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Universidade Federal do Rio de Janeiro

ADOLESCÊNCIA: ATO E ATUALIDADE

Bianca Bergamo Savietto

2006

13

UFRJ
UFRJ

ADOLESCÊNCIA: ATO E ATUALIDADE

Bianca Bergamo Savietto

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica, Instituto de Psicologia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Teoria Psicanalítica.

Orientadora: Marta Rezende Cardoso

Rio de Janeiro

Janeiro/2006

ADOLESCÊNCIA: ATO E ATUALIDADE

Bianca Bergamo Savietto

Orientadora: Marta Rezende Cardoso

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica, Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos à obtenção do título de Mestre em Teoria Psicanalítica.

Aprovada por:

Presidente, Profa. Dra. Marta Rezende Cardoso

Profa. Dra. Teresa Pinheiro

Profa. Dra. Cláudia Amorim Garcia

Rio de Janeiro

Janeiro/2006

Savietto, Bianca Bergamo Adolescência: ato e atualidade. Bianca Bergamo Savietto. Rio de Janeiro: UFRJ/IP, 2006 xi, 89 f. ; 29,7 cm Orientadora: Marta Rezende Cardoso Dissertação (Mestrado) – UFRJ/IP/Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica, 2006. Referências Bibliográficas: f. 84-89. 1. Adolescência 2. Passagem ao ato 3. Transmissão psíquica I. Cardoso, Marta Rezende. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Instituto de Psicologia/ Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica. III. Título

Dedico esta dissertação aos filhos que, tomara!, ainda estão por vir, aos quais

transmitirei essa e outras histórias.

Agradecimentos

À minha orientadora, Marta Rezende Cardoso, por ter confiado em mim do início ao

fim do meu percurso no mestrado; por ter me recebido de forma extremamente

acolhedora, e por ter mantido esta postura durante toda a minha trajetória.

À minha mãe e minha avó, por seu amor incondicional.

Ao Leela, meu maravilhoso pseudopai.

Ao Marcelo, companheiro adorado, por sua colaboração e seu incentivo tanto real

quanto virtual. Sem o seu carinho, paciência e ajuda, tudo seria tão mais difícil

Aos amigos Fabiana, Arthur, Diane, Ricardo, Luna, Catarina, Juliana, Liz, Gustavo, Bia

e Clarissa, com quem pude compartilhar sofrimentos, alegrias e descobertas nestes

dois últimos longos anos. A todos os demais amigos que me suportaram tocando o

mesmo disco no decorrer deste período.

Ao Pedro Henrique Bernardes Rondon, pela revisão cuidadosa de meu trabalho.

À CAPES, pelo fornecimento da bolsa que tornou possível que eu me dedicasse

exclusivamente ao desenvolvimento desta dissertação.

Resumo

ADOLESCÊNCIA: ATO E ATUALIDADE

Bianca Bergamo Savietto

Orientadora: Marta Rezende Cardoso

Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica, Instituto de Psicologia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Teoria Psicanalítica.

Esta dissertação pretende explorar significativo aspecto da clínica psicanalítica atual: o incremento do fenômeno das passagens ao ato entre os sujeitos adolescentes. O foco principal desta pesquisa de mestrado é a confluência da problemática das passagens ao ato com certos aspectos da organização familiar contemporânea. É no campo da família que os sujeitos adolescentes emergem e vêm a se desenvolver. Partimos de um breve estudo sobre a especificidade do trabalho psíquico demandado na adolescência, privilegiando a questão do corpo e a das “transações narcísicas”. Este estudo serve de base para uma reflexão sobre a revivência da situação de desamparo própria à adolescência. A partir desta reflexão, tentamos mostrar como uma eventual convocação do corpo, sob a forma do ato, possui caráter de resposta extrema, à qual o ego pode apelar diante de uma vivência interna de transbordamento pulsional, aliada a um estado de fragilidade narcísica. Estes aspectos, de natureza metapsicológica e psicopatológica, são também articulados com certas peculiaridades do contexto em que vivem hoje os adolescentes ocidentais. Buscamos demonstrar o quanto a dimensão de desamparo, com toda sua complexidade, tem sido determinante no incremento do fenômeno das passagens ao ato na atualidade. A análise desta questão é desenvolvida tendo como pano de fundo primordial uma das instituições que, junto com as demais

instituições tradicionais, encontra-se hoje absolutamente enfraquecida e fragilizada: a família. O exame de aspectos relacionados à organização familiar da atualidade se apóia numa importante apreciação acerca da noção de transmissão psíquica, noção que nos permite articular os diversos elementos envolvidos na questão central que nos ocupa.

Palavras-chaves: Adolescência – Passagem ao ato – Transmissão psíquica – Psicanálise – Dissertação (Mestrado)

Rio de Janeiro

Janeiro/2006

Abstract

ADOLESCENCE: ACT AND THE PRESENT TIME

Bianca Bergamo Savietto Tutor: Marta Rezende Cardoso

Abstract of the Dissertation presented to the Post-graduation Programme of Psychoanalytic Theory, Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, as a part of the requisite for obtaining the Master's Degree in Psychoanalytic Theory.

This dissertation aims at studying a meaningful feature of psychoanalytic clinic nowadays: the increase of the phenomenon of acting among adolescents. The main focus of this Master’s Grade research is the confluence of the issue of acting with certain features of contemporary family’s organization. In the field of the family the adolescent subjects emerge and are raised. We start from a brief study about the specificity of the psychical work required in adolescence, privileging the issue of the body and the “narcissistic transactions”. This study gives the ground for some thoughts about the revival of the situation of helplessness peculiar to adolescence. Starting from these thoughts, we try to show how a fortuitous summoning of the body in an act has the character of an extreme response which the ego may call on before an inner situation of drive overflow, associated to a state of narcissistic frailty. These features, of a metapsychological and psychopathological nature, are articulated to certain particulars of the context in which western adolescents live nowadays.

We try to demonstrate how the dimension of helplessness, in all its intricacies, has determined the increase of the phenomenon of acting in the current time. The analysis of this issue is developed taking as a prime background the family, an institution quite weakened and made fragile along with the other traditional institutions. The study of the features related to family organization nowadays is grounded in an important assessment of the notion of psychical transmission, a notion that allows us articulating the many elements involved in the central issue which concerns us.

Key

words:

Adolescence

Acting

Psychical

transmission

– Psychoanalysis – Dissertation (Master’s Grade)

Rio de Janeiro

January/2006

Sumário

INTRODUÇÃO

O APELO AO ATO NA ADOLESCÊNCIA CONTEMPORÂNEA

1.1 O significado de se adquirir um outro corpo

1.2 Redimensionando as identificações

1.3 A noção de desamparo e sua atual revivência acentuada na adolescência

1.4 Passagem ao ato – uma possível resposta?

1.5 O contexto em que vivem hoje os adolescentes ocidentais

TRANSMISSÃO DA VIDA PSÍQUICA E (IM) POSSIBILIDADE DE APROPRIAÇÃO DA HERANÇA

2.1 Delineando a noção de transmissão psíquica

2.2 “Negatividade” no processo de transmissão psíquica: aprofundamento

2.3 Introjeção versus Incorporação

2.4 Considerações sobre a cripta e o fantasma, e sobre os efeitos de sua presença no

psiquismo

A FAMÍLIA CONTEMPORÂNEA: FILHOS DESAMPARADOS, PAIS

“DESMAPEADOS”

3.1 A atualidade em sua dimensão pública

3.2 A família em mudança

3.3 A atualidade em sua dimensão privada

3.4 O “desmapeamento” e sua articulação com uma outra geração de adolescentes

3.5 Sobre uma possível dimensão traumática vivenciada pela “outra” geração

CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

INTRODUÇÃO

Na clínica psicanalítica contemporânea, temo-nos deparado com uma significativa incidência das chamadas “novas patologias”. A freqüência do encontro clínico com estes estados limites vem fomentando reflexões sobre os limites de nossa prática e dos nossos referenciais teóricos assim como sobre certas situações-limite presentes na cultura ocidental contemporânea. Com a profusão das “novas patologias”, a teoria psicanalítica e sua clínica vêm sendo re-pensadas e re-criadas. É notável a forma com que as “novas” manifestações psicopatológicas podem ser observadas entre os adolescentes da atualidade – a adolescência podendo ser entendida, ela mesma, como uma situação limite. Estes adolescentes vêm expressando seu sofrimento, privilegiadamente, por meio do registro do ato, da convocação do corpo, que supõe uma precariedade no que concerne aos mecanismos de simbolização. Estes sujeitos vêm apelando, de maneira insistente e preocupante, ao recurso das passagens ao ato – modo peculiar de defesa que envolve, dentre outros aspectos, exatamente um curto-circuito do trabalho de elaboração psíquica e uma convocação do registro corporal. Instigados pela assustadora recorrência dos adolescentes dos dias de hoje às passagens ao ato, demos início à nossa pesquisa de mestrado, que tem como principal objetivo a investigação de alguns aspectos relacionados a esta problemática. As passagens ao ato, assim como os estados limites, apontam, de uma forma geral, para a dimensão do traumático, para o campo do irrepresentável, para uma violência psíquica radical. O próprio mal-estar da civilização contemporânea alude, diretamente, a esta dimensão do traumático, uma vez que, no presente contexto sócio- cultural, o excesso pulsional transborda o aparelho psíquico e conforme ressaltam vários autores, a experiência de desamparo é intensa. Se Freud, ao escrever o trabalho O mal- estar na civilização encontrava-se inserido numa cultura fortemente restritiva que se opunha à satisfação das pulsões sexuais e agressivas, nós, cidadãos das sociedades ocidentais da contemporaneidade, encontramo-nos inseridos numa cultura na qual a liberdade individual assume valor máximo e o prazer é especialmente consagrado. Trata-se de uma cultura que privilegia a satisfação imediata, na qual os indivíduos

buscam incessantemente suprimir a dor, o que incita saídas de caráter imediatista e absoluto como o recurso às passagens ao ato. Apesar destas e de outras características sócio-culturais possuírem um papel extremamente importante no que diz respeito ao incremento do fenômeno das passagens ao ato, escolhemos abordar este fenômeno a partir, fundamentalmente, de sua confluência com certos aspectos da organização familiar contemporânea, campo no qual emergem e se desenvolvem os sujeitos adolescentes. Em nossa análise acerca da particularidade da família contemporânea, buscamos abordar a questão do valor que a história dos pais assume na história dos filhos, contemplando a possível existência de elementos traumáticos não-elaborados na história psíquica parental. São pontos que consideramos determinantes no incremento da recorrência, por parte dos adolescentes da contemporaneidade, às passagens ao ato e que julgamos não estarem sendo destacados na literatura concernente a esta discussão. Pretendemos, então, no presente trabalho, trazer estas questões para nosso primeiro plano. É possível afirmarmos que o fenômeno das passagens ao ato pode ser observado com destaque em muitas das manifestações psicopatológicas que fazem parte do grupo das “novas patologias”, uma vez que nelas este modo peculiar de atuação costuma estar em jogo. Isto porque as “novas patologias” são regidas por uma “economia do trauma”, por um excesso de excitação que põe em risco a integridade do psiquismo. O aparelho psíquico, na tentativa de manter seu equilíbrio, tende então a responder ao excesso de excitação por meio da compulsiva repetição de algum tipo de ação. O breve exame de algumas das “novas patologias” nos permite realmente nelas observar o envolvimento desse aspecto da questão : nos transtornos alimentares, em que o sujeito consome a comida de maneira continuada e compulsiva; na anorexia nervosa, na qual o sujeito recusa a comida de forma sistemática; nas drogadicções, em que abusiva e compulsivamente o sujeito utiliza substâncias tóxicas; nas demais adicções, que sempre se expressam pelo apego compulsivo ao objeto. Diversos autores vêm se dedicando ao estudo destas patologias e alguns têm inclusive indicado o perigo de disseminação endêmica das “novas” patologias, nas quais as passagens ao ato são reiteradamente levadas a cabo. Isto revela a preocupação quanto ao estabelecimento permanente e à ocorrência constante das “novas” psicopatologias nas sociedades ocidentais contemporâneas Cremos ser significativa a importância de nossa temática, devido não apenas à

alarmante difusão do recurso às passagens ao ato entre os adolescentes das sociedades ocidentais contemporâneas, mas, fundamentalmente, ao fato de tratar-se de uma problemática que envolve em sua base, como já esboçamos acima, uma dimensão de violência psíquica. Esta violência, de caráter interno, é expressa por meio de comportamentos violentos voltados para si próprio e também voltados contra o outro. O que pretendemos, no desenvolvimento da dissertação, é proceder, com o auxílio de conceitos concernentes à teoria psicanalítica, à abertura de vias de análise do fenômeno das passagens ao ato na adolescência contemporânea, contribuindo, assim, para a sua compreensão e aprofundamento. Conforme indicamos acima, a via de análise que iremos privilegiar é a da articulação entre a problemática das passagens ao ato e algumas características da família contemporânea, na qual os adolescentes dos dias de hoje são subjetivamente constituídos. Para tal, recorreremos à utilização de uma bibliografia do campo da psicanálise, buscando também dialogar com o campo das ciências sociais, a fim de sustentarmos a articulação essencial entre subjetividade e cultura. Desta forma, visamos aprofundar os conceitos psicanalíticos com os quais estaremos lidando e, ainda, trazer contribuições desta outra área no que se refere à análise da cultura da época em que vivemos e, particularmente, da organização familiar na atualidade. Tudo isto a fim de nos instrumentalizarmos da melhor maneira possível para a abordagem da temática das passagens ao ato na adolescência contemporânea. O roteiro que seguiremos possui, em linhas gerais, a seguinte estrutura:

primeiramente, discorreremos sobre a especificidade do trabalho psíquico demandado na adolescência, enfocando as questões da aquisição de um novo corpo e do remanejamento do referencial identificatório. Trataremos também, no primeiro capítulo, da revivência da experiência de desamparo que tem lugar na adolescência, examinando as passagens ao ato como uma possível resposta do adolescente a esta experiência transbordante e apassivadora. Além disto, examinaremos algumas características do contexto sócio-cultural contemporâneo que representam um acréscimo de dificuldade à já árdua travessia da adolescência. No segundo capítulo, daremos relevo à importância da história parental na constituição da história dos filhos. Para isto, delinearemos a noção de transmissão psíquica, buscando aprofundar a questão da “negatividade” no processo de transmissão. Traçaremos uma distinção entre as noções de introjeção e de incorporação,

indispensável para o entendimento da cripta e do fantasma – configurações psicopatológicas engendradas pela “negatividade” no processo de transmissão psíquica. Teceremos, ainda, considerações sobre alguns aspectos relativos à cripta e ao fantasma, e analisaremos possíveis efeitos de sua presença no aparelho psíquico, dando destaque às passagens ao ato. Finalmente, no terceiro e último capítulo nos deteremos nas transformações ocorridas, a partir da década de sessenta, no espaço privado familiar; transformações relacionadas de forma intrínseca às mudanças sucedidas no âmbito mais amplo da vida pública. Buscaremos demonstrar que as modificações que tiveram lugar no seio da família afetaram, de forma especial, a geração dos pais dos adolescentes da atualidade. Sustentaremos a hipótese de que muitos dos pais dos adolescentes de nossos dias podem ter vivenciado de maneira traumática estas desestabilizadoras mudanças, responsáveis pela instalação de fortes contradições e paradoxos. Marcaremos nossa crença de que os elementos traumáticos não-elaborados, deixados por esta vivência desestabilizadora, apesar de pertencentes à história psíquica dos pais, possuem importante papel na história filial, isto é, na história dos adolescentes da contemporaneidade – história na qual as passagens ao ato vêm assumindo um lugar significativo.

O APELO AO ATO NA ADOLESCÊNCIA CONTEMPORÂNEA

Conforme indicamos na introdução da dissertação, o objetivo central de nossa pesquisa de mestrado é investigar alguns aspectos do fenômeno das passagens ao ato na adolescência contemporânea. Nossa ênfase é a abordagem da problemática das passagens ao ato a partir, fundamentalmente, de sua confluência com certas características da família atual, na qual emergem e se desenvolvem os sujeitos adolescentes. Porém, consideramos que antes de abordarmos esta convergência, é pertinente e necessário desenvolvermos uma reflexão acerca da especificidade da adolescência na vida psíquica. Sendo assim, é desta reflexão que trataremos no presente capítulo. A adolescência configura um campo de investigação extremamente amplo quando analisado por uma perspectiva psicanalítica. Isto ocorre devido ao fato de a psicanálise não definir a adolescência apenas pelos aspectos vinculados à mudança corporal, e não a compreender somente em termos de uma faixa etária (PINHEIRO, 2001). Quando o acento recai sobre o viés biológico desse estágio do desenvolvimento humano, costuma-se utilizar o termo puberdade. Em psicanálise, no entanto, a tônica é colocada nas repercussões psíquicas geradas pela chegada do sujeito a essa etapa de sua vida. São vários os ecos psíquicos produzidos pelas mudanças pubertárias. Tendo em vista, no entanto, os limites de uma dissertação de mestrado e os objetivos propostos em nossa pesquisa, optamos por privilegiar o surgimento da nova pulsionalidade engendrada pelas novidades corporais e o redimensionamento do referencial identificatório que tem lugar na adolescência. O processo da adolescência é delineado, portanto, por um conjunto de reflexos psíquicos produzidos pelas novidades pubertárias e envolve, assim, uma série de questões metapsicológicas. Iniciaremos este capítulo com um exame minucioso destas questões; mais precisamente daquelas apontadas – a emergência de novos aspectos pulsionais como ressonância da aquisição de um novo corpo e o remanejamento dos referenciais identificatórios.

1.1 O significado de se adquirir um outro corpo

A adolescência é o momento em que se deixa para trás o corpo infantil e em que se adquire um novo corpo, agora de adulto – corpo genitalizado que promove a ativação de uma pulsionalidade até então não experienciada. A obtenção desse novo corpo implica, simultaneamente, a obtenção da capacidade reprodutiva. Ser adolescente significa estar apto à concretização de uma relação sexual genital e à concepção de um filho. Diante disto, no âmbito psíquico, ocorre a revivência do Complexo de Édipo, que havia sido

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colocado em suspenso pela entrada do sujeito no período de latência. O que havia “garantido” a suspensão das questões edipianas era, exatamente, a imaturidade, a impotência do corpo de criança para efetivar o ato sexual incestuoso. No entanto, segundo Catherine Chabert (1999), a ascensão do adolescente a uma vida sexual genital propriamente dita, e a intensidade com que a sexualidade é então experimentada fazem ressurgir a problemática edipiana de maneira impetuosa. Existe, assim, conforme é dito por François Marty (1997), a possibilidade de que os pais do adolescente, como objetos internos, ganhem um colorido sedutor ou perseguidor. Este último autor defende a idéia de que a passagem pela adolescência é marcada por uma violência interna, pulsional. De acordo com seu desenvolvimento teórico, as transformações fisiológicas experimentadas pelo adolescente demandam um trabalho psíquico que é

violento por essência já que o adolescente é ‘vítima’ de uma mudança que ele não pode, em

hipótese alguma, controlar: a puberdade é acionada de modo programado geneticamente, ela é totalmente independente do querer, e confronta o adolescente com uma reorganização completa de si mesmo no plano de sua identidade corporal, psicológica e sexual (MARTY, 1997, p. 13. Tradução nossa).

( )

As transformações pubertárias são impostas ao sujeito devido, simplesmente, a seu pertencimento ao conjunto da espécie humana. Sua vontade não exerce qualquer influência sobre o desencadeamento deste processo e sobre a manifestação de uma nova pulsionalidade por ele motivada. Por isto, freqüentemente as modificações da puberdade são vivenciadas como advindas do exterior, fazendo com que o adolescente sinta seu corpo como “corpo estrangeiro” habitado por novos e violentos aspectos pulsionais. A força readquirida pelo Complexo de Édipo nesta ocasião e a possível vivência de sedução ou de perseguição por parte dos objetos (internos) parentais contribuem para que o sujeito sinta-se violentado na adolescência. Além disto, o crescimento do corpo cessa na adolescência e dá lugar ao envelhecimento, o que traz ao sujeito adolescente uma também sofrida conscientização relacionada à sua própria finitude (PINHEIRO, 2001, op. cit.). Julgamos que estas considerações nos possibilitam afirmar que um abalo intenso das bases narcísicas está em jogo na adolescência e, sendo assim, que esta alude fundamentalmente à questão do narcisismo. Jurandir Freire Costa (1988), no artigo intitulado Narcisismo em tempos

sombrios, desenvolve uma apreciação acerca do termo narcisismo. De acordo com o autor, sempre

baseado na obra freudiana, o narcisismo é precisamente o que, por meio do investimento da libido

no Ego, vai tornar possível a organização do sistema egóico. Dada a “afirmação de que o narcisismo

e o Ego são contemporâneos e correlatos da totalização do sujeito numa unidade imaginária” (COSTA, 1988, p. 156), esse autor também se refere à instância egóica como Ego narcísico. Costa sustenta que o Ego, estruturado a partir do narcisismo, é uma instância psíquica que procura esquivar-se de mudanças, dado que estas podem ocasionar desprazer. Posto isto, ele afirma que o Ego possui uma função de manutenção do status quo, e defende, assim, que mesmo depois das formulações de Freud sobre o narcisismo (que, sabemos, irão dar origem, posteriormente, a uma nova dualidade pulsional e à segunda tópica), é possível afirmar que o Ego permanece como protetor da autoconservação. Esclarece, no entanto, que não se trata de uma autoconservação biológica, e sim da autoconservação da imagem do Ego de unificação. Sabemos que “Da mesma maneira que o id é voltado unicamente para a obtenção de prazer,

o ego é governado por considerações de segurança. O ego estabeleceu-se a tarefa de

autopreservação, que o id parece negligenciar” (Freud, 1940 [1938], p. 228). E Costa acrescenta que

“Toda tentativa de alteração da composição egóica age como estímulo para a autodefesa narcísica” (COSTA, 1988, Op. cit., p. 159). A tomada em consideração destes aspectos levantados por Costa serve-nos como importante subsídio para a compreensão da fragilização egóica / narcísica que tem lugar na adolescência. Afinal, as transformações da puberdade demandam que o Ego – instância do aparelho psíquico que, conforme visto, resiste a mudanças – dê conta de uma reorganização subjetiva em planos diversos.

A alteração da composição egóica é, por conseguinte, necessária: uma grande alteração que

representa um forte ataque ao narcisismo. Costa diz ainda que quando a integridade egóica é ameaçada, o sujeito é advertido por meio de sensações de angústia. Essa questão da fragilidade narcísica engendrada pelas desestabilizadoras novidades pubertárias costuma ser acentuada por grande parte dos autores que se dedicam ao estudo da adolescência. Marty (2002), apesar de reconhecer a importância da angústia adolescente vinculada a essa fragilização narcísica, procura ressaltar que o enfraquecimento narcísico é imprescindível na adolescência. Isto porque o desligamento gradual do narcisismo é a chave para a abertura da via à subjetivação, para que o adolescente se desloque do referencial parental e invista em novas referências.

1.2 Redimensionando as identificações

No momento da adolescência, a genitalidade representa um ponto de chamada, ponto de atração

que, de acordo com a particularidade da história de cada um, oferece à sexualidade uma nova orientação. A fim de sustentar que a adolescência não é fundamentalmente contra

o narcisismo, mas que orienta o movimento pulsional em direção à genitalidade, num

além do narcisismo, Marty (2002, Op. cit.) elabora a noção de “transação narcísica”. Esta noção diz respeito ao encontro do adolescente com uma situação na qual ele se situa, vacilante, entre dois registros: o narcísico e o edipiano. A transação narcísica é

a negociação que o adolescente deve realizar diante desta situação, transformando o

investimento narcísico para alcançar o êxito no decorrer da passagem pela adolescência.

É por meio do sucesso da transação narcísica que o adolescente escapa de um vivido

despersonalizante rumo a uma reapropriação subjetiva. No entanto, o direcionamento à polaridade edipiana, que significa a entrada na genitalidade, não se faz possível na ausência de significativo preâmbulo narcísico. De acordo com Marty (Ibid.), o processo da adolescência não pode ser bem-sucedido sem que sólidas bases narcísicas tenham sido construídas. Se as relações objetais primárias

não forem capazes de oferecer ao sujeito uma solidificação narcísica, a continuidade do ser não estará assegurada no momento em que o remanejamento identificatório for exigido, isto é, no momento da adolescência. As falhas narcísicas que tenham se desenvolvido precocemente também vão ressurgir por ocasião da adolescência, quando estará em jogo a tensão entre dependência

e autonomia. François Richard (2002) aponta, inclusive, o ressurgimento de falhas

narcísicas precoces como desencadeador da ocorrência de patologias adolescentes. No trabalho de 2002 que estamos utilizando como referência neste momento, Marty, com especial destaque, articula o fracasso da transação narcísica à falta do “apoio narcísico parental”. O autor já havia lançado mão do termo “apoio narcísico parental” em 1997, no artigo sobre violências na adolescência. Neste artigo, ele salienta que a idéia de “apoio narcísico parental” foi desenvolvida por Philippe Gutton em seu trabalho Le pubertaire (1991) e afirma que

A elaboração da violência pubertária, (

adolescente, mas também no que Gutton chama de ‘apoio narcísico parental’, na necessidade do

adolescente de que seus pais sustentem ativamente o processo pubertário ( Op. cit., p. 15. Tradução nossa).

(MARTY, 1997,

apóia-se não somente nas capacidades internas do

),

)

O suporte parental é, portanto, crucial para que a transação narcísica seja

efetivada pelo adolescente. Isto significa que, para serem capazes de investir em novos objetos, os filhos adolescentes têm que abandonar seus pais como objetos de desejo, e cabe aos pais um papel primordial na realização dessa tarefa. O atravessamento da já mencionada revivência do Complexo de Édipo na adolescência impõe a realização deste trabalho, extremamente árduo para o adolescente, apesar de já estar inscrito em seu psiquismo o interdito do incesto. Ao abordar a dificuldade inerente ao abandono dos objetos primários, Teresa Pinheiro afirma que:

) (

a se constituir como objeto de desejo do adolescente e do adulto – serão derivados, meros disfarces, cópias ou

isto ocorre porque o objeto abandonado não é somente o objeto a partir do qual todos os outros – que virão

simulacros (

narcisicamente (

).

O objeto abandonado é também – e, principalmente – o objeto primeiro que o inventou

)

(PINHEIRO, 2001, Op. cit., p. 71).

A renúncia aos objetos de desejo incestuosos comporta significativo remanejamento do

referencial identificatório. Ainda assim, as primeiras relações objetais devem ser mantidas como apoio, dado que a permanência das identificações primárias assegura a continuidade do ser. Para que o adolescente possa remanejar para novos objetos o investimento dos objetos primários, isto é, para que possa estabelecer identificações secundárias que lhe permitam forjar uma identidade adulta, é indispensável a construção de outros modelos, diferentes dos parentais (KNOBEL, 1981; REZENDE CARDOSO, 2001; PINHEIRO, 2001, Op. cit.). Essa reorganização relativa às identificações, que impõe a elaboração do luto das figuras

parentais da infância, é indispensável para a consolidação do processo subjetivante do adolescente. No entanto, ela também contribui para o enfraquecimento narcísico do sujeito. Os objetos originários ocupam, até então, um lugar de certeza, idolatria e onipotência; é preciso, porém, desinvesti-los, para investir na dúvida que os novos objetos representam. Estamos mais uma vez diante da evidência de que a fragilização narcísica na adolescência é um “mal necessário”.

O investimento em novos objetos, em modelos divergentes dos parentais, implica o

reconhecimento destes como alteridade digna de se desejar. Para que este investimento seja possível, o Ego precisa desamarrar-se do passado e do presente, admitir transformações, admitir dúvidas, e, principalmente, admitir a existência de falhas no sujeito. A instância que abriga os modelos que serão investidos libidinalmente, instância que remete ao futuro, ao devir do sujeito e, portanto, à sua falta, é denominada Ideal do Ego (COSTA, 1988, Op. cit.). Em Narcisismo em tempos sombrios (1988, Op. cit.) Costa diz que os objetos, assim como os Ideais, são símbolos da alteridade. O Ego oferece resistência às mudanças; por conta disto lidar com a diferença é sempre conflituoso para esta instância psíquica. O único outro aceitável para o Ego, com o qual este consente em lidar sem conflito, é seu outro especular encarnado pelo Ego Ideal. Os traços que constituem a forma egóica são representados de forma totalizada e idealizada no Ego Ideal. Deste modo, este “outro” tolerado pelo Ego é, na verdade, um outro idêntico.

A edificação de novos modelos na adolescência requer que o sujeito possa desprender-se do passado, de seu corpo infantil, dos pais da infância, apostando no futuro, no próprio vir a ser. É possível perceber, outra vez, que a alteração da composição egóica se impõe, acometendo o narcisismo. Trata-se de um momento de extrema fragilidade, de incerteza, de impotência, de revivência do desamparo diante do qual a autodefesa narcísica é acionada. O Ego, angustiado porque ameaçado em sua integridade, recorre ao seu outro especular, o Ego Ideal, buscando restaurar a onipotência infantil. Segundo Pinheiro (2001, Op. cit.), a cultura é responsável pela oferta de meios que concedam ao adolescente a possibilidade de dissipar a onipotência. De acordo com Richard (2002, Op. cit.), a passagem da predominância do Ego Ideal (da onipotência narcísica) à prevalência do Ideal do Ego corresponde ao próprio processo de subjetivação. Conforme dissemos quando apreciamos a noção de transação narcísica, esta, quando bem-sucedida, permite que o adolescente se aproprie de uma nova identidade.

1.3 A noção de desamparo e sua atual revivência acentuada na adolescência

No livro Pânico e desamparo: um estudo psicanalítico (1999), Mário Eduardo Costa Pereira afirma que, a partir do pensamento freudiano, a compreensão da noção de desamparo pode ir muito além de seu aspecto biológico, isto é, além do estado de insuficiência psicomotora do bebê. Entender o desamparo sob uma ótica exclusivamente biológica significaria considerar o aparelho psíquico a partir de uma perspectiva evolucionista, segundo a qual o psiquismo partiria, inicialmente, de um estado de dependência absoluta rumo a uma condição “madura”, na qual a situação de desamparo viria a ser superada. De acordo com esta visão reducionista, o desamparo não seria uma condição essencial e inevitável do funcionamento psíquico. Porém, do ponto de vista psicanalítico, fundamentado na idéia da divisão psíquica, a noção de desamparo diz respeito, em última instância, às possibilidades e aos limites da representação, da simbolização da força pulsional. A experiência do desamparo vincula-se, então, de maneira intrínseca na teoria

psicanalítica, à idéia de insuficiência: a princípio, insuficiência psicomotora do bebê, mas, sobretudo, insuficiência do aparelho psíquico em dar conta do excesso de excitação (pulsional). Julgamos que a questão do desamparo tem particular relevância no momento da

adolescência devido à sua revivência; julgamos também, como iremos explorar mais adiante, que a relevância da questão da revivência do desamparo na adolescência ganha ênfase ainda maior no contexto sócio-cultural da atualidade. Diante disto, vale ressaltar que não se trata de limitarmos a noção de desamparo a “um dado essencialmente objetivo: a impotência do recém-nascido humano

que é incapaz de empreender uma ação coordenada e eficaz (

1982/1998, p.112), dependendo, assim, de um outro que realize a ação específica (ação coordenada e eficaz) necessária para eliminar sua tensão interna. Trata-se de entendermos o estado de desamparo como protótipo de toda situação traumática, conforme sustentado por Freud (1926) em Inibições, sintomas e ansiedade. Neste texto, Freud refere-se ao desamparo como aquele estado no qual o sujeito encontra-se inundado por um excesso de excitações, excesso que ultrapassa sua capacidade de dominação. Segundo Joel Birman (2004), é o poder – a ordem simbólica – que permite que o sujeito possa lidar com o pulsional, possa representá-lo, realizando o trabalho de ligação, de simbolização, uma vez que engendra possibilidades de mediação, de contenção da força pulsional. No entanto – já podemos avançar – o contexto sócio-cultural da atualidade não se encontra especialmente amparado pela força do poder e da ordem simbólica: ao contrário, este contexto é sustentado, preferencialmente, por características como precariedade, instabilidade, vulnerabilidade, incerteza e insegurança (BAUMAN, 2001), e, portanto, por uma carência de possibilidades de mediação. Cremos, ainda, que a revivência do desamparo, à qual é remetido o sujeito em função do abalo narcísico que tem lugar na adolescência, pode ser agravada pelo ressurgimento de falhas narcísicas desenvolvidas precocemente. Neste ponto, pensamos que estamos em harmonia com algumas idéias defendidas por Costa no artigo O mito psicanalítico do desamparo (2000). Nesse trabalho o autor escreve que na obra de Winnicott não há destaque para a questão do desamparo. Explica que Winnicott admitia que o ser humano é imaturo ao nascer, porém não considerava este fato como “a pedra de toque do desenvolvimento emocional do indivíduo” (COSTA, 2000, p. 41). De acordo com Costa, as alusões ao desamparo estão articuladas, na teoria winnicottiana, aos sinais de “desadaptação” do ambiente, e não à impotência intrínseca ao sujeito humano. Winnicott acreditava que a falta não está colocada desde o início e que sua origem se dá apenas quando ocorre um déficit do ambiente em relação à oferta à criança daquilo de que ela precisa para se iludir. Na visão winnicottiana, é a “depressão dos pais”, entendida como um déficit do ambiente, que impossibilita a criança de “começar a ser, de começar a sentir que a vida é real e vale a pena ser

(LAPLANCHE & PONTALIS,

)”

vivida” (WINNICOTT, 1975, p. 137 apud COSTA, 2000, Op. cit., p. 43). Supomos que essa depressão parental representada como deficiência do ambiente, ao impossibilitar que a criança seja e sinta, pode acarretar o surgimento de falhas narcísicas precoces. Ainda conforme o desenvolvimento teórico de Winnicott, a carência originada pelos déficits do ambiente estanca as ações criativas do self, instaurando uma “descontinuidade na experiência da vida”. Presumimos que quando a criança experiencia a descontinuidade, um desequilíbrio é estabelecido no processo de solidificação de suas bases narcísicas. O que Costa defende, baseado nas idéias winnicottianas, é que o desamparo só é gerado mediante a revivência “da emoção precoce de paralisia ou silêncio da imaginação criativa” (COSTA, 2000, Op. cit., p. 44. Grifos do autor). Estamos em consonância com alguns aspectos sustentados pelo autor porque, para nós, o adolescente revive a “emoção precoce de paralisia ou silêncio da imaginação criativa” quando experimenta a descontinuidade provocada pelo abalo em seu narcisismo; nesta ocasião, portanto, ocasião da adolescência, o sujeito acha-se submetido a um estado de desamparo. Não nos furtamos, porém, à aceitação da elaboração freudiana do desamparo como um estado no qual o sujeito acha-se invadido pelo excesso de excitação pulsional; excesso que transborda o psiquismo, uma vez que extrapola sua capacidade de dominação. Cremos que diante da ativação de novos aspectos pulsionais provocada pela genitalização do corpo do adolescente, este se sente transbordado, inundado pela excitação dessa nova pulsionalidade que ainda não é capaz de dominar. Marty (1997, Op. cit.) fala em “arrombamento pubertário” quando se refere ao corpo da criança cujo tecido é rasgado para que um novo corpo genital tenha lugar. Esse autor também escreve sobre a quebra violenta, produzida pelos fenômenos pubertários, do edifício egóico (e de suas instâncias ideais) construído no período de latência. São imagens fortes, sem dúvida, que ilustram perfeitamente a presença da violência interna na adolescência, presença de uma força pulsional sentida como desmedida pelo sujeito adolescente.

1.4 Passagem ao ato – uma possível resposta?

Transbordado por um excesso de excitação que não é capaz de elaborar, o

adolescente se vê apassivado pela invasão interna da força pulsional. Michelle Cadoret (2003) diz que por não possuir recursos para a elaboração de seu drama interior, o adolescente pode acabar recorrendo a uma atuação dramática. Num estudo sobre a bulimia, um dos quadros em que estão presentes as desregulações narcísicas e objetais, Philippe Jeammet (1999) pontua que “o comportamento atuado vem, justamente, substituir o trabalho de elaboração psíquica que sofre um curto-circuito” (JEAMMET, 1999, p.113). Hugo Mayer (2001) também ressalta a idéia de que um curto-circuito entre o impulso e a ação está em jogo nas atuações, nas quais é pulada a etapa do processamento psíquico. A atuação dramática a que estamos nos referindo – na qual o adolescente, tomado por uma força pulsional que não consegue dominar, passa do impulso diretamente à ação, sem efetuar o trabalho psíquico de processamento – é mais especificamente a atuação levada a cabo nas passagens ao ato. É importante que isto seja ressaltado porque o registro do ato inclui outras formas de atuação como, por exemplo, o acting out. Compreendemos o acting out como um ato determinado por elementos inconscientes no qual é possível que se entreveja uma significação oculta. Mayer (2001, Op. cit.) aponta os lapsos, os atos falhos e o fenômeno da transferência como exemplos de acting out. Nele, um conteúdo mental é encenado e endereçado a um outro, de forma que comporta uma dimensão de convocação. Sendo assim, o acting out, diferentemente das passagens ao ato, não se restringe, nas palavras de Mayer, “a ser simples descarga de evacuação” (MAYER, 2001, Op. cit. p. 92). Ademais, este autor explica que

a passagem ao ato propriamente dita costuma manifestar-se quando os actings reiteradamente fracassam em

sua dimensão de convocação. Naquela o sujeito se precipita numa ação extrema que pressupõe uma ruptura e uma alienação radicais, com desmoronamento de toda mediação simbólica (Id., ibid., p. 92-93).

) (

As passagens ao ato representam uma busca de inversão da posição passiva, de reversão da passividade em seu oposto, em atividade (sabemos que a transformação no contrário é um dos possíveis destinos da pulsão; aliás, um de seus destinos básicos). Denotam uma tentativa extrema de domínio do excesso quando, exatamente por seu caráter excedente, é impossível dominar a força pulsional por meio do trabalho de simbolização, de representação. Por se constituir como resposta rudimentar, a transformação da passividade em atividade efetivada pelos adolescentes nas passagens ao ato não deve ser tomada como uma transformação “da voz passiva (‘a puberdade apoderou-se de mim’) para a voz ativa (‘eu mudei, não sou mais uma criança’)” (MARTY, 2002, Op. cit., p. 7. Tradução nossa). Nas passagens ao ato levadas a cabo pelos adolescentes está presente uma força pulsional

desligada, uma vez que elas constituem resposta do psiquismo a uma quantidade de excitação que excede a possibilidade de ligação. No artigo Violência, domínio e transgressão, Marta Rezende Cardoso (2002a) descreve o mecanismo da passagem ao ato exatamente como uma resposta (por primária ou elementar que seja) à invasão de um pulsional desligado no ego. Segundo a autora, uma transgressão pulsional encontra-se subjacente às passagens ao ato. Rezende Cardoso (Loc. cit.), entretanto, não utiliza o termo transgressão em associação à dimensão própria à lei e à castração, e sim com inspiração no sentido que ele possui na expressão “transgressão marinha”. A “transgressão marinha” consiste na invasão de um trecho do continente pelas águas do mar. Neste sentido, a transgressão pulsional significa uma invasão pulsional no território egóico, à qual o sujeito responde de forma primária, elementar, passando ao ato. Mayer (2001, Op. cit.) se inclui, como nós, entre aqueles que consideram que o recurso à passagem ao ato vem se tornando cada vez mais freqüente na atualidade. Este autor procura articular a apresentação maciça dessas atuações à influência do contexto sócio-cultural contemporâneo. Ao analisarmos este contexto – o que será feito no próximo tópico - levantaremos diversas características geradoras de um funcionamento psíquico ancorado no narcisismo, onde o Ego Ideal predomina sobre o Ideal do Ego, sendo insuportável a tolerância a situações conflituosas, urgente a supressão do desprazer, impossível a espera de elaboração, de processamento psíquico. O Ego regido por um funcionamento deste tipo tende a mobilizar defesas arcaicas, como as passagens ao ato, para se livrar da angústia, por não suportar o desprazer e recusar o adiamento do prazer imediato; o Ego, neste caso, responde à angústia com simples descargas de evacuação (MAYER, 2001, Op. cit,). Vimos que as passagens ao ato representam uma resposta elementar diante de um estado de desamparo no qual uma pulsionalidade demasiadamente forte ultrapassa os limites psíquicos de representação e ameaça a integridade egóica. Dissemos que na adolescência esse estado de desamparo é especialmente revivido em razão da ativação de novos e violentos aspectos pulsionais, desencadeada pela genitalização própria à puberdade. Observamos anteriormente que, do ponto de vista constitucional, o desamparo é inerente à subjetividade humana, em razão dos próprios limites do aparelho psíquico. Verificamos também que na adolescência, em virtude da fragilização, da incerteza e da

impotência então experienciadas, o estado de desamparo é particularmente revivido. A fraqueza do poder e da ordem simbólica com a conseqüente privação de possibilidades de mediação, assim como a precariedade, a instabilidade, a vulnerabilidade, a incerteza e a insegurança inerentes ao atual mundo ocidental, parecem contribuir para a intensificação e a manutenção da revivência do desamparo na adolescência, assim contribuindo para o incremento do recurso às passagens ao ato. É importante salientar que não estamos considerando uma adolescência atemporal, e sim a adolescência que habita o contexto sócio-cultural da atualidade. Isto porque é entre os adolescentes inseridos neste contexto que o fenômeno das passagens ao ato vem ganhando largo espaço. Desta forma, passamos, a seguir, à analise de alguns elementos característicos das sociedades ocidentais contemporâneas, elementos que possuem especial articulação com as questões metapsicológicas já analisadas.

1.5 O contexto em que vivem hoje os adolescentes ocidentais

No mundo ocidental contemporâneo, o estado de desamparo tende a se impor na vida psíquica

de forma exacerbada, levando ao acirramento das defesas de caráter narcísico em conseqüência da fragilidade da ordem simbólica que torna falha a possibilidade de mediação. Acreditamos que isto certamente dificulta a superação da revivência do desamparo na adolescência contemporânea.

O debate sobre os novos valores caros às sociedades ocidentais contemporâneas e divergentes

daqueles cultivados pela moral tradicional vem sendo amplamente difundido. Em seu livro O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo, Costa (2004) traz diversas

contribuições para este debate, e a questão do culto ao corpo assume particular relevância nessa coleção de ensaios. Buscando contemplar esta questão, em um dos capítulos de sua obra o autor examina a atual participação do corpo na formação das identidades. Ele demonstra o contraste entre o privilégio desta participação na atualidade e a sua exclusão nos processos anteriores de formação da identidade. Explica que, num primeiro momento da história do mundo ocidental, o conhecimento acerca daquilo que a pessoa era baseava-se na maneira com que ela agia. Posteriormente, a interioridade emocional e moral passou a vigorar como referência, e o homem forjado neste segundo período – homem que tinha sua identidade reconhecida com base nas suas emoções e nos seus valores morais – é designado por Costa como homem sentimental.

O autor prossegue mostrando como estas antigas regulações foram modificadas. Destaca, então,

o desenvolvimento do papel da mídia na constituição das mentalidades. Por meio dos anúncios de

“cosméticos, fármacos e instrumentos de aperfeiçoamento da forma corporal” (COSTA, 2004, p.

166) e, principalmente, por associar alguns atributos corporais ao êxito social, a mídia acabou fortalecendo a participação do corpo físico na composição identitária. Sabemos que a mídia é responsável pela massificação de valores próprios ao mundo daqueles que possuem dinheiro, poder e fama. O que Costa ressalta, no entanto, é que apesar de, sob a influência da mídia, almejar incluir-se entre os privilegiados, a grande maioria dos indivíduos encontra-se, na verdade, excluída deste círculo. Tal exclusão apresenta apenas uma brecha: a da imagem corporal; ou seja, ter um corpo igual ao dos que são célebres é a única forma viável, para a maioria, de aproximar-se do modelo veiculado como merecedor de sucesso. Assim, na busca da aquisição do corpo-espetáculo, o sujeito desloca sua preocupação, antes voltada para a vida sentimental, em direção à vida física. Desta forma, é criada:

uma nova educação dos sentidos, uma nova percepção da morfologia e das funções corporais

que tornou o bem-estar sensorial um sério competidor do bem-estar sentimental. Cuidar de si deixou de significar, prioritariamente, preservar os costumes e ideais morais burgueses para significar ‘cuidar do corpo físico’. O cultivo das sensações passou a concorrer, ombro a ombro, com o cultivo dos sentimentos. Estar feliz não se resume mais a se sentir sentimentalmente repleto. Agora é preciso também se sentir corporalmente semelhante aos ‘vencedores’, aos ‘visíveis’, aos astros e estrelas midáticos (COSTA, 2004, Op. cit., p. 166).

( )

Logo, a felicidade, na moral do espetáculo, está intimamente articulada à obtenção do corpo midiático e do prazer relacionado ao corpo físico, prazer sensorial. O desempenho sensorial do corpo torna-se a chave para o ideal de felicidade a ser alcançado. Ao analisar tal conjuntura, tendo em vista algumas questões metapsicológicas que estão em jogo na adolescência, levantamos o seguinte questionamento: como será, para o adolescente, construir idéias de felicidade apoiadas no desempenho sensorial de seu corpo? O corpo do adolescente traz consigo novos e violentos aspectos pulsionais que ele não é capaz de dominar. As possibilidades e os limites do desempenho do próprio corpo, corpo que, como indicamos anteriormente, acaba de ser genitalizado, são, ainda, desconhecidos pelo sujeito adolescente. Ao exaltar o prazer das sensações, não estaria a sociedade contemporânea convocando o adolescente a fazer um uso perigoso de seu corpo, uma vez que esse corpo recém-genitalizado é freqüentemente sentido por ele como “estrangeiro”? Sentir o próprio corpo como “estrangeiro” significa vivenciar uma situação

extremamente angustiante na qual tem lugar uma ruptura em relação ao passado do corpo (infantil) e uma irresolução quanto ao futuro deste. Na atual sociedade do espetáculo, observa-se uma prontidão a aderir ao corpo da moda, o que significa que os sujeitos acham-se dispostos a abrir mão de sua experiência corporal pregressa para se adequar ao que está em voga momentaneamente. Observa-se, então, a vigência de uma imprevisibilidade no que se refere à identidade corporal. “O futuro do corpo é cindido do passado e posto em suspenso, à espera da nova palavra de ordem da moda ou dos mitos cientificistas” (Id., ibid., p. 84). Este contexto não agravaria a angústia na adolescência, por alimentar a manutenção de um problema (o da cisão / suspensão) que o adolescente anseia solucionar? Essa exacerbada valorização do corpo e das sensações, em detrimento do apreço aos sentimentos na moral do espetáculo, transformou o corpo numa vitrine, submetendo-o a uma exposição e a uma avaliação constantes. Este fato acirra as inseguranças do sujeito, uma vez que este percebe que a aparência de seu corpo está sendo incessantemente notada e supervalorizada; mais ainda, o sujeito passa a representar sua aparência corporal como principal razão do interesse ou do desinteresse do outro. Diante disto, cremos que possíveis mudanças corporais trazidas pela puberdade, tais como o ganho ou a perda de peso, o aparecimento de espinhas e o crescimento de pêlos, por exemplo, podem ser representadas pelo adolescente como causa de ridicularização e de perda do interesse do outro, aguçando, desta forma, o seu sofrimento vinculado às transformações do corpo. Frente ao que foi levantado, com apoio no trabalho de Costa (2004, Op. cit.), sobre a representação social do corpo na cultura ocidental contemporânea e sobre o papel fundamental do corpo na construção dos ideais de felicidade, pensamos ser possível atestar, juntamente com este autor, que a subjetividade do indivíduo atual está assentada no corpo físico. O corpo não significa mais apenas “um meio de agir sobre o mundo ou de enobrecer sentimentos” (Id., ibid., p. 192); sua autoconservação, sua saúde e sua longevidade tornaram-se uma finalidade em si. A prática do bem na vida pública ou privada não é mais garantidora de consideração moral, mas a forma corporal é representada como asseguradora de tal consideração. O corpo do adolescente orienta o movimento pulsional em direção a um novo caminho, o da genitalidade, conforme exploramos anteriormente. Essa genitalização, que é engendrada pelas modificações corporais características da puberdade, remete o sujeito adolescente a uma sofrida revivência do Complexo de Édipo. O que desejamos deixar apontado aqui é o sofrimento psíquico do qual o corpo é fonte na adolescência. Isto porque frente à afirmação de que na atual sociedade do espetáculo o sujeito é incitado a ancorar sua subjetividade no corpo, mais uma indagação é por nós considerada premente: esta incitação não pode constituir-se como um impasse adicional na já complexa trajetória do adolescente rumo à subjetivação, já que o corpo que ele é instigado a utilizar

como âncora nesse processo representa para ele uma fonte de sofrimento? Ademais, o processo de subjetivação adolescente também vem sendo dificultado pela carência cultural no que diz respeito ao oferecimento de referências para a composição do Ideal do Ego. Pinheiro (2001, Op. cit.) assevera que os referentes difundidos pela cultura contemporânea do espetáculo e do consumo, por serem apenas signos imagéticos onde não há valores embutidos, tornam custosa a dispersão da onipotência típica da adolescência. Pinheiro (Ibid.) considera, portanto, que a cultura contemporânea do espetáculo e do consumo acaba por não cumprir a função de esvaecer a onipotência. Isto porque nesta cultura os referentes que compõem o Ideal do Ego transformaram-se em ícones, imagens desprovidas de valores. Trata-se de uma cultura que coloca obstáculos ao atravessamento da adolescência, cultura denominada por Costa (1988, Op. cit.) de “cultura narcísica da violência” na qual a experiência de desamparo, sempre revivida dolorosamente pelo sujeito adolescente, ainda vem a se intensificar. Se antes eram as figuras de autoridade que se estabeleciam como referências para a constituição do Ideal do Ego, assistimos hoje à ascensão da figura da celebridade. Ainda de acordo com as idéias apresentadas por Costa (2004, Op. cit.), as figuras de autoridade abundavam a cena na moral dos sentimentos, transmitindo o significado do que era “o Bem”, e prezando valores relacionados à família, ao trabalho e ao civismo. Quanto à substituição do lugar da autoridade pela celebridade, o autor explica que as figuras de autoridade

tiveram as suas vozes abafadas pelo estardalhaço da moda e dos mitos científicos. Ciência e

moda são práticas sociais que se alimentam da mesma fonte, a irrelevância do que passou. (

Encolhida entre as duas, a autoridade parece minguar. Autoridade é sabedoria fundada na história. Não se pode ‘ter ou ser autoridade’ no que ainda não aconteceu ou no que aconteceu, mas não resistiu à prova do tempo. Autoridade em coisas futuras ou passageiras é um contra- senso. Em conseqüência, o lugar da autoridade foi tomado pela celebridade (COSTA, 2004, Op. cit., p. 169. Grifos do autor).

( )

)

São, então, as celebridades que assumem, hoje, o papel de formadores de hábitos e opiniões. No entanto, sua ética não é nada semelhante à da autoridade, e seu lugar de destaque não se deve à posse de valores morais. Costa afirma que a maior parte das pessoas tem consciência de que o mérito da celebridade é questionável, dado o seu desapego à moralidade. Mesmo assim, os indivíduos ambicionam ser como as celebridades por perceberem que elas são as únicas merecedoras de reverência, estando

o restante da sociedade condenado ao anonimato. Este paradoxo gera, nas palavras do próprio autor, “um efeito cultural desagregador” (Id., ibid., p. 172). As figuras de autoridade foram de tal forma esmagadas que, atualmente, qualquer sinal de autoridade é confundido com autoritarismo. A situação é demasiadamente preocupante; o próprio Freud já havia dado relevo à importância das figuras de autoridade na organização social. Em O mal-estar na civilização, Freud (1930) chama a atenção dos leitores para algo que denomina “pobreza psicológica dos grupos”. Segundo ele, este fenômeno aconteceria com mais facilidade exatamente nas sociedades em que as figuras de autoridade não assumissem sua devida importância. A “pobreza psicológica dos grupos” é considerada por Freud como um perigo. Em Psicologia de grupo e a análise do ego, Freud (1921) articula a “pobreza psicológica dos grupos” a diversas características. Dentre elas: excesso emocional, impulsividade, violência, inconstância, presença de contradição e de extremismo nas ações, caráter rude das emoções, descuido nas deliberações, pressa nos julgamentos, formas de raciocínio simples e imperfeitas, ausência de auto-respeito e de senso de responsabilidade, facilidade de influenciar e sugestionar tais grupos.

É interessante notar que as características atribuídas por Freud aos grupos nos quais o fenômeno da “pobreza psicológica” estaria presente, são características comumente imputadas aos adolescentes. Jacqueline Palmade (2001), ao escrever sobre a fragilidade identitária na pós- modernidade, qualifica a sociedade pós-moderna como uma sociedade “adolescêntrica”. De acordo com esta autora, os pais da atualidade, frente à entrada de seus filhos na adolescência, comportam- se, eles próprios, como adolescentes. Isto dificulta a consolidação da identidade do adolescente, uma vez que a afirmação da diferença intergeracional é fundamental para este processo de consolidação. Recuperando o que vínhamos elaborando sobre a questão da autoridade, é válido salientar que quando nos remetemos a esta idéia, queremos, sobretudo, designar um lugar simbólico, uma função estruturante tanto do psiquismo individual, quanto da formação de uma coletividade. José Newton Garcia de Araújo (2001) é um autor que também contribui para a reflexão acerca do funcionamento das formações coletivas. Os pressupostos que sustentam sua abordagem são resumidos da seguinte forma:

a) todo grupo se constitui tanto a partir de uma identificação entre seus membros quanto a partir de uma

referência exterior a ele mesmo (

e as condutas coletivas (

quaisquer formações coletivas, constituídas juridicamente ou não (GARCIA DE ARAÚJO, 2001, p. 17).

c) esse princípio de autoridade garantiria o funcionamento das instituições ou de

b) tal referência externa teria uma função ordenadora, regulando os afetos

);

);

Segundo Garcia de Araújo, os grupos são, portanto, constituídos a partir de um vínculo entre iguais, que pode ser chamado de vínculo horizontal, e de um vínculo que articula esses iguais a um desigual, o qual encarna a autoridade (esse autor realça, precisamente, que autoridade não deve ser

confundida com autoritarismo); este último vínculo pode ser chamado de vertical. À medida que as figuras de autoridade se encontram, conforme desenvolvimento anterior, oprimidas, podemos afirmar que temos nos organizado, principalmente, com base em vínculos horizontais. Tal situação, lembrando a elaboração freudiana (1930, Op. cit.), representa uma ameaça (devido à “pobreza psicológica dos grupos”). Sem veicular normas e leis por meio de figuras de autoridade, não é possível que se sustente o laço social (GARCIA DE ARAÚJO, 2001, Op. cit.). Segundo Freud (1930, op. cit.), sem lei ficamos “à mercê da força bruta”. Ora, e não é assim que estamos? Cremos que sim, e corroborando nosso julgamento, Costa (2004, Op. cit.) afirma que “onde não há totem, não há tabu”. Ou seja, numa sociedade na qual as figuras de autoridade não são reconhecidas, não há nada que esteja livre da humilhação e da destruição. Costa já havia desenvolvido uma linha de raciocínio similar a esta em Narcisismo em tempos sombrios (1988, Op. cit.). É neste artigo que, ao analisar especificamente a sociedade brasileira, caracterizada pela decadência social e pela depreciação da justiça e da lei, o autor fala em uma “cultura narcísica da violência”. A concepção de “cultura narcísica da violência” é um desdobramento da noção de “cultura do narcisismo”, desenvolvida por Lasch 1 . Nesta cultura, a experiência de desamparo é intensa e, diante disso, o Ego põe em ação os automatismos narcísicos. Na “cultura narcísica da violência”, as representações do Ideal do Ego estão ausentes já que o futuro possui uma denotação de ameaça de destruição, não podendo, assim, ser libidinalmente investido. O que surge, nesse caso, no lugar do Ideal, são “miragens Ego- Ideais”, as quais clamam por um prazer imediato característico da satisfação narcísica, isto é, por um usufruto do presente sem qualquer preocupação com a existência futura. A figura da celebridade, conforme expusemos anteriormente, vem tomando o lugar da figura da autoridade como referência para a composição do Ideal do Ego. Essa figura da celebridade não estaria em consonância com a noção de “miragem Ego-Ideal”? Vimos que a figura da celebridade se constitui como um ícone, uma imagem privada de valor; conhecemos o caráter instantâneo e descartável intrínseco à figura da celebridade, sua falta de compromisso com o futuro, seu funcionamento sob a égide da lógica do

1 Em Narcisismo em tempos sombrios, Costa (1988) remete o leitor a um trabalho anterior de sua autoria no qual o sentido e as implicações do termo “cultura do narcisismo” (ou “cultura narcísica”) são discutidos: Violência e psicanálise. Rio de Janeiro: Graal, 1984.

“aqui e agora”, dos “quinze minutos”. Sustentamos anteriormente que o ideal de felicidade na moral do espetáculo está ligado à busca de um prazer articulado ao corpo físico, o prazer da sensação. Este prazer sensorial não é um prazer qualquer, mas um prazer que está especialmente de acordo com a satisfação narcísica. Isto porque, conforme defende Costa (2004, Op. cit.), as experiências sensíveis não permitem uma fruição baseada na lembrança ou na imaginação. Para que se desfrute o prazer da sensação é preciso que o objeto se faça presente. Ao comparar a felicidade sensorial à felicidade sentimental, Costa afirma que:

Fora do instante de gozo, a sensação é emocionalmente obsoleta. Sua evocação raramente proporciona o nível de prazer que a evocação dos sentimentos pode proporcionar. Por esta razão, a felicidade sensorial necessita avidamente de objetos que estejam à mão e que possam ser rapidamente instrumentalizados (COSTA, 2004, Op. cit., p. 167-168).

A cultura ocidental contemporânea, “cultura narcísica da violência”, possui, portanto, como características singulares – restringimo-nos aqui a enfocar os elementos condizentes com o recorte e com os objetivos propostos no presente trabalho – uma forte vivência de desamparo e uma predominância dos ideais narcísicos de tipo absoluto e onipotente. A falta de investimento no futuro e a conseqüente vigência da lógica da instantaneidade tornam incômoda demais a espera pelo que falta ao sujeito. Este, então, procura achar objetos prontos para serem usados. Nas palavras de Costa, “no gozo com as sensações, o tempo de separação ideal é o que se congela e aglutina na atualidade; o objeto ideal é o objeto dócil, a coisa fácil de ser achada e manipulada” (Id., ibid., p. 106). A droga é um exemplo de objeto dócil, e o seu uso é emblemático quanto à satisfação narcísica, visto que promove alívio instantâneo da tensão, uma descarga no agora, e o afastamento de inquietações relacionadas ao depois. Todo este contexto acaba por atravancar o deslocamento, que deve ser efetivado na adolescência, do lugar da onipotência, do narcisismo (Ego Ideal) para o lugar da diferença, da alteridade (Ideal do Ego). A denominação da geração dos adolescentes dos dias de hoje como “geração zapping” é bastante ilustrativa no que diz respeito à atual complicação da relativização do Ego Ideal rumo a um funcionamento sob a prevalência do Ideal do Ego. No livro Noites nômades:

espaço e subjetividade nas culturas jovens contemporâneas, Maria Isabel Mendes de Almeida e Kátia Maria de Almeida Tracy (2003) afirmam que a simultaneidade própria a essa “geração zapping” esquiva o adolescente do encontro com as perdas, das quais não se pode fugir quando uma escolha é feita. Estas autoras servem-se da interessante noção de “não-lugar”, elaborada pelo antropólogo francês Marc Augé 2 :

2 A referência das autoras é o trabalho de Augé Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. São

Os não-lugares estruturam-se em torno da passagem, do provisório e do efêmero e estabelecem uma relação meramente contratual entre seus passantes anônimos, cuja circulação é regulada por máquinas automáticas e cartões de crédito. Neles, não é possível estabelecer relações, nem criar identidade singulares, mas sim individualidades solitárias (ALMEIDA & TRACY, 2003, p. 33).

Elas fazem uso desta noção para descrever um novo regime de espacialização, no qual as experiências sociais e subjetivas não se estruturam mais em torno da fixação, e sim em torno do deslocamento. Para elas, os jovens de hoje estão produzindo seus espaços interativos nas zonas de passagem, isto é, nos “não-lugares”. A noção de “não- lugar” evidencia, novamente, a questão do imediatismo, do “provisório” e do “efêmero” que está em jogo no apoio da organização do Ideal do Ego em referentes de caráter narcísico e onipotente e que está em jogo, também, no tipo de prazer ao qual se aspira na moral das sensações, prazer característico da satisfação narcísica. Em conformidade com as idéias que estamos desenvolvendo, Palmade (2001) defende que o desinvestimento cultural das sociedades pós-modernas em valores coletivos “mais elevados” como a arte, por exemplo, induz um funcionamento psíquico baseado no narcisismo. Frente a esse desvio dos valores e à conseqüente predominância da atividade psíquica fundamentada no narcisismo, a autora aponta que a realização de si não se daria mais por meio da sublimação, ocorrendo uma regressão / fixação no narcisismo. Aponta, ainda, que a regressão / fixação no narcisismo liberaria as pulsões agressivas, e que a dominação e a perversão se constituiriam como efeitos desta liberação. Neste ponto, acreditamos já ter conseguido mostrar que os aspectos culturais próprios às sociedades ocidentais da atualidade então analisados representam elementos geradores de empecilhos ao processo da adolescência. Mayer (2001) observa que:

É difícil imaginar até onde pode chegar o descontrole e o descomedimento dos adolescentes

quando não se respeita uma autoridade no grupo familiar nem se tem limites adequados, firmes e

claros que os façam sentir-se contidos (

)

(MAYER, 2001, Op. cit., p. 88).

Contemplamos, anteriormente, a questão do atual desrespeito à figura da autoridade num âmbito mais global. Todavia, nesta última citação, esta questão é levada por Mayer para o seio das famílias. O autor afirma que a vivência de desproteção (que propomos ler como vivência de desamparo) ligada à violência e à insegurança social

Paulo: Papirus, 2001.

vem se reproduzindo no espaço familiar. Sobre a família, mais especificamente sobre os pais, escrevemos que sua colaboração é imprescindível para que o adolescente elabore a violência interna engendrada pelas mudanças pubertárias. Isto significa que o “apoio narcísico parental” é essencial para que o adolescente escape da revivência do desamparo. Será que os pais da geração contemporânea de adolescentes estão sendo capazes de oferecer o suporte narcísico demandado por seus filhos? Esta questão será retomada e respondida no final do próximo capítulo; subseqüentemente, no último capítulo buscaremos analisar razões que possam justificar e dar sustentação à nossa resposta. Demos destaque, então, no presente capítulo, à necessidade do suporte parental para que o adolescente seja capaz de efetivar a transação narcísica. Desenvolvemos que os pais possuem um papel primordial no abandono deles próprios como objetos de desejo, e no investimento em novos objetos por parte de seus filhos adolescentes. Ressaltamos, portanto, a importância do papel dos pais na travessia da adolescência dos filhos. Além disto, gostaríamos de salientar agora a importância da história dos pais na história dos filhos. Para que esta nova questão ganhe relevo em nossa pesquisa e para que melhor instrumentalizemos a elaboração da questão central que nos ocupa – as passagens ao ato na adolescência contemporânea e sua relação com aspectos próprios à família atual – passamos, no próximo capítulo, ao estudo de uma noção difícil de apreender, mas que acreditamos ser de grande valia para a nossa reflexão. Trata-se da noção de transmissão psíquica, que tem inegável relevo na teoria psicanalítica, mas que, dado o seu caráter espinhoso, não deixa de ser também objeto de controvérsia neste campo.

TRANSMISSÃO DA VIDA PSÍQUICA E (IM) POSSIBILIDADE DE APROPRIAÇÃO DA HERANÇA

Ao apontarmos, no capítulo anterior, a importância que a história dos pais assume na história dos filhos, indicamos que desenvolveríamos, na seqüência de nosso percurso, uma reflexão acerca da noção de transmissão psíquica. Avançamos o valor incontestável desta noção na teoria psicanalítica, apesar de seu caráter controverso neste campo. A propósito da polêmica em torno da noção de transmissão psíquica, vejamos algumas considerações de René Kaës (2001) expostas na introdução do livro Transmissão da vida psíquica entre gerações:

Com efeito, como aceitar a divisão estrutural desta [psique], que por muito tempo foi pensada como uma espécie de entidade monádica, e que extensão dar a essa hipótese, cuja conseqüência extrema é a alienação do Eu na psique de um outro, de mais-de-um-outro? Como estabelecer a medida e o ritmo dessa tensão entre o que é da ordem do dentro dividido, e por isso constitutivo da realidade psíquica, e o que se manifesta na produção intersubjetiva da psique como uma condição decisiva de sua formação? Como conceber e tratar o sujeito como sendo ‘um fim para si mesmo’, segundo a formulação de Freud, e herdeiro? (KAËS, 2001, p. 9).

Estas considerações de Kaës sobre a hipótese da existência de uma transmissão psíquica – ou, como também diz o autor, de uma produção intersubjetiva da psique – nos permitem desde já vislumbrar que o sujeito do inconsciente, sujeito da psicanálise, não é determinado apenas por aquilo que se opera no espaço intrapsíquico; ele não é, pois, “um fim para si mesmo”. Ele é também determinado por sua ligação com o campo da intersubjetividade, já que é precedido por sua família, por seu grupo, nos quais não escolhe ser incluído. A noção de transmissão psíquica gira em torno das relações intergeracionais, do fato de o sujeito ser antecedido por mais de um outro, e de ele herdar uma bagagem da qual será necessário se apropriar. “Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu”. Tratar do tema da transmissão psíquica significa lidar com a questão da herança. O interesse por esta questão é tão antigo quanto a própria teoria psicanalítica, já que essa temática foi mais de uma vez abordada por Freud.

2.1 Delineando a noção de transmissão psíquica

Kaës (2001) menciona alguns trabalhos de Freud que abarcam reflexões sobre a noção de transmissão psíquica. Em Totem e Tabu (1912-13), a questão da herança arcaica da humanidade é contemplada por meio da idéia da culpa e dos interditos transmitidos como efeito do assassinato do pai da horda primeva. Em “Sobre o narcisismo: uma introdução”, Freud (1914) demonstra que o narcisismo do

sujeito apóia-se no narcisismo da geração que o precede, ou seja, na transmissão à “Sua majestade, o bebê” de todos os desejos e fantasias não satisfeitos por seus pais. A partir dessa herança, o sujeito deverá subjetivar-se, isto é, apropriar-se do sentido de seu desejo próprio, assumir seu lugar. Kaës afirma que esta perspectiva permite que se considere o sujeito do inconsciente precisamente como sujeito da herança.

A transmissão da vida psíquica também é objeto de análise em “Psicologia das massas e

análise do ego”, texto no qual Freud (1921, Op. cit.) explora a questão da transmissão por meio da via dos processos de identificação. Nesse artigo uma genealogia da psique é construída a partir da idéia de uma determinação, tanto intersubjetiva como intrapsíquica. Freud já havia construído o modelo da segunda tópica, e temos assim: “o Id hereditário, o Ego que deriva do Id, e o Superego herdeiro do complexo de Édipo e, portanto, do Superego dos pais” (KAËS, 2001, Op. cit., p. 11). A noção de transmissão psíquica comporta, então, as já mencionadas dimensões intrapsíquica e intersubjetiva. A transmissão em sua dimensão intrapsíquica diz respeito àquilo que é transferido, transportado de uma instância à outra no interior do aparelho psíquico. A dimensão intersubjetiva da transmissão possui como espaço originário o grupo familiar, que precede o sujeito singular e estrutura-se por uma lei constitutiva, abrangendo relações de diferença e complementaridade entre os sujeitos que dele fazem parte. Estas duas dimensões determinam, de maneira convergente, a constituição do sujeito do

inconsciente – sujeito da herança. Sua constituição, portanto, depende “do funcionamento próprio do Inconsciente no espaço intrapsíquico” (Id., ibid., p. 12), e também decorre da demanda de trabalho psíquico que a ligação do sujeito com o intersubjetivo, que precede a sua existência e é dela subordinador, impõe.

A determinação intersubjetiva é observada com destaque por Kaës, o qual formula que o

sujeito é antes de tudo um “intersujeito”. O autor explica a sua formulação:

O que é inelutável é que somos postos no mundo por mais de um outro, por mais de um sexo, e que nossa pré- história faz de cada um de nós, bem antes de nascermos, o sujeito de um conjunto intersubjetivo, cujos sujeitos nos têm e nos mantêm como servidores e herdeiros de seus ‘sonhos de desejos insatisfeitos’, de seus recalcamentos e de suas renúncias, na malha de seus discursos, de suas fantasias e de suas histórias. De nossa pré-história tramada antes de nascermos, o inconsciente nos tornará contemporâneos, mas só passaremos a ser seus pensadores pelos efeitos a posteriori. Essa pré-história em que se constitui o originário, a de um começo do sujeito antes de seu advento, se escreve na intersubjetividade (Id., ibid., p. 13).

A ligação entre transmissão psíquica e identificação é tão significativa que Jean José Baranes (2001) designa o “transgeracional” (transmissão da vida psíquica entre gerações) como o próprio princípio do processo de identificação. Ao refletir sobre a temática das identificações, Jacqueline Lanouzière (2000) desenvolve algumas considerações acerca da existência dessa pré-história que antecede o sujeito, pré-história tramada antes do seu nascimento e escrita no registro intersubjetivo – o qual, lembremos, possui como espaço originário o grupo familiar. Segundo essa autora, os significantes identificatórios atribuídos à criança de acordo com o imaginário de seus doadores “dão provas da dinâmica inconsciente dos genitores e dos elos de sua fantasística com os das gerações que os precederam”, inscrevendo o sujeito, desta forma, “numa rede de significações ocultas” (LANOUZIÈRE, 2000, p. 94). Afirma a autora : “Assim, por esses significantes, a história futura do sujeito se acha atada ab origine a uma pré-história mais freqüentemente desconhecida dele, ou mal conhecida” (Id., ibid., p. 95). A importância de voltarmos nossa atenção, como psicanalistas, para o exame do lugar que é inconscientemente determinado para cada filho na estrutura familiar, antes mesmo de seu nascimento, é ressaltada por Olga B. Ruiz Correa (2000a) no livro O legado familiar: a tecelagem grupal da transmissão psíquica. Quanto à dimensão intersubjetiva da transmissão, Kaës pontua ainda que a sua análise deve levar em conta três aspectos: as formações intersubjetivas primárias (principalmente os apoios recíprocos, os investimentos narcísicos e as exigências de separação), as quais possibilitam a criação do espaço e dos vínculos intersubjetivos; o espaço e os vínculos que organizam a realidade psíquica do conjunto intersubjetivo – conjunto que possui enunciados sobre os interditos e significantes utilizados pelo sujeito para fins de representação e de comunicação, e no qual são constituídos (também por uma lógica intrapsíquica, além da intersubjetiva) os objetos e os processos identificatórios; o complexo de Édipo, que torna possível a representação das diferenças entre os sexos e as gerações, ordenando as relações de desejo e de interdito. Mas além da dimensão intrapsíquica e da intersubjetiva, o processo de transmissão psíquica também envolve uma outra dimensão: a transpsíquica. Esta dimensão diz respeito ao que é transmitido através dos sujeitos, e não entre eles; desta forma, presume a extinção do espaço e dos limites subjetivos. O dicionário Aurélio nos ajuda a compreender que o significado da palavra entre indica, dentre outras coisas, uma

relação (de lugar ou de estado no espaço) que separa duas pessoas (ou coisas), indica um intermédio; a palavra entre é, segundo o próprio Aurélio, equivalente a inter. A palavra através, por sua vez, indica um atravessamento, uma transposição; ainda de acordo com o dicionário Aurélio, a transposição representa uma implantação, uma operação na qual algo é transferido sem que sua conexão com a origem seja interrompida. Diferentemente do que ocorre na transmissão intersubjetiva, na transmissão transpsíquica não existe “um espaço de retomada transformadora da transmissão” (KAËS, 2001, Op. cit., p. 31). Por meio do que herda no processo de transmissão intersubjetiva, o sujeito vai ser capaz de usufruir a linguagem e o discurso das gerações antecessoras, já que a dimensão intersubjetiva implica uma apropriação da herança com sua conseqüente utilização para os próprios fins do sujeito. Porém, uma parte da herança pode ser transmitida no âmbito da dimensão transpsíquica; desta parte o sujeito será incapaz de se apropriar, e nele ela subsistirá “como estrangeira, ou estranha quando lhe for imposta, presença obscura e desconhecida dentro dele de um outro ou de mais de um outro” (Id., ibid., p. 14). A compreensão de todas estas dimensões inerentes à transmissão psíquica torna possível que se perceba que nem sempre o sujeito é capaz de se apropriar do sentido daquilo que herda, ou seja, que por vezes o sujeito não consegue assimilar como próprio tudo aquilo que lhe é “implantado”, não consegue metabolizar todos os elementos advindos do outro. A possibilidade de apropriação da herança no processo de transmissão envolve a possibilidade de atribuição, por parte do sujeito, de um sentido próprio à bagagem herdada; envolve, portanto, a possibilidade de transformação da herança. Acabamos de ver, porém, que o processo de transmissão inclui uma dimensão – a transpsíquica – na qual aquilo que é transmitido transpõe o receptor, o qual, neste caso, não é capaz de intermediar o que está recebendo, não é capaz de se apropriar do que está recebendo, não é capaz, portanto, de retomar de forma transformadora aquilo que recebe. Ruiz Correa (2000a) observa, exatamente, que o trabalho de transformação que deve ser realizado pelo sujeito no processo de transmissão psíquica pode falhar. Esta falha no trabalho de transformação ocorre quando o sujeito não consegue acolher e se apropriar daquilo que lhe é transmitido. Neste caso, o processo de transmissão psíquica perde seu caráter de processo estruturante, adquirindo um caráter alienante, de modo que o que é transmitido “atravessa o inconsciente das gerações e se impõe em estado bruto a seus descendentes” (RUIZ CORREA, 2000a, Op. cit., p. 16). Neste caso, portanto, a distância entre transmissor e receptor não se configura, e a transmissão se dá através das gerações, e não entre elas. Havíamos indicado, no final do primeiro capítulo, o valor que a história dos pais possui na própria história dos filhos. A noção de transmissão psíquica nos permite compreender que a história parental, as fantasias dos pais, seus “sonhos de desejos insatisfeitos”, seus recalcamentos, suas

renúncias e seu discurso são herdados pelos filhos, e constituem a pré-história filial, o início dos filhos, anterior mesmo ao seu nascimento. A história dos pais – constituinte da pré-história dos filhos, à qual a futura história se acha atada ab origine – pode conter elementos traumáticos, isto é, elementos não elaborados, que não alcançaram representação, e que são destituídos de sentido. Apesar de não elaborados pelos pais, estes elementos também são transmitidos aos filhos, já que “nada do que foi retido poderá permanecer totalmente inacessível para a geração seguinte” (KAËS, 2001, Op. cit., p. 17). Cremos que o entrave ao processo de subjetivação dos adolescentes da contemporaneidade está ligado, dentre outros fatores, à existência de marcas não elaboradas na história psíquica de seus pais, marcas que lhes foram transmitidas no âmbito da dimensão transpsíquica. Estas marcas, ao atravessarem o inconsciente das gerações, impondo-se em estado bruto aos seus receptores, configuraram-se como uma parte da herança não-passível de apropriação, de atribuição de sentido, de transformação. Elas representam uma parte da bagagem herdada alienante, radicalmente estrangeira, e a sua presença, conforme desenvolveremos mais à frente, não deixa de surtir importantes efeitos – dentre os quais estaremos dando destaque às passagens ao ato. Por tudo isto, é crucial em nossa pesquisa que aprofundemos a reflexão acerca daquilo que se constitui como não apropriado no processo de transmissão psíquica.

2.2 “Negatividade” no processo de transmissão psíquica:

aprofundamento

Diversos autores vêm afirmando a freqüência com que percebem, na clínica atual – clínica marcada de maneira significativa pelas passagens ao ato – uma impossibilidade de apropriação (e por conseguinte, de transformação) da herança no processo de transmissão. Isto revela a existência de uma dimensão de uma espécie de identificação “em negativo” neste processo. Marta Rezende Cardoso (2002b), no livro Superego, escreve sobre o destino de certas mensagens enigmáticas advindas do outro. Essas mensagens constituem-se como enigmáticas no psiquismo da criança, porque o seu caráter de enigma também está presente no psiquismo do adulto do qual elas provêm. A autora afirma que estas

mensagens ultrapassam enormemente a capacidade de dominação da criança; aludem, portanto, ao traumático, uma vez que estão referidas a um transbordamento da capacidade de domínio e a uma conseqüente invasão do aparelho psíquico pelo excesso de excitações. Rezende Cardoso escreve que as mensagens enigmáticas são constituídas por

elementos impossíveis de metabolizar, elementos imóveis que têm um caráter imperativo porquanto irredutíveis, não recalcáveis e dificilmente capazes de serem conduzidos a outra coisa, ou seja, transformados (REZENDE CARDOSO, 2002b, p. 14).

O trabalho da autora caminha no sentido da proposição da inscrição destes elementos no superego. Nosso objetivo atual não é examinar a proposta inovadora de Rezende Cardoso a propósito da instância do superego, e sim marcar a existência de uma possível “negatividade” no processo de transmissão psíquica, representada pela dimensão transpsíquica deste processo, a qual implica uma não-transformação de determinados elementos herdados, a impossibilidade de tomar posse de uma parte da bagagem recebida, daquilo que advém do outro. Para Rezende Cardoso, o fato de os elementos que constituem as mensagens enigmáticas não serem traduzíveis ou recalcáveis não significa que eles estejam excluídos do psiquismo. Esta autora considera que os elementos intraduzíveis – “aqueles que o psiquismo não é capaz de metabolizar nem de recalcar” (REZENDE CARDOSO, 2002b, Op. cit., p. 87) – estão incluídos no aparelho psíquico como marcas, como “material encravado”. Mais à frente, desenvolveremos uma importante distinção entre marca e traço. Por ora, é possível avançarmos que as marcas estão ligadas ao registro do trauma, já que se situam no campo do irrepresentável. Os elementos intraduzíveis presentes no sistema psíquico como marcas representam a existência de um estrangeiro radical isolado no interior do psiquismo. Não se trata de um estrangeiro da mesma ordem do recalque – estrangeiro que efetiva compromissos, com quem acordos são possíveis. Com o estrangeiro radical não há possibilidades de negociação, e quando ele abandona o seu isolamento, é acompanhado por uma força que, segundo Rezende Cardoso, é capaz de invadir o território egóico. Essa imagem da força que pode invadir o campo do ego é bastante importante para nossa pesquisa, uma vez que, conforme asseveramos anteriormente, ainda buscaremos contemplar a questão dos efeitos da presença no psiquismo de uma herança em parte não-passível de apropriação – e por isto radicalmente estrangeira – fruto da transmissão, em sua dimensão transpsíquica, de marcas não elaboradas. Julgamos que a problemática das passagens ao ato na adolescência contemporânea aponta para esta dimensão “em negativo” no processo de transmissão, ou seja, para uma impossibilidade de esses adolescentes integrarem, em seus psiquismos, a totalidade da herança recebida de seus pais. A questão da “negatividade” na transmissão que estamos buscando destacar neste momento é

absolutamente diversa da que pode ser apreendida quando afirmamos que o narcisismo do bebê é estabelecido a partir do narcisismo de seus pais, dos desejos e fantasias não satisfeitos por estes. A onipotência narcísica parental, ao ser transmitida à criança, é passível de recalcamento; inclusive a transmissão desta onipotência e seu recalque caracterizam-se como um processo constitutivo de toda subjetividade. A dimensão “negativa” que desejamos colocar em relevo não é, de forma alguma, inevitável no processo de transmissão. Sua ocorrência só pode ser apontada quando algo escapa à atividade de representação neste processo, isto é, quando algo do que é transmitido não é capaz de fazer-se inscrever no psiquismo. Esse “algo” vai se constituir como uma parte intraduzível da herança, da qual não é possível se apropriar. Esta parte permanece como um “estrangeiro radical” no interior do psiquismo, o qual ao invés de dela se apossar, é apossado por ela. Logo examinaremos em detalhe as contribuições teóricas de Nicolas Abraham e Maria Torok relativas à transmissão psíquica e à sua dimensão “negativa”. Gostaríamos, entretanto, de já avançar uma pontuação formulada por estes autores que reitera a idéia recém-exposta do psiquismo apossado pela parte intraduzível da herança. Abraham e Torok (1995) retomam a formulação freudiana do Ego como instância constituída por um precipitado de identificações, isto é, do Ego que se “disfarça” utilizando as características do objeto, para contrapô-la a uma nova formulação concernente ao aparelho psíquico daqueles que recebem do objeto uma herança em parte intraduzível:

nestes sujeitos é o objeto que “por sua vez, usa o Ego por máscara” (ABRAHAM & TOROK, 1995, p. 280). Ou seja, neste último caso, o objeto torna-se posseiro do Ego. Aquilo que se constitui como intraduzível no aparelho psíquico nos remete, segundo Kaës, à idéia de um “não-trabalho” no âmbito do processo de transmissão psíquica. A noção de trabalho psíquico a partir da transmissão se refere, por sua vez, ao que é recebido e transformado, tornando possível para o sujeito o processo de apropriação da herança. Vimos que a dimensão transpsíquica da transmissão, na qual os elementos não são transmitidos entre os sujeitos e sim através deles, supõe a abolição do espaço e dos limites subjetivos. Esta dimensão aponta para um caráter “negativo” do processo de transmissão psíquica, para uma não-apropriação da herança advinda do outro. De acordo com Suzana Pons Antunes (2003), as investigações sobre a temática da transmissão psíquica intergeracional e de sua dimensão “negativa” foram desenvolvidas e renovadas

por meio das elaborações de Nicolas Abraham e Maria Torok. Instigados por casos em que se mostrava impossível resgatar a parte oculta dos símbolos – Abraham e Torok consideram o símbolo como um dado ao qual “falta uma parte complementar que, pelo efeito do recalcamento, encontra-se oculta” (ANTUNES, 2003, p. 14); crêem que o trabalho analítico representa um trabalho de resgate desta parte complementar e oculta do símbolo – os autores dedicaram-se a pesquisar certas

configurações psíquicas peculiares, vindo a desenvolver, a partir daí, as noções de cripta e fantasma.

A cripta e o fantasma são configurações psicopatológicas concebidas por Abraham e Torok,

configurações engendradas por aspectos patológicos da transmissão, isto é, pela “negatividade” que pode comportar este processo. Antunes afirma que a pesquisa destes autores sobre os aspectos patológicos da transmissão parte da idéia de uma impossibilidade de simbolização de vividos experimentados como traumáticos. Apesar de Abraham e Torok “não se dedicarem à temática do trauma em si, ela permeia todo o seu pensamento, que tem como objetivo último investigar suas ressonâncias, bem como as possibilidades de reconstrução da vida psíquica a partir de seus efeitos devastadores” (ANTUNES, 2003, Op. cit., p. 14). Abraham e Torok traçam uma distinção entre as noções de introjeção e de incorporação. Esta distinção é essencial para a compreensão das configurações psicopatológicas pensadas pelos autores e ligadas a aspectos patológicos da transmissão; também é essencial para o desenvolvimento de algumas indagações extremamente relevantes no âmbito de nossa pesquisa.

2.3 Introjeção versus Incorporação

A introjeção está na base dos processos identificatórios, e representa a integração, na esfera

egóica, de traços que pertencem ao objeto. O processo de introjeção implica, portanto, a possibilidade de assimilação das qualidades do objeto, de acomodação destas ao universo psíquico do sujeito. Uma das características deste processo é a de contribuir para o enriquecimento egóico.

A incorporação entra em cena quando a introjeção é impraticável, isto é, quando o objeto

idealizado é incapaz de cumprir a função de mediação necessária para que suas qualidades sejam metabolizadas pelo sujeito. Neste caso, ergue-se, então, o mecanismo da incorporação, no qual o objeto é tomado por uma via direta, e instalado em si no psiquismo do sujeito (HERZOG & SALZTRAGER, 2003). Ao discorrer sobre a temática das identificações, Jean Claude Rouchy (2001) assevera que são os pais que favorecem o processo de introjeção, ao fornecerem à criança um sentido e uma organização para o universo dos signos, permitindo, assim, o acesso da criança à simbolização. Na mesma linha de raciocínio, Ruiz Correa escreve que:

dentre as funções do casal parental, destaca-se aquela que outorga um sentido ao universo de signos com os

quais a criança deve lidar, ajudando-a a transformar as sensações em sentimentos e idéias, a fim de que sejam simbolizadas por meio da palavra (RUIZ CORREA, 2000a, Op. cit., p. 13).

Diante disto, não podemos deixar de indagar: se os pais estão diante de uma marca traumática, isto é, se estão diante de um conteúdo ao qual não puderam atribuir um sentido, representar, como irão conseguir possibilitar o acesso da criança à simbolização deste conteúdo? Entendemos que situações vividas como traumáticas pelos pais constituem marcas desses pais, como objetos, que serão incorporadas pela criança, em vez de serem introjetadas. Ora, muitos dos pais dos adolescentes dos dias de hoje experienciaram como vivência traumática a ruptura, a instabilidade e o paradoxo inerentes ao contexto sócio-cultural de sua juventude. No próximo capítulo esta consideração será detalhadamente analisada. Enquanto o processo de introjeção está relacionado à integração de traços pertencentes ao objeto no território egóico, o mecanismo da incorporação está ligado às marcas, que não são passíveis de acomodação junto ao universo psíquico representacional do sujeito – como vimos, a vivência de situações experimentadas como traumáticas pelo objeto pode engendrar a constituição de marcas. O traço, assim como a marca, representa uma sensação recebida pelo psiquismo. No artigo “Trauma e representação: estudo de um caso clínico”, Fabiana Lustosa Gaspar, Patrícia Simon Lorenzutti e Marta Rezende Cardoso (2002) afirmam que ambos podem ser compreendidos como uma impressão, mas que cada qual tem um destino diferente no interior do aparelho psíquico. O traço é uma impressão que se inscreve no psiquismo por meio da sua associação a outros traços já inscritos e da sua conseqüente inserção na cadeia representacional. A marca é uma impressão que não se associa aos traços anteriormente inscritos, o que impede que seja inserida na cadeia de representações. A marca, portanto, não alcança inscrição no universo psíquico; diferentemente do traço, ela não é intermediada pelo trabalho de representação. Isto não quer dizer que a marca esteja excluída do psiquismo; pelo contrário: apesar de não se inscrever no aparelho psíquico, ela se mantém nele conservada com significativa força. As marcas concernentes ao objeto parental terminam por ser, então, incorporadas pela criança, devido à impossibilidade de este objeto mediar a sua introjeção. No que se

refere às próprias marcas, o casal parental não é capaz de ajudar a criança a transformá-las em sentimentos e idéias, não é capaz de auxiliar a criança a simbolizá-las por meio da palavra. Segundo Antunes, Abraham considera que introjetar significa interiorizar um objeto que serve como referência para se apreender o objeto externo. Isto quer dizer que cada um funciona como sujeito e objeto para si mesmo. Estamos, no entanto, analisando a hipótese de um objeto parental que comporta elementos não-elaborados, isto é, elementos destituídos de sentido. Este objeto parental, na qualidade de objeto interno, comporta, portanto, marcas que não servem como referência para a apreensão do objeto externo, marcas cuja introjeção é impraticável. Para Abraham e Torok, para que se introjete algo é preciso que se faça com que este algo passe pela linguagem, o que só ocorre com o auxílio de um objeto detentor da linguagem. Desta forma, a introjeção “só pode se operar com a assistência constante de uma mãe que possua a linguagem” (ABRAHAM & TOROK, 1995, Op. cit., p. 246). Porém, dando continuidade ao raciocínio que vimos desenvolvendo, a mãe não possui linguagem referente aos seus próprios traumas, referente àquilo que em seu próprio psiquismo não alcançou representação. O objeto deve ser mediador de sua própria introjeção; mas como mediar a introjeção do que não está simbolizado? Teresa Pinheiro (1995) declara que: “A introjeção não se realiza ou porque o objeto de interesse desapareceu, ou porque o objeto não possui as condições necessárias para servir

de mediador” (PINHEIRO, 1995, p. 53). Julgamos que, definitivamente, o objeto não possui as condições necessárias para servir de mediador da introjeção de seus próprios elementos traumáticos.

O processo de introjeção permite ao sujeito separar-se do objeto originário, findar sua

dependência exclusiva a um único objeto de prazer, ampliar suas possibilidades de investimento.

Este procedimento abrange um trabalho de luto objetal, de elaboração da perda; abrange, ainda, um processo de mudança no psiquismo, uma vez que este é recomposto ao assimilar propriedades concernentes ao objeto.

Já a incorporação, ao manter o objeto propriamente instalado no psiquismo, ou seja, ao

mantê-lo vivo no aparelho psíquico, representa uma defesa, uma resistência ao trabalho de luto e às mudanças implicadas neste trabalho (HERZOG & SALZTRAGER, 2003, Op. cit.). Neste sentido,

Abraham e Torok escrevem que:

É para não ‘engolir’ a perda que se imagina engolir, ter engolido, o que está perdido, sob a forma de um objeto.

A ‘cura’ mágica por incorporação dispensa do trabalho doloroso da recomposição. Absorver o que vem a

faltar sob forma de alimento, imaginário ou real, no momento em que o psiquismo está enlutado, é recusar o luto e suas conseqüências, é recusar introduzir em si a parte de si mesmo depositada no que está perdido, é recusar saber o verdadeiro sentido da perda, aquele que faria com que, sabendo, fôssemos outro, em síntese, é recusar sua introjeção. (ABRAHAM & TOROK, 1995, Op. cit., p. 245. Grifos dos autores).

) (

Os autores compreendem a incorporação como uma fantasia, diferentemente da introjeção,

que é considerada como um processo. A fantasia de incorporação age no sentido oposto ao da fantasia comunicada. Por meio desta última, algo é apresentado à consciência, exigindo elaboração e, conseqüentemente, engendrando modificações no psiquismo. Por sua vez, a fantasia de incorporação não se revela à consciência, mantendo-se oculta no aparelho psíquico e agindo de forma a conservar o seu status quo, a opor resistência às mudanças. As fantasias de incorporação não se mostram por meio do discurso; em vez disto, elas são atuadas. Desta forma, Antunes observa que, no processo analítico, não são as palavras que irão dar indícios da existência das fantasias de incorporação, e sim os atos, os sonhos e os sintomas. A autora, que acompanha de perto em seu trabalho as formulações teóricas de Abraham e Torok, acrescenta que as fantasias de incorporação estão ligadas a realidades vergonhosas, secretas e indizíveis. Na obra de Abraham e Torok, a questão do indizível (e, portanto, da incorporação) é articulada com destaque à vergonha e ao segredo. Em nossa pesquisa, estamos buscando realçar a articulação do mecanismo da incorporação e da questão do indizível a ele ligada às experiências traumáticas, isto é, estamos buscando sublinhar a articulação da questão do indizível ao que não se pode dizer porque não foi simbolizado. Diversos autores vêm utilizando as idéias elaboradas por Abraham e Torok como inspiração para o desenvolvimento do próprio trabalho, de modo que estas idéias vêm sendo em larga medida ampliadas. Os trabalhos de Kaës, Rouchy e Ruiz Correa são claramente – e declaradamente – inspirados nas elaborações teóricas de Abraham e Torok. Ruiz Correa (2000b) assevera que os conceitos elaborados por Abraham e Torok são “conceitos-chave na clínica psicanalítica contemporânea” (RUIZ CORREA, 2000b, p. 9).

A articulação que estamos buscando salientar entre a questão do indizível e as experiências traumáticas assume um lugar considerável na obra de Ruiz Correa (2000a). Esta autora pondera que traumatismos individuais ou coletivos não elaborados constituem-se como elementos cujo sentido permanece bloqueado – e, portanto, indizível, já que impassível de ser intermediado pelo trabalho de representação e pela linguagem – no processo de transmissão psíquica. Ela acrescenta ainda que:

A angústia derivada de um excesso de excitação provocada pelo acontecimento traumático e a incapacidade de contê-lo e transformá-lo em experiência metabolizada necessariamente provocam desorganizações secundárias aliadas à retração dos envelopes individuais e grupais,

aumentando a violência nos diversos espaços psíquicos. Assim, o traumatismo acumulativo desemboca em uma transmissão sem possibilidade (quando muito, limitada) de transformação (RUIZ CORREA, 2000a, Op. cit., p.

115).

Ao iniciarmos o presente tópico, afirmamos ser fundamental a distinção entre as noções de introjeção e incorporação para o entendimento das configurações psicopatológicas pensadas por Abraham e Torok e relacionadas à “negatividade” no processo de transmissão psíquica. Julgamos, nesse ponto, já ter examinado de maneira significativa esta indispensável distinção; julgamos também que, a partir dela, já elaboramos importantes questionamentos. Sendo assim, é possível, agora, passarmos à análise de alguns aspectos concernentes às configurações psicopatológicas concebidas pelos autores – aspectos sobremaneira pertinentes em nossa pesquisa.

2.4 Considerações sobre a cripta e o fantasma, e sobre os efeitos de sua presença no psiquismo

A construção de uma cripta está intrinsecamente atrelada ao mecanismo da incorporação.

Isto porque Abraham e Torok consideram que uma cripta só é construída quando não é possível que se realize o trabalho de luto de um determinado objeto – vimos que a incorporação representa exatamente uma resistência ao trabalho de luto e às mudanças implicadas neste trabalho. Por meio

da edificação de uma cripta, o sujeito esquiva-se de admitir a perda do objeto; ao invés disto, ele incorpora o objeto e o “guarda” no interior da cripta.

O objeto cuja perda é impassível de reconhecimento é aquele ao qual o sujeito dirigiu um

desejo ilegítimo, tendo recebido, da parte do objeto, uma resposta ambivalente. Este objeto é normalmente representado por um dos pais ou por outro membro da família que seja próximo ao sujeito. Quando se perde um objeto de desejo ilegítimo, ocorre um transbordamento libidinal de caráter inassimilável. Antunes afirma que nesta ocasião “a invasão sexual comemora um momento de desejo ilegítimo, relacionado a um objeto de amor oculto e ambivalente que, em determinado momento, provocou e impediu a eclosão sexual do enlutado” (ANTUNES, 2003, Op. cit., p. 57). No momento em que o objeto provoca o desejo ilegítimo no sujeito e, de maneira ambivalente, subseqüentemente o impede, o mecanismo da incorporação entra em cena, de modo que o desejo some da circulação psíquica do sujeito, sendo sepultado, enterrado. Quando, então, a perda do objeto se impõe ao sujeito, a súbita invasão libidinal que dela decorre traz consigo o sentimento de vergonha, relacionado ao caráter secreto do desejo ilegítimo. A relação com o objeto já estava marcada por um segredo, o qual é experimentado de forma intensa na ocasião de sua perda, suscitando violenta vergonha e engendrando a edificação de uma cripta, na qual o objeto – designado por Abraham e Torok como “cadáver saboroso” – será abrigado.

Antunes explica que quando os desejos relativos ao objeto estão elaborados, a perda deste objeto não é acompanhada de uma vivência libidinal secreta e vergonhosa, nem da constituição de uma cripta. Mediante a elaboração dos desejos concernentes ao objeto, o Ego, ao perder o objeto, recupera a libido que nele estava investida, direcionando o investimento dessa libido para novos objetos. Porém, quando seus próprios desejos pelo sujeito são ambivalentes, o objeto é incapaz de acolher os desejos deste sujeito, os quais, desta forma, deixam de ser elaborados. Sendo assim, é importante ressaltar que é o objeto que manifesta um conflito libidinal ambivalente em relação ao sujeito; o objeto, então, na ocasião de sua própria perda, torna-se responsável – devido à sua anterior manifestação de ambivalência para com o sujeito – por perturbar o desenvolvimento libidinal do sujeito enlutado. Neste sentido, Abraham e Torok escrevem:

Quando evocamos a vergonha, a clandestinidade, resta precisar quem deveria enrubescer, quem deveria se esconder. Seria o próprio sujeito por se ter tornado culpado de torpezas, de ignomínias, de ações indevidas? Poderíamos supor com prazer que não encontraríamos aí uma única pedra para fazer uma cripta! Para que se edifique uma, é preciso que o segredo vergonhoso tenha sido o feito de um objeto, desempenhando o papel de ideal do ego. Trata-se, portanto, de guardar seu segredo, de cobrir sua vergonha (ABRAHAM & TOROK, 1995, Op. cit., p. 250. Grifos dos autores).

O conteúdo da cripta é constituído por palavras; palavras indizíveis, destituídas de sua função primordial de comunicação. Abraham e Torok destacam a articulação do aspecto indizível das palavras encriptadas ao segredo vergonhoso que deve ser escondido, ligado a desejos não-elaborados. Estamos tentando destacar a articulação do

aspecto indizível das palavras encriptadas ao fato de elas se referirem a algo que não pode ser dito, comunicado, porque carece de sentido, isto é, ao fato de dizerem respeito

a elementos traumáticos não-elaborados. Cremos, portanto, que uma cripta pode

encerrar palavras indizíveis ligadas a marcas que permanecem não-elaboradas no psiquismo do objeto e que, por isto mesmo, são incorporadas e não introjetadas, desaparecendo da circulação psíquica do sujeito.

A articulação que estamos buscando ressaltar constitui, de certa forma, um desdobramento das elaborações edificadas por Abraham e Torok, já que mesmo não

dando relevo, como eles, às questões do segredo e da vergonha, estamos voltados para

as questões do processo de transmissão psíquica e das configurações psicopatológicas engendradas pela dimensão “negativa” deste processo. Na obra de Abraham e Torok é

possível encontrarmos aberturas que sustentam este desdobramento. Um bom exemplo disto é o trecho que se segue, no qual os autores escrevem sobre a furna intrapsíquica – a cripta.

Na furna repousa, vivo, reconstruído a partir de lembranças de palavras, de imagens e de afetos, o correlato objetal da perda, enquanto pessoa completa, com sua própria tópica, bem como os momentos traumáticos – efetivos ou supostos – que haviam tornado a introjeção impraticável. (Id., ibid., p. 249. Grifo nosso).

Podemos inferir a partir desta citação que, conforme temos tentado marcar, os elementos traumáticos próprios ao objeto representam marcas refratárias à introjeção; marcas que são, então, incorporadas pelo sujeito e enfurnadas numa cripta no momento em que a elaboração do luto objetal se faz necessária. Lembremos que na adolescência está em jogo um significativo remanejamento dos referenciais identificatórios, essencial para que o processo de subjetivação do adolescente se consolide, e que este remanejamento implica a indispensável elaboração do luto das figuras parentais da infância. A citação acima nos permite também vislumbrar a questão da responsabilidade do objeto na criação de obstáculos ao desenvolvimento libidinal do sujeito; afinal, são os seus “momentos traumáticos” que tornam a introjeção impraticável. Acreditamos que a análise de alguns aspectos relativos ao fantasma – outra configuração psicopatológica formulada por Abraham e Torok e originada por aspectos patológicos da transmissão – também pode contribuir para o desenvolvimento das idéias que vimos salientando. Antunes afirma que o fantasma é constituído quando a criança pertence a uma família mantenedora de um segredo, que já vem sendo guardado desde antes do seu nascimento. O segredo da família pode produzir efeitos na vida psíquica da criança; dessa forma, apesar de ser representante de uma nova geração, a criança será afetada por um segredo pertencente às gerações anteriores. Antunes afirma que quando se configura um fantasma, “as palavras do segredo parental atuarão, sob o modo de assombração, como ausências ou rupturas inassimiláveis ao próprio interior do discurso da criança” (ANTUNES, 2003, Op. cit., p. 93). Isto quer dizer que as palavras fantasmagóricas não são integradas à vida psíquica da criança. A noção de fantasma nos remete à possível existência de elementos intraduzíveis no interior do psiquismo, elementos que não podem ser metabolizados nem recalcados, que estão aquém da representação. Estes são elementos que permanecem, portanto, desintegrados do restante do conteúdo psíquico do sujeito, representando uma parte da herança da qual não é possível se apropriar, uma parte não-introjetável da bagagem advinda do outro, um estrangeiro radical. Mas por que razão aquilo que se constitui como ausência ou ruptura inassimilável ao próprio interior do discurso da criança, ou seja, aquilo que não é integrado à sua vida psíquica, deve estar referido apenas às palavras do segredo parental? Entendemos que isto também pode ser aplicado à questão do traumático parental, isto é, ao que não alcançou simbolização, elaboração no psiquismo dos pais. De acordo, mais uma vez, com o pensamento de Antunes, as zonas inacessíveis no psiquismo parental funcionam como zonas cegas “no psiquismo da criança, assombrando-a” (Id.,

ibid., p. 96). Para a autora, as zonas inacessíveis estão ligadas aos segredos dos pais; para nós, a questão da inacessibilidade também pode estar relacionada aos elementos traumáticos dos pais, elementos que não tiveram acesso a um sentido, a uma via de representação, e cuja introjeção por parte da criança não pode ser intermediada pelos pais.

É crucial observarmos que Antunes afirma que as zonas cegas assombram o sujeito. Isto significa que as zonas cegas não são zonas mortas: pelo contrário, quando presentes no psiquismo do sujeito, exercem nele violenta influência. Acabamos de examinar a relação entre as zonas cegas do aparelho psíquico do sujeito e as zonas inacessíveis do psiquismo dos pais do sujeito, cuja inacessibilidade articulamos aos elementos parentais traumáticos não elaborados. Antes disto, desenvolvemos que estes elementos traumáticos constituem-se como marcas impassíveis de introjeção, as quais são incorporadas pelo sujeito, podendo ser ainda metidas em uma furna mediante a recusa da necessidade de elaboração do luto objetal. A cripta na qual permanecem enfurnados os elementos irrepresentáveis também não se configura como zona morta; apesar de isolados no interior da cripta, estes elementos também podem produzir ruidosos efeitos. Abraham e Torok mostram como estes elementos, embora encriptados, se fazem revelar:

Criou-se, assim, todo um mundo fantasístico inconsciente que leva uma vida separada e oculta. Acontece, entretanto, que, por ocasião das realizações libidinais, ‘à meia noite’, o fantasma da cripta vem assombrar o guardião do cemitério, fazendo-lhe sinais estranhos e incompreensíveis, obrigando-o a realizar atos insólitos, infligindo-lhe sensações inesperadas (ABRAHAM & TOROK, 1995, Op. cit., p. 249).

Nossa leitura deste segmento da obra de Abraham e Torok nos remete à questão das passagens ao ato. O “guardião do cemitério” pode ser interpretado como o ego, o qual diante de “sensações inesperadas”, isto é, submetido à pressão de uma herança “maldita, da insistência, desde o interior, do traumático, de um excesso pulsional não- dominável – estado de passividade, de desamparo, portanto – pode tentar reverter tal situação por meio de uma passagem ao ato. Já havíamos mencionado a questão dos efeitos da presença desta parte “maldita” da herança no aparelho psíquico, parte intraduzível, não-passível de apropriação e de transformação, que se constitui como um estrangeiro radical. Tínhamos afirmado, justamente, que o estrangeiro radical, apesar de isolado, possui força capaz de romper o

isolamento e invadir o campo do ego. Havíamos escrito julgar que a problemática das passagens ao ato na adolescência contemporânea aponta para uma impossibilidade de assimilação da totalidade da herança que se recebe dos pais; aponta, portanto, para a “negatividade” no processo de transmissão psíquica. No que diz respeito ao processo de transmissão da vida psíquica entre a geração dos pais dos adolescentes da atualidade e seus filhos adolescentes, cremos que uma parte do conteúdo recebido não pôde ser incluída numa esfera representacional. Trata-se de algo advindo do outro que

permaneceu sendo “um outro” radical em si; trata-se, portanto, de uma parte da bagagem da qual não foi possível se apropriar. Nossos adolescentes herdaram marcas que não conseguiram conquistar a fim de fazê-las suas. Estas marcas, apesar de não lembradas porque não representadas, podem estar sendo atuadas nas passagens ao ato. Neste sentido, vimos a observação de Antunes de que, no processo analítico, não são as palavras que irão dar indícios da existência das fantasias de incorporação, e sim os atos, os sonhos e os sintomas. Reiteramos diversas vezes que a impossibilidade de introjeção das marcas parentais e a sua conseqüente incorporação estão articuladas ao fato de estas marcas aludirem ao traumático parental.

O que na história psíquica dos pais dos adolescentes dos dias atuais pode ter se constituído como

traumático? Mesmo levando em conta que é impossível a análise de tudo aquilo que se constituiu como traumático para os pais dos adolescentes dos dias atuais, já que implicaria a tomada em consideração de toda a história particular de cada um deles, no próximo capítulo analisaremos a vivência, por parte desses pais dos adolescentes da contemporaneidade, de uma profunda desestabilização na sua própria adolescência – desestabilização que parece ter provocado um processo interno / externo de desorientação em muitas dessas futuras figuras parentais. Articularemos a vivência desse processo de desorientação a uma possível experiência traumática. Acreditamos ser possível traçar uma correspondência entre esse processo de desorientação e um sofrimento narcísico, uma experiência traumática que certamente deixou marcas não-elaboradas, as quais foram transmitidas à geração seguinte – ou seja, à geração dos nossos adolescentes – e que vêm dificultando seu processo de subjetivação. Além dessa problemática concernente ao processo de transmissão psíquica, concernente, prioritariamente, à transmissão de uma herança inconsciente “maldita”, irrepresentável, julgamos

estar também diante de uma problemática cuja dimensão é de transmissão de valores do ponto de vista pré-consciente-consciente. Isto porque a vivência, por parte dos pais dos adolescentes de hoje,

de um processo interno / externo de desorientação, parece ter importantes implicações na assunção

de seu papel de pais. A tarefa de “ser pai” / “ser mãe” vem se revelando especialmente árida para

estes sujeitos. No capítulo anterior, escrevemos que Jacqueline Palmade (2001) observa uma tendência,

entre os pais da atualidade, a se comportarem como adolescentes ante a entrada de seus filhos na adolescência. Cremos que isto ocorre porque os pais revivem a própria adolescência quando os filhos atingem esse tempo específico de suas vidas. E em se tratando da geração dos pais dos adolescentes dos dias de hoje, geração que vivenciou sua própria adolescência no final da década de sessenta / início da década de setenta, julgamos que essa revivência da adolescência adquire um caráter especialmente problemático. Pensamos, então, que estes pais não estão conseguindo proporcionar aos filhos o seu necessário apoio narcísico no momento da adolescência, o que vem a enfraquecer a possibilidade de esses adolescentes elaborarem a violência interna sentida e superarem o desamparo revivido, e a intensificar o recurso às passagens ao ato. Também discorreremos sobre questões relacionadas à família no decorrer do próximo capítulo, buscando aprofundar a articulação entre algumas características desta instituição na atualidade e a radicalização da vivência de desamparo com o conseqüente incremento das passagens ao ato.

A FAMÍLIA CONTEMPORÂNEA: FILHOS DESAMPARADOS, PAIS “DESMAPEADOS”

A carência do “apoio narcísico parental” no momento da adolescência contribui para a manutenção da revivência do desamparo, por dificultar a elaboração da violência interna sentida pelos adolescentes. A revivência do desamparo é experiência característica da adolescência, ligada à presença da violência interna excessiva; porém, quando existem barreiras à sua ultrapassagem, é fortalecida a recorrência dos adolescentes às passagens ao ato. A dificuldade parental quanto ao oferecimento de suporte narcísico parece-nos relacionada à passagem dos próprios pais, adolescentes do final dos anos sessenta / início dos anos setenta, pela adolescência. Ao abordarmos

a trajetória destes pais quando jovens, veremos que sua adolescência coincidiu com um momento

histórico especialmente significativo em termos de mudanças sociais. Gostaríamos, no entanto, de deixar claro que as conseqüências desta experiência – de coincidência entre uma ocasião tão importante subjetivamente e uma situação igualmente importante culturalmente – só foram possíveis devido à história anterior destes sujeitos, ou seja, devido à bagagem que já carregavam, oriunda de sua vida infantil. Conforme asseveramos mais de uma vez, nosso principal objetivo nesta dissertação de

mestrado é pesquisar o fenômeno das passagens ao ato, observado com freqüência crescente entre os adolescentes da atualidade, enfocando sua articulação exatamente com alguns aspectos peculiares

à família contemporânea. As características que marcam a denominada família contemporânea são

fruto de uma série de transformações ocorridas na esfera da vida privada; foi fundamentalmente a partir da década de 1960 que tiveram lugar as mudanças que culminaram no surgimento desta família (FIGUEIRA, 1987; LENOIR, 2003; ROUDINESCO, 2003). As transformações que se sucederam no espaço familiar estão intrinsecamente relacionadas àquelas que se deram na esfera mais ampla da vida pública. As décadas de sessenta e setenta podem ser consideradas especialmente férteis no que se refere à eclosão de movimentos marcados pelo inconformismo, pela contestação e pela reivindicação de modificações sociais. No primeiro capítulo indicamos a difusão do debate sobre a alteração dos valores vigentes nas sociedades ocidentais. Discorremos sobre as mudanças nos processos formadores da identidade, ressaltando o privilégio da participação do corpo na atual formação das subjetividades. Examinamos a forma com que o ideal de felicidade na atual moral do espetáculo encontra-se associado à conquista do prazer sensorial pautado no corpo físico. Além disto, apreciamos a substituição da figura da autoridade pela da celebridade como referência primordial para a composição do Ideal do Ego.

No presente capítulo, procuraremos investigar razões que justifiquem nossa crença num caráter particularmente problemático do percurso dos pais de nossos adolescentes, e no seu conseqüente embaraço quanto a proporcionar apoio narcísico na ocasião da adolescência de seus filhos. Analisaremos, igualmente, algumas transformações ocorridas no plano macro-social para, em seguida, passarmos à análise das modificações acontecidas no plano micro-social da família. Ademais, daremos

relevo a possíveis conseqüências destas mudanças para a geração dos pais dos adolescentes dos dias de hoje (que vivenciaram tais mudanças de maneira intensa – supomos, inclusive, que para muitos isto se deu de maneira traumática) e, finalmente, para seus filhos, isto é, para os próprios adolescentes da contemporaneidade.

A título de introdução, retomemos, brevemente, alguns pontos já levantados

concernentes às temáticas da família contemporânea e dos aspectos característicos da esfera pública na atualidade. Hugo Mayer (2001) fala-nos da questão da reprodução, no espaço familiar, da desproteção vivenciada no meio público, no qual vigoram a

violência e a insegurança social. Com respeito à repetição da atual violência social no cenário familiar, Jurandir Freire Costa (1979) descreve a existência de uma guerra no âmago da família cujos membros estariam se tornando inimigos em vez de aliados.

O ambiente familiar contemporâneo também é descrito por Márcia Merquior

(2002) como uma trincheira na qual o homem, diante da desvalorização social de sua autoridade, sente-se totalmente inadequado e a mulher, na busca por autonomia e auto-

identidade, vê-se perdida. Segundo a autora, esta situação é geradora de ansiedades e disputas.

A questão da vigência da imprevisibilidade na atualidade é um dos aspectos que temos sublinhado. Esta questão se articula à disposição dos indivíduos a deixar de lado o passado de sua experiência corporal, para aderir ao corpo da moda. A imprevisibilidade refere-se, portanto, à identidade corporal. Veremos, a seguir, que a imprevisibilidade não está ligada apenas ao registro corporal nos dias atuais, e sim a todo o conjunto de identificações e ideais do sujeito, isto é, à sua história de uma maneira global.

A ordem simbólica produz possibilidades de contenção da força pulsional,

viabilizando, assim, o trabalho de ligação, de dominação dessa força. Contudo, de acordo com o que temos indicado, a ordem simbólica ausentou-se do contexto sócio-

cultural contemporâneo, transformando-o num terreno carente de possibilidades de

mediação. Na falta de ocasião para a mediação, o estado de desamparo tende a se impor de maneira intensa. Havíamos descrito no primeiro capítulo o surgimento das “miragens Ego-Ideais” nesse contexto em que a experiência de desamparo é intensificada. Nesta “cultura narcísica da violência” (COSTA, 1988, Op. cit.), as “miragens Ego-Ideais” vêm ocupar o lugar das representações do Ideal do Ego; nela, o futuro é representado como ameaçador e os automatismos narcísicos são acionados pela instância egóica, devido ao recrudescimento da experiência de desamparo. Este contexto intima a satisfação narcísica e instaura uma súplica ao prazer imediato. Trata-se de um contexto regido pela lógica do “aqui e agora”, pelo tempo do instantâneo. Marisa Schargel Maia (2004) também contempla a questão do tempo na contemporaneidade, ao mostrar a necessidade que o psiquismo tem de lançar mão de recursos urgentes para lidar com a invasão de uma intensidade excessiva. Quando se sente invadido por uma intensidade excessiva, o sujeito é remetido a uma vivência de desamparo e as passagens ao ato, analisadas por nós como possíveis respostas a essa vivência transbordante e apassivadora, enquadram-se perfeitamente sob a designação de recurso urgente. A experiência do desamparo, revivida na adolescência como parte do próprio processo de “adolescer”, parece cristalizar-se neste contexto. Desta forma, assistimos a adolescentes estagnados numa situação dolorosa que os impulsiona a apelar, de forma reiterada, a recursos urgentes como as passagens ao ato. Passamos, então, à análise de determinadas características inerentes à atualidade, em sua dimensão pública, que vêm exacerbar essa experiência de desamparo.

3.1 A atualidade em sua dimensão pública

Muitos autores referem-se à atualidade como pós-modernidade; o uso deste termo indica uma convicção num rompimento radical com o projeto da modernidade. Esta convicção, no entanto, não é unânime, e alguns acreditam que a atualidade representa apenas uma nova etapa da modernidade (BIRMAN, 2000). Zygmunt Bauman e Marisa Schargel Maia, autores que nos servirão como referências principais na presente etapa de nosso trabalho, acentuam a questão da ruptura e empregam, assim, o termo pós-modernidade ao se referirem à atualidade. Tendo como foco o momento atual da sociedade ocidental, Bauman (2001) utiliza uma brilhante metáfora: a da “fluidez”, ou “liquidez”. Enquanto os sólidos possuem uma forma nítida, mantida com facilidade, os fluidos não apresentam dimensões espaciais rígidas, sendo então propensos a constantes mudanças. Segundo o autor, na modernidade teve lugar um processo de liquefação, de derretimento dos sólidos já estabelecidos, no sentido de um rompimento com o passado e a tradição. Bauman ressalta que este derretimento não deveria eliminar os sólidos de uma

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vez por todas, e sim abrir espaço para “novos e aperfeiçoados sólidos” dignos de confiança, que pudessem tornar o mundo previsível e administrável. Porém, a substituição dos antigos sólidos por novos, que poderiam vir a constituir uma “solidez duradoura”, jamais se concretizou. Nesse processo de derretimento, a única ordem que parece ter se mantido foi a econômica. Pode-se dizer que instituições tradicionais como o Estado e a Família, assim como padrões e configurações institucionalizados “liquefizeram-se”, adquirindo um caráter fluido, instável, volúvel, com forte tendência, portanto, à mutabilidade. De acordo com Maia (2004, Op. cit.), tudo aquilo que estivesse fora da ordem era considerado como “sujeira” na modernidade. Entretanto, na atualidade, a situação parece se inverter: nela, o sujeito é coagido a se desprender da garantia de estabilidade proporcionada pela ordem. O sujeito pós-moderno precisa entrar no mercado de consumo, e para isso deve abrir mão de sua própria história e se converter à contingência e à flexibilidade. Estas idéias, trazidas da obra de Maia, estão em consonância com aquelas antes expostas, desenvolvidas com base no trabalho de Bauman. Isto porque, a partir dos elementos apresentados pela autora, podemos inferir que na pós-modernidade exige-se do sujeito uma liquefação de sua história, composta por suas identificações e seus ideais. Ou seja, assim como as instituições, os padrões e as configurações, as pessoas também têm de ter a volubilidade como característica, conservando de maneira permanente uma abertura às mudanças e lidando, deste modo, com a vigência da imprevisibilidade em todos os registros abarcados por suas existências. Impõe-se ao sujeito um desapego à ordem, porém impõe-se também que ele ingresse no mercado de consumo; como havia declarado Bauman, isto significa que a única ordem ainda imposta é a econômica. Segundo Maia, na modernidade as instituições, por serem estáveis, eram capazes de oferecer sustentação aos projetos subjetivos. Todavia, Bauman assevera que as instituições tradicionais da modernidade foram atingidas pelo processo de liquefação; este processo, que visava derreter o já estabelecido para substituí-lo de maneira aperfeiçoada, foi mal-sucedido. Esta consideração do autor auxilia a compreensão da elaboração de Maia sobre a perda da possibilidade de os sujeitos apoiarem seus projetos nas instituições, hoje fluidas e instáveis. Maia afirma, enfaticamente, que “não existem mais garantias” e acrescenta:

A incerteza na pós-modernidade ganha outro formato: deixa de ser um afeto vivido por um determinado indivíduo que diz respeito à sua vida em particular e passa a ser uma incerteza quanto ao formato do mundo (MAIA, 2004, Op. cit., p. 70-71).

Outro aspecto considerado por ela como marcante na contemporaneidade é a exigência de que os indivíduos anulem o tempo passado e o tempo futuro, mantendo-se no tempo presente. O tempo contemporâneo seria o tempo do instantâneo, do imediato, vindo pôr em xeque a ilusão subjetiva de continuidade. Sabemos que o narcisismo é responsável pela garantia do sentimento de si, pela construção da certeza (ilusória) de continuidade. Levando isto em conta – além de outros aspectos que certamente contribuem para a definição que se segue, mas que fogem de nosso escopo neste momento – Maia denomina de patologias narcísicas as patologias engendradas pelo encontro do sujeito com um ambiente em que o fluxo de sua vida corre perigo. A dor então experimentada pelo sujeito atinge intensidade que invade o psiquismo, e para remediá-la o aparelho psíquico passa a necessitar de recursos designados pela autora como urgentes. Conforme já indicado, as passagens ao ato representam um recurso psíquico urgente do qual o sujeito lança mão quando se vê invadido por uma intensidade excessiva, isto é, quando se encontra imerso numa vivência de desamparo – como foi possível notar uma vez mais, vivência exacerbada pelas características próprias ao âmbito público da atualidade. Porém cremos que a cristalização da revivência do desamparo na adolescência não está ligada apenas a aspectos próprios à dimensão pública contemporânea, mas também a elementos intrínsecos à família dos dias atuais. Passamos, então, à análise das mudanças ocorridas no plano íntimo familiar, mudanças responsáveis pela emergência de uma nova família, hoje padrão.

3.2 A família em mudança

Durante séculos a família ocidental esteve baseada na soberania do pai. Num primeiro momento, a função primordial da família era assegurar a transmissão do patrimônio; assim, os casamentos eram arranjados pelos pais, os quais não atribuíam qualquer consideração à vida afetiva dos filhos. De acordo com Elisabeth Roudinesco (2003) 3 , esta família estava submetida a uma ordem do mundo imutável e a uma autoridade patriarcal, reflexos da monarquia de direito divino. A extinção da monarquia levou ao desenvolvimento de uma nova organização da soberania patriarcal. A sociedade econômico-burguesa assistiu, no decorrer do século XIX, ao surgimento de uma nova figura de paternidade, menos dominadora e mais ética. Esse novo pai incumbiu-se do dever de ser justo e respeitoso, e passou a deter obrigações morais em relação àqueles a quem

3 Roudinesco remete seus leitores aos trabalhos de François de Singly, nos quais afirma haver “uma boa síntese da evolução da família no Ocidente” (p. 19). Além da indicação da própria Roudinesco, gostaríamos de destacar, como referência aos interessados na temática da família, os trabalhos clássicos de Phillipe Ariès.

governava. Seu poder sobre as mulheres e os filhos já não era mais ilimitado, e seus erros e injustiças eram passíveis de punição. Ao lado desta nova figura de paternidade, a figura da maternidade adquiriu um lugar considerável; desta forma, a mulher alcançou algum status: o de mãe. No livro A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas, Anthony Giddens (1993) expõe que a “invenção da maternidade” trouxe para a criação dos filhos uma delicadeza que até então não estava presente. Antes disto, durante a vigência da disciplina do pai, a autoridade, nas palavras do autor “continuava sendo principalmente uma asserção dogmática, endossada em muitos momentos pelo castigo físico” (GIDDENS, 1993, p. 121). Roudinesco aponta para o desenvolvimento de outro aspecto ao final do século XIX: o casamento deixou de ser arranjado, passando a comportar uma dimensão de consentimento. Segundo ela, a invenção freudiana do Complexo de Édipo contribuiu para o assentamento da família no interior de uma outra ordem simbólica, na qual o amor, o desejo, o sexo e a paixão também passaram a estar contidos na representação de casamento. Ao colocar o desejo sexual no centro de sua estrutura psíquica do parentesco, Freud eliminou o privilégio da vida orgânica sobre a atividade psíquica e contribuiu para a separação entre desejo e procriação. Roudinesco afirma que a sexualidade reprimida foi substituída por uma sexualidade admitida, apesar de culpada e recalcada. A transformação relativa à sexualidade modificou o olhar sobre a mulher e a criança no seio da família. Com a dissociação entre prazer e procriação, a mulher obteve direito a uma sexualidade reconhecida; este reconhecimento levou à progressiva individualização da mulher e à gradativa ampliação do seu papel, reduzido ao de esposa e mãe. O filho deixou de ser um “acidente de percurso”, tornando-se desejado e passando a merecer investimento, amor e educação. O casal, responsável pelo futuro da criança, começou a planejar seu nascimento, originando, assim, uma revolução demográfica. É possível perceber que a autoridade parental, dentro dessa ordem simbólica, converteu-se numa autoridade parental dividida. Presencia-se, aliás, no decorrer do século XX, a gradativa “maternalização” da família. Isto porque, conforme acabamos de examinar, os casamentos passaram a se realizar por amor, o que significa que quando o amor não estivesse mais presente, os casamentos eram desfeitos. Desta forma, as

separações começaram a se efetivar de maneira crescente, tornando primordial a relação mãe-filho. Remi Lenoir também se dedica a analisar as mudanças operadas no cenário familiar, e o faz com extraordinária riqueza no trabalho Généalogie de la morale familiale (2003). Dentre as transformações apontadas, há destaque para aquelas relacionadas à escolarização e à profissionalização das mulheres (situadas nesta obra, na França, fundamentalmente entre os anos 60 e 80, porém continuando até os dias de hoje – dados relativos a 1999) como geradoras de conseqüências ímpares sobre as formas de vida familiar. De acordo com o autor, a ampliação do acesso feminino ao sistema escolar e ao trabalho assalariado produziu profunda modificação no modo de vida das mulheres. Este modo de vida, que era centrado, essencialmente, no trabalho de integração familiar, passou a ser pensado, a partir de então, como ultrapassado, alienante e limitado. Lenoir considera que a ordem simbólica familiar vai sendo assim transformada; a repartição do trabalho de socialização, moralização e educação das crianças sendo redefinida, assim como o cuidado com os parentes idosos. A atividade profissional da mulher significou o desvio do trabalho desta (em parte considerável) do interior para o exterior do lar. Isto tudo representou um deslocamento tanto da posição feminina quanto da masculina em relação aos lugares ocupados na família. A questão da escolaridade trouxe também outros efeitos, tais como o adiamento de uma vida em casal estável (Lenoir indica este adiamento como sendo perceptível, na França, a partir dos anos 70) e do nascimento do primeiro filho. A escolarização converteu-se na garantia de uma posição no espaço social, de modo que a formação do patrimônio dos lares passou a depender cada vez mais dela (e menos diretamente da herança). O crescimento da taxa de divórcios, de uniões livres, de naissances naturelles (isto é, nascimento de crianças, sem o casamento) e de famílias monoparentais, bem como a repartição dos papéis na família, as transformações das ligações entre gerações e dos modos de solidariedade familiar, são alguns dos aspectos tomados por Lenoir como indicadores do que ele vai denominar “renovação ética”, “reforma moral”, “obra de modernização moral”. Alguns fatores são por ele apontados como tendo especial importância para a ocorrência dessa “renovação ética”: a obtenção do direito de voto pela mulher, a reforma do divórcio, a afirmação (na Constituição) da igualdade entre os sexos e o reconhecimento do concubinato. O autor afirma, ainda, que os movimentos feministas sem dúvida contribuíram para dar visibilidade política e midiática às transformações da família. Desenvolve-se, então, uma “nova moral doméstica”, fundada sobre o princípio da autonomia das gerações e dos próprios cônjuges (LENOIR, 2003, Op. cit.). Este princípio é generalizável, portanto, a todas as relações familiares, correspondendo à evolução dos modos de relação entre esposos, bem como entre pais e filhos.

Pensamos que esta família eticamente renovada, apoiada no princípio da autonomia, é a mesma família da qual fala Sérvulo A. Figueira (1987) quando se refere

a um novo modelo familiar – a família igualitária, regulada pela ideologia do

igualitarismo. Nesta família, que historicamente podemos considerar como contemporânea e que, de acordo com Roudinesco começa a se impor a partir da década de sessenta, a questão da hierarquia não se coloca, uma vez que o poder encontra-se descentralizado. Esta última autora considera a família contemporânea semelhante a uma “tribo insólita, a uma rede assexuada, fraterna, sem hierarquia nem autoridade, e na qual cada um se sente autônomo ou funcionalizado” (ROUDINESCO, 2003, Op. cit., p.

155).

A questão da hierarquia na família contemporânea é contemplada com especial

relevo por Figueira, autor que contrapõe algumas características marcantes desta família

– que designa como igualitária – àquelas presentes no modelo familiar tradicional.

Figueira diz que, a partir da década de sessenta, a família tradicional – ou, conforme sua

denominação, família hierárquica – perdeu espaço diante da nova família igualitária (FIGUEIRA, 1987, Op. cit.). Na família hierárquica os indivíduos eram definidos com base em sua posição, sexo e idade. Nela, vigoravam numerosas idéias sobre o “certo” e o “errado”. Existia, portanto, uma relativa organização neste modelo familiar tradicional, um “mapeamento”. Homem e mulher percebiam-se como “intrinsecamente diferentes”, agindo de acordo com o que era tido como adequado a cada sexo; pais e filhos também se relacionavam ancorados na idéia da existência de “diferenças intrínsecas”. Diante disto, Figueira define a identidade na família hierárquica como “posicional”. Quanto às posições dos membros da família hierárquica, alguns aspectos

anteriormente analisados podem ser destacados: o indivíduo homem ocupava um lugar soberano representado pela figura de pai, enquanto a mulher encontrava-se no lugar de mãe e dona-de-casa. Também já foram indicados outros aspectos inerentes ao modelo familiar tradicional, tais como uma conjugalidade reduzida ao casamento, um não- reconhecimento de crianças nascidas fora dele e uma economia baseada na transmissão

do patrimônio.

À medida que vimos desenvolvendo o percurso que culminou no aparecimento

um novo modelo familiar – o modelo contemporâneo, denominado “igualitário” por

Figueira – aprofundaremos, no próximo tópico, a análise de certos traços concernentes a

de

esta nova família.

3.3 A atualidade em sua dimensão privada

Dirigindo nossa atenção para a família contemporânea – na qual, conforme afirmamos antes,

a

ideologia do igualitarismo foi tomada como reguladora das novas relações familiares – apreciemos

o

que sustenta Figueira em relação à questão da identidade nesta família:

homem e mulher se percebem como diferentes pessoal e idiossincraticamente, mas como iguais porque indivíduos. As diferenças pessoais subordinam (e são percebidas como mais importantes que) as diferenças sexuais, etárias e posicionais. Os sinais estereotipados da diferença homem / mulher tendem a desaparecer, se confundir ou se multiplicar, e os marcadores visíveis da diferença tendem, na medida do possível, a ser expressões do gosto pessoal. As noções bem delineadas de “certo” e “errado” perdem suas fronteiras, a noção de desvio de comportamento, pensamento ou desejo perde a clareza, e instaura-se, aparentemente, o reino da pluralidade de escolhas, que só são limitadas pelo respeito à individualidade do outro (FIGUEIRA, 1987, Op. cit., p. 16-17).

Neste sentido, Giddens (1993) observa que, num tempo anterior – que compreendemos como o tempo no qual predominava o modelo familiar hierárquico – as relações familiares baseavam-se numa confiança consentida por todos de maneira implícita. Hoje, porém, a confiança envolvida nas relações de parentesco está sujeita à negociação e à barganha, e o compromisso adquiriu caráter problemático. O autor afirma que nas atuais relações familiares está em jogo um

processo de “decisão”, e que essa tomada de decisão quanto à lida com os parentes é influenciada, prioritariamente, pela qualidade dos relacionamentos estabelecidos e pelo afeto mútuo. Giddens declara, então, que a relação de autoridade foi substituída pela intimidade. Este autor contempla a noção de democracia política, a qual pretende garantir liberdade e igualdade nas relações entre os indivíduos, para desenvolver a idéia de que “a democratização da

esfera privada está atualmente (

Julgamos que esta idéia está em conformidade com a afirmação do igualitarismo como ideologia norteadora das relações de parentesco na família contemporânea, família não hierarquizada cujos membros percebem-se como iguais porque indivíduos, e na qual as escolhas são limitadas apenas pelo respeito à individualidade alheia.

Retomando a metáfora da fluidez elaborada por Bauman (2001, Op. cit.), compreendemos que a solidez das posições ocupadas pelos membros da família individualmente, isto é, sua firmeza

e estabilidade, também foi afetada pelo processo de derretimento, de liquefação. Deste modo, tanto

na esfera da vida pública quanto na da vida privada, o sujeito contemporâneo depara-se com a ausência de autoridades rígidas, de regras e referenciais estáveis, encontrando-se, então, imerso num contexto onde nada mais está “dado”, e no qual é convocado a construir suas próprias referências, a elaborar as normas que regulam sua existência.

)

na ordem

do dia

(

)”

(GIDDENS, 1993, Op. cit., p. 201).

Será que a família contemporânea, na qual as posições também são “líquidas”, vem sustentando o que Piera Aulagnier concebe como “contrato narcisista” (AULAGNIER, 1975)? Em linhas gerais, este “contrato” diz respeito à obrigação individual de investimento no próprio ciclo geracional (tour générationnel) e à reciprocidade ao investimento do indivíduo por parte do grupo no qual está inserido, e que sustenta para ele um lugar. Michelle Cadoret (2003), ao se referir às instituições na atualidade, assinala que elas já não sustentam mais o “contrato narcisista”. Avaliamos que a família contemporânea – cujas características começam a se evidenciar a partir da década de sessenta – deixou, verdadeiramente, de sustentar o “contrato narcisista”, uma vez que nela os papéis não são mais rigidamente definidos, isto é, uma vez que não assegura mais um lugar específico para os seus membros. Ao refletir sobre uma articulação entre a família e a problemática das drogas, Mayer (1997), mostra que a ambigüidade do lugar ocupado por homens e mulheres como pais na atualidade é geradora de uma crise na instituição familiar. Ele considera, portanto, que a família atual está em crise, e remete essa situação crítica precisamente à falta de estabilidade e à incerteza que estão em jogo no desempenho dos papéis dos membros da família contemporânea. Ainda de acordo com as idéias desenvolvidas por Mayer, tanto o homem quanto a mulher puseram o espaço da casa em segundo plano. A mulher, que antes possuía o domínio exclusivo da vida familiar, lançou-se numa busca de reconhecimento e poder nos demais espaços sociais. O homem, por mais que se “maternalize”, não tem como substituir as funções maternas de forma apropriada e integral. De acordo com o autor, na família dos dias de hoje, os filhos acham-se, portanto, “afetivamente órfãos, sem uma figura de pai forte, respeitável, que proteja, e sem a sustentação de uma mãe terna, tolerante”. Estes filhos estão “à deriva, sofrendo traumaticamente o impacto das contradições sociais” (Id., ibid., p. 86. Tradução nossa). Crê o autor que, na atual ausência de um grupo familiar que possa mediar e processar adequadamente estas contradições sociais, intensificam-se fenômenos subjetivos como a sobre-excitação e a compulsão à repetição. Alain Ehremberg (2000) também se debruça sobre as implicações do contexto cultural contemporâneo na subjetividade. Segundo ele, o fato de o indivíduo não estar mais sendo conduzido por uma ordem exterior, em conformidade com a lei, sendo “obrigado” a julgar por si mesmo, a contar apenas com seus recursos internos, acaba por

resultar numa “doença da responsabilidade” e numa conseqüente prevalência da sensação de insuficiência. O sentimento contemporâneo de insuficiência descrito por Ehremberg e a imagem dos filhos “à deriva” no grupo familiar dos dias atuais (MAYER, 1997, Op. cit.) nos remetem, enfim, à questão do desamparo. Conforme temos pontuado, a experiência do desamparo está ligada, essencialmente, à idéia de insuficiência do aparelho psíquico quanto a dar conta do excesso de excitação pulsional. Ao introduzirmos questões relativas à família, a nossa proposta foi exatamente relacionar a problemática da cristalização da revivência do desamparo na adolescência a características particulares à configuração familiar da atualidade. O enfraquecimento das referências parentais “gerou, mais que uma sensação de liberdade, um profundo sentimento de desamparo” (Id., ibid., p. 87). O fenômeno da compulsão à repetição – o qual, de acordo com Mayer, vem sendo intensificado devido à ausência de um grupo familiar capaz de mediar o processamento das contradições sociais – possui estreita relação com as passagens ao ato. Isto porque esta forma de atuação representa uma tentativa de contenção do excesso pulsional na qual não é efetivado um trabalho de elaboração; nela, ocorre um curto-circuito do processamento psíquico, de modo que o psiquismo passa do impulso diretamente à ação. Assim, por não alcançar simbolização nas passagens ao ato, o excesso pulsional persiste, e o aparelho psíquico, afligido por este excesso, repete compulsivamente a tentativa de dominação fadada ao insucesso. No primeiro capítulo, expusemos que o poder – a ordem simbólica – exerce uma função de mediação, dando origem, assim, a possibilidades de dominação da força pulsional. Porém, temos indicado que o poder e a ordem simbólica encontram-se absolutamente esmorecidos, e que diante da falência da sua função de mediação torna-se difícil que o sujeito realize o trabalho de ligação da força pulsional. Vimos, então, que, neste contexto, o estado de desamparo tende a assolar os indivíduos, indicando, no decorrer do presente capítulo, o processo de fragilidade do poder e da ordem simbólica no âmbito específico da família. Além da reflexão realizada acerca da questão da atomização do poder na família contemporânea, desejamos aprofundar a idéia da existência de uma conflitante sobreposição de mapas ordenadores no cenário familiar da atualidade. Acreditamos já ter tangenciado esta idéia quando utilizamos uma citação de Figueira (1987, Op. cit.) na qual ele se refere a uma aparente instauração do reino da pluralidade de escolhas no interior da família. De acordo com o autor, a velocidade acelerada do processo de modernização da família acabou por resultar numa aquisição de novos ideais e identidades que não vieram exatamente alterar os antigos, mas se sobrepuseram a eles. Diante disto, sustentamos, juntamente com Figueira que, apesar de ser possível afirmarmos a prevalência, nos dias de hoje, do modelo familiar igualitário – o

modelo hierárquico de família vem certamente se tornando cada vez mais incomum – não se pode sustentar que a família hierárquica tradicional tenha sido radicalmente extinta. A existência de novos ideais e identidades na família contemporânea não exclui a permanência de traços próprios à família hierárquica tradicional. Para descrever a presença simultânea de mapas distintos e contraditórios, Figueira lança mão do termo “desmapeamento” (Id., ibid., p. 22). O “desmapeamento” gera desorientação e conflito, além do aparecimento doloroso da indagação “quem sou eu?”. Pensamos poder supor que a desorientação e o conflito produzidos pelo “desmapeamento” correspondem à vivência de uma situação de desamparo. A revivência do desamparo na adolescência está invariavelmente ligada à questão “quem sou eu?”, a qual é respondida mediante o sucesso da transação narcísica que permite a apropriação de uma nova identidade pelo sujeito adolescente. O “desmapeamento” existente no seio da família contemporânea – predominantemente igualitária, mas ainda portadora de resquícios tradicionalistas – radicaliza a revivência do desamparo na adolescência ao acirrar o sofrimento engendrado pela indagação “quem sou eu?”. Na introdução do presente capítulo, indicamos que daríamos relevo às conseqüências das transformações ocorridas na esfera familiar não apenas para os adolescentes contemporâneos, mas também para a geração de seus pais (aliás, conforme procuramos mostrar no capítulo anterior, o que ocorre na história dos pais não deixa, de forma alguma, de afetar a história dos filhos). É a noção de “desmapeamento” que nos possibilita explorar esta via de reflexão.

3.4 O “desmapeamento” e sua articulação com uma outra geração de adolescentes

Apesar de, ainda hoje, os valores característicos da família hierárquica encontrarem-se mesclados aos da família igualitária, são os últimos que, sem dúvida, sobressaem. Entretanto, é possível concebermos um período em que o novo e o antigo – ou, nas palavras de Figueira, o “moderno” e o “arcaico” – conviviam em pé de igualdade, um período que pode ser considerado como auge da transição (e da sobreposição) entre dois estados distintos de costumes familiares. Lenoir (2003, Op. cit.), Figueira (1987, Op. cit.) e Roudinesco (2003, Op. cit.)

localizam a irrupção dos novos valores relacionados à família a partir da década de sessenta. Considerando a velocidade do processo de modernização da família, indicada por Figueira, podemos supor que esse contexto de mistura profunda entre o “moderno” e o “arcaico” estaria instalado, fundamentalmente, na década de setenta. Nesta década, os pais dos adolescentes de hoje eram, eles próprios, adolescentes. Temos ressaltado o valor da necessidade do luto da vida infantil na ocasião da adolescência,

o qual implica significativo redimensionamento do referencial identificatório. No entanto, a manutenção das identificações primárias como apoio é imprescindível, uma vez que é a garantia da continuidade do ser. Diante da hipótese de um “desmapeamento” radical situado na década de setenta, inferirmos que, para os adolescentes de então, este equilíbrio entre continuidade e rompimento estava gravemente ameaçado. Os adolescentes desta década – pais dos adolescentes da atualidade – vivenciaram um embate entre os princípios, a educação e a formação transmitidos por seus pais e os novos e antagônicos valores que a sociedade também passou a veicular como norteadores e desejáveis. Gilberto Velho (1998), em Nobres & anjos: um estudo de tóxicos e hierarquia, dedica-se a um estudo antropológico sobre a noção de desvio nas camadas médias urbanas. O autor observou, durante dois anos, na década de 70, dois grupos de pessoas que utilizavam tóxicos regularmente.

Nas análises de ambos os grupos (o primeiro, de “jovens adultos”; e o segundo, de sujeitos “entre 13, 14 e vinte e poucos anos”), Velho destaca a questão da contestação e da crítica destes indivíduos

às suas famílias 4 . Ele chama a atenção dos leitores para a situação paradoxal vivenciada por estes

sujeitos, os quais rejeitavam as escalas de valores de suas famílias de origem, mas que com elas também se identificavam em importantes aspectos, como, aliás, não poderia deixar de ser. Este mesmo autor, no artigo Parentesco, individualismo e acusações, também escreve sobre a rejeição dos filhos – jovens entre 12 e 25 anos na primeira metade da década de setenta – aos valores paternos por meio de atos e palavras. Velho explica que os pais destes jovens possuíam um projeto bastante visível, ao qual esperavam que seus filhos dessem continuidade. Estes pais, por sua vez, também tinham se afastado do projeto de suas famílias; porém, este afastamento havia sido legitimado por elas. No caso dos jovens da década de setenta, o rompimento com o projeto parental não foi aceito; além disto, os pais repudiavam a nova opção existencial destes jovens, descrita pelo autor como “opção existencial lúdico-hedonista” (VELHO, 2004a, p. 76). Cabe aqui uma breve apreciação acerca da noção de projeto. Em Projeto, emoção e orientação em sociedades complexas (2004b) Velho declara que a idéia de escolha individual representa o ponto de partida para que se pense na noção de projeto. O processo de projetar possui

4 No filme “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, lançado no Brasil no ano de 2004, e ambientado em Paris, no final da década de sessenta, um dos personagens – Theo, um jovem adulto francês – profere uma fala extremamente ilustrativa neste sentido, a respeito de como lidar com pais: “Não basta ignorá-los. Eles deveriam ser presos e julgados. Obrigados a confessar seus crimes. Devem ser enviados ao campo para autocrítica e reeducação”.

aqui uma natureza consciente. Desta forma, o projeto não se constitui como um fenômeno exclusivamente subjetivo: é organizado no interior de um “campo de possibilidades”, restrito pela história e pela cultura.

Portanto, insistindo, o projeto é algo que pode ser comunicado. A própria condição de sua existência é a possibilidade de comunicação. Não é, nem pode ser fenômeno puramente subjetivo. Há, sem dúvida, uma relação entre projeto e fantasias que não pretendo explorar aqui, mas o projeto para existir precisa expressar-se através de uma linguagem que visa o outro, é potencialmente público. Sua matéria-prima é cultural e, em alguma medida, tem de “fazer sentido”, num processo de interação como os contemporâneos, mesmo que seja rejeitado (VELHO, 2004b, p. 27. Grifos do autor).

Velho ressalta, ainda, que um projeto está sempre referido a outros projetos. Isto porque o sujeito do projeto tem que lidar com outros sujeitos, com seus próprios projetos, na busca de alcançar seus objetivos. É dado também destaque ao fato de o projeto ser mutável, transformável, já que o sujeito do projeto é influenciado pela ação dos demais sujeitos e pelas mudanças sócio-históricas. Retomando a experiência vivida pelos jovens da década de setenta, cremos que a ruptura efetivada por eles em relação ao projeto parental pode ser considerada radical. Essa radicalidade está articulada não apenas à falta de legitimação do projeto destes jovens por parte de suas famílias, mas também ao repúdio parental quanto ao seu projeto. Velho (2004a, Op. cit) acrescenta que situações de impasse – como entendemos ser a situação que estamos analisando – podem levar ao desencadeamento de acusações no meio familiar, as quais se configuram como verdadeiros conflitos, como tentativas dramáticas de obtenção de controle social. De acordo com o autor, os pais destes jovens praticavam um controle social intenso e possuíam exigências e expectativas claramente declaradas. Os jovens costumavam aludir à palavra “sufoco” para se referir aos pais, devido à perseguição constante efetivada por estes pais no intuito de saber o que os jovens estavam fazendo, e de proferir ordens infindáveis. Vejamos que paradoxo: os pais destes jovens eram altamente controladores, extremamente exigentes e fortemente desejosos de que seus projetos fossem continuados por seus filhos. Contudo, no modelo familiar que começa a ser valorizado pela sociedade – modelo igualitário, democrático, regido pelo princípio da autonomia das gerações e dos cônjuges – as figuras parentais não devem ser controladoras, e sim tolerantes, aceitando a diferença, respeitando as escolhas de seus filhos, provendo um ambiente marcado pela liberdade. Ou seja, é nítida – e fundamental em nossa análise – a

contradição entre os pais que estes jovens tiveram e os pais que eles deveriam vir a ser. Segundo Velho (2004b, Op. cit.), quando o sujeito necessita lidar com mundos diversos e contraditórios, ele pode acabar optando por uma das seguintes alternativas: a individualização radical ou a assunção de um estereótipo (o autor fornece alguns exemplos de estereótipos que podem ser assumidos: “cientista louco”, “burocrata ritualista”, “beata”, “mãe de família”). Nosso objetivo não é explicar o que significam estas alternativas, e sim enfatizar que Velho as considera como possibilidades diante da angústia gerada pelo desmapeamento. Almejamos, portanto, mostrar que a inserção numa realidade altamente contraditória, na qual mapas antagônicos coexistem e são igualmente tomados como referência, é intensamente angustiante. Compreendemos a opção por alternativas como as expostas por Velho como uma tentativa subjetiva de defesa frente à angústia. Em Cultura de classe média: reflexões sobre a noção de projeto, Velho prossegue sua elaboração sobre esta noção. Neste trabalho, afirma que “o conflito entre projetos pode levar a situações de drama social” (VELHO, 2004c, p. 108). Pensamos que o conflito entre o projeto dos jovens da década de setenta e o projeto de seus pais, dada a sua radicalidade, levou ao estabelecimento de uma situação de “drama social”. Na introdução da coletânea publicada em 2003, Gilberto Velho (2003a, Op. cit.) retoma algumas idéias desenvolvidas em sua tese de doutoramento (transformada no livro Nobres & anjos:

um estudo de tóxicos e hierarquia [1998, Op. cit.]). O autor afirma que os entrevistados em sua pesquisa de doutorado – lembremos: um grupo de “jovens adultos” e outro de sujeitos “entre 13, 14 e vinte e poucos anos” na década de setenta – associaram as mudanças nas quais estavam envolvidos às idéias de crise, processo conflituoso e processo dramático. Supomos, realmente, que estes jovens participaram de transformações – estamos procurando realçar as transformações do modelo familiar no qual foram criados, em relação ao modelo que a sociedade os convocou a tomar como nova referência – engendradoras de possíveis crises subjetivas e possíveis processos subjetivos conflituosos e dramáticos. Será possível designarmos estas crises e estes processos como traumáticos?

3.5 Sobre uma possível dimensão traumática vivenciada pela “outra” geração

De acordo com Maia (2004), podemos vislumbrar como possível efeito da violenta ruptura entre o ideário da modernidade e o da pós-modernidade – nesse momento, estamos atentos especialmente à severa ruptura entre os ideários relacionados à família – “um processo desestabilizador, por assim dizer traumático, das construções subjetivas” (MAIA, 2004, Op. cit., p.

71-72).

No artigo Destino e violência, Velho menciona, exatamente, que os choques culturais podem

produzir conflitos e impasses não só no registro intergrupal, mas também numa dimensão interna individual. As “experiências contraditórias podem levar a situações críticas na elaboração e manutenção de identidade” (VELHO, 2003b, Op. cit., p. 119). Presumimos que a ameaça à elaboração e à manutenção da identidade que está em jogo nas experiências contraditórias é agravada quando o sujeito está passando pela dura etapa da adolescência – etapa de remanejamento do referencial identificatório, de tensão entre dependência e autonomia, de incerteza identitária. Jacqueline Palmade (2001, Op. cit.) considera que a ruptura, a instabilidade e o paradoxo possuem uma significação de insegurança existencial, de perda de sentido. Vimos analisando a presença radical de aspectos como a ruptura, a instabilidade e o paradoxo no contexto familiar vivenciado pelos jovens da década de setenta. Consideramos a experiência de insegurança existencial e de perda de sentido – experiência ligada à participação marcante dos aspectos citados na vivência dos jovens da década de setenta – como uma experiência traumática. Afinal, uma experiência traumática corresponde a uma situação que excede a capacidade de simbolização, uma situação à qual não é possível atribuir um sentido. Segundo Palmade, a ocorrência de contradições entre as identificações psicoafetivas (identificações afetivas com os pais) e as identificações sociais fragiliza as bases identitárias. Conforme desenvolvemos, a geração de adolescentes da década de setenta experienciou profunda contradição entre estas identificações. Esta experiência parece ter fragilizado as bases identitárias de muitos destes adolescentes – bases já frágeis no decorrer da passagem pela adolescência. O trabalho Identificação e grupos de pertencimento, de Jean Claude Rouchy (2001, Op. cit.) comporta uma reflexão acerca da questão das identificações. Ao analisar o exemplo das migrações para refletir sobre esta questão, o autor propõe como traumática a perda da base cultural partilhada na família que está em jogo nas migrações, devido ao choque de culturas. Acrescenta ainda que, freqüentemente, não se fala sobre este trauma na família, o que impossibilita sua elaboração, provocando, assim, efeitos na geração seguinte – a questão da transmissão à geração seguinte de elementos traumáticos não elaborados, bem como dos efeitos desta transmissão, foi amplamente analisada no capítulo anterior. Apesar de não estarmos lidando com a questão das migrações, estamos considerando a hipótese da ocorrência de um choque entre os valores transmitidos pela família dos jovens da década de setenta e os novos

valores relacionados à família, difundidos pela sociedade. Estamos, portanto, trabalhando com a hipótese de uma significativa perda, por parte destes jovens, da base cultural partilhada em sua família; perda que, para muitos, pode ter se constituído como traumática. Diante dos elementos discutidos, questionamos: como, ao se tornarem pais, estes jovens – os que tiveram suas bases identitárias fragilizadas por uma vivência de profundas contradições, de choque entre valores divergentes, e que experienciaram esta vivência de maneira traumática – podem oferecer um adequado “apoio narcísico parental” na ocasião da adolescência de seus filhos,

isto é, como podem eles sustentar o processo de consolidação da identidade dos filhos, quando suas próprias bases identitárias são frágeis? Como vimos nos capítulos anteriores, Palmade (2001, Op. cit.) evidencia a tendência dos pais da atualidade a se comportarem como adolescentes ante a adolescência de seus filhos. No final do segundo capítulo, declaramos acreditar que isto ocorra devido à revivência, por parte dos pais, de sua própria adolescência, e afirmamos apostar num caráter particularmente problemático da adolescência dos pais dos adolescentes dos dias de hoje. Julgamos, nesta altura, ter conseguido desenvolver esta investigação. Conforme havíamos avançado no capítulo anterior, a vivência, por parte dos pais dos atuais adolescentes, de profunda desestabilização na ocasião de sua própria adolescência, parece ter provocado em muitos desses futuros pais um processo interno / externo de desorientação, com importantes implicações na assunção de seu papel parental. Tínhamos afirmado que a tarefa de “ser pai” / “ser mãe” vem se revelando especialmente árdua para esta geração. Cadoret sustenta que “os traços que permanecem sem elaboração, os acontecimentos não

simbolizados são levados às gerações seguintes (

um sofrimento narcísico parental vindo

constituir obstáculo ao processo de subjetivação da geração seguinte” (CADORET, 2003, Op. cit., p. 176. Tradução nossa); neste sentido, a autora parece estar de acordo com as idéias de Rouchy (2001) anteriormente expostas. No capítulo anterior afirmamos nossa crença de que o processo de desorientação vivido por muitos dos pais dos nossos adolescentes corresponde a um sofrimento narcísico, a uma experiência traumática que rendeu elementos não elaborados, os quais foram transmitidos à geração seguinte – ou seja, à geração dos adolescentes da contemporaneidade – e que vêm dificultando o processo de subjetivação desta geração. Experiências traumáticas algumas vezes possibilitam a abertura de vias positivas, como a criação artística, por exemplo 5 . No entanto, investigamos um aspecto negativo e desestruturante do trauma, uma situação traumática não elaborada pelos sujeitos que a vivenciaram, um traumático que, ao não encontrar destino, ficou fadado a transmitir vestígios à geração seguinte.

),

5 Sobre a articulação entre violência psíquica e criação artística, remetemos o leitor ao artigo “Criação artística: no limite da violência psíquica” (CATTAPAN & REZENDE CARDOSO, 2004).

CONCLUSÃO

Instigados pela questão “por que, entre os adolescentes de hoje, o recurso às passagens ao ato tornou-se tão freqüente?”, esforçamo-nos para investigar, no presente trabalho, o fenômeno das passagens ao ato na adolescência contemporânea. Sabíamos que as respostas à questão que motivou nossa pesquisa eram múltiplas e complexas, e em nenhum momento tivemos a pretensão de esgotá-las. Procuramos abordar a problemática das passagens ao ato em sua articulação com o contexto sócio-cultural mais amplo da atualidade, contexto ameaçador, no qual a experiência de desamparo é intensificada. Isso dificulta a superação da revivência desta experiência na adolescência, e contribui para a recorrência crescente dos adolescentes a esse modo elementar de defesa. Entretanto, nosso foco esteve voltado para a relação entre o incremento do apelo, por parte dos adolescentes da contemporaneidade, às passagens ao ato e características concernentes ao espaço privado da família atual. Afirmamos que, neste espaço, a desproteção vivenciada na esfera pública vem se reproduzindo. Apoiamos nossa análise na idéia segundo a qual o grupo familiar representa o espaço originário no qual tem lugar o processo de transmissão psíquica. Isto significa que o sujeito herda no interior do seio familiar uma bagagem da qual é necessário tomar posse. A revivência do desamparo constitui experiência típica da adolescência, uma vez que os processos de subjetivação desses sujeitos envolvem a presença de intensa violência psíquica. A tarefa do adolescente de “passar além” desta revivência é árdua e, para cumpri-la, isto é, para elaborar a violência interna – violência pulsional que transgride o território egóico e que está na base das passagens ao ato – ele necessita do “apoio narcísico parental”. Porém, examinamos a dificuldade – num sentido fundamentalmente intrapsíquico, com toda a complexidade que representa – dos pais dos adolescentes da atualidade quanto a oferecer suporte narcísico aos filhos, e articulamos esta dificuldade à própria história psíquica destes pais. Vimos, então, que a adolescência dos genitores de nossos adolescentes de hoje teve lugar, fundamentalmente, no decorrer da década de setenta, momento histórico particularmente expressivo no que se refere a mudanças sociais. Ressaltamos, dentre

outros aspectos, o fato de que a passagem desses sujeitos pela adolescência coincidiu com um momento de profundas modificações, engendrando conseqüências que estão articuladas à bagagem que traziam consigo, proveniente de sua vida infantil. Quanto às transformações ocorridas no âmbito público, analisamos a questão do rompimento com o passado e a tradição, utilizando a metáfora da “fluidez” (ou “liquidez”) elaborada por Zygmunt Bauman num de seus expressivos livros. Com base nesta metáfora, afirmamos que, por meio do processo de derretimento dos sólidos que estavam estabelecidos, “liquefizeram-se” padrões, configurações e instituições tradicionais. Asseveramos, por exemplo, que o sujeito pós-moderno é coagido a entrar no mercado de consumo, devendo, para isto, também efetivar a “liquefação” de sua história. Analisamos o caráter imediato e instantâneo do tempo na contemporaneidade, caráter que põe em xeque a ilusão subjetiva de continuidade. A partir disto, observamos que a dor experimentada pelo sujeito, diante deste contexto ameaçador do fluxo de sua vida – no qual “não existem mais garantias” – alcança uma intensidade excessiva, invasora do psiquismo. Imerso numa vivência de desamparo, o sujeito é incitado a lançar mão de recursos urgentes como as passagens ao ato. O que mais procuramos enfatizar foi a ligação entre a cristalização da revivência do desamparo na adolescência e alguns aspectos próprios à dimensão privada da família contemporânea. Sendo assim, nos detivemos com vagar na análise das modificações sucedidas no plano íntimo familiar, as quais deram origem ao surgimento da dita família contemporânea. Acompanhamos o caminho que levou ao desenvolvimento de uma “nova moral doméstica”, que possui como princípio fundamental a autonomia das gerações e dos próprios cônjuges; ou seja, seguimos atentamente o percurso que desembocou na emergência de uma nova família – a contemporânea, na qual a questão da hierarquia e da autoridade adquire caráter notavelmente problemático. Contrapusemos aspectos relacionados à “arcaica” e tradicional “família hierárquica”, àqueles referentes à “moderna” e contemporânea “família igualitária”. Retomamos a metáfora de Bauman para acrescentar a idéia da “liquefação” das posições ocupadas pelos membros da família contemporânea. Desta forma, constatamos que também “não existem mais garantias” no seio íntimo familiar. A família contemporânea, em que as posições dos membros são “líquidas”, não assegura um lugar definido para o sujeito; ela já não sustenta o “contrato narcisista”. Nela, os filhos

encontram-se “à deriva”, o que não gera sensação de liberdade, e sim um intenso sentimento de desamparo. O acirramento da experiência de desamparo foi, portanto, articulado à particularidade da organização familiar contemporânea, por meio do exame do processo de fragilidade do poder e da ordem simbólica no âmbito específico da família. Ademais, articulamos a radicalização desta experiência de transbordamento e apassivamento à existência de uma sobreposição, na família contemporânea, de mapas ordenadores contraditórios entre si, uma vez que aprofundamos a idéia de “desmapeamento” – o qual gera desorientação e conflito. Vimos que o “desmapeamento” exacerba a revivência do desamparo na

adolescência porque intensifica a inquietação ligada ao questionamento “quem sou eu?”.

O “eu” adolescente, ao se sentir apoderado pelas mudanças pubertárias, dominado pelo

surgimento de uma nova pulsionalidade engendrada por estas mudanças, tende a responder por meio de atuações que nada mais são do que “simples descarga de

evacuação”. Tendo investigado o agravamento da revivência adolescente do desamparo no

espaço da família contemporânea, contemplamos uma influência direta das transformações ocorridas no cenário familiar para a geração dos adolescentes da atualidade. Contudo, também pudemos observar uma influência menos direta – mas não menos importante – destas transformações para nossos adolescentes, por meio da análise

da ação que estas modificações podem ter exercido sobre os seus pais. Isto porque estes pais vivenciaram, em sua própria adolescência, o auge da

transição entre os valores familiares “arcaicos” e os “modernos”; estes pais, portanto, experienciaram uma severa sobreposição de valores altamente paradoxais. Eles efetivaram uma ruptura radical em relação ao projeto de seus próprios pais. Destacamos

o grau da contradição entre as figuras parentais que eles tiveram e aquelas que eles

deveriam vir a ser, de acordo com o novo modelo familiar que começou a ser valorizado pela sociedade. Afirmamos que toda esta vivência pode ter originado crises subjetivas,

processos subjetivos conflituosos e dramáticos. Procuramos demonstrar, então, que, para muitos destes sujeitos, esta vivência pode ter se constituído como traumática. Assim, buscamos sustentar que os jovens da década de setenta que experienciaram de maneira traumática esta vivência profundamente contraditória cujas bases identitárias foram fragilizadas, no plano interno, pelo choque entre valores

altamente divergentes, não estão conseguindo, como genitores, sustentar o processo de consolidação da identidade de seus filhos adolescentes. Com suas próprias bases identitárias frágeis, eles não estão sendo capazes de oferecer um “apoio narcísico parental” que permita aos seus filhos a elaboração da violência interna envolvida nos processos de subjetivação da adolescência. Na ocasião da adolescência de seus filhos, eles parecem estar revivendo, do ponto de vista essencialmente inconsciente, o desnorteamento e a desorientação característicos de sua própria adolescência. Isto pode ser observado, no plano fenomenológico, por meio, por exemplo, da manifestação de um comportamento, de certa forma também adolescente, situação “fronteiriça”, envolvendo, além da dificuldade da afirmação subjetiva de uma posição adulta, uma dinâmica singular no que diz respeito à relação eu/outro, relação com a “diferença” que habita, em primeiro lugar, o espaço intrapsíquico. A carência do “apoio narcísico parental” vem, portanto, contribuindo para o entrave ao processo de subjetivação dos adolescentes da contemporaneidade, os quais, “entravados”, se inclinam a lançar mão de atuações dramáticas com considerável freqüência. Em nossa opinião, este entrave também está relacionado à transmissão inconsciente, aos nossos adolescentes, dos elementos traumáticos parentais não elaborados. Conforme afirmamos, com Kaës, “nada do que foi retido poderá permanecer totalmente inacessível para a geração seguinte”. A apreciação da noção de transmissão psíquica nos permitiu averiguar a importância da história parental na constituição da história filial. A história dos pais é herdada pelos filhos, constitui a própria pré-história filial. O processo de transmissão psíquica revela-se estruturante quando o sujeito consegue se apropriar da herança recebida, isto é, quando consegue atribuir um sentido próprio à bagagem herdada, assim transformando-a. Entretanto, ressaltamos que nem sempre é possível para o sujeito apropriar-se da herança, nem sempre é possível assimilar como próprio aquilo que é advindo do outro, nem sempre é possível que se retome a herança de maneira transformadora. Vimos que estas impossibilidades configuram-se como aspectos alienantes do processo de transmissão psíquica; estão ligadas à dimensão transpsíquica deste processo, à “negatividade” no processo de transmissão psíquica. Defendemos a hipótese de que a transmissão das marcas traumáticas parentais, deixadas pela possível vivência, dentre outros entraves, de um processo de desorientação psíquica na juventude dos pais dos adolescentes dos dias de hoje, aponta

para uma espécie de identificação “em negativo”. Ou seja, defendemos a idéia de que os elementos traumáticos parentais não-elaborados foram transmitidos aos adolescentes da contemporaneidade por meio da dimensão transpsíquica do processo de transmissão psíquica, dimensão na qual aquilo que é transmitido atravessa o inconsciente das gerações, impondo-se a seus receptores em estado bruto. Desta forma, torna-se impossível o trabalho de transformação e de apropriação da herança. Os elementos traumáticos parentais não-elaborados constituem-se, então, como intraduzíveis para seus receptores, configurando a existência de um estrangeiro radical no interior do psiquismo. Marcamos a distinção entre a noção de introjeção e a de incorporação. Expusemos que o mecanismo da incorporação entra em cena quando a introjeção é impraticável, isto é, quando os objetos parentais não são capazes de favorecer o processo de introjeção, não são capazes de mediar este processo. Assim, tendo em vista o papel que a história psíquica dos pais possui no processo de simbolização no psiquismo da criança, afirmamos que se houver no psiquismo parental marcas traumáticas que não alcançaram aí a representação, esses pais não terão como oferecer a mediação imprescindível à transmissão dessas marcas. Em conseqüência, sua introjeção no psiquismo da criança fica impossibilitada, e entra em cena o mecanismo da incorporação. Observamos que diversos autores destacam a função dos objetos primários de mediação simbólica. Os objetos primários devem ser responsáveis por interceptar a pulsionalidade, a fim de conduzi-la às ligações. Com isto, estes objetos criam as condições necessárias para a manifestação de Eros. Na ausência ou insuficiência da capacidade dos objetos de exercerem suas funções primárias (de mediação, de ligação), podem ser disparadas as forças de descarga e o desligamento. O funcionamento psíquico então engendrado caracteriza-se por um regime além do princípio de prazer, evidenciado pela compulsão à repetição. Sabemos que o fenômeno da compulsão à repetição está em jogo nas passagens ao ato. Ao escrevermos sobre a falta de possibilidade dos objetos parentais, no que se refere às suas próprias marcas traumáticas, de cumprirem a sua função de mediação do processo de introjeção, demos relevo à questão central de nossa pesquisa: as passagens ao ato. Passando por algumas considerações a respeito da cripta e do fantasma, chegamos à análise dos possíveis efeitos de sua presença no psiquismo, privilegiando

nesta análise a problemática das passagens ao ato. Expusemos que o mecanismo da incorporação envolve a recusa ao trabalho de luto objetal. Ao discorrermos sobre a especificidade do trabalho psíquico requerido na adolescência, afirmamos a necessidade da elaboração do luto dos pais da infância. A consolidação do processo de subjetivação do adolescente depende de significativo redimensionamento dos referenciais identificatórios que só pode ser efetivado mediante a elaboração do luto das figuras parentais da infância. Mas se essas figuras possuem em seu aparelho psíquico um conteúdo traumático não-passível de introjeção, acreditamos que a conseqüente incorporação deste conteúdo vai resultar, no momento da adolescência, numa forte resistência ao trabalho de luto dos pais da infância. Esta resistência atravanca o remanejamento das identificações, mantendo o adolescente vigorosamente atrelado aos pais absolutos e onipotentes da infância. Ela engendra, portanto, um impedimento à passagem da predominância do Ego Ideal à prevalência do Ideal do Ego, um obstáculo ao sucesso da “transação narcísica”. A recusa à elaboração do luto dos pais da infância contribui para a organização de um funcionamento psíquico ancorado no narcisismo. Escrevemos que quando o Ego é regido por um funcionamento psíquico essencialmente narcísico, no qual o Ego Ideal esmaga o Ideal do Ego, ele tende a não suportar o desprazer, a recusar o adiamento do prazer imediato, mobilizando defesas arcaicas para se livrar da angústia. Analisamos uma série de características próprias ao contexto sócio-cultural contemporâneo que colaboram para a vigência de um funcionamento psíquico fundamentado no narcisismo. Salientamos que o sofrimento envolvido na travessia da adolescência vem sendo intensificado devido à inserção do adolescente dos dias atuais neste contexto particular, nessa “cultura narcísica da violência”. Nela, a experiência de desamparo é impetuosa, o que agrava a revivência desta experiência, gera obstáculos à sua superação e impede a utilização de recursos defensivos de caráter mais elaborado. Mostramos, a título de ilustração desses aspectos, que o uso abusivo de drogas – objeto dócil, pronto para ser usado – por favorecer o alívio imediato da tensão, é emblemático no que diz respeito à satisfação narcísica. Este uso está especialmente de acordo com o ideal de felicidade vigente na moral do espetáculo, felicidade atrelada ao prazer da sensação. A onipotência narcísica, incessantemente buscada quando o psiquismo é regido pela prevalência do Ego Ideal, costuma ser garantida pelo efeito do uso de drogas. Julgamos não ser à toa que a preferência dos adolescentes esteja cada vez

mais voltada, na atualidade, para o consumo do ecstasy, “pílula da felicidade”, que intensifica a sensibilidade táctil e promove algumas horas de sensação de completude. Pretendemos dar continuidade à nossa pesquisa, realizando um recorte em nosso objeto de análise. Nosso plano consiste no deslocamento do foco de nossa investigação das passagens ao ato em geral para a especificidade do fenômeno da drogadicção. Por ora pudemos observar que o adolescente da atualidade se encontra sobrecarregado para dar conta de suas questões. É preciso mesmo que se seja um super- herói onipotente para que se consiga, sozinho, realizar as inúmeras tarefas exigidas na adolescência. Neste sentido, o uso de drogas – que pretendemos explorar em detalhe num futuro próximo – parece estar sendo compulsivamente buscado pelo adolescente, como tentativa desesperada de se lidar com um trabalho digno de Hércules. Pensamos que a dificuldade dos pais dos adolescentes da contemporaneidade quanto ao cumprimento da tarefa ser pai / ser mãe – analisada no presente trabalho tanto a partir da questão da transmissão de uma herança prioritariamente inconsciente, quanto da questão da transmissão de valores do ponto de vista pré-consciente-consciente – pode estar gerando, nestes pais, uma exigência (inconsciente) de perfeição dos filhos, no lugar do desejo comum de perfeição. O desejo de responder ao desejo de perfeição dos pais pode tornar-se, neste caso, um imperativo de responder à exigência de perfeição. Mas se o fracasso dos pais é reconhecido e vem ao lado de uma fé numa solução por-vir, uma via positiva pode ser aberta, já que, assim, a demanda de perfeição é atenuada. Fazendo nossas as palavras de Luis Cláudio Figueiredo no ensaio “O paciente sem esperança e a recusa da utopia”, a atenuação da demanda de perfeição

dá lugar à criatividade dos filhos, que deverão (e poderão) experimentar a diferença para ir aonde seus pais não foram. Nesse circuito mais longo (o da vida), eles também serão traumatizados e também deverão transmitir “aos-que-estão-por-vir” novas tarefas e novas esperanças (FIGUEIREDO, 2003, Op. cit., p. 185. Grifos do autor).

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