PREMIUM
100 PÁGINAS
EDIÇÃO
00167
9 771676 979006
ISSN 1676-9791
ANO 14 | n o 16 R$ 19,90 | 4,90
Abril 2016
www.sciam.com.br
HUMANO
MISTERIOSO
Fósseis enigmáticos encontrados na África do Sul agitam o debate sobre as origens do homem
COSMOLOGIA
Pesquisas sobre a matéria escura trazem novas questões sobre a expansão do Universo
SUSTENTABILIDADE
Seca provocada por má gestão de recursos hídricos e corrupção agravou crise política na Síria
BIOLOGIA
Edição gênica, a nova técnica que pode reposicionar o debate sobre transgênicos
EVOLUÇÃO
BRASIL
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28 |
Humano misterioso |
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Uma surpreendente coleção de fós- seis deixa cientistas, e a mídia, agi- tados sobre as nossas origens. Kate Wong |
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COSMOLOGIA |
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39 |
O enigma da matéria escura |
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Por que a expansão do Universo está se acelerando? Após duas décadas de estudos, a resposta continua tão misteriosa como antes, mas as per- guntas se tornaram mais claras. Adam G. Riess e Mario Livio |
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SUSTENTABILIDADE |
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45 |
Refugiados do clima na Síria |
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Agricultores que escaparam da nação em guerra explicam como a seca e os abusos governamentais levaram à violência social. John Wendle |
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AMBIENTE |
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52 |
Lições milenares do clima |
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Arte do Antigo Egito ajuda cientistas a entender o colapso da diversidade em um período de mudanças climáticas e aumento das atividades humanas. Mathias Mistretta Pires |
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MEDICINA |
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62 |
Memória na idade avançada: |
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não é uma causa perdida |
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Cientistas encontram meios para redu- zir esquecimento associado à idade. Hal Arkowitz e Scott O. Lilienfeld |
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NEUROCIÊNCIA |
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64 |
Drenagem cerebral |
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Um sistema de tubulações limpa o cérebro de lixo tóxico. O ritual de limpeza ocorre durante o sono. Maiken Nedergaard e Steven A. Goldman |
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GERIATRIA |
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70 |
Por que mulheres vivem mais |
Só o estresse não explica a diferença de longevidade. Thomas Kirkwood
ABRIL 2016
NÚMERO 167, ANO 14
GEOLOGIA
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78 |
Anatomia de um assassino em série |
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Imensas explosões vulcânicas são apontadas como causadoras de qua- tro das “grandes cinco” extinções em massa da Terra. Howard Lee |
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BIOLOGIA |
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80 |
A bússola celular |
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Para evitar criaturas deformadas, um pequeno conjunto de genes e proteí- nas garante que células se alinhem coletivamente de forma correta. Paul N. Adler e Jeremy Nathans |
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GENÉTICA |
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Editando o cogumelo |
Uma poderosa nova ferramenta de alteração gênica está tomando conta da agricultura. Ela poderia transfor- mar o debate sobre transgênicos. Stephen S. Hall
NA CAPA
Representação em imagem 3D de crânio de Homo naledi – espécie humana descoberta mais recentemente –, construído a partir de fragmentos de fósseis de indivíduos encontrados em 2013 em um sítio paleontológico próximo a Johanesburgo, na África do Sul . Ilustração de Bryan Christie.
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12
SEÇÕES
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Carta do editor |
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6 |
Cartas |
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CIÊNCIA EM PAUTA |
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7 |
O preço da saúde |
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Estados poderão retomar controle de custos se a Suprema Corte não atrapalhar. Pelo Conselho de Editores da Scientific American |
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Memória |
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FORUM |
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Pílulas para porcos |
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Novas diretrizes sobre drogas na alimentação de animais não resolvem crise crescente. Keeve Nachman |
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12 |
Avanços |
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Marca-passos arrítmicos podem melhorar a saúde do coração Usina de Fukushima continua em crise cinco anos após acidente nuclear Bactérias usam sinalização elétrica como as células do cérebro Químicos captam transição em uma reação |
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TECNOLOGIA |
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20 |
Emaranhados |
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Um novo cabo pode pôr fim à guerra dos fios. David Pogue |
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OBSERVATÓRIO |
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21 |
Na longa trilha rumo ao conhecimento do Universo |
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Jorge Quillfeldt |
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CIÊNCIA DA SAÚDE |
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22 |
A doença da pobreza |
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Ajudar pais a ajudar seus filhos pode eliminar o desnível da saúde entre ricos e pobres. Michael Marmot |
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DESAFIOS DO COSMOS & CÈU DO MÊS |
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24 |
Um mergulho-recorde no passado do Universo |
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O legado de Edwin Hubble, descobridor da expansão dos Cosmos. |
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25 |
Lua cheia camufla sutis chuvas de meteoros |
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Há duas, de porte modesto, que atingem seu máximo neste mês, mas será difícil ver muito delas. Salvador Nogueira |
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CIÊNCIA EM GRÁFICO |
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98 |
O círculo da vida |
Linhagens de todas as espécies conhecidas na Terra foram finalmente reunidas. Mark Fischetti
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CORTESIA DE JOHN HAWKS Universidade de Wisconsin–Madison E UNIVERSIDADE DE WITWATERSRAND
é editor da .
CARTA DO EDITOR
De onde viemos e para onde vamos
São poucas as ocasiões em que temos a oportunidade de abor- dar em uma mesma edição assuntos que complementarmente abordam o tema existencial “de onde viemos, o que somos e para onde vamos”, muitas vezes apresentado com outras palavras e sob a forma de interrogação. A reportagem de Howard Lee mostra como drásticas mudan- cas ambientais provocadas por erupções vulcânicas causaram ex- tinções em massa de espécies (pág. 78). A reportagem de capa, de Kate Wong, editora senior de Scientific American, traz novas infor- mações sobre o Homo naledi, a descoberta mais recente no campo da paleontologia sobre a origem dos ancestrais de nossa espécie (pág. 28). Complementando o quadro “de onde viemos”, o biólogo Mathias Mistreta Pires, doutorando em ecologia na Universidade de São Paulo, em seu artigo explica como mudancas climáticas já na escala temporal da civilização humana provocaram a extinção de mamíferos no Antigo Egito (pág. 60). No plano de “o que somos”, o jornalista, fotógrafo e video- maker John Wendle destaca a má gestão de recursos hídricos e a corrupção na administração pública como vetores da grave crise hídrica da Síria, que agravou a crise social e política que levou à guerra civil que ainda castiga a população, o meio ambiente e o patrimônio histórico daquele país (pág. 52). Sobre as possibilidades para o futuro, o artigo dos biólogos Paul N. Adler e Jeremy Nathans (pág. 60) e a reportagem de Stephen Hall (pág. 68) trazem novos elementos para enriquecer o debate sobre os alimentos transgênicos e outras aplicações da genética.
Aqui me despeço dos leitores de Scientific American Brasil. Tem sido uma honra editar a edição brasileira dessa grande e mundialmente consagrada revista de divulgação científica. Mas não pude resistir à oportunidade de um projeto de jornalismo
científico investigativo, área de onde eu vim e para onde vou.
E tenho a satisfação dar duas ótimas notícias. A primeira é que
a revista estará em ótimas mãos. Para ser meu sucessor, eu e a di- reção da Editora Segmento convidamos Pablo Nogueira, um dos melhores jornalistas brasileiros da área de ciência.
E a outra novidade importante são as 100 páginas desta edição
de Scientific American Brasil, ou seja, mais notícias. Essa é ape- nas a primeira de várias novidades para os leitores. Em breve, mais informações sobre isso estarão disponíveis no site da revista (http://www.sciam.com.br). Obrigado a todos e boa leitura!
ALGUNS COLABORADORES
Adam G. Riess é astrofísico na Universidade Johns Hopkins e do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial. Sua descoberta de que a expansão do Universo está acelerando o levou a dividir o Prêmio Nobel de Física de 2011.
David Pogue é colunista- âncora do Yahoo Tech.
Hal Arkowitz e Scott O. fazem parte do conselho de assessores da [ , no Brasil]. Arkowitz é professor de psicologia na Universidade do Arizona, e Lilienfeld é professor de psicologia na Universidade Emory em Atlanta, na Geórgia.
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Howard Lee, baseado em Nova Jersey, escreve sobre ciência. |
é neurocientista e divulgador da ciência. Licenciado em física, é editora sênior |
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é professor de biologia molecular e genética, neurociência e oftalmologia na Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins e pesquisador no Instituto Médico Howard Hughes. |
mestre em bioquímica e professor titular do Departamento de Biofísica, IB/UFRGS. na . |
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é escritor, fotógrafo e videomaker freelancer. Desde 2005, cobriu os distúrbios na ex-URSS e no Afeganistão.Atualmente humanos e o ambiente. (http:// johnwendle.com e https:// instagram.com/johnwendle |
é professor assistente de ciências da saúde ambiental na Faculdade de Saúde Pública Bloomberg, da Universidade Johns Hopkins. Coordena o Programa de Saúde Pública e Produção de Alimentos no Centro Johns Hopkins para um Futuro Aceitável. |
estuda Mathias Pires é biólogo com mestrado e doutorado em Ecologia. Desenvolve pesquisa no Departamento de Ecologia da Universidade de São Paulo (USP) e seu principal interesse são as causas e consequências de extinções biológicas.
neurônios chamados glia no Centro Médico da Universi- dade de Rochester e na Universidade de Copenhague. Em especial, sua pesquisa está focada nos astrócitos, um tipo de célula glia asso- ciada a muitas desordens neurológicas.
Sir Michael Marmot dirige o Instituto de Igualdade na Saúde na University College London e é presidente da Associação Médica Mundial .
Paul N. Adler é professor de biologia na Universidade de Virgínia.
Salvador Nogueira é jornalista de ciência especializado em astronomia e astronáutica.
Mario Livio é astrofísico e trabalhou durante 24 anos com o Telescópio Espacial Hubble. É autor de vários best-sellers sobre divulgação .
é um premiado escritor de ciência. Sua obra mais recente é (Knopf, 2010).
é professor de neurociência da Faculdade de Medicina e Odontologia da Universidade de Rochester e da Universida- de de Copenhague.
Thomas Kirkwood traba- lha no Instituto para Enve- lhecimento da Universida- de Newcastle, na Inglaterra, onde foi diretor de 2004 a 2011, e é autor do livro .
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CARTAS
REDACAOSCIAM@EDITORASEGMENTO.COM.BR
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nei o 2016
www s iam om br
ANO 14 | n
164 | R$ 13 90 | 4 90 €
10 IDEIAS PARA MUDAR O MUNDO
10
Entre as interessantes inovações tecnológicas apre- sentadas em fevereiro (nº 165) pela revista Scientific American Brasil, para mim a mais importante é a dos protótipos de reatores de fusão nuclear fria
(“Fusão encolhe para crescer, pág. 29). Esse é o cami- nho para revolucionar completamente o panorama mundial da produ-
ção de energia. Para ter uma ideia da importância dessa tecnologia, vale
a pena lembrar que em 1989 dois pesquisadores da Universidade de
Utah, nos Estados Unidos, anunciaram enganosamente que haviam conseguido obter fusão fria usando eletrodos de paládio e, nos dias se- guintes, a cotação desse metal disparou em todos os mercados.
para mudar o
mundo
Grandes avanços para melhorar a qualidade de vida, impulsionar a computação, reduzir a poluição e promover a sustentabilidade
ASTRONOMIA
R validade ent e grupos de pesquisa p e udica projeto
DINOSSAUROS
Impac o de as eroide foi de fato devastador, mas o momento foi
AMBIENTE
Após se alastrar pe o Sul e Sudeste, o mexilhão-dourado
EDIÇÃO 164
MEXILHÃO-DOURADO
A revista Scientific American Brasil prestou um grande serviço à
conscientização ambiental ao publicar o artigo “O invasor dourado” (edição nº 164, janeiro), de autoria dos pesquisadores do Centro de Bio- engenharia de Espécies Invasoras, de Belo Horizonte (MG), que identi- ficaram a presença na bacia do Rio São Francisco, do molusco bivalve Limnoperna fortunei, mais conhecido como mexilhão-dourado. Origi- nário do Sudeste Asiático, esse caramujo tem feito um tremendo estra- go em instalações de usinas hidrelétricas aqui na região da bacia do Rio Paraná, sem falar nos danos ao próprio meio ambiente aquático. Conti- nuem assim.
MORTE NA ÁGUA
A respeito da edição 165 (fevereiro), me interessei muito pela maté-
ria sobre o arsênio na Índia, nas páginas 44 a 51, que descreveu a situa-
ção atual do país e citando o quão instável estava. Algo que me chamou
a atenção foi a colaboração de outros países com esse problema na
Índia. Pena não ter dado tão certo. Decepcionei-me muito quando cita- ram a gravidade do caso, no momento em que encontraram o arsênio profundamente no solo, impedindo de tirarem água potável dos poços subterrâneos. Gostaria muito de saber mais a respeito da situação da Índia e como pretendem resolver o problema. Gostaria de dizer também que tenho apenas 12 anos, mas que adoro a revista e meu pai é um assi- nante e sempre me recomenda ler ela por ser muito interessante.
Nota da Redação: Cara Mariana, é muito grande nossa satisfação por contar com a atenção de uma leitora como você, tão atenta e sensível a questões que envolvem a sustentabilidade e o futuro de nossa civilização. Não temos no momento informações adicionais sobre esse problema na Índia, mas voltaremos a ele assim que for possível. No entanto, esta edição traz uma reportagem muito importante, também sobre o uso inadequado de águas subterrâneas, mas na Síria, e mostra sua relação com as condições que agravaram a horrível guerra civil que acontece naquele país. Conte sempre conosco.
POR RESTRIÇÃO DE ESPAÇO, A REDAÇÃO TOMA A LIBERDADE DE ABREVIAR CARTAS MAIS EXTENSAS.
6 Scientific American Brasil | Abril 2016
Brasil
Michael Mrak
Monica Bradley
Steven Inchcoombe Michael Florek
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PRESIDENTE Edimilson Cardial DIRETORIA Carolina Martinez, Marcio Cardial, Rita Martinez e Rubem Barros |
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ANO 14 – Nº 167 ABRIL DE 2016 ISSN 1676979-1 |
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DIRETOR EDITORIAL Rubem Barros |
REDAÇÃO Comentários sobre o conteúdo |
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editorial, sugestões, críticas às matérias e releases. redacaosciam@editorasegmento.com.br tel.: 11 3039-5600 |
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Knapp, Suzana Schindler (tradução) |
CARTAS PARA A REVISTA |
e Mathias Mistretta Pires (artigo)
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O preço da saúde
Estados poderão retomar controle de custos se a Suprema Corte não atrapalhar
Dos editores
Em Nova Jersey, o tratamento de um paciente com enfermi- dade pulmonar crônica obstrutiva, uma doença respiratória, pode custar US$ 99.690. No estado vizinho de Nova York, um paciente com a mesma doença recebe uma conta de somente US$ 7.044. Em Los Angeles, próteses de articulações similares podem custar US$ 297 mil ou US$ 84 mil, dependendo do hospital. Essas disparidades absurdas nos custos de procedimentos médicos são, em grande parte, devidas aos diferentes valores que as empresas de planos de saúde negociam com os hospitais. É por isso que 18 estados aprovaram leis que obrigam seguradoras de saúde a fornecer dados sobre as queixas dos pacientes, informação geralmente sonegada. É uma tentativa valiosa de colocar nos tri- lhos os custos da assistência de saúde que está fora de controle e melhorar os tratamentos. No entanto, em dezembro, membros da Suprema Corte teceram comentários ferinos sobre essa questão. “Opressivo e caro”, disse a juíza Ruth Bader Ginsburg. “Por razões puramente burocráticas”, comentou o juiz Stephen Breyer. A Corte estava ouvindo argumentos num caso sobre a lei do estado de Vermont. As empresas argumentavam que 50 estados poderiam apresentar 50 petições diferentes para esses direitos à informação, e que já existia uma lei federal que trata disso. Mas a lei não cuida disso, e a Corte deveria apoiar esforços como o de Vermont quando emitir sua decisão nos próximos meses.
CIÊNCIA EM PAUTA
OPINIÃO E ANÁLISE DO CONSELHO EDITORIAL DA SCIENTIFIC AMERICAN
O caso, Gobeille versus Liberty Mutual, começou porque Ver-
mont aprovou uma lei exigindo que seguradoras de saúde forne- cessem dados sobre os prontuários de clientes para uma análise da saúde no estado e de uma unidade reguladora, a Green Mountain Care Board. Entre as seguradoras estavam a Medicare e a Medi- caid, de abrangência nacional como a Blue Cross e aquelas que as empresas pagam a seus funcionários. Essa última categoria, que atende mais de 90 milhões de pessoas de todo o país, causou pro- blemas. As empregadoras se queixavam, argumentando que elas já divulgavam esse tipo de informação em cumprimento à lei fede- ral chamada ERISA, que exige envio dos dados de seus planos de saúde para o Departamento do Trabalho. O tribunal estadual con- cordou, afirmando que as leis estaduais duplicam esse esforço. Elas não duplicam. O Departamento do Trabalho coleta infor-
mação sobre condições financeiras dos planos de saúde, e não sobre o custo real e os resultados da assistência médica. Sem um novo estatuto federal, que é um fracasso político, as leis estaduais exigem esses dados, e por isso o procurador geral apoia Vermont. Outros estados e a Associação Médica Americana também apoiam.
A questão se resume a como juntar a melhor evidência. As
seguradoras de saúde negociam diferentes tabelas de preços com diferentes hospitais e médicos, e os pacientes recebem tratamento de uma única doença de vários prestadores de serviços de saúde. “Durante décadas, os preços que os hospitais e médicos cobraram dos segurados particulares foram tratados como segredos comer- ciais”, afirmava um recente comentário sobre o caso no New England Journal of Medicine. Para entender os custos reais do tra- tamento e os benefícios, pesquisadores de assistência de saúde precisam observar o que acontece com toda a população para que os dados não sejam tendenciosos e para poder acompanhar um
paciente por todo o tratamento. Os diferentes prestadores de assis- tência médica nunca têm toda a informação. No entanto, a empre- sa do plano de saúde tem acesso a todo o prontuário relacionado ao acidente. Ela tem a melhor — às vezes, a única — visão geral.
A impossibilidade de reunir essa informação de todos os
pacientes resulta num quadro distorcido. Pessoas com planos autofinanciados pelas empresas tendem a ser mais jovens e mais saudáveis que as de outros tipos de plano. Sem leis como as que Vermont aprovou, quem precisar saber quanto custa um trata- mento de asma estará limitado aos dados sobre uma população relativamente mais idosa e mais doente. Isso não é muito útil para saber custos e o tratamento para uma criança com asma. Os Estados Unidos gastam duas vezes mais em assistência de saúde, per capita, que um país desenvolvido típico. No entanto, os americanos morrem mais cedo que os habitantes da França, Japão ou países similares. A Suprema Corte é a guardiã legal da Consti- tuição, cujo parágrafo primeiro determina que o governo deve “promover o bem-estar geral”, por isso, ela deveria apoiar os esta- dos quando eles tentam e corrigem esse desequilíbrio.
Ilustração por Dave Murray
www.sciam.com.br 7
SCIENTIFIC AMERICAN SUPPLEMENT , VOL. LXXXI, N º 2101; 8 DE ABRIL DE 1916.
50, 100 & 150 ANOS DE MEMÓRIA
INOVAÇÕES E DESCOBERTAS NARRADAS PELA SCIENTIFIC AMERICAN
Abril 1966
Empregabilidade
“Segundo a Comissão Nacional de Tecnologia, Automação e Avanço Econômico, a ‘grande maioria’ das pessoas reconhece que a mu- dança tecnológica ‘melhorou as condições
de trabalho, eliminando muitas, talvez até
a maioria, das atividades, insalubres, hu-
A preocupação que levou
mildes e servis
a criar essa Comissão talvez tenha surgido
da crença de que a mudança tecnológica é
uma grande fonte de desemprego
, final, ela acabaria eliminando praticamen- te todos os empregos’. Os membros da co- missão, por sua vez, concluíram que a ‘tec- nologia elimina empregos, não trabalho’.”
que no
Cosmologia de raios X
“As duas primeiras fontes de radiação X fora de nossa galáxia foram descobertas com dados obtidos no ano passado pelos detectores de raios X a bordo de foguetes. As novas fontes foram identificadas por seus descobridores do Laboratório Naval dos EUA coincidindo com duas das mais poderosas galáxias emissoras de ondas de radio: Cygnus A e M 87. A radiação X das duas galáxias parece ser de dez a 100 vezes mais forte que a energia que elas emitem na forma de luz e ondas de rádio. Os ins- trumentos foram colocados acima da maior parte da atmosfera por foguetes Ae- robee lançados do Campo de Teste de Mís- seis, em White Sands, Novo México.”
Abril 1916
Esporte para cegos
“Nunca antes o problema de encontrar emprego para homens cegos foi tão grande como atual- mente, quando a guerra na Europa contri- buiu com dezenas de milhares ao contin-
8 Scientific American Brasil | Abril 2016
gente já existente de desafortunados. Re- centemente, no entanto, os franceses também se empenharam em criar várias atividades esportivas para aqueles que a guerra tinha privado da visão, entre elas, a esgrima. Para os leigos é realmente difícil imaginar como um esporte dinâmico como a esgrima pode ser desempenhado por deficientes visuais. No entanto, campe- onatos de esgrima com participação ape- nas de cegos agora são comuns em Paris.”
O maior elefante
“Há três ou quatro anos, engenheiros da Royal Society abriam uma trincheira na costa de Medway, Upnor, do lado oposto do estaleiro Chatham, quando encontra- ram vários ossos e partes de uma enorme presa de elefante. No entanto, somente por volta de meados de 1915 foi possível resga-
enorme. Calcula-se, na verdade, que ele te- ria pelo menos cinco metros de altura, o que ultrapassa a de qualquer outra espécie viva ou extinta (ver ilustração)”.
Imagens da ciência da história natural em 1916
Abril 1866
Papel da madeira
“Fomos informados de que a fábrica de polpa de Manaynk foi con- cluída este mês. Sem dúvida, são as maiores instalações do tipo no mundo e são capa- zes de produzir de 12 a 15 toneladas de pol- pa de papel por dia. A produção diária des- sa fábrica será de quase seis toneladas, reduzin- do dessa quantidade o consumo de trapos, e diminuindo assim o preço de ambos. O pro- cesso atual para obter polpa de madeira co- meçou por volta de 1850, por iniciativa do sr. Hugh Burgess.”
1916: gigantesco Elephas antiquus de presas retas é comparado a um mamute e um elefante africano nessa concepção artística.
Perdendo tempo
“O sino de mergulho foi abandonado no Tâmisa em favor do traje de mergulho, pois foi cons- tatado que, na constru- ção da ponte de West- minster, funcionários passavam o tempo no fundo jogando cartas, e lá, obviamente não ha- via meios eficazes de
tar esses fósseis. Os ossos dos membros do elefante de presas retas (Elephas antiquus) forneceram evidências convincentes sobre o tamanho do animal, que deve ter sido
controlar suas ativida- des. No entanto, não é fácil jogar cartas com roupa de mergulho, sozinho, e a solu- ção adotada se mostrou muito satisfatória nas operações.”
é professor assistente do departamento de ciências da saúde ambiental na Faculdade de Saúde Pública Bloomberg, da Universidade Johns Hopkins. Ele coordena o Programa de Saúde Pública e Produção de Alimentos no Centro Johns Hopkins para um Futuro Aceitável.
Pílulas para porcos
Novas diretrizes sobre drogas na alimentação de animais não resolvem crise crescente
Keeve Nachman
Em 1945, Alexander Fleming, descobridor da penicilina, aler-
tou que o uso abusivo do produto milagroso que ele havia desco- berto poderia tornar as bactérias imunes a ela. Ele estava certo —
e não só sobre a penicilina: os Centros de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA (CDC) estimaram que bactérias resistentes a antibióticos infectam mais de dois milhões de pessoas por ano, e pelo menos 23 mil morrem. Uma parte significati- va do uso excessivo, dizem os CDC, está em ministrar drogas a animais que come- mos. A prática é adotada, não para tratar ou evitar doenças, mas apenas para fazer a criação crescer mais e mais rápido. Em 2013, a Agência de Ali- mentos e Medicamentos dos EUA (FDA) finalmente pediu aos fabri- cantes de medicamentos que a partir de dezembro de 2016 parem de ven- der antibióticos para promover o crescimento de animais. No entan- to, a agência ainda permite essas drogas para “prevenção de doen- ças” em animais não infectados. Na prática, essa brecha pode ser grande o suficiente para os criadores continuarem a fazer o que sempre fizeram
e manifestar sua preocupação de que o plano
da FDA não irá muito longe. Para piorar, a agência resiste em desenvolver um plano concreto para avaliar suas ações. Em vez disso, ela prefere se basear em dados de vendas de empresas de medica- mentos para ver se suas diretrizes (não obrigatórias) de fato fun- cionam. Esses dados estão longe de serem ideais para essa finali- dade. A própria agência reconhece que dados de vendas não são confiáveis para avaliar como antibióticos são realmente usados. Os dados não mostram nenhuma evidência de que o plano esteja funcionando. Resultados de vendas de 2014, publicados recentemente pela FDA, mostram um pequeno aumento em rela- ção a 2013. Esse resultado não surpreende porque os fabricantes de medicamentos só serão obrigados a cumprir à risca as novas
FÓRUM
FRONTEIRAS DA CIÊNCIA COMENTADAS POR ESPECIALISTAS
diretrizes a partir do fim deste ano. Teremos informações mais representativas em 2017, quando a FDA divulgar os dados de 2016. Infelizmente, não podemos esperar tanto tempo. Apesar de reconhecer que o uso inadequado de antibióticos em animais é um grande problema, os CDC não conseguem determinar sua dimensão. Há sinais confusos do mundo todo, inclusive notícias do surgimento e disseminação do gene mcr-1, que ajuda bactérias
a resistirem até a antibióticos de último recurso. Uma infecção por uma bactéria com esse gene seria fatal, mesmo nos melhores hos- pitais. O alarme soou no ano passado quando ele foi descoberto em porcos e humanos na China, e desde então, tem sido encontra- do em vários outros países. Embora no curto prazo os EUA este- jam tranquilos, mais cedo ou mais tarde eles aparecerão por lá. Até que ponto devemos nos preocupar? Certamente, mais do
que estamos. Pelo menos, até mudarmos a maneira como os anti- bióticos são usados. Infelizmente, o que está sendo feito não é sufi- ciente. As maiores batalhas estão sendo travadas em cima de pro- postas de iniciativas de organizações voluntárias sem apoio financeiro para coletar melhores dados sobre o uso de antibióti- cos. Essa informação seria útil para determinar até que ponto o uso inadequado de antibióticos pode contribuir para causar infecções bacterianas incuráveis em seres humanos. Na verdade, não foi apresentado nenhum plano para mudar a forma como os medica- mentos estão sendo usados. A questão do financia- mento provavelmente não será muito melhor no curto prazo. Apesar dos US$ 375 milhões incluídos no atual orçamento do Congresso para combater os surtos de bactérias resistentes a anti- bióticos, só US$ 8,7 milhões (ou pouco mais de 2%) foram destinados para a FDA atacar pri- oritariamente o problema da resis- tência aos antibióticos. O Departamento de Agricultura dos EUA não recebeu um item de linha para alocação de fundos com essa finalidade. As pessoas nascidas nos últimos 70 anos são bastante afortu- nadas por viverem em uma época em que os maiores avanços clínicos e em saúde pública — inclusive os antibióticos — nos per- mitiram viver mais, o suficiente para morrer de doenças crônicas
e não de doenças infecciosas. O uso excessivo de antibióticos na criação de animais está nos levando para as profundezas de um mundo pós-antibióticos, onde até as infecções mais rotineiras podem se tornar mortais. Precisamos de atitudes sérias — e rápido.
Ilustração de Scott Brundage
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INFORME PUBLICITÁRIO
ED. 03 - ABRIL 2016
Cientistas do CNPEM avançam nas pesquisas sobre o zika vírus
P esquisadores do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio) descobriram uma proteína ligada ao zika vírus que pode ser a chave para o desenvolvimento de medicamentos e
vacinas para combater a doença. Usando técnicas de bioinformática
e bioquímica, os cientistas observaram que o vírus da zika é
bastante similar ao da dengue. Três proteínas seriam responsáveis por manter a estrutura das membranas que revestem o material genético do zika e da dengue. No entanto, a diferença entre os dois vírus estaria na proteína E.
“Uma das pistas é procurar nessa proteína se ela tem alguma diferença, se apresenta alguma peculiaridade que vá determinar
essas características que estamos procurando. Utilizamos uma série
de técnicas para identificar possíveis regiões que vão determinar as
diferenças entre o que é zika e o que é dengue. Isso é insumo para
uma série de desenvolvimentos adicionais”, explicou o diretor do LNBio, Kleber Franchini.
Ainda, segundo Franchini, as pesquisas têm pelo menos dois impactos: a produção de insumos para um kit diagnóstico que
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) colocou à disposição da organização dos Jogos Olímpicos 2016 uma infraestrutura de monitoramento meteorológico
para a preparação do evento e realização das provas. Sistemas
meteorológicos avançados e recursos de supercomputação, somados
à expertise de modelagem dos cientistas, resultam em previsões
com alto índice de acerto. Os dados, fornecidos com pontualidade
e precisão, podem fazer a diferença no desempenho de um atleta olímpico, além, é claro, da técnica e do preparo físico.
Dois institutos de pesquisa do MCTI, o Centro de Previsão e Estudos
permita a detecção de traços do vírus em pessoas que foram infectadas anteriormente e que já não apresentam os sintomas da doença e a produção de uma molécula capaz de combater a infecção provocada pelo zika. A ideia é produzir um anticorpo monoclonal para tratar exclusivamente da enfermidade.
O pesquisador alerta, no entanto, que o desenvolvimento desse
“antídoto” é uma medida paliativa até que seja desenvolvida uma vacina eficaz contra o zika vírus.
Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe/ MCTI) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/MCTI), participam do Serviço Meteorológico Esportivo, uma força-tarefa coordenada pela Autoridade Pública
Olímpica, responsável por fornecer, reunir e consolidar as previsões
de tempo e oceânicas com informações sobre temperatura, maré,
umidade, ventos e correntes.
“Não existe competição de vela sem vento”, afirma o pesquisador Sérgio
Henrique Ferreira, do CPTEC/Inpe. “Uma prova pode mudar de local ou até
ser cancelada em função das condições desfavoráveis do tempo.”
INFORME PUBLICITÁRIO
N o dia 7 de março, foi lançado, em homenagem ao Dia
Internacional da Mulher, o programa Mulheres na Ciência, com
ações de combate à desigualdade entre homens e mulheres
no ambiente de pesquisa, além da ampliação da participação feminina
na produção científica e tecnológica do Brasil por meio de atividades de
promoção da paridade, de inserção social e de conhecimento e difusão
no âmbito da CT&I.
Para isso, o programa prevê ações de promoção da igualdade no MCTI e o lançamento da quarta edição do edital de pesquisas sobre relações de gênero, mulheres e feminismos. Além disso, devem ser lançadas publicações com análises demográficas de dados de gênero no ministério e em grupos de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/MCTI) e a instalação do Comitê de Gênero do MCTI que, dentre as atribuições, destacam-se a elaboração e coordenação das políticas de combate à discriminação de gênero na pasta, a proposição de ferramentas de prevenção, o fomento à transversalidade da abordagem de gênero em pesquisas nacionais e internacionais e a elaboração e disponibilização da publicação anual Gênero no MCTI.
A Obmep é uma iniciativa do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), organização social ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O objetivo é revelar
e estimular talentos, além de incentivar o estudo da matemática no
Brasil. Em 2015, a olimpíada teve a participação de 47.580 escolas de quase todos os municípios do país. Na primeira fase, 17.972.333 estudantes foram inscritos. Os números revelam um entusiasmo de estudantes e professores com a matemática nem sempre visto nas salas de aula.
Segundo Marcelo Viana, diretor do Impa, muito mais que descobrir talentos, a iniciativa está mudando o ensino dessa disciplina.
“Em muitas escolas e municípios a Obmep vem ajudando a mudar a
cultura em torno da matemática, estimulando professores a ensinar
e os alunos a aprender a disciplina de modo muito mais motivador e ajudando a conectar com a experiência diária”, afirma.
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AVANÇOS
Os preços do petróleo não param de cair. Mas o que pode ser vantajoso para pro- prietários de carros está frustrando planos cuidadosamente elaborados para reduzir as emissões de dióxido de carbono.
12 Scientific American Brasil | Abril 2016
GALLERY STOCK
CONQUISTAS EM CIÊNCIA, TECNOLOGIA E MEDICINA
NÃO DEIXE DE LER
• Marca-passos arrítmicos podem melhorar a saú- de do coração
• Usina de Fukushima continua em crise cinco anos após acidente nuclear
• Bactérias usam sinalização elétrica como as célu- las do cérebro
• Químicos captam transição em uma reação
MEIO AMBIENTE
Petróleo barato prejudica clima
Tecnologia que pode ser crucial para conter o aquecimento global tem futuro incerto
É agora ou nunca. Há alguns meses, nas negociações climáticas em Paris, o presidente Barack Obama e muitos outros líderes mundiais discutiram exaustivamente a importância de se reduzir a poluição por dióxido de carbono (CO 2 ) associada à queima de carvão, a maior fonte de gases de efeito estufa. Até agora, só há um jeito de fazer isso sem acabar de vez com a ampla uti- lização desse combustível fóssil: a captura e o armazenamento de carbono (CCS, na sigla em inglês), um processo através do qual o CO 2 é retirado de uma chaminé antes que escape para o ar e depois enterrado no subsolo profundo. Quase todos os planos para mitigar o aqueci- mento global incluem o CCS. No entanto, poucos países adotaram a tecnologia porque há poucos incentivos para fazer o dispendioso investimento. Há várias décadas, porém, os EUA encontraram uma maneira esperta de tornar o método econo- micamente viável: vincular o sistema CCS à recu- peração de petróleo. Mas, embora o esquema parecesse funcionar, os baixos preços do petróleo agora estão colocando a CCS, e consequentemen- te quase todos os planos de “limpeza climática”, em risco. Operários de campos petrolíferos injetaram CO 2 nos poços pela primeira vez em 1972. Cha- mada recuperação avançada de petróleo (EOR, na sigla em inglês), a técnica aumenta a quanti- dade de petróleo produzida por um poço porque
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ROGELIO V. SOLIS AP Photo
AVANÇOS
A empresa de petróleo e gás Denbury Resources (à esquerda) compra poluição de dióxido de carbo- no (CO 2 ) de uma usina elétrica movida a carvão próxima (à direita) para recuperar petróleo nas profundezas do estado do Mississippi.
o gás facilita seu fluxo, restaura a pressão subterrânea para forçar a subida de mais petróleo para a superfície, e pene- tra em fendas e recessos que outras for- mas de auxílio, como água, simplesmen- te não alcançam, fluindo ao redor deles. Durante o processo, uma porção do CO 2 fica presa, retida no subsolo como o petróleo antes dele. “Ele permanecerá ali por toda a eternidade”, explica Richard Esposito, geólogo que traba- lhou no desenvolvimento do sistema CCS na companhia de energia elétrica a carvão Southern Company. Esse mecanismo, usar CO 2 para extrair petróleo, é um dos poucos que tornam a captura de carbono economicamente compensadora, observa Julio Friedmann, principal vice-secretário assistente para energia fóssil no Departamento de Ener- gia dos EUA (DOE, na sigla em inglês). “A EOR tem sido o modo dominante de armazenamento porque produz receita”, explica ele. Em outras palavras, o sistema potencialmente satisfaz companhias de petróleo e ambientalistas. Com a possibi- lidade de fazer dinheiro, alguns projetos de EOR apareceram ao redor dos EUA
14 Scientific American Brasil | Abril 2016
nas últimas décadas. No campo petrolífe- ro de Tinsley, no Mississippi, por exemplo, a companhia de petróleo e gás natural Denbury Resources começou a inundar poços com CO 2 em março de 2008 e agora recicla cerca de 19 milhões de metros cúbicos do gás diariamente, aumentando sua produção de 50 barris/dia para mais de nove mil barris por dia. De fato, a Denbury e várias outras empresas que utilizam a EOR precisam de tanto CO 2 que recentemente fizeram contratos para comprar a poluição pro- veniente de uma nova usina a carvão em Kemper County, no Mississippi, o que é, na realidade, a verdadeira meta final do esquema. Esse assim chamado CO 2 antropogênico agora constitui aproximadamente um quarto (25%) de todo o CO 2 utilizado para esse tipo de recuperação de petróleo (o resto vem de depósitos naturais encerrados, presos em domos geológicos). A relação entre CCS e EOR, no entan- to, é frágil. Como o preço do petróleo despencou tão drasticamente nos últi- mos dois anos, enterrar CO 2 já não com- pensa mais. A contínua queda dos pre-
Como o preço do petróleo despencou tão drasticamente nos últimos dois anos, enterrar dióxido de carbono não compensa mais.
ços dificultou que empresas de EOR arrecadem dinheiro suficiente para pagar por novos maquinários, como bombas, compressores e oleodutos espe- cializados, explicou Dan Cole, vice-pre- sidente de desenvolvimento comercial e relações governamentais da Denbury. A maior prestadora de serviços para cam- pos petrolíferos do mundo, a gigante Schlumberger, já fechou sua unidade de serviços para armazenamento de carbo- no, que deveria transformar o CO 2 em um negócio estável, e outras empresas estão considerando medidas similares. Esses fechamentos poderão atrapalhar consideravelmente os esforços de des- poluição climática tão cuidadosamente
HENRY STEADMAN Getty Images (coração)
delineados em relatórios recentes da Agência Internacional de Energia (AIE) e do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, na sigla em inglês). Paralelamente, essa relação proble- mática pode destacar a ironia de se elaborar cenários de salvação planetá- ria que se baseiam na extração de petróleo. Afinal, queimar o combustí- vel fóssil adicional ao se injetar CO 2 no subsolo profundo resulta na produção de mais CO 2 que será injetado na atmosfera, provocando um aqueci- mento global ainda maior. Existem, porém, soluções alternati- vas para pagar pela captura e o arma- zenamento de carbono, embora elas ainda estejam longe de serem aplica- das. Uma forma de incentivar direta- mente o “sepultamento” da poluição de CO 2 , por exemplo, é instituir um crédito fiscal de US$ 50 por tonelada para esse sequestro de carbono, expli- ca Friedman do DOE. E acrescenta: “A dura matemática do acúmulo atmosfé- rico deixa claro que a CCS tem de ser uma solução climática”. —David Biello
SAÚDE
Fora do ritmo
Interrupção de marca-passo
pouco de falta de compasso? Para responder à questão, Kass e cole- gas implantaram marca-passos em 23 cães, 17 dos quais foram induzidos à insu- dia, o marca-passo em oito dos animais do restante de cada dia, o dispositivo Após quatro semanas, os princi- nos cães com marca-passos progra- publicados em dezembro em Science Translational Medicine,
O tratamento pode ser comparado à reação do corpo após uma vacina.
convencionais sobre a terapia de ressin- cardiologista do Hospital Presbiteriano de Nova York e da Weill Cornell Medical Col- atenuado provoca uma resposta imune de proteção, expor o coração a uma
essa abordagem em humanos, mas outros cardiologistas já se interessaram
Às vezes compensa estar fora de sin- per intencionalmente o ritmo das contra- Quando são implantados marca-passos
para restabelecer um ritmo favorável, um processo conhecido como terapia de res- muitas vezes acaba mais forte do que em
diretor do Centro Johns Hopkins para
Cardiobiologia Molecular, a fazer uma
—Jessica Wapner
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AP PHOTO (esquerda); GETTY IMAGES (centro e direita)
AVANÇOS
Por um futuro indeterminável, sacos de resíduos nucleares contaminados serão guardados em lotes de armazenamento temporário no Japão.
EM NÚMEROS
2020–2021
2051–2061
US$ 100 billhões
3.200
1.000
FONTES: “THE WORLD NUCLEAR INDUSTRY STATUS REPORT 2015”, MYCLE SCHNEIDER E ANTONY FROGGATT; JULHO DE 2015 (quatro primeiros itens); “ACCOUNTING FOR LONG-TERM DOSES IN ‘WORLDWIDE HEALTH EFFECTS OF THE FUKUSHIMA DAIICHI NUCLEAR ACCIDENT’”, JAN BEYEA ET AL., EM ENERGY & ENVIRONMENTAL SCIENCE, VOL. 6, Nº 3; 1º DE MARÇO DE 2013 (último item)
ENERGIA
Fukushima hoje
Local do desastre nuclear continua
Em março fez cinco anos que um tsuna-
mi devastador se abateu sobre a costa nor-
deste do Japão, provocando o pior desastre
çando sobre um quebra-mar de 10 metros
de altura, as ondas arrasaram as redes elé-
tricas e causaram um blecaute na usina
sistemas de refrigeração falharem e metade dos seus núcleos de urânio se superaque- cerem, derreterem e vazarem de seus con-
nuvem de contaminação forçou cerca de Ex-moradores provavelmente não retor- sua operadora, a Tokyo Electric Power
resfriadas, gerando uma incessante fonte
atrás da usina agora se mistura com mate-
dia de água contaminada e armazena toda
sido processada para reduzir a concentra-
câncer de tireoide em crianças que viviam embora seja cedo para dizer se esses casos
Abe enfatizou a necessidade urgente de
planeja retomar seu compromisso com a
reiniciar as usinas de energia nuclear do
duas foram reativadas e estão em pleno —Madhusree Mukerjee
16 Scientific American Brasil | Abril 2016
BIOLOGIA
Sinais elétricos
jeito que células do cérebro
Apesar de serem unicelulares, as bac- térias podem se comportar coletivamente, compartilhar nutrientes, se mover junto se deslocam de uma célula a outra possibi- litam esse comportamento grupal em um processo de sinalização chamado quorum sensing outras por meio de sinalização elétrica, um mecanismo que antes se acreditava ocorrer bactéria do solo Bacillus subtilis crescia e se desenvolvia em comunidades de mais de um milhão de células, e ainda assim pros-
uma vez que a colônia atinge um tamanho reproduzir para deixar células nucleares Mas como as células da borda recebem descobriu que os sinais intercelulares nesse
QUÍMICA
MIT, e colegas excitaram acetileno com um passa de uma estrutura linear para uma mente, o acetileno vibrou à medida que foi absorvendo luz a intensidades maiores, mas no instante antes de passar de linear proporcionando uma janela para observar
que a molécula passa por cima do cume
sem, a equipe pôde caracterizar proprie- mente no periódico Science monitorar o estado de transição da conver-
Nem cá, nem lá
Pela primeira vez, pesquisadores medem o fugaz momento em que substâncias se transformam em
rado estados de transição como instáveis e
medir a energia de um desses estados tran-
ladeiro de montanha determina quanto tempo um trilheiro levará para chegar ao pico, as propriedades energéticas de um estado de transição regem quanto tempo
Baraban, então estudante de graduação no
Ilustração de Thomas Fuchs (bactérias); Ilustração de Jen Christiansen (quadro-negro)
desses canais podem mudar as cargas de células vizinhas, induzindo-as a transmitir sinais elétricos de uma célula eles também são usados para coordenar o estudo foi publicado na Nature A sinalização elétrica desse tipo tam- bém é o modo como neurônios em nosso como organismos unicelulares estão ofere- portamentos multifacetados, isso pode não —Diana Kwon
esse breve momento “é importante onde poderia permitir que cientistas projetem carros com melhor desempenho de quilo- —Charles Schmidt
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AVANÇOS
FAZENDO NOTÍCIAS
Notas
rápidas
Kelly é “uma metade” do estudo de gêmeos da Nasa; esse tempo.
primeira vez desde 1967. O
TAXONOMIA
Enigma
classificatório
provavelmente, quando biólogos e gestores de amostras de uma espécie sem conferir ou consultar colegas Em outros casos, uma amostra pode ser desig- ro, se o nome de sua espécie
for inicialmente indeterminado ou
embora os pesquisadores acreditem que o
Mas tanto Thiers como Scotland concordam ciente apoio para a gestão na uma categori- zação consistente- mente correta de milhares e milhares de espécimes uma tarefa desencora-
Incontáveis espécimes de museus ostentam nomes equivocados
Mais da metade dos espécimes vegetais guardados em herbários podem estar eti- quetados erroneamente, e o problema
também poderia se estender a outros tipos publicado em equivocadas podem estar difundidas, pes-
problema seja mais predominante em cole-
mes de glórias-da-manhã como estudos de de dos nomes associados a esses espéci- A nomenclatura errada surge, muito
como os bancos de dados on-line The Por que todo esse alvoroço? Nomes errados podem interferir em pesquisas sobre um organismo e atrapalhar ou impe- —Jennifer Hackett
brados, eles suspeitam que nomes errados também proliferem de maneira pratica- Alguns especialistas, entre eles Barbara Thiers, diretora do Herbário William & Lyn- da Steere, do Jardim Botânico de Nova
18 Scientific American Brasil | Abril 2016
Ilustração de Thomas Fuchs
CORTESIA DE NIC BENNER Universidade de Missouri
GENÉTICA
rendo pelo cercado com os outros, tossin- resultados do estudo foram publicados no periódico Nature Biotechnology Este trabalho e outros experimentos
Você pode editar um porco, mais ele ainda será um porco
que pode acon-
tecer a um suinocultor é ter uma pocilga ela foi designada a doença economica- tando aos produtores na América do Nor- maioria das vacinas falhou em impedir a
versidade de Missouri, pode ser um ponto equipes a desenvolver uma aplicação
manipulação genética que permite que
siasmo na comunidade de pesquisa, por-
Cas9 é promissora para os cuidados de
técnica para criar vacas leiteiras mochas,
de Missouri, recorreram à técnica para editados foram colocados em um curral
Cerca de cinco dias depois, os animais
compartilharem um espaço apertado com ceram em excelente estado de saúde laram que os animais editados não
chifres removidos rotineiramente para proteger fazendeiros e evitar que outros bovinos sejam feridos, mas o processo pode ser brutalmente doloroso e perigo- mente também serão produzidos dessa geneticista que trabalhou no desenvolvi- —Monique Brouillette
Vá para a página 88 para conhecer mais sobre
o papel da tecnologia CRISPR em agricultura
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TECNOLOGIA
Emaranhados
David Pogue
A melhor tecnologia do ano passado não foi um modelo de
celular ou um aplicativo. Foi um novo tipo de cabo, o USB tipo-C
(ou USB-C). Por ele ter as duas extremidades iguais, nunca é preci- so conferir seu lado certo de conectar. Seu conector é perfeitamen- te simétrico — conecta em qualquer posição.
O USB-C pode substituir quatro conectores diferentes de seus
acessórios: dados, vídeo, energia e em breve, áudio. É isso mesmo:
um único conector pode suportar flash drives, disco rígido, moni- tor, projetor, alimentação e fones de ouvido (simultaneamente se houver um divisor de sinal). No entanto, o conector é pequeno para fones e tablets, e ao mesmo tempo robusto o suficinte para laptops e PCs. Todos os dispositivos de qualquer marca podem ser usados com o mesmo cabo. Você pode usar o carregador do meu Google phone para carregar seu laptop Apple, ou o tablet Microsoft de outra pessoa. Chega de gavetas cheias de adaptadores, conversores de todos os tipos. Em outras palavras, o USB-C representa o des- pontar do cabo universal.
20 Scientific American Brasil | Abril 2016
David Pogue é colunista-âncora do Yahoo Tech e apresentador das minisséries na rede pública de tevê PBS.
É um milagre que o USB-C possa existir, pois os acessórios se
tornaram um grande negócio. A Apple, por exemplo, ganha quan-
tidades absurdas de dinheiro vendendo cabos. Observadores críti- cos acusam-na de mudar os tipos de conector deliberadamente, apenas para aumentar a venda de acessórios.
A Apple não está sozinha. Um carregador para um laptop Win-
dows custa de US$ 60 a US$ 80. Várias dessas grandes empresas criaram juntas o USB tipo–C padrão, e muitas outras o adotaram.
A questão é: Por que esses arqui-inimigos criaram juntos um car-
regador intercambiável com todos os dispositivos e marcas, elimi- nando o direito de patente da indústria de carregadores? Brad Sounders, da Intel, é presidente do Grupo Promotor do USB 3.0, que congrega seis empresas que desenharam o USB tipo-
-C (inclusive Intel, Hewlett-Packard e Microsoft). Ele afirma que a principal razão do projeto foi a velocidade. Era impossível deixar ainda mais rápido um conector USB comum de 20 anos. “Ao mesmo tempo” ele comenta, “os PCs estavam mudando, tornando-se mais finos e leves. O conector USB existente era gran- de demais. E não era mais tão amigável ao usuário como costuma- va ser: você pode conectá-lo de forma errada.” Mas, certamente, perguntei a ele, se essas empresa sabiam que projetar Um Cabo Para Padronizar Todas Elas significava que elas perderiam grandes somas na venda de carregadores patenteados. “Bem, a primeira obrigação é gerar lucros para a empresa”, ele admite. “Mas com o passar do tempo fomos motivados pela pers- pectiva de que poderíamos mudar o mundo a partir de uma visão verde. Se pudéssemos padronizar todas essas fontes de alimenta- ção, poderíamos reduzir o desperdício. Começamos a perceber que poderíamos produzir um impacto real.”
É estranho imaginar todos esses inimigos mortais trabalhando
juntos, lado a lado, para criar um novo padrão pelo bem comum. “Trabalhar com padrões é meio estranho”, observa Jeff Raven- craft, presidente do Fórum de Implementadores de USBs. “As empresas trabalham juntas para assar uma torta maior, para expandir o mercado para seus produtos. Mas uma vez pronta, eles precisam competir para conseguir abocanhar o maior pedaço da
torta. Você coopera no começo, mas no final compete feito louco.”
E o cabo já está disponível. Alguns dos últimos modelos de tele-
fones celulares, tablets e laptops da Google, Apple, Microsoft, Sam- sung e outros já vêm com conectores USB-C embutidos. Você pode estar pensando que só o mais maluco dos nerds se
empolgaria com o USB-C. No entanto, nos próximos anos essa invenção poderá gerar economia na compra de fios, adaptadores e
carregadores duplicados. Ele permitirá que aparelhos eletrônicos
se tornem menores e mais rápidos. E mais espaço livre nas gave-
tas, malas, bolsas e mochilas de laptops. E contribuirá para reduzir
as toneladas de lixo eletrônico depositadas nos aterros sanitários. Se isso não qualifica o USB-C como a invenção do ano, eu não sei o que pode qualificá-lo.
é neurocientista e divulgador da ciência. Licenciado em física, mestre em bioquímica e doutor em UFRGS. Coordena a mais antiga disciplina de exobiologia em uma universidade federal no Brasil.
Na longa trilha rumo ao conhecimento do Universo
Jorge Quillfeldt
“Mais luz!” teria dito Goethe em seu derradeiro suspiro, tal- vez para não perder a oportunidade de uma última metáfora. E não faltam metáforas relacionadas com esse maravilhoso senti- do que nos domina – a visão: na explicação, “se esclarece”, no parto, “dá-se à luz”, na esperança, “vê-se a luz no fim do túnel”, no reconhecimento, “brilha com luz própria” e no desvendamento de que era “invisível”, “traz-se à luz do dia”. Igualmente, abun- dam locuções evocando o oposto da luz.
2015 foi escolhido pela ONU para ser o Ano Internacional da Luz (AIL), a começar pelos mil anos da obra de Ibn Al-Haytham, pioneiro da óptica, proto-renascentista e primeiro físico teórico – é sempre bom quando se relembram os esquecidos pioneiros árabes da ciência moderna. Também foram homenageados Augustin-Jean Fresnel (comportamento ondulatório da luz, 1815), James Clerk Maxwell (teoria eletromagnética da luz, 1865),
Albert Einstein (efeito fotoelétrico, 1905, e relatividade geral de 1915, teorias em que a luz tem papel central), além de Arno Pen- zias e Robert Wilson (radiação cósmica de fundo, 1965), e Char- les Kao (fibras ópticas nas comunicações, 1965). Tão completa celebração suscita a questão: o que mais pode a luz contar-nos que já não saibamos?
O cinema, uma das “tecnologias da luz” que há mais de um
século nos entretém, ocasionalmente até nos “ilumina”. É aqui que entra um trabalho que, a meu ver, elevou a metáfora da luz a um novo patamar: trata-se do surpreendente “Nostalgias de la Luz”
(2010), do grande cineasta chileno Patricio Guzmán. Aos que ain- da não assistiram, recomendo fazê-lo antes de prosseguir a leitura (o documentário pode ser assistido diretamente na rede).
O filme começa com o que parece ser um simples documentá-
rio sobre a notável astronomia realizada hoje no Chile, sede de alguns dos maiores e melhores telescópios do planeta devido à combinação do clima extremamente seco com a altitude do deser- to do Atacama. A astronomia é a ciência que estuda o Universo precisamente mediante a luz que nos chega d´alhures. Decom- pondo-a, não apenas sabemos de estrelas e de galáxias, mas inferi- mos o que se passa em seu interior, a origem dos elementos quími- cos, o começo de tudo. Como a luz propaga-se com velocidade fixa, tudo que “vemos”, inevitavelmente, já aconteceu: de fragmentos de segundos atrás – a distância que nos separa dos objetos refleti- dos a nossa volta – até os milhares, milhões ou bilhões de anos pas-
OBSERVATÓRIO
sados desde que foram produzidos aqueles fótons finalmente cap-
turados pelos astrônomos. A luz sempre nos informa do passado, e de certo modo define o próprio tempo. No Chile, consórcios internacionais que incluem o Brasil administram grandes complexos de instrumentos ópticos que chegam a rivalizar com telescópios em órbita: no altiplano seco, a atmosfera interpõe-se menos inoportunamente no caminho da luz dos astros, e novas tecnologias quase compen- sam a perfeição do vácuo espacial. Descrevendo tal clima particular, o autor nos faz então saber que esse mesmo deserto, tão seco que preserva, em notável estado de conservação, até mesmo múmias pré-colombianas, vem trazendo à luz outros fatos: Guzmán conta a história de mulheres locais que procuram até hoje os corpos de seus filhos desaparecidos na ditadura que assolou o país entre 1973 e 1989.
A incessante e dolorosa busca dá-se de forma quase invisível,
pelo desconhecimento da maioria de seus compatriotas e de muitos de seus cientistas-visitantes. Entretecendo conexões à moda de James Burke em sua notável
série de documentários homônimos, Guzmán prossegue a refle- xão: como é possível que, das areias do Atacama – de cujos silica- tos também pode-se fabricar lentes, espelhos e chips eletrônicos – possa a humanidade “ver tão longe”, aprendendo tanto acerca do Universo, sem “enxergar tão perto”, esquecendo do horror? A quem lhes pareça uma associação forçada, quiçá impertinen- te, não custa lembrar que o não visto não é sentido. Pacientemente, Guzman puxa improváveis fios e os entrela- ça numa inesperada tessitura. Entrevista cidadãos de vidas muito diferentes, mães e cientistas, vítimas da repressão chile- na e interlocutores acidentais daqueles questionamentos. Mas não o faz para denunciar omissão ou descaso. Tenta evidenciar
o grande ausente neste emaranhado de temas aparentemente
desconexos, e que, ao cabo, cinge-os todos juntos: a memória. A amnésia coletiva de um povo que se recusa a conhecer-se e acertar contas com seu passado tão próximo talvez mescle dois tipos de alienação, a involuntária e a voluntária. Exceto por essas mães, que, com luz própria, recusam-se a aceitar o desa- parecimento daqueles a quem, um dia, elas próprias deram à luz. Seus entes queridos, brutalmente ceifados por um tsunami político que durante décadas assolou esse continente. Sem sabê-lo, decifram o último enigma do tempo, o da esperança: só recordando podemos evitar a repetição de semelhantes tragé- dias. Em sua saudável teimosia, talvez a luz no fim do túnel. As improváveis, mas mais que necessárias associações desse fil- me, redefinem a própria linguagem cinedocumental, criando uma nova modalidade que poderíamos chamar de “sociometafísica”.
De posse desse novo artifício narrativo, Guzmán evoca a única coi-
sa que, ao cabo, nunca deveríamos perder na longa trilha rumo ao conhecimento do Universo. Nossa humanidade.
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CIÊNCIA
DA SAÚDE
A doença da pobreza
Michael Marmot
Nas áreas mais negligenciadas, deterioradas e dilapidadas de Baltimore, homens vivem em média 20 anos a menos do que os que moram nas vizinhanças mais verdes e prósperas da cidade. Números como esses mostram por que a pobreza e a falta de aces- so a cuidados médicos com frequência são apontados como os cul- pados pela saúde precária nos EUA. Mas não se trata de uma sim- ples equação dinheiro = saúde. Outros dados tornam isso claro. Segundo padrões globais, os pobres dos EUA são fantastica- mente ricos e, no entanto, morrem antes do que os pobres de ou- tros países. Na parte mais pobre de Baltimore, em 2010, a renda média domiciliar era de US$ 17 mil por ano, enquanto na Índia era
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Sir Michael Marmot dirige o Instituto de Igualdade na Saúde (Institute of Health Equity) na University College London e é presidente da Associação Médica Mundial em 2015-2016. Seu livro, (A lacuna da saúde, em tradução livre) foi publicado pela Bloomsbury em 2015.
de US$ 5.150 após o valor ser ajustado em relação ao poder de compra. No entanto, os homens nessa parte de Baltimore têm expectativa de vida menor – 63 anos – do que a média na Índia, de pouco mais de 65 anos. Esses cidadãos têm mais do que o triplo do poder de compra médio dos indianos e, no en- tanto, têm quase dois anos a menos para viver.
O problema não se limita aos pobres nos EUA, onde um
jovem de 15 anos tem 13% de chance de morrer antes de che-
gar a 60 anos. Esse risco de morte, calculado em 2012, é o do- bro da probabilidade de jovens como ele na Suécia, pratica- mente igual na Turquia, Tunísia, Jordânia e República Domi- nicana, e muito maior que na Costa Rica, no Chile e em Cuba. Mesmo tendo o maior gasto com saúde do mundo, a taxa de sobrevivência nos EUA é menor que em outros 51 países.
A fim de melhorar a saúde, precisamos parar de culpar os
sofredores e olhar não somente para a falta de dinheiro, mas também para a escassez de outros recursos. Minha pesquisa, assim como a de outros cientistas, aponta o dedo para a fragi- lização social e psicológica, para o sentimento pessoal de marginalização na sociedade, como fatores com efeitos maio- res do que somente a falta de dinheiro. Quando as pessoas se sentem privadas em relação aos outros a seu redor, o estresse aumenta, e daí a saúde sofre. Felizmente, a pesquisa também indica que as intervenções feitas junto aos pais – ao ajudar a melhorar suas habilidades em educar, por exemplo – dão um poder profundo aos filhos. Isso, por sua vez, parece estar liga- do a uma vida inteira de saúde melhor.
INCLINAÇÃO SOCIAL
Sou especialista em saúde pública e epidemiologista. In- vestigo os motivos das desigualdades na saúde há mais de 35 anos. Fiz a primeira descrição da conexão entre o status so- cial de uma pessoa e sua saúde nos Estudos Whitehall, feitos com servidores civis britânicos. Nenhum servidor civil é pobre ou está desempregado, e nenhum é tão rico quanto um banqueiro ou ad- ministrador de fundos de investimento. No entanto, entre esses homens e mulheres, trabalhadores administrativos, quanto mais alto seu cargo, maior é sua expectativa de vida e melhor é a sua saúde. Isso ficou conhecido como gradiente social. Não se trata so- mente de dinheiro, mas de um conjunto completo de fatores socio- econômicos, e do modo como eles dão um sentido de controle so- bre a vida da pessoa e como a pessoa vê sua posição na sociedade em relação aos outros. Em meu livro The health gap (A lacuna da saúde), faço essa conexão nos EUA. Alguém posicionado no meio da curva de distribuição de renda nesse país tem uma saúde pior que as pessoas com renda maior, mas uma saúde melhor que as pessoas mais pobres. Se usarmos a educação como medida, encon- tramos a mesma coisa: mais anos de educação significam uma ex- pectativa de vida mais longa e saúde melhor.
Ilustração de Thomas Fuchs
CIÊNCIA
DA SAÚDE
Os céticos argumentarão que as causas mais comuns de morte, como diabetes, doença cardiovascular e câncer, estão ligadas a
problemas de estilo de vida, como fumar e obesidade, e não à fragi- lização ou à falta de poder. Observemos com maior profundidade. Fumar segue o gradiente social: quanto mais baixa a posição so- cial, mais se fuma. A obesidade também segue o gradiente. Vendo tendências sociais como essas, é inadequado perguntar por que uma pessoa não segue conselhos sobre saúde e se expõe a causas de má saúde. Devemos procurar as causas das causas – as condi- ções sociais que levam a estilos de vida não saudáveis. Por exemplo, na Grã-Bretanha, quanto mais carente em termos econômicos é uma
região ou uma vizinhança, menor a propor- ção de crianças de cinco anos de idade com bom nível de desenvolvimento cognitivo, lin- guístico, social, emocional e comportamen- tal. Mas a privação não tem o mesmo efeito em todos os lugares. Por exemplo, uma área como essa terá uma proporção maior de crianças prontas para entrar na escola. Essas descobertas sugerem que somente a privação não determina como as crianças vão se sair. Algo mais interfere, principalmente as varia- ções no nível de formação dos pais. Para testar a contribuição das atividades dos pais para o gradiente social no desenvol- vimento das crianças, um grupo entre nós,
agora na University College London, liderado por Yvonne Kelly, analisou dados da pesquisa U.K. Millennium Cohort Study. Perguntamos a mães de filhos com três anos de idade se era importante conver- sar com eles e abraçá-los, e cerca de 20% delas negaram que essas atividades fossem importantes. Nossas análises sugerem que cerca de um terço do gradiente social em desenvolvimento linguístico e de metade desse indicador em desenvolvimento social e emocio- nal possa ser atribuído a diferenças nas atitudes dos pais.
Em 2010, apenas três anos após o início do programa, a propor- ção de crianças com cinco anos com bom nível de desenvolvimen-
to em Birmingham subiu e atingiu a média nacional. Estudos mais detalhados sobre as ações do programa indicaram que elas foram
a causa por trás do efeito. Nos EUA, Holly Schindler, da Universi- dade de Washington, Jack Schonkoff, da Universidade Harvard, e outros, mostraram recentemente que o foco no desenvolvimento infantil precoce na família, nesses mesmos parâmetros, reduziu fortemente os problemas de comportamento em crianças jovens. Na Costa Rica, no Chile e em Cuba os índices de crianças matri- culadas na pré-escola e seu desempenho no topo do nível de leitura no sexto ano são os
maiores da América Latina. Esses também são os três países com a expectativa de vida mais longa na região. Há uma relação de cau- sa e efeito que passa por desenvolvimento in- fantil fraco, baixo desempenho escolar, renda baixa, emprego inseguro, trabalho e condi- ções de vida estressantes, estilo de vida insalu- bre e saúde ruim. Diversos sistemas biológi- cos amarram estresses sociais a reações físi- cas. Por exemplo, quando o cérebro reage ao estresse, o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal no sistema nervoso aumenta a produção do hormônio cortisol, que pode suprimir as res- postas imunes. Crianças de famílias em des- vantagem têm mais probabilidade de estresse,
ativando esse eixo com frequência. Há outra estratégia para reduzir o gradien- te social no desenvolvimento infantil: a trans- ferência de renda de impostos para reduzir a desigualdade econô- mica. Impostos cobrados dos mais ricos podem pagar por progra- mas governamentais de benefícios para famílias mais pobres. Comparemos dois países ricos, EUA e Austrália. De 2007 a 2009, 25% das crianças nos EUA estavam na pobreza, enquanto na Aus- trália, 28% estavam nessa condição. Após os programas de benefí- cios, nos EUA os níveis de pobreza caíram para 23% e, na Austrá- lia, para 11%. Claramente, transferências de renda podem reduzir
a desigualdade, e os EUA escolheram não usar essa estratégia. O fato de a infância poder ter efeitos sobre as desigualdades na saúde dos adultos tem implicações convincentes. Politicamente, significa que a sociedade deveria dedicar mais recursos para in- tervenções precoces. Moralmente, se torna mais difícil culpar os adultos pobres por sua pobreza e sua má saúde. Cientificamente, precisamos de mais pesquisas acerca dos efeitos negativos de lon- go prazo de experiências na infância, uma vez que parece que algu- mas consequências podem ser reversíveis. Novas descobertas po- dem sugerir abordagens mais eficazes. A ciência já feita dá bons motivos para que sejamos otimistas.
Há relação de causa e efeito entre desenvolvimento infantil fraco, baixo desempenho escolar, baixa renda, emprego inseguro, estilo de vida insalubre e saúde ruim
PODER DOS PAIS
Dar apoio aos pais, no entanto, pode causar rapidamente uma diferença na vida dos filhos deles. Boas evidências disso vêm de pesquisa na cidade inglesa de Birmingham. Em 2007, 40% das crianças dessa cidade com cinco anos tiveram boa pontuação em medidas de desenvolvimento social, cognitivo e comportamental, quando a média nacional inglesa foi de 46%. Então, naquele ano, Birmingham decidiu tentar mudar essa situação. Foi instituído o programa Futuros Melhores para suas 260 mil crianças. O objetivo era adotar ações que foram eficazes em outros lugares, orientando pais como ler, cantar, conversar, ensinar e interagir de outras for- mas com as crianças, a fim de fomentar seu desenvolvimento.
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NASA/ESA/P. OESCH
DESAFIOS DO COSMOS
Salvador Nogueira é jornalista de ciência especializado em astronomia e astronáutica. É autor de oito livros, dentre eles e .
Um mergulho- recorde no passado do Universo
da expansão dos Cosmos
Salvador Nogueira
Não há dúvida de que o astrônomo Edwin Hubble revolu- cionou nosso entendimento do Cosmos. Primeiro, ao mostrar que muitas das nuvens difusas observadas ao telescópio não eram nebulosas em nossa própria Via Láctea, mas outras galá-
xias como a nossa, compostas por bilhões de estrelas e localiza- das a distâncias fabulosamente maiores do que se supunha antes. Não contente em alargar nosssos horizontes cósmicos, Hubble ainda demonstrou, em 1929, que esses horizontes estavam crescendo mais a cada minuto que passava – todas as galáxias pareciam estar fugindo umas das outras, num Univer- so em expansão.
A julgar pelo legado de Hubble, não surpreende que o
telescópio espacial que carrega o seu nome continue até hoje
a fazer exatamente isso – alargar nossos horizontes. Em mar- ço, um grupo internacional de astrônomos anunciou ter mais uma vez quebrado o recorde de distância na observação de uma galáxia. Com efeito, os pesquisadores liderados por Pascal Oesch, da Universidade Yale, nos EUA, fizeram o maior mergulho no tempo já realizado na astronomia óptica. Lembre- se: como a velocidade da luz é finita, quan- to mais longe olhamos, mais estamos ven- do o passado. A luz da galáxia que agora chegou ao Telescópio Espacial Hubble partiu de seu local de origem quando o Universo tinha 400 milhões de anos. Levou, portanto, 13,4 bilhões de anos até que ela chegasse a nós.
James Webb, com lançamento marcado pela NASA para 2018. Com isso, ele prefigura algumas das potenciais descobertas que são esperadas para os próximos anos, com a revelação do nascimento das primeiras estrelas e galáxias do Cosmos. Os astrônomos estimam que essa galáxia recém-observada, denominada GN-z11, represente uma época em que as estrelas ainda estavam iniciando o processo de dissipar o gás difuso presente em todo o Cosmos – etapa conhecida pelos cosmólo- gos como a era da reionização. Como então o Hubble conseguiu enxergá-la, em meio a esse breu espacial? Aparentemente, essa galáxia está produzindo estrelas num ritmo 20 vezes maior que o da Via Láctea hoje. O brilho “vitaminado” desses novos astros foi o que permitiu a detecção. E aí vem a segunda razão para o encantamento:
nenhum modelo teórico sugeria a presença de galáxias tão grandes quanto GN-z11 nessa época. A recordista anterior, EGSY8p7, também estudada pelo Hub- ble (no ano passado!), representa uma época significativamente mais recente, cerca de 170 milhões de anos depois – momento em que a reionização já estava quase completa. Quando o James Webb estiver no espaço, ele será capaz de ver muitas galáxias nessa faixa de distância e então os astrôno- mos poderão formar um quadro mais claro do que estava acon- tecendo no Universo quando ele era praticamente um bebê. Quanto mais seguimos nos passos de Edwin Hubble e alarga- mos nossos horizontes, mais o Cosmos nos provoca a tentar desvendar seus mistérios.
A descoberta, publicada no periódico
Astrophysical Journal, encanta por duas razões. De início, porque ninguém espera- va que o Hubble fosse capaz de enxergar tão longe assim. Esse objeto está no limite absoluto de sua capacidade, e imaginava-se que só pudesse ser observado a contento com seu sucessor, o Telescópio Espacial
A galáxia mais distante já observada, graças ao Telescópio Espacial Hubble. Denominada GN-z11, ela representa uma época em que o Universo tinha apenas 400 milhões de anos
24 Scientific American Brasil | Abril 2016
RODRIGO GUILHERME CARVALHO MELO
ASTROFOTOGRAFIA
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As fotos precisam ser em alta resolução, com no mínimo 300 dpi, para serem publicadas.
CÉU DO MÊS
ABRIL
O astrofotógrafo Rodrigo Guilherme Car- valho Melo compartilha a imagem que fez da Nebulosa da Lagoa (M8), na con- stelação de Sagitário. O registro foi feito em Ituiutaba, no interior de Minas Gerais.
Lua cheia camufla sutis chuvas de meteoros
Chuvas de meteoros estão entre os fenômenos mais democráti- cos da observação celeste. Afinal, elas costumam ser visíveis em largas faixas do globo terrestre, não exigem instrumentos ópticos e propiciam belos espetáculos. Em abril, há duas delas, os Lirídeos e os Pi-Pupídeos, que têm seus picos respectivamente nos dias 22 e 24. Essa segunda chuva, inclusive, é exclusiva dos observadores do Hemisfério Sul. Contu- do, convém não se animar. Primeiro porque ambas são bem discretas. Segundo porque justamente na mesma época, a Lua atingirá sua fase cheia, e seu brilho costuma atrapalhar a observação de estrelas cadentes menos brilhantes. Se fosse necessário apostar em apenas uma delas, a melhor seria a dos Lirídeos. Apesar de ter seu radiante na constelação boreal da Lira, ela tem ao menos um comportamento mais regu- lar, com taxas anuais médias de 20 a 30 meteoros por hora, nas melhores condições de observação. As estrelas cadentes são resul- tado do encontro da Terra com a órbita do cometa C/1861 G1 (Thatcher), num fenômeno que tem sido observado pela humani- dade há mais de 2.600 anos. Caso você se anime a tentar, olhe na direção norte a partir das 4h da manhã, localizando-se pela estrela Vega, a mais brilhante de Lira.
Já os Pi-Pupídeos, que emanam da constelação austral da Popa, são fruto de detritos deixados pelo cometa 26P/Grigg-Skjellerup, mas andam extremamente discretos. Isso porque o cometa inte- rage fortemente com Júpiter em seu afélio, o que fez nos últimos anos com que seu periélio se deslocasse para mais longe do Sol que a órbita terrestre. Atualmente, sinais mais claros da chuva só apa- recem quando o cometa está em seu periélio – e mesmo aí de for- ma discreta. A próxima passagem do astro pelas nossas redonde- zas se dará apenas em 2018. Com as chuvas fugidias, a melhor aposta para o mês talvez sejam mesmo os planetas. Marte, Júpiter e Saturno são figurinhas fáceis, visíveis durante toda a noite. Marte e Saturno, por sinal, trafegam na mesma constelação, Ofiúco. O senhor dos aneis é ultrapassado pela Lua no dia 22, e o Planeta Vermelho se afigura próximo de nosso satélite natural dois dias depois, no 24. Júpiter estará em Leão. Quanto aos planetas interiores, tem um para o fim da tarde e outro para o início da manhã. Mercúrio pode ser encontrado logo após o pôr do Sol e atingirá seu máximo afastamento aparente do astro-rei no dia 18. Já Vênus faz seu tradicional papel de Estrela D’Alva, visível ao amanhecer, pouco antes do nascer do Sol. Bons céus a todos! (S.N.)
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VISIBILIDADE DOS PLANETAS
MERCÚRIO
Primeiro em Peixes e depois em Áries. Muito próximo do Sol na primeira semana do mês para ser observado. Visível ao por do Sol, próximo da Lua em 8 e em máxima elongação em 18.
VÊNUS
Visível ao amanhecer na direção do nascente, muito próximo da direção do Sol, em Peixes. Próximo da Lua em 6.
MARTE
JÚPITER
Em Leão, visível durante toda a noite. Próximo da Lua em 17.
SATURNO
URANO
Em Peixes, muito próximo da direção do Sol para ser visível. Em conjunção com o Sol em 10.
NETUNO
Em Aquário. Visível ao amanhecer na direção do nascer do Sol.
DESTAQUES DO MÊS
Máxima elongação leste de Mercúrio. Visível ao anoitecer.
Máximo da chuva de meteoros Lirídeos.
Máximo da chuva de meteoros Pi-Pupídeos.
O
METEOROS LIRÍDEOS
CALENDÁRIO LUNAR
26 Scientific American Brasil | Abril 2016
N
S
CARTA CELESTE PARA O MÊS
Este mapa mostra todo o céu visível às 22h de 1º de abril, às 21h de 15 de abril e às 20h de 30 de abril a partir da latitude de 23°27’ Sul (Trópico de Capricórnio).
L
PASSAGEM DO SOL PELAS CONSTELAÇÕES *
Peixes de 12/03/2016 a 19/04/2016
Áries de 19/04/2016 a 14/05/2016
* O limite das constelações foi estabelecido pela União Astronômica Internacional em 1930, o que permite estabelecer, com grande precisão, os instantes de entrada e de saída do Sol em cada uma das 13 constelações que são atravessadas pela sua trajetória anual aparente, a eclíptica.
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DIA |
HORA |
EVENTO |
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3 |
02h50 |
Melhorocasiãoparavisualizarobrilho da Terra refletido na face escura da Lua minguantefalcada(luzcinérea).Ohorário refere-se ao nascer da Lua em São Paulo. |
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4 |
21h53 |
Netuno a 2,4°S da Lua. |
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6 |
03h51 |
Vênus a 0,8°S da Lua. |
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7 |
08h24 |
Lua nova. |
|
7 |
14h09 |
Lua no perigeu, menor distância da Terra (357.212 km). Diâmetro angu- lar aparente 33,9’. |
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10 |
00h26 |
Lua passa a 8,8°S do aglomerado estelar de Plêiades (Messier 45). |
|
10 |
00h43 |
Urano em conjunção com o Sol. |
|
10 |
00h50 |
Lua a 0,9°N de Aldebaran (alfa de Touro). |
|
10 |
17h56 |
Melhor ocasião para visualizar o brilho crescente falcada (luz cinérea).O horário refere-se ao pôr do Sol em São Paulo. |
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14 |
01h00 |
Lua em quarto crescente. |
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15 |
04h04 |
Lua a 4,9°S do aglomerado estelar de Praesepe (Messier 44). |
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16 |
22h40 |
Lua a 2,1°S de Regulus (alfa de |
|
Leão). |
||
|
16 |
23h04 |
Marte estacionário. Início do movimen- to retrógrado. |
|
18 |
03h30 |
Lua passa a 2,1°S de Júpiter. |
|
18 |
10h54 |
Mercúrio em máxima elongação a leste do Sol (20°). Visível ao anoi- tecer. |
|
21 |
06h41 |
Lua passa a 5,2°N de Spica (alfa de Virgem). |
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21 |
12h36 |
Lua no apogeu, máxima distância da Terra (406.382 km). Diâmetro angular aparente 29,0’. |
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22 |
– |
Máximo da chuva de meteoros Lirí- deos (cometa C/1861 G1 Thatcher). |
|
22 |
02h24 |
Lua cheia. |
|
22 |
11h15 |
Urano a 0,9°N de Vênus (conjun- ção). |
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24 |
– |
Máximo da chuva de meteoros pi-Pupídeos (cometa 26P/Grigg-Sk- jellerup) |
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25 |
00h30 |
Lua passa a 5,1°N de Marte. |
|
25 |
15h43 |
Lua passa a 3,9°N de Saturno. |
|
29 |
00h27 |
Mercúrioestacionário.Iniciandomovi- |
|
mentoretrógrado. |
||
|
30 |
00h29 |
Lua em quarto minguante. |
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NOVA ESPÉCIE HUMANA:
Homo naledi suscita questões sobre a origem e evolução de nosso gênero. Nesta réplica do crânio composto, áreas brancas indicam ossos ausentes.
EVOLUÇÃO
HUMANO
Uma surpreendente coleção de fósseis deixa cientistas, e a mídia, agitados sobre as nossas origens
Kate Wong
espeleólogos descobriram um tesouro de enigmáticos fósseis nas pro- fundezas de um sistema de cavernas sub- terrâneas conhecido como Rising Star,
EM SÍNTESE
perto de Johanesburgo, na África do Sul. duas expedições cientistasrecu- perarammais de1.550 espécimes pertencen-
tesapelomenos15indivíduosdolocal.
Em setembro passado, pesquisadores
revelaram a descoberta com grande alarde, anunciando que os ossos repre- sentam uma nova espécie, Homo naledi,
que põe em dúvida ideias de longa data sobre o surgimento do gênero Homo .
preocupações so-
bre a recuperação e análise dos fósseis.
www.sciam.com.br 29
PÁGINAS ANTERIORES: ISTOCKPHOTO (tachinhas); CORTESIA DE JOHN HAWKS Universidade de Wisconsin–Madison E UNIVERSIDADE DE WITWATERSRAND (todas as outras fotografias)
NA RECÉM-CRIADA “SALA-FORTE” DE fósseis da Universidade de Witwatersrand, em Johanesburgo, na África do Sul, o espaço nas prateleiras já é exíguo. Os armários, com portas de vidro, que se estendem pelas paredes do
recinto estão abarrotados de ossos de primitivos parentes humanos encontrados ao longo dos últimos 92 anos nas muitas cavernas da famosa região conhecida como “berço da humanidade”,
a apenas 40 km a noroeste da cidade. O acervo
sul-africano de humanos extintos estava classifi- cado há tempos entre as coleções mais ricas e abrangentes do mundo. Mas recentemente seu volume dobrou com a descoberta de centenas de espécimes em um sistema de cavernas conheci- do como Rising Star (Estrela Nascente, em tradução literal). De acordo com o paleoantro- pólogo Lee Berger e seus colegas, que desenter- raram e analisaram os fósseis, eles representam uma nova espécie de humano, batizada Homo naledi, que significa “estrela” na língua sotho local, que poderia invalidar de forma drástica algumas ideias profundamente arraigadas sobre
a origem e evolução do nosso gênero, Homo.
Berger está pronto para as câmeras em um blazer de couro marrom e prestes a iniciar seu discurso persuasivo e muito bem ensaiado diante dos cerca de dez jornalistas, inclusive eu, reunidos ao seu redor na sala de alta segurança, no final de 2015. Ele dirige a atenção dos visitantes para as seis maletas pretas, originalmente feitas para acomodar rifles, ou fuzis de assalto, dispostas sobre me- sas ao redor do recinto. Cada uma delas contém uma variedade es- tonteante de fósseis aninhados em seu interior forrado de espuma. Nos armários ao longo da parede dos fundos, mais ossos de H. na- ledi enchem dezenas de contêineres de plástico transparente, eti- quetados “fragmentos cranianos”, “pelve”, “rádio” [osso do braço]. Berger enfia a mão na maleta número dois, que contém as joias da coroa do conjunto de fósseis de Rising Star, o grupo de ossos que define a nova espécie, e retira um osso maxilar superior e uma mandíbula. Cuidadosamente, ele segura um sobre o outro e exibe o par combinado com um floreio praticado para que todos possam dar uma boa olhada. O grupo murmura com apreciação, canetas
30 Scientific American Brasil | Abril 2016
é editora sênior na .
BURACO NO CHÃO: Fósseis de Homo naledi foram encontrados em uma caverna no chamado “berço da humanidade”, na África do Sul.
rabiscam anotações, obturadores de câmeras clicam e flashes pi- pocam. Então ele passa para o próximo espécime enquanto res- ponde a perguntas, posa para fotos e convida os visitantes a tira- rem selfies com os célebres artefatos do depósito. Há apenas algumas décadas, a soma total de fósseis pertencen- tes a nossos parentes humanos extintos hominídeos, também cha- mados hominíneos, caberia em uma gaveta de escrivaninha. Esses dias de carestia já passaram há tempos. Desde então, cientistas acumularam mais evidências da história evolutiva da família hu- mana que de muitos outros grupos animais, inclusive de nossos parentes vivos mais próximos, os grandes primatas. Como resulta- do, eles agora sabem, por exemplo, que as raízes da humanidade remontam a, pelo menos, sete milhões de anos e que, durante grande parte desse tempo, nossos ancestrais compartilharam o planeta com outros hominídeos. Ainda assim, eles ainda têm muito a aprender. Alguns capí- tulos da história humana são completamente desconhecidos, ausentes do registro fóssil; outros foram esboçados com base em evidências tão escassas que mal passam de especulações. Assim, embora o registro fóssil de humanos agora seja imensa- mente maior do que já foi, ele ainda é suficientemente imper- feito para que novas descobertas frequentemente alterem a compreensão que cientistas têm dos detalhes do passado da humanidade — às vezes, de maneira significativa. Os fósseis de Rising Star são os mais recentes a abalar o estab- lishment, ou ordem ideológica paleoantropológica. Berger e sua equipe argumentam que o H. naledi poderia lançar luz sobre as raízes do Homo, há muito procuradas, e revisar, ou reconstruir a
FONTE: “GEOLOGICAL AND TAPHONOMIC CONTEXT FOR THE NEW HOMININ SPECIES HOMO NALEDI FROM THE DINALEDI CHAMBER, SOUTH AFRICA”, PAUL H. G. M. DIRKS ET AL., EM ELIFE, ARTIGO Nº 09561; PUBLICA- DO ON-LINE EM 10 DE SETEMBRO DE 2015
L O CA L I Z AÇÃO
Câmara de ossos
Espeleólogos descobriram fósseis da espécie Homo naledi à direita passagens estreitas e apertadas (abaixo) H. naledi acreditam que eles podem ter depositado seus mortos intencionalmente na câmara (inserção) e, embora geólogos ainda trabalhe
Circunstâncias estranhas
H. naledi
árvore genealógica humana. Além disso, sugerem os pesquisado- res, essa criatura, que tinha um cérebro do tamanho de uma laran- ja, tinha um comportamento ritualístico antes atribuído exclusi- vamente a hominídeos com cérebros mais volumosos; uma cons- tatação que poderia mudar drasticamente a noção prevalecente que associa sofisticação cognitiva a tamanho cerebral grande. Alguns críticos rejeitaram essas sugestões de imediato. Ou- tros as receberam com reserva, ou hesitação bastante atípica. Um grande obstáculo para muitos é que a idade dos ossos é des- conhecida. Eles poderiam ter mais de quatro milhões ou menos de 100 mil anos. Mas a falta de uma data mais precisa não é a única preocupação a incomodar observadores externos. A ma- neira como os fósseis foram desenterrados, analisados e revela- dos ao resto do mundo irritou alguns dos principais estudiosos do campo, que acusam Berger e seus colegas de terem apressado o trabalho e priorizado a publicidade em relação à ciência. Em um campo conhecido por suas intensas rivalidades, debates aca-
lorados sobre novas descobertas são a norma. Porém há mais coi- sas em risco na disputa sobre os ossos de Rising Star do que al- guns egos. O modo como cientistas reagirão a essa descoberta em mais longo prazo poderia dar um novo rumo à busca pelas origens humanas, mudando não apenas as perguntas que fazem, mas também o modo como tentam respondê-las.
CÂMARA DE SEGREDOS
De certa forma, foi um conjunto de fotografias granuladas mostradas a Berger em 1º de outubro de 2013 que provocou esse espetáculo. Berger havia contratado o geólogo Pedro Boshoff para investigar o “berço” em busca de novos sítios de hominídeos. Ao longo dos anos, mineiros e caçadores de fósseis tinham vasculha- do a região muitas e muitas vezes. Mas Berger tinha boas razões para acreditar que havia mais para achar. Cinco anos antes, seu fi- lho, então com nove anos de idade, tinha encontrado por acaso ossos de um membro até então desconhecido da família humana,
Ilustração de José Miguel Mayo
www.sciam.com.br 31
o Australopithecus sediba, bem no meio da região do berço. Agora, Boshoff e os espeleólogos locais Rick Hunter e Steven Tucker tinham descoberto o que pareciam ser ossos humanos es- palhados pelo chão de uma câmara de acesso extremamente difí- cil, a 30 metros de profundidade, no sistema de cavernas Rising Star, a poucos quilômetros do local onde Berger e seu filho tinham encontrado fragmentos ósseos de A. sediba. Os exploradores não tinham coletado nada do material, mas tinham tirado fotos. Assim
que Berger as viu, ele sabia que os ossos eram importantes. Eles ti- nham características claramente diferentes das de humanos ana- tomicamente modernos, ou Homo sapiens. E havia muitos deles, o suficiente para compor um esqueleto representativo. Berger imediatamente começou a traçar planos para recuperar as ossadas. Mas havia um problema. Ele não seria capaz de coletá- -las ele mesmo. A rota da entrada da caverna até a câmara que abrigava os ossos continha passagens estreitas demais para aco- modar sua estrutura corpulenta; e nem a da maioria de seus cole- gas cientistas. Alargar essas passagens perturbaria a integridade da caverna e possivelmente danificaria os ossos; portanto, isso era uma ideia inviável em sua opinião. Por isso, ele postou um apelo no Facebook, procurando por cientistas magros e esguios que ti- nham experiência em espeleologia e na escavação de ossadas anti- gas, e que podiam vir para Johanesburgo rapidamente, sem gran- de aviso prévio, para montar uma expedição em troca de pouco mais que uma passagem aérea e a promessa de aventura. Cinco semanas depois de Boshoff ter lhe mostrado as tentado- ras fotografias, Berger tinha escolhido sua equipe de escavadores
— coincidentemente todos eles mulheres — para realizar o difícil
e perigoso trabalho de recuperar os ossos da câmara, assim como um grupo de apoio para seus esforços. Ele também desenvolveu um protocolo para a coleta do material e a documentação exata de onde, na câmara, vinha cada pedaço de osso, e formou um
grupo de cientistas experientes, de alto nível, para supervisionar
a escavação através de um circuito fechado de televisão e identifi- car, registrar e armazenar os espécimes à medida que eles eram retirados da caverna. Berger também tinha um plano para como divulgar o empreendimento — uma intensa e meticulosa campa- nha junto à mídia, realizada em parceria com a National Geogra-
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phic e o site oficial NOVA, da PBS, que incluiria tuítes ao vivo e blogs diários, entrevistas de rádio e videoclipes postados de cam- po, assim como um documentário de TV que iria ao ar em uma data posterior, depois que os achados fossem oficialmente publi- cados. Em 10 de novembro, com câmeras filmando ao vivo, as es- cavadoras rastejaram, escalaram e se contorceram por seu per- curso até a câmara, escura como breu, e deram início ao esforço de recuperação dos ossos. Marina Elliott foi a primeira cientista a entrar na câmara. “Eu não sabia o que esperar, mas estava empolgada”, relembra ela, en- quanto a acompanho até o sítio de Rising Star. É exatamente meio- -dia de um dia claro e quente do verão austral e, do lado de fora da caverna, o vento transporta o som de carros chispando pela auto- estrada próxima. Mas lá dentro é escuro, frio e silencioso — a quie- tude de séculos, milênios. Um raio de luz que passa por uma aber- tura natural no solo acima banha o interior áspero e irregular, dando-lhe o ar de “templo”, de um local de adoração. A serenidade nessa parte da caverna contradiz o perigo mais adiante, no entanto. Elliott aponta sua lanterna para um dos cor- redores e ilumina uma cortina perfurada de calcário. Atrás daque- la parede está o primeiro dos pontos estreitos, apertados, da rota para a câmara de fósseis, explica ela, o “Superman Crawl”, um tú- nel que as mulheres tiveram de superar arrastando-se de barriga no chão com um braço estendido à frente. O percurso não ficou mais fácil a partir dali. O dentado e serrilhado Dragon’s Back (espi- nha ou dorso do dragão, em tradução literal) se avultava à frente, seguido por uma espécie de poço rampa semivertical, de 12 metros de comprimento e menos de 20 centímetros de largura em deter- minados pontos, que desembocava dentro da câmara de ossos. Mas seus esforços foram regiamente recompensados. Havia ossos por toda parte, muito mais que aquele único esqueleto que Berger esperava salvar. Durante os 21 dias seguintes, Elliott e suas colegas arrastaram 1.200 espécimes para fora. Uma segunda expedição, mais curta, em março de 2014, produziu várias centenas mais. Ao todo, a equipe recuperou mais de 1.550 ossos e fragmentos ósseos de pelo menos 15 indivíduos, inclusive bebês, crianças, jovens adultos e idosos, de uma área do tamanho de uma mesa de jogo. Resumindo tudo, este é um dos maiores
conjuntos individuais de fósseis de hominí- deos já encontrados. E a equipe só arranhou a superfície. Mais ossos, possivelmente milha- res mais, permanecem na câmara.
NASCE UMA ESTRELA
DA CABEÇA AOS PÉS: A vasta coleção de fósseis de Rising Star inclui raros ossos do pé (extrema esquerda) e múltiplos ossos da perna (esquerda próxima). Embora fragmentários, os fósseis preservados e, em alguns casos, podem ser atribuídos ao mesmo indivíduo, como no caso da mandíbula e dos fragmentos cranianos acima.
me leva de volta à sala dos fósseis para mostrar al- guns dos aspectos mais chamativos dos resquícios de Rising Star. O restante de seus colegas continua lá fora saboreando cerveja e churrasco na festa na- talina do departamento, mas Hawks está perfeita- mente feliz e à vontade aqui, entre os ossos. Ele se move agitado pela sala, coloca caixas de fósseis so- bre as mesas e seleciona réplicas de outros espéci- mes de hominídeos da vasta coleção da sala-forte para comparação. Só o crânio já é uma mistura de traços asso- ciados a várias espécies de hominídeos. Ele teria
encerrado um cérebro de apenas entre 450 e 550 centímetros cúbicos, tão pequeno como o de Australopithecus afarensis primitivos, mais conhecidos pelo esqueleto de Lucy, de 3,2 milhões de anos, encontrado em 1974 na Etiópia. No entanto, a forma do crânio lembra o mais huma- noide de Homo erectus. Os dentes se assemelham aos de Homo habilis, um dos membros mais primitivos de nosso gênero, no modo como aumentam em tamanho da parte frontal da arcada dentária para trás. De modo geral, porém, os dentes são peque- nos, e os molares têm coroas simples, com cúspides menos nu- merosas e menos salientes, traços associados a representantes de espécies Homo mais tardias. Os ossos abaixo da cabeça refletem a mesma mescla de caracte- rísticas diversas. Os membros superiores combinam um ombro e dedos da mão adaptados para escalar, com um pulso e uma palma construídos para manipular ferramentas de pedra, uma atividade que não se acreditava ter sido importante para hominídeos até de- pois que eles abandonaram a vida em árvores e evoluíram cérebros grandes e criativos. Os membros inferiores, por outro lado, ligam um quadril, ou articulação coxofemoral, parecido com o de Lucy a um pé que é virtualmente indistinguível do nosso. Pesquisadores têm trabalhado sob a suposição de que as características distintas do Homo, como uma mão capaz de produzir ferramentas, um cérebro grande e dentes pequenos, evoluíram juntos, em conjunto. “Sediba e naledi mostram que coisas que pensávamos terem evo- luído juntas não fizeram isso”, admite Hawks.
Com caixa após caixa lotada de fósseis de hominídeos, Berger e seus colegas agora enca- ram a perspectiva intimidadora de avaliá-los. Mesmo antes de os pesquisadores começarem com sua análise formal, enquanto os ossos ain- da estavam sendo extraídos da caverna, o
achado estava imerso em aura de mistério. De um lado, os ossos pareciam ter uma estranha combinação de características primitivas e modernas. De outro, nenhuma ossada animal, exceto os resquícios de alguns pássaros e pequenos roedores, tinha sido encontrada na câmara junto com os ossos dos hominídeos. Animais maiores, como macacos, antílopes e hienas, quase sempre acompanham fósseis de hominídeos, par- ticularmente os encontrados em cavernas subterrâneas. A ausên- cia dessas espécies em Rising Star exigia explicações. Berger recrutou um exército de 35 pesquisadores em início de carreira para ajudar a descrever os fósseis ao longo de um workshop de um mês de duração em Johanesburgo, em maio de 2014. Para a maioria dessas pessoas, muitas delas ainda traba- lhando em suas teses de doutorado, aquela foi uma rara oportu- nidade para trabalhar com fósseis inéditos, em vez de estudar material que já havia sido caracterizado por outros cientistas, mais experientes. Eles trabalharam em grupos organizados por partes anatômicas: crânio, mãos, dentes, coluna, quadril, pernas, pés, e assim por diante. Quando reuniram suas conclusões, surgiu a imagem surpreen- dente de um hominídeo alto e esbelto, com membros superiores construídos para escalar e usar ferramentas, membros inferiores adequados para a locomoção ereta, e um cérebro minúsculo. É “uma criatura realmente muito, muito estranha”, resume Berger. Em uma tarde de sexta-feira, em dezembro, John Hawks, da Universidade de Wisconsin-Madison e membro sênior da equipe,
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ANATOMIA
Uma mistura inédita
espécimes fósseis de Homo naledi pertencentes a pelo combinação de traços associados a australo- Homo, assim como alguns aspectos desco- nhecidos em qualquer outra espécie de
Soquete articular do ombro
Fêmur Homo sapiens H. naledi
O crânio H. naledi H. sapiens Homo
Dentes Homo
Mão H. naledi H. naledi Homo Australopithecus
Pé H. naledi
Um novo ramo em nossa árvore
H. naledi Homo H. naledi
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Ilustração de Portia Sloan Rollings, Gráfico de Jen Christiansen
Essa combinação sem precedentes de características primitivas
e modernas não é a única coisa que distingue o H. naledi. Os fós-
seis também têm traços nunca antes vistos em um membro da fa- mília humana. Hawks retira uma das falanges da mão de seu en- caixe no forro de espuma. É o primeiro metacarpo, o osso que fica na base da palma, abaixo do polegar, e quando ele o coloca ao lado do mesmo osso de um H. sapiens, a diferença é notável. Ele é liso, espesso e largo em todo o seu “eixo”, ou comprimento. O de H. na- ledi, comparativamente, é estreito na base e largo na extremidade superior, com uma distinta “crista” ao longo de toda a sua exten- são e finas “asas” ósseas nas laterais. O fêmur também apresenta traços únicos, assim como exibem outros elementos. Para Berger e seus colegas, a inédita combinação de característi- cas australopitecíneas e de Homo, juntamente com a presença de traços exclusivos, justificou facilmente a atribuição dos fósseis de Rising Star a uma nova espécie de hominídeo. Embora os pesquisa- dores ainda tenham de determinar a idade dos fósseis, no artigo em que anunciaram a descoberta, publicado em setembro passado no periódico científico de livre acesso on-line eLife, eles propuse- ram que, em vista de seus aspectos primitivos, em comparação com as primeiras espécies de Homo, como H. habilis e H. erectus, o H. naledi talvez tenha mais de dois milhões de anos, derivando, assim, da base do gênero Homo. Nesse caso, a descoberta seria um grande triunfo: a origem do Homo é, questionavelmente, o maior mistério não resolvido em toda a história da evolução humana, porque fós- seis de transição entre os australopitecíneos, com seus muitos tra- ços simiescos, e posteriormente o Homo, com sua estrutura corpo- ral moderna, são extremamente raros e em, em sua maioria, frag- mentários, incompletos. Cientistas têm desejado ansiosamente elucidar qual espécie de hominídeo fundou o ramo Homo da árvore genealógica dos hominíneos e como as características do design do corpo humano moderno evoluíram com novas descobertas. A equipe de Berger, no entanto, não se contentou em afirmar apenas que a descoberta pode ser relevante, ou estar associada à origem do Homo. Eles argumentaram que a inesperada mistura de traços evidentes em H. naledi implica que fragmentos isolados não podem ser usados para entender as relações evolutivas de hu- manos fossilizados, porque a parte não pode prever o todo — pala- vras audaciosas e contestadoras para todos aqueles pesquisadores que interpretaram ossos isolados como sendo a evidência mais an-
tiga da linhagem Homo. Talvez mais provocativo ainda do que as ideias da equipe sobre
o que o H. naledi significa para entender parentescos entre homi- nídeos seja o modo como interpretaram o comportamento de H. naledi. Em suas tentativas de compreender como os hominídeos foram parar na câmara de Rising Star, os pesquisadores levaram em consideração vários mecanismos conhecidos para explicar
acúmulos de vestígios de hominídeos em outros sítios, inclusive a possibilidade de que seus ossos foram levados para o sistema de cavernas durante uma enchente, ou que grandes carnívoros os ar- rastaram para lá a fim de devorá-los. Mas as evidências disponí- veis não combinavam com nenhuma dessas possibilidades. Águas de enchentes, por exemplo, certamente também teriam levado também os corpos, ou resquícios de outros animais para a câmara.
E carnívoros teriam deixado para trás reveladoras marcas de den-
tes nos ossos. Considerando tudo, a equipe concluiu que a explica- ção mais provável era que alguns H. naledi tinham depositado os corpos intencionalmente na câmara. Os hominídeos teriam de ter se esforçado consideravelmente para fazer isso. Embora os geólogos da equipe ainda não saibam exatamente como o sistema de cavernas Rising Star se formou e transformou ao longo do tempo, eles encontraram somente uma entrada para a câmara de ossos, aquela pela qual as cientistas se espremeram para recuperar os fósseis. Se essa de fato era a única abertura, então quem quer que levasse os mortos até o local teria sido obrigado a, no mínimo, escalar a “espinha” de 20 metros de Dragon’s Back para alcançar o buraco da “chaminé”, rampa ou pas- sagem quase vertical que dá acesso à câmara. De lá, eles poderiam tanto ter descido arrastando os corpos, como simplesmente tê-los depositado na íngreme rampa e deixar que deslizassem para den- tro da câmara abaixo. E se a rota para o interior da câmara sempre foi escura como breu, como acredita a equipe, então os hominí- deos provavelmente teriam precisado de uma fonte de luz artifi- cial para se orientar e achar o caminho. A sugestão foi que o H. na- ledi, com seu diminuto cérebro, não só tinha um ritual mortuário, como também dominava o fogo. Recostado confortavelmente em uma poltrona de couro na área de estar, informal, de seu escritório, caneca de café na mão, Berger se lança em uma discussão sobre o que Rising Star signifi- ca para a evolução humana. São sete e meia da manhã, mas as persianas estão fechadas e as luzes atenuadas. Entre os tapetes de peles de animais que ornamentam o piso e o jazz que ecoa de um antigo toca-discos, a sala mais parece fazer parte do chalé de caça de um fidalgo do que de um espaço de trabalho. “Não existe uma era em que [a descoberta] não seja perturbadora”, exulta ele. Se for antiga, então traços físicos e comportamentais críticos podem ter surgido na raiz de nosso gênero ou antes, em vez de no Homo mais tardio. Um H. naledi realmente antigo poderia até expulsar os australopitecíneos da linha que conduz até nós, de acordo com Berger. Se, por outro lado, os fósseis forem jovens, mais recentes, pesquisadores terão de reconsiderar qual espécie deixou para trás os vestígios culturais encontrados em sítios ar- queológicos fundamentais espalhados pela África. Pode ser que o H. naledi tenha se originado há milhões de anos
e conseguido persistir inalterado através das diferentes eras, como
o peixe celacanto, coincidindo com outras espécies de Homo, in- clusive o H. sapiens, por algum tempo. Talvez ele tenha inventado algumas das tradições culturais que arqueólogos têm presumido tradicionalmente terem se originado com a nossa espécie, sugere Berger. Possivelmente o H. naledi se miscigenou com nossos an- cestrais e contribuiu DNA para o moderno pool genético humano, como fizeram os neandertais e os denisovanos.
INSINUAÇÕES DIFAMATÓRIAS
Quando a equipe publicou seus artigos anunciando a descober- ta em eLife, em setembro do ano passado, o mundo enlouqueceu por causa de H. naledi. Aparentemente, todos os meios de comuni- cação do planeta cobriram a descoberta. Mesmo o jornal satírico Onion aderiu ao trem da alegria e publicou uma imagem adultera- da de um Berger lacrimoso com uma matéria intitulada “Antropó-
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logos emocionados descobrem ancestral morto de humanos 100 mil anos tarde demais” [“Tearful anthropologists discover dead ancestor of humans 100,000 years too late”]. No entanto, por baixo desse tsunami de entusiasmo público corre uma cor- rente de descontentamento entre parte da elite paleoantropo- lógica. Ninguém contesta que a descoberta é importante — uma caverna cheia de fósseis humanos é uma coisa extraordi- nária — mas a abordagem da equipe para recuperar, descrever
e interpretar os ossos levantou sobrancelhas. Berger não é estranho a olhares tortos por parte de seus pa- res acadêmicos. Telegênico e eloquente, ele se associou à Natio- nal Geographic no início de sua carreira. Esse relacionamento lhe rendeu financiamento de pesquisa, créditos jornalísticos e aparições na televisão. No entanto, ele tinha encontrado pou- cos fósseis, e seus artigos científicos e matérias mais populares haviam sido recebidos com acusações de gestão relaxada de subvenções e arrogância por algumas das figuras mais respei- tadas da paleoantropologia, entre elas Tim White, da Universi- dade da Califórnia, em Berkeley, e Bernard Wood, da Universi- dade George Washington. A descoberta de A. sediba por Berger, em 2008, levantou seu perfil científico. Mesmo seus críticos mais severos admitiram que o achado, que incluía dois esqueletos em grande parte completos datados de 1,98 milhão de anos atrás, foi espetacu- lar. Porém muitos não concordaram com a interpretação que deu
a eles. Berger havia sustentado há muito tempo que a África do Sul
estava sendo negligenciada em favor da África oriental na busca pela origem do Homo. A. sediba, com seu mosaico de traços austra- lopitecíneos e de Homo, parecia oferecer um meio para potencial- mente enraizar o Homo na África do Sul. O problema era que os fósseis mais antigos atribuídos ao Homo eram espécimes do leste africano, mais antigos que A. sediba. Berger argumentou que frag- mentos de fósseis como os da África oriental, que estavam sendo exibidos como provas dos mais antigos Homo, já não podiam mais ser atribuídos a um ou outro táxon porque seus esqueletos, com sua surpreendente combinação de características, mostravam que
o todo não era deduzível a partir da parte. A maioria de seus pares rejeitou essa afirmação. Com H. naledi, Berger redobrou seus esforços para sensibilizar
o público e promover aquelas ideias controversas sobre a origem
do Homo e fósseis fragmentários. Não demorou e os críticos come- çaram a disparar suas flechas. White declarou à revista California, da associação de antigos alunos graduados de sua universidade, que os fósseis de Rising Star se assemelhavam aos de H. erectus pri- mitivos, não a uma nova espécie. White é mais conhecido por suas descobertas de fósseis de hominídeos na Etiópia, inclusive os de Australopithecus garhi, de 2,4 milhões de anos, que segundo ele, Berhane Asfaw, do Serviço de Pesquisa do Vale do Rift, e seus cole- gas vinham da época e do lugar certos para serem ancestrais do Homo. Ele também acusou a equipe de Rising Star de danificar os fósseis durante a escavação e precipitar suas conclusões para publi- cação. Mais tarde, em um post mordaz no blog para o Guardian, White alertou para os perigos de misturar ciência e comportamen- to dramático e ostentoso. “Estamos testemunhando porções da ci- ência colapsando na indústria do entretenimento”, escreveu ele.
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ADQUIRINDO CONTROLE: A mão de H. naledi é a mais completa que se conhece para uma espécie humana extinta.
White não é o único a manifestar reservas. Carol Ward, da Universidade Estadual de Missouri, adverte que, embora a quan- tidade de fósseis seja impressionante, seu significado permanece desconhecido. Ela enfatiza a importância de determinar a idade dos ossos: “Quando soubermos a idade que têm, então podere- mos dizer o que eles significam para a evolução humana, mas não antes disso”. Ward também tem dúvidas sobre o artigo que descreve os fós- seis e salienta que ele não incluiu dados suficientes sobre como eles se comparam com outros espécimes relevantes para cientistas de fora poderem avaliar muitas das reivindicações da equipe. O ar- tigo também não continha uma análise filogenética, basicamente um estudo em que um programa de computador compara caracte- rísticas de todo um grupo de organismos e, desse modo, reconstrói as relações evolutivas de seus membros, o que poderia revelar onde o H. naledi se encaixa na árvore genealógica humana. “Pare- ce haver um grande desejo [por parte dos autores] para que ele es- teja vinculado às origens do Homo”, observa ela, mas na ausência de uma filogenia detalhada ou de uma datação mais precisa, nin- guém pode saber se está. Muitos pesquisadores continuam acreditando na tese de que, com base nas evidências atuais, o Homo surgiu no leste da África. Em março passado, meses antes da divulgação dos detalhes de H. naledi, Brian Villmoare, da Universidade de Nevada em Las Vegas, Kaye Reed, da Universidade Estadual do Arizona, e seus colegas anunciaram sua descoberta de um fragmento de mandíbula de 2,8 milhões de anos no sítio de Ledi-Geraru, no nordeste da Etiópia, que, de acordo com eles, é o representante mais antigo conhecido do nosso gênero. A mandíbula tem características claras e distin- tas de Homo, observam eles, assim como traços transicionais entre Australopithecus e Homo. Sem uma data, os fósseis de H. naledi não podem derrubar a mandíbula de Ledi-Geraru como a evidên-
cia mais antiga de nossa linhagem, na opinião de Reed, assim como ela também não aceita os argumentos de Berger, Hawks e seus colegas, de que fragmentos anatômicos isolados não podem ser confiavelmente atribuídos a um ou outro grupo taxonômico. “Tenho uma boa data com 2,8 [milhões de anos], e existem carac- terísticas de Homo”, sustenta ela. Parte da razão por que paleoantropólogos discordam sobre quais fósseis anunciam a aurora do Homo é que eles estão divididos sobre o que constitui o Homo em primeiro lugar. O H. naledi “enfa- tiza um contínuo debate sobre como definir o Homo, tanto para ca- racterísticas para as quais temos fragmentos, como para peças ou pedaços dos quais temos um número maior”, comenta Susan An- tón da Universidade de Nova York e especialista em membros pri- mitivos do nosso gênero. Separar, ou distinguir Homo de Australo- pithecus é “uma coisa muita confusa para todos neste momento, e diferentes pessoas têm diferentes filosofias sobre como fazer essa distinção”. Ela e seus colaboradores a têm definido com base em traços encontrados no crânio, maxilares, mandíbulas e dentes. Ou- tros têm argumentado que a distinção entre os dois tem de ser ba- seada nos ossos abaixo da cabeça, os pós-cranianos, como são cha- mados, porque eles refletem as grandes mudanças adaptativas pe- las quais passaram os hominídeos à medida que fizeram a transição de ambientes arborizados para espaços abertos (savanas). Mas es- ses ossos pós-cranianos são em grande parte desconhecidos para espécies primitivas de Homo. Os fósseis de Rising Star são “uma confusa profusão de riquezas”, resume Antón. Mas o mosaico de traços envia sinais mistos, e a equipe de Berger não estabeleceu ex- plicitamente como define o Homo e por quê. “Precisamos conversar muito mais”, diz ela a respeito do campo. No entanto, mesmo se os fósseis de Rising Star de fato constituí- rem uma nova espécie Homo e mesmo se for comprovado que eles têm mais de dois milhões de anos, esses fatos por si sós podem não ser suficientes para inclinar os céticos a favor da noção de que o H. naledi estava perto ou na linha que conduz a nós. Bernard Wood, da Universidade George Washington, suspeita que os ossos repre- sentam uma população “relíquia”, cujas estranhas características podem ter evoluído em relativo isolamento. “A África do Sul é um beco sem saída na extremidade inferior do continente africano”, compara ele. “Meu palpite é que a troca de genes nesse beco prova- velmente não era tão comum como no leste da África, onde existe muito mais potencial para a homogeneização, com genes oriundos da África austral e central.” Wood aponta para outra espécie estra- nha de Homo, o Homo floresiensis, com seu pequeno cérebro e cor- po miúdo, que persistiu na ilha de Flores, na Indonésia, muito de- pois que o H. sapiens se originou na África, como outro exemplo de uma população “relíquia” desse tipo. A sugestão de que o H. naledi, com seu diminuto cérebro, se li- vrava ritualmente de seus mortos também foi recebida com resis- tência. “Isso seria bastante radical”, argumenta a arqueóloga Ali- son Brooks, da Universidade George Washington. Acredita-se am- plamente que essa prática seja exclusiva dos humanos anatomicamente modernos, com seus cérebros muito mais volu- mosos, e possivelmente dos neandertais, e que ela só se tornou co- mum há 100 mil anos. “Não quero excluir inteiramente a possibili- dade de [os pesquisadores de Rising Star] estarem certos”, acres-
centa ela, “mas simplesmente acho que isso é tão improvável, que eles realmente precisam de um padrão de prova mais elevado.” De fato, alguns dos próprios membros da equipe de descober- ta lutaram com a noção de que o H. naledi depositava seus mor- tos deliberadamente naquela câmara subterrânea, mesmo que apenas por razões logísticas. “É difícil entrar ali com minha mo- chila, quanto mais arrastando um corpo”, reflete Marina Elliott. “Mas passamos dois anos tentando encontrar uma alternativa e não conseguimos.” No entanto, se o H. naledi de fato transportava os mortos para
a câmara, esse comportamento não precisa, necessariamente, re-
fletir sofisticação cognitiva. Travis Pickering, da Universidade de
Wisconsin-Madison, que trabalhou no “berço da humanidade” nos últimos 20 anos, concorda que a eliminação intencional dos restos mortais de outros hominídeos é a explicação mais sensata para o modo como os ossos foram parar na remota câmara. Mas “se isso significa que o H. naledi era uma espécie culturalmente bastante avançada, com práticas mortuárias bem desenvolvidas, ou se era simplesmente uma prática atávica, que tinha o bom sen- so de não coabitar com cadáveres em decomposição, é algo que atualmente é impossível de responder”, afirma ele.
DE OLHO NO PRÊMIO
Berger rejeita os detratores, salientando que eles fizeram seus
comentários estritamente na imprensa popular e na mídia social,
e não no rigoroso fórum de uma publicação científica. “As evidên- cias deles param em suas bocas”, diz ele. Defendendo firmemente
o cuidado com que a equipe escavou os fósseis, ele explicou em
uma postagem pública no Facebook que os danos nos ossos já exis-
tiam quando os membros da equipe de Rising Star chegaram ori- ginalmente ao local. Berger presume que eles resultaram de espe- leólogos amadores desconhecidos que exploraram a câmara antes deles e pisaram nos fragmentos. As cientistas que fizeram a esca- vação foram capazes de trabalhar rapidamente, porque “não tive- mos muitos dos problemas que outras equipes têm”. Em outros sí-
tios, fósseis geralmente estão incrustados em rochas. A escavação
e limpeza desses fósseis em geral é extremamente trabalhosa e de-
morada. Mas em Rising Star, eles simplesmente estavam deposita- dos em terra úmida, eliminada facilmente com escovas e pincéis. E, ao contrário de outras equipes, que são pequenas e conduzem suas pesquisas em locais distantes durante seis a oito semanas por ano, a de Berger é grande e sediada em Johanesburgo, o que lhe permite trabalhar no local ou na sala-forte da universidade a qual- quer momento. Se você olhar para o trabalho realizado em Rising Star em termos de pessoa-horas registradas no período entre a descoberta e a publicação, “ele é igual ao que todos os outros fize- ram”, insiste ele. Quanto à sugestão de White de que os fósseis pertencem a pri- mitivos H. erectus e não a uma nova espécie, “ele discorda de tudo, exceto aquelas que, basicamente, batizou”, graceja Berger. Atribuir os vestígios de H. naledi a H. erectus significaria que estes eram mais diversificados, ou que tinham uma variação maior do que a vista em nossa própria espécie, o que é improvável, em sua opi- nião. Mais relevante para o assunto, o H. naledi tem características únicas, não observadas em qualquer outro hominídeo.
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“Se quisermos ser biólogos evolutivos, o argumento para aí”, declara Berger. “Francamente, estou surpreso que [as pessoas] não estejam argumentando que se trata de um novo gênero”, em vez de meramente uma nova espécie. Questionado sobre a datação dos fósseis de Rising Star, Berger diz que os geólogos estão trabalhando nisso e que, em algum mo- mento, conseguirão determinar a época. Mas reitera que a data não mudará o modo como ele e sua equipe entendem o parentesco de H. naledi com outros membros da família humana. Embora os fósseis tenham algumas características fundamentais de Homo, em alguns aspectos sua estrutura geral é mais primitiva que a de H. habilis e também que a da mandíbula de Ledi-Geraru, que atu- almente detém o título de fóssil mais antigo de Homo. Indepen- dentemente da idade que acabarão revelando, os fósseis de Rising Star implicam que o ramo da árvore genealógica de H. naledi bro- tou antes dessas outras ramificações. Se forem jovens, então eles representam uma população tardia dessa espécie. Por que, então, a equipe não incluiu uma filogenia no artigo que anunciou os fósseis como sendo uma nova espécie? Para en- tender como organismos são aparentados uns com os outros, bió- logos evolutivos empregam um método chamado cladística, que classifica táxons em grupos com base em novas características que compartilham com seu último ancestral comum, mas não com outros mais primitivos. O problema é que o método funciona me- lhor quando as características são observáveis em todos os orga- nismos em questão. No que diz respeito a fósseis, atender a essa exigência é algo mais facilmente dito que feito, porque eles variam muito nos tra- ços que preservam. Em paleoantropologia, pesquisadores têm ten- dido a basear suas análises cladísticas em características encontra- das em crânios e dentes; crânios, porque suas formas variam com intensidade em hominídeos e, portanto, foram historicamente considerados muito úteis para definir espécies; e dentes, porque eles são os elementos mais comuns no registro fóssil de hominíde- os. Ossos de outras partes do esqueleto nem sempre são encontra- dos em associação com crânios ou dentes, portanto, pode ser difí- cil atribuí-los a uma espécie definida por restos cranianos ou den- tais. Além disso, um elemento esqueletal conhecido em uma espécie muitas vezes falta, ou inexiste em outra. De fato, alguns dos elementos-chave de H. naledi, entre eles seus conjuntos quase completos de ossos da mão e do pé, estão re- presentados apenas parcialmente no registro fóssil de outras espé- cies de Homo, como H. erectus e H. habilis, se é que de fato estão representados. Não dispondo de partes correspondentes com as quais fazer comparações, os pesquisadores não puderam conduzir uma análise cladística de H. naledi que levasse em conta seus nu- merosos traços de interesse pós-cranianos. Com essa possibilidade de comparação interditada para eles, os cientistas fizeram uma análise baseada em características cranianas e dentárias. Mas al- guns resultados dos testes não faziam nenhum sentido lógico, su- gerindo que o H. naledi, com seus muitos aspectos primitivos, está mais proximamente aparentado com o H. sapiens do que com o muito mais antigo H. erectus. Para Berger, essa conclusão enfatiza que árvores filogenéticas baseadas em dados de uma região anatô- mica, como a cabeça ou os dentes, não são confiáveis.
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Berger continua convencido de que o H. naledi abalará a com- preensão que cientistas têm da evolução humana de um jeito ou de outro. Mas não está pedindo que seus pares acreditem piamen- te nele. Em um desvio da maneira habitual de proceder em paleo- antropologia, que tem a reputação de cercar de segredo tudo o que diz respeito ao acesso a fósseis, ele instituiu uma política explícita para os achados de Rising Star, que os torna disponíveis a qual- quer pesquisador que solicite vê-los. E, no mesmo dia em que pu- blicaram os artigos em eLife, os pesquisadores divulgaram ima- gens gratuitas de varreduras tridimensionais de ossos básicos em MorphoSource, um repositório digital de dados anatômicos, per- mitindo que visitantes imprimam suas próprias réplicas 3-D dos espécimes. A resolução dos dados ainda não é suficientemente alta para o propósito de conduzir pesquisas originais, mas “ela é boa o bastante para verificar o que estamos dizendo”, garante Berger. “É tremendamente positivo que pessoas estejam tendo acesso; as reclamações são apenas ruídos”, observa David Strait, da Uni- versidade Washington em St. Louis. Ele salienta que, em 2000, White escreveu um famoso editorial em que afirmou que, dado o intenso interesse público pelas origens humanas, os paleoantropó- logos têm um dever especial de agir de boa fé e esclarecer as coisas. “Isso está completamente errado”, avalia Strait. “É claro que deve- mos tentar fazer as coisas bem, mas a ciência deveria agir ao refu- tar possibilidades. Nós reduzimos as possíveis verdades para obter uma ideia melhor do que aconteceu no passado, mas sempre exis- te a possibilidade de surgirem novos dados que mudam o raciocí- nio de todos.” Ao disponibilizar os fósseis para outros pesquisado- res, prossegue Strait, Berger deu aos cientistas que discordam dele um meio e uma oportunidade para testar suas ideias contra as dele: “o campo só avança se pessoas puderem estudar o material”. Enquanto isso, com ou sem a aprovação da oposição, o traba- lho em Rising Star continuará em ritmo acelerado. Os geólogos es- tão atarefados reconstruindo a história da caverna, as escavadoras estão recuperando mais fósseis da câmara, os biólogos molecula- res tentarão extrair DNA dos ossos. E os caçadores de fósseis estão em busca de novas pistas. “O [Homo naledi] deverá dar início à maior era de exploração que já existiu”, prevê Berger com entusias- mo característico. Se não o fizer, talvez o próximo achado da equi- pe o fará: o paleoantropólogo revela que seus exploradores já fize- ram progressos adicionais nessa frente. Pressionado para fornecer mais detalhes, Berger reluta e, com um sorriso maroto, diz apenas que eles localizaram “mais de um” novo sítio que fizeram seu cora- ção disparar como fez Rising Star quando ele viu pela primeira vez aquelas fotografias granuladas. O espetáculo vai continuar.
PARA CONHECER MAIS
Homo naledi, Homo Lee R. Berger et al. em eLife, Artigo nº 09560. Publicado on-line em 10 de setembro de 2015. Homo naledi Paul H.G.M. Dirks et al. em eLife, Artigo nº 09561. Publicado on-line em 10 de setembro de 2015.
DE NOSSOS ARQUIVOS
O Primeiro da Nossa Espécie Kate Wong; edição nº 120, maio de 2012.
COMO UM CUBO DE RUBIK, o dilema da energia escura – o misté- rio da expansão acelerada do Universo – aparentemente é mais difícil de ser resolvido que se esperava.
COSMOLOGIA
O
enigma matéria da escur
Por que a expansão do Universo está acelerando? Depois de duas décadas de estudos, a resposta continua tão misteriosa como antes, mas as perguntas se tornaram mais claras.
Adam G. Riess e Mario Livio
Ilustração de Kenn Brown, Mondolithic Studios
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Adam G. Riess é astrofísico na Universidade Johns Hopkins e do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial. Sua pesquisa sobre supernovas distantes revelou que a expansão do Universo está acelerando, uma descoberta que o levou a dividir o Prêmio Nobel de Física de 2011.
Mario Livio é astrofísico e trabalhou durante 24 anos com o Telescópio Espacial Hubble. É autor de vários (Simon & Schuster, 2013).
UNIVERSO AUMENTA DE TAMANHO A CADA SEGUNDO. AS GALÁXIAS AFASTAM-SE UMAS DAS outras, aglomerados de galáxias distanciam-se cada vez mais rapidamente de outros aglomerados e o espaço vazio que permeia todos os objetos aumenta cada vez mais. Esses fatos são conhecidos desde a década de 1920, quando observações feitas por Edwin Hubble e outros revelaram que o Cosmos está em expansão. Porém, os astrônomos descobriram recentemente que o proces- so está acelerando — a velocidade de expansão do Universo está aumentando, por isso, neste instante, as galáxias estão se afastando umas das outras mais rápido que um minuto atrás.
Essa é a conclusão surpreendente a que um de nós (Riess, junto com colaboradores que ele coliderou com Brian Schmidt, da Uni- versidade Nacional do Alasca) chegou em 1998, usando informa- ção de explosões de supernovas distantes. A descoberta está em acordo com os resultados de outra equipe liderada por Saul Perl- mutter, da Universidade da Califórnia em Berkeley, que utilizou um método similar publicado no mesmo ano. A conclusão foi ine- vitável – alguma coisa estava fazendo a expansão do Universo ace- lerar. Mas o quê? Chamamos de “energia escura” ao que quer que esteja provo- cando a força repulsiva que aparentemente faz o Universo se expandir. Após se estudar a situação por aproximadamente duas décadas, a natureza física da energia escura ainda permanece tão misteriosa atualmente como era há 18 anos. Na verdade, as últi- mas observações parecem complicar ainda mais o quadro, reve- lando pistas que divergem das teorias dominantes. Deparamo-nos com vários mistérios cruciais: o que é a energia escura? Por que ela parece tão mais fraca do que preveem as teo- rias mais simples (e ainda suficientemente forte para podermos detectá-la)? O que a natureza da energia escura representa para o futuro do Universo? E finalmente, as características peculiares da energia escura implicam que nosso Universo é apenas um de um vasto multiverso que contém incontáveis versões do Cosmos, cada uma com características diferentes e diferentes intensidades de energia escura?
Uma força-tarefa para identificar a natureza da energia escura está em andamento e as perspectivas de que vários novos observa- tórios farão novas descobertas em breve são animadoras. Na pró- xima década, esperamos começar a responder a essas questões e compreender a natureza da aceleração cósmica — ou nos resignar- mos a deixar alguns mistérios sem solução para sempre.
O QUE É A ENERGIA ESCURA?
Há varias hipóteses para explicar o que pode estar acelerando o Universo. O candidato mais provável é uma decorrência da natu- reza do espaço vazio. De acordo com a física quântica, o vácuo não é um “nada” — ao contrário, ele fervilha com pares de partículas virtuais e antipartículas que espontaneamente aparecem e se ani- quilam mutuamente numa fração mínima de segundo. Por mais estranho que pareça, esse mar de pares de partículas efêmeras contém energia, e a energia, como a massa, pode produzir gravida- de. Ao contrário da massa, no entanto, a energia pode criar uma gravidade atrativa ou repulsiva, dependendo se sua pressão for positiva ou negativa. De acordo com a teoria, a energia do vácuo no espaço vazio deveria ter uma pressão negativa e assim poderia ser a fonte da gravidade repulsiva que provavelmente está causan- do a expansão acelerada do Universo. Essa ideia é equivalente à “constante cosmológica” adicionada por Albert Einstein a suas equações da relatividade geral para representar uma densidade de energia constante por todo o espa-
EM SÍNTESE
cientistas descobriram que a expan- são do Universo está acelerando e chamaram a fonte dessa aceleração de “energia escura”. desde então não resolveram a natureza desse
fenômeno,mas trouxeram à tona várias outras questões:
por que a energia escura é tão mais fraca do que prevê a teoria, o que ela representa para o futuro do Cosmos, e por que ela poderá levar à conclusão de que vivemos
num multiverso? de vários experimen- nalmente, nos próximos anos, encontrar algumas das re- spostas a essas questões.
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Tempo
energia escura
Intensidade de
energia escura
Intensidade de
HIPÓTESES
Possibilidades da energia escura e prováveis futuros
Energia escura é o nome que os cientistas deram ao que quer que esteja provocando a expansão acelerada do Universo. Explica- ções para a energia escura se enquadram em três categorias principais: ela pode ser uma energia constante que decorre do es- paço vazio (ideia conhecida como constante cosmológica), pode ser uma energia variável decorrente de um campo que permeia o Universo (quintessência), ou a energia escura pode simplesmente não existir – nesse caso, a gravidade agiria de forma diferen- te do que se supõe em escalas cósmicas.
MODELO
Constante cosmológica
Tempo
Quintessência
Tempo
Não existe energia escura
aglomerados, a gravidade se comporta de acordo com as
diverge muito da relatividade geral. O
Ilustração por Nigel Hawtin
provém do
é um campo
FUTURO
acelerada
para sempre
Duas
possibilidades
Estrutura
aglomerados)
de como a gravidade se comporta em
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ço. Como o nome sugere, essa hipótese pressupõe que a densidade de energia escura é constante – isto é, não varia – no espaço-tempo. Até agora, é a evidência astrofísica que melhor se ajusta à expli- cação da constante cosmológica, com algumas discrepâncias. Outra possibilidade cogitada é que a energia escura forma um campo de energia chamado de “quintessência” que permeia o Universo, atribuindo a cada ponto do espaço uma propriedade que se opõe à força gravitacional. Os
físicos estão familiarizados com esses campos – as forças comuns que agem no dia a dia, como eletro- magnetismo e gravidade agem via campos (no entanto, esses campos geralmente são produzidos por fontes localizadas e não agem sobre o espaço todo). Se a energia escura for um campo, ele não deve ser constante, ou seja, deve variar com o tempo. De qualquer forma, em algum momento a energia escura pode ter sido mais forte ou mais fraca do que é atualmente, e pode ter afetado o Universo de formas diferentes, em diferentes épocas. Da mesma forma, sua intensi- dade e impacto na evolução do Universo podem ser diferentes no futuro. Na chamada versão do congelamento do campo dessa hipótese, a evolução da energia escura se torna cada vez mais lenta com o passar do tempo. Na versão do não congelamento, ao contrário, o campo varia lentamente no início, e depois passa a variar cada vez mais rápido. Uma terceira hipótese tenta explicar a aceleração cósmica: não existe energia escura e a expansão acelerada do Universo resulta de leis físicas que não são explicadas pela teoria da gravidade de Einstein (relatividade geral), que está incompleta. É possível que em regimes extremos, como a imensa extensão de aglomerados de galáxias ou todo o Universo observável, as leis da gravidade não funcionem de acordo com as previsões teóricas, e o comportamen- to da gravidade seja diferente do que conhecemos. Os físicos utili- zaram algumas sugestões teóricas interessantes relacionadas a essas linhas de raciocínio, mas não existe atualmente nenhuma teoria autoconsistente que explique todas as observações, por isso, por enquanto, a energia escura parece ter a supremacia nessa opção. (Hipóteses anteriores, como a ideia de que a aceleração cós- mica resulta de uma distribuição irregular de matéria pelo Univer- so, ou o resultado de uma rede de falhas geométricas na estrutura do espaço, até o momento se mostraram inconsistentes com os dados observacionais.)
Há boas razões, além da hipótese da energia escu- ra, de que um multiverso possa surgir. A teoria mais aceita da inflação cósmica sugere que o Universo sofreu uma inflação extraordinária na sua primeira fração de segundo.
do. O cômputo das ideias contidas nas teorias propostas, como a supersimetria
– hipótese de que toda partícula conheci-
da tem uma partícula companheira mais pesada que ainda não foi descoberta – reduz a discrepância de certa forma, mas
|
a |
diferença entre a energia total prevista |
|
e |
a observada ainda permanece dezenas |
de ordens de grandeza acima do espera- do. Portanto, se a energia escura for explicada pela energia do vácuo, a ques- tão é: “por que a energia do vácuo parece ser tão pequena?”.
A explicação para a energia escura baseada no campo não é muito melhor. Os teóricos simplesmente assumem (sem explicar muito bem por que ela deveria ser assim) que o mínimo da energia potencial associado ao campo da energia escura é muito baixo, assegurando que somente uma pequena quantidade de energia escura seja espalhada pelo espaço todo. Além disso, esses modelos exigem que as interações do campo com todo o resto do Universo sejam mínimas (exceto sua força de repulsão gravitacional) — uma propriedade difícil de explicar. Esses fatos dificultam a inclusão natural da hipótese do campo de energia escura nos modelos comuns da física de partículas.
O QUE ISSO REPRESENTA PARA O FUTURO DO UNIVERSO?
As propriedades da energia escura decidirão sobre o desti-
no final do Universo. Se, por exemplo, a energia escura for, de fato, a energia do espaço vazio (a constante cosmológica), a aceleração continuará para sempre, e daqui a um trilhão de anos a expansão fará com que as galáxias mais distantes, mui-
to além de nossos vizinhos mais próximos (o Grupo Local, que
nessa época terá se fundido para formar uma grande galáxia elíptica) se afastem mais rápido que a velocidade da luz, tor- nando-as indetectáveis. Até a luz mais antiga do brilho resi- dual do Big Bang – a radiação cósmica de fundo em micro-on- das (CMB, na sigla em inglês) que preenche todo o espaço – terá se estendido para comprimentos de onda maiores que o tamanho do Universo visível, tornando-se, assim, imperceptí- vel. Acontece que estamos vivendo nesse cenário numa época muito auspiciosa, quando ainda podemos apreciar as melho- res imagens de nosso Universo. Se, por outro lado, a energia escura não for a energia do vácuo, mas talvez a energia de um outro campo desconhecido, então o futuro é uma grande incógnita. Dependendo da forma como o campo evoluirá, o Universo poderá finalmente parar de expandir e começar a colapsar sobre si mesmo até uma grande implosão final ou “Big Crunch” — uma réplica às avessas do Big Bang. Ou o Universo poderá terminar num “Big Rip” (uma gran- de desintegração), no qual todas as estruturas complexas, de aglomerados de galáxias a átomos e núcleos atômicos, serão
devastadas pela energia escura, e o Universo poderá se esfacelar.
O primeiro cenário, da aceleração contínua até chegar a uma
morte fria, associado a um campo de energia escura, também pode ser uma opção a ser considerada.
POR QUE A ENERGIA ESCURA É TÃO FRACA
Nenhuma das explicações propostas para a energia escura é muito satisfatória. A constante cosmológica, por exemplo, prevê que a energia escura deveria ser muito mais forte do que é na ver- dade. Quando, ingenuamente, tentamos somar as energias sobre todos os estados quânticos presumidamente associados ao mar de partículas virtuais e antipartículas do vácuo, obtemos um valor que está mais de 120 ordens de grandeza acima do que é observa-
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Alta
Densidade
Baixa
POR QUE A ENERGIA ESCURA É IMPORTANTE
Controle cósmico
Como a energia escura do espaço é mais densa que qualquer outro constituinte do Universo, ela exerce - trola seu destino. No entanto, a energia escura não es- teve sempre no comando: outros ingredientes do Uni- verso – radiação (luz) e matéria (incluindo átomos, ma- téria comum e até matéria escura invisível) – eram dominantes quando o Universo era jovem e pequeno, e estavam fortemente comprimidos no espaço. À me- dida que o Universo foi se expandindo ao longo do tempo, a matériaearadiação se espalharam, e a ener- gia escura predominou sobre elas. Se a densidade da energia escura crescer, poderá se tornar tão poderosa a ponto de desintegrar todas as estruturas do espaço.
Universo dominado
pela radiação
Radiação
Matéria
Em termos de densidade, a matéria ultrapassa a radiação
Energia escura
Universo dominado
pela matéria
Universo dominado pela energia escura
Instante da grande desintegração para cada sistema (pontos brancos)
Em termos de densidade, a energia escura ultrapassa a matéria
Terra
Sistema
Solar
Via
Láctea
Meio
interga-
láctico
Big bang
Tempo
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50.000 (anos após o Big Bang) |
5 bilhões |
13,8 bilhões |
|
(dias atuais) |
||
Futuro distante
Uma teoria alternativa da gravidade, caso seja necessária, da mesma forma, também permite vários resultados diferentes dependendo das peculiaridades da teoria proposta.
PODERÍAMOS VIVER NUM MULTIVERSO?
Com a hipótese da constante cosmológica na liderança do pacote teórico, o problema de sua inexplicável debilidade está na linha de frente. Ao perceber o problema com a constante cosmoló- gica antes da descoberta da expansão acelerada, o físico Steven Weinberg, da Universidade do Texas em Austin, sugeriu um novo paradigma: a constante cosmológica não seria determinada unica- mente a partir das leis básicas da física, mas ao contrário, por uma variável aleatória que assumiria valores diferentes em diferentes membros de um enorme conjunto de universos – o multiverso. Alguns universos podem ter constantes cosmológicas muito maio- res, mas, nesse caso, a força de aceleração repulsiva é tão grande que a matéria não consegue se agregar para formar galáxias, pla- netas e vida. Segundo o raciocínio de Weinberg, uma vez que nós existimos, é óbvio que devemos estar num desses universos que possam permitir nossa existência – um Universo com uma cons- tante cosmológica pequena. Essa ideia, que foi mais bem desenvol- vida por Alexander Vilenkin, da Universidade Tufts, Martin Rees, da Universidade de Cambridge, e um de nós (Livio) e outros, é cha- mada de raciocínio antrópico. Há boas razões, além da hipótese da energia escura, de que um multiverso possa surgir. A teoria mais aceita da inflação cósmica sugere que o Universo sofreu uma inflação extraordinária na sua primeira fração de segundo. Vilenkin e Andrei Linde, da Universi- dade Stanford, mostraram que, uma vez iniciada, é praticamente impossível impedir que ela ocorra de novo, e outras vezes, criando assim um conjunto infinito de bolhas, ou “universos de bolso”, que se formam independentemente uns dos outros e podem ter pro- priedades muito diferentes. Um multiverso também parece ser uma consequência da teoria das cordas, um candidato para uma teoria que unifica todas as for- ças da natureza. Cálculos baseados numa versão da teoria das cor-
das, chamada teoria M, idealizada por Raphael Bousso e Joseph Polchinski sugere que deveria haver cerca de 10 500 espaços-tempo ou universos diferentes, cada um, caracterizado por valores dife- rentes das constantes da natureza e até por um número diferente de dimensões espaciais. No entanto, basta mencionar a ideia de multiverso para alguns físicos que a pressão arterial deles sobe imediatamente. A ideia, que parece difícil de engolir, é mais difícil ainda de provar – pois pode significar o fim do método científico clássico como o conhe- cemos. Historicamente, o método científico requer que as hipóte- ses sejam testadas diretamente por novos experimentos ou obser- vações. No entanto o conceito de multiverso realmente faz algu- mas previsões que podem ser testadas. Em particular, de acordo com alguns modelos de multiverso a forma do espaço-tempo mos- tra uma ligeira curvatura que pode ser detectada observacional- mente. Outra possibilidade, embora não muito provável, é que as flutuações na radiação cósmica de fundo em micro-ondas sejam a assinatura de uma colisão de outra bolha com a nossa.
EM BUSCA DE RESPOSTAS
A melhor forma para começar a estudar a natureza da energia escura é medir a razão entre sua pressão (qual seu valor na tensão com o espaço) e densidade (qual seu valor num dado volume do espaço) — uma propriedade chamada de equação de parâmetro de estado w. Se a energia escura for a energia do vácuo (a constan- te cosmológica), então w será constante e igual a -1. Se, por outro lado, a energia escura estiver associada a um campo variável no tempo, esperamos encontrar um valor de w diferente de -1, e evo- luindo ao longo de toda a história cósmica. Ou alternativamente, se a aceleração observada necessita de uma modificação da teoria da gravidade de Einstein para distâncias extremamente grandes, então esperamos observar uma inconsistência nos valores de w que determinamos em diferentes escalas do Universo. Os astrônomos descobriram algumas formas indiretas enge- nhosas de medir a pressão e a densidade da energia escura. Como uma força gravitacional repulsiva, a energia escura, ou gravidade
Graficos de Jen Christiansen
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modificada se opõe à força normal da gravidade (que atrai a massa no Univer- so na direção de outra massa), impedin- do a formação de estruturas de larga escala – isto é, aglomerados de galáxias. Assim, estudando a evolução temporal dos aglomerados, é possível descobrir a intensidade da energia escura em vários pontos na história do Universo. Isso é fei- to observando como um conjunto de aglomerados curva a luz de galáxias mais distantes que se encontram atrás dele,
por meio de um processo conhecido como lente gravitacional. A curvatura sofrida pela luz contém informação sobre a massa total do aglo- merado, e observando esse efeito em aglomerados situados a dife- rentes distâncias podemos medir se era comum a formação de aglomerados massivos em várias épocas cosmológicas. (Devido ao tempo que a luz leva para chegar até nós, observar objetos muito distantes é como olhar para trás no tempo.) A energia escura também pode ser medida estudando-se a variação da taxa de expansão do Universo. Observando objetos a diferentes distâncias e medindo seu redshift – o desvio da luz emitida para o lado vermelho do espectro eletromagnético devido à expansão do espaço – podemos descobrir quanto o Universo se expandiu desde que aquele feixe de luz iniciou sua jornada. Na verdade, foi por esse método que as duas equipes descobriram inicialmente a aceleração cósmica. Eles mediram os redshifts de um tipo diferente de supernova 1a (cujas distân- cias estavam confiavelmente associadas ao seu brilho). Uma variante dessa técnica consiste em observar o tamanho aparen- te das flutuações na densidade de galáxias no espaço chamado de oscilações acústicas bariônicas (BAO, na sigla em inglês) – outro indicador confiável de distância – como uma forma de rastrear a história da expansão do Universo. Até o momento, a maioria das medidas de w geralmente é consistente (dentro da incerteza observacional) com o valor -1, dentro de 10%, sustentando assim, a explicação da expansão acelerada. Recentemente, um grupo liderado por Riess usou o Telescópio Espacial Hubble para rastrear a energia escura no passado até cerca de 10 bilhões de anos atrás, usando a técnica de supernovas e não encontrou nenhuma evidência de variação ao longo do tempo. No entanto, não significa nada que tenham aparecido nas duas últimas décadas algumas pistas de desvios das previsões da constante cosmológica. Uma combinação de medidas, por exem- plo, da CMB medida pelo satélite Planck (que informa sobre a massa e energia total do Universo) com resultados de estudos com lentes gravitacionais sugere valores de w mais negativos que -1. Observações do primeiro Telescópio de Pesquisa Panorâmica e Sistema Rápido de Resposta (Pan-STARRS) de mais de 300 supernovas, para estudar a expansão cósmica, também parece- ram indicar um valor de w inferior a -1. Observações recentes das oscilações acústicas bariônicas nos dados de galáxias brilhantes muito distantes, chamadas quasares, parecem indicar que a den-
Basta mencionar a ideia de multiverso para alguns físicos que a pres- são arterial deles sobe imediatamente. A ideia, que parece difícil de engolir, é mais difícil ain- da de provar, pois pode significar o fim do méto- do científico clássico.
sidade de energia escura aumentou com o tempo. Finalmente, uma peque- na discrepância entre as medidas locais da taxa atual da expansão do espaço em comparação com medidas da taxa de expansão primordial da CMB, também poderia indicar um desvio da constante cosmológica. Embora sejam intrigantes, nenhum desses resultados é animador. Nos próximos anos, mais dados pode- rão reforçar essas discrepâncias ou mostrar que elas são mera casualidade. Atualmente há experimentos em
andamento que prometem melhorar em 100 vezes a precisão nas medidas das propriedades da ener- gia escura nas próximas décadas. Novos projetos como Pesqui- sa de Energia Escura (DES), começaram em 2013 e o Grande Telescópio de Pesquisa Sinótica (LSST) a ser iniciado por volta de 2021 reunirão informações mais precisas sobre as estruturas de larga escala do Universo e a história de sua expansão. O Telescópio Espacial Astronômico no Infravermelho Focado em Fenômenos Astrofísicos (WFIRST-AFTA), da Nasa, é um telescópio espacial de 2,4 metros de diâmetro projetado para ser lançado em meados da década de 2020 que deverá observar supernovas distantes usando oscilações acústicas bariônicas e lentes gravitacionais. O lançamento da missão espacial Eucli- des, da Agência Espacial Europeia, planejada para 2020, tam- bém deverá explorar as lentes gravitacionais, BAO e medidas de redshift de distâncias galácticas para determinar a distribui- ção tridimensional de aglomerados galácticos. Finalmente, também é possível testar teorias da gravidade modificada por meio de medidas no interior do Sistema Solar. Um dos métodos mede a distância da Terra à Lua com uma precisão surpreendentemente grande (por meio de luz laser refletida por refletores instalados na Lua pelos astronautas da missão Apollo), capaz de detectar desvios mínimos em relação às previsões da relatividade geral. Além disso, experimentos engenhosos de labo- ratório tentarão encontrar discrepâncias mínimas nas atuais leis da gravitação. Os próximos anos serão um período crítico para as pesqui- sas em energia escura. Esperamos poder realizar progressos
reais na solução de questões decisivas sobre a expansão acele- rada do Universo. Essas respostas certamente revelarão o futu- ro do Cosmos.
PARA CONHECER MAIS
Mario Livio.Wiley, 2000. - Adam G. Riess et al., em Astronomical Journal, vol. 116, n o 3, págs. 1009– 1038; setembro de 1998.
DE NOSSOS ARQUIVOS
Lawrence M. Krauss e Michael S. Turner, n o 29; outubro de 2004. Adam G. Riess e Michael S. Turner, n o 22; março de 2004.
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Refu iados
SUSTENTAB IL IDADE
do clima na Síria
Agricultores que escaparam da nação em guerra explicam como a seca e os abusos governamentais levaram à violência social – John Wendle
Fotografias de John Wendle
www.sciam.com.br 45
é escritor, fotógrafo e videomaker freelancer. Desde 2005, cobriu os distúrbios na ex União Soviética e no Afeganistão. Pode-se saber mais sobre seu trabalho em http://johnwendle.com e https://instagram.com/johnwendle
POR 30 ANOS, Kemal Ali tinha um negócio bem sucedido de escavação de poços para fazendeiros no norte da Síria. Ele tinha tudo de que precisava para o tra- balho: um equipamento pesado para enterrar os tubos no solo, um caminhão maltra- tado mas confiável para carregar as máquinas, uma equipe disposta de jovens para fazer o trabalho duro. Mais do que isso, ele tinha um senso agudo de onde escavar, assim como contatos de confiança no governo local, com os quais podia contar para olhar para o outro lado quando infringia as regras. Daí as coisas mudaram. No inver- no de 2006-2007, o nível do lençol freático começou a afundar como nunca antes.
Ali tinha um problema. “Antes da seca, tinha de cavar 60 ou 70 metros até encontrar água”, lembra. “Então passei a escavar entre 100 e 200 metros. Daí, a seca bateu muito for- te. Tinha de cavar 500 metros. O mais fundo que cavei foram 700 metros. A água continua- va a baixar sem parar.” Daquele inverno até 2010, a Síria sofreu a seca mais devastadora de sua história. O negócio de Ali desapareceu. Ele tentou encontrar trabalho, mas não con- seguiu. A insurreição social no país começou a crescer. Ele quase foi morto durante um fogo cruzado. Agora Ali está em uma cadeira de rodas em um campo para refugiados feri- dos e doentes na ilha grega de Lesbos. Os climatologistas dizem que a Síria é como uma previsão negra do que pode ser esperado para o Oriente Médio em maior escala, o Mediterrâneo e outras partes do mundo. A seca, eles afirmam, foi exacerbada pela mudança climática. O Crescente Fértil – o lugar onde a agricultura nasceu, há cerca de 12 mil anos – está secando. A seca na Síria destruiu plantações, matou os animais e deslo-
cou cerca de 1,5 milhão de fazendeiros. No processo, desenca- deou a convulsão social que explodiu em uma guerra civil, segundo um estudo publicado em março na Proceedings of the
A seca, que está sendo aguçada por mu- danças climáticas e políticas governamen- tais ruins, forçou que mais de um milhão de agricultores sírios se mudassem para ci-
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EM RESUMO
dades superpopuladas. Escassez de água, terra arruinada e corrupção, eles dizem , fo- mentaram o confronto armado. Falta de trabalho, ao lado da subsequente
violência, motivou muitos sírios a fugir para aTurquia e depois cruzar omar até a Grécia. Centenas de adultos e crianças se afogaram no caminho.
dizem que as secas na Síria vão setornarmais frequentes e severas, uma tendência que pode se espalhar pela região doOrienteMédio e doMediterrâneo.
SÍRIO conforta sua mulher após uma perigosa travessia marítima de 16 km em uma embarca- ção superlotada. Ao lado, refugiados que sobre- - dos de alívio ao chegar à ilha grega de Lesbos.
National Academy of Sciences USA (PNAS). Mais de uma deze- na de fazendeiros e ex-empresários como Ali, com quem con-
versei recentemente nos campos para refugiados sírios, dizem que foi exatamente isso o que aconteceu.
O campo onde encontrei Ali em novembro, chamado Pik-
pa, é um portal de acesso à Europa para aqueles que procu- ram asilo e sobreviveram à jornada perigosa pelo mar vindos da Turquia. Ele e sua família, ao lado de milhares de outros fugitivos das fazendas devastadas da Síria, representam o que ameaça se tornar uma onda mundial de refugiados de países onde governos instáveis e repressores entram em colapso sob pressão de uma mistura tóxica feita de mudan- ças climáticas, práticas insustentáveis de agricultura e má gestão da água.
A vida era boa antes da seca, lembra Hamid. Em casa na Síria, ele e sua família plantavam três hecta-
res em solo arável tão fértil que era da cor da henna. Plantavam trigo, grãos de fava, tomates e batatas. Hamid diz que costumava colher três quartos de uma tonelada métrica de trigo por hectare, nos anos antes da seca. Daí as chuvas não vieram, e sua produção despencou para quase metade daquele total. “Tudo de que eu precisava era de água”, diz. “E eu não tinha água. Portanto as coisas ficaram muito ruins. O gover- no não nos deixava escavar para encontrar água. Éra- mos presos.” Durante um tempo, Ali teve mais sorte do que Hamid: ele tinha conexões. Enquanto tivesse um saco cheio de dinheiro, conseguia continuar a escavar sem interferência. “Se levamos o dinheiro, conseguimos as permissões de que precisamos com rapidez”, explica. “Se não temos o dinheiro, é preciso esperar de três a cinco meses. É preciso ter amigos.” Ele esboça um sor- riso, enfraquecido por sua condição. A história dele levanta outra queixa duradoura que contribuiu para a queda da Síria: corrupção oficial desbragada. Em geral os sírios viam a corrupção de servidores civis como uma parte inevitável da vida. Depois de mais de quatro décadas sob os dois regi- mes totalitários da família Assad, as pes-
soas estavam resignadas a todos os tipos de privações. Mas uma massa crítica estava se desenvolvendo. Nos anos recentes, os refugiados da guerra do Ira-
que e fazendeiros da Síria deslocados inundaram as cidades da Síria, onde a população urbana explodiu de 8,9 milhões, em 2002, logo antes da invasão do Iraque pelos Estados Uni- dos, para 13,8 milhões em 2010, perto do final da seca. O que isso significou para o país como um todo foi resu- mido no estudo da PNAS: “As periferias da Síria, em rápido crescimento, marcadas por assentamentos ilegais, superlota- ção, infraestrutura pobre, desemprego e crime, foram negli- genciadas pelo governo Assad e se tornaram o coração dos crescentes distúrbios.” Em 2011, a crise hídrica já havia levado ao limite essas frus- trações. “Os agricultores podiam sobreviver um ano, talvez dois, mas depois de três anos seus recursos estavam exauridos”, diz Richard Seager, um dos coautores do estudo da PNAS e pro- fessor do Observatório Terrestre Lamont-Doherty, da Universi- dade Columbia. “Eles não conseguiam fazer nada além de dei- xar suas terras para trás.” Hamid concorda. “A seca durou por anos, e ninguém disse nada contra o governo. Então, em 2011, não aguentávamos mais. Houve uma revolução.” Naquele mês de fevereiro, as revoltas da Primavera Árabe varreram o Oriente Médio. Na Síria, os protestos cresceram, a repressão disparou e o país explodiu com 40 anos de fúria reprimida.
40 ANOS DE FÚRIA
Em grande escala, a crise hídrica na Síria foi criada pelo próprio país. Lá atrás, na década de 1970, o regime militar comandando pelo presidente Hafez al-Assad lançou uma busca mal concebida por autossuficiência agrícola. Ninguém pareceu considerar se a Síria tinha água subterrânea e preci- pitações de chuva suficientes para sustentar essas planta- ções. Os fazendeiros enfrentaram a escassez de água esca- vando poços para usar as reservas de água subterrânea do
A crise hídrica foi criada pelo próprio país. Ninguém pareceu considerar se havia água subterrânea e precipitações de chuva sufi- cientes para sustentar essas plantações.
país. Quando o lençol freático retrocedeu, as pessoas cava- ram mais fundo. Em 2005, o regime do filho e sucessor de
Assad, presidente Bashar al-Assad, tornou ilegal a escavação de novos poços sem a emissão de uma licença dada pessoal- mente, com a cobrança de uma taxa, por um funcionário do governo – mas isso foi ignorado na maioria do tempo, por necessidade. “O que está acontecendo de forma global – e principalmente no Oriente Médio – é que as águas subterrâ- neas estão se reduzindo a um ritmo alarmante”, diz Colin Kelley, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, o principal autor do estudo publicado na PNAS. “É quase como se estivéssemos dirigindo o mais rápido possível em direção a um despenhadeiro.”
A Síria voou direto sobre esse precipício. “A guerra e a seca,
elas são a mesma coisa”, diz Mustafa Abdul Hamid, um fazen- deiro de 30 anos de idade de Azaz, perto de Aleppo. Ele conver- sa comigo em uma tarde quente em Kara Tepe, o principal cam- po para refugiados sírios em Lesbos. Perto de um esguicho externo, uma oliveira está coberta com roupas de bebê secando. Dois meninos correm entre as fileiras de tendas e abrigos tem- porários enquanto brincam de guerra, galhos nas mãos como armas imaginárias. “O começo da revolução foi a água e a ter- ra”, diz Hamid.
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SEM AGRICULTURA, SEM FUTURO
Neste ano, Hamid teve de abandonar a fazenda da família. A violência tinha crescido demais para ele. “Saí da Síria por causa da guerra e porque não havia trabalho”, diz.
SOBREVIVENTES DA TRAVESSIA no mar chegam à ilha de Lesbos, na Grécia (acima), e ao campo de refugiados onde descansa Kemal Ali, 54, (à esquerda) que perdeu o uso das pernas no ataque ao ônibus em que estava na Síria. Ele e outros escavadores abriram poços para fazendas até o nível da água se rebaixar demais no subsolo, agravando a seca.
Da mesma forma, Ali tentou ficar, mas poucos entre seus ex-clientes podiam pagar por escavações tão profundas até o nível de rebaixamento dos lençóis de água. E a guerra tornava atividades comuns praticamente impossíveis. Sua vila natal ficava a uma curta distância dos destroços de Kobane, na fron- teira turca. A cidade estava em ruínas quando os curdos conse- guiram recapturá-la do ISIS, a milícia que aterroriza a região. Em julho do ano passado, ele se dirigiu à capital Damasco, na esperança de encontrar trabalho e um lugar onde sua família pudesse ficar a salvo. Ele estava indo para lá de ônibus quando um foguete atingiu o veículo. Ele acordou em um hospital de Damasco, paralisado da cintura para baixo. A explosão havia salpicado sua coluna com estilhaços. De alguma forma sua família conseguiu levá-lo de volta ao norte, e juntos seguiram seu caminho através da Turquia até as margens do mar Egeu.
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MUITOS REFUGIADOS
da Síria vão até a Turquia e pela costa oeste, onde se amontoam em balsas para a ilha de Lesbos
( mapa ). Enquanto aguar-
dam no campo de trânsi- to Kara Tepe, os refugia- dos oram, passam o tempo e tentam se esquentar, esperando para ir a Mytilene, o prin-
cipal porto e capital da ilha ( ). Uma vez lá, podem comprar pas- sagens de balsa para Atenas e continuar sua jornada pela Europa continental.
Estrangeiros deses- perados de todas as idades se reúnem ao longo da costa turca todos os dias, não ape- nas vindos da Síria, mas de todo o Oriente Médio. El se amontoam em grandes balsas e saem para a travessia de cerca de 16 quilômetros até Lesbos. Rotineira- mente os barcos estão superlotados, e em mares agitados podem submergir com facilida- de. A maioria não sabe nadar, e 20% são crian- ças. Afogamentos acontecem o tempo todo. Muitos chegam a Lesbos vivos, e se movem o mais rápido possível. Nas praias ao norte da ilha, os primeiros raios de sol iluminam cole- tes salva-vidas laranjas e barcos quebrados até onde os olhos conseguem ver. Somente no últi- mo mês de novembro, mis de 100 mil imigran- tes estrangeiros passaram pela Grécia, de acordo com a Organização Internacional de Imigração. (Surpreendentes 776.367 migran- tes chegaram à Grécia desde janeiro de 2015.) Um ponto laranja oscilante no horizonte prevê a chegada imi- nente de mais um barco da Turquia. Próximo à costa, um homem se levanta entre os passageiros amontoados e ergue os braços em triunfo, enviando sinais de V de vitória com ambas as mãos. Louy al-Sharani, de 25 anos, vindo de Damasco, patinha para a areia com seu irmãos mais velho. Eles saem em passos apressados, carregando suas malas pela íngreme estrada costeira. Ambos que- rem chegar à Noruega o mais rápido possível. O irmão está com pressa para encontrar trabalho, para que possa trazer a esposa antes do verão, quando deve nascer o primeiro filho do casal. Al-Sharani diz que está ansioso para começar a fazer o segundo curso de mestrado. “Nasci para usar minha mente”, diz. “Não nasci
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para segurar uma metralhadora e atirar nas pessoas.” A mãe deles vendeu todas as joias, incluindo a aliança de casa- mento, para lhes dar US$ 6 mil para a viagem. Até agora, já gasta- ram US$ 2.400, diz al-Sharani. Mas, que escolha tinham? Antes da guerra, Sharani recebeu um título de mestrado em economia agrí- cola, mas hoje não enxerga nenhum futuro na Síria para si mesmo ou para os agricultores do país. Como se a seca duradoura não fos- sem ruim o suficiente, o ISIS tornou as perspectivas do país ainda mais desesperançosas. Segundo ele, as facções em guerra agora estão roubando estoques de trigo, na realidade usando alimentos como armas para controlar as populações. “Atualmente os agricul- tores não encontram água para irrigar, não têm apoio do governo
Mapa de Mapping Specialists
e os rebeldes ou o exército sírio estão sempre fazendo pressão
sobre eles. Existem milhões de meios de morrer na Síria, e não dá
para imaginar como eles são pavorosos”, diz. “Depois de dez anos,
o que vejo, infelizmente, é um novo Afeganistão.”
CRESCENTE (IN)FÉRTIL
Seager, da Columbia, não é tão pessimista. A crise dos refugia- dos deve se apaziguar, ele supõe, e a guerra na Síria deve acabar. Apesar disso, as secas na região serão mais frequentes e mais seve- ras no futuro previsível. Depois de analisar dezenas de modelos climáticos, ele e Kelley e seus colegas estão convencidos de que emissões contínuas de gases de efeito estufa devem ampliar a célu-
la de Hadley, a banda de ar que envol- ve os trópicos terrestres de uma forma que pode ressecar ainda mais as terras do Mediterrâneo oriental. Na verdade, diz Seager, o Crescente Fértil poderia perder sua forma atual e poderia deixar de existir por comple- to até o final deste século, por causa do fluxo de água severamente reduzido nos rios Eufrates e Jordão. “Não há muita precipitação ali, e quando muda, faz a diferença”, ele adverte. “Existe algo específico sobre o Medi- terrâneo que o está tornando muito sensível, em termos hidrológicos, em relação aos gases do efeito estufa.” Depois de terem escapado, a família de Ali está tentando levá-lo de alguma forma para a Alemanha, onde esperam que cirurgiões consi- gam fazê-lo andar de novo. Do lado de fora em sua cadeira, a fim de tomar alguns minutos de sol, Ali está pensando nos amigos que deixou para trás na Síria. “A vida de um agricultor sempre foi dura”, diz. “Seu maior problema sempre foi água – ponto. Porque água é vida.” Seu filho empurra a cadeira de rodas para dentro para que ele des- canse um pouco. Uma luz solar fraca de inverno ilumina parcialmente um grande aposento com duas dúzias de camas. Sacos plásticos e sacolas de viagem baratas estão empilhados por todos os lados, guardando as poucas posses que sobraram para seus donos. Enquanto os filhos de Ali o colocam na cama, sua face se contor- ce de dor e cansaço. Fardous, sua filha de 19 anos, ajeita o saco de colosto- mia perto do corpo do pai e arruma os cobertores doados para cobri-lo. “Está escrito no Alcorão”, Ali repete. “Água é vida.”
PARA CONHECER MAIS
Collin Kelley et al. em Proceedings of the National Academy of Sciences USA, Vol. 112, Número. 11, pags. 3241–3246; 17 de março de 2015. - AkloKitoh et al. em HydrologicalResearch Letters,Vol.2,pags1–4; 2008.
DE NOSSOS ARQUIVOS
Alex de Sherbinin, Koko Warner e Charles Ehrhart; feve- reiro de 2011.
scientificamerican.com/magazine/sa
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PALETA EGÍPCIA com cena de caça e diferentes espécies de mamíferos.
MATHIAS MISTRETTA PIRES
AMBIENTE
Lições
milenares
clima do
Arte do Antigo Egito ajuda cientistas a entender o colapso da diversidade em um período de mudanças climáticas e aumento das atividades humanas
Mathias Mistretta Pires
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SHUTTERSTOCK (pág. ao lado)
Mathias Pires é biólogo com mestrado e doutorado em Ecologia. Atualmente desenvolve seu projeto de pesquisa no Departamento de Ecologia da Universidade de São Paulo (USP) e seu principal interesse são as causas e consequências de extinções biológicas. Contato: mathiasmpires@usp.br
HOJE, QUANDO PENSAMOS NO EGITO nos vêm à mente as pirâmides, faraós e uma paisagem árida dominada por desertos. No entanto, em um passado recente, o clima no Egito era muito diferente. Um grande conjunto de evidências indica que entre 15 mil e 5 mil anos atrás o clima no Egito, e no norte da África como um todo, era mais ameno e úmido, com períodos de chuvas intensas. Esse intervalo de tempo é chamado por cientistas de Período Úmido Africano. Entre as suas evidências estão formações que indicam a ocorrência de muitos lagos na região e características do solo indicando que o Rio Nilo tinha um fluxo muito maior durante esse intervalo. Segundo as pesquisas mais recentes, o Perío- do Úmido Africano foi causado pelo aumento na incidência solar na região do norte da África devido a mudanças na órbita da Terra. Com esse aumento a diferença de temperatura entre continente e oceano também cresceu. Essas diferenças aumentam a intensidade dos ventos de monções que trazem a umida- de dos oceanos e provocam chuvas intensas. Ao final do período úmido, começou no Norte da África um processo de desertificação do qual se originou a aridez atual no Egito e no deserto do Saara
Foi durante o Período Úmido Africano que se estabeleceram os povos que mais tarde dariam origem à civilização egípcia. Historiadores atribuem diversas mudanças políticas e sociais no curso da história do Antigo Egito às mudanças climáticas que seguiram o Período Úmido Africano. Mais especificamente,
três pulsos de “aridificação”, caracterizados por reduções extre- mas na frequência e intensidade de chuvas, estão relacionados
a episódios importantes na história do Egito. O primeiro pulso
(há aproximadamente 5.000 anos) forçou a concentração dos povos egípcios às margens do Rio Nilo e impulsionou a unifica-
ção dos povos e o estabelecimento do período faraônico. O
segundo, por volta de 4.100 anos atrás, diminuiu a frequência e
a intensidade das inundações sazonais do Nilo, essenciais para
a produção agrícola. Esse período de baixa produtividade teria contribuído para o colapso do governo central e decretou o fim do Antigo Império, conhecido como período das grandes pirâ- mides, dando início a um período de sucessões rápidas nas dinastias (Primeiro Período Intermediário). O terceiro pulso de “aridificação”, há cerca de 3.000 anos, é considerado a origem de um cenário de fome generalizada que contribuiu para a que- da do Novo Império, pondo fim ao período de maior prosperi- dade da civilização egípcia. As mudanças no clima do Egito não influenciaram somente as populações humanas da região, mas também a vegetação e a fauna. Durante o Período Úmido a paisagem predominante às margens do Rio Nilo eram pradarias e savanas com vastas pas-
nos
mostram que a diversidade de mamífe- ros se reduziu drasticamente nos últimos 6 mil anos na região do Egito.
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EM RESUMO
dessas extinções
seriam mudanças no clima, que levaram do impacto de atividades humanas.
tornaram os ecossistemas daquela região mais vulneráveis devido à perda de diversidade. so desse ecossistema nos permite com-
preender melhor os possíveis efeitos das mudanças climáticas associadas ao cres- cente impacto de atividades humanas nos dias de hoje.
MAMÍFEROS ATUAIS DO EGITO: asno selvagem (Equus asinus, no alto), aoudad (Ammotragus lervia, aci- ma), gazela-dorcas (Gazella dorcas, acima) e gazela-da- areia (Gazella leptoceros, à direita)
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C L I M A
Efeitos de mudanças ambientais no passado e presente
temperaturas muito altas ou muito baixas só podem ser habitados por organismos capazes de sobreviver, alimentar-se e se reproduzir nessas dos principais fatores que determinam se uma espécie é capaz de habi-
luz solar, movimentos das placas tectônicas, atividade vulcânica e mudanças na composição da atmosfera, como o aumento ou diminuição
da concentração dos gases de efeito estufa. Quando essas mudanças no
e animais que dependem do néctar ou frutos dessas plantas acabam sendo
adaptadas a climas quentes expandem sua distribuição enquanto espé-
Para algumas espécies, mudanças no clima podem ter grandes con-
Por esse motivo, quando o clima muda em uma determinada região mui- tas espécies podem ter sua distribuição alterada, seja devido à extinção temas, alterando a paisagem e o conjunto de espécies que vivem em
sido relacionado por cientistas ao aumento da temperatura uma vez que rios, que percorrem longas distâncias em busca de exemplo, viajam em grandes rebanhos por milhares seguindo as chuvas que promovem o crescimento da gnus sofrem grandes baixas e mudanças no regime resposta a mudanças no clima podem incluir áreas não protegidas e cidades, colocando esses animais Incilius periglenes, foi considerado extinto após a Embora mudanças no clima sejam frequentes na his- tória da Terra, mudanças rápidas como as que ocor- rem hoje podem ser rápidas demais para muitos
Umidade na África e região do Egito
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11.000 5.950 5.600 5.350 5.050 4.810 4.645 4.580 4.455 4.295 4.140 4.084 3.735 3.520 3.270 3.150 3.035 2.282 1.980 1.555 100 50 Hoje
MATHIAS MISTRETTA PIRES
ANOS ATRÁS
Eqqus grevyi Equus quagga Phacochoerus aethiopicus Tragelaphus spekei Connochaetes taurinus Bos primigenius Crocuta crocuta Kobus kob Taurotragus oryx Litocranius walleri Kobus megaceros Panthera leo (juba longa) Gazella soemmerringii Oryx beisa Hippotragus equinus Lycaon pictus Dama mesopotamica Diceros/Ceratotherium Panthera leo (juba curta) Acinonyx jubatus Hippopotamus amphibus Alcelaphus bucelaphus Equus asinus Gazella leptoceros Capra ibex Ammotragus lervia Vulpes vulpes Hyaena hyaena Canis aureus
NÚMERO DE ESPÉCIES
37
30
30
24
21
21
21
18
16
15
14
8
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SHUTTERSTOCK
H I ST Ó R I A
Dificuldades para estudar o passado
Estudos que buscam entender ecossistemas do passado precisam - - que é o mais próximo de uma descrição detalhada do passado que um povo religioso e muito criativo e muitos dos desenhos e escultu- ras representam, além de animais que de fato existiram, seres que - de que uma determinada espécie provavelmente ocorria em um - - - ta nossa incerteza sobre a qualidade da informação usada nas análi- utilizamos modelos matemáticos para nos ajudar a reconstruir os aspectos fundamentais dos ecossistemas e, assim, avaliar as conse- -
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tagens pontuadas por árvores e arbustos e repletas de grandes rebanhos de animais de pastagem e grandes predadores. A fau- na egípcia nesse período e durante o florescimento da socieda- de egípcia era muito similar ao que vemos hoje nas savanas do
Leste da África, incluindo zebras, elefantes, girafas, leopardos e até mesmo duas espécies diferentes de leões. Hoje a maior parte do território do Egito é dominada por desertos praticamente sem vida ou por uma vegetação esparsa onde predominam plantas adaptadas a climas áridos. A fauna atual do Egito não é tão impressionante quando comparada à de outras regiões da África. Os estudos com registros fósseis indicam que a diversidade de grandes mamíferos (peso médio maior que 5 kg) no Egito é hoje quase cinco vezes menor do que durante o Período Úmido, quando havia 37 espécies. Apesar de várias espécies de pequenos mamíferos, principalmente roedo- res, habitarem o Egito, hoje há somente 8 espécies de grandes mamíferos na região. Cinco dessas espécies são animais que se alimentam de plantas, entre elas duas espécies de gazelas, pequenos antílopes típicos do continente africano. Uma dessas espécies de gazela (Gazella dorcas) ocorre praticamente nas mesmas áreas em que ocorria durante o Antigo Egito, mas a segunda está à beira da extinção (Gazella leptoceros). Outras duas espécies são de animais que pertencem ao mesmo grupo das cabras (Capra ibex, Ammotragus lervia) e ocorrem princi- palmente em regiões montanhosas. O maior mamífero selva- gem hoje na região do Egito é o asno-selvagem (Equus afri- canus) que também é considerado ameaçado de extinção. Dro- medários (os camelos de uma corcova), que são frequentemente associados ao Egito, foram na verdade extintos após o fim do Período Úmido, mas introduzidos novamente por povos asiáti- cos como animais domésticos.
A fauna de carnívoros remanescente no Egito é ainda mais
pobre. Restaram apenas três espécies: a raposa-vermelha (Vul- pes vulpes) o chacal-dourado (Canis aureus) e a hiena-listrada (Hyaena Hyaena). As três são espécies capazes de sobreviver nas imediações de cidades e alimentam-se de pequenas presas, restos de alimentos, animais mortos e podem também atacar animais domésticos como ovelhas, cabras e galinhas.
O COLAPSO DA DIVERSIDADE NO EGITO
A melhor maneira de compreendermos as consequências
das mudanças pelas quais o planeta passa hoje é investigar as mudanças nos ecossistemas do passado. Entretanto, entender como eventos no passado levaram aos ecossistemas atuais é como montar um quebra-cabeça sem possuir a maioria das peças. Para nossa sorte o Egito foi habitado por um dos povos mais ativos culturalmente de toda a Antiguidade e os egípcios tinham entre suas atividades artísticas a representação da natureza. Há um grande número de registros artísticos de ani- mais, produzidos ao longo dos últimos 6 mil anos, em tumbas, instrumentos decorativos e em ornamentações de facas e outras ferramentas. Os detalhes em muitos desses objetos são surpreendentes e muitas vezes permitem a identificação das espécies representadas. Alguns desses registros são representa- ções dos animais em seu hábitat natural, enquanto outros ilus-
DOM MAMMOSER/SHUTTERSTOCK
Nesse último grande episódio de extinção, metade da diversidade restante de mamífe- ros foi perdida. Foi nesse episódio final que desapareceram as últimas grandes espécies de antílopes, de hipopótamos e leopardos.
tram a interação dos egípcios com os animais, descrevendo caçadas e outras atividades como a domesticação. Esses regis- tros artísticos são peças adicionais do quebra-cabeça que nos permitem reconstruir o passado com maior precisão e nos tra- zem uma oportunidade única de estudarmos o colapso de um ecossistema diverso em um cenário de mudanças climáticas associadas à intensificação das atividades humanas. Em um estudo que reuniu pesquisadores de diferentes insti- tuições espalhadas pelo mundo, utilizamos os registros artísti- cos e registros fósseis da região para reconstruir as mudanças na fauna egípcia nos últimos seis mil anos com o objetivo de entender as possíveis causas dessas mudanças e suas conse- quências. O primeiro passo nesse estudo foi reunir as informa- ções presentes na arte egípcia, baseando-se principalmente nos estudos de Dale Osborn (veja quadro pág. 61), para definir em quais períodos cada espécie esteve presente. Utilizando as informações sobre a ocorrência de cada espécie em cada perío- do, primeiro analisamos a ordem em que essas extinções ocor- reram. Então usamos modelos matemáticos para reconstruir ecossistemas em cada período e compreender as consequências da perda de diversidade.
Os registros fósseis e artísticos mostram que o colapso da fauna egípcia foi um processo gradual. As primeiras espécies a desaparecerem foram herbívo- ros como zebras, búfalos, grandes antílopes e girafas, seguidos pelos predadores como leões e leopardos. As espécies remanescentes como chacais e gazelas
são espécies que ocorrem em outras regiões áridas do continente africano. Curiosamente podemos agrupar as extinções em quatro grandes episódios. Os três pri- meiros coincidem com os três pulsos de seca intensa que estão associados às grandes mudanças históricas na civilização egípcia. No primeiro grande episódio, que coincide com o pul- so de 5.000 mil anos atrás, foram perdidas por volta de nove espécies, entre elas as girafas, elefantes, várias espécies de antílopes e leões. No segundo pulso, por volta de 4.100 anos atrás, foram perdidas mais quatro espécies, entre elas o cão selvagem africano que hoje encontra-se à beira da extinção na África como um todo. No terceiro, 3.000 anos atrás, foi a vez da segunda espécie de leões e dos guepardos. O último e mais drástico desses episódios coincide com o período de expansão das populações humanas e a industrialização do Egito nos últimos 150 anos. Nesse último grande episódio de extinção, metade da diversidade restante de mamíferos foi perdida. Foi nesse episódio final que desapareceram as últimas grandes espécies de antílopes, os hipopótamos e os leopardos. É muito difícil apontar as causas imediatas de extinções que ocorreram no passado. Entretanto, podemos listar os fenômenos ecológicos que possivelmente foram causadores das extinções. Grande parte desses desaparecimentos foram
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MAMÍFEROS ATUAIS DO EGITO: chacal (Canis aureus, acima), raposa-vermelha (Vulpes vulpes, à esq.), hiena-listra- da (Hyaena hyaena, abaixo à esq.) e íbex (Capra ibex, abaixo)
SHUTTERSTOCK (pág. ao lado); DIVULGAÇÃO (livro)
provavelmente causados pelas mudanças no clima. Uma das con- sequências da queda da incidência de chuvas é a redução na taxa de crescimento das plantas, o que implica menor disponibilidade de alimento para os herbívoros. As extinções de predadores foram pos- sivelmente consequência da redu- ção da diversidade e da abundância de suas presas. É muito provável que impactos diretos e indiretos de atividades humanas também tenham contribuído. Os registros artísticos muitas vezes descrevem caçadas, e historiadores sugerem que em períodos de queda na pro- dução agrícola a caça foi essencial para sustentar as populações humanas. Essas, além disso, podem ter competido com a fauna por espaço: à medida que o uso da terra para produção aumenta, o hábitat disponível para os outros animais diminui. As extinções causadas por atividades humanas foram prova- velmente mais importantes na última onda de extinção, que coin- cide com o adensamento populacio- nal na região. Nesse sentido, as cau- sas mais prováveis para o colapso da diversidade no Egito são proces- sos que continuam a atuar nos ecossistemas do presente, como a caça e a perda de hábitat resultante de mudanças no clima e também de mau uso da terra.
Z O O L O G I A
Dale J. Osborn
parte da diversidade, as espécies remanescentes no Egito tornaram-se ainda mais importantes do que no passado, quando havia diversidade o
suficiente para compensar as perdas.
As extinções de mamíferos no Egi-
to não foram somente um produto das mudanças na vegetação, mas podem ter contribuído ativamente para o processo de desertificação. Grandes mamíferos percorrem gran- des distâncias e promovem a distri- buição de nutrientes pela paisagem ao defecar ou até mesmo ao morrer. Esses animais acabam funcionando como grandes veículos que transpor- tam nutrientes de um local rico, por exemplo próximo aos rios e riachos,
até locais mais pobres em nutrientes.
À medida que os grandes mamíferos
foram sendo perdidos, essa via de transporte de nutrientes foi interrom-
pida e a dispersão de nutrientes
essenciais para o crescimento das plantas tornou-se mais limitada.
A “aridificação” do Egito foi um
fenômeno natural que gerou mudan- ças nos ecossistemas dessa região. Contudo, quando associada à intensifi-
cação das atividades humanas, o efeito foi potencializado, resultando no extermínio da maioria das espécies de grandes mamíferos. O estudo do colap-
so da fauna de mamíferos do Egito nos mostra o efeito devastador que
mudanças rápidas no clima e ativida- des humanas têm sobre a diversidade
e as consequências desse colapso. A
velocidade das mudanças climáticas atuais e o aumento contínuo do impac- to de atividades humanas sobre ambientes naturais sugerem que muitos dos ecossistemas do pre- sente podem ter destinos similares aos ecossistemas egípcios.
dos maiores especialistas na fauna do Egito e passou por diversas universidades e institutos como pesquisador e professor, mas foi traba- lhando como pesquisador pelo Museu de His- tória Natural de Chicago, na década de 1960, objetivo de compreender melhor as espécies Esses estudos despertaram seu interesse pelas - zooarqueológicos com a colaboração de livro, , publicado
CONSEQUÊNCIAS DAS EXTINÇÕES
As extinções provocaram profun- das mudanças no funcionamento dos ecossistemas do Egito, que foram se tornando cada vez mais vul- neráveis. Diferentes espécies desempenham funções distintas em um ecossistema. Herbívoros de pastagem, como zebras e gnus, controlam a expansão de gramíneas e grandes herbívoros, como os elefantes, controlam a densidade de árvores e arbustos, moldando a vegetação. Carnívoros, por sua vez, controlam as densidades de herbívoros e de outros carnívoros menores. Em um ecossistema diversificado a perda de uma espécie pode ser compensada por outra que desempenha papéis similares – em outras palavras, há muitas peças de reposição. Quando a diversi- dade é muito baixa, há pouca redundância e novas extinções podem significar a perda de uma função ecológica. Essa erosão contínua de diversidade é o que torna os ecossistemas atuais tão frágeis e as extinções tão alarmantes. Com a perda de grande
PARA CONHECER MAIS
Justin D. Yeakela, Mathias M. Piresd, Lars Rudolfe, Nathaniel J. Dominy, Paul L. Kochi, Paulo R. Guimarães, Jr., e Thilo Grosse, em Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, vol. 111, nº 40, 2014 KarlW.Butzer,em Proceedings of the NationalAcademy of Sciences of the United States ofAmerica,vol.109,nº 10,págs.3632–3639,2012 P.B.Demenocal. J.E.Tierney,em Nature Education Knowledge,vol.3,nº 10,pág.12,2012. DaleJ.Osborn eJana Osbornová.Aris & Phillips,1998.
www.sciam.com.br 61
MEDICINA
Hal Arkowitz e fazem parte do conselho de assessores da [Mente Cérebro, no Brasil]. Arkowitz é professor associado de psicologia na Universidade do Arizona, e Lilienfeld é professor de psicologia na Universidade Emory, em Atlanta, na Geórgia.
MEMÓRIA NA IDADE AVANÇADA:
NÃO É UMA CAUSA PERDIDA
Cientistas encontram meios para reduzir esquecimento associado à idade
Hal Arkowitz e Scott O. Lilienfeld
Q UANDO MICK JAGGER CANTOU PELA PRIMEIRA VEZ “QUE CHATICE É ficar velho” (na música “Mother’s Little Helper”), ele tinha 23 anos. Agora, aos 71, o ro- queiro parece ter encontrado o segredo para per- manecer em boa forma física à medida que sua
idade avança, mas envelhecer pode ser uma coisa difícil para a psi- que. Muitos adultos mais idosos temem a perda de memória e re- ceiam estar enveredando pela demência, como a doença de Alz- heimer. Toda vez que esquecem suas chaves, deixam uma porta destrancada ou não se lembram de um nome, essa persistente pre- ocupação se manifesta. Na maioria dos casos, porém, esses peque- nos e irritantes incidentes são parte da perda normal de memória associada à idade, não um sinal de iminente demência. Embora muitos adultos mais velhos acreditem que esse declí- nio é inevitável, há boas notícias para muitos deles. Pesquisadores desenvolveram uma série de atividades para exercitarmos nossas mentes e corpos, que podem ajudar a reforçar e apoiar a memória em um cérebro normal que está envelhecendo. A memória não é uma função isolada. O termo engloba várias modalidades de lembrar e algumas delas não declinam com a idade. Pessoas mais velhas, por exemplo, continuam dominando seu vocabulário, junto com seu conhecimento geral sobre o mun- do (memória semântica). Elas também são capazes de executar
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tarefas rotineiras, como fazer uma omelete ou digitar em um computador (memória processual) com destreza mais ou menos igual à que tinham quando eram mais jovens. Mas seu desempe- nho piora para lembrar de fatos recentes em sua vida (memória episódica) ou recordar onde receberam originalmente uma in- formação (memória de origem), gerenciar o armazenamento temporário de informações de curto prazo (memória de traba- lho), e lembrar-se de coisas a fazer (memória prospectiva). A memória prospectiva, em particular, é um alvo fundamental para estratégias de memória, porque esquecer-se de realizar tare- fas ou compromissos futuros pode gerar considerável frustração ou mal-estar. Em 2002, o psicólogo Narinder Kapur, do Hospital Geral de Southampton, na Inglaterra, e seus colegas revisaram es- tudos sobre a eficácia de várias técnicas comuns para reforçar a memória prospectiva. Eles constataram que auxílios externos, como fazer listas ou programar lembretes em um telefone celular, podem ser úteis para reduzir problemas de memória como deixar de pagar contas ou comparecer a reuniões. Outra estratégia bem-sucedida envolve associar informações a serem lembradas a uma imagem, frase, sentença ou palavra. Quanto mais relevante do ponto de vista pessoal for a associação, mais provável é que seja lembrada, uma abordagem conhecida como processamento autorreferencial. Se tivermos de devolver
um livro à biblioteca, por exemplo, podemos nos imagi- nar fazendo exatamente isso. Acrônimos inventados também podem ser uma enorme ajuda. Nessa estraté- gia, uma pessoa forma uma nova palavra com as letras iniciais daquilo que quer lembrar. Em 2008, as psicólogas Elizabeth L. Glisky, da Uni- versidade do Arizona, e Martha L. Glisky, à época no Hospital e Centro Médico Evergreen, em Seattle, descre- veram outros métodos que envolvem elaboração visual ou semântica. Em um deles, uma pessoa evoca imagens associadas a algo que ele ou ela quer reter. Para se lem- brar do nome “Peggy”, por exemplo, a pessoa pode ima- ginar um pirata com uma perna de pau (peg, em inglês). Embora Glisky e Glisky tenham encontrado sus- tentação para essas técnicas visuais e semânticas, en- tre outras, elas fizeram a ressalva de que melhorias de memória no laboratório não se traduzem necessaria- mente em melhoramentos no dia a dia. Esses benefí- cios exigem praticar e aplicar as táticas regularmente. A lacuna em eficácia pode ser muito maior no caso de estratégias que envolvem tempo e esforço considerá- veis para serem aprendidas. Além disso, melhorias em uma área da memória frequentemente não se ge- neralizam e se difundem para outras. De modo geral, os estudos encontraram certa susten- tação para a validade de se afirmar “Use-a ou perca-a”. Quanto mais usamos nossa memória, por exemplo, ao lermos, fazermos palavras cruzadas e jogarmos jogos de tabuleiros, melhor ela pode ser, provavelmente porque essas atividades envolvem usá-la (ou exercitá-la) consideravel- mente. É claro que as pessoas que têm memórias mais afiadas também podem ser mais propensas a exercitar sua mente para co- meço de conversa, o que responde em parte (mas provavelmente não tudo) pela associação entre boa memória e quantidade de estí- mulo cognitivo. Se Mick Jagger estiver fisicamente em forma como parece, sua mente pode estar seguindo o mesmo caminho. Alguns estudos constataram que níveis mais elevados de exercícios aeróbicos es- tão associados a uma memória melhor em adultos mais idosos. Embora muitos desses estudos não provem que o exercício aeróbi- co resulte em melhoramentos desse tipo, alguns sugerem uma co- nexão causal. Quando o psicólogo Stanley Colcombe, à época na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, e seus colegas re- visaram 18 estudos controlados que abordavam essa associação em 2003, eles encontraram evidências de que a prática desses exercícios, de fato, levava a uma memória mais aguçada.
CORPO SÃO, MENTE SÃ
Uma atividade aeróbica sustentada pode não ser a única maneira de manter a sua mente ágil e sua memória afiada. Em um estudo publicado em 2011, a neurologista Ruth Rus- cheweyh, então na Universidade de Münster, na Alemanha, e colegas avaliaram a atividade física total em 62 adultos mais idosos ao longo de seis meses. O questionário da equipe incluía tanto perguntas sobre exercícios formais quanto rotinas diárias
como caminhar para o trabalho, subir escadas e praticar jardi- nagem. Ao final do estudo, os pesquisadores associaram os au- mentos de atividade geral reportados, independentemente de que tipo, a melhorias na memória episódica. Quanto maior o aumento dos níveis de atividade, maior o reforço (melhora) da memória. Portanto, manter-se fisicamente ativo através de exercícios regulares, com afazeres fora de casa (a pé ou de bici- cleta, por exemplo) e execução de tarefas cotidianas, pode ser a melhor receita para revigorar seus poderes de recordação. A pesquisa sugere que muitas técnicas para fortalecer a me- mória, assim como um estilo de vida física e mentalmente ativo e estimulante, podem melhorar a memória em adultos mais ido- sos. Ainda temos um longo caminho a percorrer antes de termos métodos altamente eficazes, mas diante do vigor desse campo, podemos esperar grandes progressos no futuro próximo.
PARA CONHECER MAIS
R. Ruscheweyh, C.Willemer, K. Krüger, T. Duning, T.Warnecke, J. Sommer, K. Völker, H. V. Ho, F.
Mooren, S. Knecht e A. Flöel em Neurobiology of Aging, vol. 32, nº 7, págs. 1304–1319;
2011.
Robert Winningham. Baywood Publishing Company, 2009. Elizabeth L. Glisky e Martha L. Glisky em Cognitive Neurorehabilitation: Evidence and Applications. 2ª edição. Organizado por Donald Tuss, Gordon Winocur e Ian Robertson. Cambridge University Press, 2008.
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NEUROCIÊNCIA
DRENAGEM
CEREBRAL
Ilustração de Peter Hoey
UM SISTEMA DE TUBULAÇÕES LIMPA O CÉREBRO DE LIXO TÓXICO. O RITUAL DE LIMPEZA OCORRE DURANTE O SONO
Maiken Nedergaard e Steven A. Goldman
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estuda neurônios chamados glia no Centro Médico da Universidade de Rochester e na Universidade de Copenhague. Em especial, sua pesquisa está focada nos astrócitos, um tipo de célula glia responsável por uma quantidade de desordens neurológicas.
é professor de neurociência da Faculdade de Medicina e Odontologia da Universidade de Rocheste e da Universidade de Copenhague.
O CÉREBRO HUMANO PESA CERCA DE 1,36 KG, OU CERCA DE 2% DA MASSA CORPORAL MÉDIA DE UM adulto. No entanto, suas células consomem de 20% a 25% da energia total do corpo. No processo, são gerados resíduos potencialmente tóxicos de proteínas e restos biológicos. A cada dia, o cérebro adulto elimina sete gramas de proteínas desgastadas, que preci- sam ser substituídas por outras recém-fabricadas, um número que se traduz na reposi-
ção de 0,2268 kg de detritos por mês e 1,36 kg, o próprio peso do cérebro, durante um ano.
Para sobreviver, o cérebro precisa descarregar o lixo que pro- duz. É inconcebível que um órgão tão finamente afinado para pro- duzir pensamentos e ações não tenha um sistema de esgoto eficaz. Até recentemente o sistema de descarte de lixo do cérebro conti- nuava misterioso de várias maneiras. Persistiam questões sobre até que ponto as células cerebrais processavam seu próprio lixo ou se os restos poderiam ser transportados para fora do sistema ner- voso para que fossem jogados fora. E por que a evolução parece não ter feito com que o cérebro entregasse o lixo para outros ór- gãos no corpo que são mais especializados em remover restos? Afi- nal, o fígado é uma usina para descartar ou reciclar resíduos. Há cerca de cinco anos, começamos a tentar esclarecer como o cérebro elimina proteínas e outros resíduos. Também passamos a explorar como a interferência nesse processo poderia causar os problemas de cognição encontrados em doenças neurodegenerati- vas. Achávamos que perturbações no processo de limpeza do lixo poderiam contribuir para tais doenças, já que era de se esperar que o distúrbio pudesse levar ao acúmulo de resíduos de proteínas dentro e em volta das células. Essa ideia nos intrigava porque já se sabia que tais torrões, ou agregados, de proteínas realmente se formam nos neurônios, na maioria das vezes estando associados a desordens neurodegenera- tivas. Além disso, sabia-se que os agregados poderiam impedir a transmissão de sinais elétricos e químicos no cérebro e causar da- nos irreparáveis. De fato, a patologia do Alzheimer, Parkinson e de outras doenças neurodegenerativas causadas pela idade podem ser reproduzidas em modelos animais pela superprodução força- da desses agregados de proteínas.
Durante nossa pesquisa, descobrimos um sistema até então desconhecido para limpar as proteínas e outros resíduos do cére- bro – e aprendemos que esse sistema fica mais ativo durante o sono. A necessidade de remover lixos tóxicos do cérebro pode, na realidade, ajudar a explicar o mistério de por que dormimos e con- sequentemente nos retiramos da vigília durante um terço de nos- sas vidas. Esperamos plenamente que a compreensão sobre o que acontece quando esse sistema não funciona bem nos leve tanto a novas técnicas de diagnóstico, quanto a tratamentos para toda uma gama de doenças neurológicas.
O SISTEMA GLINFÁTICO
Na maioria das regiões do corpo, o sistema linfático elimina lixo com proteínas dos tecidos. O fluido se armazena em pequenos dutos que levam a outros maiores e no final para os vasos sanguí- neos. Essa estrutura também fornece um caminho para a defesa imunológica, pois os nódulos linfáticos – repositórios de células brancas que combatem infecções– povoam os dutos em pontos- -chave em toda a rede. No entanto, durante um século neurocien- tistas acreditaram que o sistema linfático não existia no cérebro ou na medula espinhal. Na visão prevalecente, o cérebro eliminava o lixo. Nossa pesquisa sugere que esta não é a história completa. Os vasos sanguíneos do cérebro são circundados por áreas perivasculares – túneis em forma de roscas que circundam cada vaso. A parede interna de cada espaço é feita da superfície de célu- las vasculares. Mas a parede externa é singular ao cérebro e à me- dula, e consiste em extensões que se ramificam a partir de um tipo de célula especializada, chamada astrócito.
Todos os dias o cérebro elimina sete gramas de proteínas usadas, que precisam ser substituídas por novas. O pro- cesso de eliminação de resíduos lida com cerca de 226 gramas de detritos por mês e 1,36 kg por ano, equivalen- tes ao peso do próprio cérebro.
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EM RESUMO
se o cérebro não possui a
elaborada rede de vasos linfáticos que transportam lixo para fora do sistema nervoso? Uma nova pesquisa re- centemente descobriu passagens para o transporte de
como são conhecidos esses vasos mento de doenças neurológicas como Alzheimer ou Par- kinson, que são consequência do acúmulo de proteínas tóxicas que não foram retiradas do cérebro.
ELIMINAÇÃO NEURAL DE RESÍDUOS
Limpando a cabeça
Alzheimer, são exemplos dos detritos celulares tirados do cérebro através do sistema de
Fluido que entra
Detritos que saem
(detalhe do cérebro acima)
Artéria
Os astrócitos são células de apoio com uma grande variedade de funções para a rede interconectada de neurônios. As extensões de astrócitos – pés vasculares – circundam as artérias, capilares e veias no cérebro e na medula. A cavidade oca formada entre pés e vasos permanece em grande parte sem obstruções, criando um vertedouro que permite o rápido transporte de fluidos no cérebro. Os cientistas sabiam da existência da área perivascular mas, até recentemente, não haviam identificado qualquer função específica para ela. Há trinta anos, Patricia Grady, então na Uni- versidade de Maryland, descreveu as correntes de fluido perivas- cular, mas o significado dessa descoberta não foi reconhecido até muito mais tarde. Ela relatou que proteínas grandes, injetadas no
pontos negros
Veia
líquido cefalorraquidiano (LCR), mais tarde podiam ser encontra- das nas áreas perivasculares tanto de gatos quanto de cachorros. Na época, outros grupos não conseguiram replicar as descobertas dela, e, sem se saber qual poderia ser o significado de tal observa- ção, a pesquisa não avançou mais. Quando começamos nossos estudos sobre o sistema de esgoto do cérebro, há apenas alguns anos, nos concentramos em desco- bertas prévias, de que os canais de água construídos por uma pro- teína chamada aquaporina-4 estavam embebidas nos pés vascula- res astrócitos. Na verdade, a densidade dos canais de água era comparável àqueles nos rins, um órgão cuja principal tarefa é transportar água.
Ilustração de Shizuka N. Aoki
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Ficamos interessados na multiplicidade dos canais de água de astrócitos e em sua posição frente às paredes dos vasos sanguí- neos. Descobrimos que as células vasculares endoteliais na vizi- nhança da área perivascular não tinham esses canais. Portanto, os fluidos não podiam se movimentar diretamente da corrente san- guínea para o tecido cerebral. Pelo contrário, o líquido tinha de fluir entre o espaço perivascular e para dentro dos astrócitos, ga- nhando dessa forma acesso ao tecido cerebral. O espaço perivascular poderia ser um sistema linfático neural? Ele poderia fornecer um conduíte para o fluido cefalorraquidiano? Pulsações arteriais poderiam levar o LCR pelo espaço perivascular. De lá, parte dele entraria nos astrócitos por seus pés vasculares. Ele poderia então se mover entre as células e finalmente para o es- paço perivascular ao redor das veias e limpar resíduos do cérebro.
No cérebro saudável, o sistema glinfático retira proteínas associadas ao Alzheimer, ao Parkinson e a outras doenças neurológicas.
A palavra recém-cunhada combina as palavras “glia” – um tipo de célula cerebral do qual o astrócito é um exemplo – com “linfático”, dessa forma dando referência dessa função recém-descoberta às células gliais do cérebro. Quando reconhecemos o papel importante do sistema glinfáti- co, imediatamente nos perguntamos se as proteínas construídas no cérebro em doenças neurodegenerativas poderiam, em um cé- rebro saudável, ser retiradas junto com outro lixo celular mais co- mum. Em especial, focamos uma proteína ligada ao Alzheimer, chamada de beta-amiloide, que antes se acreditava que fosse lim- pa sob circunstâncias normais por processos de degradação ou de
reciclagem, que são feitos em todas as células cerebrais. No Alzhei- mer, agregados de beta-amiloide formam placas amiloides entre as células, que podem contribuir para o processo da doença. Des- cobrimos que, em um cérebro saudável, a beta-amiloide é limpa pelo sistema glinfático. Outras proteínas envol- vidas em doenças neurodegenerativas, tais como as pro- teínas sinucleínas que aparecem no Parkinson, demên- cia com corpos de Lewy e atrofia multissistêmica, tam- bém poderiam perder o controle e poderiam crescer de forma anormal se o sistema glinfático não funcionasse de forma correta. Um sintoma que acompanha o Alzheimer e outras
doenças degenerativas forneceu uma dica de como pro- ceder. Muitos pacientes com Alzheimer sofrem de dis-
túrbios do sono muito antes de sua demência se tornar aparente. Em indivíduos mais velhos, o sono se torna mais fragmentado, superficial e dura menos tempo. Estudos epi- demiológicos mostraram que pacientes que relataram ter um sono pobre durante a meia-idade tinham maior risco de passar por um declínio cognitivo do que pessoas do grupo de controle, quando testadas 25 anos depois. Mesmo pessoas saudáveis, que são obrigadas a ficar acordadas, demonstram sintomas mais típicos de doenças neurológicas e ma- les mentais – pouca concentração, lapsos de memória, fadiga e ir- ritabilidade, além de altos e baixos emocionais. A privação profun- da de sono pode resultar em confusão e alucinações, tendo o po- tencial de levar a ataques epilépticos e mesmo à morte. De fato, animais de laboratório podem morrer quando privados de sono em apenas alguns dias, e os humanos não são mais resistentes. Em humanos, a insônia familiar fatal é uma doença hereditária que faz com que os pacientes durmam cada vez menos até que mor- ram, normalmente em 18 meses depois de diagnosticados. Conscientes disso tudo, especulamos se as dificuldades de sono relacionadas à demência poderiam ser não apenas os efeitos cola- terais da doença, mas contribuir para o próprio processo da doen- ça. Além disso, se o sistema glinfático limpa a beta-amiloide du- rante o sono a um ritmo maior do que quando estamos acordados, talvez os padrões de sono ruim dos pacientes com desordens neu- rodegenerativas poderiam contribuir para a piora da doença. Como nossas experiências iniciais haviam sido feitas em ratos anestesiados, também nos perguntamos se a circulação rápida de fluidos que observamos não era necessariamente o que podería- mos prever em um cérebro ativo e acordado, que estaria sujeito a outras exigências durante seu funcionamento normal.
Ao lado de Jeff Iliff e Rashid Deane, membros de nosso labo- ratório, partimos para confirmar essa hipótese. Usando coran- tes químicos que tingem o líquido, e combinando isso a técni- cas microscópicas que nos permitiam ver imagens com profun- didade dentro de tecido cerebral vivo, pudemos observar de forma direta que o bombeamento de sangue impulsionava grandes quantidades de LCR para o espaço perivascular ao re- dor das artérias. Usando astrócitos como veículo, o LCR então se movia através do tecido cerebral, onde deixava os astrócitos e recolhia proteínas descartadas. Os fluidos saem do cérebro através da área perivascular que cir- cunda veias pequenas drenando o cérebro, e essas veias, por sua vez, se unem a outras maiores, que continuam pelo pescoço. Os lí- quidos de resíduos continuam para entrar no sistema linfático, a partir do qual flutuam de volta para a circulação sanguínea geral. Ali eles se unem com resíduos das proteínas de outros órgãos, no final destinadas para filtragem pelos rins ou para processamento pelo fígado. Quando começamos nossa pesquisa, não fazíamos ideia de que os astrócitos tinham um papel tão crucial na contrapartida de um sistema linfático no cérebro. Uma prova adicional veio quando usamos um rato geneticamente modificado, sem a proteína aquaporina-4, que constrói os canais de água astrócitos. A taxa de vazão do LCR que entrava nos astrócitos caiu 60%, diminuindo muito a velocidade do transporte de fluidos pelo cérebro. Com isso, tínhamos traçado um caminho completo dentro do cérebro para que esses fluidos de limpeza retirassem com eficiên- cia os resíduos. Chamamos nossa descoberta de sistema glinfático.
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A fim de testar a ideia, Lulu Xie e Hongyi Kang, do Laboratório
Nedergaard, treinaram ratos para que ficassem sentados quietos sob um microscópio, a fim de que pudessem capturar imagens de um agente químico marcador no LCR, utilizando uma técnica de imagem nova, chamada microscópio de excitação por dois fótons. No final verificou-se que o LCR no sistema glinfático caiu de forma dramática enquanto os ratos estudados estavam acordados. Al- guns minutos depois do início do sono ou dos efeitos da anestesia, no entanto, a afluência de fluidos aumentou significativamente. Em colaboração com Charles Nicholson, da Universidade de Nova York, descobrimos que o espaço intersticial – a área entre as célu- las através da qual o fluido glinfático circula em seu caminho até os espaços perivasculares ao redor das veias – aumentou mais de 60% quando os ratos caíram no sono. Atualmente acreditamos que a circulação glinfática aumenta durante o sono porque o espa- ço entre as células se expande, o que ajuda a empurrar o fluido através do tecido cerebral. Nossa pesquisa também revelou como o ritmo de circulação glinfática é controlado. Um neurotransmissor, ou molécula de si- nalização, chamada norepinefrina, apareceu para regular o volu- me da área intersticial e consequentemente a velocidade do fluxo glinfático. Os níveis de norepinefrina subiram quando os ratos es- tavam acordados e eram escassos durante seu sono, o que sugere que mergulhos transitórios, relacionados ao sono, na disponibili- dade de epinefrina, levam a um fluxo glinfático melhorado.
O PODER DO SONO
Depois de ter demonstrado que a expansão e a contração do es-
paço intersticial durante o sono é importante tanto para a função cerebral quanto para a limpeza de resíduos de proteína, passamos a querer testar um corolário para essa observação: a privação de sono poderia precipitar uma doença neurodegenerativa? Expe- riências que fizemos com ratos mostraram que, durante o sono, o sistema glinfático realmente remove a beta-amiloide do cérebro com notável eficiência: o ritmo de limpeza mais do que dobra du- rante o sono. Por outro lado, ratos modificados geneticamente, para que não tivessem canais de aquaporina-4 nos astrócitos, de- monstraram função glinfática significativamente prejudicada, lim- pando 40% menos beta-amiloide do que os animais de controle.
A alta porcentagem de beta-amiloide removida colocou em xe-
que a ideia, amplamente aceita, de que os neurônios destroem in- ternamente seus próprios resíduos. Agora sabemos que o cérebro remove boa parte de proteínas inteiras, indesejadas, varrendo-as para fora para degradação posterior. Essas novas descobertas, além disso, pareciam confirmar que o cérebro adormecido exporta resíduos de proteínas, inclusive beta-amiloide, através do sistema de transporte glinfático. Outro apoio a essa tese veio do grupo de David M. Holtzman, da Universidade de Washington em St Louis, que demonstrou que a concentração de beta-amiloide no espaço intersticial é mais alta no período de vigília do que no sono, e que a privação de sono agrava a formação de placa-amiloide em ratos geneticamente modificados para acumulá-la em excesso. Até agora essas investigações não foram além de laboratórios de pesquisa básica. A indústria farmacêutica ainda precisa consi- derar terapias antidemência que removeriam fisicamente a ami-
loide e outras proteínas tóxicas ao limpar o cérebro com fluidos glinfáticos. Estimular o fluxo glinfático oferece uma nova aborda- gem que vale a pena ser investigada. Um medicamento que regule o sistema glinfático ao aumentar
a taxa de fluxo do LCR no sono poderia remover a amiloide para
fora do cérebro. Um tratamento para uma síndrome neurológica bem conhecida sugere que essa abordagem pode funcionar. A hidrocefalia de pressão normal, típica em idosos, é uma forma de demência na qual o LCR excessivo se acumula nas cavidades ocas centrais do cérebro, os ventrículos cerebrais. Quando a punção lombar remove o fluido ao drená-lo, com frequência os pacientes exibem melhoras notáveis em suas capacidades cognitivas. A base para essa observação há muito é um mistério. Nossa pesquisa su- gere que restaurar a circulação de fluidos através do sistema glin- fático pode mediar a restauração da cognição nesses pacientes. Mesmo que uma droga não seja iminente, o conhecimento so- bre os sistemas glinfáticos sugere ideias novas para diagnosticar o Alzheimer e outras doenças neurológicas. Um estudo recente de Helene Benveniste, da Faculdade de Medicina de Stony Brook, mostrou que, com imagem por ressonância magnética padrão, é
possível visualizar e quantificar a atividade do sistema glinfático.
A tecnologia pode permitir que se façam testes do fluxo glinfático,
projetados para prognosticar a progressão da doença em pacien- tes de Alzheimer, de demências relacionadas ou ainda de hidroce- falia de pressão normal. Pode até mesmo prever a capacidade de recuperação em pacientes com danos cerebrais traumáticos. A maioria de nossos estudos sobre o sistema glinfático até agora se concentrou na remoção de resíduos de proteínas. No entanto, é
possível que esse sistema se mostre uma área fértil para se chegar
a uma compreensão básica sobre o funcionamento do cérebro.
De forma intrigante, os fluidos que se movem através do siste- ma glinfático podem fazer mais do que apenas remover resíduos; podem fornecer diversos nutrientes e outras cargas para o tecido cerebral. Um novo estudo demonstrou que os canais glinfáticos fornecem glicose aos neurônios para que tenham energia. Estudos adicionais atualmente investigam se a matéria branca, o revesti- mento parecido com isolamento ao redor das extensões similares
a fiação dos neurônios, os axônios, podem se apoiar no sistema
glinfático para o fornecimento de nutrientes e de materiais neces- sários para a manutenção da integridade estrutural das células. Esses estudos prometem elucidar os diversos papéis inesperados do sistema glinfático na vida diária – e noturna – do cérebro.
PARA CONHECER MAIS
Nadia Aalling Jessen et al., em Neurochemical Research, Vol. 40, nº. 12, pags 2583–2599; dezembro de 2015. Biochimica et
Biophysica Acta (BBA)—Molecular Basis of Disease. Publicado on-line em 22 de outubro de
2015.
John O’Donnell et al., em Current Sleep Medicine Reports, Vol. 1, Número. 1, pags 1–8; Março de 2015.
DE NOSSOS ARQUIVOS
A outra metade do cérebro . R. Douglas Fields; maio de 2004.
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GERIATRIA
Thomas Kirkwood trabalha no Instituto para Envelheci- mento da Universidade Newcastle, na Inglaterra, onde foi di- retor de 2004 a 2011, e é autor do livro .
POR QUE MULHERES
VIVEM MAIS
Só o estresse não explica a diferença de longevidade
Thomas Kirkwood
S E AINDA HÁ QUAISQUER HOMENS QUE ACREDITAM QUE AS MULHERES SÃO O SEXO MAIS FRÁGIL, JÁ PASSOU DA HORA DE ELES reconsiderarem. Quanto a essa prova mais fundamental de robustez — o poder de permanecer vivo — as mulheres são mais resistentes que os homens do nascimento até a idade avançada extrema. O homem médio talvez conclua uma corrida de 100 metros mais rápido que a mulher mediana e levante pesos mais pesados. Mas atualmente elas sobrevivem a eles por cerca de cinco a seis anos. Aos 85 anos existem aproximadamente seis mulheres para cada quatro homens. Aos 100, a proporção é de mais de duas para um. E, aos 122 anos, o atual recorde de longevidade humana, a pontuação é de um a zero a favor das mulheres.
Então, por que as mulheres vivem mais que os homens? Uma ideia é que os homens se levam a uma morte prematura por conta de todas as dificuldades e estresses de suas vidas de trabalho. Mas, se isso fosse assim, nesses dias de maior igualdade entre gêneros, seria de se esperar que a lacuna de mortalidade desaparecesse ou pelo menos diminuísse. No entanto, há pouca evidência de que isso esteja acontecendo. Hoje, as mulheres ainda sobrevivem aos ho- mens por mais ou menos o mesmo tempo que suas mães “do lar” (que não trabalhavam fora de casa) sobreviviam aos seus pais que iam trabalhar no escritório (ou outro lugar) há uma geração. Além disso, quem realmente acredita que as vidas de trabalho dos ho- mens naquela época eram tão mais prejudiciais a sua saúde que as vidas domésticas de mulheres? Considere por um momento os es- tresses e tensões que sempre existiram nos papéis tradicionais de mulheres: a vida de uma mulher em um domicílio típico pode ser exatamente tão difícil quanto a de um homem. De fato, estatistica- mente falando, homens lucram muito mais com o casamento que suas mulheres: homens casados tendem a viver muitos anos mais que os solteiros; enquanto mulheres casadas só vivem um pouco mais que as solteiras. Então quem, de fato, tem a vida mais fácil? Pode ser que as mulheres vivam mais porque desenvolvem
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hábitos mais saudáveis que os homens ao, por exemplo, fumarem e beberem menos e escolherem uma dieta melhor. Mas o número de fumantes femininas está crescendo, e muitas outras mulheres bebem e consomem alimentos que não são saudáveis. De qualquer modo, se mulheres são tão saudáveis, por que tantas passam mais anos da velhice com mais problemas de saúde que homens, apesar de sua maior longevidade? O argumento do estilo de vida, portan- to, também não responde à pergunta. Como gerontologista experimental, abordo essa questão de uma perspectiva biológica mais abrangente ao analisar, também, outros animais. Foi constatado que as fêmeas da maioria das es- pécies vivem mais que os machos, o que sugere que a explicação para a diferença entre humanos talvez tenha suas raízes no fun- do de nossa biologia. Muitos cientistas acreditam que o processo de envelheci- mento resulta do acúmulo gradual de um enorme número de pequenas falhas individuais, um dano a um filamento de DNA aqui, uma molécula de proteína desregulada ali, e as- sim por diante. Essa somatória degenerativa significa que a extensão de nossas vidas é regulada pelo equilíbrio entre a rapidez com que novos danos atingem nossas células e com
KENDRICK BRINSON
que eficiência esses problemas são corrigidos. Os mecanismos do cor- po para manter e reparar nossas células são maravilhosamente efi- cazes, razão pela qual vivemos tan- to tempo; mas esses mecanismos não são perfeitos. Alguns danos es- capam sem serem consertados e se acumulam à medida que os dias, meses e anos passam. Envelhec- emos porque nossos corpos ficam cometendo erros. Podemos perguntar por que nossos corpos não se consertam melhor. De fato, provavelmente poderíamos repa- rar danos melhor do que já fazemos. Pelo menos em teoria, poderíamos fa- zer isso suficientemente bem para vi- ver para sempre. A razão por que não fazemos isso, penso eu, é porque teria custado mais energia do que valia a pena quando o nosso processo de en- velhecimento evoluiu muito tempo atrás; quando nossos ancestrais caça-
dores e coletores enfrentavam uma luta constante contra a fome. Sob pressão da seleção natural para aproveitar da melhor maneira nossos escassos suprimentos de energia, nossa espécie deu maior prioridade ao crescimento e à reprodução que a viver para sem- pre. Nossos genes trataram o corpo como um veículo de curto pra- zo que devia ser suficientemente bem mantido para crescer e se re- produzir, mas que não valia a pena um investimento maior em ter- mos de durabilidade quando a chance de sucumbir a uma morte acidental era tão grande. Em outras palavras, genes são imortais, mas o corpo, aquilo que os gregos chamavam soma, é descartável. Pelo menos foi essa a ideia que propus no final da década de 70. Desde então, as evidências para sustentar essa teoria do soma des- cartável cresceram significativamente. Em meu laboratório, mostramos, há alguns anos, que animais mais longevos têm siste- mas de manutenção e reparação melhores que animais de vida
mais abreviada. Os animais que vivem mais tempo também são os mais inteligentes, ou os maiores, ou os que, como pássaros e morcegos, evoluíram adaptações como asas para tornarem suas vidas mais seguras. Se você pode evitar os riscos do meio ambiente por um período um pouco mais longo ao sair voando de um peri- go, ou sendo mais esperto ou maior, então o corpo é correspon- dentemente um pouco menos descartável e compensa gastar mais energia em reparos. Seria possível que as mulheres são mais longevas porque elas são menos descartáveis que os homens? Essa noção, de fato, faz excelente sentido biológico. Em humanos, como na maior parte das espécies animais, o estado do corpo feminino é muito impor- tante para o sucesso da reprodução. O feto precisa se desenvolver dentro do útero materno, e o bebê tem de mamar em seu peito. Portanto, se o corpo do animal fêmeo está excessivamente en-
fraquecido por danos, existe uma ame- aça real às suas chances de produzir descendentes saudáveis. O papel re- produtivo masculino, por outro lado, é menos diretamente dependente de sua contínua boa saúde. É demasiado radical afirmar que, no que diz respeito à biologia, tudo o que importa é que os machos atraiam uma fêmea para acasalar, podendo morrer depois disso. Um estudo de crianças na Tanzânia, por exemplo, mostrou que os pequenos que perde- ram um pai antes dos 15 anos tendiam a ser um pouco mais baixos que seus colegas, e a altura é um referencial ra- zoavelmente bom para a saúde. Mas crianças que perderam a mãe se saíram pior ainda: elas eram mais baixas, mais pobres e não viveram tan- to quanto os órfãos sem pais. De um ponto de vista evolutivo, no entanto, os impulsionadores do sucesso de acasalamento para homens em geral
não são os estímulos de longevidade. De fato, elevados níveis de testostero- na, que aumentam a fertilidade masculina, são bastante ruins para a sobrevivência de longo prazo. Mulheres ainda podem estar lutando para conquistar a igual-
dade em muitas esferas da vida. Mas ser menos descartável é uma bênção que oferece alguma compensação. Há evidências em estu- dos de roedores de que as células em um corpo feminino fazem reparos melhores de danos que as dos corpos de machos e que a remoção cirúrgica dos ovários elimina essa diferença. Como mui- tos proprietários de cães e gatos podem atestar, animais machos castrados muitas vezes vivem mais que seus congêneres intactos. De fato, as evidências apoiam a noção de que a castração de um macho pode ser caminho para uma vida mais longa.
O mesmo poderia ser válido para humanos? No passado, eunu-
cos eram membros da elite em muitas sociedades. Na China, me- ninos eram castrados para que pudessem servir ao imperador sem
o risco de engravidar (fecundar) suas concubinas. Na Europa, es- sas práticas extremas foram utilizadas para manter a sublime qualidade de canto de meninos à medida que eles transitavam para a adolescência.
O registro histórico não é suficientemente bom para determinar
se eunucos tendem a viver mais que homens normais e saudáveis, mas alguns lamentáveis registros sugerem que sim. Há alguns anos, a castração de homens em instituições para os mentalmente perturbados era surpreendentemente comum. Em um estudo de várias centenas de homens em uma instituição não identificada por nome no Kansas, foi constatado que os homens castrados vi- viam, em média, 14 anos mais que seus iguais não castrados. Ainda assim, duvido que muitos homens, inclusive eu, escolheríamos um remédio tão drástico para ganhar alguns anos extras de vida.
FONTE DA JUVENTUDE: Ela não só provavelmente viverá mais que ele, mas também o ajudará a viver mais.
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Publi Editorial
INOVAÇÃO
PEGADA AMBIENTAL TEM ORIENTADO EMPRESAS QUE AGREGAM CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO
Júlio Ottoboni
IMAGENS: DIVULGAÇÃO
UM SOMATÓRIO DE CIÊNCIA, PESQUISA, DESENVOLVIMENTO
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INOVAÇÃO. ESSE É O PERFIL EMERGENTE DAS PEQUENAS |
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MÉDIAS EMPRESAS QUE LUTAM POR ESPAÇO EM NOVOS |
MERCADOS. UM EXEMPLO DESTA NOVA ONDA ACONTECE EM UM POLO AEROESPACIAL, COM A PRESENÇA MACIÇA DA INDÚSTRIA AERONÁUTICA, COMO O PARQUE TECNOLÓGICO SÃO JOSÉ DOS CAMPOS.
Embora esse núcleo seja vocacionado para o setor aeroespacial, ele abriu espaço para as empresas inovadoras e agora des- ponta também no segmento ambiental. Essa nova realidade, calcada no uso das tecnologias e inovações no setor espacial para o ambiente terrestre, aterrissou em boa parte das novas empresas que ocu- pam o espaço criado no Vale do Paraíba paulista. Em julho de 2015, a principal empresa do setor privado na área de meteorolo- gia do país, a Climatempo, anunciou sua chegada ao parque. Com o status de maior consultoria do segmento do país, buscou um local estratégico para criar novas parcerias. No alvo, instituições como Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e o Cemaden (Centro Nacional de Monito- ramento e Alertas de Desastres Naturais). “É um lugar ideal para pesquisa e intercâmbio de informações e tecnolo- gias, também para se ter novos parceiros. Hoje temos frentes aqui em áreas como energias renováveis, técnicas de previsão do tempo em curtíssimo prazo, dispersão de poluentes e smart city, entre uma série de outros projetos”, comentou a diretora executiva de pesquisa e desenvolvimento do Laboratório Climatempo, Gilca Palma.
Uma das principais linhas de pesqui- sa a ser desenvolvida pelo grupo é a de nowcasting, voltada para a melhoria da qualidade de alertas de tempo severo. Para isso, a Climatempo fez importantes parcerias internacionais. Entre eles estão os parceiros PlanetiQ, que lançará uma constelação de satélites meteorológicos comerciais com 12 unidades de órbita ter- restre baixa em 2017 e que será expandido para 18 satélites em 2020. “Com esta tecnologia será possível ter a fotografia da atmosfera em dife- rentes níveis quase em tempo real. O resultado disso é um salto significativo na capacidade de prever condições de temporais”, diz Carlos Magno, presidente da Climatempo. Atualmente a empresa está com 12 fun- cionários, entre meteorologistas, físicos, en- genheiros e elevará o seu grupo, ainda neste ano, para quase 20 profissionais que atuarão em cinco grandes linhas de pesquisa. “Serão vários os desdobramentos na área de pesquisa aplicada, desde um efi- ciente sistema de previsão de curto prazo até os impactos das condições da atmos- fera na transmissão de sinais, como por exemplo, de telefonia celular”, completa Gilca Palma.
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Publi Editorial
IMAGENS: DIVULGAÇÃO
Parque Tecnológico São José dos Campos foi modelo pioneiro no país
“A ciência é motor da prosperidade”, assim a definiu um dos mais brilhantes físicos e cientista contemporâneo, Michio Kaku. Esse conceito foi assimilado na concepção do Parque Tecnológico São José dos Campos (SP), o primeiro do país e modelo para diversos outros.
O Parque tecnológico, desde sua fundação em 2009 por
iniciativa da prefeitura local teve apoio do governo do Estado de São Paulo, que logo o tomaria como exemplo para disseminar o modelo para outras cidades por meio do Sistema Paulista de Parques Tecnológicos.
O polo aeroespacial encabeçado pela Empresa Brasileira de
Aeronáutica (Embraer), e em órgãos de grande projeção como
o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica ( ITA), além do Departamento da
Coordenação Geral de Tecnologia Aeroespacial (DCTA) foram cruciais para a formação do núcleo.
Este é o maior projeto aeroespacial em curso no Hemisfério Sul do planeta e está entre os mais promissores ambientes para o desenvolvimento de novas empresas e tecnologias para alicerçar
o setor. Um complexo gigantesco com quase 200 mil metros
quadrados de área construída e num espaço que agrega 25 milhões de metros quadrados exclusivos para a sua expansão.
Além de ter o portal meteorológico que é líder em
visitação no país, a Climatempo possui forte atuação
no setor de energia, de construção civil, agricultura e
offshore, e também desenvolve projetos para o setor
elétrico, para áreas de energias renováveis, de hidrolo-
gia, dispersão de poluentes e defesa civil. Todos esses
setores podem ser beneficiados com as pesquisas, os
Escritório da Climatempo, em São José dos Campos
Desde sua criação, o Parque reuniu investimentos que somam R$ 1,89 bilhão. Os recursos públicos, que somam R$ 460 milhões, são oriundos de fontes dos governos municipal de São José dos Campos, do Estado de São Paulo e federal. Os investimentos privados foram da ordem de R$ 1,4 bilhão.
O espaço destinado ao desenvolvimento científico e tecnológico, além de ser uma referência mundial, agrega desde universidades, parcerias com grandes instituições como o Inpe, ITA e o DCTA até empresas de reconhecimento internacional como a Petrobras, Embraer, Boeing, numa infinidade de combinações.
desenvolvimentos e as inovações que a Climatempo
pretende fazer dentro do Parque.
A Climatempo se destaca por suas ações e por seu
pioneirismo. Fundada em 1988, quando se tornou a
primeira empresa privada do setor no país, passou a
oferecer boletins informativos para meios de comunica-
ção, além de fazer análises customizadas para dife-
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Publi Editorial
JÚLIO OTTOBONI
rentes setores. Em 1999, saiu na frente mais uma vez e lançou a TV Climatempo, primeira TV segmentada de meteorologia do país. Sempre ligada à convergência das mídias, criou o Portal Climatempo, com imagens de satélites em tempo real, e boletins de todas as regiões do Brasil, com cons- tantes aprimoramentos que permitiram fazer previsões para períodos cada vez maiores. Estendeu seu conteú- do para as novas plataformas digitais, como as Redes Sociais e, agora, em busca de mais evolução, integrou- se ao Parque Tecnológico São José dos Campos.
A REVOLUÇÃO DA ZNC
Uma transformação silenciosa na regularização fundiá- ria ocorre no país e um de seus principais atores é a em- presa ZNC Sistemas, fundada em 2007 em São José dos Campos e integrante também do parque tecnológico local. Especializada no desenvolvimento de softwares para gestão de dados geográficos, a empresa tem uma expressiva atuação no segmento ambiental. A pegada ambiental é reconhecida por seus proprie- tários, o tipo de clientes dirigiu os trabalhos da ZNC para atender as necessidades de grandes organizações. O início foi vendendo serviço para a empresa ArcPlan, que prestava consultoria para a Fundação Boticário.
Luiz Fernando Barbosa Vital, diretor da ZNC e Carlos Eduardo Castilho Leite, diretor da ZNC
“Várias outras entidades tinham relações com a Fun- dação Boticário e passaram a nos procurar, tal foi o bom resultado de nossa ferramenta de gestão de projetos”, comentou o sócio-diretor Carlos Eduardo Castilho Leite.
O efeito cascata se apresentou rapidamente. No rol
dos clientes estão desde entidades como a Fundação SOS Mata Atlântica, WWF (World Wide Found for Natu-
re), a The Nature Conservancy e até o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), o ICMbi o (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), com a construção do Sistema de Gestão Fundiária que faz
a certificação de terras no país. “Nunca o Brasil teve uma qualidade de medição de
dados como agora, são mais de 70 regras aplicadas aos limites de uma propriedade rural para certificá-la.
O que demorava de meses até anos para ser emitido
agora sai em questão de minutos”, revela Carlos Leite.
A ferramenta usada pelo SIGEF ( Sistema Gestão
Fundiária) é atualmente utilizada também pelo Mi- nistério do Desenvolvimento Agrário e pelo Incra.
Um de seus mais expressivos feitos é impedir fraudes
e a sobreposição de áreas, recorrentes em localidades onde há conflitos de terra, como a Amazônia Legal. Com o auxílio do software desenvolvido pela ZNC, o
Incra já certificou mais de 103 milhões de hectares nos últimos dois anos. “Em dois anos e meio, foram certificadas mais que
o dobro do número de áreas certificadas em mais de
10 anos de certificação”, afirmou o servidor do Incra, Thiago Marra, que opera com o sistema da ZNC. Segundo outro diretor da ZNC, Luiz Fernando Bar- bosa Vital, há um grande número de terras que estão sendo regularizadas por esse processo. Por meio dessas validações e transparência são dificultadas as chances de legalizar invasões e áreas sobrepostas. Algo consi- derado um enorme avanço no meio fundiário no Brasil, principalmente nas áreas de grandes conflitos como na Amazônia Legal. “Numa próxima etapa estaremos desenvolvendo programas que auxiliarão na destinação de terras pú- blicas, numa reforma agrária na prática”, concluíram os sócios, que têm expectativas positivas para os próxi- mos meses.
FONTES: “CICLES IN FOSSIL DIVERSITY”, DE ROBERT A. ROHDE E RICHARD A MULLER, EM NATURE, VOL 434, 10 DE MARÇO DE 2005 (informação complementar) (gráfico da extinção); “LARGE IGNEOUS PROVINCES AND SILICIC LARGE IGNEOUS PROVINC-
ES: PROGRESS IN OUR UNDERSTANDING OVER THE LAST 25 YEARS,” POR SCOTT E. BRYAN E LUCA FERRARI, EM GEOLOGICAL SOCIETY OF AMERICA BULLETIN, VOL. 125, NÚMEROS. 7–8; JULHO DE 2013 (mapa); USGS VOLCANOES.USGS.GOV E “LARGE
IGNEOUS PROVINCES AND MASS EXTINCTIONS: AN UPDATE,” POR DAVID P. G. BOND E PAUL B. WIGNALL, EM GSA SPECIAL PAPERS , VOL. 505; 2014 (edições sobre erupção)
Porcentagem de organismos extintos (Gêneros que desapareceram do registro fóssil
natomia
UM ASSASSINO EM SÉRIE
Imensas explosões vulcânicas são apontadas como causadoras de quatro das “grandes cinco” extinções em massa da Terra – Howard Lee
A steroides, micróbios que emitem gases ou erupções vulcânicas foram, em
diversos períodos, apontados como causas das maiores extinções de nos-
so planeta. As cinco “matanças” destruíram a maioria dos animais e da
vegetação na Terra. A datação de rochas indica que erupções cataclísmi-
cas ocorreram no mesmo período de quatro das maiores extinções e
ligam as explosões a modificações letais na atmosfera.
Por exemplo, há 251,9 milhões de anos, a vida entrou em colapso no Per- miano. Mais de 95% das espécies marinhas e 70% das terrestres desapareceram. Nessa época, havia uma tremenda atividade vulcânica na região chamada Tocaias Siberianas. Para analisar
se a atividade geológica começou antes da extinção e poderia tê-la provocado, Seth Burgess e Samuel
Bowring, os geocronologistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e colegas, foram à Sibéria definir a cronolo- gia dos acontecimentos com precisão. Os cientistas coletaram cristais de zir- cônia e perovskita de rochas eruptivas. Quando se formam, os cristais contêm urânio, que se converte em chumbo a um
ritmo estável após esfriarem na superfície da Terra. A proporção de urânio em relação ao chumbo revela há quanto tempo a erupção ocorreu.
A maioria das rochas eruptivas
começou a chegar à superfície do planeta apenas 300 mil anos antes
|
do |
pico da extinção, relatou a equi- |
|
pe |
no periódico Science Advances. |
Howard Lee, baseado em Nova Jersey, escreve sobre ciência.
Geoquímicos também encontra- ram sinais de uma imensa explo-
são de dióxido de carbono nesse período, um padrão que se repete nas extinções nos finais do Devoniano, Triássico e Cretáceo. Não se trata de erupções corriqueiras. Elas vêm de campos gigantescos, às vezes de milhares de quilômetros de extensão, cobertos por aberturas vulcânicas. Os geó- logos chamam essas áreas de “grandes
ONDE e QUANDO
78 Scientific American Brasil | Abril 2016
províncias ígneas” (LIP). Seus resquícios hoje formam vastas faixas de lava endure- cida em áreas remotas da Ásia, assim como em outros locais. Erupções de LIP são espetaculares: o magma explode no ar em fontes incandescentes de mais de 1,5 km de altura, lava amarela e quente forma rios longos, e uma névoa tórrida e sulfuro- sa corre por quilômetros. Mas não é a lava ou as cinzas que fazem com que as extin- ções sejam um fenômeno de “massa”; os
gases de dióxido de enxofre e de dióxido de carbono impulsionam as espirais letais. Algumas das novas datações levaram o geofísico Mark Richards, da Universidade da Califórnia em Berkeley,eogeólogo Walter Alvarez, que ajudou a criar a teoria do impacto de asteroide que teria extermi- nado os dinossauros, a refinar a ideia. Em um trabalho de abril de 2015 no GSA Bul- letin, a equipe deles sugere que a energia do impacto do asteroide com o planeta acelerou as erupções mais violentas no Cretáceo. Assim, combinada com vulcões, a teoria do impacto, ao contrário dos di- nossauros, continua viva.
60
40
20
0
Milhões de anos atrás:
400
200
Hoje
Crosta superior
Crosta inferior
Litosfera
Manto
superior
do
manto
Fronteira
mostrada)
de
núcleo
(não
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3
5
2
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(marrom e cinza).
MAIORES BANGS
Volumes aproximados
Monte Santa Helena
0,25 quilômetro cúbico
Monte Pinatubo
5 km 3
Supervulcão de Yellowstone
2.450 km 3
LIP Armadilha
Viluy
1 milhão de km 3
LIP Armadilhas
Deccan
2,5 milhões de km 3
LIP Atlântico Central
4 milhões de km 3
LIP Armadilhas
Siberianas
4 milhões de km 3
2 3
1 4
O INCIPIENTE DESENVOLVIMENTO HUMANO mostram um corte transversal de um espermatozoide que ainda está no testículo (1) e quando se aproxima do óvulo, muito maior (2). Aos 22 dias após a fertilização, as células da crista neural (amarelo, 3) ainda não se uniram para formar o tubo que dá origem ao cérebro e à espinha dorsal, claramente visíveis após seis semanas de evolução (4).
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BIOLOGIA
CEL LAR
Paul N. Adler e Jeremy Nathans
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Paul N. Adler é professor de biologia na Universidade de Virgínia.
é professor de biologia molecular e genética, neurociência e oftalmologia na Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins e pesquisador no Instituto Médico Howard Hughes.
Construir um corpo não é simples. Peixes, rãs e pessoas se originam todos de uma única célula que se torna, aparentemente contra muitas probabilidades, uma criatura altamente organiza- da e muito complexa. Óvulos fecundados primeiro se dividem em duas células que então se tornam quatro, depois oito, 16 e, em algumas semanas, dezenas de milhares. A essa altura, a bola esférica original se reorganizou em uma forma alongada, com uma protuberância mais arredondada e den- sa, ou espessa em uma extremidade, com uma ruga, ou sulco raso que se estende por todo o seu com- primento. Logo depois disso tem início outro espantoso balé celular. O sulco se aprofunda, e as célu- las que formam suas paredes começam a se inclinar umas para as outras até se tocarem e aglutina- rem, formando um longo tubo oco que acabará originando o cérebro na extremidade protuberante e a medula espinhal na outra.
Para se juntar com tanta precisão, essas e outras células no embrião têm de perceber, ou “sentir”, onde estão em relação ao resto do organismo. Cada célula precisa “saber” onde estão localizados a frente, as costas, o topo e a parte inferior de um animal. Cada célula também tem de descobrir qual direção é mais próxima ou distante do restante do corpo. Nós e outros
biólogos desenvolvimentistas passamos as últimas décadas tentando entender como esse sistema de orientação celular funciona. Como parte dessa busca, descobrimos um compo- nente-chave que contém várias proteínas que trabalham em conjunto como uma bússola em miniatura dentro de cada célula. Sem ela, o coração, os pulmões, a pele e outros órgãos
precisam “saber”
onde estão localizadas em relação ao res-
tante do corpo.
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EM SÍNTESE
décadas, mas proteínas fundamentais que permitem às células “perceber”, ou “sentir”em que di-
reção se encontram a frente, as costas ou a cabeça de um animal, entre outras coisas. sãotão importantes que os
to no mais de meio bilhão de anos desde que evoluíram originalmente.
SCIENCE SOURCE
CLOSE-UP : uma imagem gerada por computador destaca as pregas neurais de um embrião humano de 22 dias de idade. As protuberâncias nos dois lados da estrutura dão origem a músculos e ossos do esqueleto.
não poderiam se desenvolver adequadamente. Em humanos, quando uma dessas proteínas é alterada por mutação, graves defeitos de nascença resultarão. Embora ainda haja muita coisa que não entendemos sobre o funcionamento desse sistema de orientação, o que descobri- mos até agora lança uma nova luz sobre processos fundamen- tais de desenvolvimento em todo o reino animal. O que melhor determinamos até o momento é como a bússola fun- ciona em células epiteliais, que normalmente cobrem uma superfície de tecido, como pedras que revestem uma calçada, formando camadas que têm apenas uma célula de espessura. Se o lençol de algodão sobre uma cama fosse feito de células epiteliais, as proteínas que nós e outros encontramos permiti- riam a qualquer dada célula no lençol perceber, ou “sentir”
qual dos seus lados está mais próximo da cabeceira ou do pé da cama. Organismos com células que sabem onde estão dentro do corpo se beneficiam de uma distinta vantagem evolutiva: seus tecidos complexos não precisam mais ser simétricos em todas as direções; diferentes partes podem se especializar. Os cílios, organelas parecidas com pelos em uma extremidade do ducto coclear do ouvido, por exemplo, distinguem sons de alta fre- quência, enquanto os que se encontram na outra extremidade detectam sons de baixa frequência. Cientistas se referem à consequente assimetria da camada tecidual como polaridade planar porque polos opostos podem ser observados através do plano dos tecidos. Assim que animais “inventaram” uma ferramenta que fun-
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CORTESIA DE JEREMY NATHANS (fotografias de pelos)
COMO FUNCIONA
Organizadores de tecidos
Frizzled6
De magnetos a células, definindo polaridades opostas
visualizados aqui como vermelho azul azul azul extrema direita À medida que
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Polaridade em células epiteliais
Ilustração de Jen Christiansen
cionava, eles a mantiveram e incorporaram. Assim como os genes que codificam muitas proteínas reguladoras, os que codi- ficam proteínas de polaridade planar são muito semelhantes entre espécies evolutivamente distantes. As versões presentes em mamíferos, por exemplo, são bastante similares às existen- tes em insetos. Não é surpresa que esses genes também sejam muito antigos, tendo evoluído há mais de 500 milhões de anos, juntamente com o surgimento do reino animal.
INSETOS ABREM O CAMINHO
Grande parte do que sabemos sobre polaridade planar deriva de estudos com insetos que começaram em meados do século 20. Por uma questão de conveniência, esses experimen- tos se concentraram na camada externa endurecida, ou cutí- cula, facilmente acessível e encontrada na maioria dos insetos
Organismos com células que “sabem” onde estão dentro do corpo têm uma vantagem evolutiva: seus tecidos complexos não precisam mais ser simétricos em todas as direções; eles podem se especializar.
adultos, e não em órgãos internos. Essa camada externa dura é secretada por outra, de células epidérmicas (da pele) mais macias, que fica imediatamente abaixo da cutícula. Quando observada através de um microscópio, a superfície externa da cutícula revela uma “paisagem” bem ordenada de cristas e escamas pontilhadas em intervalos regulares com pelos e cerdas. Algumas dessas saliências, ou protrusões são sensíveis a mudanças em pressão ou na concentração de subs- tâncias químicas e, desse modo, ajudam as criaturas a reagir a seus ambientes. Além disso, quase todo pelo ou cerda se ali- nha paralelamente com seus vizinhos mais próximos, de maneira que todas as suas pontas, ou extremidades tendem a apontar na mesma direção. Nas asas, os pelos apontam para longe do corpo. No corpo em si, pelos e cerdas apontam para longe da cabeça. Como as paredes de um tubo neural que ain- da está se formando, essas células parecem saber onde fica a parte de trás e a parte da frente. Elas também parecem saber qual direção está mais próxima ou distante de outros tecidos (proximal ou distal, respectivamente). As células parecem compartilhar essa informação direcio- nal umas com as outras, conforme demonstrado por Peter
Lawrence, da Universidade de Cambridge, pelo falecido Michael Locke, da Universidade de Ontário Ocidental, e por outros em uma série de experimentos pioneiros conduzidos há mais de 40 anos. Esses cientistas cuidadosamente recorta- ram pequenos quadrados de pele da camada epidérmica que origina o exoesqueleto em barbeiros (do gênero Rhodnius) e percevejos (Oncopeletus). Em seguida, eles giraram os quadra- dinhos em 180 o e os reimplantaram na epiderme abdominal dos insetos hospedeiros. Poderíamos simplesmente esperar que as cristas ou cer- das na cutícula que acabaram se formando no enxerto que foi virado apontariam na direção oposta das cristas e cerdas circundantes. Mas após a ecdise, ou muda seguinte, quando os insetos eliminaram seus exoesqueletos velhos e sintetiza- ram um novo, os pesquisadores observaram uma mudança notável. Em vez de se alinhar em direções opostas, as estruturas formaram lindos redemoinhos ao longo das bordas do quadrado transplantado. O padrão de redemoinhos sugeriu que células vizinhas tinham ajustado suas orientações para minimizar as diferen- ças entre elas. Claramente, as células foram capazes de se comunicar entre si sobre em que direção suas cristas e cerdas deveriam apontar. Mas como? Revelar o mecanismo celular e molecular subjacen- te exigiu uma mudança de tática, de manipulações cirúrgicas para uma abordagem genética. E quando se trata de genética, o inseto mais bem compreendido é a mosca-das-frutas comum (Drosophila melanogaster), que vem sendo estudada detalhadamente desde 1910. A partir da década de 1980, pesquisadores, inclusive um de nós (Adler), começaram a investigar a polarida- de de tecidos em moscas-das-frutas. Nossa abordagem geral foi identificar e estudar espécimes mutantes com defeitos no sistema de polaridade para deduzir como ele funcionava normalmente. Sabíamos, por exemplo, que os pelos em uma asa de Drosophila, como aqueles nos abdomens de barbeiros e percevejos, apontam em uma direção unifor- me; nesse caso, para sua borda mais distante. Mutações em um gene chamado frizzled [encrespado, ao pé da letra], no entanto, davam a impressão de que a mosca estava tendo um “dia de cabelo ruim”, com muitos pelos apontando na direção errada; mudanças em outro gene, chamado dishevelled [des- penteado, desarrumado, em tradução literal], causaram um padrão similar, como o próprio nome sugere. Essa similarida- de era um indício de que esses genes diferentes eram parte de um único sistema que controlava a orientação celular. Dois grupos, um liderado por David Gubb e Antonio Gar- cía-Bellido, ambos então na Universidade Autônoma de Madri, na Espanha, e o outro comandado por Adler, estuda- ram sistematicamente como mutações em frizzled e dishevel- led, e outras modificações afetavam a orientação de várias partes da cutícula da mosca-das-frutas. No fim, nós e outros pesquisadores determinamos que em Drosophila seis genes diferentes codificam proteínas que servem como componen- tes fundamentais do sistema de polaridade. Dois desses seis
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genes, que Adler isolou em 1998, agiam muito como o frizzled. Mutações em qualquer um deles resultavam em uma série de redemoinhos que o lembraram das pinceladas nas pinturas do artista pós-impressionista holandês Vincent van Gogh. Por essa razão, ele chamou um gene Van Gogh e o outro starry night [referência ao quadro “Noite estrelada”, uma das obras mais famosas do pintor]. Outro avanço na compreensão da base celular para a pola- ridade planar em Drosophila havia ocorrido alguns anos antes, quando Lily Wong, então uma estudante de graduação no laboratório de Adler, examinou asas em desenvolvimento para estudar como as disposições de pelos eram formadas e como mutações em genes de polaridade tecidual alteravam esse processo. Wong descobriu que cada célula epitelial for- mava um pelo em sua borda mais distal e que mutações que alteravam polaridade estavam associadas a uma mudança no local da formação do pelo. Esse resultado levou Wong e Adler a teorizar que proteínas de polaridade fazem parte de um caminho que regula a arquitetura do citoesqueleto, a fina malha, ou rede de proteínas polimerizadas que controla for- ma e movimento celular. Charles R. Vinson, à época também um estudante de gra- duação no laboratório de Adler, demonstrou a sinalização local de célula para célula ao criar pequenas áreas de células frizzled mutantes durante o desenvolvimento de uma asa que, de outra forma, era normal. As células mutantes fizeram com que suas vizinhas não mutantes mais distantes do corpo reo- rientassem seus pelos em aproximadamente 180 o , de modo que apontassem para trás, para a área mutante. As orienta- ções de células não mutantes que estavam a uma distância maior da parte mutante permaneceram inalteradas. Vinson e Adler interpretaram esse resultado como significando que o sistema de polaridade controla a orientação celular com sinais de curto alcance e que pode não haver necessidade para que um sinal preciso seja distribuído por longas distâncias, como pode ocorrer com um gradiente químico, para determinar uma orientação adequada.
UM MODELO ATRAENTE
A ideia de proteínas de polaridade poderem regular a for- mação do citoesqueleto levou vários pesquisadores a tentar descobrir exatamente onde, na célula, essas proteínas estão distribuídas. Ocorre que as proteínas de polaridade não estão distribuídas de modo uniforme e, portanto, elas podem afetar lados diferentes da célula de maneiras distintas. Em 2005, Tadashi Uemura, da Universidade de Kyoto, no Japão, Jeffrey Axelrod, da Universidade Stanford, na Califórnia, Marek Mlodzik, da Escola de Medicina Icahn do Hospital Monte Sinai, em Nova York, e David Strutt e Helen Strutt, da Univer- sidade de Sheffield, na Inglaterra, revelaram uma série de padrões notáveis. Na camada celular única que forma a super- fície de uma asa da mosca-das-frutas, por exemplo, proteínas van Gogh se acumulam predominantemente no lado de cada célula que está mais próximo do corpo. Comparativamente, proteínas frizzled se acumulam mais acentuadamente no lado
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celular mais próximo da extremidade final da asa. Proteínas starry night são encontradas nos dois lados de cada célula. Os padrões assimétricos sugeriram para nós e outros um modelo de trabalho para o modo como o sistema direcional funciona. O modelo postula dois tipos de interações entre as proteínas van Gogh e frizzled: um que as atrai mutuamente e outro que as repele umas das outras. Proteínas van Gogh encontradas no lado de uma célula da asa mais próxima do corpo, por exemplo, parecem atrair proteínas frizzled na superfície adjacente de uma célula vizinha. Enquanto isso, dentro de cada célula, proteínas frizzled e Van Gogh se repe- lem mutuamente, de maneira que acabam em lados opostos da célula. Atualmente, não conhecemos os mecanismos das hipotéticas forças de atração e repulsão, e isso continua sendo uma área de intensa investigação. Para ver como esse modelo funciona para propagar sinais direcionais entre um grupo de células, imagine olhar para um lençol formado por muitas fileiras de células com proteínas de polaridade planar distribuídas mais ou menos randomica- mente dentro de cada célula. Agora coloque mentalmente, no lado proximal do lençol, uma nova fileira de células nas quais as proteínas não estão distribuídas de forma aleatória; em vez disso, as frizzled estão alinhadas no lado distal, e as van Gogh no lado proximal das células. O modelo prevê que as forças atrativas entre as proteínas frizzled na nova primeira fileira de células e as van Gogh de outra forma distribuídas randomi- camente em suas vizinhas da agora segunda fileira atrairiam mais proteínas van Gogh para a superfície proximal da segun- da fileira de células [ver box na pág. 84]. Quaisquer proteínas frizzled na segunda fileira, no entan- to, então começariam a se concentrar no lado distal das célu- las, longe das proteínas van Gogh que estariam se acumulan- do no lado proximal. À medida que as frizzled se reunissem no lado distal da segunda fileira de células, elas atrairiam proteí- nas Van Gogh na superfície proximal adjacente da terceira fila. Desse modo, o padrão assimétrico de proteínas de polari- dade tecidual se propagaria de uma fileira de células para a próxima por todo o lençol. Esse modelo é consistente com um grande conjunto de dados experimentais. Em particular, ele prediz que os padrões de assimetria proteica deveriam ser extremamente estáveis porque qualquer célula imprevisível, que se desvia do modelo; isto é, uma célula com um padrão incorreto de acúmulo de polaridade proteica, será empurrada, ou cutucada de volta para a orientação correta por sinais de suas vizinhas proxi- mais e distais. Desse modo, cada célula cria sua própria bússo- la, que define a sua orientação e também influencia as orien- tações de suas vizinhas.
VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA
Insetos, evidentemente, não são os únicos animais a exibir polaridade planar. Inspirados pelos experimentos com Droso- phila de Gubb e Adler, pesquisadores (inclusive Nathans) começaram a procurar por genes de polaridade planar em vertebrados. Esses experimentos, e estudos posteriores de
sequenciamento em larga escala de diversos genomas, revela- ram genes de polaridade notavelmente similares em todo o reino animal. Curiosamente, não parecem existir genes seme- lhantes em plantas, o que implica que os belos padrões de flo- res e outros órgãos vegetais são programados por sistemas de polaridade completamente diferentes. Por razões que continuam obscuras, mamíferos têm múlti- plas versões de cada gene de polaridade Drosophila. Humanos e outros mamíferos, por exemplo, têm três genes starry night diferentes, enquanto moscas-das-frutas têm apenas um. Genes frizzled e dishevelled também ocorrem em diversas cópias. Nathans tem estado particularmente interessado em des- cobrir os detalhes do sistema de polaridade planar em mamí- feros. Como ocorreu com os experimentos anteriores com insetos, estruturas diferentes dentro da pele, nesse caso pelos, provaram ser o melhor e mais acessível lugar para começar.
do o laboratório de Nathans começou a examinar como neurônios no cérebro de mamíferos estão conectados uns com os outros. Os principais caminhos nessa complexa rede, criados durante o desenvolvimento embrionário, quando neurônios individuais projetam axônios (os prolongamentos que possibilitam ou intermedeiam a comunicação de longo alcance no cérebro) que crescem ao longo de “rotas” prédefi- nidas na direção de seus alvos. Nathans e sua colega, Yanshu Wang, da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, descobriram que o gene Frizzled3 desempenha um papel fundamental na condução de axônios através do labi- rinto de tecido neural embrionário. Quando os pesquisado- res produziram camundongos desprovidos de um Frizzled3, os axônios não conseguiam mais se orientar (encontrar seu caminho) e começaram a seguir trajetórias aberrantes, anor- mais. O grupo de Nathans então decidiu testar se o gene Fri- zzled6, que era tão importante para padrões pilosos, poderia assumir o lugar de Frizzled3, e vice-versa. Utilizando camundongos geneticamente modifica- dos, a equipe constatou que o Frizzled3 era plena- mente capaz de substituir o Frizzled6, resultando em padrões de pelos normais. No entanto, o Frizzled6 só podia substituir o Frizzled3 parcial, mas não comple- tamente, na condução (orientação) do crescimento de axônios. Portanto, os sistemas de polaridade encon- trados nas peles e nos cérebros de camundongos são similares, mas não idênticos. Os sistemas de polaridade resultantes desempe- nham um papel importante na existência de todos os vertebrados (inclusive humanos), dos primeiros dias de vida embrionária até o momento em nossa inces- sante respiração, quando os cílios em nossas vias aé- reas expelem qualquer muco que esteja se acumulando em nosso peito em apenas uma direção: para cima e para fora dele. À medida que pesquisadores obtêm insights cada vez maiores das maneiras como células individuais percebem, ou “sentem” seu lugar no plano corporal, estamos continua- mente maravilhados com a beleza do desenvolvimento embrionário. Entre as muitas mudanças genéticas que origi- naram a incrível diversidade dentro do reino animal havia um grupo de genes sinalizadores de polaridade. Esse conjunto gênico, e suas proteínas associadas, provou ser tão bem-suce- dido ao longo dos últimos 500 milhões de anos que animais complexos os têm usado desde então para resolver uma ampla variedade de desafios evolutivos.
Os sistemas de polaridade resultantes desempenham um papel importante na existência de todos os vertebrados (inclusive humanos), dos primeiros dias de vida embrionária até o momento dde nossa incessante respiração.
Ao contrário da asa da mosca, em que cada célula produz um pelo, cada filamento piloso de mamífero desponta de um folículo composto de dezenas a centenas de células. Além dis- so, diferentemente das células vizinhas nas asas de um inseto, os folículos capilares de mamíferos não se tocam diretamente entre si; folículos pilosos vizinhos em geral são separados por muitas dezenas de células cutâneas (da pele). Apesar dessas diferenças em estruturas superficiais entre insetos e mamífe- ros, os resultados da eliminação de genes de polaridade são bastante semelhantes. Em 2004, Nino Guo, então um estu- dante de graduação no laboratório de Nathans, empregou métodos de engenharia genética para eliminar o gene Frizz- led6 em camundongos. Guo e Nathans ficaram surpresos ao ver que os folículos pilosos nos camundongos mutados não eram mais paralelos entre si, mas que haviam se reorientado para criar uma série de “espirais”, ou redemoinhos reminis- centes dos padrões observados nas asas de moscas Drosophila mutantes [ver box na pág. 84]. A maior surpresa, no entanto, talvez tenha ocorrido quan-
PARA CONHECER MAIS
mice. Yanshu Wang, Hao Chang e Jeremy Nathans em Development, vol. 137, nº 23, págs. 4091–4099; 1º de dezembro de 2010. Paul N. Adler em Developmen- tal Cell, vol. 2, nº 5, págs. 525–535; maio de 2002.
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FOTOGRAFIA DE EMMA TODD
GENÉTICA
editando o
cogu
melo
Uma poderosa nova ferramenta de alteração gênica está tomando conta da agricultura. Ela poderia transformar o debate sobre transgênicos
Stephen S. Hall
Ilustração de Owen Gildersleeve
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é um premiado escritor de ciência. Sua obra mais recente é (Knopf, 2010).
OS CERCA DE CEM AGRICULTORES que lotavam o salão nobre do hotel Mendenhall Inn, em Chester County, na Pensilvânia, talvez não tivessem conhecimentos básicos sobre edição gênica, mas conheciam cogumelos. Esses fungicultores locais produziam, em média, assombrosas 500 toneladas de cogumelos por dia; uma das razões pelas quais a Pensilvânia domina o mercado anual dos Esta- dos Unidos, de US$ 1,2 bilhão. No entanto, alguns dos cogumelos que eles produzem escurecem e apodrecem nas prateleiras de lojas e mercados; se você alguma vez já segurou um cogumelo antes fir- me e branco que se tornou viscoso e em decomposição, sabe por que ninguém os compra. Cogumelos são tão sensíveis a qualquer agressão física que até a cuidadosa colheita e acondicionamento “de um toque só” pode ativar uma enzima que acelera seu apodrecimento.
Em uma enevoada manhã no outono boreal passado, em um seminário educacional sobre cogumelos, um biólogo cha- mado Yinong Yang subiu ao pódio para anunciar uma possível solução para o problema do escurecimento. Yang, um profes- sor educadamente espirituoso de fitopatologia da Universida- de Estadual da Pensilvânia (Penn State), não é um perito na área. (“A única coisa que sei sobre cogumelos é como consu- mi-los”, admite.) Mas ele editou o genoma de Agaricus bispo- rus, o chamado champignon de Paris, o mais popular cogume- lo de mesa no mundo ocidental, usando uma nova ferramenta chamada CRISPR. Os fungicultores na plateia provavelmente nunca tinham ouvido falar de CRISPR, mas compreenderam que se tratava de algo muito importante quando Yang mostrou uma foto da atriz Cameron Diaz entregando às inventoras Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier o Prêmio Breakthrough em novem- bro de 2014, que vinha acompanhado, cada um, de um cheque de US$ 3 milhões. Eles também entenderam as enormes impli- cações comerciais quando Yang lhes mostrou fotografias com- parativas de cogumelos escurecidos, marrons e apodrecidos e exemplares imaculadamente brancos, geneticamente modifica- dos por meio da CRISPR de A. bisporus, a linhagem que res- ponde anualmente por mais de 408,2 mil toneladas de cogume- los champignon de Paris, cremini e portobello. (A Penn State também entendeu as implicações comerciais; na véspera da pa-
lestra de Yang, a universidade entrou com um pedido de paten- te para o trabalho sobre cogumelos.) Em seus modestos três anos como um capítulo da história da ciência, a CRISPR já gerou mais tramas secundários fasci- nantes que um romance de Charles Dickens. Essa é uma ferra- menta de pesquisa revolucionária com dramáticas consequên- cias médicas, controversas situações bioéticas, uma embaraço- sa disputa de patentes e, pairando acima de tudo isso, implicações comerciais da ordem de bilhões de dólares para a medicina e a agricultura. A técnica varreu a comunidade de pesquisa básica como um tornado de categoria F5. Laborató- rios acadêmicos e companhias de biotecnologia estão correndo atrás de tratamentos inéditos para doenças como anemia falci- forme e talassemia beta. E tem havido até especulações sobre artistas DIY [abreviação de “do it yourself”, ou “faça você mes- mo”] e bioempresários que criam de tudo, de coelhinhos com pelagem de cor violeta a pequenos talismãs vivos, geneticamen- te editados, que respiram, como os porquinhos miniaturizados produzidos recentemente na China como animais de estima- ção. A perspectiva de usar a CRISPR para reparar embriões ou editar de modo permanente o nosso DNA (processo conhecido como modificação da linha germinal humana) suscitou agita- das conversas sobre “aprimorar” a espécie humana, e apelos de moratórias internacionais para sua aplicação. A revolução CRISPR (abreviação, em inglês, de repetições
EM SÍNTESE
permite que cien-
tistas alterem o genoma de um organismo com precisão sem precedentes. de colocar poderosas
nas empresas agrícolas, em vez de grandes agroindústrias, porque o método é fácil e barato de usar. que biologicamente atecnologia émenos invasiva quetécnicas tradicionais demelhoramento de plantas prat-
icadas em milhares de anos.Reguladores tendem a concor-
dar. o debate sobre alimen-
recente “alimento frankensteiniano”.
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palindrômicas curtas agrupadas e regularmente interespaça- das) pode estar tendo seu efeito mais profundo, e menos divul- gado, na agricultura. Até o outono boreal de 2015, haviam sido publicados cerca de 50 artigos científicos relatando diversos empregos da CRISPR em plantas geneticamente editadas, e há sinais preliminares de que o Departamento de Agricultura (USDA), uma das agências do governo americano que avalia produtos agrícolas geneticamente modificados, não acredita que todas as culturas com genes editados exigem a mesma atenção regulatória que organismos geneticamente modifica- dos “tradicionais”, ou OGMs. Com essa porta normativa apenas ligeiramente entreaberta, empresas estão correndo para levar culturas geneticamente editadas às lavouras e, em última ins- tância, à cadeia de abastecimento alimentar. O aspecto transformador da CRISPR reside em sua precisão sem precedentes. A técnica permite desativar qualquer gene ou, com um pouco mais de esforço, acrescer uma característica dese- jável ao inserir um gene em um local específico em um genoma. Isso a torna, de acordo com seus praticantes, a forma menos in- vasiva, ou biologicamente perturbadora de seleção e melhora- mento de plantas que humanos jamais inventaram, inclusive as técnicas de cruzamento “natural” que têm sido praticadas há mi- lhares de anos. Ela também permite que cientistas evitem, ou contornem, em muitos casos, as controversas técnicas de inserir DNA de outras espécies em plantas; essas culturas “transgêni- cas”, como o milho e a soja desenvolvidos pela Monsanto, que são resistentes ao herbicida Roundup, despertaram uma ira especial em críticos de OGMs e levaram o público em geral a desconfiar da tecnologia. Ainda assim, alguns cientistas estão otimistas de que culturas CRISPR são tão fundamentalmente diferentes que elas mudarão a essência do debate sobre alimentos genetica- mente modificados. “A nova tecnologia”, observa Daniel F. Voy- tas, acadêmico e cientista associado a uma empresa, “está exigin- do uma reavaliação do que é um OGM.” Os consumidores concordarão? Ou eles considerarão culturas CRISPR como a mais recente iteração do chamado frankenfood, ou “alimento frankensteiniano”, uma distorção genética da natu- reza em que DNA estranho (e favorável ao agronegócio) é intro- duzido à força em uma espécie, com consequências imprevisíveis para a saúde humana e o meio ambiente? Como a CRISPR só está sendo aplicada agora a culturas de commodities, a questão ainda não chegou até o público, mas o fará em breve. Agriculto- res como os fungicultores de Yang serão os primeiros a ter rele- vância nisso, provavelmente já em um ou dois anos. Poucos momentos após o encerramento da palestra de Yang, um cientista industrial o confrontou com o desafio central de alimentos CRISPR. O pesquisador concordou com o argumento de Yang de que os cogumelos aprimorados exigiam uma inter- ferência mínima no DNA em comparação com OGMs conven- cionais. “Mas”, insistiu o cientista, “isso é modificação genética, e algumas pessoas verão isso como se estivéssemos brincando de Deus. Como contornaremos isso?” Com que aptidão Yang e outros cientistas que aplicam essas técnicas de edição gênica a alimentos conseguem responder a essa pergunta determinará se a CRISPR é uma ferramenta po-
tencialmente transformadora ou uma que será travada, ou blo- queada pela oposição pública.
“UAU! É ISSO AQUI!”
O sinal revelador de qualquer tecnologia transformacional é
com que rapidez pesquisadores a aplicam em seus próprios
problemas científicos. Por esse padrão, a CRISPR está entre as adições mais poderosas ao kit de ferramentas da biologia no úl- timo meio século. O cogumelo geneticamente editado é um im- portante exemplo ilustrativo. Yinong Yang, seu primeiro nome significa “também pratica agricultura” em chinês, nunca trabalhou com cogumelos até 2013, mas poderíamos dizer que estava à altura da tarefa. Nas- cido em Huangyan – cidade ao sul de Xangai conhecida como capital cítrica da China –, ele experimentou informalmente com algumas enzimas primitivas de edição gênica em meados da década de 1990, quando era aluno de graduação na Univer- sidade da Flórida, e mais tarde na Universidade do Arkansas. Ele se lembra vividamente de como abriu a edição de 17 de agosto de 2012 do periódico Science, que continha um artigo científico do laboratório de Doudna na Universidade da Cali- fórnia em Berkeley, e do de Charpentier descrevendo o poten- cial de edição gênica da CRISPR. “Uau!”, pensou Yang. “É isso aqui!” Em poucos dias ele estava bolando planos para melhorar características em plantas de arroz e batata através da edição de genes. Seu laboratório publicou seu primeiro artigo sobre a CRISPR no verão de 2013. Ele não estava sozinho. Botânicos ficaram empolgados com a CRISPR assim que a técnica foi publicada. Pesquisadores chi- neses, que rapidamente abraçaram a tecnologia, chocaram a comunidade agrícola em 2014 quando mostraram como o mé- todo podia ser utilizado para tornar o trigo comum (Triticum aestivum) resistente a uma praga antiga e persistente, o oídio, uma doença em folhas causada por fungos.
A revolução da edição gênica, no entanto, havia começado
antes da chegada da CRISPR. Para pessoas como Voytas, o mé- todo é meramente o capítulo mais recente de uma saga científi- ca muito mais longa, que só agora está começando a dar frutos. Ele tentou editar genes em plantas pela primeira vez há 15 anos, quando estava na Universidade Estadual de Iowa, com uma tecnologia conhecida como dedos de zinco. Sua primeira empresa de edição gênica naufragou devido a problemas com patentes. Em 2008, Voytas foi para a Universidade de Minneso- ta e, em 2010, patenteou, junto com seu ex-colega Adam Bogda- nove, da Universidade Estadual de Iowa, agora na Universida- de Cornell, um sistema de edição gênica baseado em TALENs (sigla, em inglês, de transcrição do gene alvo ativador-como nu- cleases efetoras), uma ferramenta posterior. Naquele mesmo ano, Voytas e seus colegas fundaram uma empresa hoje conhe- cida como Calyxt. Sem o alvoroço da CRISPR, cientistas agríco- las têm usado TALENs para produzir plantas geneticamente editadas que já foram cultivadas em lavouras nas Américas do Norte e do Sul. A Calyxt, por exemplo, criou duas linhagens de soja modificadas para produzirem um óleo mais saudável, com níveis de gorduras monoinsaturadas comparáveis aos óleos de
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MELHORAMENTO DE PLANTAS
Modificação genética com outros nomes
(commodities) há milhares cio do século 20, cientistas aprenderam a alterar deliberadamente o todas essas técnicas
Conceitos fundamentais
Mutagênese
Silenciamento gênico commodities
Cisgênese Agrobacterium tumefaciens
Transgênese A. tumefaciens
oliva e canola. E a empresa editou geneticamente uma linha- gem de batata para evitar o acúmulo de certos açúcares duran- te o armazenamento a frio, reduzindo o sabor amargo associa- do a ele, assim como a quantidade de acrilamida, um suspeito carcinogênico produzido quando batatas são fritas. Como essas modificações genéticas não envolveram a in- trodução de quaisquer genes estranhos (exógenos), o Serviço de Inspeção de Saúde Animal e Vegetal (APHIS), do Departa- mento de Saúde dos EUA (USDA), decidiu, no ano passado, que as culturas não precisam ser regulamentadas como OGMs. “O USDA deu autorização regulatória para o plantio de uma variedade de batata e duas de soja, de modo que a da ba- tata e uma das duas da soja estão no campo este ano”, disse- -me Voytas em outubro passado. “Eles basicamente considera-
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Cruzamento convencional
linkage drag Arabidopsis
Parente selva Fruto indesejável, mas a planta é resistente a ferrugem
Cultivar atual Fruto desejável mas a planta é suscetível a ferrugem
Est
Pólen
Polinização cruzada
Primeira geração
Segunda geração
Faça a polinização cruzada de um subconjunto da progênie com o cultivar original, limitando, parente silvestre, ou selvagem sobre traços selecionados
Faça a polinização cruzada de descendentes selecionados com o cultivar original
Repita por muitas gerações
Novo cultivar Planta resistente a ferrugem com fruto desejável
ram essas plantas apenas como padrão, como se tivessem sido geradas por agentes químicos mutagênicos, raios gama ou al- guma tecnologia não regulamentada. O fato de termos obtido a liberação normativa e podermos passar quase imediatamen- te da estufa para o campo é uma grande vantagem. Isso nos permite realmente acelerar o desenvolvimento de produtos.” Zoólogos também embarcaram no trem da alegria da edição gênica. Pesquisadores da pequena empresa de biotecnologia Recombinetics, com sede em Minnesota, bloquearam genetica- mente o sinal biológico que regula o crescimento de chifres em vacas holandesas (Holstein-Frísia), os carros-chefes da indús- tria de laticínios. Eles fizeram isso usando a edição gênica para replicar uma mutação que ocorre naturalmente em gado de corte da raça Angus, que não desenvolve chifres.
Ilustrações de Jen Christiansen
(Agrobacterium)
Pode ser de um organismo cisgênico) ou de um organismo não aparentado
Cultivar atual Fruto desejável, mas a planta é suscetível a ferrugem
Bactéria
Método Agro um anel de DNA bacteriano e depois transferido para uma célula do cultivar atual
Célula vegetal
Método biobalístico; pistola de genes Partículas de metal revestidas com fragmentos de DNA são injetadas em célula vegetal do cultivar atual
Célula vegetal
Novo cultivar Planta resistente a ferrugem com fruto desejável
Pesquisadores de ciências agrícolas defendem essa aplica- ção da edição gênica como uma forma mais humanizada de criação porque poupa os machos Holstein de um procedimento cruel e abominável durante o qual os criadores de gado leiteiro extirpam fisicamente e depois cauterizam chifres em desenvol- vimento (isso é feito para proteger tanto o gado como os latici- nistas de qualquer ferimento). Scott Fahrenkrug, CEO da Re- combinetics, explica que o processo não envolve transgenes, apenas a introdução de algumas letras de DNA “para corres- ponder aos alimentos que já consumimos”. Cientistas coreanos e chineses, por outro lado, se uniram para produzir um porco com muito mais massa muscular ao aplicarem a edição gênica para desativar um gene chamado miostatina. A rapidez, facilidade e economia da CRISPR a tornam uma
Edição gênica de segunda geração
(ilustrado abaixo)
Cultivar atual Fruto desejável, mas a planta é susceptível a ferrugem
Gene indesejável
Ferramen Compreen correspond e uma prote
Célula vegetal
A ferrame do DNA. Quand
adiciona vários pares de base de DNA no local, adicionar centenas ou milhares de pares de base de DNA
Local do corte, clivagem
Planta geneticamente Planta resistente a ferrugem com fruto desejável
Genes indesejáveis desativados
técnica ainda mais atraente que a TALENs. “Sem dúvida”, pre-
vê Voytas, no futuro a CRISPR “será a ferramenta de edição
vegetal preferida”. Mas a obscura situação de sua patente — tanto a Universidade da Califórnia como o Instituto Broad
(dirigido pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts e pela Universidade Harvard) alegam ter inventado o método CRIS- PR — pode retardar seu desenvolvimento comercial agrícola.
A DuPont recentemente formou uma “aliança estratégica”
com a Caribou Biosciences, empresa de biotecnologia associa-
da à Universidade da Califórnia em Berkeley, para usar aplica-
ções agícolas da CRISPR, mas executivos de duas outras pe- quenas companhias de biotecnologia disseram à Scientific
American que têm receio de desenvolver produtos ligados à CRISPR enquanto a disputa de patente não for resolvida.
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Isso não é um grande problema para laboratórios acadêmi- cos. A história dos cogumelos deu uma guinada decisiva em ou- tubro de 2013, quando David Carroll, graduado pela Penn State, apareceu no laboratório de Yang. Carroll, que era presidente da Giorgi Mushroom Company, queria saber se novas técnicas de edição gênica podiam ser usadas para o melhoramento de co- gumelos. Animado com o poder da CRISPR para criar muta- ções altamente precisas, Yang perguntou: “Que tipo de caracte- rística você quer?”. Carroll sugeriu o “antiescurecimento” e Yang imediatamente concordou em tentar. Ele sabia exatamente qual gene queria visar. Biólogos já ti- nham identificado uma família de seis genes, cada um dos quais codifica uma enzima que causa o chamado escureci- mento enzimático. Essa classe de genes também causa a mes- ma reação em maçãs e batatas, que também já se tornaram al- vos de editores gênicos. Quatro dos chamados genes de escurecimento produ- zem essa enzima no esporocarpo (também chamado cor- po frutífero ou carpóforo) de cogumelos, e Yang pensou
O termo “CRISPR/Cas9” é um pouco equivocado agora por-
que CRISPR, como já mencionado, se refere a clustered regu- larly interspaced short palindromic repeats, trechos de DNA que só ocorrem em bactérias. É a proteína Cas9, que transporta um RNA-guia com a sequência correta a ser cortada (alvo), que edita o DNA vegetal, fúngico e humano, embora não haja CRIS- PRs envolvidas. Uma vez que editores gênicos cortam DNA no local deseja- do, eles deixam a natureza fazer o trabalho sujo de mutação.
Toda vez que a dupla hélice do DNA é cortada, a célula percebe
a lesão e se põe a reparar a falha, ou ruptura. Esses reparos, no entanto, não são perfeitos, o que é exatamente o que torna a CRISPR tão poderosa para criar mutações. Durante o processo de reparação, algumas letras do DNA normalmente são apaga- das; como o mecanismo produtor de proteínas de uma célula lê
o DNA em “palavras” de três letras, apagar, ou eliminar algu-
mas delas subverte todo o texto e, essencialmente, desativa o
gene ao criar o que é conhecido como um deslocamento do qua-
dro de leitura (reading frame shift). É precisamente isso o que aconteceu com o cogumelo submetido à edição gênica. No trabalho de Yang, uma
diminuta deleção de DNA desativou uma das enzimas que promovem o escureci- mento enzimático; uma mutação que Yang e seus colegas confirmaram com uma aná- lise de DNA. Pronto, a edição estava con- cluída. De acordo com Yang, um biólogo molecular habilidoso poderia construir em cerca de três dias uma ferramenta de mutação personalizada para editar prati- camente qualquer gene em praticamente
qualquer organismo. Essa opinião ecoa o mantra que cientistas invocam cons- tantemente sobre a CRISPR: ela é rápida, barata e fácil. Levou cerca de dois meses de trabalho laboratorial para criar o cogu- melo antiescurecimento, que não escurece; a conduta de Yang
sugeriu que o trabalho foi algo rotineiro, se não ridiculamente fácil. E ele foi notavelmente barato. O passo mais complicado, construir o RNA-guia e seu andaime, custou apenas algumas centenas de dólares. Diversas pequenas empresas de biotec- nologia agora produzem, sob encomenda, construções de CRISPRs para editar qualquer gene desejado. O maior custo é
a mão de obra. Xiangling Chen, por exemplo, fellow pós-dou-
torado no laboratório de Yang, trabalhou em tempo parcial no projeto. “Se a mão de obra não for levada em consideração, [a edição do cogumelo] provavelmente custou menos de US$ 10
mil”, estima Yang. No mundo da biotecnologia agrícola, isso é uma bagatela.
E isso nem mesmo começa a aludir à economia potencial-
mente transformadora da CRISPR na arena regulatória. Em outubro passado, Yang fez uma apresentação informal do tra- balho com o cogumelo para reguladores federais no APHIS, do USDA, que decide se culturas de alimentos geneticamente modificados caem ou não sob o controle normativo do gover- no (em outras palavras, se são considerados um OGM); ele
Novas tecnologias como a CRISPR estão forçando alguns governos a reconsiderar a
que se conseguisse desativar, ou desligar um deles atra- vés de uma mutação de edição gênica, ele poderia redu- zir a taxa de escurecimento. A brilhante facilidade da CRISPR deriva do fato de que, para biólogos, é simples e descomplicado adaptar, ou “construir sob medida” uma ferramenta molecular que crie essas mutações. Como um canivete multifuncional, que combina bússola, tesou- ra e uma espécie de “morsa” para prender alguma coisa, essas ferramentas se destacam em duas tarefas: atingir um trecho muito específico de DNA e depois cortá-lo (a “morsa” mantém tudo no lugar durante o corte). A direcionalidade precisa é al- cançada por meio de um pequeno fragmento de ácido nucleico chamado RNA-guia, projetado para espelhar a sequência de DNA na área visada (alvo) e se ligar a ela usando a atração úni- ca e específica dos quatro pares de base de DNA (adenina, cito- sina, guanina e timina), tornada famosa por James Watson e Francis Crick (onde As se ligam a Ts, e Cs a Gs). Se você fizer um pedaço de RNA-guia de 20 letras de comprimento, ele encon- trará sua sequência espelhada de DNA com a precisão de um GPS em meio à série de 30 milhões de letras que compõem o ge- noma do cogumelo Agaricus. Em seguida, o corte é realizado pela enzima Cas9, isolada originalmente de culturas bacteria- nas em iogurte, que é levada ao local exato pelo RNA-guia.
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saiu da reunião convencido de que os reguladores do Departa- mento de Agricultura não acreditavam que o cogumelo CRIS- PR exigiria uma revisão regulatória especial ou estendida. Se for verdade, esse pode ser o aspecto mais importante da van- tagem econômica da CRISPR: Voytas estimou que o processo de revisão regulatória pode custar até US$ 35 milhões e levar até cinco anos e meio. Outra vantagem do cogumelo como prova de princípio para
a CRISPR na agricultura é a rapidez com que fungos crescem:
da fragmentação do micélio – que dará origem a um novo cogu- melo – até a maturidade, eles levam cerca de cinco semanas, e podem ser cultivados durante o ano todo em instalações escu- ras (sem janelas), climatizadas, conhecidas como estufas, ou “casas” de cogumelos. Comparativamente, as variedades de soja e batata com genes editados, criadas pela Calyxt, levam meses para serem testadas em campo. Por essa razão, no inverno boreal de 2014-2015, a empresa pediu e recebeu autorização regulató- ria para cultivar sua soja na Argentina. “Você pula pra lá e pra cá da linha do equador para poder fazer múltiplos plan- tios em um ano”, justifica Voytas. A Calyxt colheu suas pri- meiras safras de “grãos editados” em lavouras dos Estados Unidos em outubro passado. Um dos temores mais antigos e persistentes sobre modifica- ção genética é o espectro de consequências inesperadas, não in- tencionais. No mundo dos alimentos biotecnológicos, isso em geral significa toxinas ou alergênicos imprevistos que tornam alimentos modificados insalubres (um receio que nunca foi do- cumentado em um alimento OGM) ou uma cultura genetica- mente modificada que foge ao controle e devasta a ecologia lo- cal. O método CRISPR está até fazendo pessoas como John Pec- chia refletir sobre consequências econômicas não intencionais. Um de dois professores de micologia na Penn State, Pecchia passa muito tempo em um edifício, estranhamente baixo, de ti- jolos, ou blocos de cimento, situado nos arredores do campus, que abriga o único centro de pesquisa micológica acadêmica nos EUA. Na primavera de 2015, Pecchia pegou um pouco da cultura inicial de Yang e desenvolveu o primeiro lote de cogu- melos geneticamente editados. De pé, do lado de fora de uma sala, onde uma misturada compostagem fúngica fumegante e
fétida fermentava a 80 o C, ele salienta que um cogumelo com vida útil [de prateleira] mais longa pode resultar em uma de- manda menor de mercados e quitandas, e também permitir
uma concorrência inesperada. “Você poderia abrir as fronteiras
à importação de cogumelos estrangeiros”, acrescenta ele, “en-
tão isso é uma faca de dois gumes.” No tortuoso caminho de alimentos geneticamente modifica- dos para o mercado, eis aqui mais um paradoxo a considerar. Ninguém sabe qual é o sabor do cogumelo editado. Eles foram cozidos no vapor e fervidos, mas não para fins de consumo. Até agora, cada cogumelo criado foi destruído depois que Yang rea- lizou testes de escurecimento enzimático. Uma vez que a prova de conceito tenha sido estabelecida, diz Pecchia, “nós simples- mente os vaporizamos até o fim”. Os consumidores cozinharão no vapor, saltearão e receberão
de bom grado alimentos geneticamente editados em suas cozi- nhas e pratos? Essa pode ser a questão central no capítulo mais intrigante da história de alimentos CRISPR, que coincide com um ponto decisivo no tumultuado debate de 30 anos sobre cul- turas geneticamente modificadas. Quando Yang descreveu seu projeto para os fungicultores da Pensilvânia, e para autoridades do USDA, em outubro pas- sado, ele empregou uma expressão reveladora para descrever seu procedimento: “modificação genética livre de transgenes”.
A frase é uma tentativa cuidadosamente elaborada para dis-
tinguir as novas técnicas altamente precisas de edição gênica, como a CRISPR, de outras biotecnologias agrícolas anteriores, em que DNAs exógenos (transgenes) eram acrescentados a uma espécie vegetal. Para Yang e muitos outros, essa formula- ção cuidadosa e delicada é importante para conferir um novo tom, ou enunciado ao debate sobre OGMs. De fato, a sigla “GEO” (para organismo geneticamente editado, em inglês) co- meçou a aparecer ocasionalmente como alternativa para
“GMO” (organismo geneticamente modificado, em inglês), ou simplesmente “GM”.
NOVO CONCEITO SEM TRANSGENIA
A reformulação, ou mudança conceitual, é tanto filosófica
quanto semântica, e está se desdobrando no momento em que
a administração Obama está revisando o sistema de acordo
com o qual o governo avalia culturas e alimentos geneticamen- te modificados. Conhecido como Estrutura Coordenada para Regulamentação de Biotecnologia (Coordinated Framework for Regulation of Biotechnology), esse processo regulador, que não é atualizado desde 1992, define os papéis do USDA, do FDA (ór- gão do governo do Estados Unidos que controla alimentos e medicamentos) e da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA). O poder da CRISPR acresceu urgência à reconsideração regulatória, e cientistas estão aproveitando a oportunidade para revisitar uma questão muito antiga: o que, exatamente, significa “geneticamente modificado”? Voytas, cujo registro de publicações e patentes em culturas alimentares geneticamente editadas o torna uma espécie de editor-chefe de pequenas em-
presas de biotecnologia agrícola nos EUA, reagiu com uma risa- dinha sombria quando respondeu a essa pergunta: “O termo GM é complicado e exige cautela”.
O que ele tem de tão complicado? A maioria dos críticos de
alimentos biotecnológicos argumenta que qualquer forma de modificação genética é só isso, modificação genética, trazendo consigo a possibilidade de mutações ou alterações não inten- cionais que poderiam constituir riscos à saúde humana ou ao meio ambiente. Cientistas como Voytas e Yang retrucam que to- das as formas de seleção e melhoramento de plantas, remon- tando até a criação do trigo comum (Triticum aestivum) por agricultores neolíticos há três mil anos, envolvem modificação genética e afirmam que o uso de técnicas de seleção tradicio- nais não é um processo biologicamente benigno. Ele cria, de acordo com Yang, “enormes” perturbações genéticas. (Nina Fe- doroff, bióloga vegetal e ex-presidente da Associação America- na para o Avanço da Ciência (AAAS), se referiu a versões do-
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mesticadas de trigo comum, criado através do melhoramento tradicional, como “monstruosidades genéticas”.) Antes da era do DNA recombinante, na década de 1970, que permitiu a primeira geração de biotecnologia agrícola, seleciona- dores e melhoradores de plantas normalmente recorriam a méto- dos de força bruta (raios-X, raios gama ou poderosas substâncias químicas) para alterar o DNA de plantas. Apesar dessa abordagem desajeitada e insensível, algumas dessas mutações randômicas, feitas pelo homem, modificaram genes de um jeito que produziu características agrícolas desejáveis: rendimentos mais altos, frutos mais bem formados, simétricos, ou uma capacidade de crescer em condições adversas, como a seca. Essas mutações benéficas po- diam então ser combinadas com características positivas em ou- tras cepas, mas somente ao se cruzar, ou “acasalar”, as plantas. Esse tipo de cruzamento, ou hibridização, leva muito tempo (mui- tas vezes de cinco a 10 anos), mas ao menos é “natural”. Mas ela também é muito perturbadora. Sempre que o DNA de dois indivíduos diferentes se junta durante a reprodução, seja em humanos ou plantas, o DNA é “misturado”, “embaralha-
Jennifer Kuzma, analista de política da Universidade Esta- dual da Carolina do Norte, que acompanhou a ciência, e a po- lítica, da agricultura OGM desde o início, observa: “Essa pre- cisão tem mérito, mas não se correlaciona necessariamente com redução de risco”, e acrescenta que cortes fora do alvo “podem introduzir um caminho diferente para o perigo”. Feng Zhang, do Instituto Broad (que detém a patente que agora está sendo disputada), publicou diversos aperfeiçoamentos no sistema CRISPR que melhoram a especificidade e reduzem er- ros do tipo fora do alvo. A facilidade e relativa economia da CRISPR também permiti- ram que laboratórios acadêmicos e pequenas empresas de bio- tecnologia voltassem a participar de um jogo que historicamente tem sido monopolizado por grandes agroempresas. No início, so- mente companhias muito ricas tinham recursos suficientes para bancar o oneroso desafio regulatório e, até hoje, quase todas as modificações de culturas criadas por meio da engenharia genéti-
ca foram feitas para melhorar a rentabilidade da produção de ali- mentos para fazendeiros ou empresas, seja o aumento dos rendi- mentos das culturas de campo resistentes a herbicidas da Monsanto, ou a robustez de
transporte do malfadado tomate Flavr-Savr da Calgene. Essas modificações genéticas de cultu- ras eram mais atraentes para agronegócios do que consumidores, e não eram muito centradas nos alimentos em si. Conforme observou recentemente um grupo de espe-
cialistas em políticas agrícolas da Universi- dade da Califórnia em Davis, “as corpora- ções multinacionais que dominaram o cam- po durante os últimos 15 anos não têm um histórico brilhante em termos de inovação, além de novas carac- terísticas para pesticidas e resistência a herbicidas”. Os novos jogadores trouxeram um tipo diferente de inova- ção para a agricultura. Voytas, por exemplo, argumenta que a precisão da edição gênica está permitindo que cientistas bio- tecnológicos atinjam consumidores ao criarem alimentos mais saudáveis e mais seguros. Ele e sua colega Caixia Gao, da Aca- demia de Ciências Chinesa, destacaram que plantas têm muitos “antinutrientes”: substâncias nocivas de autodefesa ou toxinas explícitas que poderiam ser eliminadas por edição gênica para melhorar características nutricionais e de sabor. A batata edita- da da Calyxt, por exemplo, reduz um característico sabor amar- go associado ao armazenamento refrigerado dos tubérculos. Mas Voytas vai ainda mais longe. Ele acredita que a soja da Calyxt poderia ser vendida a agricultores como um produto não OGM porque, ao contrário de 90% da soja cultivada nos EUA, as linhagens com genes editados não têm quaisquer transge- nes. “Muitas pessoas não querem produtos geneticamente mo- dificados”, observa ele. “Talvez possamos produzir óleo e farelo de soja não GM com o nosso produto.” Como qualquer nova tecnologia poderosa, a CRISPR inspirou alguns sonhadores agrícolas a vislumbrarem cenários quase fic- cionais para o futuro da agricultura; panoramas que já estão en-
Embora o método CRISPR seja mais preciso que o
melhoramento genético tradicional, ele não é uma
técnica infalível.
do” em um processo conhecido como rearranjo cromossômico. Mutações espontâneas podem ocorrer em cada geração, e mi- lhões de pares de base de DNA podem ser transferidos quando geneticistas agrícolas selecionam uma característica desejada. É um método natural, sim, mas também é “uma grande ‘mixa- gem’”, de acordo com Voytas. “Nesse processo, você não move apenas um gene”, salienta ele. “Muitas vezes você move um pe- daço muito grande de DNA da espécie selvagem.” Além disso, a característica desejável muitas vezes arrasta consigo outra in- desejável no mesmo pedaço de DNA durante o processo de me- lhoramento; esse “arrasto de ligação” (“linkage drag”) na reali- dade pode prejudicar a planta criada naturalmente. Com base em várias descobertas recentes sobre a genética de plantas de arroz, alguns biólogos teorizam que a domesticação inadverti- damente introduziu mutações prejudiciais “silenciosas”, assim como óbvias características benéficas. Embora o método CRISPR seja mais preciso que o melhora- mento genético tradicional, ele não é uma técnica infalível. A ferramenta de corte de precisão às vezes corta acidentalmente uma região não visada, e a frequência desses cortes “fora do alvo” suscitou preocupações de segurança. Essa também é a principal razão por que a edição gênica de espermatozoides e óvulos humanos ainda é considerada insegura e antiética.
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trando na literatura científica. Michael Palmgren, biólogo vege- tal da Universidade de Copenhague, propôs que cientistas po-
dem usar as novas técnicas de edição gênica para “recuperar traços selvagens” de plantas alimentares, ou seja, ressuscitar ca- racterísticas perdidas durante gerações de seleção e melhora- mento agrícola. Diversas culturas economicamente importantes, especialmente arroz, trigo, laranja e bananas, são altamente sus- cetíveis a patógenos vegetais e a restauração de genes perdidos poderia aumentar sua resistência a doenças. A ideia, Palmgren e seus colegas dinamarqueses salientaram recentemente, preten- de alcançar “a reversão dos resultados não intencionais do me- lhoramento genético de espécies”. Tentativas para restaurar traços selvagens já estão em anda- mento, mas com uma novidade. Em vez de recuperar caracterís- ticas silvestres perdidas em variedades domésticas, Voytas conta que o laboratório de sua Universidade de Minnesota está tentan- do o que ele chama de “domesticação molecular”: transferir ge- nes agriculturalmente desejáveis de híbridos existentes de volta para espécies selvagens mais resistentes e adaptáveis, como as formas ancestrais de milho e batatas. “Em geral são apenas algu- mas poucas mudanças críticas que ocorreram, algo em torno de cinco, seis ou sete genes, e permitiram que uma espécie silvestre
se tornasse desejável; mudanças como alterações de tamanho do
fruto ou número de espigas de milho, esse tipo de coisas”, esclare-
ce Voytas. Em vez de cruzar as variedades selvagens com as li- nhagens domesticadas, o que exigiria um regime de cruza de 10 anos, continua ele, “talvez possamos simplesmente ‘entrar’ e tra- tar esses genes e domesticar a variedade selvagem”. Há sinais precoces de que edições gênicas, inclusive a CRIS- PR, talvez também possam se beneficiar de um caminho regula- tório mais rápido. Até agora, reguladores americanos parecem considerar pelo menos algumas culturas com genes editados como sendo diferentes de culturas transgênicas OGM. Quando a Calyxt perguntou pela primeira vez ao USDA se suas batatas “editadas” exigiam uma avaliação regulatória, autoridades fede- rais levaram cerca de um ano para concluir, em agosto de 2014, que a edição gênica não exigia considerações especiais; quando a empresa voltou ao USDA no verão boreal passado com sua soja editada, analistas do governo levaram apenas dois meses para chegar a uma conclusão similar. Para empresas, isso sugere que autoridades americanas entendem as novas técnicas como sendo fundamentalmente distintas de métodos transgênicos; para crí- ticos, isso sugere que existe uma lacuna normativa que as empre- sas estão explorando. Os cogumelos de Yang podem ser o primei-
ro alimento CRISPR avaliado pelo USDA. Além disso, novas tecnologias como a CRISPR estão forçan- do alguns governos a reconsiderar a definição de OGM. Em no- vembro passado, a Direção Nacional de Agricultura da Suécia, decretou que algumas mutações de plantas induzidas por CRIS- PR não atendem à definição de OGM da União Europeia, e a Ar-
gentina concluiu, similarmente, que certas plantas com genes editados não se enquadram em seus regulamentos para OGMs.
A União Europeia (UE), que historicamente restringiu plantas
geneticamente modificadas, atualmente está revisando suas políticas em vista das novas técnicas de edição gênica, mas sua
análise legal, frequentemente adiada, no fechamento da pre- sente edição de Scientific American Brasil estava, na melhor das hipóteses, em suas últimas etapas para publicação. Embora não haja muito espaço para compromissos, Voytas e outros su- geriram um potencial “acordo de cavalheiros”: uma edição gê- nica que causa uma mutação, ou “nocaute”, deve ser considera- da análoga a formas tradicionais de melhoramento de plantas
(em que raios X, por exemplo, são usados para criar mutações), enquanto a edição que introduz DNA novo (um “knock in” no jargão técnico) merece passar por um escrutínio regulador numa base caso a caso.
O dia de “julgamento” do mercado alimentício para culturas
geneticamente editadas pode não estar muito distante; Voytas prevê que a Calyxt realizará um “pequeno lançamento comer-
cial” de sua soja até 2017 ou 2018. “Levará algum tempo para ter sementes suficientes para, digamos, uns 202 ou 203 mil hecta- res”, anuncia ele. “Mas estamos nos esforçando e apressando o máximo possível.” Como o consumidor reagirá? Jennifer Kuzma prevê que pes- soas que historicamente se opuseram à modificação genética não estarão bebendo suco em pó CRISPR Kool-Aid tão cedo. “O público que se opôs à primeira geração de OGMs provavelmen- te não aceitará essa segunda geração de engenharia genética, só porque você está ajustando um pouco de DNA”, opina ela. “Eles simplesmente vão juntar a novidade posterior aos outros OGMs.” Ela está mais preocupada com a necessidade de atuali- zar a estrutura regulatória como um todo e incluir mais vozes no processo de avaliação, em um “ponto de inflexão” em que cada vez mais alimentos com genes editados estão se encami- nhando para o mercado.
E quanto ao cogumelo? Além do educado aplauso ao final da
palestra de Yinong Yang, a reação de fungicultores continua obscura. Yang reconheceu isso quando lhes disse: “Se isso pode ser comercializado, é com vocês, pessoal”. Por ora, o cogumelo editado para não escurecer é apenas um projeto de laboratório, uma prova de princípio. Se produtores não estiverem convenci- dos do valor do cogumelo antiescurecimento, ou temerem que os consumidores o evitarão, o bem-editado cogumelo talvez ja- mais veja a luz do dia. Isso geralmente é uma coisa boa para um cogumelo, que cresce no escuro, mas talvez seja mais agourento para uma tecnologia nova e potencialmente transformadora.
PARA CONHECER MAIS
Emily Waltz em Nature Biotechnology, vol. 33, n o 12, págs. 1221–1222; dezembro de 2015. Martin Marchman Ander sen et al. em Trends in Plant Science, vol. 20, n o 7, págs. 426–434; julho de 2015. Adam Kokotovich e Jennifer Kuzma em Bulletin of Science, Technology & Society , vol. 34, n o s 3–4, págs. 108–120; junho–agosto de 2014. - Daniel F. Voytas e Caixia Gao em PLOS Biology , vol. 12, n o 6, artigo nº e1001877; 10 de junho de 2014.
DE NOSSOS ARQUIVOS
Margaret Knox; edição nº 152, janeiro de 2015.
www.sciam.com.br 97
FONTE: “SYNTHESIS OF PHYLOGENY AND TAXONOMY INTO A COMPREHENSIVE TREE OF LIFE,”, POR CODY E. HINCHLIFF ET AL. , EM PROCEEDINGS OF THE NATIONAL ACADEMY OF SCIENCES USA , Nº 41, VOL. 112; 13 DE OUTUBRO DE 2015
CIÊNCIA EM GRÁFICO
O círculo da vida
Desde a época de Charles Darwin a biologia descreve como no- vos organismos evoluíram a partir dos mais antigos, adicionando ramos a inúmeras árvores que representam partes dos reinos ani- mal, vegetal e microbiano. Cientistas de dezenas de instituições, recentemente, combinaram tudo isso num único diagrama (abai- xo). As linhas dentro do círculo representam 2,3 milhões de espé- cies identificadas. No entanto, os biólogos só obtiveram o sequen- ciamento genético de cerca de 5% delas. À medida que mais se-
quenciamentos forem concluídos, as relações internas e entre grupos de espécies poderão mudar. Os especialistas estimam que até 8,7 milhões de espécies habitam o planeta (cerca de 15 mil no- vas espécies são descobertas a cada ano). Qualquer pessoa pode propor atualizações à base de dados (OpenTreeOfLife.org). Mais detalhes ajudarão a entender melhor a evolução, inventar novas drogas, tornar as colheitas mais produ- tivas e controlar melhor as doenças infecciosas. — Mark Fischetti
Como ler o círculo da vida
)
Nematódeos
(vermes cilíndricos)
Lophotrochozoa
(moluscos,
vermes
segmentados,
braquiópodes)
Artrópodes (insetos,
aracnídeos, crustáceos)
(bege)
(laranja) (magenta)
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Arquea |
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(microrganismos |
unicelulares
que toleram
condições
extremas)
Deuterostômios
(vertebrados, estrelas-
do-mar, ouriços,
outros vermes)
Metazoários com divergência precoce (cnidários, águas-vivas de pente, esponjas)
(dourado)
(verde-escuro)
(linhas escuras)
Fungos
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Vegetais
Archaeplastida com
divergência precoce
(algas verdes,
algas vermelhas)
Bacteria
SARs †
(diatomáceas,
ameboides,
algas marrons)
Estimativas variam amplamente. Os valores mostrados são médias obtidas de várias fontes
† Stramenopiles, Alveolata, Rhizaria
Gráficos de Stephen Smith
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