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Publicado no livro Questões de vivências de leitura, organizado por Maria

Lucia Bandeira Vargas, Luciana Lhullier Rosa e Tânia M. K. Rösing. 2007,


UPF Editora

De fracassos escolares ao sucesso na leitura: horizontes que se abrem

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.


Álvaro de Campos

Eu também fui uma péssima aluna. Digo também porque outros – pessoas muito
bem sucedidas intelectualmente! – já declararam aos quatro ventos seu passado de maus
alunos, para meu grande alívio e cultivo de uma pontinha de secreto orgulho. Embora tenha
vivido meus momentos de glória escolar na infância, parece que fui piorando a medida que
as fórmulas matemáticas e suas parentes em incompreensibilidade, as de física, química e
até de língua portuguesa, começaram a entrar na minha vida. Se a avaliação envolvia a
habilidade de decorar e usar uma fórmula (ou listas como os “sete pecados da crase”) o zero
era certo. Assim, cedo aprendi que eu não “dava para matemática”, o que, acredito, era até
certo ponto esperado dentro do dramatis personae familiar típico da época. Os meninos
eram bons em Matemática, o que trazia em seu bojo a idéia de um futuro bem sucedido
financeiramente, e as meninas eram boas com as palavras. Na minha geração ainda não
havia a preocupação, de parte da maioria das famílias, em se educar as mulheres para que
tivessem sucesso em sua vida econômica que, provavelmente, ficava por conta do
casamento. De forma que eu era boa leitora e gostava de brincar com as palavras e,
felizmente, isso era incentivado, o que me rendeu o ganha-pão da vida adulta. Entretanto,
devo admitir, para não faltar com a verdade, que das matemáticas soube trazer comigo as
habilidades necessárias para perceber qualquer erro no cálculo do meu salário ou conta
bancária. Ao mesmo tempo, meus irmãos se revelaram mais amigos das letras do que se
poderia prever. O ser humano é, felizmente, multifacetado.
A leitura, para mim, principiou através de uma forte experiência afetiva, sentada no
colo de meu pai, que pedia a caçula que o “ajudasse” a ler as manchetes do jornal. Claro
que não foi tão simples assim, afinal, havia muitos outros estímulos ao meu redor, como os
materiais escolares dos meus irmãos e irmãs. Mas foi essa a imagem que me ficou, a de
sentar no colo do meu pai, que, tenho quase certeza, lia o antigo Correio do Povo em
formato standard. As edições dominicais traziam um caderno de entretenimentos que me
aguçava a curiosidade, com tiras do Sofrenildo, se não me falha a memória. A doce
experiência no colo paterno contribuiu para uma primeira série – momento chocante da
minha vida em que finalmente entrei na escola – recheada de atrapalhos pois, já sabendo ler
e até escrever um pouco, se agravava a minha desmotivação em freqüentar as aulas, onde
demorei a me adaptar às regras de convivência e aos hábitos das outras crianças, com as
quais até então quase não tinha contato prolongado.
Embora meus pais não tivessem tido a oportunidade de completar sua escolaridade,
abundavam materiais de leitura em minha casa, e acredito que o texto ficcional entrasse
mais pela mão de meus irmãos e irmãs, que faziam as leituras que lhes eram solicitadas na
escola. Era importante, para os meus pais, que os filhos prosseguissem nos estudos. Foram
meus irmãos e irmãs que me proporcionaram o contato com certos autores que marcaram a
minha infância, como Julio Verne e José Mauro de Vasconcelos. Lembro-me perfeitamente
de chorar copiosamente enquanto lia “Rosinha, minha canoa”. Em certa ocasião chorei
tanto que não tinha mais condições de prosseguir a leitura e pedi a uma de minhas irmãs
para que continuasse a ler, em voz alta. Enquanto lia, sentada no beliche ao meu lado,
vendo que as lágrimas não paravam de correr, ela insistia para que a leitura fosse
interrompida, ao que eu replicava que não, que estava tudo bem, continuasse com a história.
Muito José Mauro de Vasconcelos eu li e muito chorei, donde devo ter liberado alguma
força lacrimosa sinistra que me acomete até hoje nas leituras mais piegas, contanto que
solitárias.
Felizmente, nem só de leituras dramáticas foi feita a minha meninice. Um prazer
que me acompanhou durante a infância e adolescência, recentemente retomado, é a leitura
de histórias em quadrinhos. Meus irmãos eram fãs de HQs e, assim, sempre havia material
à minha disposição. A paixão por HQs os levou à criação de seus próprios gibis,
desenhados por eles, à mão livre, e à fundação de uma “editora” para a “publicação” de
seus trabalhos, batizada de Editora Vargas Ouro Ltda, cujo livro de registros ainda guardo
comigo. Como não tinham condições de comprar muitos gibis, meus irmãos os pediam
emprestados para amigos e desenvolviam, sem saber, uma forma de fanfiction, elaborando
novas histórias para personagens já existentes, como o Homem-Aranha, e as desenhando
em formato de revistas em quadrinhos, os gibis. Eles também criavam histórias para
personagens originais e segmentavam a produção direcionando-a para diferentes faixas
etárias, como no caso da criação de “Lucina e Lili” , pensado por eles para um público mais
infantil. Para tanto, ocupavam as folhas de cadernos escolares que sobrassem ao término do
período letivo e o produto final, embora caseiro, dispunha de capa, apresentação e todos os
elementos que faziam parte de um gibi industrializado, inclusive chamadas para os
próximos lançamentos da editora. Eram tão bons marqueteiros quanto roteiristas e
desenhistas, e até já contavam com um público leitor, dentre os amigos e colegas.
Sócios fundadores da editora, eles levavam a sério seu empreendimento e lançavam
no livro de registros o número de revistas produzidas no ano, seus nomes (como “Tarzan”,
“Capitão Atlas” ou “Heróis da EVOL”), o número de páginas, os nomes das histórias
constantes em cada revista e os nomes dos autores e desenhistas, em geral os próprios, já
que havia uma observação inequívoca logo após o termo de abertura do livro de registros,
de que quaisquer outros desenhistas cujos nomes constassem naquelas páginas, teriam
atuado como ajudantes. Esses eram minhas irmãs, é claro, a quem muitas vezes cabia o
trabalho de pintar as ilustrações. Folheando as páginas desse registro do seu
empreendedorismo criativo e machista, me surpreendo alegremente ao ver meu nome como
ajudante na confecção de um “álbum de variedades”, com minha assinatura infantil sob ele,
nos idos de 1973.
Dos muitos gibis da infância, passei a seguir com regularidade outras histórias em
quadrinhos, retiradas da biblioteca do SESI. Creio que me afiliei a essa biblioteca
juntamente com meus irmãos e irmãs e me lembro de ir lá, levada por algum deles até que
aprendesse a ir sozinha, retirar principalmente livros de “Asterix” e “Tintin”, que, apesar do
viés colonialista, forneceram minhas primeiras e inesquecíveis aulas de geografia. Sempre
freqüentei as bibliotecas que encontrasse à minha disposição, pois não havia dinheiro
suficiente em casa para comprar muitos livros, embora tivéssemos, além da Bíblia, vários
exemplares de obras para “adultos”. Recordo um em especial, pertencente a meu pai, cuja
lombada vermelha e as letras douradas graúdas muito me impressionavam, bem como o
título: “Direito Romano”. Não sei bem o que fantasiava ser o seu conteúdo, mas sempre o
tive como um livro muito importante no qual eu, leitora de pouca monta, não deveria
mexer. Freudianamente, me casei com um homem que possui vasta biblioteca de livros de
direito e que também lê jornais em formato standard. Junto daquele livro ficavam os
dicionários, que meu pai chamava jocosamente de “amansa-burro”. Ele nos incentivava a
usá-los quando íamos buscar sua ajuda diante de uma palavra desconhecida, dizendo:
“procura no ‘amansa-burro’, assim você não vai esquecer”.
Na estante da sala encontravam-se também coleções de leitura consideradas
adequadas para famílias, como uma chamada “Pérolas Esparsas” que, disso tenho certeza,
compreendia contos de caráter moralizante. Durante vários anos meus pais assinaram a
revista Seleções da Readers’ Digest – a “rriders digést”, como dizíamos – que também foi
uma fonte de leituras para mim, primeiramente das pequenas anedotas, normalmente
ilustradas, que eu corria a procurar assim que a revista chegava e, mais tarde, já lendo com
fluência, artigos e historietas que no mais das vezes ensinavam “rrow tchu bi an américan”.
Curiosa e contraditoriamente, meu pai era um homem de tendências esquerdistas expressas
com vigor dentro de casa, embora naqueles tempos se esforçasse para mantê-las bastante
abafadas em público, já que vivíamos sob uma ditadura militar e o sobrenome da família a
relacionasse com a oposição. Esse ambiente me nutriu um certo espírito crítico já na
infância, quando lia com desdém aquelas histórias em que as crianças que desobedeciam,
sempre terminavam por ser punidas.
Imaginativa, na pré-adolescência passei a criar histórias de improviso em rodas com
as amigas da mesma rua. A princípio a idéia era que a prática fosse um exercício conjunto,
no qual uma ia acrescentando novos trechos a história que outra tivesse dado início, mas
muitas vezes acabava com a desistência delas, que me pediam que “contasse” a história
sozinha. Com o passar do tempo, eu virei a única narradora, ficando as intervenções das
outras meninas concentradas no final da história, quando muitas vezes me pediam que
mudasse o desfecho criado. Não consigo me lembrar de uma única história inteira que seja
e, com certeza, daria algo de muito valioso em troca da oportunidade de entrar numa
máquina do tempo e ver o que é que o “dicionário ambulante”, meu nada simpático apelido
na época, narrava. Quanto ao apelido, logo aprendi que junto às minhas amigas do bairro o
mais adequado era me livrar das conjugações perfeitas e me adaptar à linguagem utilizada
por todos, de forma que, com o passar do tempo, o apelido foi esquecido para meu grande
alívio.
Naqueles tempos voltei minhas atenções para uma coleção de livros da minha mãe,
pertencente à Biblioteca das Seleções Readers’ Digest, cujas histórias eram, no mais das
vezes, condensações de livros de autores norte-americanos. Fui atraída pelos volumes cujas
histórias apresentassem uma qualidade mais assustadora, de suspense mesmo. Os títulos e
as ilustrações lúgubres em tons aveludados que os acompanhavam já bastavam para atear
fogo à minha imaginação, como em “Dois vultos na janela”. Minha mãe sabia poesias de
cor, principalmente as de Casemiro de Abreu, e eu adorava ouvi-la declamando. Meus pais
me incentivaram a ter ouvido para as letras das músicas, principalmente minha mãe, pois
possuía uma memória excelente e sabia as letras completas de muitas canções, que cantava
distraída pela casa com sua vozinha afinada de contralto. Gostava também de pintar e ouvir
composições clássicas do período romântico, como Tchaikovsky, ao mesmo tempo que
sabia muitos sambas (Adoniran Barbosa, Nelson Cavaquinho) e composições populares dos
anos 50, especialmente as interpretações de Francisco Alves. A língua estrangeira também
chegou a mim por meio da música. A preferência de meu pai era o tango, cujas letras ele
me explicava. Na adolescência, de dicionário em punho, eu procurava traduzir as letras de
autoria de minhas bandas preferidas, em geral inglesas e norte-americanas, o que nem
sempre resultava na satisfação de minhas expectativas, mas constituía um excelente
exercício da língua.
Durante alguns anos fomos assinantes do Círculo do Livro, do qual tínhamos de
comprar um livro por mês através de uma revista que nos era enviada, repleta de ofertas de
best-sellers em capa dura. Acho que foi por essa época que adquiri o hábito de fazer listas
mentais das próximas leituras, mais tarde concretizadas em pilhas de livros – ameaçadoras
ou convidativas, dependendo de meu estado de espírito – ao lado da cama. Meu irmão mais
velho me presenteou com algumas “assinaturas” em meu nome na principal banca de
revistas da cidade, de forma que eu pudesse adquirir livros que vinham em edições
periódicas, como a ótima Coleção Primeiros Passos. Acabei por doá-la à biblioteca do
Instituto Menino Deus, onde leciono, na esperança de que outros jovens possam usufruir
dos mesmos benefícios que me proporcionaram aqueles primeiros textos teóricos. Doei
também minha coleção de livros da Aghata Christie e alguns Arthur Conan Doyle e George
Simenon. Confesso que, às vezes, me encontrando na biblioteca, tenho ímpetos de
“desfazer as doações”, assim, pelas minhas próprias mãos.
Das bibliotecas que freqüentei, com certeza aquela na qual passei mais tempo de
minha infância e adolescência foi a do Colégio Estadual Nicolau de Araújo Vergueiro, onde
muitas vezes permanecia para não ter de freqüentar as aulas. Fiquei muito feliz ao
reencontrar a bibliotecária mais tarde, então minha colega de trabalho nessa mesma escola
particular, pelo carinho com que ela se lembrou de mim e de como acobertava minhas fugas
da aula. Li muito naquela biblioteca, inclusive vários livros do Monteiro Lobato, sendo o
meu preferido o “Os doze trabalhos de Hércules”, na época da primeira adaptação do “Sítio
do pica-pau amarelo” para TV. Também me interessei pelas coleções de pintura que,
infelizmente, não são encontradas comumente em escolas públicas, e creio que posso
afirmar sem exagero, provavelmente por questões relacionadas à motivação, mas também à
qualidade de alguns professores, que minha formação progrediu mais na biblioteca da
escola do que nas salas de aula. Penso, também, que foi na biblioteca do CENAV que se
reforçou minha curiosidade pelas línguas estrangeiras. Lembro-me que nas estantes à
direita de quem entrava, lá no alto, próximo ao teto, havia uma longa coleção de livros em
francês, cujas lombadas com seus títulos misteriosos e autores de belo nome me atraíam.
Percebia que ninguém os retirava e me punha a imaginar quando os poderia ler. Voltaria,
com certeza, quando estivesse mais velha – talvez com uns vinte e poucos anos! – e
soubesse ler francês, para resgatá-los de sua solidão. Penso que ainda me aguardam.
Um fato literário que marcou minha adolescência foi a realização da segunda
Jornada de Literatura, quando eu ainda freqüentava o então Segundo Grau. O evento me
mobilizou profundamente. Era a primeira vez que tinha contato com autores de peso, como
Marina Colasanti, Ziraldo, Ignácio de Loyola Brandão, Affonso Romano de Sant’Anna e
Caio Fernando Abreu. Foi realmente inesquecível: menina do interior, nascida e criada sob
o cunho de uma ditadura militar, assisti embevecida suas palestras, percebendo o
descortinar de um novo mundo à minha frente, liberto do provincianismo que assolava meu
dia-a-dia e me indignava com a dimensão que só aos adolescentes é facultado sentir. Dadas
as condições do meu relacionamento com as instituições de ensino, me causou grande
satisfação ouvir Ziraldo afirmar que, da escola, o que se leva são as leituras feitas durante
aquele período da vida. Parecia que eu havia encontrado a “minha turma”! Retomei o
ânimo pela leitura, afinal, fora absolvida do pecado de odiar os estudos e, se lia, tinha por
certo um belo futuro pela frente, uma vez que conseguisse sair da escola, o que, diga-se de
passagem, não era fácil para mim que reprovava até por ausências.
Nunca esquecerei Marina Colasanti sentada em cima da mesa, no placo, exibindo
um belo par de pernas enfiadas em meias roxas, ao mesmo tempo em que esbanjava
segurança, delicadeza, inteligência e charme. “Exibia”, também, um belíssimo exemplar de
marido, poeta sensível e militante sem recender ao machismo de esquerda, tão comum
naquela época. Debulhei meu volume de “E por falar em amor”, de tanto sublinhá-lo e
debatê-lo em reuniões infindáveis, regadas a quentão, na casa de amigas junto às quais
insisti que lessem aquele livro, tão feminino e cujas concepções da mulher e do amor me
pareciam tão sofisticadas. Já “Política e paixão”, do Affonso Romano de Sant’Anna,
lembro de ter comprado usado de uma colega de aula por uma verdadeira pechincha.
Juntamente com “O verde violentou o muro”, do Loyola Brandão, e leituras teóricas de
esquerda, marcou a construção das minhas concepções políticas adolescentes e sinto muita
saudade da fé sincera no futuro do país, que nos movia naquela época.
No entanto, talvez seja Caio Fernando Abreu, dentre os muitos escritores que eu
vim a conhecer, durante todos esses anos, através das Jornadas de Literatura, o que me
deixou a marca mais profunda. Um de meus irmãos havia comprado “Morangos mofados”
e, assustado com a abordagem franca e liberal da vida underground representada nos
contos, o jogara no lixo. Não satisfeito, ainda me fizera uma preleção acerca da má
qualidade do material, sem dúvida com vistas a me preservar de alguma má influência,
estando eu em “idade de formação”. Mal sabia ele que eu já estava em idade de
“desenformação” e livro no lixo não era coisa que aceitasse sem questionamento. A edição
era da Brasiliense, pertencente à coleção Cantadas Literárias, que vim a conhecer naquela
ocasião e passei a acompanhar e adquirir sempre que tinha oportunidade. Durante sua fala
na Jornada, me recordo bem, Caio Fernando Abreu se despiu emocionalmente diante da
platéia e me comoveu por sua sinceridade, por se portar como alguém que não precisava ter
vergonha de ser quem era, nem tampouco esconder suas vivências, algo raro para quem
fugisse aos padrões de conduta da época. Sua fala e seus contos escancararam as portas
para uma compreensão menos acanhada da vida, dos amores, das misérias e alegrias que
fazem a complexidade do ser humano, uma compreensão liberta da fita métrica do interior
gaúcho dos anos 80, ainda tão apertada, instantânea e mesquinha na emissão de juízos de
valor. Não preciso dizer que resgatei “Morangos mofados” do lixo, ou melhor, comprei
outro exemplar e até hoje me emociono ao cantar “Tu me acostumbraste” e ao reler a
história de Saul e Raul, no conto “Aqueles dois”.
Uma vez terminada a passagem para a vida adulta, pude voltar a ter prazer em
estudar uma vez que passei a me dedicar ao que me atrai, e quero crer, inclusive, que o
correr do tempo tem contribuído para aumentar essa satisfação. Quem sabe na velhice tenha
ainda mais disposição para estudar assuntos que me interessam, mas que os compromissos
do dia-a-dia me fazem postergar, ano após ano. Gosto de pensar que a língua alemã me
aguarda. Em que pese a qualidade dos mestres que encontrei na idade adulta, cabe aqui o
reconhecimento a uma ótima professora de Literatura cujas aulas não costumava perder:
“Dona” Leda Kneipp Giaretta nos incentivava a ler as obras ao invés de nos contentarmos
com os resumos do livro didático e demonstrava um prazer verdadeiro em conversar sobre
os livros com os alunos, valorizando nossas opiniões. Outros professores que mais tarde
vim a ter o prazer de conhecer, fizeram eco àquela experiência querida e guardo todos em
pensamento, com muito carinho.
Houve um período no qual, aparentemente, mas apenas em aparência, me afastei
dos textos literários. Embora tendo prestado vestibular para Letras, abandonei o curso em
favor da graduação em História. Eram tempos de leituras teóricas apaixonadas, parte
preparatória aos debates intermináveis que travávamos entre colegas e, algumas vezes,
professores. Essa prática se aproximava mais das minhas urgências de então, de
compreender o mundo – e a mim – para poder modificá-lo (como a mim também). Fiz bons
amigos, passei a militar em prol dos Direitos Humanos – o que acarretou o aprofundamento
em leituras específicas e uma nova compreensão sobre os horrores dos quais o ser humano
é capaz – conheci professores que me marcaram profundamente e ensinaram da dignidade
de ser educadora, como o mestre Fuzinatto, e cresci muito, intelectual e emocionalmente,
no período da graduação, de cuja escolha não me arrependo. Terminei por retornar à área
da Leitura e Literatura no mestrado e no doutorado, pesquisando novas práticas que
aproximam as pessoas espontaneamente do gosto pela leitura e pela escrita, ocasião em que
tive a oportunidade de observar um pouquinho os bastidores das Jornadas de Literatura,
pela mão de sua coordenadora e minha então orientadora, a professora Tania Rösing. Como
professora de língua inglesa, descobri o encanto de poder ler em outra língua e passei a
procurar estender essa oportunidade aos meus alunos, inclusive aos que declaram que não
gostam de ler em português, ciente de que não é com a leitura que talvez se travem suas
batalhas, mas com a memória das más experiências que sofreram.
Nos meus anos vinte anos de exercício do magistério, conheci inúmeros alunos que
fazem eco ao meu passado, bons leitores com notas medíocres, mentes interessantes e
“antenadas”, que passariam despercebidas a um interlocutor menos atento, gente que tem
sede de beleza e conhecimento. Tenho certeza de que perdi outros tantos por falta de
sensibilidade para vê-los e ouvi-los, talvez por não insistir em usar em sala de aula o tempo
necessário para comentar a respeito de um livro que estivesse lendo, ou fazer o elogio a um
filme, ou a letra de uma música e oportunizar um diálogo despretensioso, paralelo ao
conteúdo didático. Mesmo assim eu sei que eles estão lá, cheios de riqueza interior e que,
independentemente de seu desempenho nas avaliações escolares, possuem ferramentas
pessoais e saberão onde buscar os elementos necessários para uma vida saborosa, recheada
de planos de realização. Quiçá todos tenham a oportunidade, como eu tive, de encontrar
“sua turma” e vivenciar suas potencialidades, com horizontes que se expandam para além
dos seus fracassos.