa. Ao mesmo tempo em que havia uma mudança de estruturas, com o início de uma verdadeira revolução no modo de viver, com a incorporação da indústria denominada como Revolução Industrial, - surgiu na população inglesa um “fluxo de sentimentos e disciplinas contra-revolucionárias” (THOMPSON, 1987,

p. 196). Dessa fórmula emergiram acontecimentos muito importantes para a formação da classe operária. Diretos sociais e políticos passaram a ser tolhidos com facilidade tal, ao passo em que novas tecnologias invadiam a organização produtiva, irrompendo a cidade com industrias se modernizando cada vez mais rápido. Esse turbilhão de ideias novas tanto na indústria quanto nas ruas e nas casas favoreceu um ambiente dominado pela tensão e pela reivindicação de mudanças para a população mais pobre. Quando há repressão extrema, aliada a um fluxo revolucionário precedido por movimentos intelectuais de cunho libertador, não há como inexistir um clima de rebeldia e

desejo de mudança. E Thompson(1987, p. 200) pensava assim; “[

que podemos falar de um amadurecimento de uma ‘consciência operária’ diferenciada”. Para que seja possível pensar a formação de uma Classe, a Classe Operária, é fundamental pensarmos o que precedera essa formação. A “consciência operária”, para Thompson, é formada em oposição a outra consciência, geralmente aquela das classes dominantes de determinada sociedade. No segundo volume de sua obra, Thompson coloca em debate a formação da classe operária partindo do processo de industrialização na Inglaterra do século XIX. E desse modo nos permite ampliar nosso viés sobre a Revolução Industrial, na medida em que quebra alguns

paradigmas históricos, como a ideia de que já no final do Setecentos a Inglaterra era um país

]

é nos anos de repressão

29

observadores ainda se admiravam com a novidade do sistema fabril”. Outrossim, esse sistema fabril incipiente já demonstrava que a industrialização viera para revolucionar não apenas a produção de mercadorias para consumo, mas também a sociedade como um todo; na opinião de Thompson, as alterações no método de produção têxtil, por exemplo, a partir da disseminação da máquina a vapor, não produziam somente um número mais elevado de mercadoria, mas também o próprio cerne do Movimento Trabalhista. Isso porque a indústria do algodão foi a pioneira no processo dessa revolução, o que acarretou, por conseqüência, no pioneirismo da tecelagem na indústria do sistema de fábricas. Mas isso pode precipitar conclusões reducionistas; não é apenas o fato de que houve um crescimento econômico que forjou uma alteração na dinâmica da vida social, ou ainda, cultural. Thompson (1987b, p. 16) vai ainda mais longe. Ele afirma que “os operários estão longe de serem os ‘filhos primogênitos da revolução industrial [sic] 8 ”. As ideias de organizações de trabalhadores, característica destes sujeitos, foram precedidas por trabalhadores domésticos, muito antes da formação do operariado inglês. Por esse motivo, dentre outros, Thompson utiliza em sua obra o termo classe operária, e não classes, o que imprime uma “grande disparidade em status, conquistas, habilidades e condições no seio da mesma expressão polissêmica” (THOMPSON, 1987b, p. 16). Entretanto, não é fato irrelevante para o autor a formação da classe operária inglesa durante o processo de industrialização. Para ele, a classe aconteceu entre 1790 e 1830; confirma isso por dois motivos. Primeiro, a Consciência de Classe, “a consciência de uma identidade de interesses entre todos esses diversos grupos de trabalhadores, contra os interesses de outras classes”, obtém um crescimento exponencial neste período; segundo, o crescimento das organizações políticas e industriais (THOMPSON, 1987b, p.17). Por isso entendo, assim como Thompson (1987b, p. 17), que o “fazer-se da classe operária” não ocorreu como conseqüência espontânea de um sistema fabril em processo de amadurecimento, muito menos como acontecimento resultante de “alguma força exterior – ‘a revolução industrial’[sic]”. Assim como ele, entendo a classe operária formando a si mesma, ao passo em que é formada. Mas é necessário frisar que ao silenciar das vozes do século XVIII e o ascender das luzes do XIX, houve três grandes influências sobre o trabalho, que claramente, tiveram relevância sobre o modo de vida dos trabalhadores ingleses: primeiro, um grande aumento

8 Ainda que não esteja explícito no texto, a expressão pode ser encarada como uma provação frente à afirmativa de que o proletariado é o “produto característico” do “desenvolvimento da grande indústria” (ENGELS; MARX,

2011).

30

populacional urbano, seguido de uma verdadeira revolução no que tange aos aspectos

tecnológicos; e por último, uma contra-revolução política, ocorrida entre 1792 e 1832. Esses

elementos, na opinião do autor, tiveram grande influência “[

das instituições da classe operária” (THOMPSON, 1987b, p.20). Mas se considerarmos a Revolução como parte importante da formação do operariado inglês, precisamos compreender em que medida ela teve um impacto dessa dimensão. Para Thompson(1987b, p. 23), a Revolução Industrial foi catastrófica em relação ao povo inglês. Com ela, a população trabalhadora foi posta, “simultaneamente, à intensificação de duas formas intoleráveis de relação: a exploração econômica e a opressão política”. As relações de trabalho perderam a pessoalidade, tornando-se mais brutas, mais tensas; quando o empregado conseguia se livrar das opressões do patrão, existia ainda a mão do Estado, que tolhia o resquício de liberdade deste trabalhador. E os trabalhadores sentiam essas injustiças, o que se reflete nas reivindicações trabalhistas desse período. Thompson afirma que “[ ] conflitos mais virulentos desses anos giraram em torno de questões que não são englobadas pelas séries de custo de vida”, ou seja, o “pão com manteiga”, não era a principal reivindicação, senão a permanência de alguns valores, considerados pelos trabalhadores como fundamentais para suas vidas (THOMPSON, 1987b, p. 27). Até o final do segundo quartel do século XIX, já era possível sentir uma certa melhoria na qualidade de vida dos trabalhadores; ao menos os padrões médios eram superiores dos que os padrões de 50 anos atrás. O que se apresenta como paradoxo deste período é a intensificação da exploração e da insegurança social. Ao discutir sobre a formação da Classe Operária, partindo da categoria de trabalhadores artesãos, Thompson comenta que mesmo em 1830, o maior contingente dessa categoria estava trabalhando em pequenas oficinas, ou ainda, em suas próprias casas. Levou certo tempo para que este “empregado industrial típico” adentrasse às fábricas (THOMPSON, 1987b, p.71). Nesse sentido, o que chama a atenção são os números de trabalhadores. Afora o núcleo de produção têxtil, onde a maioria ainda produzia em trabalho externo, os sapateiros compunham o maior número de artesãos, com uma massa de aproximadamente 133.000 homens adultos. Depois deles, vinham os alfaiates, com cerca de 74.000 pessoas. Tão relevante quanto era o método aplicado para a remuneração destes produtores de materiais de consumo. O salário destes profissionais, longe de serem balizados pela política de oferta e procura, típica de um mercado de trabalho, vindouro após a metade do Oitocentos, era determinado na maioria das vezes por concepções de prestigio social; noutros termos, era, basicamente, o costume que regia o valor do pagamento por serviços prestados.

na formação da consciência e

]

31

A sociedade inglesa da década de 1930 estava longe da homogeneidade. Era uma

sociedade plural, onde coexistiam fábricas, comunidades agrícolas e têxteis, diversas normas sociais, tradições e expectativas. Todas se influenciavam. E nessa sociedade plural, surge a

a atração exercida por esta

religião [metodismo] sobre o proletariado num período de excepcional miséria”? Bem, a

conclusão de Thompson é que se trata de uma ideia de igualdade perante o espírito. O Metodismo introduziu no âmbito da sociedade inglesa um elemento fundamental para a formação da classe operária.

A maldição de Adão, lançada por Deus ao expulsar o homem do Jardim do Éden,

poderia ser recompensada com trabalho árduo. Nas lições dominicais a população inglesa ouviria palavras que rebatiam nos quadros de sua memória ou de suas vivências

contemporâneas. Sobretudo nas áreas rurais, esse movimento de avanço do metodismo sobre a população trabalhadora foi importante.

afronta ao

vigário e ao proprietário rural, e um centro na qual o trabalhador adquiria independência e

respeito próprio” (THOMPSON, 1987b, p. 285). Ao mesmo tempo em que confrontava o líder ecumênico tradicional, a capela representava um elemento de liderança distinto do patrão. Lá o trabalhador não era apenas mais um par de braços servindo a outrem. Era um homem que carregava a maldição de Adão, junto de seus semelhantes, em prol de algo

melhor. Na opinião de Thompson estes elementos solidificaram a consciência de classe na Inglaterra do início do século XIX. Por outro lado, os trabalhadores estavam cercados pelo espírito da disciplina e da ordem. Durante a semana, as fábricas ditavam as regras; aos domingos, as escolas metodistas continuavam a pressão. E o sujeito do século XIX ainda enfrentava conflitos dentro do próprio universo do trabalhador. A atmosfera do Oitocentos era imbuída por uma disputa entre valores do trabalho manual, que entrava em atrito com os do trabalho industrial (THOMPSON, 1987b). Todos esses embates são formadores da Consciência de Classe operária, e devem ser levados em consideração quanto à formação dessa classe.

A imigração irlandesa foi um ponto fundamental para a comunidade da classe

operária. Estima-se que mais de 400.000 habitantes da Grã-Bretanha de 1841 eram irlandeses de natureza (THOMPSON, 1988b). O que acontece é que, apesar de paradoxal, a Inglaterra necessitava de mão-de-obra livre dos vícios industriais; homens que não estivessem moldados

pela disciplina das fábricas. Desse modo, trabalhadores irlandeses rumaram à Inglaterra e

questão para Thompson(1987b, p. 232): “[

]

como se explica [

]

Nas aldeias agrícolas, uma capela metodista era considerada uma “[

]

32

somaram-se aos ingleses, num processo de formação de classe, do qual, foram tão partícipes quanto dos “nascidos-livres”. Thompson termina sua segunda parte de “A formação da classe operária inglesa” afirmando que entre 1780 e 1840 havia um empobrecimento da Inglaterra. Mas não foi essa pobreza que trouxe sombras à Revolução Industrial. Foi o trabalho, ao qual muitos trabalhadores eram enclausurados, como se numa “tumba”. “Os esforços de toda uma vida, além dos apoios das sociedades de auxílio mútuo, bastavam apenas para garantir a realização de um valor popular tão prezado: o funeral decente” (THOMPSON, 1987b, p. 347). No terceiro volume de sua obra, subintitulado “A força dos trabalhadores”, Thompson

(2012) inicia a discussão traçando um pouco do cenário social inglês dos primeiros anos do século XIX. Informa que havia uma insatisfação geral no âmbito sócio-político, oriunda do bloqueio imposto à Inglaterra pelo governo de Bonaparte. O impedimento gerado por Napoleão influenciou na escassez de emprego, na alta dos preços de alimentos e em uma estagnação industrial, que prejudicou diversos setores britânicos. Esse sentimento fornecia elementos para que se estabelecesse um terreno fértil à implementação de discursos

patrióticos. Com a vitória do Almirante Nelson, “[

Nelson era o herói de guerra mais popular que a

Inglaterra conhecera desde Drake”. O almirante era tido como um defensor dos direitos populares (THOMPSON, 2012, p. 17). Nesse mesmo ambiente, o radicalismo político passa a ter papel fundamental no cenário nacional. Esse radicalismo de origem jacobina vinha se mostrando crescente ao final do Setecentos, mas no acender das luzes do Oitocentos ele se volta contra o governo de modo inflexível. “Em Nottingham, oficiais do Exército foram apedrejados e postos para fora de um teatro, onde tentaram fazer com que o público cantasse ‘Deus salve o rei’” (THOMPSON, 2012, p. 45). Esses radicais constituíam uma corrente de lutas expressivas, dentro do caldeirão revolucionário que virava a Inglaterra da Revolução Industrial. O que acontece é que, à medida em que líderes sindicais surgiam, eram levados a adotar posturas radicais extremas, atém mesmo pelas condições de conflito com os patrões (THOMPSON, 2012). De modo geral, havia também representação operária menos conflituosa. O que poderia se manter, ou não, de acordo com as relações políticas da entidade

baladas, panfletos e estampas patrióticas. [

a Inglaterra foi inundada de livros de

]

]

33

molestados, até que algum conflito ou greve desagradasse a patrões ou autoridades. Por outro lado, surfiam ocasiões em que era legalmente permitido que oficiais de uma certa profissão pelo menos em diversas cidades e distritos apresentassem seus interesses em petições ao Parlamento ou comparecendo em comissões da Câmara (THOMPSON, 2012, p. 93).

Bastava uma relação mais conflituosa para que a cooperação entre patrões e empregados se desestabilizasse. Nesse sentido, quanto mais intenso o crescimento de indústrias, maior a unidade sindical, e maior a repressão ao sindicalismo(THOMPSON,

a perseguição judicial envolvia muitas

dificuldades”, o que era ruim para o patrão também, pois ele “sabia que era capaz de perder muitos dos seus melhores artífices” (THOMPSON, 2012, p. 96).

É nesse panorama conflituoso do início do século XIX que aparece o ludismo. E esse

aparecimento deve ser visto sob a ótica “[

imposição da economia política do laissez-faire sobre os trabalhadores, contra sua vontade e consciência” (THOMPSON, 2012, p. 154), e não apenas como um movimento insurrecional alheio à organização de trabalhadores, ou como uma reação de operários analfabetos às máquinas modernas. Existia uma tradição na Inglaterra do século XVIII de destruição de materiais, não apenas máquinas. “Embora relacionado com essa tradição, o movimento ludista deve ser diferenciado dela, em primeiro lugar pelo seu alto grau de organização, e em segundo pelo contexto político em que floresceu” (THOMPSON, 2012, p.169). O que não quer dizer que o

da anulação da legislação paternalista e na

]

2012). Além disso, quando o sindicato era forte, “[

]

movimento ludista fosse necessariamente organizado; mas havia uma tendência a essa organização que deve ser levada em consideração quando de sua menção.

O que deve ser levado em conta é que naquele período, havia uma cultura intelectual

de 1830 em diante, veio a

mais claramente definida” (THOMPSON, 2012,

p. 415). E o Metodismo, em que pese ter fornecido acesso à informação para os operários, foi

responsável por uma influência “anti-intelectual”, da qual “[ nunca se recuperou totalmente” (THOMPSON, 2012, p. 455).

é prematuro, nos anos 1830, pensar nos

trabalhadores ingleses como indivíduos totalmente abertos à ideologia secular”. Assim, havia uma cultura radical, que influenciou na formação da classe operária, mas que é específica de

a cultura popular britânica

amadurecer uma consciência de classe, [

dentro do radicalismo político inglês. Nesse sentido, “[

]

]

]

Thompson (2012, p. 553) afirma que “[

]

indivíduos qualificados. Assim, a consciência de classe desses trabalhadores pode ser vista sob dois diferentes vieses: “de um lado, havia uma consciência da identidade de interesses

34

entre trabalhadores das mais diversas profissões e níveis de realização, encarnada em muitas formas institucionais” (THOMPSON, 2012, p. 561). De outro lado, “havia uma consciência

enquanto contrários aos de outras classes;

dentro dela, vinha amadurecendo a reivindicação de um sistema alternativo”. (THOMPSON, 2012, p. 562). Quanto a esta, deve-se à reação da classe média britânica à força operária.

Torna-se prática de um discurso mais tradicional associar a luta sindical à ideologia do

quando Marx ainda era

adolescente, a luta pelas mentes dos sindicalistas ingleses, entre uma economia política capitalista e uma socialista, fora ganha” (THOMPSON, 2012, p. 596). Aos poucos, uma teoria

do sindicalismo era desenvolvida.

socialismo científico. Mas não há que se perder de vista que “[

da identidade dos interesses da classe operária [

]

]

E, implícito, se nem sempre explícito, em sua perspectiva estava o perigoso princípio: a produção deve ser não para o lucro, mas para o uso. Essa autoconsciência coletiva foi realmente o grande ganho espiritual da Revolução Industrial, contra o qual deve-se colocar o esfacelamento de um modo de vida mais antigo e, em muitos aspectos, mais humanamente compreensível. Foi talvez uma formação única essa classe operária inglesa de 1832 (THOMPSON, 2012, p. 598).

Neste excerto, Thompson fala na ruptura causada pela Revolução Industrial no âmbito

social. E a partir de 1832, a formação da classe operária chegou a um nível de maturidade tal, que a luta operária não estava restrita a questões pontuais e reivindicações localizadas; passou

a ser canalizada em um ideal central, em oposição à lógica capitalista burguesa. E estas

instituições adquiriam uma resistência particular. Thompson (2012, p. 600) exemplifica lembrando que, na vida inglesa, “tudo, das suas escolas às suas lojas, das suas capelas aos seus divertimentos, converteu-se num campo de batalha de classe”.

os

Por fim, Thompson (2012, p. 601) termina sua obra com a seguinte frase: “[

]

trabalhadores [

da Liberdade. Podemos agradecer-lhes por esses anos de cultura heroica”. É interessante observar que o pensamento de Thompson se soma ao de outros historiadores, como o próprio Hobsbawm. Para esse, assim como naquele, “a classe e a consciência de classe são inseparáveis” (HOBSBAWM, 2008, p.34). Ou seja, não existe a

também nutriam, por cinqüenta anos e com incomparável energia, a Árvore

]

possibilidade de uma classe existir sem a sua compreensão, sem que os membros desta classe

se entendam como partícipes desse grupo social.

35

E o Hobsbawm, historiador inglês oriundo da corrente marxista, assim como Thompson, se debruça a estudar a classe operária por convicção de que este tema merece atenção por parte de historiadores.

2.3 CLASSE EM HOBSBAWM

as classes sociais,

o conflito de classes e a consciência de classe existem e desempenham um papel na história”; podemos até mesmo discordar da relevância em que eles desempenham no curso da História,

mas jamais duvidar de sua existência. E essa confusão histórica de que as classes não existem e não desempenham qualquer papel na História- segundo Hobsbawm, é proveniente

de uma confusão ideológica 9 . O termo fora proferido pela primeira vez em um texto científico por Marx. O que acontece é que o pensador alemão o utilizou em dois sentidos diferentes, que podem ser interpretados de acordo com seu contexto. Primeiro, ele pode ser compreendido

manterem relações

similares com os meios de produção”, em exploradores e explorados (HOBSBAWM, 2008, p. 34). E Hobsbawm não consegue conceber a classe unicamente sob essa perspectiva. Relembra, entretanto, que o mesmo Marx utiliza o conceito, alinhando a outro elemento, a consciência de classe.

como um conjunto de seres agrupados, na maioria das vezes por “[

Longe de toda a negação, Hobsbawm (2008, p. 33) afirma que “[

]

]

E para o autor essa consciência de classe tem data e local para acontecer. Não é nas

sociedade agrícolas e camponesas que a consciência de classe se mostrará de forma mais eficaz. Se isso ocorrer, será por meio de pessoas não-camponesas organizando um movimento baseado em uma consciência de classe urbana. O que Hobsbawm busca dizer é que apenas na

era industrial moderna, na cidade industrializada quando muito em fase de industrialização é que a consciência de classe pode acontecer (HOBSBAWM, 2008, p.35-36). Portanto, para Hobsbawm, quando se fala em classe, num período anterior a era industrial, refere-se a um conceito puramente analítico, compreendido de forma distinta do termo na sua acepção moderna e industrial.

O que não quer dizer que, com o surgimento do capitalismo industrial, a sociedade se

viu dividida em duas classes antagônicas e homogêneas entre si a burguesia e o

9 Decca (1997) faz uma dura crítica a essa visão conciliadora da história, excluindo a luta de classes do processo histórico. Essa desqualificação dos conflitos inerentes à “instituição social”, baseia-se em uma compreensão de que o conceito de classe está vinculado a um passado historiográfico, obsoleto em sua análise, e que não compreende as manifestações sócio-culturais. Deixamos claro que em nosso trabalho, consideramos a luta de classes como elemento relevante no processo histórico, sem que para isso não nos debrucemos nas diversas nuances que a sociedade oferece quando seu passado é estudado.

36

proletariado. Nem mesmo Marx e Engels negligenciaram as complexidades das estratificações sociais, quando da formação das classes (HOBSBAWM, 2008). Outra referência importante para a compreensão do termo em Hobsbawm, se dá na

estrutura territorial em que a classe se forma. Para ele, a “[

moderna é maior do que no passado, mas é essencialmente ‘nacional’, e não global”, o que significa que a consciência de classe atua no interior de Estados, e não de modo aleatório e mundial” (HOBSBAWM, 2008, p. 41). Ainda assim, em qualquer âmbito, a consciência de classe exige uma organização formal; e nessa organização, é necessário que exista uma “ideologia de classe”, pois sem ela não poderíamos considerar as ações dos sujeitos como mais do que meras “práticas informais” (HOBSBAWM, 2008, p.46). Nesse sentido, o autor aponta a principal dificuldade em sociedades de orientação socialista: esses regimes não surgem de classes, mas de “combinações características de classe”, em que um movimento ou partido exerce a hegemonia (HOBSBAWM, 2008, p. 49). Partindo dessas composições conceituais, Hobsbawm inicia sua discussão aplicando estes conceitos a categorias de trabalhadores distintos. Em sua obra, são várias as categorias abordadas; aqui, elenco uma para poder discorrer melhor sobre suas ideias. Passemos a ler Hobsbawm em sua análise sobre os sapateiros ingleses. O olhar microscópico de Hobsbawm para com os sapateiros não é gratuito. Segundo o

escala da consciência de classe

]

autor, esta categoria sempre se distinguiu “pelo espírito irriquieto”; Nas palavras dele, quando “ocorre uma revolta” e da multidão surge um orador, “é um sapateiro que veio proferir um discurso ao povo” (HOBSBAWM, 2008, p. 149). São famosos na Inglaterra os sapateiros. No século XIX, são conhecidos por seu radicalismo político. A busca de Hobsbawm neste texto está em encontrar o nascimento deste radicalismo, e como essa categoria colaborou na formação de uma cultura operária, de uma organização de trabalhadores calcada nos interesses em comum. Quando dizemos que os sapateiros no século XIX tinha uma fama de radicalismo político, o dizemos por que aparentam isso em três sentidos: eles apresentam uma “reputação ligada à ação militante em movimentos de protesto social”; “uma reputação ligada a

movimentos políticos de esquerda”; e por fim, “[

uma reputação com o que poderíamos

chamar de ideólogos do povo” (HOBSBAWM, 2008, p. 150). Isso favorece o pensamento de que essa categoria esteve a frente em diversos momentos de enfrentamento político na Inglaterra, o que lhes conferiu a alcunha de radicais. Esse engajamento político-social transcendeu o espaço inglês. Hobsbawm (2008, p. 152) informa que mesmo no Brasil, mais

]

37

especificamente no Rio Grande do Sul, “[

pioneiramente, se registrou como anarquista, “[

notícias de ter participado do primeiro Congresso dos Trabalhadores de Curitiba, de inspiração anarquista, foi a Associação dos Sapateiros”. Essa característica é mais que interessante, ela aponta para uma distinção da categoria para as demais. E na Inglaterra, ela tem suas explicações. Não era raro encontrar na figura do sapateiro inglês a imagem de um trabalhador com aspirações minimamente intelectuais. Na opinião de Hobsbawm(2008), a vida solitária de um trabalhador desse gênero o inclinava a buscar meios de distração mais isolados. A literatura, ainda que de pouco alcance, era um desses meios. E o sapateiro adquirira essa reputação de “filósofo e político popular” antes mesmo da época industrial do capitalismo moderno (HOBSBAWM, 2008, p. 156). Outrossim, para além do isolamento social, típico do ofício do sapateiro, Hobsbawm considera elementos da cultura inglesa como essenciais para este intelectualismo. Em primeiro lugar, o exercício da profissão não exigia muita destreza física, tampouco capacidade motora de extrema força. Pelo contrário, os sapateiros, por sua ação exigir uma curvatura da coluna, geralmente ficavam corcundas em poucos anos de serviço. Para Hobsbawm (2008) essa característica física causava desprezo social para com os sapateiros. Uma das formas de readquirir esse prestígio perdido pelo físico, seria através do intelecto. Ademais, o “isolamento durante horas de trabalho” daria ao sapateiro a possibilidade de pensar e refletir sobre assuntos importantes a eles. Na teoria de Hobsbawm (2008) apresentada de modo brilhante, o radicalismo do sapateiro não se deve ao fato de uma resposta automática ao processo de industrialização; o movimento político liderado por esta categoria é anterior à era industrial do capitalismo moderno. Com a adesão deste sistema baseado no lucro e na produção mercantil excedente, o movimento se intensifica e ganha forma, a medida que se aglomera com outros grupos sociais insatisfeitos, no processo de formação de uma classe. Com uma Inglaterra em transformação do ponto de vista industrial, não é difícil imaginar um universo social polarizado. Hobsbawm (2008) sublinha que as novas classes trabalhadoras urbanas, e agora industriais, viviam num fenômeno de segregação, numa esfera oposta às classes média e alta. Dessa forma, não seria fácil atravessar de uma classe para outra, o que não pode se dizer que não ocorreu. Assim, este autor rememora as páginas de Thompson, o elogiando e, ao mesmo tempo, discordando. Para Hobsbawm, Thompson acertou no título (A formação da classe operária inglesa) mas errou na datação. Na opinião

]

foi um sapateiro italiano, em 1897” que,

]

enquanto o único sindicato que se têm

38

daquele, não é possível pensar que a formação da classe operária se encerrou em 1830, por conta dos cruzamentos entre classes e alterações ocorridas nesse limiar temporal. Mas mesmo assim, muitos elementos que iriam compor a classe operária inglesa são formados a partir da primeira fase da Revolução Industrial. No entanto, torna-se árdua a tarefa de localizar determinados padrões da cultura da classe operária até 1848. Isso porque eles passam a se delinear nos trinta anos subseqüentes, momento em que a classe operária passa a agir de modo mais homogêneo. Mesmo assim, somente a partir da década de 1870 que estes padrões se tornam mais permanentes (HOBSBAWM, 2008). E essas décadas de formação da classe operária foram importantes em

ensinaram aos trabalhadores que o capitalismo era

tornou-se dominante o padrão de uma

Grã-Bretanha industrial”, e terceiro, por que “[

classe operária”: a aristocracia operária (HOBSBAWM, 2008, p. 264). Quanto a última, cabe ressaltar que foi resultado de um sistema de valores liberal, de origem burguesa, que reconhecia níveis de operários. Esses operários se reconheciam como diferentes por suas especialidades. Cabe aqui ainda reconhecer que a consciência de classe foi resultado das tensões de classe durante a depressão de 1873-1896, bem como do nascimento de uma nova “baixa classe média”. Os estratos sociais foram se mesclando de modo pouco denso, criando um clima de atrito entre as estratificações. Traçando o perfil da cultura operária, Hobsbawm (2008, p. 271) disserta brevemente sobre às mulheres casadas. “Para a maioria delas, uma casa estreita numa rua estreita não era apenas o centro de suas vidas, mas o cenário de quase tudo após o casamento”. Com um círculo social reduzido, a mulher casada com um operário, não tinha uma vida social essencialmente ativa. Todavia sua atividade familiar era importante. Era considerada o centro da família. Administrava as despesas da casa e o dinheiro recebido em troca da força de trabalho do marido. Hobsbawm termina seu texto afirmando que a consciência de classe pode ser encontrada por toda a parte em que se olhe, durante esse processo de formação da classe operária inglesa. As ações dos trabalhadores britânicos revelavam, quase sempre, o conflito entre o “nós” e o “eles”. Todavia, uma noção de distinção do trabalho manual, um código moral baseado na solidariedade e auxílio mútuo e o desejo de lutar por tratamento igualitário são fatos que caracterizam a consciência de classe nessa Inglaterra de Revolução Industrial.

surgiu a estratificação característica da

três sentidos. Primeiro, porque “[

nacional e [

]

]

permanente”. Segundo, por que “[

]

]

39

2.4 O “ELES” E O “NÓS”: CLASSE EM SI, CLASSE PARA SI.

A formação de classe é, portanto, um processo mais ou menos demorado, cujos resultados podem ser verificados na medida em que concepções, ações e instituições coletivas, de classe, tornam-se uma realidade” (BATALHA, 2006, p. 163). Nesta afirmação, Cláudio Batalha resume o que, para Thompson (1987;2012) e para Hobsbawm (2008) e, em alguma medida, também para Marx , é o processo de formação de uma classe. Mas se ela se forma, ao longo de um determinado período, e é baseada em ações reais, que papel cumpre a consciência de classe nesse processo de formação? Quando o sociólogo Celso Frederico (1979, p.105-109) realizou seu trabalho sobre o estudo da consciência operária no Brasil, perguntou aos operários entrevistados, quais suas aspirações futuras, no âmbito do trabalho. Sobre as respostas, ele dividiu em três possibilidades gerais: uma “subordinação menos brutal nas relações de trabalho”; “melhor remuneração da força de trabalho” e “trabalhar por conta própria”. Ao analisar estas respostas e suas possibilidades, o sociólogo afirma que, no grupo estudado, ocorre um fenômeno que o filósofo húngaro Lukács (2003) chamou de “falsa” consciência. Se definimos que uma Classe se constitui na medida em que adquire uma Consciência de Classe, podemos fazer um adendo e dizer que, ao passo em que essa consciência não existe, podemos falar de uma Classe apenas analíticamente: ela não existe na práxis, mas pode ser analisada sob o viés teórico. É o que denominamos de Classe em si. Seu viés estritamente econômico a impossibilita de estabelecer conexões intra-classe, que unam seus interesses em comum. Mas no que concerne à existência de Classe num grupo, denominamos de Classe para si. Neste caso, o grupo se reconhece como Classe, mantém interesses comuns, e se identifica de acordo com aspectos culturais mútuos. No que se refere à conceituação de Lukács (2003) a Consciência de Classe não tem ligação alguma com a consciência individual (psicológica) dos agentes históricos. Esta consciência está atrelada a ações individuais específicas, mas que não configuram uma atividade de Classe, ou seja, algo que aconteça em prol desta Classe. Desse modo, sua definição se encontra no âmbito das massas. Quando atitudes tomadas por uma Classe são, assim feitas, de modo coletivo, isso é a existência da Consciência de Classe. Ainda sim, esta consciência pode ser verdadeira ou falsa. A “falsa” consciência de classe é aquela que não permite ao grupo envolvido a compreensão da totalidade do sistema em que ele está envolvido. No caso do proletariado,

40

relação dialética entre o interesse imediato e a influência objetiva

sobre a totalidade da sociedade” (LUKÁCS, 2003, p. 176). Noutros termos, a Consciência de Classe do proletariado passa por uma oscilação entre o objetivo central e mobilizador da Classe e interesses imediatos. Em sua visão, Lukács transmite a ideia de que, somente quando o proletariado estiver liberto dessas contradições internas (leia-se aqui a intervenção do modelo pequeno-burguês de sociedade), e somente quando ele tiver compreensão da totalidade da sociedade capitalista e seus aspectos econômicos e sociais mais complexos, é que a verdadeira consciência de classe existirá.

separação entre o

momento parcial e a totalidade em movimento”, melhor dizendo, “luta econômica e a luta política”. Desse modo, o sociólogo conclui que, em seu estudo, os trabalhadores não dão margem à compreensão de uma consciência verdadeira, mas sim, aquela em que os interesses imediatos (salário, melhor condição de vida, etc.), se sobrepõe ao interesse político maior (fim da sociedade de classes). Nosso intuito ao apresentar este debate é demonstrar que há uma divisão da consciência de classe na práxis. Não iremos, contudo, considerar que essa falsa consciência, existente ou não no caso brasileiro, foi benéfica ou maléfica ao movimento operário neste país. Mas apenas para definir que a classe em si, que exige uma análise puramente teórica, e a classe para si, não encerram o debate numa única visão da consciência de Classe. Definimos o conceito de Classe como um acontecimento datado e específico que tem uma formação mais ou menos demorada, ao longo da história, e que leva em conta alguns elementos: interesses em comum, que estabelecem duas frentes de embate ( o “nós” e o “eles”) que se contrapõem, aspectos culturais comuns entre indivíduos de uma classe, existência de organizações políticas de classe, uma relação comum com os meios de produção, e a consciência de classe(classe para si) não existindo esses elementos, exceto a relação com os meios de produção, chamemos de classe em si, numa ação analítica. Ainda sim, admitimos a existência de duas classes na sociedade: a Classe Burguesa e a Classe Trabalhadora. A primeira não será abordada neste estudo, por uma questão de recorte metodológico e objetivos do trabalho. A segunda é marcada no âmbito econômico por não obter os meios de produção, por basearem-se em relações sociais comuns, manifestações culturais específicas e experiências de classe que unam seus agentes em oposição à outra Classe. É comumente chamada de Classe Operária, termo que consideramos como sinônimo, haja vista que tem uma mesma função pragmática: a operação de meios de produção que lhes são alheios.

quando ocorre uma “[

]

Como explicou Frederico (1979, p. 33), trata-se de uma [

]

41

Outras possíveis classes não se aplicam ao modelo baseado num elemento histórico, e que leve em conta os aspectos definidos aqui. É muito comum estabelecer-se a confusão de transformar em sinônimos o conceito de Classe e uma Categoria profissional. Assim sendo, como trabalharemos neste estudo com algumas categorias específicas, cabe a nós frisarmos neste capítulo inicial a distinção básica destes.

Em primeiro lugar, a Categoria profissional não envolve trabalhadores de dois ou mais ramos do setor produtivo. Para exemplificar: ao considerarmos os trabalhadores do calçado, estaremos olhando apenas para uma categoria específica, dentre as várias que compõe a Classe Trabalhadora. E isso se consolida no fato de que Experiências de Classe, comuns em si, mas diferentes em graus de intensidade e modelos de ação, são necessárias para que a Classe Trabalhadora aconteça. Não seria possível encontrar apenas em uma categoria, por exemplo, os elementos constituintes de uma Classe, abordados e defendidos neste trabalho. Do mesmo modo, se não analisarmos com maior cuidado os processos de formação da Classe trabalhadora no Brasil, nos parecerá que ela teve início no século XX, e caminhou em direção ao final do século sem reformulação alguma. Este é um debate que precisa ser refletido aqui. A Classe não é um acontecimento irredutível ou irreversível. Pelo contrário, ela é passível de reversão de seu estado, na medida em que não é algo concreto, mas abstrato, baseado nas relações de produção, sociais e nas manifestações culturais dos agentes envolvidos. A própria reformulação da Classe pode ocorrer em todos os momentos. Sem citar longos exemplos aqui que serão melhor analisados no capítulo seguinte podemos pensar que ao longo do seu primeiro século de existência, a Classe Trabalhadora brasileira passou por diferentes momentos, em que teve sua organização política balizada sob égides distintas, de acordo com a movimentação da macropolítica e suas perspectivas de perpetuar na frente do movimento operário. Nesses casos específicos, a orientação política datada influenciava nas próprias entidades representativas destes trabalhadores. Assim, sabendo que a Classe tem características culturais e sociais muito específicas, que se diferem no tempo, elas também se diferem no espaço. Ao apresentar a formação da Classe Trabalhadora inglesa, não foi de nosso intuito apenas cotejar similitudes ou disparidades com a formação da Classe Trabalhadora no Brasil, que será mote das próximas páginas. Envolvemo-nos com esta narrativa por que ela é significativa para o estudo do conceito que norteia este estudo. A contribuição que Thompson concedeu ao estudo historiográfico ao analisar os trabalhadores britânicos do século XIX é refletida no referencial teórico que o trabalho aqui apresentado abarca.

42

Neste capítulo discutimos o conceito central deste estudo. Para que possamos aplicar a um debate de base empírica, precisamos, antes, de uma revisão sobre alguns pontos importantes que já foram debatidos na área da História dos trabalhadores brasileiros até então.

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3 BALANÇO: O TRABALHADOR NA HISTORIOGRAFIA

Este trabalho estaria incompleto se não contemplasse um rápido balanço sobre o que já foi escrito a respeito da Classe Trabalhadora no Brasil. De longe, se trata de uma revisão panorâmica, que abarcará algumas obras centrais no que concerne à literatura especializada. Outrossim, alguns pontos de discussão serão apresentados, possibilitando uma visão antecipada também do que abordaremos no capítulo seguinte. Sendo assim, iniciamos esta seção de nosso trabalho, comentando algumas questões que julgamos relevantes acerca da historiografia sobre a temática que envolva o período de 1888 até 1937 (Primeira República); no subcapítulo seguinte, traremos algumas discussões sobre o período que vai de 1937 até 1980 (englobando a ditadura civil-militar) e encerrando o capítulo com uma revisão sobre o que já foi escrito acerca dos trabalhadores de Novo Hamburgo. Mas antes de abrirmos o leque de discussões sobre a Classe Trabalhadora na Primeira República, há uma discussão que não encerraremos aqui, mas que merece atenção, já que está diretamente ligada à temática. Existe uma tendência, no Brasil, a se considerar o século XIX, ou o período pré-1888 (ano da abolição da escravidão no país) como a pré-história da Classe Operária. Batalha (1999) argumenta que, ainda que não possamos considerar os trabalhadores escravos como uma Classe para si (dotados de Consciência de Classe, e envolvidos por elementos que os constituam como uma Classe frente à sociedade), podemos considerá-los uma classe sob o prisma puramente econômico (Classe em si), o que nos permite pensar no século XIX como um período que inicia a formação do proletariado brasileiro. Escravos e homens livres conviviam nesse processo produtivo, e de uma forma ou outra, se entrelaçavam no tecido social estabelecido. Basta ver que, por volta de 1850, há uma estimativa de que houvesse no país, cerca de 50 indústrias, “número que se eleva para 200 em 1881 e atinge a marca de 600 em 1889” 10 . Já no período pós-abolição, Prado Júnior (1945) apresenta o número de 425 estabelecimentos fabris criados entre 1890 e 1895. A coexistência de trabalho livre e forçado gerou uma problemática que precisa ser estudada com maior ênfase. Ainda assim, “sem grande risco de erro, é possível afirmar que não há uma única obra publicada no Brasil sobre a Classe Operária no período anterior a 1888” 11 . O grande número

10 LUCA, T. R. Indústria e trabalho na História do Brasil. São Paulo: Contexto, 2001. (Coleção Repensando a História).

11 Idem, p.45.

44

de trabalhos publicados sobre a Classe Trabalhadora está centrado no período da Primeira República. Por isso, iniciaremos este capítulo englobando este ínterim, mas sem esquecer que há ainda um trabalho significativo a ser feito, a fim de desvelar os processos sociais que levaram à criação das associações mutualistas 12 do século XIX, e suas lentas transformações, que resultaram nas organizações de resistência e reivindicação criadas a partir da virada do século. Seria um erro pensar que, com a criação de uma nova ordem social iniciada em 1989 com a República - teríamos a formação do proletariado iniciada. É mais provável, e historiograficamente mais contundente, pensar que a formação do proletariado brasileiro tenha iniciado ainda no governo de d. Pedro II, como sugerem Petersen e Pedroso (2007). Mesmo se considerarmos o processo de industrialização tardio no Brasil, dispensar a produção manufaturada anterior à década de 1880 é negar a própria conceituação de Classe, que estabelecemos no capítulo passado. Desse modo, no intuito de demarcar nossa posição quanto ao processo de formação da Classe trabalhadora brasileira, iniciamos comentando mais profundamente o momento pelo qual a Classe passou no período republicano, por se tratar de um momento em que é intensamente estudado pela historiografia, e que já possui grandes obras. No que tange ao período monárquico, os estudos ainda são incipientes, portanto, não abordaremos do mesmo modo nesse trabalho. Vejamos um pouco sobre o que a historiografia brasileira tem produzido acerca do período da Primeira República.

3.1 A CLASSE TRABALHADORA NA PRIMEIRA REPÚBLICA (1889-1930)

O início do século XX é marcado por uma ampla mobilização trabalhadora, sentida em diversos setores da sociedade. Já na década de 1910, a regulamentação de mulheres e crianças era uma pauta reivindicatória do movimento operário. Ainda que nunca tenha se tornado, de fato, uma realidade no ambiente fabril, essas reivindicações foram atendidas no Código Sanitário de 1917 e no Código de Menores de 1927 (LUCA, 2001).

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Motivos para essas reivindicações não faltavam. A discrepância social vivida no Brasil durante seu período monárquico não fora alterada com a tomada do poder pelos republicanos. De acordo com Luca (2001, p.29) nos bairros operários, a infra-estrutura urbana, quando existente, era precária: faltava água e iluminação, as ruas não eram pavimentadas, o lixo e a lama acumulavam-se”. É de conhecimento geral na História da Primeira República, os problemas sociais pelos quais o país passou. O que a Constituição apregoava como incorruptível se desfez como num sopro de vento na poeira. O discurso igualitário que a nova ordem política trazia não se consumava na prática, o que gerou diversos conflitos sociais. No campo do movimento operário, era de se esperar que houvesse uma organização mais relevante e de caráter reivindicatório. Esse movimento de caráter reivindicatório tinha como superestrutura uma tendência política hegemônica, de acordo com determinados períodos. Na virada do século XIX para o XX, por exemplo, o anarquismo se mostrou dominante no movimento operário. No caso brasileiro, uma corrente oriunda do anarquismo, mas que passou a ser uma corrente autônoma - o anarcossindicalismo (que Batalha (2006) caracteriza como uma fusão de elementos do anarquismo [ação direta e o federalismo] e do marxismo [luta de classes])- lastreou a organização operária durante quase toda a Primeira República. A greve geral era, para os anarcossindicalistas, a maior arma revolucionária; e desse modo, era algo recorrente nos momentos de acirramento reivindicatório (LUCA, 2001). Os anarquistas apostaram na imprensa de modo intenso. Foi ela a responsável pela difusão de idéias. Através de jornais operários, os anarquistas podiam dialogar com trabalhadores e adeptos ao movimento operário de forma direta. Ainda que de forma menos intensa e mais concentrada na região sudeste do país, o teatro também foi utilizado para divulgar as ideias libertárias dos anarquistas. Os espetáculos eram realizados em locais improvisados, com textos solidamente politizados (LUCA, 2001). A partir de 1906, os trabalhadores passaram a realizar congressos para definir e consolidar reivindicações e bandeiras de luta. Além do primeiro, outros Congressos Operários (1913 e 1920) tiveram a liderança dos anarquistas, mas contavam com a presença de outra tendência política que disputava a hegemonia no movimento operário: os socialistas(LUCA,2001). Estes não tiveram muita adesão por parte dos trabalhadores brasileiros. Desde o final do século XIX os socialistas buscavam se introduzir no movimento operário, mas sempre com pouco êxito. Uma das possíveis razões para a preferência dos

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trabalhadores pelo anarcossindicalismo é a questão da conjuntura política brasileira na Primeira República. Batalha (1992) lembra que a II Internacional 13 estabelecera a ordem de que os socialistas iriam disputar o poder através do pleito político oficial vigente em seus paises. O que no Brasil do início do século, com a política nacional e regional dominada pelos latifundiários e coronéis, seria quase impossível. Para Batalha (1992) essa impossibilidade foi compreendida pelos trabalhadores, que preferiram aderir ao movimento que tinha como perfil a intensidade das ações. A exclusão social e política a qual a Classe Trabalhadora foi submetida pelo poder dos grandes mandatários na Primeira República, foi respondida, em parte, pelo mundo associativo que fora criado (BATALHA, 2006). Mas entre os socialistas também havia diferenças importantes de serem frisadas. Havia os reformistas, que dispensavam o conteúdo revolucionário em prol de mudanças pragmáticas no cotidiano do proletariado. Já os revolucionários, de outro lado, acreditavam que não havia possibilidade de emancipação econômica, se continuassem seguindo o modelo de ordem burguesa (LUCA, 2001). Nessa linha de pensamento político é que foi formado o Partido Socialista Brasileiro (1902), que logo se destacou pela jornal Avanti!, periódico que servia de órgão oficial para a difusão de ideias políticas para os trabalhadores. As disputas de hegemonia política podem ser sentidas também no âmbito das greves. Entre 1905 e 1908, há um crescente no número de greves que é significativo para as organizações. Essa conjuntura sofre uma alteração com a criação do Partido Comunista no Brasil (1922). A característica que distinguia este das outras organizações, é que o PCB defendia uma centralização partidária forte e revolucionária. O Bloco Operário Camponês (BOC) também tem certa relevância política no final da Primeira República, responsável por uma partidarização da classe trabalhadora, tentando abarcar o espaço rural no debate político 14 . Todas essas correntes davam conta de organizar os trabalhadores em sindicatos, ligas e uniões operárias. Mas, concomitante a isso, as antigas associações beneficientes e de socorro mútuos (mutualistas), ainda permaneciam no cenário brasileiro, pelo menos nos primeiros 30

13 A II Internacional foi uma união de diversos países em torno da organização de seus partidos comunistas, e suas diretrizes para atuação em seus territórios. Iniciada em 1889, a II Internacional durou até meados de 1914. Ver HOBSBAWM, E. J. História do marxismo: o marxismo na época da Segunda Internacional. 3ª ed. São Paulo SP: Paz e Terra, 1983. (v.2)

14 Ver: SKIDMORE, T.E. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco. 1ª ed. Rio de Janeiro - RJ: Editora Saga, 1969.

47

anos do século XX. Essas entidades não eram reivindicatórias ou revolucionárias, mas tinham a função de assegurar tratamento médico, auxílios para doentes, vítimas de acidentes de trabalhos, etc. As associações mutuais eram organizadas, muitas vezes, com auxílio patronal, dentro da própria fábrica (LUCA, 2001). Mas nem só de vitórias viveu o movimento operário na Primeira República. De modo geral, o patronato podia contar com a intervenção policial sempre que lhe aprouvesse. Esse desejo dos industriais, quase sempre era intensificado nos períodos de greves. Já no que tange á legislação, em 1907, o senador Adolfo Gordo, através do projeto que virou uma lei com seu nome, autorizava a expulsão de estrangeiros que pudessem ser suspeitos de colocar em risco a segurança nacional 15 (LUCA, 2001). Não restam dúvidas de que havia uma onda de xenofobia que colocava nos imigrantes, a “culpa” pela mobilização sindical. Havia, no início do século uma onda de imigração que alterou a própria estrutura da cidade de São Paulo, por exemplo, paralela ao desenvolvimento urbano e rural (CARONE, 2001). A verdade é que a maioria dos imigrantes provinha de regiões rurais, não tendo mantido contato direto como o movimento sindical em seus países de origem. É claro que não se pode descartar a ideia de qualquer envolvimento com a política, mas em muitos casos, as probabilidades eram mínimas. Muitos desses imigrantes, por exemplo, chegaram ao Brasil por motivos políticos, e não econômicos (BATALHA, 2006). A lei de Adolfo Gordo, claramente, tinha relação com a vinculação estabelecida no senso comum entre italianos (e por vezes, alemães) com o movimento grevista e de cunho reivindicatório. O mesmo senador, em 1921, conseguira emplacar uma nova lei, dessa vez, abrindo margem largamente para uma caçada aos anarquistas 16 . A intensa campanha contra a movimentação de trabalhadores gerou uma queda significativa no número de greves gerais a partir de 1908. O governo brasileiro reprimia greves mais do que buscava acabar com as organizações, propriamente ditas. As greves se

15 Ao analisar a formação do proletariado paulista, Canêdo(1997) sugere que a classe trabalhadora seria “estrangeira”; ao menos no olhar da população. Batalha(2000) comenta que as diferenças étnicas constituíam um problema quanto à classe trabalhadora. Os desdobramentos dos fatores étnicos costumam figurar como alguns dos problemas na organização da classe trabalhadora no Brasil. É claro que não se pode ignorar os números: em 1920 mais de um milhão e meio da população do país era composta por estrangeiros, de um total de 29 milhões de habitantes (CARONE, 2001).

16 Ainda que leis tenham sido criadas para legitimar a desmobilização de trabalhadores (já que na práxis, a desmobilização pela força do Estado aconteceria de qualquer modo), algumas leis importantes foram criadas ainda nos primeiro 30 anos do século XX, para a garantia de direitos dos trabalhadores; a lei de Acidentes de Trabalho(1919); Lei de Férias(1925); e o já citado Código de Menores(1927)(LUCA, p. 2011). Essas leis são fruto da ampla mobilização iniciada em 1917, duramente reprimida, mas que gerou desdobramentos positivos para o operariado.

48

tornavam sinônimo de violência, por conta da repressão. Segundo Hall & Pinheiro (1985,

p.102), um cônsul italiano definiu a polícia como “violenta e agressiva, o que não é

surpreendente quando se considera que seu chefe, e em geral pessoas bem cultas e

tranqüilas, aqui distinguem com dificuldade entre greves e revoltas”. Para estes autores, esse

auto nível de violência está diretamente relacionado à inabilidade da elite brasileira em

assegurar sua hegemonia.

O reaparecimento das greves só viria a acontecer em massa, em 1917, e duraria até

meados de 1920, numa relação clara com o processo da Grande Guerra que ocorria na Europa.

À indústria brasileira foi dada a perspectiva de crescimento, por que a indústria europeia já

não atendia as demandas. As maiores mobilizações operárias da Primeira República

aconteceram nesse contexto, com vários setores sociais apoiando a causa dos trabalhadores

urbanos (LUCA, 2001). Ainda assim, em setembro de 1917 a polícia reforçou seu aparato e

começou a fechar sindicatos e iniciar uma ampla campanha de prisões e deportações

(HALL;PINHEIRO, 1985).

A partir de 1922, com o estado de sítio do governo de Artur Bernardes envolvido

num embate com os tenentistas o movimento sindical brasileiro perde forças, retornando

com veemência somente ao final da década de 1920, e início de 1930.

A história dos trabalhadores durante o primeiro período da república brasileira é cheia

de narrativas que poderiam ocupar todo o espaço deste trabalho. Procuramos, em nosso

estudo, dar conta de pincelar algumas questões centrais no âmbito político e social, sem abrir

margem para muitas problematizações mais aprofundadas. Desse modo, num rápido balanço,

podemos compreender os processos pelos quais passaram os trabalhadores, até que o país

chegasse ao Estado Novo, foco do próximo subcapítulo.

3.2 O BRASIL E A CLASSE TRABALHADORA EM NOVO ESTADO (1930-

1937).

Nem os operários nem os patrões tem o direito, por mais justos que

sejam os seus interesses e reivindicações, de perder de vista a própria sorte do país, que é esta e que está em jogo e deve preocupar as

atenções de todos nós(

É tempo de substituirmos o velho negativo

conceito de luta de classes pelo conceito novo, construtor orgânico, de colaboração de classes.

)

Lindolfo Collor, Ministro do Trabalho do Governo Provisório de Getúlio Vargas 17

17 Extraído de Hall & Pinheiro (1985, p.107).

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O discurso do Ministro do Trabalho, Indústria e Comércio, em dezembro de 1930, dava o tom sobre a postura que seria tomada no primeiro governo de Getúlio Vargas. A troca do conceito de “luta de classes” por “colaboração de classes” trazia a ideia de que, ainda que fosse importante para a Classe, a luta por um Brasil melhor e mais avançado era superior. E de fato, o discurso da conciliação permeou os primeiros 15 anos de governo de Getúlio. A harmonização e proteção de todas as classes, foi uma concepção que acompanhou o governo Vargas, entrando no Estado Novo (1937-45) (GOMES, 2005). Mas para que isso acontecesse, era necessário que uma nova estrutura de sindicatos fosse criada, e que o modelo de reivindicação anarcossindicalista fosse substituído por outro mais brando. No campo da legislação, por exemplo, ficou muito claro que o objetivo central de Vargas era a conciliação. Não é à toa, que mesmo com a organização dos sindicatos e o olhar voltado às questões da Classe Trabalhadora, o primordial direito à greve nunca foi pauta de discussão do governo. O governo de Vargas já iniciava apresentando propostas de legislação no setor social 18 . Gomes (2005, p.23) chega a afirmar que foi somente “a partir dos anos pós-30( ) que a classe trabalhadora foi incorporada como ator relevante e até mesmo central ao cenário da política nacional”. Apesar disso, considera-se que algumas propostas já vinham sendo traçadas antes de 1930 19 , mas que não se comparam à velocidade com que essa pasta foi tratada na gerência varguista. Por exemplo, em março de 1931 entrou em vigor o decreto que regulamentava a sindicalização, tanto do patronal quanto do proletariado. Outras leis importantes foram criadas, ainda no Estado Novo (1937-45), como a lei do Salário Mínimo (1940), a criação Justiça do Trabalho (1941) e a Consolidação das Leis do Trabalho CLT (1943). Em 1940

18 Muito se tem discutido na historiografia concernente ao período varguista, no que concerne aos processos políticos, sob o viés macrossocial. O que nos interessa aqui, e entendemos como relevante no debate sobre a história do operariado, é o fato de como essas mudanças na legislação tiveram impacto na práxis, como experiência de classe. Sobre isso, ver: FORTES, Alexandre. Nós do quarto distrito: a classe trabalhadora porto-alegrense e a Era Vargas. Caxias do Sul RS: Educs; Rio de Janeiro: Garamond, 2004. (Coleção ANPUH/RS).

19 D’Araújo(2005) informa que na área do trabalho, desde 1926 o poder público já mostrava um pouco de atenção, com a criação do Conselho Nacional do Trabalho. A historiadora ainda reitera que o discurso de que todas as legislações trabalhistas iniciaram no governo Vargas, é fruto de uma historiografia “estadonovista”, e que o trabalho foi pauta de várias políticas públicas pré-1930. Esse ponto de vista pode ser levado em consideração; contudo, nossa posição considera que o governo Vargas foi palco de importantes conquistas e que não podemos considerar as leis anteriores a esse período como práticas de uma reforma no âmbito do trabalho urbano.

50

foi instituído também o imposto sindical. Essa medida dava aos sindicatos ligados ao Ministério do Trabalho uma liberdade econômica importante.

O imposto consistia no seguinte: trabalhadores sindicalizados pagariam o imposto

sindical (equivalente a um dia de trabalho anual) (LUCA,2001); depois de descobrir que o imposto não fizera sucesso entre os trabalhadores, o governo conseguiu mais adeptos ao lançar uma emenda, em que dizia que só teriam acesso aos benefícios assistencialistas, aqueles que fossem sindicalizados. Mas essas medidas legislativas podavam a organização de trabalhadores por outras instituições. A proposta aprovada era de um sindicato único por categoria que não tivesse

vinculação religiosa 20 .

A Igreja Católica vinha nutrindo um desejo de organizar núcleos operários sob sua

égide desde a Primeira República. Foi no Círculo Operário, organização surgida em Pelotas (1932), que sua participação política se tornou um pouco mais relevante no cenário do movimento de trabalhadores, mas ainda sem cooptar a maioria da classe. Em Porto Alegre, por exemplo, o Círculo Operário não teve adesão tão relevante (FORTES, 2004) quanto em

Novo Hamburgo e Pelotas (SAUL,1983). Gomes (2005), refletindo sobre essa movimentação da Igreja, levanta a hipótese de que ela foi gerada a partir de um hiato, um silêncio do governo varguista entre 1935 e 1942, com relação às propostas sindicais. O Estado apostou no anticomunismo católico como meio de chegar aos trabalhadores. Mesmo assim o Círculo não conseguiu dar vazão às necessidades reais de trabalhadores, que viam nessa organização, uma proposta assistencialista demais e com poucos apelos sensibilizadores.

A Lei de Segurança Nacional, conhecida por ter sido apressada pelo episódio da

Levante Comunista de 1935, acirrava a luta do governo contra elementos subversivos da sociedade. Nesse ano, os modelos sindicais voltados à esquerda e os oficiais, aparelhados pelo MTIC, estavam muito bem definidos (GOMES, 2005). Os sindicatos que não se adequavam ao modelo sindical vigente em lei foram fechados, seus líderes presos, e o resultado foi que, ainda em 1937, já não havia resistência de sindicatos com essa característica (LUCA, 2011). No Rio Grande do Sul, a FORGS (Federação Operária do Rio Grande do Sul), criada em 1906, foi proibida de continuar suas atividades, por atuar como organização central nas grandes greves de 1934 e 35. A ANL (Aliança Nacional Libertadora) ainda persistia em atuar

20 Na constituição de 1934, com a nova lei de sindicalização, a pluraridade sindical não era impedida. Entretanto, o decreto-lei de nº 24.694, votado dias antes da elaboração final do texto constitucional, tornava a pluraridade e autonomia sindical inviáveis. Ver Gomes(2005).

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juridicamente para manter a FORGS na legalidade, mas com a Lei de Segurança Nacional, ficou impossível (PETERSEN; PEDROSO, 2007). No Estado Novo, o cidadão era o trabalhador urbano. O homem da ”nova comunidade nacional” (GOMES, 2005, p.209). A forma como o governo dialogava com esse trabalhador, nos permite ver o quanto a política de Getúlio se baseava na harmonia e na recuperação de

valores importantes para a classe trabalhadora. Pode-se dizer que Vargas, no Estado Novo, leu

o passado das organizações da classe operária, e se antecipou, apresentando propostas que o colocaram na posição de “pai dos pobres”. Cabe aqui lembrar que após a CLT, os sindicatos passam a ter um novo papel na sociedade, sendo observados pelos trabalhadores sob outro viés:

Com a consolidação da legislação trabalhista e o surgimento da estrutura previdenciária, modifica-se também o papel do sindicato, substituindo-se a ideia de uma forma de organização entre os trabalhadores para a de uma instituição, que age como mediadora entre esses e o acesso a direitos. Por outro lado, após o Estado Novo, os sindicatos acabariam por concentrar o atendimento à parcela significativa das necessidades operárias, o que legitimou uma instituição definida pelo seu caráter de classe como canal de acesso a esses benefícios(FORTES, 2004, p.267).

Não se trata aqui de classificar a classe trabalhadora por uma junção de operários amorfos, esperando migalhas do governo, como próprio Fortes argumenta. Esse pensamento que deslegitima a autonomia do movimento de trabalhadores no país, é oriundo de uma

historiografia que, até 1970, difundia a tese de que todos as glórias e dificuldades pelas quais

o país passou, foram atribuídas ao bloco empresarial burguês (DINIZ, 2005). Ainda por cima,

é possível pensar nos canais do cotidiano, que possibilitavam aos trabalhadores lutarem por melhorias nos seus direitos.

No âmbito da política de industrialização, o governo precisava criar um mercado interno (LUCA, 2001, p.44), associando a própria industrialização com a urbanização do país.

E esse movimento não foi organizado de uma hora para outra, tanto que, somente em 1970, a

maioria da população brasileira estava localizada na área urbana. Estas transformações devem ser associadas ao programa econômico do Estado Novo. O processo de expansão industrial (ainda que singelo nesse primeiro momento) criou uma perspectiva de mobilidade social restrita, mas existente (FORTES, 2004). De modo geral, é possível caracterizar o Estado Novo como um divisor de águas no que tange à Classe Trabalhadora. Por um lado, o proletariado perdeu direitos, que lhes foram tolhidos durante o governo varguista; mas por outro, teve muitas conquistas, apresentadas no discurso oficial como dádivas concedidas pelo estadista em questão. Pode ser considerado

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também o fato de que o governo não poderia ser visto como uma mão fraca, no controle social. “As leis sociais” não poderiam aparecer “aos olhos da burguesia industrial como uma demonstração clara da fraqueza do Estado frente à luta de classes” (DECCA, 1997, p.176). Fato é que depois de 1945, a classe trabalhadora passa por uma alteração, um amadurecimento que tem impactos no cotidiano social e na política nacional.

3.3.A CLASSE TRABALHADORA ENTRE 1945 E 1979

Ainda antes da queda de Getúlio, em 1945, a Classe Trabalhadora se mostrava mais forte e expressiva. Com a queda no padrão de vida dos trabalhadores, e a dificuldade de pagamentos de salários, durante a Guerra Mundial (1939-1945), os trabalhadores livres se organizaram com maior veemência, e solidificaram um movimento à parte dos sindicatos pelegos termo designado aos sindicatos ligados à estrutura do MTIC. Desse modo, era conquistado na prática “o direito à greve que lhes fora tirado durante o Estado Novo (LUCA, 2001, p.67). O Partido Comunista, em 1945 voltou à legalidade, e já conseguiu, na primeira eleição, eleger representantes legislativos estaduais. Entre 1945 até 1964, localizam-se 180 greves no Rio Grande do Sul, ou seja, um quinto do número total de greves no Brasil, no mesmo período (PETERSEN;PEDROSO,

2007).

A partir do governo de Juscelino Kubitschek, e seu Programa de Metas, a industrialização, e o que denominamos de política desenvolvimentista, começam a tomar forma no Brasil. Para se ter uma ideia, entre 1947 e 1955, o volume de investimentos no exterior girava em uma média de 17,6 milhões de dólares anuais; valor que passou para 106 milhões anuais no governo JK (LUCA, 2001). Esse momento marca o fim da era de nacionalismo, pensada no governo Vargas, e claramente, tem impacto na classe trabalhadora. O crescimento industrial, de 1945 até 1960 caracteriza também um crescimento urbano. É claro que esse crescimento demográfico nas cidades e nas indústrias geraram impactos negativos também. Quando o crescimento da indústria diminuiu, em 1962, problemas econômicos tomaram conta do país. A reivindicação dos trabalhadores se pautava no fato de que, devido às novas tecnologias, a produção industrial era ampliada, com o mesmo número de horas trabalhadas. Na visão dos trabalhadores, a burguesia industrial lucrava mais, enquanto a classe operária não via os resultados dessa mudança tecnológica (LUCA,2001).

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Entre 1961 e 1964, houve um grande número de ações da Classe Trabalhadora. Luca (2001) afirma que foi o momento de maior mobilização operária conhecida no Brasil de até então. A partir de 1964, com o golpe civil-militar deflagrado no país, as relações de produção sofreriam alterações. O diálogo entre patrões e operários fora, sindicalmente, abolido em 1965. A administração da ditadura desarticulou as organizações sindicais e inseriu, no lugar, membros ligados ao próprio poder, a fim de que a movimentação sindical se restringisse à programas de assistência social e orientação jurídica (SANDOVAL, 1994). As greves foram proibidas já na administração Castelo Branco pelo decreto 4.330. Nesse momento, a fim de desestimular a movimentação grevista, o governo do Estado de Exceção introduziu um artifício que intimidaria os trabalhadores. Através do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), criado em 1966, a demissão sem justa causa fora facilitada; com uma estabilidade contratual debilitada, os trabalhadores encontravam maiores dificuldades para se manifestar, visto que poderiam ser reprimidos por isso com demissão (PETERSEN;PEDROSO, 2007). Não havia mais negociações sobre aumento salarial. O reajuste do salário era determinado por índices oficiais, manipulados pela ditadura. Petersen & Pedroso (2007) argumentam que quando a informação de que o Banco Mundial contestava os índices oficiais apresentados pelo DIEESE, os trabalhadores iniciaram uma movimentação, exigindo o reajuste real. Esse foi um dos pontos deflagradores da retomada da movimentação grevista,

pós-1978.

O custo de vida do trabalhador, que no final dos anos 1950 já era baixo, diminuiu ainda mais com a ditadura civil-militar. Se em 1959, para comprar uma cesta básica de alimentação o trabalhador precisava de pouco mais de uma semana de trabalho, em 1979, eram necessárias três semanas e meia (LUCA,2001, p.84). Desse modo, é possível pensar que ao trabalhador médio não era dada a possibilidade de usufruir de sua renda para outro fim, além da própria alimentação. Para driblar esse problema, a maioria dos trabalhadores incentivava o ingresso de familiares. Esse movimento aumentou a participação feminina e infantil na indústria, e consequentemente, um crescimento na evasão escolar. Durante o período em que os militares estavam no poder, os trabalhadores perderam o ritmo de conquistas de direitos. Um dos desdobramentos disso é o fato de que em 1975, 67% da população brasileira fosse considerada subnutrida. No âmbito econômico global, o Brasil teve um crescimento exponencial. Como veremos maior cuidado no próximo capítulo, a economia de cunho desenvolvimentista adotada pelos militares, fez com que o país ocupasse a posição de 8º lugar entre as economias

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capitalistas, no início dos anos 1970. O discurso proferido pelo governo da ditadura civil- militar tendia a esconder numa sorrelfa as mais problemáticas questões sociais. O que veiculava na mídia comandada pelo governo, era que o país crescia exponencialmente a cada ano, num movimento milagroso. Esse “milagre econômico” era apenas macroestrutural, já que essa posição pouco significava aos trabalhadores que não viam a riqueza do país em sua plena distribuição.

TABELA 1: DISTRIBUIÇÃO DE RENDA NO BRASIL (19601976)

População Remunerada

1960

1970

1976

50% mais pobres

17,71

14,91

11,80

30% seguintes

27,92

22,85

21,10

15% seguintes

26,66

27,38

28,00

5% mais ricos

27,69

34,86

39,00

Total

100,00

100,00

100,00

Fonte: LUCA (2001, p.91).

Se observarmos a tabela 1, veremos que a discrepância na distribuição de renda aumenta em pouco mais de 15 anos no país. A remuneração referente à parcela mais rica do Brasil sobe de 27,69% para 39%, enquanto a remuneração da parcela mais pobre do país sofre uma queda de 17,71% para 11,8%. Os resultados são sentidos nas mobilizações de trabalhadores que começam a serem notadas ao final da década de 1970.

O fato de que a ditadura reprimia a movimentação operária, não quer dizer que houve

estancamento na abertura de sindicatos. Na contagem de Petersen & Pedroso(2007), 130 sindicatos foram criados no Rio Grande do Sul, somente nos anos 1970.

A partir de 1978, grandes paralizações na região do ABC paulista (Santo André, São

Bernardo e São Caetano) tornaram-se recorrentes, e o movimento grevista retomou sua relevância no cenário da luta de classes, a ponto de, em 1979, ser criado um partido no seio da classe trabalhadora, o Partido dos Trabalhadores (PT).

3.4. O ESTUDO DA CLASSE EM NOVO HAMBURGO

A escassez de trabalhos que enfoquem a classe operária na cidade de Novo Hamburgo,

não nos permite estabelecer uma vasta revisão bibliográfica sobre o assunto. Portanto,

55

apresentamos brevemente algumas notas importantes, retiradas do estudo clássico de Saul

(1983).

A cidade de Novo Hamburgo nasce em 5 de abril de 1927. Antes dessa data, o

município pertencia como distrito à cidade vizinha, São Leopoldo. A história industrial de

Novo Hamburgo, tem seu prefácio, grosso modo, no final do século XIX. Pedro Adams Filho

foi o pioneiro no ramo industrial da cidade, estabelecendo a primeira fábrica de calçados da

localidade.

No entanto, a partir do final da década de 1920, a classe trabalhadora em Novo

Hamburgo já começava a se mostrar insatisfeita com algumas questões. Logo nos anos

iniciais de vida da cidade, Augusto Edmundo Lichler criara a Liga Operária Hamburguesa,

movimento de ordem reivindicatória, cujo qual, “pouco se sabe, especialmente [devido] às

perseguições políticas e policiais” (SAUL, 1983, p.38). Outra entidade criada nessa época, foi

a União Operária Beneficiente, fundada em 1932. Era uma espécie de entidade mutualista,

com aspirações que a colocam no patamar de antecessora do primeiro sindicato da cidade.

De acordo com Saul (1983), a primeira greve da qual se tem informações oficiais em

Novo Hamburgo, aconteceu em 1930, na empresa Adams Filho & Cia. A solução encontrada

pelos patrões para conter a movimentação foi o uso de força policial.

A tabela abaixo apresenta a os sindicatos existentes em Novo Hamburgo, de acordo

com um levantamento feito por Saul (1983, p.81).

TABELA 2: SINDICATOS EM NOVO HAMBURGO (19331964)

NOME COMPLETO DO SINDICATO

DATA DE FUNDAÇÃO

01

Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Novo Hamburgo

20.01.1933

02

Sindicato dos trabalhadores na Indústria de Calçados de Novo Hamburgo

21.02.1933

03

Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Novo Hamburgo

23.01.1937

04

Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Novo Hamburgo

27.10.1946

05

Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Artefatos de Couro de Novo Hamburgo

16.10.1953

06

Sindicato dos Empregados no Comércio de Novo Hamburgo

21.08.1959

Fonte:Saul (1983, p.81).

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Os sindicatos em Novo Hamburgo, de acordo com Saul (1983), mantinham uma postura mais amena, buscando a conciliação e a resolução dos problemas via judicial. O que não quer dizer que durante o período pós-Estado Novo, não tenham ocorrido paralizações. O mesmo autor contabilizou o número de 10 greves ocorridas entre 1945 e 1964. Se considerarmos que em quase 20 anos ocorreram apenas 10 greves, veremos que o número de paralizações com intuito reivindicatório é muito pequeno. No entanto, ele permite quebrar o mito da harmonização que a cidade de Novo Hamburgo, durante muito tempo, tentou solidificar. No que concerne à história da classe operária hamburguense até o 1964, o trabalho de Saul (1983) é pioneiro e único. No ínterim que aqui estudamos, há um vácuo historiográfico. Portanto, ao invés de buscar desvelar essa história que hoje se apresenta como obscura para quem tenta compreender a classe operária, buscamos apresentar possibilidades que permitam ao historiador, reconstituir alguns aspectos que caracterizavam a classe nos anos de 1970.

É importante ressaltar que o que Saul realiza em seu estudo sobre a classe operária é,

em alguma medida, próximo ao que buscamos apresentar como possibilidade de pesquisa, aplicado a outro ínterim. Ou seja, não basta estudar o proletariado hamburguense sem inseri- lo num contexto nacional de ações culturais e de resistência que dialogam entre seus interlocutores, sejam eles de todas as regiões do país. É claro que as tendências regionais de manifestações culturais e de relações sociais devem ter interferido para que a classe fosse formada com aspectos próprios de determinados estados ou localidades municipais, mas ainda assim, há um modelo mais ou menos comum a todas as formatações de classe operária no Brasil.

É nesse sentido que buscamos escrever o capítulo seguinte. Quando nos dispomos a

procurar elementos que nos possibilitem estudar a história do operariado de Novo Hamburgo, não o fizemos unicamente com o intuito de colaborar com a História Local, mas sim, de inserir nossas colaborações num âmbito nacional do estudo. Sendo assim, o próximo capítulo abarcará algumas possibilidades de estudo sobre a Classe operária nesta localidade e como é possível articular estes estudos com trabalhos nacionais, no intuito de colaborar com a História Operária brasileira.

57

4 POSSIBILIDADES DE ESTUDO EM NOVO HAMBURGO

Quando nos debruçamos pela primeira vez sobre essa temática e nos dedicamos a levantar bibliografias concernentes à história do operariado hamburguense, nos espantou, logo de início, a escassez de trabalhos nesta área. Alguns poucos trabalhos, isolados, dão conta de perspectivas que enfoquem o trabalhador dessa região 21 . Entendemos que Novo Hamburgo deveria se encontrar no centro do debate sobre o proletariado gaúcho, junto de outras grandes cidades do estado. Portanto, no capítulo final deste estudo, buscamos apresentar algumas fontes de pesquisa que demonstrem a necessidade e a plausibilidade de um trabalho de maior fôlego, que retome a produção historiográfica em Novo Hamburgo voltada às questões do seu operariado. Iniciamos nosso capítulo, demonstrando a questão de dados quantitativos concernentes a esta região, no período estudado aqui. É importante frisar que, nesse primeiro momento, apresentamos os dados referentes aos trabalhadores do calçado desta cidade 22 . Sabemos que a Classe Operária não é um acontecimento que reúne apenas trabalhadores de uma única Categoria profissional, e por isso o friso. O que propomos aqui é analisar, primeiramente, os dados demográficos sobre os trabalhadores do calçado na região, pelo fato de que estes são relevantes em termos quantitativos e qualitativos. Ou seja, a alteração no número de trabalhadores do calçado pode ter influenciado na alteração da própria estrutura social da cidade, inflando o município e dando margem para relações de trabalho mais complexas, o que gerou uma mudança nas relações que formulam a Classe. Posteriormente, analisaremos a entrevista de dois trabalhadores um da Categoria do calçado, e outro da Categoria da metalurgia. Consideramos essas entrevistas de importância ímpar, por serem as vozes daqueles que vivenciaram as experiências de classe em sua intensidade pragmática. E por fim, apresentamos informações sobre os sindicatos no Rio Grande do Sul, a fim de problematizar as possibilidades de estudos baseados nessas informações.

21 Saul (1983) abre um leque de discussões sobre a formação da classe trabalhadora em Novo Hamburgo. Sem dúvida é um dos trabalhos de maior relevância desta região. Ainda sobre os trabalhadores, um importante estudo foi realizado com o enfoque na relação dos sindicatos e a educação, por Tito (2005).

22 Como foi comentado no capítulo inicial deste trabalho, não é possível considerar a Classe Operária como uma constituição de uma única Categoria. Escolhemos como objeto de análise a Categoria dos Sapateiros para este trabalho, e abordamos de modo geral a indústria de transformação em Novo Hamburgo, considerando o setor coureiro-calçadista e a metalurgia. Outras Categorias, como bancários e construção civil, também constituem uma parcela significativa da Classe, mas não serão abordados neste estudo, por uma questão de recorte metodológico.

58

4.1. LEVANTAMENTO QUANTITATIVO.

Do período em que Novo Hamburgo nasceu, em 5 de abril de 1927 até os dias atuais, a cidade passou por constantes transformações no setor industrial. A intensa campanha de industrialização, iniciada no governo Vargas (1930-45) e continuada, com maior densidade no governo JK (1955-60), teve impactos na cidade. O desenvolvimentismo industrial foi um forte elemento do governo de Juscelino. No período que estudamos aqui (1969-1979), as ideias-força do governo nacional também foram calcadas no desenvolvimentismo interno de cunho industrial (MARTINS, 2011). Esse plano macro, de intensificar a industrialização e o desenvolvimento interno, fez com que pólos produtores de diferentes elementos da indústria de transformação projetassem um aumento em sua produção. O caso de Novo Hamburgo é um exemplo consistente. A partir do final da década de 1960, a ditadura civil-militar 23 iniciou um processo de expansão da política de exportação, que favoreceu a exportação do calçado nesta região. Esse movimento é denominado de boom do calçado. Como nos mostrou Martins (2011, p.100), em 1968, a cidade de Novo Hamburgo, sozinha, foi responsável pela produção de 23.655.252 pares de calçado. Dez anos depois, esse número sobe para 86.576.000, chegando a 100.139.000 em 1979. É um aumento mais que significativo. Esta produção de calçado colocou Novo Hamburgo no patamar de Capital Nacional do Calçado. O aumento de produção deste produto gerou uma transformação na organização social da cidade, algo que, ainda, não foi exaustivamente estudado, e que merece atenção. Sabendo que a produção de calçados foi profundamente atingida pela política de exportação, observemos o que aconteceu com as empresas, responsáveis por essa produção:

23 Utilizamos aqui o termo civil-militar, de acordo com os estudos de Dreifuss (2006). Sua conceituação admite que o golpe que instaurou o regime ditatorial em 1964 foi deflagrado por militares com o apoio e respaldo de setores da sociedade civil.

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TABELA 3: ESTABELECIMENTOS FABRIS DE CALÇADO (19711979)

Município/Ano

1971

1972

1973

1974

1975

1976

1977

1978

1979

Novo

235

178

154

150

154

148

155

149

151

Hamburgo

Fonte: Martins (2011, p.102)

Parece uma contradição o fato de que, justo no período em que a produção de calçados

em Novo Hamburgo aumentou, o número de fábricas diminuiu. Esse fenômeno pode ser

resultado de três possíveis acontecimentos, de acordo com nossa aferição.

A primeira possibilidade está calcada no fato de que, na tentativa de se adequar à

produção do modelo de “calçado de exportação”, muitas empresas de pequeno porte faliram,

por não conseguirem atingir os objetivos. Outrossim, a modernização tecnológica da indústria

não permitiu que o rendimento caísse, gerando uma produção ainda maior.

Sabe-se que, desde o governo de JK, a industrialização vinha sendo o mote central dos

governos desenvolvimentistas. Por isso, não é absurdo pensar que a modernização da

indústria foi algo relevante no âmbito social, em que pessoas deram lugar às máquinas,

gerando uma reestruturação na ordem social da urbe. Se aplicarmos essa linha de pensamento

ao processo de industrialização em Novo Hamburgo, a problemática das relações entre

empresários pode ter influenciado na queda das empresas e no aumento da produção.

O número de empresas diminui drasticamente, mas isso não quer dizer que a cidade

perca em demografia. Por isso, apresentamos agora o número de trabalhadores do calçado em

Novo Hamburgo.

TABELA 4: FORÇA DE TRABALHO EM NOVO HAMBURGO NO CALÇADO

(19711979)

Ano

Produção Direta

Produção Indireta

Total

1971

11384

807

12191

1972

11455

811

12266

1973

13306

882

14188

1974

12362

926

13288

1975

12965

902

13867

1976

14876

965

15841

1977

13609

1060

14669

1978

15666

1335

17001

1979

16840

1110

17950

FONTE: ACI-NH. Elaborado pelo autor.

60

Ao observarmos a tabela 4, podemos ver que não há um aumento significativo de trabalhadores entre o início e o fim da década de 1970, em Novo Hamburgo. No ínterim, há um acréscimo de menos de 6 mil trabalhadores na cidade. Isso ainda não nos permite problematizar o por quê do crescimento do número de pares de calçado ser tão expressivo, mesmo com um aumento pouco significativo de trabalhadores em quase uma década, mas nos permite pensar a respeito. Nesse ponto, entramos na segunda possibilidade que explicaria o aumento de produção de calçados no município. Primeiro, é importante ressaltar a relevância que a produção de calçados tinha na cidade de Novo Hamburgo. De acordo com a tabela 4, em 1971, havia 12.191 trabalhadores empregados neste ramos, quando, na totalidade de empregados na indústria de transformação, havia menos de 18.000 24 pessoas. Ou seja, neste ano, o calçado empregava cerca de 64% da população total no ramos de indústrias em Novo Hamburgo, quando 22% da população urbana da cidade estava empregada no setor industrial. No final da década, a categoria empregava o equivalente à metade dos trabalhadores no ramo industrial, que em sua totalidade circundava em 35 mil operários 25 (26% da população total da cidade). Em seu trabalho sobre o boom do calçado, Martins (2011) admite que a cidade de Novo Hamburgo se mostrou hegemônica no binômio centro/periferia - considerando como periferia o Vale do Sinos. Desse modo, ao final da década de 1970, a maioria dos escritórios das fábricas se localizava no município de Novo Hamburgo, enquanto as cidades adjacentes abrigavam as fábricas referentes a estes escritórios. Dessa forma, mesmo que os calçados fossem produzidos para empresas com sede em Novo Hamburgo em que o número de pares/ano entra na conta da cidade , os trabalhadores que produziram estes calçados podiam ser de outras regiões do Vale do Rio dos Sinos, o que poderia explicar o baixo crescimento de trabalhadores em Novo Hamburgo, em oposição ao número de calçados produzidos ao ano na cidade.

A terceira possibilidade que explicaria o aumento da produção de calçados, está no âmbito informal. Não existem trabalhos de cunho historiográfico que dêem conta de problematizar o trabalho informal e não registrado nessa região. Essa, inclusive, é uma possibilidade de pesquisa importante para a historiografia, pois mudaria a forma de enxergar o trabalho no Brasil, durante a ditadura civil-militar.

24 IPEA, censo industrial da cidade de Novo Hamburgo no ano de 1971.

25 IPEA, censo industrial da cidade de Novo Hamburgo no ano de 1979.

61

Se no início da década de 1970, muitas “fabriquetas”, com quatro ou cinco funcionários, fecharam por conta das iniciativas de exportação e foram substituídas por grandes fábricas, isso nos permitiria pensar que a produção de manufaturados no ramo do calçado foi, subitamente substituída por uma industrialização tardia, mas veloz. Inspirados no exemplo britânico somos induzidos a pensar que o país passou por uma Revolução Industrial 26 atrasada, em relação ao resto do mundo, e o modo de produzir artesanalmente foi abolido. Se considerarmos o exemplo de São Paulo, no início do século XX, veremos que mesmo com a industrialização crescente, havia a coexistência de fábricas e oficinas, pequenas fabriquetas (CARONE, 2001).

O que sabemos, por ora, não nos permite mais do que conjecturar sobre o tema, mas

nos possibilita pensar que o que aconteceu na produção brasileira está na contramão deste pensamento sobre a revolução. Entretanto, a própria conjectura nos fornece indícios de que havia trabalho manual na produção de calçados, e que este era realizado de modo doméstico. Ou seja, se na fábrica, ao final da esteira, o calçado saia pronto para o comércio, havia uma história por trás dessa produção fabril, antes do material chegar na própria esteira de produção. Muitas pessoas poderiam trabalhar em casa, produzindo partes separadas do calçado que seriam agrupadas com o restante do material produtivo na fábrica, posteriormente sem que, para isso, entrassem na contagem oficial de trabalhadores. Esse artifício poderia diminuir o valor do custo da mão de obra no país, visto que o trabalho em casa não seria remunerado da mesma forma que o trabalho na fábrica, justamente pelo fato de ser informal. Seria esta atividade uma fase superior da mais-valia. Não era apenas o calçado que passava a ser produzido em partes, por diferentes sujeitos, mas em diferentes localidades. A distância geográfica produziria um efeito alienante no que tange à produção do calçado. No que concerne à legislação, seria uma grave violação aos direitos conquistados desde o início da movimentação de leis trabalhistas, surgida, parcamente em 1926, e intensificada no Estado Novo.

É claro que estamos falando aqui de um governo baseado num Estado de exceção, o

que altera também as formalidades de uma legislação calcada na gestão de um governo populista. Para além disso, poderia ser um elemento mantenedor da ordem.

26 Carone (2001) remete à expressão em um jogo de palavras que dá título ao seu livro A evolução industrial de São Paulo (1889-1930), pensando no termo evolução aplicável às alterações sociais que a industrialização trouxe para a organização da cidade e da produção fabril. O conceito de Revolução é muito mais abrangente e envolve outros aspectos que não seriam possíveis de serem analisados neste curto trabalho.

62

Sabe-se que, na história do universo industrial brasileiro, a interlocução entre trabalhadores gerou movimentações de cunho mutualista e, depois da Proclamação da República, os primeiros sindicatos. Essa interlocução só foi possível por que havia um contingente de trabalhadores atuando em locais específicos conjuntamente. A separação da mão de obra entre fabril e manufaturada, a última proveniente de trabalhos domésticos, dificultaria a organização da Classe, e os sujeitos envolvidos nesse tipo de produção, ficariam distantes das problematizações que as Experiências de Classe geravam 27 . Assim, se for averiguado um índice considerável de trabalho doméstico informal, pode-se repensar a história do movimento operário na cidade, e de certo modo como Novo Hamburgo está ligada ao Brasil , no país. Por não haver registros oficiais, as possibilidades de pesquisa com enfoque nesta problemática se restringem. Uma das formas de abordagem, que levantaremos mais tarde neste capítulo, daria conta de iniciar um debate deste tipo, a História Oral. Ao entrevistar trabalhadores deste período, seria possível obter mais indícios da veracidade desta hipótese, que está sendo questionada aqui com fins puramente especulativos, neste primeiro momento. Por tanto, não se trata de uma resposta simples sobre o aumento da produção de calçados no período do boom. Há, inclusive, uma série de questões que permeiam o cotidiano dos trabalhadores, que podem ter sido atingidos com esse aumento de produção, positiva e negativamente. No que concerne à diferença entre número de trabalhadores do calçado e de outros ramos do setor industrial, pode ter relação com a própria produção do calçado. Ao final da década de 1970, a cidade já tinha passado pelo processo do boom, e não somente este ramo teve um crescimento exponencial. O maquinário, o comércio e a construção civil, também cresceram, à medida em que a cidade teve um acréscimo de trabalhadores de uma determinada categoria. Esse fenômeno, que chamaremos aqui de Sistema Produtivo Completo 28 , é fruto de uma articulação intersetorial nos meandros de uma sociedade capitalista. Noutros termos, para que um setor produtivo consiga se estabelecer em uma localidade, ele necessita de outros setores. Vejamos um exemplo:

27 Interessante pensar que as relações de trabalho passam do limite dás fábricas. Neste caso, pode-se problematizar também as questões relativas aos conflitos entre trabalho doméstico e trabalho industrial, presentes aqui, como na Inglaterra do Oitocentos. Ver capítulo 2.2 deste trabalho.

28 O conceito de Sistema Produtivo Completo é abordado por Martins (2011). A idéia de um Sistema Completo abrange uma sociedade dinâmica, que se organiza entorno de um setor produtivo, mas que se desenvolve paralelamente a ele, de forma autônoma. Não estamos falando aqui sob a perspectiva de cluster, conceito que abarca apenas aquilo que envolve o produto central, neste caso o calçado. Sobre Clusters, ver Fensterseifer

(1995).

63

Em Novo Hamburgo, no início dos anos 1970, havia uma estabilidade intersetorial. Quando a categoria de trabalhadores no ramo do calçado começou a crescer, este setor produtivo passou a se movimentar numa velocidade superior aos outros setores; havia mais trabalhadores, mais vendas de calçado, um modelo de exportação que iniciava, mas que se mostrou relevante, etc. Esse movimento, fez com que a metalurgia se movimentasse na mesma direção afinal, o ramo do calçado precisava de máquinas para produzir. Do mesmo modo, os trabalhadores precisavam de habitação e alimentação, fazendo crescer o ramo da construção civil e comércio. Completando essa cadeia produtiva, os bancos têm papel relevante, administrando e armazenando a produção monetária que este sistema passou a girar. Já na metade da década, houve um crescimento. Isso é resultado de um Sistema Produtivo Completo que mantém, normalmente, um equilíbrio de capital por setor. A ideia de um Sistema Produtivo Completo tem relação com a própria noção de Classe trabalhadora e como ela se aplica à cidade de Novo Hamburgo nos anos 1970. Sabendo que a Classe é diferente da categoria enquanto a última agrega membros de um único setor produtivo apenas podemos entender essa década como um momento de extrema riqueza na interlocução entre a própria Classe trabalhadora. Com um aumento no contingente de operários de vários setores produtivos, podemos pensar que a rede de relações sociais também sofreu alterações, quando no tecido social estabelecido pré-1970, muitos dos agentes históricos ainda não tinham sido incorporados ao cenário de Novo Hamburgo. Essas personagens históricas que chegaram a partir do boom na cidade, tiveram o papel de interferir na forma de relacionamento, haja vista que trouxeram uma cultura diferenciada consigo. De qualquer modo, mesmo que não tenha acontecido um aumento quantitativo muito alto, em dez anos a cidade de Novo Hamburgo conheceu uma mudança no âmbito das relações de trabalho, por conta das trocas culturais que aqui se estabeleceram. Para além disso, numa média parcial, a relevância do aumento do número de trabalhadores se torna mais visível do que numa visão mais geral. Podemos considerar que, numa média parcial, em 1971 havia 52 trabalhadores no ramo do calçado por fábrica, grosso modo, logicamente. Seguindo essa linha de raciocínio, em 1979, o número de trabalhadores por fábrica teria quase triplicado, resultando numa quantia de 120 operários, em média parcial, atuando em cada empresa, considerando a produção direta e indireta. Obviamente estes números parciais não representam a realidade das fábricas de Novo Hamburgo, haja vista as características individuais de cada uma, mas podem ser

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representativos no sentido de demonstrarem um crescimento de trabalhadores muito relevante para a cidade e para o ramo industrial. Essa média parcial pode nos ajudar a compreender a possibilidade de, nesse ínterim, terem ocorrido alterações importantes no que diz respeito às relações sociais entre trabalhadores do calçado e de outras Categorias. Isso porque a aglutinação de trabalhadores em uma única fábrica, facilita a interlocução entre esses agentes, possibilitando uma troca de informações maior, maior relacionamento intercultural, integração de sujeitos e, talvez uma das ações mais importantes, o compartilhamento de experiências de classe. Portanto, mesmo que não tenha havido um aumento significativo no número de trabalhadores do calçado, a proximidade entre esses sujeitos foi de importância fundamental. Fazendo um comparativo, com o restante do Vale do Rio do Sinos 29 e Rio Grande do Sul, como um todo, Novo Hamburgo, em 1979, aglutinava uma massa de trabalhadores no ramo do calçado superior às outras regiões.

TABELA 5: FORÇA DE TRABALHO NO VALE DO SINOS NO CALÇADO (19751979)

   

Variação

do ano

anterior

Ano

Nº de trabalhadores

(%)

1975

38097

9,08

1976

43945

15,35

1977

43542

-0,92

1978

51406

18,06

1979

57441

11,74

Fonte: ACI-NH. Elaborado pelo autor.

De acordo com a interrelação das tabelas acima, podemos notar que Novo Hamburgo, se manteve com a maioria de trabalhadores do ramo do calçado, ao considerarmos a região do Vale do Sinos. Só no ano de 1979, a cidade tinha um total de quase 30% dos trabalhadores do calçado da região. No âmbito estadual, o resultado é muito próximo. De modo algum essa informação pode ser contrastada com as possibilidades que estabelecemos anteriormente, ao comentar sobre a produção de calçados e o baixo aumento de trabalhadores em Novo Hamburgo. O que esta tabela demonstra é que, se considerarmos as

29 A região do Vale do Rio dos Sinos envolvia, nos anos 1970, as seguintes cidades: Novo Hamburgo, Campo Bom, Sapiranga, Taquara, Rolante, Igrejinha, Gramado, São Leopoldo, Três Coroas, Estância Velha, Dois Irmãos, Nova Petrópolis, Canela, Portão e Ivoti.

65

dezesseis cidades da região do Vale do Rio dos Sinos, os trabalhadores deste município abarcavam a maior parte quantitativa, sem que haja contradição com a possibilidade de explicação estabelecida quando tratamos da tabela 4.

TABELA 6: FORÇA DE TRABALHO NO RS NO CALÇADO (19751979)

   

Variação

do ano

Nº de

anterior

Ano

trabalhadores

(%)

1975

40780

9,77

1976

47352

16,12

1977

46116

-2,61

1978

54659

18,48

1979

62155

13,76

Fonte: ACI-NH. Elaborado pelo autor.

Ao analisarmos a tabela 6 conseguimos compreender que o estado do Rio Grande do Sul, entre 1975 e 1979, concentrou um grande número de trabalhadores do calçado. E para além disso, podemos ver que após o processo de exportação pelo qual o país passou nos anos 1970, houve um aumento significativo no número de trabalhadores desta Categoria. Considerando que do total de trabalhadores do calçado no Rio Grande do Sul em 1979, 92% são relativos ao Vale do Sinos, e destes, 30% representam o número de trabalhadores em Novo Hamburgo, enxergamos nessas alterações demográficas mais do que apenas números num papel. O acréscimo de trabalhadores no Rio Grande do Sul deve ser visto como uma alteração no próprio tecido social e na organização da cidade. Ao passar por um processo de inflação, que é o caso de Novo Hamburgo, por exemplo, há duas formas de encarar essas mudanças. Uma delas é considerando o fato de que a cidade se adapta aos novos integrantes, e de forma bem organizada, há uma alteração nos programas habitacionais, gerando uma relação confortável entre as classes que convivem dentro deste espaço. E outra forma de encarar essas alterações, é a cidade não se adaptando às mudanças demográficas, o que poderia gerar uma série de problemas sociais, uma ruptura agressiva no tecido social previamente estabelecido e um acirramento no conflito de classes de determinada localidade.

66

Não temos como averiguar aqui por conta do espaço de tempo e do espaço de escrita que nos foi destinado essas questões. Mas podemos pensar que essa visão abre margem para uma pesquisa mais detalhada sobre as relações sociais em Novo Hamburgo após o aumento de trabalhadores. Essa discussão poderia ampliar o debate no cenário nacional, possibilitando a discussão de modo macroestrutural sobre a organização das cidades e suas preocupações com o proletariado no Brasil. Assim como foi discorrido ao longo do primeiro capítulo deste trabalho, uma classe não é formada apenas por uma categoria. Desse modo, seria um equívoco analisar a classe operária unicamente pela categoria do calçado. O que nos propomos neste capítulo é apresentar elementos que nos possibilitem analisar a classe operária de Novo Hamburgo, de modo que essa análise se estenda para debates de níveis regionais e nacionais, e para isso, o estudo da categoria do calçado é fundamental. Mesmo assim, ouvir a voz dos trabalhadores é fundamental para um trabalho com pretensões de somar à História Social. Portanto, no próximo subcapítulo, traremos ao texto as informações prestadas por alguns destes agentes históricos que vivenciaram as experiências de classe entre 1969 e 1979.

4.2. HISTÓRIA ORAL

“A história oral devolve a história às pessoas em suas próprias palavras. E ao lhes dar um passado, ajuda-as também a caminhar para um futuro construído por elas mesmas”.(THOMPSON, 1998, p.337). Talvez não haja definição melhor para a História Oral do que esta, formulada por Paul Thompson em A voz do passado. Em nosso trabalho, estaríamos incorrendo em um erro grave, se não considerássemos a fala dos próprios trabalhadores no processo de escrita da história operária. Por isso, apresentamos aqui duas entrevistas de trabalhadores de Categorias distintas. Ambos foram, em algum momento de suas vidas, dirigentes de sindicatos; mas nenhum deles atuou na organização operária no ínterim estudado aqui. Portanto, suas percepções de vivencia são permeadas pela visão política do movimento sindical, mas pela experiência de Classe Trabalhadora livre de vinculação política. Iniciamos nossa exposição com a fala de Carlos Gilberto Koch (Betinho). Betinho é um ex-sindicalista, que atuou como trabalhador do calçado de 1972 até o início dos anos

67

2000. Neste meio tempo, nos anos 90, foi líder sindical da categoria. Sua fala, muito organizada cronologicamente, dá conta de uma trajetória de vida que poderia ser aplicada numa biografia. Como nosso intento neste trabalho é outro, reproduziremos e comentaremos aqui alguns pontos específicos. Seu primeiro emprego foi numa “fabriquetinha de fundo de quintal do vizinho, que morava na frente da minha casa. Nós fazíamos sandália feminina, bem simplizinha, e chuteira, pra futebol; solado de couro, trava de nylon.(KOCH, 2016). Esse modelo de fabricação de calçado, em pequenas oficinas, com 4 ou 5 funcionários, era muito comum até o início dos anos 1960 em Novo Hamburgo. O modelo de fábrica de grande porte ainda não tinha se estabelecido, então, nas regiões mais periféricas da cidade, como o bairro Santo Afonso (extremo sul do município), em que Betinho trabalhava, não era difícil encontrar várias fabriquetas deste tipo. Já comentamos que as fabriquetas que produziam manufaturados não se extinguiram nos anos 1970 de modo que, em menor escala, ainda permanecem produzindo na cidade. Mas é interessante notar na fala de nosso entrevistado, que suas lembranças do mundo do trabalho, percorrem uma espécie de linha do tempo modernizadora. Da pequena fabriqueta à grande empresa de exportação. Ao sair desta pequena fábrica de calçados manufaturados, Betinho iniciou seu trabalho em outra empresa, de médio porte.

Em 1970 eu peguei trabalhando numa empresa chamada Soares & Dias(

empresa do Seu Arlindo Soares. A minha tia era costureira, aí deu uma vaga e eu fui

pra lá. Trabalhei 3 anos com ele, aí a fábrica teve problema, fechou

todo mundo. Nós éramos, na época cerca de pouca gente(KOCH, 2016).

Mas ele pagou

) ali era a

em torno de 25, 30 funcionários,

Betinho revela, nesse excerto, de que forma se estabeleciam algumas relações entre trabalhadores. Este exemplo, em que parentes colaboram entre si para a manutenção e iniciação ao mundo do trabalho, era muito comum. Ainda aqui, conseguimos encontrar outro elemento para discussão. No final de 1973, a fábrica Soares & Dias, de acordo com o depoente, teve problemas. Mais adiante na narrativa contada por Betinho, sabemos que o que leva a fábrica a fechar é o fato de que na firma do seu Arlindo ,eu lembro que ele tentou começar com exportação. Não deu. E foi onde ele acabou quebrando”. O salto para o mercado de exportação era muito grande para empresas que não conseguiram se articular com o mercado

68

propriamente de exportação. Como o próprio Betinho frisou, seu Arlindo “não era

E é nesse momento, entre 1973 e 1974, que o mercado de exportação trará

um crescimento econômico e físico para as empresas preparadas para esse tipo de produção. Na metade dos anos 1970, quando esse processo de exportação começa a crescer, e as pequenas empresas da cidade fecham, é que “começou a crescer, por exemplo, aqui em Novo Hamburgo, [o tênis] terceirizado, via exportação era isso né.A terceirização corroborou o início de um processo de produção de calçados para exportação em níveis antes desconhecidos. Betinho ainda comenta:

acostumado, né

”.

Uma das coisas que me chamava atenção era a questão da terceirização. Essas

empresas terceirizavam pra Nike, pra Adidas, pra Reebok, que era época dos tênis,

Então, uma empresa era contratada e fazia o

serviço, ela não tinha marca própria. A grande maioria dessas fábricas não tinha marca própria. E como o setor vai crescendo, vai mudando, a própria conjuntura, daqui a pouco, o calçado migra muito pra outros lugares; por isso nós perdemos empresas que foram embora pro Nordeste. Os caras buscam mão de obra mais barata. (KOCH, 2016, p.4).

né, e eles pegavam a marca de lá

Fica evidente neste excerto do depoimento de Koch, que a terceirização torna o rendimento do produto muito mais elevado. Outrossim, não nos parece uma mera coincidência o fato de que, justamente no momento em que pequenas empresas fecham, aumenta o número de empresas terceirizadas. É uma saída viável: ao invés de trancar a produção, por não existir mais uma fábrica, o empresário poderia abrir um novo estabelecimento, sem marca própria, e continuar adquirindo meios de produzir calçados para grandes multinacionais, com mão de obra barata por se tratar de terceirização. No que concerne aos direitos dos trabalhadores, a terceirização tolhe a maioria de seus benefícios. Por isso a mão de obra se torna tão barata, e por isso também o crescimento de empresas terceirizadas. Com esse crescimento de empresas do tipo exportação, há um aumento de número de trabalhadores, como observamos na tabela 4. Na prática, podemos enxergar esse crescimento na fala de Betinho. Ao ser questionado sobre as vilas do bairro Santo Afonso, ele comenta que hoje, “na Vila Palmeira, mora cerca de quase 10 mil pessoas lá. Mais de 2 mil casas tem na Vila Palmeira. E antes era só banhado”. Este crescimento teve seu ponto de partida na metade da década de 1970.

69

Mas como a Classe precisa ser analisada sob a perspectiva da organização política, em nossa entrevista, questionamos o depoente sobre a os modelos de agremiação que eram vistos na categoria dos sapateiros durante os anos 1970.

Ali nos convivíamos dois períodos distintos, não tinha organização sindical mais aberta, efetiva, por causa da ditadura militar. Em 84, na luta pelas diretas isso foi quebrando, em 80 quando surgiu a organização dos trabalhadores no ABC, em 79- 80, quando se abriu de novo pra “democracia”, entre aspas, que podia eleger um governador. Por exemplo: no Sindicato dos Sapateiros, em 68, se criou uma oposição à direção do sindicato, por parte dos trabalhadores organizados, e os trabalhadores foram acusados de ter sido comunistas, porque fizeram uma chapa de oposição ao sindicato tradicional (KOCH, 2016).

A fala de Koch é categórica ao afirmar que não havia uma organização sindical. Na verdade, o que havia era um sindicato burocratizado e que servia a determinados interesses. Contudo, ao falarmos de organização da classe trabalhadora, não podemos apenas considerar os sindicatos como chave nesse processo. Por isso, questionamos mais profundamente sobre outros modelos de organização.

É que na época tinha o campeonato do Sesi, organizado pelo Sesi, na época da Ditadura ainda. Como tu não podia se organizar pra reivindicar salário, tu jogava

futebol. Era isso. E o Sesi cumpria esse papel, que é o do social. Articulado, claro,

pela Ditadura. Ele tinha esse papel

importante, de jogar futebol, de conhecer os amigos. Hoje mesmo, vivos, eu

encontro trabalhadores da minha época, que a gente trabalhava juntos

unidade. As pessoas conviviam mais junto, até por falta de um outro espaço (KOCH,

tinha muita

E aí tinha esse papel muito

Sesi, Fenac

2016).

Este excerto dá conta de abrir um debate muito importante: o papel que organizações e eventos promovidos pelo patronal ou pelo governo civil-militar tinham na mobilização de trabalhadores. O SESI, por exemplo, foi um órgão que cumpriu papel fundamental na organização da Classe trabalhadora ao entorno do esporte. Desde a criação do Círculo Operário (década de 1930), diversos órgãos privados atuavam junto aos trabalhadores, quando havia impossibilidade de uma mobilização maciça pela via sindical. A partir de 1945, quando os Círculos perderam força, houve uma “substituição do seu papel de formação técnica, assistencial e recreativa por organizações laicas como SESI/SENAI” (PETERSEN; PEDROSO, 2007, p.201). Os campeonatos de futebol, nos anos 1970, eram organizados pelas empresas da região (calçado, metalurgia, comércio, etc.) com fins esportivos. Claro que é possível

70

conjecturar outras finalidades projetadas, como a própria manutenção da ordem através do lazer. Mas isso seria conversa para trabalhos mais aprofundados. Por ora, cabe aqui dizer, que na falta de espaços para a organização política concreta, outras formas de organizações também aconteciam. Tanto os jogos de futebol, quando as festas realizadas pela prefeitura ou pelo patronal, serviam como elementos para a reunião de trabalhadores de diferentes áreas e categorias 30 .

Eu sei que a gente fazia várias atividades juntos, tinha as festas de organização dos

Os empresários eram bonzinhos(fazendo sinal de aspas), faziam as

festas pros trabalhadores, faziam cachorro quente

Então essa amizade era muito grande entre os

trabalhadores. Quando começa lá no início dos anos 80, que tu sai das grandes greves, é disso. Eles te enxergam como uma liderança que vai conseguir organizar os trabalhadores.(KOCH, 2016).

Eu não me lembro de churrasco,

disso não, lembro mais disso

“1º de maio”

Nessa passagem da fala de Carlos Koch, é possível perceber como a Classe foi se unindo ao longo do período de repressão, de forma que ao final do regime, os sindicalistas souberam articular suas relações sociais no meio do lazer, como cernes para uma atividade política concreta, buscando direitos trabalhistas e, ao mesmo tempo, reivindicando liberdade. Noutros termos, as lideranças que emergiram da Classe trabalhadora no início dos anos 1980, ao menos no que tange a Novo Hamburgo, foram alimentadas politicamente, em boa medida, por articulações feitas pelos próprios patrões. E os trabalhadores com maior visão política, e com vinculação partidária bem definidas, souberam utilizar dessas relações sociais para estabelecer bases de apoio no momento oportuno. Não temos como apurar aqui mais do que os elementos fornecidos pelo depoente, por que o espaço para este trabalho é limitado. Outrossim, entendemos que apresentar a fala de um trabalhador do calçado nos dá margem para pensar em possibilidades de estudos sobre a Classe Operária. Assim como a fala de outras categorias. E é por isso que apresentamos também, trechos da entrevista concedida por Paulo Lourenço, metalúrgico e ex-sindicalista 31 .

30 Sandoval (1994) informa que durante o regime da ditadura civil-militar, em São Paulo, diversas formas de organização política com caráter de bases foram formadas ou reestruturadas. As CEBs, (Comunidades Eclesiais de Base), SABs (Sociedade Amigos do Bairro), entre outras associações, serviram para canalizar as reivindicações que os sindicatos já não tinham possibilidade de atender. É relevante o friso, visto que em Novo Hamburgo, outras formas de organização serviram também como aglutinador de massas, ainda que com caráter político menos visível.

31 Apesar de restringirmos boa parte deste trabalho à análise da Categoria dos trabalhadores do calçado, entendemos que a fala de um trabalhador de outra Categoria é relevante para nosso estudo, e demonstra a complexidade de uma Classe, que não se encerra em uma única Categoria.

71

A história de vida de Paulo exemplifica o porquê do crescimento demográfico da cidade de Novo Hamburgo em tão pouco tempo. O depoente afirma que no início dos anos 60, quanto tinha 1 ano de idade, sua família se mudou para Novo Hamburgo. Todos moravam em Cerrito, Santa Catarina, mas como:

tinha um tio meu que tinha vindo pro Rio Grande, pela, vamos dizer, a situação de ter a fama de ter emprego em Novo Hamburgo, aqui na grande Porto Alegre, mas principalmente em Novo Hamburgo. O calçado atraía muito, na época. Daí viemos pra cá (LOURENÇO, 2016).

Essa atitude era muito comum naquele período. Durante o momento em que o calçado se expandiu, e aconteceu o chamado boom, o acréscimo foi ainda. Assim, por ocasião de uma oferta de empregos, muitas famílias, como as de Paulo, chegaram em Novo Hamburgo, entre os anos 1960 e 1970. Logo na primeira fábrica de máquinas em que Paulo trabalhou, no início dos anos 1970, já se percebia que o futuro industrial da cidade era promissor:

Ali era uma indústria de pequeno porte. Em torno de vinte e poucos funcionários. Mas produzia muita coisa. A gente produzia ali as máquinas de passar cola, máquina de tornear cepa, lixadeira, então era muito variado. Então, houve um tempo em Novo Hamburgo que saiu muita cepa de tamanco, e era em madeira. Então isso,

o maquinário dava muito emprego. Era um momento muito grande,

que a indústria estava no seu apogeu, em função do calçado. As empresas que produziam calçado, eles precisavam de máquinas, pra produzirem. Então, o setor metalúrgico de Novo Hamburgo era voltado nesse sentido. Claro, alguns setores tinham pra couro, mas o carro chefe era pra indústria do calçado (LOURENÇO,

dava muito

2016).

Esta fala é importante para pensarmos os motivos que levaram a cidade de Novo Hamburgo a crescer tanto, durante os anos 1970. A presença marcante e imponente de uma nova forma de produzir sapatos, voltada ao comércio internacional e à política de exportação, fez com que o município ganhasse ares de cidade industrial. Mas não era apenas o calçado que empregava trabalhadores. Ao entorno deste ramo, outros setores da economia local foram se desenvolvendo. Com o aumento da produção de calçados de exportação, a demanda de maquinário para a produção deste calçado também aumenta. Com duas categorias ampliando seu contingente, esses trabalhadores precisariam de habitações para se estabelecerem, fazendo girar a economia da construção civil, do comércio, etc. No que tange ao pensamento político dos trabalhadores nos anos 1970, Paulo menciona que participou de alguns encontros para a formação de uma chapa de oposição ao sindicato dos metalúrgicos.

72

Já nessa primeira empresa, em função de a gente ter um, uma certa disposição de ter um olhar crítico mesmo com aquela idade, eu fui convidado para participar da oposição. Oposição à direção dos metalúrgicos. Eu me lembro que eu participei de

na Igreja São Luís, bem no Centro de Novo Hamburgo

algumas reuniões ( (LOURENÇO, 2016).

)

Não é uma novidade que a Igreja Católica interfira nos meandros sociais em nosso país. Um exemplo concreto é a participação política com o Círculo Operário (ver capítulo 3). Mesmo em outros países, como foi comentado no primeiro capítulo deste trabalho, a religião esteve de alguma forma aliada ao movimento de trabalhadores. E em Novo Hamburgo não foi diferente. Questionado sobre essa interlocução entre Igreja e movimento operário, Paulo afirma que:

setores da Igreja também auxiliaram muito na questão da abertura política no Brasil. Então, Novo Hamburgo tinha um bispo, se não me falha a memória era a época do Dom Sinésio, que ele era um bispo que vinha na linha da teologia da libertação. Então ele auxiliava muito o pessoal mais à esquerda. Então se recorria de entidades que davam mais apoio e eles abriam as portas pra oposição. Mas se procurava ter o máximo de sigilo possível. Se reunia lá no fundo, meio quietinho, procurando não ser muito aberto. Até porque se a patronal soubesse que estávamos nos reunindo, no outro dia estávamos demitidos(LOURENÇO, 2016).

Fica claro aqui, que não eram todos os setores da Igreja que interferiram no movimento operário. No caso relatado pelo depoente, por exemplo, foram setores voltados à teologia da libertação 32 . Quando questionado sobre as relações que o depoente mantinha com a cidade, e sua percepção sobre o status quo do município, em relação com o operariado, Paulo fala que “Novo Hamburgo vivia um momento, eu diria que bom, no sentido da festa, do companheirismo, mas por outro lado isso servia também pra te manipular, não deixava que tu parasse e pensasse”. Em sua visão, o modelo de comemoração festiva servia para apaziguar problemas sociais. Segundo ele, a “questão dos alimentos básicos, era muito caro comer, beber, se vestir, alimentação, o aluguel;, qualquer choupana era um salário mínimo da época”. Essas dificuldades do cotidiano constituíam elementos que tornavam a vida do trabalhador menos aprazível, contrastadas às festividades organizadas pelo patronal e pelos órgãos governamentais.

32 Teologia da Libertação foi um movimento da Igreja Católica que dizia-se ter nascido das “lutas de milhares de Comunidades Eclesiais de Base”. Teve origem após o Concilio Vaticano II (1961), com a lógica de que a Igreja Católica deveria se voltar aos pobres. Sobre a Teologia da Libertação ver: BETTO; BOFF, 2005.

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Em determinado momento, a palavra de Paulo toma um sentido mais político. E nesse momento, ele traz à tona um debate recorrente na historiografia do operariado:

O setor metalúrgico, até pela, é um fato histórico, ele sempre foi um movimento em

que ele teve mais ação. Em função de que tu, pra ser um bom torneiro, um bom frisador, tu tem que ter um certo nível de uma cultura né. Tu tem que ter um certo preparo. Tem que calcular. Tem vários cálculos que o operador da máquina tem que fazer. Talvez hoje não seja assim, mas naquele momento era. Então, isso permitia que a gente tivesse uma intelectualidade um pouco melhor. Não desprezamos nossos

irmãos sapateiros, que tu podia vir do campo e ir direto pro sapato. Um trabalho mais manual. Intelectualmente tu tinha que ter uma visão a mais. E isso permite que

tu não seja manipulado tão facilmente. Um mais um é dois, e não tem alguém te

enrolar. Isso fazia com que os trabalhadores, dentro das metalúrgicas, são mais unidos, eles tem uma consciência mais esperta. “Mesmo que eu tenha minhas ideologias mais distantes, eu sou um cara capacitado”. Então essa consciência, ela é

mais forte dentro do movimento metalúrgico. E a gente sabia: tem bastante emprego(LOURENÇO, 2016).

O debate que envolve trabalhadores mais ou menos qualificados é algo que, inevitavelmente, atinge a historiografia voltada aos operários. Isso por que a qualificação do trabalhador está relacionada à sua consciência política e às posições que ele pode tomar no dia a dia. Na opinião de Lourenço, é essa qualificação que garante uma intelectualidade maior aos trabalhadores do setor metal-mecânico. Não cabe aqui afirmar que está correta ou não sua tese, até porque não temos espaço ou tempo para isso, mas podemos compreender o debate como algo importante a ser discutido em possíveis trabalhos. O que interessa para nós, aqui, é que na visão do depoente, os metalúrgicos são muito unidos, por conta de sua qualificação. E essa união pode ter possibilitado ações bem específicas de algumas empresas desta categoria.

Muitas empresas se trocavam de chefia, em função da força dos trabalhadores. E já não era nem o sindicato que organizava, mas a própria organização interna dos trabalhadores. Nós, vamos dizer, muitas vezes nós paramos a empresa, não era época de dissídio, não era época de nada, e nós víamos, que tava se produzindo tanto de máquina, ta entrando tanto de dinheiro, e o patrão enchendo o bolso de dinheiro. Isso dentro da própria empresa, ali por 76, 77, 78, já paravam. E olha, isso em plena ditadura militar, em algumas empresas (LOURENÇO, 2016).

No depoimento de Lourenço, os trabalhadores de determinadas empresas do setor metalúrgico, por sua união, livres de qualquer articulação sindical e num movimento espontâneo, paravam as fábricas por pautas específicas, em plena ditadura civil-militar. Claro que estas paralisações não podem ser encontradas em documentos oficiais, por conta do regime estabelecido na época entre 1976 e 1978. Mas já temos margem para estabelecer algumas conexões.

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Nesse sentido, não podemos perder de vista uma ligação com os movimentos de trabalhadores da Inglaterra do século XIX, narrados por Thompson(2012). No primeiro capítulo deste trabalho apresentamos a narrativa deste autor, que em determinado momento aponta para a relação entre a quantidade de empresas, a unidade sindical e a repressão aos sindicatos. Na fala de Paulo vemos a representação de uma teoria na vivência prática de trabalhadores gaúchos dos anos 1970. Enquanto que os sindicatos estavam organizados sob o comando de um governo ditatorial, e os trabalhadores não poderiam contar com a representação de seus interesses via sindicato, as organizações se davam de modo espontâneo, baseado nos limites que os próprios trabalhadores encontravam dentro das fábricas 33 . No depoimento de Carlos Koch, ele afirma não ter conhecimento de nenhum movimento grevista durante sua atuação como trabalhador do calçado nos anos 1970. O que podemos conjecturar e apenas isso, por ora é que os movimentos grevistas internos de determinadas fábricas não ganhavam amplitude midiática. Primeiro porque numa ditadura, dar voz a subversões desse tipo, é uma atitude arriscada para a manutenção da ordem. Segundo, por que não havia o acionamento de órgãos de segurança pública, por parte do patronato. Paulo dá sua opinião sobre isso:

Por que muitos donos de empresas também tinham medo da ditadura. Na Máquinas Jorli, essa que eu trabalhei, o homem[patrão] só não se declarava, mas ele votava no MDB. Mas a gente fez um movimento dentro da empresa, que conforme os patrões, a polícia vinha. E o trabalhador tem essa percepção, de quando dá. Então tu precisa levar eles até o limite, saber até onde tu pode. E a gente sabe que empresas médias de pequeno porte, pra médio, com um quadro de profissionais bons, eles preservavam isso. Isso fazia o movimento avançar (LOURENÇO, 2016).

Ninguém está livre de posicionamento político. E a fala de Paulo mostra que os trabalhadores conseguiram compreender isso, e utilizaram este artifício para articular reivindicações diretamente com seus patrões. Ao estabelecer-se um regime de Estado de Exceção no Brasil, o pluripartidarismo fora substituído por uma bipartidarismo. De um lado estavam os conservadores da ARENA, partido formado pela ala dirigente e apoiadores da ditadura civil-militar, e de outro lado, aglutinando o que existia de esquerda, centro-esquerda, e outras correntes distantes do conservadorismo, estava o Movimento Democrata Brasileiro, o MDB. Segundo a fala de Lourenço, essas relações partidárias, que se atravessavam numa discussão macro-política, também eram percebidas num ambiente micro-estrutural. Os trabalhadores que eram dotados

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de uma percepção política mais apurada, jogavam com essa disputa partidária. Obviamente, aqueles patrões que tinham um embate político já traçado e em andamento com a ARENA, não iriam se expor ainda mais. Desse modo, uma greve de fábrica, ao ser sufocada com o aparato policial, chamaria muita atenção, colocaria o patronato em primeiro plano, e poderia trazer problemas para o dono da fábrica. As greves que ocorreram, muito pontualmente e com poucos desdobramentos, nos anos 1970, não são contabilizadas por que, oficialmente, não existiram. Mas para os trabalhadores, elas são importantes. Durante quase toda a entrevista, o tom do depoente foi estritamente político. Mas ao final, quando questionado sobre questões mais amenas, que estão relacionadas à vida fora da fábrica, Paulo comentou algo que não podemos deixar de inserir aqui, pois estão relacionadas a uma questão conceitual importante para nosso trabalho. Perguntamos como eram as saídas, festas, e bares que os meninos de sua idade freqüentavam, bem como, quem o acompanhava nesses eventos:

Era uma gurizada de vários setores. Tinha do calçado, uns da metalurgia, outros da gráfica, então, a gente tudo se encontrava naquela festa. Era muito gostoso de se viver. Só que a gente não discutia a tal da política. Os caminhos do país, isso não passava nas conversas. Passava em algumas, mas a maioria queria musica, beber, namorar, e já alguns outros grupos, que eram poucos, já faziam essa discussão, da organização da sociedade, da questão ideológica. Então quando a gente se encontrava a gente “esticava”. (LOURENÇO 2016).

No primeiro capítulo definimos o conceito de classe como algo relativo a diversas questões do cotidiano. Entre elas, a cultura exerce um papel fundamental na formação de uma classe. Se no operariado inglês, como estudado no início deste texto, os locais de confraternização tiveram importância singular, na classe trabalhadora brasileira não foi diferente. Encontramos no depoimento de Paulo mais um exemplo de como a classe operária se

uniu ao longo do período de repressão ao redor de atividades triviais. Os bares, as festas, o

todas essas atividades serviam, de um modo ou de

futebol, as comemorações de efemérides

outro, para a articulação política a longo prazo. Como o próprio Paulo comenta, e “a gente não discutia a tal da política”. Mas isso não era tão relevante para aquele momento; o que corroborou a efervescência da classe trabalhadora no final da década, pode ter sido o processo

de união e reunião durante o período estudado aqui. Não haveria excerto melhor para expor na prática, o conceito de Classe. Para além da vida dentro da fábrica, a Classe se forma nos

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ambientes informais e de lazer. Thompson(1988;1988b;2012) discorre sobre isso em diversos

momentos de sua obra. Esse é um dos pontos principais de suas discussão, e conseguimos ver que no processo de amadurecimento da Consciência de Classe em Novo Hamburgo, as relações culturais entre trabalhadores de Categorias distintas adquire relevância central. Logicamente esta é uma conjecturação possível de ser estudada, constatada ou refutada. Com um estudo mais aprofundado sobre essas falas, podemos abrir margem para diversas problemáticas a serem desveladas no plano historiográfico.

A relevância da metodologia aplicada através da História Oral é muito singular. Como

afirmou Thompson(1998, p.25), a entrevista pode propiciar um “meio de descobrir documentos escritos e fotografias que, de outro modo, não teriam sido localizados”. Isso sem falar na importância científica observada sob outros aspectos.

A história oral, ao contrário, torna possível um julgamento muito mais imparcial: as testemunhas podem, agora, ser convocadas também de entra as classes subalternas, os desprivilegiados e os derrotados. Isso propicia uma reconstrução mais realista e mais imparcial do passado, uma contestação ao relato tido como verdadeiro. Ao faze-lo, a história oral tem um compromisso radical em favor da mensagem social da história como um todo. (THOMPSON, 1998, P.26).

Do mesmo modo, Pollak (1989, p.5) aponta as necessidades de compreender a memória como elemento importante nessa reconstituição. Mesmo o silêncio sobre o passado pode significar resistência de determinados setores ao falarem sobre alguns assuntos. Ainda assim, momentos da vida que nunca foram comentados pelo entrevistado em outros espaços, podem servir de lastro para problemáticas que o cientista analisará em seus estudos.

A História é uma “ciência inacabada” (CONSTANTINO, 2005, p.214), sendo assim,

permite possibilidades de escrita sob diferentes matizes, em que diferentes abordagens colaboram para a construção de uma historiografia mais abrangente. De todo modo, buscamos reiterar que a História Oral, através da rememoração do entrevistado, pode ser uma aliada na escrita da História Operária. Nossa preocupação ao coletar a memória destes trabalhadores e expô-la aqui não é a de, unicamente, contrapô-las com as versões atestadas pela historiografia brasileira, tampouco limitá-la a expressar em palavras o que os números indiciam. Com estas falas, de trabalhadores que conviveram com aquilo que para nós, contemporâneos do terceiro milênio, é uma abstração, uma teoria, pretendemos também apresentar o que é importante de ser

lembrado por estes trabalhadores. Como bem escreveu Bosi (1997, p.37), as informações que os depoentes nos repassaram, foram escolhidas “para perpetuar-se na história de sua[s]

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vida[s]”. E apresentar este índice é de suma importância para um estudo que pretende reconstituir um pedaço da história dos trabalhadores. Um exemplo muito claro é a entrevista concedida por Carlos Koch. Durante quase toda a sua fala, fica muito explícita sua proximidade com marcas de calçado, com métodos de produção de calçado, e com aquilo que faz parte do cotidiano do trabalhador. Em sua narrativa, contada em pouco mais de 40 minutos, conseguimos perceber o quanto a produção do calçado é inerente ao trabalhador dessa categoria. Para além de uma análise da situação política da Classe que conseguimos observar com maior facilidade na fala do metalúrgico Paulo , com Koch é possível enxergar a importância do produto como uma parte do próprio trabalhador. Por outro lado, a relevância para assuntos políticos, que permeiam quase todo o diálogo com Paulo, demonstra o quanto esta temática ficou incrustada em sua memória, resignificada pelos acontecimentos políticos no momento em que concedeu a entrevista, mas que ainda sim pode ser lida como uma necessidade do entrevistado em dizer o que foi marcante para sua vida. Assim como a demografia é importante para pensarmos as problemáticas dos conflitos e experiências de Classe, e assim como a fala dos trabalhadores é importante para entendermos como essas questões se desdobraram naquele momento em nosso país, é importante também entendermos que papel os sindicatos tinham nesse processo político e social, vivenciado pelos trabalhadores da década de 1970. A brilhante contribuição que Thompson e Hobsbawm deram à historiografia, ao incorporar a cultura no debate acerca da Classe, não pode ser impeditiva para pensarmos a relevância que os organismos institucionais de representação de Classe tem. Nesse sentido, os sindicatos tiveram um papel fundamental na organização de trabalhadores, que nutridos enquanto Classe durante a década de 1970, precisavam de uma direção organizada no final desta década. E encontraram nos sindicatos.

4.3 OS SINDICATOS DE TRABALHADORES DA INDÚSTRIA ENTRE 1969 E

1979

Ainda que já tenha sido comentado neste trabalho, vale a lembrança de que, após o golpe civil-militar e o regime de exceção instaurado no Brasil em 1964, as funções de reivindicação dos sindicatos foram reduzidas à figuração, num cenário de acirramento político. O processo democrático foi suspenso, e os órgãos de representação de classe foram alterados. Os sindicatos passaram por uma reestruturação, em que as lideranças legítimas eleitas pela base trabalhadora foram destituídas de seus papéis políticos, e colocados em

78

suas cadeiras, parceiros do regime. Esse momento marcou o início de uma repressão que se desenvolveu no seio da Classe Trabalhadora (SANDOVAL, 1994). Mesmo assim, os sindicatos ainda funcionavam e tinham uma direção atuante. Outrossim, não havia mais uma situação de reivindicação de direitos, ou ainda, de diálogo democrático entre as classes, mediados pelo sindicato. Sandoval (1994) respalda essa afirmação, concluindo que o assistencialismo promovido por esta instituição foi o grande movimento de manutenção da ordem entre os sujeitos da Classe Operária.

TABELA 7: ASSOCIADOS NOS SINDICATOS INDUSTRIAIS NO RIO GRANDE DO SUL ENTRE 1969 E 1974

ANO

ASSOCIADOS

1969

138

049

1970

152

861

1971

177

074

1972

188

491

1973

209

378

1974

224

420

Fonte: IBGE, elaborado pelo autor.

Ao analisarmos a tabela 7, veremos que há um aumento significativo no estado do Rio Grande do Sul, no que concerne ao número de associados em sindicatos industriais deste estado. Um associado ao sindicato de sua categoria, tinha direitos assistenciais importantes, visto que programas de saúde pública não tinham a consistência necessária. Assim, pelo menos até 1974, quase 230 mil pessoas eram associadas a algum sindicato industrial neste estado. O que nos permite pensar que, ainda que a representação da classe não fosse estabelecida sob a lógica da reivindicação, os sindicatos cresceram em números de associados o que foi relevante para a reestruturação dos sindicatos, ao findar da década. Elucidemos melhor. Já em 1978, os sindicatos industriais do Rio Grande do Sul contabilizavam 344 mil associados. Quando o processo de abertura política se consolidou, e os sindicatos voltaram a ter uma direção mais atuante e reivindicadora processo que teve origem em 1979, principalmente no eixo ABC de São Paulo já havia uma massa associada, permitindo a

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legitimidade da nova direção, visto que os associados tinham direito de voto. A aproximação com esses trabalhadores também foi importante, tanto pela via oficial, através da sindicalização, quanto pelo modelo informal futebol, festas, organizações de bairro discutidas anteriormente neste capítulo. Falta-nos uma avaliação mais contundente sobre a relação entre o Sindicato dos Sapateiros em Novo Hamburgo e sua Categoria, por conta de fatores que delimitaram este trabalho. Contudo, essa limitação não nos impede de discorrer sobre possibilidades. Por exemplo: de acordo com o número de sindicalizados do Rio Grande do Sul, e com a perspectiva de que a sindicalização era um modo de aproximar a Classe de suas representações por Categorias, baseadas no assistencialismo, seria difícil conjecturar algo diferente para esta cidade e para sua Classe Operária De todo modo, para a Classe Operária em Novo Hamburgo, é possível afirmar algumas questões importantes, baseadas na empiria apresentada neste texto, e nas análises realizadas nos capítulos anteriores. Thompson (2012) argumenta que nos anos de repressão é que ocorre um amadurecimento da Consciência de Classe. Esse pensamento nos é muito caro, pois imprime na teoria o que encontramos na empiria. De modo geral, é possível concluir que durante os anos de 1970 não houve uma participação plena dos sindicatos na organização da Classe Operária em Novo Hamburgo. Mas isso não quer dizer que a Classe não passou por alterações. Se ela já existia antes do boom do calçado, momento que, como vimos, alterou as relações de trabalho na cidade, foi a partir da chegada de novos agentes históricos no município, por conta da onda migratória ocorrida entre os anos 1960 e 1970, que esta Classe passou a adquirir uma consciência mais amadurecida - efeito das diferentes contribuições culturais que os sujeitos históricos trouxeram ao se estabelecer nessa região, e também, por conta do aparato repressivo vigente no regime da ditadura. Sandoval (1994, p.115) também argumenta que “a natureza das relações industriais foi ainda mais politizada, à medida que as disputas salariais se transformaram em confrontações automáticas com o Estado”. Os aparatos repressivos da ditadura forneceram os elementos necessários para que as massas repensassem sua participação no meio social. O confronto entre operário e patrão era traduzido para o confronto entre cidadão e Estado, o que alterava a lógica da disputa política e das reivindicações do proletariado. Por isso entendemos que os anos de 1970 são importantes para o amadurecimento da Classe Operária, que gerou frutos pragmáticos no que tange às mudanças sociais no decorrer

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da década de 1980. Quando o processo de abertura política se tornou mais visível nas relações sociais daquele momento, e os sindicatos puderam ser retomados como instrumentos de contestação, a Classe já não era mais a mesma, e precisava apenas de uma liderança que a organizasse. Essa fórmula se concretizou nas grandes greves ocorridas na região em meados dos anos 1980. Obviamente que esta teoria necessita de uma análise mais profunda das próprias paralisações promovidas pelos sindicatos de Novo Hamburgo nos anos 80, mas isso não nos inviabiliza de pensar na relação do amadurecimento da Classe com os eventos a partir dos anos finais da década de 1970.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

A classe acontece. E acontece quando pessoas envolvidas numa ordem de relações de produção específica sentem a necessidade de articular entre si interesses em comum, em oposição aos interesses de outros grupos. E o fazem baseadas em manifestações culturais específicas, momentos históricos datados e numa ordem política bem organizada. De modo genérico o conceito de Classe está exposto no parágrafo supra. De Thompson (1987; 1987b; 2012), Hobsbawm (2008), Lukács (2003) e Batalha (2006) foi possível extrair alguns elementos importantes para a definição do conceito que norteou o trabalho que aqui foi apresentado. Sem a conceituação correta não seria possível pensar na resposta à pergunta que nos motivou a escrever estas poucas páginas de um estudo que pretende avançar. “Quais as possibilidades de estudar a Classe Operária na cidade de Novo Hamburgo, no período do boom do calçado?”, perguntávamos nós, no início deste trabalho. Sugerimos como hipótese uma resposta que, de modo geral se confirmou. Através de um estudo estatístico foi possível perceber que há estudos possíveis de serem realizados sobre a Classe trabalhadora em Novo Hamburgo. Mas entendemos que o trabalho transcendeu os objetivos contidos em nosso projeto de pesquisa. Por exemplo:

No capitulo inicial do desenvolvimento deste trabalho, denominado A Classe em perspectiva, elaboramos uma discussão que nos permitiu compreender e definir o conceito de Classe, de acordo com o que especialistas na área pensaram ao longo da segunda metade do século passado. As contribuições de Batalha (2006) foram fundamentais para trazer o conceito à luz das discussões contemporâneas. Não seria possível, por exemplo, analisar a fala do metalúrgico Paulo Lourenço, contida no capítulo 4 deste estudo, sem uma compreensão mais aprofundada sobre a formação de uma Classe, e a importância que ambientes de lazer tem nesse processo. Do mesmo modo não seria possível entender como as mudanças macro- políticas afetaram a Classe Operária em nível nacional ao longo do século XX. A fundamentação teórica contida no início deste trabalho de conclusão de curso, permeou o estudo em sua totalidade. Ou seja, um dos objetivos específicos de nosso trabalho foi atingido. Todavia, nosso objetivo geral sempre foi o de analisar a historiografia brasileira e sua participação na escrita da História Operária. Apesar de que esse objetivo envolve o trabalho inteiro, no terceiro capítulo uma leitura mais abrangente da História da Classe Trabalhadora

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no Brasil foi mais intensa. No capítulo intitulado Balanço: o trabalhador na historiografia, buscamos levantar uma bibliografia calcada no estudo da Classe Trabalhadora e do movimento operário, desde sua vertente mais antiga oriunda das associações mutualistas no período do Império até os momentos de repressão da ditadura civil militar (1964-1985), encerrando nossa discussão em 1979. Procuramos apresentar neste capítulo, como modo de introdução ao capítulo seguinte, algumas questões que foram levantas sobre a Classe Trabalhadora em Novo Hamburgo, no trabalho de Saul (1983). Esse momento nos fez refletir sobre a necessidade de existirem novos trabalhos com essa temática na região, buscando inserir a História dos operários de Novo Hamburgo num cenário nacional, dialogando com as questões históricas do país. O quarto capítulo do estudo que apresentamos aqui, intitulado Possibilidades de pesquisa, tinha como intuito inicial abrir um leque de discussões sobre como é possível estudar a Classe operária de Novo Hamburgo entre os anos de 1969 e 1979. Não obstante, esse objetivo foi atingido e transcendeu seus limites. Nesse capítulo, através de dados quantitativos contidos em instituições como ACI-NH, DIEESE, IBGE e IPEA e entrevistas subsidiadas pela metodologia da História Oral com os trabalhadores Carlos Gilberto Koch e Paulo Lourenço -,bem como, com documentos do Sindicato dos Sapateiros de Novo Hamburgo, conseguimos enxergar uma série de possibilidades de estudo que precisam ser levadas adiante, não se encerrando neste trabalho. Neste capítulo também foi possível entender as formas de organização da Classe Trabalhadora nos anos 1970. Com o órgão de representação de Classe dominado pelo sistema burocrático da ditadura civil-militar, outras formas de organização surgiram; não apenas instituições de cunho reivindicatório tiveram espaço entre trabalhadores, mas em sua maioria, entidades que possibilitavam o lazer. O futebol e as festas em efemérides específicas uniam os trabalhadores e os colocavam e posição de articulação entre Categorias profissionais distintas. Ou seja, nesse momento de nosso estudo, conhecemos a concretização de uma teoria de Thompson. Concluímos com isso que as manifestações culturais contidas no seio da sociedade, servem de lastro para a mobilização e formação da Classe. Contudo, se já existia uma Classe Operária em Novo Hamburgo anterior a este período, concluímos, também, que nos anos 1970, houve um amadurecimento da Consciência de Classe. Esse amadurecimento foi resultado do entrelaçamento social entre diversas Categorias profissionais, articulados pelo próprio Estado e algumas entidades de iniciativa privada e da repressão que o regime da ditadura civil-militar impôs aos trabalhadores organizados.

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Esse amadurecimento da Consciência de Classe entre os trabalhadores de Novo Hamburgo pode ter sido responsável pela onda de paralisações promovida pelo movimento operário ao longo da década seguinte. Isso por quê, seguindo pressupostos debatidos no âmago da teoria acerca da Classe Operária, quando a Consciência de Classe passa por um amadurecimento, os agentes históricos precisam de uma direção, uma organização que os permita canalizar sua reivindicação e mobilizar os trabalhadores em prol de pautas específicas que beneficiem a Classe como um todo. Essa entidade foi encontrada na figura do Sindicato. Em trabalhos futuros será possível compreender melhor o papel que o Sindicato teve em nessa região ao longo dos anos 1980. Sabe-se, entretanto, que os movimentos grevistas foram muito contundentes, refletindo o cenário nacional nesta ceara. Ainda sim, há muito o que estudar sobre a Classe Trabalhadora nesta região. Por uma questão metodológica não conseguimos dar vazão a diversas questões importantes sobre os trabalhadores de Novo Hamburgo. A historiografia precisa destrinchar, com maior fôlego, as relações inter-étnicas existentes no interior das fábricas. A própria tradição de lideranças políticas nos sindicatos da região serem de operários teuto-brasileiros, precisa ser problematizada, levando em conta a presença maciça de trabalhadores afro-brasileiros. Outra necessidade de pesquisa que urge é a problematização das relações de gênero no movimento operário. Quando Celso Frederico (1979) escreveu seu trabalho sobre a consciência operária no estado de São Paulo, ele comentou sobre a participação das mulheres nos sindicatos. Sob sua perspectiva, o vínculo que a mulher mantinha com a condição de trabalhadora era frágil, o que lhe induzia a um estágio de apatia profissional. Na prática, essa conclusão estava relacionada à baixa participação feminina nos embates trabalhistas. Sua visão das mulheres no universo do movimento operário era de um grupo à parte, ausente dos problemas e das lutas da Classe. A visão de um homem que escreve em seu tempo revela um pouco sobre as próprias relações de gênero daquele tempo. Para o sociólogo, a falta de participação feminina nas organizações de Classe é fruto da “apatia”, de um grupo que é “desinteressado e ausente dos problemas de classe”. Há que se levantar a possibilidade de um estudo que investigue com maior propriedade a ausência de mulheres nos movimentos operários, sem esquecer também, das suas contribuições nas próprias relações de produção; de como as mulheres interferiram no processo de formação da Classe Operária em nível nacional e local. Queremos dizer, com tudo isso, que o trabalho apresentado não reflete o fim de um estudo; muito pelo contrário. Em trabalhos futuros pretendemos avançar nas pesquisas e inserir problemas mais profundos no debate sobre os trabalhadores da região que aqui foi

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estudada. Um exemplo que foi levantado ao longo do quarto capítulo, é a participação de trabalhadores domésticos na produção industrial da região. Desse modo, admitimos também não ter cumprido um dever importante: o de delinear melhor o papel dos sindicatos nas relações de produção no período em questão, principalmente no que compete à cidade de Novo Hamburgo. E o justificamos sob a ótica do curto espaço temporal delimitado para esta produção, aliada à limitação de fontes existentes no próprio Sindicato dos Sapateiros. Sem dúvida, com um trabalho de maior intensidade, será possível retornar a esta questão e desenvolver um estudo mais aprofundado sobre o papel deste sindicato com relação à Classe Operária no período do boom do calçado em Novo Hamburgo. Encerramos aqui um estudo que foi produzido ao longo dos últimos meses, mas que se prolongará por outros tempos. Além de considerarmos importante como um trabalho de cunho historiográfico, entendemos nosso estudo como um posicionamento que se coloca a favor das resistências organizadas ou não da Classe Trabalhadora ao longo de sua história em nosso país. É preciso que haja um enfoque acadêmico sobre as contribuições que os trabalhadores deram ao Brasil ao longo de toda a História desse país. Encerramos como começamos: desejando que este trabalho possa ajudar na compreensão de nossa história e na compreensão de quem somos hoje.

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88

ANEXOS

I - Entrevista com Paulo Rogério Lourenço

Dia: 15/03/2016 Local: Biblioteca Municipal de Novo Hamburgo (sala de estudos) Horário: 13h00min Entrevistador: Evandro Machado Luciano Entrevistado: Paulo Rogério Lourenço

Evandro Onde você nasceu?

Paulo Eu nasci em São José do Cerrito, estado de Santa Catarina, e vim pra cá com 1 ano de idade, pra cidade de Novo Hamburgo.

E.

Mas por que vocês vieram morar em Novo Hamburgo?

P.

É por que tinha um tio meu que tinha vindo pro Rio Grande, pela, vamos dizer, a

situação de ter a fama de ter emprego em Novo Hamburgo, aqui na grande Porto Alegre, mas principalmente em Novo Hamburgo. O calçado atraía muito, na época. Daí viemos pra cá.

E.

Você sempre trabalhou com metalúrgica?

P.

Sempre trabalhei com metalúrgica. Por que meu pai era metalúrgico também. Daí

ele foi colocando os mais velhos, os irmãos mais velhos na metalurgia. Então a gente, meio que constituiu a família, na grande maioria, de metalúrgicos. Eu tenho 3, 4 irmãos

aposentados, na metalurgia.

E.

Com que idade você começou a trabalhar?

P.

Eu tinha, na época

dezessete

dezesseis pra dezessete anos. E estudava à noite.

Eu comecei na Indústria de Máquinas Jorli, aqui, bem na entrada do bairro Guarani, aqui perto, quase em frente ao sindicato da construção civil, onde até hoje funciona um super

89

mercado. Mas era muito gostoso de trabalhar, na época. Gurizão, nunca tinha visto dinheiro,

fazendo

então, foi muito gostoso, pra época. Daí a gente teve a possibilidade de comprar a

primeira bicicleta, então já fiquei “grandão” (risos).

mecânica

era tudo muito novo. Depois já comecei

continuei a estudar de noite, então

E.

E eram muitas pessoas que trabalhavam com você na Jorli?

P.

Ali era uma indústria de pequeno porte. Em torno de vinte e poucos funcionários.

Mas produzia muita coisa. A gente produzia ali as máquinas de passar cola, máquina de

tornear cepa, lixadeira, então era muito variado. Então, houve um tempo em Novo Hamburgo

que saiu muita cepa de tamanco, e era em madeira. Então isso, dava muito

dava muito emprego. Era um momento muito grande, que a indústria estava no seu apogeu, em função do calçado. As empresas que produziam calçado, eles precisavam de máquinas, pra produzirem. Então, o setor metalúrgico de Novo Hamburgo era voltado nesse sentido. Claro, alguns setores tinham pra couro, mas o carro chefe era pra indústria do calçado.

o maquinário

E.

E depois da Jorli, você continuou em Novo Hamburgo?

P.

Aí eu continuei em Novo Hamburgo. Já nessa primeira empresa, em função de a

gente ter um, uma certa disposição de ter um olhar crítico mesmo com aquela idade, eu fui convidado para participar da oposição, em 1978, por aí. Oposição à direção dos metalúrgicos, que era a, o então presidente era o Sebastião (?). Eu me lembro que eu participei de algumas reuniões, ali no Cavalinho Branco, na Igreja São Luís, bem no Centro de Novo Hamburgo, e estavam presentes lá o João Mendes, alguns companheiros de trabalho da nossa própria empresa, o meu irmão Leoni, Betinho metalúrgico da nossa empresa, e também pessoas que, também estavam, conjuntamente estavam fundando o PT. Era o movimento de construção de uma central da CUT, Central Única dos Trabalhadores, e também, concomitantemente eles também estavam construindo um partido. Claro que não tinha nome do PT, mas se sabia que eles estão na construção de um partido da classe trabalhadora. E certamente o Lula já era uma referência a nível nacional, por aquelas greves memoráveis que eles fez em São Paulo e que já vinha se refletindo pros trabalhadores de Novo Hamburgo. E a gente já percebia que os

trabalhadores necessitavam de um partido organizado. Essa era uma visão de alguns.

90

Então, era momento de abertura política, pedindo o fim da ditadura militar, dos atos de exceções e tal, então a gente vinha nessa caminha. Tanto é que o tempo vai nos provando que a gente estava na direção correta.

E. E nesse período de 78, quando vocês faziam oposição, ainda não tinha uma

unidade de uma força política partidária. E a situação, que dirigia tinha uma força política consolidada?

P. Vamos dizer que a oposição, ela certamente tinha que ter alguma referência no

mínimo do MDB, Movimento Democrático Brasileiro, mas que o pessoal achava que era muito pouco. Logicamente que na época nós não tínhamos essa consciência de que o MDB

era um acampamento de todos que eram contra a ditadura, contra a ARENA. Então a ARENA era o campo da direita, e da ultra-direita. E o MDB agrupava todos que eram contra. E com o

as pessoas mais à

ter uma

um discurso muito aprofundado pra esquerda. Tu tinha que falar do momento, de

democracia, pelas reformas necessárias

debate ideológico. Nós próprios trabalhadores, meramente acusávamos a direção de pelega, de estar aliada aos interesses do patrão. Muito mais do que isso tu não podia pregar abertamente a organização da classe trabalhadora como um movimento ideológico. As pessoas mais apuradas na ponta do movimento, elas certamente sofriam muito tanto que tinha que fazer a caminhada do jeito que dava. Mas se sabia que em certo momento esse movimento ia pegar força. Então, muito de nós tínhamos uma visão um pouco encolhida, mas tinha.

postura

tempo a gente vê que realmente

esquerda não eram expressão dentro do MDB ainda. Era muito difícil tu caminhar

e que nem todos ainda eram expressões

Mas, mais do que isso, tu não podia entrar num

E. E tu comentastes, quando vocês começaram a se reunir na oposição, vocês se

reuniram na Igreja? P. Era ali por que setores da Igreja também auxiliaram muito na questão da abertura política no Brasil. Então, Novo Hamburgo tinha um bispo, se não me falha a memória era a época do Dom Sinésio, que ele era um bispo que vinha na linha da teologia da libertação. Então ele auxiliava muito o pessoal mais à esquerda. Então se recorria de entidades que davam mais apoio e eles abriam as portas pra oposição. Mas se procurava ter o máximo de sigilo possível. Se reunia lá no fundo, meio quietinho, procurando não ser muito aberto. Até

91

porque se a patronal soubesse que estávamos nos reunindo, no outro dia estávamos demitidos. Era um momento muito delicado, mas hoje a gente vê que valeu a pena.

E.

O

Hamburgo?

desmantelamento

dos

sindicatos

dos

metalúrgicos

começou

em

Novo

P. Novo Hamburgo tem um marco histórico de que, isso até hoje é relembrado, que

foi um dos sindicatos significativos, onde no meio metalúrgico foi o primeira derrubada da diretoria pelega, isso nos anos 80. E que isso foi inédito, por que, os caras estavam sempre no

poder, todo o aparato da patronal, da mídia

movimentos, e a partir daí em todo o Rio Grande do Sul. E isso serviu para que outras categorias enxergassem que era possível o trabalhador se identificar com a diretoria do seu sindicato. Então Novo Hamburgo tem essa representação, e certamente os documentos oficiais darão maiores informes. Foi um marco histórico que teve uma repercussão muito grande até a nível nacional, esse momento, essa derrubada de uma diretoria pelega.

Então essa derrubada encorajou muitos outros

E.

Tu chegou a participar de movimentos estudantis?

P.

Eu fui, em 1983, secretário geral da União de Estudantes de Novo Hamburgo,

onde o Anildo Leal Matsdorf era presidente. Nós estudávamos no Pasqualini, nós fazíamos mecânica lá. E em função daquele momento, havia uma greve acho que foi 83, que a gente

parou. Fui lá, desci a chave na mecânica. Falei com os professores e disse não é por mal, e

tal

fizemos

confiança. Mas era um momento também de afirmação, onde a gente implantou a eleição

direta pra UENH. E foi onde a gente viu que era possível organizar, estudantes,

trabalhadores

melhor possível, que seja mais democrático, mais aberto, que isso vai nos preparando pra vida. E esse momento também pode servir de referência.

enfim, cada um na sua lida. É possível se organizar e se construir um mundo

enfim, de reunir né, de chamar os estudantes pra

tinha um refeitório grande, amplo na escola, onde nós, estudantes,

E a gente se uniu

era um momento de discursos

E. Paulo, como era viver dentro da fábrica e fora da fábrica aqui em Novo

Hamburgo?

92

P. Era um , vamos dizer, Novo Hamburgo vivia um momento, eu diria que bom, no

sentido da festa, do companheirismo, mas por outro lado isso servia também pra te manipular, não deixava que tu parasse e pensasse. Por exemplo, a carestia, a questão dos alimentos básicos, era muito caro comer, beber, se vestir, alimentação, o aluguel, qualquer choupana era um salário mínimo da época. As famílias que conseguiam comprar uma geladeira, ou um televisor, uma parte trabalhava pra comprar coisas pra dentro de casa e a outra parte pra pagar, vamos dizer, a mensalidade da geladeira, de um televisor, de um conforto a mais. Então, era muito difícil. A sorte é que todo mundo era um povo trabalhador, muito ordeiro. E que, de certa forma, a gente era muito manipulado. E também a gente pegou um momento

muito difícil de uma repress]ao muito forte da polícia, dos instrumentos policiais, que era conforme eles davam as batidas nos bairros à noite, tu tinha que estar em casa 10 horas da

noite. Eu cheguei a ser abordado, com meus pais

fazendo”? “10 horas, depois das 10 não pode estar na rua”. Eu presenciei na minha juventude,

“aonde vocês vão”? “o que estão

em comícios políticos, a brigada ou a polícia civil chegar e revistar os políticos, pra desmoralizar eles perante o povo, isso quando eu tinha 14 pra 15 anos. Isso nos comícios do

Da ARENA podia tudo. Então a gente via, era até uma afronta à liberdade. Então,

o que a gente pode comentar na questão política, foi quando, as propagandas políticas no Rio

Grande do Sul, o candidato não tinha tempo de falar. Aí foi o Lidovino Fantoine, que achou lá que podia, e foi onde deu mais um passo na abertura. E começou no rádio e na televisão

candidatos fazerem sua manifestação. Até então, só dizia o nome e o número. Então a gente vê o quanto nós já avançamos, e o quanto temos medo do retrocesso.

MDB, né

E.

Tu tinhas contato com gerentes, patrões, ou era mais com os colegas.

P.

Aqueles momentos eram interessantes as organizações dentro das empresas. Que

a gente sabe que até sessenta e poucos, a gente sabe que houve grandes greves em alguns

setores, alguns sindicatos. Então, o setor metalúrgico, até pela, é um fato histórico, ele sempre

foi um movimento em que ele teve mais ação. Em função de que tu, pra ser um bom torneiro, um bom frisador, tu tem que ter um certo nível de uma cultura né. Tu tem que ter um certo preparo. Tem que calcular. Tem vários cálculos que o operador da máquina tem que fazer. Talvez hoje não seja assim, mas naquele momento era. Então, isso permitia que a gente tivesse uma intelectualidade um pouco melhor. Não desprezamos nossos irmãos sapateiros, que tu podia vir do campo e ir direto pro sapato. Um trabalho mais manual. Intelectualmente tu tinha que ter uma visão a mais. E isso permite que tu não seja manipulado tão facilmente.

93

Um mais um é dois, e não tem alguém te enrolar. Isso fazia com que os trabalhadores, dentro das metalúrgicas, são mais unidos, eles tem uma consciência mais esperta. “Mesmo que eu tenha minhas ideologias mais distantes, eu sou um cara capacitado”. Então essa consciência, ela é mais forte dentro do movimento metalúrgico. E a gente sabia: tem bastante emprego. Muitas empresas se trocavam de chefia, em função da força dos trabalhadores. E já não era nem o sindicato que organizava, mas a própria organização interna dos trabalhadores, nós, vamos dizer, muitas vezes nós paramos a empresa, não era época de dissídio, não era época de

nada, e nós víamos, que tava se produzindo tanto de máquina, ta entrando tanto de dinheiro, e

o patrão enchendo o bolso de dinheiro. Isso dentro da própria empresa, ali por 76, 77, 78, já

paravam. E olha, isso em plena ditadura militar, em algumas empresas. E não tinha repressão. Por que muitos donos de empresas também tinham medo da ditadura. Na Máquinas Jorli, essa que eu trabalhei, o homem só não se declarava, mas ele votava no MDB. Claro que ele tinha a ganância dele, mas ele era um homens compreensivo. E não to nem falando pra agradar ele. Mas a gente fez um movimento dentro da empresa, que conforme os patrões, a polícia vinha.

E o trabalhador tem essa percepção, quando dá. Então tu precisa levar eles até o limite, saber

até onde tu pode. E a gente sabe que empresas médias de pequeno porte, pra médio, com um quadro de profissionais bons, eles preservavam isso. Isso fazia o movimento avançar.

E.

Como era tua relação com Novo Hamburgo, nas questões de conservadorismo?

P.

Eu estou fazendo o segundo grau no noturno aqui no Pasqualini, e era a abertura

política. E eu comentei sobre a volta do Leonel Brizola. Mas comentei, não por que eu tinha obrigação alguma com algum partido. Mas daí ela pediu pra que eu permanecesse depois da aula. E eu fiquei. Daí ela disse: “olha, se tu quer te dá bem , tu não fala mais em Brizola”. “eu perguntei o porque. E ela disse “não, tu não pode ficar falando nesse comunista”. Mas eu, ingenuamente não me dizia nada aquela advertência. Mas isso me aguçou mais, essa veia política. Então a partir daí aquilo me atiçou mais. Então tem coisas que , se vai se reprimir, tu atiça mais. Eu nunca mais vou esquecer isso.

E.

Existia uma forma de tratamento diferente, preconceituosa, ou discriminação?

P.

Ela existia e ainda existe aqui nessa região, de uma forma velada, mas se tu for

ver, pode fazer um levantamento, de quem foi a chefia dentro da metalurgia. Certamente o número de negros era menor. O número de profissionais mais na ponta, com trabalho mais

94

o próprio movimento cutista tem a secretaria da igualdade racial, e hoje está

mudando. É uma busca que compete a nós, negros. E a gente sabe que Novo Hamburgo foi muito difícil. Inclusive nessa primeira empresa, um dos sócios era de origem alemã. E ele tinha um rapaz que trabalhava na Plang ele era um moreno de cabelo comprido e um dia ele disse, “só podia ser um negra mesmo” – que ele era meio alemão – “um capiluto!”. Então

o rapaz pegou um martelo na mão e saiu correndo atrás dele. Ele se trancou no escritório

mas como o outro sócio era um cara mais de contornar, então ele não demitiu o cara e no fim

qualificado

das contas o seu José comprou a parte do outro senhor. Tinha três ou quatro morenos lá trabalhando e o outro sócio viu a capacidade deles e o segurou.

E não é só na indústria, todos. Veja quantos bancários negros tem? E isso vai até na religião. Então ela ta em todos os setores da sociedade. Com relação aos colegas sim, foi boa

a relação, mas a gente sabe que tem colegas trabalhadores que tem uma ponta de racismo,

com relação até a sua formação na família, muitos ligados não to dizendo todos, mas muitos à origem alemã, italiana, e isso tem uma certa dificuldade de compreender os de pele escura. Cabe a nós compreender que eles são nossos irmãos, mas fazendo eles compreenderem .

E.

Qual eram as formas de diversão naquela época?

P.

Naquela época se tinha muito campo de futebol. Não eram só os constituídos da

várzea. Por que tinha campo lá sobrando. Então se fazia um campinho ali. Tinha o jogo oficial, e já tinha dois ou três campos que a turma se reunia e faziam umas peladas. Durante dia tinha isso, até em dia de semana a gurizada ia no contra-turno da escola. No meu bairro, perto do Parcão, sempre tinha uns campos muito bonitos. A gente se criou ali, brincando ali, e nos campos de futebol. E à noite, já com uma idade, a gente tinha umas ditas “reuniões dançantes”. Era uma coisa bem de família, de amigos. E depois a coisa ia se modernizando, aí tinha os bailes na sexta feira, aos domingos que a gente ia quando era novo. E a gente tinha uma turminha que a gente ia, depois da escola de noite. Então era muito gostoso, porque era uma época que não se ouvia falar em assalto. Quantas vezes eu andava com dinheiro, e não tinha assalto

E.

O pessoal que era da tua turma era só da tua firma? Só metalúrgico?

P.

Era uma gurizada de vários setores. Tinha do calçado, uns da metalurgia, outros

da gráfica, então, a gente tudo se encontrava naquela festa. Era muito gostoso de se viver. Só

95

que a gente não discutia a tal da política. Os caminhos do país, isso não passava nas conversas. Passava em algumas, mas a maioria queria musica, beber, namorar, e já alguns outros grupos, que eram poucos, já faziam essa discussão, da organização da sociedade, da questão ideológico. Então quando a gente se encontrava a gente “esticava”. Eu me lembro que uma vez, aqui no calçad]ao, tinha um bar que funcionava mais à noite. E daí, eu tinha lá meus 23 24 anos, e um outro colega, chegamos num bar. Quem quiser podia pedir a música. Eu fui lá e pedi a música do Geraldo Vandré, na época fez muito sucesso. Os caras só faltava dar em mim. “Que que tu quer aqui? Vem pedir musica de comunista!”. E nos convidaram a nos retirarmos. Pra não dizer que não falei das flores, era a musica. Então tinha isso, na classe média, e os abastados, eles tinham medo do tal de comunismo, que meu Deus do céu. Nem era comunismo.

E.

Mas fora da elite conseguia se falar disso ou as pessoas não falavam?

P.

Procuravam não falar muito. Por que tu ia na Igreja, e dependendo do padre, eles

falavam contra os comunistas. Por que naquele tempo comunista era todo mundo que foi contra o regime. Então, não o comunista ideológico. E daí tinha uns padres, pastores que deus

“comunismo é coisa do demônio”, hoje ainda se encontra algumas pessoas com esse

pensamento. Imagina naquela época. Alguns diziam “graças a deus que os militares nos

livraram dos comunistas”. Tu imagina o cara ia comungar com o padre todo domingo e o padre falava isso. É por isso que esse pessoal dirigia sindicato, dirigia tudo. Era amigo do

Claro que a própria igreja, havia setores que, mas a grande maioria eram

setores reacionários que dirigiam o povo na direção deles. Pra encerrar, eu só gostaria de dizer que a história é dinâmica. Certamente, alguns erros que a gente comete, que talvez hoje nós tomaríamos certas posições, um tanto mais avançadas, recuadas e tal, então naquela vontade de fazer a mudança nós apressávamos o movimento. Então dizer que a caminhada é dinâmica. Que bom que a roda da história ninguém trava. Ou tu atrasa o processo, mas um dia ele vai acontecer.

padre, do pastor

o livre

96

II - Entrevista com Carlos Gilberto Koch

Dia: 15/03/2016 Local: Prefeitura de Novo Hamburgo, 10º andar (sala de Carlos Gilberto Koch) Horário: 16h00min Entrevistador: Evandro Machado Luciano Entrevistado: Carlos Gilberto Koch

E. Betinho, então vamos gravar aqui, nossa primeira, primeira conversa, primeira

entrevista, e eu queria te pedir, então, teu nome completo

C. Bom, meu nome é Carlos Gilberto Koch, tenho 60 anos. Nasci no dia 21 de maio

de 1955, morador do bairro Santo Afonso, nasci na Santo Afonso, na rua Val Paraíso, e depois de três anos de idade, daí fui morar na rua Washington, que eu moro até hoje. Eu saí

um tempo, morei dez anos em São Leopoldo, e depois voltei pra Novo Hamburgo também.

aliás, com 12

anos, aí a gente, não tinha carteira assinada. Era uma fabriquetinha de fundo de quintal do vizinho, que morava na frente da minha casa. Nós fazíamos sandália feminina, bem

simplezinha, e chuteira, pra futebol; solado de couro, trava de nylon. Era a fábrica do Seu José Stork. Eu tinha 12 anos, e eu que comprava o material; vinha aqui na Comercial Brandenburg,

que tinha, e ainda tem aqui na Nicolau Becker, na época ela era na 1º

ali junto à escola Oswaldo Cruz, do lado ali, junto com a Tintas Killing, que comprava tinta,

material, cola também. E o solado de

Sul, que é na Silveira Martins, aqui do lado dos Bombeiros. Então, essa era a fábrica.

Também material, eu comprava no Saltos Broschir, na época eles faziam só salto pra calçado,

não fabricavam o calçado. Era aqui na Daltro Filho

eu vinha pra buscar saltinho de madeira, leva pra

depois trabalhei num armazém que tinha do lado

da minha casa

escola que nós tínhamos, na época, no bairro. Entrei, comecei a estudar em 63, e vivi muito a questão do golpe militar, na época. Nós tivemos um período sem aula em 64, por causa do golpe militar, em que conseguiram prender o Brizola. Eu lembro que meu pai brigava que a gente brincava “E viva o Brizola!”-

E ali

a trava na época, comprava na Amapá do

Bom, a minha primeira empresa que eu trabalhei, foi com 13 anos, e

na Bento Gonçalves,

o solado

ou General Osório

não lembro

Com doze anos, com doze anos

Trabalhei com o Zéca la, dos doze

Serviço de, da gurizada. Estudava na época no Caldas Júnior, era a única

97

que meu pai era Brizolista e na época o Brizola, o Jango, eles eram do PTB. E aí deu aquele

rolo, né

serviu o exército

Ditadura Militar e que o golpe durou ali, de 64 a 68 até que tentaram prender o Brizola, e que

ele fugiu

cuidava muito, que ele tinha que falar e qualquer coisa iam preso. Então, aí em 68, que foi o forte da implantação da Ditadura Militar. E ali a gente convivia no armazém, conversava lá na fabriqueta.

E uma coisa engraçada

assim, porque nós tínhamos carteira de menor, na época, mas trabalhava igual a um adulto, fazia serão igual adulto e ganhava só metade do salário, na época. Isso foi, foi implantado naquele período. Em 1970 eu peguei trabalhando numa empresa chamada Soares & Dias, pra quem hoje, e até pra ti se situar onde ela era, era do lado da Semec II, ali onde tem a loja Aldo, ali era a empresa do Seu Arlindo Soares. Até hoje ele vive, mora no bairro Liberdade, e eu trabalhava pra ele. A minha tia era costureira, aí deu uma vaga e eu fui pra lá. Trabalhei 3

Mas ele pagou todo mundo. Nós éramos,

na época cerca de

anos com ele, aí a fábrica teve problema, fechou

Então foram momentos muito difíceis que a gente tinha, e eu lembro que meu pai

Eu tinha um vizinho que morava do lado da minha casa, ele era militar, Ficou, acho, uns 4 ou 5 anos no exército e não liberavam ele por causa da

e prende

E em 70, quando eu fiz 15 anos eu comecei a trabalhar em

em torno de 25, 30 funcionários, pouca gente

E. Na fabriqueta anterior era pouca gente também?

C. Era 5. Era o dono da fabriqueta, o Seu Zeca, eu, a filha dele, que ajudava, o César, sobrinho dele que hoje mora em Rolante, tem uma loja lá em Rolante, e o outro era o Seu Alípio, que era quem ensinava nós a trabalhar, que era o faz-tudo da fábrica. O Alípio não

está mais entre nós

Tinha muita fabriqueta.

E.

E o pessoal morava tudo ao redor?

C.

É, tudo em volta, ali no bairro Santo Afonso.

E por que eu ia pra lá e eu

levava almoço pra minha tia todo dia. Minha vó fazia e eu levava o almoço todo dia pra ela.

Pegava o ônibus, não tinha a empresa Hamburguesa, era a Central, e aí tinha que pegar o ônibus na Pedro Adams, tinha que subir até a Pedro Adams. Eu levava todo dia o almoço pra ela, até que eu comecei a trabalhar lá também. Trabalhei lá 3 anos e 6 meses, aí como a

fábrica teve problemas

sapatilhas, pantufas, com pelo

Aí quando eu fui trabalhar nessa empresa, no Centro

E era uma fábrica que ela fazia

98

envolta, pro inverno. Essa era a grande marca, e no verão era sandália, sandalinhas simples.

e aquelas outras sapatilhas com pelo,

com peleguinho, ela era vendida aqui, na região. E eu lembro que eu tinha, eu tinha 15, 16 anos, que eu fazia o serviço também, dava continuidade de fazer o serviço de office-boy, compras, e os pelegos eu ia a Caxias buscar os pelegos, pra fábrica. Pegava o caxiense na rodoviária, no Centro aqui em Novo Hamburgo, e ia a Caxias. E de lá, da Rodoviária, eu pega um outro ônibus e ia até a empresa, que era próxima ao campo do Juventude. Aí pegava as peles, contava tudo certinho, botava, chamava um táxi, ia até a rodoviária e vinha embora. E assim eu me virava. O cara tinha extrema confiança em mim, graças a Deus a gente sempre

teve essa História. E uma das coisas que seu Anildo, meu pai sempre nos ensinou: o que é nosso, é nosso, o que não é não é. Ele me dizia assim: “eu quero sempre ter orgulho de vocês”.

E a gente herdou isso dele, na questão da educação. E daí eu trabalhava lá com Seu Arlindo, ajudava o meu pai, que eram momentos Quando eu assinei a carteira, foi a primeira fábrica que eu assinei a carteira foi lá em

difíceis

1970. Nós éramos, a nossa família, nós éramos 3 irmãos e uma irmã, e mais o pai e a mãe. Eu

tinha um irmão que era muito doente, faleceu

é muda e surda, que hoje ela tem 59 anos, e um tem 53, que era o nenê da casa. Eu lembro que, antes de assinar a carteira, eu lembro que o meu pai, ele trabalhava na

Cerâmica Santa Isabel, que era a olaria que tinha no bairro Santo Afonso, do Aloísio Schmidt, que era dono de toda a Santo Afonso. Então ele tinha a olaria, fazia telha, tijolo, meu pai e minha mãe trabalhavam lá. E aí quando minha mãe teve meu irmão, esse do meio, Luis Roberto, que faleceu, ela teve que parar de trabalhar pra cuidar dele. Porque ele era muito doente, e da minha irmã que era muda e surda também. E o meu pai foi pedreiro, trabalhava em construção, e às vezes, quando não tinha serviço ele trabalhava na olaria. Eu lembro que eles tiravam barro por metro, à pá de corte e uma chipa, a chipa eu que manuseava ela. Então

ajudei a fazer muito buraco na Vila Palmeira, tirando barro, secando

banhado né

que ali tudo era

Quem conhece hoje a Santo Afonso, na Vila Palmeira, mora cerca de quase 10

mil pessoas lá. Mais de 2 mil casas tem na Vila Palmeira. E antes erra só banhado, por que não tinha o dique.

46 anos, problemas de saúde, e uma irmã, que

Mas vendia bastante. Vendia pra São Paulo, Minas

E. Passou a ter mais gente a partir de quando?

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início dos anos 80 cresceu muito o setor

coureiro-calçadista, porque aqui se fazia um sapato popular, na época das exportações pros Estados Unidos chamado Arati, um calçado muito simples de fazer. O pedido era cerca de

300, 400 mil pares né

Que aí é esse sapato que nós perdemos pra China, a mão de obra. Que