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Publicado no livro Corpo de Baile – romance, viagem e erotismo no sertão.

2008, EDIPUCRS

A viagem iniciática de “O Recado do Morro”


Maria Lucia Bandeira Vargas
Mestre em Letras – Estudos Literários pela UPF
Doutoranda em Letras – Teoria Literária pela PUC/RS

“Antes o absurdo que o óbvio, que o frouxo. Toda a lógica contém inevitável
dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose de inevitável
verdade.”
Guimarães Rosa

O “Recado do Morro” é a terceira das sete novelas que compõem a obra Corpo
de Baile, de João Guimarães Rosa, lançada em 1956 e dividida a partir da 3ª Edição em
três volumes - “Manuelzão e Miguilim”, “No Urubuquaquá, no Pinhém” e “Noites do
Sertão”. “Corpo de Baile” retrata a vida no interior do estado mineiro que, como grande
parte do Brasil da época, permanecia intocado pela modernização que se fazia sentir nos
centros urbanos, um interior no qual ainda predominavam conflitos de honra resolvidos
com base na lei do mais forte, ao lado de uma natureza exuberante e de uma população
marcada pelo distanciamento da cultura letrada, embora possuidora de profunda ligação
com esse espaço natural. As novelas do livro se relacionam entre si de forma a compor a
unidade da obra, dentre outros elementos, por se passarem todas no mesmo espaço
geográfico, muitas vezes simplesmente definido como “os gerais”, mas também por
suas temáticas que se repetem, da vida dos personagens marcados pela presença do
sertão como palco das ações, da recorrência do deslocamento no espaço, que se dá
paralelamente à transformação pessoal dos personagens, e pelo ressurgimento de
personagens mencionados ou explorados em novelas anteriores. Curiosamente, “O
Recado do Morro”, que abre o segundo volume, intitulado “No Urubuquaquá, no
Pinhém”, é a novela que menos dialoga com as demais no que se refere ao
reaparecimento de personagens, embora compartilhe das demais temáticas através de
uma trama intrincada e alegórica onde, talvez, alcance o ápice a figura do vaqueiro
sertanejo como herói emblemático da nação.
Segundo José Miguel Wisnik1, professor de Literatura da USP, a novela
corresponderia a uma espécie de alegoria da formação do Brasil. Nela, viaja pelo sertão

1
CONTOS DE GUIMARÃES ROSA. José Miguel Wisnik. São Paulo: TV Cultura, 2005. 1 DVD.
mineiro, partindo de Cordisburgo – terra natal de Guimarães Rosa – uma tropa
composta por um naturalista estrangeiro, um religioso e um fazendeiro, acompanhados
por dois homens do interior mineiro, conhecedores da região e dos meandros do
sertão. Vão em direção ao norte do estado, contornando o Curvelo – onde se encontra
um elemento fundamental para a narrativa, o Morro da Garça – passam pelo rio São
Francisco e chegam aos gerais, na vertente do Rio Formoso. Os elementos mais
importantes da história independem da chegada ao destino por parte da tropa, mas
relacionam-se ao trajeto de ida e de volta, à jornada empreendida pela comitiva e aos
personagens que pelo caminho essa encontra. Tanto é assim, que é aí que a narrativa se
centra, não fazendo sequer menção ao ocorrido quando da chegada ao destino no trajeto
de ida, que fica assim resumido pelo narrador: “A onde queriam chegar, até lá
chegaram, a comitiva, em fins.”2 A partir daí, passa-se à narração da viagem de retorno
ao povoado de origem. O tema da viagem é recorrente em toda a obra de Guimarães
Rosa não como motivo principal, mas como instrumento, como alegoria de uma
travessia particular, um rito de passagem do qual os protagonistas emergem
transformados. “O Recado do Morro” não é exceção.
O objetivo principal da expedição em questão é a realização de uma viagem de
estudos do sertão por parte de um naturalista europeu – que, segundo Wisnik, os índices
fornecidos pelo texto levam a crer se tratar de um dinamarquês – chamado Seu Alquiste
ou Olquiste, marca da dificuldade encontrada pelos nativos na pronúncia de seu nome.
Este naturalista, ainda de acordo com a interpretação de Wisnik, estaria ligado ao
paradigma dos viajantes estrangeiros que percorreram os rincões do Brasil e que foram
decisivos para a descrição do território nacional. Dessa forma, esse personagem, Seu
Olquiste, seria uma ressonância de um naturalista dinamarquês de nome Peter Wilhelm
Lund, que visitara Minas no século XIX, justamente na área onde se localiza
Cordisburgo. Naquela região, Wilhelm Lund teria realizado importantes descobertas
arqueológicas que contribuíram significativamente para a fundação da paleontologia
brasileira. De acordo com Ana Maria Machado3, o estudo do nome de seu Alquiste
indica sua função na narrativa, que seria a de ressonância da fala dos recadeiros, apesar
dos – ou, talvez, justamente em virtude deles – impedimentos de linguagem. Para a

2
ROSA, João Guimarães. No Urubuquaquá, no Pinhém. 3ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965.
p. 26
3
MACHADO, Ana Maria. Recado do nome: leitura de Guimarães Rosa à luz do Nome de seus
personagens. 3ª edição. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2003.
autora, isso é possível porque a viagem do recado não se passa no nível da função
comunicativa da língua, mas no da função poética.
A comitiva que acompanha Seu Olquiste é conduzida por um guia-estradeiro,
Pedro Orósio, um “sete-pernas” que vai à frente dos demais, a pé e descalço. É descrito
como sendo um gigante, “capaz de encravar de engolpe em qualquer terreno uma acha
de aroeira, de estalar a quatro em cruz os ossos da cabeça de um marruás, com um soco
em sua cabeloura, e de levantar do chão um jumento arreado, carregando-o nos braços
por meio quilômetro, esquivando-se de seus coices e mordidas, e sem nem por isso
afrouxar do fôlego de ar que Deus empresta a todos.”4 Ocorre que Pê-Boi, como
também é chamado, faz grande sucesso com as mulheres, o que vai lhe valer profundas
mágoas por parte de outros rapazes, coisa que ele, na sua visão infantil e autocentrada
de mundo, ignora. Naturalmente sedutor e cheio de vida, encanta e se deixa encantar
pelas raparigas dos lugares onde passa e torna-se especialmente perigoso, aos olhos dos
demais homens, por não se decidir a casar. O casamento aplacaria seus impulsos
amorosos e impediria o exercício de seu poder sedutor, mas Pedro encontra-se
confortável assim, desfrutando do bem-querer de muitas moças. Ao final da história,
vem-se a saber que é Pedro Orósio o destinatário do recado de que fala o título da
novela. Ana Maria Machado chama a atenção para a relação entre a significação do
nome Pedro, de pedra, e Orósio, que somaria oros, montanha, e ósio, escolhido. Diz ela:
“A quem poderia o morro falar, se não àquele que é seu homólogo, pedra, montanha,
terra?”5
Ao final da tropa, a cavalo como os demais, embora sertanejo como Pedro
Orósio, vai cuidando a carga da comitiva Ivo Crônico, cuja alcunha faz referência a sua
teimosia. Este é um dos desafetos de Pedro Orósio, que havia se engraçado com sua
namorada por pura diversão, e, conquanto passe a história aparentemente procurando
refazer os laços de amizade entre ambos, na verdade trama vingança, chegando mesmo
a lançar mão de seis capangas para atacar à traição o gigante Pedro. Acerca da alcunha
de Crônico, ou Crônhco, afirma Ana Maria Machado:

Persistente, teimoso, determinado, constante, aí está Cronos, o Tempo,


Saturno. O nome de Ivo Crônico, pois, designa sua função na narrativa – é
ele quem age sobre o tempo, quem altera a cronologia prevista para os
acontecimentos, quem antecipa a festa que estava marcada para o domingo
4
ROSA, João Guimarães. No Urubuquaquá, no Pinhém. 3ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965.
p.5
5
MACHADO, Ana Maria. Recado do nome: leitura de Guimarães Rosa à luz do Nome de seus
personagens. 3ª edição. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2003. p.114.
no povoado vizinho e prepara a cilada para a véspera, o sábado, seu dia, sua
plena dominação temporal.6

Completa a comitiva Frei Sinfrão, padre católico de origem italiana, e Seu


Jujuca do Açude, brasileiro, proprietário de terras. Wisnik se refere a eles,
alegoricamente, como três patrões que compõem um verdadeiro “cortejo emblemático
da formação colonial brasileira”7, representantes de três poderes frente aos sertanejos: o
estrangeiro representaria a cultura letrada; o padre, a força da Igreja, elemento
fundamental na organização da sociedade da época; e o fazendeiro seria a representação
do poder econômico. O próprio narrador se encarrega de atrair a atenção para o
contraste entre a comitiva e os sertanejos, referindo-se aos primeiros como “gente de
pessoa”8. Para Wisnik o propósito da viagem, simbolizado na figura de Seu Olquiste,
consiste em fazer o mundo oral do sertão entrar para o mundo dos livros. A presença da
dualidade das linguagens oral e escrita pode ser percebida desde o início da narrativa,
quando é feita referência a estrada na qual começa a jornada, assemelhada a um grande
S, que adentra pelo sertão. Além de metáfora sobre o caráter serpenteante do sertão,
Wisnik interpreta o S como uma referência a uma cifra musical, indicando uma viagem
de múltiplos níveis. Tal poderia ser percebido ao longo do desenrolar da história quando
nos apercebemos de que viaja, além da tropa, a linguagem, pelas suas dimensões ocultas
e pluralidade de interpretações.
A linguagem viaja na forma de um recado, cujo primeiro emissário é o Morro da
Garça – símbolo de transcendência, com seu formato de pirâmide que aponta para o céu
– e que vai sendo transmitido de recadeiro a recadeiro até que seu destinatário final,
Pedro Orósio, esteja maduro para compreendê-lo. A ironia consiste em que, nessa
transmissão da mensagem através dos recadeiros, ocorre o contrário do chamado
telefone-sem-fio, onde uma fala normalmente plena de significado vai perdendo ou
alterando seu sentido na medida que é passada adiante. Em “O Recado do Morro”, a
mensagem, precária a princípio, vai ganhando clareza e agregando significação através
dos despossuídos que a manipulam. Os recadeiros, em número de sete – valor esotérico
por excelência, que é uma constante nesse texto (sete são os homens que compõem a
comitiva, sete são as fazendas pelas quais passam, sete são os camaradas que atacam
Pedro Orósio) e recorrente na obra de Guimarães Rosa – embora marginalizados

6
MACHADO, Ana Maria. Op. Cit. p.115
7
CONTOS DE GUIMARÃES ROSA. José Miguel Wisnik. São Paulo: TV Cultura, 2005. 1 DVD
8
ROSA, João Guimarães. No Urubuquaquá, no Pinhém. 3ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965,
p.7
socialmente, são de intensa e rica propriedade simbólica, inclusive pela figuração de um
expressivo número de indivíduos ensandecidos dentre eles, possibilitando a inserção de
elementos incomuns na narrativa, que romperiam com preceitos realistas, ao mesmo
tempo em que, paralelamente, é desenvolvida a narração de uma viagem perfeitamente
possível.
O primeiro recadeiro da história é chamado de Gorgulho, cujo nome verdadeiro
é Malaquias. Mora sozinho dentro de uma lapa, uma urubuquaquara, ou casa de urubus,
com os quais convive harmoniosamente, no “ponto mais brenhoso e feio da serra
grande”9. É um lunático solitário, aparentemente um paranóico que sofre de alucinações
auditivas, auto-suficiente em suas parcas necessidades, assim descrito: “Gorgulho
calçava alpercatas, sua roupa era de sarja fusca, formato antigo – casacão comprido
demais, com gualdrapas; uma borjaca que de certo tinha sido de dono outro – mas
limpa, sem desalinho nenhum, via-se que ele fazia questão de estar composto, sem
ponto algum de desleixar-se.”10 Ou: “Tudo nele era formal. Até a barba branco amarela,
só na orla do rosto, chegando ao cabelo.” 11 E ainda: “Como quase todo velho, andava
com maior afastamento dos pés; mas sobranceava comedimento e estúrdia dignidade.”12
Como que salientando a figura primitiva e canhestra de Gorgulho, seu Olquiste o toma
por algum espécime pré-histórico do sertão, procurando junto a comitiva a confirmação
de sua interpretação, ao perguntar: “Troglodyt?”.
Gorgulho está na estrada com o propósito de ir visitar seu irmão, que mora para
as bandas da Vaca em Pé, pois soubera que aquele pretendia se casar, cosa que
considera um despropósito. Vai com a intenção de aconselhar o irmão contrariamente a
esse desatino, compreendendo que já se passara o tempo de querer mulher. É o primeiro
a ouvir o recado do Morro da Garça, cuja formosura é descrita pelo narrador que lhe
atribui propriedades da linguagem, dizendo que é belo tal como uma palavra. O Morro,
que pela descrição parece mais se assemelhar a uma pequena montanha, de perfil agudo,
exibe uma certa onipresença por poder ser avistado de muitos lugares diferentes,
causando mesmo ao viajante a sensação de que o deslocamento não acontece de fato, o
que Wisnik compreende como uma ruptura da noção de tempo e espaço, temática que
perpassa a narrativa, contribuindo para a constituição de sua aura mística.

9
ROSA, João Guimarães. No Urubuquaquá, no Pinhém. 3ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965.
p.17
10
ROSA, João Guimarães. Op. Cit. p.14
11
ROSA, João Guimarães. Op. Cit p.14
12
ROSA, João Guimarães. Op. Cit p. 13
Gorgulho é o homem adequado para ouvir a fala do Morro, por ser um indivíduo
profundamente ligado à terra, elo simbolizado na sua profissão anterior, valeiro, e na
sua residência de escolha, as profundezas de uma caverna. Muito sério em seus
propósitos, Gorgulho toma por desaforo o Morro ter se dirigido a sua pessoa e custa a
transmitir o que ouvira. Esconjura o recado e revela, na presença de todos, durante a
hora da refeição, que o morro se referira a uma morte em noite de festa, à traição,
mensagem que ele compreende ser provinda do demônio por nada ter perguntado ao
Morro, este se dirigira a ele, por querer. Seu Olquiste se impressiona com a intensidade
do relato e intui que ali há algo de muito importante, no que é desestimulado pelos
demais.
Tanto seu verdadeiro prenome, Malaquias, quanto a alcunha pela qual é
reconhecido, Gorgulho, são nomes repletos de significados coincidentes às atribuições a
ele conferidas na novela. Segundo Ana Maria Machado, Malaquias etimologicamente
significa “mensageiro de Deus” e, de fato, no último livro do Velho Testamento, o
profeta Malaquias anuncia a volta do profeta Elias, encerrando o tempo da profecia. Há,
ainda, as muito debatidas predições de São Malaquias, que, já na Idade Média,
profetizava o fim da Igreja Católica e da civilização erigida sobre seus preceitos. Já o
nome de Gorgulho, a autora interpreta como “o orgulho engolido pela gruta”13 e como
“nome aplicado a pedrinhas, cascalho e fragmentos de rocha”14, reforçando sua posição
de profeta que partilha de intimidade com o Morro da Garça e que, por isso, está em
condições de repassar o recado àquele que também é feito de rocha e goza de intimidade
com a terra, o vaqueiro que se locomove a pé e descalço, Pedro Orósio.
O irmão de Malaquias, Zaquias, vem a ser o segundo recadeiro da história e,
novamente, reconhecemos em seu nome o de outro profeta do Velho Testamento,
Zacarias. Apelidado de Qualhacôco, é considerado um bocó local, ou seja, um homem
cuja compreensão de mundo é infantil, possivelmente portador de algum retardo. Por
outro lado, apresenta uma grande capacidade inventiva, típica de sua imaginação de
criança, o que o coloca como uma espécie de cientista maluco do sertão. Planeja um
automóvel, espécie de carrinho de rolimã, que, portanto, não funciona na subida e um
“carróço que avoa”15, carecendo, para tanto, de prender duas dúzias de urubus a um
assento, sendo que os urubus voariam atrás de uma carniça, presa na ponta de uma vara
13
MACHADO, Ana Maria. Recado do nome: leitura de Guimarães Rosa à luz do Nome de seus
personagens. 3ª edição. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2003. p.101
14
MACHADO, Ana Maria. Op. Cit. p.102
15
ROSA, João Guimarães. No Urubuquaquá, no Pinhém. 3ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965.
p. 31
“desgraçada de comprida”16. Do mesmo modo que seu irmão, Gorgulho, é descrito
como sendo um sujeito preocupado com a própria aparência, ainda que um tanto
esdrúxula, denunciadora de sua parvalhice. Diz o texto: “...veio chegando, saco bem
mal-cheio às costas e roupinha brim amarelo de paletó e calça, um camarada muito
comprido, amarelo, com cara de sandeu – custoso mesmo se acertar uma idéia de donde,
que calcanhar-do-judas, um sujeito sambanga assim pudesse ter sido produzido. O
paletó era tão grande que não se acabava, abotoados tantos botões, mas a calça chegava
só, estreitinha, pela meia-canela. [...] Ao que, com tudo isso, prasápio assim, mas ele era
um desses vaidosos.”17 Arremata o rol de suas ingenuidades o caso do casamento a ser
contratado, que motivara a viagem de Gorgulho até o irmão, por ocasião da qual aquele
ouvira o recado do Morro. Ocorre que Catraz, outra de suas alcunhas, que já tinha feito
promessa de não se casar com mulher feiosa, cai de amores por um retrato em um
calendário de parede, no qual aparece uma “moça civilizada, com um colar de sete
voltas”18 e é com ela que planeja se casar.
Seu irmão, Malaquias, conta a ele sobre o recado do Morro e ele o repete
entremeado de observações feitas pelo irmão, acerca dos seis ou sete homens que iam
pela estrada, de que a sorte de cada um quem sela é Deus e seus apóstolos, aumentando
assim, através de sua interpretação pessoal não apenas sobre o recado, mas, também
sobre as observações feitas por Gorgulho, seus possíveis significados. Ana Maria
Machado analisa essa interpretação à luz de seu apelido: “Qualhacôco... transmite a
mensagem ao efetuar em sua mente (popularmente côco), uma nova aglomeração de
partículas dispersas (qualha) do recado”19, e também a alcunha de Catraz é
desmembrada pela autora, que a compreende como “cá traz”, aquele que traz o recado e
anuncia a morte que viaja no íntimo deste.
O terceiro recadeiro é o menino Joãozezim, cujos prenomes também encerram
referências bíblicas, João e José. Não é maluco, pelo contrário, é descrito como sendo
“caxinguelê de ladino; piscava os olhinhos, arregalava os olhos, de bonitas crescidas
pestanas, e divisava a gente de cima a fundo, nada não perdia.”20. No entanto, é uma
criança, ou seja, é desprovido de crédito junto ao mundo dos que comandam a

16
ROSA, João Guimarães. Op. Cit p. 31
17
ROSA, João Guimarães. No Urubuquaquá, no Pinhém. 3ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965.
p. 29
18
ROSA, João Guimarães. Op. Cit. p. 29
19
MACHADO, Ana Maria. Recado do nome: leitura de Guimarães Rosa à luz do Nome de seus
personagens. 3ª edição. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2003. p.102
20
MACHADO, Ana Maria. Op. Cit. p. 28
sociedade. Tanto é assim, que durante a longa fala do Catraz acerca da visita de seu
irmão, quando este finalmente chega ao episódio do recado, só resta a lhe ouvir o
menino, pois todos os outros adultos já haviam ido tratar de seus afazeres próprios.
Todos menos Pedro Orósio, destinatário final do recado, mas que, contudo, pouca
atenção presta à conversa, perdido que está em seus próprios pensamentos. Ao tentar
elaborar o significado do episódio, novamente ao menino só restará outro demente
como interlocutor.
Este vem a ser o Guégue, outro recadeiro que sofre de demência. O Guégue, que
não possui nome próprio, é tido como o bobo da fazenda de Dona Vininha, embora
sempre empenhado em ser prestativo. Em sua função de recadeiro, perambula entre as
fazendas da mãe e da filha que casara, levando recados e pequenas encomendas, como
doces. O texto assim o descreve: “Retaco, grosso, mais para idoso, e papudo – um papo
em três bolas meando emendas, um tanto de lado. Não tirava da cabeça um velho
chapéu de couro de vaqueiro, preso por barboqueixo. Babava sempre um pouco, nos
cantos da enorme boca com um ou dois tocos amarelos de dentes.”21 Sendo um sujeito
pouco verbal, teatraliza a narração que Joãozezim, ainda muito impressionado com o
recado, lhe faz deste. Nas palavras do menino, que ouvira falar a interjeição “del-rei”,
essa vira um rei realmente, Salomão, referência feita anteriormente por Catraz, ao
conversar sobre assuntos religiosos. O menino explica ao Guégue o que é um rei “o que
tem espada na mão”, faz referência à morte à traição em uma festa, aos sete cavaleiros,
a Deus e aos apóstolos, ao que o bobo tudo recapitula, por meio de mímica. Novamente
Pedro Orósio está presente, sem perceber o recado, achando graça nos trejeitos de
Guégue. Este possui um tipo de atenção flutuante e, embora se esforce de forma
aparentemente racional por guardar os sinais indicativos de um determinado destino,
termina sempre perdido por focalizar sua atenção apenas em coisas instáveis, como os
animais do caminho. Assim, desvia a comitiva do caminho original, causando
novamente a sensação de perda no tempo e no espaço, e os leva de encontro ao quarto
maluco da história, que exercerá o papel de quinto recadeiro.
O Nominedômine, ou Nomindome, é um maluco apocalíptico, figura recorrente
no imaginário religioso popular, de norte a sul do país. Acerca dele, diz o texto: “Era
um homem grenhudo, magro de morte, arregalado, seus olhos espiando em zanga,
requeimava. Deitado debaixo de uma paineira, espojado em cima do esterco velho

21
ROSA, João Guimarães. No Urubuquaquá, no Pinhém. 3ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965.
p. 32
vacum, ele estava proposto de nu – só tapado nas partes, com um pano de tanga. [...] E
solevava numa mão uma comprida cruz, de varas amarradas a cipó – brandia-a, com
autoridade.”22 Ele produz uma forte impressão sobre o Guégue que, perante aquela
aparente autoridade religiosa que o incita a se arrepender, falando de fim do mundo e
morte, passa a lhe narrar a história que ouvira do menino Joãozezim. Nomindome toma
essa narrativa, recheada de símbolos sagrados – um rei de espada na mão, uma caveira,
sete homens caminhando pelos altos, Deus, doze apóstolos, a morte batendo jongo de
caixa numa festa com motivos religiosos –, como uma confirmação de sua pregação
acerca da proximidade do fim do mundo. Novamente Pedro Orósio está por perto,
embora ocupado em retomar a atenção do Guégue e colocar a comitiva em marcha no
caminho certo.
Já de volta ao povoado de origem, Pedro Orósio é ainda perseguido pelo recado
que viaja pela palavra de Nominedômine, que toma de assalto a igreja e o transmite à
população local. Nesse momento, o recado atinge o ápice de sua significação mística,
completando sua viagem das entranhas da terra até transformar-se em palavra sagrada.
No entanto, não é ainda nessa ocasião que seu destinatário final o compreende, e ele terá
que se transformar em linguagem popular para atingi-lo. Isso acontece com o encontro
entre os dois últimos recadeiros, o quinto louco da narrativa, o Coletor, e um cantador
popular, cujo nome, nos diz Ana Maria Machado, evoca louvação, Laudelim, cuja raiz
latina remete a laudare, louvar.
O Coletor, cujo nome verdadeiro não se sabe, mas que ensandecera por conta
dos transtornos da vida, tem sua demência assim explicada: “Agora, achacado e velho,
inda bom que a doidera dele era uma só: imaginava de ser rico, milionário de
riquíssimo, e o tempo todo passava revendo a contagem de suas posses. [...] onde tinha
mais gosto de cifrar aquelas quantias era nas paredes, porque assim todo mundo podia
invejar a imensa fortuna. De qualidade que, por azo, preferia a matriz, por ter as maiores
paredes brancas do arraial.”23 Este ouve a pregação de Nominedômine, que chegara ao
arraial naquela manhã, e fica indignado com a notícia do fim do mundo, logo agora que
estava prestes a terminar o levantamento de sua fortuna e iria finalmente poder viver à
larga. Dá vazão a sua irritação durante uma conversa com Pedro Orósio e Laudelim,
recontando, em suas palavras, tudo o que previa o Nominedômine.

22
ROSA, João Guimarães. Op. Cit. p. 38
23
ROSA, João Guimarães. No Urubuquaquá, no Pinhém. 3ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965.
p. 52
Laudelino, o repentista, sétimo recadeiro da história, toma inadvertidamente esse
encargo para si ao cismar com a possibilidade de beleza na fala do Coletor. Para José
Miguel Wisnik, o cantador percebe um núcleo poético na história contada pelo Coletor,
que o leva a compor uma canção na qual empresta novas e mais distintas cores à
narrativa. Convidado a entreter o estrangeiro, Seu Olquiste, Laudelim apresenta sua
criação na noite daquele sábado, noite de lua cheia e festa da Igreja do Rosário, na qual
se celebra também uma congada, celebração de coroação de um rei negro,
representativa do sincretismo religioso típico da cultura popular brasileira. Observe-se
que o cantador é também um elemento à margem da sociedade por sua “mandria e
vadiice”24, ao mesmo tempo em que, por sua condição social, revela-se mais próximo da
sensibilidade popular.
Segundo Wisnik, nesse momento da narrativa ocorre uma parábase, ocasião, no
antigo teatro grego, em que a narrativa era suspensa e voltava-se sobre si mesma através
da fala dos atores, que refletem sobre o texto dirigindo-se ao público, aparentemente
despidos de seus papéis de personagens. Curiosamente, podemos perceber no índice da
edição de “Corpo de Baile” em um único volume que, quando da distribuição original
das novelas, o autor dividira-as em “Gerais”, onde estariam agrupados os romances e
“Parábase”, onde se encontrariam os contos. “O Recado do Morro” pertence a essa
segunda classificação.
Pedro Orósio ouve a canção já bêbado, quase a contragosto, pois, querendo se
retirar para aliviar a bexiga, fica por insistência de Ivo Crônico, que, no entanto, não
percebe nela os significados relativos aos seus próprios intentos. Já Pedro, no entender
de Wisnik, finalmente atenta para os versos justamente por se encontrar em meio a um
sentimento de urgência, o que faz com que a canção ganhe um poder incantatório, pela
força das palavras cantadas, cujo valor se modificaria em relação àquelas apenas
faladas. Ana Maria Machado entende que, ao ser cantado na forma de trova popular, o
recado encerra seu ciclo,

Pela fé, pela loucura, pela inocência, pela infância, pela poesia, em uma
sucessão de videntes privilegiados porque carentes, o recado atinge enfim
sua forma estruturada e definitiva, a forma com que irá chegar a seu
destinatário, cumprindo sua ascensão desde as profundas grutas dos urubus...
até as largas passadas para as estrelas com que termina a narrativa.25

24
ROSA, João Guimarães. No Urubuquaquá, no Pinhém. 3ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965.
p.12
25
MACHADO, Ana Maria. Recado do nome: leitura de Guimarães Rosa à luz do Nome de seus
personagens. 3ª edição. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2003, p.104
Pedro Orósio, na companhia de Ivo Crônico e outros seis homens, se desloca na
direção da suposta festa que aconteceria perto dali, pretexto criado para colocá-lo à
mercê de uma emboscada. Vai cantarolando, remoendo a canção de Laudelim, ao
mesmo tempo em que rememora a sua infância e tenta elaborar sensações que o tem
assaltado, espécie de desejo de retorno a seu lugar de origem, àquilo que é sua essência.
Ana Maria Machado nos chama a atenção para o fato de que, quando finalmente
percebe a significação do recado e a urgência do momento em que se encontra – prestes
a ser agredido – , Pedro acabara de tirar os sapatos: “Só de pé no chão é que finalmente
recebe o recado do morro, ao rememorar as fazendas por onde passou, cantarolando a
canção do Laudelim e olhando seus rivais.”26 Nesse momento, o homem-terra dá uma
guinada em seu destino e toma a dianteira dos acontecimentos, agindo como o rei de
espada na mão, surpreendendo seus inimigos e derrotando-os. O narrador se centra
particularmente na cena do combate a Ivo Crônico, alegoria do Tempo, que é derrotado
pela Natureza em suas pretensões de vingança, tendo a última se utilizado da palavra
dos que lhe eram mais íntimos, menos comprometidos com a cultura, para proteger seu
filho mais querido.
É interessante observar, também, a questão da nomenclatura dos outros seis
inimigos de Pedro Orósio que, somando-se a Ivo Crônico, fazem eco aos nomes das
fazendas pelas quais a comitiva passara em sua viagem de estudos, todos indicadores de
nomes de planetas, que cruzariam seus caminhos com esse representante da Terra, até se
voltarem contra ele e serem derrotados por sua força. Com base no estudo realizado por
Ana Maria Machado em “Recado do Nome”, é possível relacionar da seguinte forma as
fazendas visitadas por Pedro Orósio em sua travessia pelo sertão, e os desafetos que
atentam contra sua vida: a de Apolinário, na vertente do rio Formoso, corresponde o sol,
regido pelo deus Apolo, bem como o agressor Hélio Dias Nemes; a fazenda de Nhá
Selena remete a lua, personificada em João Lualino; a fazenda de Marciano, evoca o
deus da Guerra, representado pelo planeta Marte e pelo capanga Martinho; nas terras de
Nhô Hermes, podemos perceber a correspondência com Mercúrio, cujo deus, também
chamado de Hermes, encontra correlação popular na alcunha de Zé Azougue;
observando a fazenda do Jove e o agressor Jovelino, distinguimos a alusão ao planeta

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MACHADO, Ana Maria. Recado do nome: leitura de Guimarães Rosa à luz do Nome de seus
personagens. 3ª edição. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2003, p. 116
Júpiter; a fazenda de Dona Vininha remete a Vênus, assim como o faz o nome de
Veneriano; e, por fim, há a fazenda de Juca Saturnino, uma clara referência a Saturno e
ao tempo, personificados por Ivo Crônico.
Ao mesmo tempo, é ainda possível observar Pedro Orósio como uma alegoria
ao momento vivido, à época da escrita da novela, por seu próprio país de origem, ainda
de natureza exuberante e sensual em seu interior, embora ingênuo acerca de seus
predicados e, fundamentalmente, de sua força, de seu gigantismo e das transformações
modernas que o cercam. Até mesmo as descrições da natureza que circunda o
protagonista também são eloqüentes de sua grandiosidade. Bêbado, com saudades da
terra natal, caminhando rumo à própria morte, Pedro tem uma espécie de visão que
poderia ser uma lembrança um tanto inconsciente de sua própria infância, bem como
uma projeção de seus desejos futuros: ele vê uma imagem harmônica de um casal e de
uma criança, que provoca nele uma revelação de quem é. Pedro Orósio percebe que
precisa desafiar Cronos e derrotá-lo para poder dispor do tempo – que, obviamente,
estaria esgotado para ele em caso de derrota – voltando, se necessário, a um tempo de
infância pelo qual anseia e através do qual poderá construir o futuro. Até defrontar-se
com a morte na encruzilhada, Pedro Orósio ainda não havia amadurecido, embora
viesse sentindo sinais de desconforto emocional oriundos da jornada empreendida ao
interior do estado, em direção a seu próprio passado, viagem de caráter iniciático,
portanto.
Assim, o enfrentamento modifica seu ego, transformando-o, ensinando-o a zelar
por sua existência e a tomar as rédeas da própria vida, constituindo-se em sujeito adulto,
autônomo. A conquista da autonomia, da liberdade, está relacionada não apenas à
vitória sobre seus algozes, mas ao retorno ao sertão, à casa materna, à terra natal,
representações de seu Eu mais profundo. Estaria o autor fazendo uma referência ao
caminho a ser trilhado pelo Brasil para conquistar sua autonomia, erigindo Pedro
Orósio, o filho da Natureza que empreende uma viagem de retorno às suas origens,
como uma espécie de herói mítico, fundador de um novo tempo para a nação? Tal
afirmação jamais poderia ser feita de maneira peremptória, mas essa é, com certeza,
uma dentre tantas interpretações possíveis, dada a complexidade alegórica da novela.