Sie sind auf Seite 1von 31

Coleção:

Linguagem/Crítica

Direção:

Charlotte Galves

Eni Pulcinelli

Orlandi

Conselho Editorial:

Charlotte Galves Eni Pulcinelli Orlandi

Marilda

Paulo

Cavalcanti

Otoni

(presidente)

FICHA

CATALOGRAFICA

1

Dados de

Catalopção

na Publicação

(CIP) Internacional

 
 

(Câmara

Brasileira

do Livro,

SP,

Brasil)

 
 

Ducrot, OswaJd.

 

089d

O dizer

e

o

dito

I

Oswald Ducrot

;

revisão

t~nica

da

 

tradução

Eduardo

Guimarães.

-

Campinas,

SP

:

Pontes,

1987.

 
 

<Liaauaaem/ crítica>

 
 

Bibliografia.

 

ISBN 8S·7113-002-7

 

l.

linauaaem

-

Filosofia

 

2.

Liagü.istica

3.

Semântica

 

1.

Título.

II.

Série.

 
 

CDl).4()1

 

-410

87-1898

-412

 

todices

para

catálogo sistemático:

 
 

l.

Liaauagem

: Filosofia

401

 

2.

Llngü.istica

41O

3.

Semântica

: Linaüística

412

OSWALD

DUCROT

O DIZER E O DITO

Revisão Técnica

da

Tradução:

Eduardo Guimarães

1987

·

Capítulo

VIII

ESBOÇO

DE

UMA TEORIA

POLIFôNICA

DA ENUNCIAÇÃO

-

f .

O

_?~je.~~~-~~-sJe

capítulo

é contestar e,

um postulado

que

me~ressupmto

se poss(vel,

su.bstitui.r

(geralmente

1mplíc1-

I

to)

de

tudo

o

que

se

denomina

atualmente

"lingüística

moderna",

termo

que

recobre

ao mesmo

tempo

o comparativismo,

o

estrutura-

lismo e

a gramática gerativa.

Parece-me,

Este pressuposto é o

que

as

d.!_~!!icidadejo

sobre a

~ujeito.Jª-I!!nte.

com efeito,

pesquisas

)J

lin- {/

,

,,,,

·i

guagem,

sequer

há pelo

cogitar

dois em formular a

menos

séculos, consideram

idéia,

de

como óbvio

- se mostra evi-

sem

tal modo ela

 

dente

-

que

cada

enunciado possui um,

e somente

um autor.

 

' )' ' ''

\

G

Uma

não

crença análoga

durante

muito

tempo

reinou

na

de

o

teoria lite-

cin-

conceito

rária, e

qüenta

de

foi questionada

explicitamente

toda uma

senão a

partir

uns

anos, notadamente depois

Bakhtine,

textos.

vozes

-

que Bakhtine elaborou

categori;_de

polifonia. Para

de

enõia-·

õs-quais-é

textos,

dámente 1 que várias

Íiter~rios~pãra

falam

necessário

que

reconhecer

uma dentre _elas

simultaneamente, sem

1

seja preponderante

e julgue as

outras: trata-se . do

que

ele chama,

em

oposiçao

à

literatura

clássica

ou

dogrnátiça,1a.literatura . popula.r

oy .

ainda carnavalesca,

e

que às

vezes ele

qualifica

de

mascarada, enten-

dendo po r

isso

que

o

autor

assu me uma

série

de

máscaras diferentes.

1i1

Mas

es ta teoria

de Bakhtine,

segundo

meu conhecimento, sempre

foi}

aplicada

a

textos,

ou

seja ,

a seqüências

de

enunciados,

jamais aos

enunciados

de que

estes textos

são constituídos.

De

modo

que

ela

não_~~ego~ -a c:_~l.~_c_~r :!~ c!~yjda

_

o

p2stu~~~~~.gun<fo

'? _ qual um

enun-

~ I~ ~~ola~o_Jaz

o uvir um a única voz.

.

.

I!

justamente a

es te

postulado

que

eu

gostaria

de

me dedicar.

Para

mostrar

até

que

ponto

ele

está ancorado

na

tradição lingüística,

I

161

(

(

(

chamarei a atenção rapidamente para uma pesquisa americana, que, no próprio momento em que está para abandoná-lo, reestabelece-o in extrimis, como se se tratasse de um dogma intocável. Trata-se do

estudo de Ann Banfield (1979) , sobre o estilo indireto livre. Rom- pendo com a descrição habitual de estilo indireto livre como uma das formas do discurso relatado, Ann Banfield vê nele a expressão de um

não ser o da pessoa que é efetivamente,

'empiricamente, o autor do enunciado, e ela emprega o termo "sujeito de consciência" para designar a fonte deste ponto de vista. Mas, alcan- çando este ponto, quer dizer, o momento em que uma pluralidade de

~ vista , que pode

sujeitos poderia ser introduzida no enunciado, Banfield formula dois princípios que descartam a ameaça . Ela coloca inicialmente que, para um dado enunciado, só pode haver um sujeito de consciência, colo- cando de imediato no domínio do anormal os exemplos que fariam aparecer uma pluralidade de pontos de vista justapostos ou imbrica- dos. E em seguida, para tratar os casos em que o sujeito de consciên- cia não é o autor empírico do enunciado, diz que não há locutor nestes enunciados. Certamente não censurarei Banfield - muito ao contrário - por distinguir o locutor, ou seja, o ser designado no enunciado como seu autor (através, por exemplo, de marcas da pri- meira pessoa), e o produtor empírico, ser que não deve ser levado em conta por uma descrição lingüfstica preocupada somente com indi- cações semânticas contidas no enunciado. O que censurarei em Ban- field é a motivação que a leva a esta distinção, a saber, o cuidado em manter a qualquer preço a unicidade do sujeito falante, já que este mesmo cuidado - depois de tê-la levado a fazer abstração do produtor empírico (posição que é também a minha) - vai levá-la a decisões que gostaria de evitar. Quando o sentido de um enunciado comporta a indicação incontestável de um locutor (atestada pela pre-

sença de pronomes de primeira pessoa) mas que, no entanto, o enun-

ciado

ao

do locutor - por exemplo,êluando alguém tendo sido chamado de imbecil, responde "Ah eu _sou_um imbecil, mu,ito bem, você Vl!_i_ -

po do estilo indireto livre considerando-as um dos modos do discurso relatado (descrevendo o "eu sou um imbecil" do discurso precedente como um "você diz que eu sou imbecil"). Graças a tais exclusões, ela pode formular um princípio segundo o qual, quando há um locutor, \ este é necessariamente também o sujeito de consciência, princípio que )

não tem outra justificativa, a meu ver, senão salvar uma unicidade

exprimeurn_p_Õntoa ev i l! ta qÜe não pode ser identificado

Banfield. é obrigada a excluir estas "reto~;-J;;-s"~

~"

­

162

admitida a priori como um dado de bom senso:

um enunciado que se apresenta como próprio, éxprimir um ponto de

"não se pode, em

temente discutidos em detalhe por Au1hier- (1978) er'Ptén~J:i97s) .J

Estes dois estudos colocam em dúvida os dois princí~s "um enun- ciado - um sujeito de consciência" e "se há um locutor, ele é, idên-

tico ao sujeito de consciência". Minha própria teoria

que um quadro geral onde se poderia introduzir sua crítica a Banfield, quadro que constitui ele mesmo, digo-o desde já, uma ex.tensão_~-

vista que não seja o próprio".

'7

Os estudos de Banfield sobre o estilo indireto livre f.ot:~n­

da

~eve~to aos dois au~Q_~e_s_que acab.o

Q.ç_çit~r.

polifonia,\\

visa a construir J

tante livre) ~ lingüística dos tral?_al~os_de_J!ªkhtine sobi'e-a

literatury

,

,

li. -Gostaria, . inicialmente, de definir a_djsciplina -

chamo-a

"pr a gmática lingüfstis;;- no interior da qual situam-se minhas pesquisas. Se se toma como objeto da pragmá- tica a ação humana em geral, ó termo pragmática da linguagem pode servir para designar, neste conjunto de investigações, as que dizem respeito à ação humana realizada pela linguagem, indicando suas con- dições e seu alcance. O problema fundamental, nesta ordem de estu- dos, é saber porque é possível servir-se de palavras para exercer uma

' influência , porque certas palavras , em certas circunstâncias, são dota· das de eficácia. !! o problema do centurião do Evangelho, que se es- panta por poder dizer a seu criado "venha!", e o criado vem. I!. tam- bém a questão tratada por Bourdieu (1982), questão que está, na ver- dade, no domínio da sociologia, e sobre o qual o lingüista, enquanto

exceto se ele crê em um poder

l ~

~!~

ti~ sem

~

ntic; , ou

~

lingüista, tem pouca coisa a dizer - intrínseco do verbo.

que

Mas, uma vez colocado de lado este problema, resta um outro,

parece, este sim, propriamente lingüfstico, e que faz parte

me

_jl justamente do que chamo "pragmática Iingüfstica". Não. se trata mais --711do que se faz quando se fala, mas do que se considera que a fala, segundo o próprio enunciado, faz. Utilizando um enunciado interro- ) gativo, pretende-se obrigar, pela própria fala, a pessoa a quem se dirige a adotar um comportamento particular, o de responder, e, do

li

mesmo modo, pretende-se incitá-lo a agir de uma certa maneira, se se recorre a um imperativo, etc. O po nto importante, a meu ver, é J

que esta incitação para agir ou esta obrigação de responder são dadas

como efeitos da enunciação. O que generalizarei dizendo que todo

163

(

enunciado traz

~~sigo um~ qualific~ção

de

sua

e~unciação, ~ualifi-\

:

cação que

constitui para mim

o sentido

do enunciado.

O

ob1eto da

pragmática semântica

(ou lingüística)

é assim

dar

conta do

que,

se-

i)/

gundo

o

enunciado, é

feito pela

fala. -

ara isto,

é

necessário

dcscre'f'er

 

sistematicamente

as-imagens

6a

cnum:

ao

que sao

ve1cu a as

pe o

 

emmciado.

-

-

\-;-)

,- ;01

\ '<)e#°

,v,

1

.;

- ----w.

levar a

e depois

distinção rigorosa entre

rio estabelecer

Para

bom termo

manter

esta

(mesmo se

descrição,

parece-me necessá-

pouco) uma

isto custa

um

·~'?-~nunciado"

e a

"fr~se".

o

que

eu _chamo

"frase"

é

um objeto

teónco, entendendo

por

isso,

tence,

para

o lingüista,

ao

domínio do

observável,

que ele

nao

mas

constitui

per-

uma

~:~'°)(invenção desta ciência particular que a gramática. O que o lingüista

é

iP' "'

'

1

;:'

pode tomar

como observável

é_Q_enunciado.

considerado

como

a

ma-

nifestação

particular.

como

a ocorrência

hic

et

,,nu11c

d

um

frase.

Suponhamos que

duas

pessoas

diferentes digam f''faz

bom

tempo·.

ou

1~

C"f.

C'-~\

rJ'-V

~

Ii.

el~

1.og.''1

O

ll

~\f

.;r

~e

~c'I

que uma

mesma pessoa

o diga em

dois momentos

di(erenteS:: encon-1 \

 
 

u

tramo-nos

em presença

de

dois

enuncia~os

diferentes, .de

?ois

obse~-

.

.

f\

~.

váveis diferentes, observáveis que a

maior

parte

dos hngmstas

exph-

1

cam

decidindo que se

trata de

duas

ocorrências

da

mesma frase

de

uma língua,

definida como uma estrutura lexical

e sintática, e

da

qual

 

se

supõe

que ela

é subjacente.

 

Dizer

que um

discurso, considerado como

um

fenômeno obser- 1

 

vável,

é

constituído

de

uma seqüência linear

de

enunciados,

é

fazer a

 

)

hipótese ("hipótese

externa",

no sentido

definido

no

Cap.

111)

de

que

o sujeito

falante

o apresentou como

uma sucessão

de

segmentos

em

que cada

um

corresponde

a

uma

escolha "relativamente

autôno-

ma"

em relação

à

escolha

dos outros. Direi, então, que

um intérprete,

para segmentar

em enunciados um

dado discurso,

deve admitir

que

esta segmentação

reproduz

a

sucessão

de

escolhas

"relativamente

au-

. tônomas"

que o

sujeito falante julga ter

efetuado. Dizer

que

um

dis-

curso constitui um

enunciado

é, inversamente,

supor

que

o

sujeito

falante

o apresentou como

o objeto

de uma

única escolha.

 

Falta precisar agora

a noção

de "autonomia

relativa"

da

qual

acabo

de

me servir.

Ela está, para

mim,

na satisfação simultânea

de

duas condições.

de

coesão e

de

independência.

coesão

em

um

segmento se nenh.um

diz~r.

se

a escolha

de seus segmentos é escolhido 'por si

de

cada

constituinte é

mesmo, quer

pela

sempre determinada

escolha do

conjunto.

J!

o

caso

de

uma seqüência como

Pedro

está

164

aqui,

pelo

tituem

rência

desejo

a

nemas que

nome completo

de

uma segunda

'cia

menos quando

escolhidas

para

palavra

Pedro,

pronunciar o

palavra

a

se admite que as

produzir

exemplo, não

Pedro.

de

três palavras

que

a

e que

a

caso

cons-

ocor-

pelo simples

para

fo-

de formar o

ocorrência

o

o

da

de

a mensagem total,

se justifica

Mas

em que

é também

"independência".

é imposta

por

nome

própria

Pedro

Pedro,

na medida

o aparecimento dos

de

pelo

desejo

considera.r esta

então, acrescentar

à

de

compõem

Pedro.

é motivado somente

evitar ter

Para

como um

condição,

se

enunciado, deve-se,

que

chamarei

não

coesão,

Uma seqüên-

é independente

sua escolha

pela escolha

um

conjunto mais

amplo

de

que

faz parte.

O

que

exclui imediatamente a

palavra

Pedro

tal

como aparece

na

seqüência analisada.

à

"Coma

Alguns exemplos. Quando,

gulosa,

se

para incitar

temperança uma para viver!",

o

coma

soa muito

lhe recomenda

pes-

não

constitui um enunciado, porque

mensagem global:

é escolhido somente

deu

para produzir a

conselho

"co-

o sujeito falante não

primeiro o

ma!"

ao qual

teria acrescentado em

seguida

a

especificação

"para

viver".

sem apetite a

preendido como

çado

para apoiar

Mas se

em seguida

a mesma

comer pelo

seqüência serve para aconselhar a

menos alguma

coisa,

o

coma

pelo sujeito

que

deve

um doente

com-

refor-

argumento

ser

um enunciado, assumido

por

um

falante. e

segundo enunciado

traz um

o conselho

dado. Comparemos os

dois diálogos:

A:

O

Pedro,

a

gente não

tem

visto

mui:~··_,

 

B:

Mas

como!.

Eu

o

vi

esta

manhã~A

propósito,

ele acaba

de

comprar um

carro.

 

A:

Eu

acho que

momento.

Pedro

está

com problemas de

dinheiro neste

B:

Mas

como!. Eu o

 

vi

esta manhã.

Ele acaba

de

comprar um

carro.

No primeiro

diálogo,

o

Eu o

vi esta manhã

atende

à

condição de

independência. Não

se

pode admitir

que

B tenha

primeiro procurado

dar

a conhecer

que

ele

tinha encontrado

Pedro,

mensagem que

tem

uma

função

por si

só, já que

foi suficiente replicar ao

que dissera

A.

 

No

segundo diálogo,

ao contrário,

o segmento

Eu

o vi esta manhã

é

dado

como uma

preparação destinada

a

tornar

mais confiável a

informação que

vem

em seguida,

e escolhida

em virtude

da

decisão

de fornecer esta

informação.

Não

há,

então,

a independência

exigível

165

.

.

\

de um enunciado (o conectivo a prop6sito, que aparece no primei- ro diálogo e que seria impossível no segundo, tem entre suas fun- ções, exatamente, marcar a dualidade dos enunciados - mesmo quan- do ele serve para mascarar hipocritamente que o sujeito falante que- ria, desde o início, "dizer" o segundo enunciado).

N.B. - Esta definição do enunciado pela autonomia relativa, ela própria fundada no duplo critério de coesão e independência, leva a

duvidar que se possa segmentar em 11 texto"

em uma pluralidade de

enunciados sucessivos. O que se chama 11 texto" é na verdade, habi- tualmente, um discurso que se supõe ser objeto de uma única escolha, e cujo fim, por exemplo, já é previsto pelo autor no momento em que· redige o começo (característica que leva Barthes (1979) a negar -qüe üm· diário íntimo possa constituir num texto). Assim, um poema dificilmente poderá aparecer como algo diferente de um enunciado único se for caracterizado, ao modo de Jakobson, pela enumeração de um paradigma cujos diferentes elementos estão dispersos ao longo do desenvolyimento sintagmático. Conclusão idêntica, no que diz respei- to a uma peça de teatro se se admite, de acordo com a tese de A. Reboul-Moeschler (1984), que ela traz, ao lado da fala que as per- sonagens se dirigem umas às outras, uma fala do autor ao público. Porque esta segunda fala, que constitui a linguagem teatral propria- mente dita, manifesta escolhas cuja expressão pode estender-se em 1 uma larga seqüência única, e em todo caso ir muito além das répli- cas das personagens. Um exemplo elementar é fornecido pelo que Larthomas (1980, p. 316), chama as 11 dialogias cruzadas". Cléante e seu criado Covielle se lamentam separadamente, no ato Ili, cena 9, do Bourgeois Gentilhomme, de suas decepções amorosas, mas suas réplicas, autônomas se se considera o diálogo entre as personagens, estão ligadas do ponto de vista da linguagem teatral. Cf. Cléante: Que

de !armes j'ai versées à ses genoux!" - Covielle: "Tant de seaux d'eau que j'ai tirés du puits pour elle", etc*.

IV. Assim definido - como fragmento de discurso - , o enun-

ciado deve ser distinguido da frase, que é uma construção do lingüis- ta, .e que permite- dàr"c onta· dos enunciados. Na base da ciência lin-

\ güística há, com efeito, a decisão de reconhecer nos enunciados rea- lizados hic et nunc, todos diferentes uns dos outros, um conjunto de

CUante:

- 'Tantos baldes d'água tirei do poço para ela'', etc. (N. do T.).

"Quantas

lágrimas

derramei

.em

seus

joelhos!"

Covielle

166

entidades abstratas, as frases, em que cada' uma é suscetível de ser manifestada por uma infinidade de enunciados. Fazer a gramática de uma língua é especificar e caracterizar as frases subjacentes aos enun- ciados realizados através desta língua.

Insisto na idéia de que a separação entre a entidade observável e a entidade teórica não diz respeito a uma diferença empírica entre estas duas entidades, em que uma seria de ordem perceptiva e a outra de ordem intelectual, mas a uma diferença de estatuto metodológico, que é, pois, relativo ao ponto de vista escolhido pela pesquisa: para , um historiador da gramática, a frase, tal como a concebe um dado gramático, é um observável, enquanto que para este gramático ela ~eria um princípio explicativo. Por isso não seria possível fundamen- tar-se em critérios intuitivos, em uma espécie de "sentimento lingüís- tico", para decidir se vários enunciados realizam ou não a mesma frase: a mera identificação das frases mobiliza, ao contrário, uma teoria.

\

Ilustrarei esta idéia com um exemplo escolhido em virtude de seu aspecto paradoxal, e relativo a um problema teórico assinalado - no capítulo VI. Segundo Anscombre e eu, não é possível realizar um ato de linguagem pelo simples fato de se declarar explicitamente rea- lizá-lo. Ora F. Récanati objetou-nos que se pode efetuar o ato de

dizer obrigado * através da fórmula "Eu te digo obrigado", ou seja, afirmando que se realiza este ato. Para responder a esta objeção, que visa a identificar, em certos casos, o que os medievais chamavam· a c tus exer ç:itus e actus designatus, nossa única solução era sustentar que o predicado que intervém na fórmula " Eu te digo obrigado" é di- ferente do que designa o ato de agradecer [remercier]. Assim, para nós, o primeiro valor da fórmula é Eu te digo "obrigado" : tratar-~e-ia, para o sujeito falante, de se apresentar pronunciando: "Obrigado!". Tese que conduz a dizer que os enunciados transcritos "Digo obriga- do!" podem resultar de duas frases diferentes. Uma comporta o pre- dicado [dizer "obrigado"] significando pronunciar a palavra "Obriga- do!". Ela aparece no diálogo:

-

A

a

B:

Vamos, diga obrigado a C!

• Em Português não há entre obrigado e agradecer as relações existentes (históricas, derivação delocutiva) entre merei e remercier em francet. Mas para a argumentação aqui desenvolvida a tradução não traz. maiores difi- culdades. (N. do T.)

167

~

}

'J

\ C'

a

a

A outra frase,

-

-

B

A

C:

B:

de

Você

Não, diga

foi

muito gentil.

obrigado!

c1açao a

noção

de

ato

L-

a.jJJtti.ar.i

su1e1

o aut

da-fala

e

dos atos

ção

é

o ato

de alguém

~ smente

e.artido,

o

(ato

d e- que

no nível

\J? lema

do

autor

do

que produz

um

eau;

não introduzo, pois, a

de

fala.

Não

um enunciado:

go

que

P.ara

a

arece, e

eu não

em

noção

é

de

ar

ero-

a enuncia-

sim-

mim

quer~

ao

um

cujo predicado [dizer -

agradecer

[remercier]

obrigado} significa

a rea-

ciado

lização

do ato

aparece em:

destas definições

enunciado, _Não

preliminares,

tenho

que

relação

se

,há

- A B: Vamos,

a

diga

obrigado a

C!

-

B

a

C:

Você

foi

muito

gentil.

- A D:

a

Ainda bem!

Estes

dois diálogos de

forma nenhuma provam, insisto neste pon-

que

nos

encontramos diante

se tal

de

duas utilizões

duas frases

distintas: certamente

mas poder-se-ia decidir

uma mesma frase. Se

dualidade for admitida,

diferentes

de

e

eu,

dar

porque,

a

estes diálogos

de

nos

obriga a

supor

"Obrigado"]

e

que

um

valor

deCiêllr

 

aüto~

 
 

Ié

ele.

J

'/

l

 

Para

tornar menos

estranha

minha noção

de enunciação

(o

que

não

é,

aliás,

nem necessário

nem suficiente

para

legitimá-la), assina-

 
 

!arei simplesmente

que

expressões

muito banais fazem às

vezes alusão

\

a

um conceito

da

mesma

ordem.

Sup'onhamos

que

eu relate

a

vocês

uma

conferência

que

tenha

assistido

e

durante

a

qual um

certo X

interveio

para fazer

uma pergunta ao

conferencista.

!!

possível

que

eu comente o

fato dizendo-lhes,

por

exemplo:

"Esta intervenção

me

Meu enunciado

eu

qualifiquei

de X,

o

pode

de

que

ser compreendido

diver-

pró-

ser também o

de

ser o

surpreendente pode

ele diz.

Pode

to,

ficam explicados

que há neste caso

a

toma

escolhemos, Anscombre

natório

sobre

predicados diferentes

discrimi- surpreendeu muito".

sas

prio conteúdo

maneiras. O

que

[discriminante}

é uma maneira geral, nossa tese

dois

que

Obrigado"

performatividade

na língua

o

das palavras

[dizer

[dizer-obrigado]

desempenho

apresentado por X,

as

qualidades intelectuais,

morais,

articulatórias que

ele apresentou

ao

falar.

Mas pode

tratar-se igual-

mente do acontecimento

enunciativo

que

presenciei (portanto

a enun-

ciação, no

curso

seu

no

sentido definitivo

se dar,

acima) :

eu

não

ter podido

teor,

seja,

seja porque

simplesmente,

porque

estou surpreso

é habitual,

na

dis-

sua forma ou

inter-

por tal

normalmente nenhuma

plausível,

em contrapartida, que

enunciados "Digo

possam ser

a manifestação

de duas

frases distintas. (Este

exemplo

é

discutido

nas

pp.

122, 123

e 130).

/j

/i

{ Três

V .

Ele

Da

acepções

frase e

do

enunciado distinguirei ainda

podem

ser atribuídas a

designar a

"a

enunciação".

pelo menos

sociais

este termo.

pode primeiramente

pela

produção

do

de influências

im-

(acrescentado-lhe eventualmente

atividade psico-fisiológica

não

é

o tipo

plicada

o jogo

enunciado

que

a

condiciona). Este

de

 

problemas

ue considero

como meus

-

o

ue não

im lica

é claro,

nen

uma

desvalorização

de tais

pro

emas,

mas

somente

a

hiI!_ótese

ãeC

meus

odem ser

tratados

se

aradamente. Em

uma

segunda

.~'acepção, a enuncia ão

é

o

produto

da atividade

do

sujeito falante,

u'

quer dizer,

um segmento de

chscurso,

ou, em

outros termos, o

que

 

acabo

de

hamar

:enuneiade"

~talé

o sentido

dado

alavra

enun-

 

,

ciação

nos

capítulos

I,

III

e IV).

!!,

pois,

com_uma terceira

acel?Çjo

 

~O

 

que

designarei

por~

 

termo

é_o_acontecimeQ!Q

pons-

htuído

~tQ

aparecimento_ de . um

enunciado- - A_realização

de

um

~efiüii~ã~ó

é

de

fato um

acontecimento

histórico:

é dadp

exist~ncia

 
 

a · ãlguma

coisa que

não

existia

ãntes

de

se falar

e que

não

existirá

I

i

_; mã ã _ depois .

Ressaltar-se-á

ê

esta

aparição

momentânea que

chamo

"enunciação " .~

que

não

fa~

intervir

na

minha

caracterização

da

enun-

venção

é

tolerada em conferências deste tipo.

(O

que precede

não im-

plica de

modo nenhum,

de minha

parte,

a idéia

bizarra

-

e espero

que

recer por

não

me tenha

geração

sido imputada

espontânea,

- sem ter na

que

um enunciado possa apa-

fa-

sua origem um

sujeito

lante

que

procura comunicar alguma coisa

a alguém, este

algo

sendo

precisamente

cessidade, para constru·

comunicado, de um

mlc10,

o

que denomino o

sentido .

Mas acontece

que tenho

do

uma teoria

do sentido,

ue

n~

é

uma teoria

ue

em si,

conceito

e enunciação

o

a ante}.

não encerre

-desde

o

a noção de

su1e•

1

/

VI. Em

correlação com a oposição da frase e do enunciado, devo

espe-

absolu-

ordi-

a significação

agora introduzir

cificando que

tamente

nária

ticamente

palavra

a diferença entre

e

o sentido - de modo linguagem

na

J

t

do

escolho estas duas

sem

últimas expressões

arbitrário,

tradição

frase ,

me

filosófica.

referir a

seu emprego Quando se trata de de

sua

~ifiç

a.çãQ'

~emântica.

ou na

caracterizar semim-

a

uma

~·sen~o"

falarei

a

reservarei

CJl

l!U

para

ç}!do.

c!_:acte~~zaçã<?

)

/"

~

'/

'/

168·

 

(

(

(1

~r

---» -::

r

'

"

,

<>,

"

t

,

I

o ,

f ./)

_

.,,,

$r•,

'

(

,

,_,

169

j

k

Entre o sentido e a significação há para mim, ao mesmo tempo, uma 1

no lugar sobre o

qua l o locutor fala e que pode freqüentemente, mas

diferença de estatuto metodológico e uma diferença de natureza. De

nem sempre, ser o lugar de onde ele está falando . Do mesmo modo,

estatuto metodológico porque, no trabalho do lingüista semanticista, o

a

significação de

uma frase no presente do indicativo prescreve ao

entido pertence ao domínio do observável: ao domínio. dos fa.tos : o

in

terpretante determinar um certo período - que podé ser de dura-

(

ato que temos de explicar é

aue t a l ~n!J1!Qa~ tem-1al(is

e.ntido(s},

ou seja,

f.niP1ca, espero que seja desnecessári~ acrescentar, .que. t~maremos este fato semântico por um dado, fornecido por uma mtuiçao ou um sen- timento imediatos: como todo fato científico, ele é construído através de hipóteses - simplesmente as hipóteses constitutivas do fato de- vem ser distinguidas das hipóteses explicativas destinadas a dar conta dele. e justamente dessas hipóteses explicativas que resulta a signi- 1 ficação da frase. Para dar conta de modo sistemático da associação "observada" entre sentidos e enunciados, escolho associar às frases realizadas pelos enunciados um objeto teórico etiquetado "significa- ção". A manobra me parece interessante na medida em que suponho possível formular leis, de um lado para calcular a significação das frases a partir de sua estrutura léxico-gramatic al , e de outro lado para prever, a partir desta significação, o sentido dos enunciados.

'-

ue e_k_U~ ível de tal(is) inter retação(ões). O que não

Independentemente mesmo desta diferença metodológica, estabe- leça, entre o sentido ~-a-significação, uma diferença de natureza. Quero àssim fincar pé contra a cóncepção habitual segundo a qual

o sentido do enunciado .é a significação da frase temperada por alguns

ingredientes emprestados à situação de discurso. Segundo esta con- I

cepção, se encontrariam pois, no sentido, de um lado a significação e de outro os acréscimos que lhe trazem a situação. Por mim, recuso

- sem que possa ~qui justificar tal recusa - fazer da significação uma parte do sentido. Prefiro representá-la como um conjunto de instruções dadas às pessoas que têm que interpretar os enunciados d.a frase, instruções que especificam que manobras realizar para associar

um sentido a estes enunciados. Conhecer a significação da frase por- tuguesa subjacente a um enunciado "O tempo está bom" é saber o \!><- IP , que é necessário fazer , quando se est á e m presença deste enunciado ,

r ~ i "~ti· " para interpretá - lo . A si~ .m ~ação

.conté% _ p~i~ _ P-OJ: _ exemplp, . um~ ­

_

i''' s

,,,-'

instrução sol~.~ndo ~ ~~_E! 9.c~~e- -~~ que _ lugar_fala o locuto4 _ e _

m de onde está falando. O que explica que um enunciado do tipo

o

tempo está bÕtii»- não pode ter por sentido que está fazendo tempo bom em qualquer parte do mundo, mas significa sempre que faz bom tempo, em Grenoble, ou em Paris, ou em Waterloo, etc, ou seja,

~ue se admit~~~ ~~~ -~~i!

~ existência de tempo . bom nest: lu~r·- ·-

~

170

ção bastante diversa, mas deve incluir o momento da enunciação -

e relacionar a este período a asserção feita pelo locutor.

A natureza instrucional da significação aparece nitidamente quan-

1/

do nela se introduzem, como Anscombre .e eu . fazemos sistematica- C:

mente ; " vá riá veÍ~ .argumentativas" . Um exemplo de variável argu.~en-

tativa um pouco diferente daquelas (mas e mesmo) com que temos

apresentado a noção : a descrição semântica das frases francesas con- tendo o morfema trop *. Que se diz quando, a propósito de um objeto

P ** onde O é uma des-

crição do objeto e onde P é um adjetivo exprimindo uma propriedade,

a P-idade?. Sem pretender ser exaustivo, direi que tal enunciado tem,

· entre outras características, a de ser refutativo (sobre os diferentes

modos da refutação ver Moeschler, 1982). Seu autor se apresenta co- mo considerando uma proposição r, e como refutando-a através des- te enunciado, que tende , então, para uma conclusão não - r . E ele apresenta como razão decisiva contra r o fato de que O ultrapassa um certo grau D de P-idade, abaixo do qual se poderia ainda, ou mesmo , em certos casos, se deveria admitir r : o grau D aparece assim como um limite argumentativo. O que, nesta descrição, ilustra minha concepção da frase, é o caráter de variável argumentativa que pos-

trop P, não estaria dizen-

do qual é o r contestado por tal ou tal de seus enunciados, mas ela

apresenta um aviso, quando se vai interpretar um enunciado desta frase, para se procurar que r determinado o autor do enunciado tinha em mente. A significação da frase não constitui, pois, um conteúdo intelectual, ou seja, objeto de uma comunicação possível. Certamen-

O , enuncia-se uma frase do tipo O est trop

sui a conclu s ão r. Uma frase do tipo O est

te ele atribui a P-ida de de O

um grau excessivo, mas não há excesso /./ \' '-e

por si mesmo. l! ·somente em relação a uma certa conseqüência argu-

mentativa que a í po~cesso, e a frase não estaria dizendo 1 1'c.'-i· t ' S. '- • qual é esta conseqüênci a ; tudo o que diz a frase é que é necessário ~ "' 0-

d e te rminar se se qu e r constituir o sentido do enunciado, ou seja, se

se

te caso

6·,CSv.

V

e·\

c'-

quer

d

b

esco rir o

"1 a go

"

que o su1e1to . '

não aparece,

fl a ante

b

usca comunicar. '

N

es-

.

'

·.A

{ ~i\"

GQ,v-'<

'V-X-

12\). v.

ainda, o sentido

portanto, como a adição da

Muito, demasiado. (N. do T .)

 

••

O é mu ito ( dem asiado) P.

(N . do

T .)

J.-o

QI

11

~

r\')

f,

significão e

levando

"especificadas"

zada,

de alguma

em conta

na

a

outra

coisa

.

-

~onstr~çao re~

r

t -

medida em

mas como uma

na

que

é

impossível

substituir,

no

seu

interior,

uma

defi-

situão

de discurso, a

partir

das mstruçoes

nição

tão

pouco precisa de

um

ato ilocutório qualquer,

pela

expressão

"ato

A" . Admitamos,

por

exemplo,

a

título

de

definição,

que

ordenar

seja

"apresentar

sua

enunciação como obrigando

o

outro a

fazer

algu-

ma

coisa" .

Como sustentar,

então,

que

o sentido

do

enunciado

Jussi-

vo, o

que

é comunicado

ao

interloc.utor,

é que

o sujeito falante faz o

ato

de

ordenar,

a

saber,

que

ele "apresenta

sua

enunciação

como

obrigando

"?.

O

sentido

do

enunciado

é

simplesmente que

a

1

enun-

ciação

o

tal

obriga.

ele faz

.

.

Quando

saber

ao

mas

um

sujeito

que

interlocutor

não

que

é

a

virtude jurídica,

falante

que

sua

apre&ente

faz

enunciação

um

ato

ilocutório,

tem

tal

ou

como tendo esta

significação.

'

f

f

r,

VII.

Em

~ue consist~ este(s~~~i~o)~o

enunciado,

que o

lin~üista

gostaria de explicar

a

partir da s1gmf1caçao da

fras:?.

A

conce~çao

de

sentido

sobre

a qual

fundamento

meu

tra,Palho

nao

é,

propriamente

falando,

resulta sobretudo

uma

hipótese, suscetível

de

uma

torna possível.

de

ser verificada

justifica,

ou

considerar

falseada, mas

trnba-

como

decisão que

unicamente, o

o lieAtitlo

lho

que ela

Ela consiste em

/

/

~

uma

descri

-

·

-

.

que

o

sujeito falante

comunica atra-

vés

de

seu enunciado é

uma

q~al~fic~~ão

da

en~nciação

deste

en~n-

ciado.

Idéia

paradoxal

na aparenc1a,

Jª

que

supoe

que

toda

rP

il\

tVr'-P)

1

Jo

·cP '-

1

\.JI'<

L•

.,

e"

 

vir~

~&~

tu

de

*.

O

semanticista,

que

descreve o

que

o

sujeito falante

diz

de

sua

descrições

enunciação

do

no

enunciado,

a

não

de

sentido

indicação

pode,

pois,

introduzir

um

ato

ilocutório, mas

em

uma

suas

ca-

enuncia- .

ção

faz através

do

enunciado

que

veicula, referência a

si mesma .

~as

esta auto-refencia não

é

mais ininteligível

que aquela

que

todo

hvro

faz

a

si mesmo,

na

medida

em

que seu

título,

parte

integrante

do

li-

vro

(como

o

enunciado é

um

elemento

da

enunciação),

·qualifica

o

livro como

um todo. Nem

mais ininteligível

também

que a expressão

-

pela presente

vos

tomada

(inglês: hereby)

que

"),

que, inserida em

serve

uma

carta ("Solicito-

carta

pela presente

na

sua

para qualificar

a função

da

totalidade.

Darei

mais

à

frente

alguns detalhes

sobre

as

indicações

forneci- \

das

ções

pelo

enunciado

relativamente

contidas,

segundo meu

ponto

às

de

fontes

vista,

no

da

e~unciação O.~ica­

sentido do

e~unc1ado)~

jáqu~

mostrar

ção

de

é

o objeto

orno o

próprio

enunciado

diversas- vezcs-:"'"Mas

de

uma

concepção

assinala,

em

gostaria, primeiro,

sua

enu

ol!fô~ ica

do

sentid~)

ç_llQ.

a

superpost-

idéia

para

ilustrar

a

 

que

o

sentido

j9

enunciado

é

uma

represent?o

da

enunciaçã~

d

indicar

outros

s

os dest

re

tação

Dizer

que

um

enunctado

.-

~ssui,

se

un

os

termos

da

filosnfia

da

Hng11agem '.

u~a

força

i1o-.

cutória,

e

para

mim dizer

que ele

atribui

a sua

enunc1ao um

poder

-

"jürfdico",

o

de obrigar

a agir

(no

caso

de

uma

promessa

ou

u~a

ordem), o

de obrigar a

falar

(no

caso

da

pergunta),

o

de

tomar

lícito

o que

não

era

(no caso

da

permissão), etc.

Ter-se-á,

talvez,

notado

uma diferença

entre

esta formulação

e

a

que

dei

em

momentos

ante-

riores

e

que

era

mais

fiel

à

letra de

Austin.

Eu

dizia

que

um'

enun-

ciado

que

serve

para

realizar um

ato

ilocutário A

(por

exemplo,

orde-

nar)

tem

por

sentido

indicar que

o sujeito

{alante realiza

o

ato

A

por

meio deste enunciado,

destinado a

realizá-lo.

de modo

que A

é

Esta

formulação

exibido

no próprio enunciado

parece-me agora

muito

livre,

racterização da enunciação

vinculada ao enunciado, e

que

leva

a com-

 

preender porque o

sujeito falante

pode

efetivamente,

ao

produzir

o

enunc,:iado, realizar o

ato. Vê-se,

por

isso.

porque

chamo ." pragmáti-

 

{ '\'t

cas."

minhas descrições

do

sentido

dizendo

que

o

sentido

é algo

que

)

'J

se

comunica

ao interlocutor:

estas descrições

são pragmáticas

na

me-

,.,.

dida

em

que

levam

em

conta

o fato

de

que o

sujeito falante

realiza

/

i'

atos, mas

que

é

logia,

um

direi

realiza

saber

que

estes atos

sobre

interpretar

sua

transmitindo

ao

interlocutor um

saber

-

própria

enunciação.

Para

fixar

a termino-

uma

produção

lingüística consiste,

entre

, '('

y

outras coisàs,

em

reconhecer nela

atos,

e

que

este

reconhecimento

se

faz

atribuindo

ao enunciado

um

sentido,

que

é

um

conjunto

de

indi-

2

\

\'~

j

I

·

cações sobre

a enunciação.

\•ü

,,

O

estudo da

argumentação fomecerá

9

um

apresentar a

sentido

pode

freqüentemente

segundo exemplo

impor

da

enunciação.

Anscombre

frase, de

cer-

enuncia-

que o efeito,

em

etc,

é

uma

de

eventuais

é

que

sen-

sua

eo-

ifjl'1l l

\ ,,/"'

,,

j maneira pela qual o

/

,,

eu

º dos desta

;

·,,.'

'\

e

temos

morfema s como

tas restrições

frasé.

sustentado

sobre

quase, apenas, pouco , um pouco,

o

potencial

argumentativo

dos

uma

situação

comum

geral

1

e

Imaginemos assim

piedade,

de discurso em

<um _

topos

no

nha,

menos

neste

qÜa

ro

1

um certo

para

o~ intt:rlo~.! O!~~tãfü~1Iro-:liljãr

· .lido

de

situação

C lõgi _cô,

E.~ta

s~

Aristó!~J~~

sf.~g11.a_jle

Jlo

. quaLquanto-mais

e

)

uém

Se

inversamente

quer incitar o interlocutor

a

)11esma

de

observação foi

uti lizada,

performativo

as

relações

explicito.

Aqui

entre

o sentido

ter piedade

no capitulo

6,

ela serve

-~ ~~

do

uma

uma critica

de

conceito

maneira geral,

para discutir,

e o ilocut6rio.

172

173

se recorrerá

ao enunciado de

uma

frase como

"A

ganha quase X

e

um

torneio exclamativo

(Como

Pedro

é

inteligente!).

Como

descre-

cruzados

por

mês",

por

mais baixa

que seja

a soma

X

cruzados

-

ver

o

que

distingue semanticamente

seus enunciados

dos enunciados

enquanto que

o

argumento

seria

adequado

substituindo

quase

por

que, através

de

frases indicativas,

trazem

grosso

modo

as

mesmas

in-

apenas.

Para

generalizar

esta

observação, atribuímos

às frases com a

expressão quase X

ciados possa servir para

r

fundamenta a argumentação implique que

a seguinte propriedade: para que um

ter

argumentar

para uma

piedade

de

A"),

de seus enun-

(aqui

topos_ que

a

superior

certa conclusão

que

r

é

"e

necessário

é necessário

uma

o

quantidade

X

fornecerá

razão melhor

que

X

para

se admitir r.

Ora,

no

meu

exemplo,

o topos

em

questão quer,

ao contrário,

que quanto mais o

/)

ganho aumenta,

então,

menos

acaba

a situação

quase.

-

ser

i1:'1aginada,

é digna

de

pena -

e?templo

que

O

fará

que é

o que

é,

impede,

de

se utilizar um

de

Tal como

na

formulado, meu

sua

discuso

nesta exposição.

no entanto,

con-

contestável

muito discutível,

cepção semântica é dizer que,

e

é justamente

que defendo

situação

surgir a

quase

é proibido utilizar um.

~ara

incitar

o

interlocutor

à

piedade.

Já

que

é

claro que,

é

muito frequen-

suficientemente bai-

apresentar a efi-

temente ao contrário, se

xa,

cácia desejada,

ganhâ apenas

ciado

a soma de

X

X cruzados

cruzados"

não tenha

o enunciado

não

"A ganha quase

pode

ser até

que

poderá

a

forma

canônica

"A

X cruzados". Eu

i1tcitar

não deveria dizer que

à

piedade,

mas

que não

com este

é possível

enun-

apre-

se poderia

sentar-se

isto é

como

procura1tdo

;ustificar a piedade,

minha

A argumentação, com

ato

tal.

ou

ainda,

na

terminologia

efeito, muito diferente

público, aberto, não

Mas

cião

como levando a

como

argumentando neste sentido.

do esfoo

de

pode realizar-se

persuasão,

sem

é para

mim

um

se denunciar enquanto

a~

conclusão. Se,

pois,

se

dizer que um enunciado argumentativo

adf'hitir tal

ou tal

admi-

11

te que

o

o aspecto

mostrei

mesma

ar

um

·

que me parece

tanto

a

propósito

de

conclusão

de

um enunciado

faz

rte

de seu

mais

dicil

de evitar

ue este

aspec10,

quase,

é

utilizado

em relação

à

frase),

à

qual levaria

o estudo do

itocutório:~

sentido (o

eu

chega-se à

1

sentido

é

uma

uatificação da

enuncia

ão

e

·

amente-em-

atribuir

à enunciação certos

poderes

ou

certas conseqüências.

Terceiro exemplo: as

interjeições

(Ah!,

mesmo

frases exclamativas

Xi!) *, quanto

-

entendendo

por isso

tanto as

que apresentam, ao

as

exclamativas

descrição

de

"completas"

da

realidade

tempo,

um tipo

Os

exemplos

em

francas

são

CHIC!,

BOF!

(N.

do

T . )

174

formações

(Eu

estou

muito contente,

isto

não

tem

nada de extraordi-

nário,

mos

Pedro

é

muito inteligente)?.

A tradição lingüística possui

os

"expressão"

e "represenlação"

para

opor

estas

duas

formas

ter-

de

i

comunicação.

o autor de

esta noção,

"vivacidade":

sentimento,

que

a

rio

Mas

se diz que

definir

contentado habitualmente em falar de um efeito de

da vida, do a intuição

torneios "expressivos", utilizarei

Para

o que

se

quer

dizer

exatamente

o que

quando

uma exclamação, "expressa"

os

tem-se

e ·não

gramáticos a

sentido

ele sente?.

linguagem

Para

a expressão, segundo Bally, é a

a

do pensamento.

isolar

estes

explicar melhor

me

serviu

leva

concepção de

e de enunciação que

para o

ilocut6-

e a argumentação.

1

Que

diferença

"Pedro

é

o sujeito

enunciação

entre

exclamar

"Como Pedro

Trata-se,

para

caso

Ao dizer

e

no

é inteligente!" e

modo

afirmar

pelo qual

própria

muito inteligente"?.

falante,

em

um certo

que

está realizando.

a enuncia

to!ll!l.da

mim, do

é

certaj

é

outro representa a

inteligen-

r:c_sullruldo-totalmente-de

-

inteli-

"Pedro

uma

te",

pode-se apresentar

a

ou

seja-

sito

ão como

de

uma escolha,

mação

ro

dãOecisão

fornecer

n{Q

de um

certo objeto.

Com "Como Pedro

gente.

,

ela

é

dada,

ao

contrário,

como motivada

pela representação

deste

objeto:

é

a inteligência

mesma

de

Pedro

que

parece

levar

a

dizer"

Como

Pedro

é

inteligente!".

(No

caso

das

interjeições,

um

sentimento,

sofrimento,

prazer,

espanto,

etc.

serve

de

relé

entre

a

situação

e

a enunciação;

A interjeição

Ahl

se

como provocada pela

·

alegria sentida no

momento em

que o

locutor experimenta

um

certo

fato, como

um efeito

da

alegria:

a alegria

"explode"

nela).

Uma

objeção possível

se fundamentará sobre

o fato

de que

as

exclamativas servem

perguntas:

com freqüência

pensa

na

conversação

para responder

inteligente!".

"O que

você

do Pedro? -

Como ele é

Já

me

foi ressaltado

que mesmo

certas

interjeições,

como

Xil,

podem

ter

também

esta

função:

"Como

vão indo

as

coisas? -

Xil".

O pro-

blema está em

resultado

cede

que

a resposta,

de

enquanto

dar

tal,

deve apresentar-se como

a ante-

o

de

uma decisão,

que

a

seqüência

a pergunta que

parece incompatível com

a natureza

aqui atribuída

à

-

exclamativa

que, segundo

penso, descreve,

ao

contrário, a

enunciação

como

"escapada"

léchappée]

ao

seu autor.

 

175

(

Para resolver

esta contradição,

distinguirei

o

tema

e

o

propósito

das respostas

Pedro)

O

aquilo sobre

tema (no

que

é

meu

exemplo,

as

deve

qualidades

incidir para

a

resposta

e

defeitos

de

poder

satisfa-

1

zer

o

a exigência

que

Se · o

se

ato

de

resposta

que constitui

a

pergunta .

O propósito é

tema

(o

fato

de

Pedro

ser inteligente).

uma decisão do

realizado por

tema,

e

Mas,

é

uma

sujeito falante,

a

ponto

vez aceito

de

vista

o tema,

ao

sujeito falante

da

sobretudo

diz concernente ao

de resposta

implica

de

seu interlocutor, esta

deste

que

o

pela repre-

conversação,

tema proposto pelo interlocutor, mas a forma

dada

submeter-se ao ato de interrogação

decisão diz respeito

a resposta se

propósito

sentação que é

ele escolhe responder ao

particÚlar

de

à

escolha

do

como

"escolhida".

pode

aparecer

feita

sua

como imposto

Para

do tema.

resposta

obedecer as regras

resulta

mais

(ou

é

não

como

não resultando

mais)

da

escolha, e

como imposta,

ao contrário ,

pelo estado

de coisas que

se

relata:

decide-se responder, mas, para

responder, "deixam-se

ainda, descrita,

situação (é

falar"

seus sentimentos.

mas o

A

enunciação

é, pois, /

de

como uma reação motivada

da

exclamação),

pela representação

fato de

se

uma

representar

o específico

 

·

esta situação

-

que é

o tema

da

pergunta e

da

resposta -

é dado

 
 

como

o

produto

de

uma decisão

conversacional

(o

que

está vinculado

à

própria noção

de

resposta).

 

Esta

solução implica

distinguir dois

grupos

nas interjeições.

Al-

gumas, como

Xil,

são compatíveis com a idéia

de

que

a representação

 

da

situação é

decidida pelo

sujeito

falante

(e

elas podem assim

apre-

sentar-se

como respostas), outras (como

Ah!) exigem

que

esta repre-

·

sentação

surja inopinadamente

(e não

podem aparecer

em respostas).

Mas

tanto

para

umas como

para outras, e

também

para

as exclama-\

tivas

!Junciado.<'.º~~-~i~a.uma

completas,~

qualificação

de

sua enun-

ciação,

dada

como efeito

do

que

ela

informa. E

esta

qualific~a

 

·-

fãla · por

sua causa

através

faz

arte

do sentido

da

enuncia âo,

como

sua

 

qualificação

de

seu

poder jurídico ou

e

seus prolongamentos

 

~·~

·

argumentativos.

 

-

-~~$

~'~

VIII. Uma

última

especificação

no

que concerne

ao

sentido do

 
     
 

enunciado, antes

de

abordar o

problema do

sujeito

da

enunciação,

o~

i~l;'-v

~~~maisexatamente do sujeito da enunciação tal como e apresenta no

 

~'".~

:-

~~nteriordo

sentido

da_enunciado.

Esta representação

da

enunciaçã

o

'

f

'?;t,

~f.:."

"V'

.,}

que

constitui

o sentido

do enunciado,

e que

através dela

ele pode

falar

do mundo, não

é

objeto de

um

ato

de

asserçao.

ara

que

ele

seja

afirmado,

é

necessário que

um sujeito

se apresente

como

garan-

tindo que

o

que diz

corresponda

a uma

realidade considerada inde-

176

l

pendentemente daquilo

tal poderia

representar a enunciação como independente do enunciado que a caraç.

teriza:

parável

indicação

verar" que

estas indicações dadas

fica,

a

dão

qualificam. Dá-se

signi-

munica por

que

se

diz dela. Ora,

já propus

de

um

o sujeito falante

tal ou

que

co-

com·

à

seu

enunciado que

é.

ele próprio

de

vista,

sua enunciação é

uma

parte

da

o enunciado

deste ponto

do

é

aliás ,

li

vro

enunciâção_-

ao

esta imagem,

romance,

título e

autor que,

escrito

na capa

não poderia "asse-

já que

por Flaubert e

no

se chama

parte

Mádame Bovary,

do livro.

Isto não

de

livro fazem

que elas

não podem ser fsisas

mim,

(nada impede

destacáveis

com o

que é

se atribuir

um

no próprio livro,

um autor que não

são

é

o seu) mas que se

da

realidade que

dito, no

sentido

como infalseáveis, já

o mesmo,

que não

para

de

um

enunciado,

sobre

seu

a enunciação

sentido

do

enunciado. Na

pela

medida

enunciação, as

em

que

propriedades jurídicas, argumentativas, causais, etc, por

das

da enunciação,

obrigado

como obrigando tem

o enunciado e

a ela,

não

são veiculados

eles atribuí-

propósito

Certamente ninguém está

enunciado

esta colocação em

poderiam

ser vis.tas

como hipóteses feitas a

seu

mas como a

constituindo.

a acreditar que a

enunciação apresentada por

real obrigar, mas

como efeito

 

dúvida não aparece,

no enunciado, como uma

possibilidade_a

ser con-

siderada.

 
 

N.B .

t

-

Para caracterizar

este estatuto. particular

do sentido,

 

tenho,

em

trabalhos

anteriores

(por

exemplo em

Ducrot,

e

outros,

1980,

Cap. I, e

aqui

mesmo

Cap.

VII)

utilizado

o conceito

de

"mos-

trar" que,

em filosofia

da

linguagem,

opõe-se

ao conceito

de

"afir-

l

mar"

[as serter]

ou de

"dizer".

E comparava o modo pelo qual o

enun-

ciado

"

mostra"

a enunciação,

à

maneira

pela

qual

a

interjeição

mos-

 

tra

o

sentimento

que

expressa.

Esta

comparação

parece-me

agora

inaceitável

na medida

em

que

mostrar

o sentimento

pela interjeição

(isto

é, disse-o mais

acima, como

causa

da

enunciação)

não constitui

senão uma

possibilidade

particular

da

caracterização

da

enunciação

pelo

enunciado,

e, pois,

uma forma

particular

do sentido

e isto

colo-

cará

um problema

teórico complicado, o

de

ter a{

o

protótipo de

todo

este discurso sobre a

enunciação

que

constitui para mim o

sentidq.

!

\"H?

A nova

conceão

que acabo

de

apresentar

é

inspirada

em

Berren-

donner (1981, p.

127

e ss).

 

/

N.B.

2

-

Minha

decisão

de não

considerar o

sentido (descrição

da

levam

enunciação)

a

recusar

a

como

afirmar pelo enunciado

dos performativos

teoria

é uma das razões que me

explícitos,

e

notadamcnte

177

·

~

~

:\j

-~

i

t

a

idéia segundo a

qual

se

pode realizar um

ato

pelo fato

de se

afir-

01

mar

explicitamente realizá-lo . Daí

minha análise

de Dizer-obrigado

*

no

começo deste

capítulo

e

no

Cap.

VI

.

 

.

.

tado:

"Quando

você

pergunta

Quem veio?,

seu enunciado

comporta

_ o pressuposto

que

alguém veio.

Então, segundo você, ele

serve .para

realizar

um ato

de pressuposição.

Mas

é impossível,

porque todo

mun·

do sabe

que

o

enunciado

Quem veio?

serve

para

realizar

um

ato

de

~(

ft"

IX .

Uma

vez apresentado

o quadro geral

.ªº

do

qual

de

perguntar. Se o

ato realizado é

a

pergunta,

não pode ser a

~cabo

md~-

pressupo-

e• as características

tulo,

que

Süjeito

da

é , relembro,

en

·

-

que permite empregar

prin~.pais,

posso .ir

ª

tema .próprio

~~ste

capt·

, sição." Vê-se

de

imediato

que

a

objeção .repousa no

pri~c.fpioseg~n·

 

_çnt1car

e

subshtmr

 

teoria

da nmcidade

~~

do

o

qual

o

enunciado

deve, ser

caracterizado

por

um

umco ato

ilo-

.

e.

esta teoria,

"um

enunciado -

um sujeito

1 cutório . Certamente

faço

agora

certas reservas

à

noção

de

um

ato

de

a expressão

"o

sujeito",

pressupondo como uma

pressuposição, ou ,

pelo

menos ,

nós

o

veremos, eu

a apresento dife-

evidência que há

um

ser único autor

do

e nunciado , e

responsáv ~ J ,.Pe~o

 

~~

rentemente

da

época

de

Dire et

ne pas

Dire

* .

mas o

 

?1e

orienta

   

~\'

 

\(·

     

qu~

que

é

dito

no enunciado. Entao,

se

nao se

tem escrupulo ou

reticencia~

\·"~

<.J)'j

nesta

retratação

não

é certamente

o

receio

de

dever admitir,

se hou-

1

•1

\

1

f

para ' empregar

esta

dúvida

a

unicidade

express.ão ,

da origem

é porque

da

sequer

enunciação.

se cogita

colocar

em {

,,e.,,

0

~

~\s;> <o.'

a,v"

.:,.»

,

{

~

 

Quais são

as propriedades deste

suj eito?.

Primeiro ele

é dotado

de

toda

atividade psico-fisiológica

necessária

à

produção

do

enuncia-

do

. Assim , dizer

que

um

certo X

é

o

sujeito

do

enunciado

"O

tempo

está

X

o

bom"

dito

em

um

certo momento , num

certo lugar ,

é

atribuir

trabalho muscular que

permitiu

tornar audíveis

as palavras

~ v'\~o.o

1

"w(>.~V;.

v.

a "t':

~

U.

o

~

.'

c}.o.

Qi\ '.

l(,•-1.v"vv.

ver

ligados

anteriormente

atividade

tos pragmáticos disjuntos.

um

ato

ilocutório

a

um

a

pressuposição,

Ao

.de

amda

atos

mais que

elem_en·

d~

~ exi~t~ncia

dtvtdo

vári~s

enunciado.

contrário,

em

uma

ilocutória

pluralidade de

Al é m da

ilocutórios ,

priedade,

a

é

de

produção física

habitual

do

enunciado

e

a realização

uma

pelas marcas

dos atos

terceira pro-

da pri-

atribuir

ao

sujeito falante

um enunciado

ser

designado em

1

tempo

está bom;

e

é atribuir-lhe

também

a

atividade intelectual sub-

 

lO"~

meira pessoa -

 

quando

elas designam

um

ser extra-Iingüfstico: ele

jacente -

formação

de

um julgamento, escolha

das palavras ,

utili-

\

~ ;.o.(>\

1>

f,,

neste

caso ,

o

suporte dos

processos expressos

por

um

verbo cujo

zação de

a origem dos

(atos

regras gramaticais .

tipo

Segundo atributo

na

do sujeito :

ser

produção

do

etc.). O

o autor,

enunciado

sujeito é

atos ilocutórios realizados

da ordem ,

da

pergunta,

do

da asserção,

aquele

que ordena, pergunta •. afirma, etc.

Para

voltar

ao

exemplo pre-

f:J J~~·C,,.'r''/.ti.\;~JJ.sujeito

"J'l,ubi

. '·'

que

se

é

eu,

o proprietário dos

objetos qualificados

por

meus,

encontra

no

lugar

denominado

aqui

Considera-se

ele

como

é

~,,,cJJ.l~

óbvio

que este

ser designado

por

eu

é ao

mesmo tempo o

que produz

\o "'

o enunciado, e

também aquele cujo

enunciado expressa

as

promessas,

cedente

dir-se-á

que

o mesmo

X que

produziu

as palavras

O tempo

ordens,

asserções, etc . Certamente

chocamo-nos neste caso com

con·

está bo:n

é

também aquele

que afirmou

o

bom

tempo.

Na

medida

em

tra-exemplos

do

discurso

relatado

em

estilo direto,

onde

muito fre-

que

uma

só pessoa é

o

produtor

do

enunciado,

será necessário

admi-

qüentemente o

pronome

eu

não

refere a pessoa que

 

pronuncia. Mas,

tir

que

uma

pessoa

na

origem

dos

atos ilocutórios

realizados

para eliminar este

discurso relatado direto

qual

as ocorrências

contra-exemplo,

(criticado

que

basta recorrer

aspas não

aparecem entre

a uma

§

cqncepção do

segundo a

seres extra-

XI)

referem

através dele.

pretende -

Vai-se,

ou

aliás, freqüentemente mais

pretende-se

longe nesta via -

que

sobretudo

como evidente

se

cada

e

aqui mesmo no

enunciado realiza

um

 

ato ilocutório

(donde

a espécie

de

escân-

lingüísticos, mas

constituem

a simples

"!enção

de

palavras

da

l_fn~a.

dalo

que

resulta

da

existência

dos atos

indiretos). Uma

tal suposição

1

Assim, o

eu

de

Pedro disse "eu

venho"

designaria uma

entidade gra-

j

1

não

é

certamente necessária

para

admitir que

há

uma

origem

para

\ matical,

o

pronome

de primeira pessoa,

e

o

enunciado

global

signifi·

a

atividade ilocutória

realizada

através

de

um

enunciado,

mas ela

é,

• caria somente

que

Pedro

empregou

este pronome,

seguido

da

palavra

em

todo caso,

suficiente

para justificar

esta tese.

 
 

ô

 

Seja

dito

entre

parêntesis,

a

crença na

unicidade

do

ato

ilocutó-

rio

é

uma das

razões

que

levaram

muitos filósofos

da linguagem a

repelir

[repousserJ

como francamente

leviana

a concepção

da

pressu-

posição desenvolvida

em

Dire

et ne

pas

Dire.

E isto

porque

falo de

portuguesa

venho.

A

conccpção desenvolvida

cm

Dire

tt

nt' pas

Dire

6

a

do

artigo

de

1969

retomado

no

primeiro

ca pitulo.

A

conccpção

a

que

cheguei,

a

partir

da

id6ia

1977

de

(cf.

polifonia, fundamenta-se no

mesmo, Cap.

"rccxame"

se situa

aqui

II),

mas

realizado

numa

de

em um perspectiva totalmente

trabalho

um ato llocutório

de pressuposição . A que

se tem

imediatamente

obje-

diferente.

178

179

Admitamos, provisoriamente, esta concepção do discurso rela- tado direto. e tão evidente que as três propriedades de que acabo de falar são, nos outros tipos de discurso, atribuídas a um ser único? . Que possa ser assim, quando se trata de enunciados simples, produzi- dos em contextos simples, não procurarei discutir (eu não penso que se possa me censurar por utilizar aqui, sem definição, uma noção tão pouco clara que a de simplicidade: não a utilizo com efeito para esta- belecer minha própria tese, mas para fazer uma concessão a meus adversários - o que poderia exprimir - se, recorrendo à termino- logia que introduzirei daqui a pouco, dizendo que o enunciador do que eu digo aqui não é assimilável ao locutor enquanto tal). Como exemplo de enunciado simples em um contexto simples, tomemos a réplica "Na semana passada, eu estava em Lyon ", utilizada para res- ponder à pergunta "Onde você estava na semana passada?". Não há dificuldade em atribuir à mesma pessoa as três propriedades consti- tutivas do sujeito falante. Se representamos por "L" o indivíduo a quem a pergunta é endereçada e que articula a resposta, é L que é designado por eu (é de L que se diz que estava em Paris) e é ainda L que assume a responsabilidade do ato de afirmação veiculado pelo

~

.\G M;as, desde que se emprega um enunciado, mesmo simples, em

um diálogo um pouco mais complexo, a tese da unicidade começa a apresentar dificuldade. Por exemplo, quando há uma retomada (em um sentido muito largo deste termo, e que não implica nem repetição

por ter cometido um

J erro, retroca: "Ah! eu sou um imbecil; muito bem, você não perde k por ·esperãrl ". L é aqui ainda o produtor das palavras e é ele igual- mente que é designado pelo eu. Mas a responsabilidade do ato de afirmação realizado no primeiro enunciado não é certamente L que assume - já que justamente L tem a imodéstia de o contestar: ao contrário, L o atribui a seu interlocutor 1 (mesmo que 1 não tenha, de fato, falado de bobeira. Mas somente feito uma censura que, se- gundo L , implica em boa lógica para 1, a crença na imbecilidade de L).

Assim, pois, desde que haja uma forma qualquer de retomada (e nada é mais freqüente que a retomada na conversação), a atribui- ção das três propriedades a um sujeito falante único, torna-se proble- mática - mesmo quando se trata de um enunciado sintaticamente simples. A demonstração é ainda mais fácil com enunciados comple- xos, por exemplo, com enunciados constituídos através da conjunção

enunciado.

"

literal, nem paráfrase). L, a quem se censurou

180

1 [ ~ / I
1
[
~
/
I

mas. Todo tropeiro, uma vez ou outra, ouviu em um refúgio, ao ama- nhecer, um diálÓgo como o que segue. A alguém que tenha impru- dentemente afirmado não ter pregado os olhos à noite, um compa- nheiro fesponde amavelmente: Pode ser que você não tenha dormido, mas, de qualquer forma, você, roncou solenemente". O autor, no sen-

tido físico, deste enunciado, não poderia ser visto como responsável, J ao mesmo tempo, pelas duas afirmações que aí são feitas uma depois da outra. Se parece razoável atribuir-lhe a segunda, não se poderia

fazer o mesmo com a primeira, a que é corrigida pelo "mas

" E

é deste modo para um grande número de empregos de mas, notada- mente para aqueles que entram nos enunciados de estrutura "Pode ser p mas q" (o que eu digo aqui de mas, e o faço de passagem, constitui uma certa modificação na descrição que J. C. Anscombre e

eu temos dado f reqüentemente para mas, descrição que modificamos atualmente introduzindo-a na nossa teoria da polifonia) 1

X. f! esta teoria da polifonia que vou agora apresentar de uma maneira positivã, depois de ter mostrado as dificuldades da concepção

'unicitária" à qual ela se opõe. Para isto desenvolverei certas indi- càções que se podem encontrar no primeiro capítulo de Les Mcits du Discours, corrigindo-as em alguns aspectos.

Relembrei há pouco que o sentido de um enunciado, para mim,

a descrição de sua enunciação. Em que consiste esta descrição?. enho assinalado alguns de seus aspectos mencionando as indicações argumentativas e ilocutórias, assim como as relativas às causas da fala. Estas indicações, de que falei para levar a compreender o que entendo por "descrição da enunciação", são, na verdade, secundárias em relação às indicações mais primitivas que estão pressupostas por

tudo que se pode dizer sobre os aspectos ilocutórlo, argumentativo e ~ /

1

)

1

1

expressivo da linguagem. Trata-se de indicações, que o enunciado \ ~ .LP ~J

apresenta, no seu próprio sentido,

tual(ais) da enunciação. Certamente quando defini a noção de enun· 1

ciação tal como a utilizo enquanto lingüista que descreve a linguagem,

recusei-me explicitamente, de aí . introduzir a idéia de um produtor da fala: minha noção é neutra em relação a tal idéia. Mas não se

sobre ·o

(ou

os) autor(es)

even:}

•·

1. No que diz respeito aos enunciados de estrutura "Certamente p mãa q ", ver o final do § XVIII. Eles apresentam um acordo sobre a verdade de p, mas excluem toda tomada de posição argumentativa de p. Nlo poderei explicitar a oposição desta& duas noções senão depois de ter, no t XII. analisado o conceito do locutor distinguido L e À:"

181

o

mesmo

com esta

descrição

da

enunciação

que

é

constitutiva

do

 

sentido

dos enunciados -

 

a

que

é

constitutiva

do

que

o enunciado

q1ler-di:ter

e

não

mais

do

que

o lingüista

diz.

 

Ela contém,

ou

pode

conter,

a atribuição

à

enunciação

de

um

ou

vários

sujeitos

que

se-

riam

sua origem. A

tese

que. quero defender

aqui é

que

é

necessáriu

 

distinguir

entre

estes sujeitos

pelo menos

dois tipos

de

personagens,

 

/

l

os

enunciadores

e

os

locutores;

 

apresentarei

primeiro

a

noção

de

 

-

-

"locutor".

 
 

Se

falo

de

locutores

-

no

plural

-

não

é

para

cobrir

os

casos

 

em

que

o

enunciado

é

referido

a uma

voz coletiva

(por

exemplo,

quando

um

artigo

tem dois

autores

que

se

designam

coletivamente

por

um

n6s).

Visto

que,

neste

caso,

os autores

pretendem

constituir

uma só pessoa

moral, falante

de uma única voz:

sua pluralidade apre-

senta-se fundida

em uma

personagem única,

que engloba os indivíduos

diferentes.

O

que me motiva

o plural

é

a existência,

/ ciados, de

uma

pluralidade

de responsáveis,

dados

para certos enun- como distintos

e

irredutíveis. Assim,

nos fenômenos de

dupla enunciação

XI),

prin-

cipalmente no

discurso

relatado

em

estilo direto.

Por definição,

enten-

1

do por locutor um ·ser

que é,

no

próprio sentido

do enunciado,

apre-

sentado

como

seu responsável,

ou seja,

como

alguém a

quem

se

deve

. imputar

a responsabilidade deste enunciado.

 

a

ele

que refere

o

pro-

nome

eu

e

as outras

marcas

da

primeira

pessoa.

Mesmo que

não

se

leve

em

conta,

no

momento,

o discurso

relatado direto,

ressaltar-se-á

 

que

o locutor,

designado

por

eu,

pode

ser distinto

do

autor

empírico

' do

enunciado,

de

seu

produtor

-

mesmo

que

as

duas personagens

 

·'

coincidam habitualmente

no

discurso oral.

de fato casos

em

que,

 

de

uma maneira

quase

evidente, o

autor

real

tem pouca

relação com

o locutor, ou

seja,

com

o

ser, apresentado,

no

enunciado,

como oqucle

a

quem se

ciadó.

deve

atribuir

a responsabilidade

da

ocorrência do

enun-

Suponha que meu

filho

me

traga uma

circular da

escola,

em

que

está

escrito:

"Eu,

abaixo-assinado,

autorizo meu

filho

a[

]. As-

sinado .

"

terei pessoalmente

que

escrever meu

nome no

branco

que

segue

a

expressão

abaixo-assinado

(a

menos

que meu

filho tenha

tido

tenha tido

sou o

diretor,

corro

a

cortesia

de fazê-lo

por

mim)

e

assinar

(a menos

Ora,

que meu filho

é claro que identificar:

é

não

o

muito

depois de

a imprudência de

fazê-lo ele

mesmo) .

autor empírico do

sua secretária.

o risco

de ser

texto-autor,

aliás, difícil de

educação,

de

a secretária da

o aufor

etc? . Quando

meu

nome

da ocorrência

182

abaixo-assinado

e,

em

situação

"normal",

que eu

tenha

assinado, aparecerei como

o

da

assinatura.

Mas, desde/-

locutor

do enunciado

(lem-

bro

que

considero

"enunciado"

uma

ocorrência

 

particular

da

frase)

1

Por

um lado me

responsabilizarei

por

ele

-

e

o

próprio

enunciado1

uma

vez

assinado,

indicará

que

esta

r~sponsabilidade.

Por

outro

lado, serei o

ser designado

pelas marcas

 

da

primcjra pessoii,

serei quem

autoriza

seu filho a

fazer isto

ou

aquilo. Tenfíb

assinado,

a

administração

da escola

poderá me

dizer:

"O

 

8enhor

nos

mandou

um

documento

em

que

autoriza seu

filho

a .

"

1

Um parêntesis

I

a este propósito,

sobre o

papel

da

assinatura.

Para

que

serve

a

assinatura? .

Base~ndo-me

em

trabalhos

de Christian

Plan-

tio,

considerarei dupla

sua

função.

Em primeiro lugar,

ela serve

algu-

mas

vezes

para

indicar

quem

é

o locutor,

o

ser designado

pelo

eu

e

a quem

é imputada a

responsabilidade

do

enunciado. Mas

este

papel

é

acessório

e

circunstancial , somente: ela

o

realiza

s6

quando

é

legí-

vel

(o

que

não é

de

forma

nenhuma

necessário:

Cf.

os

riscos

que

servem muitas vezes

para

assinar)

e

quando

o texto

que

a

precede

não

contém

indicação

do

locuto~

(indicação

que

é

dada,

no

meu

1

I

exemplo,

desde

que

a fórmula

"abaixo-assinado

" tenha sido

preen-

chida).

A

segunda

função, essencial,

é

a

de

assegurar

a

identidade

entre

o locutor

indicado

no

texto

e

um

indivíduo

empírico, e a

assi-

natura

realiza

tal função em

virtude

de

uma

norma social

que

exige

que

a assinatura

assinar por

mim),

seja

"autêntica"

entendendo

por

(meu

filho

isto

que o

não

autor

tem

o

direito

de

empírico

da

assi-

natura

deve

se;:- idêntico

ao

ser indicado

no sentido

do enunciado,

como

seu

locutor.

Na

conversação

oral

cotidiana,

é

a voz

que

realiza

as

a

femas

duas

funções

quem

é

primeira

da

assinatura. Por

o

um

lado

ela

pode

servir

para

dar

conhecer

de

locutor,

(Cf.

ou

os

seja, quem

diálogos

é

designado pelos

aí?"

-

mor-

"Eu").

pessoa

"quem está

E,

por

outro

lado, ela

autentica

a assimilação

do

locutor a

um

indi-

víduo

empírico

particular,

aquele

que

produz

~fetivamente

a

fala.

)

1

'" / '

- f

Como no

possível

caso

esta

da

assinatura,

segunda função,

de

qualquer

outra

pessoa.

a

é,

aliás,

norma

uma

norma

social

que

impedindo

"contradizer"

torna

a voz

Não somente

pode

o locutor pode

certas

ser diferente

do

sujeito falante efe-

são

descritas

no

tivo, mas

ser que

enunciações,

tal como

sentido

do

enunciado, não

apareçam

como o

produto de

uma

subjeti-

vidade

individual

o

caso

dos

enunciados

que

Benveniste

chama

"históricos",

enunciados

caracterizados pelo

fato

de

não

veicularem

183

J?\1

r'~

nem marca explícita,

atribuindo, pois,

nem indicação implícita

a

nenhum locutor,

de primeira pessoa, não

sua enun-

a responsabilidade

de

dente

sse:

di

no

discurso relatado em

eu virei",

como analisar,

estilo direto.

Se Pedro

diz "João me

discurso

no que concerne ao

locutor,

o

ciação).

Vê-se

porque escolhi

uma definição

da enunciação

que não

de Pedro

tomado

na sua

to tal idade?.

Encontram-se

a{

duas marcas d é l

contenha

nenhuma alusão .a uma

pessoa

que

fosse

seu autor, nem

primeira

pessoa

que

remetem a

dois

seres

diferentes.

Ora,

não

se

mesmo

a

uma

pessoa

a

quem

fosse endereçada

-

já que

é essencial

pode

ver

dois

enunciados sucessivos,

o

segmento

João

me

disse

para

mim que

a

enunciação,

na · medida

em

que

ela

é

o

tema

do

não pode

satisfazer

a

exigência

de independência. contida

na minha

sentido, o

objeto

das qualificações

contidas

nos

sentidos,

não seja

vis-

definição

de

enunciado: ele

não

se apresentaria

como "escolhido

por

ta,

enquanto

õbjeto

destas

qualificações,

como devendo ter

necessaria-

si

mesmo".

Sou ,

pois, obrigado

a

dizer

que

um

enunciado

único

mente

uma fonte

e

um alvo. Quero poder dizer que

a existência de

apresenta

aqui

d ois

locu tores

diferentes,

o

primeiro

locutor

sendo

uma

fonte e

de

um

alvo estão entre

as

qualificações

que

o sentido

assimilado

a Pedro

e

o

segundo

a

João . Assim ,

é possível

que

uma

atribui

ções

menção

tes enunciados atribui

dade superindividual, sua origem, que não

(ou não)

históricas"

enunciação. Assim

como

não

à

poderei descrever as

sentido,

seu

"enuncia-

nenhuma

des-

subjetivi-

sobre

comportando,

no

a sua origem -

entendendo

por isso,

não que

o

sua fala.

sentido

nada

a origem de

mas simplesmente que

sua enunciação

de

ele

a alguma

não diz

exibe nenhum autor

Se

eu

fizesse intervir

um autor

na

minha

definição

de enuncia-

parte de

um enunciado imputado

glo balmente a

um

primeiro

locutor

seja,

entretanto, imputado a

um segundo

locutor

(do mesmo

modo

1

que, num

romance,

o

narrador

principal

pode

inserir

no

seu relato

\

o

relato

que lhe fez

um

segundo narrador) .

 

)

Esta possibilidade

de desdobramento

é

utilizada

não somente

pa-

ra

dar

a conhecer

o

discurso

a tribuído a

alguém , mas

também

para

produzir urn

eco imitativo (A : " Eu

não estou bem "

-

B:

"Eu

não

ção,

contidas

a existência

deste

autor

no sentido,

ou seja,

se sua especificação seria

tornaria um

tema

das qualificações

tarefas

uma

das

estou

apresentar um

bem;

não pense

que você vai

me comover

("Se

com isso"),

dissesse

discurso imaginário

alguém me

ou

vou

para

sair,

necessárias

da

semântica do enunciado, uma

das questões

que

o sen-

eu lhe

responderia

").

I!

ela

também que

permite

organizar

um

tido

histórico

firo poder

sua enunciação,

não é

características

zando com

deveria responder, e

um

a

deveria imaginar, então, que

uma

resposta

de

ele deixa

na

ordem

o enunciado

Pre-

de

esta origem

das

utili-

Jakobson, denomina-se

estas questões

metafísica.

origem

uma

Se,

dizer simplesmente que

e isto

me

tema

necessário

que

alguma

podem

na sombra a

em que

é possível

medida

das indicações

atribuir (ou

não)

uma

palavra

de

à

semânticas,

mas

enunc1açao.

liberdade

 

teatro, no

sentido próprio,

no interior

de

sua

própria

fala,

pergun-

J

tando

e

respondendo (procedimento

freqüentemente utilizado

por cer-

,

tas

personagens

de

Moliere ,

Sosie

por

exemplo, que

na cena

1,

do

primeiro ato

Alcmene,

do

outro

Amphitryon,

se representa contando a

um teatro dentro

do

permite

ainda

a alguém

mesmo discurso,

teatro) .

O

fazer-se

eus

o

batalha

de

organizando assim

do locutor

e

mesmo

porta-

que remetem

\ desdobramento

voz de

um

emprega r, no

"embrayeur"

o aspecto

da

realidade extra-lingüística relativa às

indi-

ta

nto

ao porta-voz, quanto

à pessoa

da

qual

é

porta-voz.

Q uando,

em

cações

tico e

interiores ao

sentido (quer

dizer, situada

do extra-lingüístico),

direi que é a

en~nciação

na junção do

lingü{s-

a defini

1'artari 11

su r

l es Al pes ,

Pas c al o n ,

a

t emoriz a do

pelas impre c ações

de

tal como

Excourbanies

(" Outre!" ),

as

fa z acompanhar

pela

fórmula

h ipócrita

     

-

abstração feita, pois,

do sujeito falante

-

que

é

o embrayeur das

 

[tarascomiaise

J "

• .

.

qu e vous

me

f

eri ez

dir e",

o

l ocutor

da

fó rm u la

indicações semânticas: a

existência

eventual

de

uma

fonte responsá-

pro nunciada

por

Pascalon,

quer

dizer,

a

pessoa designada por

me,

é

vel

pela

enunciação depende

destas indicações.

a

que praguejou

"Outrel ",

a

saber, Excourbanies.

~O

que

não

impede

G . Sustentei

XI

pessoa

apresenta

ado

à

nuances

pessoa

a

fim

à

de

mais acima

a enunciação

que

a presença

de

marcas da

um locutor,

primeira

assimi-

certas

fazer

como imputável a

Este

princípio

qual remetem.

dar

conta

da

deve receber

de

possibilidade sempre aberta

Pasca lo n

mesmo.

de, .no

mesmo

discurso,

empregar

eus

que

designam

ele

Em lugar de considerar o

como um

caso

particular

de

relato em estilo

dupla enunciação, ele

direto (abreviado RED)

descrito com

é

~,.,

~

aparecer, em uma enunciaÇão atribuída a um

atribuída

locutor,

de

uma enunciação

evi-

a

um

outro locutor.

~

isto que

se vê

uma

maneira

184

freqüência de

classifiquei

modo isolado,

independentemente

deixa

dos fenômenos

tomá-lo

que

como

na mesma

categoria

-

em

seguida

185

modelo quando

como sendo

se trata

de caracterizar

estes outros

até

fenômenos, vistos

Esta

prática

formas

truncadas, desviantes,

anormais.

leva a

dar

ao RED uma

imagem

que

me parece

às vezes banal

e

de

forma

nenhuma

evidente, e

a desfigurar

por ricochete

os fatos

que

procedem

também,

segundo penso, da

dupla enunciação:

eles apare-

cem

como

uma

cópia

já desbotado.

de

má qualidade,

feita

a partir

de

um

original

Se,

de

radamente

fato, contrariamente

ao

que

proponho, considera-se

o

RED, duas

particularidades

se impõem logo

de

sepa-

início.

,A

primeira, que ele tem por

flinção

informar sobre

um

discurso efe-

tivamente realizado

[tenu].

A

outra,

que

ele contém

em

si mesmo os

termos

de um

discurso suscetível de

ser realizado

[tenu]

por

um

lo-

cutor

diferente daquele . que

faz,º.

A

aproximaçã~.destas du~s

 

r~lato.

observações

conduz

facilmente a

1dé1a -

em

geral

admthda

sem dis-

cussão -

de

que

o

RED procura

reproduzir

na sua

materialidade as

palavras produzidas

discurso. O

pela

pessoa

de

quem se

quer

o

gica

palavra

utiliza para significar

dar

a

conhecer

noção

que se

expressa, por

exemplo, recorrendo

à

de

menção.

Para um lógico, uma ocorrência particular de uma

menção

quando

seu autor não a

constitui uma

o

sentido

desta palavra mas

para significar a

própria palavra,

consi-

derada como

uma entidade

lingüfstica. Este

é

o

caso

nos exemplos

sempiternos do

palavra

tipo

serve

mesa

"Mesa tem

quatro letras"

para designar este

elemento

onde

a ocorrência

da

da

lfngua

portuguesa

que é

a palavra

mesa.

O

mesmo

se daria

no RED.

A parte final da

seqüência

Pedro

disse:

"estou

contente"

(a

que está

entre aspas) de-

signaria simplesmente

uma frase

da

língua,

e

o

sentido global

da

se-

qüência

ciado.

palavras foram utilizadas

seria

Relatar

que

um

Pedro pronunciou

discurso em

esta frase,

produzindo

seria,

pois,

estilo direto

pelo autor deste

discurso. Quanto

enun-

que

aos outros

um

dizer

fenômenos

que classifiquei

na

rubrica

"dupl~

enunciação",

(os ecos,

os diálogos

internos,

os monólogos ,

o apagamento

do

porta-voz em

relação

à

pessoa

que

ele

faz falar), tudo

isto

não seria senão uma

forma enganosa do

RED

-

enganosa

seja porque ele não

se reconhe-

ce

como tal,

seja porque

 

o

discurso

que

se

pretende

relatar jamais

se deu,

ou foi

realizado em

termos diferentes.

,

De

minha parte,

 

prefiro caracterizar primeiro

a categoria toma-

 

da

na

sua totalidade,

e direi

que

ela

consiste fundamentalmente em

uma

apresentação

da

enunciação

como dupla:

o

próprio sentido

do

.

en.unciado

atribuiria

à

enunciação

dois

locutores distintos, eventual-

 

(

,~.

186

mente subordinados -

o que

nao e

mais extravagante

que

atribuir-

lhe

propriedades

.jurídicas,

argumentativas

ou

causais

de

que

faltj

mais

acima. Certamente

do

ponto de

vista empírico,

a

enunciação

é

ação de

um

único

sujeito falante,

mas

a imagem

que

o enunciado

dela é a

de

uma troca,

de um diálogo,

ou

ainda de uma hierarquia

das

falas.

Não

há paradoxo neste

caso senão

se

se

confunde o

lo-

que

para mim é

uma

ficção discursiva

-

com

o

sujeito

cutor - falant e -

que

é

um

elemento

d:a

experiência. Esta

tese tem

conse-

qüências quando

se trata

de

descrever

o

relato em

estilo direto, se

este

que efetivamente realizado. Mas

rências

ramente manterei

é

visto

no interior da

ele

categoria geral

da

dupla enunciação.

Segu-

foi

ocor-

que designam

as

visa informar sobre

nada

mais obriga

conistituem

um discurso que

a sustentar que

colocadas entre aspas

uma menção

entidades lingüísticas,

aquelas

que

foram realizadas

no discurso

ori-

7

J

ginal.

Pode-se admitir

ao

contrári 10

que

relato,

para

infor-

mar sobre o

fala que ele

discurso original, coloca

o autor do cena,

em

a conhecer

supõe, simplesmente, que ela tem

alguns

pontos

uma

comuns

com aquela

sobre

a qual ele

quer

informar

seu interlocutor.

A

verda-

de

dupla enunciação,

do

relato

não

implica,

pois,

se

o RED

é

um

caso particular

de

uma conformidade material das

falas

originais e

das falas

que aparecem

no

discurso daquele

que relata. Já

que

este

não visa

necessariamente

a

uma reprodução literal,

nada impede,

por

exemplo, que, para dar

ginal,

conserva, ou

relatar em dois segundos um

a conhecer os

uma

fala

pontos importantes

da

fala

ori-

dela

direto,

ele coloca

em

cena

muito diferente, mas que

(pode-se,

dois minutos:

no

estilo

mesmo acentua,

o 'essencial

discurso de

Em uma pala-

vra, Pedro

me

disse

"eu tenho o

entre estilo

que o primeiro daria a conhecer a forma ,

suficiente") .

A diferença

direto e estilo indireto não é

l

o segundo, só

o conteúdo. O

estilo direto

pode também visar

s6

o

conteúdo, mas

para

fazer

saber

qual

é

o conteúdo, escolhe

dar

a

conhece r uma

um

 

rata

(ou seja,

uma seqüência

de

palavras, imputada

a

locutor) .

suficiente, para

ser exato, que

este

manifeste

efetiva-

mente certos

traços salientes

da

fala relatada (por

isso

os

historiado-

res

antigos,

e

boa

parte

dos

histori ado res modernos, não

têm escrú-

pulos

implica fazer falar um

isto

termo

de reescrever

não implica

a termo.

que

os discursos

que

relatam) .

direto

das falas,

uma correspondência literal,

a responsabilidade

Porque

o

estilo

outro, atribuir-lhe

sua verdade

tenha

XII .

que o

locutor (ser

dei

discurso)

foi

distinguido

do

sujeito

falant e (ser

em pírico), proporei

a1inda

distinguir,

no próprio

interior

187

1

1

.

1

da

noção

de

locutor,

o

"locutor

enquanto

tal"

(por

abreviação'

atividade oratória. Não

se

trata

ele

afirmações

auto-elogiosas

que

ele

 

"L")

 

e

o

locutor

enquanto

ser

do

mundo

("

Ã") .

L

é

o responsável

 

(

pela enunciação, considerado

unicamente

enquanto

tendo

esta

pro-

 

priedade.

>.

é

uma

pessoa

"completa" ,

que

possui ,

entre

outras

pro-

priedades,

a

deser

a::origem-do~enuncta

o-=-

o

que

nao

impede. que

(

L

e

À

sejam

seres

de

discurso,

constituídos

no sentido

do

enunciado,

e

cujo

estatuto metodológico

é,

pois, totalmente

diferente

daquele

do

sujeito falante (este

último deve-se a

uma

representação

"externa"

da

fala, estranha àquela

que é veiculada

pelo enunciado).

Para

fa~er

apa-

recer esta

como

sua

pressa.

distinção,

descritas

como

implica

retomarei primeiro

pouco.

Digo

o exemplo

que

uma

interjeições tal

interjeição apresenta

ex-

somente

das

foram

enunciação

Isto

motivada [déclenchée]

que

este

sentimento

pelo sentimento

não

que

é apresentado

por

meio,

mas através

da

enunciação

de, que

é

a

origem

pretendida.

Ao

dizer

Ai

de mim!

ou

Ah!

*

colore-se sua

própria

fala

de

tristeza

ou de

alegria:

se a

fala

a conhecer estes

sentimentos,

é

na

medida

em

que

é,

ela própria,

triste

ou

alegre.

A alguém

que

se contenta

em

dizer

"Estou

muito

triste"

ou

"Estou

muito

alegre",

pode-se even-

tualmente

fazer

notar que ele

não

tem a

aparência, tomando-o

na

sua

atividade

de

fala,

nem triste

nem

alegre.

Isto

porque

o

sentimento,

no

caso dos

enunciados declarativos,

ciação

como um

objeto

da

enunciação,

aparece

como

enquanto

que

exterior

as

enun-

interjeições o

à

situam

na

própria

enunc1açao

-

jr

que-es' a

apresen

aela como

o

efeito

imediato

o--senrimento- que

ela

expressa. Direi, pois,

que

o

ser a

quem se atribui

o sentimento, em

uma_,.interje~ção,

é

L.'

o

locutor

visto

em

seu

engajamento enuncitativq.

f

é

a

>.,

o

contrário,

que

ele

(

é

atribuído

nos enunciados

declarativos,

isto _é,

ao

ser

do

mundo

que ,

entre

outras

pr9 p_dedadu

,

tem a

de

enmi"iar

sua

tristeza

ou

sua ale-

gria

(de um

modo

geral o

ser

que

o

pronome

eu

designa

é

sempre

X-,

mesmo se

a identidade deste

À

fosse acessível através

de

seu apa-

 

'

recimento

como

L).

Uma

outra

iiust ração

da

distinção

>.-L,

desta

feita

retirada

da

retórica, e

para

a

qual

me

apoiarei

em

Le

Guern

(1981).

Um

dos

segredos

é,

para

o

da

persuasão

orador,

dar

tal como

é

de

si

mesmo

analisada

uma

a

partir

de

Aristóteles

image'!l

imagem

favorável,

que

seduzirá

o ouvinte e

captará

sua

benevolência.

Esta imagem

do

orador

é

designada

como

ethos.

e

necessário

entender

por

isso

o

caráter

que

o

orador

atribui a

si mesmo

pelo

modo

como

exerce

sua

No

188

original

Hfüsl

CHIC!

(N.

do

T.)

pode

fazer de

sua

própria

pessoa

no conteúdo

de

seu discurso,

afir-

mações

que

podem

ao

contrário

~:hocar

o ouvinte, mas

da

aparência

que

lhe confere

a fluência,

a

entonação,

calorosa

ou

severa,

a escolha

das

palavras,

os argumentos

(o

fato

de

escolher

ou

de

negligenciar

tal

defeito moral).

a

argumento

L,

o locutor

pode

parecer

sintomática

de

tal

qualidade

ou

de

tal

Na

minha

terminologia, direi

enquanto

tal:

é

enquanto

fonte

que

da

o ethos

está

ligado

enunciação

que

ele

se vê

dotado

[aflublé]

de

certos

caracteres

que,

por

contraponto,

tor-

na

esta enunciação

aceitável ou

de~sagradável.

O

que

o

orador poderia

dizer

de

si,

enquanto

objeto

da

enunciação, diz,

em

contrapartida,

respeito

a

Ã,

o

ser

do

mundo,

e

não é

este

que

está

em questão

na

parte da

retórica

de

que

falo

(a

distância

entre

estes dois

aspectos

do

locutor

é particularmente

sensível

quando

L

ganha

a benevolência

de

\ seu público

pelo próprio

modo

como

humilha >.:

virtude

da

autocrí-

tica).

N .B.

-

A

teoria

da c9nstmção

do

orador por sua fala

é

explo-

rada

por

Declercg

(1983)

para

análise

do

teatro

de

Racine.

A

distinção

de

L e

>.

me

permitirá

precisar

minha

posição

a res-

peito

(trata-se

dos

"performativos

do

que

Récanati

explfcitos",

tese

à

(1981)

Cap.

IV,

qual

chama

fiz alusão

no

a

"conjectura

§

4

de

Ducrot").

A

expressão

"performa1tivos explfcitos"

-

que

não

quero

retomar

por

minha

conta

-

a

entender

que

é

possível

efetuar

um

ato

ilocutório

pelo simples

fato

de

se

asseverar explicitamente

que

se

efetua

tal

ato. Seja,

por exemplo,

o

ato

de

desejar

(augurar),

consistindo

em assumir o

que

um

outro

deseja,

ou mesmo,

na medida

em

que

se

atribui

ao

ato

de

deseyar

uma

eficácia

empírica,

em

con-

tribuir

verbalmente

para

sua satisfação.

Para

efetuar

~~te

ato,

parece

suficiente

se diz

o

significa

afirmar

te

que

se

boas

o

realiza .

e

o

que

parece

ser!f_eito

do

H

termo.

quapdo

realizar

fórmula,

Dizen-

"Eu

de

desejo

férias" , se

mim,

no

ao

desejar

significa-: aqui

desejar, nesta

ato

desejar".

primeiro

Para

contrário,

"desejar",

se:ntido

psicológico

do

"primeiro".

considero

que

esl.e

sentido

está

na

origem

de

seu

valor

de

ação,

e assegura

à

fórmula

a possibilidade

de

realizar

este

papel.

Se

a

fórmula permite o

ato

de

desejar,

é

porque

ela

é

asserção

de

um desejo,

em um

contexto

em

que

o objeto deste

desejo

é

o

su-

cesso

do interlocutor.

Seguramentf:

uma

evolução

semântica

levou o

~erbo

desejar

[souhaiter]

a tomar,

por

derivação

delocutiva, o

valor

efetuar

o

guém

derivação

"Eu

ato

que

pode

te

foi

desejo

"

produzida,

ser

("/e

efetuado,

pirncipalmente,

te souhaite

").

E,

uma

dizendo a

al-

vez

que

esta

tornou-se possível reler

a fórmula,

dando

a

·189

desejar

[souhaiterJ

este novo

sentido, o

que

leva

a ver

a{

a

asserção

da

realização

de um

ato.

Mas não é

esta asserção

que está

na origem

da

eficácia pragmática

da

fórmula.

a~ravés

da

qualifi cação

da enunciação. Que

a consideração

de uma

fo~mul~

tenha a

eficácia necessária para

a realização

do

ato

de

de-

se1ar,

e

o

~ue

o enunciado mostra sobre

a enunciação,

e

0

sujeito

~este

ato

nao pode

ser senão

o

locutor visto no

seu papel

de locutor

N

.B.

-

Récanati objetou

acompanhado de

a

um

esta explicação que o

dativo, não

verbo desejar

pode significar senão a

isto

contida

ser

o

.é.

L,

como o

ne.sta

p~rttcular

e

de

responsável

fórmula,

e

pelo

enunciado. Mas

ao

mundo,

outras

quando

toma

a

asserçã~

[souhaiterJ,

que concerne

entre

L pertence

como objeto

tem

a

de

enunciação

realização

do ato

de desejar

[souhait],

e

nunca o

desejo.

Mas

encon-

tram-se

de

fato desejar

[souhaiter] ,

puramente psicológicos e,

no en-

,1I

do mundo que,

.\

que

se trata:

propriedades,

da

ao comentário

 

se~

tanto, acompanhados

de

um dativo.

Assim,

em

O

Avarento,

cena

7,

feita

globaln2ent~

pel.o

sentido.

.\ pertence

à

descrição do

mundo feita

do

ato

lll, Cléante diz

a Marianne, que

deve, segundo

os projetos

de

pelas

~sserçoes

mtenores

ao sentido.

O

que

é

característico

do

_

Harpagon,

tornar-se

sua sogra:

"C'est un

titre

que je

ne vous souhaite

formativos,

ditos

"explfcitos ",

é que

as asserções sobre

>.

são

at

ui:;;~­

point"

(no sentido

de

"dont je ne désire

pas qu'il

devienne te

vôtre").

zada~

para mostrar

as modalidades segundo

as

quais

a enunciação

é

Tudo

o

que se

pode

dizer

é

que

a presença

de

um

pronome dativo

considerada por

L.

de

particularmente freqüente, por

este verbo

segunda pessoa

com

o

verbo "psicológico"

razões fáceis

de

nas fórmulas

usadas

desejar

[souhaiter],

foi

compreender, qu~ndo

para realizar

o

ato

de

foi utilizado

desejar

[souhait]:

em seguida,

o

segundo

verbo desejar

[souhaiter]

afetado,

por delocutividade,

pelo valor

"realizar

o

ato

de

desejar",

adquiriu

a possibilidade

de

uma

combinação com o

dativo

como ca-

racterística sintática

-

o

que reforça

em conseqüência,

a tendência

.(

em

crer estar este

verbo presente

na fórmula.

·

Se resumi aqui

a

crítica

da

performatividade

apresentada

com

detalhe

no capítulo

VI,

é porque

a distinção

>.-L

permitirá

uma

me-

lhor

desejar

formulação

dela.

Se

concordarmos ,

"Eu

desejo

com

[souhaiter]

da fórmula

efeito,

"

["fe

que

o verbo

souhait e

.

"1

. XIII:

!á

~ssinalei

uma primeira forma

de polifonia, quàndo assi-

nalei

• -

c1açao

ser

a ex1stenc1a

"

u~

-

ser

A

de

dois locutores

que

se

distintos em

casos d

e

pelo

imagem

fato

"d

t

up a enun-

de

da

o locutor

enunciação

torna possível

participando desta

feno~eno

de

dtscu.rso,

fornecida

pelo enunciado.

A noção de

enunciador

me permitirá

des-

crever

uma

segunda

forma

de

polifonia

bem

mais

freqüente

No

do

eco tom.?do

bem

e

uma

pouco, alguém

segunda

pronunciara

:~empl~

.,

u

Eu

n~o

~perando

ª

as

estou

pal~vras

por

um

,

pessoa

as retomara

me comover

do locutor (cujo

nao estou bem:

no

Não creia

que você vai

eu).

com isso"

índi~

seu discurso

em desdobramento

pronome

e

quente que se . encontre em

mudança

de referente do

Mas

é ainda

mais

fre-

voz

de

alguém

que

não

um discurso a

é utilizado

primeiro

para

uma asserção

de

ordem

psicológica, ·é ne-

ten . ha

a~

proprtedades 1que

atribuí

ao locutor.

Na

cena

t

do

ato

1

de

cessário

dizer que

seu

sujeito, o

pronome

eu [jeJ,

remete

a

>.:

não é

B.ritanmcus,

Agrippine

ironiza

os propósitos

de

sua

confidente

Al-

enquanto

locutor que

se experimenta

o

desejo,

mas

enquanto

ser do

mundo, e

independentemente

da

asserção que se

faz dele. Por

outro

lado, o ato

de desejar,

que não existe

senão na

fala

em que se

realiza,

bme,

Agrippine:

que

atribu i

à

virtude o

comportamento

independente

de

Néron .

pertence tipicamente a

deseja.

seu segundo sentido

o

ao

L:

L

realiza

o

ato de

desejar afirmando

desejar

que

>.

Et

Fait

ce même

enlever

claro

Néron,

Junie au

que la

milieu

vertu conduit.

de

e particularmente

de Agrippine

reler a

fórmula

que se

atribuindo

é levado

de

de

ao verbo

[souhaiter]

~

la nuit.

ao

mesmo tempo

a compreender

 

L,

ou seja,

do sujeito

do ato

de

.

ilusão

retroativa, 'devida ao

fato

Eu

[]e] como uma

de

designação

uma

espécie

enunciado,

.qu~ e~te

desejar. Trata-se

tmado a expr1m1r nao o ponto de vista

a relativa,

é

aes-

mas

0

de Albine

de

a

fórmula

ter

sido

dotada

de

uma

eficácia ilocutória

-

mas que

ap~es~ntado

como

ridículo.

claro também que

t~das

as marcas

     

d~

não explica

esta eficácia.

Vê-se

como

que fiz

o

entre a

as

sentido,

e

esta

tese

mostração

diferentes

190

sobre

os

performativos

se liga

da

enunciação,

que constitui

asserções

sobre

o

mundo

que

diferença

globalmente

realizam

à

se

pru~letra pe~soa,

na fala

de

Agrippine,

designam

a

si mesma

e

me

?brigam •.

pois,

a identificá-la

ao locutor

(se,

nos versos

que

cltei

se

mtroduztss~

me

prévenir

uma

o

marca

de primeira pessoa,

por exemplo

um

";ans

me

remeteria

também a

Agrippine). Donde

a idéia

191

de

que

o

sentido do

enunciado,

na

representação

que

ele

da

enun-

ciação,

pode

fazer

surgir

vozes

que

não

são

as

de

um

locutor.

Chamo

"enunciadores"

estes seres

que

são

considerados

como se

ex-

pressando
1

através

1,.

palavras

precisas;

enunciação

é vista

da

enunciação, sem

se eles

como expressando

"falam"

é

que

para

somente

seu

ponto

tanto

se

lhe

atribuam

no

de

sentido

vista ,

em

sua

a

posição,

que

sua

atitude,

mas

não,

no

sentido material

do

termo,

suas palavras.

Para

definir

u noção

de

enunciador, tenho

por

vezes (Cí.

Ducrot

e outros, 1981,

rios

cados

desejo

cil

Cap.

J)

dito

que

eles

são

os

sujeitos

atos

dos

atos

ilocutó-

mar-

incitação,

difí-

Para

elementares,

de

na

entendepdo

da

frase

por isso

alguns

muito

pergunta,

pobre

de

de

gerais

mim,

propor.

estrutura

(afirmação,

Definição

enunciação

recusa,

que

é,

que

[augúrio], exclamação) .

introduzir

na

teoria

de

acabo

1

1

~·'

mim,

com

efeito, realizar um

ato

ilocutório

é,

de

uma

maneira

geral,

"apresentar

sua

enunciação

como

obrigando

"

-

e

é

ao

sujeito

falante

que

reservei,

na

presente

exposição,

a

realização

dos

atos

ilocutórios:

escolhendo

um

como

ciador

obrigando

pertence

à

".

Na

imagem

enunciado,

medida

que

o

em

ele

que

"apresenta

a existência

da

sua

de

enunciação

enun-

seria

um

enunciado

enunciação,

necessário,

para

atribuir

os

atos ilocutórios

ao

enunciador,

dizer:

"o

enunciado

atribui

à

enunciação

a

propriedade

de

ser apresentada

por

um

enunciador

é muito

pouco

como

l)

a

sua,

2)

obrigando

. ".

Mas

esta

inteligível. Vê-se,

mal,

principalmente,

como

fórmula

a

enun-

ciação poderia

ser

atribuda

a

um

enunciador

enquanto

este

t'1ltimo,

diferentemente

do

locutor,

não

se define

em

relação

à ocorrência

de

palavras

(não

se

lhe

atribui

nenhuma

palavra,

no

sentido

material

do

termo).

Incapaz

para

o

momento

de

suplantar

estas dificuldades

no

quadro

de

uma

construção

teórica,

eu

tne contentarei com

compara-

ções,

primeiro

Direi

que

com o

teatro,

o

enunciador

depois com

o

está

para

o

romance.

locutor

assim

como

a

per- ;

{

sonagem

está

para

o autor.

O

autor

coloca

em

cena personagens

que,

em

relação

ao

que

chamei

no

§

3,

a

partir

de

Anne

Reboul,

uma

,;prlmeira

fala",

exercem

uma

ação

lingüística

e extralingüística,

ação

que

não

é assumida

pelo

próprio

autor.

Mas este

pode,

em

uma

"se-

gunda

fala" ,

dirigir-se

ao

público

através

das personagens: seja

por

que

se

assimila

a

esta

ou

aquela

pelo

próprio

autor.

Mas

este

pode,

em

uma

"segunda

fala",

dirigir-se

ao

público

através

das

persona-

gens:

seja

porque

se assimila

a esta

ou

aquela

que

ele

parece fazer

seu

representante

(quando

o teatro

é diretamente

didático),

seja

por-

192

que

mostra

como significativo

o fato

de

as personagens falarem

e

se

comportarem

de

tal

ou

tal modo.

De

uma

maneira

análoga,

o locutor,

responsável

pelo

enunciado,

existência, através

deste,

a enuncia-

J

~\!­

dores

de

quem

ele

organiza

os pontos

de

vista

e

as

atitudes.

E

sua

posição

própria

pode

se

manifestar

seja

porque

ele se

assimila

a

este

ou

aquele

dos

ciador

é

então

enunciadores,

tomando-o

por

atualizado),

seja simplesmente

representante

(o

enun-

porque

escolheu fazê-los

aparecer, e

que

sua

aparição

mantém-se

significativa,

mesmo

que

ele

não

se

assimile

a eles

(a

existência discursiva

que

lhes

é

dada

assim,

o

fato

de

que

alguém

assume

uma

certa

posição, 'dá

importância

a

esta posição, mesmo

aliás,

co, ligado às

limitar?). Seria

para

aquele

que

não

a

para

leva

um

na

própria

conta:

há,

uma

outra

importância

cujo

valor

possível

possível

conteúdo lingü{sti-

de

fixar

ou

palavras

mesmo

intrínseco

levar

é impossível

mais longe

o paralelo: como o

enunciador

não

é

responsável

pelo

material lingüístico utilizado,

que

é

atribuído

ao

locutor,

do

mesmo

modo

não

se

atribuída

à

perso-

í

nagem

de

teatro

a

materialidade

do

texto escrito pelo

autor

e

dito

1

pelos atores. Se,

por

exemplo,

em

Les femmes

Savantes,

Moliére e

os

 

atores se

expressam

em

verso,

é evidente

que

as

personagens

repre-

sentadas

falam

habitualmente

em

prosa.

E

quando

em

4aâo

momento

 

a

personagem Trissotin

recita

versos, isto deve

ser

inditado

por

uma

1

dicção

particular

do

ator

e,

da

parte

do

autor,

por

uma

forma

de

verificação

particular.

 
 

Devo

sublinhar

que

a aproximação

da

dupla

locutor/ enunciador

 

e

da

dupla

autor

+

ator/personagem

diz

respeito somente

ao

pape(

 

que desempenham as

duplas

nestes

modos

de comunicação

que são

linguagem

a

so,

teatral e

a

mesma função

a

linguagem não-teatral:

semiológica.

Suponhamos

eles

têm, segundo pen-

agora

que

se

deixe

de

lado

este

na

cena,

ponto

de

vista semiológico

o

mais como

um

modo

e

que

se descreva o

que

se passa

de

comunicação específico,

mas

como

uma

utilização,

entre outras,

da

linguagem

ordinária,

do

mesmo

modo

que

na

conversação

ou

no

discurso

político.

Será

necessário,

então,

considerar

as

personagens,

que

elas

são

os

referentes

dos

eus

pronunciados

na

cena,

como

os locutores -

o .autor

e

os

atores

aparecendo

desta

vez

como

sujeitos

falantes.

a

mesma

distinção,

na

linguagem

ordinária,

do

apta

à

utilização

particular

locutor

que

faz

tro, relação à

narrativa

pura,

isto

é,

e

do

dela

sujeito

o

falante

o

que

teatro:

próprio

à

narrativa

sem

diálogo

a

torna

do

tea-

relatado

em

estilo

direto,

é

que

a

função

semiológica

de

enunciador

é

neste

 

193

caso preenchida por um ser, a personagem, que, no que diz respeito 1 ao emprego feito da linguagem ordinária, é um locutor - de modo \ que um sujeito falante, ator de sua posição, pronuncia os eu que remetem a Don Diegue, senhor espanhol. E muito mais, a possibili- dade de uma dupla enunciação (Cf. § 11) ligada à distinção do su- jeito falante e do locutor, explica por que o mesmo ser, na cena, pode algumas vezes falar ao mesmo tempo como personagem e enquanto representante da personagem, fazendo, por exemplo, comentários sobre seu papel: em uma paródia do Cid, o representante de Don Diegue pode, no próprio interior da peça, lastimar-se que seu companheiro, ao esbofeteá-lo, tenha tido a mão pesada, assim se distinguiria:

1. O ator X, sujeito falante;

2. Um primeiro locutor, para o qual reservo o termo de. "intér-

prete", definido pelo fato de ter tal papel particular, e que pode dizer eu enquanto titular deste papel.

Um segundo locutor, a personagem vivida pelo "intérprete",

/ 3.

/ personagem que se designa igualmente a si mesmo por eu) *.

XIV. A teoria da narrativa apresentada em Genette ( 1972) me

fornecerá uma segunda comparação para procurar fazer compreender minha distinção do locutor e do enunciador. Com efeito, esta teoria faz aparecer na narrativa dois tipos de instâncias narrativas, corres-

pondendo sob muitos aspectos ao que chamei, no estudo da linguagem

/ ordinária, "locutor" e "enunciador". O correspondente do locutor é

o narrador, que Genette opõe ao autor da mesma maneira que opo-

nho o locutor ao sujeito falante empírico, isto é, ao produtor efetivo

do enunciado. O autor de uma narrativa

representa, segundo Genette, um narrador, responsável pela narrativa

e que tem características bem .diferentes daquelas que a história lite- rária ou a psicologia da criação romanesca devem reconhecer ao autor.

Assinalo três, das quais' só a primeira é desenvolvida por Genette.

Esta primeira característica, sobre a qual passo rapidamente, diz respeito à atitude do narrador em relação aos acontecimentos relata- dos. Enquanto o autor imagina ou inventa estes acontecimentos, o narrador os relata, entendendo por isso, por exemplo, ou que ele reproduz lembranças (supostas) - no caso de uma narrativa no pas-

(romancista ou novelista)

Em franch Ducrot usou "comédien", que traduzi por ator, e "acte11r'', que tradlizi por intlrprete. (N. do T.)

l.

.} 1'

1

194

sado -

ou que ele dá uma forma lingüística ao que ele foi levado

a

viver ou a constatar -

em certas narrativas no presente.

Insistirei, sobretudo, em uma segunda diferença entre o narrador

e

o autor, diferença ligada à primeira. Trata-se de sua relação com

o tempo. Em seu estudo sobre o tempo gramatical, Weinrich (1964) ressalta que os romances de antecipação são sempre escritos em um tempo gramatical do passado - o importante para mim é que aliás somente possam sê-lo. Escrevendo hoje um romance sobre o ano 2000, nada me impede de começar: "A cette époque la France était

un terrain vaque que se disputaient

" Vê-se nisto, por vezes, uma

extravagância ou um paradoxo, sob o pretexto que o autor, mesmo escrevendo no passado, não procura dissimular que fala de seu fu. turo. Mas o paradoxo desaparece desde que se tenha distinguido autor

e narrador. Porque o tempo gramatical utilizado pode muito bem não

tomar como ponto de refrência o momento em que o autor escreve, mas aquele em que o narrador relata, e o autor, vivendo em 1985, pode imaginar um narrador, vivendo no ano 3000, que relata o que

se passou no ano 2000.

Esta distinção do narrador (equivalente literário de meu "lo- cutor") e o autor (correspondendo ao que chamei o "produtor · efe-_ tivo ", e exterior à narrativa como o produtor é exterior ao sentido do _ enunciado) permite mesmo - é a terceira diferença que assinalarei

- fazer realizar o ato de narração por alguém de quem se diz, ao

1 mesmo tempo, que ele não existe ou não existe mais. Se para escrever é necessário existir, isto não é necessário para narrar. Por isso a possibilidade das narrativas em primeira pessoa e nas quais se relata

1 morte da personagem designada por esta primeira pessoa, como no filme de Wilder, Sunset Boulevar, filme narrado por uma persona- gem que é, no entanto, assassinada pouco antes do fim. A existência empírica, predicado necessário do autor, pode ser recusada ao narra- dor. Na medida em que este é um ser fictício, interior à obra, seu papel se aproxima do que atribuí ao locutor - que para mim é um ser do discurso, pertencente ao sentido do enúnciado, e resultante ' desta descrição que o enunciado dá de sua enunciação.

a

Ao enunciador igualmente posso fazer corresponder um dos pa- péis propostos por Genette. Vou colocá-lo em paralelo com o que Genette denomina às vezes "Centro de perspectiva" (o "sujeito de consciência" dos autores americanos), ou seja, a pessoa de cujo_pon- to de vista são apresentados os acontecimentos. Para distingui-lo do

195

narrador,

centro

que

Genette

diz que

o

narrador

"quem

vê".

é

o

E cita numerosos exemplos em

único. Assim,

apre-

a

indivíduo

em

vezes

identifi-

narra-

personagem

"quem

fala",

enquanto

o

que

de

perspectiva

é

os

A

dois papéis

não podem ser

atribuídos

a

ocorre

visão

que

um ser

que

não

narrador

em

la Recherche du

Temps Perdu,

relatam uma

narrador

pode

de

um

ser

nem

no momento

assim às

seja

~a

no

enunciação

de

que

senta acontecimentos

que

sua,

designado

no

momento em

por

eu

[je],

que

vivia

a história:

a

a

cado, através

tiva.

nível do

de

Swan

ou

de

da

de

que narra

ou

visão

seja,

e

a história, nem

a

do

ser

em

que era

narador é

o

relatada pelo

isto mesmo

que

a uma

Charlus,

primeira pessoa,

outra

Esta situação me parece próxima da que procurarei descrever,

que

enunciado, dizendo

que

se declara

responsável -

o

locutor apresenta

exprimindo

como

uma

atitudes

pode

o narrador relata,

Mas

ciadores

recusar

as

a

responsabilidade.

ou seja, ele

O

locutor fala

como

no sentido

de

um

em que

é

dado

discurso

como

a fonte

discurso.

enun-

vista manifestados

atitudes expressas

de que

neste

podem

ser atribuídas a

se distancia -

os pontos de

na narrativa podem ser

sujeitos de

consciência

estranhos ao

narrador:

Para

ilustrar esta

relação

entre

o

enunciador

e

o centro

de

pers-

pectiva, comentarei

consagradas

levando a

heures

as primeiras linhas

do navio

que

vai

Moreau :

-

de

-

de

L'Education

Sentimentale,

partir

1840,

de Paris,

Vers six

partir, fumait

à

saída

subir o Sena,

a

l 1

septembre

pres

de

bordo Fredéric

matin, la

ville

" Le

du

montereau,

à

gros tourbillons

devant le

quai

saint-Bernard".

Segue

uma

descri-

ção

do cais

que

se

pretende absolutamente

"objetiva"

e

faz

surgir,

com

o

auxmo

de

uma confusão

de notações

isoladas,

os encontrões

1

[bousculades]

e

a

animação geral

que

precedem a

partida. Descrição

que é interrompida pelo

enunciado que

vou

comentar com detalhe:

"Enfin,

le navire

partit;

et les deux

berges, peuplées

de magasins, 'de

chantiers

e

d 'usines, filerent comme

deux

larges rubans

que

l'on

dé-

roule".

.

1

1.

entender

o suspiro de

um

enunciador

a

quem

ele

é,

para

retomar o

que

disse sobre

a exclamação e

a expressividade,

"arrancado"

pela

situação.

Ora

este enunciador,

que

deve assistir a

cena descrita,

que

deve vivê-la,

é evidentemente distinto

do

narrador

que

 

não

tem

ne-

nhuma razão

para

se impacientar

ou

exclamar.

 

Segundo

indício de

uma

subjetividade

que não

é

a

do

narrador,

a

metáfora

que

fecha

o enunciado:

"!ex deux

berges

 

(

) filerent

comme

deux larges

rubans

que

l'on

déroule".

Para

ver

as chalupas

1

"se derouler",

é

necessário observá-las de

um

lugar

muito particular,

a

coberta da

popa

do

navio.

Deste

lugar

com

efeito,

e somente daí,

1

de

um lado

se

vêem

os dois

cais

de

uma

só vez,

e

de

outro, está

a

vista rio

abaixo obstruída

pela

ilha Saint-Louis e

a ilha

de

la

Cité,

estes cais

"se

alongam"

à

medida

que

o

navio

se

distancia

das ilhas.

Como, exatamente

senta Fredéric

depois

da

passagem

Paris,

que

da

analisei,

do

o

narrador

Moreau olhando

popa

navio, é quase

apre-

auto-

mático atribuir-lhe,

numa

leitura retroativa,

a visão

das chalupas

que

se

desenrolam e,

voltando

um

pouco mais

no texto, a

impaciência

do

enfin.

Vê-se,

espero,

neste

exemplo,

quanto

estão

próximas

a noção

1

de enunciador

e

a

de

centro

de perspectiva:

elas

servem

para

fazer

aparecer

no enunciado

um

sujeito

diferente

não

somente daquele

que

.

íala

de

fato, [romancista/sujeito

falante],

mas

também

daquele

de

que

se diz

que

fala

[narrador/locutor].

 

XV.

Primeiro

exemplo, destinado

a

mostrar

a pertinência

lin-

güfstica da noção de

inspirada de perto no

enunciador:

artigo,

a ironia. Darei dela

uma descrição

Sperber-

muito importante

para mim,

de

Wilson (1978) e

pelo capítulo

5

de Berrendonner

(1981).

Freqüente-

rnente

a ironia

é

tratada como

uma

forma

de

antífrase: diz-se

A

para

levar

a entender

não-A ,

sendo considerados idênticos

o

responsá-

vel

por

A

e

o

por

não-A.

Neste caso

se trataria

de

uma

figura,

 

sentido literal

primitivo

para

obter

um

sentido

deri-

modificando um vado (como o

litotes transforma

um

sentido

"um

pouco" literal

em

 

Encontro neste

enunciado

pelo menos

duas

marcas

que

trazem

um

sentido

"muito"

derivado),

a

única

diferença é

que

a transfonna-

à

tona

a presença

de

uma

personagem

que não

é

o

narrador

(por co-

ção

irônica é

uma inversão

total.

Sperber e

Wilson rejeitam

esta

con-

modidade,

suporei que

aqui um

narrador - o que

está

longe de

cepção

figurativa.

Para eles,

um

discurso

irônico consiste

sempre

em

ser evidente) .

A primeira

é

o

enfin,

que

não

serve somente

para

assi-

fazer

dizer,

por

alguém

diferente

do

locutor,

coisas

evidentemente .

nalar que um

certo

acontecimento

é

o

termo

de um

desenvolvimento

absurdas,

a

fazer,

pois, ouvir

uma voz

que

não

é

a

do locutor e

que

cronológico

(como

se encontraria

em

Pedro

chegou,

depois

João e

sustenta

o

insustentável.

I!

possível

que

minha apresentação

da

tese

enfim [enfin]

Paulo).

Ele

tem além

disso

um

valor exclamativo:

é

a

de

Sperber

e Wilson seja

um

pouco infiel,

na ·medida

em

que

substi-

interjeição

de

alguém

que

vê terminar

uma

longa

espera:

ele

a

tuí

sua

expressão

original

"mencionar

um

discurso"

pela

expressão

196

197

l

ouvir

"fazer

"mencionar"

uma

me

voz" . Se

fiz esta

substituição

é

porque

a

o

termo

é

milação do

faço-os sustentar,

enunciador

na

ao

alocutário

que

torna esta ironia

que

Pedro não

agressiva):

está presente.

parece ambíguo.

Ele pode

significar que

ironia

presença de

minha

Pedro,

uma forma

de

discurso

relatado.

Ora,

com

este

sentido

do

verbo

mencionar,

a tese

de Sperber e Wilson não é

de modo

nenhum

admis-

sível, já

um

que

não há

absurdo. Para

nada

de

irônico em

nasça

relatar que alguém

necessário

sustentou

toda

discur-

discurso

que

a ironia, é

que

marca de relato desapareça,

é necessário

"fazer como

se" este

Para

um exemplo

ilustrar melhor

citada

concepção, gostaria

sobretudo,

que

o

Fouquier, 1981. Em um

à mesa tendo como

O

gerente

restaurante:

"o

rei

Farouk?"

-

agora de

aplicá~

la

independente do meu cuidado

analisada

a

menos artificial (ou ,

e

em

seja

ao expor minha teoria). Trata-se de uma

restaurante

única companhia

vem estabelecer uma

senhor sabia que

artifício

"anedota",

luxo,

um

cachorro,

conversação

nosso mestre é

so

fosse

realmente

sustentado,

e sustentado

na

própria

enunciação.

de

Esta é

a

idéia

que

procuro

deixar dizendo

que

o locutor

"faz

ouvir"

seu

um discurso absurdo, mas

que

o

faz ouvir

como

o discurso

de

.um

outro, como

um

discurso

distanciado.

Minha

tese -

mais exatamente,

minha versão

da

tese

Sperber-

Wilson -

se formularia

facilmente através

da

distinção

do

locutor

e dos enunciadores. Falar de

sentar a enunciação como

modo irônico é,

expressando

a

para um

de

pos~ão

locutor L,

apre-

um

enunciador.

Posição de que

se

sabe

por

outro

lado

que

locutor L

o não

assume

a

responsabilidade,

e,

mais

que

isso, que ele

a absurda. Mes-

considera

mo sendo

dado

como o

responsável pela

enunciação,

L

não

é

assimi-

lado

a

E,

origem

do

ponto

de vista

expresso

na enunciação. A

dis-

tinção

do

locutor

e

do

enunciador permite

assim explicitar o

aspecto

paradoxal

da ironia colocado

em evidência

por Berrendonner: de

um

lado,

a

posição

absurda

é diretamente expressa

(e

não

mais relatada)

na enunciação irônica,

e

ao mesmo tempo ela

não

é

artibuída a

L, já

que este

é

responsável

pelas

palavras, sendo

os

pontos

de

vista

manifestados

nas

palavras

atribuídos

a

uma

outra

personagem,

E.

1

Para

distinguir a

ironia

da negação -

de

que

falarei

em

seguida

-

'

acrescentarei que é essencial

à ironia que

L não coloque em

cena um

 

outro enunciador, E',

deve marcar

rente, recorrendo,

nações particulares,

nia como

que

sustentaria

de

o

de

uma

E,

é

a

certos

que

é

distinto

por

exemplo,

a

etc.

e também

"Que

ótimo! ",

ponto de

uma

vista razoável.

a

L

totalmente dife-

ento-

iro-

Se

maneira

evidência situacional,

torneios especializados na

Anunciei-lhes,

a

ontem,

que

Pedro

vma

me ver

vêem,

assumo

hoje,

Pedro

se

efetivamente

veio

a responsabilidade

como a

de que não sou

(é esta assi-

e

vocês

não

recusaram

presente, lhes

ver" .

enquanto locutor (é a

de

o enunciador podendo

acreditar.

dizer

de

Posso

modo

hoje,

mostrando-lhes

"vocês

que

irônico:

de

me

Pedro

me

Esta

enunciação irânica

um ponto

mim

que

de vista

até mesmo,

o

designa),

apresento-a

expressão

absurdo, absurdidade

neste caso,

serem vocês

freguês sentou-se

um

e elogia

pequeno

teckel.

do

do

a qualidade

cozinheiro

o antigo

"muito bem!"

diz

simplesmente

o

freguês.

O

gerente, sem

desanimar:

"e

o nosso

despenseiro

é o antigo

despenseiro

da corte

da

Inglaterra.

.

.

Quanto

a

nosso pasteleiro,

nós

trouxemos

o

do

imperador

Bao-Dai".

Diante

do

mutismo do freguês o gerente muda

de conversa:

"O

senhor tem a{

um

belo

teckel". Ao

que

o

freguês responde :

"Meu

teckel,

senhor,

é

um

antigo

São-Bernardo".

Para descrever esta resposta no

quadro que

propus, é necessário admitir que o

expressa

o passado

análise

freguês, tomado como

gerente,

deveria

o locutor L,

a opinião, sobre

precisar o

por

do

um

enunciador, assimilado ao

teckel. Uma

mais detalhada

que

marca,

aqui,

a

assimilação

do

enunciador

e

do

alocutário:

uma

marca,

entre

outras, seria

a

identidade

de

estrutura

semântica

entre

enunciação

a

pria

dendo

bém a

dizer, entre

conta.

por

irânica

seja,

e

as

que

na

minha

locutor

Dizer

que

o gerente

realizara

de

antes

modo

por

pró-

sério (enten-

tam-

sua

Ou

terminologia,

isso que,

das enunciações, ele

que

a

resposta

do

é necessário,

se assimilava

freguês

é

seu enunciador).

outras coisas,

irânica

assimi-

é

para interpretá-la,

lar

a duas

pessoas diferentes

a locutor da

enunciação e

o enunciador

que se

expressa

nesta enunciação.

 

Nos

dois exemplos

que

precedem, o

enunciador

é

assimilado a

uma

pessoa precisa e, nos

dois

casos,

ao alocutário. Mas

a

assimilação

pode

envolver alguém

difcrente

do

alocutário,

como

é

o

caso

na

auto-

ironia,

quando

se

zomba

de

si

mesmo.

Eu

lhes havia

dito que

cho-

veria

hoje,

e

faz

um

tempo

ótimo,

o

que me leva a

zombar

de minha

competência metereológica:

mostrando-lhes o

céu

azul, observo

"Vo-

cês vêem

bem,

está chovendo".

O

enunciador

ridículo

é

aqui

assi-

milado

a

mim

mesmo,

o

que

parece

contradizer

a

descrição

da

ironia

proposta

há pouco.

De

fato, a

solução

é

imediata desde

que

se

aceite

a distinção

de L e

de

,\

(Cf.

§

12).

O

ser a

quem

L, responsável

pela

enunciação,

é

por

ela,

assimila

o

sujeito

enunciador

do

ponto

de

M

198

199

vista absurdo

é

>

,

o metereologista

ignorante

que

se

meteu

a prever

o tempo sem

ser

capaz. Mas

justamente

L,

enquanto

é

responsável

pela enunciação,

reologista:

o

que

e escolhe

ele

faz

é

o enunciado,

um

ato

de

não

escolhe agir

mete-

isto apresentando

como

zombaria, e

uma

previsão

realizada

por

um

enunciador

de

que

se distancia

no

interior

de

seu

próprio

discurso

(mesmo se

deve identificar-se a

ele

no

proveito

mundo).

das

Por

isso, o

besteiras

de

inter~sse

estratégico

>

,

proveito

de

que

>

da

se

auto-ironia:

beneficia

em

L

tira

segui-

da,

como

Aliás,

conseqüência, já

não

é

necessário

das

L é

o

essencial

que

que

uma

de

suas

múltiplas

seja

o

figuras.

enunciador

é

que

absurdo

que

assimilado

locutor não

Poder-

a alguém precisamente. O

assume

seja claro

em

seu

nenhuma

posições expressas

enunciado.

·

se-ia, penso

eu,

definir

o

humor

como

uma

forma

de

ironia

que

não

considera ninguém

em particular,

no sentido

em

que

o

enunciador

ridículo

não

tem

identidade especificável.

A posição

claramente

insus-

tentável

que

o

enunciado supostamente

manifesta

aparece

por

assim

dizer "no

ar",

sem sustentação. Apresentado

como

o responsável

por

uma enunciação

em

que

os

pontos

de

vista

nãQ

são

atribuídos

a nin-

guém, o

locutor

parece

eno

exterior

à

situação

de

discurso:

defi-

nido

pela distância

que

estabelece

entre

si

e

sua fala,

ele

se

coloca

fora

de

contexto e

adquire

uma

aparência

de

desinteresse . e

desen-

voltura.

 
 

XVI.

Recorrendo,

para

expor

a distinção

do

locutor

e

do

enun-

ciador, ao

fenômeno

da ironia,

expus-me

à

censura de

ter pecado con-

tra Saussure,

e confundido

ngua e fala.

"A

ironia,

me

dirão, é

tipi-

camente

um

destes

jogos

que

a fala

permite,

mas

que

são subversões

ou, pelo menos,

deformações

da

estrutura

da

língua.

Do

ponto

de

vista

da

língua,

é necessário

admitir.

no

exemplo

anterior,

que

é

o

freguês,

ou

seja, o

indivíduo

designado

pela

primeira pessoa,

que

se

responsabiliza

pela afirmação

sobre o

teckel e

que

é

seu

sujeito falan-

te,

ao mesmo tempo

locutor

e enunciador.

Se

se

considera,

que

ela

deve de fato

ser atribuída

ao

gerente, é o

efeito de uma inversão,

alte-

rando depois

jogo

.

o

dado

eu

propriamente lingüístico,

serei

inversão análoga a

bebê) ".

primeiro

infantil (Eu,

Para

a mamãe, você,

você será o

tipo, observarei

responder as

objeções deste

do

que

elas repousam

diferente

evidência

sobre

uma

concepção

no

início.

na

O

da

que

frase

lhe

da

é

que

que

propus

se decidiu ver

significação

(elemento

da

lingua)

uma

aparência

de

da

frase algo

que

pa-

reça

tanto

quanto

possível

a

uma

interpretação,

ou

seja, a

um

valor

200

semântico

completo,

suscetível

de

ser

comunicado.

Notadamente, a

frase

deveria indicar quem

é o responsável

pelas posições

nela ex·

pressas, responsável

que

não

poderia

ser

o locutor, aquele

que

é

de-

signado

pelo

eu.

Se

o enunciado,

realizado em

uma

situação

dada,

implica

uma

outra

imputàção,

isto

seria

como

reflexo

da

significação.

De

minha

parte,

fiz

a

escolha oposta.

Partindo

do

fato

de

que

a

sig-

t

nificação

interpretação

cutor), postulei

nunca

poderia,

(antes,

que

ela

seria

de

não

modo

nenhum,

especificaria

ver

necessário

constituir plenamente uma

quem

nela

é

efetivamente o lo-

coohJnto

somente

um

de

instruções

para

a interpretação

de

seus enunciados:

não

por·

tanto , ma i s

nenhuma

razão para

querer

qu _e

esti

ule

é

o res

sável pelos

pontos

de

vista.

J

su

1ciente

que

ela

marque

o

lugar

n-

de

tal

marca o

responsável

(que

lu~

chamo

"enunciador"),

ao

mesmo tempo

_l!!_or,

responsável

pela enunciação, e

em

que

que

ela

_;,xija

dÕTnterpretante_Mcgntrar,

a quem

para

constituir

o sentido. os especificando

indiví-

even·

imputar

estas responsabilidades

-

~duos

tualmente

certas restrições

para

realizar

esta

imputação.

Escolhendo

indivíduos

diferentes

para

estes

dois

papéis,

não

se

reencontra

um

valor

semântico

constituído: constitui-se

um, talvez

inabitual,

mas

,~,

que

não

é

nem mais

nem

menos

"conforme

a

língua"

que

a

interpre-

tação

"séria"

habitual.

Certamente não

é,

no

discurso irônico,

ao nível

da

língua,

que

se

atribuem

os

dois

papéis a

atores

diferentes,

mas

não

é princípio

a

este nível

que

se faz,

no

discurso sério,

sua

atri-

buição

a

um único ator.

 
 

A esta

primeira

resposta,

que

não

faz senão

explorar,

sem

pro-

curar justificá-la,

minha

concepção

da

frase

e

da

significação,

acres-

.[

centarei

um argumento

mais empírico, ou,

mais exatamente, mais

dire-

tamente ligado

a fatos

de experiência (sem ser, é

claro,

imposto

por

eles),

contestará

argumento

a

que

que

buscarei

no

fenômeno

da

negação.

negação

é

um

"fato

de

língua",

inscrito

Ninguém

frase

na

(sendo

raramente

o caso

no

que diz

respeito

à

ironia).

Ora,

parece-me

interessante,

para

descrever

a

negação, recorrer

à

distinção

do locutor

do

des·

e

crever um gent il ",

enunciador.

Propus

efetivamente, em

declarativo negativo,

Les Mots

du Discours,

enunciado

por exemplo,

"Pedro não

~

pri-

como

a

apresentação

de

dois

atos ilocutórios distintos . O

meiro,

A1,

é asserção positiva

uma

relativa

à gentileza

de

Pedro, ·o

outro,

A2,

é recusa

uma

de

A1.

Ora,

é claro

que

A1

e

A2

não

podem

ser

imputados

assimilado

ao

ao mesmo

locutor,

e

autor.

o

de

Geralmente,

o

enunciador

de

As

~

A1

a

uma

personagem diferente

do

201

locutor, que pode ser

tanto o

alocutário

quanto

um terceiro.

O locutor

L

que

assume

a responsabilidade do

enunciado

"Pedro

o

é gentil"

coloca

em

cena

um

enunciador

E1

que

sustenta

que

Pedro

é

gentil ,

e um outro,

fü ,

ao qual L é habitualmente assimilado, que se opõe a

Et .

Esta

tese

de

Les

Mots

du

Discours,

não

posso

sou

obrigado

atribuir

a

aos

estando

então,

retomá-la

enuncia-

os enuncia-

compreen-

agora,

dores

dores ligados a

em

um

1

e

outros

ato

A2,

termos,

já que

como

fala.

atos,

mas

mais

não

de

ilocutório

nenhuma

não

como

da

a afirmação -

Torna-se

como

necessário,

pontos

der

A

entanto, o

vista opostos.

que

No

a

essencial

descrição permanece.

Sustento, pois,

}

maior parte dos enunciados

negativos (explicarei mais

à frente

porque

digo somente

"a

maior

parte")

faz aparecer sua

enunciação

como

o

choque

de

duas

atitudes antagônicas,

urna, positiva,

imputada

a

um

enunciador

Et ,

a

outra,

que

é

urna recusa

da primeira,

imputada

a

fü.

Mesmo

supondo

admitido

o

que

acabo

de

dizer

na

negação,

não

resulta ainda

que

a

língua conhece

a

distinção

do

locutor

e

do

enun-

1

ciador, e

que

esta distinção deva

ser

introduzida

na

significação

das

frases

negativas.

Isto, pois,

pode-se

me

objetar

que

descrevi

somente

um

efeito

enunciados

da

negação

na

negativos, mas

fala,

que

perceptível certamente

no

sentido

dos

não

deve

nada

a

sua

estrutura lingüís-

trfa ,

assinalarei somente

as condições

de emprego

da expressão

ao con·

trário.

Depois

de

um

enunciado

negativo

"Pedro

não

é

gentil",

pode·.

se encadear

"ao contrário, ele

é

insuportável".

A

que

o

segundo

enun-

ciado

é "contrário"?.

Não

ao primeiro tomado

na sua

totalidade,

mas

ao

ponto

de

vista positivo

que

este,

segundo

penso, nega

mesmo

tempo.

Ora,

esta possibilidade

de

encadeamento é

e veicula ao

se

excluída

o primeiro

enunciado

é positivo.

Não

se

terá

nunca

"Pedro é gentil.

Ao contrário,

ele

é

adorável ".

Muito

bem, dizendo

"Pedro

é

gen~iJ",\

deixo

entender

ger~lmente

que

alguém_acredit~u

ou declarou

qu~·ete

não

o

era,

mas

nao

posso

fazer

alusao

à

atitude

deste

enunciador

virtual ,

para

opor-me a

ele

através

de

ao

contrário.

Do

que

se

pode

concluir que

tal

enunciador

tem

uma

presença e

um

estatuto

diferente

no

enunciado

positivo

e

no

enunciado

negativo.

E

minha

teoria

da

negação

dá conta

desta

diferença colocado

que,

no

segundo caso,

o

lugar deste

impõe

que

enunciador já está

marcado

seja

personalizado, mesmo

de

na

frase -

forma

vaga

cuja

-

significação

no

momento

:

1

em

que

se

interpreta

o enunciado.

 

A

esta

análise,

retomada

de

trabalhos

anteriores,

gostaria

de

acrescentar algumas observações.

fo rma,

Primeiro precisar

minha

(Cf.

em

que

se

distinção

trans·

p.

no

quadro

da

concepção polifônica,

negação descritiva

antiga

1

entre

negação polifônica e

Ducrot,

1972,

38,J)

tica.

Este efeito

se deve,

acrescentar-se-á,· a

uma

lei

de

discurso geral,

Moeschler, 1982,

Cap.

1) .

Chamava

"descritiva"

a negação

que

serve

segundo a

qual,

toda

vez

que

se

diz

algo,

imagina-se

alguém

que

para

representar um

estado

de

coisas,

sem que

seu

autor

apresente sua./

pensaria

o contrário

e

ao

qual se

se

opõe.

Lei

que

se

aplica

muito

fala

como

se

opondo

a um

discurso

contrário. (Exemplo:

N

pergun-

bem aos

enunciados

positivos:

dizendo-lhe

"Pedro

é

gentil",

suponho

tou

a

Z,

que

acabara

de

abrir

as

janelas,

como

estava o

tempo,

e

Z

gerelmente

que

têm alguma razão

para

não

acreditar nisto,

de

modo

responde

"não

há

nenhuma

nuvem

no

céu" .

Ou

ainda,

N,

que

não

que

uma

resposta indelicada

habitual consiste,

de

sua

parte,

em

me

conhece

Pedro, pergunta a

Z

o

que

pensa dele, e

Z

afirma

"ele

não

responder

"Mas

eu

nunca

disse o

contrário"

-

o

que

parece mostrar

é

inteligente".

Os

dois enunciados

poderiam

ser

parafraseados,

sem

que

meu enunciado apresentava

um enunciador,

diferente

do locutor,

perda de

sentido,

por

enunciados positivos

"o

céu

está absolutamente

e

que

supunha que

Pedro

não

é

gentil.

Como

não

se

pode,

neste caso,

limpo"

e

"Pedro

é

um imbecil"). E

eu

opunha

a

esta

negação a

nega-

apresentar

no interior da

frase

urna marca

qualquer

deste

enunciador,

ção

"polêmica",

destinada

a

opor-se

a

uma

opinião

inversa -

que

não

nenhuma

razão, me

dirão,

para

supor

que

o

morfema

não,

na

seria o

caso

se

os

dois enunciados

negativos precedentes

replicassem

frase negativa, marca

a presença

de

um

enunciador

distinto

do

lo-

afirmações

de

N,

"devia

haver

ainda

algumas

nuvens

no

céu"

e

cutor:

ele

marca

somente,

como

o

signo

de

negação

nas

línguas

lógi-

cas, a

inversão

de

uma

proposição

em

sua contraditória.

 
 

e

necessário, pois,

que eu

mostre,

para justificar minha

tese,

uma

dissimetria

entre

enunciados afirmativos

e

negativos,

e faça

ver

que

uma

afirmação é

apresentada

na

negação

de

urna

maneira

mais

fun-

damental

que

a negação

na

afirmação.

Entre

os' signos

desta

dissime·

202

"Creio

que

Pedro

é inteligente".

Hoje

distingo

três

tipos

de

negação. As

duas

primeiras

corres-

pondem a

uma

subdivisão

da

antiga

"negação

polêmica".

J .

Chamo

prios termos

de

"metalingüística"

uma

fala efetiva

uma

negação que

contradiz

à

qual

se opõe.

Direi

que

Oll

~

o

enun-

ciado

negativo

responsabiliza,

então,

um

locutor

que

enunciou

seu

 

203

positivo correspondente. e esta negação ." metalingüística" que permite, por éxemplo, anular os pressurfostos do positivo subjacente, como é o caso em "Pedro não parou de fumar; de fato, ele nunca fumou na sua vida". Este "não parou de fumar", que não pressupõe fumava antes", só é possível como resposta a um locutor que acaba de dizer que Pedro parou de fumar (e, de outro lado , exige que se explicite o ques- tionamento do pressuposto anulado sob a forma, por exemplo, de um "ele nunca fumou na sua vida"). e igualmente neste quadro da refu- tação de um locutor contrário que a negação pode ter em lugar de seu efeito habitual "de abaixamento" um valor de elevação. Pode-se dizer "Pedro não é inteligente, ele é genial", mas somente, como res- posta a um locutoe que tenha efetivamente qualificado Pedro de inte- ligente.

2 . Reservo agora o termo "polêmico" para a negação cuja aná- lise relembrei há pouco, e digo que ela corresponde "a maior parte dos enunciados negativos". Neste caso, o locutor de "Pedro não é inteligente", assimilando-se ao enunciador da recusa, opõe-se não a um locutor, mas a um enunciador Ei, que coloca em cena no seu próprio discurso, e que pode não ser assimilado ao autor de nenhum • discurso efetivo. A atitude positiva à qual o locutor se opõe é interna ao discurso no qual é contestada. Esta negação "polêmica" tem sem- pre um efeito rebaixador e mantém os pressupostos.

Como terceira forma de negação, retomo minha antiga idéia

de negação descritiva, conservando, aliás, seu nome. Acrescentando, simplesmente, que a considero como um derivado delocutivo da ne- gação polêmica. Se posso descrever Pedro dizendo "ele não é inteli- gente", é porque lhe atribuo a propriedade que justificaria a posição do locutor no diálogo cristalizado subjacente à negação polêmica:

dizer de alguém que ele não é inteligente, é atribuir-lhe a (pseudo) propriedade que legitimaria opor-se a um enunciado que tivesse afir- mado que ele é inteligente. A delocutividade tem, neste caso, o mesmo efeito que no exemplo analisado em Anscombre ( 1979): dizer que Pedro é um matuvu é atribuir-lhe o (pseudo) traço de caráter que o · leva a colocar eternamente a questões "M'as-tu vu?" (Na origem, tra- ta-se mesmo, como Anscombre mostrou, de uma alusão a um gracejo bem preciso, feito contra certos atores acusados de pergu'ntarem, constantemente "M'as tu vu dans Le Cid?", "M'as-tu vu dans Don

3.

~

,,

.Juan? , etc).

204

Minha segunda observação dirá respeito aos fenômenos de pola-

número de Hnguas, cer-

tas s;:xpressões não podem ser inseridas em um enunciado afirmativo, mas somente em um enunciado morfológico, ou semanticamente ne- gativo . Tal é o caso de fazer grande coisa, levantar lfm dedo para aju- dá-lo, e, em francês, pour autant, etc. Estes fatos parecem colocar em xeque minha descrição da negação polêmica, que leva a ler a afirma- ção sob a negação: a afirmação subjacente ao enunciado "Pedro não fez grande coisa" não constitui de fato um enunciado português pos-

ridade negativa . Sabe-se que, em um grande

sível. Vê-se imediatamente, no entanto, (tenho a presunção de supô-

na medida em que o

lo) que a objeção não afeta nossa hipótese -

elemento positivo que considero subjacente ao enunciado negativo não

é um enunciado (isto é, uma seqüência de palavras), imputável a um locutor, mas uma atitude, uma posição tomada por um enunciador

tendo em vista um certo conteúdo, quer dizer, uma entidade semân-

abstrata . Quando falo de uma proposição subjacente a "Pedro

não fez grande· coisa'', não se trata de uma proposição gramatical, mas de uma proposição no sentido lógico, ou seja, de um objeto de pensamento, da opinião segundo a qual Pedro teria muito o que fazer.

Uma vez refutada esta objeção, resta explicar o fato, bastante bizarro, e de qualquer modo fortemente contrário aos princípios de uma economia saudável, que certas expressões são utilizadas somente em um contexto negativo. Mas é necessário ver, que a fórmula "ser utilizada em um contexto negativo" pode recobrir duas idéias, bas- tante diferentes. A primeira que assimila a polaridade negativa às diversas "dependências" fonéticas ou sintáticas que impedem tal som ou tal morfema de "combinar-se" a tal outro som ou morfema. Em termos de gramática gerativa, poderia falar de um "traço contex- tual" [-Aff .] que pertenceria, por exemplo, às expressões grande coisa, em português, ou pour autant, em francês, e que interditaria sua inserção em um contexto afirmativo. Compare-se, a este respeito, pour tant e pour autant. A ambos seriam atribuídos os mesmos "tra- ços inerentes" , e principalmente o mesmo valor semântico de oposição (o de cependant) . A diferenç!J seria simplesmente que o enunciado modificado por pour antant deve ser negativo. De modo que "Pierre é grand" pode ser seguido por "Mais il n 'est pas fort pourtant", por

"Mai s il n'est pas fort pour autant", por "Mais il est faible pourtant",

e não por "Mais il est faible pour antant".

tica

205

que não quero justificar

aqui por ela mesma, e da qual mostrarei somente que ela é facilmente formulada na teoria polifônica da negação. Ela. consiste em dizer que

pour autant tem o mesmo valor semântico que de ce fait, pour cette

raison, ou ainda (se se quer levar em consideração a noção de grau

ligada a autant) cela suffit a faire conclure. Pour autant aparece assim

como um conectivo de consecução (e não mais de oposição), mas a conclusão que introduz é a de um enunciador ao qual o locutor se opõe: sua polaridade negativa não consiste em uma restrição combi- natória que imporia associar-lhe somente um enunciado negativo; ela diz respeito à colocação em cena pelo locutor de um enunciador Ei de que o locutor se distancia, e que completa um movimento conclu- sivo recusado pelo enunciador ao qual o locutor se assimila. Gene- ralizando esta idéia, proporei considerar as expressões de polaridade negativa como as marcas de um ponto de vista rejeitado, ponto de vista que o locutor declara inadmissível no próprio momento em que coloca em cena o enunciador que o sustenta.

N.B. 1. - Objetar-me-ão que o enunciado A, mais non - B pour autant não refuta somente o movimento dedutivo que leva de A a B, mas sugere fortemente a falsidade de B - ainda que os fatos não sejam totalmente nítidos. Minha resposta é que o uso ordinário da língua - e esta é uma das éaracter{sticas da argumentação na lingua- gem - não distingue bem "negar a coisa concluída" e "negar o mo- vimento de conclusão": em todo caso, um procedimento argumenta- tivo muito utilizado, quando se trata de invalidar um movimento conciusivo, consiste em mostrar a falsidade da proposição concluída.

Há, todavia, uma segunda solução -

N.B.

2. -

Se pour autant exige combinar-se com um morfema·

negativo ou uma expressão de valor grosseiramente negativo, não é, já o disse, em virtude de uma restrição sintática, mas porque este i;norfema ou esta expressão implicam a apresentação e a refutação de um enunciador que adota a atitude .positiva. Esta análise deixa prever que se encontrará pour autant quando a presença deste enun- ciador, sem pertencer ao próprio sentido do enunciado, tal como re-

sulta das instruções ligadas à sig~ificação da frase , é simplesmente considerada pelo locutor no momento em que fala. J! o que aparece,

por exemplo, neste trecho de um artigo de Le Monde:

demande un renforcement des mesures de sécurité dans le métro. Pour autant une action efficace rel~ve aussi de la resppnsabilité de chaque

"La R.A .T.P.

206

usager". O redator, ao redigir o último enunciado, pensava, sem dú- vida, em opo r-se a um enunciador que do primeiro teria concluído pela irresponsabilidade dos usuários.

Se minha análise das expressões de polaridade negativa é aceita,

se é levado a ver nela a manifestação, e uma espécie de cristalização

gramatical, de uma tendência bastante geral que atribui como função

a certas expressões marcar um ponto de vista do qual se assinala, ao mesmo tempo que não é o do locutor. Esta tendência não se observa somente nos enunciados negativos. Ela opera igualmente na ironia, que pode também ela, recorrer a construções específicas. O que não

é aliás de espantar, já que apresentei para a negação e a ironia des-

crições bastante ~róximas. Sua dife~ença principal é ~ue, na ironia, a ) recusa do enunciador absurdo é dtretamente executada pelo locutor (e ligada a sua entonação a suas caretas, ao fato de que chama a atenção para os elementos da situação que exigem imediatamente o ponto de vista apresentado, etc), enquanto que na negação, a recusa J

dá através de um outro enunciador colocado em cena pelo locutor

e

saltar que, na ironia, a escolha de certas palavras (escolha, relembro,

imputada ao locutor) tem como valor quase convencional marcar a repugnância do locutor pelo ponto de vista de um enunciador q ue

ele apresenta - e que apresenta sem opor-lhe um ponto de vista con- corrente. ~ o caso de expressões francesas , como C'est du proprel, C'est du /oli! (analisadas em Ducrot e outros, 1980, p. 120); fazendo aparecer um enunciador que apreciaria de modo favorável o estado de coisas do qual se fala, estas expressões marcam que o locutor tem

a opinião

Poder-se-ia falar a seu respeito de "polaridades

irônicas ".

se

ao qual este, na maioria dos casos, se assimila. Ora, há que se res- !

1

inversa.

De modo mais geral ainda, observa-se que a maior parte das co- letividades ideológicas possuem expressões que não podem ser apli- cadas a um certo tipo de objeto sem que esta aplicação seja denun- ciada ao mesmo tempo como absurda. Encontrei assim, em um artigo do Le Monde, este resumo de um discurso do presidente Carter:

"Pour Carter , la démocratie est une panacée". A própria escolha da palavra panacée faz surgir o desacordo do jornalista com o ponto de vista relatado (o de Carter). Isto porque, no mesmo contexto ideoló- gico, se deveria considerar como quase analítico o enunciado negativo "La démocratie n 'est pas une panacée", já que o enunciado positivo correspondente "La démocratie est une panacée", é dado como

207

I'

evidentemente inadmissível:

lização

é

a negação

Na terminologia

tem

duplo

uti-

apresentada neste artigo,

marca

crença na virtude uni-

ser

emprego

com

a

esta

é

palavra,

impossível

de

da palavra

dizer

panacéia.

que

necessário

que se opõe

versal

refutada.

da

o locutor,

ao

empregando

uma

ao enunciador

democracia:

qual atribui

a

redundante,

negação

l Gostaria,

enfim,

de

assinalar que

este

mesmo fenômeno

de

dos

seg und os

de

a

não

enunciadores.

que

é

ou

pola-

enunciados _declarativos

imperativos nega-

ridade ideológica

de que

falei

negativos

é reencontrado

em

tivos .

crição

em que o

ação

uma

Para

traz,

mo s trá-l o.

devo

a propósito

certos

primeiro

-

negativo solicita

empregos

estender

aos

limitando-me, aliás,

de~·

que propus para os primeiros

a

imperativo

que ele

então,

E1 ,

cena,

segundo

descreve

a

caso motivada,

N

"Não

me

Cf.

E1

aos casos

realize

enunciado

ao interlocutor que

a fazer. O

dois

o

pretende fazer ou já começou

menos

à

primeiro ,

enunciado (apresentado,

todo

diz

pretendido,

da por

dos declarativos positivos

correspondendo

penso, pelo

vezes, além

O

tema do

ação que

às

Ducrot

está queso, e

disso,

como legítima

p.

em

Z

e outros, 1980,

E1

representa ,

128). Quando

um

abandonei" ,

seja como

a

possível

situação evoca-

enuncia-

seja como o já

sendo

aquela

que

o locutor tem

iniciado,

você

a partida de N;

ou

constatariam

me

anunciariam os

ou

você

me

abandone!.

abandonará

o

de

me

abandona

Quanto

ao imperativo negativo

a

inabilidade

a

ele solicita a

fü,

ao qual

assimilar-se,

anulação

mesmo

da

partida evocada

por

E1

(encontrar-se-á

uma

análise

do

tipo para

os enunciados

interrogativos em

Anscombre-Ducrot,

1981,

p. 17).•

Ora,

acontece

freqüentemente

ao

mesmo tempo

que

as

palavras

utilizadas

ação,

a triste

para

fazem-

his-

impedir uma ação,

na aparecer

que descrevem esta

continuando

como inaceitável.

Suponhamos,

tória

de

Z

e

de

N,

que N

respondesse

a

Z :

"Não

seja

criança!":

o

comportamento

que

se

censura

em

Z (não

aceitar

a separação)

é, de

saída, apresentado

por N

como infantil,

quer dizer,

em um

certo

nível

de

lugares comuns, como

evidentemente riculo

e digno

da

reprova-

ção

dos sábios.

Falarei,

pois, ainda,

da

polaridade

negativa-ideológica

e,

por conseqüência,

de

um

discurso

redundante,

analítico

até,

que a própria maneira

cada por E

pela

qual

que

o locutor N

N

se assimile

formula

a situação

evo-

que

1

torna

necessário

ao enunciador fü

a

ele se

opõe

(o

caráter redundante

do

mente

visto,

se se

supõe que

"não

seja

208

imperativo

negativo é

clara-

criança!"

tem

exatamente

a

mesma

função ,

habitualmente

vendo-se o sistema

de

lugares comuns

de

referência,

que "você

é

infantil!").

que nos servem

Minha

terceira

e última observação visa

somente a tornar evi-

dente

tenha

uma alternativa

os meios de

teórica colocada pelo

que precede,

resolvê-la. O

problema aparece quando

sem que

eu

se considera

um

enunciado

ao mesmo

tempo

irânico

e

negativo.· Z

considerou

que

poderia

terminar seu

artigo

a tempo,

Z,

ao apresentá-lo a

N, comenta

J

ironicamente:

"Você

vê, não terminei

o artigo a

tempo" . Há

pelo me-

nos

teoria polifônica

qualquer enunciado negativo dizendo

dois

duas soluções

enunciadores,

para

analisar

este último enunciado

A

primeira

quadro da

seria analisá-lo como

que seu locutor coloca em cena

à personagem do locutor

no

apresentada

E1

e

fü.

aqui.

E,,

assimilado

na

sua primeira conversa com

N,

prevê

a

conclusão

do artigo no

pra_-

zo.

E2,

assimilado

a

N nesta

mesma

conversa, coloca

em dúvida esta

certeza, dúvida

A

mila

que nenhum deles

gem

não

que

torna

absurda

a

situação

da

segunda conversa.

se assi-

a

persona-

ironia

global

do enunciado

é

dos

assimilado

L

se deveria, então,

ou

seja,

na

a que

L não

a

nenhum

a que

E1

é, portanto,

enunciadores,

é

atualizado

é

minha terminologia,

que

a

(sublinho

com efeito

da

que

um protagonista

enunciação

primeira conversa:

surgiu

na

segun-

responsável pela

da conversa, mas

À,

o

ser

histórico

do

qual L

é somente

o

último

avatar).

L,

produtor

de

um diálogo

que retoma em eco

uma conversa

anterior,

não está investido, pois,

em nenhuma destas personagens

que

faz

falar, o

que corresponde

bem

a

minha

definição de

ironia.

 

Um

ponto,

ao

menos,

nesta

análise,

deixa-me

insatisfeito.

O

enunciador

conversa, àquela que, num

ridículo

seria assimilado

à personagem N

em dúvida

momento, colocou

da

primeira

as certezas

de Z.

Ora,

pode-se pensar

que

não

é

isto

que

é

colocado

em

causa

diretamente.

Isto porque a

posição ridícula

é

a

que

consistiria,

na

segunda conversa,

ao momento, pois,

em que Z

entrega o artigo,

para

negar sua capacidade de

segunda

terminá-lo:

o

é, então, assimilado ao N desta

se opõe

conversa. Mas então

enunciador

Ei ,

ao

qual

absurdamente, deveria

ser também

assimilado

a um

protagonista

da

segunda conversa,

ou seja,

a Z

no momento em que apresenta o artigo.

Ora , para

Z,

no

momento

em

que entrega

o

artigo,

é difícil

distan-

ciar-se

de L,

o locutor do

enunciado

irônico -

o

que

não

está

muito

de acordo com minha

milação

de

qualquer

definição

enunciador

da ironia,

ao locutor

definição

enquanto

que excluí a assi-

tal.

Mesmo

que

esta dificuldade possa

para

descrever

o

diferente.

Em lugar

ser superada,

parece-me inte-

irónico,

enunciadores

ressante imaginar,

solução bastante

enunciado negativo

de

situar

todos

os

uma

no

mesmo plano,

nós

os colocaríamos

em dois

níveis

diferentes.

No

primeiro nível

se situaria

um enunciador

Eo,

enunciador ridículo

as si-

milado a N

no momento

da

segunda conversa. E o

absurdo

de

N con-

sistirá, não

mais

somente em

refutar uma

asserção

de

Z relativa

ao

término

do artigo, mas

a colocar em cena, em

um segundo nível , dois

enunciadores

Ei

e

E:z,

protagonistas

de

uma troca

negativa completa.

E1 , assimilado a Z

no

momento

da

entrega

do

artigo ,

constataria

que

tinha

sido concluído, e

E:z,

ao qual

Eo

(é,

portanto, indiretamente N)

se

assimilaria,

recusaria

esta

afirmação.

E1,

nesta

perspectiva,

não

corre o

de

Eo.

atribuído

risco de

Vê-se

ser assimilado a

L, pois

à

ele próprio

solução

é

uma construção

ridículo

imagi-

a diferença

a

N

não é

mais

em relação

precedente. O

de

o

de negar uma

evidência mas, o

nár,

no momento

da

entrega

do

artigo, uma

troca completa na

qual

um

enunciador

E2

teria como

papel

negar

a

evidência sustentada

por

um enunciador razoável

E1,

de que

Eo (assimilado a

N)

é também o

encenador.

O

que

se reprova, então,

em

N,

não

é

adotar

diretamente

(=

enquanto E

2

)

uma

das posições, a

ciado

afirmação e

negativo,

mas

recusa,

de desempenhar,

para assumir,

ainda

recusa, implicadas

enquanto

Eo, o

Eo,

as

pelo enun-

atitudes,

na situa-

duas

que justamente,

ção, é

insustentável.

 

O

problema 'teórico levantado por

esta

segunda solução é

que

ela

implica

a

possibilidade de

subordinar enunciadores

uns

aos

outros

(subordinação comparável

ao

encaixe que

segundo

Bal (1981),

pode

reunir as

diferentes

focali zações de

um texto) .

O

que poderia compro-

meter,

pelo menos,

a oposição

que

estabeleci

entre

lo-

cutor

parcialmente, e enunciador: o

enunciador

se

aproxima perigosamente do

lo-

cutor

se ele

tem,

como

este

último, o

poder·de

colocar

em

cena enun-

ciadores. Mas

sem

por

outro

se

a enÚnciadores,

lado,

ao

fim enunciadores

a

dispensa-se

dar

liberdade

de subordinar

na base

de postular,

do

sentido, os

"conteúdos", objetos das

atitudes

emprestadas

aos enun-

Os "conteú-

ciadores, e

que representariam diretamente

a realidade.

dos"

poderiam sempre

ser considerados como

os pontos

de

vista

de

enunciadores de

grau

inferior.

Vantagem importante se se

quer

che-

gar

a dizer

que

as

"coisas"

de

que parece

falar

o discurso

são

elas

próprias

a

cristalização de

um discurso

sobre outras

coisas, resolvíveis

por

seu

turno

em

outros

discursos.

210

XVII .

A distinção

do

locutor e

do

enunciador,

que

acabo

de

utilizar

para

tratar

da

ironia e

da

negação,

fornece,

de

um

modo

1

i

mais

geral,

um

quadro

para situar

em lingüística

o problema

dos atos

7

de linguagem.

Retornemos

à

metáfora teatral

do

§

13.

Para

dirigir-se

a seu público, o

autor

(que corresponde,

nesta metáfora,

ao locutor)

coloca

em

cena

as

personagens (correspondentes

aos enunciadores).

 

Fazendo

isto,

ele

tem,

como

assinalei,

duas

maneiras

diferentes

de

·

"dizer

alguma

coisa".

Primeiro

pelo

mento, a

tal personagem

de quem

se

falo

faz porta-voz. Assim,

de

assimilar-se, neste

no

mo-

teatro

de Moliere,

têm-se freqüentemente

certas declarações

de personagens

secu ndárias,

apresentadas

como

sábias,

por

declarações

do

próprio

autor

que

daria através

delas

seus

próprio

ponto

de vista. Uma leitura

tradicional

que,

do

atrás

por

Misanthrope

pretende,

de Philinte, declara:

por exemplo,

La

parfai te raison fuit

toute extrémité

que

seja

Moliere

Et veut

que l'on

soit

sage

avec sobriété.

 

(Não me

importa

saber

o que

pretende

esta

leitura:

o essencial

é

que

ela

seja possível).

tivas"

personagem.

estas

falas

que

o

De

uma

maneira

arbitrária chamarei

"primi-

autor

dirige ao

público assimilando-se a

uma

Mas

o

autor

pode dirigir-se

ao público

de

uma maneira

bastante

diferente -

e,

sem

dúvida,

teatralmente

mais satifatória.

Quando

os

cóntemporâneos

de Moliere

denunciavam

Don

Juan

como

uma

peça

ímpia, o

que

eles

reprovavam

no

autor

não

era

ter

feito

Don

Juan

seu

porta-voz, censura

de

acentuar

a

de

grotesca,

que

constitui

de

e

fácil

de

rejeitar

inaceitável

defesa

na

medida

em

que

Moliere

A

per-

a defende.

cuidou

essencial era

sonagem

O

cena Sganarelle e tê-lo feito dizer o

através

o aspecto

da personagem.

da religião

censura

em

ter confiado a

a Sganarelle,

colocado

e grotesca na medida exatamente em que

o

a

impiedade

de

m86

de

não

ridículo

Moliere

de

é

o

fato de

ter

que disse. Moliere fala

maneira

aqui,

é

como

lhe

ao público

de

uma

tese

Sganarelle,

o instrumento

fala através

dada

a

a

Philinte:

personagem,

sua fala,

a existência

da personagem faz

parecer ridícula

que

sustenta (de uma

.maneira simétrica,

se poderia dizer,

igua~

 

que

Moliere

ataca a

religião pelo

fato de

que

ele4'az

Don

Juan

atac4:.

la, personagem

sob

muitos

aspectos prestigioso,

~esmo

se

seus aspec-

>

tos

negativos

aconselhassem

não

assimilá-lo

ao

autor).

Chamare~

211

"derivadas"

dereça, não mais pela mediação

fato

as

falas desta

segunda categoria, aquelas que

de suas personagens, mas

personagens,

pela

escolha

o autor en-

próprio

pelo

de

representar suas

que faz

delas.

Ora,

vou mostrar

se

diz

coisas.

é

que

esta

classificação, estabelecida

um

análogo

na

um

que uma

a

propó-

linguagem cotidiana.

ato, pode-se querer

persona-

este locutor

"pri-

de que

chamados

Moliere

sito da

Quando

dizer duas

gem,

é assimilado

mitivos"

que

linguagem teatral, tem

que um

enunciado manifesta

tratar-se

realiza

Primeiro, pode

o locutor,

tal

dos atos

identificada

a

(como é

ele

com

tal, ou

pelo fato

tais atos

enunciador:

serão

"primitiva"

a sua

a fala atribuída

a

pelo fato

ao

de

assimilado

de

pesonagem Philinte). Em

personagem

de que

seguida

chamarei

lo-

res-

"derivado"

~utor,

se

um ato

realizado pela

ao fato

identificada

este ato

está ligado

o locutor,

enquanto

ponsável

pelo enunciado, escolheu colocar

em cena

tal

ou

tal enun-

ciador -

mesmo

se ele não

for

assimilado

a nenhum deles (da mesma

maneira, etiquetei

de

colocar

em

assimilado a

em que

plos

"derivada"

a

fala

atribuída

a

Moliere

ele

pelo fato

seja

exem-

cena Sganarelle

e

este

Don Juan

-

embora

de atos.

o

eles). Terminarei

se vê

capítulo mostrando

dois tipos

alguns

se superporem estes

Começarei

pelos

atos chamados,

a partir de Austin,

"ilocutórios" ·

Um dos

grandes problemas

que eles

levantam

se deve à

possibilidade

de serem realizados

neira dita

de duas maneiras

ou

"direta",

diferentes. Primeiro, de uma ma-

ou

"primitiva"

através

de

frases

que

são

mais

I

menos especializadas para

sua

realização

(assim,

far-se-á

um

pedido

pelo

enunciado

de uma

frase

imperativa,

dizendo,

por exemplo, a um

jornaleiro:

"Me

ou

"indireta",

com

a

Folha!".

frases

que

Por

outro lado,

de maneira

"derivada"

parecem especializadas

para

atos

dife-

rentes

(pode-se

pedir

a

Folha

ao jornaleiro pelo

enunciado

de

uma

frase interrogativa como

"Você

tem

a

Follia?") .

 

A

segunda possibilidade, é,

do ponto

de

vista

trico,

mais

em-

baraçosa.

Com efeito,

(l) parece, freqi.ientemente, artificial

dizer

que

o

locutor

realizou efetivamente

o

ato,

para

o qual

a

frase é

especiali-

zada

(ato

do

qual

às vezes

se

diz

que

a

frase

é

"marcada"

seria

artificial , no

meu exemplo.

dizer

que o

comprador

fez

para ele) ; uma pe

gunta

ao jornaleiro.

Mas,

ao

mesmo

tempo,

(2)

pretende-se

geral-

 

mente derivar o

ato efetivamente

realizado (neste caso o

pedido)

a

.,

p~rtir

do

ato

"marcado"

na

frase

(neste caso,

a

pergunta) através

de

uma

lei

de discurso como

"o

fato de

realizar

um ato

de

pergunta

mostra que se

tem interesse

em saber

a resposta.

Ora, mostrar inte-

212

resse em

caso,

se

saber se alguém é

o

jo rnaleiro está

ou não

ou

não

capaz de

fazer alguma coisa (neste

em

condições

de vender

a

Folha)

não

tem

sentido,

em

certas situações,

senão

se se

quer pedir-lhe para

realizá-la

neste caso,

pedir-lhe

o

jornal)".

Vê-se

imediatamente

que

é

difícil conciliar

(1)

e (2).

Para obter,

como pretende (2),

uma deri-

vação do

pedido

a partir da

pergunta

através

de

uma lei

de

discurso,

é necessário admitir que

de

a enunciação

realizou

efetivamente

(1).

pergunta.

Ora,

é justamente isso que

é

negado em

um

ato

Distinguindo locutor e enunciador,

abre-se

o caminho

para

uma

solução,

caso

rogativa

da

qual indicarei

em virtude de

somente as

linhas

exemplo. Direi

gerais

as

e

mantendo-me

que uma

frase

duas instruções

no

particular que me

dá,

serviu de

sua

inter-

seguin-

significação,

tes aos

ouvintes que

devem construir o

sentido

dos

enunciados

desta

frase:

a)

estes enunciados

devem

fazer

aparecer

um

enunciador

que

exprime

sua dúvida

no

que

concerne

à

proposição sobre

a

qual

b) quando

incide

dúvida

a

interrogação;

este enunciador

deve

deve ser

ser

é assimilado

ao

como uma

locutor, a

pergunta,

ou

expr,essão

seja,

da

relida

descrita

a

o alocutário a

enunciação

responder.

deste

como obrigando

prever

um ato

A

partir

valor

da

atos

frase, pode-se

ilocutórios

pergunta,

de

duas possibilidades

à enunciação. Haverá

no

tanto

que concerne aos

um ato

ligados

quanto

"primitivo"

"derivado"

-

que

pode

ser,

entre

outros,

um

ato

de

pedido.

Volto

à frase

"Você

tem

a

Folha?" . Em

virtude

de (a),

seus enunciados

apresentam

um

enunciador

plares

ou

intenção

que expressa sua

Folha.

de

se

Se

dúvida quanto

pode

ao jornaleiro

ao

ser,

ter exem-

locutor,

o enunciado, a

em vir-

da

este enunciador

atribuir

a ele,

a

dúvida,

ser assimilado

seja , se

pode

expressar

enquanto escolheu

então

o enunciado deve

tude

de

(b), visto

como

uma

pergunta (realizada de

maneira "primi-

tiva",

"direta") . Este

seria claramente o

caso

se

o

enunciado

apa-

recesse numa

pesquisa sobre a

distribuição

da

imprensa . Suponhamos

em

compensação

que

não

se

possa

atribuir

ao

locutor a

intenção

de

que falei

o

caso se

a

frase é

pronunciada por um

eventual cliente),

e ,

pois,

que

não se

possa assimilá-lo

ao enunciador.

A

frase , então, não

obriga

mais

a compreender

o

enunciado

como

uma pergunta.

Mas

isto

não impede de

fazê-lo servir

para

um

outro

ato

ilocutório. Isto

 

213

porque o próprio fato de colocar em cena um enunciador, expressan- do sua incerteza, pode aparecer em virtude de uma lei de discurso, como servindo para fazer uma pergunta. O locutor "representa" a

dúvida -

e por esta re-

presentação revela uma outra intenção.

Vê-se a diferença entre esta concepção e a concepção habitual, segundo a qual a lei de discurso transforma um ato "primitivo" do locutor, em um outro ato de locutor, dito, então "derivado" - o que supõe, contra a evidência, que o ato "primitivo" é efetivamente realizado pelo locutor. Na minha concepção atual, a lei de discurso deriva o ato indireto atribuído ao locutor a partir da colocação em cena, pelo próprio locutor, de um enunciador do qual se distancia; ora, esta colocação em cena, ligada à frase, permanece um fato incon- testável, mesmo se o locutor não é assimilado ao enunciador.

N .B. - No Cap. IV, que retoma um artigo antigo em que utilizo

a concepção habitual dos atos indiretos, diz-se que a frase interroga- tiva não serve fundamentalmente para a expressão de uma incerteza, mas é marcada para a realização de um ato ilocutório primitivo de

pergunta. Certamente sou levado agora a abandonar esta maneira de ver - já que (a) situo a expressão de uma incerteza na própria signi- ficação da frase, e que (b) subordino o ato primitivo de pergunta à assimilação do locutor e do enunciador. Mas esta mudança não afeta

o argumento que tiro, neste Cap. 1V, dos atos ilocutórios. Permanece

que a significação da frase interrogativa, de um lado, não comporta a

asserção de uma incerteza, e, de outro, faz mais que expressar tal

incerteza: é-lhe inerente prever uma possível descrição da enunciação corno criando uma obrigação de resposta - no caso em que o locutor

e o enunciador são assimilados. Permanece-se, pois, no "estruturalis-

mo do discurso ideal": o valor semântico de uma entidade lingüística

é sempre definido em relação à continuidade que se pretende dar.

XVIII. A distinção dos atos primitivos (realizados pela assimi- lação do locutor e do enunciador) e dos atos derivados (que o locutor realiza por colocar em cena enunciadores expressando sua própria ati- tude) extrapola o domínio do que se chama habitualmente "ilocut6- rio". Retomo primeiro o exemplo da ironia de que me servi há pouco.

O freguês, na réplica, apresenta o gerente do restaurante (no sentido

em que Moliere apresenta Sganarelle defendendo a religião) susten-

no sentido em que Moliere, por intermédio de Sganarelle

"representa" um certo modo de defender a religião -

214

tando, o propósito do teckel, uma posição absurda. ~ esta apresenta- ção que permite ao freguês, locutor da réplica, realizar um ato deri- vado de zombaria, do qual se beneficia enquanto locutor: ele se apre- senta como inteligente, desprendido, agradável, divertido, etc. O enun- ciado irônico (diferentemente do enunciado negativo), na medida em que não mostra nenhum enunciador ao qual o locutor possa ser assi- milado, não serve para realizar nenhum ato primitivo - particulari- dade que deveria ser introduzida na definição geral da ironia.

Segundo exemplo, o da conjunção ·mas. Desde muito J. C. Ans- combre e eu descrevemos os enunciados do tipo "p mas q dizendo que o primeiro segmento (p) é apresentado como um argumento para

uma certa concluo (r), e o segundo para a conclusão inversa. Mas este. quadro geral, que mantemos, admite um grande número de casos

bastante diferentes . Isto principalmente rios casos em que

pé introduzido por um certamente. Vocês me propõem irmos esquiar, e eu recuso seu convite respondendo "certamente o tempo está bom, mas estou com um problema nos pés". O emprego de certamente me serve aqui para atribuir a vocês, uma argumentação do tipo "O tem- \ po está bom, devemos ir esquiar", argumentação que vocês podem não ter formulado explicitamente, mas eu lhes credito ao mesmo tem- po em que a rejeito através do contra-argumento "estou com proble- ma nos pés". Anscombre e eu descrevemos os enunciados deste tipo dizendo que eles colocam em cena · dois enunciadores sucessivos, Ei e E2, que argumentam em sentidos opostos, o locutor se assimilando a E2, e assimilando seu alocutório a Ei. Embora o locutor se declare de acordo com o fato alegado por E1, ele se distancia, no entanto, de E,: ele reconhece que faz bom tempo, mas não o afirma por sua própria conta. Ora, tal distinção é imposta pela significação da frase, e, mais precisamente, pelo emprego de certamente, impossível se o locutor se assimila ao enunciador asseverando p. Eu peço a vocês para me descreverem seus esquis, que não conheço. Vocês poderão me responder "Eles são compridos, mas leves", ainda que fosse bi- zarro, na mesma situação, anunciar-me: "eles são certamente compri- dos, mas leves". t que certamente marcaria, de sua parte, um acordo tardio com a asserção de outra pessoa, atitude que não corresponde bem ao que peço a vocês, a saber, fazer uma descrição. Aqui ainda é, pois, útil, para descrever a frase, quer dizer, a entidade lingüística, supor que ela distingue entre o locutor e o enunciador, e comporta, entre suas instruções, diretivas para determinar, no momento em que se interpreta o enunciado, a quem se deve atribuir estes papéis.

particulares

215

A

partir

desta distinção,

o tempo

aparece

uma

distinção como

com problemas

corolário,

o enunciado complexo

nos pés ",

que concerne aos

"certamente

atos realizados. Disse que

está bom, mas

estou

cuja responsabilidade global

é

atribuída ao

locutor X,

coloca

em

cena

dois

enunciadores.

O

primeiro argumento a

favor

de esquiar,

dizendo

que

faz

bom tempo. Mas o

locutor

se

assimila

a

um

segundo enuncia-

dor,

ao

que

argumenta

contra

a

saída planejada, ainda

que

o primei-

ro

seja assimilado a

outra pessoa,

talvez,

por exemplo,

ao alocutário.

Isto não impede que

se realize um ato

de linguagem tanto

na primeira

parte

do enunciado

ato

quanto

na

segunda.

Na

segunda, realiza-se

ouvir um

do

ato

de afirmação

que

um

"primitivo",

de afirmação,

O

que

se faz,

e, mais

na primeira, é

argumentativa.

chamo

argumentando

tancia (dando-lhe, no

part~cularmente,

um

fazer

ato

derivado,

qual se

de

um

"ato de concessão": ·ele

consiste em

enunciador

dis-

no sentido oposto ao

caso, pelo

uma

certa forma

do

ato

de

é

possível

seu, enunciador

menos das

concessões

de

personagem

introduzidas

tira-se proveito

falar. Gra-

ho-

por

do

ças

certamente,

de acordo). Deste ato

zombaria

de

construir-se

que acabo

a

mesmo modo que

a sua

concessão,

mem

de espírito aberto,

capaz

de levar

em

consideração

o

ponto

de

vista

dos outros:

todo mundo

sabe

que

a concessão

é, entre

as estra-

tégias

ao comportamento dito

de persuasão, uma

das

mais

"liberal".

eficazes, essencial em

todo caso,

 

Meu último exemplo

é relativo

aos

fenômenos

de

pressupos1çao

que

podem ser

tratados

melhor, espero,

do

que

tenho

feito

até aqui,

no quadro

da

polifonia e

da concepção

"teatral"

dos atos

de

lingua-

gem.

Seja o

mais

tradicional

dos enunciados

com pressupostos:

"Pedro

parou

de

fumar" .

Em

Dire et

ne pas Dire,

propunha

ver neste caso

a

realização pelo

locutor de

dois atos,

um

de

pressuposição,

relativo

ao

pressuposto

"Pedro fumava anteriormente",

e outro

de asserção, rela-

tivo

de

ciadores,

suposto

mite

ao posto

um modo

Ei

realizar

"Pedro

não

fuma

atualmente".

Diria

que

Eu

o descreverei

ele

apresenta

~ais

hoje

enun-

pres-

per-

aquele

um pouco

e

fü,

ato de

diferente.

responsáveis, respectivamente, pelos conteúdos,

enunciador

é

afirmação.

assimilado

ao locutor, o

que

Quanto

ao enunciador

Et,

e posto. O

um

segundo

o

qual

Pedro fumava

anteriormente,

ele

é

assimilado

a

um

certo

SE•,

a uma voz coletiva,

no interior da

qual

o

locutor está

loca-

lizado

(utilizo

neste ponto

as

idéias

de Berrendonner,

1981,

Cap.

II).

• Traduzimos aqui o terminação.

216

ON

francês. Este

SE,

então,

é

relativo

à

forma

de inde-

Assim,

no

nível

dos enunciadores, não

há,

pois,

o

ato

de

pressupo-

sição.

Mas

o enunciado

se

presta, entretanto,

para

realizar

este ato,

de

um

modo derivado, na

ter

medida

de

em

que

faz

voz coletiva

A pressuposição entraria,

ouvir uma

e

denunciando os

assim, na

erros passados

Pedro.

de

mesma categoria

mostrado, a

a metáfora teatral

dos atos

partir

zombaria

concessão.

que

Espero

ou

destes

três. exemplos, o

estudo

a ana-

lin-

logia,

pode fornecer ao

estritamente

güístico.

Dizendo

que

o locutor faz

de

sua enunciação

uma

espécie

/

de

representação, em

que

a fala

é

dada

a

diferentes personagens,

ós

/,

enunciadores, alarga-se

a

noção

de

ato

de linguagem.

Não

mais

\

nenhuma

razão

para privilegiar aqueles

"séria"

(pela

assimilação

do

locutor a

que

um

são

realizados

enunciador).

de maneira

e

se

pode

considerar como igualmente

própria escolha

encenadores

se fala

enunciadores.

"normais"

aqueles

que

sempre

que são realizados

são realizados

Nem

num

pela

dos enunciadores, aqueles

da

de

representação enunciativa .

modo imediato,

mas

enquanto

no

caso nem

outro

com a mediação dos

N.B.

1.

-

Este

tratamento

da

pressupos1çao

permite precisar

o

estatuto pragmático

implicado pela

de

lhoria

mão

situação

levanta dificuldades

das nominalizações:

sujeito

que engajamento

gramatical

de

um

da

situação

11

pessoal

está

utilização, como

nominal

do

tipo

de vida".

"a

enunciado,

ou

"a me-

de afir-

a

que

que

um

grupo

do

e

nível

de

degràdação

Antes, dispondo

teria

respondido

o nível

de

vida

que

se

pode

continuar

dos conceitos

se

pressupõe

melhora. Resposta

o

pressuposição,

que

se degrada ou

porque

discurso negando a

realidade destes

fatos:

assim,

"A

melhoria

do

nível

de

vida é

uma

pura invenção do

governo".

Diria agora

que

o característico

da

no-

minalização é

fazer

aparecer

um

enunciador, ao

qual

o

locutor

não

es

Quando

assimilado, mas

à

inclusão

do

que

é assimilado a

neste

SE,

locutor

uma

voz coletiva, a

o

fenômeno sintático

um

da

SE.

no-

minalizaÇão

não diz

nada a

respeito,

nem positiva nem negativamente.

Se,

por

tal

ou tal

razão exterior

à

frase,

fica claro

que

o

locutor faz

parte

do

SE,

obter-se-á

um

ato derivado

de~pressuposição,

mas isto

não é

senão uma

possibilidade

entre

outras.

 

N.8 .

2.

-

ainda,

quanto

Destas observações

sobre

é necessário

distinguir -

o

ato

de pressupor resulta,

como propus

na secção

XII

-

entre

o locutor

enquanto ·tal

(L) e

o

locutor

enquanto

ser do

mun-

do

(Ã).

Acabo

de dizer,

com efeito,

que

quando

pressuposição,

assimila-se

um

dos

enunciadores

a

um

SE,

no

interior

do

qual

o

217

locutor está

localizado.

Objetar-me-ão

que a pressupos1çao torna-se,

nesta concepção,

patticular das

afirmações

um

caso

chamei

"pri-

que

mitivas", quer

dizer,

daquelas

qué

são realizadas

pela assimilação

do

locutor e

de um

enunciado'r.

Para responder, é

necessário

especificar

que o locutor integrado ao

SE não· é L,

o locutor enquanto

tal, mas

>

BIBLIOGRAFIA

ou seja, um

ser considerado existente fora

do- discurso (mesmo

se for

identificável somente

seu papel

de

L no

interior do discurso).

por

O

que significa

o conteúdo pressuposto não é mais levado em conta

que

ANSCOMBRE,

J. e. -

"II

était une

fois une princesse aussi belle que

na escolha

do enunciado

(escolha

imputada

a L).

bonne",

Semantikos,

n .º

1,

1-28,

19J5.

pp.

Explico,

assim,

que dizendo

----- . "La problématique

"Pedro parou

de

de

l'illocutoire dérivé",

fumar" , não

Langage

se

et

apresenta como afirmando, na

Société,

2,

fala atual, que

17-41,

1977.

Pedro

pp.

fumou antes.

sua

Simplesmente representa-se

esta

interior

de seu

----. "La

crença no

discurso,

délocutivité généralisée",

Recherches linguistiques,

e se lhe

dá como sujeito, entre outras

Université de

indivíduo que estava

Paris

pessoas, o

VIII, 8,

5-43, 1979.

pp.

e está ainda fora

de

sua enunciação.

Do

que resulta esta característica

---- . "Voulez-vouz

dériver

moi?",

Communications,

avec

da pressuposição: Assumindo

32,

a responsabilidade de

um conteúdo, não

61-124, 1980.

pp.

a responsabilidade

se assume

da

deste conteúdo, não

asserção

se faz

----. &

DUCROT, O.

- "L'argumentation dans la tangue",

desta asserção o

fim pretendido

de sua

1 implica

própria fala,

(o que

Langages,

42,

5-27,

1976.

Reeditado

pp.

a impossibilidade,

Anscombre-Ducrot,

definidora,

em

para mim,

da

pressuposição, de

enca-

1983.

dear com

os pressupostos).

··

&

. "Echelles

implicatives,

----.

échelles

argu-

fTradução:

Eduardo Guimarães)

mentatives

et !ais de discours",

Semantikos,

n.º

2

e 3,

30-43,

pp.

1978. Reeditado

em Anscombre-Ducrot,

1983.

&

. "Lois logiques et

---- -.

lois

argumentatives ",

Le

François moderne,

347-357, 1978,

35-52,

pp.

1979.

Reedi-

pp.

tado em

Anscombre-Ducrot,

1983.

&

. "Interrogation

-----.

et

argumentation",

Lan-

52 ,

5-22.

Reeditado

gages,

pp.

Anscombre-Ducrot,

em

1983.

----. &

. L'argumentation dans

la

langue,

Mar·

daga, Bruxelas,

1983.

J. -

AUTHIER ,

"Les

formes

du

discours

rapporté",

D.R.L.A.V .,

Université

de Paris

VII 1,

17,

1-88,

1978 .

pp .

BAL,

M. -

"Notes

narrative

embedding",

on

Poetics

Today,

pp.

41-59,

1981.

BANFIELD,

A.

- "Ou

l'épistémologie,

Je

style

la

et

grammaire

la

théorie littéraire ",

rencontrent

Langue française,

44,

9-26,

pp.

1979.

BARTHES ,

R.

- "La

délibé ration",

Tel Que/,

82,

8-18, 1979.

pp.

BENVENISTE,

E.

Noms

d'agent

noms d'action

et

indo-eu-

-

en

ropéen,

Maisonneuve,

Paris,

1948.

218

219

,