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Introdução aos estudos históricos

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Cyntia Simioni França Evandro André de Souza Jó Klanovicz Paulo César dos Santos Julho Zamariam

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Evandro André de Souza Jó Klanovicz Paulo César dos Santos Julho Zamariam Estudos_historicos.indb 3 20/06/14 11:36

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© 2014 by Editora e Distribuidora Educacional S.A.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A.

Diretor editorial e de conteúdo: Roger Trimer Gerente de produção editorial: Kelly Tavares Supervisora de produção editorial: Silvana Afonso Coordenador de produção editorial: Sérgio Nascimento Editor: Casa de Ideias Editor assistente: Marcos Guimarães Revisão: Mônica Rodrigues dos Santos Diagramação: Casa de Ideias

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

F837i

França, Cyntia Simioni Introdução aos estudos históricos / Cyntia Simioni França, Evandro André de Souza, Julho Zamariam, Jó Klanovicz, Paulo César dos Santos. – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2014. 176 p.

ISBN 978-85-68075-25-8

1. Conceitos. 2. História. I. Souza, Evandro André de. II. Zamariam, Julho. III. Klanovicz, Jó. IV. Santos, Paulo César dos. V. Título.

CDD-930.1

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Julho. III. Klanovicz, Jó. IV. Santos, Paulo César dos. V. Título. CDD-930.1 Estudos_historicos.indb 4 20/06/14 11:36

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Sumário

Unidade 1 — Conceitos da história

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Seção 1 Conceituando a história

2

1.1 O que é história

2

1.2 A história e as ciências

5

1.3 A história em suas diferentes épocas

7

Seção 2 Conceitos históricos: historiografia

13

2.1 Historiografia tradicional

13

2.2 Escola dos Annales e o papel do historiador

16

2.3 Escola

marxista

18

Seção 3 A história e seu campo de renovação

22

3.1 Renovação historiográfica

22

3.2 Uma nova história?

25

Unidade 2 — As fontes históricas

35

Seção 1 Definição das fontes históricas

38

1.1 Introdução

38

1.2 A problemática das fontes históricas

38

Seção 2 As fontes históricas

44

2.1 Introdução

44

2.2 As fontes históricas como relatos

44

Seção 3 Tipos de relatos ou documentos

53

3.1 Introdução

53

3.2 Documentos escritos publicados e não publicados

53

3.3 Documentos

visuais

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3.4 Documentos

orais

57

3.5 Documentos

multimidiáticos

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55 3.4 Documentos orais 57 3.5 Documentos multimidiáticos 59 Estudos_historicos.indb 5 20/06/14 11:36

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vi INTRODUçÃO

AOS

ESTUDOS

HISTÓRICOS

Seção 4 A metodologia da pesquisa e a análise de fontes históricas

62

4.1 Introdução

62

4.2 A pesquisa e o uso das fontes históricas

62

Unidade 3 — O fazer histórico: os sujeitos e o espaço do historiador

Seção 1 O fazer histórico

1.1 O conhecimento histórico

Seção 2 O fato histórico

2.1 O fato histórico no fazer do historiador

Seção 3 Funções sociais de historiadores e historiadoras

3.1 Funções da história e o ensino

Seção 4 Outras histórias

4.1 História fragmentada

Unidade 4 — O tempo e a história

Seção 1 Definições de tempo para a história

1.1 Definições de tempo para a história

Seção 2 As principais concepções de tempo na atualidade

2.1 As principais concepções de tempo na atualidade

Seção 3 Temporalidade e duração

3.1 Temporalidade e duração

Seção 4 A temporalidade no ensino de história

4.1 A temporalidade no ensino de história

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Apresentação

“O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história.”

(Walter Benjamin)

Caros alunos, convidamos vocês para uma viagem! Nesta obra dirigida especialmente aos alunos de graduação de História, fundamentam os con- teúdos abordados na disciplina Introdução aos estudos históricos, sendo assim, reúne questões teóricas e práticas acerca da História.

A abordagem embasa-se na importância do entendimento do sentido da História no âmbito da produção historiográfica, bem como as possibilidades de produção do conhecimento histórico. O que nos interessa compreender como os historiadores concebem seu trabalho? O que pretendem com o seu ofício? Quais as suas fontes de análises? Nesse sentido, considera-se impor- tante analisar o papel do historiador e suas diferentes abordagens e procedi- mentos históricos às fontes históricas durante a realização de uma pesquisa.

Serão também realizadas discussões que contemplem o espaço, o tempo, o fato e os sujeitos históricos. Conceitos fundamentais para a compreensão das diferentes concepções de História.

Espero que aproveitem os debates propostos nas diferentes unidades de estudo e tenham um bom semestre.

Cyntia Simioni França

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diferentes unidades de estudo e tenham um bom semestre. Cyntia Simioni França Estudos_historicos.indb 7 20/06/14 11:36

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Unidade 1 Conceitos da história Cyntia Simioni França Objetivos de aprendizagem: Esta unidade tem o
Unidade
1
Conceitos da história
Cyntia Simioni França
Objetivos de aprendizagem: Esta unidade tem o objetivo de levar
você, aluno, a compreender o que é “história” e a sua função so-
cial. Para alcançar esse propósito, vamos refletir sobre as diferentes
concepções de história, desde o século XIX até a atualidade, bem
como compreender o papel do historiador.
Conceituando a história
Seção 1:
Nesta seção você será levado a compreender o que é
história, a função social do conhecimento histórico e
a
história no contexto das ciências humanas.
Conceitos históricos: historiografia
Seção 2:
Nesta seção você estudará os modos que se produz
a
história e as diferentes concepções historiográficas.
A história e seu campo de renovação
Seção 3:
Nesta seção você irá estudar os campos de renovação
historiográfica da história e perceber o que a distin-
gue dos modos de conceber a história em épocas
anteriores. Ao final desta unidade poderá perceber
que a história passou por muitas transformações e
por isso também a consideramos um conhecimento
que está sempre em construção.

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isso também a consideramos um conhecimento que está sempre em construção. Estudos_historicos.indb 1 20/06/14 11:36

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2 INTRODUçÃO

AOS

ESTUDOS

HISTÓRICOS

Introdução ao estudo

Nesta unidade não apresentaremos respostas acabadas às questões levan- tadas sobre o que é história, nem indicaremos qual a concepção que deve ser seguida, mas propomos apresentar as diferentes maneiras de se escrever e refletir a história, levando também em conta que o historiador é um sujeito da sua história e que escreve a partir do seu olhar do presente e, por isso, pode determinar a forma como analisa o seu objeto de estudo. O velho provérbio árabe já dizia que os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais. Nesse sentido, o homem diante das inquietações do seu presente debruça seu olhar sobre o passado.

Iniciamos o debate indagando: afinal, o que é história? Recorremos a al- guns historiadores de diferentes épocas e concepções. Para Leopold von Ranke (1790-1880), a história era para mostrar o que realmente ocorreu no passado. Enquanto para Marc Bloch (2001), a história é a ciência dos homens no tempo. O historiador Edward Thompson (1981) entende que a história é a compreensão das várias faces do fazer humano que faz parte das experiências vividas. Ainda para Walter Benjamin (1985) a história é objeto de uma construção, e seu lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo “saturado de agoras”.

As diferentes explicações são necessárias para entendermos que os modos de compreender a história são diferentes pelos historiadores e nesse sentido o campo de investigação fica aberto ao debate. Vamos iniciar as reflexões?

Seção 1

Conceituando a história

Nesta seção você será levado a compreender sobre conceito de história, a função social do conhecimento histórico e a história e sua relação com as ciências. E iremos estudar:

que é história.e sua relação com as ciências. E iremos estudar: história e as ciências. história em suas

história e as ciências.com as ciências. E iremos estudar: que é história. história em suas diferentes épocas. O A

história em suas diferentes épocas.iremos estudar: que é história. história e as ciências. O A A 1.1 O que é

O

A

A

1.1 O que é história

No início do ano letivo, a primeira pergunta a ser feita para o professor de história pelos seus alunos tanto no curso de graduação de história como também

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pelos seus alunos tanto no curso de graduação de história como também Estudos_historicos.indb 2 20/06/14 11:36

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Conceitos da história

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na educação básica é: afinal, o que é história? Para quê serve estudar a história?

E com grande empenho o professor explica para seus alunos que a história é o estudo das ações e práticas dos homens no tempo e no espaço.

A história é construída a partir das vivências e ações cotidianas. Assim, o

objeto de estudo da história é o homem em sociedade, parafraseando Bloch (2001), onde encontramos carne humana é digno de investigação histórica.

Nesse sentido, ao estudar a história busca-se entender as condições de nossa realidade. Ao pensar em história necessariamente podemos relacioná-la

à história vivida, já que se constrói a história todos os dias. Fazemos parte da história e desempenhamos um papel importante enquanto sujeitos históricos,

na sociedade. Sendo assim, a história é tudo que conseguimos perceber e narrar

] o cronista que

narra os acontecimentos sem distinguir entre os grandes e os pequenos leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história”.

Assim, com a história podemos compreender as ideias, as culturas, os sen- timentos, os comportamentos, as atitudes e as práticas culturais dos agentes históricos, e construir narrativas históricas, a partir de múltiplas formas. Benja- min (1985) compartilha desse pensamento ao chamar a atenção para perceber as mudanças menos perceptíveis, uma vez que as experiências dos homens se manifestam não apenas através de lutas políticas, mas também por meio dos valores, imagens e sentimentos.

Dessa maneira, entendemos que por meio das experiências os sujeitos são

reinseridos na história, abrindo um campo de potencialidades, e um elo com

homens e

a sua “cultura”, que, segundo Thompson (1981, p. 182), os “[

mulheres experimentam sua experiência como sentimento e lidam com esses

sentimentos na cultura, como normas, obrigações familiares e de parentesco,

e reciprocidades”.

A história discute a temporalidade das experiências humanas, que são

sobre a vida dos homens. Segundo Benjamin (1985, p. 223), “[

]

mediatizadas pelas relações sociais. Esse discutir estabelece um diálogo entre presente e o passado e organiza as memórias, definidas a partir de múltiplas construções históricas. Assim, a história nos possibilita compreender as expe- riências dos homens, visando entender as práticas coletivas em sua dinâmica

de mudanças e permanências.

Com a história não devemos recuperar a experiência dos agentes históricos

em outras épocas, pois sabemos que “[

irrecuperável é cada imagem do

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em outras épocas, pois sabemos que “[ irrecuperável é cada imagem do ] Estudos_historicos.indb 3 20/06/14

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AOS

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HISTÓRICOS

passado que se dirige ao presente, sem que esse presente se sinta visado por

ela” (BENJAMIN, 1985, p. 224). Porém, podemos recuperar as suas diversas representações, visto que ao articular o passado não significa conhecê-lo como

de fato foi, mas significa “[

relampeja no momento de um perigo” para fazer emergir o que não foi reali- zado no passado, inscrevendo no presente seu apelo para um futuro diferente (BENJAMIN, 1985, p. 224).

Assim, não é o passado que coloca suas perguntas, mas o olhar do historia- dor, a partir do seu presente frente ao passado e levanta os questionamentos. Porém, o presente não é apenas o ponto de passagem entre o progresso e o futuro como define a concepção historicista. Mas o presente é o tempo da ação dos homens (tempo de construção), já o passado é o tempo da experiência única. Então, quando Benjamin (1985) ressalta que a história é o tempo do presente, entendemos como o de possibilidades de mudanças, aberto em todos os mo- mentos à invasão imprevisível do novo.

Portanto, a relação entre passado e presente estabelece-se de modo dinâ- mico, de tal forma que a memória histórica é constantemente reconstituída. Mas a memória não é apenas um instrumento para a exploração do passado. É o meio em que se deu a vivência, assim como o solo é o meio onde antigas cidades estão soterradas. Quem pretende se aproximar do próprio passado deve agir como um homem que escava. Antes de tudo, não deve temer voltar sempre ao mesmo fato, espalhá-lo como se espalha a terra, revolvê-lo como se revolve o solo. Pois fatos nada são além de camadas que apenas a exploração mais cuidadosa entrega àquilo que recompensa a escavação (BENJAMIN, 1995, p. 239).

Mas como o historiador pode avançar no campo da memória para encon- trar os achados (os cacos da história)? Por um corte cuidadoso transversal, mas também investigando o desconhecido, o obscuro. E se engana o historiador que só faz o inventariado dos achados e não sabe qual o lugar desse achado nos dias de hoje. A verdadeira lembrança para Benjamin (1995) não deve apenas indicar as camadas das quais se originam seus achados, mas explicar as “outras” camadas que foram atravessadas.

Assim, a rememoração em Benjamin (1985) no ato de produzir histórias tem por tarefa a construção de constelações de ideias que ligam camadas diferentes que são perpassadas umas às outras (como o passado contido no presente). Tais

apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela

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contido no presente). Tais apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela ] Estudos_historicos.indb 4 20/06/14 11:36

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constelações possibilitam explodir o “continuum da história”*. Dessa forma, as relações do passado e presente são redimensionadas numa relação dialética. O passado ressurge no presente num movimento dinâmico de reconstrução, não de repetição (do sempre igual), nem mesmo de mera sucessão de fatos ou evolução dos acontecimentos históricos.

Enfim, fica o convite para nós enquanto sujeitos históricos interromper o percurso do continuum da história e salvá-la dos esquemas simplificadores e reducionistas que conduzem às interpretações vazias de sentidos e significados. Benjamin (1985) convida também a escovar a história a contrapelo, ou seja, de inventar práticas culturais “outras”, trazer à tona novos sujeitos, objetos e temáticas para o campo da investigação histórica, buscar as vozes que foram esquecidas na história oficial.

O que implica pensar em uma reconstrução da história na sua plenitude, sem dissociar o sentir, o pensar e o agir no tempo. Benjamin (2007, p. 241) direciona esse trabalho pelos caminhos das ruínas, recolhendo os cacos no presente: “O colecionador/historiador quer salvar na sua arca” o máximo possível de ruínas da tempestade, do seu destino desprezível, ocultado pela história oficial. Portanto, para os historiadores da ruína, ainda há história para ser escrita, uma história silenciada que está à espera do presente e de todos nós para ser revelada.

à espera do presente e de todos nós para ser revelada. Questões para reflexão Discuta essa

Questões para reflexão

Discuta essa questão com os colegas, com base no que foi apresentado:

qual a função social da história?

1.2 A história e as ciências

Iremos discutir algumas problemáticas relacionadas à história. Será que a história pode ser enquadrada como outras áreas do conhecimento? É possível um conhecimento histórico verdadeiro? Cabe ao historiador apresentar res- postas ao passado?

Thompson (1981) defende uma lógica para a história que se distancia de uma lógica de laboratório que pode ser comprovada a partir de experimentos

* A continuidade da história, a partir da ideologia dominante, pautada no tempo homogêneo, cronoló- gico e vazio.

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da ideologia dominante, pautada no tempo homogêneo, cronoló- gico e vazio. Estudos_historicos.indb 5 20/06/14 11:36

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ESTUDOS

HISTÓRICOS

científicos, e propõe algo que não seja mensurável nem generalizado, mas pertinente aos seres humanos. Isso porque a história nunca oferece as condi- ções para experimentos idênticos e muito menos passíveis de serem repetidos. Nesse sentido, o passado histórico é o objeto de investigação e seu próprio laboratório experimental.

Assim, o autor entende que a história é diferente das ciências exatas (como

a física) porque não oferece causas suficientes para impor regras pré-estabele-

cidas, e, por isso, a lógica histórica está estritamente adequada ao que deno-

minamos materiais históricos, pois as lógicas do processo social e econômico estão sendo continuamente infringidas pelas contingências (movimentos), de modo que invalidaria qualquer regra nas ciências experimentais.

Nesse sentido, entende-se a história como uma desordem racional. Thomp- son (1981) explica que a história é desordem no sentido de que ela é uma pesquisa empírica do objeto e para que ocorram suas análises devem-se con- siderar as particularidades, as contradições, as ambiguidades e as rupturas. Essa concepção perturba qualquer procedimento de lógica analítica, pois as ciências experimentais ocupam-se de termos sem ambiguidades.

Além disso, Thompson (1981) argumenta que o objeto de investigação da história é o real, ou seja, os indivíduos que estiveram ou estão em sociedade e que são sujeitos incompletos e imperfeitos, por isso que a “verdade histórica”

é relativa, haja vista que cada sujeito fala do seu local de pertencimento na

sociedade. Assim o autor complementa que a história é provisória, algo pró- prio do seu campo, e está distante de se equipar com outros paradigmas do conhecimento, pois uma nova fonte ou diferente interpretação pode alterá-la, ou trazer uma pluralidade de interpretações sobre um mesmo evento histórico.

A história nesse sentido não produz a “verdade”, mas “verdades históricas”, assim, entendemos que tal conceito é amplo, pois não existe uma história

absoluta; ela está sempre em construção. Porém, não significa afirmarmos que

o status ontológico do passado se modifica, o que aconteceu com os indivíduos

não se altera, pois o passado se foi. É o conhecimento histórico que se modifica

de acordo com as preocupações de cada época. A cada nova geração podem surgir perguntas diferentes, inquietações ligadas a seu próprio tempo e que podem trazer à tona outros pontos de vista, ou seja, interpretações múltiplas sobre o mesmo evento histórico e é nesse sentido que os produtos da investi- gação histórica estarão sempre sujeitos à modificação. Então, ao construir a história discutimos as várias faces de um acontecimento e o historiador por

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a história discutimos as várias faces de um acontecimento e o historiador por Estudos_historicos.indb 6 20/06/14

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Conceitos da história

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meio das evidências (fontes) apresenta um conhecimento em desenvolvimento que indica apenas aproximações e provisoriedades.

1.3 A história em suas diferentes épocas

provisoriedades. 1.3 A história em suas diferentes épocas Para saber mais Thompson, por conta do seu
Para saber mais Thompson, por conta do seu pen- samento divergente dos colegas historiadores da
Para saber mais Thompson, por conta do seu pen- samento divergente dos colegas historiadores da
Para saber mais Thompson, por conta do seu pen- samento divergente dos colegas historiadores da
Para saber mais Thompson, por conta do seu pen- samento divergente dos colegas historiadores da
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Para saber mais

Para saber mais Thompson, por conta do seu pen- samento divergente dos colegas historiadores da Nova
Para saber mais Thompson, por conta do seu pen- samento divergente dos colegas historiadores da Nova
Thompson, por conta do seu pen- samento divergente dos colegas historiadores da Nova Esquerda Inglesa,

Thompson, por conta do seu pen- samento divergente dos colegas historiadores da Nova Esquerda Inglesa, rompe com a sua escola histórica e também com o Partido Comunista e faz escolhas diferen- tes, ao optar escrever de forma divergente e independente dos historiadores da época (1956).

Ao longo dos anos, a história teve diferen- tes preocupações bem como maneiras dife- renciadas de ser escrita. Retomando a palavra história, logo encontraremos na Grécia He- ródoto (pai da história) empregando o termo História, no século V a.C, advertindo que pretendia escrever a presente história a fim de que as ações dos homens não se deixassem apagar no tempo. Assim, predominavam as

narrativas mitológicas. Já os romanos acentua- ram o caráter utilitário da história, apresentando uma história com intenções morais e patrióticas. Com a chegada da Idade Média houve uma atribuição filosófica à história, com livros sagrados, baseados na sucessão cronológica dos acontecimentos, marcados por espaços bem determinados.

No Renascimento, a história se fazia presente em duas atividades intelec- tuais: na erudição, laica e eclesiástica, e na filosofia. Os antiquários, conhe- cedores de línguas desaparecidas e especialistas no Antigo, ocupavam-se da erudição laica, limitando-se a comentar a história fixada pelos greco-romanos. No campo da erudição eclesiástica, a história desenvolveu-se levada pela ne- cessidade da Igreja de inventariar e exaltar o conjunto das tradições cristãs, em confronto com a corrente protestante.

No século XVI, a velha tradição que remonta ao Renascimento instala a repartição entre história sagrada e profana buscando uma nova identidade. Os eruditos modernos comentavam sobre historiadores antigos e consagra- vam as belas-letras, já os antiquários caminhavam em busca de fontes não literárias, desenterravam monumentos, moedas, pedras, cavernas, inscrições rupestres, vestígios históricos. Sustentavam discussões e pesquisas sobre os costumes, instituições, arte e, também, a análise cronológica dos regimes bem como dos governos.

Na segunda metade do século XVII nasce a ideia de que existe uma histó- ria universal. O antiquário transforma-se em um crítico da história e também

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HISTÓRICOS

um escritor da mesma. Período em que os materiais de pesquisa passam a ser diversificados por meio de publicações de anais, memórias e compilações. A história dessa forma é apenas uma narrativa não rígida no que diz respeito aos conteúdos, mas mantém os padrões estéticos e morais, como se fosse um trabalho de um escritor (FURET, 1967).

O Renascimento provocou uma série de mudanças no seu percurso. A cul- tura clássica deixa de ser passado, é vista como presente e a história não mais como um recomeço, mas um progresso. Sendo assim, a história da civilização acaba sendo escrita com o objetivo de levar à compreensão do seu próprio tempo, pois “reúne tudo aquilo que se relaciona com o saber das sociedades humanas” (FURET, 1980, p. 114).

Devido ao monopólio jesuítico no período renascentista, a história estava restrita à erudição e à filosofia, assim, o conhecimento disseminado na época voltava-se para a História Sagrada e para as leituras de Cícero.

Identifica-se que do século XI ao XVII os acirramentos teológico-políticos

tendência

presente nas histórias oficiais: produzir por intermédio da história política ou religiosa os elementos históricos favoráveis à causa defendida pelo historiador. Caberia então à história proporcionar provas e argumentos às partes em litígio” (FALCON, 1997, p. 63).

Nota-se um fato interessante, pois desde aquela época histórica, a história desenvolveu-se por necessidade da Igreja construir e exaltar os valores das tradições cristãs, em confronto naquele momento com os protestantes, por isso ficou conhecida como área de erudição eclesiástica.

É colocada em xeque no século XVIII a questão de que a tradição clássica sobre a história não passa de um anexo das belas-artes. Sendo assim, os deuses gregos bem como os santos românicos começam a desmoronar. Quanto às fábu- las do Olimpo e aos mártires cristãos, esses são modificados em um acervo de utopias e absurdos. Essa derrota histórica mistura-se à obsessão pelo moderno. As elites europeias desde o Renascimento viviam com uma identidade retirada da Antiguidade, mas a partir daí são obrigadas a se debater com a discussão aca- demicista dos antigos e dos modernos (HEGEL, 1990). Nesse período surge a necessidade da investigação histórica moderna, com o propósito de colocar em prática os processos da razão crítica à exploração da antiguidade cristã. Isso porque os protestantes e os polêmicos católicos aplicados em comprovar suas teses propiciaram uma investigação e crítica rígida frente aos documentos

consequentes da Reforma Protestante contribuíram para a “[

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aos documentos consequentes da Reforma Protestante contribuíram para a “[ ] Estudos_historicos.indb 8 20/06/14 11:36

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cristãos, como exemplo, a própria Bíblia passa a ser alvo de discussões e vai de encontro à corrente erudita.

Aliada a essas mudanças pode-se ressaltar que na Idade Moderna a história política apresenta três qualidades: primeiramente mantém a função de “mestra da vida”, no entanto, os humanistas fazem uso também no ensino da retórica; segundo porque a partir das influências de Maquiavel destacava-se que a história apenas dava conta de ensinar a política e distanciava-se da ética e da moral; e por

último, intensificavam as histórias ligadas aos Estados territoriais ou dinásticos, precursora das histórias nacionais voltadas para o conceito de Estado-nação. Assim, os pensadores iluministas como Montesquieu, Voltaire e Rousseau buscam na história dos povos, não apenas o espetáculo das diferentes religiões

e

dos costumes, mas o significado de um mundo liberto da sagrada escritura

e

livre ao progresso.

Entretanto, a historiografia da Ilustração demonstra que o estudo do passado

] se

a história não é ensinada, é porque não está constituída em matéria ensinável” (FURET, 1980, p. 115).

Somente em meados do século XVIII acontece um grande descontentamento em relação aos Colégios Jesuítas por parte do ministro de Portugal, Marquês de Pombal, sendo estes substituídos por professores escolhidos pelo Estado para assumir a direção das escolas.

Portanto, a partir de 1768, também a nobreza francesa expulsa a Companhia de Jesus e busca uma educação nacional controlada pelo Estado. A partir de então, a história ganha uma nova perspectiva e sentimento de nacionalidade,

os indivíduos buscam saber sobre o seu passado e, assim, a burguesia mantém

a aliança entre a nação e o rei.

Nesse contexto, novas ideias políticas chegaram ao plano educacional, entre elas, a exigência da inclusão nos programas escolares de uma história que despertasse o sentimento nacional e garantisse o vínculo entre o impe- rador e a nação. Contudo, o ensino de história passava a ser ampliado, mas ainda não se apresentava como disciplina regular, visto que o progresso era gra- dativo e lento. E ainda constituía-se como História Moral atrelada à História Filosófica, o único avanço perceptível está na sua emancipação das línguas antigas. A demora em tornar-se uma disciplina ensinável é por conta da falta de interesses das autoridades.

está longe de ser uma disciplina escolar, simplesmente pela justificativa: “[

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está longe de ser uma disciplina escolar, simplesmente pela justificativa: “[ Estudos_historicos.indb 9 20/06/14 11:36

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10 INTRODUçÃO

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ESTUDOS

HISTÓRICOS

Somente com a Revolução Francesa, em 1789, que acontece um acele- ramento das mudanças na área da história, estabelecendo sobre a educação nacional.

É com a Constituição de 1791 que ocorre a implantação da disciplina de história (FURET, 1967). Somente foi inserida no currículo a partir do século XVIII, período de consolidação dos Estados-Nacionais europeus e da burguesia. Por sua dimensão política, passa a ser um ensino vigiado e controlado, pois representava um perigo ao Estado.

Assim, é nos currículos franceses que a história primeiro torna-se disciplina

escolar e adquire um novo status escolar, independente da relação com a An- tiguidade, mas mantém a marginalidade frente ao programa regular. Enquanto disciplina escolar é sempre clandestina diante dos programas oficiais. Contudo, uma das propostas da história nesse momento histórico seria a busca da forma- ção da memória nacional e a construção de uma identidade nacional, por isso

genealogia da nação e o estado

foi considerada por Furet (1967, p. 137) “[

da mudança, daquilo que é subvertido, transformado, campo privilegiado em

relação àquilo que permanece estável”.

Na época pós-revolução, para o governo de Napoleão, a história (disciplina)

torna-se desinteressante para atender os interesses políticos da ordem vigente

e passa a ser circunscrita ao ensino de latim.

Percebe-se que o Estado manipulava a disciplina da história a partir dos seus interesses ideológicos e isso é identificado no momento em que Napo- leão objetivava retirar dos franceses o direito de compreender o seu passado,

ou seja, segundo suas ideias “porque narrar a sua parte maldita, que pertence

aos inimigos? [

celebração de uma origem” (FURET, 1980, p. 122).

e a outra parte é curta para formar um passado; é apenas a

]

]

Nesse contexto, identifica-se a grande manipulação política do ensino, tendo

a história que atender apenas o interesse do Estado, então é óbvio que ela se torna um problema enquanto área do saber e como disciplina. Para resolver tal situação restringe-se a história simplesmente a uma genealogia da nação.

Entretanto, posterior a esse período, na época da Restauração, a História foi definitivamente instituída nas escolas e apareceu caracterizada como um ensino cronológico, livre dos conceitos progressistas, democráticos e nacio- nalistas, na proposta de retornar o direito divino embutido do tradicionalismo das dinastias francesas e católicas.

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direito divino embutido do tradicionalismo das dinastias francesas e católicas. Estudos_historicos.indb 10 20/06/14 11:36

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Conceitos da história

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Inicia-se assim um período no qual se torna uma disciplina que passa a ser

“[

não só nos estabelecimentos de ensino secundário, como também nas facul-

dades de letras, cujas conferências são nessa altura acontecimentos políticos

e mundanos” (FURET, 1980, p. 124).

Somente em 1830 a história como disciplina curricular sofre alterações decisivas no que diz respeito, principalmente, à junção do passado com o futuro, sendo enriquecida com os estudos econômicos e sociais e revestida de cientificidade. Assim, discernida como conhecimento da nação, funciona com

suspeita e deve ser mantida sob a estreita vigilância dos poderes públicos

]

o objetivo de formar o juízo e o patriotismo, influenciados pela historiografia do romantismo que defendia:

o Estado-nação como tema central tanto da inves-

tigação quanto da narrativa históricas; a crítica erudita das fontes elemento essencial para desenvolver o método histórico, garantia da cientificidade do conhecimento; introdução dos conceitos de história como singular co- letivo em conexão com o novo conceito de revolução; a

perspectiva historicista aplicada quer à história-matéria

quer à disciplina [

] [

]

(FALCON, 1997, p. 65).

Para Furet (1980, p. 127), se a história nesse momento assume o caráter de

ciência, por outro lado continua “[

que a sociedade sabe sobre si própria, mas aquilo que a nação conhece do seu passado”. Mesmo assim, atinge uma amplitude maior ainda, principalmente quando ensinada com objetivos bem definidos, como o de inculcar na mente das crianças ideias políticas como o conceito de nação e patriotismo.

E para complementar a finalidade do ensino de história daquele momento,

basta verificar que a escola se tornou laica, gratuita e obrigatória, para assim formar cidadãos convencidos intimamente dos seus deveres políticos. Diante disso, compreende-se que a elevação do Estado ao posto de objeto da produção

] poder

é sempre poder do Estado — instituições, aparelhos, dirigentes: os ‘aconteci-

mentos’ são sempre eventos políticos, pois são estes os temas nobres e dignos da atenção dos historiadores” (FALCON, 1997, p. 65).

Assim, o surgimento dessa disciplina acontece no seio do interesse de gru- pos dominantes, que tinham o Estado como o exclusivo detentor do processo histórico e, consequentemente, direcionavam o uso de fontes históricas que a ele estivessem ligadas. Ou seja, ficaram evidentes na França:

histórica representou o domínio da história política. Por isso que o “[

do lado da exigência social, não aquilo

]

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política. Por isso que o “[ do lado da exigência social, não aquilo ] Estudos_historicos.indb 11

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12 INTRODUçÃO

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ESTUDOS

HISTÓRICOS

as vinculações entre o fortalecimento do Estado-

-nação, a construção e a consolidação de uma identidade nacional coletiva, a afirmação nacional perante outras nações, a legitimação de poderes constituídos e a história enquanto conhecimento social e culturalmente produzido e seu ensino nas escolas (FONSECA, 2006, p. 26).

Portanto, a história enquanto disciplina curricular fundamentava-se em uma concepção conhecida como história tradicional, contendo traços que re- montam ao positivismo e ao idealismo alemão (historicismo). É nesse período histórico que se tem o surgimento das escolas históricas nacionais europeias com nomes como Leopold von Ranke, Auguste Comte e outros que gozavam de prestígios acadêmicos.

] [

Comte e outros que gozavam de prestígios acadêmicos. ] [ Para saber mais As escolas históricas
Para saber mais As escolas históricas podem ser chamadas de correntes historiográficas. A historiografia é
Para saber mais As escolas históricas podem ser chamadas de correntes historiográficas. A historiografia é
Para saber mais As escolas históricas podem ser chamadas de correntes historiográficas. A historiografia é
Para saber mais As escolas históricas podem ser chamadas de correntes historiográficas. A historiografia é
Para saber mais As escolas históricas podem ser chamadas de correntes historiográficas. A historiografia é

Para saber mais

Para saber mais As escolas históricas podem ser chamadas de correntes historiográficas. A historiografia é o
Para saber mais As escolas históricas podem ser chamadas de correntes historiográficas. A historiografia é o
As escolas históricas podem ser chamadas de correntes historiográficas. A historiografia é o registro da
As escolas históricas podem ser chamadas de correntes historiográficas. A historiografia é o registro da

As escolas históricas podem ser chamadas de correntes historiográficas. A historiografia é o registro da história, ou seja, é o modo de escrever e registrar os eventos históricos.

Iremos apresentar na próxima seção as características da historiografia tradicional e as fortes influências recebidas das correntes do positivismo e do chamado historicismo ou idealismo alemão, tanto para a disciplina da história como para a história acadêmica.

a disciplina da história como para a história acadêmica. Atividades de aprendizagem 1. Explique com suas

Atividades de aprendizagem

1. Explique com suas palavras os motivos pelos quais a história não pode ser comparada às ciências exatas (experimentais).

2. Por que a história durante algum tempo foi mantida sob vigilância?

2. Por que a história durante algum tempo foi mantida sob vigilância? Estudos_historicos.indb 12 20/06/14 11:36
2. Por que a história durante algum tempo foi mantida sob vigilância? Estudos_historicos.indb 12 20/06/14 11:36

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Conceitos da história

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Seção 2

Conceitos históricos: historiografia

Nesta seção você estudará os modos pelos quais se escreve a história e as diferentes concepções historiográficas desde o século XIX até a atualidade. Iremos estudar nesta seção:

Historiografia tradicional.século XIX até a atualidade. Iremos estudar nesta seção: Escola dos Annales e o papel do

Escola dos Annales e o papel do historiador.Iremos estudar nesta seção: Historiografia tradicional. Escola marxista. 2.1 Historiografia tradicional A

Escola marxista.tradicional. Escola dos Annales e o papel do historiador. 2.1 Historiografia tradicional A historiografia tradicional

2.1 Historiografia tradicional

A historiografia tradicional foi fundada no século XIX, a partir de um con- junto de padrões metodológicos marcado pela influência do positivismo e do

historicismo (metódica). A junção das duas correntes deu início à historiografia tradicional, já que do idealismo alemão (metódica) recebeu a tendência de dar primazia ao particular, às estruturas, aos acontecimentos individualizados, e do positivismo foi influenciado pelo caráter científico, pela busca de fatos

e pelo estabelecimento de relações precisas entre o documento e a narração — a ciência aplicada.

Ainda do idealismo alemão (metódica), que muitos confundem como positi-

vista, recebeu a base do desenvolvimento da ideologia nacionalista para justificar

a missão de outros povos em realizar a colonização e ofereceu um caráter acadê-

mico à historiografia tradicional, influenciando por meio de algumas regras que consideravam extremamente importantes para a prática historiográfica. Tal escola histórica ganhou impulso na Alemanha, com o precursor Leopold von Ranke.

O método científico encontrou-se bem especificado pelos pensadores Charles Seignobos e Langlois (1946) que escreveu um manual de Introdução aos estudos históricos em que enfatizavam que a

História é a disciplina em que com maior império se

faz sentir a necessidade de bem conhecerem os autores os métodos próprios, que lhes devem presidir à feitura

das obras. [

a atingir o conhecimento histórico, são tão diferentes dos das demais ciências que devemos conhecer-lhes as peculiaridades, para fugirmos à tentação de aplicar à his- tória os métodos das ciências já constituídas (LANGLOIS; SEIGNOBOS, 1946, p. 10).

os processos racionais, que nos levam

]

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(LANGLOIS; SEIGNOBOS, 1946, p. 10). os processos racionais, que nos levam ] Estudos_historicos.indb 13 20/06/14 11:36

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AOS

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HISTÓRICOS

Segundo Bourdé e Martin (1983), a história metódica (idealismo alemão) marcada pelo cientificismo faz do historiador um observador passivo da his- tória, utilizando análises objetivas, caracterizadas em eleger os grandes heróis e seus principais feitos.

Portanto, o papel do historiador consiste em apenas narrar um assunto e a única habilidade restringe-se a retirar do documento todas as informações que apresentavam e não acrescentar nada, como se o documento falasse por si só.

Na perspectiva metódica, a história não passa da aplicação de documentos escritos, principalmente o oficial, porque nada substitui os documentos, e assim onde não há documentos escritos não há história (LANGLOIS; SEIGNOBOS, 1946, p. 275).

Da escola positivista, na França, representada por Auguste Comte, o positi-

vismo assentava-se em três leis: “[

do pensamento humano: as fases do pensamento teológico, metafísico e po- sitivo; a lei da subordinação da imaginação à observação; a lei enciclopédica (classificação das ciências)” (CARDOSO, 1981, p. 30).

A história tradicional recebe a influência do positivismo acerca do conceito de tempo como evolutivo, linear, evolucionista, e progressista. Aproximando-se das ideias da escola metódica, no sentido de também compreender que o fato histórico era um dado objetivo, que poderia ser verificado por meio da união dos documentos pelos historiadores e que atuavam de forma passiva diante da documentação, limitando-se apenas à narração dos mesmos.

a lei dos três estágios de desenvolvimento

]

dos mesmos. a lei dos três estágios de desenvolvimento ] Para saber mais ] Desde o

Para saber mais

]

Desde o início da implantação da história como disciplina, as escolas no Brasil ensinavam a partir da visão tradicional, ou seja, contendo traços que remontam ao positivismo e ao idealismo

alemão. Nesse sentido, a prática do professor na vertente historiográfica tradicional enfocava-se em aulas expositivas, a partir das quais cabia aos alunos a memorização de datas e repetição dos fatos apresentados como verdade pronta e vinculada a uma determinada vertente do

resultando num ensino como abrigo da

pensamento humano, sem diálogo com outras, “[ ideologia dominante” (SILVA, 1980, p. 21).

Pode-se sintetizar que a historiografia tradicional caracteriza-se principal- mente por uma história factual, linear, elegendo os grandes heróis e batalhas militares, os únicos vistos como objeto de estudo, prevalecendo a ideia de que o

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os únicos vistos como objeto de estudo, prevalecendo a ideia de que o Estudos_historicos.indb 14 20/06/14

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Conceitos da história

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fazer história estava ligado aos eventos políticos, seguindo uma linearidade dos fatos. Portanto, a historiografia tradicional resultante de concepções diferentes conseguiu estabelecer uma série de proposições, objetivando o conhecimento dos fatos em si mesmo: preocupação com o documento submetido a um rigo- roso tratamento científico, dissociado da relação com o presente, apresentando uma narração simplesmente objetiva dos acontecimentos.

Assim, essas proposições enunciadas contribuíram para apresentar a his- tória como fatos isolados, irrepetíveis, interpretados pelos historiadores com

a máxima neutralidade, valorizando-a como processo científico, seja pelos

métodos de pesquisa, seja pela investigação das fontes, pois, para tal, foram desenvolvidos processos críticos muito apurados. Nessa concepção apresenta- -se uma excessiva valorização do documento e a neutralidade do historiador, assim como a ausência da síntese histórica.

Embora as concepções positivistas e historicistas tenham predominado entre os historiadores profissionais até meados do século XX, porém, encontramos muitas críticas e manifestações contra elas. Vários historiadores que, para além dos simples acontecimentos históricos isolados, buscavam estabelecer

regularidades, com frequência através do manejo

do método comparativo: tais historiadores (Fustel de Coulanges, Henri Pirenne, Henri Seé, Marc Bloch) acre- ditavam, de fato, que a comparação histórica constitui o único caminho possível para a construção de uma história científica, ao permitir-lhe eivar-se da narração descritiva à explicação. Outros pensadores — Pul Lacombe, Henri Berr, Paul Mantoux — dedicavam-se à crítica que cha- mavam “História Historizante” ou episódica, e à defesa de uma síntese histórica efetivamente global (CARDOSO, 1981, p. 34).

] [

Além disso, no século XIX a ciência provoca inúmeras transformações na

vida econômica e social dos indivíduos. Doutrinas como positivistas, mecanicis- tas e evolucionistas organizaram a sociedade em sistemas de ideias inteligíveis,

a princípio era o que acreditavam naquele momento histórico. Nesse contexto

histórico, quer também a história encontrar seu lugar. Então, é durante o sé- culo XIX que a história começa a procurar constituir-se como ciência, voltada para a investigação e transmissão de um método rigoroso, como nas ciências experimentais. Portanto, o marxismo e a Escola dos Annales, além de se contraporem à historiografia tradicional, passaram a caminhar em busca de a história alcançar o campo da ciência. É o que veremos a seguir.

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busca de a história alcançar o campo da ciência. É o que veremos a seguir. Estudos_historicos.indb

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16 INTRODUçÃO

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ESTUDOS

HISTÓRICOS

2.2 Escola dos Annales e o papel do historiador

O grupo dos Annales ou Escola dos Annales era formado pelos líderes da historiografia francesa Lucien Fevbre e Marc Bloch, teve início em 1929, perten- cente às primeiras gerações e objetivava derrubar a concepção dos historiadores ditos metódicos (positivistas).

Os Annales demonstravam a necessidade de uma nova história em oposição às abordagens tradicionais, que eram centradas nas ideias e decisões de grandes homens, em batalhas e em estratégias diplomáticas. Contra essa história histori- zante propunham uma história problematizadora, a partir da formulação de hipó- teses, pois sem esses elementos o saber histórico pouco atenderia aos anseios, na prática social, no que diz respeito à existência e experiência humana no tempo.

Assim, a historiografia francesa pretendia fazer uma história analítica, estrutural e macroestrutural, explicativa, abordando os aspectos coletivos e os diversos níveis de temporalidade. Ainda enfatizavam em suas pesquisas os processos de diferenciação e individualização dos comportamentos humanos e identidades coletivas (sociais) para a explicação histórica. Sempre preocupados nesse sentido com as massas anônimas em seu modo de viver e pensar. Faziam críticas à história tradicional, principalmente nas suas análises centradas em narrativas dos acontecimentos políticos e militares, reconstruídas “tal como aconteceram”, que não apresentavam pressupostos teóricos.

Os Annales alegam que na concepção tradicional o historiador apresenta os

fatos cronológicos, sem que haja qualquer interpretação e questionamentos sobre eles, não identificando nenhuma problematização na pesquisa histórica. O ofício

do historiador “[

consistiria em estabelecer — a partir de documentos — os fa-

tos históricos, coordená-los e, finalmente, expô-los coerentemente” (CARDOSO; BRIGNOLI, 1979, p. 21). Esses deveriam ser tratados com o máximo rigor crítico no sentido da autenticidade, credibilidade, imparcialidade e objetividade.

Segundo a Escola dos Annales, para a vertente historiográfica tradicional, o passado aparecia como algo endurecido e unidimensional dos “grandes feitos”, em que somente se pensava em mudanças, nunca em permanência, reduzindo assim a finalidade da história, pois se concebia a explicação do todo, por meio da determinação da verdade das partes. Nesse sentido, o passado é visto pelo próprio passado, levando a história a apresentar-se como encadeamentos de fatos isolados, irrepetíveis, interpretados pelo historiador com neutralidade.

É por isso que a concepção tradicional torna-se alvo de críticas e, a partir do contexto apresentado a Escola dos Annales, colocou a necessidade de explorar

]

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contexto apresentado a Escola dos Annales, colocou a necessidade de explorar ] Estudos_historicos.indb 16 20/06/14 11:36

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novos métodos de produção do conhecimento e ampliar as possibilidades de recortes temporais, o conceito de documento e sujeitos históricos.

A concepção de documento apresentada na visão dos historiadores metódi- cos (positivistas) era alvo de críticas por Bloch (2001), pois sua visão de fontes históricas diferenciava-se totalmente. Para o autor mencionado, o documento histórico é um caminho para o historiador, haja vista a necessidade de fazer perguntas a ele e reunir todos aqueles que são necessários à pesquisa, sendo procedimentos relevantes que contribuiriam para diminuir ou elevar a escrita da história. Já que o documento é portador de um discurso, que, assim con- siderado, não pode ser visto como algo transparente; por isso, o historiador deve atentar-se para o modo com que se apresenta o conteúdo histórico e questioná-lo, então a importância de utilizar-se de um método crítico, para ja- mais aceitar cegamente os testemunhos escritos, visto que nem todos os relatos são verídicos e os materiais podem ser falsificados; assim somente através da crítica se consegue distinguir o verdadeiro do falso (BLOCH, 2001).

Nota-se a grande diferença a respeito dos Annales e da história positivista no que se refere a Langlois e Seignobos* (1946), quando apresentam a sua

concepção de documento como algo acabado a que jamais era admissível fa- zer perguntas. Justificando seu posicionamento da seguinte maneira: a história não poderia ser julgada nem interpretada, os fatos históricos já estavam dados

e prontos no documento, cabendo ao historiador apenas descrevê-los.

Na teoria positivista, a história só aparece quando há documentos escritos e eles

são vistos como irredutíveis do fato, o espelho da realidade, prova irrefutável de uma investigação, e os testemunhos são abstratos e empíricos (SILVA, 1984). O que se questiona nesse sentido é como pode ser possível produzir história, seguindo

a

corrente tradicional, se a história é o estudo da experiência humana no tempo

e

todos os vestígios do passado são considerados matérias para o historiador?

Reforçando ainda a ideia de que todo acontecimento é histórico; segundo os Annales, o historiador pode escolher o seu objeto de estudo bem como as

inúmeras fontes históricas, desde orais, iconográficas, audiovisuais, musicais,

à literatura e outros. Nesse sentido, a Escola dos Annales contribuiu significa- tivamente para a história, pois alargou a visão de documento considerando a possibilidade de se construir o conhecimento histórico com todas as coisas que pertencem ao homem, pois são fontes dignas de pesquisa e possíveis de leitura por parte do historiador.

* Precursores da história metódica.

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de leitura por parte do historiador. * Precursores da história metódica. Estudos_historicos.indb 17 20/06/14 11:36

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18 INTRODUçÃO

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ESTUDOS

HISTÓRICOS

Entretanto, Bloch (2001) explica que, embora considere a diversidade das

fontes, o problema maior consiste em como o historiador as utiliza, sendo primordial para qualquer explicação histórica elaborar perguntas pertinentes

ao documento, ou seja, “[

-lhes as perguntas adequadas” (VIEIRA; PEIXOTO; KHOURY 2007, p. 41), e que estas não decorrem do documento, mas da cultura do historiador, da sua concepção de história e de conhecimentos externos.

Para os historiadores dos Annales, a história não era vista no passado pelo passado, como os metódicos pensavam, mas a partir do presente para entender o passado, e

a incompreensão do presente não nasce da ignorância pelo passado, mas é difícil

entender este, se não soubermos nada do presente. “Visto que o conhecimento do presente interessa à inteligência do passado” (BLOCH, 1965, p. 44).

Contudo, os historiadores da Escola dos Annales propuseram aos historia- dores uma história globalizante e totalizante no sentido de abarcar todos os elementos, ou seja, considerar os aspectos políticos, sociais, econômicos e culturais para escrever a história.

as fontes só falam utilmente se soubermos fazer-

]

as fontes só falam utilmente se soubermos fazer- ] Para saber mais A Escola dos Annales
Para saber mais A Escola dos Annales influenciou o ensino de história, a partir de
Para saber mais A Escola dos Annales influenciou o ensino de história, a partir de
Para saber mais A Escola dos Annales influenciou o ensino de história, a partir de
Para saber mais A Escola dos Annales influenciou o ensino de história, a partir de
Para saber mais A Escola dos Annales influenciou o ensino de história, a partir de
Para saber mais A Escola dos Annales influenciou o ensino de história, a partir de
Para saber mais A Escola dos Annales influenciou o ensino de história, a partir de
Para saber mais A Escola dos Annales influenciou o ensino de história, a partir de

Para saber mais

Para saber mais A Escola dos Annales influenciou o ensino de história, a partir de abordagens
Para saber mais A Escola dos Annales influenciou o ensino de história, a partir de abordagens
Para saber mais A Escola dos Annales influenciou o ensino de história, a partir de abordagens
A Escola dos Annales influenciou o ensino de história, a partir de abordagens referentes a
A Escola dos Annales influenciou o ensino de história, a partir de abordagens referentes a

A Escola dos Annales influenciou o ensino de história, a partir de abordagens referentes a temas do cotidiano, em contraponto com a história dos heróis, distante e abstrata dos alunos. Ao aderir a essa corrente historiográfica na prática pedagógica, o professor pode articular o coti- diano do aluno com o conteúdo a ser ensinado, construindo um diálogo entre passado e presente e levando-o a problematizar o conhecimento histórico. Entende-se que o ensino deve ser concebido como criação do conhecimento a partir da realidade vivenciada pelo aluno, reconhecendo múltiplos sujeitos e suas diversas experiências.

2.3 Escola marxista

Em relação à tendência historiográfica marxista, esta surgiu no século XIX na França, a partir das ideias de Karl Marx (1818-1883). Os frequentes conflitos de classes que ocorriam nos países capitalistas mais avançados da época levaram

Karl Marx e Friedrich Engels a fazerem vários trabalhos juntos, destacando que as sociedades humanas também se encontram em contínua transformação, e que

o “fio condutor” da história eram os conflitos e as oposições entre as classes so- ciais. Com isso incentivou-se a publicação de revistas sobre o assunto, gerando

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Com isso incentivou-se a publicação de revistas sobre o assunto, gerando Estudos_historicos.indb 18 20/06/14 11:36

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Conceitos da história

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debates dos principais conceitos marxistas, atingindo grande parte do público interessado em tais discussões com a obra O Capital. Existem outras publicações consideradas alvo de discussões e de suma importância para a história, como a Ideologia Alemã, o Manifesto Comunista e o Prefácio à Contribuição para a Crítica de Economia Política.

A concepção marxista da história defende alguns princípios:

realidade social é mutável, dinâmica, em todos os

seus níveis e aspectos; as mudanças do social são regidas por leis cognoscíveis que, num mesmo movimento de análise, permitem explicar tanto a gênese ou surgimento de um determinado sistema social quanto suas posteriores transformações e por fim a transição a um novo sistema qualitativamente distinto; o anterior implica afirmar que as mudanças do social conduzem a equilíbrios relativos ou instáveis, ou seja, a sistemas histórico-sociais cujas formas e relações internas (a estrutura de cada sistema) se dão segundo leis cognoscíveis (CARDOSO, 1981, p. 35).

Pode-se dizer que a história para Marx é como um movimento dinâmico, progressivo, semelhante ao desenvolvimento histórico e que caminha a partir das leis dialéticas. Portanto, o marxismo abarca tanto análises dinâmicas como estruturais, vinculadas ao movimento cognoscitivo. O modelo de explicação para a história humana une abordagem genética e estrutural atreladas ao de- senvolvimento histórico-social. Porém, sabemos que dar conta desse método de análise unindo as duas abordagens não foi fácil para aquele momento histórico.

] [

leis

do desenvolvimento histórico-social (leis dinâmicas) e que determinam para cada organização sócio-histórica específica, os seus fatores invariantes e os seus processos reiterativos ou repetitivos (leis estruturais, ou de organização)” (CARDOSO, 1981, p. 35).

Como o marxismo buscava a construção de uma história científica, por conta disso, expulsava explicações metafísicas, darwinistas ou externas ao processo histórico. Dentre os seus principais conceitos destacam-se a economia como base de toda a estrutura da sociedade e que tal sociedade está dividida em infraestrutura (economia) e superestrutura (política e ideológica).

Assim, o desenvolvimento das forças produtivas, as contradições entre as forças produtivas e as relações de produção geram a luta de classes, conside- radas para Marx o motor da história, visto que a partir desses conflitos que a

Desde as suas origens, o marxismo caracterizou-se pela busca de “[

]

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que a Desde as suas origens, o marxismo caracterizou-se pela busca de “[ ] Estudos_historicos.indb 19

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20 INTRODUçÃO

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HISTÓRICOS

humanidade alcança as mudanças sociais, políticas e econômicas. Pelo exposto, nota-se que a luta de classes é o que constitui a história de toda sociedade.

A historiografia marxista, no que diz respeito à construção do conhecimento histórico, propôs uma nova análise, partindo do modo de produção da socie- dade, pois esse determina a forma que assumirá o crescimento das forças produtivas e a distribuição do excedente. Segundo Hobsbawm (1998), o mar- xismo se propôs a mostrar que o progresso do homem no controle sobre a natureza não se deve somente às formas de produção e suas mudanças, mas também das relações sociais que envolviam a produção.

A principal contradição dialética para

Marx é aquela que existe entre as sociedades humanas historicamente dadas e a natureza,

em última

instância da base econômica sobre os níveis

de superestruturas” (CARDOSO, 1981, p. 36).

O resultado dessas contradições é o surgi-

mento dos conceitos fundamentais de modo de produção, classes sociais e formação eco- nômico-social. Para Marx, a oposição das forças produtivas e as relações de produção resultam na luta de classes, impulso da his- tória, levando às mudanças históricas. Nesse sentido, o autor mencionado explica que os homens fazem a sua história, não por sua vontade própria e com um plano coletivo, homens não escolhem as suas formas sociais já

que não são livres arbitrários das suas forças produtivas é uma força adquirida,

produto de uma atividade anterior” (CARDOSO, 1981, p. 37).

Assim, as lutas de classes levam a transformações das estruturas sociais que acontecem em situações bem definidas e que determinam os limites do que é possível ou não para aquele momento histórico. Como dito, a luta de classes constitui a história de toda sociedade, vistas como egoístas e antagônicas, com interesses diversos. Assim, existem os que possuem o capital produtivo, cons- tituindo a classe exploradora, e de outro lado, os assalariados, os quais não possuíam a propriedade, constituindo assim o proletariado que vendia a sua força de trabalho (GARDINER, 1995).

Para saber mais Modos de produção — conceito marxista que designa uma articula- ção historicamente
Para saber mais
Modos de produção — conceito
marxista que designa uma articula-
ção historicamente dada entre um
determinado nível de desenvolvi-
mento das forças produtivas e as
relações de produção.
Relações de produção — con-
ceito marxista que designa uma
articulação historicamente dada
entre um determinado nível de de-
senvolvimento das forças produti-
vas e as relações de produção.
isso significa dizer que os “[
]

e que fixa a determinação “[

]

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isso significa dizer que os “[ ] e que fixa a determinação “[ ] Estudos_historicos.indb 20

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Conceitos da história

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Contra essa espoliação e alienação do trabalho que Marx conclama para que os trabalhadores se unam e façam a revolução, derrubando a classe burguesa e implantando a ditadura do proletariado.

Trata-se de uma concepção de história crítica, em que a história é algo construído socialmente e passível de mudanças. Na tendência historiográfica marxista, a histó-

ria passa por uma sequência de etapas pré- -estabelecidas: a evolução dos modos de produção; e utiliza um instrumental teórico de análise do social, como: lutas de classes, ideologia, alienação.

do social, como: lutas de classes, ideologia, alienação. Para saber mais Você já assistiu ao filme
Para saber mais Você já assistiu ao filme Tempos Modernos ? Se não viu, sugiro
Para saber mais Você já assistiu ao filme Tempos Modernos ? Se não viu, sugiro
Para saber mais Você já assistiu ao filme Tempos Modernos ? Se não viu, sugiro
Para saber mais Você já assistiu ao filme Tempos Modernos ? Se não viu, sugiro
Para saber mais Você já assistiu ao filme Tempos Modernos ? Se não viu, sugiro
Para saber mais Você já assistiu ao filme Tempos Modernos ? Se não viu, sugiro

Para saber mais

Para saber mais Você já assistiu ao filme Tempos Modernos ? Se não viu, sugiro que
Para saber mais Você já assistiu ao filme Tempos Modernos ? Se não viu, sugiro que
Você já assistiu ao filme Tempos Modernos ? Se não viu, sugiro que assista para
Você já assistiu ao filme Tempos Modernos ? Se não viu, sugiro que assista para

Você já assistiu ao filme Tempos Modernos? Se não viu, sugiro que assista para compreender a pro- posta de Marx no combate à alie- nação do homem pela máquina no sistema capitalista, alvo de grandes críticas para Marx.

no sistema capitalista, alvo de grandes críticas para Marx. Questões para reflexão Quais são as críticas
Questões para reflexão Quais são as críticas realizadas por Marx? Será que a sua teoria
Questões para reflexão Quais são as críticas realizadas por Marx? Será que a sua teoria
Questões para reflexão Quais são as críticas realizadas por Marx? Será que a sua teoria
Questões para reflexão Quais são as críticas realizadas por Marx? Será que a sua teoria

Questões para reflexão

Questões para reflexão Quais são as críticas realizadas por Marx? Será que a sua teoria pode
Questões para reflexão Quais são as críticas realizadas por Marx? Será que a sua teoria pode
Quais são as críticas realizadas por Marx? Será que a sua teoria pode ser pensada

Quais são as críticas realizadas por Marx? Será que a sua teoria pode ser pensada para os dias de hoje?

que a sua teoria pode ser pensada para os dias de hoje?   Atividades de aprendizagem
 

Atividades de aprendizagem

 

1. Nas palavras do historiador medievalista Bloch (2001, p. 7), em seu livro Apologia da história ou o ofício de historiador, a “história é entendida como uma ciência em construção”. Justifique a concepção do autor.

2. Não se deve identificar a história como uma “[

]

ciência do passado,

 

pois o passado não é objeto de ciência” (BLOCH, 2001, p. 7). Por que o autor ressalta que a história não é a ciência do passado?

p. 7). Por que o autor ressalta que a história não é a ciência do passado?
p. 7). Por que o autor ressalta que a história não é a ciência do passado?

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p. 7). Por que o autor ressalta que a história não é a ciência do passado?

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22 INTRODUçÃO

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ESTUDOS

HISTÓRICOS

Seção 3

A história e seu campo de renovação

Nesta seção você irá estudar os campos de renovação historiográfica da história e perceber o que distingue os modos de conceber a história em épo- cas anteriores. Ao final desta unidade poderá perceber que a história passou por muitas transformações e por isso, ainda hoje é um conhecimento que está sempre em construção. Iremos estudar:

Renovação historiográfica.que está sempre em construção. Iremos estudar: Uma nova história. 3.1 Renovação historiográfica A

Uma nova história.construção. Iremos estudar: Renovação historiográfica. 3.1 Renovação historiográfica A história passou por

3.1 Renovação historiográfica

A história passou por críticas e propostas de mudanças. E em meados do século XX seu campo apresenta-se com propostas de renovações no modo de conceber a história bem como na maneira de escrevê-la. É nesse momento que a renovação historiográfica aparece com o surgimento da Nova Esquerda Inglesa (1956). Essa escola histórica foi formada por historiadores que romperam com o Partido Comunista Inglês devido ao descontentamento com o governo de Stalin, na URSS, e passaram a influenciar a corrente historiográfica inglesa. Entre os historiadores que fizeram parte desse movimento, Eric Hobsbawm, Raymond Williams, Cristopher Hill, Edward Thompson e outros passaram a fazer uma revisão de alguns conceitos do marxismo.

No século XIX, a escrita da História era vista através do âmbito político e

] já se

notava que [

terialista no lugar do idealista, levando assim a um declínio da história política e

à ascensão da história econômica ou sociológica” (HOBSBAWM, 1998, p. 157).

As análises de Marx consistiam em contextualizações, recortes temporais- -espaciais e uma das suas contribuições foi o conceito utilizado na separação da infraestrutura (base) e da superestrutura, mostrando que a sociedade é per- meada por diferentes níveis e por fenômenos sociais opostos, isto é, o conjunto das relações de produção constitui a base concreta da sociedade, enquanto a su- perestrutura corresponde às formas de consciência social (HOBSBAWM, 1998).

havia se tentado sistematicamente introduzir um referencial ma-

religioso, utilizando as ideias para a compreensão dessa disciplina, “[

]

Uma vez que nas sociedades existiam e existem tensões internas que se contradizem, pois apresentam interesses opostos, essas relações de poder (lutas de classes, identidades de grupos) mostram muito a realidade e os conflitos existentes.

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identidades de grupos) mostram muito a realidade e os conflitos existentes. Estudos_historicos.indb 22 20/06/14 11:36

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Conceitos da história

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Portanto, não basta verificar somente os opressores, mas também os oprimi- dos. “A importância dessas peculiaridades do marxismo se encontra no campo

por que e como as so-

ciedades mudam e se transformam: em outras palavras, os fatos da evolução social” (HOBSBAWM, 1998, p. 162). Trata-se de obter uma visão ao mesmo tempo holística (estrutural) e dinâmica (relativa ao movimento, à transformação) das sociedades humanas.

A construção do conhecimento histórico, para os marxistas, ocorre a partir da análise do modo de produção da sociedade, pois esse determina a forma

que assumirá o crescimento das forças produtivas e a distribuição do excedente. Segundo Hobsbawm (1998), o marxismo se propôs a mostrar que o progresso do homem no controle sobre a natureza não se deve somente às formas de produção e suas mudanças, mas também das relações sociais que envolviam

a produção.

Assim, a teoria do conhecimento para os marxistas é um realismo. O objeto de conhecimento histórico não é constituído pelo sujeito: a práxis atual inter- vém na apropriação cognitiva de algo que existe por ele mesmo e que implica uma vinculação dialética entre presente e passado.

Além de Hobsbawm (1998), Thompson (1981) também faz uma crítica ao método dialético marxista, no sentido de enfatizar a existência de vários mo-

dos de conceber a história e a existência de diferentes linhas de interpretação no processo de construção do conhecimento histórico pelo historiador. Para

o autor, a história possui uma análise diferenciada de outras disciplinas, por-

tipo diferente de lógica, adequado aos

que o historiador precisa de um “[

fenômenos que estão sempre em movimento, que evidenciam — mesmo num único momento — manifestações contraditórias (THOMPSON, 1981, p. 47). Defende o método da dialética do conhecimento em que apresenta um método

lógico de investigação que consiste num diálogo entre conceito e evidência. “O interrogador é a lógica histórica, o conteúdo da interrogação é uma hipótese” (THOMPSON, 1981, p. 49). Assim, o historiador parte de uma hipótese, procura uma evidência (fonte), fazendo perguntas, as quais algumas serão adequadas,

da história, pois são elas que lhe permite explicar [

]

]

e

do diálogo resulta uma síntese histórica. Ou seja, para Thompson (1981) é

o

chamado processo de dialética do conhecimento histórico, pois apresenta

uma tese (hipótese), posta em relação (diálogo) com suas antíteses (objeto),

resultando numa síntese (conhecimento histórico).

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suas antíteses (objeto), resultando numa síntese (conhecimento histórico). Estudos_historicos.indb 23 20/06/14 11:36

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24 INTRODUçÃO

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ESTUDOS

HISTÓRICOS

Nesse sentido, Thompson (1981) faz uma revisão de alguns conceitos usados pelos marxistas, como a questão do materialismo histórico, que só podem ser empregados como categorias analíticas, conceitos próprios para investigar o processo histórico e, além disso, propõe uma releitura do conceito de luta de classes, que não deve ser reduzido apenas às explicações econômicas, como os marxistas fazem, mas articuladas com as questões sociais e culturais; isto porque a consciência de classe constrói-se nas experiências cotidianas.

Ainda para a Nova Esquerda Inglesa, o autor Christopher Hill (1985) dei- xou sua contribuição com as análises que propõem também romper com a historiografia tradicional por utilizar-se do conceito de luta de classes como categoria analítica.

Ao encontro dessas ideias o historiador Hill (1985) também defende a construção da história em uma perspectiva totalizante e prioriza como objeto de estudo em suas pesquisas a história vista de baixo, unindo aspectos econô- micos e sociais.

Vale a pena ressaltar que o marxismo, mesmo após o revisionismo apresen- tado, deixou várias contribuições à história: conceitos como feudalismo, luta de classes, comunismo, ainda muito utilizados pelos historiadores, bem como suas propostas de análise econômica e social são de extrema importância.

As contribuições da Nova Esquerda Inglesa também no ensino de história foram significativas, no sentido de superar a visão de tempo linear e evolucio- nista, pois Marx pensava em um tempo determinado e mecanicista, em que a humanidade evolui a partir do desenvolvimento das forças produtivas e dos modos de produção. Para melhor entendimento, a citação de Fonseca (2003, p. 45) deixa claro que o processo evolucionista ocorria da seguinte maneira:

“[

modo de produção asiático, o feudalismo, a transição, o capitalismo, suas crises

e finalmente nosso destino se completa com o modo de produção socialista”.

O revisionismo construído pela Nova Esquerda ampliou o conceito de mo- dos de produção, passando a enfocar as ações de diversos sujeitos no processo de construções sócio-históricas, ou seja, o mundo do trabalho é uma condição em que o sujeito histórico está inserido ao construir suas relações de produção. Para Hobsbawm (1998), o modelo de modo de produção não pode direcionar- -se para uma visão linear, uma vez que um sistema predominante pode existir ao mesmo tempo que interage com outras formas de relações de produção em um mesmo contexto histórico. Outra influência no ensino é que essa corrente

regime de comunidades primitivas, o modo de produção escravista, ou o

]

] [

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regime de comunidades primitivas, o modo de produção escravista, ou o ] ] [ Estudos_historicos.indb 24

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Conceitos da história

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propicia um novo olhar sobre as relações de trabalho, analisadas a partir das experiências dos homens, mulheres, crianças e outros sujeitos, dando vozes a esses excluídos para contarem suas histórias em detrimento da visão oficial.

A Nova Esquerda Inglesa contribui com o ensino de história, na medida

em que defende um ensino em busca da transformação social, valorizando as possibilidades de luta, não apenas entre classes antagônicas, mas no interior da mesma classe, tornando-se um dos caminhos para os alunos compreenderem suas experiências e as dos diversos sujeitos envolvidos no processo histórico.

as dos diversos sujeitos envolvidos no processo histórico. Questões para reflexão O conhecimento histórico é,
Questões para reflexão O conhecimento histórico é, pela sua natureza, provisório, descontínuo e seletivo. Levando
Questões para reflexão O conhecimento histórico é, pela sua natureza, provisório, descontínuo e seletivo. Levando
Questões para reflexão O conhecimento histórico é, pela sua natureza, provisório, descontínuo e seletivo. Levando
Questões para reflexão O conhecimento histórico é, pela sua natureza, provisório, descontínuo e seletivo. Levando

Questões para reflexão

Questões para reflexão O conhecimento histórico é, pela sua natureza, provisório, descontínuo e seletivo. Levando em
Questões para reflexão O conhecimento histórico é, pela sua natureza, provisório, descontínuo e seletivo. Levando em
O conhecimento histórico é, pela sua natureza, provisório, descontínuo e seletivo. Levando em consideração a

O conhecimento histórico é, pela sua natureza, provisório, descontínuo e seletivo. Levando em consideração a paráfrase do autor Thompson, como podemos explicar a questão da provisoriedade da história?

3.2 Uma nova história?

A Nova História também faz parte da renovação historiográfica, surgida a

partir dos anos 1960, ganhando novos contornos com Le Goff, principalmente com sua obra Fazer a história, da década de 1970, dividida em três volumes:

as novas abordagens, os novos problemas e os novos objetos. Ressaltando a existência de uma história “nova”, a partir de novos problemas que colocam em questão a própria história; novas abordagens porque enriquecem e modificam os setores tradicionais da história; e por fim novos objetos que se estabelecem no campo epistemológico da história.

Entre os objetos de estudo, podemos mencionar: família, profissões, fenô- menos como a morte, os sentimentos, os imaginários etc.

A Nova História reuniu muitos partidários, até porque já se encontravam

estruturados pela geração anterior dos Annales, surgindo três vertentes da his-

tória das mentalidades, a saber:

a) Ligada à tradição dos Annales, tanto no que Febvre traz sobre a questão das mentalidades, como o do comportamento coletivo articulado a totalidades explicativas, como faz Le Goff (1924-2014), Duby (1919- 1996) e Le Roy Ladurie (1929); os dois últimos também percorriam pela corrente do materialismo histórico dialético.

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últimos também percorriam pela corrente do materialismo histórico dialético. Estudos_historicos.indb 25 20/06/14 11:36

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HISTÓRICOS

b) Materialista histórico dialético que articulava os conceitos de mentali- dade e de ideologia de maneira a valorizar a ruptura e a dialética entre o tempo longo e o acontecimento “revolucionário”, como na perspectiva de Vovelle.

c) Desvinculada das reflexões teórico-metodológicas dos objetos e enfo- cando a narração de acontecimentos.

Contudo, a terceira vertente logo foi alvo de críticas por outras escolas his- tóricas, pois alegavam que ao alargar o objeto de estudo, para aproximar-se de outras áreas do conhecimento, passou-se a fragmentar os objetos, métodos

e abordagens do conhecimento histórico a fim de tornar-se como uma “história em migalhas”, como foi denominada por François Dosse (1992).

Sobre as contribuições da Nova História para o pensamento histórico mo- derno — além das deixadas pela geração anterior — pode-se dizer que, ao construir grandes contextos espaçotemporais, consequentemente intensificaram

a divisão quadripartite europeia, a desvalorização das investigações das ações

dos sujeitos e suas significações históricas e o abandono da análise das estru-

turas políticas. Limitou-se também ao minimizar a articulação entre a história

local e a história global. Por esses motivos, parte dos historiadores mudou para

a Nova História Cultural, área de estudo de Carlo Ginzburg e Roger Chartier.

Na década de 1980 a Nova História Cultural surgiu com publicações da historiadora Lynn Hunt. A Nova História Cultural como a Nova História da década de 1970 utilizam a expressão “nova” para diferenciar as pesquisas historiográficas das formas anteriores (BURKE, 1992), enquanto o emprego da palavra “cultura” é para demonstrar a diferença de História intelectual, área que abrange as formas de pensamento, antiga história das ideias, da História social. A cultura é entendida como um conjunto de significados partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo.

Os historiadores não mais pensavam na

posse dos documentos ou a busca de verdades defini-

tivas. Não mais uma era de certezas normativas, de leis e modelos a regerem o social. Uma era de dúvida, talvez, da suspeita, por certo, na qual tudo é posto em interrogação, pondo em causa a coerência do mundo. Tudo o que foi, um dia, contado de uma forma, pode vir a ser contado de outra. Tudo o que hoje acontece terá, no futuro, várias versões narrativas. Trata-se de uma reescrita da história, pois a cada geração se revisam interpretações. Afinal, a

] [

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da história, pois a cada geração se revisam interpretações. Afinal, a ] [ Estudos_historicos.indb 26 20/06/14

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Conceitos da história

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história trabalha com a mudança no tempo, e pensar que isso não se dê no plano da escrita sobre o passado implicaria negar pressupostos (PESAVENTO, 2008, p. 16).

As maiores contribuições ocorreram por Mikhail Bakhtin (1895-1975), Norbert Elias (1897-1990), Michel Foucault (1926-1984); Pierre Bourdieu (1930-2002), Wal- ter Benjamin (1892-1940), através do trabalho com conceitos como: dialogismo, representações, práticas culturais, descontinuidades culturais, rupturas e habitus.

Chartier (1987) critica a dicotomia entre cultura popular e cultura erudita, em favor de uma noção de cultura entendida como prática cultural que não

é situada nem acima nem abaixo das relações econômicas e sociais, bem

como leva em conta as categorias de representação e apropriação para produzir

o conhecimento histórico. A representação para Chartier é entendida como

as diferentes formas pelas quais as comunidades, a partir de suas diferenças sociais e culturais, percebem e compreendem sua sociedade e a própria his-

tória. Enquanto a apropriação “[

interpretações remetidas para as suas determinações fundamentais (que são sociais, institucionais e culturais) e inscritas nas práticas específicas que as

produzem” (CHARTIER, 1987, p. 26).

Enquanto Ginzburg utiliza-se de conceitos de filtro cultural e de cultura po-

pular, em que a cultura oficial nessa concepção é filtrada pela cultura popular, Benjamin (1985) apresenta uma arqueologia da cultura, ao analisar a sociedade do século XIX e decifrar as imagens que os homens tinham acerca da sua rea- lidade. Um de seus estudos voltou-se para a Paris do século XIX para discutir conceitos como de fetichismo da mercadoria, fantasmagorias, racionalidade instrumental, bem como refutou o historicismo, em que a história ficava presa

a cronologias, seguindo uma lógica linear, homogênea e vazia.

A História Cultural preocupou-se em analisar novos direcionamentos para

a escrita da história no que diz respeito às relações de saber e poder que con-

tem por objetivo uma História social das

]

sequentemente têm possibilitado reflexões sobre a história, a partir de áreas temáticas específicas como as abordadas anteriormente e também sobre a história das práticas de leitura; De Certeau, com a análise do discurso histo- riográfico e a invenção do cotidiano; Foucault e White sobre a linguagem e as relações entre o saber e o poder.

Portanto, sua contribuição para o pensamento histórico é a valorização das ações e concepções de mundo dos sujeitos das classes populares a partir do seu

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e concepções de mundo dos sujeitos das classes populares a partir do seu Estudos_historicos.indb 27 20/06/14

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28 INTRODUçÃO

AOS

ESTUDOS

HISTÓRICOS

próprio espaço e tempo e ainda o trabalho com novas temporalidades, quando novos e múltiplos sujeitos foram incorporados nas reflexões historiográficas.

foram incorporados nas reflexões historiográficas. Questões para reflexão   Leia atenciosamente o

Questões para reflexão

 

Leia atenciosamente o poema “Perguntas de um trabalhador que lê”

e relacione com o texto abaixo:

 

Quem construiu a Tebas de sete portas? Nos livros estão nomes de reis. Arrastaram eles os blocos de pedras? E a Babilônia várias vezes destruída, quem a construiu tantas vezes? Em que casas de Lima radiante dourada moravam os construtores? Para onde foram os pedreiros na noite em que Muralha da China ficou pronta? A Grande Roma está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem? Triunfaram os césares? A decan- tada Bizâncio tinha somente palácios para seus

habitantes? [

]

O jovem Alexandre conquistou

a Índia. Sozinho? [

]

Não levara sequer um co-

zinheiro? (BRECHT, 1990, p. 167).

A partir dos questionamentos apresentados no poema, faça uma relação

com a proposta da Nova História Cultural.

 
com a proposta da Nova História Cultural.   Para saber mais Leia o livro A invenção
Para saber mais Leia o livro A invenção do cotidiano : artes de fazer ,
Para saber mais Leia o livro A invenção do cotidiano : artes de fazer ,
Para saber mais Leia o livro A invenção do cotidiano : artes de fazer ,
Para saber mais Leia o livro A invenção do cotidiano : artes de fazer ,
Para saber mais Leia o livro A invenção do cotidiano : artes de fazer ,
Para saber mais Leia o livro A invenção do cotidiano : artes de fazer ,
Para saber mais Leia o livro A invenção do cotidiano : artes de fazer ,
Para saber mais Leia o livro A invenção do cotidiano : artes de fazer ,

Para saber mais

Para saber mais Leia o livro A invenção do cotidiano : artes de fazer , de
Para saber mais Leia o livro A invenção do cotidiano : artes de fazer , de
Para saber mais Leia o livro A invenção do cotidiano : artes de fazer , de
Leia o livro A invenção do cotidiano : artes de fazer , de Michel de

Leia o livro A invenção do cotidiano: artes de fazer, de Michel de Certeau (1999) ou, ainda, artigos na Internet do autor que trazem possibilidades “outras” de pensar o cotidiano.

de Certeau (1999) ou, ainda, artigos na Internet do autor que trazem possibilidades “outras” de pensar
trazem possibilidades “outras” de pensar o cotidiano. Atividades de aprendizagem 1. Explique a denominação da

Atividades de aprendizagem

1. Explique a denominação da Nova História Cultural.

2. Quais são os autores que fazem uma releitura da teoria marxista?

Cultural. 2. Quais são os autores que fazem uma releitura da teoria marxista? Estudos_historicos.indb 28 20/06/14
Cultural. 2. Quais são os autores que fazem uma releitura da teoria marxista? Estudos_historicos.indb 28 20/06/14

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Conceitos da história

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Conceitos da história 29 Fique ligado! Nesta unidade, você aprendeu que: A história possui um campo

Fique ligado!

Nesta unidade, você aprendeu que:

A história possui um campo vasto para explicar o objeto de investigação,

estando relativo às experiências dos sujeitos e do contexto em que os mesmos estejam inseridos.

Os modos de escrever a história são tão diversos e os métodos são tão variados, os temas são díspares e, além disso, as conclusões são divergentes no campo da história.

A história possui um método de investigação adequado aos materiais

históricos, porém, longe de parecer com as ciências exatas.

Não existe a verdade absoluta em história, mas “verdades históricas”, pois um acontecimento histórico pode ser analisado a partir de dife- rentes pontos de vista.

Desde o surgimento da historiografia, identificamos diferentes maneiras de compreender o objeto da história (o homem em sociedade).

Apresentamos as formas de se escrever a história, a partir das correntes historiográficas.

a história, a partir das correntes historiográficas. Para concluir o estudo da unidade Espero que esta
Para concluir o estudo da unidade Espero que esta unidade tenha contribuído para você compreender
Para concluir o estudo da unidade Espero que esta unidade tenha contribuído para você compreender
Para concluir o estudo da unidade Espero que esta unidade tenha contribuído para você compreender

Para concluir o estudo da unidade

Para concluir o estudo da unidade Espero que esta unidade tenha contribuído para você compreender noções
Para concluir o estudo da unidade Espero que esta unidade tenha contribuído para você compreender noções
Espero que esta unidade tenha contribuído para você compreender noções do que é história bem

Espero que esta unidade tenha contribuído para você compreender noções do que é história bem como os modos de escrevê-la, a partir das diferentes escolas históricas. Procure também aprofundar mais sobre esse assunto realizando leituras complementares por meio de pesquisas pela Internet.

Procure também aprofundar mais sobre esse assunto realizando leituras complementares por meio de pesquisas pela Internet.
Procure também aprofundar mais sobre esse assunto realizando leituras complementares por meio de pesquisas pela Internet.

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assunto realizando leituras complementares por meio de pesquisas pela Internet. Estudos_historicos.indb 29 20/06/14 11:36

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AOS

ESTUDOS

HISTÓRICOS

 
 
   
   

Atividades de aprendizagem da unidade

 

1. Analise o texto que segue e responda às questões apresentadas a seguir:

 

É

que formular um problema é precisamente o começo

e

o fim de toda a história. Se não há problemas, não há

 

história. Apenas narrações, compilações. Lembrem-se:

se não falei de “ciência da história, falei de “estudo cientificamente conduzido”. Estas duas palavras não estavam lá para compor a frase. A fórmula cientifica- mente conduzida implica duas operações, as mesmas

que se encontram na base de qualquer trabalho científico moderno: indicar problemas e formular hipóteses. Duas operações que já os homens do meu tempo se revela- vam especialmente perigosas. Porque pôr problemas, ou formular hipóteses, era muito simplesmente trair. Nesse tempo, os historiadores viviam num respeito pueril e devoto pelos “fatos”. Habitava-os a convicção ingênua

 

e

tocante de que o sábio era um homem que, ao olhar

 

pelo seu microscópio, aprendia logo uma braçada de fatos (FEBVRE, 1989, p. 31-32).

 

a) A qual corrente historiográfica o texto pertence?

b) Segundo Febvre, o que deve ser fundamental para a construção do conhecimento histórico?

c) O texto faz uma crítica em qual corrente historiográfica? Justifique retirando a frase que apresenta tais críticas.

2. Após a leitura dos dois fragmentos, responda a seguinte questão:

 

Texto a — D. Pedro II foi o segundo imperador do Brasil. Sábio e dinâmico, nasceu em 1825, no Rio de Janeiro e faleceu em 1891 em Paris.

Texto b — O desenvolvimento da produção produz a desigualdade no meio da tribo: formam-se na tribo grupos que possuem direitos diferentes. Aí está um efeito da divisão do trabalho.

Analisando os textos acima, podemos identificar que estão sendo escritos a partir da história tradicional? Justifique sua resposta, argu- mentando e diferenciando ambos.

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tradicional? Justifique sua resposta, argu- mentando e diferenciando ambos. Estudos_historicos.indb 30 20/06/14 11:36

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3. Leia atenciosamente o texto: A História é a história do homem, não de um só homem, mas da humanidade e é construída a partir de nossa vivência, fruto das nossas ações diárias e não de algo sonhado. Portanto, fazemos parte dela e nela desempenhamos um papel. Ao

pensar em História podemos dizer que ela tem dois sentidos: a his- tória vivida e a compreensão desta história vivida. Pois, construímos

a História todos os dias através dos nossos atos e ações, bem como

temos a necessidade de entendê-los, isto é, compreender como eles refletem em nossa vida e entender as condições de nossa realidade.

Quando pedi para os alunos explicarem o que compreendem sobre história, fiquei surpresa com algumas respostas, entre elas:

Aluno 1 — A história é fundamental apenas para conhecer as festas cívicas, a bandeira e o hino nacional.

Aluno 2 — Pode-se dizer que a história é apenas a ciência do passado, cabe apenas compreender a história dos reis, imperadores.

Aluno 3 — Nem todos podem ser considerados sujeitos históricos, porque senão impossibilita compreender as condições da realidade.

A partir das respostas obtidas, se você estivesse na condição de pro-

fessor como faria a correção dos três alunos?

Para responder a essa questão devemos nos lembrar de algumas questões importantes: não estudamos história apenas para entender

e conhecer as festas cívicas, a bandeira e o hino nacional. A história

nessa perspectiva abrange a historiografia tradicional, com a Escola dos Annales, novas objetos de estudos surgiram diferentes aborda- gens e problemáticas; a história não é apenas a ciência do passado e não se restringe apenas ao estudo da história dos reis, imperadores, mas de todos os indivíduos; nem todos podem ser considerados sujeitos históricos: esta afirmativa cai por terra com o surgimento da Escola dos Annales e da Nova Esquerda Inglesa, que considera todas as pessoas como sujeitos históricos. Você concorda com os apontamentos que justificam os conceitos equivocados apresentados pelos alunos 1, 2 e 3?

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que justificam os conceitos equivocados apresentados pelos alunos 1, 2 e 3? Estudos_historicos.indb 31 20/06/14 11:36

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AOS

ESTUDOS

HISTÓRICOS

4. Quais as contribuições de Walter Benjamin para a história?

5. Leia o texto a seguir: Embora se compare o ofício do historiador com

o do detetive, pois ambos procuram pistas para realizar a investigação, no entanto, o que os diferencia é que o historiador possui um método específico de análise. Outro fator que os diferencia é que o detetive volta-se principalmente para investigação de casos misteriosos, sus- peitos, assassinatos, pois não está preocupado especificamente em buscar o passado, isso faz com que ele compreenda apenas aquele público envolvido no mistério ou processo criminal, apresentando a verdade sobre aquele fato ocorrido. Enquanto o historiador volta-se para a História e sua pesquisa traz luz aos acontecimentos ocorridos

e que ainda acontecem em nossas sociedades humanas, mas que

consequentemente jamais terá certeza sobre o que de fato aconteceu, visto que procura reconstituir por meio das fontes uma época especí- fica com uma das possíveis interpretações acerca do evento histórico. Por isso, sabe-se que a “verdade” é sempre parcial e incompleta, o que os historiadores produzem são “verdades históricas”.

A partir da leitura, escreva com suas palavras uma síntese acerca da investigação histórica.

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escreva com suas palavras uma síntese acerca da investigação histórica. Estudos_historicos.indb 32 20/06/14 11:36

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Referências

BENJAMIN, Walter. O Narrador. In: Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política, v. I. Trad. S. P. Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985.

O Narrador. In: Obras escolhidas : magia e técnica, arte e política, v. II. Trad. S. P. ROUANET, São Paulo: Brasiliense, 1995.

Passagens. Belo Horizonte: Ed. da UFMG/Imprensa Nacional do Estado de São Paulo, 2007.

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GINSBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais . São Paulo: Cia das Letras, 1989. Estudos_historicos.indb 33 20/06/14 11:36

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34 INTRODUçÃO

AOS

ESTUDOS

HISTÓRICOS

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Ática, 2007. WILLIANS, Raymond. Cultura . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. Estudos_historicos.indb 34 20/06/14

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Unidade 2 As fontes históricas Evandro André de Souza Jó Klanovicz Objetivos de aprendizagem: Fornecer
Unidade
2
As fontes históricas
Evandro André de Souza
Jó Klanovicz
Objetivos de aprendizagem: Fornecer elementos para que o lei-
tor entenda a importância das fontes históricas, a maneira como
estas foram apropriadas pelos historiadores em diversos períodos
históricos, discutindo ainda como esses relatos podem ser utilizados
no contexto da pesquisa e da escrita da história.
Definição das fontes históricas
Seção 1:
Nesta seção, iremos definir fontes históricas, rela-
cionando-as com o fato histórico, salientando a sua
importância no processo de interpretação do acon-
tecimento histórico pesquisado.
As fontes históricas
Seção 2:
A
intenção nesta seção é fazer uma discussão
da
forma como os historiadores se apropriaram das
fontes e dos relatos em diferentes períodos históricos.
O
objetivo é demostrar como cada período histórico
interpreta e escreve a história de forma diferente.
Tipos de relatos ou documentos
Seção 3:
Aqui discutiremos os diversos tipos de documentos
e
relatos que podem ser utilizados no contexto
da
pesquisa histórica, procurando instigar e fornecer
dicas metodológicas para que o leitor possa enten-
der e fazer uso desses registros no seu processo
pesquisa.
de

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possa enten- der e fazer uso desses registros no seu processo pesquisa. de Estudos_historicos.indb 35 20/06/14

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Seção 4: A metodologia da pesquisa e a análise de fontes históricas  

Seção 4:

A metodologia da pesquisa e a análise de fontes históricas

 
 

Apresentaremos nesta seção elementos construtivos

e

metodológicos para a construção de projetos

de

pesquisa, bem como dicas de como analisar as fontes históricas. Buscamos também aproximar a pesquisa

o uso das fontes e registros do ensino da disciplina de história.

e

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o uso das fontes e registros do ensino da disciplina de história. e Estudos_historicos.indb 36 20/06/14

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As fontes históricas

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Introdução ao estudo

A visão que temos do historiador é a de um profissional preocupado em estudar o passado da humanidade. Para realizar essa tarefa, o profissional precisa fazer uso de ferramentas que irão lhe garantir uma visão do processo histórico em análise. Assim, o historiador necessita angariar o maior número de fontes históricas ou registros desse passado a ser historicizado.

Prezado(a) leitor(a): é com esse indicativo que iniciamos esta unidade, que tem como objetivo refletir sobre as fontes históricas e sua consequente utilização para a pesquisa, bem como para a escrita da história.

Fontes históricas são o conjunto de informações que fornecem subsídios para que o historiador fundamente, caracterize, reflita e analise determinado período histórico. No início dos tempos históricos, a principal fonte de pesquisa eram os documentos escritos, pois eles forneciam informações objetivas sobre esses períodos. Com o passar dos tempos e com o desenvolvimento das técnicas comunicativas, o ser humano passou a agregar à escrita elementos variados que passaram a servir de fontes históricas ao trabalho de investigação do historiador.

Apesar de os estudos históricos estarem condicionados à escrita, os his- toriadores contemporâneos vêm fazendo uso das mais variadas fontes para o estudo do passado da humanidade. Essas fontes podem ser escritas ou não escritas, primárias ou secundárias.

As fontes escritas são registros em forma de inscrições, letras de músicas, jornais, livros, relatos literários, cartas, documentos oficiais, documentos di- versos, relatos, diários, revistas, entre outros.

As fontes não escritas são registros da atividade histórica humana que uti- lizam formas de linguagem não escrita. Elas podem ser fotografias, pinturas, indumentárias, esculturas, canções folclóricas ou diversas, quadros, utensílios diversos, relatos orais, filmes, discos fonográficos, entre outras fontes.

Outra fonte não escrita que é de suma importância para os estudos histó- ricos é o relato oral, também chamado de História Oral. Esses relatos podem ser apropriados pelos historiadores para analisar períodos históricos recentes, pois a partir do relato oral de um indivíduo, ou mesmo de um conjunto de indivíduos, todo um contexto histórico pode ser analisado e problematizado.

Esses relatos podem ser coletados pelos historiadores através de entrevistas previamente planejadas e gravadas, ou mesmo através de filmagens em vídeo.

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previamente planejadas e gravadas, ou mesmo através de filmagens em vídeo. Estudos_historicos.indb 37 20/06/14 11:36

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38 INTRODUçÃO

AOS

ESTUDOS

HISTÓRICOS

A História Oral é ideal para fazer análises da história social, cultural e familiar

de uma sociedade.

Tanto as fontes escritas como as não escritas fornecem subsídios preciosos para os estudos históricos. Elas possuem características diferentes. Geralmente, as fontes escritas são mais objetivas, já as fontes não escritas possuem um ca- ráter subjetivo mais acentuado.

Essas diferenças não podem ser vistas como empecilho para o trabalho de investigação do historiador, pois em algumas situações um filme de cunho histó- rico pode informar muito mais sobre uma época do que um documento oficial.

Cabe ao historiador ter o bom senso de selecionar suas fontes, priorizando as que mais se enquadram em sua problemática de análise e estudo.

Seção 1

Definição das fontes históricas

Prezado(a) leitor(a), não existe pesquisa histórica sem a utilização de fontes para fundamentar a investigação. As fontes são os elementos que qualificam

a pesquisa e, ao mesmo tempo, dão credibilidade a ela. Nesta seção, iremos

discutir a importância das fontes históricas, bem como realizar alguns aponta- mentos relacionando a fonte ao historiador e à historiografia.

1.1 A problemática das fontes históricas

A escrita da História, também chamada de historiografia, está relacionada diretamente ao ofício do historiador. É o historiador o responsável pela investi- gação do passado. Sendo assim, cada historiador possui características próprias, geralmente vinculadas a alguma escola historiográfica.

Historiografia é a escrita da história elaborada pelos historiadores.

Georges Duby (1986, p. 7-8), historiador integrante da corrente historiográ- fica intitulada Nova História, afirma que:

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o campo de ação do historiador se desloca ao longo

a função da história na sociedade se temos absolutamente de ter em conside-

ração, no trabalho dos historiadores que nos precederam, o meio em que viveram e a sua própria personalidade, para aproveitarmos ao máximo as suas contribuições.

dos tempos, [ transforma e [

] [

]

]

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personalidade, para aproveitarmos ao máximo as suas contribuições. dos tempos, [ transforma e [ ] [

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As fontes históricas

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Essas palavras caracterizam, com muita propriedade, a atual visão que os historiadores têm dos fatos históricos, pois as análises de um mesmo objeto de estudos podem ser diferentes de época para época. Pois o historiador é fruto de sua época e, consequentemente, sua produção historiográfica atenderá a uma demanda relacionada ao seu tempo presente.

Segundo Jean Glénisson (1991, p. 124), os:

fatos históricos são os fenômenos, as coisas que acon-

tecem aos homens: os acontecimentos. Ora, estes são difi- cilmente previsíveis, jamais idênticos em seus detalhes e de importância infinitamente variada: acontece-lhes afetar todos os homens, mas podem, também, reduzir-se a um simples gesto, a uma palavra. São estritamente localizados no tempo e no espaço e, se muitas vezes o homem é seu autor consciente, com muito maior frequências é ele sua vítima ou seu beneficiário involuntário.

] [

é ele sua vítima ou seu beneficiário involuntário. ] [ Para saber mais O termo fontes
Para saber mais O termo fontes históricas surge como criação dos historiadores do Iluminismo, frisando
Para saber mais O termo fontes históricas surge como criação dos historiadores do Iluminismo, frisando
Para saber mais O termo fontes históricas surge como criação dos historiadores do Iluminismo, frisando
Para saber mais O termo fontes históricas surge como criação dos historiadores do Iluminismo, frisando
Para saber mais O termo fontes históricas surge como criação dos historiadores do Iluminismo, frisando
Para saber mais O termo fontes históricas surge como criação dos historiadores do Iluminismo, frisando

Para saber mais

Para saber mais O termo fontes históricas surge como criação dos historiadores do Iluminismo, frisando de
Para saber mais O termo fontes históricas surge como criação dos historiadores do Iluminismo, frisando de
O termo fontes históricas surge como criação dos historiadores do Iluminismo, frisando de forma equi-

O termo fontes históricas surge como criação dos historiadores do Iluminismo, frisando de forma equi- vocada a pureza das fontes respon- sáveis por fornecer informações de determinado período histórico ou mesmo no processo de elaboração da pesquisa a ser feita. Essa ques- tão da crítica à visão iluminista das fontes históricas será discutida no decorrer desta unidade.

Os fatos históricos se constituem na ma- téria-prima dos historiadores, pois cada pro- blemática investigativa deve ter como base a experiência em si. As informações utilizadas pelo historiador são localizadas no tempo e no espaço; com frequência essas informa- ções possuem caráter subjetivo diverso, po- dendo beneficiar ou dificultar o trabalho de investigação. É impossível reproduzir a ex- periência histórica em laboratório, podemos apenas esperar da experiência que ela se manifeste e venha a ser interpretada aos olhos da historiografia.

Dessa forma, os historiadores contempo- râneos têm o dever de valorizar as diversas fontes disponíveis para a condução de sua investigação. Pois a experiência histórica humana não pode e não deve ser vista e analisada apenas como um fenômeno isolado. A História é viva e ela se relaciona com as mais diversas formas de expressões temporais e espaciais. Neste sentido, o contato e a análise do fato histórico exigem do historiador grande discernimento e postura ética.

As conclusões dos historiadores nunca são definitivas. Portanto, a histo- riografia não deve ter a preocupação de fixar verdades absolutas, prontas e

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riografia não deve ter a preocupação de fixar verdades absolutas, prontas e Estudos_historicos.indb 39 20/06/14 11:36

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40 INTRODUçÃO

AOS

ESTUDOS

HISTÓRICOS

acabadas, pois a História, como forma de conhecimento, é uma atividade contínua de pesquisa. Segundo esse entendimento, é comum termos inter- pretações diferentes sobre o mesmo objeto de estudo, basta que o historiador utilize fontes diferentes de análise para que isso venha a acontecer.

Como exemplo, pensemos no “descobrimento” do Brasil. Qual o principal documento impresso sobre esse acontecimento? Quem pensou na Carta de Pero Vaz de Caminha acertou!

A função dessa famosa carta era informar ao Rei de Portugal acerca da

“descoberta” de terras localizadas a ocidente da costa africana. A carta faz uma descrição belíssima e minuciosa da terra e do povo que a habita. Ela se constitui em um dos documentos mais importantes da História do Brasil. Apesar disso, a carta por si só não fornece subsídios para que os historiadores entendam esse período da História do Brasil na sua totalidade.

esse período da História do Brasil na sua totalidade. Para saber mais A questão do descobrimento
Para saber mais A questão do descobrimento deve ser questionada, pois na verdade o Brasil
Para saber mais A questão do descobrimento deve ser questionada, pois na verdade o Brasil
Para saber mais A questão do descobrimento deve ser questionada, pois na verdade o Brasil
Para saber mais A questão do descobrimento deve ser questionada, pois na verdade o Brasil
Para saber mais A questão do descobrimento deve ser questionada, pois na verdade o Brasil
Para saber mais A questão do descobrimento deve ser questionada, pois na verdade o Brasil
Para saber mais A questão do descobrimento deve ser questionada, pois na verdade o Brasil
Para saber mais A questão do descobrimento deve ser questionada, pois na verdade o Brasil

Para saber mais

Para saber mais A questão do descobrimento deve ser questionada, pois na verdade o Brasil foi
Para saber mais A questão do descobrimento deve ser questionada, pois na verdade o Brasil foi
Para saber mais A questão do descobrimento deve ser questionada, pois na verdade o Brasil foi
A questão do descobrimento deve ser questionada, pois na verdade o Brasil foi conquistado pelos
A questão do descobrimento deve ser questionada, pois na verdade o Brasil foi conquistado pelos

A questão do descobrimento deve ser questionada, pois na verdade o Brasil foi conquistado pelos navegadores portugueses no início do século XVI e não descoberto. O desenvolvimento do senso crítico com relação as fontes e registros históricos é de suma importância na organi- zação do trabalho de escrita da história efetuado pelo historiador.

O Brasil, a partir de 1500, época da publicação da carta, seria transformado

em colônia portuguesa. Esse aspecto é muito importante, pois foi a partir da co-

lonização que diversos problemas passaram a assolar os nativos que habitavam o território brasileiro antes da chegada dos portugueses. Entretanto, a leitura da carta não menciona, em momento algum, a provável dominação que seria exercida pelos conquistadores em relação aos nativos brasileiros.

Nesse sentido, para problematizarmos o “descobrimento” do Brasil e a sua consequente colonização, não poderíamos utilizar apenas a Carta de Pero Vaz de Caminha, pois esta forneceria uma visão incompleta acerca desse fenômeno histórico. Para termos uma visão mais detalhada desse período, é imprescindível nos apropriarmos de outras fontes históricas.

Resumindo: se um historiador utilizasse apenas a Carta de Pero Vaz de Ca- minha para analisar a colonização portuguesa no Brasil, ele poderia concluir que essa colonização foi harmoniosa, que os colonizadores respeitaram a cultura dos nativos, que os nativos não foram escravizados, que a terra não foi

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dos nativos, que os nativos não foram escravizados, que a terra não foi Estudos_historicos.indb 40 20/06/14

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As fontes históricas

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explorada à exaustão. Enfim, que a história do descobrimento do Brasil foi um processo histórico contínuo, sem rupturas e que atendeu tanto aos interesses dos europeus quanto aos dos nativos.

A questão do descobrimento deve ser discutida, pois, na verdade, o Brasil

foi conquistado pelos navegadores portugueses no início do século XVI e não

descoberto.

Entretanto, se o historiador pesquisar em outras fontes — tais como: relatos de nativos, outros relatos de exploradores europeus, a arqueologia, os relatos dos jesuítas, entre outras fontes —, ele irá concluir que a colonização portuguesa do Brasil foi um processo doloroso, com inúmeras rupturas no cotidiano do nativo.

Segundo o historiador Edward Hallet Carr (1996, p. 45):

A História consiste num corpo de fatos verificados. Os fatos estão disponíveis para os historiadores nos documen- tos, nas inscrições, e assim por diante, como os peixes na tábua do peixeiro. O historiador deve reuni-los, depois levá-los para casa, cozinhá-los, e então servi-los da ma- neira que mais o atrai.

O historiador é um pesquisador que necessita ter um cuidado especial com

as fontes históricas, pois são elas que darão sentido para o seu ofício. É a partir

do ato reflexivo ligado ao material de pesquisa que o investigador irá esmiuçar o seu objeto de análise e estudo.

Muitas vezes, a História tem sido vista como um enorme quebra-cabeças, com muitas partes faltando. Porém, o problema principal não consiste nas lacunas e sim na imagem que construímos de determinado fato histórico. Para facilitar, vamos utilizar o exemplo da Grécia.

Os historiadores possuem uma visão incompleta da Grécia do século V a. C.,

mas porque é, em grande

não porque tantas partes se perderam por acaso, “[

parte, o retrato feito por um pequeno grupo de Atenas” (CARR, 1996, p. 49).

Sabemos muito de Atenas, mas pouco da Grécia em si. Nesse sentido, o saber histórico construído acerca da História Grega está ligado diretamente à História da Cidade-Estado de Atenas, o que vem a simplificar todo um con- texto histórico, dificultando a visão das diversas especificidades históricas do restante da Grécia.

Essa visão da História Grega relacionada a Atenas, ou mesmo a visão de que os Estados Unidos da América são a nação mais desenvolvida e impor- tante do mundo contemporâneo, estão ligadas a uma imagem pré-selecionada

]

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tante do mundo contemporâneo, estão ligadas a uma imagem pré-selecionada ] Estudos_historicos.indb 41 20/06/14 11:36

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AOS

ESTUDOS

HISTÓRICOS

e predeterminada, “não por acaso, mas por pessoas que estavam, consciente ou inconscientemente, imbuídas de uma visão particular e que consideravam os fatos que sustentavam essa visão dignos de serem preservados” (CARR, 1996, p. 49).

Neste sentido, o que sustenta que a História Grega seja basicamente a His- tória de Atenas e que a nação mais poderosa do mundo atual são os Estados Unidos da América é justamente a visão pré-estabelecida acerca do objeto de estudo. Se houvesse a preocupação de estudar a História Grega a partir de Esparta, certamente a narrativa seria outra, ou se o modo de produção capita- lista desse espaço a outro modelo econômico, certamente a visão acerca do domínio americano iria mudar.

certamente a visão acerca do domínio americano iria mudar. Questões para reflexão Você acredita na
Questões para reflexão Você acredita na imparcialidade do historiador?
Questões para reflexão Você acredita na imparcialidade do historiador?
Questões para reflexão Você acredita na imparcialidade do historiador?
Questões para reflexão Você acredita na imparcialidade do historiador?

Questões para reflexão

Questões para reflexão Você acredita na imparcialidade do historiador?
Questões para reflexão Você acredita na imparcialidade do historiador?
Você acredita na imparcialidade do historiador?

Você acredita na imparcialidade do historiador?

Devemos ter clareza de que os fatos históricos nunca chegam a nós de forma “pura”, eles são sempre interpretados pelo historiador que o registrou. “Como consequência, quando pegamos um trabalho de História nossa preo- cupação não deveria ser com os fatos que ele contém, mas com o historiador que o escreveu” (CARR, 1996, p. 58).

Certamente as visões dos fatos e dos objetos passam necessariamente pela escrita da História, sendo o historiador o principal responsável pela elaboração de um discurso negativo ou positivo acerca de determinado fato histórico. É a História dos vencedores que acaba por apagar a História dos vencidos, os que dominam determinam o curso da História em detrimento daqueles que são dominados.

Concluímos então que é de suma importância que o historiador possua ao seu alcance o maior número de fontes históricas, pois estas permitem ao his- toriador desvendar o seu objeto de estudo com mais propriedade e, acima de tudo, com mais honestidade. É conveniente afirmar que a historiografia, muitas vezes, é comprometida com um segmento da sociedade, deixando assim de dar visibilidade a outro. Muitas vezes, os historiadores só se preocupam em analisar os aspectos econômicos em detrimento dos aspectos históricos de ordem cultural, política e social. Os historiadores devem priorizar uma aná- lise, entretanto não devem desconsiderar fontes que possam contribuir para o aprofundamento de questões relacionadas ao seu objeto de estudo.

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para o aprofundamento de questões relacionadas ao seu objeto de estudo. Estudos_historicos.indb 42 20/06/14 11:36

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Atividades de aprendizagem

 

1.

A

elaboração de uma pesquisa depende em grande parte da obten-

ção e do tratamento das fontes históricas. Contudo, nem sempre as fontes se encontram disponíveis em bom estado de conservação ou possuem ampla movimentação pelos pesquisadores. Por outro lado, existe uma busca por novas fontes que possam aprofundar ainda mais

o

estudo e trazer à tona novos sujeitos e particularidades à pesquisa.

Diante disso, disserte sobre os tipos de fontes que são possíveis de ser utilizadas na pesquisa histórica, bem como o papel do historiador frente às fontes.

2.

Faça um relato acerca das características históricas da sua comuni- dade, bairro ou cidade.

acerca das características históricas da sua comuni- dade, bairro ou cidade. Estudos_historicos.indb 43 20/06/14 11:36
acerca das características históricas da sua comuni- dade, bairro ou cidade. Estudos_historicos.indb 43 20/06/14 11:36

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AOS

ESTUDOS

HISTÓRICOS

Seção 2

As fontes históricas

Discutiremos, nesta seção, a forma como os historiadores, ao longo do tempo, se apropriaram das fontes históricas. A intenção é fornecer subsídios para que vocês entendam como a visão do que é fonte histórica e qual a sua função na pesquisa se transformou nos diversos períodos históricos. Além disso, vamos aproximar as fontes dos relatos históricos, pois entendemos que o termo fonte pode ser questionado, pois remete a um tipo de “pureza” iluminista.

2.1 As fontes históricas como relatos

se a história é, antes de tudo, relato, ela é

também [

de saber ligada à instituição histórica” (DOSSE, 2003, p. 137). Nesse sentido, profissionais da História não podem sobreviver sem o “relato”, que é inerente a sua própria função em pesquisa e ensino, mas também é o elemento funda- mental para problematizar sua prática.

Desde Heródoto, Sima Qian ou Tucídides, passando por Cícero, Marx ou Fernand Braudel, trabalhamos com o relato, oriundo de diversos tipos de do- cumentos. Eles podem ser ouvidos, vistos, escritos, inscritos. Eles podem estar presentes numa anedota, num discurso, num documento escrito, numa pedra, na forma de arremesso de um objeto, na sensibilidade com relação a aromas ou ainda em tabelas de números.

uma prática que se refere ao lugar da enunciação, a uma técnica

François Dosse lembra que, “[

]

]

a uma técnica François Dosse lembra que, “[ ] ] Questões para reflexão Você sabia que
Questões para reflexão Você sabia que a utilização de um caderno de notas é muito
Questões para reflexão Você sabia que a utilização de um caderno de notas é muito
Questões para reflexão Você sabia que a utilização de um caderno de notas é muito

Questões para reflexão

Questões para reflexão Você sabia que a utilização de um caderno de notas é muito importante
Questões para reflexão Você sabia que a utilização de um caderno de notas é muito importante
Você sabia que a utilização de um caderno de notas é muito importante para o

Você sabia que a utilização de um caderno de notas é muito importante para o historiador? Sugestão: adquira um “caderninho” de notas, igual aqueles que são vendidos em papelarias, e passe a anotar aspectos do seu cotidiano. Daqui a alguns anos você vai se surpreender com os textos que você terá em mãos sobre o seu próprio passado.

Histórias são construídas por meio da articulação entre documentos, inten- ções do historiador ou da historiadora, escolhas de narrativas, e seleção, cata-

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do historiador ou da historiadora, escolhas de narrativas, e seleção, cata- Estudos_historicos.indb 44 20/06/14 11:36

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logação, reunião, organização e exposição dos fragmentos de um passado de forma a comunicar uma pretensão de verdade ou, ao menos, uma interpretação da realidade, reapresentando os pequenos trechos de passado impressos em registros diversos num todo orgânico e lógico, a ser denominado de passado propriamente dito. David Lowenthal (1998) afirmou, certa vez, que o “passado é um país estrangeiro”; essa metáfora é muito feliz na medida em que nos leva a uma premissa básica da pesquisa histórica sobre o passado, que é a limitação do profissional de História perante os documentos de que ele pode dispor sobre esse mesmo passado, ou seja, geralmente são poucos fragmentos.

A expressão de Lowenthal reforça, nada

poucos fragmentos. A expressão de Lowenthal reforça, nada Para saber mais A escrita da história é
Para saber mais A escrita da história é construída a partir da seleção de relatos
Para saber mais A escrita da história é construída a partir da seleção de relatos
Para saber mais A escrita da história é construída a partir da seleção de relatos
Para saber mais A escrita da história é construída a partir da seleção de relatos
Para saber mais A escrita da história é construída a partir da seleção de relatos
Para saber mais A escrita da história é construída a partir da seleção de relatos

Para saber mais

Para saber mais A escrita da história é construída a partir da seleção de relatos his-
Para saber mais A escrita da história é construída a partir da seleção de relatos his-
A escrita da história é construída a partir da seleção de relatos his- tóricos. Essa

A escrita da história é construída a partir da seleção de relatos his- tóricos. Essa construção não é in- gênua e muito menos natural. Cada historiador irá construir um discurso historiográfico acerca do período estudado. Portanto, sem- pre temos que conhecer o histo- riador responsável pela narrativa histórica em questão. Conhecer o pensamento do historiador é tão importante quanto ter domínio sobre as fontes.

mais nada menos, a observação de Fernand

Braudel, de que a História se faz com docu- mentos, mas que os sentidos e ideias de docu- mentos mudam, também, no tempo histórico (BRAUDEL, 1992). Em definitivo, é claro que a História se faz com documentos. Mas quais documentos?

No mundo antigo greco-romano, os do- cumentos utilizados por Heródoto asseme- lhavam-se mais aos exercícios etnográficos da Antropologia emergente do século XIX,

ou às fontes orais, trabalhadas desde o século

XVIII em estudos folclóricos e históricos. No

período de plena cientifização do trabalho do historiador (no século XIX), esses dados arrolados por Heródoto certamente não teriam espaço em correntes como o historicismo alemão, uma vez que houve um reforço significativo da ideia de que só teria valor histórico o documento oriundo de arquivos oficiais, e que, por conseguinte, também fosse oficial (DOSSE, 2003).

Tucídides é quem começa a estabelecer a necessidade, para o pensamento histórico, de documentos escritos e relatos oficiais para dar organicidade à narrativa da História. Na Guerra do Peloponeso, escrita pelo autor, notamos a emergência do uso de documentos escritos na constituição das histórias pro- postas. Ressaltamos, contudo, que esse processo é peculiar do mundo grego clássico, e não devemos generalizá-lo para período semelhante. Na Ásia, es- pecialmente na China, o processo é diferente.

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semelhante. Na Ásia, es- pecialmente na China, o processo é diferente. Estudos_historicos.indb 45 20/06/14 11:36

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Devemos ter, também, precaução ao tratar das histórias escritas por gregos no mundo antigo. Tucídides é uma exceção à regra das histórias daquele período, em sua insistência por documentos escritos. Com os romanos é diferente, mas, com os gregos, devemos levar em conta que a escrita, em certa medida, e por um bom tempo, era considerada “negócio de bárbaros”, no caso, especialmente os egípcios (DOSSE, 2003). Eram os egípcios, por exemplo, que tinham uma fixação por documentar as suas realizações, em pedras, estelas, estátuas e, especialmente, documentos. Dos gregos, herdamos mais monumentos e textos filosóficos do que históricos, e sua história é mais estudada a partir de cultura material do que textual.

Outra sociedade antiga que produzirá, sim, muitos documentos, será a romana, desde a república até o império. Diferente- mente dos gregos, a história adquirirá papel didático, moral e de registro oficial de rea- lizações militares e políticas, por meio de historiadores oficiais, com acesso a arquivos também oficiais ou privados. Se Heródoto estava mais interessado em relatar o que ouviu ou viu, num período não maior do que uma ou duas gerações anteriores a ele, Políbio, um escravo grego na função de his- toriador oficial romano, construirá narrativa de outra espécie, mais detalhada, datada, vinculada a um registro oficial para servir de exemplo, guia ou propedêutica para o futuro.

A partir de Políbio, Roma inaugurará no Ocidente algo que já havia, no mesmo período, na China, que é a figura que poderíamos chamar de “histo- riador oficial de estado” (que, no Ocidente, será o historiador analista, aquele que, a cada ano, escreverá sobre as realizações do período). Tito Lívio é um dos exemplos desse tipo de historiador, ao escrever as vidas dos césares, com função educativa e moral, mas também com a função senatorial de registrar os procedimentos legais e a história político-administrativa romana.

Documentos, para Roma, teriam então outro sentido e outras qualidades e propriedades. O ouvir contar perderia força, substituído pelos atos oficiais, não necessariamente escritos, porém chancelados por notáveis da sociedade.

escritos, porém chancelados por notáveis da sociedade. Para saber mais As sociedades ágrafas são vistas
Para saber mais As sociedades ágrafas são vistas como pré-históricas, pois ainda não criaram e
Para saber mais As sociedades ágrafas são vistas como pré-históricas, pois ainda não criaram e
Para saber mais As sociedades ágrafas são vistas como pré-históricas, pois ainda não criaram e
Para saber mais As sociedades ágrafas são vistas como pré-históricas, pois ainda não criaram e
Para saber mais As sociedades ágrafas são vistas como pré-históricas, pois ainda não criaram e
Para saber mais As sociedades ágrafas são vistas como pré-históricas, pois ainda não criaram e

Para saber mais

Para saber mais As sociedades ágrafas são vistas como pré-históricas, pois ainda não criaram e desenvolveram
Para saber mais As sociedades ágrafas são vistas como pré-históricas, pois ainda não criaram e desenvolveram
As sociedades ágrafas são vistas como pré-históricas, pois ainda não criaram e desenvolveram a escrita

As sociedades ágrafas são vistas como pré-históricas, pois ainda não criaram e desenvolveram a escrita como forma de registrar a história. Porém, estas sociedades desenvol- veram outras formas de registros e manifestações que podem ser apropriadas pelo historiador para entender aquele período histórico, são elas: vestimentas, utensílios, artesanato, construções, formas de linguagem orais, manifestações folclóricas e religiosas.

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formas de linguagem orais, manifestações folclóricas e religiosas. Estudos_historicos.indb 46 20/06/14 11:36

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É claro que isso é para a História escrita na época romana, porque hoje, ao

escrevermos história do mundo romano, nos aproveitamos de uma infini- dade de documentos deixados em todo o mundo, que vão desde grafite em paredes de antigos prédios, bilhetes pessoais, contratos de casamento, até monumentos e instrumentos de trabalho.

de casamento, até monumentos e instrumentos de trabalho. Questões para reflexão Você considera importante e
Questões para reflexão Você considera importante e confiável o trabalho de pesquisa realizado pelo autodidata
Questões para reflexão Você considera importante e confiável o trabalho de pesquisa realizado pelo autodidata
Questões para reflexão Você considera importante e confiável o trabalho de pesquisa realizado pelo autodidata
Questões para reflexão Você considera importante e confiável o trabalho de pesquisa realizado pelo autodidata

Questões para reflexão

Questões para reflexão Você considera importante e confiável o trabalho de pesquisa realizado pelo autodidata ao
Questões para reflexão Você considera importante e confiável o trabalho de pesquisa realizado pelo autodidata ao
Você considera importante e confiável o trabalho de pesquisa realizado pelo autodidata ao analisar aspectos

Você considera importante e confiável o trabalho de pesquisa realizado pelo autodidata ao analisar aspectos fragmentados da história?

Nem substituição, nem continuidade, nem declínio, apenas outra forma de entender a História ocorre a partir da emergência do cristianismo e de sua expansão dentro desse mundo romano que se espalha desde a África, passando por parte do Oriente Médio e abraçando todo o Mediterrâneo, adentrando, tam- bém o continente europeu. Para os cristãos, a História dos homens e mulheres

é tão somente a revelação proposta pelo único documento verdadeiramente

importante: a Bíblia, que vai, também, se formulando em sua versão latina ao longo da Pax Romana e da insustentabilidade da sociedade militarista romana.

O cristianismo irá propor, a partir da leitura da vida de Jesus Cristo, o fim da História, e a proposta de desprendimento humano com relação a virtudes

e morais pagãs, o que vai desarticular a ideia e a importância social da Histó- ria, desde o fim da Idade Antiga, alcançando quase que a totalidade da época medieval (CAMBI, 1999).

Por isso é possível dizer, em certa medida, que os estudos históricos não te- rão relevância no mundo medieval, na medida em que documentos produzidos com intenções humanas nada seriam em comparação com o único documento importante para o entendimento da existência humana.

Haverá, sim, documentos relevantes no mundo medieval, que serão usa- dos em hagiografias — as biografias dos santos. Não significa, também, que o mundo medieval europeu não produziu documentos que hoje são utilizados por historiadores; o mundo medieval produziu uma quantidade extremamente volumosa de documentos dos mais variados gêneros, cobrindo os mais di- ferentes campos especulativos, desde aspectos triviais da vida cotidiana até tratados políticos, elementos que, no século XX, redundaram em histórias inte-

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políticos, elementos que, no século XX, redundaram em histórias inte- Estudos_historicos.indb 47 20/06/14 11:36

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ressantíssimas das vidas pública e privada, e dos mundos urbano e não urbano medievais que seriam difíceis de serem estruturados levando-se apenas poucos fragmentos, como é o caso de algumas regiões do mundo antigo.

No mundo medieval, contudo, devemos levar em consideração a reemer- gência do uso de fontes orais em combinação com documentos escritos e imagéticos, quando pensamos nos historiadores muçulmanos que trafegavam entre o Oriente Médio, o Norte e o Centro da África, e partes da Europa. Ibn Khaldum, Ibn Battuta, Ibn Sina são alguns dos exemplos de historiadores im- portantes do período.

São esses historiadores que irão influenciar, em certa medida, um retorno da História no mundo medieval europeu. Ibn Khaldum, por exemplo, reintroduzirá

o modelo de relato escrito que leva em conta rigor de datação e cronologia, critérios claros para a escolha de documentos, método para a organização lógica do argumento e da narrativa históricos, além de preocupação com didatismo e comunicabilidade textuais.

Grande parte da História do continente africano deve-se, também, à coleta de relatos por esses historiadores muçulmanos, caracterizados pela captação, análise e crítica de documentos oriundos de diferentes espaços públicos e privados, e dotados de características diferenciadas entre si.

Até aqui estamos expondo, de maneira generalista, a multiplicidade do conceito de documento a partir de exemplos dispostos cronologicamente, do mundo antigo ocidental, para o mundo moderno. Percebe-se que o docu- mento assume diferentes formas e usos segundo as abordagens escolhidas, e essas especificidades serão mais bem discutidas quando forem estudadas as principais abordagens históricas reconhecidas na atualidade.

Nos alvores do mundo moderno, a partir de eventos inerentes à Revolu-

ção Científica, ou ao descobrimento da América, e o refinar das navegações,

o encontro da Europa com seus “outros”, marcadamente no que os europeus

dos séculos XV e XVI passaram a chamar de Novo Mundo, a necessidade de se construir narrativas históricas desses processos passou a orientar um retorno da imperiosidade do divino medieval, para a imperiosidade do mundano. Descobertas, viagens, aventuras, ambientes, eram cada vez mais registrados por documentos verbais e visuais, textos seguidos de desenhos, muitas vezes

identificados como crônicas, histórias, relações ou cartas.

Muitas vezes, o conhecimento histórico utilizou-se do termo “fonte” para designar documento (e ainda o utiliza, dependendo da abordagem). Não há

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para designar documento (e ainda o utiliza, dependendo da abordagem). Não há Estudos_historicos.indb 48 20/06/14 11:36

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termo mais preso a sua época do que esse, quando pensamos na discussão do estatuto do documento na pesquisa e no ensino de História. A fonte emerge com esse designativo durante a apropriação e discussão da História pelos ilu- ministas, entre os séculos XVII e XVIII.

O termo fonte ajudou, inclusive, a produzir uma falsa impressão de que os documentos jamais seriam manipulados, apropriados ou interpretados de maneira diferente do que seus objetivos iniciais. Fonte é alegoria da pureza, da fluidez, da limpidez, da saciedade do historiador. Os iluministas salientaram e reafirmaram o papel dos documentos históricos como “fontes”, na medida em que seria por meio de documentos “puros”, “imaculados”, “claros”, que a História poderia emergir matando a sede de curiosidade e, especialmente, de verdade dos acontecimentos passados.

No início do século XIX, com arquivos públicos em processo de expansão e consolidação, as fontes históricas tiveram papel importante para o surgimento de um esforço crescente de uso de documentos para escrever histórias “do que realmente aconteceu”.

Para escrever o que realmente aconteceu, alguns historiadores, como é

o caso de Leopold von Ranke, recorreram à legitimação da História por meio

do uso de protocolos de pesquisa advindos da heurística documental e de uma racionalização objetiva, na qual a ideia de bom historiador estaria intimamente ligada com a sua capacidade de isentar-se das intenções discursivas dos docu- mentos, na sua habilidade em apresentar-se por meio da imparcialidade e da neutralidade frente às fontes utilizadas. Uma boa história seria aquela capaz de ser contada pelo historiador, a partir das fontes em si.

No final do século XIX, com o projeto de objetivação do conhecimento histórico de vento em poupa, Charles Langlois e Charles Seignobos lançam, em 1896, a obra Introdução aos estudos históricos.

Um dos aspectos essenciais no livro de Langlois e Seignobos é a teorização sobre o documento e seus usos pela História. Entre as proposições desses dois autores estava a reafirmação de algumas qualidades do que seria ou não um documento histórico, a utilidade deles para a História, a sua localização, e sua validação (LANGLOIS; SEIGNOBOS, 1946).

Para Langlois e Seignobos (1946), documento histórico seria oriundo, espe- cialmente, da instituição chamada arquivo público. Esse documento, portanto,

já seria fruto de um processo de seleção, catalogação e inventário por parte de

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fruto de um processo de seleção, catalogação e inventário por parte de Estudos_historicos.indb 49 20/06/14 11:36

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arquivólogos e, desde sempre, sua vitalidade e importância seria ditada, numa primeira instância pelas autoridades.

Os documentos oficiais de arquivo seriam a máxima expressão da objetivi- dade dos interesses de Estado, e das realizações político-administrativo-buro- cráticas, reafirmando, também, sua importância na vida pública de nações ou de grupos sociais. A esses documentos, caberia proceder a inquéritos de ordem interna e externa, para averiguação da sua autenticidade e validade (elementos positivos que permanecem na prática da História).

Na Heurística interna, o historiador deveria buscar analisar pormenori- zadamente a constituição do documento por si, sua forma, sua estética, seu discurso, sua construção em sentido restrito. Na Heurística externa, a sua va- lidade levando-se em conta a relação existente com outros documentos, com as instituições originárias, com a época e o local de formulação.

O que o Positivismo de Langlois e Seignobos propunha, então, não seria de todo um procedimento ruim; pelo contrário, buscaria reverter certo desleixo propugnado por formas de se fazer história que não se detinham, antes deles, a desenvolver uma série de procedimentos de verificação da “fonte”.

Contudo, não podemos nos deixar, também, inebriar pela máxima obje- tividade da verificação documental proposta por essa história quase ligada às Ciências Naturais do final do século XIX; as verificações são importantes, não por si, mas para depreendermos dos documentos os interesses, de quem fala, de onde fala, para quem fala e o que se pretende, em termos de exercício de uma relação de poder.

Os documentos, dessa maneira, articulam uma vontade de veracidade, uma potencialidade de refutabilidade (RÜSEN, 2007b). A história, nesse sentido, é uma narrativa verídica, como Paul Veyne a descreveu, na obra Como se escreve a História.

Ranke tentou objetivar ao máximo a narrativa histórica, atribuindo uma capacidade autoexplicativa aos documentos com os quais o historiador po- deria construir a história, e se Langlois e Seignobos propugnaram protocolos científicos para a História, todos eles dentro de uma tradição de uso e de favo- recimento da documentação de arquivos públicos e oficiais, no entanto, não se pode dizer que apenas essa forma de construção do conhecimento histórico era reconhecida no período.

Julles Michelet, por exemplo, fez amplo uso de documentos não oficiais para discutir e reposicionar o mundo medieval no centro de uma cultura

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oficiais para discutir e reposicionar o mundo medieval no centro de uma cultura Estudos_historicos.indb 50 20/06/14

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europeia cosmopolita e burguesa. Karl Marx, em capítulos de O Capital, tais como “A Jornada de Trabalho” não poupou análise sobre documentos públicos

e privados, laudos médicos, denúncias de trabalhadores, manifestos e outros

textos não necessariamente enquadrados no rol de documentos que iriam para arquivos públicos oficiais.

Entre o final do século XIX e as primeiras três décadas do século XX, a

noção de História foi sacudida, construída e reconstruída a partir de preocu- pações teórico-metodológicas e temáticas. Frente ao objetivismo e à defesa exacerbada da história política, voltada à exaltação de indivíduos e lauda- tória, alguns pensadores como François Simiand, Marc Bloch, Lucien Febvre pejoravam a história que era baseada em três ídolos (expressão de Simiand):

o indivíduo, a data e o fato. Foram eles que, lançando uma revista nova de

história, intitulada Annales d’Histoire Économique et Social, acabaram por articular uma nova forma de se fazer história, a ser difundida pelo grupo de-

signado, posteriormente, de Escola dos Annales.

As críticas sobre o documento, dentro desse grupo, seriam feitas por Fernand Braudel, que propunha a expansão ou dilatação do conceito, afirmando que o historiador não deveria apenas se pautar por documentos oficiais para construir seus enredos, mas por documentos diversos que emergiam do todo social.

Civilização material, economia e capitalismo, uma coleção de três livros produzia por Braudel representa, certamente, um bom exemplo do que é o historiador, a partir da visão historiográfica dos Annales. Nela, Braudel faz uso de receitas, anotações, mapas, croquis. Nada muito distante do que outro historiador, esse brasileiro, chamado Gilberto Freyre, posteriormente inserido na vertente da História Cultural, havia feito em sua grande obra Casa-Grande & Senzala, de 1933.

em sua grande obra Casa-Grande & Senzala , de 1933.   Atividades de aprendizagem   1.
 

Atividades de aprendizagem

 

1.

O conceito de documento sofreu transformações durante os períodos históricos, bem como o tratamento empregado a esta fonte. Na pri- meira metade do século XX, uma nova corrente historiográfica surge, instaurando um olhar diferenciado sobre o documento e consequen- temente, um novo modo de escrever a História. Diante disso, disserte sobre a influência da Escola dos Annales para a nova concepção de documento.

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sobre a influência da Escola dos Annales para a nova concepção de documento. Estudos_historicos.indb 51 20/06/14

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2. A narrativa histórica é construída pelo olhar do historiador! Para que essa tarefa seja realizada é necessário que esse profissional faça uso das chamadas fontes históricas. Escreva um texto salientando a im- portância das fontes históricas. Não se esqueça de dar exemplos!

a im- portância das fontes históricas. Não se esqueça de dar exemplos! Estudos_historicos.indb 52 20/06/14 11:36
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Seção 3

Tipos de relatos ou documentos

Prezado(a) leitor(a), quando profissionais da História utilizam relatos inter- mediados por documentos, passam a considerar qual é o tipo de documento que estão usando. Diferentes tipos de documentos existem por diferentes razões

e conhecer a diferença de tipos de documentos pode nos auxiliar numa melhor construção da crítica à história, bem como aos próprios documentos.

Isso se deve ao uso de uma ampla quantidade de documentos para res- ponder a questões que colocamos com relação ao passado. Para uma grande parte de historiadores e historiadoras empiricistas, há uma divisão básica entre fontes primárias e fontes secundárias, ou documentos primários e documentos secundários.

As fontes ou relatos primários podem servir como arquivos e registros da- quilo que sobreviveu do passado, tais como cartas, fotografias, artigos, roupas. Já fontes ou relatos secundários são aqueles que tratam do passado, mas criados por pessoas escrevendo sobre esses eventos em algum momento posterior a sua ocorrência.

Um exemplo disso é este livro que você tem em mãos. Ele é uma fonte secundária sobre processos historiográficos, ao passo que também é uma das

formas de documento que está registrando um momento e um modo de se fazer história, uma forma, uma perspectiva, nascida num lugar e tempo específicos,

e pela mão de historiadores particulares.

3.1 Documentos escritos publicados e não publicados

Pessoas vivendo no passado deixaram muitas pistas sobre suas vidas. Essas pistas envolvem documentos primários e secundários na forma de livros, artigos pessoais, documentos governamentais, cartas, oralidade, diários, mapas, fotos, relatórios, romances e contos, artefatos, moedas, selos e outros.

Muitos desses documentos foram publicados, o que significa que pode- riam ter audiência e distribuição, como é o caso de livros, jornais, revistas, documentos governamentais e não governamentais, literatura de toda espécie, panfletos, mapas, anúncios, pôsteres, leis e processos.

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de toda espécie, panfletos, mapas, anúncios, pôsteres, leis e processos. Estudos_historicos.indb 53 20/06/14 11:36

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Ao se trabalhar com documentos publicados, devemos lembrar que não é pelo simples fato de estarem publicados que os documentos podem ser confiá- veis e acurados. Todo documento tem um ou vários criadores, e todo criador ou criadora tem um ponto de vista, visões de mundo e preconceitos. Também devemos levar em consideração que toda e qualquer evidência documental, sendo intermediada por preconceitos ou opiniões, contam-nos coisas impor- tantes sobre o passado.

Uma modalidade de documento não publicado é o diário, exemplificado na Figura 2.1, que acabou por se tornar um dos principais documentos de uma ordem social que passou a valorizar a intimidade e a vida privada, com a emergência da burguesia.

Figura 2.1 Diário pessoal

com a emergência da burguesia. Figura 2.1 Diário pessoal Fonte: Ditty_about_summer/Shutterstock (2014). Há, também,

Fonte: Ditty_about_summer/Shutterstock (2014).

Há, também, muitos tipos de documentos não publicados. Nesse rol en- contramos cartas pessoais, diários, documentos familiares contendo histórias da família, boletins escolares, agendas, entre outros. Arquivos empresariais, tais como correspondências, boletins financeiros, informação sobre consumidores,

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como correspondências, boletins financeiros, informação sobre consumidores, Estudos_historicos.indb 54 20/06/14 11:36

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pautas de reunião de direções, arquivos de desenvolvimento de produtos tam- bém nos servem como pistas do passado.

de produtos tam- bém nos servem como pistas do passado. Questões para reflexão Você já parou
Questões para reflexão Você já parou para pensar na importância das cartas pessoais recebidas por
Questões para reflexão Você já parou para pensar na importância das cartas pessoais recebidas por
Questões para reflexão Você já parou para pensar na importância das cartas pessoais recebidas por
Questões para reflexão Você já parou para pensar na importância das cartas pessoais recebidas por

Questões para reflexão

Questões para reflexão Você já parou para pensar na importância das cartas pessoais recebidas por você,
Questões para reflexão Você já parou para pensar na importância das cartas pessoais recebidas por você,
Você já parou para pensar na importância das cartas pessoais recebidas por você, ou mesmo,

Você já parou para pensar na importância das cartas pessoais recebidas por você, ou mesmo, pelos seus familiares, ou amigos no decorrer dos anos. Sabia que elas são muito valiosas como fontes históricas?

Documentos não publicados frequentemente advêm de organizações da comunidade, de igrejas, de clubes de serviço, partidos políticos, sindicatos de trabalhadores. Governos em todos os seus níveis também criam séries de docu- mentos que não são publicados. Isso inclui relatórios de política, listas de taxas e votantes, além de documentos sigilosos.

Ao contrário dos documentos publicados, os registros não publicados são difíceis de serem encontrados e utilizados, especialmente porque têm poucas cópias. Por exemplo, cartas pessoais podem ser encontradas facilmente na posse de uma pessoa que foi a destinatária, desde que tenha interesse em arquivar tais evidências.

Às vezes, as cartas de pessoas famosas podem ser arquivadas e publicadas. No entanto, devemos também pensar que, muitas vezes, o autor ou autora da carta nunca teria a intenção de publicá-la no futuro, ou que alguém pudesse lê-la além do destinatário.

3.2 Documentos visuais

Os documentos visuais incluem fotografias, filmes, pinturas e outras cons- truções culturais. Devido ao fato de que esse tipo de documento captura momentos no tempo, eles podem, principalmente, fornecer evidências das transformações que ocorrem ao longo da história. Documentos visuais incluem evidências sobre a cultura em momentos específicos, tais como seus costumes, preferências, estilos, ocasiões especiais, trabalho e lazer.

Um dos itens mais comuns que encontramos como fontes visuais são as fotos de famílias, que ocupam lugar de destaque no registro da vida cotidiana.

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fotos de famílias, que ocupam lugar de destaque no registro da vida cotidiana. Estudos_historicos.indb 55 20/06/14

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Figura 2.2

Fotos de família

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AOS ESTUDOS Figura 2.2 Fotos de família HISTÓRICOS Fonte: Phase4Studios/Shutterstock (2014). Esses documentos

Fonte: Phase4Studios/Shutterstock (2014).

Esses documentos também têm um criador ou criadora, um ponto de vista (como o do pintor, do escultor, do diretor do filme). Mesmo fotografias foram criadas por fotógrafos usando filme e câmeras para criar os efeitos desejados.

Pensem sobre o ponto de vista do criador quando você visualiza esse tipo de documento. Qual é sua proposta? Qual a razão daquela pose mostrada no documento? Quais são as perspectivas? Qual é o enquadramento? Quais são as distâncias utilizadas? Qual é o assunto? O que foi incluído sobre o assunto? O que foi excluído?

Esses questionamentos são fundamentais, uma vez que a imagem, espe- cialmente a fotografia, por exemplo, cumpre uma das funções essenciais que é a contiguidade com a realidade fotografada (SANTAELLA; NÖRTH, 1999). Essa característica essencial da fotografia muitas vezes sugere que esse tipo de documento retrate, colete ou informe elementos fundamentais da realidade ou dos “fatos reais”. Contudo, devemos sempre mencionar que há um filtro fundamental ao pensarmos em fotos, que é o dedo do fotógrafo, o tipo de má- quina que ele usa, as técnicas de revelação ou digitalização, os softwares que são incorporados nesse processo, o momento do dia ou da noite, entre outros.

Em Testemunha ocular, o historiador Peter Burke (2004) trabalha funda- mentalmente com a problematização do uso de imagens pela História, relem- brando a todo o momento que, entre o produtor e o receptor da imagem, há

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relem- brando a todo o momento que, entre o produtor e o receptor da imagem, há

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um caminho totalmente historicizável, que precisa ser criticado e analisado com acuidade pelos profissionais da História.

Em certa medida, ele sugere que tenhamos filtros específicos para ler as imagens não apenas como ilustrações de textos, mas como textos em si, dota- dos, portanto, de todas as características inerentes a outros documentos, tais como o enunciado, o criador do enunciado, o sentido dado a ele, a quem está direcionado etc.

3.3 Documentos orais

A oralidade é, sem dúvida, muito instigante do ponto de vista do seu uso

como documento para fins históricos. Tradições orais e histórias orais propor-

cionam outro meio de aprender sobre o passado de pessoas que vivenciaram muitos eventos ou mudanças.

Esse tipo de documento começou a ganhar forma semelhante à atual nos anos 1930, quando uma série de medidas que envolviam história oral foi to- mada para registrar a crise ocasionada pelas tempestades de terra no meio-oeste dos Estados Unidos, o fenômeno que ficou conhecido como Dust Bowl. Esse processo de migração forçada, pauperização da população de classe média rural, forçada a fugir da fome em direção à Califórnia, acabou sendo retratada em um livro de John Steinbeck intitulado Vinhas da Ira, de 1939, que também recebeu uma versão fílmica com o mesmo nome em 1941.

A História Oral, como campo do conhecimento, reforçou-se ainda mais na

segunda metade do século XX, especialmente quando pensamos nos estudos históricos de minorias, como os indígenas, ou outros grupos étnicos, que são, muitas vezes, excluídos dos principais produtos culturais e historiográficos.

dos principais produtos culturais e historiográficos. Para saber mais História Oral é o relato oral acerca
Para saber mais História Oral é o relato oral acerca de um fato histórico. Geralmente
Para saber mais História Oral é o relato oral acerca de um fato histórico. Geralmente
Para saber mais História Oral é o relato oral acerca de um fato histórico. Geralmente
Para saber mais História Oral é o relato oral acerca de um fato histórico. Geralmente
Para saber mais História Oral é o relato oral acerca de um fato histórico. Geralmente
Para saber mais História Oral é o relato oral acerca de um fato histórico. Geralmente
Para saber mais História Oral é o relato oral acerca de um fato histórico. Geralmente
Para saber mais História Oral é o relato oral acerca de um fato histórico. Geralmente

Para saber mais

Para saber mais História Oral é o relato oral acerca de um fato histórico. Geralmente é
Para saber mais História Oral é o relato oral acerca de um fato histórico. Geralmente é
Para saber mais História Oral é o relato oral acerca de um fato histórico. Geralmente é
História Oral é o relato oral acerca de um fato histórico. Geralmente é um relato
História Oral é o relato oral acerca de um fato histórico. Geralmente é um relato

História Oral é o relato oral acerca de um fato histórico. Geralmente é um relato feito por alguém que foi testemunha ocular do acontecimento. A história oral é um registro muito im- portante da história, pois fornece valiosos subsídios para o trabalho do historiador.

Há inúmeras formas de se encarar a História Oral, bem como de se obter um depoimento que possa ser utilizado historicamente. Até a década de 1970, vigorava uma perspectiva da História Oral como uma fonte de segunda cate- goria, que preconizava a recorrência a ela somente quando o historiador não

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goria, que preconizava a recorrência a ela somente quando o historiador não Estudos_historicos.indb 57 20/06/14 11:37

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conseguia obter determinada informação em fontes escritas. Os documentos históricos orais seriam necessários, então, para “preencher lacunas” deixadas por outros tipos de registro.

Contudo, essa forma de encarar a História Oral sofreu inúmeros ataques, o que repercutiu positivamente em tempos posteriores, e a trajetória particular desse campo é interessante, por mesclar teoria e método, bem como uso de novas tecnologias numa velocidade maior do que outros campos de estudo histórico.

O processo mais comum para a realização de uma entrevista semiestruturada ou mesmo estruturada é a utilização de um gravador digital, como podemos observar na Figura 2.3.

Figura 2.3

O registro da entrevista com gravador digital

Figura 2.3 O registro da entrevista com gravador digital Fonte: Tatiana Popova/Shutterstock (2014). No Brasil,

Fonte: Tatiana Popova/Shutterstock (2014).

No Brasil, acostumamo-nos, durante muito tempo, em utilizar um saber manualístico e técnico de História Oral, especialmente a partir de obras como Manual de História Oral, de Sebe Bom Meihy (1998). A partir desse manual, muitos historiadores e historiadoras ainda utilizam uma forma de fazer História Oral que compreende entrevista semiestruturada, a sua gravação, especialmente em áudio, a posterior transcrição da entrevista, e, então, um processo chamado de transcriação, ou seja, uma reelaboração do documento para fins científicos.

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As fontes históricas

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Mas há outros métodos, especialmente de coleta de informações, que não precisam, necessariamente, estar em gravadas em áudio, mas registradas em vídeo ou caderno de campo. Nesse sentido, outros elementos entram em cena quando pensamos a História Oral, como é o caso dos critérios éticos na pesquisa histórica, a saber: até que ponto se pode utilizar um depoimento, sem manter o anonimato ou garantias a sigilo e confidencialidade, entre outros.

3.4 Documentos multimidiáticos

Raphael Samuel (1996) enfatizou que a sua geração de historiadores re- presentava uma geração não educada e não preparada para discutir imagens, apenas textos. Não é apenas esse autor que podemos utilizar como exemplo da autocrítica de historiadores.

Desde o final do século XIX, um importante documento entrou para a arena da História, não gerando preocupações teórico-metodológicas num primeiro momento, mas estabelecendo-se como uma realidade inexorável e indiscutí- vel no que diz respeito aos usos e à atração por parte de um público também moderno.

Foi desde o final do século XIX que passamos a conviver com outras formas midiáticas de documentos, que rapidamente