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r i p e 2015 RELAÇÕES INTERNACIONAIS PARA EDUCADORES “OS BRICS NA CONSTRUÇÃO DE UM

ripe 2015

RELAÇÕES INTERNACIONAIS PARA EDUCADORES

“OS BRICS NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO MULTIPOLAR”

PORTO ALEGRE, v. 2, 2015

EDITOR

Paulo Fagundes Visentini (UFRGS)

CONSELHO EDITORIAL

Analúcia Danilevicz Pereira (UFRGS) André Luiz Reis da Silva (UFRGS) Anselmo Otávio (UFRGS) Gabriel Pessin Adam (ESPM-Sul / Unisinos) Luiz Dario Teixeira Ribeiro (UFRGS) Maíra Baé Baladão Vieira (IFRS/NERINT-

UFRGS)

Paulo Fagundes Visentini (UFRGS)

CONSELHO EXECUTIVO

Alexandra de Borba Oppermann Katiele Rezer Menger Marcelo Scalabrin Müller

DIAGRAMAÇÃO

Ítalo da Silva Alves

ARTE

Tiago Oliveira Baldasso

SOBRE O RIPE

O projeto Relações Internacionais para

Educadores - RIPE tem como objetivo auxiliar na capacitação de professores da

rede pública de ensino básico para que possam abordar, dentro da sala de aula, temas relevantes da agenda internacional atual.

O RIPE nasceu entre os alunos do curso

de Relações Internacionais da Universidade

Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2010. O principal objetivo do projeto é compartilhar com a comunidade de educadores os conhecimentos obtido na universidade federal. Desde sua origem, o RIPE elabora uma publicação anual sobre temas pertinentes e atuais de relações internacionais. A partir de 2014, esta publicação tornou-se um periódico científico anual.

CONTATO

Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Faculdade de Ciências Econômicas Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais Av. João Pessoa, 52, sala 33A - 3o andar CEP 90040-000 - Centro | Porto Alegre/RS - Brasil Telefone: +55 51 3308.3963 | Fax: +55 51 3308.3963

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)

RIPE : Relações Internacionais para Educadores : os BRICS na construção de um mundo multipolar / Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Ciências Econômicas, Programa de Pós- Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais. Vol. 2 (2015). Porto Alegre : UFRGS/FCE/PPGEEI, 2014 -

Anual.

ISSN 2318-9398.

1. Relações exteriores : Política. 2. BRICS. 3. Multipolaridade. 4. Países emergentes. 5. Integração regional.

CDU 327

SUMÁRIO

EDITORIAL

 

5

ARTIGOS

 

A

nova ordem mundial e os BRICS

 

7

Alexandra de Borba Oppermann, Katiele Rezer Menger, Marcelo Scalabrin Müller

Das origens ao modelo atual: a ascensão da República Popular da China e seu papel nas Relações Internacionais Henrique Gomes Acosta, Júlia Oliveira Rosa, Karina Ruiz

33

Desafios e perspectivas da potência eurasiana dos BRICS: a Federação Russa Livi Gerbase, Marina Schnor, Rodrigo Milagre

59

A

Índia como potência:

desafios e

perspectivas

85

Henrique Pigozzo da Silva, Josiane Simão Sarti, Luiza Bender Lopes

Brasil: inserção internacional sobre bases autônomas Ana Carolina Melos, Letícia Tancredi, Pedro Alt

105

A

construção da África do Sul contemporânea

133

Ana Paula Calich, Jéssica Höring, Marília Closs

TEXTOS COMPLEMENTARES

 

Estrutura doméstica e política dos BRICS Thaís Jesinski Batista

157

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Comércio exterior dos BRICS Régis Zucheto Araujo

171

Segurança e defesa: os BRICS em perspectiva comparada Guilherme Simionato

181

A estrutura energética dos BRICS Natasha Pereira Lubaszewski

195

RIPE: Relações Internacionais para Educadores | Vol. 2 | 2015

EDITORIAL

Os cinco Estados que integram o agrupamento BRICS têm sido identificados como as potências emergentes neste início de século XXI, ainda que muitos apontem as marcantes assimetrias existentes entre eles, particularmente após o ingresso da África do Sul. Afinal, qual é a razão de ser do BRICS, o que são potências, quais são emergentes e qual o significado de tais conceitos? O que esperar da nova situação em que alguns dos seus membros sofrem crises econômicas e políticas em 2015? Os anos de 1990 foram os do triunfo da vertente neoliberal da globalização, o crescente poder das nações integrantes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e das Organizações Internacionais sob seu controle. Todavia, muito mais intensa foi a liberalização financeira e comercial e o crescente poder das grandes corporações transnacionais, poderes menos visíveis do que os das políticas das “potências vencedoras”, a elas cada vez mais condicionadas. Nesta época, sob hegemonia do mercado, as grandes nações em desenvolvimento passaram a ser denominadas pelos consultores de investimentos (logo seguidos pela academia) como mercados emergentes. China, Rússia, Índia, Brasil, África do Sul, além de outros, receberam tal classificação, até que em 2001, Jim O’Neill, da Consultoria Goldman Sachs de Nova Iorque, criou o acrônimo BRIC e o subjacente conceito de potência emergente. As mudanças no sistema mundial, com a instabilidade financeira atingindo alguns mercados do Sul, que “submergiram”, da redução do crescimento econômico na OCDE e do seu aumento crescente nas nações BRIC, embasavam a análise, que se baseava exclusivamente no mercado potencial e na produção. Tais países se tornariam potências econômicas com o volume do PIB ultrapassando os do Norte ainda na primeira metade do século XXI. E logo em seguida muitos analistas identificaram um virtual paralelo poder político-militar a se desenvolver. O acrônimo representou uma publicidade gratuita para os quatro membros do BRIC, mas ele só foi assumido por eles e ganhou dimensão política com o advento da crise mundial iniciada em 2008 e com o ingresso da África do Sul (com a mudança do acrônimo para BRICS). As reuniões de Cúpula geraram uma agenda e um fato político, pois essas potências emergentes não desejavam ser tragadas pela crise originada nos Estados Unidos e propagada pela Europa. Os BRIC, quando significavam apenas um conceito abstrato, eram enfocados como elementos positivos do crescimento mundial. Todavia, quando a recessão atingiu as duas margens do

Atlântico Norte e a sigla ganhou vida política, surgiram crescentes críticas ao grupo. As debilidades estruturais de alguns, as rivalidades intra-grupo, a falta de uma agenda definida e, enfim, a virtual inviabilidade do grupo foram ressaltadas pelos analistas do Norte. Esses, então, enfatizaram que os membros do BRIC deveriam atuar através do G-20 (financeiro), havendo aí o inevitável espaço e mecanismo de divisão e cooptação. Os membros do BRICS são ou aspiram ser membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e, mais do que possuir determinado volume de território, população e PIB, possuem forte impacto regional e projeto nacional relativamente autônomo, o que não se pode dizer do México ou da Turquia, por exemplo, ligados ao NAFTA e à União Europeia, respectivamente. Apesar das pontuais diferenças materiais e de perspectivas, todos ocupam uma posição semelhante na ordem mundial em transição, e necessitam, para consolidar sua posição, que ela seja reformada rumo à multipolaridade e a uma forma multilateral de “governança”, através de uma ONU renovada. Contudo, nesse momento, as potências do Atlântico Norte estão utilizando mecanismos financeiros, midiáticos, de inteligência e até militares (contra a Rússia) para reduzir a capacidade internacional dos BRICS. As reservas financeiras e mesmo o patrimônio adquirido (como empresas internacionalizadas) estão sob severa pressão. Assim, a publicação do RIPE 2015 é de grande atualidade e utilidade, com artigos e textos complementares, permitindo uma melhor compreensão dos problemas contemporâneos. Parabéns a todos os articulistas e organizadores do evento, pela qualidade, seriedade e comprometimento.

PAULO FAGUNDES VISENTINI

Prof. Titular de RI/UFRGS Coord. do NERINT/FCE

RELAÇÕES INTERNACIONAIS PARA EDUCADORES (RIPE)

ISSN: 2318-9390 | V. 2, 2015 | P. 731

A NOVA ORDEM MUNDIAL E OS BRICS

THE NEW WORLD ORDER AND THE BRICS

Alexandra de Borba Oppermann 1 Katiele Rezer Menger 1 Marcelo Scalabrin Müller 1

RESUMO

Este trabalho busca analisar o desenvolvimento histórico que permitiu a ascensão dos cinco países emergentes membros do BRICS: Brasil, Rússia, Índia,

China e África do Sul. Para tanto, realiza uma análise histórica dos principais movimentos recentes de transformação do sistema internacional, quais sejam

o fim do mundo bipolar da Guerra Fria, o momento unipolar dos Estados

Unidos nos anos 1990 e a emergência de um mundo multipolar na década de 2000. Os principais desenvolvimentos econômicos e políticos do período são levados em consideração como fatores importantes para o surgimento dos BRICS. Debate-se a importância dos BRICS na construção de um mundo multipolar com novas instituições de governança global, nas quais deverão ser protagonistas. Palavras-chave: BRICS; sistema internacional; multipolaridade; emergentes.

1 INTRODUÇÃO

Desde meados da primeira década do novo milênio, o BRICS surpreende por ser um grupo de países que se articulou sem que, à primeira vista, esteja claro

o que têm em comum. O que leva Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul,

países que possuem histórias tão díspares, localizados em regiões relativamente esparsas do planeta, a sentarem em uma mesa de negociação e a atuarem como um bloco coeso? Se trata de um movimento de países que emergem economicamente num sistema internacional até então dominado por centros muito tradicionais: Europa ocidental e América do Norte. Agora, esses novos atores querem somar forças para garantir seu protagonismo nas relações internacionais. Esse movimento de ascensão e reivindicação leva a

1 Graduandos em Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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pergunta: que condições houve na política e economia globais que permitiram

o surgimento desses novos atores?

O objetivo deste trabalho é analisar o desenvolvimento histórico do

sistema internacional de um ponto de vista amplo num período que consideramos fundamental para a compreensão dos BRICS. A primeira vez que estes países foram tratados como grupo data de 2001 (ONEILL, 2001), mas, para interpretar o sistema internacional em que surgem, consideramos como momento histórico relevante o fim da Guerra Fria. A queda da União Soviética inicia um novo momento nas relações internacionais, de preponderância dos Estados Unidos. É esse sistema internacional que permite

a ascensão dos emergentes na construção de um mundo multipolar. Nas

seções que se seguem, nos dedicaremos à análise do período que se seguiu à

queda da União Soviética e que viu o surgimento do BRICS como protagonista das relações internacionais contemporâneas.

2 O DECLÍNIO DA VELHA ORDEM

Quando a guerra fria atinge seu ápice, ainda na década de setenta, já começa o seu declínio. Os acordos entre EUA e URSS sobre não proliferação de armas nucleares, firmados entre 60 e 70, e as perspectivas comerciais entre ambos os países pareciam anunciar a continuidade da distensão. Todavia, nos anos 80, há uma retomada das hostilidades entre EUA e URSS, culminando num período de crise cujos acontecimentos levarão ao fim da Guerra Fria e à emergência de outros desafios à nova ordem estabelecida (HOBSBAWM, 1995).

O capitalismo como era estruturado à época, um modelo fordista-

keynesiano baseado na produção em grande escala, linhas de montagem, intervenção estatal na economia e questões como a distribuição de renda e aumentos salariais contínuos, passa a corresponder cada vez menos ao que se propunha, pois, depois de 30 anos de crescimento, as economias europeia e estadunidense entram num período de estagnação. Ficou cada vez mais claro que a divisão internacional do trabalho não correspondia mais às demandas

do padrão de consumo e de produção, chegando a um ponto em que a rigidez do modelo não permitiu que se seguisse com taxas crescentes de lucro e de crescimento, as quais começaram a declinar (VIZENTINI, 2007). Em 1971, dada a grande demanda mundial por ouro, é declarado pelo presidente Nixon o fim do acordo de Bretton Woods, que obrigava cada país a manter a taxa de câmbio congelada ao dólar, que estava fixado ao valor do ouro. Com o fim da conversibilidade dólar-ouro, cada vez mais a moeda dos Estados Unidos torna-se o dinheiro hegemônico nas reservas mundiais e a referência de todo o sistema financeiro mundial (BARRETO, 2009).

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Ao mesmo tempo em que o capitalismo começa a apresentar tais dificuldades estruturais, inicia-se uma política de aumentos do preço do petróleo anunciada pelo Xá do Irã, íntimo aliado dos Estados Unidos. A situação piorou em 1973, durante a guerra do Yom Kippur, quando os países árabes aumentaram o preço do petróleo em 4 vezes e ainda declararam embargo aos países que apoiavam Israel. Os efeitos da chamada crise do petróleo foram múltiplos, mas pode-se dizer que os EUA saíram beneficiados da situação, dado que o país importava menos de 10% do petróleo do Oriente Médio e tinha influência sobre as empresas do setor. Europa e Japão, que no início da década haviam ultrapassado os EUA em vários aspectos econômicos, saem prejudicados, pois eram extremamente dependentes da importação de petróleo (VIZENTINI; PEREIRA, 2012). A URSS sai, por um lado, fortalecida da crise, dado que esta a estimulou a vender petróleo no mercado mundial. Mas, por outro lado, sua gradual abertura ao mercado mundial a aproximou da economia capitalista bem no momento em que esta passava por um período instável. Os EUA passam a buscar uma proximidade com a China, visando a reforçar a contenção da URSS, que começa a ter paridade estratégica com os EUA. Como resposta à aliança sino-americana, a URSS vai intensificar seu apoio às revoluções no terceiro mundo, para estabelecer pontos de apoio com os novos regimes (VIZENTINI; PEREIRA, 2012). Na década de 70 aconteceram várias revoluções socialistas, sendo uma das mais centrais para os encaminhamentos da Guerra Fria a Guerra do Vietnã. 2 Segundo Vizentini (2007), esta guerra significou não apenas um conflito militar entre exércitos nacionais, mas uma revolução social. A derrota estadunidense, maior potência militar da época, para um país agrícola e periférico evidenciava o desgaste do país e o amplo potencial das alianças entre as revoluções socialistas e os Estados socialistas em vias de

2 A Guerra do Vietnã foi um conflito ocorrido no sudeste asiático, que se acirrou entre 1965 e 1975. O conflito se inicia quando os EUA enviam tropas para apoiar o governo do Vietnã do Sul, que tinha dificuldades de conter a insurgência de um movimento comunista nacionalista, unificado na Frente Nacional para a Libertação do Vietnã (FNL). O conflito armado foi travado entre a frente formada por EUA e o Vietnã do Sul (que tiveram apoio da Coreia do Sul, Australia e Nova Zelândia) e o Vietnã do Norte (que teve apoio da União Soviética, China e Coreia do Norte, sendo que a China foi aos poucos diminuindo o apoio). Enquanto os EUA e o Vientnã do Sul se utilizavam de artilharia pesada e agentes químicos nos combates, as tropas do Vietnã do Norte travaram uma guerra de guerrilha, utilizando armadilhas e se valendo da formação geográfica local para cercar o inimigo. Apesar da disparidade tecnológica entre os combatentes, e mesmo com o discrepante número de baixas (morreram aproximadamente 58 mil norte americanos, 250 mil sul vietnamitas e 1,1 milhão de norte vietnamitas), a guerra termina com a retirada das tropas estadunidenses em 1973, e com a unificação do Vietnã em 1975, sob regime comunista (CANTU,1968).

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industrialização. A chamada “síndrome do Vietnã” levou a um parcial refreamento dos EUA na política internacional, reforçado pela opinião pública que começava a condenar a interferência direta em crises do terceiro mundo. A Indochina seguiria ainda desestabilizada mesmo após o fim da Guerra do Vietnã, dado que a China, atuando cada vez mais em prol dos EUA, iniciaria uma política de contenção das revoluções socialistas que aconteceriam na região. Também na América Latina os anos 70 foram um período conturbado, com revoluções socialistas tomando conta de países da América Central que outrora eram governados por oligarquias atreladas aos interesses dos EUA. Na América do Sul, por outro lado, quase todos os países viviam sob regimes ditatoriais cuja implantação teve grande apoio estadunidense. Todavia, o espaço do globo que mais tinha a atenção dos EUA era o chamado “Arco das Crises”. Se estendendo do Chifre da África até o Paquistão, próximo do Golfo Pérsico (região rica em petróleo), da URSS e do Oceano Índico, a região é considerada um espaço vital para a geopolítica mundial (VIZENTINI, 2007). E é nessa região que aconteceu a Revolução Iraniana (revolução que alterou o regime do Irã, que passou de uma monarquia pró-ocidente para uma república islâmica comandada por Aiatolás, líderes religiosos), a qual impulsionou, primeiramente, a intervenção soviética no Afeganistão e, depois, serviu de pretexto para uma grande mudança na diplomacia estadunidense, encerrando o período conhecido como Détente , ou Coexistência Pacífica. Tais acontecimentos, cujo ápice foi o ano de 1979, são centrais para se entender a continuação das crises do Oriente Médio. Mas, acima de tudo, eles representam um ponto de inflexão na atuação estadunidense no sistema internacional, que vai passar de uma presença indireta por meio de aliados confiáveis, para uma presença mais direta e ofensiva (JUNIOR, 2013). A década de 80 se inicia com uma recuperação dos ideais políticos e econômicos da direita, a qual é representada por Ronald Reagan nos EUA e Margaret Tatcher na Grã-Bretanha. Essa recuperação é evidenciada pelos movimentos de contra-revolução que vão começar a ser movidos pela Casa Branca em conjunto com seus aliados, Europa Ocidental e Japão, e pela retomada do modelo liberal para a economia (VIZENTINI; PEREIRA, 2012). As movimentações dos EUA para a contenção dos governos socialistas que haviam se instalado na década anterior na África, América Central, Indochina e Oriente Médio, iniciam uma nova corrida armamentista em que os EUA saem à frente da URSS, que começa a ter dificuldades de manter o apoio aos regimes revolucionários do terceiro mundo (HOBSBAWM, 1995). O

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investimento estadunidense nesta ofensiva fica evidente quando o país não ratifica os acordos SALT II (sobre limitação de armas nucleares), investe na reequipagem da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e prossegue com a instalação de mísseis em locais estratégicos da Europa. Um dos conflitos mais centrais desse período de ofensiva estadunidense é a Guerra Irã-Iraque. Segundo Vizentini (2007), o Iraque iniciou, com o apoio dos EUA, a ofensiva ao Irã porque buscava ser potência regional e, ao mesmo tempo, garantir algumas vantagens territoriais na região rica em petróleo. Os EUA, por sua vez, teriam vantagem em apoiar o Iraque pois, ao promover a guerra, conteriam a Revolução Antiimperialista que ocorria no Irã e ainda enfraqueceriam o Oriente Médio ao mudar as coalizões de força da região. O conflito, que se estendeu até 1988, envolveu diversos interesses na política petrolífera e causou uma instabilidade que favoreceu cada vez mais a presença estadunidense na região, sob o pretexto de tentar restabelecer a paz. Durante a década 1980, pode-se dizer que muitos países periféricos passaram por uma progressiva decomposição de suas estruturas sociais (VIZENTINI, 2007). Em vários países do terceiro mundo, uma onda democratizante contrastou com o aprofundamento da crise econômica. Houve o desgaste dos regimes de segurança nacional, que estavam cada vez mais frágeis devido à estagnação econômica, endividamento externo e erosão das bases de sustentação política (VIZENTINI; PEREIRA, 2012). Além disso, crescia o desemprego estrutural promovido pelo desenvolvimento de novas tecnologias. Em meio à crise, os governos neoliberais culpavam os investimentos em políticas sociais, que foram reduzidos e assim só agravaram os efeitos da crise. Os EUA, como parte da estratégia do governo Reagan de ruptura da coexistência pacífica, deram novo fôlego à corrida armamentista, promovendo a digitalização da guerra e um aumento significativo de gastos militares. A URSS começa então a tentar se equiparar, mas percebe que, para produzir equipamentos sofisticados tecnologicamente como os dos EUA em escala industrial, seria necessário reformular toda a sua indústria, o que consequentemente significaria alterar o seu modo de produção (FRIEDMAN, 2000). Apesar disso, ela segue buscando a equiparação, o que, somado aos embargos econômicos e às guerrilhas que por um tempo ainda sustentou, corroborou para um desgaste cada vez maior de sua economia. Em 1985, Gorbatchev assumiu como Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética e tentou implantar algumas mudanças no regime. Ele aplica dois planos de reforma: a Glasnost e a Perestroika. A primeira visava uma reforma econômica, e a segunda uma liberalização da

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mídia e uma maior transparência do governo. Todavia, as reformas acabaram por fragilizar a URSS. As tentativas de mudança na economia e a abertura da imprensa aumentaram a pressão popular pela liberalização do regime, e o partido começa a perder poder. Além do mais, não houve um planejamento do que se seguiria depois das reformas, e seus efeitos foram cada vez mais incontroláveis. Essa liberalização se estende aos países da URSS, onde afloram os movimentos nacionalistas. A Polônia conseguiu negociar eleições livres, e logo depois a Hungria. Na Tchecoslováquia, Bulgária, Romênia e Alemanha Oriental ganham força as movimentações pelo fim do regime socialista. Em 1989 é anunciado que os cidadãos da República Democrática Alemã podem visitar a Alemanha Ocidental, movimentação que levou à queda do muro de Berlim, um marco do fim da guerra fria. Ainda em 1991 há uma tentativa frustrada de golpe contra Gorbatchev por alguns conservadores do partido, mas mesmo com ele conseguindo permanecer no poder sabia-se que o fim da URSS era só uma questão de tempo. É então que, em dezembro de 1991, depois de os países bálticos e a Ucrânia declararem a independência, Gorbatchev anuncia o fim da URSS e renuncia ao cargo de secretário geral do Partido Comunista Soviético. Segundo Halliday (1999), as conquistas do modelo soviético ainda eram superficiais e o fracasso socioeconômico acabou por acelerar a transição de um modo de produção para outro, dado que o sistema já não podia permanecer como estava, e as reformas não foram capaz de preservá-lo. Além

disso, a questão cultural também foi central para o fim do regime, dado que a abertura à imprensa ocidental foi um grande promotor do descontentamento das massas com as questões socioeconômicas. Também, o partido foi incapaz

de manter espaços a críticas ou laços com sindicatos, o que enfraqueceu a ação

coletiva (KEERAN; KENY 2008). Para Vizentini (2007), o próprio capitalismo, com uma grande capacidade de reciclagem econômica e tecnológica, elaborou mecanismos de propaganda e legitimação social, erodindo os valores socialistas e conseguindo, ao fim, consagrar no poder uma elite não socialista

que reimplanta a propriedade privada dos meios de produção.

3 A ÚLTIMA DÉCADA DO SÉCULO XX

A década de noventa foi caracterizada por uma intensa reformulação do

sistema de alianças militares, políticas e econômicas ao redor do mundo, além

de modificar profundamente as relações sociais existentes. Para compreender

todas as transformações vivenciadas nos últimos dez anos do século XX, se faz necessário analisar (i) as realidades econômicas e sociais dos países ao redor

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do mundo naquele início de década; (ii) a interferência do fenômeno da globalização na dinâmica capitalista; (iii) a consolidação de blocos regionais; (iv) as ameaças e medidas adotadas pelos Estados Unidos da América para manter seu unilateralismo e; (v) o que os anos noventa reservaram para o novo milênio.

3.1 O CAMINHO ATÉ A NOVA ORDEM MUNDIAL

Para Hobsbawm (1995), os vinte anos que sucederam à crise de 1973 foram aqueles em que o mundo mergulhou em instabilidade e em crise. Apesar do evidente aumento da produtividade em países do mundo capitalista e de a economia global estar cada vez mais dinâmica, problemas antigos, como a pobreza, o desemprego em massa, a miséria e a instabilidade voltaram a assombrar muitos Estados mais ricos e mais desenvolvidosestes problemas eram, antes da Segunda Guerra Mundial, relacionados ao capitalismo, e foram em grande parte eliminados devido às políticas econômicas adotadas desde 1945 até o início da década de setenta. Se as economias capitalistas desenvolvidas enfrentavam desafios relacionados à propagação de problemas sociais, a África, a Ásia ocidental e a América Latina sofriam ainda mais. Como já visto, a década de oitenta marcou a desaceleração no crescimento do PIB dos países do Terceiro Mundo, onde as desigualdades econômicas e sociais aumentavam gradativamente e faziam de algumas nações periféricas verdadeiros centros de miséria. Para se ter uma ideia, o Brasil dos anos oitenta podia ser considerado o campeão mundial em desigualdade econômica, tendo em vista sua injusta distribuição de renda, beneficiária dos ricos e quase mortal para a população pobre (HOBSBAWM, 1995). Concomitantemente, algumas das economias pertencentes à zona do chamado “socialismo real” também enfrentaram períodos de desestabilização, principalmente após 1989. Como atesta Hobsbawm (1995), o PIB da Rússia, por exemplo, sofreu variações negativas ao longo dos períodos de 1990-91, de 1991-92 e de 1992-93, 3 fato que coincide com o colapso e com o desmembramento da URSS. No entanto, enquanto principalmente os Estados soviéticos enfrentavam as consequências de seu processo de desintegração, as economias de grande parte do sul e do sudeste asiático honravam seu título de “região mais dinâmica da economia mundial”, lograda ao final da década de 70, tendo desenvolvido suas economias a níveis crescentes. A China, em especial, tornou-se objeto de estudos e de olhos atentos por parte do ocidente:

no início dos anos 90, passou a ser considerada a economia mais dinâmica e

3 -17%, 19% e -11%, respectivamente.

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de maior crescimento do mundo, ameaçando o modelo neoliberal, já desgastado na maioria dos países que o adotaramexcetuando-se, possivelmente, os Estados Unidos e sua vasta economiaem função da globalização da economia e da consequente criação de um mercado mundial (HOBSBAWM, 1995). Essa globalização, segundo Vizentini (2007, p.198), exerceu papel relevante na história global ao longo da década de noventa. A economia mundial teve seu sistema de produção modificado à medida que as transformações originadas da revolução científico-tecnológicaprincipalmente aquelas ligadas ao desenvolvimento de equipamentos de informática, como chips, computadores e a internetpossibilitaram aos Estados-nação novos tipos de interação, integrando-os e tornando-os interdependentes (HOBSBAWM, 1995). Assim, investimentos em pesquisas científicas e na constante evolução das máquinas permitiram a transnacionalização da produção, “em uma extensão extraordinária e com consequências impressionantes” (HOBSBAWM, 1995). Porém, a globalização e a revolução tecnológica tiveram seu viés negativo e contribuíram de forma relevante para o agravamento das condições sociais em muitos países: a tendência da industrialização e do aprimoramento da maquinaria foi substituir a mão-de-obra humana pelo trabalho das máquinas, provocando desempregos. Com isso, o número de desempregados aumentou significativa e rapidamente: não era apenas um desemprego cíclico, mas sim estrutural 4 — “os empregos perdidos nos maus tempos não retornariam quando os tempos melhoravam: não voltariam jamais” (HOBSBAWM, 1995). Somado a esses fatores, a divisão internacional do trabalho também passou por modificações que afetaram a vida e o bem-estar de cidadãos pelo globo, especialmente aqueles que habitavam países do Terceiro Mundo. A transferência de indústrias de velhos países regionais para novos, segundo Hobsbawm (1995), marcou o nascimento de muitos novos países industriais, principalmente periféricos. O motivo era simples: a mão-de-obra mais barata das nações subdesenvolvidas atraía as grandes empresas. O problema real residia no fato de que o aperfeiçoamento deveria ser destinado, de tempos em tempos, não somente à maquinaria das indústrias, mas também aos cérebros daqueles que as operavam, e isso custava caro. Além disso, os trabalhadores do campo, substituídos pelas máquinas agrícolas nascidas da revolução tecnológica, não encontravam ocupação para seus serviços, pois sua mão-de-

4 O desemprego estrutural ocorre quando há mudanças estruturais na economia que resultam em desajustes no emprego da mão-de-obra. Ele é mais comum naqueles Estados em que há grande mecanização das indústrias, que substitui o serviço braçal pelo da máquina.

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obra já não era mais absorvida pelo mercado. Em suma, não havia empregos que atendessem a todas as mãos disponíveis para o trabalho:

mesmo que alguns trabalhadores pudessem ser retreinados para os empregos

de alta qualificação da era da informação, que continuava a expandir-se (a maioria dos quais exigia cada vez mais educação superior) (HOBSBAWM, 1995).

[ ]

Dessa forma, percebeu-se com a mundialização do capital, com o conhecimento utilizado como arma para se chegar ao desenvolvimento, com a substituição do homem pela máquina e a consequente crescente exigência por qualificação, a exclusão de muitos dentro de um sistema dito integracionista. Como afirma Vizentini, (2007, p. 178 e 202):

A globalização é seletiva, pois visa a determinadas regiões, atividades e segmentos sociais a serem integrados mundialmente. Desta forma, enquanto certas áreas e grupos são integrados globalmente, outros são excluídos desta gigantesca transformação, conduzindo a uma diversificação cada vez maior do espaço mundial e agravando ainda mais a concentração de riqueza em termos nacionais e sociais;

Assim, um clima de insegurança e de medo assolou os trabalhadores, mesmo em nações desenvolvidas: o destino era incerto para muitos. Isso fez com que partidos trabalhistas perdessem força, já que seu principal instrumento, a ação econômica e social de governos nacionais, não parecia possível diante da predominância do modelo neoliberal. Assim sendo, o início da década de noventa foi caracterizado pela quase inexistência de governos trabalhistas e social-democratas e, mesmo quando existiam administrações socialistas, estas deixavam de lado suas políticas mais tradicionais para adaptar-se à realidade mundial (HOBSBAWM, 1995). Nesse contexto, opositores aos altos custos sociais pagos pela implementação do neoliberalismo procuraram desgastar o modelo gradativamente através da tentativa de um resgate da unidade social (VIZENTINI, 2007, p. 204-206). Sendo assim, novas forças políticas surgiram sob a forma de um grupo marcadamente heterogêneo, que passou a tentar preencher o vazio deixado pela esquerda tradicional: o conservadorismo xenófobo e racista, os defensores dos regionalismos separatistas e os “verdes” e pertencentes a “novos movimentos sociais” como aspirantes a um lugar na esquerda (HOBSBAWM, 1995). À medida que a globalização acelerava no pós Guerra Fria, aceleravam-se também os processos de consolidação ou de criação das integrações regionais, um dos marcos da política internacional da década de noventa. A partir de interesses comuns, principalmente econômicos e políticos, diversas nações de uma mesma região passaram a discutir a necessidade de afirmarem-se como grupos (ou blocos) a fim de terem maior participação na dinâmica global.

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Dessa forma, de processos anteriores nasceram a União Europeia (1991), o Mercosul (1991) e o NAFTA (1992), por exemplo; a Comunidade dos Estados Independentes, ou CEI, (1991), surgiu a partir de interesses comuns das antigas repúblicas socialistas soviéticas e assinalou o fim da URSS. Porém, Vizentini (2007, p.181), salienta a dificuldade de negociações comerciais entre as diferentes nações à época, pertencentes então a blocos e/ou megablocos, devido à economia internacional cada vez mais competitiva. Assim, assinala que

a estruturação dos megablocos, isto é, dos processos de integração econômica

supranacional em escala regional, longe de significar uma harmonização de interesses dentro de mercados abertos no plano mundial, representa em larga medida o contrário: a liberalização comercial entre os países integrantes de cada bloco é acompanhada pelo estabelecimento de um protecionismo ainda maior em relação ao resto do mundo. As consequências só não foram mais graves até agora porque as rivalidades ocorrem dentro de um sistema fortemente interdependente.

[ ]

Foi nesse contexto de integração regional que, em 1991, o Tratado de Maastricht marcou a criação da União Europeia como a conhecemos atualmente. Os doze países-membros precursores do bloco, 5 após décadas de acordos e de negociações, uniram-se sob os ideais de livre circulação de mercadorias e de pessoas, sendo esta última alcançada através do direito à cidadania europeia; de voto a nível europeu e municipal; e da moeda única, o Euro, a ser concretizada em 2002, dois anos após a criação do Banco Central Europeu (BECKER, 2002, p.20). Atualmente, a UE é composta por vinte e oito países-membros, 6 tendo ampliado seu número gradativamente ao longo da década de noventa e na primeira década dos anos 2000. Ademais, a União Europeia se consolidou na década de 90 como o bloco de maior autonomia econômica, além de manter parcerias estratégicas com regiões e com outros blocos significativos, tais quais África-Caribe-Pacífico e o Mercosul, em 1995, através do Acordo Marco de Cooperação (VIZENTINI, 2007, p. 186). 7 O ano de 1991 seria, também, aquele que levaria Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai a assinarem o Tratado de Assunção, que estabeleceu a

5 Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Portugal e Reino Unido.

6 Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Croácia, Chipre, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Polônia, Portugal, República Checa, Romênia, Suécia e Reino Unido.

7 Este acordo dá-se com “os objetivos de fortalecer as relações recíprocas e preparar as condições para a criação de uma associação inter-regional de cunho político e econômico. Estabelece ainda um quadro institucional para um diálogo regular e sistemático, composto de um Conselho de Cooperação, formado por ministros; uma Comissão Mista de Cooperação (grupo técnico responsável pela formulação de propostas), e uma Sub-comissão Comercial” (SAVINI, 2001).

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criação do Mercado Comum do Sul, o Mercosul. Segundo Faria & Fiori (2011,

p. 3), os objetivos do Mercosul eram:

Fazer com que os Países-membros do Bloco coordenem gradualmente suas políticas macroeconômicas, bem como a implementação de uma tarifa externa comum (a TEC, a ser criada em 1995) e a adoção de acordos setoriais, visando a facilitar a utilização e a mobilidade dos fatores de produção e alcançar escalas de produção eficientes.

Para Vizentini (2007, p. 185-186), o Brasil idealizou para o processo de integração regional sonhos mais altos: desejoso por converter o Mercosul em uma área de iniciativa própria, por manter a política argentina afastada das influências estadunidenses e por buscar a criação de uma Área de Livre Comércio Sul-Americana (ALCSA), o país vislumbrava uma tentativa de negociar a inserção regional em uma ordem mundial predominantemente ocupada pelos megablocos do Norte desenvolvido. O projeto brasileiro de maior autonomia e espaço mundial à América do Sul ampliou-se com a aproximação gradual com os países andinos e com uma maior interação com

a África do Sul. Em resposta, os Estados Unidos lançaram mão do projeto integracionista hemisférico sob os moldes do capitalismo liberal. Assim, em dezembro de

1994, durante a Cúpula das Américas, o então presidente Bill Clinton propôs

a criação do Acordo de Livre Comércio das Américas (ALCA) aos 34 países que

compõem o continente, à exceção de Cuba. No entanto, os países sul- americanos não receberam bem a proposta, pois perderiam a grande maioria de seus vínculos com outras áreas do mundo. O Mercosul passou, então, a sofrer pressões externas e tentativas de divisão, como a aproximação dos Estados Unidos da Argentina convidando o país portenho a entrar na OTAN, por exemplo e o Brasil se viu incapaz de candidatar-se a um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas (VIZENTINI, 2007,

p. 186).

A partir desses eventos, o processo de integração do Mercosul buscaria condições graduais de incitar o desenvolvimento socioeconômico de seus membros de uma forma compartilhada, e não mais isolada como ocorreu ao longo de todo o século XX (FARIA; FIORI, 2011, p.3). Conforme atestam Assis, Patacho, Barboza & Costa (2011, p. 2):

Em dez anos de existência o comércio regional entre os países integrantes do Mercosul se multiplicou. Neste sentido, o Mercosul se configurou como um projeto que ultrapassou os marcos limitados de uma integração econômica, colocando a urgência de um projeto de integração econômica, político, social e cultural para a América Latina, nas possibilidades de construir um projeto histórico comprometido com os interesses latino-americanos.

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Em 1994, foi assinado o Protocolo de Ouro Preto, que consolidava o bloco como autoridade jurídica, com órgãos administrativos e que estabelecia parcialmente uma zona de livre-comércio e uma limitada união aduaneira. Isso significava que, a partir do momento de ratificação do Protocolo, o Conselho do Mercado Comum poderia assinar acordos com outros países ou polos de integração regional, importante passo para a consolidação do bloco (ASSIS; PATACHO; BARBOZA; COSTA, 2011, p. 7). Em 1995, o Brasil investiu em projetos de negociação com a União Europeia. Assim, em dezembro daquele ano, foi assinado o primeiro acordo inter-blocos, conhecido como o Acordo Marco Inter-Regional de Cooperação União Europeia-Mercosul (VIZENTINI, 2007, p. 194), já citado anteriormente. Além do surgimento dos blocos supranacionais, verificou-se, ao longo da década de noventa, a implosão de violentos conflitos regionais em zonas estratégicas às nações ocidentais, como no continente africano e no Oriente Médio. Por conseguinte, as intervenções militares ou diplomáticas através do Conselho de Segurança da ONU, das Missões de Paz da ONU, da OTAN ou de ações diretas dos EUA e dos seus aliados foram notáveis e acarretaram em diferentes consequências aos envolvidos. Como exemplos africanos podemos citar os casos (i) do massacre de Ruanda (1990-1994), que contou com intervenção da França; (ii) da Missão de Paz da ONU na Somália (1989- 2001), liderada por norte-americanos; (iii) e da guerra civil do Sudão (1989- 2001), que provocou a mobilização de forças das Nações Unidas com apoio internacional. No Oriente Médio, a intervenção estadunidense ao Iraque, com o apoio do Conselho de Segurança das Nações Unidas e de seus aliados, ocidentais e árabes, deu início à Primeira Guerra do Golfo (1990-1991). 8 Nações ocidentais, por sua vez, também se envolveram em conflitos internos do próprio ocidente, como nas antigas repúblicas socialistas soviéticas, que enfrentaram duros processos de fragmentação com o fim do bloco socialista (VIZENTINI, 2007, p. 196). Os Estados Unidos, principalmente, passaram a intervir no continente europeu de modo a solucionar problemas regionais, a afirmar o momento unipolar que viviam e a afetar a influência da União Europeia e de outras nações como a Rússiasobre a região. Assim, teve participação em conflitos como o da Bósnia, que contou também com a intervenção da ONU, e como o do Kosovo, no qual as forças da OTAN unilateralmente atuaram. Esse tipo de estratégia, segundo Korybko (2014), tinha como objetivo, na realidade, desestabilizar todo o continente europeu, a fim de, no futuro, afetar de forma semelhante a China, o Irã e a Rússia, vistos

8 A Primeira Guerra do Golfo foi uma resposta dos Estados Unidos e de seus aliados à invasão ao Kuwait promovida pelo Iraque. A guerra contou com a aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas e com o patrocínio das Nações Unidas.

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como os três poderes capazes de contrabalancearem a hegemonia estadunidense. Para isso, os Estados Unidos aproveitavam-se de algumas deficiências de seus aliados-rivais e afirmavam uma vantagem significativa sobre estes. Para tanto, contavam com seus grandes investimentos em poder bélico e com o controle que exerciam sob importantes organizações internacionais (VIZENTINI, 2007, p. 195).

3.2 A NOVA ORDEM MUNDIAL E O MUNDO PRÉ-ANOS 2000

Como percebemos, os Estados Unidos emergiram como o grande vitorioso da Guerra Fria, mais forte em relação aos outros países tanto no plano econômico quanto no militar. No entanto, sua hegemonia, confirmada no momento unipolar, imediatamente passou a ruir, pois muitos desafios a ela amadureceram: (i) a Ásia vivenciava um desenvolvimento econômico crescente liderado pela China (VIZENTINI, 2007, p. 177); (ii) a Europa ocidental contava com um processo de integração cada vez mais articulado (VIZENTINI, 2007, p. 187) e direcionado à criação de uma estrutura própria de segurança (TOADER, 2013); (iii) quinze novos Estados europeus nasciam ao leste, 9 frutos do desmembramento da URSS, entre eles a Rússia, que não tardaria em afirmar-se como grande potência (SLOAN, 2011); e (iv) o fundamentalismo religioso acentuava-se em algumas regiões do mundo, resultado direto dos processos de inovação advindos da globalização (TEIXEIRA, 2002, p. 5), 10 tornando-se um desafio à segurança. Tais fenômenos exigiram dos EUA medidas que protegessem seu status quo e priorizassem seus interesses. Para tanto, entre outros, lançaram mão da redefinição do papel exercido pela OTAN e do uso da diplomacia (TOADER, 2013). Para Vizentini (2007, p. 189), a nova ordem mundial foi caracterizada, por pelo menos um determinado período de tempo, nos planos militar, estratégico e diplomático, como uma ordem unipolar, tendo os Estados Unidos de fato conservado uma posição dominante, especialmente diante da ausência de um adversário à altura. Assim, eliminado o perigo socialista, aumentaram as rivalidades entre os países capitalistas, e a Casa Branca não poupou esforços para se sobressair em relação aos demais Estados: evitou a

9 Armênia, Azerbaijão, Bielorrússia, Cazaquistão, Estônia, Geórgia, Letônia, Lituânia, Moldávia, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão, Turcoemenistão, Ucrânia e Uzbequistão

10 Para Teixeira (2002, p.5-6), o fato de a globalização ter gerado novas formas de interação e de aproximação entre as diferentes regiões condicionou a necessidade de algumas religiões afirmarem suas tradições e crenças. Isso se deu, principalmente, pelo medo e pela insegurança de esses valores tradicionais se perderem diante de um mundo em transformação sob as influências ocidentais. O fundamentalismo nasce desses sentimentos. Como atesta Hobsbawm (1995, p. 540), “[a] ascensão do fundamentalismo islâmico foi visivelmente um movimento não apenas contra a ideologia de modernização pela ocidentalização, mas contra o próprio Ocidente”.

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proliferação nuclear e buscou a redução dos exércitos convencionais por todo

o globo, ao mesmo tempo em que ela própria mantinha vantagens estratégicas

e investiu em intervenções rápidas e eficientes (VIZENTINI, 2007, p. 190). No entanto, é importante ressaltar que, quando consideradas as tendências de países emergentes ascenderem gradativamente e o progressivo avanço econômico-tecnológico, o cenário internacional vislumbra traços de multipolaridade, que podem, se não acabar, conter os avanços norte-

americanos. Em realidade, muitos autores acreditam no fim ou na decadência

da Pax Americanaera iniciada em 1945 que caracteriza a ascensão norte-

americana em políticas internacionais. Como evidência, atestam o recuo dos Estados Unidos em investir mais diretamente em conflitos internacionais, como faziam ao final da Guerra Fria e ao longo de boa parte da década de noventa. Para Korybko (2014), fatos como o pedido aos aliados da OTAN durante a Guerra da Líbia para fazerem mais pela resolução das questões globais—e deixar de lado a política de “fazer sozinho, sem ajuda”—e as palavras do presidente Barack Obama que reiteram a necessidade de que outras forças, além das norte-americanas, assumam conjuntamente a liderança em conflitos, marcam o ano de 2011 como aquele que deu fim à ordem unipolar estadunidense. A partir de então, iniciou-se, para os Estados Unidos, a era “Lead from Behind”, ou “Liderança por Detrás”, o que significa a adaptação das forças e das investidas militares norte-americanas a um mundo multipolar.

4 O NOVO MILÊNIO

O sistema internacional que se matura no novo milênio dá cada vez mais

espaço aos países emergentes. Assim, para entender o surgimento do grupo BRICS, é preciso compreender que ordem é essa, que simultaneamente é dominada pelos Estados Unidos e dá margens para uma semiperiferia ascendente e desafiadora. É nesse contexto que os países do BRICS veem interesses comuns que justificam sua constituição como fórum de diálogo.

4.1 A ORDEM MUNDIAL DO NOVO MILÊNIO

Se os anos noventa foram marcados no plano geopolítico pela crença na unipolaridade dos Estados Unidos e pela hegemonia neoliberal no plano econômico, nos anos 2000 houve a crise dessas duas visões de mundo. Uma crise não significa que tais opiniões tenham sido completamente derrotadas pelos fatos e apagadas das mentes das pessoas. Pelo contrário: a crise é o momento de discussão e de confronto de ideias. O que há é um rompimento com o pensamento único e um retorno do questionamento e da desconfiança

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daquilo que, nos anos noventa, era encarado como “verdade absoluta” (CHAUÍ, 2010, p. 19; RUVALCABA, 2013, p. 157). O ano de 2001 foi muito importante na aceleração dessa crise. Em janeiro, reuniram-se em Porto Alegre milhares de intelectuais e militantes de esquerda para reacender a ideia de que “um outro mundo é possível” no primeiro Fórum Social Mundial. Além disso, os atentados terroristas 11 de setembro de 2001 foram o primeiro ataque da história no território continental estadunidense desde sua ascensão como grande potência, marcando o início de uma nova fase das relações internacionais (VIZENTINI, 2004, p. 18, 121, 126). O terrorismo passa a ser o principal assunto da agenda de segurança internacional, diferentemente do período da Guerra Fria, em que a principal preocupação era uma possível guerra entre as superpotências. Assim, o próprio conceito de segurança sofre uma expansão de seu significado original centrado no Estado-nação, abarcando temas como o tráfico de drogas, o meio ambiente e o crime organizado. Esses temas ampararam o início, nos Estados Unidos, da política de “guerra ao terror”, que teve como uma de suas consequências a invasão do Afeganistão (CEPIK, 2013, p. 307-308). Uma particularidade da guerra ao terror é sua instrumentalização como guerra ao mundo árabe e islâmico, inviabilizando inclusive processos de paz como o da Palestina. Isso porque ela deu início a uma “onda anti-islâmica”, no contexto em que as ideias do teórico estadunidense Samuel Huntington ganharam força. Esse autor criou o conceito de “choque de civilizações”, de que os conflitos de nosso tempo não teriam motivações econômicas ou ideológicas, mas sim culturais. Grupos com identidades bem definidas, como os WASP 11 nos Estados Unidos, possuem um “temor instintivo diante das demais civilizações” (VIZENTINI, 2004, p. 71). Essa visão de mundo implica que os principais inimigos da civilização ocidental (encabeçada pelos Estados Unidos) seriam outras civilizações como a chinesa e a muçulmana. Os imigrantes seriam um risco, pois membros de uma civilização “inimiga”, devendo ser vigiados por serem potenciais terroristas, principalmente os muçulmanos. Assim, a guerra ao terror teve como principais consequências o “cerceamento das liberdades civis” nos países do centro, justificado pelas

11 WASP é a sigla, em inglês, para “branco anglo-saxão protestante”, características que definem o grupo fundador e dominante na colonização dos Estados Unidos. Todos os grupos que aí estavam, como os povos indígenas norte-americanos, e os que chegaram posteriormente sofrem algum tipo de preconceito, como católicos italianos e irlandeses, judeus, cristão ortodoxos gregos, árabes muçulmanos, principalmente os afro-americanos e mais recentemente latino- americanos.

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necessidades da segurança nacional, “e um reforço das atitudes belicistas e unilateralistas” sobre os países da periferia (VIZENTINI, 2004, p. 128). A retórica da guerra ao terror, geralmente moralizante e maniqueísta, conseguiu comover a opinião pública estadunidense. O governo de George W. Bush (2001-2008) rotulou seus inimigos de “eixo do mal”, que incluía Coreia do Norte, Irã, Iraque, Líbia e Síria. Assim, legitimou as invasões do Afeganistão (2001-2014) e do Iraque (2003-2011). Nesta última, os Estados Unidos contornaram a autoridade do Conselho de Segurança da ONU, dando exemplo de unilateralismo. Isso revela um novo dualismo da política externa estadunidense: o unilateralismo versus multilateralismo (VIZENTINI, 2004). A política externa do governo Bush encarna essa postura unilateral que visa a garantir a posição vantajosa de “vencedor da Guerra Fria” dos Estados Unidos ao manter sua vantagem em poderio militar (POSEN, 2003, p. 6). Ver esse posicionamento dos Estados Unidos como estratégia significa aceitar que o resultado final pode ser negativo para o país. Uma estratégia é um plano que se decide seguir, podendo não se provar frutífero pois tem caráter de aposta. Há teóricos, como Barry Posen, que creem que Bush fez a aposta errada: a manutenção do poder estadunidense seria melhor garantida através de um “engajamento seletivo”, e não pelo unilateralismo (POSEN, 2003, p. 7). Mas até que ponto os Estados Unidos já dominam militarmente o sistema internacional? É inquestionável que esta superpotência exerce grande poder militar. Em 2013, os EUA gastaram mais com defesa que os próximos onze países somados, sem ignorar que sete destes onze são aliados estadunidenses. De maneira mais precisa: 38,4% do gasto militar de todo o mundo, no ano de 2013, foi feito pelos EUA (IISS, 2014, p. 23). Apesar disso, há limites do uso possível dessa força militar e da eficiência estratégica desse volume de recursos. Barry Posen afirma que a primazia militar dos Estados Unidos no sistema internacional se dá através do “comando dos comuns”. Os EUA têm controle sobre todas as “áreas comuns” do globo, quais sejam: o mar, o espaço e o ar. Essas áreas não estão sob a soberania de nenhum país e dão acesso às outras regiões do globo, são as rotas que conectam distintos países e regiões. Comando não significa que os outros países não possam usar estas vias comuns, mas que só os EUA têm poder para negar acesso a outros países. Além disso, se algum país tentasse negar o acesso aos EUA, provavelmente sairia derrotado. Os Estados Unidos garantem essa posição privilegiada principalmente de duas maneiras. Em primeiro lugar, possuem as melhores, mais rápidas e mais avançadas armas em quantidade muito superior a seus adversários: submarinos nucleares, porta-aviões nucleares, satélites e caças de última geração. Em segundo lugar, os Estados Unidos herdaram da Guerra

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Fria uma quantidade enorme de bases militares espalhadas no globo que dão suporte para suas ações bem longe de suas fronteiras (POSEN, 2003, p. 7-8, 11, 15-17). Apesar de seu território estar longe de zonas de tensão, como o Golfo Pérsico, suas bases na região servem como extensões estratégicas de seus domínios. A quantidade de recursos que um país tem de empregar para ter tal estrutura é tão grande que praticamente não existem competidores reais aos Estados Unidos (POSEN, 2003, p. 10). Essa assimetria brutal entre as capacidades estadunidenses e de seus potenciais desafiadores é a principal característica do “momento unipolar” que viveu o país. A consequência principal foi um aumento do intervencionismo do país, que estava, segundo Andrew Korybko (2014),

percebendo-se poderoso demais ao emergir vitorioso da Guerra Fria

clímax desse período, para o autor, foi a invasão do Iraque em 2003, em que a

O

intensidade dos bombardeios e o desrespeito às instituições multilaterais atingiram patamares sem precedentes.

4.2 OS DESAFIOS À NOVA ORDEM

Os gastos militares exacerbados da invasão do Iraque deram margem para que outras potências ganhassem oportunidade para emergir, comprovando a hipótese de que uma hiperatividade estadunidense pudesse principiar sua própria derrocada (KORYBKO, 2014; POSEN, 2003, p. 6). O primeiro grande desafio ao poder estadunidense é o regionalismo, que continuou ganhando força na nova década. Em 1° de janeiro de 2002, a integração europeia deu mais um passo com o início da utilização do euro, moeda única válida em doze países, “exercendo um impacto positivo para aprofundar a UE e consolidar um grande bloco econômico-comercial” (VIZENTINI, 2004, p. 80, 81). O equilíbrio entre blocos econômicos regionais que estão evoluindo e se tornando blocos políticos contribui para o multilateralismo das relações internacionais. O unilateralismo estadunidense pode ser visto como uma reação ao surgimento desses novos centros de poder no sistema internacional, que poderiam “escantear” os Estados Unidos para a periferia do sistema (VIZENTINI, 2004, p. 139). É também com o atoleiro do Iraque que China e Rússia concretizam suas capacidades de grande potências, únicas capazes de desafiar os Estados Unidos. Se estes países não podem impor uma ordem ao resto do mundo, ao menos detêm capacidades suficientes para garantir que nenhuma potência estrangeira possa lhes impor uma. China e Rússia possuem as três capacidades militares que Cepik (2013, p. 309-313) considera essenciais para que um país seja caracterizado como grande potência. Em primeiro lugar, possuem capacidade nuclear de segundo ataque: se fossem atacados por bombas

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nucleares, seu contra-ataque nuclear seria tão destrutivo que provavelmente ninguém ousaria atacá-los. Essa foi a base da estabilidade da Guerra Fria, conhecida pela ideia da MAD, sigla em inglês para destruição mútua assegurada. Em segundo lugar, ambos são capazes de controlar o espaço, ou seja, possuem satélites e sistemas de comunicação indispensáveis na era digital para tempos de paz e de guerra. Em terceiro lugar, são inexpugnáveis, ou seja, uma invasão a esses países com forças convencionais é insustentável dadas suas capacidades defensivas. Além disso, seu poderio possui legitimidade política, já que estão representados no Conselho de Segurança da ONU como membros permanentes. Para dificultar o desafio estratégico, o poderio econômico ocidental vem sendo erodido com os países emergentes puxando o crescimento econômico mundial. A crise de 2008 contribuiu ao mergulhar os países ricos na recessão e, assim, acelerar a transição de uma unipolaridade questionável dos Estados Unidos para um mundo multipolar. Momentos de recessão econômica são bastante propícios para mudanças na hierarquia de poder mundial (RUVALCABA, 2013, p. 162). A crise de 2008 e a Grande Recessão que a seguiu foram as mais intensas desde a de 1929, a maior da sequência de crises que começou nos anos 1970. Tendo ocorrido na economia mais importante do planeta, alastrou seus efeitos para todo o mundo. Nos países ricos, a crise significou diminuição do crescimento, um brutal desemprego principalmente no sul da Europa , aumento do endividamento (de Estados, empresas e famílias) e da desigualdade de renda. Até que ponto estas sociedades terão estabilidade política nessa situação? Ou seja, essa foi uma crise pontual ou tem um significado maior sobre o modelo de sociedade em que vivemos? Haverá outro colapso no futuro próximo que agrave essa situação? Na saída da crise de 2008, muitas foram as propostas de reforma para prevenir uma nova recaída, muitas envolvendo algum tipo de regulação para o sistema financeiro. Seis anos depois, quase nada foi feito. Os governos permanecem reféns do capital financeiro, deixando o mundo na situação pré-crise: vulnerável a um novo colapso (STREECK, 2014). Enquanto isso, as variáveis econômicas das regiões periféricas vêm sendo muito mais saudáveis. O dinamismo asiático e africano tem puxado o crescimento econômico global nos últimos anos. A multipolaridade econômica precedeu uma multipolaridade política. O problema é que esse desenvolvimento econômico da semiperiferia está assentado em regras e práticas criados e difundidos pelo centro, que agora está em dificuldades. A crise põe em dúvida o sistema econômico global, que requer novas regras e práticas para a economia do futuro. Ao ascender, as potências definem regras e

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práticas que lhe sejam favoráveis e que lhes garantam uma posição privilegiada na ordem internacional. Uma dessas práticas é o uso, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, do dólar como moeda do comércio e reserva mundiais. Isso gera uma série de assimetrias, de privilégios de que gozam os Estados Unidos e que podem não ser compatíveis com uma economia global saudável em um ambiente multipolar (STREECK, 2014). A soma desses desafios ao “momento unipolar” estadunidense comprovou que:

[A] construção de uma nova hegemonia americana, nos marcos da globalização, revelou-se um processo cheio de contradições entre fins e meios, entre objetivos de curto e longo prazo. Nesse contexto, o protetorado europeu passou a buscar gradativamente sua autonomia, pois, afinal, o principal resultado da globalização foi a construção de blocos regionais e a emergência de interesses diferenciados. Do outro lado da Ásia, a China passou a liderar o desenvolvimento da região (e do mundo) e aprofundou um modelo heterodoxo, ambos percebidos como uma “ameaça” ao Ocidente, que com eles se relaciona de forma conflitiva e, ao mesmo tempo, simbiótica. Já a América Latina se vê diante de três possibilidades, todas ainda possíveis: a integração regional, a desintegração ou a absorção hemisférica. Finalmente, os grandes países da periferia, como Rússia, Índia e África do Sul, iniciam um movimento de reafirmação e ação convergente com vistas a estruturar um sistema mundial multipolar. (VIZENTINI, 2004, p. 158)

4.3 BRICS: DA SEMIPERIFERIA AO PROTAGONISMO

A origem do BRICS foi contemporânea ao clímax do “momento unipolar”. Foi em 2001 que se criou o acrônimo BRIC ainda sem a África do Sul , num relatório do banco estadunidense Goldman Sachs. A intenção do texto era debater Brasil, Rússia, Índia e China de uma perspectiva econômica, como mercados emergentes que impulsionariam o crescimento econômico mundial na década que se seguiria (O'NEILL, 2001). A ascensão dos BRICS foi, entretanto, simultaneamente econômica e política. Os BRICS têm em comum ambições políticas no sistema internacional. Como todos os países emergentes na história, eles identificam uma assimetria entre sua importância econômica e militar e a posição que ocupam na política internacional. Assim, eles poderiam ser chamados de revisionistas, pois pensam ter direito a um papel mais relevante no sistema internacional. Sistema este que se assenta sobre as instituições criadas pelo própria superpotência dos Estados Unidos: o Sistema ONU, FMI, Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio e um sistema comercial baseado no dólar como meio de troca. Logo, a afirmação dos emergentes BRICS passa pela criação de novos canais de cooperação e novas instituições que visam a gerir os assuntos internacionais à margem das instituições estadunidenses. Na área econômica, atuam conjuntamente no G20 e coordenam pela reforma do FMI. Nas instituições

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políticas, desejam uma reforma da ONU e de seu Conselho de Segurança (HURRELL, 2009; BRASIL, 2015). Os países do BRICS passaram a articular-se formalmente a partir de meados da década de 2000, inicialmente sem a África do Sul. Em 2006, houve a primeira reunião informal a parte da Assembleia Geral da ONU. Em 2008, em meio à crise econômica global, após a primeira reunião de chanceleres do grupo, BRIC “passou a denominar uma nova entidade político-diplomática” (BRASIL, 2015). Desde então, são realizadas cúpulas anuais que avançam a cooperação entre os países. A África do Sul foi incluída a partir da III Cúpula, em 2011 (BRASIL, 2015). A ascensão desses países emergentes está condicionada a sua afirmação como potências regionais. Isso porque sua interação com seus vizinhos está conectada com sua inserção global. Por exemplo, a maneira como Colômbia e Argentina veem o Brasil importa para nossa posição internacional. Assim, as ações dos BRICS em política regional muito frequentemente visam a ganhos em nível global. Isso explica porque a Rússia, uma potência militar que decaiu nos últimos trinta anos, preza tanto pela manutenção de seu status de potência regional (HURRELL, 2009). Assim, o grupo BRICS pode ser visto sob dois pontos de vista. Para as duas grandes potências que o compõem, China e Rússia, como uma arena em que somam esforços naqueles temas que têm interesses comuns frente aos Estados Unidos. Para os três países restantes, cooperar com as grandes potências emergentes é um meio de ganhar legitimidade para suas ambições regionais e construir um mundo multipolar no qual não sejam obrigados à obediência inquestionável aos EUA. Na esteira da crise econômica de 2008, o BRICS pretende participar da gestão da economia global. A criação do Novo Banco de Desenvolvimento na VI Cúpula, em Fortaleza, Ceará, em julho de 2014, é uma tentativa do BRICS de promover a estabilidade financeira global evitando as instituições da hegemonia estadunidense, como o FMI. Além do banco, que deve financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável no sul global, os líderes criaram em Fortaleza um Arranjo Contingente de Reservas, um fundo que deve ser usado para apoio mútuo entre os BRICS em caso de dificuldades financeiras (BRASIL, 2014). Há ainda a intenção de se implementar uma agência de rating do grupo, como contraponto a atual hegemonia de empresas estadunidenses no setor (OPERA MUNDI, 2015). Além dessas iniciativas coletivas, há outras unilaterais ou bilaterais entre os países do grupo que tentam balancear a predominância de instituições estadunidenses. Notavelmente, a China está desenvolvendo um conjunto de instituições

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análogas às ocidentais, de fóruns de diálogo a agências de rating , o que já ganhou o apelido de “ordem paralela da China” (STUENKEL, 2014). Na área de segurança internacional, após a consolidação dos BRICS, reafirmou-se que a unipolaridade, se existiu, foi um sonho breve. Em oposição à política externa estadunidense de pressão pelo avanço da OTAN em direção à Rússia, este país dá diversas demonstrações de autonomia. O pós-Guerra Fria passou por várias crises no entorno estratégico russo cuja característica marcante é a atuação ocidental em territórios tradicionalmente ligados à segurança russa. Foram as crises da Tchetchênia, Kosovo, Geórgia e, mais recentemente, da Ucrânia, que marcaram a reação russa à expansão da zona de influência ocidental (PICCOLLI, 2012). Por outro lado, a tentativa estadunidense de conter a China pelo Pacífico gerou uma reação deste país. A China tem aprofundado seus laços diplomáticos com seus vizinhos, os investimentos de infraestrutura para a integração regional e passa por uma cada vez mais avançada modernização militar (REIS, 2013). Nesse contexto, os limites do comando dos comuns estadunidense são testados pela presença cada vez mais intensa de unidades militares russas e chinesas nos espaços comuns do globo. A principal consequência é um encontro cada vez mais comum entre caças dessas forças, principalmente no Pacífico (WHITLOCK, 2014).

5 CONCLUSÃO

O fim da Guerra Fria, com a vitória dos Estados Unidos, deu origem ao momento de maior preponderância deste no sistema internacional. Uma grande expansão da globalização comercial permitiu que novos competidores surgissem no campo econômico, deslocando o centro dinâmico da indústria mundial para a semiperiferia. A perda de peso relativa da economia estadunidense coincidiu com um abuso do unilateralismo deste país, que prejudicou ainda mais sua economia com gastos desnecessários nas guerras do Iraque e do Afeganistão. A crise econômica mundial de 2008 acelerou o processo de tomada de protagonismo dos BRICS como agentes da política global. A intermitente (re)construção da ordem mundial exige, agora, a participação dos BRICS. Líderes em suas regiões, esses países continuarão a defender sua soberania regional na construção de um mundo multipolar. A governança das finanças globais, tão necessária num mundo que ainda não saiu completamente da crise, será cada vez mais pautada pela atuação desses países, seja pelas suas instituições como o Banco dos BRICS, seja pela sua atuação em negociações multilaterais. A competitividade econômica e a

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inovação tecnológica garantem aos emergentes uma posição cada vez mais privilegiada na divisão internacional do trabalho. Seu poder militar, a cada dia que passa, se torna mais evidente, trazendo novas opções de aliança e alinhamento para uma série de nações que, no passado recente, eram fortemente condicionadas pela política externa estadunidense. O principal desafio dos BRICS, que é o mesmo de todas as potências, será o de contribuírem para a construção de um mundo multipolar que dê condições para a prosperidade e a paz entre as nações.

ABSTRACT

This article seeks to analyze the historical development that allowed the emergence of the BRICS countries: Brazil, Russia, India, China and South Africa. For this purpose, an historical analysis of the most important changes in the international system of states is done, paying special attention to the end of Cold War’ bipolar world, the United States unipolar moment in the 1990’s and the come out of a multipolar world in the new millennium’s first decade. The relevant economic and political developments are taken into account as important facts to BRICS Group materialization. The BRICS countries are critical in the building of a multipolar world with new institutions of global governance, in which they may be leading characters. Keywords: BRICS; international system of states; multipolarity; emerging countries.

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ISSN: 2318-9390 | V. 2, 2015 | P. 33 57

DAS ORIGENS AO MODELO ATUAL:

A ASCENSÃO DA REPÚBLICA POPULAR DA CHINA E SEU PAPEL NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

FROM ITS ORIGINS TO THE CURRENT MODEL: THE RISE OF THE PEOPLE'S REPUBLIC OF CHINA AND ITS ROLE IN THE INTERNATIONAL RELATIONS

RESUMO

Henrique Gomes Acosta 1 Júlia Oliveira Rosa 1 Karina Ruiz 1

A República Popular da China emerge no século XXI como uma das grandes

forças econômicas e políticas das últimas décadas, oferecendo um modelo alternativo de desenvolvimento. O artigo aborda os aspectos históricos que levaram à formação do país que apresenta um socialismo com características específicas, do Império, à guerra civil e reformas nos anos 80. Ao analisar a sua excepcionalidade, tenta-se abordar quais lições o modelo de desenvolvimento e desafios securitários podem trazer ao Brasil. Palavras-chave: China; República Popular da China; BRICS; comunismo; modelo de desenvolvimento.

1 INTRODUÇÃO

Apesar de todos os países do BRICS possuírem consideráveis dimensões territoriais, imensa população e PIB elevado, a China destaca-se dos demais em todos estes quesitos. É o quarto maior país do mundo, com 9,5 milhões de

km², e, no âmbito dos BRICS, só fica atrás da Rússia em dimensão territorial. É

o Estado mais populoso do planeta, com 1,3 bilhão de habitantes. Ainda, é a segunda maior economia global, somente atrás dos Estados Unidos (EUA).

1 Graduandos em Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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A antiguidade milenar de sua civilização fez com que a China fosse, desde há muito tempo, o epicentro da Ásia (VISENTINI, 2013, p. 11). E, se para qualquer país a geopolítica importa para as decisões e alianças da política externa, ela é fundamental para a China: o país faz fronteira com 14 outros países. Ou seja: assim como o Brasil, a China precisa pensar a sua política externa como interligada à dos seus países vizinhos. E, também como o Brasil,

o território chinês sofre de um vazio territorial próximo a essas fronteiras,

concentrando as principais cidades e contingente populacional no litoral, de forma que a estabilidade de seus vizinhos é essencial para a garantia da segurança do território. Desta feita, o objetivo deste artigo é investigar o passado histórico e o presente, em suas facetas econômicas, políticas e sociais, deste país em franco processo de modernização e desenvolvimento. A China de hoje pode ser considerada um dos polos em ascensão no sistema internacional e compreendê-la minimamente é indispensável para o entendimento não somente dos outros membros dos BRICS, mas também do mundo como um todo.

2 O MANDATO DO CÉU, A FORMAÇÃO DO ESTADO CHINÊS E A

GUERRA CIVIL

A República Popular da China é uma criação recente, datando de 1949. A

civilização chinesa, por sua vez, possui quatro mil anos de história. A tentativa de compreensão da história da formação do Estado chinês e da sua política externa perpassa pelo conceito que, durante boa parte da história chinesa, permeou as relações entre Estado e sociedade: o de Mandato do Céu. De acordo com este conceito, o governo possuía uma legitimação celestial para fazer a mediação entre a natureza e o povoe era preciso honrá-lo (CHESNEAUX e BASTID, 1972, p. 4). Assim, o conceito servia como um termômetro do sucesso daquele governo em salvaguardar os interesses dos seus súditos e o crescimento da nação: em épocas difíceis, sejam elas causadas por fome,

doenças, guerras ou pouco crescimento, o Mandato era questionado e por vezes até revogado. Desse modo, também a revolta social tinha a sua própria legitimação no Mandato do Céu, a partir desse poder de mediação

(CHESNEAUX e BASTID, 1972).

Outra noção fundamental que complementava o conceito de Mandato do Céu era a de tianxia, que no mandarim significa “tudo sob o céu”. Isso é:

legitimado por um Mandato do Céu, o Imperador governava tudo sob o céu, possuindo, pelo bem maior de construir uma grande nação (permeado por uma visão de sinocentrismo), uma carta branca para agir (CHESNEAUX e

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BASTID, 1972). Essa noção da teoria política chinesa data do período dos Qin (221 a.C.206 a.C.), que foi antecedido por duzentos anos que ficaram conhecidos como o Período dos Estados Combatentes devido ao caráter extremamente violento que tomou a unificação territorial da nação. Segundo Samir Amin (2010), a China teria alcançado a Modernidade antes da Europa. Enquanto civilização tributária, 2 teve, desde a antiguidade, uma preocupação com o campesinato e a distribuição de terra diferente do sistema feudal europeu. Mais do que isso, a China foi o modelo de “racionalidade administrativa”, com o acesso ao serviço público pelo difícil concurso para tornar-se mandarimprovavelmente a única maneira de ascender socialmente. Além disso, o Estado chinês sempre precisou de certa centralização autoritária para garantir a produção agrícola, principalmente no desenvolvimento tecnológico e implantação de um sistema de irrigação complexo, para conter as cheias (AMIN, 2010; VISENTINI, 2013). 3 Outro ponto a ser destacado na formação da sociedade e Estado chineses é a questão religiosa. A sociedade chinesa, com a conquista de novos territórios e a chegada de estrangeiros, incorporou o budismo, o islamismo e

o taoísmo às suas crenças, fortemente baseadas no culto aos antepassados

característica que nunca foi abandonada. Contudo, não é possível verificar um caráter de devoção à religião na sociedade chinesa, que, segundo Amin (2010, p. 48), abandonou o budismo já na Dinastia Ming (1368-1644). De qualquer

maneira, os ensinamentos filosóficos de Confúcio certamente foram o conjunto de normas que permeou boa parte da Antiga China, fazendo parte das provas do mandarinato e de valor ao coletivo acima do indivíduo (VISENTINI, 2013, p. 14). O período imperial na China inicia-se em 221 a.C., mas seu auge será

durante a Dinastia Han, em 202 a.C, com a expansão territorial para o sul. Ainda hoje a etnia han é a esmagadora maioria entre as 55 existentes no país e

o idioma oficial é o hanyu (mandarim). Outras dinastias importantes a serem

destacadas são a mongol, durante o século XIII, que iniciou uma longa parceria

2 De modo geral, a civilização tributária é um sistema em que um Estado exerce controle sobre uma periferia de outros Estados, de maneira hierárquica. Havia um reconhecimento da superioridade daquele Estado central, nesse caso, a China. Fonte: REIS, João Arthur da S. ASEAN Way: o Conteúdo Ético da Integração Asiática. Revista Perspectiva. Porto Alegre, ano 5, nº9, ago/set, 2012. Disponível em: http://issuu.com/75733/docs/perspectiva_-_2013_- _9 edi o

3 As cheias eram decorrentes principalmente do Rio Amarelo, o segundo rio mais longo da China e que foi o berço da civilização chinesa. Até que o famoso sistema de barragens e aquedutos fossem construídos, o solo do Rio Amarelo era extremamente maleável e o rio ainda recebia água das geleiras que derretiam na Mongólia, no verão.

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chinesa com os viajantes ocidentais, como Marco Polo, pela Rota da Seda; 4 os Ming, que vieram logo em seguida, marcaram um período de intensos conflitos fronteiriços e fim da expansão marítima em meados de 1430 (SENISE, 2008); e, por fim, a Dinastia Qing (1644-1911), um governo da etnia manchu, 5 que estabeleceu a capital em Pequim e aboliu a ideia de que a China era somente para a maioria han (SPENCE, 2000). Durante os quase trezentos anos do governo Qing, a China passou por diversas transformações e profundas crises. Foi no início desse período que ocorreu a incorporação dos territórios das extremidades da China, como a Coreia, Mongólia, Vietnã, Tibete e o Xinjiang (no extremo oeste), além de grande prosperidade econômica (SPENCE, 2000; SENISE, 2008). Mais do que isso, é preciso deixar claro que a China não buscou o domínio além dos territórios próximos, mantendo as relações com os vizinhos em troca do reconhecimento do status especial chinês e de parcerias comerciais, segundo Kissinger (2011, p. 34-35). Com a busca de mercados causada pela Revolução Industrial na Europa e nos Estados Unidos, surge uma ameaça ao modelo tributário que pressionou a abertura da China e foi concomitante a diversos problemas internos (houve crise demográfica, monetária, migrações e levantes no campo) ao final do governo do Imperador Qianlong (1736-1796): o Mandato do Céu parecia estar expirando. Desde meados do século XVIII, a China vinha implantando uma série de medidas de isolamento em relação ao Ocidente. Algumas dessas atitudes eram de caráter comercial, especialmente no controle alfandegário em Cantão (que era porto aberto), mas também havia restrições quanto a atuação de missões religiosas (SENISE, 2008). A política de isolamento era uma autodefesa do sistema político e social do Império, principalmente pelos resultados do domínio britânico na Índia. O tráfico de ópio indiano ao país, iniciado na década de 1820 por intermédio dos comerciantes ingleses, logo se tornou um sério problema comercial pela fuga da moeda causada por, em 1837, 57% das importações chinesas serem da droga. O problema era social e político, a partir de quando o consumo estendeu-se a diferentes classes. O vício afetou ostensivamente os mandarins e generais do Império e, por sua vez, a eficiência dos serviços públicos e a organização social do país (CHESNEAUX e BASTID, 1972, p. 59-60).

4 A Rota da Seda foi um caminho comercial por terra que ligava o Extremo Oriente até o Mar Mediterrâneo. A Rota teve um importante papel na difusão de produtos, como especiarias e a própria seda, além de interligar diferentes povos e culturas ao longo dos anos.

5 O povo manchu tem sua origem na região da Manchúria, próximo à península coreana. Os manchus são um dos principais (e maiores) grupos étnicos da China.

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As revoltas no campo (lideradas por sociedades secretas que serviam como o principal modo de organização contra o governo e de forma bastante hierarquizada criavam futuros líderes de oposição), a falta de resultados das políticas governamentais para conter o tráfico e a tensão crescente fizeram jus ao fim do Mandato do Céu de Jiaqing. Contudo, a crise também tinha um caráter externo, conforme dito acima, com as nações capitalistas pressionando para um novo tipo de desenvolvimento da China (CHESNEAUX e BASTID, 1972; SENISE, 2008).

A abertura econômica forçada pela Grã-Bretanha culminou na Primeira

Guerra do Ópio (1839-1842). Os principais resultados do conflito foram o

Tratado de Nanquim (o primeiro dos Tratados Desiguais), que forçou a abertura dos portos chineses aos mercadores estrangeiros, além da perda de Hong Kong (VISENTINI, 2013). De um modo mais geral, a guerra que contou com uma ampla mobilização rural contra os estrangeiros afetou o modo como os chineses se relacionavam com o Ocidente, como se enxergavam enquanto Império e sua atuação no mundo (CHESNEAUX e BASTID, 1972). O ópio, por sua vez, não parou de circular, a população aumentava e a fome também. Isso convergiu para um ódio crescente aos manchus, que mantinham-se no poder com apoio estrangeiro, para que os tratados fossem cumpridos (SENISE, 2008).

A Rebelião Taiping, que iniciou em 1850, estremeceu os fundamentos do

Império ao introduzir uma ideia de igualdade em uma sociedade profundamente hierárquica. Organizado por um messias, Hong Xiuquan, havia um certo ideário cristão nas suas pretensões. O grande diferencial dos Taiping no contexto histórico foi trazerem a discussão de igualdade, uma semente da luta de classes que florescia na Europa e que abalou o que se pensava na China em termos de ideologia (MARTINS, 2012, p. 97-98). Os rebeldes chegaram a criar um governo próprio em Nanquim, estabelecendo direitos iguais para ambos os sexos, reforma agrária e outras políticas. Contudo, o movimento fracassou, derrotado por uma coligação de forças imperiais e mandarins, com ajuda estrangeira (SENISE, 2008). A rebelião, que

durou até 1864 e na qual morreram cerca de 20 milhões de pessoas, também

se inseriu no período em que ocorreu a Segunda Guerra do Ópio (1856-1860).

A Segunda Guerra do Ópio iniciou-se com uma disputa com a Grã-

Bretanha após um incidente com um navio da sua frota. Por perder, novamente a China foi obrigada a assinar tratados que aumentavam o poder

estrangeiro, tanto dos ingleses, quanto da França e da Rússia que inclusive logrou o território estratégico da Manchúria, ao norte da península coreana.

A fraqueza do governo dos Qing contribuiu para movimentos antimanchu

dos anos seguintes. Houve tentativas de reformas, que pretendiam revitalizar

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a Dinastia, os mandarins e o exército, principais desacreditados pelas guerras do ópio (SENISE, 2008; CHESNEAUX e BASTID, 1972). Nesse meio tempo, começou a segunda fase da Revolução Industrial, que incluiu Japão e Alemanha na disputa imperialista. A Restauração Meiji, no Japão, iniciou uma série de transformações com o fim do sistema político do xogunato, que incluiu o início de um processo de expansão para o continente. Com a invasão da Coreia, inicia a Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894-95), resultando na perda daquele território e da ilha da Formosa (atualmente Taiwan). Logo depois, a China envolveu-se num projeto de reforma interna, conhecida como a Reforma dos Cem Dias (1898), que fracassou (CHESNEAUX e

BASTID, 1972; VISENTINI, 2013).

Enquanto o nacionalismo das sociedades secretas aumentava, as potências estrangeiras possuíam maior margem de manobra dentro do país enfraquecido pelas demandas por reformas. Era o início do esfacelamento do modelo imperial chinês. Em 1908, morre a Imperatriz Cixi e a China passa a ser governada por mandarins. A pressão externa aumenta junto com novas rebeliões e surgem lideranças ao redor do país. Assim, em 1911, o Dr. Sun Yat-Sen, um profissional liberal da classe média, proclamou a República da China durante a Revolução Xinhai (VISENTINI, 2013), e, no ano seguinte, fundou o Partido Nacional (Kuomintang ou KMT). Todavia, essa proclamação não foi suficiente para aplacar os ânimos da populaçãoque exigia reformas no modelo políticoe a disputa pelo poder entre conservadores e reformistas. A ascensão dos chamados “senhores da guerra”—líderes militares das províncias, que haviam recebido poder dos Qingtorna a república meramente nominal, após Sun Yat-Sen ser expulso da China. Em 1914 a Primeira Guerra Mundial viria acirrar a disputa entre as grandes potências. O Japão sairia vencedor, transformando a China quase em uma colônia, enquanto a presença europeia se reduzia no extremo oriente da Ásia. A Revolução Russa, em 1917, traria mudanças ao cenário asiático: os sovietes passariam a auxiliar financeiramente o movimento comunista na China. Em 1919, surge o Movimento de Quatro de Maioa partir de protestos pelo domínio japonês de territórios chineses após as negociações do Tratado de Versalhes (1919), os protestantes concordam nos Três Princípios do Povo: nacionalismo, democracia e socialismo. Esse Movimento que desencadearia a fundação do Partido Comunista Chinês (PCCh) em 1921

(VISENTINI, 2013; MARTINS, 2012).

Sob orientação soviética, em 1923 os comunistas aliam-se aos nacionalistas do KMT, formando a Primeira Frente Única, para enfrentar os senhores da guerra. A participação soviética na construção do novo Estado chinês permeou os próximos anos, com um importante destaque na criação da

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Academia Militar de Whampoa, em 1924, onde se formaram diversos membros do Partido Comunista Chinês e do KMT. Com a morte do líder Sun Yat-Sen em 1925 surge um vácuo de poder no KMT, que marca o início da separação entre os nacionalistas e os comunistas. Aquele que era o braço direito de Sun Yat-Sen, o General Chiang Kai-Shek assume o KMT após uma disputa interna e lidera o expurgo e massacre aos comunistas, concomitantemente a uma pesada repressão às revoltas populares. Em reação, é criado pelo PCCh, em 1927, o Exército de Libertação Popular, que foi um importante elemento na mobilização dos campesinos contra os nacionalistas, devido ao seu caráter de empoderamento com o treinamento militar. Em 1931, o Japão com uma economia quebrada após a crise de 1929 e pressionado pelas maiores economias do mundo invade o território da Manchúria, rico em recursos naturais, numa posição estratégica de proximidade com a capital Pequim. Assim, cria-se o reino fantoche do Manchukuo, com um governo da antiga Dinastia Qing, que era subjugado pelo Japão e com forte presença militar japonesa (VISENTINI, 2013). Sob forte perseguição dos nacionalistas, o Partido Comunista Chinês inicia, em 1934, o que será conhecida como a Longa Marcha, em direção ao interior do continente e ao norte. A Longa Marcha será a plataforma de lançamento da carreira de Mao Zedong dentro do Partido Comunista, trazendo a população rural a principal força dentro do país para a revolução. Por isso, a reforma agrária serve como base para a mobilização popular e a formulação do conceito de guerra popular prolongada 6 uma estratégia criada por Mao será essencial para o sucesso do PCCh nos anos que se seguiram. A guerra total entre os dois países deu-se a partir de 1937, quando o Japão tomou Pequim, Xangai, Nanquim e Tianjin (SELISE, 2008). Ambos os lados receberam apoio de outras nações, que por sua vez, também precisavam decidir entre apoiar o KMT ou os comunistas. A prioridade do KMT era combater os japoneses, enquanto o Partido Comunista insistia numa guerra em duas frentes contra os estrangeiros e contra os nacionalistas. Os dois partidos uniram-se, percebendo a ameaça japonesa, criando a Segunda Frente

6 A guerra popular prolongada (no inglês protracted People’s war) foi um conceito apresentado em 1938, por Mao Zedong e que confia amplamente no apoio massivo da população, na guerrilha e no desgaste do inimigo. Separa-se em três momentos: a defensiva estratégica, o equilíbrio estratégico e a contraofensiva. O seu modelo de guerra revolucionária influenciou os comunistas no Vietnã e na Índia, além de servir como exemplo para movimentos revolucionários ao redor do mundo. Fonte: PEDROSA, Fernando V.G. A Estratégia da Guerra Popular Prolongada de Mao Zedong e o Caso da Guerra de Independência do Vietnã. Apresentado no XXXVII International Congresso of Military History, em 28 Ago 2011, na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, no Rio de Janeiro. Disponível em:

<http://www.eceme.ensino.eb.br/cihm/Arquivos/PDF%20Files/18.pdf>

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Única Revolucionária, realizando diversos boicotes econômicos aos produtos japoneses. Entretanto esse arranjo só durou até o fim da Segunda Guerra Mundial e a subsequente derrota do Japão em 1945 (VISENTINI, 2013; SPENCE,

2000).

3 A CHINA COMUNISTA, AS TENSÕES INTERNAS E OS

REALINHAMENTOS DIPLOMÁTICOS

Uma vez finalizada a II Guerra Mundial e derrotados os japoneses, o KMT passou a dedicar-se integralmente à tarefa de eliminar o PCCh. Em 1946 e 1947, Chiang Kai-Shek desencadeou uma série de ofensivas que lhe garantiram o controle sobre as principais cidades e as vias de comunicação chinesas. Todavia, o crescente apoio das massas camponesas aos comunistas e seu fortalecimento do ponto de vista militar foram claramente subestimados. Na prática, o uso da retórica anticomunista como instrumento ideológico de dominação japonesa havia permitido a associaçãopor parcela significativa da população chinesado discurso comunista ao anticolonialismo (ZUCATTO ET AL, 2013, p. 34). Desta forma, o PCCh, vinculado a um sentimento nacionalista, ganhou força no mundo rural e camponês, “cercando” os domínios do KMT. Em 1948, Mao Zedong avançou para o Sul e conquistou algumas cidades importantes em mais um episódio de sua longa guerra de guerrilha, dando concretude à sua previsão de que o campo cercaria a cidade para depois conquistá-la (HOBSBAWM, 1995, p. 86). A seguir, com a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em abril de 1949, a União Soviética (URSS) decidiu apoiar política e materialmente a revolução chinesa e, assim, deu o impulso final que faltava para o PCCh derrotar o KMT e expulsar Chiang Kai-Shek para Taiwan (VISENTINI, 2013, p. 18-19). Em 1º de outubro de 1949, Mao Zedong proclamou a República Popular da China, dando fim a 110 anos de rebeliões, revoluções, guerras civis e invasões estrangeiras. Antes mesmo da proclamação da vitória comunista, realizou-se a primeira Conferência Consultiva do Povo, que estabeleceu quatro eixos que norteiam a política do país até os dias atuais: (i) a instauração de uma “ditadura democrática”, isto é, uma fórmula que permitisse o desenvolvimento da produçãocontando, para tal, com o proletariado, o campesinato, a pequena burguesia e mesmo a parcela da burguesia nacional que se submetera à direção do PCChe a instituição e o reconhecimento de direitos, como a reforma agrária, a proteção às minorias e o direito das mulheres à igualdade, em combinação com a repressão à contrarrevolução; (ii) o controle e o desenvolvimento da economia para estabelecer a centralização

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política e um sistema tributário nacional unificado; (iii) a recuperação da soberania sobre os territórios chineses perdidos, como Hong Kong, Macau e, fundamentalmente, Taiwan, reduto do KMT após sua derrota; e (iv) o estabelecimento enquanto potência independente e não alinhada (MARTINS, 2013, p. 103-105; ROBERTS, 2012, p. 357-360). Os chineses eram, até 1949, os principais parceiros dos EUA na Ásia Oriental e no Pacífico. No entanto, os estadunidenses cometeram o equívoco de apostar na vitória do KMT tanto na guerra civil quanto na resistência ao Japão e, assim, os comunistas chineses vitoriosos logo passaram para a esfera de influência da URSS, que fornecia apoio financeiro e técnico para o PCCh (ZUCATTO ET AL, 2013, p. 35). Ao mesmo tempo, a URSS reconhecia o governo nacionalista do KMT e colocava tropas na região nordeste do território chinês, perto da Manchúria (KISSINGER, 2011, p. 100). A perda de seu aliado mais importante na região impactou a estratégia estadunidense em um contexto de acirramento da Guerra Fria. O regime socialista não obteve reconhecimento dos norte-americanos, ao passo que a República da China de Chiang Kai-Chek, instalada em Taiwan, não somente continuou a ser reconhecida pela maior parte da comunidade internacional como também manteve assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Deste modo, o reconhecimento diplomático da China Popular foi quase que limitado aos Estados do bloco socialista que aos poucos se formava e a outros países do Terceiro Mundo, como a vizinha Índia (VISENTINI, 2013, p. 18-19). 7 A Guerra da Coreia (1950-1953), na qual a China confrontou-se diretamente com os EUA, foi importante para a concretização da aliança sino- soviética. Neste conflito, os chineses foram alvo da chamada chantagem nuclear pelos EUA, isto é, foram ameaçados com o uso direto de armas nucleares contra o seu território (YAO, 2009, p. 69). Este fato, que viria a repetir-se em ao menos outras quatro oportunidades até 1958, influenciou grandemente a decisão chinesa de desenvolver um programa nuclear militar, que teve início em 1954 após a primeira crise do Estreito de Taiwan, 8 quando mais uma vez os estadunidenses fizeram uso da chantagem nuclear contra Pequim (MARTINS, 2013, p. 108).

7

8

A partir de 1955, o relacionamento sino-indiano seria prejudicado em função de atritos

relacionados à ajuda soviética à Índia. Em 1962, houve inclusive um conflito militarizado de fronteira entre chineses e indianos.

A primeira crise do Estreito de Taiwan consistiu em uma disputa pelas ilhotas de Jinmen e

Mazu, ocupadas por Taiwan em 1954. Após o início das hostilidades, o governo dos EUA enviou

a VII Frota da Marinha do país para a região e, assim, submeteu Taiwan à proteção

estadunidense. Fazendo uso da chantagem nuclear, os EUA obrigaram a China a ceder a suas

pretensões (MARTINS, 2013, p. 108).

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A década de 1950 marcou a consolidação do novo regime e foi caracterizada por uma rápida e intensa industrialização e por um processo de modernização muito baseado no exemplo da URSS. A necessidade de auxílio estrangeiro para a recuperação econômica e para o reequipamento militar do país e os desafios representados pela presença de forças hostis na Coreia, em Taiwan e na Indochina, bem como a permanência de tropas do KMT ao norte da Birmânia na região conhecida como Triângulo de Ouro, obrigaram a China a manter uma estreita aliança com os soviéticos neste período (VISENTINI, 2013, p. 19). Todavia, a parceria não era vista como desinteressado por Mao, que possuía uma forte visão sinocêntrica, 9 e em 1958, afirmou ao presidente russo Nikita Khrushchev que a China alcançaria o comunismo pleno antes da URSS, gerando inquietude entre os soviéticos (KISSINGER, 2011, p. 170, 184-188). O I Plano Quinquenal foi desenvolvido entre 1953 e 1958. A China duplicou sua produção industrial, com destaque para os setores do aço, do petróleo e de produtos químicos, sendo que os soviéticos foram responsáveis por mais da metade dos investimentos (BERGÈRE, 1980, p. 72; ROBERTS, 2012, p. 367-368). A coletivização da agricultura, também realizada neste período, deu-se com pouquíssimos custos humanos e, ao mesmo tempo, a produção agrícola cresceu: em 1952, a China produzira 161 milhões de toneladas de cereais; em 1957, haviam sido produzidos 191 milhões de toneladas (BERGÈRE, 1980, p. 62). Na educação, o país também logrou avanços importantes: entre 1949 e 1956, o número de matrículas no ensino primário subiu de 24,3 milhões para 64,2 milhões e, no ensino superior, as matrículas quadruplicaram (ROBERTS, 2012, p. 367-368). Não obstante, o chamado “Período Soviético” encerrar-se-ia com a afirmação da política proposta por Nikita Khrushchev de coexistência pacífica entre URSS e Ocidente capitalista, 10 que representou um deslocamento da importância chinesa para os soviéticos no âmbito de sua estratégia para a Guerra Fria, em prol de uma reorganização das relações com os países

9 Segundo Kissinger (2011, p. 170), teria sido o sinocentrismo de Mao que o fez enviar o seu ministro de relações exteriores (Zhou Enlai) para a Conferência de Bandung, em 1955, durante a criação do Movimento dos Países Não-Alinhados, que não se identificavam com nenhum dos dois polos de poder da época. Essa teria sido a resposta de Mao após a criação do Pacto de Varsóvia naquele mesmo ano.

10 A coexistência pacífica foi fruto do desengajamento militar que se seguiu à Guerra da Coreia, da emergência do Terceiro Mundo no sistema internacional, da consolidação do campo socialista, da obtenção de um relativo equilíbrio nuclear entre EUA e URSS e da recuperação econômica da Europa Ocidental e do Japão. Estes fatores permitiram que se atenuasse a polarização existente na passagem da década de 1940 para os anos 1950. Consistiu, assim, em um período de distensão das relações entre os Estados socialistas e o Ocidente capitalista (VISENTINI, 2007, p.

126).

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capitalistas. A proposta foi mal vista por Pequim e teve início, assim, um desgaste das relações entre China e URSS. A tentativa de imposição de um modelo econômico inadequado aos chineses por parte dos soviéticos e a disputa pela liderança do movimento comunista internacional após a morte de Stalin, em 1953, também contribuíram para o contencioso entre os dois gigantes (VISENTINI, 2013, p. 19). A segunda crise do Estreito de Taiwan foi outro marco importante nesse sentido, 11 pois evidenciou a necessidade crítica do desenvolvimento de um programa nuclear independente chinês. 12 No contexto da política de coexistência pacífica, os soviéticos não pareciam dispostos a sacrificar o apaziguamento do período em favor de interesses nacionais chineses. Deste modo, a China suspendeu o acordo de cooperação nuclear com a URSS e, em 1959, deu início ao seu próprio programa. Ainda, o apoio soviético à Índia no litígio fronteiriço deste país com a China desgastou ainda mais as relações entre ambos ao final da década de 1950. A radicalização político-econômica do governo chinês a partir do Grande Salto Adiante, entre 1958 e 1960, concretizou a cisão sino-soviética, acompanhada pelas disputas fronteiriças entre os dois países, que viriam a escalar nos anos 60 (ZUCATTO ET AL, 2013, p. 35; KISSINGER, 2011). A campanha lançada por Mao Zedong teve como objetivo o aumento da produção agrícola e industrial do país em um espaço de tempo muito breve com vistas a aumentar as exportações de alimentos e dar sustentação ao esforço de desenvolvimento da tecnologia nuclear e de uma base industrial- bélica (MARTINS, 2013, p. 111). Houve, para tal, um intenso processo de reorganização produtiva: abandonaram-se os planos inspirados no modelo soviético e deu-se lugar a uma espécie de descentralização do comando da economia a partir da militarização do trabalho e da implantação de grandes comunas populares. Ao cabo do Grande Salto, a inflexibilidade das metas havia contribuído para a morte de mais de 20 milhões de pessoas que, em geral, foram deslocadas forçosamente de seus lares e acabaram afligidas pela fome. No mesmo período, o avanço da reforma agrária e a emancipação dos

11 A segunda crise do Estreito de Taiwan originou-se a partir da instalação do sistema de mísseis MGM-1 Matador em Taiwan pelas Forças Armadas estadunidenses. Em resposta, os chineses estabeleceram um bloqueio à ilha de Jinmen, ocupada pelo KMT quatro anos antes, e deram início a bombardeios neste local que durariam até 1979. O impasse perduraria por anos a fio, e os mísseis estadunidenses somente seriam retirados de Taiwan em 1974 (MARTINS, 2013, p.

110).

12 Até então, o programa nuclear estava sendo desenvolvido com assistência da URSS. Na prática, a defesa chinesa dependia do guarda-chuva nuclear soviético.

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servos no Tibete geraram imensa revolta na elite feudal tibetana e provocaram seu êxodo para o norte da Índia. 13 As incompatibilidades com a URSS e as péssimas relações com os EUA alertaram a diplomacia chinesa que, frente a tal situação, passou a conferir máxima prioridade à reinserção do país na ONU de forma a não depender de alianças especiais com países mais poderosos. Em princípios da década de 1960, as descolonizações na África e na Ásia permitiram o ingresso de número expressivo de novos países nas Nações Unidas. Ademais, fenômenos como a emergência do nacionalismo na América Latina e o desprendimento da França e da própria China com relação a seus respectivos blocos traduziram- se em um reforço da multipolaridade nos marcos da ONU. Os debates na Assembleia Geral da organização tiveram sua importância reforçada, os posicionamentos ganharam novos contornos e a influência estadunidense nas decisões foram significativamente reduzidas na medida em que se abriu espaço para alianças e composições complexas. O grande mentor das diretrizes que passaram a guiar o modus operandi da política externa defendida pela China foi Zhou Enlai, enunciador dos Cinco Princípios da Coexistência Pacífica, um conjunto de sólidos postulados aceitos pelos vizinhos asiáticos: (i) respeito mútuo à soberania e à integridade nacionais; (ii) não agressão; (iii) não intervenção nos assuntos internos de um país por parte de outro; (iv) igualdade e benefícios recíprocos; e (v) coexistência pacífica entre Estados com sistemas sociais e ideológicos diferentes. Na década de 1960, a diplomacia chinesa também se fez atuante no âmbito do Movimento dos Países Não Alinhados, 14 fundado em 1961 por países do Terceiro Mundo que emergiu com os processos de descolonização na África e na Ásia (VISENTINI, 2013, p. 19-20). Em 1964, a China adquiriu capacidades nucleares e, em 1967, já detinha armas termonucleares. 15 O esforço nuclear impôs sérias privações à população

13 O Tibete havia sido reocupado após a vitória da Revolução, mas o poder feudal dos lamas preservara-se até o desencadeamento da reforma agrária, em 1959.

14 Movimento de países que buscavam uma terceira via nas relações internacionais em detrimento do alinhamento a um dos blocos da Guerra Fria. A origem do neutralismo estava no afro- asiatismo anticolonialista que caracterizou a Conferência de Bandung realizada em 1955. Os Não Alinhados condenavam o domínio das grandes potências e defendiam uma nova ordem política e econômica mundial menos assimétrica.

15 O estoque de armas nucleares da RPC não é totalmente declarado, mas sabe-se que é significativamente inferior aos EUA e Rússia. Segundo o Bulletin of the Atomic Scientists, em 2013, os EUA possuíam 2.150 ogivas operacionais e a Rússia possuía 1.800. Por sua vez, a China possui cerca de 250-300 ogivas, mas é seguro supor que uma porcentagem dessas ogivas tenha sido retirada de serviço. Fonte: KRISTENSEN, Hans M.; NORRIS, Robert S. Global nuclear weapons inventories, 1945-2013. Bulletin of the Atomic Scientists, Chicago, vol. 69, n.5, p. 75,

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chinesa, mas, ao mesmo tempo, alçou o país à condição de grande potência. Em 1966, Mao Zedong decidiu dar início à defesa de seu legado e, para tal, passou a perseguir seus adversários políticos do PCCh. Após o fracasso do Grande Salto Adiante, as discordâncias entre as diferentes facções políticas que formavam Partido Comunista no país acirraram-se. Sob a justificativa da necessidade de preservar a pureza do socialismo chinês em contraposição ao pensamento soviético e seus simpatizantes na China, Mao impulsionou a Revolução Cultural 16 para destruir a facção pró-soviética do PCCh representada pelo Grupo dos Cinco de Peng Zhen, prefeito de Pequim apoiado por líderes como Liu Shaoqi e Deng Xiaoping (MARTINS, 2013, p. 112-113). Instrumentalizando o descontentamento das massas após anos de exaustão e fome, Mao mergulhou o país em dez anos de perseguições e de radicalização político-social. Ao mesmo tempo, recrudesceram as diferenças entre China e URSS, cujo ápice foi um conflito armado de fronteira no rio Ussuri, em 1969, que durou cerca de seis meses e provocou o ressurgimento, entre os chineses, do temor de um ataque nuclear. Diante do incremento da percepção de ameaça, Pequim construiu um sistema de túneis de mais de três mil quilômetros que comprometeu um terço do total de investimentos em capital realizados na China na década de 1960 e demandou enorme remanejamento da mão de obra chinesa (JACOBS, 2011, online). Ao final da Revolução Cultural, as instituições políticas chinesas estavam destruídas por conta da estratégia de Mao de jogar seus partidários mais fanáticos contra seus opositores no PCCh. Os objetivos de desenvolvimento econômico, social e industrial novamente não haviam sido atingidos e as falhas eram justificadas pelos constrangimentos externos impostos pelas desavenças com os soviéticos. Conquanto Mao tenha emergido novamente como liderança suprema do país, o caos vivenciado pelos chineses foi desgastando progressivamente o maoísmo ao passo que visões reformistas voltaram a ganhar corpo. No cenário internacional, o terceiro-mundismo chinês pouco havia gerado de positivo para a China. Especialmente após a derrubada de Sukarno na Indonésia, em 1965, que até então era seu principal aliado asiático, os chineses enfraqueceram-se e isolaram-se. A derrota do Paquistão, outro de

set/out 2013. Disponível em: <http://bos.sagepub.com/content/69/5/75.full.pdf+html>. Acesso em 14 fev 2015. 16 A Revolução Cultural foi uma campanha organizado por Mao Zedong para expurgar de intelectuais e membros do PCCh aqueles membros mais ligados ao movimento soviético, buscando radicalizar o partido. Foi marcada por ativa repressão e violência contra dissidentes, além de desmantelamento das universidades chinesas. Iniciou-se em 1966 e durou até aproximadamente 1970.

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seus aliados, frente à Índia, aprofundou o isolamento externo chinês. Diante deste cenário complicado, que impossibilitava a continuidade da estratégia de confronto simultâneo com as duas superpotências, e frente à crescente percepção de ameaça representada pela URSS, evidenciada nos litígios fronteiriços, a China promoveu importante realinhamento estratégico: em 1971, voltou a aproximar-se dos EUA (KISSINGER, 2011). A Doutrina Nixon, que consistia na divisão de responsabilidades com parceiros escolhidos nas diversas regiões do globo, guiava a política externa estadunidense neste período e, na Ásia, pregou a aproximação pragmática com a China. Da parte chinesa, a nova estratégia diplomática encontraria sua sustentação teórica definitiva na chamada Teoria dos Três Mundos, apresentada por Deng Xiaoping em 1974 na Assembleia Geral da ONU. De acordo com esta concepção, o sistema internacional não seria dividido em dois “mundos”—um capitalista e um socialista, mas sim em três: EUA e URSS corresponderiam ao Primeiro Mundo, os demais países capitalistas desenvolvidos conformariam o Segundo Mundo e, por fim, os Estados periféricosincluindo a própria China, representariam o Terceiro Mundo (VISENTINI, 2013, p. 20-21). A receita gerada por este diagnóstico dava conta de que o país deveria empreender esforços para desenvolver-se autonomamente. Ao mesmo tempo, contudo, a crítica ao “social- imperialismo” soviético era acentuada na formulação teórica, de forma a deixar claro que os soviéticos representavam sérios obstáculos ao desenvolvimento chinês. O elemento comum que motivou a retomada das relações diplomáticas entre chineses e estadunidenses em um novo patamar de cooperação foi a necessidade sentida por ambos os países de criar um contrapeso à URSS. Os EUA ainda enxergavam na aliança tácita com a China uma possibilidade de frear os movimentos asiáticos de libertação nacional e conter o Vietnã do Norte; os chineses, por sua vez, também planejavam extrair benefícios econômicos e tecnológicos da parceria. O primeiro passo concreto da reaproximação foi o convite feito por Pequim à delegação estadunidense de tênis de mesa que se encontrava no Japão para visitar a China, em episódio conhecido como a Diplomacia do Ping Pong (VISENTINI, 2013, p. 20). Posteriormente, em 1972, o presidente dos EUA, Richard Nixon, visitou o país asiático. A visita foi, nas palavras do secretário de Estado estadunidense à época, Henry Kissinger, “uma das poucas ocasiões nas quais uma visita oficial provocou uma mudança seminal nos assuntos internacionais” (KISSINGER, 2011, p. 272). A partir de então, as consultas entre os dois países adquiriram intensidade.

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4 AS QUATRO MODERNIZAÇÕES E O CRESCIMENTO CHINÊS

As mudanças na política internacional seriam acompanhadas por uma nova inflexão nos rumos do governo chinês. Se a até a década de 60 a segurança fora a ênfase chinesa e, logo depois, a autonomia, a ascensão de Deng Xiaoping ao poder, após a morte de Mao em 1976 o governo centrou-se um programa de reformas em quatro áreas: na agricultura, na indústria, na tecnologia e na defesa nacional as Quatro Modernizações. Por trás da ênfase na modernização do país estava uma busca por melhorar o nível de vida da população chinesa através de reformas econômicas que introduziam certos mecanismos de mercado e da aceitação de algum grau de ocidentalização, com a busca pelo conhecimento tecnológico ocidental (SPENCE, 2000). As reformas iniciaram com mudanças na agricultura, ainda em 1978. A principal mudança foi a permissão da produção agrícola privada, ou seja: os camponeses ainda precisavam produzir cotas para o governo, mas, para além delas, poderiam produzir o que e quanto quisessem e poderiam vender tais excedentes no mercado. O resultante crescimento da produção agrícola, facilitado por anos de boas colheitas, aumentou o poder de consumo dos campesinos (ROBERTS, 2012). Este, por sua vez, veio a ser satisfeito através de produções locais. Com o estímulo governamental à autonomia provincial para que essas investissem nas atividades que lhes fossem mais proveitosas, aumentara o número de indústrias leves, ampliando, assim, a produção de bens de consumo (IPEA, 2011). As demais reformas, no entanto, exigiam capital e tecnologia que a China não possuía. Além disso, a URSS era, na época, a maior ameaça à China, cuja pressão se dava principalmente em dois pontos. Primeiramente, na movimentação de tropas soviéticas na fronteira URSS China e, em seguida, no avanço do Vietnã sobre o Camboja do Khmer Vermelho, o que significava um avanço da influência soviética. Era necessário consolidar a aproximação ao Ocidente e, sobretudo, a aliança com os EUA, capaz de trazer benefícios econômicos, tecnológicos e estratégicos à China (KISSINGER, 2011; FONTANA,

2011).

Mas para que a aproximação aos EUA, iniciada com Mao, fosse algo concreto, um ponto central deveria mudar: Taiwan. O governo taiwanês ainda era reconhecido pelos EUA como o governo chinês legítimo. Após negociações e acordos, as relações foram normalizadas em 1979, com mudança da embaixada estadunidense de Taipei para Pequim. 17 A partir de

17 A questão de Taiwan, entretanto, mantinha certa ambiguidade. Enquanto a China mantinha a questão como assunto estritamente interno e que, portanto, não deveria sofrer ingerências

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então, os interesses convergentes transformariam as relações entre a China e os EUA em uma aliança informal (MARTINS, 2013; VISENTINI, 2012). Vai ser aqui, com o apoio dos Não-Alinhados e da URSS que a República Popular da China conseguirá ser reconhecida como a única China e então, sentar no Conselho de Segurança da ONU (KISSINGER, 2011). Agora com seu regime reconhecido pelos estadunidenses, as relações chinesas com os países capitalistas desenvolvidos foram normalizadas (VISENTINI, 2013, p. 20). Visando tanto a entronização de tecnologia, quanto o crescimento econômico, foram criadas as Zonas Econômicas Especiais (ZEEs). Geralmente estabelecidas no litoral chinês, as ZEEs são zonas que visam a atrair investimentos e capitais estrangeiros oferecendo vantagens e facilidades aos investidores em troca da formação de parcerias (joint ventures) com o governo ou com empresas chinesas (isso é, da formação de transnacionais, de forma a manter parte do lucro no país). Assim, nestas, além de ofertar a construção de uma infraestrutura para além da já existente no país que respondesse às necessidades de cada um dos investimentos, o governo oferecia uma legislação mais flexível que previa a redução ou mesmo a isenção de impostos (IPEA, 2011; VISENTINI, 2013, p. 21). A atração de investimentos estrangeiros exigia, no entanto, outras modificações. Na China, até então, os salários eram maiores conforme o tempo de contribuição, não conforme os cargos, e o trabalho era um direito. Desse modo, a legislação trabalhista chinesa não se adaptava aos preceitos ocidentais. Foi necessária uma flexibilização também na área trabalhista, que passou a ser parte das facilidades: a China oferecia aos investidores uma mão de obra bem treinada a salários competitivos (ROBERTS, 2012). 18 Apesar das reformas feitas virem acompanhadas de uma certa abertura governamental a críticas e levarem a uma transferência de capacidade decisória aos diferentes níveis de governos locais, elas buscaram se limitar ao campo econômico (FONTANA, 2011). No político, seguiam vigorando quatro princípios que deveriam permanecer inalterados, sendo eles (i) socialismo, (ii) ditadura democrática popular, (iii) direção do Partido Comunista 19 e (iv)

estrangeiras, os EUA mantinham certas relações diferenciadas com Taiwan, como a manutenção de vendas de armamentos de caráter defensivo para Taipei (SPENCE, 2000, p.623).

18 Alguns dos motivos para o baixo custo da mão de obra chinesa são o fato do custo de vida preço dos alimentos, da saúde, educação, etc. ser baixo no país e a existência de uma grande população campesina que forma um grande exército industrial de reserva, o que ajuda a pressionar os salários para baixo.

19 Cabe ressaltar que o Partido Comunista Chinês não é o único partido existente. Existem outros 8 partidos democráticos que, apesar de ameaçados durante a Revolução Cultural, existem desde antes da fundação da República Popular Chinesa. Entretanto, além de terem um baixo nível de

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pensamento marxista-leninista-maoísta. O crescimento econômico chinês advindo também da abertura ao capital externo e da ocidentalização fez, desta forma, com que o sistema chinês fosse um socialismo com características chinesas, de contradições próprias. A questão das reformas não era consensual, nem mesmo dentro do PCCh, onde havia tanto aqueles que se opunham a tal ocidentalização, quanto os ultrarreformistas. Além disso, o crescimento econômico não fora a única consequência das reformas, que trouxeram uma maior desigualdade social e surgimento de casos de corrupção. 20 A crise pela qual a China passou em 1988 levou, assim, a duas reações extremas. Por um lado, houve uma tentativa dos antirreformistas de frear as reformas. Por outro, o mal-estar advindo da crise somou-se à consciência por parte da população de um considerável nível de corrupção dentro do governo. Surge disso um movimento que, de início, era essencialmente estudantil, contra a corrupção e a favor de uma maior liberdade individual (MARTINS, 2013; VISENTINI, 2012). O movimento iniciou em abril de 1989 e, em maio, seguiu, inclusive com o apoio de trabalhadores e de outras províncias. As tentativas de soluções negociadas e de atender, em parte, as reivindicações do movimento foram infrutíferas, e este se radicalizou. Parte dos membros do movimento começou a exigir uma democracia liberal, o que levaria ao fim do regime. Em junho de 1989 o governo decidiu dispersar os manifestantes agrupados na Praça da Paz Celestial (Tiananmen), em uma ação violenta que se transforma em um massacre, com centenas de mortos. Todavia, contrariando o que alguns acreditavam, não foi o começo do fim do sistema político chinês. Significou, na realidade, o fim dos ultrarreformistas, que haviam buscado capitalizar os protestos como um movimento pela democracia . Em 1992, o XIV Congresso do Partido viria a consolidar tal quadro, com a ampla aceitação do socialismo com características chinesas (MARTINS, 2013, p. 116-117). Quando a URSS começou a entrar em crise, ainda na década de 80, muitossobretudo os Estados Unidos, Taiwan e os ultrarreformistas chineses esperavam que a China fosse pelo mesmo caminho. Entretanto, o socialismo com características chinesas seguia politicamente estável, sua economia crescia e as reformas haviam permitido uma diminuição da pobreza rural e urbana completamente nova na história chinesa. Além disso, a China vinha recuperando sua legitimidade internacional, participando intensamente

filiados, não são partidos de oposição ao governo e tampouco têm poder de decisão, ainda que participem, a caráter consultivo, de algumas discussões governamentais. 20 Além disso, na década de 70 houve um incentivo ao jornalismo investigativo para que casos de corrupção, mesmo governamentais, viessem à tona.

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da ONU e diversificando suas parcerias ao, por exemplo, se reaproximar do Japão e da Europa Ocidental (FONTANA, 2011). Com a abertura e a posterior queda do regime soviético, a China perdeu sua função de instrumento antissoviético. A partir de então seu crescimento heterodoxo não seria mais tolerado pelo Ocidente. Os EUA, em particular, passaram a conter e isolar a China, trazendo à discussão temas econômicos e relacionados aos direitos humanos, bem como intensificando as pressões pela fragmentação chinesa, em especial através do Tibete e de Taiwan (SPENCE, 2000). Mas a tentativa, ainda na década de 90, de impor sanções à China logo seria rompida pelos próprios países asiáticos. O Japão seria o primeiro, em 1991, em troca de condições econômicas especiaise, já no ano seguinte, a China seria um de seus principais parceiros comerciais (VISENTINI, 2012). Em 1992 as relações com a Coreia do Sul seriam restabelecidas; nos anos seguintes à queda da URSS, a China reatava e aprofundava suas relações com a Rússia e melhorava as relações com a Índia. A introdução do princípio de “uma nação, dois sistemas” permitiu a reincorporação das ex-colônias Hong Kong, em 1997, e de Macau, em 1999, que mantiveram seus sistemas político- econômicos. Com Taiwan, que sustentava até 1987 a política dos “três nãos” (não a contatos, não a compromissos e não a negociações com Pequim) também há uma melhora nas relações, com crescentes contatos bilaterais (VISENTINI, 2013, p. 22). Com estas ações era claro que a prosperidade da região já não poderia ser desligada da China. Apesar das crises dos anos 90, 21 a economia chinesa ganhou impulsoentre 1980 e 2010 a taxa média do crescimento de seu PIB foi de 10% (IPEA, 2011, p. 308), bem como as necessidades para sustentar tal crescimento. Assim, os anos 2000 foram marcados por uma expansão chinesa a mercados consumidores (como a Índia), centros financeiros (com destaque aos EUAque normalizaram as suas relações comerciais com a China) e, em especial, a países detentores de recursos energéticos e de matérias-primas. Vista como prioritária à política externa chinesa, a busca por commodities é um dos principais motivos para a grande aproximação chinesa do Oriente Médio, 22 da Oceania, da América Latina e, sobretudo, da África (MARTINS, 2013, p. 123-

124).

Tal aproximação é comumente apresentada como “perigosa”. Em especial, as relações ChinaÁfrica: ao lermos notícias atuais, é comum vermos chamadas com termos como conquista da África, a expansão do Dragão, etc. No entanto, o aumento da influência chinesa no continente se

21 Com destaque à crise financeira asiática de 1997, conhecida como Crise dos Tigres Asiáticos.

22 No caso africano, outro motivo apontado por Visentini é o de combater a presença taiwanesa no continente (VISENTINI, 2011, p. 9).

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deve, em grande parte, à atitude chinesa de não interferência em assuntos políticos internos dos estados africanos, diferenciando-se das usuais condicionalidades vindas do capital ocidental capital que, aliás, segue dominante sobre o continente. Outros atrativos como a flexibilização dos termos dos empréstimos e as contrapartidas chinesas aos investimentos infraestrutura e cooperação técnica, por exemplo somam-se, explicando a atratividade do capital chinês. Conforme dito, os investimentos chineses nos países em desenvolvimento são, essencialmente voltados para a busca de recursos naturais. No entanto, a grande demanda chinesa por commodities possui consequências negativas e positivas. Por um lado, colaborou para que os países produtores não sofressem tanto com a crise de 2008 e permitiudevido à grande procura um aumento nos preços dos produtos primários. Por outro, tanto a grande demanda quanto o baixo preço dos manufaturados chineses 23 contribuíram para a tendência de reprimarização 24 da pauta exportadora destes países (IPEA, 2011; VISENTINI, 2013, p. 35). O caso brasileiro ilustra esta questão. A multiplicação da rentabilidade das relações comerciais entre Brasil e China desde a entrada chinesa na OMC, em 2001, faz com que a China seja, atualmente, o maior parceiro comercial brasileiro. No que se refere às exportações, a China é o principal comprador de nossos produtos desde 2009: ano em que passou a representar 15,2% de nossas exportações. Suas demandas, essencialmente primárias, 25 contribuíram para uma mudança na composição tecnológica de nossas exportações. É possível afirmar que, entre 2001 e 2011, para cada dólar que o Brasil adquiria de suas exportações para a China, US$ 0,87 vinham de produtos primários e de manufaturas intensivas em recursos naturais, US$ 0,07 vinham de produtos de média intensidade tecnológica e apenas US$ 0,02 vinham de exportações de alta tecnologia (IPEA, 2011, p. 322). 26

23

24

25

26

Seu baixo custo pode ser explicado por três fatores: os baixos custos de produção (inclusive

devido aos baixos salários), aos ganhos de produtividade advindos da grande escala de produção

e a manutenção, por parte do governo, da moeda chinesa desvalorizada, permitindo preços competitivos a suas exportações.

A reprimarização é o que ocorre quando a economia de um país irá depender estruturalmente

de commodities primárias e mineração, e redução da participação na pauta exportadora de bens industrializados.

Com destaque à soja, que representou 37,3% das exportações brasileiras à China em 2013, ao minério de ferro, 35,6%, e ao petróleo (óleo bruto), que representou 8,8% (IPEA, 2011).

Dito de outra forma, a composição de nossas exportações modificou-se entre 50% de produtos primários e de manufaturas intensivas em recursos (mão de obra e recursos naturais) em 2000 para 66% em 2009. As exportações tecnológicas caíram: as de baixa tecnologia caíram de 12% para 6%, as de média tecnologia de 26% para 20% e as de alta tecnologia, de 13% para 7%.

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As exportações chinesas para o Brasil, por outro lado, são essencialmente

de produtos manufaturados de baixa, média e alta tecnologia. Desta forma,

temos uma situação em que os produtos brasileiros de média e alta tecnologia têm pouco acesso ao mercado chinês e, em contrapartida, os produtos chineses são altamente competitivos no mercado interno brasileiro. A expansão chinesa, assim, também traz desafios à economia brasileira.

A crise de 2008, pela qual a China foi relativamente menos afetada,

aprofundou a participação chinesa na economia mundial. Se durante a década de 1990 a participação do Produto Interno Bruto (PIB) chinês no PIB global era de 1,8%, ela passa a representar 9,3% do PIB global em 2010, tornando-se a 2ª maior economia do mundo. Tendo completado seu salto tecnológico, 27 a China é atualmente o maior exportador mundial de produtos intensivos em tecnologia, e o 2º maior importador do mundo importando, além das commodities já citadas, maquinário e tecnologia dos países desenvolvidos (MARTINS, 2013). O milagre econômico chinês também acompanhou um maior entrelaçamento das relações comerciais, empresariais e financeiras entre EUA e China (com destaque para a compra chinesa de títulos do Tesouro estadunidense). Além disso, faz parte da atual conjuntura de perda, por parte dos Estados Unidos, de hegemonia frente ao aumento do poderio dos demais Estados. Assim, ao mesmo tempo em que temos um aumento da multipolaridade mundial e uma maior dependência dos EUA frente à China, 28 cresce a percepção estadunidense de que é preciso derrotar a ameaça chinesa

(ZUCATTO ET AL, 2013).

Recentemente, com a tentativa de uma saída americana do Oriente Médio, com as reduções do número de soldados na região, surgiu uma tentativa estadunidense de rebalancear a Ásia e, assim, diminuir o poder chinês. Esta tentativa se dá no âmbito econômico com a proposta da Parceria Trans-Pacífico (TPP). A proposta do TPP, ainda em discussão e endossada pela EUA, permitiria que conseguissem construir alianças via tratados de livre-comércio com diversos países da região, não incluindo a maior economia asiática: a China. Em resposta, a China propôs a construção da Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP), que constituiria um

27 Em 2011 a China tornou-se capaz de construir superprocessadores próprios até então, somente os EUA e o Japão possuíam tal capacidade. Diz-se, portanto, que ela concluiu sua 3ª Revolução Tecnológica. 28 A partir da crise financeira de 2007 a China é um dos principais possuidores de títulos da dívida pública estadunidense. Isso é, parte das reservas chinesas foi investida na compra de títulos da dívida pública estadunidense. Esta compra dá a China o direito de sacar o dinheiro investido em títulos (somado aos juros acumulados), o que gera uma vulnerabilidade da economia estadunidense frente à China.

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Tratado de Livre Comércio entre os países membros da ASEAN e países como Austrália, Índia, Japão, China e Coreia do Sul (REIS, 2014, online; MARTINS ET AL, 2014).

No cenário de segurança e política externa dos países da Ásia importam,

também, as disputas territoriais. Destas, são centrais na China as disputas pelas Ilhas Spratly e Parecel e pelas Ilhas Diaoyu/Senkaku. As primeiras, ricas em recursos naturais (especialmente petróleo), são reivindicadas pela China e também por, pelo menos, Vietnã, Filipinas, Indonésia e Taiwan. Já o segundo conflito é entre China e Japão, e já tem piorado as relações entre os dois países

desde 2012 (ZUCATTO ET AL, 2013). As disputas territoriais no Mar do Sul e do Leste da China ainda se constituem na principal ameaça securitária. Nesse sentido, o papel de Taiwan é vital, seja enquanto grande objetivo da política externa chinesa ou como essencial para a estratégia americana no Pacífico. A grande dependência chinesa por recursos, em especial por combustíveis, levanta outros pontos. Um exemplo é a dependência chinesa do Estreito de Malaca, por onde passa a maior parte das importações chinesas de petróleo vinda do Oriente Médio. Existe uma demanda interna chinesa para criar ou consolidar rotas alternativas. Destas, destacam-se os projetos de novos gasodutos e oleodutos em conexão com a Rússia, na Ásia Central em consonância com a estratégia da Nova Rota da Seda, que visa a estreitar laços econômicos e de segurança energética com os países desta região e através de Mianmar. Esta última rota, concluída em 2013, envolve uma disputa entre China e Índia por influência na região (REIS, 2014, online; MARTINS ET AL,

2014).

A China também enfrenta grandes desafios quanto ao modelo

econômico. Em 2011, o Comitê do Partido Comunista estabeleceu seu XII Plano Quinquenal, válido até 2015. A partir deste, a ênfase da economia chinesa passou a ser um modelo direcionado na elevação da renda da população em geral, sendo, portanto, mais focado em um aumento da capacidade de consumo. Devido à concentração de renda ocorrer próximo ao litoral do país mais próximo das ZEEs , esta reestruturação também inclui uma melhor distribuição regional de renda, além de prever uma desaceleração do crescimento econômico (ZUCATTO ET AL, 2013). Consonante a tal mudança de enfoque para o desenvolvimento interno, desde 2003 a China utiliza o termo "desenvolvimento pacífico" em detrimento de "ascensão" (XAVIER, 2008, p. 56-70). Isso é, há uma busca por expressar um conceito de segurança baseado na confiança mútua e na cooperação e não em expansão de poder uma busca por demonstrar que a China não pretende tornar-se hegemônica. Assim, o discurso de política externa desde Hu Jintao (2003-2013) e atualmente com o presidente Xi Jinping tem sido o de buscar

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um crescimento pacífico e num espaço de prosperidade mútua. Contudo, a presença chinesa crescente no Oriente Médio, África e América do Sul, além das respostas firmes em relação às disputas territoriais tende a deixar apreensivos certos setores mais conservadores da política estadunidense.

5 CONCLUSÃO

Fica claro o papel de liderança que a China possui no sistema internacional atual e, mais do que isso, na configuração das parcerias e alinhamentos dos países em desenvolvimento. Pela sua extensão, população e, consequentemente, o tamanho do seu mercado, a China é um importante parceiro econômico e uma alternativa para a reformulação da polarização entre os países. O seu crescimento vertiginoso nos últimos trinta anos obriga à permanente revisão das instituições políticas do país pelo PCCh. A lição também serve para o Brasil, onde algumas reformas político-institucionais parecem estar vinculadas ao processo de desenvolvimento da nação. A história da China nos esclarece como o continente e, em certos momentos, o mundo tornam-se reféns do que ocorre em suas interações e guerras. Consequentemente, ao tornar-se a principal potência após os Estados Unidos e o principal polo do mundo em desenvolvimento, a China atrai a atenção do sistema internacional para a sua política externa. Será a sua posição diferenciada das outras potências em regiões como a África e Ásia Central que trarão o maior desafio que a China oferece ao status quo: um caminho de desenvolvimento desvinculado dos grandes poderes imperialistas. Ao criar um modelo próprio de socialismo, aceitar-se como líder do Terceiro Mundo, criar o RCEP, a Nova Rota da Seda e pensar na sua ascensão pacífica, a China demonstra sua grandeza em realizar uma engenharia reversa do que surge externamente e adaptar para a sua realidade, devolvendo os conceitos ao resto do mundo com características chinesas. A extrema adaptabilidade e o pragmatismo chineses almejando o desenvolvimento nacional como desejo máximo do Partido e do povo (evocando princípios da tianxia) são os principais ensinamentos que ficam para o Brasil. Apesar de ainda estar sob a inescapável área de influência territorial dos Estados Unidos nas Américas, o Brasil tem indicado, com a força em que acredita no projeto dos BRICS, como pretende atingir a sua grandeza.

ABSTRACT

The People’s Republic of China emerges in the 21st century as one of the great economic and political forces of the last decades, offering an alternative development model. The article discusses the historical aspects that led to the formation of the

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country, which introduces a socialism with specific characteristics, from the Empire, to the civil war and the reforms in the 80s. By analyzing their exceptionality, we try to address possible lessons that this development model and security challenges can give to Brazil. Keywords: China; People’s Republic of China; BRICS; communism; development model.

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ISSN: 2318-9390 | V. 2, 2015 | P. 59 84

DESAFIOS E PERSPECTIVAS DA POTÊNCIA EURASIANA DOS BRICS:

A FEDERAÇÃO RUSSA

CHALLENGES AND PROSPECTS OF THE EURASIAN GREAT POWER OF BRICS: RUSSIAN FEDERATION

Livi Gerbase 1 Marina Schnor 1 Rodrigo Milagre 1

RESUMO

O presente artigo tem por objetivo principal analisar a forma pela qual a

Rússia se insere atualmente no cenário internacional. O trabalho será centrado no exame tanto das diretrizes que fundamentam a política externa

do

Kremlin, quanto da implementação destes princípios na inserção concreta

do

país no sistema internacional. Ademais, a fim de agregar às perspectivas do

estudo pretendido, realizar-se-á uma comparação da tendência que baliza a atuação internacional russa desde a posse do presidente Vladimir Putin, no ano de 2000, com as demais tendências apresentadas ao longo de sua história.

Palavras-chave: BRICS; eurasianismo; Geórgia; Putin; Rússia; Ucrânia.

1 INTRODUÇÃO

Em linhas gerais, parte-se do pressuposto de que, desde a Grande Guerra do Norte, contenda vencida por Pedro, o Grande, em 1721, a Rússia apresenta-se como uma potência no sistema internacional. Apesar de constante, a posição russa como um polo influente sujeitou-se não somente aos altos e baixos decorrentes das conjunturas doméstica e mundial, como também às mudanças experimentadas pela própria percepção de Moscou quanto a melhor maneira

de proceder com a sua inserção internacional. Deste modo, duas tendências

podem ser delineadas para interpretar os momentos em que a Rússia destacou-se entre os principais atores internacionais, configurando-se como

1 Graduandos em Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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uma verdadeira grande potência: o ocidentalismo, presente durante a dinastia dos Romanov; e o eurasianismo, base da atual política empreendida pelo Kremlin. Assim sendo, serão prospectadas as diretrizes e a implementação destas na prática quanto à tendência eurasianista, que caracteriza a atual inserção internacional moscovita. Para uma melhor compreensão de como o país tem agido recentemente em termos de sua política externa, o artigo será subdivido em três seções, além da introdução e da conclusão. Primeiramente, será apreciada a história russa a partir de uma perspectiva que priorize a análise das tendências que balizaram a política externa moscovita, destacando-se o ocidentalismo e o eurasianismo. Num segundo momento, tratar-se-á dos princípios atuais de sua política externa, relacionando-os a dois eventos marcantes nos quais a Rússia esteve envolvida no século XXI, quais sejam a Guerra da Geórgia de 2008 e a crise atual na Ucrânia (2013presente). Por último, buscar-se-á como estes princípios são utilizados na realidade da atuação russa internacionalmente, tanto em regiões geográficas de seu interesse quanto em organizações internacionaiscom ênfase no grupo BRICS.

2 ANÁLISE HISTÓRICA DA INSERÇÃO INTERNACIONAL RUSSA: AS

TENDÊNCIAS BALIZADORAS

A compreensão da Rússia, de suas singularidades sociais, históricas e geopolíticas e de sua ascensão como uma potência, na atualidade, remontam a um passado de invasões estrangeiras e de expansões territoriais. O país originou-se na fundação do Estado Kievan Rus, 2 no século IX, em Kiev, com a instalação dos povos eslavos orientaisa congregação de russos, ucranianos e bielorrussos. No século XIII, as invasões mongóis desmantelaram o Estado e impuseram o domínio estrangeiro na região, até a definitiva derrota imposta por Ivan III, em 1480, e a posterior unificação do país em torno da nova capital, Moscou. Ivan IV, O Terrível, autodenominado Czar, 3 empreendeu campanhas que inauguraram a grande expansão territorial de Moscou, para além de regiões povoadas apenas por russos (SEGRILLO, 2000). Esboçava-se, assim, a caracterização multiétnica do país. É essencial compreender, nas dinâmicas desse período, um elemento central presente na construção da identidade russa: caracterizada por invasões, expansões e conquistas territoriais que fizeram do país o maior do

2 Kievan Rus’ é considerada o berço não só do Estado russo, como também do ucraniano e do bielorrusso.

3 O “Eleito de Deus”, a figura do Czar como supremo absoluto caracterizará esse período e posteriormente o Império Russo com a dinastia Romanov.

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DESAFIOS E PERSPECTIVAS DA POTÊNCIA EURASIANA DOS BRICS: A FEDERAÇÃO RUSSA

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mundo em extensão, moldou-se uma autopercepção, na configuração da sociedade russa, do país enquanto um Império, perspectiva que persistiu ao longo de sua história (LIEVEN, 2002; ADAM, 2008). Esse aspecto manifestou-se no contexto da União Soviética, marca a relação da Rússia com seus vizinhos no pós-Guerra Fria e também perpassa, em grande medida, seu posicionamento atual no sistema internacional. Nesse contexto, percebem-se duas tendências que são reflexo e se desenvolvem no interior dessa identidadeuma ocidentalista e outra eurasiana. A primeira materializou-se fundamentalmente com a dinastia Romanov (16131917), representada principalmente pelas figuras de Pedro, O Grande e Catarina, A Grande. Nesse período, foram realizadas reformas ocidentalizantes, 4 sedimentando o sistema absolutista característico do Velho Continente e afirmando a Rússia como um Império de fato, essencialmente sob um viés “europeizante” que influenciou o seu sistema político interno e suas pretensões de fazer parte, como uma entre iguais, do concerto europeu de nações. A política expansionista, concomitantemente, avançou sobre regiões do Império Otomano, do Mar Báltico e de territórios da Ucrânia e Polônia (LIEVEN, 2000), tornando a Rússia, com a vitória sobre a Suécia na Grande Guerra do Norte em 1721, uma grande potência de cunho ocidental. O Império Russo mantevese até 1917. Em meio à instabilidade no país e aos fracassos do seu envolvimento na 1ª Guerra Mundial, o sistema czarista foi derrubado e o Estado aderiu ao projeto socialista, com o triunfo da Revolução Russa. Com a instauração da República Socialista Federativa Soviética Russa, o país mergulhou em uma guerra civil envolvendo os revolucionários e a intervenção de potências ocidentais, contrárias à saída da Rússia da guerra e ao estabelecimento de um regime de cunho socialista na região. A partir da vitória bolchevique e com a definitiva instauração da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1922, sob o comando de Vladimir Lêninenglobando, inicialmente, o território da Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e Transcaucásia 5 iniciou-se um novo período para a história da Rússia e para as relações internacionais. Ao longo dos anos, a unidade socialista foi complexificando-se e aumentando, até atingir o número de

4 Tais como a mudança da capital para São Petersburgo, aproximando o Império Russo da EuropaMoscou era considerada o símbolo das tradições orientais, o desenvolvimento e a modernização das forças armadas em moldes ocidentais e a proibição de certos hábitos e tradições russas.

5 Região do Cáucaso que compreenderia, posteriormente, as repúblicas da Armênia, da Geórgia e do Azerbaijão.

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quinze repúblicas, sempre sob o forte domínio de Moscou como centro nuclear do Estado. Dentro da lógica de caracterizar a atuação internacional da Rússia em diferentes tendências relacionadas ao seu caráter e autopercepção imperial, o período soviético, de certa forma, destoa dos demais momentos em que o país configurou-se como uma grande potência. Não se tratava apenas da inserção russa como parte da Europa ou sob uma perspectiva eurasiana, mas de uma inserção enquanto um Estado socialista que buscava, fundamentalmente, a contestação do sistema capitalista representado pelos Estados Unidos. Os anos de liderança de Josef Stalin (19241956) foram o período mais decisivo de consolidação da URSS como uma superpotência: sob um governo autoritário e totalitário, a coletivização da agricultura e os Planos Quinquenais fomentaram a 2 a Revolução Industrial, com base na indústria pesada “financiada” pelo setor agrícola (SHEARER, 2006). O crescimento e a industrialização acelerada da economia foram as consequências desse processo. Externamente, houve o engajamento do país na 2ª Guerra Mundial, ao lado dos Aliados. No front oriental, o maior teatro de operações da guerra, os soviéticos resistiram à invasão da Alemanha nazista em seu território e emergiram, em 1945, como uma das superpotências vencedoras do conflito. O contexto da participação soviética na Guerra e sua grande evolução industrial, militar e mesmo política alavancaram o país a uma posição de grande status no Sistema Internacional. No concerto e nas negociações do pós-guerra, evidencia-se o seu importante papel: na configuração da Organização das Nações Unidas (ONU), os soviéticos são incluídos entre os membros permanentes do Conselho de Segurança, países responsáveis pela manutenção da paz do pós-guerra. Concomitantemente, delineiam-se as linhas da Guerra Fria e as esferas de influência das duas superpotências, logo em 1945, nos acordos de Yalta. Sucintamente, sobre o período da Guerra Fria, cabe enfatizar as relações exteriores da URSS frente aos países sob sua influência e aos conflitos periféricos característicos do períodonotadamente, a título de importância, a guerra da Coreia e a guerra do Vietnã, em que o país interveio com o financiamento e com o apoio de armas aos movimentos pró-soviéticos. (VIZENTINI, 2004). No governo de Nikita Kruschev (19531964), em meio ao processo de desestalinização do regime, destacaram-se, como fatores importantes de construção do poder da União Soviética, o desenvolvimento do comando do espaço e da indústria microeletrônica. Contudo, no mesmo período, o regime começou a apresentar os primeiros sinais de desgaste e crise econômica que, nos anos seguintes, sepultariam o Estado socialista.

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O governo de Mikhail Gorbachev, iniciado em 1985, foi marcado pelo início da transição do regime e pela tentativa de reformar o sistema soviético, que enfrentava fortes dificuldades políticas e econômicas internas, além dos constrangimentos internacionais decorrentes dos derradeiros anos da Guerra Fria. O último líder soviético materializou seu projeto na Glasnostuma série de medidas visando à transparência e à abertura política do regime autoritário e na Perestroikaa abertura econômica, marcada pela liberalização do comércio, pela permissão à importação de produtos estrangeiros e pela redução dos subsídios à economia, assim como pela diminuição dos gastos em defesa. Caminhava-se a uma maior ênfase nos elementos de uma economia de mercado, em detrimento da planificação característica do sistema soviético. Fundamentalmente, os problemas de desaceleração econômica e do hiato tecnológico em relação ao Ocidente perpassavam pelas mudanças em curso nos paradigmas de desenvolvimento industrial mundial, com a perda da competitividade dos produtos soviéticos frente a progressiva ascensão do modelo toyotista de produção no Ocidente. Esse novo padrão mais flexível era muito distinto dos pilares rígidos que sustentavam o próprio regime político soviético, mais próximo ao modelo fordista (SEGRILLO, 2000).

O processo iniciado por Gorbachev foi marcado por contradições,

indecisões do líder frente às diferentes tendências políticas no partido e muitas divergências internas em relação aos rumos da URSS, com uma crescente polarização ideológica dentro do regime (SEGRILLO, 2000). Externamente, a relação da cúpula do regime com as repúblicas soviéticas caminhava para o desgaste, com a manifestação de diversos movimentos autonomistas na região. Nesse contexto, Gorbachev enfraquecia-se e perdia o controle político sobre o regime, enquanto a figura de Boris Yeltsin, já eleito Presidente da Rússia, empreendia reformas autonomistas frente a cúpula comunista, ascendendo como defensor do liberalismo e do caminho em direção ao capitalismo. Em 1991, Rússia, Ucrânia e Bielorrússia formalizam sua saída da URSS, enquanto Gorbachev renuncia e o acordo para criação da

Comunidade de Estados Independentes (CEI) da qual fariam parte as ex- repúblicas soviéticas é assinado. Era o fim definitivo de 69 anos de URSS.

A reestruturação da Rússia enquanto país independente, após o

desmantelamento da URSS, marcou o início de novos paradigmas e dinâmicas para o Estado em seu contexto interno, em suas relações exteriores e em sua própria posição no sistema internacional. Findada a Guerra Fria, sem a integração com as outras repúblicas socialistas e com a definitiva hegemonia dos Estados Unidos como único grande polo mundial, a Rússia já não se apresentava mais como a superpotência do passado. Boris Yeltsin, agora no

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cargo de presidente, empreendeu um projeto de transição ao capitalismo pleno no país. Esse processo de total desmonte do sistema comunista causou forte conturbação e instabilidade econômica, intensificada pelos problemas de abastecimento decorrentes do rompimento da cadeia produtiva estruturada e intensamente integrada entre as diversas ex-repúblicas soviéticas. Na esteira do neoliberalismo característico dos anos 1990, capitaneado pelos grandes organismos financeiros internacionais, a fórmula de liberalização, de privatizações e de abertura ao capital estrangeiro e especulativo, em detrimento da indústria nacional, foi estabelecida. As oligarquiasex- burocratas do período soviético com influência junto ao regimeadquiriram imenso poder econômico e político sobre o Kremlin e os rumos do país, a partir do processo de privatizações. O ápice da instabilidade culminou na crise cambial de 1998 (ADAM, 2008; SEGRILLO, 2000). Cabe enfatizar, a partir desse período, as dinâmicas referentes às novas relações exteriores da Rússia pós-Guerra Fria e sua posição frente às ex- repúblicas socialistas no seu entorno. A importância desse espaço regional é central para a compreensão da Rússia no sistema internacional, seu comportamento e suas possibilidades de projeção. A manutenção da influência regional sobre os países da CEI apresenta-se como condição para que o Estado russo dispute os espaços de poder mundial enquanto potência. Nesse sentido, como enfatiza Adam (2008, p. 69), “apenas por um breve momento o Kremlin desviou o país de uma autopercepção, de alguma forma, imperial”. Esse momento é expresso na primeira fase do governo Yeltsin, em que se pretendeu atuar no sistema internacional a partir de uma política externa calcada na lógica ocidentalista, a qual, tendo em vista o quadro político, econômico e social caótico interno, buscou a colaboração e a aproximação com os Estados Unidos e com as potências ocidentais (PICCOLI, 2012). A negligência e o isolamento em relação ao espaço pós-soviético, nesse contexto, foi marcante. A posterior e progressiva alteração de diretrizes, que levaram ao atual modelo eurasiano de inserção internacional, pode ser apontada por alguns fatores. Em 1994, a Rússia enfrentou o movimento separatista checheno no Cáucaso, enfrentado críticas do Ocidente e sofrendo dura derrota com a declaração de independência da Chechênia em 1996. 6 Em 1996, Ievgeni Primakov, mais alinhado aos ideais eurasianos, foi conduzido à pasta de Relações Exteriores. Em 1999, houve embate entre o Ocidente e a Rússia com a guerra do Kosovo, em que a OTAN interveio contra a Iugoslávia, enquanto

6 A Primeira Guerra da Chechênia (19941996), durante o governo Yeltsin, terminou com a perda territorial da região pela Rússia. Posteriormente, entretanto, sob o comando de Putin, o país recuperou o controle e reanexou a região, na Segunda Guerra da Chechênia (19992000).

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Yeltsin colocou-se em oposição à tentativa de independência da região. 7 Essas dinâmicas apresentaram-se como decisivas para as mudanças na política externa russa e nas relações russo-estadunidenses que se seguiriam (PICCOLI,

2012).

No final de 1999, desgastado, Boris Yeltsin renunciou à presidência do país. O período conturbado da transição pós-URSS, durante os anos 90, representou, fundamentalmente, a decadência do status da Federação Russa no sistema internacional. Com a renúncia de Yeltsin, o então primeiro- ministro Vladimir Putin assumiu o Kremlin em 2000. A ascensão de Putin como estadista é um momento de inflexão para a Rússia moderna e sua posição na política mundial. Nesse momento ocorreram a centralização do poder, o enfraquecimento das oligarquias fortalecidas no período Yeltsin e a reafirmação do país como uma grande potência, salvando o Estado do provável colapso (COLIN, 2007). Nesse sentido, a reafirmação da Rússia como grande potência após a chegada de Putin ao poder e, mais precisamente, a Guerra da Geórgia, em 2008, deu-se através da tendência e dos moldes eurasianos. Diferentemente da tentativa ocidentalista empreendida por Yeltsin no início dos anos 1990, de aproximar-se das potências europeias tradicionais como forma de ascender internacionalmente, a Rússia de Putin caracteriza-se por uma atuação que busca intensamente um sistema político próprio e uma política externa autônoma e mais independente do Ocidente. É interessante frisar, no entanto, que o eurasianismo retomado no período Putin, embora com vários dos mesmos valores centrais, carrega particularidades em relação àquele tradicional do pensamento russo, por caracterizar-se como um modelo muito mais pragmático e não essencialmente ligado à ideia de reconstrução do Império Russo. Para tal estratégia de política externa, a diversificação dos parceiros, em regiões como o a Europa Oriental, o Cáucaso e a Ásia, é uma maneira consistente de afastar- se da ingerência dos países ocidentais.

3 A POLÍTICA EXTERNA RUSSA NA ATUALIDADE: CARACTERÍSTICAS DO

EURASIANISMO

Desde o primeiro mandato presidencial de Vladimir Putin, iniciado nos anos 2000, a atuação internacional da Rússia vem demonstrando determinadas diretrizes centrais, relacionadas à concepção de inserção eurasiana, que visam, em última instância, à afirmação de sua independência e à manutenção de sua

7 Havia um perigo para a Rússia em dar legitimidade a movimentos autonomistas o que poderia fortalecer o separatismo no seu território , além da ameaça à segurança nacional representada pela presença militar da OTAN nos Balcãs.

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influência no cenário global (COLIN, 2007). Nesse contexto, a Guerra da Geórgia, que transcorreu durante cinco dias, em 2008, e a Crise na Ucrânia, que teve início no final de 2013 e que perdura até hoje, surgem não somente como dois pontos significativos na história russa, mas também como marcos

da

atual inserção internacional de Moscou. Se em 2008 a Rússia demonstrou

ao

mundo que a balança de poder decorrente do desmantelamento da União

Soviética já havia se transformado (FRIEDMAN, 2008), em 2014 o país consolidou a posição demarcada seis anos antes, desqualificando qualquer ceticismo que ainda pudesse existir quanto à sua condição como grande potência no sistema internacional.

3.1 DIRETRIZES DA POLÍTICA EXTERNA RUSSA

A atual condução da política externa da Rússia, de cunho extremamente

pragmático, almeja o alcance de um grande objetivo, qual seja, o de assegurar

o status de grande potência do país, constituindo-se num dos polos

independente e influentede um sistema internacional marcado pela multipolaridade (COLIN, 2007; ADAM, 2013). A fim de atingir tal meta, algumas diretrizes foram delineadas, estando relacionadas (i) com a produção de recursos energéticos que Moscou possui em abundância; (ii) com o peso de suas capacidades militares e nucleares; (iii) com as relações despendidas com o Ocidente e com a Eurásiasobretudo, respectivamente, com os Estados

Unidos e com a China; e, por fim, (iv) com a importância que o país imputa às instâncias multilaterais—e à emergência de uma “Nova Ordem Mundial” (RUSSIA, 2013). A diplomacia energética, isto é, a utilização da dependência energética de um país em relação a outro para garantir ganhos políticos, tem sido, nos últimos anos, um importante meio pelo qual a Rússia aufere poder de barganha nas negociações internacionais. A exportação de petróleo e de gás serviu, durante anos, para sustentar o crescimento econômico relativamente estável do país e, consequentemente, para recuperar a sua economia, que sofreu com os efeitos da desmantelamento da URSS e com os anos 1990. Apesar das consequências perniciosas da crise de 2008, a constância dos preços do petróleo, em patamares cada vez mais altos (WORLD BANK, 2014) em função da demanda mundial por energia, garantiu condições geoeconômicas que permitiram que Moscou mantivesse uma influência crescente nas decisões político-diplomáticas a nível global. Todavia, a recente queda do valor de tal mercadoria, registrada desde a metade de 2014 e que persiste no início de 2015, soma-se à desvalorização da moeda russa e às sanções econômicas sofridas em função dos acontecimentos na Ucrânia como mais um fator periclitante para o crescimento econômico russo (BBC NEWS, 2015;

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INVESTOPEDIA, 2015) e que, por conseguinte, pode ter efeitos ainda imprevisíveis sobre o capital político do país. De todo modo, a comercialização de recursos energéticos tornou-se, assim, base da ideia de política externa independente dos russos. A sua utilização como instrumento de promoção dos interesses nacionais do país no exterior, tendo em vista que muitos países conservam alta dependência destas exportações, gera uma “sensação de não estar mais preso ao Ocidente” (COLIN, 2007, p. 132). Ainda segundo Colin (2007, p. 144), o aumento das exportações energéticas russas reforçou o Estado, fazendo com que este passasse a contar com o privilégio dos Estados fortes: "o de transformar suas vantagens econômicas nas relações internacionais em política coerente, ou seja, em política de potência". Todavia, o uso político do setor energético traz também uma dependência da própria Rússia a uma série de fatores, e não só de sua economia em relação aos dividendos auferidos com a exportação dos hidrocarbonetos. A estabilidade dos países pelos quais passam os sistemas de transporte enérgico, as tentativas norte-americanas de construção de dutos que desviem do território russo e a própria questão da sustentabilidade no longo prazo do modelo de produção e consumo de petróleo e gás são apenas algumas das apreensões de Moscou no concernente à preservação dos efeitos benéficos da diplomacia energética (COLIN, 2007). A própria Rússia tem buscado diversificar as suas rotas de dutos, 8 a fim de diminuir a capacidade dos Estados Unidos de intervir na sua política energética (MAZAT & SERRANO,

2012).

Outro fator importante para a projeção dos interesses da Rússia na esfera internacional são as suas capacidades militares e nucleares. Moscou herdou, como sucessora jurídica da União Soviética, a maior parte do poderio bélico soviético e, desde o início da presidência de Putin, tem demonstrado empenho em sua recuperação e reformulação (MONIZ BANDEIRA, 2013). Assim sendo, a revitalização das forças armadas russas empreendida pelo Kremlin nos últimos anos expressa que a utilização dos mecanismos de natureza econômica relacionados à diplomacia energética não subjugaram a relevância conferida ao poder marcial (ADAM, 2013). A Reforma Militar Russa, que foi delineada após a Guerra da Geórgia e que se pretende concluir até o ano de 2020, volta-se, sobretudo, para a guerra local em países fronteiriços, para a

8

A construção dos gasodutos Blue Stream, que liga a Rússia à Turquia, e Nord Stream, que interliga

a Rússia à Alemanha, e o projeto de edificação do South Stream, que ligará a Rússia à Áustria, à

Croácia, à Eslovênia e à Itália inserem-se no plano russo de diversificação das suas linhas de

suprimento energético.

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dissuasão nuclear 9 e para o combate à insurgência e ao terrorismo (AVIATON WEEK, 2015; ZYSK, 2009). Isso evidencia a preocupação russa com a unidade territorial, com as questões regionais e com a “perigosa” aproximação ocidental. Nesse âmbito, as armas nucleares têm um papel significativo, pois além de atestarem a continuada importância do país no sistema internacional e a sua condição de grande potência, consistem num dos pilares do poder de dissuasão que, de uma forma ou de outra, restringem a possibilidade de ação de seus concorrentes. As relações entre a Rússia e a Europa Ocidental podem ser caracterizadas por uma palavra: interdependência. Enquanto os Estados euro-atlânticos necessitam fortemente dos recursos energéticos provenientes da Rússia, Moscou depende dos pagamentos por essas exportações e da oferta de uma série de bens do continente europeu, configurando a Europa como o maior parceiro econômico do país. Apesar disso, a Europa possui um comportamento ambíguo, pois trata Moscou, em muitos casos, como o inimigo a ser derrotado, um claro resquício da lógica maniqueísta que permeou a Guerra Fria. Ao mesmo tempo em que assume uma posição dura nos organismos institucionais coletivos, como a OTAN e a União Europeiamuito por influência da estratégia global norte-americana, alguns países europeus, se considerados individualmente, mantém relações bilaterais proveitosas com os russos (MAZAT & SERRANO, 2012). Quanto ao relacionamento com os Estados Unidos, apesar da convergência em certos assuntos internacionais, há o predomínio de um clima de hostilidade entre os dois países. A atual estratégia geopolítica dos Estados Unidos para manter sua posição de liderança e atingir seus interesses econômicos gerais está calcada em duas metas: a primeira é enfraquecer o poder dos países que aspiram ser potências regionais, na falta de um potência rival a nível mundial; a segunda é controlar o acesso às reservas de petróleo e gás mais relevantes no mundo, como forma de poder vetar, quando necessário, o seu suprimento a países importantes (MAZAT & SERRANO, 2012). Nesse contexto, mesmo que não representando o mesmo peso político, econômico e militar da União Soviética de outrora, a Rússia possui as capacidades e o status de uma potência regional, permanecendo, pois, um alvo norte-americano. As mais recentes investidas ocidentais contra a soberania russa têm sido no sentido de avançar os projetos de expansão da OTAN, do

9 A dissuasão nuclear é um conceito estratégico que faz referência à inibição da prática da ação a ser realizada por um ator em razão da ameaça do emprego de armas nucleares como forma de retaliar esta ação que seria praticada (NOGUEIRA, 2008).

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Escudo Antimíssil e da União Europeia para países do seu exterior próximo. 10 Consequentemente, Moscou vem demonstrando que resistirá e, em alguns casos, não tolerará qualquer tentativa de expansão da aliança militar ocidental, sobretudo sobre regiões estratégicas ao país (MONIZ BANDEIRA,

2013).

No que diz respeito às relações da Rússia com a porção eurasiática, dois atores merecem destaque: o conjunto de Estados do espaço pós-soviético e a China. A valorização da posição geográfica eurasiana e do vetor oriental da política externa russa ganhou força como forma do país balancear os reveses decorrentes da convivência com a Europa e com os Estados Unidos, sobretudo nos anos 1990 (ADAM, 2013). Além disso, esta valorização também carrega o intuito de mitigar a dependência russa do Ocidente, através do aumento e da diversificação dos parceiros nos mercados do Leste europeu e da Ásia. A relevância para Moscou da aproximação do seu entorno estratégico fica clara após uma análise do Conceito de Política Externa da Federação Russa (CPEFR) de 2013. 11 Nesse documento predominam, na seção das prioridades regionais, as estratégias de aproximação e de fortalecimento da integração com os países pertencentes à CEI. Desde o ano de 1991, que demarca a criação da CEI após o esfacelamento da União Soviética, a Rússia tem sistematizado tentativas de integração regional com os países da Europa do Leste e da Ásia Central, como será analisado na terceira seção deste artigo. Já em relação à China, a aliança entre os dois países iniciou-se com a desmilitarização das fronteiras entre os países, no final da década de 1990, e foi fortalecida com a assinatura de uma parceira estratégica em 2000 e com a defesa de princípios comuns, como a não-intervenção em assuntos domésticos. Ela não possui um caráter de balanceamento militar dos Estados Unidos, e sim de contestação da unipolaridade (BUMBIERIS, 2010) e de resistência às ambições geopolíticas dos Estados Unidos nas antigas zonas de influência soviética (MAZAT & SERRANO, 2012), a partir de diversos instrumentos mais sutis de resistência. 12 A parceria destaca-se nos setores militar, com a comercialização de armamentos e com a transferência de

10 Região formada por 11 países independentes que faziam parte da ex-URSS: Ucrânia, Belarus, Moldávia, Geórgia, Azerbaijão, Armênia, Turcomenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Quirguistão e Tadjiquistão.

11 O Conceito de Política Externa da Federação Russa é um documento oficial russo que descreve sistematicamente os princípios básicos, as prioridades, as metas e os objetivos da política externa da Rússia.

12 Dentre os instrumentos, destacam-se a negação de área, a diplomacia de enredamento e a formação de blocos econômicos exclusivos e de alianças de tipo menos vinculativo ou formal (BUMBIERS, 2010).

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tecnologias, e energético, com as recentes formalizações de acordos para o fornecimento de recursos energéticos russos à China. 13 Finalmente, há que se destacar a significância que os russos conferem à formatação de uma “Nova Ordem Mundial” sob os auspícios de um sistema multipolar em que a Rússia atuaria como um dos polos. A percepção de Moscou embasa-se na ideia de que as relações internacionais estão passando por um processo de transição, responsável tanto pela diminuição da capacidade do Ocidente de controlar as questões político-econômicas mundiais, quanto pela emergência da multipolaridade. A promoção da segurança e da estabilidade internacionais estaria vinculada, neste âmbito, ao estabelecimento de um sistema internacional democrático, em que as decisões concernentes a temas globais fossem tomadas coletivamente (RUSSIA, 2013). Segundo o entendimento de Colin (2007, p. 143), “em um mundo cambiante em que os Estados Unidos não mais detêm uma hegemonia indisputável, a Rússia pretende participar da formulação da política global”.

3.2 A GUERRA DA GEÓRGIA

Em agosto de 2008, a Rússia passoucom sucessopor uma provação em sua fronteira meridional, mais precisamente na região do Cáucaso. Os cinco dias de conflito em território georgiano, que culminaram com uma vitória incontestável de Moscou, sinalizaram ao Ocidente que qualquer pretensão deste de se estender livremente sobre o antigo território soviético não viria sem um alto custo. As declarações de independência de duas regiões separatistas georgianas em que preexistem populações de russos étnicos, a Ossétia do Sul e da Abecásia, respectivamente em 1991 e 1992, incitaram conflitos que culminaram na Guerra Civil da Geórgia, findada somente em 1994. O retorno das tensões, no início do novo século, somado aos desdobramentos da Revolução Rosa, 14 acabou por conduzir ao poder Mikheil Saakashvili,

13 No início de novembro de 2014, Rússia e China assinaram mais um acordo de suprimento energético que, combinado com outro estabelecido em março do mesmo ano, será responsável por diminuir a dependência russa das importações europeias e por assegurar praticamente 50% da demanda chinesa por energia (BLOOMBERG, 2014).

14 A Revolução Rosa foi um movimento popular georgiano ocorrido em 2003 e incentivado por governos e instituições ocidentais que condenou o regime do presidente Eduard Shervardnadze pela precária situação econômica e financeira do país e por pretensas fraudes eleitorais. Ela faz parte de um conjunto conhecido como as “Revoluções Coloridas”, juntamente com movimentos na ex-Iugoslávia (2000), na Ucrânia (2004) e no Quirguistão (2005). Os Estados Unidos pretendiam que houvesse uma mudança de regime nestes países, com a instalação de governos próximos a Washington, sem a utilização de violência, como forma de atingir seus objetivos estratégicos na região da antiga União Soviética (MONIZ BANDEIRA, 2013).

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resultando em um relacionamento mais profundo entre os Estados Unidos e a Geórgia. Esta aproximação inseria-se na intenção norte-americana de assegurar o domínio das reservas e das rotas de petróleo da região através do controle de países que anteriormente integraram a União Soviética, e que, com a instalação de regimes pró-Ocidente, passariam a isolar a Rússia de sua antiga esfera de influência (MONIZ BANDEIRA, 2013). O estreitamento dos laços com os Estados Unidos e as tratativas para inclusão da Geórgia na OTAN, iniciadas em 2004, levaram Saakashvili a crer que uma tentativa de retomada da Ossétia do Sul não só não encontraria uma reação de Moscou, como também contaria com uma eventual assistência dos norte-americanos e dos demais membros da aliança militar (MONIZ BANDEIRA, 2013). Entretanto, o ataque dos georgianos ao território separatista configurou-se como uma oportunidade para a Rússia contestar de forma concreta os recentes acontecimentos no seu exterior próximo. A influência ocidental nas “Revoluções Coloridas”, os planos de avanço da OTANe, consequentemente, do Escudo Antimíssil 15 em países no entorno estratégico de Moscou e, inclusive, a decisão da Europa e dos Estados Unidos de apoiar a independência do Kosovo, mesmo contra a vontade dos russos, demonstravam tanto a pretensão do Ocidentemas sobretudo dos Estados Unidosde cercar e estrangular a Rússia, quanto a conclusão de que as suas considerações não tinham peso suficiente para importar nas decisões de caráter internacional (FRIEDMAN, 2008). A rápida vitória que a contraofensiva russa alcançou em território georgiano e o subsequente reconhecimento oficial do Kremlin às independências da Ossétia do Sul e da Abecásia constituíram-se numa demonstração contundente de força da Rússia, afirmando a sua intenção de estar presente nas articulações que envolvem os territórios do antigo Império russo. Apesar das advertências por parte do governo norte-americano de que as relações entre os dois países à época estavam a perigo, os Estados Unidos encontravam-se numa situação delicada, visto que dependiam da cooperação russa para a resolução de problemas internacionais (MONIZ BANDEIRA, 2013). Nas palavras de Adam (2008, p. 59), “a inércia norte-americana demonstrou que existe um limite para as ações da OTAN no espaço pós-soviético: não se

15 O Escudo Antimíssil, que faz parte da política norte-americana do National Missile Defence, consiste num sistema capaz de defender o território dos Estados Unidos contra ataques de mísseis balísticos, sejam eles acidentais, não autorizados ou deliberados. A iniciativa de ampliação do sistema para a Europa, iniciada em 2001, é justificada oficialmente em função da potencial ameaça, inclusive nuclear, que o Irã possa vir a representar à OTAN. Contudo, é evidente que o Escudo tem como objetivo dirimir a capacidade estratégica da Rússia, afetando diretamente a sua estratégia de dissuasão nuclear (PICCOLLI, 2012).

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envolver em confronto militar direto contra a renascida Rússia em sua zona histórica de influência”.

3.3 A CRISE NA UCRÂNIA

A maneira altiva e a forma cautelosa pelas quais, respectivamente, a Rússia e o Ocidente se portaram frente à situação vivida nos últimos tempos na Ucrânia servem como comprovação da posição de grande potência reafirmada pelo Kremlin após a Guerra da Geórgia. A atuação russa, que teve como ápice a anexação da Crimeia, e as reações ocidentais demonstram claramente a relevância que Moscou alcançou na condução dos assuntos globais. O primórdio da questão ucraniana está na eleição à presidência, em 2010, de Viktor Yanukovich, candidato que saiu derrotado no pleito de 2004 após os desdobramentos da Revolução Laranja. 16 Apesar de sua preferência pela Rússia, o então presidente ucraniano buscou um caminho de maior autonomia, desenvolvendo uma política multivetorial de balanceamento que promovia os interesses nacionais através da alternância de momentos de aproximação e de afastamento da Rússia e do Ocidente (CRUZ & MACHADO, 2012). Desta forma, as negociações para a entrada da Ucrânia na União Europeia, iniciadas pelo governo precedente, foram mantidas, mas sem que prejudicassem as relações com os russos. Entretanto, em novembro de 2013, Yanukovich rompeu com esta estratégia ao abandonar as tratativas sobre o acordo de livre-comércio com a União Europeia em prol de uma maior cooperação com Moscou. Parte desta retomada da preferência pelos russos, para além dos laços históricos, culturais e energéticos entre os dois países, justificou-se pelas dificuldades que os europeus participantes da zona do euro encontravam para reerguer-se economicamente após a crise de 2008. A resposta popular à cessão das negociações deu-se em protestos nas ruas de Kiev, capital do país, que foram gradativamente ganhando maiores proporções. Para Mielniczuk (2014), três são as causas que impulsionaram a indignação de parte da população ucraniana e, por conseguinte, o crescimento das manifestações: a incapacidade da gestão Yanukovich de empreender a tão esperada transição da economia ucraniana para o modelo capitalista; a

16 A Revolução Laranja foi um movimento popular ucraniano ocorrido em 2004 e incentivado por governos e instituições ocidentais que acusou a eleição de Viktor Yanukovich de fraudulenta, conseguindo reverter o processo e realizar um novo pleito, no qual o opositor de Yanukovich, Viktor Yushchenko, saiu vitorioso. Assim como a Revolução Rosa, ela faz parte de um conjunto conhecido como as “Revoluções Coloridas”, juntamente com movimentos na ex-Iugoslávia (2000), na Ucrânia (2004) e no Quirguistão (2005). Os Estados Unidos pretendiam que houvesse uma mudança de regime nestes países, com a instalação de governos próximos a Washington, sem a utilização de violência, como forma de atingir seus objetivos estratégicos na região da antiga União Soviética (MONIZ BANDEIRA, 2013).

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tendência, vista também no restante do continente europeu, de ascensão de movimentos nacionalistas de caráter nazifascista; e o incentivo dado pela União Europeia aos protestos. À pressão popular somaram-se as repercussões dos incidentes na Praça Maidan 17 e as disputas no âmbito do Parlamento ucraniano entre os pró- ocidentais e os russófilos, levando, em fevereiro de 2014, ao impeachment de Yanukovich. Frente à instabilidade que se instaurava num importante país vizinho, a Rússia enviou tropas à fronteira, enquanto o seu Parlamento aprovava a recomendação do presidente Putin de autorizar a utilização de força na Ucrânia para a proteção de interesses moscovitas. Como reação aos acontecimentos, a Crimeia, região ucraniana em que predomina uma população de russos étnicos, organizou um referendo para averiguar a possibilidade de separação da Ucrânia e de integração à Rússia. A anexação do território pela Rússia só ocorreu após o resultado altamente favorável que o referendo alcançou, podendo ser considerada, para além dos interesses econômicos e geopolíticos em jogo, 18 “a materialização da promessa de que nenhum russo fora do território de seu país depois do fim da União Soviética seria tratado como cidadão de segunda classe” (MIELNICZUK, 2014, p. 9). Os Estados Unidos e a União Europeia passaram a reagir, desde então, com sanções econômicas e políticas à Rússia. A integração da Crimeia por Moscou redundou numa onda de manifestações pró-Rússia, desta vez em cidades do Leste da Ucrânia como Donetsk e Lugansk, que clamavam pela realização de referendos e pela anexação de seus territórios ao Estado russo. A resposta dada pelo governo ucraniano foi o envio de forças militares à região, medida esta endossada pelos Estados Unidos, temerosos de que o “cenário da Crimeia” se repetisse (MIELNICZUK, 2014), o que incitou um conflito armado entre os separatistas russófilos e as tropas ucranianas. A eleição, em maio, de Petro Poroshenko, político reconhecidamente pró-ocidental, apenas serviu para perpetuar a situação. A posição russa frente aos embates foi altamente pragmática. Ao mesmo tempo que tentava encontrar uma saída político-diplomática para

17 O dia 20 de fevereiro de 2014 pode ser considerado o ápice da escalada de violência nos protestos populares contrários à manutenção de Yanukovich no poder. Tiros de snipers foram responsáveis pela morte de dezenas de pessoas, dentre manifestantes e policiais. Depois de muita especulação sobre a identidade dos atiradores, o vazamento de uma conversa telefônica inferiu que os responsáveis teriam sido contratados pelos líderes da oposição ultranacionalista (THE INDEPENDENT, 2014). 18 O território da Crimeia possui uma importância estratégica ímpar para Moscou, visto que abriga uma base militar e um porto, na cidade de Sebastopol, que asseguram aos russos o acesso ao Mar Negro e, por conseguinte, ao Mediterrâneo, além de ser passagem de uma série de dutos responsáveis pela distribuição dos recursos energéticos russos.

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resolver a questão, mantinha suas tropas perfiladas na fronteira com a Ucrânia, numa demonstração de que tentativas por parte do governo ucraniano de retomar o controle das cidades do Leste pela força seriam respondidas militarmente (MIELNICZUK, 2014). Atualmente, a situação na Ucrânia parece estar passando por uma fase de distensão. Contudo, esta disposição não pode ser vista como definitiva. Mesmo com a assinatura de um cessar-fogo entre os separatistas pró-Russia e o governo da Ucrânia, em setembro, e com o retorno das tropas russas que estavam estacionadas na fronteira, em outubro, o estado da trégua ainda é de extrema fragilidade (SPUTNIK, 2014; BBC NEWS, 2014). No início de novembro, o processo eleitoral empreendido pelos separatistas pró-Rússia para a escolha de seus líderes resultou numa troca de acusações entre as autoridades de Kiev e os rebeldes e num novo surto de violência. De qualquer modo, a maneira como a Rússia atuou no desenrolar da Crise na Ucrânia manifesta a determinação russa tanto de manter as áreas do seu entorno estratégico sob sua influência, quanto de garantir a consecução dos seus interesses, nem que o envolvimento de suas forças militares seja necessário. Ademais, as limitadas condenação e imposição de sanções pelo Ocidente, principalmente por parte dos países europeus em função da dependência energética e do arsenal militar e nuclear moscovita , apenas corrobora a perspectiva de que a Rússia não só é uma potência, como também uma das mais relevantes no cenário internacional.

4 A ATUAÇÃO INTERNACIONAL DA RÚSSIA: OS DESDOBRAMENTOS DAS

DIRETRIZES DE POLÍTICA EXTERNA

Vistas as linhas gerais da política externa russa, nessa seção entender-se-á como a Rússia se utiliza da suas diretrizes para projetar-se internacionalmente. A atuação da Rússia pode ser dividida em dois eixos: o primeiro, no exterior próximo; o segundo, em fóruns internacionais, os quais serão destacados, devido à sua relevância, a Organização para Cooperação de Xangai (OCX), e o BRICS, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Nos anos 1990, tendo em vista a preocupação do presidente Yeltsin em provar para as potências ocidentais que não possuía ambições imperialistas, a região do exterior próximo acabou sendo negligenciada, resultando no fracasso da CEI, entidade que reunia a maioria dos países da região. Com o CPEFR de 2000, a estratégia mudou, e a região passou à prioridade na agenda internacional russa. A maneira escolhida para a atuação russa nesta localidade, todavia, priorizou as relações bilaterais e não a via multilateral. Isso deveu-se

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a dois motivos principais, quais sejam: a necessidade de abordagens diferentes

para posicionar frente a cada uma das três sub-regiões do exterior próximo (Europa Oriental, o Cáucaso do Sul e a Ásia Central); e a utilização da diplomacia energética para o alcance das metas de política externa russa. A Europa Oriental (Ucrânia, Bielorrússia e Moldávia) é a sub-região cujos laços culturais e econômicos com a Rússia são mais intensos, já que a Ucrânia e a Bielorrússia passaram muitos séculos sob a dominação direta russa. Esses dois países, porém, tem adotado posturas diferentes em relação à Moscou nos últimos anos. A Ucrânia, sob a égide da atual Crise, encontra-se divida entre os separatistas do Leste pró-Rússia, e o governo e os ucranianos

do Oeste pró-Ocidente. A Bielorrússia, por outro lado, é o maior aliado de Moscou em todo seu entorno estratégico. Isso deve-se à grande dependência econômica e energética do país em relação à Rússia. Contudo, Minsk possui

certo poder de barganha em relação ao Kremlin, devido ao fato de ser a principal rota de escoamento dos recursos energéticos russos para a Europa e

a única separação física confiável da Rússia em relação à OTAN. A Moldávia,

finalmente, também demonstra-se dependente energeticamente da Rússia, mas possui pouca relevância estratégia e, portanto, a atuação russa no país é menos incisiva. O interesse dos moldávios de ingressar na União Europeia, todavia, tem sido contestado até hoje pela diplomacia russa (ADAM, 2013). O Cáucaso do Sul (Geórgia, Azerbaijão e Armênia) é a sub-região mais difícil em termos de garantia de influência russa na região, tendo em que a Geórgia, cujas relações problemáticas com a Rússia culminaram na guerra de 2008, é a principal fonte de penetração das potências ocidentais no seu exterior próximo. Esse país faz parte do oleoduto Baku-Tblisi-Beihan (BTC),

a principal vitória dos países ocidentais que buscam diminuir a dependência

energética da Rússia a partir da construção de dutos que desviem do território moscovita. No entanto, o projeto do oleoduto Nabuco, que conectaria o Azerbaijão e a Geórgia à Europa, configurando-se numa vitória ainda maior das potências ocidentais, perdeu espaço nos últimos anos para o South Stream, em função da falta de coesão na estratégia europeia e da vitória estabelecida

pela diplomacia energética russa na região (PAITI-GUZMAN, 2014). Um segundo ponto positivo para a política externa russa no Cáucaso do Sul é o seu papel de mediador das negociações entre o Azerbaijão e a Armênia, países que disputam entre si a delimitação de suas fronteiras. A Ásia Central (Turcomenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Quirguistão e Tadjiquistão) é a sub-região mais importante em termos securitários para a Rússia, visto que a manutenção de sua influência nela é fundamental para sua estratégia eurasiana de política externa. O problema encontrado pela Rússia na sub-região é que esta, além de ser objeto de interesse de várias potências,

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tanto ocidentais quanto orientais (China e Índia), possui países de políticas externas não-alinhadas à Rússia, com exceção do Tadjiquistão. A escolha russa para a Ásia Central, deste modo, tem sido aproximar-se da região de forma multilateral, e não bilateral, através da OCX 19 e, por conseguinte, da influência chinesa na região. Nesse sentido, a política para esta sub-região é deveras divergente das outras, pois Moscou garantiu a perpetuação de sua importância por meio da ingerência de outra potência no seu exterior próximo (ADAM, 2013). Certamente, porém, essa estratégia não leva o Kremlin a uma total submissão à China, e disputas pela influência na Ásia Central persistem. A OCX, porém, não é o único projeto multilateral da Rússia para a região a União Econômica Euroasiática (UEE), formada por Bielorrússia, Rússia, Cazaquistão e Armênia, também merece destaque. A UEE, que entrará em vigor dia 1 de janeiro de 2015, será a organização de cooperação regional mais avançada do exterior próximo e terá como embasamento o livre- comércio entre os países (VITKINE, 2014). Ainda que os efeitos macroeconômicos ainda sejam incertos, é possível entender essa organização como uma vitória da diplomacia de Putin, em detrimento dos interesses europeus, e um passo da política externa russa em prol do euroasianismo. A UEE consolidará a influência russa no espaço pós-soviético, revertendo o processo recente de crise sistêmica da CEI caracterizado pelos processos de desintegração que têm sido recorrentes no bloco (COLIN, 2007)e contendo as tentativas dos Estados Unidos de incentivar governos pró-ocidentais e de alastrar o alcance de instituições ocidentais na região. Em relação aos fóruns globais, podemos dividi-los em dois grupos. O primeiro engloba organizações tradicionais, dominadas pelos países ocidentais e principalmente pelos Estados Unidos. Já o segundo, as organizações que não possuem em seus membros as potências ocidentais e, por este motivo, não se submetem às normas daquelas, refletindo a tendência de multipolarização do sistema internacional. A Rússia de Yeltsin, após o fim da União Soviética e durante os anos 1990, se esforçou para ingressar nas organizações do primeiro grupo. Isso fez parte da tentativa do então presidente de alinhar-se aos Estados Unidos e à União Europeia, em detrimento de seus relacionamentos com a Ásia e o exterior próximo. Apesar de ingressar no Fundo Monetário Internacional em 1992 e no G20 em 1999, sua inserção nos fóruns tradicionais foi, todavia, limitada. A Rússia não estava totalmente preparada para somente aceitar as

19 A Organização para Cooperação de Xangai é um organismo internacional, fundado em 2001, cujos membros são Rússia, China, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão.

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regras destas instituições, sem ter o poder de alterá-lasrompendo com o comportamento considerado padrão de um país periférico no Sistema Internacional. Sua resiliência em entrar na Organização Mundial do Comércio (OMC), cujas negociações para a adesão russa iniciaram-se em 1993, é o melhor exemplo dessa resistência. Com os governos de Medvedev (20082012) e Putin (20002008 e 2012), o interesse nacional passou a ser prioritário à atuação em organizações internacionais. Ainda que o país esteja longe de menosprezar essas entidades, seu novo caráter de política externa foi de combate às regras destas, vistas como prejudiciais às potências não-ocidentais. Dessa forma, o Kremlin não retrocederá na sua inserção internacional devido a ameaças de expulsão dessas organizações ou a sanções internacionais impostas por elas. Um exemplo disto foi a resposta russa à remoção de seu direito de voto na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, que aconteceu como consequência da incorporação da Crimeia à Rússia: “A APCE não nos quer? Nós não perderemos nada” (RUSSIA NEWS AGENCY, 2014). Além de não retroceder, a Rússia procura atuar em prol da mudança nas regras desses fóruns, principalmente da ONU, a fim de que esta continue como o centro de regulação e de coordenação política das relações internacionais, e dos processos de integração e governança regionais, concebidos inclusive como bases do modelo multipolar defendido por Moscou (RUSSIA, 2013). A mudança da postura da Rússia em relação à OTAN é um bom indicador das transformações ocorridas na atuação internacional russa