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| Texto Integral da Entrevista Entrevista: Professor Túlio Vianna - Tema: Direito Penal e Crimes

| Texto Integral da Entrevista

Entrevista: Professor Túlio Vianna - Tema: Direito Penal e Crimes Informáticos.

Data: 10/05/2002

Nome do Entrevistado: Dr. Túlio Lima Vianna

Horário: 16:00

Aberta a Sessão (10/05/2002 16:35)

Túlio Vianna (Entrevistado) entra na sala

NPJ (Coordenador) para Todos: Estamos iniciando nosso chat com o Professor Túlio Lima Viana, Professor de Direito Penal da PUC Minas, Mestre em Direito Penal da UFMG, sobre o tema "O Direito Penal e os Crimes Informáticos".

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) entra na sala

Túlio Vianna (Entrevistado) para Todos: Gostaria inicialmente de agradecer o convite do Canal de Direito da PUC e manifestar minha alegria em conhecer este pioneiro projeto da nossa PUC-Minas que certamente muito tem a contribuir na divulgação da produção acadêmica de nossa Universidade.

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: Boa tarde!

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: Boa tarde!

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: Gostaria de saber se já há no Brasil um projeto de lei que trate dos crimes informáticos, e qual a opinião do professor a respeito desse projeto.

Klaus (Entrevistador) entra na sala

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: Sim, há alguns projetos em tramitação no Congresso Nacional visando disciplinar os delitos informáticos. Um deles, inclusive já se encontra em fase bastante adiantada. A principal virtude deste último é disciplinar o acesso não autorizado a sistemas computacionais que hoje no Brasil não é crime. Entre os equívocos ressalto o tamanho da pena imposta a estes crimes que me parece ser demasiadamente exagerado.

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: Quais penas o senhor considera ideais para os crimes informáticos?

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: Apesar de o ordenamento jurídico brasileiro não prevê a pena de prestação de serviços comunitários como pena principal, defendi em minha dissertação de mestrado que este tipo de pena deveria ser utilizada para punir os delitos informáticos. Não há sentido de mandar um réu primário para a cadeia pela prática de um crime informático. Melhor seria, aproveitar suas habilidades condenando-os a trabalhar ministrando cursos a policiais ou criando programas de computadores para empresas públicas.

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: já ouvi em palestras

que a ação de vírus apagando dados de disco rígido não configura crime de dano. O senhor concorda com isso? Por quê?

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: Provavelmente o argumento de quem defende esta tese é de que em direito penal não se pode usar a analogia em desfavor do réu. Mas o art. 163 considera crime de dano a

destruição, inutilização ou deterioração de COISA alheia. Ora, um arquivo de dados armazenado em meu computador que o vírus destrói não é

coisa? Se não é animal, vegetal ou mineral tem que ser coisa

se eu gravo por cima de uma fita de vídeo na qual está gravada uma

cerimônia de casamento

uma mera alteração magnética imperceptível pelos olhos humanos? Penso que tanto no caso da fita de vídeo quanto na destruição de arquivos por vírus informáticos não há dúvidas: está configurado o crime de dano.

imagine

não haveria dano simplesmente porque houve

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: Esse raciocínio também é válido para sites? Parece que um juiz argentino, recentemente concluiu que um código html não é coisa, portanto, não podia ser alvo de dano nem hacking.

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: A Argentina, assim como o Brasil não tem uma lei específica disciplinando os delitos informáticos. Não sei se o tipo penal de dano do Código Penal Argentina disciplina a matéria no mesmo termo do nosso, ou seja, como destruição de COISA. Supondo que sim, se um hacker invade o site e apaga os arquivos html, certamente haverá crime de dano. O problema é que o juiz tem uma

formação jurídica e não técnica e muitas vezes é difícil para ele perceber que um arquivo de computador é uma coisa. Aliás, fico pensando: se não

é coisa, é o quê?

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: O que o senhor pensa da violação de direitos autorais ser crime? Não seriam suficientes sanções administrativas? É possível manter esse tipo de proteção na Internet?

Semíramis (Entrevistador) entra na sala

Semíramis (Entrevistador) para entrevistado: Boa tarde! Alô, alô, cheguei tarde?

NPJ (Coordenador) para Todos: Boa tarde Semíramis, seja bem vinda,

o chat está em andamento, aproveite para enviar suas dúvidas.

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: O problema é que as pessoas de um modo geral acreditam que somente criminalizando condutas pode-se reprimí-las o que evidentemente é um erro. Uma multa administrativa, por exemplo, muita vez, tem um efeito de prevenção geral muito maior que uma pena privativa de liberdade, pois sua aplicação é muito mais célere enquanto que no direito penal, pela própria gravidade das penas, temos que obedecer a todo um processo legal cheio de garantias que conseqüentemente o torna bastante lento. Quanto se a proteção dos direitos autorais é possível na era da Internet, creio que não. Os textos, fotos, músicas e filmes em formato digital são facilmente copiáveis e dificilmente alguém poderá coibir isto com leis. Aliás, tenho uma posição bastante radical em relação a este assunto: a quem interessa esta proteção do software? Aos autores? Talvez, mas é fato notório que a maior parte dos direitos autorais vai para as editoras e gravadoras e não para o autor. Não acredito que a produção cultural de

um modo geral será fortemente afetada se acabarmos com a proteção aos direitos autorais. Eu não deixaria de escrever um livro simplesmente

por saber que não ganharia dinheiro com ele autores também não.

penso que a maioria dos

Semíramis (Entrevistador) para entrevistado: O Senhor não acha que é utopia controlar os crimes pela internet?

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: Em rigor, o controle de todo e qualquer crime é meio utópico. Se pensarmos bem os criminosos que estão presos, são aqueles que fracassaram em suas "carreiras". Com os crimes na Internet, penso que não será muito diferente: alguns criminosos acabarão sendo processados, julgados e condenados, mas muitos - talvez a maioria deles - jamais serão presos. Mas isto não é um problema exclusivo do Direito Informático, mas do próprio sistema penal como um todo.

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: o que o senhor pensa

a respeito dos softwares de código-fonte aberto? Eles podem ser uma alternativa à pirataria de software?

Danilo (Entrevistador) entra na sala

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: Certamente. Penso que são o futuro em termos de tratamento de direitos autorais. Os códigos fechados possuem uma série de inconvenientes (mesmo os gratuitos), pois não permitem ao usuário a sua personalização e até aperfeiçoamento. Por outro lado, é bom frisar que você nunca pode ter certeza do que um software realmente vai fazer em seu computador se ele não for aberto. Pense em um programa que supostamente é um simples jogo de cartas mas que envia determinadas informações sobre o usuário para a empresa criadora do programa: seu nome, suas preferências de compra e os sites que você visita podem ser enviados para esta empresa que manteria um banco de dados com estas informações. Pode parecer "Teoria da Conspiração", mas estes fatos são mais comuns do que os usuários de computadores imaginam. O único meio de se evitar abusos como estes é obrigando que o código-fonte dos programas seja aberto.

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: O senhor acredita que

a tendÊncia, nos EUA, de criminalizar a alteração de código-fonte de

software, mesmo quando autorizada pelo desenvolvedor, pode chegar ao

Brasil? E, se chegar, como compatibilizá-la com as iniciativas de código-fonte aberto já existentes, inclusive do setor público?

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: Criminalizar a alteração de um código quando autorizada seria um verdadeiro atentado à liberdade de criação e, certamente, uma lei como esta só interessaria às grandes desenvolvedoras de software norte-americanas que temem o avanço dos programas de código fonte aberto, em especial o GNU-Linux. No Brasil, uma lei como esta seria completamente inconstitucional, mas não vou afirmar que uma lei como esta não poderia ser aprovada, pois certamente as grandes multinacionais do software fariam muita pressão neste sentido. Foi ótimo você ter tocado na questão do uso de software livre em empresas públicas. Penso que precisamos urgentemente de uma lei que obrigue o uso destes softwares em todo e qualquer órgão público. Não tem sentido repartições públicas, nas quais a maioria dos funcionários utilizam tão-somente o sistema operacional e um editor de textos, gastarem enormes somas de dinheiro público comprando

produtos que poderiam ser muito bem substituídos pelo GNU-Linux e seus inúmeros programas já disponíveis, todos gratuitos e de excelente qualidade.

Danilo (Entrevistador) para entrevistado: Boa Tarde! Li a resposta sobre

o código aberto e tive uma dúvida: mas não é justamente o que os

hackers fazem hoje em dia? Abrir o software e inserir modificações ou personalizações? A institucionalização do código aberto para a pirataria não seria o mesmo que a descriminalização do adultério para o

casamento?

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: Mais ou menos. Se descriminalizarmos o adultério isto não seria necessariamente um incentivo para que tivéssemos amantes. Mas ao institucionalizarmos o código-aberto, estaríamos incentivando bastante o aperfeiçoamento de programas. Imagine o trabalho que um hacker tem para modificar um programa de código-fechado. O tempo que ele gastaria tentando entender o código do programa, seria muito menor se o código já fosse aberto e ele poderia aproveitá-lo no desenvolvimento das melhorias do software. De fato, tanto na descriminalização do adultério quanto na institucionalização do software aberto o legislador estaria consagrando nas leis uma realidade social já existente e, nesse sentido, sua análise está perfeita.

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: qual a opinião do senhor a respeito da urna eletrônica? No site votoseguro.org consta que não se sabe exatamente quais os programas que a compõem nem quais instruções eles contêm, pois a urna é feita com código-fonte fechado, inacessível até para os fiscais de partidos.

Danilo (Entrevistador) para entrevistado: Sobre o que foi falado sobre um software que parece fazer uma coisa mas pode estar executando outra

por baixo da tela

eletrônica? Afinal, ninguém, a não ser os técnicos da justiça eleitoral, sabem o que aquela caixinha computadorizada faz!

Corremos um risco de fraude ainda maior com a urna

Danilo (Entrevistador) para entrevistado: Por outro lado, se a urna tivesse os fontes abertos, isso não facilitaria a ação dos hackers?

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: Vou afirmar com todas as letras: a urna eletrônica não é segura. O principal problema da urna é

que ela não permite a recontagem de votos. Tudo que o eleitor tem que fazer é confiar que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) vai ter uma equipe técnica confiável que produza um software que realmente faz o que diz que faz. Não há absolutamente nada que garanta que quando você digita

o voto do seu candidato o programa conte de fato um voto para ele. Só a

confiança que temos no TSE. Se o código-fonte do programa da urna fosse aberto, os partidos poderiam fiscalizar suas instruções e saber se realmente processam corretamente os dados. Outra necessidade é que o voto seja impresso para uma posterior recontagem. O eleitor votaria, veria o nome e a foto de seu candidato na tela e após a confirmação de seu voto, veria através de um visor seu voto sendo impresso e depositado na urna para uma possível recontagem. Quanto o fato de o código-aberto facilitar a ação dos hackers, penso que dificultaria em muito. Fácil é hoje em que só um grupo de programadores do TSE vigia o código. É mais fácil você corromper esta meia dúzia de programadores. Lembram-se do painel do Senado? Imagine, agora, milhares de programadores no Brasil, contratados pelos partidos, vigiando o código.

Além do mais, com as moderanas técnicas de criptografia existentes, o segredo do código é completamente dispensável para se garantir a segurança.

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: Me parece que o que os hackers mais fazem hoje em dia é explorar brechas de segurança de softwares com código fechado, raramente precisando abrir os fontes tais brechas de segurança seriam diminuidas com o código aberto, pois as possibilidades de se notar erros e corrígí-lo seriam muito maiores, não?

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: A maioria dos hackers são freqüentadores "de carteirinha" de newsgroups sobre bugs de segurança. Assim, eles ficam sabendo em primeira mão quais são as falhas do sistema e antes que as empresas possam saná-las, eles as utilizam para invadir computadores. Há inúmeros casos de administradores de sistemas que ingenuamente postam perguntas em newsgroups de como alterar a senha padrão de seu sistema e, horas depois, são invadidos simplesmente com o uso mal-intencionado da senha padrão por algum hacker. O código aberto certamente facilita a correção das brechas de segurança, pois o próprio programador que descobriu o bug poderá saná-lo e não precisará esperar a solução da empresa desenvolvedora do software. Assim, em vez de postar uma mensagem no news comunicando

o bug, o programador já postaria a solução.

Danilo (Entrevistador) para entrevistado: Mudando um pouco de assunto A ação de um hacker que altera o conteúdo de um determinado site na internet durante algumas horas e depois o restaura para o estado

anterior poderia ser considerada um crime? Ou seria furto de uso?

algo como

um

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: Tecnicamente falando a figura

é bastante diversa do furto de uso, pois neste não há crime por ausência

de elemento subjetivo do tipo (a intenção de ter a coisa para si ou para outrem, já que pretende devolver). Se ele repara o dano, haverá o chamado arrependimento posterior (art. 16 do CP) e a pena do crime de dano será reduzida de um a dois terços. Não se pode esquecer que quem acessou a página da vítima no período em que ela encontrava-se desfigurada não encontrou o conteúdo que esperava e a vítima teve um prejuízo (as vezes muito pequeno, outras vezes grande, se você pensar

em uma página de comércio eletrônico que realiza milhares de vendas por dia).

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: qual a opinião do professor a respeito da tendência de banir e/ou criminalizar jogos de combate, com Unreal e Quake? O senhor acredita que tais jogos podem estimular um comportamento criminoso?

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: Uma lei proibindo estes jogos além de burra seria completamente inconstitucional. O art. 5º, IX, da Constituição Federal garante a liberdade de criação e uma lei como esta seria na prática censura. Por que o infeliz que propõe uma lei como esta não cria uma lei que garanta a todo brasileiro um prato de comida por dia? Será que uma lei que garantisse o mínimo de alimentação a todo cidadão não geraria melhores efeitos no combate à violência?

Danilo (Entrevistador) para entrevistado: Se considerarmos que a ação de um hacker de invadir computadores ou alterar programas é um crime

O que podemos dizer sobre as publicações de "receitas de bolo" que ensinam tudo que alguém precisa fazer para arquitetar e concluir esses ataques? Afinal, esse tipo de revista está cada vez mais fácil de ser encontrada em qualquer banca de jornais.

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: O Dirieto Penal em um Estado Democrático de Direitos só pune condutas humanas. Isto quer dizer que ninguém pode ser punido por seus pensamentos ou por suas opiniões. Se escrevo um livro no qual ensino detalhadamente como invadir um site, não posso ser punido por isso. Se, por outro lado, eu ensino alguém como invadir um site, sabendo que meu aprendiz usará de seus conhecimentos para praticar uma condtua ilegal, aí sim poderei ser punido como partícipe. A diferença entre escrever o livro e ensinar alguém diretamente está no nexo psíquico entre as partes. No primeiro caso não há "domínio do fato" do autor do livro em relação à conduta do leitor. No segundo, há. Ele tem a consciência de que está favorecendo a uma prática criminosa bastante específica. No primeiro caso, em tese, o livro pode ser lido apenas como curiosidade sem que nunca alguém utilize seus conhecimentos para invadir um site. A diferença entre as duas condutas é sutil, mas existe.

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: o senhor considera que um funcionário de provedor ou companhia telefônica com poderes para monitorar e-mails e ligações e que utilize tais poderes para bisbilhotar amigos ou desafetos pratica acesso não autorizado da mesma forma que alguém que o faça sem pertencer à empresa?

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: Certamente. Há uma diferença entre a permissão de acesso do ponto de vista técnico (você ter uma senha que lhe permite acessar todos os arquivos de uma intranet) e

a autorização jurídica. O administrador de sistemas (root) tem o poder de

fato de acessar qualquer arquivo do sistema que controla, mas só poderá

usar este poder de fato, havendo uma efetiva necessidade dentro dos limites de sua função. Se, porém, aproveita de seus poderes para bisbilhotar em arquivos de usuários (ler seus emails, por exemplo) sua conduta não estará sendo muito diferente da de um hacker. Aliás, está sendo até muito pior, pois estará se aproveitando da confiança que a vítima direta ou indiretamente depositou nele.

Danilo (Entrevistador) para entrevistado: Assim como hoje em dia nossa única garantia em relação às eleições é a confiança no TSE, nossa única garantia em relação a nossa conta bancária também é nossa confiança nos funcionários e técnicos do banco? Existe alguma legislação que nos proteja ou que procure evitar problemas desse tipo?

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: Penso que o problema da urna

é um pouco mais grave, pois a maioria das pessoas confere seu extrato

bancário pelo menos uma vez por semana e ningúem controla para onde foi seu voto. No caso dos bancos, do ponto de vista criminal, se algum técnico desviar uma quantia de determinada conta, estará praticando crime de furto (art. 155 do CP) e por ele poderá ser punido normalmente. Quanto a questão da segurança é bom frisar que eu não confio nem nos bancos nem nas empresas de cartão de crédito, por isso sempre tiro

meus extratos semanalmente. No dia em que vier algo errado, o ônus da prova será do banco ou da administradora de provar que eu realizei o saque ou a compra, já que eu sou a parte hipossuficiente da relação jurídica.

Klaus (Entrevistador) para entrevistado: Professor, na sua primeira resposta o Sr. defendeu que o réu condenado por um delito de informática deve ser aproveitado condenando-o a trabalhar ministrando cursos a policiais ou criando programas de computadores para empresas públicas, posição diversa é adotada pelos EUA onde o criminoso fica impedido de se aproximar e utilizar um computador. Não seria melhor afastar o réu do uso do computador? Afinal, permiti-lo acessar o computador para desenvolver um software para uso público não seria como colocar "a raposa para vigiar o galinheiro", afinal ele teria conhecimento de todo código fonte, estaria desenvolvendo suas habilidades e teria um computador para cometer outros delitos.

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: A tendência nos Estados

Unidos é de privilegiar os efeitos de prevenção especial da pena, ou seja, procurar evitar que o condenado cometa novamente o delito. Sendo que

o método adotado por eles é marginalizatório, pois impede que o

condenado exerça a profissão mais adequada para ele, que certamente estará ligada a computadores. Trata-se de uma medida que baseia-se em um critério de periculosidade. Segrega-se o condenado para que ele não cause maiores problemas ao Estado, sendo completamente irrelevante os direitos humanos do próprio condenado. Defendo uma tese oposta: se queremos reintegrá-lo à sociedade devemos confiar-lhe tarefas que o reintegre a sociedade através daquilo que sabe fazer melhor, ou seja, trabalhar com computadores. Evidentemente todos os códigos dos

programas que estes condenados criassem seriam abertos e os técnicos do governo poderiam "vigiá-los". Muitos hackers ao invadir sistemas

estão querendo ganhar visibilidade, demonstrar seus talentos para serem "descobertos" por uma empresa que os contrate. Marginalizá-los é jogar

a poeira para debaixo do tapete. Temos é que aproveitar sua inteligência

a serviço da sociedade.

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: Computadores estão em toda parte, desde um relógio até o caixa do McDonalds. Impedir o acesso a computadores não seria impedir a pessoa de ter uma vida normal, dificultando o acesso a um emprego e sua adaptação à

sociedade?

Danilo (Entrevistador) para entrevistado: Colocá-los para trabalhar fazendo programas não seria mais ou menos o mesmo que colocar os criminosos para trabalhar em algo de útil ao invés de apenas mantê-los presos comendo e dormindo?

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: É, mas o sistema penal norte-americano não pode ser considerado um bom exemplo para nenhum país. Eles são o país que mais encarceram prisioneiros no mundo. Sua política é essa: marginalizar, segregar, manter afastado da sociedade o preso para que não crie mais problemas. Não é lá que até hoje existe pena de morte? Nós aqui somos Terceiro Mundo, mas pelo menos nosso Direito Penal, ainda que em teoria, já passou desta fase. Temos que caminhar para a reinserção, para a reintegração, para o crescimento do preso como ser humano e não há melhor forma de se alcançar este objetivo senão colocando-os para trabalhar em prol da sociedade.

NPJ (Coordenador) para Todos: Infelizmente, chegamos ao horário limite do nosso chat. Agradecemos a presença de todos, em especial a do Professor Túlio Lima Vianna.

Danilo (Entrevistador) para entrevistado: Acredito que o caminho seja esse para o direito penal: não apenas punir, mas reintegrar. E não há forma melhor de reintegrar do que fazer a pessoa se sentir útil. Além da pessoa ter uma chance de se recuperar (acho que no presídio, da forma como ele é hoje, essa chance é mínima), ela deixaria de ser apenas um peso morto para o Estado, podendo até ser algo lucrativo, ou pelo menos, auto-sustentável. Acho que isso se aplica ao direito penal em geral, é uma coisa para se pensar

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: Criaram uma caixa com controle por satélite para controlar presos à distância, em prisão domiciliar, sendo que o apenado não pode se distanciar dela. Como o senhor vê esse tipo de pena? Me pareceu semelhante a uma "letra escarlate"

Danilo (Entrevistador) para entrevistado: Obrigado pela oportunidade de participar. Boa noite!

Danilo (Entrevistador) sai da sala

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: Muito obrigada pela oportunidade, foi um chat bastante interessante. Parabéns, professor. Bjs, garfilda.

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: A questão das pensa "tecnológicas", digamos assim, em princípio pode parecer um avanço, pois certamente seriam alternativas à falida pena de prisão. Porém o seu emprego deve ser muito discutido, pois não se pode olvidar que o Direito Penal é o braço armado do Estado e os regimes ditatoriais gostam muito dele. Uma caixinha como esta daria enormes poderes a um ditador e penso que idéias como esta devam ser profundamente pensadas antes de serem colocadas em prática.

Garfilda Bolseiro (Entrevistador) para entrevistado: Ah, o senhor pode deixar endereço do site ou e-mail para contato?

Túlio Vianna(Entrevistado) para Todos: Gostaria de renovar meus agradecimentos pelo convite e parabenizar em especial ao Davi Niemann pelo trabalho no site Canal de Direito. Minha página é www.tuliovianna.org e lá vocês poderão encontrar não só meu email para contato, mas também alguns artigos meus publicados sobre Direito Penal Informático.

Danilo (Entrevistador) entra na sala

NPJ (Coordenador) para Todos: Convidamos a todos para participarem do nosso fórum, para continuarmos a discussão. E mais uma vez agradecemos a presença do Prof. Túlio Lima Vianna.

Atenção, a sessão será encerrada!

Encerrada a Sessão (10/05/2002 18:01)

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