|
Coleção: |
Linguagem/Crítica |
|
Direção: |
Charlotte Galves |
Eni Pulcinelli
Orlandi
Conselho Editorial:
Charlotte Galves Eni Pulcinelli Orlandi
Marilda
Paulo
Cavalcanti
Otoni
(presidente)
FICHA
CATALOGRAFICA
1
|
Dados de Catalopção |
na Publicação |
(CIP) Internacional |
||||||||||||
|
(Câmara |
Brasileira do Livro, |
SP, Brasil) |
||||||||||||
|
Ducrot, OswaJd. |
||||||||||||||
|
089d |
O dizer |
e |
o dito |
I Oswald Ducrot |
; revisão |
t~nica |
da |
|||||||
|
tradução Eduardo |
Guimarães. |
- |
Campinas, |
SP |
: Pontes, |
|||||||||
|
1987. |
||||||||||||||
|
<Liaauaaem/ crítica> |
||||||||||||||
|
Bibliografia. |
||||||||||||||
|
ISBN 8S·7113-002-7 |
||||||||||||||
|
l. linauaaem |
- |
Filosofia |
2. |
Liagü.istica |
3. |
Semântica |
||||||||
|
1. |
Título. |
II. |
Série. |
|||||||||||
|
CDl).4()1 |
||||||||||||||
|
-410 |
||||||||||||||
|
87-1898 |
-412 |
|||||||||||||
|
todices para |
catálogo sistemático: |
|||||||||||||
|
l. |
Liaauagem |
: Filosofia 401 |
||||||||||||
|
2. |
Llngü.istica |
41O |
||||||||||||
|
3. |
Semântica |
: Linaüística |
412 |
|||||||||||
OSWALD
DUCROT
O DIZER E O DITO
Revisão Técnica
da
Tradução:
Eduardo Guimarães
1987
·
Capítulo
VIII
ESBOÇO
DE
UMA TEORIA
POLIFôNICA
DA ENUNCIAÇÃO
-
f .
O
_?~je.~~~-~~-sJe
capítulo
é contestar e,
um postulado
que
me~ressupmto
se poss(vel,
su.bstitui.r
(geralmente
1mplíc1-
I
|
to) |
de |
tudo |
o |
que |
se denomina atualmente "lingüística |
moderna", |
|
|
termo |
que recobre ao mesmo tempo o comparativismo, |
o |
estrutura- |
||||
lismo e
a gramática gerativa.
Parece-me,
Este pressuposto é o
que
as
d.!_~!!icidadejo
sobre a
I·~ujeito.Jª-I!!nte.
com efeito,
pesquisas
)J
lin- {/
|
, ,,,, |
·i |
guagem, sequer há pelo cogitar dois em formular a menos |
séculos, consideram idéia, de como óbvio - se mostra evi- sem tal modo ela |
||||
|
dente |
- |
que cada enunciado possui um, e somente um autor. |
|||||
' )' ' ''
\
G
Uma
não
crença análoga
durante
muito
tempo
reinou
na
de
o
teoria lite-
cin-
conceito
rária, e
qüenta
de
foi questionada
explicitamente
toda uma
senão a
partir
uns
anos, notadamente depois
Bakhtine,
textos.
vozes
há
-
que Bakhtine elaborou
categori;_de
polifonia. Para
de
enõia-·
õs-quais-é
textos,
dámente 1 que várias
Íiter~rios~pãra
falam
necessário
que
reconhecer
uma dentre _elas
simultaneamente, sem
1
|
seja preponderante |
e julgue as |
outras: trata-se . do que |
ele chama, |
em |
|||||
|
oposiçao |
à |
literatura |
clássica |
ou dogrnátiça,1a.literatura . popula.r |
oy . |
||||
|
ainda carnavalesca, |
e |
que às |
vezes ele qualifica de mascarada, enten- |
||||||
|
dendo po r |
isso |
que |
o |
autor assu me uma |
série de máscaras diferentes. |
||||
1i1
Mas
es ta teoria
de Bakhtine,
segundo
meu conhecimento, sempre
foi}
|
aplicada |
a |
textos, |
ou |
seja , a seqüências |
de enunciados, jamais aos |
|||
|
enunciados |
de que |
estes textos são constituídos. |
De modo |
que |
ela |
|||
não_~~ego~ -a c:_~l.~_c_~r :!~ c!~yjda
_
o
p2stu~~~~~.gun<fo
'? _ qual um
enun-
|
~ I~ ~~ola~o_Jaz o uvir um a única voz. |
. |
. |
||||
|
I! justamente a |
es te |
postulado |
que |
eu |
gostaria |
|
de
me dedicar.
Para
mostrar
até
que
ponto
ele
está ancorado
na
tradição lingüística,
I
161
(
(
(
chamarei a atenção rapidamente para uma pesquisa americana, que, no próprio momento em que está para abandoná-lo, reestabelece-o in extrimis, como se se tratasse de um dogma intocável. Trata-se do
estudo de Ann Banfield (1979) , sobre o estilo indireto livre. Rom- pendo com a descrição habitual de estilo indireto livre como uma das formas do discurso relatado, Ann Banfield vê nele a expressão de um
não ser o da pessoa que é efetivamente,
'empiricamente, o autor do enunciado, e ela emprega o termo "sujeito de consciência" para designar a fonte deste ponto de vista. Mas, alcan- çando este ponto, quer dizer, o momento em que uma pluralidade de
~ vista , que pode
sujeitos poderia ser introduzida no enunciado, Banfield formula dois princípios que descartam a ameaça . Ela coloca inicialmente que, para um dado enunciado, só pode haver um sujeito de consciência, colo- cando de imediato no domínio do anormal os exemplos que fariam aparecer uma pluralidade de pontos de vista justapostos ou imbrica- dos. E em seguida, para tratar os casos em que o sujeito de consciên- cia não é o autor empírico do enunciado, diz que não há locutor nestes enunciados. Certamente não censurarei Banfield - muito ao contrário - por distinguir o locutor, ou seja, o ser designado no enunciado como seu autor (através, por exemplo, de marcas da pri- meira pessoa), e o produtor empírico, ser que não deve ser levado em conta por uma descrição lingüfstica preocupada somente com indi- cações semânticas contidas no enunciado. O que censurarei em Ban- field é a motivação que a leva a esta distinção, a saber, o cuidado em manter a qualquer preço a unicidade do sujeito falante, já que este mesmo cuidado - depois de tê-la levado a fazer abstração do produtor empírico (posição que é também a minha) - vai levá-la a decisões que gostaria de evitar. Quando o sentido de um enunciado comporta a indicação incontestável de um locutor (atestada pela pre-
sença de pronomes de primeira pessoa) mas que, no entanto, o enun-
ciado
ao
do locutor - por exemplo,êluando alguém tendo sido chamado de imbecil, responde "Ah eu _sou_um imbecil, mu,ito bem, você Vl!_i_ -
po do estilo indireto livre considerando-as um dos modos do discurso relatado (descrevendo o "eu sou um imbecil" do discurso precedente como um "você diz que eu sou imbecil"). Graças a tais exclusões, ela pode formular um princípio segundo o qual, quando há um locutor, \ este é necessariamente também o sujeito de consciência, princípio que )
não tem outra justificativa, a meu ver, senão salvar uma unicidade
exprimeurn_p_Õntoa ev i l! ta qÜe não pode ser identificado
Banfield. é obrigada a excluir estas "reto~;-J;;-s"~
~"
162
admitida a priori como um dado de bom senso:
um enunciado que se apresenta como próprio, éxprimir um ponto de
"não se pode, em
temente discutidos em detalhe por Au1hier- (1978) er'Ptén~J:i97s) .J
Estes dois estudos colocam em dúvida os dois princí~s "um enun- ciado - um sujeito de consciência" e "se há um locutor, ele é, idên-
tico ao sujeito de consciência". Minha própria teoria
que um quadro geral onde se poderia introduzir sua crítica a Banfield, quadro que constitui ele mesmo, digo-o desde já, uma ex.tensão_~-
vista que não seja o próprio".
'7
Os estudos de Banfield sobre o estilo indireto livre f.ot:~n
da
~eve~to aos dois au~Q_~e_s_que acab.o
Q.ç_çit~r.
polifonia,\\
visa a construir J
|
tante livre) ~ lingüística dos tral?_al~os_de_J!ªkhtine sobi'e-a |
literatury |
||
|
, |
, |
li. -Gostaria, . inicialmente, de definir a_djsciplina - |
chamo-a |
"pr a gmática lingüfstis;;- no interior da qual situam-se minhas pesquisas. Se se toma como objeto da pragmá- tica a ação humana em geral, ó termo pragmática da linguagem pode servir para designar, neste conjunto de investigações, as que dizem respeito à ação humana realizada pela linguagem, indicando suas con- dições e seu alcance. O problema fundamental, nesta ordem de estu- dos, é saber porque é possível servir-se de palavras para exercer uma
' influência , porque certas palavras , em certas circunstâncias, são dota· das de eficácia. !! o problema do centurião do Evangelho, que se es- panta por poder dizer a seu criado "venha!", e o criado vem. I!. tam- bém a questão tratada por Bourdieu (1982), questão que está, na ver- dade, no domínio da sociologia, e sobre o qual o lingüista, enquanto
exceto se ele crê em um poder
l ~
~!~
ti~ sem
~
ntic; , ou
~
lingüista, tem pouca coisa a dizer - intrínseco do verbo.
que
Mas, uma vez colocado de lado este problema, resta um outro,
parece, este sim, propriamente lingüfstico, e que faz parte
me
_jl justamente do que chamo "pragmática Iingüfstica". Não. se trata mais --711do que se faz quando se fala, mas do que se considera que a fala, segundo o próprio enunciado, faz. Utilizando um enunciado interro- ) gativo, pretende-se obrigar, pela própria fala, a pessoa a quem se dirige a adotar um comportamento particular, o de responder, e, do
li
mesmo modo, pretende-se incitá-lo a agir de uma certa maneira, se se recorre a um imperativo, etc. O po nto importante, a meu ver, é J
que esta incitação para agir ou esta obrigação de responder são dadas
como efeitos da enunciação. O que generalizarei dizendo que todo
163
(
|
enunciado traz ~~sigo um~ qualific~ção de |
sua e~unciação, ~ualifi-\ |
: |
|||||||
|
cação que constitui para mim o sentido do enunciado. |
O ob1eto da |
||||||||
|
pragmática semântica (ou lingüística) |
é assim dar conta do que, |
se- |
i)/ |
||||||
|
gundo |
o enunciado, é feito pela |
fala. - |
ara isto, é necessário dcscre'f'er |
||||||
|
sistematicamente as-imagens 6a |
cnum: |
ao |
que sao ve1cu a as pe o |
||||||
|
emmciado. |
- |
- |
\-;-) |
||||||
,- ;01
\ '<)e#°
,v,
1
.;
- ----w.
levar a
e depois
distinção rigorosa entre
rio estabelecer
Para
bom termo
manter
esta
(mesmo se
descrição,
parece-me necessá-
pouco) uma
isto custa
um
·~'?-~nunciado"
e a
"fr~se".
o
que
eu _chamo
"frase"
é
um objeto
teónco, entendendo
por
isso,
tence,
para
o lingüista,
ao
domínio do
observável,
que ele
nao
mas
constitui
per-
uma
~:~'°)(invenção desta ciência particular que a gramática. O que o lingüista
é
iP' "'
'
1
;:'
|
pode tomar como observável é_Q_enunciado. considerado |
como |
a |
ma- |
|||||
|
nifestação particular. |
como a ocorrência |
hic |
et |
,,nu11c |
d |
um |
frase. |
|
Suponhamos que
duas
pessoas
diferentes digam f''faz
bom
tempo·.
ou
1~
C"f.
C'-~\
rJ'-V
~
Ii.
el~
1.og.''1
O
ll
~\f
.;r
~e
~c'I
|
~· |
que uma mesma pessoa |
o diga em |
dois momentos di(erenteS:: encon-1 \ |
|||||||||||
|
u |
tramo-nos em presença |
de dois enuncia~os diferentes, .de ?ois obse~- |
. |
|||||||||||
|
. |
f\ |
~. |
váveis diferentes, observáveis que a |
maior parte |
dos hngmstas exph- |
|||||||||
|
1 |
cam decidindo que se trata de duas |
ocorrências |
da |
mesma frase |
de |
|||||||||
|
uma língua, definida como uma estrutura lexical |
e sintática, e |
da qual |
||||||||||||
|
se supõe que ela é subjacente. |
||||||||||||||
|
Dizer que um |
discurso, considerado como |
um |
fenômeno obser- 1 |
|||||||||||
|
vável, |
é constituído |
de uma seqüência linear |
de enunciados, |
é fazer a |
) |
|||||||||
|
hipótese ("hipótese |
externa", no sentido definido |
no Cap. |
111) |
de |
||||||||||
|
que |
o sujeito |
falante o apresentou como |
uma sucessão |
de segmentos |
|||
|
em |
que cada |
um corresponde |
a |
uma escolha "relativamente |
autôno- |
||
|
ma" |
em relação à escolha dos outros. Direi, então, que |
um intérprete, |
|||||
|
para segmentar em enunciados um dado discurso, deve admitir |
que |
|||||||
|
esta segmentação reproduz |
a sucessão |
de escolhas "relativamente |
au- |
|||||
|
. tônomas" |
que o sujeito falante julga ter |
efetuado. Dizer |
que |
um |
dis- |
|||
|
curso constitui um |
só enunciado é, inversamente, supor |
que |
o |
sujeito |
||||
|
falante o apresentou como |
o objeto de uma única escolha. |
|||||||
|
Falta precisar agora a noção |
de "autonomia relativa" |
da qual |
|||||
|
acabo |
de me servir. Ela está, para |
mim, na satisfação simultânea |
de |
||||
|
duas condições. |
de coesão e |
de independência. Há |
coesão |
em |
um |
||
segmento se nenh.um
diz~r.
se
a escolha
de seus segmentos é escolhido 'por si
de
cada
constituinte é
mesmo, quer
pela
sempre determinada
escolha do
conjunto.
J!
o
caso
de
uma seqüência como
Pedro
está
164
aqui,
pelo
tituem
rência
desejo
a
nemas que
nome completo
de
uma segunda
'cia
menos quando
escolhidas
para
palavra
Pedro,
pronunciar o
palavra
a
se admite que as
produzir
exemplo, não
Pedro.
de
três palavras
que
a
e que
a
caso
cons-
ocor-
pelo simples
para
fo-
de formar o
ocorrência
o
são
da
de
a mensagem total,
se justifica
Mas
em que
é também
"independência".
é imposta
por
nome
própria
Pedro
Pedro,
na medida
o aparecimento dos
de
pelo
desejo
considera.r esta
então, acrescentar
à
de
compõem
Pedro.
é motivado somente
evitar ter
Para
como um
condição,
se
enunciado, deve-se,
que
chamarei
não
coesão,
Uma seqüên-
é independente
sua escolha
pela escolha
um
|
conjunto mais |
amplo |
de |
que faz parte. |
O que |
exclui imediatamente a |
|||||
|
palavra Pedro tal como aparece na seqüência analisada. à "Coma Alguns exemplos. Quando, gulosa, se para incitar temperança uma para viver!", o coma soa muito lhe recomenda |
pes- não |
|||||||||
constitui um enunciado, porque
mensagem global:
é escolhido somente
deu
para produzir a
conselho
"co-
o sujeito falante não
primeiro o
ma!"
ao qual
teria acrescentado em
seguida
a
especificação
"para
viver".
sem apetite a
preendido como
çado
para apoiar
Mas se
em seguida
a mesma
comer pelo
seqüência serve para aconselhar a
menos alguma
coisa,
o
coma
pelo sujeito
que
deve
um doente
com-
refor-
argumento
ser
um enunciado, assumido
por
um
falante. e
segundo enunciado
traz um
o conselho
dado. Comparemos os
dois diálogos:
|
A: |
O Pedro, |
a gente não |
tem |
visto mui:~··_, |
||||||
|
B: |
Mas como!. |
Eu |
o |
vi esta manhã~A |
propósito, |
ele acaba |
de |
|||
|
comprar um |
carro. |
|||||||||
A:
Eu
acho que
momento.
Pedro
está
com problemas de
dinheiro neste
|
B: |
Mas como!. Eu o |
vi esta manhã. Ele acaba de |
comprar um |
|||
|
carro. |
||||||
|
No primeiro |
diálogo, |
o |
Eu o vi esta manhã atende |
à |
condição de |
|
|
independência. Não |
se |
pode admitir que B tenha |
primeiro procurado |
||
|
dar |
a conhecer que |
ele |
tinha encontrado Pedro, |
mensagem que tem |
|
|
uma |
função por si |
só, já que foi suficiente replicar ao que dissera A. |
|||
|
No |
segundo diálogo, |
ao contrário, o segmento |
Eu o vi esta manhã |
é |
|
dado
só
como uma
preparação destinada
a
tornar
mais confiável a
.·
|
informação que |
vem em seguida, |
e escolhida |
em virtude |
da |
decisão |
||
|
de fornecer esta |
informação. |
Não |
há, |
então, a independência |
exigível |
||
165
.
.
\
de um enunciado (o conectivo a prop6sito, que aparece no primei- ro diálogo e que seria impossível no segundo, tem entre suas fun- ções, exatamente, marcar a dualidade dos enunciados - mesmo quan- do ele serve para mascarar hipocritamente que o sujeito falante que- ria, desde o início, "dizer" o segundo enunciado).
N.B. - Esta definição do enunciado pela autonomia relativa, ela própria fundada no duplo critério de coesão e independência, leva a
duvidar que se possa segmentar em 11 texto"
em uma pluralidade de
enunciados sucessivos. O que se chama 11 texto" é na verdade, habi- tualmente, um discurso que se supõe ser objeto de uma única escolha, e cujo fim, por exemplo, já é previsto pelo autor no momento em que· redige o começo (característica que leva Barthes (1979) a negar -qüe üm· diário íntimo possa constituir num texto). Assim, um poema dificilmente poderá aparecer como algo diferente de um enunciado único se for caracterizado, ao modo de Jakobson, pela enumeração de um paradigma cujos diferentes elementos estão dispersos ao longo do desenvolyimento sintagmático. Conclusão idêntica, no que diz respei- to a uma peça de teatro se se admite, de acordo com a tese de A. Reboul-Moeschler (1984), que ela traz, ao lado da fala que as per- sonagens se dirigem umas às outras, uma fala do autor ao público. Porque esta segunda fala, que constitui a linguagem teatral propria- mente dita, manifesta escolhas cuja expressão pode estender-se em 1 uma larga seqüência única, e em todo caso ir muito além das répli- cas das personagens. Um exemplo elementar é fornecido pelo que Larthomas (1980, p. 316), chama as 11 dialogias cruzadas". Cléante e seu criado Covielle se lamentam separadamente, no ato Ili, cena 9, do Bourgeois Gentilhomme, de suas decepções amorosas, mas suas réplicas, autônomas se se considera o diálogo entre as personagens, estão ligadas do ponto de vista da linguagem teatral. Cf. Cléante: Que
de !armes j'ai versées à ses genoux!" - Covielle: "Tant de seaux d'eau que j'ai tirés du puits pour elle", etc*.
IV. Assim definido - como fragmento de discurso - , o enun-
ciado deve ser distinguido da frase, que é uma construção do lingüis- ta, .e que permite- dàr"c onta· dos enunciados. Na base da ciência lin-
\ güística há, com efeito, a decisão de reconhecer nos enunciados rea- lizados hic et nunc, todos diferentes uns dos outros, um conjunto de
• CUante:
- 'Tantos baldes d'água tirei do poço para ela'', etc. (N. do T.).
"Quantas
lágrimas
derramei
.em
seus
joelhos!"
Covielle
166
entidades abstratas, as frases, em que cada' uma é suscetível de ser manifestada por uma infinidade de enunciados. Fazer a gramática de uma língua é especificar e caracterizar as frases subjacentes aos enun- ciados realizados através desta língua.
Insisto na idéia de que a separação entre a entidade observável e a entidade teórica não diz respeito a uma diferença empírica entre estas duas entidades, em que uma seria de ordem perceptiva e a outra de ordem intelectual, mas a uma diferença de estatuto metodológico, que é, pois, relativo ao ponto de vista escolhido pela pesquisa: para , um historiador da gramática, a frase, tal como a concebe um dado gramático, é um observável, enquanto que para este gramático ela ~eria um princípio explicativo. Por isso não seria possível fundamen- tar-se em critérios intuitivos, em uma espécie de "sentimento lingüís- tico", para decidir se vários enunciados realizam ou não a mesma frase: a mera identificação das frases mobiliza, ao contrário, uma teoria.
\
Ilustrarei esta idéia com um exemplo escolhido em virtude de seu aspecto paradoxal, e relativo a um problema teórico assinalado - no capítulo VI. Segundo Anscombre e eu, não é possível realizar um ato de linguagem pelo simples fato de se declarar explicitamente rea- lizá-lo. Ora F. Récanati objetou-nos que se pode efetuar o ato de
dizer obrigado * através da fórmula "Eu te digo obrigado", ou seja, afirmando que se realiza este ato. Para responder a esta objeção, que visa a identificar, em certos casos, o que os medievais chamavam· a c tus exer ç:itus e actus designatus, nossa única solução era sustentar que o predicado que intervém na fórmula " Eu te digo obrigado" é di- ferente do que designa o ato de agradecer [remercier]. Assim, para nós, o primeiro valor da fórmula é Eu te digo "obrigado" : tratar-~e-ia, para o sujeito falante, de se apresentar pronunciando: "Obrigado!". Tese que conduz a dizer que os enunciados transcritos "Digo obriga- do!" podem resultar de duas frases diferentes. Uma comporta o pre- dicado [dizer "obrigado"] significando pronunciar a palavra "Obriga- do!". Ela aparece no diálogo:
-
A
a
B:
Vamos, diga obrigado a C!
• Em Português não há entre obrigado e agradecer as relações existentes (históricas, derivação delocutiva) entre merei e remercier em francet. Mas para a argumentação aqui desenvolvida a tradução não traz. maiores difi- culdades. (N. do T.)
167
~
}
'J
\ C'
a
a
A outra frase,
-
-
B
A
C:
B:
de
Você
Não, diga
foi
muito gentil.
obrigado!
|
c1açao a |
noção |
de |
ato L- |
a.jJJtti.ar.i |
|
|
su1e1 |
o aut |
da-fala |
e |
dos atos |
|
ção
é
o ato
de alguém
~ smente
e.artido,
o
(ato
d e- que
no nível
\J? lema
do
autor
do
que produz
um
eau;
não introduzo, pois, a
de
fala.
Não
um enunciado:
go
que
P.ara
a
arece, e
eu não
em
noção
é
de
ar
ero-
a enuncia-
sim-
mim
quer~
ao
um
cujo predicado [dizer -
agradecer
[remercier]
obrigado} significa
a rea-
ciado
lização
do ato
aparece em:
destas definições
enunciado, _Não
preliminares,
tenho
que
relação
se
,há
|
- A B: Vamos, a diga obrigado a |
C! |
|||||
|
- |
B a |
C: |
Você |
foi muito |
gentil. |
|
|
- A D: a |
Ainda bem! |
|||||
|
Estes dois diálogos de forma nenhuma provam, insisto neste pon- |
||||||
que
nos
encontramos diante
se tal
de
duas utilizações
duas frases
distintas: certamente
mas poder-se-ia decidir
uma mesma frase. Se
dualidade for admitida,
diferentes
de
e
eu,
dar
porque,
a
estes diálogos
de
nos
obriga a
supor
"Obrigado"]
e
que
um
há
valor
deCiêllr
|
aüto~ |
||||||||||
|
Ié |
ele. |
J |
'/ |
|||||||
|
l |
Para |
tornar menos |
estranha minha noção de enunciação |
(o |
que |
|||||
|
não |
é, aliás, |
nem necessário nem suficiente para legitimá-la), assina- |
||||||||
|
!arei simplesmente |
que expressões muito banais fazem às vezes alusão |
|||||||||
|
\ |
a um conceito |
da |
mesma ordem. Sup'onhamos que eu relate |
a |
vocês |
|||||
uma
conferência
que
tenha
assistido
e
durante
a
qual um
certo X
|
interveio para fazer uma pergunta ao conferencista. |
!! |
possível |
que |
|
|
eu comente o fato dizendo-lhes, |
por exemplo: "Esta intervenção |
me |
||
Meu enunciado
eu
qualifiquei
de X,
o
pode
de
que
ser compreendido
diver-
pró-
ser também o
de
ser o
surpreendente pode
ele diz.
Pode
to,
ficam explicados
que há neste caso
a
toma
escolhemos, Anscombre
natório
sobre
predicados diferentes
discrimi- surpreendeu muito".
sas
prio conteúdo
maneiras. O
que
[discriminante}
é uma maneira geral, nossa tese
dois
que
Obrigado"
performatividade
na língua
o
das palavras
[dizer
[dizer-obrigado]
|
desempenho apresentado por X, |
as |
qualidades intelectuais, |
morais, |
|
|
articulatórias que ele apresentou |
ao |
falar. |
Mas pode tratar-se igual- |
|
|
mente do acontecimento enunciativo |
que presenciei (portanto |
a enun- |
||
ciação, no
curso
seu
no
sentido definitivo
se dar,
acima) :
eu
não
ter podido
teor,
seja,
seja porque
simplesmente,
porque
estou surpreso
é habitual,
na
dis-
sua forma ou
inter-
por tal
normalmente nenhuma
plausível,
em contrapartida, que
enunciados "Digo
|
possam ser a manifestação |
de duas |
frases distintas. (Este |
exemplo |
é |
||
|
discutido nas |
pp. |
122, 123 |
e 130). |
|||
/j
/i
{ Três
V .
Ele
Da
acepções
frase e
do
enunciado distinguirei ainda
podem
ser atribuídas a
designar a
"a
enunciação".
pelo menos
sociais
este termo.
pode primeiramente
pela
produção
do
de influências
im-
(acrescentado-lhe eventualmente
atividade psico-fisiológica
não
é
o tipo
plicada
o jogo
enunciado
que
a
condiciona). Este
de
|
problemas |
ue considero |
como meus |
- |
o |
ue não im lica é claro, |
||||
|
nen |
uma |
desvalorização de tais pro |
emas, |
mas somente a hiI!_ótese |
|||||
|
ãeC |
meus odem ser |
tratados se |
aradamente. Em uma segunda |
||||||
|
.~'acepção, a enuncia ão |
é |
o produto |
da atividade do sujeito falante, |
||||||
|
u' |
quer dizer, |
um segmento de chscurso, |
ou, em outros termos, o |
que |
|||||
|
acabo |
de |
hamar :enuneiade" ~talé o sentido dado alavra enun- |
, |
||||||||
|
ciação |
nos |
capítulos |
I, III e IV). |
!!, pois, com_uma terceira acel?Çjo |
|||||||
|
~O |
que designarei por~ |
termo é_o_acontecimeQ!Q pons- |
|||||||||
|
htuído |
~tQ |
aparecimento_ de . um |
enunciado- - A_realização de |
um |
|||||||
|
~efiüii~ã~ó |
é |
de fato um acontecimento |
histórico: |
é dadp exist~ncia |
|||||||
|
a · ãlguma |
coisa que |
não existia ãntes |
de se falar |
e que não existirá |
I |
||||||
i
_; mã ã _ depois .
Ressaltar-se-á
ê
esta
aparição
momentânea que
chamo
"enunciação " .~
que
não
fa~
intervir
na
minha
caracterização
da
enun-
|
venção |
é |
tolerada em conferências deste tipo. |
(O |
que precede |
não im- |
|||
|
plica de |
modo nenhum, |
de minha |
parte, a idéia |
bizarra |
- |
e espero |
||
|
que recer por não |
me tenha geração |
sido imputada espontânea, - sem ter na que |
um enunciado possa apa- fa- sua origem um sujeito |
||||
|
lante |
que |
procura comunicar alguma coisa |
a alguém, este |
algo sendo |
|||
precisamente
cessidade, para constru·
comunicado, de um
mlc10,
o
que denomino o
sentido .
Mas acontece
que tenho
do
uma teoria
do sentido,
ue
n~
é
uma teoria
ue
em si,
conceito
e enunciação
o
a ante}.
não encerre
-desde
o
a noção de
su1e•
1
/
VI. Em
correlação com a oposição da frase e do enunciado, devo
espe-
absolu-
ordi-
a significação
agora introduzir
cificando que
tamente
nária
ticamente
palavra
a diferença entre
e
o sentido - de modo linguagem
na
J
t
do
escolho estas duas
sem
últimas expressões
arbitrário,
tradição
frase ,
me
filosófica.
referir a
seu emprego Quando se trata de de
sua
~ifiç
a.çãQ'
~emântica.
ou na
caracterizar semim-
a
uma
~·sen~o"
falarei
a
reservarei
CJl
l!U
para
ç}!do.
c!_:acte~~zaçã<?
)
/"
~
'/
'/
168·
|
( |
( |
(1 |
~r ---» -:: |
~· |
r |
' |
" |
, |
||||||||
|
<>, |
" |
t |
, |
I |
o , f ./) |
_ |
.,,, |
$r•, |
' |
( |
, |
,_, |
169 |
|||
j
k
|
Entre o sentido e a significação há para mim, ao mesmo tempo, uma 1 |
no lugar sobre o |
qua l o locutor fala e que pode freqüentemente, mas |
|
|
diferença de estatuto metodológico e uma diferença de natureza. De |
nem sempre, ser o lugar de onde ele está falando . Do mesmo modo, |
||
|
estatuto metodológico porque, no trabalho do lingüista semanticista, o |
a |
significação de |
uma frase no presente do indicativo prescreve ao |
|
entido pertence ao domínio do observável: ao domínio. dos fa.tos : o |
in |
terpretante determinar um certo período - que podé ser de dura- |
|
(
ato que temos de explicar é
aue t a l ~n!J1!Qa~ tem-1al(is
e.ntido(s},
ou seja,
f.niP1ca, espero que seja desnecessári~ acrescentar, .que. t~maremos este fato semântico por um dado, fornecido por uma mtuiçao ou um sen- timento imediatos: como todo fato científico, ele é construído através de hipóteses - simplesmente as hipóteses constitutivas do fato de- vem ser distinguidas das hipóteses explicativas destinadas a dar conta dele. e justamente dessas hipóteses explicativas que resulta a signi- 1 ficação da frase. Para dar conta de modo sistemático da associação "observada" entre sentidos e enunciados, escolho associar às frases realizadas pelos enunciados um objeto teórico etiquetado "significa- ção". A manobra me parece interessante na medida em que suponho possível formular leis, de um lado para calcular a significação das frases a partir de sua estrutura léxico-gramatic al , e de outro lado para prever, a partir desta significação, o sentido dos enunciados.
'-
ue e_k_U~ ível de tal(is) inter retação(ões). O que não
Independentemente mesmo desta diferença metodológica, estabe- leça, entre o sentido ~-a-significação, uma diferença de natureza. Quero àssim fincar pé contra a cóncepção habitual segundo a qual
o sentido do enunciado .é a significação da frase temperada por alguns
ingredientes emprestados à situação de discurso. Segundo esta con- I
cepção, se encontrariam pois, no sentido, de um lado a significação e de outro os acréscimos que lhe trazem a situação. Por mim, recuso
- sem que possa ~qui justificar tal recusa - fazer da significação uma parte do sentido. Prefiro representá-la como um conjunto de instruções dadas às pessoas que têm que interpretar os enunciados d.a frase, instruções que especificam que manobras realizar para associar
um sentido a estes enunciados. Conhecer a significação da frase por- tuguesa subjacente a um enunciado "O tempo está bom" é saber o \!><- IP , que é necessário fazer , quando se est á e m presença deste enunciado ,
r ~ i "~ti· " para interpretá - lo . A si~ .m ~ação
.conté% _ p~i~ _ P-OJ: _ exemplp, . um~
_
i''' s
,,,-'
instrução sol~.~ndo ~ ~~_E! 9.c~~e- -~~ que _ lugar_fala o locuto4 _ e _
m de onde está falando. O que explica que um enunciado do tipo
o
tempo está bÕtii»- não pode ter por sentido que está fazendo tempo bom em qualquer parte do mundo, mas significa sempre que faz bom tempo, em Grenoble, ou em Paris, ou em Waterloo, etc, ou seja,
~ue se admit~~~ ~~~ -~~i!
~ existência de tempo . bom nest: lu~r·- ·-
~
170
ção bastante diversa, mas deve incluir o momento da enunciação -
e relacionar a este período a asserção feita pelo locutor.
A natureza instrucional da significação aparece nitidamente quan-
1/
do nela se introduzem, como Anscombre .e eu . fazemos sistematica- C:
mente ; " vá riá veÍ~ .argumentativas" . Um exemplo de variável argu.~en-
tativa um pouco diferente daquelas (mas e mesmo) com que temos
apresentado a noção : a descrição semântica das frases francesas con- tendo o morfema trop *. Que se diz quando, a propósito de um objeto
P ** onde O é uma des-
crição do objeto e onde P é um adjetivo exprimindo uma propriedade,
a P-idade?. Sem pretender ser exaustivo, direi que tal enunciado tem,
· entre outras características, a de ser refutativo (sobre os diferentes
modos da refutação ver Moeschler, 1982). Seu autor se apresenta co- mo considerando uma proposição r, e como refutando-a através des- te enunciado, que tende , então, para uma conclusão não - r . E ele apresenta como razão decisiva contra r o fato de que O ultrapassa um certo grau D de P-idade, abaixo do qual se poderia ainda, ou mesmo , em certos casos, se deveria admitir r : o grau D aparece assim como um limite argumentativo. O que, nesta descrição, ilustra minha concepção da frase, é o caráter de variável argumentativa que pos-
trop P, não estaria dizen-
do qual é o r contestado por tal ou tal de seus enunciados, mas ela
apresenta um aviso, quando se vai interpretar um enunciado desta frase, para se procurar que r determinado o autor do enunciado tinha em mente. A significação da frase não constitui, pois, um conteúdo intelectual, ou seja, objeto de uma comunicação possível. Certamen-
O , enuncia-se uma frase do tipo O est trop
sui a conclu s ão r. Uma frase do tipo O est
te ele atribui a P-ida de de O
um grau excessivo, mas não há excesso /./ \' '-e
por si mesmo. l! ·somente em relação a uma certa conseqüência argu-
mentativa que a í po~cesso, e a frase não estaria dizendo 1 1'c.'-i· t ' S. '- • qual é esta conseqüênci a ; tudo o que diz a frase é que é necessário ~ "' 0-
d e te rminar se se qu e r constituir o sentido do enunciado, ou seja, se
se
te caso
6·,CSv.
V
e·\
c'-
quer
d
b
esco rir o
"1 a go
"
que o su1e1to . '
não aparece,
fl a ante
b
usca comunicar. '
N
es-
.
'
·.A
{ ~i\"
GQ,v-'<
'V-X-
12\). v.
ainda, o sentido
portanto, como a adição da
|
• |
Muito, demasiado. (N. do T .) |
||
|
•• |
O é mu ito ( dem asiado) P. |
(N . do |
T .) |
J.-o
QI
11
~
r\')
f,
significação e
levando
"especificadas"
zada,
de alguma
em conta
na
a
outra
coisa
.
-
~onstr~çao re~
r
t -
medida em
mas como uma
na
que
é
impossível
substituir,
no
seu
interior,
uma
defi-
situação
de discurso, a
partir
das mstruçoes
|
nição tão pouco precisa de um |
ato ilocutório qualquer, pela expressão |
||||||||
|
"ato |
A" . Admitamos, por exemplo, a título |
de definição, que |
ordenar |
||||||
|
seja |
"apresentar |
sua |
enunciação como obrigando |
o outro a fazer |
algu- |
||||
|
ma |
coisa" . Como sustentar, então, que o sentido |
do enunciado |
Jussi- |
||||||
|
vo, o que é comunicado ao interloc.utor, |
é que o sujeito falante faz o |
||||||||
|
ato |
de ordenar, |
a |
saber, que |
ele "apresenta sua enunciação |
como |
||||
|
obrigando "?. |
O |
sentido do |
enunciado |
é |
simplesmente que |
a |
1 enun- |
||
ciação
o
tal
obriga.
ele faz
.
.
Quando
saber
ao
mas
um
sujeito
que
interlocutor
não
que
é
a
virtude jurídica,
falante
que
sua
apre&ente
faz
enunciação
um
ato
ilocutório,
tem
tal
ou
como tendo esta
significação.
'
f
f
r,
|
VII. |
Em ~ue consist~ este(s~~~i~o)~o enunciado, |
que o lin~üista |
|||||
|
gostaria de explicar |
a |
partir da s1gmf1caçao da fras:?. |
A |
conce~çao de |
|||
|
sentido sobre a qual |
fundamento |
meu tra,Palho |
nao |
é, |
propriamente |
||
falando,
resulta sobretudo
uma
hipótese, suscetível
de
uma
torna possível.
de
ser verificada
justifica,
ou
considerar
falseada, mas
trnba-
como
decisão que
unicamente, o
o lieAtitlo
lho
que ela
Ela consiste em
/
/
~
|
uma |
descri |
- |
· |
- |
. |
que |
o sujeito falante comunica atra- |
|||
|
vés |
de seu enunciado é |
uma |
q~al~fic~~ão |
da en~nciação |
deste |
en~n- |
||||
ciado.
Idéia
paradoxal
na aparenc1a,
Jª
que
supoe
que
toda
rP
il\
tVr'-P)
1
Jo
·cP '-
1
\.JI'<
L•
.,
e"
|
vir~ |
||||||||||||
|
~&~ |
tu |
de |
*. |
O |
semanticista, |
que |
descreve o |
que |
o |
sujeito falante |
diz |
de |
sua
descrições
enunciação
do
no
enunciado,
a
não
de
sentido
indicação
pode,
pois,
introduzir
um
ato
ilocutório, mas
em
uma
suas
ca-
enuncia- .
|
ção |
faz através |
do enunciado |
que veicula, referência a |
si mesma . |
~as |
|||
|
esta auto-referência não |
é mais ininteligível |
que aquela |
que |
todo |
hvro |
|||
|
faz |
a si mesmo, |
na |
medida |
em |
que seu |
título, |
parte integrante |
do |
li- |
|
|
vro |
(como |
o enunciado é |
um |
elemento |
da enunciação), ·qualifica |
o |
||||
|
livro como |
um todo. Nem |
mais ininteligível também que a expressão |
||||||||
-
pela presente
vos
tomada
(inglês: hereby)
que
"),
que, inserida em
serve
uma
carta ("Solicito-
carta
pela presente
na
sua
para qualificar
a função
da
totalidade.
Darei
mais
à
frente
alguns detalhes
sobre
as
indicações
forneci- \
das
ções
pelo
enunciado
relativamente
contidas,
segundo meu
ponto
às
de
fontes
vista,
no
da
e~unciação O.~ica
sentido do
e~unc1ado)~
jáqu~
mostrar
ção
de
é
o objeto
orno o
próprio
enunciado
diversas- vezcs-:"'"Mas
de
uma
concepção
assinala,
em
gostaria, primeiro,
sua
enu
ol!fô~ ica
do
sentid~)
ç_llQ.
a
superpost-
idéia
para
ilustrar
a
|
que |
o sentido |
j9 enunciado |
é |
uma |
represent?cão |
da |
enunciaçã~ |
d |
|||||||
|
indicar |
outros |
s |
os dest |
re |
™ |
tação |
Dizer |
que |
um |
enunctado |
|||||
|
.- |
~ssui, |
se |
un |
os |
termos |
da |
filosnfia da Hng11agem '. |
u~a |
força |
i1o-. |
|||||
cutória,
e
para
mim dizer
que ele
atribui
a sua
enunc1açao um
poder
|
- |
"jürfdico", |
o de obrigar a agir |
(no |
caso |
de |
uma promessa |
ou |
u~a |
|||
|
ordem), o |
de obrigar a falar |
(no |
caso |
da |
pergunta), |
o |
de tomar |
lícito |
|||
o que
não
era
(no caso
da
permissão), etc.
Ter-se-á,
talvez,
notado
|
uma diferença entre esta formulação |
e |
a que |
dei |
em momentos ante- |
||||||||
|
riores |
e que era |
mais |
fiel |
à letra de |
Austin. |
Eu |
dizia que |
um' |
enun- |
|||
|
ciado |
que serve |
para realizar um |
ato |
ilocutário A |
(por exemplo, |
orde- |
||||||
|
nar) tem por sentido indicar que |
o sujeito {alante realiza |
o |
ato |
A por |
||||||||
meio deste enunciado,
destinado a
realizá-lo.
de modo
que A
é
Esta
formulação
exibido
no próprio enunciado
parece-me agora
muito
livre,
|
racterização da enunciação vinculada ao enunciado, e que |
leva |
a com- |
||||||||||
|
preender porque o sujeito falante pode efetivamente, |
ao |
produzir |
o |
|||||||||
|
enunc,:iado, realizar o ato. Vê-se, por |
isso. porque chamo ." pragmáti- |
{ '\'t |
||||||||||
|
cas." |
minhas descrições |
do sentido dizendo que |
o sentido |
é algo que |
) |
'J |
||||||
|
se comunica ao interlocutor: estas descrições são pragmáticas |
na me- |
,.,. |
||||||||||
|
dida |
em |
que |
levam em |
conta o fato |
de que o |
sujeito falante |
realiza |
/ |
||||
i'
atos, mas
que
é
logia,
um
direi
realiza
saber
que
estes atos
sobre
interpretar
sua
transmitindo
ao
interlocutor um
saber
-
própria
enunciação.
Para
fixar
a termino-
uma
produção
lingüística consiste,
entre
, '('
y
|
outras coisàs, |
em reconhecer nela |
atos, |
e |
que |
este reconhecimento |
se |
|||||
|
faz |
atribuindo |
ao enunciado |
um sentido, |
que |
é |
um |
conjunto |
de indi- |
|||
2
\
\'~
j
I
·
cações sobre
a enunciação.
\•ü
,,
O
estudo da
argumentação fomecerá
9
um
apresentar a
sentido
pode
freqüentemente
segundo exemplo
impor
da
enunciação.
Anscombre
frase, de
cer-
enuncia-
que o efeito,
em
etc,
é
uma
de
eventuais
é
que
sen-
sua
eo-
ifjl'1l l
\ ,,/"'
,,
j maneira pela qual o
/
,,
eu
º dos desta
;
·,,.'
'\
e
temos
morfema s como
tas restrições
frasé.
sustentado
sobre
quase, apenas, pouco , um pouco,
o
potencial
argumentativo
dos
uma
situação
comum
geral
1
e
Imaginemos assim
piedade,
de discurso em
<um _
topos
no
nha,
menos
neste
qÜa
ro
1
um certo
para
o~ intt:rlo~.! O!~~tãfü~1Iro-:liljãr
· .lido
de
situação
C lõgi _cô,
•
E.~ta
s~
Aristó!~J~~•
sf.~g11.a_jle
Jlo
. quaLquanto-mais
e
)
uém
Se
inversamente
quer incitar o interlocutor
a
)11esma
de
observação foi
uti lizada,
performativo
as
relações
explicito.
Aqui
entre
o sentido
ter piedade
no capitulo
6,
ela serve
-~ ~~
do
uma
uma critica
de
conceito
maneira geral,
para discutir,
e o ilocut6rio.
172
173
|
se recorrerá ao enunciado de uma |
frase como |
"A ganha quase X |
e um |
torneio exclamativo |
(Como Pedro |
é |
inteligente!). |
Como descre- |
|||||||||
|
cruzados |
por mês", |
por mais baixa |
que seja a soma |
X cruzados |
- |
ver |
o |
que distingue semanticamente seus enunciados |
dos enunciados |
||||||||
|
enquanto que |
o argumento seria |
adequado substituindo |
quase |
por |
que, através |
de frases indicativas, trazem |
grosso modo |
as mesmas |
in- |
||||||||
apenas.
Para
generalizar
esta
observação, atribuímos
às frases com a
expressão quase X
ciados possa servir para
r
fundamenta a argumentação implique que
a seguinte propriedade: para que um
ter
argumentar
para uma
piedade
de
A"),
de seus enun-
(aqui
topos_ que
a
superior
certa conclusão
que
r
é
"e
necessário
é necessário
uma
o
quantidade
|
X fornecerá razão melhor |
que |
X |
para se admitir r. |
Ora, |
no |
meu |
|
|
exemplo, o topos |
em questão quer, |
ao contrário, que quanto mais o |
|||||
/)
ganho aumenta,
então,
menos
acaba
a situação
quase.
-
ser
i1:'1aginada,
é digna
de
pena -
e?templo
que
O
fará
que é
o que
é,
impede,
de
se utilizar um
de
Tal como
na
formulado, meu
sua
discussão
nesta exposição.
no entanto,
con-
contestável
muito discutível,
cepção semântica é dizer que,
e
é justamente
que defendo
situação
surgir a
quase
é proibido utilizar um.
~ara
incitar
o
interlocutor
à
piedade.
Já
que
é
claro que,
é
muito frequen-
suficientemente bai-
apresentar a efi-
temente ao contrário, se
xa,
cácia desejada,
ganhâ apenas
ciado
a soma de
X
X cruzados
cruzados"
não tenha
o enunciado
não
"A ganha quase
pode
ser até
que
poderá
a
forma
canônica
"A
X cruzados". Eu
i1tcitar
não deveria dizer que
à
piedade,
mas
que não
com este
é possível
enun-
apre-
se poderia
sentar-se
isto é
como
procura1tdo
;ustificar a piedade,
minha
A argumentação, com
ato
tal.
ou
ainda,
na
terminologia
efeito, muito diferente
público, aberto, não
Mas
ciação
como levando a
como
argumentando neste sentido.
do esforço
de
pode realizar-se
persuasão,
sem
é para
mim
um
se denunciar enquanto
a~
conclusão. Se,
pois,
se
dizer que um enunciado argumentativo
adf'hitir tal
ou tal
admi-
11
te que
o
o aspecto
mostrei
mesma
|
ar |
um |
· |
|
que me parece |
tanto |
|
a
propósito
de
conclusão
|
de |
um enunciado |
faz |
rte |
de seu |
|
|
mais |
difícil |
de evitar |
ue este |
aspec10, |
|
quase,
é
utilizado
em relação
à
frase),
à
qual levaria
o estudo do
itocutório:~
sentido (o
eu
chega-se à
1
|
sentido |
é |
uma uatificação da enuncia |
ão |
e |
· |
amente-em- |
|
atribuir |
à enunciação certos poderes ou |
certas conseqüências. |
||||
Terceiro exemplo: as
interjeições
(Ah!,
mesmo
frases exclamativas
Xi!) *, quanto
-
entendendo
por isso
tanto as
que apresentam, ao
as
exclamativas
descrição
de
"completas"
da
realidade
tempo,
um tipo
•
Os
exemplos
em
francas
são
CHIC!,
BOF!
(N.
do
T . )
174
formações
(Eu
estou
muito contente,
isto
não
tem
nada de extraordi-
nário,
mos
Pedro
é
muito inteligente)?.
A tradição lingüística possui
os
"expressão"
e "represenlação"
para
opor
estas
duas
formas
ter-
de
i
comunicação.
o autor de
esta noção,
"vivacidade":
sentimento,
que
a
rio
Mas
se diz que
definir
contentado habitualmente em falar de um efeito de
da vida, do a intuição
torneios "expressivos", utilizarei
Para
o que
se
quer
dizer
exatamente
o que
quando
uma exclamação, "expressa"
os
tem-se
e ·não
gramáticos a
sentido
ele sente?.
linguagem
Para
a expressão, segundo Bally, é a
a
do pensamento.
isolar
estes
explicar melhor
me
serviu
leva
concepção de
e de enunciação que
para o
ilocut6-
e a argumentação.
1
Que
diferença
"Pedro
é
o sujeito
enunciação
há
entre
exclamar
"Como Pedro
Trata-se,
para
caso
Ao dizer
e
no
é inteligente!" e
modo
afirmar
pelo qual
própria
muito inteligente"?.
falante,
em
um certo
que
está realizando.
a enuncia
to!ll!l.da
mim, do
é
certaj
é
outro representa a
inteligen-
r:c_sullruldo-totalmente-de
-
inteli-
"Pedro
uma
te",
pode-se apresentar
a
ou
seja-
sito
ão como
de
uma escolha,
mação
ro
dãOecisão
fornecer
n{Q
de um
certo objeto.
Com "Como Pedro
|
gente. |
, |
ela |
é |
dada, |
ao |
contrário, como motivada pela representação |
|||||
|
deste |
objeto: |
é a inteligência mesma |
de |
Pedro que parece levar |
a |
||||||
|
dizer" |
Como |
Pedro |
é |
inteligente!". |
(No |
caso das interjeições, um |
|||||
|
sentimento, |
sofrimento, |
prazer, espanto, |
etc. |
serve de |
relé entre |
a |
|||||
|
situação |
e a enunciação; |
A interjeição |
Ahl |
se |
dá como provocada pela |
||||||
·
alegria sentida no
momento em
que o
locutor experimenta
um
certo
|
fato, como |
um efeito |
da alegria: |
a alegria "explode" nela). |
|
|
Uma |
objeção possível se fundamentará sobre o fato |
de que |
||
as
exclamativas servem
perguntas:
com freqüência
pensa
na
conversação
para responder
inteligente!".
"O que
você
do Pedro? -
Como ele é
|
Já |
me foi ressaltado que mesmo |
certas interjeições, como |
Xil, |
podem |
|||
|
ter |
também |
esta função: |
"Como |
vão indo |
as coisas? - |
Xil". |
O pro- |
blema está em
resultado
cede
que
a resposta,
de
enquanto
dar
tal,
deve apresentar-se como
a ante-
o
de
uma decisão,
que
a
seqüência
a pergunta que
parece incompatível com
a natureza
aqui atribuída
à
-
|
exclamativa que, segundo penso, descreve, |
ao |
contrário, a |
enunciação |
||
|
como "escapada" léchappée] |
ao |
seu autor. |
|||
|
175 |
|||||
(
Para resolver
esta contradição,
distinguirei
o
tema
e
o
propósito
das respostas
Pedro)
O
aquilo sobre
tema (no
que
é
meu
exemplo,
as
deve
qualidades
incidir para
a
resposta
e
defeitos
de
poder
satisfa-
1
zer
o
a exigência
que
Se · o
se
ato
de
resposta
|
que constitui |
a |
pergunta . |
O propósito é |
|||
|
tema |
(o |
fato |
de |
Pedro |
ser inteligente). |
|
uma decisão do
realizado por
tema,
e
Mas,
é
uma
sujeito falante,
a
ponto
vez aceito
de
vista
o tema,
ao
sujeito falante
da
sobretudo
diz concernente ao
de resposta
implica
de
seu interlocutor, esta
deste
que
o
pela repre-
conversação,
tema proposto pelo interlocutor, mas a forma
dada
submeter-se ao ato de interrogação
decisão diz respeito
a resposta se
propósito
sentação que é
ele escolhe responder ao
particÚlar
de
à
escolha
do
dá
como
"escolhida".
pode
aparecer
feita
sua
como imposto
Para
do tema.
resposta
obedecer as regras
resulta
mais
(ou
é
não
|
como não resultando |
mais) |
da |
escolha, e |
como imposta, |
ao contrário , |
|
pelo estado de coisas que |
se |
relata: decide-se responder, mas, para |
|||
responder, "deixam-se
ainda, descrita,
situação (é
falar"
seus sentimentos.
mas o
A
enunciação
é, pois, /
de
como uma reação motivada
da
exclamação),
pela representação
fato de
se
uma
representar
o específico
|
· |
esta situação |
- que é |
o tema da pergunta e |
da resposta - é dado |
||||||||
|
como |
o produto de |
uma decisão conversacional (o |
que está vinculado |
|||||||||
|
à própria noção de |
resposta). |
|||||||||||
|
Esta solução implica distinguir dois |
grupos nas interjeições. |
Al- |
||||||||||
|
gumas, como |
Xil, são compatíveis com a idéia |
de que a representação |
||||||||||
|
da situação é |
decidida pelo sujeito falante |
(e |
elas podem assim apre- |
|||||||||
|
sentar-se como respostas), outras (como Ah!) exigem que esta repre- |
· |
|||||||||||
|
sentação surja inopinadamente (e não podem aparecer em respostas). |
||||||||||||
|
Mas tanto para umas como para outras, e |
também |
para |
as exclama-\ |
|||||||||
|
tivas !Junciado.<'.º~~-~i~a.uma completas,~ |
qualificação |
de sua enun- |
||||||||||
|
ciação, |
dada |
como efeito |
do que ela informa. E esta qualific~a |
|||||||||
|
·- |
fãla · por sua causa através |
faz |
arte do sentido |
da |
enuncia âo, como |
sua |
||||||
|
qualificação |
de |
seu poder jurídico ou |
e seus prolongamentos |
|||||||||
|
~·~ |
· |
argumentativos. |
- |
|||||||||
|
-~~$ ~'~ |
VIII. Uma última |
especificação no |
que concerne ao sentido do |
|||||||||
|
enunciado, antes de |
abordar o problema do |
sujeito |
da enunciação, |
o~ |
||||||||
|
i~l;'-v ~~~maisexatamente do sujeito da enunciação tal como e apresenta no |
||||||||||||
~'".~
:-
~~nteriordo
sentido
da_enunciado.
Esta representação
da
enunciaçã
o
'
f
'?;t,
~f.:."
"V'
.,}
|
que |
constitui o sentido |
do enunciado, e que só através dela ele pode |
|||||
|
falar |
do mundo, não |
é objeto de |
um |
ato de asserçao. |
ara que |
ele |
|
|
seja |
afirmado, |
é necessário que um sujeito se apresente |
como garan- |
||||
|
tindo que o que diz |
corresponda |
a uma |
realidade considerada inde- |
||||
|
176 |
|||||||
l
pendentemente daquilo
tal poderia
representar a enunciação como independente do enunciado que a caraç.
teriza:
parável
indicação
verar" que
estas indicações dadas
fica,
a
dão
qualificam. Dá-se
signi-
munica por
que
se
diz dela. Ora,
já propus
de
um
o sujeito falante
tal ou
que
co-
com·
à
seu
enunciado que
é.
ele próprio
de
vista,
sua enunciação é
uma
parte
da
o enunciado
deste ponto
do
é
aliás ,
li
vro
enunciâção_-
ao
esta imagem,
romance,
título e
autor que,
escrito
na capa
não poderia "asse-
já que
por Flaubert e
no
se chama
parte
Mádame Bovary,
do livro.
Isto não
de
livro fazem
que elas
não podem ser fsisas
mim,
(nada impede
destacáveis
com o
que é
se atribuir
um
no próprio livro,
um autor que não
são
é
o seu) mas que se
da
realidade que
dito, no
sentido
como infalseáveis, já
o mesmo,
que não
para
de
um
enunciado,
sobre
seu
a enunciação
sentido
do
enunciado. Na
pela
medida
enunciação, as
em
que
propriedades jurídicas, argumentativas, causais, etc, por
das
da enunciação,
obrigado
como obrigando tem
o enunciado e
a ela,
não
são veiculados
eles atribuí-
propósito
Certamente ninguém está
enunciado
esta colocação em
poderiam
ser vis.tas
como hipóteses feitas a
seu
mas como a
constituindo.
a acreditar que a
enunciação apresentada por
real obrigar, mas
como efeito
|
dúvida não aparece, no enunciado, como uma possibilidade_a |
ser con- |
|||||||||||
|
siderada. |
||||||||||||
|
N.B . |
t |
- |
Para caracterizar este estatuto. particular do sentido, |
|||||||||
|
tenho, |
em |
trabalhos anteriores (por |
exemplo em |
Ducrot, |
e outros, |
|||||||
|
1980, |
Cap. I, e |
aqui mesmo Cap. VII) |
utilizado |
o conceito |
de |
"mos- |
||||||
|
trar" que, |
em filosofia da linguagem, |
opõe-se ao conceito |
de |
"afir- |
||||||||
|
l |
mar" [as serter] |
ou de "dizer". E comparava o modo pelo qual o |
enun- |
|||||||||
|
ciado |
" mostra" |
a enunciação, à maneira |
pela qual |
a interjeição |
mos- |
|||||||
|
tra |
o |
sentimento que expressa. Esta |
comparação |
parece-me |
agora |
|||||||
|
inaceitável |
na medida em que mostrar |
o sentimento pela interjeição |
||||||||||
|
(isto |
é, disse-o mais acima, como causa |
da |
enunciação) não constitui |
|||||||||
|
senão uma |
possibilidade particular da |
caracterização da enunciação |
||||||||||
|
pelo |
enunciado, |
e, pois, uma forma particular do sentido e isto |
colo- |
|||||||||
|
cará |
um problema teórico complicado, o |
de |
ter a{ |
o |
protótipo de |
todo |
||||||
|
este discurso sobre a enunciação que |
constitui para mim o |
sentidq. |
||||||||||
|
! \"H? |
A nova concepção que acabo de apresentar é inspirada em Berren- |
|||||||||||
|
donner (1981, p. 127 e ss). |
||||||||||||
|
/ |
N.B. |
2 |
- |
Minha decisão de não |
considerar o |
sentido (descrição |
||||||
da
levam
enunciação)
a
recusar
a
como
afirmar pelo enunciado
dos performativos
teoria
é uma das razões que me
explícitos,
e
notadamcnte
177
·
~
~
:\j
-~
i
t
a
idéia segundo a
qual
se
pode realizar um
ato
pelo fato
de se
afir-
|
01 |
mar explicitamente realizá-lo . Daí minha análise |
de Dizer-obrigado |
* |
|||||
|
no começo deste |
capítulo |
e |
no Cap. |
VI |
. |
|||
|
. |
. |
|||||||
|
tado: "Quando você |
pergunta Quem veio?, |
seu enunciado |
comporta |
|
_ o pressuposto que alguém veio. Então, segundo você, ele |
serve .para |
||
|
realizar |
um ato |
de pressuposição. |
Mas é impossível, |
porque todo mun· |
|||||
|
do sabe |
que |
o |
enunciado Quem veio? |
serve |
para |
realizar |
um ato |
de |
|
~(
ft"
IX .
Uma
vez apresentado
o quadro geral
.ªº
do
qual
de
perguntar. Se o
ato realizado é
a
pergunta,
não pode ser a
~cabo
md~-
pressupo-
e• as características
tulo,
que
Süjeito
da
é , relembro,
en
·
-
que permite empregar
|
prin~.pais, |
posso .ir |
ª tema .próprio |
~~ste capt· |
, sição." Vê-se |
de imediato |
que |
a |
objeção .repousa no pri~c.fpioseg~n· |
||||||||||||||||
|
_çnt1car |
e subshtmr |
teoria da nmcidade |
~~ |
do |
o |
qual |
o enunciado deve, ser |
caracterizado |
por um |
umco ato |
ilo- |
|||||||||||||
|
. |
e. esta teoria, |
"um enunciado - um sujeito |
• 1 cutório . Certamente |
faço |
agora |
certas reservas |
à noção |
de |
um |
ato |
de |
|||||||||||||
|
a expressão |
"o |
sujeito", |
pressupondo como uma |
pressuposição, ou , |
pelo menos , |
nós |
o veremos, eu a apresento dife- |
|||||||||||||||||
|
evidência que há |
um ser único autor |
do e nunciado , e responsáv ~ J ,.Pe~o |
~~ |
rentemente |
da época |
de |
Dire et ne pas Dire |
* . |
mas o |
?1e |
orienta |
||||||||||
|
~\' |
|||||||||||||||||||||
|
\(· |
|||||||||||||||||||||
|
qu~ |
|||||||||||||||||||||
|
que |
é |
dito no enunciado. Entao, |
se nao se tem escrupulo ou |
reticencia~ |
\·"~ |
<.J)'j |
nesta retratação |
não é certamente |
o receio de dever admitir, |
se hou- |
|||||||||||
1
•1
\
1
f
para ' empregar
esta
dúvida
a
unicidade
express.ão ,
da origem
é porque
da
sequer
enunciação.
se cogita
colocar
em {
,,e.,,
0
~
~\s;> <o.'
a,v"
.:,.»
,
{
~
|
Quais são |
as propriedades deste |
suj eito?. |
Primeiro ele é dotado |
|||||||
|
de |
toda atividade psico-fisiológica |
necessária |
à |
produção do enuncia- |
||||||
|
do |
. Assim , dizer |
que |
um |
certo X |
é |
o |
sujeito |
do |
enunciado "O |
tempo |
está
X
o
bom"
dito
em
um
certo momento , num
certo lugar ,
é
atribuir
trabalho muscular que
permitiu
tornar audíveis
as palavras
~ v'\~o.o
1
"w(>.~V;.
v.
a "t':
~
U.
o
~
.'
c}.o.
Qi\ '.
l(,•-1.v"vv.
ver
ligados
anteriormente
atividade
tos pragmáticos disjuntos.
um
ato
ilocutório
a
um
só
a
pressuposição,
Ao
.de
amda
atos
mais que
elem_en·
d~
~ exi~t~ncia
dtvtdo
vári~s
enunciado.
contrário,
em
uma
ilocutória
pluralidade de
Al é m da
ilocutórios ,
priedade,
a
é
de
produção física
habitual
do
enunciado
e
a realização
uma
pelas marcas
dos atos
terceira pro-
da pri-
atribuir
ao
sujeito falante
um enunciado
ser
designado em
1
|
tempo está bom; |
e é atribuir-lhe |
também |
a atividade intelectual sub- |
lO"~ |
meira pessoa - |
quando elas designam |
um ser extra-Iingüfstico: ele |
||||||||||
|
jacente - formação |
de um julgamento, escolha |
das palavras , |
utili- \ ~ ;.o.(>\ 1> |
f,, neste caso , |
o suporte dos processos expressos por um verbo cujo |
||||||||||||
zação de
a origem dos
(atos
regras gramaticais .
tipo
Segundo atributo
na
do sujeito :
ser
produção
do
etc.). O
o autor,
enunciado
sujeito é
atos ilocutórios realizados
da ordem ,
da
pergunta,
do
da asserção,
aquele
que ordena, pergunta •. afirma, etc.
Para
voltar
ao
exemplo pre-
f:J J~~·C,,.'r''/.ti.\;~JJ.sujeito
"J'l,ubi
. '·'
que
se
é
eu,
o proprietário dos
objetos qualificados
por
meus,
encontra
no
lugar
denominado
aqui
Considera-se
ele
como
é
~,,,cJJ.l~
óbvio
que este
ser designado
por
eu
é ao
mesmo tempo o
que produz
\o "'
o enunciado, e
também aquele cujo
enunciado expressa
as
promessas,
|
cedente dir-se-á que |
o mesmo X que produziu as palavras |
O tempo |
ordens, asserções, etc . Certamente |
chocamo-nos neste caso com |
con· |
|||||||||||||||||
|
está bo:n |
é também aquele |
que afirmou |
o |
bom tempo. |
Na medida |
em |
tra-exemplos do |
discurso relatado |
em |
estilo direto, |
onde |
muito fre- |
||||||||||
|
que |
uma |
só pessoa é |
o |
produtor |
do enunciado, será necessário admi- |
qüentemente o pronome eu |
não refere a pessoa que |
pronuncia. Mas, |
||||||||||||||
|
tir |
que há uma só pessoa |
na origem dos |
atos ilocutórios |
realizados |
para eliminar este discurso relatado direto qual as ocorrências contra-exemplo, (criticado que basta recorrer aspas não aparecem entre a uma § cqncepção do segundo a seres extra- XI) referem |
|||||||||||||||||
|
através dele. pretende - |
Vai-se, ou aliás, freqüentemente mais pretende-se longe nesta via - que sobretudo como evidente |
se cada e |
aqui mesmo no |
|||||||||||||||||||
|
enunciado realiza um |
só ato ilocutório |
(donde a espécie |
de escân- |
lingüísticos, mas |
constituem |
a simples |
"!enção de |
palavras |
da l_fn~a. |
|||||||||||||
dalo
que
resulta
da
existência
dos atos
indiretos). Uma
tal suposição
1
Assim, o
eu
de
Pedro disse "eu
venho"
designaria uma
entidade gra-
j
•
1
|
não |
é certamente necessária para admitir que há |
uma |
só origem para |
\ matical, |
o pronome de primeira pessoa, |
e |
o enunciado global |
signifi· |
|||||
|
a atividade ilocutória realizada através |
de um enunciado, mas ela |
é, |
• caria somente |
que Pedro |
empregou este pronome, seguido |
da |
palavra |
||||||
|
em |
todo caso, |
suficiente para justificar esta tese. |
||||||||
|
ô |
||||||||||
|
Seja |
dito |
entre parêntesis, |
a crença na |
unicidade |
do |
ato |
ilocutó- |
|||
|
rio |
é |
uma das |
razões que |
levaram muitos filósofos da linguagem a |
||||||
|
repelir |
[repousserJ como francamente |
leviana a concepção |
da |
pressu- |
|||||
|
posição desenvolvida |
em |
Dire |
et ne |
pas |
Dire. |
E isto porque |
falo de |
||
portuguesa
venho.
•
A
conccpção desenvolvida
cm
Dire
tt
nt' pas
Dire
6
a
do
artigo
de
1969
|
retomado |
no |
primeiro ca pitulo. |
A conccpção |
a |
que cheguei, a partir |
da |
|||
|
id6ia 1977 |
de (cf. polifonia, fundamenta-se no mesmo, Cap. "rccxame" se situa aqui II), mas |
realizado numa de em um perspectiva totalmente trabalho |
|||||||
|
um ato llocutório |
de pressuposição . A que |
se tem |
imediatamente |
obje- |
diferente. |
|
|
178 |
179 |
|||||
Admitamos, provisoriamente, esta concepção do discurso rela- tado direto. e tão evidente que as três propriedades de que acabo de falar são, nos outros tipos de discurso, atribuídas a um ser único? . Que possa ser assim, quando se trata de enunciados simples, produzi- dos em contextos simples, não procurarei discutir (eu não penso que se possa me censurar por utilizar aqui, sem definição, uma noção tão pouco clara que a de simplicidade: não a utilizo com efeito para esta- belecer minha própria tese, mas para fazer uma concessão a meus adversários - o que poderia exprimir - se, recorrendo à termino- logia que introduzirei daqui a pouco, dizendo que o enunciador do que eu digo aqui não é assimilável ao locutor enquanto tal). Como exemplo de enunciado simples em um contexto simples, tomemos a réplica "Na semana passada, eu estava em Lyon ", utilizada para res- ponder à pergunta "Onde você estava na semana passada?". Não há dificuldade em atribuir à mesma pessoa as três propriedades consti- tutivas do sujeito falante. Se representamos por "L" o indivíduo a quem a pergunta é endereçada e que articula a resposta, é L que é designado por eu (é de L que se diz que estava em Paris) e é ainda L que assume a responsabilidade do ato de afirmação veiculado pelo
~
.\G M;as, desde que se emprega um enunciado, mesmo simples, em
um diálogo um pouco mais complexo, a tese da unicidade começa a apresentar dificuldade. Por exemplo, quando há uma retomada (em um sentido muito largo deste termo, e que não implica nem repetição
por ter cometido um
J erro, retroca: "Ah! eu sou um imbecil; muito bem, você não perde k por ·esperãrl ". L é aqui ainda o produtor das palavras e é ele igual- mente que é designado pelo eu. Mas a responsabilidade do ato de afirmação realizado no primeiro enunciado não é certamente L que assume - já que justamente L tem a imodéstia de o contestar: ao contrário, L o atribui a seu interlocutor 1 (mesmo que 1 não tenha, de fato, falado de bobeira. Mas somente feito uma censura que, se- gundo L , implica em boa lógica para 1, a crença na imbecilidade de L).
Assim, pois, desde que haja uma forma qualquer de retomada (e nada é mais freqüente que a retomada na conversação), a atribui- ção das três propriedades a um sujeito falante único, torna-se proble- mática - mesmo quando se trata de um enunciado sintaticamente simples. A demonstração é ainda mais fácil com enunciados comple- xos, por exemplo, com enunciados constituídos através da conjunção
enunciado.
"
literal, nem paráfrase). L, a quem se censurou
180
mas. Todo tropeiro, uma vez ou outra, ouviu em um refúgio, ao ama- nhecer, um diálÓgo como o que segue. A alguém que tenha impru- dentemente afirmado não ter pregado os olhos à noite, um compa- nheiro fesponde amavelmente: Pode ser que você não tenha dormido, mas, de qualquer forma, você, roncou solenemente". O autor, no sen-
tido físico, deste enunciado, não poderia ser visto como responsável, J • ao mesmo tempo, pelas duas afirmações que aí são feitas uma depois da outra. Se parece razoável atribuir-lhe a segunda, não se poderia
fazer o mesmo com a primeira, a que é corrigida pelo "mas
" E
é deste modo para um grande número de empregos de mas, notada- mente para aqueles que entram nos enunciados de estrutura "Pode ser p mas q" (o que eu digo aqui de mas, e o faço de passagem, constitui uma certa modificação na descrição que J. C. Anscombre e
eu temos dado f reqüentemente para mas, descrição que modificamos atualmente introduzindo-a na nossa teoria da polifonia) 1 •
X. f! esta teoria da polifonia que vou agora apresentar de uma maneira positivã, depois de ter mostrado as dificuldades da concepção
'unicitária" à qual ela se opõe. Para isto desenvolverei certas indi- càções que se podem encontrar no primeiro capítulo de Les Mcits du Discours, corrigindo-as em alguns aspectos.
Relembrei há pouco que o sentido de um enunciado, para mim,
a descrição de sua enunciação. Em que consiste esta descrição?. enho assinalado alguns de seus aspectos mencionando as indicações argumentativas e ilocutórias, assim como as relativas às causas da fala. Estas indicações, de que falei para levar a compreender o que entendo por "descrição da enunciação", são, na verdade, secundárias em relação às indicações mais primitivas que estão pressupostas por
tudo que se pode dizer sobre os aspectos ilocutórlo, argumentativo e ~ /
1
)
1
1
expressivo da linguagem. Trata-se de indicações, que o enunciado \ ~ .LP ~J
apresenta, no seu próprio sentido,
tual(ais) da enunciação. Certamente quando defini a noção de enun· 1
ciação tal como a utilizo enquanto lingüista que descreve a linguagem,
recusei-me explicitamente, de aí . introduzir a idéia de um produtor da fala: minha noção é neutra em relação a tal idéia. Mas não se
sobre ·o
(ou
os) autor(es)
even:}
•·
1. No que diz respeito aos enunciados de estrutura "Certamente p mãa q ", ver o final do § XVIII. Eles apresentam um acordo sobre a verdade de p, mas excluem toda tomada de posição argumentativa de p. Nlo poderei explicitar a oposição desta& duas noções senão depois de ter, no t XII. analisado o conceito do locutor distinguido L e À:"
181
|
dá |
o mesmo |
com esta |
descrição |
da enunciação |
que é constitutiva do |
||||||||||||||||||
|
sentido dos enunciados - |
a que |
é constitutiva |
do que |
o enunciado |
|||||||||||||||||||
|
q1ler-di:ter |
e |
não mais |
do que o lingüista diz. |
Ela contém, ou pode |
|||||||||||||||||||
|
conter, a atribuição |
à |
enunciação |
de |
um ou vários sujeitos que se- |
|||||||||||||||||||
|
riam sua origem. A |
tese que. quero defender |
aqui é que |
é |
necessáriu |
|||||||||||||||||||
|
distinguir |
entre estes sujeitos pelo menos dois tipos de |
personagens, |
/ |
l |
|||||||||||||||||||
|
os |
enunciadores e os |
locutores; |
apresentarei |
primeiro |
a |
noção de |
- |
- |
• |
||||||||||||||
|
"locutor". |
|||||||||||||||||||||||
|
Se falo |
de locutores |
- |
no |
plural |
- não |
é |
para cobrir os casos |
||||||||||||||||
|
em |
que |
o |
enunciado |
é referido |
a uma voz coletiva (por exemplo, |
||||||||||||||||||
|
quando |
um |
artigo tem dois |
autores |
que se |
designam |
coletivamente |
|||||||||||||||||
|
por |
um |
n6s). |
Visto |
que, |
neste caso, |
os autores |
pretendem |
constituir |
|||||||||||||||
|
uma só pessoa moral, falante de uma única voz: |
sua pluralidade apre- |
||||||||||||||||||||||
|
senta-se fundida em uma personagem única, que engloba os indivíduos |
|||||||||||||||||||||||
|
diferentes. |
O |
que me motiva |
o plural |
é |
a existência, |
||||||||||||||||||
|
/ ciados, de |
uma pluralidade |
de responsáveis, |
dados para certos enun- como distintos e |
||||||||||||||||||||
|
irredutíveis. Assim, nos fenômenos de |
dupla enunciação |
(§ |
XI), prin- |
||||||||||||||||||||
|
cipalmente no discurso |
relatado em estilo direto. |
Por definição, enten- |
1 |
||||||||||||||||||||
|
do por locutor um ·ser |
que é, no |
próprio sentido |
do enunciado, apre- |
||||||||||||||||||||
|
sentado |
como seu responsável, ou seja, |
como |
alguém a |
quem se deve |
|||||||||||||||||||
|
. imputar |
a responsabilidade deste enunciado. |
a |
ele que refere o pro- |
||||||||||||||||||||
|
nome eu |
e |
as outras |
marcas da |
primeira pessoa. Mesmo que não |
se |
||||||||||||||||||
|
leve em |
conta, no momento, o discurso |
relatado direto, |
ressaltar-se-á |
||||||||||||||||||||
|
que o locutor, designado |
por eu, |
pode |
ser distinto do autor empírico |
||||||||||||||||||||
|
' do |
enunciado, de seu |
produtor |
- |
mesmo |
que |
as duas personagens |
·' |
||||||||||||||||
|
coincidam habitualmente |
no |
discurso oral. Há |
de fato casos em que, |
||||||||||||||||||||
|
de uma maneira |
quase |
evidente, o |
autor |
real |
tem pouca |
relação com |
|
o locutor, ou seja, |
com |
o ser, apresentado, |
no |
enunciado, |
como oqucle |
|
a
quem se
ciadó.
deve
atribuir
a responsabilidade
da
ocorrência do
enun-
Suponha que meu
filho
me
traga uma
circular da
escola,
em
que
|
está |
escrito: |
"Eu, abaixo-assinado, |
autorizo meu |
filho |
a[ |
]. As- |
||||
|
sinado . |
" |
Só terei pessoalmente |
que |
escrever meu |
nome no |
branco |
||||
|
que |
segue |
a |
expressão abaixo-assinado |
(a |
menos que meu |
filho tenha |
||||
tido
tenha tido
sou o
diretor,
corro
a
cortesia
de fazê-lo
por
mim)
e
assinar
(a menos
Ora,
que meu filho
é claro que identificar:
é
não
o
muito
depois de
a imprudência de
fazê-lo ele
mesmo) .
autor empírico do
sua secretária.
o risco
de ser
texto-autor,
aliás, difícil de
educação,
de
a secretária da
o aufor
etc? . Quando
meu
nome
da ocorrência
182
abaixo-assinado
e,
em
situação
"normal",
que eu
tenha
assinado, aparecerei como
o
da
assinatura.
Mas, desde/-
locutor
do enunciado
(lem-
|
bro que considero |
"enunciado" uma |
ocorrência |
particular da |
frase) |
1 |
||||
|
Por um lado me responsabilizarei por ele |
- |
e |
o |
próprio enunciado1 |
|||||
|
uma |
vez assinado, |
indicará que |
esta |
r~sponsabilidade. |
Por |
||||
|
outro |
lado, serei o |
ser designado pelas marcas |
da primcjra pessoii, |
||||||
|
serei quem autoriza |
seu filho a fazer isto |
ou |
aquilo. Tenfíb assinado, |
||||||
|
a administração da escola poderá me |
dizer: "O |
8enhor nos mandou |
|||||||
|
um documento em |
que autoriza seu |
filho |
a . |
" |
|||||
1
Um parêntesis
I
a este propósito,
sobre o
papel
da
assinatura.
Para
|
que |
serve |
a |
assinatura? . Base~ndo-me |
em trabalhos |
de Christian |
Plan- |
|||||||
|
tio, |
considerarei dupla sua função. Em primeiro lugar, |
ela serve algu- |
|||||||||||
|
mas |
vezes |
para indicar quem |
é o locutor, |
o ser designado |
pelo |
eu |
e |
||||||
|
a quem é imputada a responsabilidade do |
enunciado. Mas |
este |
papel |
||||||||||
|
é acessório |
e circunstancial , somente: ela |
o realiza |
s6 |
quando |
é |
legí- |
|||||||
|
vel |
(o que |
não é |
de forma |
nenhuma necessário: |
Cf. |
os |
riscos |
que |
|||||
|
servem muitas vezes para assinar) |
e quando o texto |
que |
a precede |
||||||||||
não
contém
indicação
do
locuto~
(indicação
que
é
dada,
no
meu
1
I
|
exemplo, desde |
que |
a fórmula "abaixo-assinado |
" tenha sido |
preen- |
||||
|
chida). A segunda |
função, essencial, |
é |
a |
de |
assegurar |
a identidade |
||
|
entre o locutor |
indicado |
no |
texto |
e |
um |
indivíduo empírico, e a |
assi- |
||
|
natura |
realiza tal função em |
virtude |
de |
uma norma social |
que |
exige |
|||
que
a assinatura
assinar por
mim),
seja
"autêntica"
entendendo
por
(meu
filho
isto
que o
não
autor
tem
o
direito
de
empírico
da
assi-
|
natura |
deve se;:- idêntico |
ao ser indicado no sentido do enunciado, |
|||||
|
como |
seu locutor. |
Na conversação |
oral cotidiana, |
é a voz |
que |
realiza |
|
as
a
femas
duas
funções
quem
é
primeira
da
assinatura. Por
o
um
lado
ela
pode
servir
para
dar
conhecer
de
locutor,
(Cf.
ou
os
seja, quem
diálogos
é
designado pelos
aí?"
-
mor-
"Eu").
pessoa
"quem está
|
E, |
por |
outro lado, ela autentica |
a assimilação do |
locutor a |
um |
indi- |
|
víduo |
empírico particular, aquele |
que produz ~fetivamente |
a |
fala. |
||
)
1
'" / '
- f
Como no
possível
caso
esta
da
assinatura,
segunda função,
de
qualquer
outra
pessoa.
a
é,
aliás,
norma
uma
norma
social
que
impedindo
"contradizer"
torna
a voz
Não somente
pode
o locutor pode
certas
ser diferente
do
sujeito falante efe-
são
descritas
no
tivo, mas
ser que
enunciações,
tal como
|
sentido |
do enunciado, não apareçam |
como o |
produto de uma |
subjeti- |
||||
|
vidade |
individual |
(é |
o caso |
dos enunciados |
que |
Benveniste |
chama |
|
|
"históricos", enunciados caracterizados pelo |
fato |
de não veicularem |
||||||
183
J?\1
r'~
nem marca explícita,
atribuindo, pois,
nem indicação implícita
a
nenhum locutor,
de primeira pessoa, não
sua enun-
a responsabilidade
de
dente
sse:
di
no
discurso relatado em
eu virei",
como analisar,
estilo direto.
Se Pedro
diz "João me
discurso
no que concerne ao
locutor,
o
|
ciação). Vê-se |
porque escolhi uma definição da enunciação |
que não |
de Pedro |
tomado |
na sua to tal idade?. |
Encontram-se |
a{ duas marcas d é l |
|||||
|
contenha nenhuma alusão .a uma |
pessoa que |
fosse seu autor, nem |
primeira |
pessoa |
que remetem a dois |
seres diferentes. |
Ora, |
não |
se |
|||
mesmo
a
uma
pessoa
a
quem
fosse endereçada
-
já que
é essencial
pode
ver
aí
dois
enunciados sucessivos,
o
segmento
João
me
disse
|
para mim que |
a |
enunciação, na · medida |
em |
que |
ela |
é |
o |
tema |
do |
não pode |
satisfazer |
a exigência |
de independência. contida na minha |
|||
|
sentido, o objeto |
das qualificações |
contidas |
nos |
sentidos, |
não seja |
vis- |
definição |
de enunciado: ele |
não |
se apresentaria como "escolhido |
por |
|||||
|
ta, enquanto |
õbjeto |
destas qualificações, como devendo ter |
necessaria- |
si mesmo". Sou , |
pois, obrigado |
a |
dizer |
que um enunciado |
único |
|||||
|
mente uma fonte |
e |
um alvo. Quero poder dizer que |
a existência de |
apresenta aqui d ois |
locu tores diferentes, |
o primeiro locutor |
sendo |
|||||||
|
uma fonte e |
de |
um |
alvo estão entre |
as |
qualificações |
que |
o sentido |
assimilado a Pedro |
e |
o segundo |
a |
João . Assim , é possível que |
uma |
|
atribui
ções
menção
tes enunciados atribui
dade superindividual, sua origem, que não
(ou não)
históricas"
enunciação. Assim
como
não
à
poderei descrever as
sentido,
seu
"enuncia-
nenhuma
des-
subjetivi-
sobre
comportando,
no
a sua origem -
entendendo
por isso,
não que
o
sua fala.
sentido
nada
a origem de
mas simplesmente que
sua enunciação
de
ele
a alguma
não diz
exibe nenhum autor
Se
eu
fizesse intervir
um autor
na
minha
definição
de enuncia-
parte de
um enunciado imputado
glo balmente a
um
primeiro
locutor
|
seja, entretanto, imputado a um segundo |
locutor (do mesmo modo |
1 |
|||||
|
que, num romance, |
o narrador principal |
pode inserir |
no seu relato |
\ |
|||
|
o |
relato que lhe fez |
um segundo narrador) . |
) |
||||
|
Esta possibilidade |
de desdobramento |
é utilizada |
não somente |
pa- |
|||
|
ra |
dar a conhecer o |
discurso a tribuído a |
alguém , mas |
também |
para |
||
|
produzir urn eco imitativo (A : " Eu não estou bem " |
- |
B: "Eu |
não |
||||
|
ção, contidas a existência deste autor no sentido, ou seja, se sua especificação seria tornaria um tema das qualificações tarefas uma das |
estou apresentar um bem; não pense que você vai me comover ("Se com isso"), dissesse discurso imaginário alguém me |
ou vou |
para sair, |
||||||||||
|
necessárias |
da semântica do enunciado, uma das questões |
que |
o sen- |
eu lhe responderia |
"). |
I! |
ela também que permite organizar |
um |
|||||
tido
histórico
firo poder
sua enunciação,
não é
características
zando com
deveria responder, e
dá
um
a
deveria imaginar, então, que
uma
resposta
de
ele deixa
na
ordem
o enunciado
Pre-
de
esta origem
das
utili-
Jakobson, denomina-se
estas questões
metafísica.
origem
uma
Se,
dizer simplesmente que
e isto
me
tema
necessário
que
alguma
podem
na sombra a
em que
é possível
medida
das indicações
atribuir (ou
não)
uma
palavra
de
à
semânticas,
mas
enunc1açao.
liberdade
|
teatro, no |
sentido próprio, no interior |
de |
sua |
própria |
fala, |
pergun- |
||
|
J |
tando |
e respondendo (procedimento freqüentemente utilizado |
por cer- |
|||||
,
tas
personagens
de
Moliere ,
Sosie
por
exemplo, que
na cena
1,
do
primeiro ato
Alcmene,
do
outro
Amphitryon,
se representa contando a
um teatro dentro
do
permite
ainda
a alguém
mesmo discurso,
teatro) .
O
fazer-se
eus
o
batalha
de
organizando assim
do locutor
e
mesmo
porta-
que remetem
\ desdobramento
voz de
um
emprega r, no
|
"embrayeur" o aspecto da realidade extra-lingüística relativa às |
indi- |
ta |
nto ao porta-voz, quanto |
à pessoa |
da |
qual |
é porta-voz. Q uando, |
em |
|||||||||
|
cações tico e interiores ao sentido (quer dizer, situada do extra-lingüístico), direi que é a en~nciação |
na junção do lingü{s- a defini |
1'artari 11 su r |
l es Al pes , Pas c al o n , a |
t emoriz a do |
pelas impre c ações |
de |
|||||||||||
|
tal como |
Excourbanies |
(" Outre!" ), |
as |
fa z acompanhar pela fórmula h ipócrita |
|||||||||||||
|
- abstração feita, pois, do sujeito falante - que |
é o embrayeur das |
[tarascomiaise |
J " |
• . |
. qu e vous me f |
eri ez dir e", |
o |
l ocutor |
da fó rm u la |
||||||||
|
indicações semânticas: a existência eventual de |
uma fonte responsá- |
pro nunciada |
por |
Pascalon, |
quer dizer, |
a pessoa designada por me, |
é |
||||||||||
|
vel pela enunciação depende só destas indicações. |
a |
que praguejou |
"Outrel ", |
a |
saber, Excourbanies. |
~O que |
não impede |
||||||||||
|
G . Sustentei XI pessoa apresenta ado à nuances pessoa a fim à de mais acima a enunciação que a presença de marcas da um locutor, primeira assimi- certas fazer como imputável a Este princípio qual remetem. dar conta da deve receber de possibilidade sempre aberta |
Pasca lo n mesmo. de, .no mesmo discurso, empregar eus que designam ele Em lugar de considerar o como um caso particular de relato em estilo dupla enunciação, ele direto (abreviado RED) descrito com é |
||||||||||||||||
~,.,
•
~
aparecer, em uma enunciaÇão atribuída a um
atribuída
locutor,
de
uma enunciação
evi-
a
um
outro locutor.
~
isto que
se vê
uma
maneira
184
freqüência de
classifiquei
modo isolado,
independentemente
deixa
dos fenômenos
tomá-lo
que
como
na mesma
categoria
-
em
seguida
185
modelo quando
como sendo
se trata
de caracterizar
estes outros
até
fenômenos, vistos
Esta
prática
formas
truncadas, desviantes,
anormais.
|
leva a |
dar ao RED uma imagem |
que me parece às vezes banal |
e |
de |
|
forma |
nenhuma evidente, e a desfigurar por ricochete os fatos |
que |
||
|
procedem também, segundo penso, da dupla enunciação: eles apare- |
||||
cem
como
uma
cópia
já desbotado.
de
má qualidade,
feita
a partir
de
um
original
Se,
de
radamente
fato, contrariamente
ao
que
proponho, considera-se
o
RED, duas
particularidades
se impõem logo
de
sepa-
início.
|
,A primeira, que ele tem por |
flinção |
informar sobre |
um |
discurso efe- |
|||||
|
tivamente realizado |
[tenu]. |
A |
outra, |
que ele contém |
em |
si mesmo os |
|||
|
termos |
de um discurso suscetível de |
ser realizado |
[tenu] por |
um |
lo- |
||||
cutor
diferente daquele . que
faz,º.
A
aproximaçã~.destas du~s
|
r~lato. |
|||||||
|
observações conduz |
facilmente a |
1dé1a - |
em |
geral admthda |
sem dis- |
||
|
cussão - de |
que |
o |
RED procura |
reproduzir |
na sua materialidade as |
||
palavras produzidas
discurso. O
pela
pessoa
de
quem se
quer
o
lógica
palavra
utiliza para significar
dar
a
conhecer
noção
que se
expressa, por
exemplo, recorrendo
à
de
menção.
Para um lógico, uma ocorrência particular de uma
menção
quando
seu autor não a
constitui uma
|
o |
sentido desta palavra mas |
para significar a |
própria palavra, |
consi- |
|||
|
derada como |
uma entidade |
lingüfstica. Este |
é |
o |
caso nos exemplos |
||
sempiternos do
palavra
tipo
serve
mesa
"Mesa tem
quatro letras"
para designar este
elemento
onde
a ocorrência
da
da
lfngua
portuguesa
|
que é a palavra |
mesa. |
O mesmo |
se daria no RED. A parte final da |
|||||
|
seqüência |
Pedro |
disse: |
"estou contente" (a |
que está entre aspas) de- |
||||
|
signaria simplesmente |
uma frase |
da língua, |
e |
o sentido global |
da |
se- |
||
qüência
ciado.
palavras foram utilizadas
seria
Relatar
que
um
Pedro pronunciou
discurso em
esta frase,
produzindo
seria,
pois,
estilo direto
pelo autor deste
discurso. Quanto
enun-
que
aos outros
um
dizer
|
fenômenos |
que classifiquei |
na rubrica |
"dupl~ enunciação", |
(os ecos, |
|
|
os diálogos |
internos, os monólogos , o apagamento |
do porta-voz em |
|||
relação
à
pessoa
que
ele
faz falar), tudo
isto
não seria senão uma
|
forma enganosa do |
RED |
- |
enganosa |
seja porque ele não |
se reconhe- |
||||
|
ce |
como tal, seja porque |
o |
discurso |
que |
se |
pretende relatar jamais |
|||
se deu,
ou foi
realizado em
termos diferentes.
|
• |
, |
De minha parte, |
prefiro caracterizar primeiro a categoria toma- |
|||||||
|
da na sua totalidade, |
e direi |
que |
ela consiste fundamentalmente em |
|||||||
|
uma apresentação |
da |
enunciação como dupla: |
o próprio sentido |
do |
||||||
|
. |
en.unciado atribuiria |
à |
enunciação |
dois locutores distintos, eventual- |
||||||
|
( |
||||||||||
|
,~. |
186 |
|||||||||
mente subordinados -
o que
nao e
mais extravagante
que
atribuir-
|
lhe |
propriedades .jurídicas, |
argumentativas |
ou causais |
de |
que faltj |
|||
|
mais |
acima. Certamente |
do |
ponto de vista empírico, |
a |
enunciação |
é |
||
ação de
um
único
sujeito falante,
mas
a imagem
que
o enunciado
|
dá |
dela é a |
de |
uma troca, de um diálogo, |
ou ainda de uma hierarquia |
|||||||
|
das |
falas. |
Não |
há paradoxo neste caso senão |
se |
se |
confunde o lo- |
|||||
|
que |
para mim é uma |
ficção discursiva |
- |
com |
o sujeito |
||||||
|
cutor - falant e - |
que |
é |
um elemento |
d:a experiência. Esta |
tese tem conse- |
||||||
|
qüências quando se trata de descrever |
o |
relato em |
estilo direto, se |
||||||||
este
que efetivamente realizado. Mas
rências
ramente manterei
é
visto
no interior da
ele
categoria geral
da
dupla enunciação.
Segu-
foi
ocor-
que designam
as
visa informar sobre
nada
mais obriga
conistituem
um discurso que
a sustentar que
colocadas entre aspas
uma menção
entidades lingüísticas,
aquelas
que
foram realizadas
no discurso
ori-
7
J
|
ginal. Pode-se admitir |
ao contrári 10 |
que |
relato, para |
infor- |
|
|
mar sobre o fala que ele discurso original, coloca o autor do cena, em dá a conhecer supõe, simplesmente, que ela tem alguns pontos |
uma comuns |
||||
|
com aquela sobre a qual ele |
quer informar seu interlocutor. A |
verda- |
|||
de
dupla enunciação,
do
relato
não
implica,
pois,
se
o RED
é
um
caso particular
de
uma conformidade material das
falas
originais e
|
das falas |
que aparecem |
no |
discurso daquele que relata. Já |
que |
este |
|
não visa |
necessariamente |
a |
uma reprodução literal, nada impede, |
por |
|
exemplo, que, para dar
ginal,
conserva, ou
relatar em dois segundos um
a conhecer os
uma
fala
pontos importantes
da
fala
ori-
dela
direto,
ele coloca
em
cena
muito diferente, mas que
(pode-se,
dois minutos:
no
estilo
mesmo acentua,
o 'essencial
discurso de
Em uma pala-
vra, Pedro
me
disse
"eu tenho o
entre estilo
que o primeiro daria a conhecer a forma ,
suficiente") .
A diferença
direto e estilo indireto não é
l
|
o segundo, só |
o conteúdo. O estilo direto |
pode também visar |
s6 |
o |
||||||||
|
conteúdo, mas |
para fazer saber |
qual |
é o conteúdo, escolhe dar |
a |
||||||||
|
conhece r uma um |
rata (ou seja, uma seqüência |
de |
palavras, imputada |
a |
||||||||
|
locutor) . |
suficiente, para ser exato, que |
este |
manifeste efetiva- |
|||||||||
|
mente certos |
traços salientes da |
fala relatada (por |
isso |
os historiado- |
||||||||
|
res |
antigos, |
e |
boa parte dos histori ado res modernos, não têm escrú- |
|||||||||
pulos
implica fazer falar um
isto
termo
de reescrever
não implica
a termo.
que
os discursos
que
relatam) .
direto
das falas,
uma correspondência literal,
a responsabilidade
Porque
o
estilo
outro, atribuir-lhe
sua verdade
tenha
|
XII . |
Já |
que o |
locutor (ser |
dei discurso) |
foi distinguido |
do |
sujeito |
|
falant e (ser em pírico), proporei |
a1inda distinguir, no próprio |
interior |
|||||
187
1
1
.
1
|
da |
noção |
de |
locutor, |
o |
"locutor |
enquanto |
tal" |
(por |
abreviação' |
atividade oratória. Não |
se |
trata |
ele |
afirmações |
auto-elogiosas |
que |
ele |
|
"L") |
e |
o |
locutor |
enquanto ser |
do mundo |
(" Ã") . L |
é |
o responsável |
||||||||||
|
( |
pela enunciação, considerado unicamente enquanto |
tendo |
esta |
pro- |
||||||||||||||
|
priedade. |
>. |
é |
uma |
pessoa "completa" , |
que |
possui , entre outras |
pro- |
|||||||||||
|
priedades, |
a |
deser |
a::origem-do~enuncta |
o-=- |
o que |
nao impede. que |
||||||||||||
|
( |
L |
e |
À |
sejam |
seres |
de discurso, |
constituídos |
no sentido |
do enunciado, |
|||||||||
|
e |
cujo estatuto metodológico |
é, pois, totalmente diferente |
daquele |
do |
|
|
sujeito falante (este último deve-se a |
uma representação "externa" |
da |
|||
|
fala, estranha àquela que é veiculada |
pelo enunciado). Para |
fa~er apa- |
|||
recer esta
como
sua
pressa.
distinção,
descritas
como
implica
retomarei primeiro
há
pouco.
Digo
o exemplo
que
uma
interjeições tal
interjeição apresenta
ex-
somente
das
foram
enunciação
Isto
motivada [déclenchée]
que
este
sentimento
pelo sentimento
não
que
é apresentado
|
por |
meio, |
mas através |
da |
enunciação |
de, que |
é |
a origem pretendida. |
|||||
|
Ao |
dizer |
Ai |
de mim! |
ou |
Ah! |
* colore-se sua |
própria |
fala |
de |
tristeza |
||
ou de
alegria:
se a
fala
dá
a conhecer estes
sentimentos,
é
na
medida
|
em que |
é, ela própria, |
triste |
ou |
alegre. |
A alguém |
que |
se contenta |
em |
|
|
dizer "Estou |
muito triste" |
ou |
"Estou |
muito alegre", |
pode-se even- |
||||
|
tualmente |
fazer notar que ele |
não |
tem a aparência, tomando-o |
na |
sua |
||||
|
atividade |
de fala, |
nem triste |
nem |
alegre. |
Isto |
porque |
o sentimento, |
||
no
caso dos
enunciados declarativos,
ciação
como um
objeto
da
enunciação,
aparece
como
enquanto
que
exterior
as
enun-
interjeições o
à
|
situam |
na própria |
enunc1açao |
- |
jr |
que-es' a |
apresen aela como |
o |
||
|
efeito |
imediato o--senrimento- que |
ela expressa. Direi, pois, |
que |
o |
|||||
|
ser a |
quem se atribui |
o sentimento, em |
uma_,.interje~ção, |
é |
L.' |
o |
locutor |
||||||
|
visto |
em |
seu engajamento enuncitativq. |
f |
é |
a |
>., |
o contrário, |
que |
ele |
||||
(
é
atribuído
nos enunciados
declarativos,
isto _é,
ao
ser
do
mundo
que ,
|
entre |
outras |
pr9 p_dedadu |
, |
tem a de |
enmi"iar |
sua |
tristeza |
ou sua ale- |
||
|
gria (de um |
modo geral o |
ser que |
o |
pronome |
eu |
designa |
é sempre |
X-, |
||
|
mesmo se |
a identidade deste |
À |
só fosse acessível através |
de |
seu apa- |
|||||||||
|
' |
||||||||||||||
|
recimento |
como |
L). |
||||||||||||
|
Uma |
outra |
iiust ração da distinção |
>.-L, |
desta |
feita |
retirada |
da |
|||||||
|
retórica, e |
para |
a |
qual |
me apoiarei |
em |
Le |
Guern |
(1981). |
Um |
dos |
||||
segredos
é,
para
o
da
persuasão
orador,
dar
tal como
é
de
si
mesmo
analisada
uma
a
partir
de
Aristóteles
image'!l
imagem
favorável,
|
que seduzirá o ouvinte e captará |
sua benevolência. |
Esta imagem |
do |
||||||
|
orador |
é designada |
como ethos. |
e necessário entender |
por isso |
o |
||||
|
caráter |
que |
o |
orador |
atribui a si mesmo |
pelo modo |
como |
exerce |
sua |
|
•
No
188
original
Hfüsl
CHIC!
(N.
do
T.)
pode
fazer de
sua
própria
pessoa
no conteúdo
de
seu discurso,
afir-
|
mações que podem |
ao contrário |
~:hocar |
o ouvinte, mas |
da |
aparência |
||||||
|
que |
lhe confere a fluência, |
a entonação, |
calorosa |
ou severa, |
a escolha |
||||||
|
das |
palavras, os argumentos |
(o |
fato |
de |
escolher |
ou |
de |
negligenciar |
|||
tal
defeito moral).
a
argumento
L,
o locutor
pode
parecer
sintomática
de
tal
qualidade
ou
de
tal
Na
minha
terminologia, direi
enquanto
tal:
é
enquanto
fonte
que
da
o ethos
está
ligado
enunciação
que
ele
|
se vê dotado |
[aflublé] de |
certos |
caracteres |
que, por |
contraponto, |
tor- |
||||||||
|
na esta enunciação |
aceitável ou |
de~sagradável. |
O que |
o orador poderia |
||||||||||
|
dizer de si, |
enquanto objeto |
da enunciação, diz, em contrapartida, |
||||||||||||
|
respeito a Ã, |
o |
ser |
do mundo, |
e não é este que |
está em questão |
na |
||||||||
|
parte da retórica de |
que |
falo |
(a |
distância |
entre estes dois |
aspectos |
do |
|||||||
|
locutor é particularmente sensível quando |
L ganha a benevolência |
de |
||||||||||||
|
\ seu público |
pelo próprio |
modo |
como humilha >.: |
virtude |
da |
autocrí- |
||||||||
|
tica). N .B. - |
A |
teoria da c9nstmção do orador por sua fala |
é explo- |
|||||||||||
|
rada por Declercg (1983) |
para |
análise do |
teatro |
de |
Racine. |
|||||||||
|
A distinção |
de |
L e |
>. |
me |
permitirá precisar minha posição a res- |
|||||||||
peito
(trata-se
dos
"performativos
do
que
Récanati
explfcitos",
tese
à
(1981)
Cap.
IV,
qual
chama
fiz alusão
no
a
"conjectura
§
4
de
Ducrot").
A
expressão
"performa1tivos explfcitos"
-
que
não
quero
|
retomar |
por minha conta |
- |
dá |
a entender que |
é possível |
efetuar |
|||
|
um |
ato |
ilocutório pelo simples |
fato de |
se |
asseverar explicitamente |
||||
|
que |
se |
efetua tal ato. Seja, |
por exemplo, |
o |
ato de |
desejar (augurar), |
|||
|
consistindo em assumir o |
que |
um |
outro deseja, ou mesmo, na medida |
||||||
em
que
se
atribui
ao
ato
de
deseyar
uma
eficácia
empírica,
em
con-
tribuir
verbalmente
para
sua satisfação.
Para
efetuar
~~te
ato,
parece
suficiente
se diz
o
significa
afirmar
te
que
se
boas
o
realiza .
e
o
que
parece
ser!f_eito
do
H
termo.
quapdo
realizar
fórmula,
Dizen-
"Eu
de
desejo
férias" , se
mim,
no
ao
desejar
significa-: aqui
desejar, nesta
ato
desejar".
primeiro
Para
contrário,
"desejar",
se:ntido
psicológico
|
do "primeiro". |
considero |
que |
esl.e |
sentido |
está |
na origem |
de |
seu |
||||
|
valor |
de |
ação, |
e assegura |
à fórmula |
a possibilidade de realizar |
este |
||||||
|
papel. |
Se |
a fórmula permite o |
ato |
de |
desejar, |
é porque ela |
é asserção |
|||||
|
de um desejo, |
em um contexto |
em |
que |
o objeto deste |
desejo |
é |
o |
su- |
|
|
cesso |
do interlocutor. Seguramentf: |
uma |
evolução semântica levou o |
||||||
|
~erbo |
desejar |
[souhaiter] a tomar, |
por |
derivação delocutiva, o |
valor |
||||
efetuar
o
guém
derivação
"Eu
ato
que
pode
te
foi
desejo
"
produzida,
ser
("/e
efetuado,
pirncipalmente,
te souhaite
").
E,
uma
dizendo a
al-
vez
que
esta
tornou-se possível reler
a fórmula,
dando
a
·189
desejar
[souhaiterJ
este novo
sentido, o
que
leva
a ver
a{
a
asserção
|
da |
realização |
de um ato. |
Mas não é |
esta asserção |
que está |
na origem |
|
da |
eficácia pragmática da |
fórmula. |
||||
|
a~ravés |
da qualifi cação da enunciação. Que a consideração de uma |
||||
|
fo~mul~ |
tenha a eficácia necessária para a realização |
do |
ato |
de |
de- |
|
se1ar, |
e |
o |
~ue o enunciado mostra sobre a enunciação, |
e |
0 |
sujeito |
|||
|
~este |
ato |
nao pode |
ser senão |
o locutor visto no |
seu papel |
de locutor |
|||
N
.B.
-
Récanati objetou
acompanhado de
a
um
esta explicação que o
dativo, não
verbo desejar
pode significar senão a
isto
contida
ser
o
.é.
L,
como o
ne.sta
p~rttcular
e
de
responsável
fórmula,
e
pelo
enunciado. Mas
ao
mundo,
outras
quando
toma
a
asserçã~
[souhaiterJ,
que concerne
entre
L pertence
como objeto
tem
a
de
enunciação
|
realização |
do ato de desejar [souhait], |
e |
nunca o |
desejo. |
Mas |
encon- |
|
|
tram-se |
de |
fato desejar [souhaiter] , puramente psicológicos e, |
no en- |
||||
,1I
do mundo que,
.\
que
se trata:
propriedades,
da
ao comentário
|
se~ |
||||||||||||||||
|
tanto, acompanhados de um dativo. Assim, em |
O Avarento, |
cena |
7, |
feita |
globaln2ent~ pel.o sentido. |
.\ pertence |
à descrição do mundo feita |
|||||||||
|
do |
ato lll, Cléante diz a Marianne, que deve, segundo os projetos |
de |
pelas |
~sserçoes mtenores ao sentido. |
O que |
é característico |
do |
_ |
||||||||
|
Harpagon, |
tornar-se sua sogra: "C'est un titre |
que je ne vous souhaite |
formativos, ditos "explfcitos ", |
é que as asserções sobre |
>. |
são |
at |
ui:;;~ |
||||||||
|
point" |
(no sentido |
de |
"dont je ne désire pas qu'il |
devienne te |
vôtre"). |
zada~ para mostrar |
as modalidades segundo |
as |
quais |
a enunciação |
é |
|||||
|
Tudo |
o |
que se pode |
dizer |
é |
que a presença |
de |
um pronome dativo |
considerada por |
L. |
|||||||
de
particularmente freqüente, por
este verbo
segunda pessoa
com
o
verbo "psicológico"
razões fáceis
de
nas fórmulas
usadas
desejar
[souhaiter],
foi
compreender, qu~ndo
para realizar
o
ato
de
foi utilizado
|
desejar |
[souhait]: em seguida, |
o segundo verbo desejar |
[souhaiter] |
|||
|
afetado, |
por delocutividade, |
pelo valor "realizar |
o |
ato |
de |
desejar", |
|
adquiriu |
a possibilidade de uma |
combinação com o |
dativo |
como ca- |
||
racterística sintática
-
o
que reforça
em conseqüência,
a tendência
.(
|
em |
crer estar este |
verbo presente |
na fórmula. |
||||||
|
· Se resumi aqui |
a |
crítica |
da |
performatividade apresentada |
com |
||||
|
detalhe |
no capítulo |
VI, |
é porque |
a distinção |
>.-L permitirá |
uma |
me- |
||
lhor
desejar
formulação
dela.
Se
concordarmos ,
"Eu
desejo
com
[souhaiter]
da fórmula
efeito,
"
["fe
que
o verbo
souhait e
.
"1
. XIII:
!á
~ssinalei
uma primeira forma
de polifonia, quàndo assi-
nalei
• -
c1açao
ser
a ex1stenc1a
"
u~
-
ser
A
de
dois locutores
que
se
distintos em
casos d
e
pelo
imagem
fato
"d
t
up a enun-
de
da
o locutor
enunciação
torna possível
participando desta
feno~eno
de
dtscu.rso,
|
fornecida pelo enunciado. A noção de enunciador me permitirá |
des- |
||||
|
crever uma |
segunda forma |
de polifonia |
bem mais |
freqüente |
No |
do
eco tom.?do
bem
e
há
uma
pouco, alguém
segunda
pronunciara
:~empl~
.,
u
Eu
n~o
~perando
ª
as
estou
pal~vras
por
um
,
pessoa
as retomara
me comover
do locutor (cujo
nao estou bem:
no
Não creia
que você vai
eu).
com isso"
índi~
seu discurso
em desdobramento
pronome
e
quente que se . encontre em
mudança
de referente do
|
Mas é ainda |
mais |
fre- |
|
|
voz de |
alguém |
que |
não |
um discurso a
|
é utilizado primeiro para uma asserção de |
ordem |
psicológica, ·é ne- |
ten . ha |
a~ proprtedades 1que atribuí |
ao locutor. |
Na |
cena |
t |
do |
ato |
1 |
de |
||||
|
cessário dizer que seu sujeito, o pronome |
eu [jeJ, |
remete |
a |
>.: |
não é |
B.ritanmcus, |
Agrippine ironiza os propósitos |
de |
sua |
confidente |
Al- |
|||||
|
enquanto |
locutor que se experimenta |
o |
desejo, mas |
enquanto |
ser do |
|
|
mundo, e |
independentemente |
da asserção que se faz dele. Por |
outro |
|||
|
lado, o ato |
de desejar, que não existe |
senão na fala em que se |
realiza, |
|||
bme,
Agrippine:
que
atribu i
à
virtude o
comportamento
independente
de
Néron .
pertence tipicamente a
deseja.
seu segundo sentido
o
ao
L:
L
realiza
o
ato de
desejar afirmando
desejar
que
>.
Et
Fait
ce même
enlever
claro
Néron,
Junie au
que la
milieu
vertu conduit.
de
e particularmente
de Agrippine
reler a
fórmula
que se
atribuindo
é levado
de
de
ao verbo
[souhaiter]
~
la nuit.
|
ao |
mesmo tempo a compreender |
|||
|
L, |
ou seja, do sujeito |
do ato |
de |
. |
ilusão
retroativa, 'devida ao
fato
Eu
[]e] como uma
de
designação
uma
espécie
enunciado,
.qu~ e~te
desejar. Trata-se
tmado a expr1m1r nao o ponto de vista
a relativa,
é
aes-
mas
0
de Albine
|
de |
a |
fórmula |
ter |
sido |
dotada |
de |
uma |
eficácia ilocutória |
- |
mas que |
ap~es~ntado |
como |
ridículo. |
claro também que |
t~das |
as marcas |
|
|
d~ |
|||||||||||||||||
não explica
esta eficácia.
Vê-se
como
que fiz
o
entre a
as
sentido,
e
esta
tese
mostração
diferentes
190
sobre
os
performativos
se liga
da
enunciação,
que constitui
asserções
sobre
o
mundo
que
diferença
globalmente
realizam
à
se
|
pru~letra pe~soa, |
na fala |
de |
Agrippine, |
designam |
a si mesma |
e |
me |
||
|
?brigam •. |
pois, a identificá-la |
ao locutor |
(se, nos versos |
que cltei |
se |
||||
mtroduztss~
me
prévenir
uma
•
o
marca
de primeira pessoa,
por exemplo
um
";ans
me
remeteria
também a
Agrippine). Donde
a idéia
191
|
de |
que |
o sentido do enunciado, |
na |
representação |
que |
ele |
dá |
da enun- |
||||
|
ciação, |
pode |
fazer surgir |
aí vozes |
que não |
são |
as |
de |
um |
locutor. |
|||
|
Chamo |
"enunciadores" estes seres |
que são considerados |
como se |
ex- |
||||||||
pressando
1
através
1,.
palavras
precisas;
enunciação
é vista
da
enunciação, sem
se eles
como expressando
"falam"
é
que
para
somente
seu
ponto
tanto
se
lhe
atribuam
no
de
sentido
vista ,
em
sua
a
posição,
que
sua
atitude,
mas
não,
no
sentido material
do
termo,
suas palavras.
Para
definir
u noção
de
enunciador, tenho
por
vezes (Cí.
Ducrot
e outros, 1981,
rios
cados
desejo
cil
Cap.
J)
dito
que
eles
são
os
sujeitos
atos
dos
atos
ilocutó-
mar-
incitação,
difí-
Para
elementares,
de
na
entendepdo
da
frase
por isso
alguns
muito
pergunta,
pobre
de
de
gerais
mim,
propor.
estrutura
(afirmação,
Definição
enunciação
recusa,
que
é,
que
[augúrio], exclamação) .
introduzir
na
teoria
de
acabo
1
1
~·'
|
mim, com efeito, realizar um |
ato |
ilocutório é, |
de |
uma |
maneira |
geral, |
||||
|
"apresentar |
sua enunciação |
como |
obrigando |
" |
- |
e |
é |
ao sujeito |
||
|
falante que |
reservei, |
na presente |
exposição, |
a |
realização |
dos |
atos |
|||
ilocutórios:
escolhendo
um
como
ciador
obrigando
pertence
à
".
Na
imagem
enunciado,
medida
que
o
em
ele
que
"apresenta
a existência
dá
da
sua
de
enunciação
enun-
seria
um
enunciado
enunciação,
|
necessário, |
para atribuir |
os atos ilocutórios |
ao |
enunciador, |
dizer: |
"o |
||
|
enunciado |
atribui |
à enunciação |
a propriedade |
de ser apresentada |
por |
|||
um
enunciador
é muito
pouco
como
l)
a
sua,
2)
obrigando
. ".
Mas
esta
inteligível. Vê-se,
mal,
principalmente,
como
fórmula
a
enun-
|
ciação poderia |
ser |
atribuda |
a |
um enunciador enquanto |
este t'1ltimo, |
||
|
diferentemente |
do |
locutor, não |
se define |
em relação à ocorrência |
de |
||
|
palavras |
(não |
se |
lhe atribui nenhuma palavra, no |
sentido material |
do |
|
|
termo). |
Incapaz |
para |
o momento de suplantar |
estas dificuldades |
no |
|
|
quadro |
de uma construção teórica, eu tne contentarei com compara- |
|||||
ções,
primeiro
Direi
que
com o
teatro,
o
enunciador
depois com
o
está
para
o
romance.
locutor
assim
como
a
per- ;
{
|
sonagem está para o autor. |
O autor coloca |
em |
cena personagens |
que, |
|||||
|
em relação ao que chamei |
no |
§ |
3, |
a partir |
de |
Anne |
Reboul, |
uma |
|
|
,;prlmeira fala", exercem uma |
ação lingüística |
e extralingüística, |
ação |
||||||
|
que |
não é assumida pelo |
próprio autor. Mas este pode, em uma |
"se- |
|||
|
gunda fala" , dirigir-se |
ao |
público através das personagens: seja |
por |
|||
|
que |
se assimila |
a esta |
ou |
aquela pelo próprio autor. |
Mas este pode, |
|
|
em |
uma "segunda fala", |
dirigir-se ao público através das persona- |
||||
|
gens: |
seja porque se assimila a esta ou aquela que |
ele parece fazer |
||||
|
seu |
representante (quando |
o teatro é diretamente didático), seja |
por- |
|||
192
que
mostra
como significativo
o fato
de
as personagens falarem
e
se
|
comportarem |
de |
tal |
ou tal modo. |
De |
uma |
maneira |
análoga, |
o locutor, |
|
|
responsável |
pelo |
enunciado, |
dá existência, através |
deste, |
a enuncia- |
||||
J
|
~\! |
dores de |
quem |
ele organiza os pontos |
de |
vista |
e |
as |
atitudes. |
E |
sua |
||
|
posição própria |
pode |
se manifestar |
seja |
porque |
ele se |
assimila |
a |
este |
||||
ou
aquele
dos
ciador
é
então
enunciadores,
tomando-o
por
atualizado),
seja simplesmente
representante
(o
enun-
porque
escolheu fazê-los
aparecer, e
que
sua
aparição
mantém-se
significativa,
mesmo
que
ele
|
não |
se |
assimile |
a eles |
(a existência discursiva |
que |
lhes |
é |
dada assim, |
||||
|
o fato |
de |
que |
alguém |
assume |
uma |
certa posição, 'dá |
importância |
a |
||||
esta posição, mesmo
aliás,
co, ligado às
limitar?). Seria
para
aquele
que
não
a
para
leva
um
na
própria
conta:
há,
uma
outra
importância
cujo
valor
possível
possível
conteúdo lingü{sti-
de
fixar
ou
palavras
mesmo
intrínseco
levar
é impossível
mais longe
o paralelo: como o
|
enunciador |
não |
é responsável |
pelo |
material lingüístico utilizado, |
que |
|||||||
|
é |
atribuído |
ao |
locutor, |
do mesmo |
modo |
não |
se |
vê |
atribuída |
à perso- |
||
|
í |
nagem de teatro |
a |
materialidade |
do texto escrito pelo autor |
e dito |
|||||||
|
1 |
pelos atores. Se, |
por |
exemplo, em |
Les femmes Savantes, Moliére e |
os |
|||||||
|
atores se expressam |
em verso, é evidente |
que |
as |
personagens |
repre- |
|||||||
|
sentadas falam habitualmente em |
prosa. |
E |
quando |
em 4aâo |
momento |
|||||||
|
a |
personagem Trissotin recita versos, isto deve |
ser |
inditado |
por uma |
||||||||
|
1 |
dicção particular |
do |
ator e, da |
parte |
do |
autor, por uma |
forma |
de |
||||
|
verificação particular. |
||||||||||||
|
Devo sublinhar |
que a aproximação |
da dupla locutor/ enunciador |
||||||||||
|
e |
da dupla autor |
+ |
ator/personagem diz |
respeito somente |
ao |
pape( |
||||||
|
que desempenham as |
duplas nestes modos de comunicação |
que são |
||||||||||
linguagem
a
so,
teatral e
a
mesma função
a
linguagem não-teatral:
semiológica.
Suponhamos
eles
têm, segundo pen-
agora
que
se
deixe
de
lado
este
na
cena,
ponto
de
vista semiológico
não
mais como
um
modo
e
que
se descreva o
que
se passa
de
comunicação específico,
mas
|
como |
uma |
utilização, entre outras, |
da linguagem ordinária, |
do |
mesmo |
|||
|
modo |
que |
na conversação |
ou |
no |
discurso político. |
Será |
necessário, |
|
|
então, considerar |
as |
personagens, |
já |
que |
elas |
são |
os referentes |
dos |
|||
|
eus pronunciados |
na |
cena, como |
os locutores - |
o .autor |
e |
os atores |
|||||
|
aparecendo |
desta |
vez |
como sujeitos |
falantes. |
a |
mesma distinção, |
|||||
na
linguagem
ordinária,
do
apta
à
utilização
particular
locutor
que
faz
tro, relação à
narrativa
pura,
isto
é,
e
do
dela
sujeito
o
falante
o
que
teatro:
próprio
à
narrativa
sem
diálogo
a
torna
do
tea-
relatado
|
em |
estilo |
direto, |
é |
que |
a |
função |
semiológica |
de |
enunciador |
é |
neste |
|
193 |
|||||||||||
caso preenchida por um ser, a personagem, que, no que diz respeito 1 ao emprego feito da linguagem ordinária, é um locutor - de modo \ que um sujeito falante, ator de sua posição, pronuncia os eu que remetem a Don Diegue, senhor espanhol. E muito mais, a possibili- dade de uma dupla enunciação (Cf. § 11) ligada à distinção do su- jeito falante e do locutor, explica por que o mesmo ser, na cena, pode algumas vezes falar ao mesmo tempo como personagem e enquanto representante da personagem, fazendo, por exemplo, comentários sobre seu papel: em uma paródia do Cid, o representante de Don Diegue pode, no próprio interior da peça, lastimar-se que seu companheiro, ao esbofeteá-lo, tenha tido a mão pesada, assim se distinguiria:
1. O ator X, sujeito falante;
2. Um primeiro locutor, para o qual reservo o termo de. "intér-
prete", definido pelo fato de ter tal papel particular, e que pode dizer eu enquanto titular deste papel.
Um segundo locutor, a personagem vivida pelo "intérprete",
/ 3.
/ personagem que se designa igualmente a si mesmo por eu) *.
XIV. A teoria da narrativa apresentada em Genette ( 1972) me
fornecerá uma segunda comparação para procurar fazer compreender minha distinção do locutor e do enunciador. Com efeito, esta teoria faz aparecer na narrativa dois tipos de instâncias narrativas, corres-
pondendo sob muitos aspectos ao que chamei, no estudo da linguagem
/ ordinária, "locutor" e "enunciador". O correspondente do locutor é
o narrador, que Genette opõe ao autor da mesma maneira que opo-
nho o locutor ao sujeito falante empírico, isto é, ao produtor efetivo
do enunciado. O autor de uma narrativa
representa, segundo Genette, um narrador, responsável pela narrativa
e que tem características bem .diferentes daquelas que a história lite- rária ou a psicologia da criação romanesca devem reconhecer ao autor.
Assinalo três, das quais' só a primeira é desenvolvida por Genette.
Esta primeira característica, sobre a qual passo rapidamente, diz respeito à atitude do narrador em relação aos acontecimentos relata- dos. Enquanto o autor imagina ou inventa estes acontecimentos, o narrador os relata, entendendo por isso, por exemplo, ou que ele reproduz lembranças (supostas) - no caso de uma narrativa no pas-
(romancista ou novelista)
•
Em franch Ducrot usou "comédien", que traduzi por ator, e "acte11r'', que tradlizi por intlrprete. (N. do T.)
l.
.} 1'
1
194
sado -
ou que ele dá uma forma lingüística ao que ele foi levado
|
a |
viver ou a constatar - |
em certas narrativas no presente. |
|
Insistirei, sobretudo, em uma segunda diferença entre o narrador |
||
|
e |
o autor, diferença ligada à primeira. Trata-se de sua relação com |
|
o tempo. Em seu estudo sobre o tempo gramatical, Weinrich (1964) ressalta que os romances de antecipação são sempre escritos em um tempo gramatical do passado - o importante para mim é que aliás somente possam sê-lo. Escrevendo hoje um romance sobre o ano 2000, nada me impede de começar: "A cette époque la France était
un terrain vaque que se disputaient
" Vê-se nisto, por vezes, uma
extravagância ou um paradoxo, sob o pretexto que o autor, mesmo escrevendo no passado, não procura dissimular que fala de seu fu. turo. Mas o paradoxo desaparece desde que se tenha distinguido autor
e narrador. Porque o tempo gramatical utilizado pode muito bem não
tomar como ponto de refrência o momento em que o autor escreve, mas aquele em que o narrador relata, e o autor, vivendo em 1985, pode imaginar um narrador, vivendo no ano 3000, que relata o que
se passou no ano 2000.
Esta distinção do narrador (equivalente literário de meu "lo- cutor") e o autor (correspondendo ao que chamei o "produtor · efe-_ tivo ", e exterior à narrativa como o produtor é exterior ao sentido do _ enunciado) permite mesmo - é a terceira diferença que assinalarei
- fazer realizar o ato de narração por alguém de quem se diz, ao
1 mesmo tempo, que ele não existe ou não existe mais. Se para escrever é necessário existir, isto não é necessário para narrar. Por isso a possibilidade das narrativas em primeira pessoa e nas quais se relata
1 morte da personagem designada por esta primeira pessoa, como no filme de Wilder, Sunset Boulevar, filme narrado por uma persona- gem que é, no entanto, assassinada pouco antes do fim. A existência empírica, predicado necessário do autor, pode ser recusada ao narra- dor. Na medida em que este é um ser fictício, interior à obra, seu papel se aproxima do que atribuí ao locutor - que para mim é um ser do discurso, pertencente ao sentido do enúnciado, e resultante ' desta descrição que o enunciado dá de sua enunciação.
a
Ao enunciador igualmente posso fazer corresponder um dos pa- péis propostos por Genette. Vou colocá-lo em paralelo com o que Genette denomina às vezes "Centro de perspectiva" (o "sujeito de consciência" dos autores americanos), ou seja, a pessoa de cujo_pon- to de vista são apresentados os acontecimentos. Para distingui-lo do
195
narrador,
centro
que
Genette
diz que
o
narrador
"quem
vê".
é
o
E cita numerosos exemplos em
único. Assim,
apre-
a
indivíduo
em
vezes
identifi-
narra-
personagem
"quem
fala",
enquanto
o
que
de
perspectiva
é
os
A
dois papéis
não podem ser
atribuídos
a
ocorre
visão
que
um ser
que
não
narrador
em
la Recherche du
Temps Perdu,
relatam uma
narrador
pode
de
um
ser
nem
no momento
assim às
seja
~a
no
enunciação
de
que
senta acontecimentos
que
sua,
designado
no
momento em
por
eu
[je],
que
vivia
a história:
a
a
cado, através
tiva.
nível do
de
Swan
ou
de
da
de
que narra
ou
visão
seja,
e
a história, nem
a
do
ser
em
que era
narador é
o
relatada pelo
isto mesmo
que
a uma
Charlus,
primeira pessoa,
outra
Esta situação me parece próxima da que procurarei descrever,
que
enunciado, dizendo
que
se declara
responsável -
o
locutor apresenta
exprimindo
como
uma
atitudes
pode
o narrador relata,
Mas
ciadores
recusar
as
a
responsabilidade.
ou seja, ele
O
locutor fala
como
no sentido
de
um
em que
é
dado
discurso
como
a fonte
discurso.
enun-
vista manifestados
atitudes expressas
de que
neste
podem
ser atribuídas a
se distancia -
os pontos de
na narrativa podem ser
sujeitos de
consciência
estranhos ao
narrador:
Para
ilustrar esta
relação
entre
o
enunciador
e
o centro
de
pers-
pectiva, comentarei
consagradas
levando a
heures
as primeiras linhas
do navio
que
vai
Moreau :
-
de
-
de
L'Education
Sentimentale,
partir
1840,
de Paris,
Vers six
partir, fumait
à
saída
subir o Sena,
a
l 1
septembre
pres
de
bordo Fredéric
matin, la
ville
" Le
du
montereau,
|
à gros tourbillons |
devant le quai saint-Bernard". Segue |
uma |
descri- |
||
|
ção do cais que |
se pretende absolutamente "objetiva" |
e |
faz |
surgir, |
|
|
com |
o auxmo |
de uma confusão de notações isoladas, |
os encontrões |
||
1
[bousculades]
e
a
animação geral
que
precedem a
partida. Descrição
que é interrompida pelo
enunciado que
vou
comentar com detalhe:
"Enfin,
le navire
partit;
et les deux
berges, peuplées
de magasins, 'de
|
chantiers |
e |
d 'usines, filerent comme |
deux |
larges rubans |
que |
l'on |
dé- |
|
roule". |
|||||||
.
1
1.
entender
o suspiro de
um
enunciador
a
quem
ele
é,
para
retomar o
|
que disse sobre a exclamação e |
a expressividade, |
"arrancado" |
pela |
|||||
|
situação. Ora este enunciador, que |
deve assistir a cena descrita, |
que |
||||||
|
deve vivê-la, é evidentemente distinto |
do narrador |
que |
não |
tem |
ne- |
|||
|
nhuma razão para se impacientar |
ou exclamar. |
|||||||
|
Segundo indício de uma subjetividade que não |
é |
a |
do narrador, |
|||||
|
a metáfora que fecha o enunciado: "!ex deux berges |
( |
) filerent |
||||||
|
comme deux larges rubans que l'on |
déroule". Para |
ver |
as chalupas |
|||||
|
1 |
"se derouler", |
é necessário observá-las de |
um |
lugar muito particular, |
|||||||
|
a |
coberta da |
popa do |
navio. |
Deste lugar |
com |
efeito, e somente daí, |
|||||
|
1 |
de |
um lado |
se |
vêem os dois |
cais de |
uma |
só vez, e de |
outro, está |
a |
||
|
vista rio |
abaixo obstruída |
pela ilha Saint-Louis e |
a ilha de |
la |
Cité, |
||||||
|
estes cais |
"se |
alongam" |
à medida |
que |
o |
navio |
se distancia das ilhas. |
||||
Como, exatamente
senta Fredéric
depois
da
passagem
Paris,
que
da
analisei,
do
o
narrador
Moreau olhando
popa
navio, é quase
apre-
auto-
|
mático atribuir-lhe, numa |
leitura retroativa, |
a visão das chalupas |
que |
|||
|
se desenrolam e, |
voltando |
um pouco mais |
no texto, a impaciência |
do |
||
|
enfin. Vê-se, espero, neste |
exemplo, quanto estão próximas a noção |
1 |
||||
|
de enunciador |
e |
a de centro de perspectiva: elas servem para |
fazer |
|||
|
aparecer no enunciado um |
sujeito diferente |
não somente daquele |
que |
. |
||
|
íala de fato, [romancista/sujeito falante], |
mas também daquele |
de |
||||
|
que se diz que |
fala [narrador/locutor]. |
|||||
|
XV. Primeiro exemplo, destinado |
a mostrar a pertinência |
lin- |
||||
güfstica da noção de
inspirada de perto no
enunciador:
artigo,
a ironia. Darei dela
uma descrição
Sperber-
muito importante
para mim,
de
|
Wilson (1978) e |
pelo capítulo |
5 de Berrendonner |
(1981). Freqüente- |
||||||
|
rnente |
a ironia |
é |
tratada como |
uma |
forma |
de antífrase: diz-se |
A |
para |
|
levar
a entender
não-A ,
sendo considerados idênticos
o
responsá-
|
vel |
por |
A |
e |
o |
por |
não-A. Neste caso |
se trataria |
de |
uma figura, |
|||
|
sentido literal primitivo |
para |
obter |
um |
sentido deri- |
||||||||
|
modificando um vado (como o litotes transforma |
um sentido |
"um pouco" literal |
em |
|||||||||
|
Encontro neste enunciado pelo menos duas |
marcas que |
trazem |
um |
sentido "muito" derivado), a |
única diferença é |
que a transfonna- |
||||||
|
à |
tona a presença |
de uma |
personagem que não |
é |
o narrador (por co- |
ção |
irônica é uma inversão total. |
Sperber e Wilson rejeitam |
esta con- |
|||
|
modidade, suporei que |
há aqui um narrador - o que está longe de |
cepção figurativa. Para eles, um |
discurso irônico consiste sempre |
em |
||||||||
|
ser evidente) . |
A primeira |
é |
o enfin, |
que não serve somente para assi- |
fazer dizer, |
por |
alguém |
diferente |
do locutor, |
coisas |
evidentemente . |
||||||||||||||
|
nalar que um |
certo acontecimento |
é |
o termo |
de um |
desenvolvimento |
absurdas, |
a |
fazer, |
pois, ouvir uma voz que |
não |
é |
a do locutor e |
que |
||||||||||||
|
cronológico |
(como se encontraria |
em Pedro |
chegou, |
depois João e |
sustenta o |
insustentável. |
I! possível |
que minha apresentação |
da |
tese |
|||||||||||||||
|
enfim [enfin] |
Paulo). |
Ele |
tem além disso |
um |
valor exclamativo: é |
a |
de |
Sperber e Wilson seja |
um pouco infiel, |
na ·medida |
em |
que |
substi- |
||||||||||||
|
interjeição |
de |
alguém |
que |
vê terminar uma |
longa |
espera: ele dá |
a |
tuí |
sua expressão |
original |
"mencionar um |
discurso" |
pela |
expressão |
|||||||||||
|
196 |
197 |
||||||||||||||||||||||||
l
ouvir
"fazer
"mencionar"
uma
me
voz" . Se
fiz esta
substituição
é
porque
a
o
termo
é
milação do
faço-os sustentar,
enunciador
na
ao
alocutário
que
torna esta ironia
que
Pedro não
agressiva):
está presente.
parece ambíguo.
Ele pode
significar que
ironia
presença de
minha
Pedro,
|
uma forma |
de discurso |
relatado. |
Ora, |
com |
este sentido |
do |
verbo |
|
mencionar, |
a tese de Sperber e Wilson não é de modo nenhum |
admis- |
|||||
sível, já
um
que
não há
absurdo. Para
nada
de
irônico em
nasça
relatar que alguém
necessário
sustentou
toda
discur-
discurso
que
a ironia, é
que
marca de relato desapareça,
é necessário
"fazer como
se" este
Para
um exemplo
ilustrar melhor
citada
concepção, gostaria
sobretudo,
que
o
Fouquier, 1981. Em um
à mesa tendo como
O
gerente
restaurante:
"o
rei
Farouk?"
-
agora de
aplicá~
la
independente do meu cuidado
analisada
a
menos artificial (ou ,
e
em
seja
ao expor minha teoria). Trata-se de uma
restaurante
única companhia
vem estabelecer uma
senhor sabia que
artifício
"anedota",
luxo,
um
cachorro,
conversação
nosso mestre é
|
so fosse |
realmente |
sustentado, e sustentado na |
própria |
enunciação. |
de |
|||
|
Esta é |
a |
idéia |
que |
procuro deixar dizendo que |
o locutor |
"faz |
ouvir" |
seu |
um discurso absurdo, mas
que
o
faz ouvir
como
o discurso
de
.um
|
outro, como |
um |
discurso |
distanciado. |
||||
|
Minha |
tese - |
mais exatamente, minha versão |
da tese |
Sperber- |
|||
|
Wilson - |
se formularia |
facilmente através |
da distinção |
do |
locutor |
||
e dos enunciadores. Falar de
sentar a enunciação como
modo irônico é,
expressando
a
para um
de
pos~ão
locutor L,
apre-
um
enunciador.
|
Posição de que |
se |
sabe por outro |
lado |
que locutor L o não |
assume |
a |
|
responsabilidade, |
e, mais que isso, que ele a absurda. Mes- considera |
|||||
mo sendo
dado
como o
responsável pela
enunciação,
L
não
é
assimi-
|
lado |
a |
E, |
origem |
do ponto |
de vista expresso na enunciação. A |
dis- |
|
tinção |
do |
locutor |
e do enunciador permite assim explicitar o aspecto |
|||
|
paradoxal |
da ironia colocado |
em evidência por Berrendonner: de |
um |
|||
lado,
a
posição
absurda
é diretamente expressa
(e
não
mais relatada)
|
na enunciação irônica, |
e ao mesmo tempo ela |
não |
é |
artibuída a |
L, já |
||||
|
que este |
só |
é responsável |
pelas palavras, sendo |
os |
pontos |
de |
vista |
||
|
manifestados |
nas |
palavras |
atribuídos |
a uma |
outra |
personagem, |
E. |
1 |
||
|
Para distinguir a |
ironia da negação - |
de |
que |
falarei |
em seguida |
- |
' |
|||
|
acrescentarei que é essencial |
à ironia que L não coloque em cena um |
|||||||||
outro enunciador, E',
deve marcar
rente, recorrendo,
nações particulares,
nia como
que
sustentaria
de
o
de
uma
E,
é
a
certos
que
é
distinto
por
exemplo,
a
etc.
e também
"Que
ótimo! ",
ponto de
uma
vista razoável.
a
L
totalmente dife-
ento-
iro-
Se
maneira
evidência situacional,
torneios especializados na
Anunciei-lhes,
a
ontem,
que
Pedro
vma
me ver
vêem,
assumo
hoje,
Pedro
se
efetivamente
veio
a responsabilidade
como a
de que não sou
(é esta assi-
e
vocês
não
recusaram
presente, lhes
ver" .
enquanto locutor (é a
de
o enunciador podendo
acreditar.
dizer
de
Posso
modo
hoje,
mostrando-lhes
"vocês
que
irônico:
de
me
Pedro
me
Esta
enunciação irânica
um ponto
mim
que
de vista
até mesmo,
o
designa),
apresento-a
expressão
absurdo, absurdidade
neste caso,
serem vocês
freguês sentou-se
um
e elogia
pequeno
teckel.
do
do
a qualidade
cozinheiro
o antigo
"muito bem!"
|
diz |
simplesmente |
o freguês. |
O gerente, sem desanimar: |
"e |
o nosso |
||||
|
despenseiro é o antigo despenseiro |
da corte da Inglaterra. |
. |
. Quanto |
||||||
|
a |
nosso pasteleiro, |
nós trouxemos |
o do imperador |
Bao-Dai". Diante |
|||||
|
do |
mutismo do freguês o gerente muda de conversa: |
"O senhor tem a{ |
|||||||
|
um |
belo teckel". Ao que |
o freguês responde : "Meu |
teckel, |
senhor, |
é |
||||
|
um |
antigo São-Bernardo". |
Para descrever esta resposta no |
quadro que |
||||||
propus, é necessário admitir que o
expressa
o passado
análise
freguês, tomado como
gerente,
deveria
o locutor L,
a opinião, sobre
precisar o
por
do
um
enunciador, assimilado ao
teckel. Uma
mais detalhada
|
que marca, aqui, |
a assimilação |
do enunciador |
e |
do |
alocutário: |
uma |
||
|
marca, entre outras, seria |
a identidade |
de estrutura |
semântica |
entre |
||||
enunciação
a
pria
dendo
bém a
dizer, entre
conta.
por
irânica
seja,
e
as
que
na
minha
locutor
Dizer
que
o gerente
realizara
de
antes
modo
por
pró-
sério (enten-
tam-
sua
Ou
terminologia,
isso que,
das enunciações, ele
que
a
resposta
do
é necessário,
se assimilava
freguês
é
seu enunciador).
outras coisas,
irânica
assimi-
é
para interpretá-la,
|
lar a duas pessoas diferentes |
a locutor da |
enunciação e |
o enunciador |
||
|
que se expressa nesta enunciação. |
|||||
|
Nos dois exemplos |
que |
precedem, o |
enunciador |
é |
assimilado a |
|
uma |
pessoa precisa e, nos |
dois casos, ao alocutário. Mas |
a assimilação |
||||||||
|
pode |
envolver alguém difcrente |
do alocutário, |
como |
é |
o caso |
na |
auto- |
||||
|
ironia, quando |
se zomba |
de si |
mesmo. |
Eu lhes havia dito que |
cho- |
||||||
veria
hoje,
e
faz
um
tempo
ótimo,
o
que me leva a
zombar
de minha
|
competência metereológica: mostrando-lhes o céu azul, observo |
"Vo- |
||||
|
cês vêem |
bem, está chovendo". |
O enunciador ridículo |
é |
aqui |
assi- |
|
milado |
a |
mim mesmo, |
o |
que parece contradizer |
a descrição |
da |
ironia |
|||
|
proposta |
há pouco. |
De |
fato, a solução |
é imediata desde |
que |
se |
aceite |
|||
|
a distinção |
de L e |
de |
,\ (Cf. |
§ |
12). |
O |
ser a |
quem L, responsável pela |
||
|
enunciação, |
é só por |
ela, assimila |
o |
sujeito |
enunciador |
do ponto |
de |
|||
M
198
199
|
vista absurdo |
é |
> |
, |
o metereologista ignorante |
que |
se meteu |
a prever |
||
|
o tempo sem |
ser |
capaz. Mas justamente |
L, enquanto |
é responsável |
|||||
pela enunciação,
reologista:
o
que
e escolhe
ele
faz
é
o enunciado,
um
ato
de
não
escolhe agir
mete-
isto apresentando
como
zombaria, e
|
uma previsão realizada |
por |
um |
enunciador |
de |
que |
se distancia |
no |
||
|
interior |
de seu |
próprio |
discurso |
(mesmo se |
deve identificar-se a |
ele |
|||
no
proveito
mundo).
das
Por
isso, o
besteiras
de
inter~sse
estratégico
>
,
proveito
de
que
>
da
se
auto-ironia:
beneficia
em
L
tira
segui-
da,
como
Aliás,
conseqüência, já
não
é
necessário
das
L é
o
essencial
que
que
uma
de
suas
múltiplas
seja
o
figuras.
enunciador
é
que
absurdo
que
assimilado
locutor não
Poder-
a alguém precisamente. O
assume
seja claro
em
seu
nenhuma
posições expressas
enunciado.
·
|
se-ia, penso eu, definir |
o |
humor como uma forma de ironia |
que |
não |
|||||||||
|
considera ninguém em particular, |
no sentido |
em que |
o |
enunciador |
|||||||||
|
ridículo não |
tem |
identidade especificável. |
A posição claramente insus- |
||||||||||
|
tentável que |
o enunciado supostamente |
manifesta aparece |
por assim |
||||||||||
|
dizer "no ar", sem sustentação. Apresentado como o responsável |
por |
||||||||||||
|
uma enunciação |
em que |
os pontos |
de vista nãQ |
são atribuídos a nin- |
|||||||||
|
guém, o locutor |
parece |
então exterior |
à |
situação de discurso: |
defi- |
||||||||
|
nido |
pela distância que |
estabelece |
entre |
si e sua fala, |
ele |
se coloca |
|||||||
|
fora |
de contexto e adquire uma aparência de |
desinteresse . e desen- |
|||||||||||
|
voltura. |
|||||||||||||
|
XVI. Recorrendo, |
para expor |
a distinção |
do locutor |
e |
do enun- |
||||||||
|
ciador, ao fenômeno da ironia, expus-me |
à |
censura de ter pecado con- |
|||||||||||
|
tra Saussure, |
e confundido língua e fala. |
"A ironia, me |
dirão, é |
tipi- |
|||||||||
camente
um
destes
jogos
que
a fala
permite,
mas
que
são subversões
|
ou, pelo menos, deformações |
da estrutura |
da língua. |
Do ponto |
de |
||||
|
vista |
da |
língua, é necessário |
admitir. no exemplo anterior, que |
é |
o |
|||
|
freguês, |
ou seja, o |
indivíduo |
designado pela |
primeira pessoa, que |
se |
|||
|
responsabiliza pela afirmação |
sobre o teckel e |
que |
é |
seu sujeito falan- |
|||
|
te, ao mesmo tempo |
locutor |
e enunciador. Se |
se |
considera, |
que |
ela |
|
deve de fato
ser atribuída
ao
gerente, é o
efeito de uma inversão,
alte-
rando depois
jogo
.
o
dado
eu
propriamente lingüístico,
serei
inversão análoga a
bebê) ".
primeiro
infantil (Eu,
Para
a mamãe, você,
você será o
tipo, observarei
responder as
objeções deste
do
que
elas repousam
diferente
evidência
sobre
uma
concepção
no
início.
na
O
da
que
frase
lhe
da
é
que
que
propus
se decidiu ver
significação
(elemento
da
lingua)
dá
uma
aparência
de
da
frase algo
que
pa-
|
reça |
tanto |
quanto |
possível |
a |
uma |
interpretação, |
ou |
seja, a |
um |
valor |
|
200 |
||||||||||
|
semântico completo, |
suscetível |
de |
ser comunicado. Notadamente, a |
||||||
|
frase |
já deveria indicar quem |
é o responsável pelas posições nela ex· |
|||||||
|
pressas, responsável |
que |
não poderia ser o locutor, aquele que |
é |
de- |
|||||
|
signado pelo |
eu. Se |
o enunciado, |
realizado em uma |
situação |
dada, |
||||
|
implica uma |
outra imputàção, |
isto |
seria como reflexo da |
significação. |
|||||
|
De minha parte, fiz |
a escolha oposta. Partindo do fato |
de que |
a |
sig- |
|||||
t
nificação
interpretação
cutor), postulei
nunca
poderia,
(antes,
que
ela
seria
de
não
modo
nenhum,
especificaria
ver
necessário
constituir plenamente uma
quem
nela
é
efetivamente o lo-
coohJnto
somente
um
de
instruções
para
a interpretação
de
seus enunciados:
não
há
por·
|
tanto , ma i s |
nenhuma razão para |
querer qu _e esti ule |
é |
o res |
|||
|
sável pelos |
pontos de |
vista. |
J |
su 1ciente que ela marque |
o |
lugar |
|
n-
de
tal
marca o
responsável
(que
lu~
chamo
"enunciador"),
ao
mesmo tempo
_l!!_or,
responsável
pela enunciação, e
em
que
que
ela
_;,xija
dÕTnterpretante_Mcgntrar,
a quem
para
constituir
o sentido. os especificando
indiví-
even·
imputar
estas responsabilidades
-
|
~duos |
||||||||
|
tualmente |
certas restrições |
para |
realizar |
esta |
imputação. Escolhendo |
|||
|
indivíduos |
diferentes |
para |
estes |
dois papéis, |
não |
se reencontra |
um |
|
valor
semântico
já
constituído: constitui-se
um, talvez
inabitual,
mas
,~,
|
que não |
é nem mais nem |
menos "conforme |
a |
língua" |
que |
a |
interpre- |
||
|
tação "séria" habitual. Certamente não |
é, |
no |
discurso irônico, |
ao nível |
|||||
|
da |
língua, que |
se |
atribuem os dois |
papéis a atores diferentes, |
mas |
|||
|
não |
é princípio |
a |
este nível que se faz, |
no |
discurso sério, sua |
atri- |
||
|
buição a um único ator. |
||||||||
|
A esta primeira resposta, que |
não faz senão explorar, sem |
pro- |
||||||
|
curar justificá-la, |
minha concepção |
da frase |
e |
da significação, |
acres- |
|||
.[
|
centarei um argumento |
mais empírico, ou, mais exatamente, mais |
dire- |
|||
|
tamente ligado |
a fatos |
de experiência (sem ser, é |
claro, |
imposto |
por |
eles),
contestará
argumento
a
que
que
buscarei
no
fenômeno
da
negação.
negação
é
um
"fato
de
língua",
inscrito
Ninguém
frase
na
|
(sendo raramente |
o caso |
no |
que diz |
respeito |
à ironia). |
Ora, |
parece-me |
||
|
interessante, |
para |
descrever |
a negação, recorrer |
à distinção |
do locutor |
||||
do
des·
e
crever um gent il ",
enunciador.
Propus
efetivamente, em
declarativo negativo,
Les Mots
du Discours,
enunciado
por exemplo,
"Pedro não
~
pri-
como
a
apresentação
de
dois
atos ilocutórios distintos . O
|
meiro, |
A1, |
é asserção positiva uma |
relativa |
à gentileza de Pedro, ·o |
|||||
|
outro, |
A2, |
é recusa uma de |
A1. |
Ora, |
é claro |
que |
A1 |
e A2 não |
podem |
ser
imputados
assimilado
ao
ao mesmo
locutor,
e
autor.
o
de
Geralmente,
o
enunciador
de
As
~
A1
a
uma
personagem diferente
do
201
|
locutor, que pode ser |
tanto o alocutário |
quanto um terceiro. O locutor |
||||||||
|
L |
que |
assume a responsabilidade do enunciado "Pedro |
não |
é gentil" |
||||||
|
coloca |
em cena |
um enunciador |
E1 que |
sustenta |
que Pedro |
é |
gentil , |
|||
e um outro,
fü ,
ao qual L é habitualmente assimilado, que se opõe a
Et .
Esta
tese
de
Les
Mots
du
Discours,
não
posso
sou
obrigado
atribuir
a
aos
estando
então,
retomá-la
enuncia-
os enuncia-
compreen-
agora,
dores
dores ligados a
em
um
1
e
outros
ato
A2,
termos,
já que
como
fala.
atos,
mas
mais
não
de
ilocutório
nenhuma
não
como
da
a afirmação -
Torna-se
como
necessário,
pontos
der
A
entanto, o
vista opostos.
que
No
a
essencial
descrição permanece.
Sustento, pois,
}
|
maior parte dos enunciados |
negativos (explicarei mais |
à frente porque |
|||||||
|
digo somente |
"a |
maior |
parte") faz aparecer sua enunciação como o |
||||||
|
choque |
de |
duas |
atitudes antagônicas, urna, positiva, |
imputada |
a |
um |
|||
|
enunciador |
Et , |
a |
outra, |
que |
é urna recusa da primeira, |
imputada |
a |
fü. |
|
|
Mesmo |
supondo |
admitido |
o que |
acabo |
de |
dizer |
na negação, |
não |
||||
|
resulta ainda |
que |
a língua conhece |
a |
distinção |
do locutor |
e |
do enun- |
|||||
|
1 |
ciador, e |
que esta distinção deva ser |
introduzida |
na |
significação |
das |
|
|
frases negativas. |
Isto, pois, pode-se me |
objetar que |
descrevi somente |
||||
um
efeito
enunciados
da
negação
na
negativos, mas
fala,
que
perceptível certamente
no
sentido
dos
não
deve
nada
a
sua
estrutura lingüís-
trfa ,
assinalarei somente
as condições
de emprego
da expressão
ao con·
|
trário. |
Depois de |
um |
enunciado |
negativo "Pedro |
não |
é |
gentil", |
pode·. |
||
|
se encadear "ao contrário, ele |
é insuportável". |
A |
que |
o |
segundo |
enun- |
||||
|
ciado |
é "contrário"?. |
Não ao primeiro tomado |
na sua totalidade, mas |
|||||||
ao
ponto
de
vista positivo
que
este,
segundo
penso, nega
mesmo
tempo.
Ora,
esta possibilidade
de
encadeamento é
e veicula ao
se
excluída
|
o primeiro enunciado é positivo. Não |
se |
terá nunca |
"Pedro é gentil. |
|||||||
|
Ao contrário, ele |
é adorável ". Muito |
bem, dizendo |
"Pedro |
é |
gen~iJ",\ |
|||||
|
deixo |
entender ger~lmente |
que alguém_acredit~u ou declarou |
qu~·ete |
|||||||
|
não |
o |
era, mas |
nao posso fazer alusao |
à atitude |
deste enunciador |
|||||
|
virtual , |
para opor-me a |
ele através de |
ao |
contrário. |
Do que |
se |
pode |
|||
concluir que
tal
enunciador
tem
uma
presença e
um
estatuto
diferente
|
no enunciado positivo |
e |
no |
enunciado negativo. |
E |
minha |
teoria |
da |
||
|
negação dá conta |
desta |
diferença colocado |
que, |
no |
segundo caso, |
o |
|||
lugar deste
impõe
que
enunciador já está
marcado
seja
personalizado, mesmo
de
na
frase -
forma
vaga
cuja
-
significação
no
momento
:
1
|
em |
que |
se interpreta |
o enunciado. |
||||||
|
A |
esta |
análise, |
retomada |
de |
trabalhos |
anteriores, |
gostaria |
de |
|
acrescentar algumas observações.
fo rma,
Primeiro precisar
minha
(Cf.
em
que
se
distinção
trans·
p.
no
quadro
da
concepção polifônica,
negação descritiva
antiga
1
entre
negação polifônica e
Ducrot,
1972,
38,J)
|
tica. |
Este efeito |
se deve, acrescentar-se-á,· a uma |
lei |
de discurso geral, |
Moeschler, 1982, |
Cap. 1) . |
Chamava |
"descritiva" a negação que serve |
||||||||||||||||
|
segundo a |
qual, toda |
vez que se |
diz algo, |
imagina-se alguém |
que |
para |
representar um estado de |
coisas, |
sem que seu |
autor apresente sua./ |
||||||||||||||
|
pensaria o contrário |
e ao qual se |
se opõe. |
Lei |
que se aplica muito |
fala |
como |
se opondo a um discurso |
contrário. (Exemplo: |
N |
pergun- |
||||||||||||||
|
bem aos enunciados positivos: dizendo-lhe "Pedro |
é gentil", suponho |
tou |
a |
Z, que acabara de |
abrir |
as janelas, |
como estava o |
tempo, e |
Z |
|||||||||||||||
|
gerelmente |
que |
têm alguma razão |
para não |
acreditar nisto, de modo |
responde "não |
há |
nenhuma nuvem |
no céu" . Ou |
ainda, |
N, |
que não |
|||||||||||||
|
que |
uma |
resposta indelicada habitual consiste, |
de |
sua parte, em |
me |
conhece Pedro, pergunta a Z |
o |
que |
pensa dele, e |
Z afirma |
"ele não |
|||||||||||||
|
responder |
"Mas |
eu nunca disse o |
contrário" |
- |
o |
que parece mostrar |
é |
inteligente". |
Os |
dois enunciados |
poderiam ser |
parafraseados, sem |
||||||||||||
|
que |
meu enunciado apresentava um enunciador, |
diferente do locutor, |
perda de sentido, |
por enunciados positivos |
"o céu |
está absolutamente |
||||||||||||||||||
|
e |
que supunha que |
Pedro |
não |
é |
gentil. Como |
não |
se |
pode, |
neste caso, |
limpo" |
e |
"Pedro |
é um imbecil"). E |
eu |
opunha |
a |
esta |
negação a |
nega- |
||
|
apresentar no interior da |
frase |
urna marca qualquer |
deste |
enunciador, |
ção "polêmica", |
destinada |
a opor-se |
a |
uma opinião |
inversa - |
que |
||||||||||
|
não |
há |
nenhuma razão, me |
dirão, |
para supor |
que |
o morfema |
não, |
na |
seria o |
caso |
se |
os |
dois enunciados negativos precedentes |
replicassem |
||||||
|
frase negativa, marca a presença |
de um enunciador |
distinto |
do |
lo- |
afirmações |
de |
N, |
"devia |
haver ainda |
algumas |
nuvens |
no |
céu" |
e |
||||||
|
cutor: |
ele marca somente, como |
o signo |
de negação |
nas línguas |
lógi- |
||||||
|
cas, a |
inversão de |
uma proposição |
em sua contraditória. |
||||||||
|
e |
necessário, pois, que eu |
mostre, para justificar minha tese, |
uma |
||||||||
|
dissimetria entre enunciados afirmativos |
e negativos, |
e faça |
ver |
que |
|||||||
|
uma |
afirmação é apresentada |
na |
negação |
de |
urna maneira mais |
fun- |
|||||
|
damental |
que |
a negação |
na |
afirmação. |
Entre |
os' signos |
desta |
dissime· |
|
202 |
||||||||
"Creio
que
Pedro
é inteligente".
|
Hoje |
distingo |
três tipos |
de negação. As |
duas |
primeiras |
corres- |
||
|
pondem a |
uma subdivisão |
da |
antiga |
"negação |
polêmica". |
|||
J .
Chamo
prios termos
de
"metalingüística"
uma
fala efetiva
uma
negação que
contradiz
à
qual
se opõe.
Direi
que
Oll
~
o
enun-
|
ciado |
negativo |
responsabiliza, |
então, |
um |
locutor |
que |
enunciou |
seu |
|
203 |
||||||||
~·
positivo correspondente. e esta negação ." metalingüística" que permite, por éxemplo, anular os pressurfostos do positivo subjacente, como é o caso em "Pedro não parou de fumar; de fato, ele nunca fumou na sua vida". Este "não parou de fumar", que não pressupõe fumava antes", só é possível como resposta a um locutor que acaba de dizer que Pedro parou de fumar (e, de outro lado , exige que se explicite o ques- tionamento do pressuposto anulado sob a forma, por exemplo, de um "ele nunca fumou na sua vida"). e igualmente neste quadro da refu- tação de um locutor contrário que a negação pode ter em lugar de seu efeito habitual "de abaixamento" um valor de elevação. Pode-se dizer "Pedro não é inteligente, ele é genial", mas somente, como res- posta a um locutoe que tenha efetivamente qualificado Pedro de inte- ligente.
2 . Reservo agora o termo "polêmico" para a negação cuja aná- lise relembrei há pouco, e digo que ela corresponde "a maior parte dos enunciados negativos". Neste caso, o locutor de "Pedro não é inteligente", assimilando-se ao enunciador fü da recusa, opõe-se não a um locutor, mas a um enunciador Ei, que coloca em cena no seu próprio discurso, e que pode não ser assimilado ao autor de nenhum • discurso efetivo. A atitude positiva à qual o locutor se opõe é interna ao discurso no qual é contestada. Esta negação "polêmica" tem sem- pre um efeito rebaixador e mantém os pressupostos.
Como terceira forma de negação, retomo minha antiga idéia
de negação descritiva, conservando, aliás, seu nome. Acrescentando, simplesmente, que a considero como um derivado delocutivo da ne- gação polêmica. Se posso descrever Pedro dizendo "ele não é inteli- gente", é porque lhe atribuo a propriedade que justificaria a posição do locutor no diálogo cristalizado subjacente à negação polêmica:
dizer de alguém que ele não é inteligente, é atribuir-lhe a (pseudo) propriedade que legitimaria opor-se a um enunciado que tivesse afir- mado que ele é inteligente. A delocutividade tem, neste caso, o mesmo efeito que no exemplo analisado em Anscombre ( 1979): dizer que Pedro é um matuvu é atribuir-lhe o (pseudo) traço de caráter que o · leva a colocar eternamente a questões "M'as-tu vu?" (Na origem, tra- ta-se mesmo, como Anscombre mostrou, de uma alusão a um gracejo bem preciso, feito contra certos atores acusados de pergu'ntarem, constantemente "M'as tu vu dans Le Cid?", "M'as-tu vu dans Don
3.
~
,,
.Juan? , etc).
204
Minha segunda observação dirá respeito aos fenômenos de pola-
número de Hnguas, cer-
tas s;:xpressões não podem ser inseridas em um enunciado afirmativo, mas somente em um enunciado morfológico, ou semanticamente ne- gativo . Tal é o caso de fazer grande coisa, levantar lfm dedo para aju- dá-lo, e, em francês, pour autant, etc. Estes fatos parecem colocar em xeque minha descrição da negação polêmica, que leva a ler a afirma- ção sob a negação: a afirmação subjacente ao enunciado "Pedro não fez grande coisa" não constitui de fato um enunciado português pos-
ridade negativa . Sabe-se que, em um grande
sível. Vê-se imediatamente, no entanto, (tenho a presunção de supô-
na medida em que o
lo) que a objeção não afeta nossa hipótese -
elemento positivo que considero subjacente ao enunciado negativo não
é um enunciado (isto é, uma seqüência de palavras), imputável a um locutor, mas uma atitude, uma posição tomada por um enunciador
tendo em vista um certo conteúdo, quer dizer, uma entidade semân-
abstrata . Quando falo de uma proposição subjacente a "Pedro
não fez grande· coisa'', não se trata de uma proposição gramatical, mas de uma proposição no sentido lógico, ou seja, de um objeto de pensamento, da opinião segundo a qual Pedro teria muito o que fazer.
Uma vez refutada esta objeção, resta explicar o fato, bastante bizarro, e de qualquer modo fortemente contrário aos princípios de uma economia saudável, que certas expressões são utilizadas somente em um contexto negativo. Mas é necessário ver, que a fórmula "ser utilizada em um contexto negativo" pode recobrir duas idéias, bas- tante diferentes. A primeira que assimila a polaridade negativa às diversas "dependências" fonéticas ou sintáticas que impedem tal som ou tal morfema de "combinar-se" a tal outro som ou morfema. Em termos de gramática gerativa, poderia falar de um "traço contex- tual" [-Aff .] que pertenceria, por exemplo, às expressões grande coisa, em português, ou pour autant, em francês, e que interditaria sua inserção em um contexto afirmativo. Compare-se, a este respeito, pour tant e pour autant. A ambos seriam atribuídos os mesmos "tra- ços inerentes" , e principalmente o mesmo valor semântico de oposição (o de cependant) . A diferenç!J seria simplesmente que o enunciado modificado por pour antant deve ser negativo. De modo que "Pierre é grand" pode ser seguido por "Mais il n 'est pas fort pourtant", por
"Mai s il n'est pas fort pour autant", por "Mais il est faible pourtant",
e não por "Mais il est faible pour antant".
tica
205
que não quero justificar
aqui por ela mesma, e da qual mostrarei somente que ela é facilmente formulada na teoria polifônica da negação. Ela. consiste em dizer que
pour autant tem o mesmo valor semântico que de ce fait, pour cette
raison, ou ainda (se se quer levar em consideração a noção de grau
ligada a autant) cela suffit a faire conclure. Pour autant aparece assim
como um conectivo de consecução (e não mais de oposição), mas a conclusão que introduz é a de um enunciador ao qual o locutor se opõe: sua polaridade negativa não consiste em uma restrição combi- natória que imporia associar-lhe somente um enunciado negativo; ela diz respeito à colocação em cena pelo locutor de um enunciador Ei de que o locutor se distancia, e que completa um movimento conclu- sivo recusado pelo enunciador fü ao qual o locutor se assimila. Gene- ralizando esta idéia, proporei considerar as expressões de polaridade negativa como as marcas de um ponto de vista rejeitado, ponto de vista que o locutor declara inadmissível no próprio momento em que coloca em cena o enunciador que o sustenta.
N.B. 1. - Objetar-me-ão que o enunciado A, mais non - B pour autant não refuta somente o movimento dedutivo que leva de A a B, mas sugere fortemente a falsidade de B - ainda que os fatos não sejam totalmente nítidos. Minha resposta é que o uso ordinário da língua - e esta é uma das éaracter{sticas da argumentação na lingua- gem - não distingue bem "negar a coisa concluída" e "negar o mo- vimento de conclusão": em todo caso, um procedimento argumenta- tivo muito utilizado, quando se trata de invalidar um movimento conciusivo, consiste em mostrar a falsidade da proposição concluída.
Há, todavia, uma segunda solução -
N.B.
2. -
Se pour autant exige combinar-se com um morfema·
negativo ou uma expressão de valor grosseiramente negativo, não é, já o disse, em virtude de uma restrição sintática, mas porque este i;norfema ou esta expressão implicam a apresentação e a refutação de um enunciador que adota a atitude .positiva. Esta análise deixa prever que se encontrará pour autant quando a presença deste enun- ciador, sem pertencer ao próprio sentido do enunciado, tal como re-
sulta das instruções ligadas à sig~ificação da frase , é simplesmente considerada pelo locutor no momento em que fala. J! o que aparece,
por exemplo, neste trecho de um artigo de Le Monde:
demande un renforcement des mesures de sécurité dans le métro. Pour autant une action efficace rel~ve aussi de la resppnsabilité de chaque
"La R.A .T.P.
206
usager". O redator, ao redigir o último enunciado, pensava, sem dú- vida, em opo r-se a um enunciador que do primeiro teria concluído pela irresponsabilidade dos usuários.
Se minha análise das expressões de polaridade negativa é aceita,
se é levado a ver nela a manifestação, e uma espécie de cristalização
gramatical, de uma tendência bastante geral que atribui como função
a certas expressões marcar um ponto de vista do qual se assinala, ao mesmo tempo que não é o do locutor. Esta tendência não se observa somente nos enunciados negativos. Ela opera igualmente na ironia, que pode também ela, recorrer a construções específicas. O que não
é aliás de espantar, já que apresentei para a negação e a ironia des-
crições bastante ~róximas. Sua dife~ença principal é ~ue, na ironia, a ) recusa do enunciador absurdo é dtretamente executada pelo locutor (e ligada a sua entonação a suas caretas, ao fato de que chama a atenção para os elementos da situação que exigem imediatamente o ponto de vista apresentado, etc), enquanto que na negação, a recusa J
dá através de um outro enunciador colocado em cena pelo locutor
e
saltar que, na ironia, a escolha de certas palavras (escolha, relembro,
imputada ao locutor) tem como valor quase convencional marcar a repugnância do locutor pelo ponto de vista de um enunciador q ue
ele apresenta - e que apresenta sem opor-lhe um ponto de vista con- corrente. ~ o caso de expressões francesas , como C'est du proprel, C'est du /oli! (analisadas em Ducrot e outros, 1980, p. 120); fazendo aparecer um enunciador que apreciaria de modo favorável o estado de coisas do qual se fala, estas expressões marcam que o locutor tem
a opinião
Poder-se-ia falar a seu respeito de "polaridades
irônicas ".
se
ao qual este, na maioria dos casos, se assimila. Ora, há que se res- !
1
inversa.
De modo mais geral ainda, observa-se que a maior parte das co- letividades ideológicas possuem expressões que não podem ser apli- cadas a um certo tipo de objeto sem que esta aplicação seja denun- ciada ao mesmo tempo como absurda. Encontrei assim, em um artigo do Le Monde, este resumo de um discurso do presidente Carter:
"Pour Carter , la démocratie est une panacée". A própria escolha da palavra panacée faz surgir o desacordo do jornalista com o ponto de vista relatado (o de Carter). Isto porque, no mesmo contexto ideoló- gico, se deveria considerar como quase analítico o enunciado negativo "La démocratie n 'est pas une panacée", já que o enunciado positivo correspondente "La démocratie est une panacée", já é dado como
207
I'
evidentemente inadmissível:
lização
é
a negação
Na terminologia
tem
duplo
uti-
apresentada neste artigo,
marca
crença na virtude uni-
ser
emprego
com
a
esta
é
palavra,
já
impossível
de
da palavra
dizer
panacéia.
que
necessário
que se opõe
versal
refutada.
da
o locutor,
ao
empregando
uma
ao enunciador
democracia:
qual atribui
a
redundante,
negação
l Gostaria,
enfim,
de
assinalar que
este
mesmo fenômeno
de
dos
seg und os
de
a
não
enunciadores.
que
é
ou
pola-
enunciados _declarativos
imperativos nega-
|
ridade ideológica |
de que |
falei |
|
negativos é reencontrado |
em |
|
tivos .
crição
em que o
ação
uma
Para
traz,
mo s trá-l o.
devo
a propósito
certos
primeiro
-
negativo solicita
empregos
estender
aos
limitando-me, aliás,
de~·
que propus para os primeiros
a
imperativo
que ele
então,
E1 ,
cena,
segundo
descreve
a
caso motivada,
N
"Não
me
Cf.
E1
aos casos
realize
enunciado
ao interlocutor que
a fazer. O
dois
o
pretende fazer ou já começou
menos
à
primeiro ,
enunciado (apresentado,
todo
diz
pretendido,
da por
dos declarativos positivos
correspondendo
penso, pelo
vezes, além
O
tema do
ação que
às
Ducrot
está questão, e
disso,
como legítima
p.
em
Z
e outros, 1980,
E1
representa ,
128). Quando
um
abandonei" ,
seja como
a
possível
situação evoca-
enuncia-
seja como o já
sendo
aquela
que
o locutor tem
iniciado,
você
a partida de N;
ou
constatariam
me
anunciariam os
ou
você
me
abandone!.
abandonará
não
de
me
abandona
Quanto
ao imperativo negativo
a
inabilidade
a
ele solicita a
fü,
ao qual
assimilar-se,
anulação
mesmo
da
partida evocada
por
E1
(encontrar-se-á
uma
análise
do
tipo para
os enunciados
interrogativos em
Anscombre-Ducrot,
1981,
p. 17).•
Ora,
acontece
freqüentemente
ao
mesmo tempo
que
as
palavras
utilizadas
ação,
a triste
para
fazem-
his-
impedir uma ação,
na aparecer
que descrevem esta
continuando
como inaceitável.
Suponhamos,
|
tória |
de |
Z |
e |
de |
N, |
que N respondesse |
a |
Z : "Não |
seja criança!": |
o |
|
|
comportamento |
que |
se censura |
em Z (não |
aceitar a separação) é, de |
|||||||
saída, apresentado
por N
como infantil,
quer dizer,
em um
certo
nível
|
de |
lugares comuns, como |
evidentemente ridículo e digno |
da reprova- |
|||
|
ção |
dos sábios. Falarei, |
pois, ainda, |
da polaridade negativa-ideológica |
|||
|
e, |
por conseqüência, de |
um discurso |
redundante, analítico |
até, |
já |
|
que a própria maneira
cada por E
pela
qual
que
o locutor N
N
se assimile
formula
a situação
evo-
que
1
torna
necessário
ao enunciador fü
|
a ele se opõe |
(o caráter redundante |
do |
||
|
mente visto, |
se se |
supõe que |
"não |
seja |
|
208 |
||||
|
imperativo |
negativo é clara- |
|
|
criança!" |
tem exatamente |
a |
mesma
função ,
habitualmente
vendo-se o sistema
de
lugares comuns
de
referência,
que "você
é
infantil!").
que nos servem
Minha
terceira
e última observação visa
somente a tornar evi-
dente
tenha
uma alternativa
os meios de
teórica colocada pelo
que precede,
resolvê-la. O
problema aparece quando
sem que
eu
se considera
|
um enunciado |
ao mesmo tempo irânico |
e negativo.· Z considerou |
que |
||
|
poderia terminar seu artigo a tempo, |
Z, |
ao apresentá-lo a N, comenta |
J |
||
|
ironicamente: |
"Você vê, não terminei |
o artigo a tempo" . Há pelo me- |
|||
nos
teoria polifônica
qualquer enunciado negativo dizendo
dois
duas soluções
enunciadores,
para
analisar
este último enunciado
A
primeira
quadro da
seria analisá-lo como
que seu locutor coloca em cena
à personagem do locutor
no
apresentada
E1
e
fü.
aqui.
E,,
assimilado
|
na |
sua primeira conversa com |
N, prevê |
a |
conclusão do artigo no |
pra_- |
|||
|
zo. |
E2, |
assimilado |
a |
N nesta mesma conversa, coloca em dúvida esta |
||||
certeza, dúvida
A
mila
que nenhum deles
gem
não
que
torna
absurda
a
situação
da
segunda conversa.
se assi-
a
persona-
ironia
global
do enunciado
é
dos
assimilado
L
se deveria, então,
ou
seja,
na
a que
L não
a
nenhum
a que
E1
é, portanto,
enunciadores,
é
atualizado
é
minha terminologia,
que
a
(sublinho
com efeito
da
que
um protagonista
enunciação
primeira conversa:
surgiu
na
segun-
responsável pela
|
da conversa, mas |
À, |
o |
ser histórico |
do |
qual L é somente |
o |
último |
|
|
avatar). |
L, produtor |
de |
um diálogo que retoma em eco uma conversa |
|||||
|
anterior, não está investido, pois, |
em nenhuma destas personagens |
que |
||||||
|
faz falar, o que corresponde bem |
a |
minha |
definição de |
ironia. |
||||
|
Um ponto, |
ao |
menos, nesta |
análise, |
deixa-me insatisfeito. |
O |
|||
enunciador
conversa, àquela que, num
ridículo
fü
seria assimilado
à personagem N
em dúvida
momento, colocou
da
primeira
as certezas
|
de Z. |
Ora, pode-se pensar |
que |
não |
é |
isto que |
é |
colocado |
em causa |
||
|
diretamente. Isto porque a |
posição ridícula |
é |
a |
que consistiria, |
na |
|||||
|
segunda conversa, ao momento, pois, |
em que Z entrega o artigo, para |
|||||||||
negar sua capacidade de
segunda
terminá-lo:
o
fü
é, então, assimilado ao N desta
se opõe
conversa. Mas então
enunciador
Ei ,
ao
qual
fü
|
absurdamente, deveria ser também assimilado |
a um |
protagonista |
da |
||||||
|
segunda conversa, ou seja, |
a Z |
no momento em que apresenta o artigo. |
|||||||
|
Ora , para |
Z, |
no momento |
em |
que entrega o |
artigo, é difícil distan- |
||||
|
ciar-se de L, o locutor do |
enunciado irônico - |
o |
que |
não |
está muito |
||||
de acordo com minha
milação
de
qualquer
definição
enunciador
da ironia,
ao locutor
definição
enquanto
que excluí a assi-
tal.
Mesmo
que
esta dificuldade possa
para
descrever
o
diferente.
Em lugar
ser superada,
parece-me inte-
irónico,
enunciadores
ressante imaginar,
solução bastante
enunciado negativo
de
situar
todos
os
uma
|
no mesmo plano, |
nós os colocaríamos |
em dois |
níveis |
diferentes. |
No |
|
primeiro nível se situaria um enunciador |
Eo, enunciador ridículo |
as si- |
|||
|
milado a N |
no momento |
da segunda conversa. E o |
absurdo |
de N con- |
||
|
sistirá, não |
mais somente em |
refutar uma asserção |
de Z relativa |
ao |
||
|
término do artigo, mas |
a colocar em cena, em um segundo nível , dois |
|||||||||
|
enunciadores |
Ei |
e |
E:z, |
protagonistas |
de |
uma troca negativa completa. |
||||
|
E1 , assimilado a Z |
no |
momento |
da |
entrega |
do artigo , |
constataria |
que |
|||
|
tinha sido concluído, e |
E:z, ao qual |
Eo |
(é, portanto, indiretamente N) |
|||||||
se
assimilaria,
recusaria
esta
afirmação.
E1,
nesta
perspectiva,
não
corre o
de
Eo.
atribuído
risco de
Vê-se
ser assimilado a
L, pois
à
ele próprio
solução
é
uma construção
ridículo
imagi-
a diferença
a
N
não é
mais
em relação
precedente. O
de
o
de negar uma
evidência mas, o
|
nár, |
no momento |
da |
entrega |
do artigo, uma |
troca completa na |
qual |
|||
|
um |
enunciador |
E2 |
teria como |
papel |
negar |
a |
evidência sustentada |
por |
|
|
um enunciador razoável |
E1, |
de que |
Eo (assimilado a |
N) |
é também o |
|||||
|
encenador. |
O |
que se reprova, então, |
em |
N, |
não |
é adotar |
diretamente |
|||
(=
enquanto E
2
)
uma
das posições, a
ciado
afirmação e
negativo,
mas
recusa,
de desempenhar,
para assumir,
ainda
recusa, implicadas
enquanto
Eo, o
Eo,
as
pelo enun-
atitudes,
na situa-
duas
que justamente,
|
ção, é |
insustentável. |
|||||||
|
O |
problema 'teórico levantado por |
esta |
segunda solução é que |
ela |
||||
|
implica a |
possibilidade de |
subordinar enunciadores |
uns |
aos outros |
||||
|
(subordinação comparável |
ao encaixe que |
segundo Bal (1981), pode |
||||||
|
reunir as diferentes focali zações de |
um texto) . |
O que poderia compro- |
|||||
|
meter, |
pelo menos, |
a oposição |
que estabeleci |
entre |
lo- |
||
|
cutor |
parcialmente, e enunciador: o |
enunciador |
se aproxima perigosamente do |
lo- |
|||
|
cutor |
se ele tem, como |
este último, o poder·de |
colocar |
em cena enun- |
|||
ciadores. Mas
sem
por
outro
se
a enÚnciadores,
lado,
ao
fim enunciadores
a
dispensa-se
dar
liberdade
de subordinar
na base
de postular,
do
sentido, os
"conteúdos", objetos das
atitudes
emprestadas
aos enun-
Os "conteú-
ciadores, e
que representariam diretamente
a realidade.
dos"
poderiam sempre
ser considerados como
os pontos
de
vista
de
|
enunciadores de |
grau inferior. Vantagem importante se se |
quer |
che- |
|||||
|
gar |
a dizer |
que |
as "coisas" |
de |
que parece |
falar o discurso |
são |
elas |
|
próprias |
a cristalização de |
um discurso |
sobre outras |
coisas, resolvíveis |
|||
|
por |
seu |
turno |
em |
outros |
discursos. |
||
210
|
XVII . A distinção |
do locutor e |
do enunciador, |
que |
acabo |
de |
|||||
|
utilizar |
para |
tratar |
da ironia e |
da negação, |
fornece, |
de |
um modo |
|||
1
i
|
mais geral, |
um quadro para situar em lingüística |
o problema dos atos |
7 |
||||
|
de linguagem. Retornemos |
à metáfora teatral |
do |
§ |
13. Para dirigir-se |
|||
|
a seu público, o autor (que corresponde, nesta metáfora, ao locutor) |
|||||||
|
coloca em |
cena as personagens (correspondentes |
aos enunciadores). |
|||||
|
Fazendo isto, ele tem, como assinalei, duas |
maneiras diferentes |
de |
· |
||||
"dizer
alguma
coisa".
Primeiro
pelo
mento, a
tal personagem
de quem
se
falo
faz porta-voz. Assim,
de
assimilar-se, neste
no
mo-
teatro
|
de Moliere, têm-se freqüentemente certas declarações de personagens |
|||||
|
secu ndárias, apresentadas como sábias, |
por declarações |
do |
próprio |
||
|
autor |
que daria através delas |
seus próprio |
ponto de vista. Uma leitura |
||
tradicional
que,
do
atrás
por
Misanthrope
pretende,
de Philinte, declara:
por exemplo,
La
parfai te raison fuit
toute extrémité
que
seja
Moliere
|
Et veut |
que l'on |
soit sage avec sobriété. |
||||
|
(Não me |
importa |
saber o que |
pretende |
esta |
leitura: |
o essencial |
é
que
ela
seja possível).
tivas"
personagem.
estas
falas
que
o
De
uma
maneira
arbitrária chamarei
"primi-
autor
dirige ao
público assimilando-se a
uma
Mas
o
autor
pode dirigir-se
ao público
de
uma maneira
bastante
|
diferente - |
e, sem |
dúvida, teatralmente |
mais satifatória. Quando os |
|||||||
|
cóntemporâneos de Moliere denunciavam |
Don Juan |
como |
uma |
peça |
||||||
|
ímpia, o |
que |
eles reprovavam |
no |
autor |
não era |
ter |
feito |
Don |
Juan |
|
seu
porta-voz, censura
de
acentuar
a
de
grotesca,
que
constitui
de
e
fácil
de
rejeitar
inaceitável
defesa
na
medida
em
que
Moliere
A
per-
a defende.
cuidou
essencial era
sonagem
O
cena Sganarelle e tê-lo feito dizer o
através
o aspecto
da personagem.
da religião
censura
em
ter confiado a
a Sganarelle,
colocado
e grotesca na medida exatamente em que
o
a
impiedade
de
m86
de
não
ridículo
Moliere
de
é
o
fato de
ter
que disse. Moliere fala
maneira
aqui,
é
como
lhe
ao público
de
uma
tese
Sganarelle,
o instrumento
fala através
dada
a
a
Philinte:
personagem,
sua fala,
a existência
da personagem faz
parecer ridícula
|
que |
sustenta (de uma .maneira simétrica, |
se poderia dizer, |
igua~ |
||||||
|
que |
Moliere ataca a religião pelo |
fato de |
que ele4'az |
Don |
Juan |
atac4:. |
|||
|
la, personagem |
sob muitos aspectos prestigioso, |
~esmo |
se |
seus aspec- |
> |
||||
tos
negativos
aconselhassem
não
assimilá-lo
ao
autor).
Chamare~
211
"derivadas"
dereça, não mais pela mediação
fato
as
falas desta
segunda categoria, aquelas que
de suas personagens, mas
personagens,
pela
escolha
o autor en-
próprio
pelo
de
representar suas
que faz
delas.
Ora,
vou mostrar
se
diz
coisas.
é
que
esta
classificação, estabelecida
um
análogo
na
um
que uma
a
propó-
linguagem cotidiana.
ato, pode-se querer
persona-
este locutor
"pri-
de que
chamados
Moliere
sito da
Quando
dizer duas
gem,
é assimilado
mitivos"
que
linguagem teatral, tem
que um
enunciado manifesta
tratar-se
realiza
Primeiro, pode
o locutor,
tal
dos atos
identificada
a
(como é
ele
com
tal, ou
pelo fato
tais atos
enunciador:
serão
"primitiva"
a sua
a fala atribuída
a
pelo fato
ao
de
assimilado
de
pesonagem Philinte). Em
personagem
de que
seguida
chamarei
lo-
res-
"derivado"
~utor,
se
um ato
realizado pela
ao fato
identificada
este ato
está ligado
o locutor,
enquanto
|
ponsável |
pelo enunciado, escolheu colocar |
em cena |
tal |
ou |
tal enun- |
|||
|
ciador - |
mesmo |
se ele não |
for |
assimilado |
a nenhum deles (da mesma |
|||
maneira, etiquetei
de
colocar
em
assimilado a
em que
plos
"derivada"
a
fala
atribuída
a
Moliere
ele
pelo fato
seja
exem-
cena Sganarelle
e
este
Don Juan
-
embora
de atos.
não
eles). Terminarei
se vê
capítulo mostrando
dois tipos
alguns
se superporem estes
|
Começarei |
pelos atos chamados, |
a partir de Austin, |
"ilocutórios" · |
||
|
Um dos grandes problemas |
que eles |
levantam |
se deve à |
possibilidade |
|
de serem realizados
neira dita
de duas maneiras
ou
"direta",
diferentes. Primeiro, de uma ma-
ou
"primitiva"
através
de
frases
que
são
mais
I
|
menos especializadas para sua |
realização |
(assim, |
far-se-á |
um |
pedido |
||
|
pelo |
enunciado |
de uma frase imperativa, |
dizendo, |
por exemplo, a um |
|||
jornaleiro:
"Me
dê
ou
"indireta",
com
a
Folha!".
frases
que
Por
outro lado,
de maneira
"derivada"
parecem especializadas
para
atos
dife-
|
rentes |
(pode-se pedir |
a |
Folha |
ao jornaleiro pelo enunciado |
de |
uma |
|||
|
frase interrogativa como |
"Você |
tem |
a Follia?") . |
||||||
|
A |
segunda possibilidade, é, do ponto |
de vista |
teórico, |
mais |
em- |
||||
|
baraçosa. Com efeito, |
(l) parece, freqi.ientemente, artificial |
dizer |
que |
||||||
|
o locutor |
realizou efetivamente o |
ato, |
para o qual |
a frase é especiali- |
|||||||||
|
zada |
(ato |
do |
qual às vezes |
se |
diz |
que |
a frase |
é |
"marcada" |
||||
|
seria |
artificial , no meu exemplo. dizer |
que o comprador |
fez para ele) ; uma per· |
||||||||||
|
gunta |
ao jornaleiro. |
Mas, |
ao |
mesmo |
tempo, |
(2) |
pretende-se |
geral- |
|||||
|
mente derivar o ato efetivamente realizado (neste caso o |
pedido) |
a |
|||||||
|
., |
p~rtir |
do |
ato "marcado" |
na |
frase (neste caso, |
a pergunta) através |
de |
||
|
uma |
lei |
de discurso como |
"o fato de realizar |
um ato |
de |
pergunta |
|||
|
mostra que se tem interesse |
em saber a resposta. Ora, mostrar inte- |
||||||||
212
resse em
caso,
se
saber se alguém é
o
jo rnaleiro está
ou não
ou
não
capaz de
fazer alguma coisa (neste
em
condições
de vender
a
Folha)
|
não |
tem |
sentido, |
em certas situações, |
senão |
se se |
quer pedir-lhe para |
|||
|
realizá-la |
neste caso, |
pedir-lhe |
o jornal)". |
Vê-se |
imediatamente |
que |
|||
|
é difícil conciliar |
(1) |
e (2). |
Para obter, como pretende (2), |
uma deri- |
||||
|
vação do |
pedido |
a partir da |
pergunta através |
de |
uma lei |
de |
discurso, |
|
é necessário admitir que
de
a enunciação
realizou
efetivamente
(1).
pergunta.
Ora,
é justamente isso que
é
negado em
um
ato
Distinguindo locutor e enunciador,
abre-se
o caminho
para
uma
solução,
caso
rogativa
da
qual indicarei
em virtude de
somente as
linhas
exemplo. Direi
gerais
as
e
mantendo-me
que uma
frase
duas instruções
no
particular que me
dá,
serviu de
sua
inter-
seguin-
significação,
|
tes aos |
ouvintes que devem construir o |
sentido |
dos |
enunciados |
desta |
||
|
frase: |
|||||||
|
a) |
estes enunciados |
devem |
fazer |
aparecer |
um |
enunciador |
que |
exprime
sua dúvida
no
que
concerne
à
proposição sobre
a
qual
b) quando
incide
dúvida
a
interrogação;
este enunciador
deve
deve ser
ser
é assimilado
ao
como uma
locutor, a
pergunta,
ou
expr,essão
seja,
da
relida
descrita
a
o alocutário a
enunciação
responder.
deste
como obrigando
prever
um ato
A
partir
valor
da
atos
frase, pode-se
ilocutórios
pergunta,
de
duas possibilidades
à enunciação. Haverá
no
tanto
que concerne aos
um ato
ligados
quanto
"primitivo"
"derivado"
-
|
que |
pode |
ser, |
entre |
outros, |
um |
ato |
de |
pedido. |
Volto |
à frase "Você |
|
|
tem |
a Folha?" . Em |
virtude |
de (a), |
seus enunciados apresentam |
um |
||||||
enunciador
plares
ou
intenção
que expressa sua
Folha.
de
se
Se
dúvida quanto
pode
ao jornaleiro
ao
ser,
ter exem-
locutor,
o enunciado, a
em vir-
da
este enunciador
atribuir
a ele,
a
dúvida,
ser assimilado
seja , se
pode
expressar
enquanto escolheu
então
o enunciado deve
|
tude |
de |
(b), visto como |
uma pergunta (realizada de maneira "primi- |
|||||
|
tiva", |
"direta") . Este seria claramente o |
caso |
se |
o |
enunciado |
apa- |
||
|
recesse numa pesquisa sobre a distribuição |
da |
imprensa . Suponhamos |
||||||
|
em compensação |
que |
não |
se possa |
atribuir |
ao |
locutor a |
intenção |
de |
|
que falei |
(é |
o caso se |
a frase é pronunciada por um eventual cliente), |
|||||
|
e , pois, que não se possa assimilá-lo ao enunciador. |
A frase , então, não |
|||||||
|
obriga mais |
a compreender |
o enunciado |
como |
uma pergunta. |
Mas |
|||
|
isto não impede de fazê-lo servir para |
um |
outro |
ato ilocutório. Isto |
|||||
|
213 |
||||||||
porque o próprio fato de colocar em cena um enunciador, expressan- do sua incerteza, pode aparecer em virtude de uma lei de discurso, como servindo para fazer uma pergunta. O locutor "representa" a
dúvida -
e por esta re-
presentação revela uma outra intenção.
Vê-se a diferença entre esta concepção e a concepção habitual, segundo a qual a lei de discurso transforma um ato "primitivo" do locutor, em um outro ato de locutor, dito, então "derivado" - o que supõe, contra a evidência, que o ato "primitivo" é efetivamente realizado pelo locutor. Na minha concepção atual, a lei de discurso deriva o ato indireto atribuído ao locutor a partir da colocação em cena, pelo próprio locutor, de um enunciador do qual se distancia; ora, esta colocação em cena, ligada à frase, permanece um fato incon- testável, mesmo se o locutor não é assimilado ao enunciador.
N .B. - No Cap. IV, que retoma um artigo antigo em que utilizo
a concepção habitual dos atos indiretos, diz-se que a frase interroga- tiva não serve fundamentalmente para a expressão de uma incerteza, mas é marcada para a realização de um ato ilocutório primitivo de
pergunta. Certamente sou levado agora a abandonar esta maneira de ver - já que (a) situo a expressão de uma incerteza na própria signi- ficação da frase, e que (b) subordino o ato primitivo de pergunta à assimilação do locutor e do enunciador. Mas esta mudança não afeta
o argumento que tiro, neste Cap. 1V, dos atos ilocutórios. Permanece
que a significação da frase interrogativa, de um lado, não comporta a
asserção de uma incerteza, e, de outro, faz mais que expressar tal
incerteza: é-lhe inerente prever uma possível descrição da enunciação corno criando uma obrigação de resposta - no caso em que o locutor
e o enunciador são assimilados. Permanece-se, pois, no "estruturalis-
mo do discurso ideal": o valor semântico de uma entidade lingüística
é sempre definido em relação à continuidade que se pretende dar.
XVIII. A distinção dos atos primitivos (realizados pela assimi- lação do locutor e do enunciador) e dos atos derivados (que o locutor realiza por colocar em cena enunciadores expressando sua própria ati- tude) extrapola o domínio do que se chama habitualmente "ilocut6- rio". Retomo primeiro o exemplo da ironia de que me servi há pouco.
O freguês, na réplica, apresenta o gerente do restaurante (no sentido
em que Moliere apresenta Sganarelle defendendo a religião) susten-
no sentido em que Moliere, por intermédio de Sganarelle
"representa" um certo modo de defender a religião -
214
tando, o propósito do teckel, uma posição absurda. ~ esta apresenta- ção que permite ao freguês, locutor da réplica, realizar um ato deri- vado de zombaria, do qual se beneficia enquanto locutor: ele se apre- senta como inteligente, desprendido, agradável, divertido, etc. O enun- ciado irônico (diferentemente do enunciado negativo), na medida em que não mostra nenhum enunciador ao qual o locutor possa ser assi- milado, não serve para realizar nenhum ato primitivo - particulari- dade que deveria ser introduzida na definição geral da ironia.
Segundo exemplo, o da conjunção ·mas. Desde muito J. C. Ans- combre e eu descrevemos os enunciados do tipo "p mas q dizendo que o primeiro segmento (p) é apresentado como um argumento para
uma certa conclusão (r), e o segundo para a conclusão inversa. Mas este. quadro geral, que mantemos, admite um grande número de casos
bastante diferentes . Isto principalmente rios casos em que
pé introduzido por um certamente. Vocês me propõem irmos esquiar, e eu recuso seu convite respondendo "certamente o tempo está bom, mas estou com um problema nos pés". O emprego de certamente me serve aqui para atribuir a vocês, uma argumentação do tipo "O tem- \ po está bom, devemos ir esquiar", argumentação que vocês podem não ter formulado explicitamente, mas eu lhes credito ao mesmo tem- po em que a rejeito através do contra-argumento "estou com proble- ma nos pés". Anscombre e eu descrevemos os enunciados deste tipo dizendo que eles colocam em cena · dois enunciadores sucessivos, Ei e E2, que argumentam em sentidos opostos, o locutor se assimilando a E2, e assimilando seu alocutório a Ei. Embora o locutor se declare de acordo com o fato alegado por E1, ele se distancia, no entanto, de E,: ele reconhece que faz bom tempo, mas não o afirma por sua própria conta. Ora, tal distinção é imposta pela significação da frase, e, mais precisamente, pelo emprego de certamente, impossível se o locutor se assimila ao enunciador asseverando p. Eu peço a vocês para me descreverem seus esquis, que não conheço. Vocês poderão me responder "Eles são compridos, mas leves", ainda que fosse bi- zarro, na mesma situação, anunciar-me: "eles são certamente compri- dos, mas leves". t que certamente marcaria, de sua parte, um acordo tardio com a asserção de outra pessoa, atitude que não corresponde bem ao que peço a vocês, a saber, fazer uma descrição. Aqui ainda é, pois, útil, para descrever a frase, quer dizer, a entidade lingüística, supor que ela distingue entre o locutor e o enunciador, e comporta, entre suas instruções, diretivas para determinar, no momento em que se interpreta o enunciado, a quem se deve atribuir estes papéis.
particulares
215
A
partir
desta distinção,
o tempo
aparece
uma
distinção como
com problemas
corolário,
o enunciado complexo
nos pés ",
que concerne aos
"certamente
atos realizados. Disse que
está bom, mas
estou
|
cuja responsabilidade global |
é atribuída ao locutor X, coloca |
em |
cena |
||||||
|
dois |
enunciadores. |
O primeiro argumento a favor de esquiar, |
dizendo |
||||||
|
que |
faz |
bom tempo. Mas o locutor |
se assimila |
a um segundo enuncia- |
|||||
|
dor, |
ao |
que argumenta contra |
a saída planejada, ainda que |
o primei- |
|||||
|
ro seja assimilado a |
outra pessoa, talvez, por exemplo, ao alocutário. |
||||||||
|
Isto não impede que |
se realize um ato de linguagem tanto na primeira |
||||||||
parte
do enunciado
ato
quanto
na
segunda.
Na
segunda, realiza-se
ouvir um
do
ato
de afirmação
que
um
"primitivo",
de afirmação,
O
que
se faz,
e, mais
na primeira, é
argumentativa.
chamo
argumentando
tancia (dando-lhe, no
part~cularmente,
um
fazer
ato
derivado,
qual se
de
um
"ato de concessão": ·ele
consiste em
enunciador
dis-
no sentido oposto ao
caso, pelo
uma
certa forma
do
ato
de
é
possível
seu, enunciador
menos das
concessões
de
personagem
introduzidas
tira-se proveito
falar. Gra-
ho-
por
do
ças
certamente,
de acordo). Deste ato
zombaria
de
construir-se
que acabo
a
mesmo modo que
a sua
concessão,
|
mem |
de espírito aberto, |
capaz |
de levar |
em consideração |
o |
ponto |
de |
|
|
vista |
dos outros: todo mundo |
sabe |
que a concessão é, entre |
as estra- |
||||
tégias
ao comportamento dito
de persuasão, uma
das
mais
"liberal".
eficazes, essencial em
todo caso,
|
Meu último exemplo é relativo |
aos |
fenômenos |
de pressupos1çao |
||||||
|
que |
podem ser tratados melhor, espero, |
do |
que tenho feito |
até aqui, |
|||||
|
no quadro |
da polifonia e da concepção |
"teatral" dos atos |
de lingua- |
||||||
|
gem. |
Seja o |
mais tradicional dos enunciados |
com pressupostos: "Pedro |
||||||
|
parou de fumar" . |
Em Dire et ne pas Dire, |
propunha |
ver neste caso |
a |
|||||
|
realização pelo locutor de dois atos, |
um |
de |
pressuposição, relativo ao |
||||||
|
pressuposto |
"Pedro fumava anteriormente", |
e outro |
de asserção, rela- |
||||||
tivo
de
ciadores,
suposto
mite
ao posto
um modo
Ei
realizar
"Pedro
não
fuma
atualmente".
Diria
que
Eu
o descreverei
ele
apresenta
~ais
hoje
enun-
pres-
per-
aquele
um pouco
e
fü,
ato de
diferente.
responsáveis, respectivamente, pelos conteúdos,
enunciador
fü
é
afirmação.
assimilado
ao locutor, o
que
Quanto
ao enunciador
Et,
e posto. O
um
|
segundo |
o qual Pedro fumava anteriormente, |
ele |
é |
assimilado |
a |
um |
|
|
certo SE•, |
a uma voz coletiva, no interior da |
qual |
o |
locutor está |
loca- |
||
|
lizado (utilizo neste ponto |
as idéias de Berrendonner, 1981, Cap. |
II). |
|||||
• Traduzimos aqui o terminação.
216
ON
francês. Este
SE,
então,
é
relativo
à
forma
de inde-
|
Assim, |
no |
nível dos enunciadores, não |
há, pois, |
o |
ato |
de |
pressupo- |
|
|
sição. |
Mas |
o enunciado |
se presta, entretanto, para |
realizar |
este ato, |
|||
de
um
modo derivado, na
ter
medida
de
em
que
faz
voz coletiva
A pressuposição entraria,
ouvir uma
e
denunciando os
assim, na
erros passados
Pedro.
de
mesma categoria
mostrado, a
a metáfora teatral
dos atos
partir
zombaria
concessão.
que
Espero
ou
destes
três. exemplos, o
estudo
a ana-
lin-
logia,
pode fornecer ao
estritamente
|
güístico. |
Dizendo |
que o locutor faz |
de |
sua enunciação |
uma |
espécie |
/ |
||||
|
de representação, em que |
a fala |
é dada |
a diferentes personagens, |
ós |
/, |
||||||
|
enunciadores, alarga-se |
a |
noção |
de |
ato |
de linguagem. |
Não |
há mais |
\ |
|||
nenhuma
razão
para privilegiar aqueles
"séria"
(pela
assimilação
do
locutor a
que
um
são
realizados
enunciador).
de maneira
e
se
pode
considerar como igualmente
própria escolha
encenadores
se fala
enunciadores.
"normais"
aqueles
que
sempre
que são realizados
são realizados
Nem
num
pela
dos enunciadores, aqueles
da
de
representação enunciativa .
modo imediato,
mas
enquanto
no
caso nem
outro
com a mediação dos
N.B.
1.
-
Este
tratamento
da
pressupos1çao
permite precisar
o
estatuto pragmático
implicado pela
de
lhoria
mação
situação
levanta dificuldades
das nominalizações:
sujeito
que engajamento
gramatical
de
um
da
situação
11
pessoal
está
utilização, como
nominal
do
tipo
de vida".
"a
enunciado,
ou
"a me-
de afir-
a
que
que
um
grupo
do
e
nível
de
degràdação
Antes, dispondo
só
teria
respondido
o nível
de
vida
que
se
pode
continuar
dos conceitos
se
pressupõe
melhora. Resposta
o
pressuposição,
que
se degrada ou
porque
discurso negando a
|
realidade destes fatos: |
assim, |
"A |
melhoria do nível de vida é |
uma |
|
|
pura invenção do governo". |
Diria agora que o característico |
da |
no- |
||
|
minalização é fazer aparecer |
um |
enunciador, ao qual o locutor |
não |
||
está
Quando
assimilado, mas
à
inclusão
do
que
é assimilado a
neste
SE,
locutor
uma
voz coletiva, a
o
fenômeno sintático
um
da
SE.
no-
|
minalizaÇão não diz nada a respeito, nem positiva nem negativamente. |
||||||
|
Se, por tal ou tal razão exterior |
à frase, |
fica claro |
que |
o |
locutor faz |
|
|
parte do SE, obter-se-á |
um ato derivado |
de~pressuposição, |
mas isto |
|||
|
não é senão uma possibilidade entre outras. |
||||||
N.8 .
2.
-
ainda,
quanto
Destas observações
sobre
é necessário
distinguir -
o
ato
de pressupor resulta,
como propus
na secção
XII
|
- |
entre |
o locutor enquanto ·tal |
(L) e |
o locutor enquanto |
ser do |
mun- |
|
|
do |
(Ã). |
Acabo de dizer, com efeito, |
que quando |
há pressuposição, |
|||
assimila-se
um
dos
enunciadores
a
um
SE,
no
interior
do
qual
o
217
locutor está
localizado.
Objetar-me-ão
que a pressupos1çao torna-se,
nesta concepção,
patticular das
afirmações
um
caso
chamei
"pri-
que
mitivas", quer
dizer,
daquelas
qué
são realizadas
pela assimilação
do
locutor e
de um
enunciado'r.
Para responder, é
necessário
especificar
que o locutor integrado ao
SE não· é L,
o locutor enquanto
tal, mas
>
BIBLIOGRAFIA
ou seja, um
ser considerado existente fora
do- discurso (mesmo
se for
identificável somente
seu papel
de
L no
interior do discurso).
por
O
que significa
o conteúdo pressuposto não é mais levado em conta
que
ANSCOMBRE,
J. e. -
"II
était une
fois une princesse aussi belle que
na escolha
do enunciado
(escolha
imputada
a L).
bonne",
Semantikos,
n .º
1,
1-28,
19J5.
pp.
Explico,
assim,
que dizendo
----- . "La problématique
"Pedro parou
de
de
l'illocutoire dérivé",
fumar" , não
Langage
se
et
apresenta como afirmando, na
Société,
2,
fala atual, que
17-41,
1977.
Pedro
pp.
fumou antes.
sua
Simplesmente representa-se
esta
interior
de seu
----. "La
crença no
discurso,
délocutivité généralisée",
Recherches linguistiques,
e se lhe
dá como sujeito, entre outras
Université de
indivíduo que estava
Paris
pessoas, o
VIII, 8,
5-43, 1979.
pp.
e está ainda fora
de
sua enunciação.
Do
que resulta esta característica
---- . "Voulez-vouz
dériver
moi?",
Communications,
avec
da pressuposição: Assumindo
32,
a responsabilidade de
um conteúdo, não
61-124, 1980.
pp.
a responsabilidade
se assume
da
deste conteúdo, não
asserção
se faz
----. &
DUCROT, O.
- "L'argumentation dans la tangue",
desta asserção o
fim pretendido
de sua
1 implica
própria fala,
(o que
Langages,
42,
5-27,
1976.
Reeditado
pp.
a impossibilidade,
Anscombre-Ducrot,
definidora,
em
para mim,
da
pressuposição, de
enca-
1983.
dear com
os pressupostos).
··
&
. "Echelles
implicatives,
----.
échelles
argu-
fTradução:
Eduardo Guimarães)
mentatives
et !ais de discours",
Semantikos,
n.º
2
e 3,
30-43,
pp.
1978. Reeditado
em Anscombre-Ducrot,
1983.
&
. "Lois logiques et
---- -.
lois
argumentatives ",
Le
François moderne,
347-357, 1978,
35-52,
pp.
1979.
Reedi-
pp.
tado em
Anscombre-Ducrot,
1983.
&
. "Interrogation
-----.
et
argumentation",
Lan-
52 ,
5-22.
Reeditado
gages,
pp.
Anscombre-Ducrot,
em
1983.
----. &
. L'argumentation dans
la
langue,
Mar·
daga, Bruxelas,
1983.
J. -
AUTHIER ,
"Les
formes
du
discours
rapporté",
D.R.L.A.V .,
Université
de Paris
VII 1,
17,
1-88,
1978 .
pp .
BAL,
M. -
"Notes
narrative
embedding",
on
Poetics
Today,
pp.
41-59,
1981.
BANFIELD,
A.
- "Ou
l'épistémologie,
Je
style
la
et
grammaire
la
théorie littéraire ",
rencontrent
Langue française,
44,
9-26,
pp.
1979.
BARTHES ,
R.
- "La
délibé ration",
Tel Que/,
82,
8-18, 1979.
pp.
BENVENISTE,
E.
Noms
d'agent
noms d'action
et
indo-eu-
-
en
ropéen,
Maisonneuve,
Paris,
1948.
218
219
,
Viel mehr als nur Dokumente.
Entdecken, was Scribd alles zu bieten hat, inklusive Bücher und Hörbücher von großen Verlagen.
Jederzeit kündbar.