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15/05/2015 06h36 ­ Atualizado em 15/05/2015 11h17

Novo cálculo da aposentadoria deve
ampliar rombo no INSS
Avaliação foi feita por especialistas. Governo ainda não se manifestou. 
 
Sem mudar fator previdenciário, déficit do INSS já iria a R$ 7 tri em 2060.
 

Alexandro Martello
Do G1, em Brasília FACEBOOK

Estimativas oficiais mostram que o déficit do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), deverá aumentar
substancialmente nos próximos 45 anos, mesmo sem as alterações no fator previdenciário, fórmula usada
para conceder aposentadorias, discutidas no Congresso. Caso elas entrem em vigor, a trajetória do rombo da
Previdência Social tende a ficar maior ainda, de acordo com especialistas consultados pelo G1.

DÉFICIT DA PREVIDÊNCIA Nesta semana, a Câmara dos Deputados aprovou uma
Em R$ trilhões Medida Provisória (MP 664) que, na prática, permite que
pessoas que começaram a trabalhar cedo consigam se
0,05
0,06 aposentar mais cedo também (entenda como funciona).
0,08
0,08
0,08
Para as contas públicas, isso significa mais despesas – e
0,09
2020 0,11 um rombo ainda maior no INSS no longo prazo.
0,12
0,13
0,15
0,17
0,19
0,21 Para que a MP tenha validade, os deputados ainda precisam
0,23
0,26 concluir a votação de outras sugestões de mudança. Após a
0,29
2030 0,33
0,37 aprovação da redação final, o texto seguirá para o Senado.
0,41
0,46
0,52
0,59 Por fim, ainda terá de ser sancionado pela presidente Dilma
0,66
0,74
0,83
Rousseff, que tem poder de veto.
0,93
2040 1,04
1,15
1,29
1,43
1,59
Segundo o projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO)
1,77
1,96
2,17
de 2016, enviado no mês passado pelo governo ao
2,4
2,66 Congresso Nacional, o déficit do INSS, estimado em R$
2050 2,93
3,23 66,7 bilhões para 2015, deverá avançar, mesmo sem a
3,55
3,9
4,28 mudança das regras do fator previdenciário, para R$ 1,04
4,69
5,12
5,59
6,1 trilhão em 2040 e para R$ 7,21 trilhões em 2060. Essa
6,63
2060 7,21 projeção foi feita pelos ministérios da Previdência Social, da
0 2,5 5 7,5 10 Fazenda e do Planejamento.
Fonte: Ministério do Planejamento
Neste ano, o déficit corresponderá a 1,14% do Produto
Interno Bruto (PIB). Em 2040, ele deve ser de 3,52% e em
2060, o equivalente a 9,24% do PIB, estimado em R$ 78 trilhões. O PIB é a soma de todos os bens e serviços
produzidos no país.

  Como foram feitas as previsões
Para se fazer a estimativa do déficit do INSS, o governo
informou que foram considerados queda do PIB de 0,9%
neste ano e altas de 1,3% em 2016, de 1,9% em 2017 e de
2,4% em 2018.

APOSENTADORIA E "A partir de 2019, a taxa de crescimento do PIB se iguala ao
REGRAS DO INSS crescimento da massa salarial determinada pelos modelos
Fator previdenciário, pensão, seguros... demográfico e do mercado de trabalho, explicado nas
seções anteriores. Além disso, também foi considerado um
como fica a aposentadoria crescimento da produtividade média de 2,5% ao ano",
informou o governo no exercício.

calculadora da aposentadoria As projeções de despesa foram realizadas considerando os
efeitos da Medida Provisória 664 que alteraram as regras de
o que muda nos benefícios concessão de pensões por morte e de auxílio­doença, mas
não as mudanças do fator previdenciário – aprovadas na
mesma MP.
perguntas e respostas

rombo do inss

0:00

"Como a Medida Provisória ainda está em discussão no Congresso Nacional, qualquer alteração nas regras
nela estabelecidas alterarão os resultados das projeções aqui apresentadas", acrescentou.

Analistas calculam impacto
Ouvidos pelo G1, economistas que trabalham com as contas públicas avaliaram que as mudanças, se
confirmadas pelo Congresso Nacional, teriam efeito negativo no crescente déficit da Previdência Social – com
impacto potencial de 0,5 ponto a 1 ponto percentual do PIB em 2040 – e também enviaria sinalizações negativas
para investidores e agências de classificação de risco sobre a sustentabilidade do sistema previdenciário
brasileiro.

"Isso é mais lenha na fogueira de uma trajetória do crescimento do gasto do INSS que já não é sustentável,
dada essa mudança demográfica em curso. Para as próximas duas décadas e meia, já é uma trajetória que não
é sustentável. No curto prazo [próximos anos], o efeito é positivo porque várias pessoas vão adiar a
aposentadoria para se adequar à regra", avaliou o economista Mansueto Almeida – que calculou um impacto de
alta do déficit do INSS de 0,8 ponto a 1 ponto percentual do PIB em 2040 com as alterações no fator
previdenciário.

Para ele, essa mudança no fator previdenciário
englobaria 30% dos trabalhadores – aqueles que se
aposentam por tempo de contribuição. "Já gastamos
atualmente 13% do PIB com os sistemas público e
privado de previdência, e também com a Loas [Lei
Orgânica de Assistência Social]. É o que gasta um país
que tem a proporção de pessoas com mais de 60 anos
que é o triplo da nossa", disse Mansueto.

Para o economista, o Brasil estaria indo, com esta
0:00
mudança, na direção contrária de vários países do
mundo, que estão endurecendo suas regras para
promover uma maior sustentabilidade do sistema
previdenciário. "No médio e longo prazos, isso só se sustenta com mais carga tributária [aumento de tributos]. E
a carga já é alta no Brasil. A sinalização não é boa", afirmou.

Para Raul Velloso, economista que foca sua análise em contas públicas, o efeito da mudança seria de 0,5 ponto
percentual do PIB em 2040. "O pior não é tanto o impacto financeiro, mas é porque mutila aquela que foi a
principal mudança nas últimas reformas que fizemos, que foi a introdução do fator previdenciário. Mutilou o fator.
É mais um efeito sobre o sistema", declarou ele. 

De acordo com Velloso, os gastos com previdência e assistência social dobrariam em 50 anos mesmo sem as
alterações do fator previdenciário, na porcentagem com o PIB. Passariam de 11% do PIB para 22% do PIB. "Se
tiver um impacto a mais [por conta da alteração das regras do fator previdenciário], torna menos sustentável
ainda", avaliou ele.

Equipe econômica não se pronuncia
O G1 entrou em contato com os ministérios da Previdência, da Fazenda e do Planejamento para saber se a
equipe econômica vai endossar as alterações feitas pela Câmara dos Deputados e qual seria o seu impacto nas
contas públicas.

Entretanto, até a última atualização desta reportagem, somente o Ministério da Previdência havia enviado
resposta. Ele se limitou, porém, a informar que só irá se pronunciar ao fim da tramitação do projeto no
Congresso Nacional.

Alterações no fator aprovadas pela Câmara
Atualmente, o fator previdenciário reduz o valor do benefício de quem se aposenta por tempo de contribuição
antes de atingir 65 anos (nos casos de homens) ou 60 (mulheres). O tempo mínimo de contribuição para
aposentadoria é de 35 anos para homens e de 30 para mulheres.

A alteração aprovada propõe a chamada fórmula 85/95, pela qual o trabalhador se aposenta com proventos
integrais (com base no teto da Previdência, atualmente R$ 4.663,75) se a soma da idade e do tempo de
contribuição resultar 85 (mulheres) ou 95 (homens).

Por exemplo, uma mulher de 47 anos de idade, que completou 30 anos de contribuição, ao se aposentar pela
regra atual teria uma redução de quase 50% no valor da sua aposentadoria. Para conseguir 100% do valor, ela
teria que trabalhar pelo menos mais 12 anos.

Se a regra aprovada pela Câmara entrar em vigor, ela teria que trabalhar mais 4 anos para ter direito a 100% do
benefício, quando a soma da sua idade (51) mais seu tempo de contribuição (34) alcançar os 85.