Sie sind auf Seite 1von 6

Ao realizar a leitura e os estudos dos textos dos autores, noto que a questão ‘feitura da etnologia’ está posta como ponto central do debate e principalmente, como plano de fundo:

‘quais são os verdadeiros passos para a realização de uma etnologia?’. E assim os textos são tecidos, indicando conflitos, verdadeiros pontos de ataque e defesa entre os autores. Esses dois antropólogos debatem portanto, assuntos inescapáveis de quando pretende-se estudar a antropologia​ ​brasileira​ ​e​ ​mais​ ​especificamente​ ​a​ ​etnologia​ ​do​ ​nordeste. Ao destrinchar isso, podemos perceber o lado de cada um dos autores, por exemplo, João Pacheco é ligado a uma etnologia que foge do padrão Americanista, qual se liga a uma demanda estrutural específica dos índios do nordeste, é como se ele tivesse percebido que era necessário ser feito algo e se colocasse como padrinho daquela causa, analisando ao longo dos textos percebo que se não fossem os antropólogos que tomaram para si o início do litígio territorial, o contatualismo, os índios do nordeste ainda estariam aquém da comunidade brasileira branca, vivendo com as marcas do passado colonialista que os fizeram destrinchados de suas comunidades genitoras ou mesmo, em uma proporção maior que a existente​ ​hoje,​ ​ausente​ ​da​ ​noção​ ​de​ ​‘ser​ ​índio’. É levando em consideração o longo texto de Viveiros de Castro que percebemos sua implicância com os contatualistas e como ela fez parecer muitas vezes que o autor mostra-se não querer que os antropólogos peguem essa via militante e política que cerca as questões indígenas do nordeste, afinal os antropólogos certamente estariam se desviando da condição própria do profissional que não interfere na comunidade, só estuda, buscando entendê-la. É com isso que notamos a sua preocupação, mais com o profissional antropólogo do que com

seu​ ​objeto​ ​de​ ​estudo,​ ​os​ ​índios. Com isso vamos passar a nos especificar quanto a visão dos dois antropólogos em algumas marcas que os textos apresentam, como os “índios misturados” situando-os na questão de sua distintividade cultural, sua identidade indígena, a territorialização e a posição do​ ​antropólogo​ ​diante​ ​da​ ​construção​ ​da​ ​etnologia. Ao que podemos entrar em destaque sobre os índios do nordeste é especialmente o embate que os cerca: são ou não são ‘índios’. A posição americanista de Viveiros de Castro

às vezes penso que as teóricos da etnogênese política são as

(1999, p.194) já critica: “(

primeiros (e talvez os únicos, entre os etnólogos) a não acreditar que os índios do Nordeste sejam​ ​realmente​ ​índios.”​ ​Posteriormente,​ ​entre​ ​parênteses​ ​o​ ​autor​ ​ainda​ ​se​ ​explica:

)

(A propósito, a questão de saber se as etnias emergentes do Nordeste estão virando índios de novo ou 'pela primeira vez' - porque algumas dessas comunidades não teriam 'continuidade histórica demonstrável' com algum povo pré-colombiano - não faz o menor sentido. A descontinuidade histórica vale exatamente o mesmo que a continuidade histórica; o devir-índio envolve uma relação dos povos indígenas com seu passado, mas se trata de uma relação presente com o passado, não de uma

relação​​passada​​com​​o​​presente.).​​(VIVEIROS​​DE​​CASTRO,​​1999,​​P.194).

Portanto para o autor, a descontinuidade histórica implica na verdade básica do ser

índio, o que não o faz sê-lo na realidade, ao contrário dessa perspectiva, Pacheco de Oliveira

(2003, p.30) nos diz que para pensar a antropologia dos ‘índios misturados’ é necessário “( justamente fazer um exame crítico de atividades que constituíam, classificavam e atribuíam significação àquele fenômeno.” e nos faz perceber como a sociedade brasileira colonizada e posteriormente colonizadora, influenciou nessa descontinuidade histórica indígena, que na verdade os índios não por livre vontade quiseram “deixar de ser índio”, porém sim devido às circunstâncias péssimas que enfatizavam a insegurança de ser índio, a partir daí houve a dispersão​ ​desses​ ​índios,​ ​para​ ​sua​ ​própria​ ​proteção. Para que não ocorra ainda dificuldades de se entender quanto a questão do ‘ser índio’,

há toda uma moral que perpassa neste quesito, explica Pacheco: “(

basta ter descendência indígena nem ter carteira, é preciso também, como dizem, “passar no

para “ser índio” não

)

)

coador” (isto é, ter uma conduta moral e política julgada adequada (

1996)”.​​(1999,​​p.61).

).

(vide Brasileiro

Para o autor ainda, fala sobre a localização desses índios na história, e ao contrário de Viveiros diz que “Não podemos supor que aqueles índios que lidamos em nossas pesquisas sempre existiram e que são anteriores à constituição da nação brasileira, não podemos localizá-los perfeitamente no passado, há séculos de distância, mas ainda reconhecivelmente eles.” (PACHECO DE OLIVEIRA, 2003, p. 33). É certo que há uma incerteza quando seu lugar de índio, qual fora retirado dele há muitos anos, porém ainda sim há de se reconhecer sua​ ​identidade​ ​indígena​ ​passada. Os índios quando começam a reivindicar seu espaço de volta percebem que existe portanto uma série de empecilhos que dificultam a sua volta, portanto isto torna-se uma de suas principais demandas, as quais os antropólogos contatualistas como Pacheco, se identificam como profissionais para ajudar nesta causa, Viveiros de Castro (1999, p.165) entretanto​ ​tem​ ​um​ ​ponto​ ​de​ ​vista​ ​diferente​ ​desses​ ​antropólogos​ ​e​ ​comenta​ ​que:

Parafraseando a observação de Lévi-Strauss (1958: 17) sobre o funcionalismo: dizer que não há sociedade indígena fora de uma situação de contato com a sociedade nacional é um truísmo; dizer, porém, que tudo nessa sociedade se

explica pela situação de contato com a sociedade nacional é um absurdo. (

) Mas a

etnologia brasileira não precisa dessa última hipótese, a menos que sc contente em ser um ramo menor da sociologia política do Brasil. (VIVEIROS DE CASTRO,

1999,​​p.164).

estão-se nacionalizando os índios

para melhor se poder indigenizar os antropólogos nacionais (

essa carona nos problemas enfrentados pelos índios que a antropologia brasileira ("nos dois sentidos") vai resolver seu inexistente dilema.” vai além e comenta: “Com efeito, no caso dos índios no Brasil como em qualquer outro, o objeto da etnologia possui uma realidade bem maior que aquela projetada pelas fronteiras históricas, políticas e discursivas do mundo dos

brancos.”​​(1999,​​p.166).

Percebo que para este autor, a questão indígena específica do nordeste é deixada de lado a ponto de perceber os índios como apenas objetos de estudo, em que não se deve ocorrer interferência, tomemos como metáfora a premissa de “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Essa história retrata de como as pessoas devem manter-se a distância dos problemas de qualquer casal, na prática por exemplo, se você encontrar o marido batendo na mulher na rua o correto e indicado hoje é realizar uma denúncia ou algo do tipo, voltando e espelhando isso para o caso indígena, Viveiros de Castro não seria quem faz a denúncia e sim​ ​aquele​ ​que​ ​finge​ ​não​ ​ver,​ ​passa​ ​direto​ ​ou​ ​fica​ ​​ ​olhando. Ao contrário, Pacheco de Oliveira entra na briga, em busca de defender os índios do nordeste dos preconceitos acadêmicos e os apoia na luta por suas terras, comentando sobre a posição americanista: “Tudo levava a crer tratar-se, em definitivo, de um objeto de interesse residual, estiolado na contracorrente das problemáticas destacadas pelos americanistas europeus, e inteiramente deslocado dos grandes debates atuais da antropologia. Uma etnologia​ ​menor.”​ ​(PACHECO,​ ​1999,​ ​p.47). Para o autor, lidar com as questões indígenas do nordeste exige uma mudança na forma de lidar com a etnologia para que se consiga desenvolver um trabalho apropriado com esses índios; e acusa: “No contexto brasileiro tratar as culturas indígenas como bola de bilhar, homogêneas e autocontidas e distintas apenas por sua coloração e ordem de entrada no jogo (Wolf,​ ​1982)​ ​seria​ ​um​ ​equívoco.”​ ​(PACHECO,​ ​2003,​ ​p.​ ​41).

Mas não vai ser pegando

Viveiros de Castro (1999, p.174) ainda acusa: “(

)

).

Pacheco percebendo as ocorrências americanistas vindas com desconfiança à veracidade do ser índio nordestino, diz que existe “um desconforto dos antropólogos quanto às populações indígenas de baixa distintividade cultural preconceito esse enraizado nas construções de objetos teóricos e no estabelecimento de normatividades científicas.” (2003,

p.27).

Neste contexto, compreende-se a importância de estudar a situação desses índios de acordo com a demanda que se é especificada, a etnogênese vem com o propósito de preencher​ ​essa​ ​necessidade:

É por isso que o fato social que nos últimos vinte anos vem se impondo como característico do lado indígena do Nordeste é o chamado processo de etnogênese, abrangendo tanto a emergência de novas identidades como a reinvenção de etnias já

reconhecidas.(PACHECO,​​1999,​​p.53).

Com isso além de ajudar aquela comunidade, resultará também em produções significativas no âmbito dessa nova etnologia que cerca o nordeste: “É a partir de fatos de natureza política — demandas quanto à terra e assistência formuladas ao órgão indigenista — que os atuais povos indígenas do Nordeste são colocados como objeto de atenção para os antropólogos​ ​sediados​ ​nas​ ​universidades​ ​da​ ​região.”​ ​(PACHECO,​ ​1999,​ ​p.51). A etnologia clássica mantém-se em um viés de estudo que abrange o parentesco enquanto Pacheco escolheu como destaque de sua etnologia o território, Viveiros percebe e avalia: “Parece haver, entretanto, um discurso e uma prática do parentesco nas comunidades nordestinas (p. 61), mas infelizmente ficamos sabendo muito pouco sobre isso, porque na visão de Oliveira o território engloba o parentesco a ponto de eclipsá-lo.” (VIVEIROS, 1999,

p.197).

Para Pacheco no entanto, a questão do território é muito mais ampla e estende como uma das questões principais no âmbito indígena do nordeste, por exemplo, uma das primeiras coisas​ ​que​ ​o​ ​autor​ ​fala​ ​sobre​ ​a​ ​importante​ ​demanda​ ​do​ ​território​ ​é:

Se, na Amazônia, a mais grave ameaça é a invasão dos territórios indígenas e a degradação de seus recursos ambientais, no caso do Nordeste, o desafio à ação indigenista é restabelecer os territórios indígenas, promovendo a retirada dos não-índios das áreas indígenas, desnaturalizando a “mistura” como única via de

sobrevivência​​e​​cidadania.​​(PACHECO,​​1999,​​p.53).

Posteriormente, o autor ainda exemplifica o estudo da territorialização retomando um texto anterior construído por ele mesmo, destacando em 4 partes a necessidade desse processo​ ​para​ ​realizar​ ​uma​ ​etnologia​ ​dos​ ​índios​ ​do​ ​nordeste:

Como argumentei anteriormente (Oliveira 1993), “a atribuição a uma sociedade de uma base territorial fixa se constitui em um ponto-chave para a apreensão das mudanças por que ela passa, isso afetando profundamente o funcionamento das suas instituições e a significação de suas manifestações culturais”. Nesse sentido, a noção de territorialização é definida como um processo de reorganização social que implica: 1) a criação de uma nova unidade sociocultural mediante o estabelecimento de uma identidade étnica diferenciadora; 2) a constituição de mecanismos políticos especializados; 3) a redefinição do controle social sobre os recursos ambientais; 4) a reelaboração da cultura e da relação com o

passado.​​(PACHECO,​​1999,​​p.53/54).

Há problemáticas em torno dos antropólogos e do modo de fazer etnologia contatualista para Viveiros de Castro, que comenta: “O discurso etnológico sobre os índios foi, em vários momentos, um discurso feito de dentro do Estado, e para os ouvidos do Estado.” (1999, p.179). Com isso o autor enfatiza a diferença entre a etnologia tradicional e essa nova etnologia​ ​que​ ​serve​ ​e​ ​se​ ​debruça​ ​sobre​ ​às​ ​necessidades​ ​do​ ​Estado. Não obstante, o autor ainda discute com a produção liderada por J. Pacheco: “A vertente de estudos sobre terras e processos de contato desenvolveu uma filosofia de trabalho algo fechada, tendendo a julgar a maioria do que é feito fora de seu âmbito como estando

marcado​ ​por​ ​sérias​ ​deficiências​ ​teóricas​ ​e,​ ​pior,​ ​ético-políticas.”​ ​(1999,​ ​p.190). Em contrapartida, para Pacheco de Oliveira ressalta o que se deve esperar de um

transformando fatos

isolados e caóticos em ações significativas e em interpretações coerentes.” (2003, p.33). Com isso,​ ​adentra​ ​a​ ​perspectiva​ ​da​ ​história,​ ​o​ ​autor​ ​diz​ ​que​ ​aprendemos​ ​com​ ​outras​ ​correntes​ ​da

antropólogo “(

)

é algo radical e profundo: proceder como criador (

)

“Antropologia e Ciências Humanas se acreditamos que é mais fecundo

) se abordamos suas

instituições, construção de fronteiras como resultados de processos políticos

identitários ocorridos em uma situação de interação específica (

), se percebermos a

estudar as unidades sociais situando-as no tempo e história (

necessidade de uma análise dos fluxos culturais e das agências sociais (

devemos valorizar bastante as investigações atuais que se realizam em diversas

então

)

instituições de dentro e de fora da região sobre os chamados “índios (

misturados”​​(

).”​​(PACHECO,​​2003,​​p.27/28).

)

Pacheco (2003, p.43) ainda faz questão de explanar sobre seu método analítico que nada tem de fechado, que possibilita mudanças para melhor as comunidades indígenas e não para o Estado:

Para construir, por abstração analítica, uma cultura indígena é preciso partir

do que pensam, fazem e sentem seus portadores atuais. (

as manifestações simbólicas dos índios atuais estarão marcadas comumente por

diferentes tradições culturais (crenças não exclusivas podendo ser compartilhadas ou

Operadores externos são recriados e vem a ser fundamentais para a

não). (

É preciso entender que

)

)

preservação​​ou​​adaptação​​de​​uma​​organização​​social​​e​​um​​modo​​de​​vida​​indígena.

Na verdade, devemos entender que o Estado nessa perspectiva cumpre um papel de

burocracia, que não permite por livre vontade que àquelas comunidades se coloquem em seu

espaço de maneira tal como elas querem e portanto necessita de uma figura de autoridade que

coloque​ ​na​ ​mesa​ ​judicial​ ​por​ ​“A+B”​ ​que​ ​deve-se​ ​existir​ ​um​ ​lugar​ ​apropriado​ ​para​ ​os​ ​índios.

Pacheco ainda critica o método etnológico de Viveiros de Castro pelo desdém a essa

etnologia contatualista, que na verdade torna-se bastante diferente da clássica pois não

permite ser incoerente como comenta o autor: “As culturas nativas foram descritas por

antropólogos como fechadas e coerentes quase inteiramente virgens do contato com o

Ocidente,​ ​o​ ​que​ ​lhes​ ​permitia​ ​surfar​ ​sobre​ ​a​ ​contradição.”​ ​(2003,​ ​p.40).

BIBLIOGRAFIA

PACHECO DE OLIVEIRA, João. “Uma etnologia dos ‘índios misturados’? Situação colonial, territorialização e fluxos culturais”. In, A viagem da volta: etnicidade, política e reelaboração​ ​cultural​ ​no​ ​Nordeste​ ​indígena.​ ​Rio​ ​de​ ​Janeiro:​ ​Contra​ ​Capa.​ ​1999. “A problemática dos índios misturados e os limites dos estudos americanistas: um encontro entre antropologia e história”. In, Identidade, fragmentação e diversidade​ ​na​ ​América​ ​Latina.​ ​Recife:​ ​EdUFPE,​ ​2003. VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. “Etnologia Brasileira”. In Sérgio Miceli (org.), O que ler na ciência social brasileira (1970-1995) – Antropologia (Volume 1)”, São Paulo, Editora

Sumaré:​​Anpocs.​​1999.