Sie sind auf Seite 1von 109

Resolução de Conflitos Agrários

Créditos:

O conteúdo deste curso foi elaborado por:

Cel. PM Adilson Bispo dos Santos – PMAL 1º Ten Alex Jorge das Neves – PMGO

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 1

Neves – PMGO Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Apresentação

No Brasil, após 509 anos de descobrimento, mais de cinco séculos de colonização, tornou-se quase rotineiro conviver com relatos jornalísticos narrando confrontos sobre disputa de terra, em que na maioria dos casos os envolvidos são grupos organizados de brasileiros excluídos do sistema de garantias constitucionais. São os “sem-moradia”, “sem-educação”, “sem-saúde”, “sem-segurança”, sem qualquer identificação de cidadania e fora, portanto, do contexto social, que se identificam atualmente como os “sem-terra”.

Ao Estado cabe estabelecer, diante dos conflitos sociais, procedimentos ajustados

para garantir soluções capazes de satisfazer e atender critérios sociais, legais, morais

e éticos onde se apresenta como um problema de origem e dimensão totalmente

social que necessitaria para solução de todo aparato social público, e termina sendo

conduzido pelas instituições responsáveis pelos mecanismos coercitivos de controle do Estado, as polícias. Fato que obriga um aprimoramento das técnicas e estratégias capazes de condução dos problemas, através de soluções adequadas e pacíficas, que atendam as exigências modernas de um país pacífico e democrático como o Brasil.

Este curso busca demonstrar que é possível, diante da necessidade de intervenção dos agentes encarregados pela aplicação da lei, frente aos conflitos agrários e ocorrências de cumprimento de mandados judiciais de reintegração de posse de imóveis rurais, objetos de disputa para fins agrários diversos, estabelecer parâmetros de ação e conduta em busca de soluções pautadas em técnicas afinadas com as orientações internacionais, que enfatizam a preservação da vida e o cumprimento ao ordenamento jurídico priorizando princípios relevantes e modernos que destacam estratégias de negociação e mediação dos conflitos, na tentativa de encontrar soluções pacíficas dos conflitos e que garantam a integridade de todos os envolvidos no processo e evite danos ou atos violentos contra a vida.

O curso apresenta uma vertente diferenciada de solução para os conflitos envolvendo

movimentos sociais, partindo da identificação de todas as demandas e anseios que envolvem os conflitos, buscando um entendimento real da origem dos problemas

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 2

dos problemas Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

agrários nacionais com a perspectiva de uma mudança radical de postura quanto à relação polícia e movimentos sociais, tornando viável uma doutrina moderna de intervenção nas divergências agrárias baseada, principalmente, nas orientações da nossa magna carta, que define a função e finalidade do aparato de segurança como um verdadeiro protagonista dos direitos constitucionais, além de grande articulador e mediador dos conflitos.

Bom estudo!

Os módulos que compõem este curso têm por objetivo criar condições para que você possa:

● Compreender o processo histórico dos conflitos agrários e os dispositivos e instrumentos de Direito Internacional e direito interno sobre o assunto;

● Analisar as políticas nacionais voltadas para os conflitos agrários, bem como a

participação dos diversos órgãos envolvidos nos litígios agrários e a composição e evolução dos movimentos sociais no país;

● Relacionar os fatores psicológicos, os parâmetros técnicos e os modelos adequados ao sistema de gerenciamento de resoluções de conflitos agrários; e

Identificar as fases de elaboração de um plano de emprego operacional para resolução de conflitos agrários e documentação pertinente.

O conteúdo de curso está dividido em 4 módulos:

Módulo 1 – Aspectos históricos, constitucionais e conceituais Neste módulo, você estudará o processo histórico e os aspectos constitucionais e conceituais relacionados ao tema.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 3

ao tema. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Módulo 2 – Instituições públicas envolvidas na resolução de conflitos e os movimentos sociais Trará como foco de estudo as instituições públicas envolvidas na resolução de conflitos agrários, os programas e projetos desenvolvidos pelo governo e os movimentos sociais participantes.

Módulo 3 – Sistema de Gerenciamento de Conflitos Agrários e seus aspectos práticos Você estudará sobre o Sistema de Gerenciamento de Conflitos Agrários e seus aspectos práticos, tendo por objetivo relacionar parâmetros técnicos desde a primeira intervenção pelo profissional de Segurança Pública até a intervenção de um grupo multidisciplinar.

Módulo 4 – Emprego operacional e documentação pertinente Você conhecerá as fases e os procedimentos utilizados no processo de reintegração de posse.

Antes de iniciar o curso, leia o texto sobre a contextualização do tema e reflita sobre as questões colocadas.

Contextualização

Largamente comentado em razão de suas circunstâncias, o episódio que ficou conhecido como “Massacre do Eldorado dos Carajás”, ocorrido em 17 de abril de 1996, no sul do estado do Pará, ficou marcado pelo confronto entre a polícia militar e cerca de 1.500 “sem-terras” que estavam acampados na região, e que haviam decidido fazer uma marcha em protesto contra a demora da desapropriação de terras, principalmente, da fazenda Macaxeira. Na época, a polícia militar, mediante ordem, foi encarregada de tirá-los do local, porque estariam obstruindo a rodovia PA-150, que liga a capital Belém ao sul do estado. No confronto, 19 pessoas foram mortas.

Vários procedimentos acerca do modus operandi adotado naquela ocasião, ainda hoje, são questionados. O episódio estabeleceu um marco para emprego de ações policiais na resolução de tais conflitos.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 4

tais conflitos. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Veirfica-se que, em conflitos dessa natureza, aparecem separados por uma linha tênue, o

confronto e a convivência entre três ordens. De um extremo, a luta dos trabalhadores rurais

por terra, por direitos e por uma cidadania. No outro extremo, os proprietários de terras que

tentam manter seus bens fazendo uso de uma determinada justiça ou de determinadas leis. E,

ao centro disso tudo, encontra-se o próprio Estado que, através de seus poderes constituídos

e suas instituições públicas são demandados para darem resolução aos conflitos existentes.

Nesse contexto, papel fundamental compete aos operadores da Segurança Pública a quem, ao

final, caso não se atinja uma resolução pacífica, serão encarregados, através do emprego

legal da força, de promoverem o restabelecimento da ordem.

O conteúdo deste curso seguirá uma ordem temporal objetivando o conhecimento e a

orientação operacional para a resolução de conflitos agrários pela via mais pacífica possível,

de maneira a se alcançar o cumprimento pleno da lei.

Diante dos fatos que são apresentados a título de exemplo e, considerando a complexidade

das ações e a frequência com que os conflitos agrários ocorrem no território brasileiro, é

importante que você a reflita sobre o tema proposto. Para tanto, coloque-se no contexto de

operações de um evento dessa natureza e, observando as circunstâncias que são peculiares a

tais casos, reflita sobre os procedimentos que você adotaria para, ao mesmo tempo em que

deve executar a ordem emanada pela autoridade, cumpri-la para evitar e/ou minimizar as

consequências de um possível confronto.

Quais medidas de ordem técnica e tática você adotaria para buscar a resolução do presente caso? Como seria seu planejamento operacional para a resolução do conflito?

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 5

do conflito? Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Módulo 1 – Aspectos históricos, constitucionais e conceituais

A disputa pela terra existe desde os primórdios, ou seja, desde os primeiros registros

da existência humana. Disputava-se o espaço territorial, como espaço para garantia

de sobrevivência. Por isso, a exteriorização da posse e propriedade advém do homem primitivo que, consciente da necessidade de sua autopreservação, passou a desenvolver a noção de territórios de caça e de cultivo. Por óbvio que a evolução desses institutos foi lenta e gradual, como é a própria evolução humana e suas relações em sociedade.

Durante o processo de colonização brasileira, a sociedade foi incorporando traços marcantes das civilizações antigas, baseada, principalmente, no contexto da produção escravista e no regime de propriedade. Tanto que, seguindo essa analogia em pleno século XXI, se vive no Brasil em condições semelhantes ao período feudal, onde o poder brota da terra, da posse, e que pela etimologia da palavra, posse, ou possessão, origina-se do latim – de possessio = potis + sessio, posso sentar-me em cima – o que caracteriza um ato físico, um fato, uma capacidade de expressar poder.

Baseado nessas características, o formato da colonização brasileira estabeleceu e promoveu um suporte necessário à criação e perpetuação das oligarquias, mesmo atentando contra a modernização da sociedade e contando com aprovação relativamente restrita da população.

Oligarquias Governo de poucas pessoas pertencentes ao mesmo partido, classe ou família. Predomínio de pequeno grupo na direção dos negócios públicos

E hoje, como se apresentam essas características?

Quais os outros aspectos que perpassam a questão?

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 6

a questão? Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Como você estudará, neste módulo, da origem histórica até os dias atuais, há muitos aspectos que necessitam ser verificados para que possibilitem uma melhor compreensão do tema.

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

Compreender o processo de formação histórica dos conflitos agrários no Brasil;

● Identificar os aspectos constitucionais relacionados ao tema; e

● Definir e utilizar terminologias relacionadas às questões agrárias.

O conteúdo deste módulo, está dividido em 2 aulas:

Aula 1 – Aspectos históricos sobre a questão Aula 2 – Aspectos constitucionais sobre a questão

Aula 1 – Aspectos históricos sobre a questão

Antecedentes históricos das questões agrárias no Brasil

Numa visão simplista, conclui-se com facilidade que as terras brasileiras pertenciam aos “índios”, nativos que as ocupavam antes dos colonizadores portugueses chegarem, porém as histórias das lutas, conquistas e domínios atrelados ao grande massacre direcionado aos povos nativos (indígenas), dão um novo rumo à história e passa a projetar a luta pela posse e terra no Brasil. Na história brasileira o problema fundiário, na verdade, inicia com a criação das capitanias hereditárias e do sistema de sesmarias – grandes glebas de terras distribuídas pela coroa portuguesa a quem se dispusesse a cultivá-las dando em troca um sexto da produção. Nascia assim o latifúndio, propriedade rural de monocultura e com terras incultas (que não são cultivadas) exploradas por um só dono.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 7

um só dono. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009
Saiba mais Entenda mais sobre o processo de colonização e ocupação de terra através do

Saiba mais Entenda mais sobre o processo de colonização e ocupação de terra através do sistema de capitanias hereditárias no endereço:

Destaca-se a figura dos bandeirantes na história brasileira como os exploradores que romperam os limites geográficos e culturais, levando seus avanços até o interior do território, porém, os bandeirantes não ocupavam a terra, somente a reclamavam para a coroa ou para a nação. A ocupação efetiva do interior brasileiro foi promovida pelos heróis anônimos não exaltados na história brasileira, os posseiros, que iriam reivindicar a terra para cultivá-la.

Em

1850,

o

imperador

do

Brasil

edita

a

Lei

601

Lei

das

Terras

Em

primeira

instância

houve

pleno

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

reconhecimento

Página 8

aos

direitos

de

propriedade

– Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 reconhecimento Página 8 aos direitos de propriedade

investidos nos títulos e requerimentos legais anteriores, derivados das sesmarias, como também a coragem do pequeno fazendeiro que civilizou o interior, fazendo a terra produzir. E que, nunca mais o desfrutaria, novamente, de tal reconhecimento pelo Estado.

Pela Lei das Terras, o Estado Brasileiro afirmou pleno direito de propriedade sobre todas as terras desocupadas, devolutas, desabitadas, que não são tituladas e nem destinadas ao uso público. Decretando que, no futuro, as terras somente seriam tituladas quando fossem compradas pelo Estado. Reconheceu, porém, as prévias reivindicações legais (posse), desde que a terra estivesse ocupada e cultivada pelo reclamante (cultura efetiva e moradia habitual). A regulamentação da lei, em 1854, tornou claro que se requeria uma ocupação consolidada e não uma demarcação de terras. A posse, para constituir um direito formal a terra, deveria ser registrada, cadastrada e finalmente confirmada pelo Estado. Já existindo assim, portanto, condições para converter a posse em propriedade privada.

Dessa época em diante, a posse tem sempre constituído um direito em potencial à propriedade no Brasil, mas um direito do tipo que requer a intervenção do Estado. Tornando-se evidente que apenas o Estado definia o que era propriedade, o que era

posse e o que era terra devoluta. Em resumo, é quem definiria as regras básicas para

a luta futura sobre a terra. Durante o Império, o Estado monopolizava a terra e

somente deu títulos aos que compraram, deixando assim pouca folga legal onde se

apoiarem os reclamantes a terra.

A Lei das Terras editada no Império possuía um dispositivo que proibia a ocupação de

áreas públicas (terras devolutas) e determinando que a aquisição de terras só poderia se dar mediante pagamento em dinheiro ao Império. Com essa lei, os camponeses não poderiam se transformar em proprietários, porque não possuíam dinheiro. Assim viraram agregados, moradores de velhos e novos fazendeiros, parceiros ou arrendatários. A lei reforçou o poder dos latifúndios ao tornar ilegais as posses de pequenos produtores.

Nota-se assim que os conflitos pela posse da terra são bem antigos. Durante a colônia até o final de 1800, as lutas pela terra foram desenvolvidas basicamente pelos índios

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 9

pelos índios Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

e negros, unindo a luta pela liberdade, com a luta pela própria terra e construindo os Quilombos: terras livres.

Com o término da escravidão, os escravos também não possuíam dinheiro para comprar terras. Continuaram trabalhando para os brancos senhores proprietários de fazenda. O sistema de exploração era simples: os trabalhadores moravam nas terras, trabalhavam nos grandes plantios de café, algodão ou cana, ou iam derrubando a mata. Em troca, podiam pegar alguns alimentos no armazém do fazendeiro e plantar em pequenos pedaços de terra para seu sustento. Os fazendeiros coronéis costumavam fazer “favores” para os camponeses e com isso mantinham todos cumprindo suas vontades.

Fazendeiros coronéis Titulo adquirido na Guarda Nacional do Império, através de compra. Marcava a condição de chefe político da região interiorana do país

A República, em 1889, um ano e meio após a libertação dos escravos, não fez melhorar o perfil da distribuição de terra. O poder político continuou nas mãos dos latifundiários, os poderosos “coronéis” do interior, que pela posse da terra possuía o poder de governar, nomear e influenciar em todos os cargos políticos e públicos da região, como, principalmente, os juízes, chefes de polícia e delegados, quando não acumulavam as funções. Beneficiando-se dos poderes legais do Estado nas questões envolvendo conflitos pela posse de terra.

Com o final do Império, pela Constituição de 1891, a propriedade legal e o controle político das terras desocupadas passaram aos estados, e daí para as oligarquias locais de proprietários de terra. Essa complexidade é a causa e a consequência do papel chave desempenhado pela terra, simultaneamente, na politicagem local e na história política maior do país. As relações legais e os processos de litígio refletem em si mesmo as contradições e as oposições de ideias, essas, por sua vez, rearticuladas pelas determinações econômicas. Assim, o estudo da maioria das disputas legais sobre a terra, à medida que se deslocam através da hierarquia dos tribunais, não só investe de interesse próprio, mas é também essencial a compreensão das dimensões da luta política pelo controle dos recursos econômicos. Ao ponto que a própria terra

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 10

própria terra Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

ao ser ocupada, representa também uma luta pelo controle do processo de trabalho, apropriação do valor e, consequentemente, pelo poder.

Mudanças no cenário

Com a chegada ao poder do presidente Getúlio Vargas, em 1930, e consequente derrota política dos “coronéis”, surge uma nova força da burguesia comercial e industrial. Nesse período, os camponeses iniciaram um movimento de organização e já eram conflitos mais localizados em partes do país. A preocupação geral do povo era se organizar para conquistar a terra. Essa organização foi nascendo de diversas formas, como Ligas Camponesas, associações, união dos lavradores e sindicatos, que despontaram entre as décadas de 50 e 60.

Durante o regime militar, foi apresentada a Lei nº 4504, de 30 de Novembro de

i/prolei4504.htm, conhecida como “Estatuto da Terra” – de pouca difusão na época

– seus conceitos direcionam definições de cunho inteiramente político, sendo

concebido como a forma de colocar um freio nos movimentos campestres que se multiplicavam durante o governo João Goulart.

Saiba mais Leia o texto Surgimento dos movimentos sociais agrários no Brasil (Ver anexo) e saiba mais sobre as origens dos movimentos sociais.

Saiba mais De acordo com o Portal do Agronegócio, o Estatuto da Terra é a mais importante lei agrária brasileira. Aos 40 anos de vigência é combatida por uns, defendida por outros, estudada por alguns e modelo para muitos. Vale então uma visita ao site para ler o artigo de Augusto Ribeiro Garcia, intitulado Estatuto da Terra

Em 1970, por meio do Decreto nº 1.110/70 foi criado o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA que tinha como objetivos: realizar a reforma

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 11

a reforma Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

agrária, manter o cadastro nacional de imóveis rurais e administrar as terras públicas da União.

Decreto nº 1.110/70

Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA http://www.incra.gov.br/portal/

A reforma agrária pós-redemocratização

Somente na década de 1980, com a forte pressão social que acompanhou a redemocratização do Brasil, o processo de intervenção via desapropriação foi intensificado, sem produzir os efeitos pretendidos.

A redemocratização, em 1984, trouxe de volta o tema da reforma agrária. O Decreto

nº 97.766, de 10 de outubro de 1985, instituiu novo Plano Nacional de Reforma Agrária, com a meta utópica de destinar 43 milhões de hectares para o assentamento

de 1,4 milhão de famílias até 1989. Criou-se para isso o Ministério Extraordinário para

o Desenvolvimento e a Reforma Agrária (Mirad), mas quatro anos depois os números

alcançados eram modestos perante a meta: 82.689 famílias assentadas em pouco menos de 4,5 milhões de hectares. (www.incra.gov.br)

A Constituição de 1988, como você estudará na aula 2, agregou a propriedade à

função social e definiu o Estado como principal agente do processo da reforma agrária.

A partir de 1993, com a edição da Lei nº 8629 que regulamentou dispositivos da

Constituição Federal de 1988 referentes à reforma agrária, o INCRA tomou novo impulso com a busca de transformação da terra obtida em projeto de assentamentos. Definindo o processo de desapropriação por interesse social e coletivo como o principal meio de acesso a terra, onde os trabalhadores agora mais cientes e esclarecidos dos seus direitos e obrigações do Estado, organizam-se em movimentos sociais e juntos passam a pressionar o governo pelo cumprimento dos dispositivos e princípios constitucionais.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 12

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página 12

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário, o governo beneficiou de 1995 a 1999 cerca de 372.866 famílias, o que corresponde a 1.864 milhões de brasileiros assentados. Garante ainda, que de 1º de janeiro de 1995 a 20 de dezembro de 1999, foram obtidos 13.204.789 hectares de terras para fins de reforma agrária. Contando com a desapropriação como principal forma de obtenção de terra utilizada pelo governo para assentamento de trabalhadores rurais. Foram desapropriados 8.785.114 hectares, dos quais 1.463.844 hectares no período entre 1º de janeiro e 17 de dezembro de 1999.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE demonstram que o processo de desenvolvimento no campo brasileiro tem sido extremamente excludente, baseado na concentração da propriedade da terra e sem uma política econômica que viabilize a produção agrícola. O IBGE demonstra que nos últimos 25 anos, mais de 30 milhões de camponeses deixaram o campo, contribuindo para o inchaço descontrolado dos centros urbanos. Além disso, o processo de modernização agrícola aumentou a exploração dos trabalhadores rurais e a maioria dos assalariados rurais, ainda são negados os direitos legais mínimos.

Recomendação da ONU Jean Ziegler, relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o direito à alimentação, em visita oficial ao Brasil, março de 2002, concluiu que o país vive uma “guerra de classes”, onde os dados indicam que um terço da população brasileira é afetado pela subnutrição, classificando como “intolerável” morrer de fome, num país com dimensão continental, de terra fértil, riquezas e um clima tropical, destacando a ordem social injusta imposta no Brasil como principal responsável pela situação. Colocou ainda que, o aparato de segurança, a polícia, é importante para a segurança, mas não pode ser usada como solução para os problemas da fome, falta de saúde, de escolas e da cidadania.

Além da redução da injustiça social, indicou como solução para o país a implantação de uma política social integrada e uma reforma agrária justa e eficiente, sugerindo que o governo agilize o processo, pois dados demonstram que só 2% dos proprietários concentram 48% das terras férteis. “O latifúndio mata, é o inimigo do povo”. À concentração soma-se a improdutividade da terra. O Instituto Nacional de

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 13

Nacional de Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Colonização e Reforma Agrária, através do Atlas Fundiário, considera que, na média nacional, 62,4% da área total dos imóveis rurais no país são improdutivas. As elites latifundiárias do Brasil ainda se negam abrir mão da posse de terras improdutivas. No campo, a disputa da terra chama atenção porque a solução ou redução dos conflitos passa pela vontade e coragem política do governo brasileiro para transformar as obrigações constitucionais em realidade. Os contrastes sociais apresentados pelos índices de qualidade de vida no Brasil protagonizam uma das mais injustas distribuição de renda, produzindo uma sociedade sem capacidade de discernimento, com dificuldade de desenvolvimento econômico, social e político, fatos que só motivam o surgimento de situações conflituosas. Dentro dessa contrastante realidade, acrescentam-se os propósitos da

Constituição Brasileira de 1988, que garante em seu artigo 5º, que trata dos direitos

e garantias fundamentais e direitos e deveres individuais e coletivos, e no 6º, que

trata dos direitos sociais, fornecendo aos cidadãos brasileiros uma gama de direitos

individuais e sociais, os “premiando” em caráter formal com direitos, como a saúde, educação, segurança, lazer, moradia, controle da miséria, até então nunca tratados, onde os avanços da comunicação e informação de alguma forma serviram para despertar o interesse em conquistá-los.

Durante a leitura do texto da aula, você observou que outras características e aspectos foram agregados ao tema. Na aula 2, você estudará a questão agrária sobre os aspectos constitucionais.

Aula 2 – A Constituição Federal e a questão agrária

É fundamental para o agente de Segurança Pública conhecer a evolução pela qual o

Brasil tem passado na ocupação de suas terras e propriedades, bem como os conflitos

gerados através dessa dinâmica. Desde as históricas capitanias hereditárias que dividiram nosso país em imensas faixas de terras, os latifúndios, que foram praticamente ofertados aos nobres portugueses, até os dias atuais onde toda propriedade deve obrigatoriamente atender um fim social. Também é necessário compreender os aspectos constitucionais relacionados à questão agrária.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 14

agrária. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página 14

Aspectos constitucionais sobre a questão agrária

Durante a Assembleia Constituinte (1987) aconteceram várias discussões sobre os conflitos e as desigualdades no campo. Alguns avanços foram introduzidos, quando no artigo 5º, inciso XXIII, da Constituição Federal de 1988 (CF-1988), determina que:

A propriedade a partir de 1998 deverá, constitucionalmente, atender a sua função social.

Como também o inciso XXIV do mesmo artigo definia que:

A lei estabelecerá o procedimento para a desapropriação por necessidade ou por utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos na Constituição.

Porém, o que parecia solução passou a ser objeto de conflito, pois a mesma Constituição que implementava no rol das garantias individuais e coletivas a definição e a exigência da atenção e finalidade social da propriedade, definia, e também deixava claro, a garantia e o direito de propriedade (inciso XXII do mesmo artigo), ficando a partir de então os movimentos sociais cobrando a função social da terra e os proprietários defendendo seus interesses alegando o direito sagrado de propriedade.

A garantia do direito “de propriedade” a qual os constituintes materializaram foi exatamente o sentido natural, sagrado e fundamental da certeza e garantia de possuir e ter verdadeiramente as coisas, os objetos e também a propriedade terra, desde que por obtenção legal e voltado para finalidade particular no sentido da satisfação individual e finalidade social pelo compromisso coletivo. A carta magna apresenta no seu artigo 5º, que trata dos direitos e deveres individuais, os dois princípios: o da garantia do direito da propriedade e da atenção pela função social da terra:

Artigo 5º, da Constituição Federal de 1988:

Inciso XXII – É garantido o direito de propriedade; e Inciso XXIII – A propriedade atenderá a sua função social.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 15

social. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página 15

O texto constitucional define a propriedade produtiva como sendo aquela que

atende a função social da terra, citando alguns requisitos necessários de atenção, garantindo e incentivando a produção quando torna a propriedade produtiva insuscetível de desapropriação, veja:

Artigo 185 São insuscetíveis de desapropriação para fins de reforma agrária:

II – A propriedade produtiva; Parágrafo Único – A lei garantirá tratamento especial à propriedade produtiva e fixará normas para o cumprimento dos requisitos relativos a sua função social.

Garante a Constituição do Brasil que a propriedade só estará atendendo a função social, quando estiver basicamente produzindo alimento, gerando emprego e renda dentro de uma distribuição e utilização adequada dos recursos naturais com obediência ao meio ambiente, garantindo ainda uma condição de vida harmoniosa, social e econômica para seus proprietários e trabalhadores, segundo descreve o artigo 186:

A função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente,

segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos:

I – Aproveitamento racional e adequado do solo; II – Observância das disposições que regulam as relações de trabalho; e

III – Exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores.

Para o cenário histórico brasileiro onde o poder sempre esteve ligado à propriedade e

a posse, a nova constituição se apresenta com mudanças sociais importantes com

inclinação para o conflito e aumento da tensão social em razão das demandas e suplícios recolhidos e acumulados ao longo da história social do Brasil. Pois sem uma política agrária definida que permitisse aos trabalhadores o acesso a terra para produção e subsistência, por causa dos latifúndios, alguns completamente improdutivos, os trabalhadores rurais cobravam e buscavam mudanças significativas.

O fato mais importante é que a Constituição define com precisão o real papel dos

governos e, por consequência, dos seus agentes públicos nas questões conflituosas, quando o coloca como principal agente do processo da reforma agrária e grande mediador dos conflitos o ESTADO, que passa a ser o responsável pela identificação

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 16

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página 16

dos imóveis produtivos ou improdutivos e pela desapropriação por interesse social para fins de reforma agrária do imóvel rural, que não esteja cumprindo seu fim social, através de uma justa e prévia indenização.

Artigo 184 Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social, mediante prévia e justa indenização em títulos da dívida agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até vinte anos, a partir do segundo ano de sua emissão, e cuja utilização será definida em lei.

O INCRA é o órgão responsável por gerenciar os processos de redistribuição e

colonização do território brasileiro.

Conceitos relativos ao tema

Além de agregar a propriedade à função social e definir o Estado como principal

agente

do

processo

da

reforma

agrária

e

grande

mediador

dos

conflitos,

a

Constituição

promulgada

em

1988,

com

o

Estatuto

da

Terra

do

proprietário de terra, sua dimensão, finalidade e posse do imóvel, como você estudará a seguir:

conceitos

estabelecem

alguns

específicos

sobre

a

relação

Saiba mais pesquisando os endereços:

Continue estudando os conceitos.

Reforma agrária

É um sistema que busca promover melhor distribuição da terra, mediante

modificações no regime de sua posse e uso, a fim de atender aos princípios de justiça social e ao aumento de produtividade.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 17

produtividade. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página 17

Módulo rural Consiste, em linhas gerais, na menor unidade de terra onde uma família possa se sustentar ou, como define a lei: lhes absorva toda a força de trabalho, garantindo- lhes a subsistência e o progresso social e econômico - e cujas dimensões, variáveis conforme diversos fatores (localização, tipo do solo, topografia, etc.), são determinadas por órgãos oficiais. Por esses critérios, uma área de várzea de meio hectare pode configurar, em tese, um módulo rural - ao passo que 10 hectares de caatinga podem não atingi-lo.

Minifúndio Uma propriedade de terra cujas dimensões não perfazem o mínimo para configurar um módulo rural (nos exemplos anteriores, uma várzea de 0,2ha )

Latifúndios Propriedades que excedam a certo número de módulos rurais ou, independente desse valor, que sejam destinadas a fins não produtivos (como a especulação).

Posse Detenção de uma coisa com o fim de tirar dela qualquer utilidade econômica.

Propriedade Direito de usar, gozar e dispor de bens, consagrado e garantido pela Constituição Cidadã em seu artigo 5º, inciso XXII, que define taxativamente: “É garantido o direito de propriedade”. Estabelecendo também, logo em seguida, no inciso XXIII que “a propriedade atenderá a sua função social”.

Direito agrário É o conjunto sistemático de normas jurídicas que visam disciplinar as relações do homem com a terra, tendo em vista o progresso social e econômico do rurícola e o enriquecimento da comunidade.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 18

da comunidade. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Esbulho Perturbação a posse da coisa. É uma violação e tomada da posse que pode ser parcial ou total. Para exemplificar, uma determinada pessoa ou movimento que adentra uma propriedade particular. Como nesse caso há a perda da posse, seja total ou parcial, a ação cabível é a de reintegração de posse, de acordo com os artigos 926 a 931, do Código de Processo Civil (CPC).

Turbação Também é perturbação a posse da coisa, mas é diferente do esbulho, pois é uma perturbação a posse sem a perda dela, ou seja, é a utilização das terras de uma pessoa por um vizinho a fim de fazer pasto para o seu gado. Nesse caso há uma perturbação, inclusive com a possibilidade de indenização, mas não a perda da posse. A ação cabível contra a turbação é a de manutenção da posse, também de acordo com os artigos 926 a 931, do CPC.

Desapropriação Outro termo a ser analisado é a desapropriação, ou seja, privar da propriedade. Esse termo foi tratado no Estatuto da Terra em 1964, criado no regime militar, que definia as razões para o ato de desapropriação da propriedade por interesse social, buscava uma justa e adequada distribuição da terra, obrigando uma exploração racional, a incrementação do sistema de eletrificação, a industrialização no meio rural, proteção à fauna, flora ou a outros recursos naturais, a fim de preservá-los de atividades predatórias. Porém, na época do regime, apesar da elaboração e aprovação do Estatuto da Terra, pouco ou quase nada avançou em termos de distribuição de terras por desapropriação ou qualquer outro motivo.

A Constituição Federal de 1988 trouxe novo entendimento para ações de desapropriação, estabelecendo e reforçando a necessidade da terra definitivamente atender sua função social de produzir e gerar emprego e renda. Garantindo também, a indenização pecuniária ao seu proprietário. Produzindo assim o maior artifício de pressão dos trabalhadores rurais.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 19

rurais. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página 19

Artigo 5º, inciso XXIX, da CF/1988 – A lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade de utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição.

Entender a relação dos agrários e a Constituição Brasileira passa, obrigatoriamente, por uma reflexão entre os princípios, objetivos e fundamentos estabelecidos nela, além dos direitos individuais, coletivos e sociais garantidos e estabelecidos formalmente em nossa carta magna e a realidade presente no campo e nas estatísticas sociais apresentadas, pois servirão de parâmetros mínimos para todas as pessoas que buscam uma melhor qualidade de vida para si e familiares, na perspectiva de construir uma sociedade livre, justa, solidária e igualitária, no que se refere às perspectivas mínimas de vida.

Conclusão

Na história brasileira o problema fundiário inicia com a criação das capitanias hereditárias e do sistema de sesmarias – grandes glebas de terras distribuídas pela coroa portuguesa a quem se dispusesse a cultivá-las dando em troca um sexto da produção. Nascia assim o latifúndio, propriedade rural de monocultura e com terras incultas (sem cultivo) exploradas por um só dono.

A Constituição Federal de 1988 trouxe novo entendimento para os litígios que

envolvem propriedades rurais e ensejam em ações de desapropriação, estabelecendo

e reforçando a necessidade da terra atender definitivamente a função social,

produzindo e gerando emprego e renda, garantindo de forma prévia, uma indenização pecuniária ao seu proprietário. Mas, ainda hoje, as elites latifundiárias do Brasil se negam abrir mão da posse de terras improdutivas. No campo, a disputa da terra chama atenção porque a solução ou redução dos conflitos passa pela vontade e coragem política do governo brasileiro para transformar as obrigações constitucionais em realidade. Os contrastes sociais apresentados pelos índices de qualidade de vida no Brasil protagonizam uma das mais injustas distribuição de renda, produzindo uma sociedade sem capacidade de discernimento, com dificuldade

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 20

dificuldade Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página 20

de desenvolvimento econômico, social e político, fatos que só motivam o surgimento de situações conflituosas.

Neste módulo são apresentados exercícios de fixação para auxiliar a compreensão do conteúdo.

O objetivo destes exercícios é complementar as informações apresentadas nas páginas anteriores.

1.

Julgue a afirmativa abaixo, colocando F para falso e V para verdadeiro:

(

) Sabemos que durante o processo de colonização brasileira, nossa sociedade foi

incorporando traços marcantes das civilizações antigas, baseada principalmente no tocante a produção escravista e regime de propriedade. Um marco na história brasileira foi a criação das Capitanias Hereditárias e Sistema de Sesmarias, que não foram cruciais para o agravamento dos problemas fundiários existentes atualmente em nosso país.

2.

Julgue a afirmativa abaixo, colocando F para falso e V para verdadeiro:

(

)

A

luz da Constituição Federal de 1988, juntamente com o Estatuto da Terra

Esbulho seria uma perturbação à posse da coisa, violação e tomada da posse, que pode ser parcial ou total.

3. Julgue a afirmativa abaixo, colocando F para falso e V para verdadeiro:

( ) Compete aos Estados e Municípios desapropriar por interesse social, para fins da reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social, mediante prévia e justa indenização em títulos da dívida agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até vinte anos, a partir do segundo ano de sua emissão, e cuja utilização será definida em lei.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 21

em lei. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Este é o final do módulo 1 Aspectos históricos, constitucionais e conceituais

Gabarito

1. F

2. V

3. F

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 22

1. F 2. V 3. F Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última

Anexo

Surgimento dos movimentos sociais agrários no Brasil 1

O Brasil apresenta contradições que bem definem sua situação real. É um país com

dimensão continental e solo rico, convive com um quadro de miséria, fome, violência

e exclusão social, principalmente na zona rural, onde os índices de distribuição de

renda são os piores e com o analfabetismo ainda presente. Esses dois fatos sociais

provocam uma relação marcante. Uma sociedade sem capacidade de esclarecimento

e informação não terá capacidade de discernimento, muito menos qualificação de

mão-de-obra, logo, apresentará grande dificuldade de desenvolvimento econômico,

social e político.

Dentro desse contexto, atrelado à abertura política pós-regime militar (redemocratização), somado aos avanços da Constituição Federal de 1988, surgem os movimentos sociais que tentam ocupar o espaço da organização para forçar a reforma agrária. Desse esforço inicia uma revolução no campo, onde o camponês

antes seduzido pelos “favores” do senhor fazendeiro, passa a questionar a produção

e a posse da terra do antigo patrão, tomando por base, principalmente, a

Constituição Federal (1988), que no seu artigo 5º, inciso XXIII, define que “a propriedade atenderá a sua função social”, estabelecendo um novo caráter para a

terra e que passa a questionar porque tanta terra com pouca e nenhuma produção? Por que tanta fome com a solução ao seu alcance?

Os

movimentos sociais reclamam a existência de concentração de terra no Brasil, que

se

apresenta como o campeão mundial da desigualdade social, e o segundo país do

mundo com maior concentração de terra. Menos de 3% dos proprietários de terra possuem mais da metade das terras agricultáveis, deixando a maior parte delas sem produzir. Ao mesmo tempo, mais de quatro milhões de famílias de trabalhadores rurais não possuem terra e vivem num estado de pobreza extrema. Dados apresentados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).

1 Cel. PM Adilson Bispo dos Santos – PMAL 1º Ten Alex Jorge das Neves – PMGO

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 23

Neves – PMGO Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Entre as décadas de 50 e 60 surgem as chamadas Ligas Camponesas, que tiveram um papel importante na luta pela reforma agrária no Brasil. Precursora dos movimentos sociais, elas foram criadas em 1955, em Pernambuco, pelos “galiléus”, “foreiros”, que ocupavam o Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão, e tinham organizado a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco. Inicialmente tiveram apoio dos proprietários, que depois quiseram despejá-los por considerar aquilo coisa de “comunista”. Em 1960, as Ligas Camponesas estavam organizadas em 26 municípios pernambucanos e se estenderam pela Paraíba e pelo norte de Alagoas. As Ligas Camponesas foram combativas durante o Golpe Militar de 1964.

As correlações de forças antagônicas em torno da questão fundiária refletiram-se nos

debates políticos e ideológicos no processo da Assembleia Nacional Constituinte que culminou com a extinção do INCRA, em 1987, e do MIRAD, em 1989, passando a responsabilidade da reforma agrária para o Ministério da Agricultura. Em 29 de março

de 1989, o Congresso Nacional recria o INCRA, mas a falta de prioridade e de orçamento deixa a reforma agrária praticamente paralisada. Mantendo a estrutura fundiária ainda altamente concentrada.

A legislação que dá suporte à propriedade fortalece e estimula o aumento do

latifúndio como base da economia, no chamado agronegócio. Sua expansão diminui

as

oportunidades de trabalho no campo e faz crescer o número de excluídos, provoca

o

êxodo rural e gera conflitos no campo e na cidade. João Pedro Stedile,

coordenador do MST, declarou que “O sem-terra é o produto social da concentração

da terra”.

Os movimentos sociais após o período da ditadura de 1964 ressurgem em meados da década de 70, no auge do chamado “milagre econômico”. Nessa época, a tecnologia

provocava a substituição da mão-de-obra gerando a expulsão do homem do processo

de trabalho.

A crise social, que surgiu pela ausência de terra para plantar e fixar o homem no campo, reduziu a quantidade dos postos de trabalho no meio rural provocando o fenômeno da migração dos trabalhadores rurais para as metrópoles, para os estados

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 24

os estados Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

com projetos de desenvolvimento agrário ou para os grandes centros urbanos, em busca dos empregos ofertados pela indústria ou da construção civil.

No início da década de 80, o campo se tornou um espaço fértil para as lutas e movimentos sociais em defesa da reforma agrária, muito tempo sonhada, prometida

e reivindicada. A luta pela reforma agrária é fortalecida com a criação de entidades de apoio, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 1975, ligada a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

A Comissão Pastoral da Terra – CPT atua, ao longo de sua história, com a orientação

dos direitos de cidadania dos trabalhadores rurais, para que despertem sua condição de cidadão. A CPT surge com três metas básicas:

1-

Manter as lutas por desapropriações de terras com responsabilidade;

2-

A formação política dos trabalhadores; e

3-

A produção visando aos direitos coletivos.

Na perspectiva da conquista da cidadania, em janeiro de 1984, surge em Cascavel, no Paraná, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, o MST, com o lema: “Sem- Terra não há democracia”, que passa a ser o principal movimento social ligado à luta pela terra em todo o Brasil. Segundo o MST, a luta pela reforma agrária não significa lutar exclusivamente pela terra, mas também a busca política de preservação de todos os recursos naturais e planejamento do desenvolvimento econômico e social no campo, fazendo uso de toda ciência e tecnologia a seu favor, educando o ser humano numa formação humanista que favoreça o “desenvolvimento de novos valores de convivência, de solidariedade e confraternização com os homens e a natureza”.

O MST defende um programa de reforma agrária, com as seguintes características

básicas:

- Modificação da estrutura da propriedade da terra, subordinando-a a justiça social,

às necessidades do povo e aos objetivos da sociedade;

- Apoio à produção familiar e a cooperatividade garantindo preços justos, crédito

acessível e seguro agrícola, para que a produção agropecuária esteja voltada para a segurança alimentar e o desenvolvimento econômico e social dos trabalhadores;

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 25

trabalhadores; Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página 25

- Aplicação de um programa especial de desenvolvimento para a região do semiárido;

e

- Desenvolvimento de tecnologias adequadas à realidade brasileira, preservando e recuperando os recursos naturais, como um modelo de desenvolvimento agrícola autossustentável. (MST: 2002)

Em novembro de 2003, os movimentos sociais realizaram uma marcha de Goiânia a Brasília. Participaram dessa marcha, trabalhadores rurais do MST, da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG e da Comissão Pastoral da Terra. Ainda em novembro de 2003, o governo federal, presidente Luís Inácio (Lula) visitou um acampamento e anunciou o Plano Nacional de Reforma Agrária, com pretensão de assentar, até o ano de 2007, 570 mil famílias, sendo 530 mil até o final do governo Lula e as outras 137 mil famílias até 2007, dentro do Plano Plurianual. Entre as metas principais, o governo federal se compromete a regularizar a posse de terra de 500 mil famílias que já se encontram no campo, criar 2,75 milhões de postos permanentes de trabalho na agricultura e um novo modelo de assentamento que levará em conta a concentração espacial, viabilidade econômica, integração produtiva, acesso à educação, saúde e seguridade social, desenvolvimento territorial, participação social e articulação dos governos federal, estaduais e municipais. (CANUTO: 2003, p. 14)

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 26

2003, p. 14) Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 1 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Módulo 2 – Instituições públicas envolvidas na resolução de conflitos e os movimentos sociais

Apresentação

Durante a última década, o governo brasileiro tem apostado em programas e projetos preventivos produzidos e efetivados pelos órgãos diretamente envolvidos nas questões agrárias, buscando diminuir as disputas e os conflitos rurais, tendo por base a antecipação do problema com a convicção de que “prevenir é, sem dúvida, sempre melhor quer remediar”.

Neste módulo, você estudará sobre os órgãos governamentais que trabalham com as questões agrárias e os programas existentes para garantir a prevenção e o controle dos conflitos agrários no Brasil, destacando o papel da polícia em atuação conjunta a esses órgãos.

Ao final, você conhecerá os principais movimentos sociais de luta pela reforma agrária no Brasil e a necessidade da construção de outra relação com as instituições de Segurança Pública, notadamente, a polícia.

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

● Identificar o papel dos principais órgãos governamentais diante dos desafios e conflitos agrários;

● Distinguir o papel dos órgãos envolvidos na resolução dos conflitos agrários;

● Citar os planos, programas e projetos nacionais relacionadas às questões agrárias; ● Reconhecer a participação dos diversos órgãos governamentais e não- governamentais envolvidos nos litígios agrários e a composição e evolução dos movimentos sociais no país;

● Identificar a diversidade dos movimentos sociais no Brasil; e

● Compreender a necessidade de construção de outra relação entre esses

movimentos e a polícia.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 1

e a polícia. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

O conteúdo deste módulo, está dividido em 5 aulas:

Aula 1 – O papel dos principais órgãos governamentais frente aos desafios e conflitos

agrários

Aula 2 – O papel da polícia nos conflitos agrários e atuação conjunta com outros

órgãos

Aula 3 – Planos e programas governamentais para resolução e prevenção de conflitos

agrários

Aula 4 – Programas e projetos executados pelo INCRA

Aula 5 – Movimentos sociais no Brasil relacionados aos conflitos agrários

Aula 1 – O papel dos principais órgãos governamentais

Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA http://www.incra.gov.br/portal/

Órgão federal criado para gerenciar o processo de redistribuição e colonização do território brasileiro apresenta sua história, segundo relatório de atividades publicadas em 2000, em três períodos importantes.

O

primeiro vai da criação da autarquia ao fim do governo militar (1970-1984).

O

segundo vai da Nova República ao governo Itamar Franco (1985-1994).

O

terceiro começa no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso e

chega até os dias de hoje.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 2

dias de hoje. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Como você estudou no módulo 1, em 1970, através do Decreto-lei nº 1.110, de 9 de julho de 1970 (http://www.incra.gov.br/arquivos/0408501402.pdf), o governo federal criou o INCRA e, ao mesmo tempo, vários programas especiais de desenvolvimento regional. Dentre eles, o Programa de Integração Nacional – PIN (1970), o Programa de Redistribuição de Terras e de Estímulo à Agroindústria do Norte e Nordeste – PROTERRA (1971), o Programa Especial para o Vale do São Francisco – PROVALE (1972), o Programa de Pólos Agropecuários e Agrominerais da Amazônia POLAMAZÔNIA (1974) e o Programa de Desenvolvimento de Áreas Integradas do Nordeste POLONORDESTE (1974).

Nos seis anos do último governo militar (1979-1984), a ênfase de toda a ação fundiária concentrou-se no programa de titulação de terras com a emissão de 836 mil documentos, segundo o relatório de atividades do INCRA – 2000.

Somente na década de 1980, com a forte pressão social que acompanhou a redemocratização do Brasil, o processo de intervenção via desapropriação foi intensificado, mas sem produzir os efeitos pretendidos. Em 1985, o governo do presidente José Sarney elaborou o Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), com metas ambiciosas: assentamento de 1.400.000 famílias ao longo de cinco anos. No final desse período, porém, foram assentadas apenas 89.950, aproximadamente.

No governo de Fernando Collor, entre 1990 e 1992, foram assentadas 3.425 famílias. A continuação do governo, com Itamar Franco (1992-1994), tentou retomar os projetos de reforma agrária. Um programa emergencial para o assentamento de 80 mil famílias foi aprovado, porém, só foram atingidas 21.763 famílias, afirma o relatório de atividades do INCRA – 2000.

A partir de 1993, com a edição da Lei nº 8629/93 (http://www.leidireto.com.br/lei- 8629.html) que regulamentou os dispositivos da Constituição Federal de 1988 referentes à reforma agrária, o INCRA tomou novo impulso com a busca de transformação da terra obtida em projetos de assentamentos.

Com início do governo Fernando Henrique Cardoso (1994) foram estabelecidas metas ambiciosas para a reforma agrária: 280 mil famílias assentadas em quatro anos.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 3

em quatro anos. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Metas que, segundo o relatório de atividades do INCRA – 2000, foram superadas em cerca de oito mil famílias.

Atualmente,

autarquia federal vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA)

regimental

(http://www.incra.gov.br/arquivos/0302600548.pdf), (com nova redação dada pelo

Decreto

2006

2006

estrutura

o

Instituto

Nacional

de

Colonização

e

Reforma

Agrária

sua

(INCRA),

teve

aprovada

pelo

Decreto

5.735,

de

27

de

março

de

de

13

de

outubro

de

5.928,

Veja o mapa da estrutura fundiária do Brasil.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 4

do Brasil. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página

Mapa da estrutura fundiária do Brasil Fonte: Ouvidoria Agrária Nacional - 2005

do Brasil Fonte: Ouvidoria Agrária Nacional - 2005 O INCRA busca a efetivação da política do

O INCRA busca a efetivação da política do governo federal quanto à implementação

da política de reforma agrária e realização do ordenamento fundiário nacional

visando um desenvolvimento rural sustentável através de inclusão social das famílias

do campo brasileiro.

Antes de continuar a leitura desta aula, leia o texto Recomendações para a

política de reforma agrária no Brasil (Anexo 1).

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 5

(Anexo 1) . Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

O Ministério Público e seu papel nos conflitos agrários

Com a promulgação da Constituição Federal em 1988, o Ministério Público – MP adquiriu várias responsabilidades, dentre elas a de grande zelador dos direitos e garantias dos cidadãos e grande fiscal da ordem pública e das ações externas das forças policiais. Suas funções estão estabelecidas na Constituição Federal com ressalva para o artigo 127, que deixa claro a incumbência do Ministério Público na defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. O artigo 129, em seu inciso V, define que cabe ao Ministério Público assegurar a defesa judicial dos direitos e interesses das populações indígenas; já o inciso VII assevera também como função do Ministério Público, o exercício do controle externo da atividade policial. O artigo 129 ainda define com exatidão, em seu inciso II, como uma das principais missões do Ministério Público zelar pelo efetivo respeito dos poderes públicos e dos serviços de relevância pública aos direitos assegurados na Constituição, promovendo as medidas necessárias para sua garantia.

Partindo do princípio que a Constituição Federal, em seu artigo 1º:

● Define como fundamentos do nosso país a cidadania (inciso II), a dignidade da

pessoa humana (inciso III) e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa (inciso IV);

● Estabelece, ainda, no artigo 3º, como objetivo fundamental da nossa República

Federativa do Brasil, a construção de uma sociedade livre, justa e solidária (inciso I);

● Garantir o desenvolvimento nacional (inciso II);

● Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais (inciso III);

● Promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (inciso IV); e

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 6

(inciso IV); e Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

● Coloca o Ministério Público como um dos atores mais importantes nos processos conflituosos da sociedade brasileira, em especial as questões agrárias, retirando-o da condição de inércia e simplista de aguardo que o juiz lhe possibilite vistas nos processos e litígios judiciais ligados a essas questões.

Geralmente, durante as ocorrências de questões conflituosas agrárias, como bloqueio de rodovias, ocupações de propriedade e outras promovidas pelos movimentos sociais, frequentemente, envolvem famílias inteiras que são compostas por homens e mulheres, pessoas adultas, idosas, jovens e crianças, que na maioria das vezes estão desabrigadas, famintas, sem emprego e numa situação de vulnerabilidade absoluta e totalmente desprotegidas das garantias constitucionais estabelecidas no artigo 5º:

moradia, saúde, educação, segurança, lazer, emprego, renda, alimentação. Em regra, o principal objetivo das movimentações é chamar atenção e pressionar o governo para a necessidade de uma inclusão social pela reforma agrária, o que necessita de um acompanhamento direto do Ministério Público tanto para proteção e garantia dos direitos individuais e coletivos previstos na Constituição.

Torna-se importante lembrar que essas demandas envolvem também algumas legislações que estabelecem garantias particularizadas quanto a grupos vulneráveis específicos, como os idosos, através do Estatuto do Idoso, e as crianças e adolescentes conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Também é importante a fundamentação e necessidade de uma maior participação do Ministério Público na prevenção e resolução dos conflitos agrários. A nova redação do inciso III, do artigo 82, do Código de Processo Civil, estabelecido pela Lei nº 9.415, de 23 de dezembro de 1996, tornou obrigatória a intervenção do Ministério Público nas ações que envolvem litígios coletivos pela posse da terra rural e nas demais causas em que existe interesse público evidenciado pela natureza da lide ou qualidade da parte. Essa ressalva se torna importantíssima, porque garante a atuação do Ministério Público, autêntico fiscalizador da lei, nas ações de prevenção e resolução dos conflitos sociais, em especial dos agrários, zelando e protegendo todos os envolvidos nos conflitos contra qualquer ato violento, além da constante busca pela ordem pública e paz social.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 7

e paz social. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Diante do que você estudou, fica clara a importância do Ministério Público nas questões envolvendo coletividades carentes e mobilizadas em torno das conquistas constitucionais e a necessidade, por parte das polícias, em buscar o apoio e orientação desse órgão, que se apresenta no contexto do nosso ordenamento jurídico como um dos atores sociais mais influentes e sólidos na prevenção e resolução dos conflitos.

Papel da Defensoria Pública nos conflitos agrários

Igualmente como o Ministério Público, a Defensoria Pública tem um papel preponderante durante as ações de prevenção e resolução dos conflitos agrários, pois suas responsabilidades, também previstas na Constituição, artigo 134, definem a Defensoria Pública como a instituição essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a orientação jurídica e a defesa, em todos os graus, dos necessitados, na forma do artigo 5º, LXXIV, que direciona: o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos.

A Defensoria Pública possui como função básica orientar juridicamente e defender

em qualquer instância todo cidadão que não tenha recursos para pagar advogados e despesas judiciais, quando se encontrar diante de uma demanda judicial. Sua atuação deve garantir o princípio fundamental que determina que todos são iguais perante a lei.

A Defensoria Pública atua nas áreas cíveis, nos casos de direito de propriedade, da

família, dentre outros. Na área criminal, inclusive nos casos relativos a crianças infratoras. No direito do consumidor e como destaque nas causas coletivas ligadas às

questões de usucapião, manutenção e ou reintegração de posse e ação civil pública, além de atender a recursos especiais quando os processos atingem as instâncias superiores. É constituída por advogados denominados de defensores públicos, que mantidos pelo Estado estão sempre prontos para atuarem na defesa das pessoas menos favorecidas em situação de miséria, vulnerabilidade e sem uma atenção jurídica.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 8

jurídica. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 8

Diante das atribuições e compromissos pelas garantias constitucionais, o defensor público também se apresenta como um ator importantíssimo nas ações de prevenção e resolução dos conflitos agrários do qual as polícias não podem de forma alguma desconsiderar seu apoio, acompanhamento e orientação durante as ocorrências e operações nesse campo.

Usucapião Modo de adquirir propriedade móvel ou imóvel pela posse pacífica e ininterrupta, por certo tempo.

Ação de reintegração de posse Ação judicial que tem por objetivo recuperar a posse, perdida ou esbulhada (privada), de um proprietário prejudicado por desvio de uma linha divisória, quer natural ou artificial.

Ação civil pública É um instrumento processual destinado à proteção de interesses difusos (não circunscrito) da sociedade e, excepcionalmente, para a proteção de interesses coletivos e/ou individuais homogêneos.

Papel do Poder Judiciário nos conflitos agrários

O Poder Judiciário se materializa na relação dos conflitos agrários pela figura e decisões dos magistrados (juízes) quando provocado pela parte que se apresenta como prejudicada, em decorrência da ocupação e/ou invasão de determinada propriedade realizada por movimento social integrado pelos “sem-terra”.

Pelo entendimento inicial, as ações provocadas pelos movimentos sociais são classificadas como irregular e prevista no Código Civil e Processual Civil, caracterizando como esbulho, ou seja, privação de algo por violência. Em seguida, requisita dentro da linha de sua competência, o apoio da força pública para que em determinado prazo proceda a reintegração e/ou manutenção de posse do imóvel em nome do proprietário.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 9

proprietário. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 9

Artigo 579, do Código de Processo Civil, define: Sempre que, para efetivar a execução, for necessário o emprego da força policial, o juiz a requisitará. Normalmente, a força policial requisitada nos casos de cumprimento de mandado judicial de manutenção ou reintegração de posse é a polícia militar, principalmente por ser constitucionalmente, responsável pelo policiamento ostensivo e a preservação da ordem pública, segundo seu artigo 144 que estabelece.

Artigo 144

A Segurança Pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a

preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos: V – Polícias militares e corpos de bombeiros militares

§ 5º Às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública; aos

corpos de bombeiros militares, além das atribuições definidas em lei, incumbe a execução de atividades de defesa civil.

Dentro de uma linha de construção cidadã, prevista em nossa carta magna, é fundamental que se observe que a Constituição trata a propriedade como um direito meio e não um direito fim, pois ao determinar entre os direitos fundamentais, “que a propriedade atenderá sua função social”, ela está atribuindo aos “sem-terra” o direito de exigir o cumprimento desse dever fundamental do Estado. Sendo assim, ainda há várias sentenças judiciais que terminam por iniciar um conflito, ao invés de apaziguá-lo ou encerrá-lo.

É importante entender que além da Constituição Federal que estabelece um novo entendimento sobre o papel do judiciário e o classifica como um verdadeiro pacificador nas questões dos conflitos sociais, a Lei de Introdução ao Código Civil define em seu artigo 5º, que “na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum”. O que deixa claro a necessidade de implementação de ações diferenciadas quanto ao cumprimento das sentenças complexas de manutenção e/ou reintegração de posse envolvendo várias famílias em condições de vulnerabilidade social, política, jurídica e humana e essas integradas de forma variada e complexa com homens, mulheres, idosos, por vezes alguns enfermos, crianças e adolescentes.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 10

adolescentes. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 10

No entendimento jurídico e responsabilidade funcional, não cabe a polícia questionar

a ordem judicial, porém, como agentes públicos responsáveis pela aplicação da lei

cabe confirmar a legalidade durante o momento da execução de uma ordem, aplicando todos os preceitos e conhecimentos técnicos alicerçados nos princípios básicos de direito que coloca a vida como bem maior a ser tutelado num estado democrático, como também procurar entender as questões sociais envolvidas no problema e os atores sociais que podem cooperar com as ações.

A Constituição define algumas atribuições para o Poder Judiciário, através das ações

dos magistrados, que por si só já caracteriza procedimentos preventivos para resolução dos conflitos quando define no seu artigo 125, § 7º, que “o Tribunal de Justiça instalará a justiça itinerante, com a realização de audiências e demais funções da atividade jurisdicional, nos limites territoriais da respectiva jurisdição, servindo-se de equipamentos públicos e comunitários”. Completa como ação importantíssima na redução dos conflitos e definição do real papel do Judiciário, como elemento pacificador dos conflitos agrários, definindo no artigo 126 que “para dirimir conflitos fundiários, o Tribunal de Justiça proporá a criação de varas especializadas, com competência exclusiva para questões agrárias”, reforçando no parágrafo único do mesmo artigo que sempre que necessário à eficiente prestação jurisdicional, o juiz far-se-á presente no local do litígio”.

Evitar conflito e preservar o direito dos cidadãos deve ser a meta principal de cada juiz, independente da área que ele atue, para que haja maior respeito aos direitos humanos. Entendendo que a questão da reforma agrária é um ponto frágil, que deve ser tratado com delicadeza não só pelos magistrados, mas também pela sociedade como um todo.

Ouvidoria Agrária Nacional – OAN

é um órgão ligado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA, instituído através

do Decreto Federal nº 5.033/04, que trata da estrutura organizacional do MDA, tendo como principal objetivo desempenhar ações de prevenção e mediação dos conflitos

agrários na zona rural com atribuição e competência em todo o Brasil.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 11

todo o Brasil. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

A OAN desempenha suas ações articulada com os demais órgãos governamentais e

não-governamentais, por meio de parcerias buscando a construção e estruturação de uma rede de órgãos especializados em questões agrárias. A atuação tem por finalidade garantir os direitos humanos e sociais das pessoas envolvidas em conflitos agrários no campo.

O governo federal, por meio da Ouvidoria Agrária Nacional, contribui, extrajudicialmente, na resolução e prevenção dos conflitos agrários, de forma simples e sem burocracia, afastando qualquer barreira que dificulte o conhecimento das reclamações dos homens do campo e de todos envolvidos nas questões conflituosas agrárias brasileiras.

Conforme o artigo 5º, do mencionado decreto, compete ao Departamento de Ouvidoria Agrária e Mediação de conflitos:

I – Promover gestões junto a representantes do Poder Judiciário, do Ministério Público, do INCRA e de outras entidades relacionadas com o tema, visando à resolução de tensões e conflitos sociais no campo;

II – Estabelecer interlocução com os governos estaduais, municipais, movimentos

sociais rurais, produtores rurais e sociedade civil visando prevenir, mediar e resolver

as

tensões e conflitos agrários para garantir a paz no campo;

III

– Diagnosticar as tensões e os conflitos sociais no campo, de forma a propor

soluções pacíficas; e

IV – Consolidar informações sobre tensões e conflitos sociais no campo, com o

objetivo de propiciar ao ministro de Estado, ao presidente do INCRA e a outras

autoridades, subsídios atualizados e periódicos para tomada de decisão.

Conheça o PROGRAMA PAZ NO CAMPO

pelo

Departamento de Ouvidoria Agrária e Mediação de Conflitos no âmbito de suas competências.

coordenado

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 12

) coordenado Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página

Com base nas atribuições estabelecidas para o Departamento de Ouvidoria Agrária e Mediação de Conflitos, pela sua condição de neutralidade no processo e, principalmente, pelo compromisso que seus integrantes mantêm pelas ações que direcionem para resoluções pacíficas dos conflitos agrários, a orientação e sugestão para sempre é que, em qualquer hipótese e motivação do conflito agrário, se torna extremamente prudente e correto, recorrer a esse departamento buscando uma orientação antes de tomar qualquer medida extremada, durante ocorrências em questões de conflitos agrários. Tal atitude vai, sem dúvida, lhe dar um grande respaldo e apoio às suas ações em busca da solução pacífica do problema.

Antes de terminar o estudo desta aula, leia a observação sobre o papel das Organizações não-governamentais nos conflitos agrários (Anexo 2).

Aula 2 – O papel da polícia nos conflitos agrários e atuação conjunta com outros órgãos

Além da Constituição Federal, você estudará, nesta aula, outros textos legais que tratam da atuação da polícia. Missão constitucional e legal da polícia Os órgãos de Segurança Pública têm sua fundamentação legal aparada no artigo 144, da Constituição Federal de 1988, conforme a seguir:

Artigo 144 A Segurança Pública, dever do Estado e direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos:

I - Polícia federal;

II - Polícia rodoviária federal;

III - Polícia ferroviária federal;

IV - Polícias civis; e

V - Polícias militares e corpos de bombeiros militares.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 13

militares. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 13

Quando o legislador fez a previsão constitucional de polícia ostensiva e de preservação da ordem pública, como atribuição da polícia militar, esse órgão passou a ser mais empregado na resolução de conflitos agrários, juntamente com a polícia federal e rodoviária federal, resguardadas as competências da união, em especial as cometidas em terras indígenas e nas margens de rodovias federais.

Competências das polícias militares: Decreto-lei nº 667, de 2 de julho de 1969

manutenção da ordem pública e segurança interna dos Estados, nos territórios e Distrito Federal, compete às PMs, no âmbito de suas respectivas jurisdições:

a) Executar com exclusividade, ressalvadas as missões peculiares das Forças Armadas,

o policiamento ostensivo, fardado, planejado pela autoridade competente, a fim de assegurar o cumprimento da lei, a manutenção da ordem pública e o exercício dos poderes constituídos;

b) Atuar de maneira preventiva, como força de dissuasão, em locais ou áreas

específicas, onde se presume ser possível a perturbação da ordem;

c) Atuar de maneira repressiva, em caso de perturbação da ordem, precedendo

eventual emprego das Forças Armadas; e

d) Atender à convocação e mobilização do governo federal em caso de guerra

externa ou para prevenir ou reprimir grave perturbação da ordem ou ameaça de sua

irrupção, subordinando à força terrestre para emprego em suas atribuições específicas da PM e como participante da defesa interna territorial.

Conceitos contidos no Decreto nº 88.777, de 30 de setembro de 1983

Artigo 2º Para efeito de Decreto-lei nº 667, de 2 de julho de 1969, modificado pelo Decreto-lei nº 1406, de 24 de julho de 1975, Decreto-lei nº 2010, de 12 de janeiro de 1983, Decreto-lei nº 2106, de 6 de fevereiro de 1984 e deste regulamento, são estabelecidos os seguintes conceitos:

( )

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 14

conceitos: ( ) Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

14) Grave perturbação ou subversão da ordem - Corresponde a todos os tipos de ações, inclusive as decorrentes de calamidades públicas, que, por sua natureza, origem, amplitude, potencial e vulto:

 

a)

Superem a capacidade de condução de medidas preventivas e repressivas tomadas pelos governos estaduais;

b)

Sejam de natureza tal que, a critério do governo federal, possa vir a comprometer a integridade nacional, o livre funcionamento dos poderes constituídos, a lei, a ordem e a prática das instituições; e

c)

Impliquem na realização de operações militares.

(

)

25) Perturbação da ordem - Abrange todos os tipos de ação, inclusive as decorrentes de calamidade pública que, por sua natureza, origem, amplitude e potencial possam vir a comprometer, na esfera estadual, o exercício dos poderes constituídos, o cumprimento das leis e a manutenção da ordem pública, ameaçando a população e propriedades públicas e privadas.

Refletindo sobre a questão Com base nos trechos dos textos legais descritos na página anterior, você, encarregado de aplicação da lei, consegue vislumbrar onde se inicia e onde termina

as atribuições de cada órgão policial num ambiente de litígio agrário?

Manual de Diretrizes Nacionais para execução de mandados judiciais de manutenção e reintegração de posse coletiva

A atuação policial necessita ser legal, proporcional, necessária e ética, para que

esteja em conformidade com os direitos humanos. A Ouvidoria Agrária Nacional (OAN) emitiu um Manual de Diretrizes Nacionais para execução de mandados judiciais de manutenção e reintegração de posse coletiva.

Esse documento norteia as ações dos órgãos envolvidos na resolução de conflitos agrários, para que o cumprimento de ordens judiciais não se transforme em mais

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 15

em mais Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página

violência no campo, com base nos fundamentos da Republica Federativa do Brasil, que visa respeitar a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho, a erradicação da pobreza e marginalização e a redução das desigualdades sociais e regionais.

Como você estudou nos textos constitucionais e infraconstitucionais, as atribuições da polícia, o Ministério do Desenvolvimento Agrário, através de sua ouvidoria, ratifica e esclarece quem é autoridade competente para execução de medidas:

“Havendo necessidade do uso da força pública para o cumprimento das ordens judiciais decorrentes de conflitos coletivos sobre a posse de terras rurais, em razão da sua função institucional e do treinamento específico, os atos deverão ser executados com apoio da polícia militar e/ou polícia federal, observada a respectiva esfera de competência.”

O referido documento atribui a responsabilidade de intervenções em conflitos

agrários a polícia militar e/ou polícia federal e orienta esses órgãos policiais a se reunirem com todos atores envolvidos no processo: órgãos da União, estados e municípios (Ministério Público, Incra, Ouvidoria Agrária Regional do Incra, Ouvidoria Agrária Estadual, Ouvidoria do Sistema de Segurança Pública, Comissões de Direitos Humanos, Prefeitura Municipal, Câmara Municipal, Ordem dos Advogados do Brasil, Delegacia de Polícia Agrária, Defensoria Pública, Conselho Tutelar e demais entidades envolvidas com a questão agrária/fundiária), para que

se façam presentes durante as negociações e eventual operação de desocupação.

É muito importante que as ações a serem desenvolvidas nas operações sejam planejadas em conjunto. Não é concebível nos dias atuais, que vários órgãos policiais ou não, planejem isoladamente ações a serem desenvolvidas num único lugar, para resolver o mesmo litígio agrário. Você, encarregado de aplicação da lei, deve compreender que as ações da polícia na resolução de conflitos agrários são mais bem executadas, a partir do momento em que há uma interação harmônica entre todos os envolvidos. Vários são os documentos internacionais e nacionais que recomendam essa prática, como já discutido.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 16

já discutido. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página

Na maioria dos conflitos agrários, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis – IBAMA, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA e

a Fundação Nacional do Índio – FUNAI e outros órgãos têm participação decisiva e fundamental em litígios agrários, tendo em vista que no cumprimento de suas atribuições, os mesmos possuem grande conhecimento e experiência da área e das comunidades envolvidas, palco das operações, sendo imprescindível essa aproximação.

Essa orientação é importante para você, encarregado de aplicar a lei, no cumprimento dessas demandas. Antes da Ouvidoria Agrária normatizar essas diretrizes, não existia nenhum documento formal do governo federal orientando esse procedimento. Isso traz maior garantia nas ações a serem desempenhadas nas operações, aja vista que todos os órgãos estarão diretamente ligados a resolução do conflito agrário, podendo contribuir, cada um em sua esfera de atribuição, para melhor cumprir o previsto em lei.

A Ouvidoria Agrária Nacional orienta a aproximação de todos os órgãos envolvidos,

bem como a polícia apenas a cumprir objetivamente e subjetivamente o que constar no mandado judicial, não recomendando como sendo atribuição da polícia, destruir

ou

remover benfeitorias realizadas nos locais de desocupação.

O

presente documento orienta você, encarregado de aplicar a lei, a suspender

qualquer operação e informar o juízo competente, se o oficial de justiça pretender

realizar qualquer ação que não esteja expressamente prevista no mandado. Sua função é necessariamente a de dar segurança às autoridades e demais envolvidos na operação. Fique atento a essas orientações no desenvolvimento das operações.

No emprego legal da força e arma de fogo, o documento faz restrições quanto ao uso de cavalos e cães nas operações e total controle de quem utiliza arma de fogo e identificação nominal dos policiais envolvidos na operação, visando posteriores individualizações. E ainda, respalda a policia a não atuar, se o apoio referente à assistência social, aos médicos e ao transporte não for providenciado pela autoridade competente, através de oficio encaminhado ao juízo competente.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 17

competente. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 17

Antes de continuar seus estudos, leia na íntegra o Manual de Diretrizes Nacionais

mandados judiciais de manutenção e reintegração de posse coletiva.

para

execução

de

Aula 3 – Planos e programas governamentais

A reforma agrária é um sistema que busca promover a melhor distribuição da terra, mediante modificações no regime de sua posse e uso, a fim de atender aos princípios de justiça social, do desenvolvimento rural sustentável e ao aumento de produção. A concepção é estabelecida pelo Estatuto da Terra. Na prática, a reforma agrária proporciona:

● A desconcentração e democratização da estrutura fundiária;

● A produção de alimentos básicos;

● A geração de ocupação e renda;

● O combate à fome e à miséria;

● A diversificação do comércio e dos serviços no meio rural;

● A interiorização dos serviços públicos básicos;

● A redução da migração campo-cidade;

● A democratização das estruturas de poder; e

● A promoção da cidadania e da justiça social.

Pela sua característica sistêmica verifica-se a necessidade de atuação contínua e conjunta de diversos órgãos governamentais, bem como relacionamento das diversas ações e colaboradores, como você estudará a seguir, através dos planos e programas governamentais que procuraram contemplar o tema.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 18

o tema. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página

Plano Nacional de Reforma Agrária – PNRA

O PNRA é um conjunto de políticas públicas com a finalidade de beneficiar famílias

rurais no país. Seu objetivo é promover a democratização do acesso a terra, por meio

da obtenção e destinação da terra aos trabalhadores rurais, gerando trabalho, renda

e melhores condições de vida, coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e pelo INCRA.

Saiba mais Antes de continuar seus estudos saiba mais sobre o Plano Nacional de Reforma Agrária. (http://www.mda.gov.br/portal/index/show/index/cod/184)

Programa Nacional de Direitos Humanos I e II

O Brasil, em 1996, foi um dos primeiros países a aprovar um Plano Nacional de Direitos Humanos. Suas bases foram resultantes de grandes jornadas de lutas de entidades, instituições e personalidades, expressando o anseio da imensa maioria da população que se privava de elementares direitos e subjugava inúmeras formas de violência institucionalizada ou não.

O objetivo do Programa Nacional de Direitos Humanos era eleger prioridades e apresentar propostas concretas de caráter administrativo, legislativo e político- cultural para resolver os graves problemas sociais, reduzir a escalada da violência múltipla, preservar e exigir dos diversos atores sociais e governamentais, atitudes firmes, seguras e perseverantes no caminho da promoção, respeito e proteção dos direitos humanos no Brasil.

No que diz respeito aos conflitos agrários, o Programa Nacional de Direitos Humanos I teve maior preocupação com as ações de reintegração de posse, deixando transparecer que tomando devidos cuidados no momento da ação policial estaria definitivamente resolvido o conflito no campo. No entanto, o importante é criar mecanismos políticos, administrativos legais preventivos capazes de num espaço razoável de tempo, solucionarem as disputas por terra e assim inviabilizar os

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 19

os Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 19

mandados judiciais e, por conseguinte, o emprego policial para questões de cunho tão-somente social.

Consta então no Programa Nacional de Direitos Humanos, referente a propostas de ações governamentais para proteção à vida:

● Elaborar um mapa da violência rural a partir de uma região do país, visando

identificar áreas de conflito e possibilitar análise mais aprofundada da atenção do Estado.

● Propor projeto de lei para tornar obrigatória a presença no local do juiz ou

representante do Ministério Público, a ocasião do cumprimento de mandado de manutenção ou reintegração de posse de terras, quando houver pluralidade de réus, para prevenir conflitos vividos no campo, ouvido também o órgão administrativo da reforma agrária. ● Apoiar proposições legislativas que objetive dinamizar os processos de expropriação para fins de reforma agrária, assegurando-se para prevenir violências, mais cautela na concessão de liminares.

Após seis anos, em 2002, o governo federal, através do Ministério da Justiça, lançou a segunda versão do Programa Nacional de Direitos Humanos, com alguns pequenos avanços na busca da solução para os conflitos gerados pela disputa da terra, porém, continuou (o governo) com entendimento de se colocar como mero fiscalizador e não como principal agente do processo de redistribuição e colonização da terra brasileira, capaz de mediar e conduzir politicamente condições de implementação de uma política de regularização fundiária, promovendo ações integradas com os estados federados, priorizando a prevenção para que problemas sociais não sejam resolvidos de forma traumática pela polícia.

Veja as propostas apresentadas pelo programa, para solução dos conflitos da terra.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 20

da terra. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página

Proposta 409 Implementar a regularização fundiária, o reassentamento e a reforma agrária, respeitando os direitos de moradia adequada acessível à demarcação de áreas indígenas e à titulação das terras de remanescentes dos quilombos.

Proposta 413 Adotar medidas destinadas a coibir prática de violência contra movimentos sociais que lutam pelo acesso a terra.

Proposta 414 Apoiar a aprovação de projeto de lei que propõe a concessão de medida liminar de reintegração de posse seja condicionada à comprovação da função social de propriedade, tornando obrigatória a intervenção do Ministério Público em todas as fases processuais de litígios envolvendo a posse de terras urbanas e rurais.

Proposta 415 Promover ações integradas entre o INCRA, as Secretarias de Justiça, as Secretarias de Segurança Pública, os Ministérios Públicos e o Poder Judiciário para evitar a realização de despejos forçados de trabalhares rurais, garantindo o prévio reassentamento das famílias desalojadas.

Plano Nacional de Segurança Pública Como resposta a diversos apelos e pressões da sociedade, o governo federal no ano de 2001, com o objetivo de aperfeiçoar o Sistema de Segurança Pública Brasileiro, por meio de propostas que integrem políticas de segurança, políticas sociais e ações comunitárias, de forma a reprimir e prevenir o crime e reduzir a impunidade apresenta o Plano Nacional de Segurança Pública com propostas para redução e solução dos conflitos. Porém, igualmente ao Programa Nacional de Direitos Humanos procura tratar as questões conflitantes do campo, como sendo unicamente de responsabilidade das polícias no momento dos cumprimentos das ordens judiciais de manutenção ou reintegração de posse, preocupando-se somente em criar artifícios que permitam acompanhamento de diversas autoridades no momento da operação policial de despejo. Deslocando o foco real do problema que seria a criação de mecanismos

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 21

de mecanismos Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página

administrativos legais capazes de solucionar os problemas fundiários, prevenindo assim qualquer possibilidade de embate entre policiais e trabalhadores rurais.

Veja, os compromissos de combate à violência rural que o plano traz.

Ação 76 Incrementar o Sistema de Informações de Conflitos Agrários e Tensões Sociais no Campo;

Ação 77 Instalação das Ouvidorias Agrárias Estaduais – Estimular a instalação de ouvidorias agrárias estaduais, prioritariamente naqueles estados autorizados, a desenvolverem programas descentralizadores de reforma agrária, com o objetivo de receberem e processarem denúncias, registrar informações sobre violência rural e acompanharem os procedimentos para reintegração de posse;

Ação 78 Acompanhamento das ações reintegratórias – Acompanhar, com autorização judicial, a execução dos mandados judiciais de reintegração de posse com representantes das ouvidorias estaduais (a serem criadas), do Ministério Público, dos movimentos sociais e da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB;

Ação 79 Constituição de equipes de prevenção de conflitos rurais; e

Ação 80 Estruturação da divisão de conflitos agrários da Polícia Federal.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 22

Federal. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 22

Aula 4 – Programas e projetos executados pelo INCRA

O INCRA executa diversos projetos com o objetivo de promover:

- O desenvolvimento sustentável;

- A viabilidade econômica e a justiça social nos assentamentos; e

- A recuperação e consolidação dos projetos da reforma agrária.

Conheça alguns desses projetos pesquisando-os nos sites relacionados abaixo:

http://www.creditofundiario.org.br/principal/index
http://www.mda.gov.br/aegre/index.php?sccid=572 ATES
http://www.mda.gov.br/aegre/index.php?sccid=572 ATES

ATES

Observe que esses projetos, além da questão da posse da terra, incentivam a

permanência das famílias no campo, por meio da promoção da cidadania.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 23

da cidadania. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página

Aula 5 – Movimentos sociais no Brasil relacionados aos conflitos agrários

Movimentos sociais existentes no Brasil envolvidos nas questões agrárias

No módulo 1, você estudou sobre as origens dos movimentos sociais. Agora, você verá quais são esses documentos e estudará a relação da polícia com esses movimentos.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário, através do relatório da Ouvidoria Agrária Nacional, contabilizados no período de 1º de janeiro a 28 de fevereiro de 2006, foram registrados os movimentos e segmentos coletivos organizados, referente às disputas e aos interesses dos trabalhadores rurais no Brasil.

Veja a lista dos movimentos relacionados (Anexo 3).

A relação polícia e movimentos sociais

O poder de polícia é o instrumento que a administração pública dispõe para conter os abusos e sua finalidade maior é o interesse social. Atrelado à utilização equivocada do poder de polícia, acrescenta-se a concepção de Segurança Pública baseada na doutrina de segurança nacional, instaurada a partir do início do regime militar, entendendo-se a segurança não como uma defesa do “Estado Nação” contra um inimigo externo ou uma ameaça nuclear, mas como a defesa ou salvaguarda dos objetivos do poder de Estado, das oligarquias. E, é essa a mesma percepção que foi mantida contra os conflitos internos, lutas sociais reivindicatórias e distintas da compreensão do papel do Estado, a partir da defesa dos interesses da classe dominante.

Essa orientação de cunho ideológico fez com que se identificasse qualquer movimento reivindicatório contrário à estrutura do poder dominante como inimigo da ordem que devia ser combatido. Acrescenta-se a esse entendimento, a formação típica dos policiais “combatentes”, objetivando formar policiais militares com visão “guerreira” para uma sociedade que busca a paz social.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 24

a paz social. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Os movimentos sociais que lutam pela terra, os “sem-terra”, receberam uma antipatia do setor policial, baseado no entendimento de ordem pública atrelada a doutrina de segurança nacional, que foi transmitida pelo tempo. Sendo assim, quando integrantes dos movimentos sociais provocam alguma ação de pressão, não se leva em conta que o país possui uma das piores distribuições de renda, que a maioria da população se encontra abaixo da linha da pobreza, que existem milhares de brasileiros desempregados e que ainda se morre de fome num país de dimensão continental, com latifúndios improdutivos.

As classes dominantes, com artifícios legais, impondo a “defesa da democracia” pela força, quando necessita da “pressão estatal” são as polícias que se apresentam para cumprir seu papel como representante e “braço armado” do Estado.

De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, os dois momentos críticos e conflituosos no tocante ao relacionamento com as polícias ocorrem durante as ocupações e nos acampamentos, considerados como espaços de luta e formação, fruto de ações coletivas, localizados no campo ou na cidade, onde as famílias “sem- terra” organizadas reivindicam assentamentos e aceleração do projeto de reforma agrária, para evitar que essas questões sociais no campo se transformem em problema de polícia.

Ocupações Ações coletivas das famílias “sem-terra” que, por meio da entrada em imóveis rurais, reivindicam terras que não cumprem

É importante perceber que o momento democrático vivido atualmente não só permite manifestações, como entende como legítima toda mobilização realizada com finalidade de pressionar os poderes públicos para a efetivação das orientações e princípios constitucionais. Compreender essa mudança é essencial para a construção de uma outra relação entre as polícias e os movimentos sociais.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 25

sociais. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 25

Conclusão

Criado em 1970, o INCRA tem buscado a efetivação da política do governo federal quanto à implementação da política de reforma agrária e realização do ordenamento fundiário nacional buscando um desenvolvimento rural sustentável, através de inclusão social das famílias do campo brasileiro.

A reforma agrária é um sistema que busca promover a melhor distribuição da terra,

mediante modificações no regime de sua posse e uso, a fim de atender aos princípios de justiça social, do desenvolvimento rural sustentável e ao aumento de produção.

Dada a característica sistêmica da reforma agrária, verifica-se a necessidade de atuação contínua e conjunta de diversos órgãos governamentais e a polícia, bem como relacionamento das diversas ações e colaboradores.

O INCRA executa diversos projetos com o objetivo de promover o desenvolvimento

sustentável, a viabilidade econômica e a justiça social nos assentamentos e a recuperação e consolidação dos projetos da reforma agrária.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário, através do relatório da Ouvidoria Agrária Nacional, contabilizados no período de 1º de janeiro a 28 de fevereiro de 2006, foram registrados 71 movimentos e segmentos coletivos organizados.

Dado o caráter ideológico, qualquer movimento reivindicatório contrário à estrutura do poder dominante era identificado como inimigo da ordem e deveria ser combatido. O momento democrático vivido atualmente não só permite manifestações, como entende como legítima toda mobilização realizada com finalidade de pressionar os poderes públicos para a efetivação das orientações e princípios constitucionais. Compreender essa mudança é essencial para a construção de outra relação entre as polícias e os movimentos sociais.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 26

sociais. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 26

Neste módulo são apresentados exercícios de fixação para auxiliar a compreensão do conteúdo. O objetivo destes exercícios é complementar as informações apresentadas nas páginas anteriores.

1.

Julgue a afirmativa abaixo, colocando F para falso e V para verdadeiro:

(

) Em relação à atuação do Ministério Público nos conflitos agrários, qual mudança

ocorreu com a nova redação do inciso III do artigo 82 do Código de Processo Civil, estabelecido pela Lei Nº 9.415, de 23 de dezembro de 1996 torna opcional e discricionário a intervenção do Ministério Público nas ações que envolvem litígios coletivos pela posse da terra rural.

2.

Julgue a afirmativa abaixo, colocando F para falso e V para verdadeiro:

(

)Segundo orientação da Ouvidoria Agrária Nacional, os órgãos policiais que devem

atuar em cumprimento a ordens judiciais decorrentes de conflitos coletivos sobre a posse de terras rurais são todos os órgãos previstos no artigo 144 da Carta Magna, a exemplo da Polícia Federal, Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal entre outros.

3.

Julgue a afirmativa abaixo, colocando F para falso e V para verdadeiro:

(

) A Reforma agrária é sistema que busca promover a melhor distribuição da terra,

mediante modificações no regime de sua posse e uso, a fim de atender aos princípios

de justiça social, do desenvolvimento rural sustentável e ao aumento de produção e ainda pode proporcionar: A produção de alimentos básicos, a geração de ocupação e renda; o combate à fome e à miséria, a desconcentração e democratização da estrutura fundiária.

Este é o final do módulo 2 Instituições públicas envolvidas na resolução de conflitos e os movimentos sociais

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 27

sociais Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 27

Gabarito

1. F

2. F

3. V

Anexos

Anexo 1 - Recomendações para a política de reforma agrária no Brasil 1

Estas são recomendações propostas por um grupo de especialistas ao elaborarem diretrizes para uma nova política de reforma agrária e política agrícola para o Brasil, em abril de 2003, comparando com as propostas e intenções estabelecidas nos vários programas federais que de forma interdisciplinar define as ações dos seus órgãos:

a) Revisão da legislação agrária, tendo como meta a inclusão do critério de não cumprimento das legislações ambiental e trabalhista como pontos a serem considerados relevantes para a desapropriação para fins de reforma agrária;

b) Revisão da legislação que trata dos imóveis onde exista trabalho escravo, infantil ou de cultivos ilegais, visando ao confisco integral e à destinação dos mesmos para fins de reforma agrária;

c) Aparelhar e capacitar o INCRA para a realização de diagnósticos fundiários que sirvam como base para a elaboração de políticas de desenvolvimento territorial;

d) Extinção do programa de pré-cadastro pelos Correios e instituição de um cadastro nacional de candidatos discutido com os movimentos sociais e sindicais;

e) Redefinição de critérios para o estabelecimento de público de interesse a ser beneficiado pelas ações de reforma agrária, para estabelecimento de um sistema de seleção justo e adequado;

1 Cel. PM Adilson Bispo dos Santos – PMAL 1º Ten Alex Jorge das Neves – PMGO

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 28

Neves – PMGO Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

f) Revogação da Medida Provisória nº 2.183 que criminaliza os trabalhadores e trabalhadoras rurais que promovem ocupações e isenta de vistorias por dois anos ou mais, os imóveis ocupados;

g) Extinção do Banco da Terra com revisão dos atuais mecanismos de acesso à terra, complementares às ações de reforma agrária, assegurando a existência de um crédito fundiário;

h) Estabelecimento de parcerias com os governos estaduais para promoção de inventário nacional das terras públicas da União e estados, para a retomada de ações discriminatórias e definição de políticas de destinação e regularização fundiária, assim como a retomada de áreas irregularmente ocupadas, consolidando em âmbito nacional, um programa de combate à grilagem;

i) Definição de políticas de apoio e fortalecimento da agricultura familiar específicas para posseiros regularizados;

j) Promover diagnóstico dos antigos projetos de colonização visando à identificação e regularização de pendências de âmbito fundiário e dominial;

k) Revisão da política de titulação de forma a compatibilizá-la com a capacidade de pagamento dos assentados, às particularidades de sua organização e à necessidade do financiamento da reforma agrária;

l) Estabelecer monitoramento permanente nos assentamentos, que permita a avaliação da capacidade de pagamento e políticas de refinanciamento para os tomadores de créditos;

m) Reformulação das normas e fluxos de liberação dos recursos de forma a

garantir a disponibilidade e sequência necessária;

n) Reforçar ou readequar a capacidade operacional do INCRA, bem como desenvolver ações de capacitação de seu corpo técnico, necessárias para a implantação de um novo modelo de reforma agrária;

o) Desenvolver campanhas junto aos beneficiários da reforma agrária que tenham como meta o esclarecimento de seus direitos e deveres e dos executores governamentais;

p) Estabelecer mecanismos legais de controle e fiscalização visando impedir a adoção de sementes e produtos transgênicos;

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 29

transgênicos; Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 29

q) Criação de comitês – nacional, regionais, municipais e de acompanhamento – e avaliação das ações da reforma agrária, envolvendo representantes dos órgãos executores do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA e beneficiários;

r) Criação de mecanismos, no âmbito do MDA, que garantam a integração das ações de planejamento e execução dos programas a ele subordinados;

s) Implantação definitiva de sistema de manejo de crise nas unidades executoras do INCRA, fortalecimento da Ouvidoria Agrária Nacional e negociação com o Poder Judiciário para a criação ou dinamização das Varas Agrárias promoverem o efetivo combate à violência no campo e eficácia nas negociações entre governo e atores sociais; e

t) Revisão e conclusão dos sistemas corporativos do INCRA que possibilitem o monitoramento e avaliação das ações de reforma agrária e seus impactos junto à população beneficiada, bem como sua transparência e controle social.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 30

social. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 30

Anexo 2 - As organizações não-governamentais nos conflitos agrários 2

As organizações não-governamentais – ONGs possuem papel fundamental no que diz respeito a organização, apoio, acompanhamento e fiscalização nas questões que envolvem os conflitos agrários, principalmente em decorrência das relações próximas mantidas com os movimentos sociais, tanto que chega, por vezes, a se confundirem em suas identidades.

Do ponto de vista da prevenção e resolução dos conflitos agrários, torna-se fundamental a consideração e respeito junto a essas instituições, pois são elementos organizados com ligação e ramificação em todos os contextos públicos da nação e até exterior, pela sua ligação com entidades internacionais.

Importante!

Cabe aos policiais condutores da ação para resolução de um conflito, ao se depararem com uma ONG, viabilizarem um canal de conversação que busque um entendimento adequado e respeitoso, lembrando sempre que as ONGs são compostas de pessoas organizadas politicamente de forma séria e pode ser um indicativo de ajuda durante a tentativa de estabelecimento dos primeiros contatos com os integrantes dos movimentos sociais.

2 Cel. PM Adilson Bispo dos Santos – PMAL 1º Ten Alex Jorge das Neves – PMGO

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 31

Neves – PMGO Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Anexo 3 – Lista dos movimentos relacionados

1- Comissões

a. Comissão de Assentamento do Estado do Espírito Santo (COMASSES);

b. Comissão Indigenista Missionária (CIMI);

c. Comissão Pastoral Rural (CPR); e

d. Comissão Pastoral da Terra (CPT).

2- Centros e Centrais

a. Centro Dom José Brandão de Castro (ex-CPT)/SE (CDJBC);

b. Centro dos Trabalhadores da Amazônia (CTA); e

c. Central Única dos Trabalhadores (CUT Rural).

3- Federações

a. Federação dos Trabalhadores na Agricultura do DF e Entorno (FEDADEF);

b. Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Acre (FETACRE);

c. Federação dos Trabalhadores Rurais do Estado do Goiás (FETAEG);

d. Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Estado do Maranhão (FETAEMA);

e. Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais (FETAEMG);

f. Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Espírito Santo (FETAES);

g. Federação dos Trabalhadores do Estado de São Paulo;

h. Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Tocantins (FETAET);

i. Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Piauí (FETAG-PI);

j. Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia (FETAG-BA);

k. Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Paraíba (FETAG-PB);

l. Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Rio de Janeiro (FETAG-RJ);

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 32

(FETAG-RJ); Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 32

m.

Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Rondônia (FETAGRI-RO);

 

n.

Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Amazonas (FETAGRI-AM);

o.

Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Mato Grosso (FETAGRI-MT);

p.

Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Mato Grosso do Sul (FETAGRI-MS);

q.

Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará (FETAGRI-PA);

r.

Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Pernambuco (FETAPE);

s.

Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Rio Grande do Norte (FETARN);

t.

Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Sergipe (FETASE); e

u.

Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Ceará (FETRAECE).

4- Ligas

 

a.

Liga dos Camponeses Pobres (LCP)

 
 

b.

Liga Operária Camponesa (LOC).

5-

Movimentos

a. Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB);

b. Movimento de Apoio a Reforma Agrária (MARA);

c. Movimento de Agricultores Sem-Terra (MAST);

d. Movimento Brasileiro dos Sem-Terra (MBST);

e. Movimento de Camponeses de Corumbiara (MCC);

f. Movimento dos Carentes Sem-Terra (MCST);

g. Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST);

h. Movimento Libertação dos Sem-Terra (MLST de Luta);

i. Movimento de Luta pela Terra (MLT);

j. Movimento Luta pela Terra (MLT/STR);

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 33

(MLT/STR); Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 33

k. Movimento Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MNMTR);

l. Movimento Organizado pela Reforma Agrária e Liberdade (MORAL);

m. Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA);

n. Movimento Pela Reforma Agrária (MPRA);

o. Movimento Social Brasil sem Fome (MSBSF);

p. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) http://www.mst.org.br/mst/home.php

q. Movimento dos Sem-Terra Independente (MSTI);

r. Movimento dos Trabalhadores Rurais Ligado a Assoc. Comerc. de Trabalhadores Rurais de João Pinheiro (MSTR);

s. Movimento dos Sem-Terra de Tupanciretã (MSTT);

t. Movimento dos Trabalhadores (MT);

u. Movimento dos Sem-Terra (MTB);

v. Movimento Terra Trabalho e Liberdade (MTL);

w. Movimento dos Trabalhadores Rurais Brasileiro (MTRB);

x. Movimento dos Trabalhadores Rurais do Município de Sidrolândia MTRS);

y. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MTRST); e

z. Movimento dos Trabalhadores Rurais e Urbanos do Brasil (MTRUB).

6-

Organizações

a. Organização de Luta no Campo (OLC); e

b. Organização Terra e Liberdade (OTL).

7- Sindicatos

a. Sindicato dos Pequenos Agricultores e Assalariados (SINPASA); e

b. Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Amapá (SINTRA).

8- Outras nomenclaturas

a. Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH);

b. União das Nações Indígenas do AC e Sul do AM (UNI).

c. Pólo da Unidade Camponesa (PUC);

d. Animação Pastoral Rural (APR);

e. Cooperativa Central de Reforma Agrária (CCA);

f. Coordenação Estadual de Trabalhadores Assentados e Acampados (CETA);

g. Conselho Nacional do Seringueiro (CNS);

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 34

(CNS); Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 34

h. Departamento Estadual dos Trabalhadores Rurais (DETR-CUT);

i. Força Sindical (FS);

j. Fundação de Desenvolvimento do São Francisco (FUNDIFRAN); e

k. Grupo de Trabalhadores Amazonenses (GTA).

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009

Página 35

(GTA). Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 2 SENASP/MJ - Última atualização em 17/07/2009 Página 35

Módulo 3 – Sistema de Gerenciamento de Conflitos Agrários e seus aspectos práticos

Neste módulo, você terá a oportunidade de discutir aspectos que dizem respeito aos comportamentos coletivos e individuais, principalmente, quando envolvidos em ocorrências tensas e conflituosas.

Você também estudará as estratégias que devem ser utilizadas na administração inicial do conflito visando à sua estabilização, seja ele agrário ou não.

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

Caracterizar as fases do comportamento coletivo;

 

Descrever

os

fatores

que

interferem

no

comportamento

individual

quando

envolvidos em situações conflituosas;

Identificar as ocorrências relacionadas aos conflitos agrários;

Enumerar as providências a serem tomadas na administração inicial do conflito;

Utilizar técnicas de estabilização dos conflitos: conter, isolar, negociar –estabilizar;

e

● Identificar as instituições necessárias para composição de grupo multidisciplinar

para resolução de conflitos agrários.

O conteúdo deste módulo está dividido em 3 aulas:

Aula 1 – Comportamentos: coletivo e individual

Aula 2 – Ocorrências relacionadas às questões agrárias

Aula 3 – Constituição de grupo multidisciplinar na prevenção, intervenção e na resolução de conflitos agrários

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 1

agrários Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página 1

Aula 1 – Comportamentos: coletivo e individual

Fases do comportamento coletivo

Você estudará as fases do comportamento coletivo social. Para possibilitar que você perceba as relações e as diferenças existentes entre elas, principalmente quando estiver operando em situações de conflitos, são elas:

Aglomerações

Multidão

Turba

Estude cada uma das fases nas páginas seguintes.

Aglomerações

A primeira classificação diz respeito às aglomerações, que nada mais são do que:

Uma quantidade razoável de pessoas reunidas e sem haver nenhum vinculo proposital e organizado de estarem ali.

As aglomerações ocorrem a todo instante, e podem dar-se em diversos lugares, onde as pessoas se encontram isoladamente como numa rodoviária e aeroporto, sempre sem haver nenhuma organização ou liderança proposital para o referido encontro.

É importante salientar, que uma aglomeração de pessoas sem nenhum vínculo pode,

repentinamente, se transformar e perpassar a outras fases do coletivo social, como por exemplo, uma multidão.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 2

multidão . Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Multidão

Uma multidão pode ser caracterizada pelo:

O aparecimento de ideias e posicionamentos que podem unificar os interesses das pessoas ali reunidas.

Nesta fase, as pessoas reunidas estão, psicologicamente, unificadas por um interesse comum.

A partir desse momento, você, encarregado de aplicar a lei, deve estar atento, porque podem surgir conflitos que exijam necessidade de intervenção da polícia, pois podem se transformar numa turba.

Turba

Nas hipóteses em que uma multidão começa a ficar agitada e perde o senso da razão e de respeito às leis, e pessoas com experiência e espírito de liderança conseguem estimular aquela grande quantidade de pessoas a cometer atos de vandalismo e enfrentamento, pode se dar início a uma turba. A turba é a fase do comportamento coletivo que exige a intervenção da polícia.

Para que você compreenda como uma turba pode ser gerada, acompanhe um exemplo a partir de uma situação real.

Uma turba pode ser gerada e transformada no momento em que um oficial de justiça com mandado de reintegração de posse nas mãos determina aos ocupantes de uma área invadida que cumpra a ordem do Poder Judiciário e algumas lideranças começam a incentivar o enfrentamento e descumprimento da lei. Nessas ocasiões, deve haver planejamento adequado e técnicas de negociação visando minimizar a probabilidade da ocorrência de conflitos agrários com resultados desastrosos, como já ocorrido em vários momentos da história dos conflitos agrários no Brasil, do Chuí ao Caburaí.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 3

ao Caburaí. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Complementando os estudos relacionados às fases do comportamento coletivo social, pode-se destacar também, que as multidões podem ser pacíficas, organizadas e violentas. Devendo haver um estudo e análise detalhada por parte da polícia quando for operar em situações dessa natureza e sempre se preocupar em nortear as ações dentro dos princípios dos direitos humanos.

Comportamento Individual

As pessoas quando estão numa grande aglomeração, multidão ou turba, sendo motivadas por inúmeras questões, como: movimentos sociais, políticos, catástrofes

naturais, omissão ou falência de autoridade constituída, fanatismo religioso, motivos econômicos, dentre inúmeros outros, podem ter suas características individuais afloradas pelos seguintes fatores:

- Número,

- Sugestão e contágio e

- Imitação.

Para que possa compreender cada um desses fatores, acompanhe as descrições nas próximas páginas.

Fator número

O fator número refere-se a quantidade de pessoas envolvida num evento.

Você, na sua missão cotidiana, já percebeu que as pessoas quando estão em maior quantidade podem esboçar reações de valentia e coragem, demonstrando sensação de poder e segurança que interferem diretamente em suas ações, podendo ser de euforia ou violência?

Esse fator está presente na maioria dos tumultos e turbas, bem como nos conflitos agrários. Por isso, deve sempre ser feito levantamento consistente com o objetivo de prever a quantidade de pessoas envolvida em determinado evento, para que você,

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 4

para que você, Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

encarregado de aplicar a lei, esteja preparado para as reações adversas que podem ocorrer onde há um número expressivo de pessoas.

Fator sugestão

A sugestão se caracteriza pela propagação das opiniões, ideias e ideologias das

personalidades com grande expressão de liderança presentes numa multidão ou

turba.

A sugestão, como os outros fatores, interfere diretamente no comportamento individual das pessoas. Ela é aceita com maior facilidade, possibilitando o controle das pessoas, direcionando-as a cometer inclusive crimes e ações contrárias a lei.

Ao ser desencadeado algum tipo de operação na resolução de conflitos, é muito importante descobrir e conhecer as lideranças de todos os segmentos envolvidos num processo de litígio agrário, pois, esse conhecimento pode evitar enfrentamentos, emprego legal da força e descumprimento das normas estabelecidas no ordenamento jurídico. A aproximação da polícia com essas lideranças é fundamental, porque podem ser feitas reuniões antecipadas para persuadi-las a orientar as pessoas a evitar o enfrentamento e o descumprimento da lei.

Fatores contágio e a imitação Aliado ao número e sugestão, outros fatores que os funcionários responsáveis em aplicar a lei devem estar atentos é o contágio e a imitação.

O contágio e a imitação têm a capacidade de influenciar as pessoas pelo que as

outras estão fazendo, num momento de euforia, aliado aos outros fatores anteriormente mencionados. Num dado conflito, a quantidade de pessoas é fator relevante. Aliado a sugestão e contágio, esses fatores têm um potencial muito grande de influenciar as pessoas numa situação de conflitos e litígios, pois, possibilitam os indivíduos começarem a fazer e pensar o que está sendo realizado pelas outras pessoas e, ao mesmo tempo,

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 5

ao mesmo tempo, Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

imitá-las, porque existe certo sentimento de impunidade, devido a dificuldade de ser reconhecida no meio de uma multidão ou turba.

Quando todos esses fatores ocorrem em conjunto – a quantidade de pessoas cometendo atos ilícitos – pode aumentar, consideravelmente, os prejuízos, tornando- os irreparáveis e desastrosos. Por isso, faz-se necessário, que você, encarregado de aplicação da lei, esteja sempre preparado e devidamente ciente que numa situação de litígios agrários, esses fatores podem ocorrer e aumentar o nível de tensão, dificultando o processo de resolução.

Aula 2 – Ocorrências relacionadas às questões agrárias

Tipos de conflitos relacionados às questões agrárias Nesta aula, você estudará os tipos de ocorrências ligadas às questões agrárias que envolvem os integrantes dos movimentos sociais e que implicam um direcionamento de atividades específicas.

De acordo com o Dicionário Aurélio, de Língua Portuguesa, a palavra crise tem diversos significados:

● Manifestação violenta e repentina de ruptura de equilíbrio;

● Um momento perigoso ou decisivo; e

Tensão ou conflito.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 6

ou conflito. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Conflito é Toda situação onde existe uma diferenciação de ideias, posturas e/ou ações entre duas ou mais partes, que necessita da intervenção estatal exigindo uma resposta especial.

Tratando-se de conflitos envolvendo movimentos sociais ligados às questões agrárias, eles geralmente se manifestam através de:

1 - Invasões e/ou ocupações de prédios públicos;

de: 1 - Invasões e/ou ocupações de prédios públicos; 2 - Bloqueios ou interdições de vias;

2 - Bloqueios ou interdições de vias;

prédios públicos; 2 - Bloqueios ou interdições de vias; 3 - Invasões e/ou ocupações de propriedades;

3 - Invasões e/ou ocupações de propriedades; e

de vias; 3 - Invasões e/ou ocupações de propriedades; e Resolução de Conflitos Agrários – Módulo

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 7

propriedades; e Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

4 - Cumprimento de ordem judicial de manutenção ou reintegração de posse.

ordem judicial de manutenção ou reintegração de posse. Administração inicial do conflito Seja qual for a

Administração inicial do conflito

Seja qual for a situação: invasões e/ou ocupações de prédios públicos, bloqueios ou interdições de vias, invasões e/ou ocupações de propriedades ou, até mesmo, cumprimento de ordem judicial de manutenção ou reintegração de posse – independente do motivo que originou a ocorrência ou da região onde esteja –, ao ser o primeiro a chegar ao local é imprescindível que você levante alguns dados que serão importantes para a solução do conflito, pois a administração de um conflito agrário necessita de um grande número de informações. Para tanto, você deverá anotar os seguintes elementos de informações, que muito ajudarão na solução da ocorrência:

Quanto aos causadores do conflito:

A quantidade

A motivação

Os causadores

O local da ocorrência

A circunvizinhança

As armas (caso exista)

Veja em que consiste cada um dos elementos.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 8

dos elementos. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

A quantidade de causadores

Levante a quantidade aproximada de pessoas que participam do conflito.

Observe a composição do grupo, quantos homens, mulheres, idosos ou de menor

idade.

A motivação

Verifique o que motivou a criação do problema:

Foi resultante de uma ocorrência envolvendo algum integrante?

Foi uma promessa governamental não cumprida?

Foi em decorrência de um cumprimento de ordem judicial que teria deixado o

grupo desabrigado?

Foi em decorrência de alguma ação violenta contra o grupo?

Foi para chamar atenção do órgão responsável pela reforma agrária em razão de

algum fato; estariam querendo apressar alguma decisão administrativa ou política,

etc.?

Os causadores

Identificar, se possível, quem são e a qual movimento pertencem, observando as cores e siglas das bandeiras. Observe se:

No momento estão utilizando aparelhos de telefonia celular ou equipamento similar;

Estão muito nervosos, descontrolados, emocionalmente, ou se estão calmos (nível

de emoção);

Tentaram alguma ação violenta contra terceiros; e

Outras informações, como se sofreram alguma ação violenta, se estão de posse

dos instrumentos de trabalho: facões, foices, enxadas, etc.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 9

enxadas, etc. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

O local da ocorrência Verifique:

O acesso – As vias de acesso ao local;

O local

- Se existe algum material do tipo de construção, pedras, madeira, tijolos, etc.;

- Se existe material para acampamento, como lona, barracas, etc.; e

- Se existem alimentos em saca, como feijão, arroz, farinha, charque, etc.

A circunvizinhança

A situação das edificações vizinhas, se tem telefone, energia, água, etc.

As armas (caso exista)

Em caso de existência de arma de fogo adotar os procedimentos legais exigidos, observando os critérios de segurança, principalmente, o fator numérico, solicitando o

imediato reforço se necessário. Os instrumentos de trabalho como faca, facões, foices, enxadas, dentre outros, devem ser quantificados.

Lembre-se Nem sempre você estará num local em que possa contar com reforço de policiamento imediatamente. Assim, você será o primeiro interventor na situação e terá que agir da forma mais correta possível para resolver o problema. Afinal, se a polícia falha, a quem a sociedade vai recorrer?

Técnicas

estabilizar

de

estabilização

dos

conflitos

agrários:

conter,

isolar, negociar

No momento em que ocorre qualquer um dos conflitos estudados anteriormente, você terá que tomar algumas providências com o objetivo de estabilizá-lo. São elas :

conter o conflito, isolamento do local e as negociações.

Conter o conflito É não permitir que os problemas advindos do conflito se alastrem e passem a prejudicar um número maior de pessoas alheias a situação.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 10

a situação. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Isolamento do local

Quanto melhor for o isolamento do local onde está ocorrendo o conflito mais fácil será o trabalho executado para a solução do problema.

A experiência tem demonstrado que é difícil providenciar o isolamento de um local

onde está acontecendo o conflito agrário em razão da sua dimensão. A presença da

imprensa, que logo chega ao local, a multidão de curiosos que se junta nesses casos e

o tumulto causado por eles tornam impossível um isolamento adequado, porém é indispensável o estabelecimento de um isolamento mínimo.

Para ISOLAR o local é necessário que a polícia assuma o controle da situação. No caso de bloqueio de via pública, o isolamento é efetivado através das seguintes

medidas:

● Organizar o trânsito local;

● Desviar o trânsito local, procurando vias de escoamento;

● Afastar e/ou não permitir a aproximação de veículos com cargas para evitar prejuízos a terceiros; e

● Afastar do local do conflito todo e qualquer veículo que possa vir a sofrer qualquer dano.

É indispensável o isolamento inicial. Porém, lembre-se de uma regra valiosa:

Quanto maior for a área que você estabelecer para fazer o isolamento, mais difícil será mantê-la, porque necessitará de um número maior de policiais e causará mais transtornos na vida das pessoas que moram ou trabalham nas proximidades.

Iniciar as negociações Estabilização

A experiência policial tem mostrado que a negociação é o mais eficiente instrumento

para a resolução de uma crise. Mas, você deve se perguntar: Eu tenho condições de negociar?

Todas as pessoas fazem diariamente exercícios de negociação e vivem treinando essa forma mesmo sem dar conta do que está acontecendo. Até você.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 11

Até você. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Quem já não passou pela situação de um filho querer comprar alguma coisa que você não pode ou que não seja bom para ele? Nesses casos, você apresenta suas razões para não atender ao pedido e, na maioria das vezes, faz de tal forma que não o deixe muito triste, “negociando” com ele para dar o presente quando ele passar de ano, quando você tiver dinheiro ou dando outra razão qualquer.

É assim que você deverá proceder também numa ocorrência desse tipo:

1º - Procure acalmar a situação para o quadro não se agravar mais ainda. Procure observar, logo quem está liderando a ação, caso tenha mais de um causador. 2º - Faça a contenção. Tente dialogar com ele na tentativa de estabilizar a situação, acalmando todos os causadores e reféns, se for o caso.

Lembre-se Não precisa pressa para começar a conversar com os causadores da ação. Espere diminuir a tensão do ambiente, a não ser que eles comecem a falar com você.

Ao começar sua fala, é importante identificar-se como sendo da polícia e que está querendo ajudar. Diga que não fiquem preocupados e não acerte nada com eles. Caso peçam alguma coisa, você diz que vai tentar providenciar, mas que eles fiquem calmos.

Nunca atenda de imediato qualquer pedido deles. Procure ganhar tempo. Lembre- se de que o objetivo maior da polícia é preservar vidas.

A negociação é a fase mais aguda da intervenção, já que você terá contato com os

causadores do conflito.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 12

do conflito. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Siga as dicas.

Dicas para a negociação com os causadores do conflito

Estabilize a ocorrência. Acalme os ânimos de todos os envolvidos;

Escolha o melhor momento para o contato;

Procure ganhar tempo. Quanto mais demorada a situação tende a ficar mais

calma, evitando-se soluções precipitadas;

Deixe os causadores do conflito falar – É mais importante ser um bom ouvinte

do que um bom conversador. É muito mais importante deixar o causador falar, porque isso, além de ajudar a diminuir seu estado de ansiedade, fará com que ele revele fatos e dados que podem ser elementos de informações. Enquanto o causador fala, você está ganhando tempo e evitando que ele fique fazendo algo indesejável;

Identifique o movimento social que está organizando tal protesto. Você deve

procurar identificar, de forma discreta, qual o movimento que está fazendo a manifestação, o que pode ser conseguido através de seus símbolos, ou seja, suas bandeiras, bonés, camisas, etc., que sempre constam a sigla do movimento;

Levante a quantidade aproximada de pessoas que participa do conflito;

Identifique o líder, para isso você não deve sair perguntando quem é que está

liderando aquele grupo de trabalhadores. Procure conversar com todos e, naturalmente, identifique algum coordenador do grupo pela forma como se posiciona e se comporta entre os demais, passando agora direcionar seu contato para essa pessoa;

Descubra a motivação do protesto, ou seja, a necessidade, e qual a solução mais

aceitável para a resolução do conflito;

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 13

do conflito; Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Não acerte nada com os causadores. Tudo o que ele quiser serve como um

motivo para você ganhar tempo e para criar no causador uma dependência sua;

Nunca diga “não”. Por mais absurda que seja a motivação, você nunca deve

responder diretamente com um não. Essa resposta seca e direta pode provocar uma reação violenta por parte dos causadores do conflito. Você pode dizer que entendeu o pedido e direcionar para seus superiores ou autoridades responsáveis; e

Outra regra importante. Evite dar entrevistas ou responder às perguntas dos

curiosos sobre o que está acontecendo. Além de desviar a atenção do que tem a fazer (CONTER, ISOLAR e INICIAR AS NEGOCIAÇÕES – ESTABILIZAR), você deve lembrar de que em todos os lugares têm rádio e televisão, e uma colocação precipitada pode criar um fato desnecessário. De forma educada, você deve dizer que falará com eles

ou dará entrevistas depois que acabar a ocorrência.

Lembre-se Tão logo você chegue ao local do conflito, faça contato com seus superiores informando a situação e, enquanto chega o apoio, tome as primeiras providências que estudou neste módulo.

Neste curso, você estudou apenas as técnicas que favorecem a estabilização do conflito, mas você poderá aprofundar seus estudos realizando os cursos de Gerenciamento de Crise e de Mediação de Conflitos 1 e2.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 14

1 e2. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Aula 3 – Constituição de grupo multidisciplinar na prevenção, intervenção e na resolução de conflitos agrários

A organização de um comitê definida pela doutrina de gerenciamento de crises para as ocorrências complexas não teria muita praticidade no gerenciamento e administração de um conflito agrário por conta da sua dinâmica própria, das circunstâncias, quantidade de pessoas envolvidas, local, motivação e, principalmente, predisposição das autoridades, visto que muitos órgãos ainda não absorveram a ideia real que resolução de conflito agrário não é uma exclusividade da polícia, muito pelo contrário, o conflito agrário é um problema raramente policial e essencialmente social.

Comitê para intervenção na crise 1

Definição

O Comitê de Crise é um grupo de pessoas com especialização em diferentes campos que coordena suas diversas habilidades para alcançar um objetivo comum durante uma situação crítica. Tem um presidente ou comandante que é o diretor-geral de todas as estratégias, planos e ações durante uma crise.

Formação do Comitê de Crises Um Comitê de Crises básico deve conter:

Um presidente (chefe de polícia da área);

Diretor geral de operações;

Diretor geral de planejamento;

Chefe da equipe de negociação;

Chefe do grupo tático;

Chefe de imprensa e difusão;

1 Cel. PM Adilson Bispo dos Santos – PMAL 1º Ten Alex Jorge das Neves – PMGO

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 15

Neves – PMGO Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Diretor de assessoria letrada; e

Juiz - Secretário - Fiscal.

Algumas das funções do Comitê de Crises serão:

Avaliar a conveniência ou não do corte de fornecimento de luz, gás, telefone,

água, etc.;

Avaliar e decidir a respeito de fornecer alimentos a captores e reféns;

Assessorar ao presidente sobre o possível curso das ações; e

Satisfazer os requerimentos em sua função específica (cada integrante) e as ordens do presidente.

Proposta de comitê para atuação nos conflitos agrários: prevenção, intervenção e resolução

Diante do que foi descrito anteriormente, deve-se pensar:

Como, preventivamente ou diante de um conflito, reunir os atores públicos ou não ligados às questões agrárias para juntos e coordenados, auxiliarem a polícia?

A organização de um comitê específico ou algo semelhante para resolução de um conflito, em determinada cidade ou estado, é possível e louvável e vai depender da força de vontade política dos maiores gestores de uma cidade, um estado ou país.

comitê pode ser:

Permanente (definitivo);

● Temporário (determinado mandato); ou

● Específico para solucionar determinado conflito.

Sua composição vai também depender dos interesses, casos, motivações e circunstâncias do(s) conflito(s).

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 16

conflito(s). Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página 16

Em relação à prevenção e resolução dos conflitos agrários, é possível reunir um grupo de órgãos e/ou especialistas que ser identificado como uma equipe multidisciplinar que dentro das esferas de competências e responsabilidades, atuará junto com a polícia na busca de uma solução possivelmente pacífica.

Vale ressaltar que em alguns estados da Federação, o Poder Judiciário tem se lançado na frente em busca da prevenção dos conflitos, instalando varas agrárias, em conformidade com a Constituição Federal, o que na prática termina funcionando como uma reunião de órgãos competentes, uma equipe multidisciplinar, para trabalhar preventivamente os conflitos, como acontece em Alagoas e Minas Gerais.

Essa iniciativa tem facilitado muito o trabalho das polícias, pois atua como órgão de prevenção dos conflitos agrários se tornando uma referência de auxílio quando acontecem.

O fundamental é entender a importância que todas as instituições possuem no processo de prevenção e resolução dos conflitos agrários e a necessidade de obrigatoriamente buscar auxílio e apoio dos órgãos competentes, alguns que já foram citados ao longo do curso e outros que você estudará agora.

Instituições envolvidas nas questões agrárias

ÓRGÃOS FEDERAIS Ministério do Desenvolvimento Agrário; Ministério do Meio Ambiente; INCRA; Ouvidoria Agrária Nacional; Fundação Nacional do Índio – FUNAI; Ministério Público Federal; Polícia Federal; Secretaria Especial dos Direitos Humanos; Defensoria Pública da União;

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 17

da União; Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Companhia Nacional de Abastecimento – CONAB; Forças Armadas – Marinha, Exército e Aeronáutica; Justiça Federal; Secretaria Nacional de Segurança Pública – SENASP. Câmara dos Deputados; Senado Federal; e Outros.

ÓRGÃOS ESTADUAIS Governo Estadual – Governador; Justiça Estadual; Instituto de Terra dos Estados; Secretarias Estaduais ligadas às questões Agrárias e ao Meio Ambiente; Secretarias Estaduais de Abastecimento de Água e Energia; Secretaria Estadual de Infraestrutura; Secretaria Estadual de Educação; Secretaria Estadual de Ação Social; Secretaria Estadual de Saúde; Secretaria de Segurança Pública Estadual ou similar; Polícias estaduais e Corpos de Bombeiros; Ministério Público Estadual; Defensoria Pública Estadual; Assembleia Legislativa; e Outros.

ÓRGÃOS MUNICIPAIS Governo Municipal – Prefeito; Secretaria Municipal de Infraestrutura ou similar; Secretaria Municipal de Educação; Secretaria Municipal de Ação Social; Secretaria Municipal de Saúde; e Câmara Municipal.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 18

Municipal. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página 18

ENTIDADES NÃO-GOVERNAMENTAIS Movimentos sociais ligados às questões agrárias; Conselhos e entidades de defesa dos direitos humanos; Movimentos sindicais em geral que se apresentem para ajudar na resolução; Central Única dos Trabalhadores – CUT; Ordem dos Advogados do Brasil – OAB; Sindicato dos Jornalistas (mídia em geral); e Outros.

OAB; Sindicato dos Jornalistas (mídia em geral); e Outros. Representantes do INCRA e Ouvidoria Agrária Nacional

Representantes do INCRA e Ouvidoria Agrária Nacional acompanhando a polícia num acampamento “sem-terra”, durante uma negociação em Alagoas – 2001.

Para refletir e descontrair:

Diante desta foto e das colocações durante a aula, como você avalia a sensação de um policial que ainda insiste em resolver um conflito agrário de forma isolada?

insiste em resolver um conflito agrário de forma isolada? Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 19

forma isolada? Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Conclusão

Aglomerações, multidões e turba são fases do comportamento coletivo.

As pessoas quando estão numa grande aglomeração, multidão ou turba, sendo motivadas por inúmeras questões, como movimentos sociais, políticos, catástrofes naturais, omissão ou falência de autoridade constituída, fanatismo religioso, motivos econômicos, dentre inúmeros outros, podem ter suas características individuais afloradas pelos seguintes fatores: número, sugestão e contágio e a imitação.

Toda situação onde existe uma diferenciação de ideias, posturas e/ou ações entre duas ou mais partes, que necessita da intervenção estatal exigindo uma resposta especial é denominada conflito.

Tratando-se de conflitos envolvendo movimentos sociais ligados às questões agrárias, eles geralmente se manifestam através de invasões e/ou ocupações de prédios públicos, bloqueio ou interdição de vias, invasões e/ou invasões de propriedade e cumprimento de ordem judicial de manutenção ou reintegração de posse.

Seja qual for a situação, independente do motivo que originou a ocorrência ou da região onde esteja, ao ser o primeiro a chegar ao local é imprescindível que você levante dados referentes à quantidade de participantes, a motivação do conflito, os causadores, o local da ocorrência e as armas.

Conter, isolar, negociar – estabilizar são técnicas utilizadas para a estabilização de conflitos.

A organização de um comitê específico ou algo semelhante para resolução de um conflito, em determinada cidade ou estado, é possível e louvável e vai depender da força de vontade política dos maiores gestores de uma cidade, um estado ou país.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 20

ou país. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Neste módulo são apresentados exercícios de fixação para auxiliar a compreensão do conteúdo. O objetivo destes exercícios é complementar as informações apresentadas nas páginas anteriores.

1.

Julgue a afirmativa abaixo, colocando F para falso e V para verdadeiro:

(

) As pessoas quando estão numa grande aglomeração, multidão ou turba, sendo

motivados por inúmeras questões, como: movimentos sociais, políticos, catástrofes naturais, omissão ou falência de autoridade constituídas, fanatismo religioso, motivos econômicos, dentre inúmeros outros, podem ter suas características individuais afloradas. E um desses fatores é a sugestão, que interfere diretamente no comportamento individual das pessoas, fazendo com que as pessoas aceite as idéias propagadas com maior facilidade, possibilitando o controle das pessoas,

direcionando-as ao cometimento inclusive de crimes e ações contrarias a lei.

2.

Julgue a afirmativa abaixo, colocando F para falso e V para verdadeiro:

(

) Nas situações de invasões e/ou ocupações de prédios públicos, bloqueios ou

interdições de vias, invasões e/ou ocupações de propriedades ou até mesmo cumprimento de ordem judicial de manutenção ou reintegração de posse - independente do motivo que originou a ocorrência ou da região onde esteja - ao ser o primeiro a chegar ao local não é imprescindível fazer alguns levantamentos para auxiliar na solução do conflito, pois, é melhor para administrar a referida crise sem essas informações.

3.

Julgue a afirmativa abaixo, colocando F para falso e V para verdadeiro:

(

) Em alguns estados da federação, o Poder Judiciário tem se lançado na frente em

busca da prevenção dos conflitos, instalando inclusive varas agrárias. A postura do

Poder Judiciário nesses casos, vai ao encontro das diretrizes e orientações da Ouvidoria Agrária Nacional, pois é mais um fator que visa fortalecer a resolução e prevenção dos conflitos agrários em nosso país.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 21

nosso país. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009 Página

Este é o final do módulo 3 Sistema de Gerenciamento de Conflitos Agrários e seus aspectos práticos

Gabarito

1. V

2. F

3. V

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última atualização em 22/06/2009

Página 22

1. V 2. F 3. V Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 3 SENASP/MJ - Última

Módulo 4 – Emprego operacional e documentação pertinente

Neste módulo, você estudará os procedimentos a serem realizados pela polícia durante uma reintegração de posse, desde o recebimento da ordem por parte da corporação, passando pelo processo de negociação e o cumprimento da ordem com a utilização do emprego legal da força e tropa. Destacando sempre a importância que se deve dar ao processo de negociação pelo fato de cumprir todas as exigências no campo moral, ético, legal e social, sem desconsiderar a possibilidade de uma solução com emprego tático de tropa e força.

Estudará também as informações necessárias que deverão compor o estudo de caso com a finalidade de registrar para análise, os procedimentos adotados e os modelos de documentação a serem preenchidos nas soluções dos conflitos agrários.

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

● Identificar as fases e procedimentos do processo de reintegração de posse;

● Classificar as informações preponderantes para o desenvolvimento de estudos de casos voltados para a resolução de conflitos agrários; e ● Identificar as informações que deverão compor os modelos básicos de documentação.

O conteúdo deste módulo está dividido em 3 aulas:

Aula 1 – Fases e procedimentos do processo de reintegração de posse

Aula 2 – Estudo de caso

Aula 3 – Modelo básico de documentação

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Página 1

documentação Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009 Página 1

Aula 1 – Fases e procedimentos do processo de reintegração de posse

Dentre os principais fatores geradores de tensão e conflitos no campo destacam- se:

● Inércia/inoperância do Estado;

● Ausência de audiência de conciliação precedendo a liminar de reintegração;

● Ausência de contato com o INCRA (oitiva prévia) sobre informações do imóvel, precedendo a liminar de reintegração;

● Dúvidas quanto à titularidade do imóvel;

● Ausência da participação/envolvimento do Ministério Público no processo;

● Compromissos não cumpridos – INCRA/GOVERNO;

● Ação violenta ou ilegal de grupo armado (milícia);

● Ação violenta ou ilegal dos movimentos sociais;

● Violência do aparelho estatal - Arbritariedade ou despreparo policial ; e

● Cumprimento de reintegração de posse.

A operação de reintegração de posse é uma atividade totalmente legal por ser devidamente amparada por uma decisão legítima e fundamentada, em que suas consequências estariam justificadas dentro da lógica do estrito cumprimento do dever, legítima defesa ou outra forma de ilicitude penal. Porém, muitas vezes, as consequências desse tipo de operação são negativas, trazendo transtornos e desgastes tanto para a imagem da corporação como para seus agentes, pois o emprego legal da força, por mais legítimo que seja, sempre será traumático.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Página 2

traumático. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009 Página 2

Com o objetivo de que a operação de reintegração de posse ocorra de forma pacífica, faz-se necessário estudar as suas fases, bem como os procedimentos correspondentes a cada uma.

Fases e procedimentos para o cumprimento de reintegração de posse de forma pacífica

É necessário deixar claro em todas as fases do processo do cumprimento da decisão judicial, que a participação da polícia, na reta final do evento, só está acontecendo por força de uma provocação legal do Poder Judiciário, a qual não é possível a omissão, sob pena de responder judicialmente.

Acompanhe todas as fases a partir de agora:

1ª fase – Recebimento mandado judicial

O mandado judicial é o documento que embasa todas as ações e garante o princípio

da legalidade para uma postura de polícia.

Procedimento: O mandado judicial geralmente é recebido pelo comandante da corporação que remete para o órgão encarregado pelos procedimentos para cumprimento.

2ª fase – Contato com o oficial de justiça (agendamento)

É necessário identificar se existe na corporação um grupo ou um policial especialista em mediação e negociação para atuar como elemento percussor (administração inicial).

Procedimento: É o responsável pela operação que será encarregada de manter contato com o oficial de justiça incumbido para agendar a visita ao imóvel.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Página 3

ao imóvel. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009 Página

Todo mandado judicial possui um oficial de justiça específico e responsável. Jamais compareça na área especificada no mandado como objeto da reintegração sem a presença do oficial de justiça, pois ele é o responsável pelo cumprimento da ordem judicial, onde a função da polícia a princípio é proporcionar a devida segurança para o mesmo.

princípio é proporcionar a devida segurança para o mesmo. Chegada das oficiais de justiça em imóvel

Chegada das oficiais de justiça em imóvel rural ocupado para inicio dos trabalhos de reintegração de posse, na companhia de policiais militares. Cidade de Maragogí/Al,

2005.

3ª fase – Contato com as autoridades e os órgãos envolvidos

Para uma solução do cumprimento de reintegração de forma mansa, pacífica e sem qualquer risco, é de suma importância envolver os órgãos necessários.

Procedimento: O responsável pela operação participar das reuniões junto aos demais órgãos.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Página 4

órgãos. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009 Página 4
Representantes do INCRA, do governo do estado e do Conselho Tutelar discutindo com as oficiais

Representantes do INCRA, do governo do estado e do Conselho Tutelar discutindo com as oficiais de justiça e polícia, o destino das pessoas despejadas, em especial as crianças.

4ª fase – Contato com o movimento social citado na ação

Essa fase é de fato a que mais representa uma mudança de postura da polícia durante uma operação de cumprimento de mandado de reintegração de posse primando pela resolução pacífica.

O fato é que o movimento social tem a CERTEZA e CLAREZA do ato irregular

praticado e que a qualquer dia a Justiça e a polícia irão visitar o imóvel objeto da ação para a devida desocupação legal.

Procedimento: O policial responsável pela ação tem que agir de forma transparente, evitando surpresas ou visitas à área em litígio no horário noturno ou coisa parecida.

Os integrantes do movimento presentes na área em litígio estão ansiosos, apreensivos

e temendo uma reação do proprietário ou, até mesmo, da polícia. Logo, qualquer

atividade sem o devido conhecimento do movimento social pode ser considerada como uma ação de repressão e daí trazer consequências irreparáveis.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Página 5

irreparáveis. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009 Página 5
Contato da polícia com integrantes do movimento social ocupante do imóvel objeto da ação. 5ª

Contato da polícia com integrantes do movimento social ocupante do imóvel objeto da ação.

5ª fase – Visita à área em litígio (com o oficial de justiça) para a negociação e cumprimento do mandado judicial de forma pacífica

A negociação poderá acontecer no local do acampamento ou em local neutro (até é preferível), dependendo das necessidades, pessoas, autoridades e órgãos envolvidos.

Procedimentos: Recomenda-se a elaboração de um relatório diário ( veja modelos na aula 3 deste módulo) pela polícia e uma certidão pelo oficial de justiça, informando ao juiz todos os procedimentos realizados durante a fase de negociação, principalmente, se a negociação necessitar de um prazo maior para seu desenrolar e conclusão, dependendo das pessoas, autoridades, órgãos envolvidos e complexidade do problema. Nesse caso é fundamental também o esclarecimento de todos os detalhes ao magistrado responsável pelo caso, para que o mesmo permita dentro de uma fundamentação lógica, uma prorrogação do prazo.

É necessário ter sempre em mente a necessidade de realizar todo e qualquer procedimento legal para garantir os objetivos da negociação e da resolução de conflito que são preservar as vidas e aplicar a lei a manutenção da ordem pública.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Página 6

ordem pública. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009 Página

Processo de negociação ocorrido em Alagoas

Processo de negociação ocorrido em Alagoas Policial e oficial de justiça, iniciando o processo de negociação
Processo de negociação ocorrido em Alagoas Policial e oficial de justiça, iniciando o processo de negociação

Policial e oficial de justiça, iniciando o processo de negociação em imóvel ocupado.

Alagoas/2004.

o processo de negociação em imóvel ocupado. Alagoas/2004. Reunião, no imóvel ocupado, entre oficial de justiça,

Reunião, no imóvel ocupado, entre oficial de justiça, Polícia Militar, INCRA, Instituto de Terras, Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, Ouvidoria Agrária Nacional, Comissão Nacional Contra a Violência no Campo e Movimento Social para discutir o cumprimento da decisão judicial de forma pacífica. Alagoas/2005.

6ª fase – Acompanhamento e segurança para a nova área

Caso tenham sido definidos todos os detalhes para o cumprimento pacífico da decisão judicial, é hora dos procedimentos para garantir a ação de fato pacífica e sem problemas. Para isso faz-se necessário compreender que estão lidando com pessoas, seres humanos que merecem toda consideração e atenção por parte do aparato público de segurança.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Página 7

de segurança. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009 Página

Procedimentos: Nessa fase é preciso ajustar todos os detalhes para garantia de uma transferência confortável e segura para o novo espaço físico onde as famílias permanecerão.

O espaço deve ser escolhido e apresentado pelas lideranças do movimento, podendo

(recomendável) a identificação do novo espaço para acomodação das famílias ser discutido e ajustado durante as negociações.

O policial responsável pela ação cuida do suporte logístico de caminhões e ônibus

para os deslocamentos e, se for o caso, para outros materiais como lona, alimento,

etc.

Auxilie no ajuste de todas as pendências e responsabilidades entre os órgãos envolvidos, durante o processo de negociação.

É fundamental que a polícia acompanhe todos os procedimentos e assegure o

cumprimento de todas as promessas para garantir o RESPEITO, a CONFIANÇA e, principalmente, a CREDIBILIDADE para as próximas ações.

principalmente, a CREDIBILIDADE para as próximas ações. Negociando e definindo um novo espaço para acomodação das

Negociando e definindo um novo espaço para acomodação das famílias.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Página 8

das famílias. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009 Página
Chegada ao novo espaço físico para acomodação das famílias com segurança. A polícia não se

Chegada ao novo espaço físico para acomodação das famílias com segurança.

A polícia não se envolve e nem determina o novo local para onde as famílias despejadas devem ir, ficando a escolha sob responsabilidade direta e total do próprio movimento, através de suas lideranças. Compete a polícia apenas a observação quanto ao novo local no sentido de garantir que seja um espaço público permitido ou privado, previamente consentido.

7ª fase – Conclusão atestada em certidão pelo oficial da justiça

Essa fase indica o término da operação de cumprimento de reintegração pacífica.

Procedimentos: O oficial de justiça deverá atestar em certidão própria todos os procedimentos presenciados para o cumprimento do mandado judicial, cuja cópia deverá ser entregue ao policial responsável pela operação para que anexe ao relatório que deverá ser confeccionado.

8ª fase – Confecção de relatório

Finalizada a operação.

Procedimentos: Concluída as atividades, o policial responsável pela operação deverá elaborar os relatórios específicos, que deverão ser enviados ao juiz responsável, através do comandante da corporação e para o INCRA, além de cópias para todas as autoridades e órgãos que participaram das atividades para o cumprimento da sentença judicial de forma mansa e pacífica.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Página 9

e pacífica. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009 Página

Procedimentos para o cumprimento de reintegração de posse com a possibilidade do emprego legal da força Você já estudou as fases e procedimentos do cumprimento do mandato de reintegração de posse de forma pacífica, agora irá estudar a utilização do emprego legal da força para o cumprimento, ou seja, utilização da tropa pertencente a Polícia Militar que é a força estatal, geralmente, definida para essa mister (ação necessária ou forçosa).

Inicialmente, lembre-se dos princípios relacionados ao emprego legal da força, quanto à legalidade, necessidade e, principalmente, proporcionalidade.

Procedimentos obrigatórios

O cumprimento de reintegração de posse, com a possibilidade do emprego legal da força, irá requerer seis procedimentos obrigatórios:

Quantidade de efetivo;

Composição do efetivo para a operação;

Logística da operação;

Definição de um perímetro tático;

Definição das autoridades e órgãos indispensáveis para acompanhamento da operação; e

Definição prévia de local para acomodação das crianças e idosos.

Veja cada um deles nas próximas páginas.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Página 10

páginas. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009 Página 10

Quantidade do efetivo

Razão proporcional ideal – Dois policiais para cada ocupante.

Composição do efetivo para operação:

equipe deverá ser composta considerando os alguns critérios.

Critérios para a composição da equipe

- Policiais masculinos e femininos desarmados compondo a tropa de aproximação e contato (auxiliar na retirada dos objetos, caso solicitado);

- Tropa de Controle de Distúrbios Civis equipada com a maior quantidade possível de equipamentos,

armas e munições de baixa letalidade ou de menor potencial ofensivo e efetivo proporcional ao número de ocupantes;

- Policiais armados fazendo uma linha na retaguarda para proteção, preferencialmente, uma tropa

especializada. Recomenda-se que todos as armas utilizadas na operação sejam previamente acauteladas

e identificadas individualmente pelo policial responsável;

- Policiais montados para garantir o controle dos perímetros definidos;

- Número de oficiais suficientes para garantir o comando de todas as frações;

- Policiais religiosos responsáveis pela capelania da corporação, se existir. Numa perspectiva de sempre apostar numa solução pacífica, a presença e o contato de um padre ou pastor pregando os ensinamentos de Deus para os ocupantes, pode ser preponderante para uma solução;

- Policiais pertencentes ao serviço reservado para os devidos levantamentos;

- Número regular de policiais que conheça a região; e

- Policiais da área de saúde equipados com ambulância própria e equipamentos necessários para primeiros socorros.

Logística da operação

A logística de operação que envolve a necessidade de:

• Transporte adequado e confortável para a tropa e os animais utilizados;

• Caminhão QT nos casos de incêndio;

• Aeronave, preferencialmente, helicóptero para sobrevoo, resgate e apoio no

cumprimento da ordem;

• Transporte e material necessário para transferência dos “despejados”;

• Alimentação e água para tropa e animais utilizados;

• Suporte de comunicação;

• Equipamento e armamento; e

• Diárias correspondentes (se for o caso).

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Página 11

for o caso). Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Definição do perímetro tático

● Definição do perímetro tático ● Definição das autoridades e órgãos indispensáveis para acompanhamento da

Definição das autoridades e órgãos indispensáveis para acompanhamento da operação:

As autoridades e os órgãos serão aqueles que auxiliarão a polícia.

Definição prévia de local para acomodação das crianças e idosos:

Entendimento com o juiz ou oficial de justiça pela obrigatoriedade de tratamento especial que se deve estabelecer para as crianças e idosos, não os colocando em situação de risco, conforme orientação dos Estatutos da Criança e Adolescente e do Idoso, respectivamente.

Aula 2 – Estudo de caso

O estudo de caso é uma técnica que permite a identificação de informações que

devem ser reunidas para registrar e produzir uma análise de todos os procedimentos adotados no sentido de garantir:

● A repetição mais qualificada nos próximos incidentes dos acertos;

● A reflexão sobre a ação; e

● A correção dentro do que for classificado como “equívocos”.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Página 12

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009 Página 12

Como fazer? Em síntese, seria uma análise e observação atenta do que aconteceu, acontece ou poderá acontecer. Para isso é importante a identificação das informações e registros necessários para sua elaboração. Pode variar de acordo com os procedimentos, necessidades e eventos. No caso específico de resolução de conflito agrário deverão ser reunidas algumas informações, que você verá a seguir.

Informações necessárias para resolução de conflito agrário

Objetivos (da missão e do próprio estudo de caso);

Número de invasões (quantas vezes o imóvel foi ocupado e/ou invadido);

Número de reintegrações (quantas vezes o imóvel foi objeto de sentença judicial);

Data do recebimento do mandado judicial de reintegração de posse;

Data do cumprimento da decisão judicial de reintegração de posse; Forma do cumprimento da decisão judicial (pacífica ou pelo emprego legal da força);

Executantes (oficial de justiça, policiais ou agentes responsáveis pela operação e efetivo empregado, se for caso);

Viaturas e/ou veículos empregados;

Representante do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos ou de uma ONG que acompanhou os procedimentos para o cumprimento da sentença judicial;

Representante do Instituto de Terras, INCRA ou outro órgão governamental que acompanhou os procedimentos para o cumprimento da sentença judicial;

Movimento social impetrado (envolvido na ocupação e/ou invasão);

Sequência das ações (relato dos procedimentos adotados, especificando separadamente todos os dias, se for o caso); e

Autoridade responsável pelo estudo de caso.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Página 13

de caso. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009 Página

Aula 3 – Modelos básicos de documentação

Nesta aula, você terá acesso a dois modelos de relatórios:

- Relatório diário de ocorrência; e

- Relatório de cumprimento de reintegração de posse de forma pacífica ou com emprego legal da força.

Ambos são documentos importantes como registro da atuação policial.

Relatório diário de ocorrência

O relatório diário de ocorrência tem por objetivo o registro dos procedimentos realizados durante as atividades para o cumprimento da reintegração de posse de forma mansa e pacífica, como também dos registros diários das ocorrências relacionados aos conflitos agrários.

Torna-se importante por se tratar de registros oficiais que permanecerão arquivados

e servindo de análise, acompanhamento das atividades e, principalmente, estudos.

Veja um modelo de relatório diário de ocorrência (Anexo 1).

Relatório de cumprimento de reintegração de posse

Utilizado para registrar em documento próprio todas as atividades realizadas para o cumprimento da ordem judicial de reintegração de posse. Ele é muito importante, pois servirá de base para os registros oficiais nos autos, materializando o cumprimento, bem como servirá de registro para o INCRA, quanto ao registro da data da ocupação e cumprimento, para efeito de atendimento dentro do que está estabelecido em lei que imóvel ocupado e/ou invadido deve permanecer por dois anos impedido de qualquer providência para fins de reforma agrária e, caso seja ocupado e/ou invadido novamente, o prazo será dobrado.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Página 14

será dobrado. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009 Página

Veja um modelo de relatório de cumprimento de reintegração de posse (Anexo

2).

Conclusão

A operação de reintegração de posse é uma atividade totalmente legal por ser devidamente amparada por uma decisão legítima e fundamentada, em que suas consequências estariam justificadas dentro da lógica do estrito cumprimento do dever, legítima defesa ou outra forma de ilicitude penal.

É importante destacar que a participação da polícia, na reta final do evento, só acontece por força de uma provocação legal do Poder Judiciário, a qual não é possível a omissão, sob pena de responder judicialmente.

Para que a operação de reintegração de posse ocorra de forma pacífica, envolve procedimentos adequados para cada uma das suas fases. É fundamental que a polícia acompanhe todos os procedimentos e assegure o cumprimento de todas as promessas para garantir o RESPEITO, CONFIANÇA e, principalmente, CREDIBILIDADE para as próximas ações.

Além do respeito aos princípios relacionados ao uso progressivo da força, quanto à legalidade, necessidade e, principalmente, proporcionalidade, o cumprimento de reintegração de posse com a possibilidade do emprego legal da força requer que se pense em quatro procedimentos obrigatórios: quantidade de efetivo, composição do efetivo para a operação, logística da operação, definição de um perímetro tático, definição das autoridades e órgãos indispensáveis para acompanhamento da operação e definição prévia de local para acomodação das crianças e idosos.

Finalizando o estudo do módulo, você teve acesso a técnica de estudo de caso e aos relatórios utilizados para registrar as atividades realizadas durante o processo de reintegração de posse.

Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009

Página 15

de posse. Resolução de Conflitos Agrários – Módulo 4 SENASP/MJ - Última atualização em 09/07/2009 Página

Referências bibliográficas

A questão agrária e a Justiça. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000.

ABREU, Bianca Maria da Conceição. A função social do Poder Judiciário no conflito agrário. Monografia em bacharelado em Direito – ONESA, 2002.

BALESTRERI, Ricardo Brisola. Direitos humanos: coisa de polícia. Passo Fundo: CAPEC,

1998.

BEDIN, Edivar. O gerenciamento de conflitos agrários pela PMSC. Monografia apresentada ao curso de pós-graduação lato sensu em Gestão Estratégica em Segurança Pública. UNISUL, Florianópolis: 2007.

BRASIL. Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964. Estatuto da Terra.

BRASIL. Programa Paz no Campo. Brasília.

BRASIL. Plano Na