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Motriz, Rio Claro, v.17 n.4, p.728-737, out./dez.

2011

Artigo Original

O corpo, o desenvolvimento humano e as tecnologias


Afonso Antônio Machado 1
Marcelo Callegari Zanetti 1, 2
Altair Moioli 1, 3
1
Instituto de Biociências. UNESP - Universidade Estadual Paulista, Campus de Rio
Claro, Departamento de Educação Física, Laboratório Estudos e Pesquisas em
Psicologia do Esporte (LEPESPE), Rio Claro, SP, Brasil
2
Curso de Educação Física, UNIP, Campus São José do Rio Pardo, SP, Brasil
3
Curso de Educação Física, UNIP, Campus JK, São José do Rio Preto, SP, Brasil

Resumo: Estudar e analisar as relações entre corpo, desenvolvimento humano e tecnologias é objetivo
deste trabalho. O avanço das tecnologias e as relações humanas sofrem mudanças nas sociedades atuais
e estas alterações podem ser percebidas em todos os ambientes. Verifica-se que o ambiente escolar e a
educação física escolar passa por transformações tecnológicas e seus professores tentam realizar ações
que validem seus princípios. O estudo usa o MSN para coletar os dados aqui analisados.
Palavras-chaves: Corpo. Desenvolvimento humano. Tecnologia. Relações humanas.

Body human development and technologies


Abstract: The aim of this work is to study and analyze the relationships among body, technology and human
development. Technological advances and human relations are going through changes in contemporary
societies and these changes can be noticed in all environments. It seems that the school environment and
the physical education are passing through technological changes and their teachers try to perform actions
that validate its principles. This study has used MSN to collect the analyzed data.
Keywords: Body. Human development. Technology. Human relations.

Introdução capaz de ser mais competente e funcional que


Diante dos avanços das tecnologias e das nosso antigo corpo biológico. Poderemos superar
buscas incessantes por corpos perfeitos, todas nossas marcas e ir muito além da restrição
transformados e adaptáveis, o que esperamos do atual de cem trilhões de sinapses no cérebro:
nosso futuro próximo? O que poderemos esperar sabemos que o raciocínio biológico é estacionário
de nossos corpos? Seremos, no futuro imediato, e estimado em 1026 operações por segundo.
apenas sofisticados e adaptáveis avatares? Então, essa quantidade, determinada
Ciborgs? Robôs? Matrix poderá surgir como uma biologicamente, não aumentará; no entanto, a
hipótese viável? Teremos corpos híbridos entre o inteligência não biológica cresce
biológico e o artificial ou entre a máquina e a exponencialmente e nos fará melhor dotado desta
humanidade? Viveremos adaptados e capacitação, seremos razoavelmente mais
confortáveis num mundo das máquinas capacitados.
inteligentes e mirabolantes? Também Minsky (apud Le BRETON, 2003)
Enfim: o que esperar do corpo do homem do indica seu desprezo pelo corpo biológico ao
futuro? Se, por um lado, o destino do dualismo sugerir uma data para o teletransporte do espírito
platônico instalado nos leva a desdenhar ou ao computador. Outra fantasiosa idéia, de Stelarc,
duvidar da capacitação de nosso corpo em busca o artista plástico da Body Art, aquele que
de um mundo imaterial, fantasioso e perfeito, o implantou uma mão robótica em seu abdomem e,
mundo das idéias, por outro lado, na perspectiva com isso, quis validar seus postulados em relação
da tecnologia e da inteligência artificial, da à obsolescência do corpo biológico, afirma que
nanotecnologia e do ciberespaço, tanto simplesmente o corpo humano criou um ambiente
propagado por parte de cientistas, engenheiros, de informação e tecnologia, sobre o qual mal tem
filósofos e artistas da cibernética, tem como meta o controle e não mais consegue lidar.
(ou sonho) promover o transporte de nosso Esse impulso vertiginoso para acumular de
espírito para uma máquina superior. forma contínua e progressiva mais e mais
Analisando assim, num exercício de informação estabelece uma situação na qual a
futurologia seria como escanear nosso espírito capacidade do córtex humana simplesmente não
para uma outra dimensão: do corpo-máquina consegue absorver e diagnosticar de forma
sofisticado e preciso (ou precioso, virtuoso) e criativa todos os elementos processados. Foi
O corpo, o desenvolvimento humano e as tecnologias

necessário, então, de maneira alternativa, criar com a velocidade dos computadores enormes
tecnologia para realizar o trabalho que o corpo dos grandes centros de pesquisas, a geração da
não mais consegue desempenhar: desenvolveu- década de 80 viu surgir o walkman, os videotextos
se uma tecnologia que supere em muito algumas e os jogos eletrônicos. A geração de 90 tem
capacidades dele mesmo; desta maneira familiaridade com as multimídias, a realidade
podemos dizer que a única estratégia virtual, as redes de comunicações sociais e a
evolucionista que se vê, impressionantemente, foi geração X, do caos, está totalmente absorvida
(...) incorporar a tecnologia ao corpo (...). pela sociedade da simulação, “brincando” de
Diante de tal criação, temos a tecnologia transformar, de colar, de efetuar zappings, com
ligada simbioticamente e implantada no corpo, imagens, formatando corpos e mais corpos,
elaborando uma síntese evolucionária, que passa inclusive os seus próprios corpos. Como decifrar
a engendrar um híbrido humano: o orgânico e o tais (des)caminhos? Como entender cada passo
sintético se unindo para criar um novo tipo de desta complexa evolução?
energia evolucionária (BOURDON, 2009). David
Body arte ou Corpo-tela
Le Breton (2003) refere-se a outro especialista em
robótica, Hans Moravec, para quem o Atualmente, de uma maneira geral, podemos
desenvolvimento da máquina passa a ser a única dizer que a pele ocupa o lugar de uma roupa,
chance de salvação da humanidade. tantas são as inovações e marcas que
percebemos nos corpos esculpidos. As diferentes
Paradoxalmente notamos que o tempo, o zelo
formas de se modificar e se marcar fazem com
e a energia dedicados à aquisição, ao
que os corpos humanos estejam em constante
desenvolvimento e à difusão das idéias ainda
transformação e manipulação: as marcas com
contrastam com os esforços dedicados à
fogo, as penetrações (do piercing às tatoos), as
manutenção de nossos corpos e à produção de
escarificações e implantes metamorfoseiam o
uma nova geração de humanos (ou humanóides)
corpo em pergaminho ou objeto de arte.(MUSEÉS
(THOMPSON, 2003). Resta, então, uma
DE MARSEILLE, 1994).
pergunta: qual será a função do profissional da
Educação Física, nessa temporada a vir, diante Para os iniciados nesta arte, a questão
de nossos olhos? Nossas indagações, por meio perpassa pela inscrição na pele para gravar na
de redes de comunicação e análise de discurso memória; vale lembrar que o filme “Amnésia” nos
oferecem pistas que merecem olhares aguçados reporta a situações desta natureza, quando as
e astutos para a compreensão deste novo marcas falavam para além das imaginações
momento que se nos aproxima a passos largos. realistas ou fantasiosas dos personagens. Esta
idéia sempre perseguiu o homem, que busca criar
Fundamentação teórica e recriar sobre o corpo, num ato para imortalizar
A crescente disposição humana em se sua mensagem e sua fala.
autotransformar resulta num fenômeno que, Esta “nova arte velha” nos remete à uma
embora constante na História da Humanidade, época em que se cultua o corpo, com alguns
traz resquícios de crueldade própria da sociedade padrões de modernidade, quando isso é muito
contemporânea. A construção do corpo atende ao antigo: não é de hoje que o corpo é modificado, é
desejo de quem o possui, buscando uma embelezado, é transformado. A História nos
individualidade e uma possibilidade de conduz ao Egito antigo, com a pinturas à ouro e
engajamento numa comunidade de iguais. No lapilazuli direto na pele, enaltecendo valorizando e
entanto, sendo esta situação algo possível ou posicionando cada um dos personagens
impossível, o que interessa é comunicar a adornados. Escarificações são marcas
transformação corporal, seja lá de que forma isso encontradas em civilizações primitivas, como
vier a acontecer. demonstração de poder e status social,
Com o advento da informática, como uma diferenciando o homem comum do abastado;
mídia fugaz, temos um pipocar de informações e tatuagens, marcas, e demais sinais são sintomas
de transformações corporais que saem das sazonais de uma cultura corporal desta “nova arte
feições cirúrgicas para as feições estéticas, dos velha”.
acidentes mutiladores às mutilações artísticas, O que trazemos de atual na situação é que a
sempre emoldurando um happening considerado modelagem corporal se faz por meio de dietas,
atual, pós-moderno, contemporâneo, com poucas cirurgias plásticas e musculação, no entanto, o
análises por parte daqueles que trabalham com que temos de conservador é a tendência de
estes corpos, em qualquer de seus formatos. modificação, mostrando o homem recriando o
Gerações demonstram como os avanços são corpo, tornando-o um modelo comunicacional
substanciosos: a geração de 70 se surpreende artístico, de modo a expressar um estilo de vida

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contemporâneo. Isso é uma característica “com a alma”, por meio das meditações, ioga, tai
atemporal. chi, chás, massagens.
Numa reflexão mais apurada podemos garantir Estes dois últimos segmentos de leituras
que nunca se discutiu e analisou tanto o corpo corporais nos oferecem um atalho: as cirurgias
humano, como nesses tempos. Também, reparadoras. Aqui estão os transplantes de
podemos dizer que não seria sem razão, visto os órgãos, os reparos da face, as próteses e orteses
inúmeros acontecimentos que nos levam a uma em peças gastas e pouco-funcionais. As
total dessensibilização frente ao suporte substituições ou implantes de peças que
comunicacional que dispomos e pouco nos garantam uma melhor qualidade de vida, no
atentamos. São poucos os momentos em que discurso atual. Olhando por este caleidoscópio,
estamos plugados nas evoluções e tudo o que se vê, ainda, é o corpo. Apenas o
demonstrações corporais, de modo a valorizar corpo, somente o bom e velho corpo.(SAHLINS,
apenas superficialmente o sacrário de nossa vida. 2008)
Os corpos modificados, sejam intencional ou Qualquer que seja o olhar, o certo é que todos
não, por modismo, por cirurgias, por deformações terão acolhidas pelo fato de serem mediados por
acidentais, voluntária ou involuntariamente, estão uma tecnologia de difusão constante e fortemente
presentes em nossos contextos urbanos e em enraizada, em todos os segmentos sociais. O
nossos contextos distantes da modernidade. Isso processo de urbanização e de
é um fato a ser analisado pela Antropologia, numa contemporaneidade é suficiente para expandir os
busca do elo perdido que apontará porque tal horizontes e facilitar a veiculação das notícias, de
fenômeno é atemporal. modo a atingirmos populações distantes e
E temos todas as possibilidades de desconhecidas, facilitando uma globalização
demonstração: banalizam o corpo quando ele fica glamorosa do corpo. Ainda que não de um corpo
exposto aos massacres, às guerras e acidentes adequado àquele espaço e àquele homem,
de transito ou profissional, atentados terroristas e naquele espaço e naquele tempo. O que vale é a
assassinatos. Estas situações, em especial, expansão da notícia e da idéia, o corpo será
exploram com voracidade a carne desfeita, apenas um suporte.
estraçalhada, coisificada mas que resulta em A questão está na análise deste fato: as
fonte de mercado midiatizado: a notícia e a imagens são muito fortes e no contexto midiático
imagem vendem muito. E a curiosidade, imprimem uma força e ritmo próprios da
perversão e masoquismo se excitam para construção cultural a que se está pretendendo; as
“possuir”, para gravar a imagem dos pedaços de marcas e impressões já não se bastam nos
carne. Do corpo mutilado. Sem atentar para o tecidos e roupagens, elas ficam melhor na própria
personagem que habitava aquele corpo. pele, na carne. Tudo pode acontecer e tudo está
Numa outra instancia temos a valorização valendo desde que aja um processo de
excessiva ao corpo, quando observamos as informação; na verdade, informar é o que basta
propagandas de produtos entregues ao (KOLLOCK, 2009).
consumismo, sejam estes quais forem: do cigarro O ser humano de nosso tempo, na pós-
aos carros, do celular aos óculos de sol, da modernidade, é alguém sedento da necessidade
maquiagem ao sapato, enfim...tudo onde possa de ser desejado. Para tanto, o conceito de
existir um corpo como suporte. Um suporte comunidade vem se ampliando e sendo aplicado,
vigoroso, delicioso, esculpido e glamoroso. mais e mais, de modo a termos uma busca pela
Percebe-se que não serve qualquer corpo: existe unicidade do feito, da transformação: os tatuados,
um perfil definido do corpo que será o estimulador os escarificados, os marcados, os atropelados, os
da venda, de modo tal que...se eu usar este implantados, os siliconados. Esta identidade
produto terei um corpo como este...se eu tenho intencional ou espontânea resolve o fugaz
um corpo como este, devo usar este problema da temporalidade: comunica qual arte
produto...(MITSCHERLICH, 1999). cada um deste manifesta em seu corpo.
Dentro desta ultima corrente, vemos ainda a Numa visão voltada ao acervo sócio-cultural é
valorização de um corpo rejuvenescido, preciso compreender que a tecnologia faz parte
reeducado por meio de dietas, exercícios, da cultura humana e não é mais possível
suplementos vitamínicos e dietas da moda, acreditar no homem sem uma dimensão da
cirurgias plásticas, implantes de silicone e tecnicidade: ela está presente em cada canto, em
modelagens. Somam-se a estes aplicativos os cada ato, em cada vontade. Formamos, desta
bronzeamentos artificiais, as maquiagens maneira, um ecossistema complexo de modo que
definitivas, os implantes de cabelos e os cuidados a técnica transforma a vida e a vida, eternamente,
transformará a técnica. A dinâmica social nos leva
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O corpo, o desenvolvimento humano e as tecnologias

a buscar sempre novas perspectivas de uma bola. É a demonstração de avanço científico


pensarmos o ciberespaço e a cibercultura, em incomensurável da Neurociência....total domínio
especial quando pensamos no corpo do homem sobre o corpo e seus movimentos.
contemporâneo. Mas e o homem-máquina? Que idéia ainda
temos dele? Seremos todos ciborgs ou robôs que
O homem-robo
poderão ser remontados a cada avaria, sempre?
Numa outra margem histórica, temos outros Estamos próximo de uma imortalidade corporal,
olhares e outras formas. A cibernética com seus com tamanho avanço tecnológico e científico?
tentáculos miraculosos e inovadores passa a dar Nossas idéias captam todas estas informações e
novas formas ao velho e conhecido “corpo processam adequadamente cada uma destas
normal”; são conhecidos casos de pernas e transformações?
braços implantados, redefinindo os movimentos e
Vemos que hoje a sociedade não precisa
a comunicação do homem com os seus
manter seu corpo, tal como lhe foi dado
companheiros. A pele artificial cobre grandes
naturalmente; cada um pode fazer do corpo aquilo
extensões corporais, dando nova textura e
que a sociedade quer que seja feito, quanto mais
aparência ao rosto mutilado; próteses oculares
atender aos modelos sociais vigentes, mais perto
são corriqueiras e causam pouca surpresa. Enfim,
do sucesso e fortalecido este corpo estará
a transmutação começa a se manifestar no corpo
(BORDO, 1998). No momento atual é impensável
humano, sem que seja mais novidade ou mais
aceitar o envelhecimento como algo natural; para
estranheza... É o diferente. Apenas o diferente.
isso temos uma corrida obstinada às terapias e
Longe está o tempo em que nos cirurgias que alteram o corpo sem alterar o
surpreendíamos com transplantes cardíacos ou contexto corporal. Rejuvenescer é para todos: dos
pernas mecânicas. Implantes capilar e dentário, 8 aos 88 anos, com procedimentos cada vez mais
fígado, pulmão, traqueia...e parte a parte, o corpo sofisticados e invasivos, mas fascinantes por
vem ganhando uma repaginação digna dos serem parte do belo e do aceitável. Este é o
melhores filmes de ficção científica: tudo de padrão.
transmuta, com a sutileza de um artista no
O fato do corpo vir a se transformar no local,
momento da criação.
por excelência. para a fabricação da subjetividade
Esquecemos, assim, as diferenças e e da identidade da pessoa (SANT´ANNA, 1995)
precauções que tínhamos com os andróides e causa certa preocupação com as questões da
com as montagens fantasmagóricas que moda: com pessoas tão parecidas, como lidar
laboratórios e clínicas pudessem nos propor, para com a identidade? E com pessoas tão
assumirmos o novo, o atual. O estreitamento na (des)construídas, como lidar com a subjetividade?
relação homem-máquina, que tanto assustava, Como entender o raciocínio de um transplantado,
mal deu seus primeiros passos e já causa efeito que carrega meio fígado de outro? Ou daquela
assombroso e vertiginoso. Alguns dos atuais traquéia sintética que fora utilizada recentemente?
estudiosos das Ciências Humanas chegam a Como entendemos tais perspectivas e como
arriscar que o homem, no início do século XXI já avaliamos cada uma delas? Quem nos proporá o
é mais máquina do que homem (PUTNAM, 2006; inicio destes estudos?
FREEMAN, 2009).
Quando pensamos na interação homem-
O mapeamento genético, a alteração máquina e na internet, logo passa-nos pela
cromossômica, a medicina e as ciber-cirurgias cabeça a questão da fluidez no meio e da maneira
ainda atraem atenção dos mais arredios aos como as informações serão veiculadas e
invencionismos da época, mas são aceitos na interpretadas. Aqui vale dizer que o ciberespaço
medida em que tais intervenções passam a foi habitado por identidades múltiplas, por
rondar o espaço corporal próprio. Desta maneira, “personas possíveis” distribuídas em diversos
esta valendo tudo, desde que se cure, desde que setores de quase-realidades, nas palavras de
se salve. E os médicos, os engenheiros da Turner (2003). Tanto os avatares criados como os
computação estão unidos para mais um passo, nicknames dão voz às mais variadas fontes de
sempre que algo novo surge para complicar os auto-reconhecimento e pertença: em cada
difíceis meandros corporais. ambiente que os avatares e os nicknames
Hoje, a neurociência brasileira é uma das mais adentram, cria-se uma nova perspectiva de
avançadas ciências, de maneira tal a exportar relação, da fonte real à fonte criada, com mais ou
seus estudos e inventos. Curioso é a situação de menos requinte, com mais ou menos verdade,
se pretender fazer a abertura da Copa do Mundo, mas uma perspectiva de relação que cresce e se
no Brasil, com um garoto tetraplégico chutando sedimenta num espaço sócio-cultural.

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Nessa relação, ainda que fantasiosa (ou virtual necessário que tenhamos claro que as
como merece ser denominada) firmam-se transformações tecnológicas atuais tiveram seu
contratos com demais ocupantes e a início centrado na eletricidade e no amplo
cibersociedade se estabelece com as regras ali processo de alteração da percepção e uso dos
instaladas e pouco comuns deixando a entender nossos sentido, que desde o inicio incentiva-
que todas as relações sejam possíveis e que acredita- amedronta-se- busca à relação homem-
quaisquer tipos de personagens têm significado _ máquina.
já que estamos no virtual e que isto realmente Com o crescente empenho de pesquisadores,
tem significado (WALLACE, 2009). Percebemos, estabelecemos um campo denominado
aqui, tratar-se da irrupção dos meios de massa no psicotecnologia, que passa a ser uma categoria
cenário da comunicação, que de certa forma para pensarmos o real significado das
altera a estrutura dialógica própria da interação intervenções e interações tecnológicas e a
face a face. interferência midiática nas áreas de
Indo mais longe, temos que todo o diálogo conhecimento, que nos permite analisar as
estabelecido nas novas mídias, quando realizado transformações culturais da nossa época, diante
por meio de avatares, “personas outras”, da expansão das novas formas de culturas
representa um verdadeiro desafio ao midiáticas e das criações e alterações
monologismo da interação mediada, uma vez que tecnossensoriais nascidas com a eletricidade
é caracterizado pela simulação e pela busca de (KERCKHOVE, 2011).
pertenças sócio-culturais elaboradas na No Brasil, como no restante do Mundo,
virtualidade, não valendo regras nem limites da ampliam-se cada vez mais os estudos e projetos
realidade. de pesquisas a respeito dos paradigmas
O homem-robo se prende a uma simulação interpretativos voltados às mídias e à cultura de
real, em que exerce a função dupla de criador e massa. Isso permite que cada estudo e análise
criatura, mas que deve obedecer aos princípios objetiva e inédita crie lacunas para novas
do jogo estabelecido, caso queira chegar ao final categorias interpretativas específicas, visto o fato
de seu caminho. Em suas andanças deve de estarmos diante do novo, que se transforma
estabelecer parâmetros ideais para seu diante do contexto inusitado em que é
desenvolvimento e sua perfeita adaptação, experienciado.
enquanto homem e enquanto máquina, Para tanto, já não basta um modelo
respeitando limites de um e de outra, numa paradigmático de um bloco cientifico, mas uma
perfeita interação...caso contrário, na linguagem estrutura interdisciplinar, em que se cruze
da segunda (da máquina) teremos aquilo que elemento referencial e fronteiriço de cada
verificamos em jogos eletrônicos: game abordagem. O mesmo se passa com relação aos
over...tirando o homem do cenário e mantendo a métodos de pesquisas, que devem passar a
máquina como única vencedora. Triste fim do adotar vieses múltiplos e segmentares para o
homem-máquina que não se apercebe de seu entendimento do todo, do homem-máquina, que
espaço e dimensões. já não é mais o homem, nem a máquina, é a
simbiose estabelecida e confirmada. Há que se
Tendências em tecno-humanidades
entender dos dois, para o entendimento
Analisar a cibercultura remete-nos a refletir contextual.
sobre as atitudes sociais de apropriação criativa
Neste sentido, resta-nos propor que está
das novas tecnologias, segundo Lemos (2011). E
estabelecido um roteiro interdisciplinar para que
os exemplos são claros, quando nos vemos
novos caminhos investigativos sejam percorridos.
diante da febre dos jogos eletrônicos, as redes
E neste novo trajeto, como é de se supor, a
sociais, as reuniões e interações por
análise interdisciplinar pressupõe significados e
videoconferências, o erotismo descomunal do
interpretações que tocam inevitavelmente todas
cibersexo, a fugacidade das manchetes
as áreas e setores do conhecimento e do social.
jornalísticas e os contatos intercontinentais em
Parece ser assim que segue o desenvolvimento
tempo real. Assim, fica difícil não perceber que a
humano e tecnológico do novo tempo.
tecnologia torna-se uma ferramenta de conquista
do mundo e de uma nova formação sócio-cultural; Significa dizer que o entendimento dos corpos
é uma tendência revolucionaria na vida cotidiana. mutilados, facetados, tatuados, escarificados,
queimados, enxertados, transformados nunca
Tentando sair das análises mais superficiais e
será pleno se não acompanhar os
dos diálogos fáceis, vamos em direção a
encaminhamentos destas transformações, nem a
questões norteadoras (ou desnorteadoras) de
época em que elas ocorreram, nem as técnicas
novos campos de atuação ou estudos. Assim, é
ali adotadas, nem os objetivos da ação, nem as
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O corpo, o desenvolvimento humano e as tecnologias

sensações prévias- do momento- póstumas da tecnologias em nosso corpo, de modo a garantir


transformação realizada. Numa leitura melhor qualidade de vida e aproveitamento das
antropológica, os sentidos e os significados capacitações humanas. Mas, também se faz
apenas serão conhecidos se analisados neste viável o desenvolvimento de uma tecnopsicologia:
seu conjunto, ai expresso (RANDOM, 2010). Aqui nossa realidade psicológica depende de nosso
reside parte de nossa inquietação: qual formação contexto, do qual fazem parte as extensões
universitária ou técnica nos permite tamanho tecnológicas que nos afetam. O entendimento
leque de compreensões? deste ambiente, com seus micro, meso e macro
O que de fato sabemos é que quando as sistemas favorecerão nossa integração e
tecnologias de consumo são finalmente associação ao mundo, de modo a garantir a tão
integradas em nossa rotina diária pode acontecer propagada qualidade de vida (MININNI, 2010).
de sermos acometidos por uma obsessão Na mesma linha de pensamento temos que a
fetichista, fenômeno denominado por Gendlin relação homem-máquina deva ser entendida de
(2009) de “narcose de Narciso”. O que de maneira não invasiva: quando assisto a um
verdade acontece é que pretendemos que nossas programa de televisão, ouço uma notícia ou
máquinas sejam superiores ao que realmente interajo por meio de alguma das novas mídias,
são, que executem muito além do que estão estou a procura de que? Sou apenas alguém
preparadas para executar. O mesmo pensamento procurando me atualizar e entender meu mundo
se dá diante de nosso corpo, que está sempre ou estou permitindo que me conduzam por
trabalhando para além de seu limite e de seu caminhos e atalhos exteriores às minhas
propósito de criação. convicções? Estou sempre partilhando
Com a idéia de romper limites, já assertivamente das escolhas ou estou sendo
ultrapassamos vários deles em busca de um novo levado à causas conflitantes em minha liberdade
teto para ancorar, mesmo que provisoriamente. E de escolha?
esta proposta evolucionista reforça nossa narcose A civilização ocidental tem primado pela
de Narciso, transformando-nos em fugazes inclusão de negros, homossexuais, mulheres,
especuladores de nossos limites e chances de natureza, num processo crescente e fantasioso. O
superação, ainda que tenhamos que turbinar dualismo encontra-se presente em cada uma
nossos corpos com novos incrementos destas ações, que entende o “normal” e o “não-
tecnológicos. normal”, em cada um dos lados da balança. O
Vale a pena desenvolver melhor este conceito: mesmo se passa com o corpo híbrido, os
ao adquirirmos um aparelho telefônico celular perfeitos ciborgs que circulam em nossos
com infinitos recursos e, realmente, ambientes profissionais, sociais, culturais,
necessitarmos de apenas uma ou duas das familiares enfim. Apesar da cibercultura
funções nele contidas, não nos sentiríamos à contemporânea desenvolver protótipos ao ponto
vontade por termos um aparelho menos inovador: de não sabermos onde acaba o homem e começa
isso seria limitador e desatualizado. O fetiche a máquina, os homens deste tempo separam os
ostentatório garante a necessidade consumista do homens dos homens-transformados.
aparelho; mesmo que eu nunca vá utilizar É importante percebermos que, de Gisele
nenhuma das funções possíveis, além daquelas Bündchen a Toni Garrido, da criança em cadeira
duas que necessito. de rodas a um adolescente em hemodiálise, do
Este exemplo nos favorece a interpretação corpo tatuado aos olhos aguçados do aeronauta,
necessária para nossas pendências estamos diante de um mesmo processo: a
tecnohumanistas: nem sempre nossa realização ciborização da cultura contemporânea (LEMOS,
humana depende do avanço tecnológico, mas 2011). O conjunto de equipamentos para
necessitamos de seu anteparo para conviver na disponibilizar as imagens, a iluminação e
cibersociedade, conforme informa Schwartz, em sonorização das passarelas, a gravação da voz, a
2007. O tecnofetichismo que se instala é adaptação do tamanho das rodas, a dosagem dos
suficiente para entendermos que fica cada vez fármacos, a textura das marcas corporais e a
mais distante a compreensão do homem, de seu amplitude visual são ferramentas da vida
corpo e de seu desenvolvimento, sem estar aliado cotidiana, com uma tecnologia presente como a
ou transformado pela tecnologia. colonizar nossos corpos.

É entendido que uma aproximação saudável, Podemos falar numa relação íntima entre o
não patológica, possa ser aceita e incentivada. É corpo e o eletrônico ou tecnológico; numa
viável a integração com dispositivos tecnológicos construção sincrônica e pontual. Isso nos leva a
usuais ou é possível a utilização de aprimoradas pensar como a cultura e a natureza só podem ser
analisadas e compreendidas em relação: elas não

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existem como elementos puros. Daí a relação detalhamentos éticos a que o trabalho está
homem-máquina está presente desde a submetido.
instituição das primeiras sociedades, dando A entrevista acontecia no ambiente virtual por
chances ao homem de construir a cultura, de meio do MSN (Messenger – programa de
elevar-se acima da natureza e da tecnologia, nos comunicação mediada por computador que
dizeres de Goffman (2003). permite a interação em tempo real (comunicação
Esta reflexão serve para direcionar, também, síncrona) entre diferentes pessoas), onde é
nosso atalho, nesta pesquisa: e este corpo que ai possível captar a imagem e o áudio, o que
está posto, converge ou conflita com meus ideais facilitou a captação das inflexões orais e gestuais,
de pertença, de escolha e de vulnerabilidade no momento das respostas. Para dar andamento
humana? Ao tomarmos contato com notícias do ao trabalho, algumas questões foram
tipo “Adolescente desmaia depois de jogar em desprezadas, de modo a nos atermos com maior
rede por 18 horas seguidas” ou “Realizada com riqueza de detalhes, diante daquilo que soou
sucesso cirurgia por videoconferência” estamos como mais provocativo.
diante de fatos que denotam a interação homem- Sobre a proposta de garantir veracidade e
máquina, ainda que careça de maiores adequação às respostas, estudioso da
significados (BOURDON, 2009). Porém, todos netnografia (KOZINETS, 1998; AGUIAR, 2007)
estamos preparados para estas vivencias? são unanimes em apontar que os problemas são
os mesmo no virtual e real, uma vez que não se
Procedimentos metodológicos
dispõe de meios eficientes e eficazes para
Com o intuito de identificar as percepções, constatação do inadequado, no entanto, no
experiências e reflexões sobre o corpo de seus virtual, ainda se pode lançar mão de mais
alunos, esta pesquisa teve por objetivo investigar recursos, mais tecnologias, que tentam cercar o
a percepção dos profissionais de Educação Física objeto de estudo com mais precisão e astúcia, ao
sobre os corpos mudados, os corpos ponto de diminuir as possibilidades de enganos.
transformados, alem de indagar sobre
Na verdade, quando indagados sobre seus
possibilidades de trabalho com estes novos-
trabalhos diante de alunos ou clientes marcados
velhos corpos.
ou com corpos modificados, a primeira vista, as
Adotamos como método do estudo, a pesquisa respostas sempre recaiam nos atletas
qualitativa com aplicação da Psicologia musculosos, vigoréxicos ou tatuados, mas isso
Fenomenológica, para a investigação, com o não pareceu novidade na área. Ao recolocar a
interesse de elucidação do vivido baseada na questão e levar a pensar sobre o fato de trabalhar
consideração de experiências concretas e com pessoas implantadas, transplantadas ou
situadas, conduzindo a uma compreensão teórica marcadas de maneira voluntária (tatoo,
que possibilite lidar melhor com o fenômeno escarificação, cortes, queimaduras) a resposta
(AMATUZZI, 2009). sempre causava um momento maior de reflexão e
Para atender o objetivo da pesquisa buscamos certo cuidado na expressão da análise.
cobrir as diversas camadas que poderiam Dos entrevistados, nenhum demonstrou
contribuir para a investigação do cenário naturalidade ou assertividade no trabalho com o
proposto. Desta forma, os sujeitos que diferente. A demonstração de preocupação e
participaram do estudo são formados em cuidado foi algo comum entre 68% dos
Educação Física que atuam nos mais variados e entrevistados, o que não deveria se aplicar, visto
diversos setores profissionais da área, da escola que o discurso de trabalhar com o diferente faz
fundamental ao ensino superior, dos treinadores parte do material oficial da escolarização, quando
esportivos ao profissionais da ginástica laboral e se adota indicativos veiculados pelos Parâmetros
corretiva, inseridos no microssistema educacional. Curriculares Nacionais.
Foram entrevistados 32 profissionais Outra situação que causou demora na
localizados por meio de uma comunidade virtual resposta e favoreceu na captação de gestos e
específica, todos com mestrado concluídos e 19 faces bastante alteradas foi quando se perguntou
com doutorado em andamento, em programa de qual a dificuldade em trabalhar com corpos
pós-graduação devidamente credenciado. Do total modificados. Apesar das formações acadêmicas,
de docentes, temos 18 homens e 14 mulheres, muitos dos entrevistados informam que não foram
atuantes na Educação Física há, no mínimo, 12 preparados para tal função, que pouco eles
anos. Todos os profissionais entrevistados foram sabem do trabalho com deficiências físicas e
devidamente informados do objetivo do trabalho e mentais e que os corpos transformados soavam
são sobejamente conhecedores dos como estranhos e/ou até repulsivos ainda que
salientado que corpos transformados sejam
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O corpo, o desenvolvimento humano e as tecnologias

apenas pessoas implantadas, transplantadas ou inadequado, apesar da formação acadêmica que


marcadas de maneira voluntária (tatoo, todos ostentam. Ainda, 12% informaram que
escarificação, cortes, queimaduras). existe a possibilidade de desenvolver um bom
Ao aprofundar a questão, na mesma direção, trabalho, diante de alguns estudos e
constatou-se que todos algum dia pensaram em investigações sobre cada uma das
fazer uma tatuagem, na época da faculdade (6 transformações e 8% deles informaram que,
deles têm o corpo tatuado) mas que não se independente das marcas e mudanças, eram
cogitou, em nenhuma hipótese, um corpo corpos que necessitavam de um especialista da
queimado, perfurado ou modelado de modo a se área (e eles se encaixavam como tal) para o
transformar numa obra de exposição. Dos cuidado, manutenção e melhora das
profissionais entrevistados, 75% informam sentir capacitações.
dificuldade na relação com corpos diferentes dos Quando indagados sobre as tatuagens e as
tidos como “normais”. Consideram que um corpo marcas visíveis mais abertamente, tais como
muito musculoso (denominado corpo bombado) piercings, escarificações leves e alargadores de
não pode ser visto como corpo transformado, orelhas, as respostas compuseram uma
porque o musculoso está dentro dos padrões amostragem paradoxal: não se reprovou
(sem saber explicar quais padrões ou padrões de nenhuma das possibilidades, valorizou-se a
que?). perseguição pelo belo e pela moda vigente e
Interessante perceber que dos participantes, acentuou-se a corrida para o apelo midiático (...”é
48% deles eram muito fortes, trabalhando seus isso que a mídia vende”...) sem discorrer sobre o
corpos em exercitações diárias de uma hora e controle necessário à mídia ou uma análise mais
meia a duas horas, no mínimo quatro dias da detalhada sobre ela. Esta questão trouxe a tona
semana e, que, aparentam a mesma tipificação uma realidade incontestável: a mídia está
corporal do chamado “bombado”. Indagados indiscutivelmente certa.
sobre este fato, estes profissionais apontam que Sobre o fato real de alunos serem portadores
isso é um mero detalhe e que o profissional da de tatuagens ou marcas, sejam elas de que tipo,
área deveria dar mais valor ao seu corpo, ou alargadores de orelhas e narinas, causou
transformando-o em “cartão de visita”. surpresa o fato de haver relatos demonstrando
Quase no final da entrevista, uma pergunta de desconhecimento do fato (nunca percebi...; será
cunho mobilizador causou certo desarranjo entre que eles têm?...; hum, nunca reparei...; acho que
os consultados: sendo você um professor até têm, mas não posso garantir...; é, nunca vi
universitário, que tipo de informação passará ao isso por lá...). Entender o desconhecimento é
seu aluno, sobre os corpos modificados? A viável, mas é estranho que o corpo nunca tenha
primeira reação foi a do silencio, seguida de se revelado, numa aula prática de Educação
alguns balbucios e exclamações de Física. Claro fica que esta questão não avançou.
inconformidade (putz....hum....xiiiii....meu Seria inviável um avanço ou um
Deus....ahnnn....), mas como a questão estava no aprofundamento no diálogo mantido sobre as
ar, as respostas foram, no mínimo, paradoxais: marcas corporais em alunos de Educação Física,
42% não falariam nada, porque trata-se de um diante de um conjunto de professores que não se
momento, trata-se de uma moda, e como tal, apercebem dos corpos de seus educandos. Gera
logo seria substituída por outra. certa surpresa, se é assim que se pode designar
No entanto, outros 38% responderam que o sentimento aflorado, travar conversa ou analisar
somente se manifestariam se fossem indagados, algo cujos especialistas não contribuem com
mas que proporiam um seminário ou debate para observações, informações e agem com
discutir o assunto, num outro momento, mas que distanciamento de seu objeto de estudo e
isso não pertence ao universo de conhecimento trabalho, que é o corpo humano. Não perceber ou
do profissional da área. Não conseguiram não saber é, no mínimo, uma ação de
delimitar, numa segunda investida do estranhamento ou desconhecimento.
pesquisador, a quem competiria estudar o corpo No prevalente discurso da qualidade de vida e
transformado, mas foram unanimes em garantir da postura ideal, sempre que se voltava a questão
que ao educador físico cabe estudar o corpo em para o corpo amputado ou corpo transformado
movimento e o corpo saudável, num rendimento por enxertos ou próteses, a resposta era evasiva
aceitável ou próximo ao bom rendimento. ou não se materializava. Respondia-se com
O pesquisador não manteve a investida, diante caretas ou gestos evasivos, demonstrando certo
de respostas vagas e imprecisas, em especial, descuido com a cultura tecnológica corporal atual
diante de falsas expectativas ou conhecimento ou desconhecimento dos avanços da Medicina
corretiva. Porém, ao indagar sobre os crescentes

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A. A. Machado, M. C. Zanetti & A. Moioli

números de cirurgias plásticas para fins estéticos diante de elementos naturais como as próteses,
e para aumento ou modelagem das medidas, orteses, implantes, amputações e demais
então, as respostas foram mais fluentes. transformações. Resta-nos a imagem de que se
A velocidade com que se respondia sobre trabalha, e trabalha-se bem e adequadamente,
cirurgia plástica, corpo belo, corpo bronzeado, mas que não se percebe a transformação
modelagem corporal e a possibilidade de uma corporal. Falamos de uma espécie de negação,
transformação radical sem a aula de academia diante do corpo transformado, seja lá qual corpo e
causou certo congestionamento nas caixas de qual transformação.
diálogos: todos se manifestavam ao mesmo Diante do exposto, percebemos que apesar da
tempo e, por pior que fosse o comentário, ele era evolução a que todos estamos submetidos,
no mínimo indelicado, mas nunca de censura. enquanto membros de uma sociedade
Houve situação em que se tratou de alunos informatizada e modernizada, poucos são os que
com hemiplegia ou tetraplegia, mas sempre se percebem que as atuações profissionais precisam
deu direcionamento para “dificuldades”, atender aos avanços a que a humanidade se
“adaptações de atividades”, “troca de turma”, propôs dar. Os corpos, sejam eles quais forem,
“necessidade de um auxiliar para tocar a aula”, no merecem os mesmo olhares e atendimentos, no
entanto o corpo transformado ou deformado mínimo os essenciais, respeitando as
nunca veio a tona como um assunto emergente, individualidades.
como um corpo com necessidades especiais, Mais do que isso, parece-nos que respeitar as
mais especiais do que todos os demais ou ainda diferenças é um preceito socialmente correto,
como um corpo diferente, que merecesse outro enquanto ideologia, mas distante de uma prática
olhar, um olhar mais criterioso, mais zeloso, vindo assegurada, o que nos sugere mais atenção com
de profissional com formação diferenciada a nossos discursos e, em especial com nossos
apropriada para lidar com todos os corpos. cursos de formação. Analisando do ponto de vista
Vale dizer que fica subentendido que é da Graduação em Educação Física, muitos dos
possível se fazer tudo para manter ou conseguir grandes avanços tecnológicos nos atendem, sem
um corpo belo, inclusive cirurgia plástica radical e levar em consideração a simbologia e a
transformadora. O fim justificava o meio. Um dos interpretação dada a ela, quando se fala na
entrevistados, profissional de musculação numa interação homem-máquina.
grande academia da sua cidade informa, para Para além disso temos outra questão: a
todos os participantes da entrevista, que havia formação dos profissional da Educação Física
feito “um implante de panturrilha porque não favorece ao uso e aplicação de muitas das
gostava de malhar os membros inferiores e tinha invenções tecnológicas da época, mas no viés
as pernas finas, ficando com o corpo social, psicológico ou antropológico, como estão
desproporcional...mas graças a uma propaganda formados os profissionais que trabalharão com
em jornal, havia realizado a cirurgia e pago em tais corpos transformados? Como os atuais e
seis vezes, sem sacrifício físico ou financeiro”. futuros profissionais da área entendem a noção
Torna-se claro, então, que o corpo estando biônica da relação homem-máquina?
belo, tudo está validado. Da forma que for e custe Sobre a possibilidade de vir a questionar aos
o que custar. Mas isso não é indicativo, ainda, de alunos sobre uma marca, uma prótese, uma
que tais profissionais conseguissem manter uma transformação qualquer no corpo, a resposta não
discussão melhorada e mais elaborada sobre os soou com clareza, mas direcionou-se para o lado
corpos transformados e suas ações profissionais do “...é pessoal”; “...não, eu não perguntaria, teria
ou os tais corpos transformados e a interação vergonha”; “...até olharia, observaria, faria
homem-máquina. Analiticamente podemos suposições, mas não passaria disso”. E os corpos
pressupor que, mesmo sendo usuários das transformados continuariam seu caminho, em
ferramentas atuais das novas tecnologias, não se trajetos paralelos aos corpos belos e tidos como
discute o recursos e as aplicações que “normais”.
possivelmente se dê a elas, nem se analisa Como vimos, nossos atuais profissionais
adequada e profundamente as relações carecem de melhor conhecimento e prática no
estabelecidas entre o homem e a máquina. que diz respeito ao uso da máquina e do homem,
Esta reflexão nos conduz a entender que a quiçá da relação nascida do homem-máquina;
relação homem-máquina está distante da acreditamos que tal conhecimento se faz
perspectiva de profissionais que trabalham com o mediante uma contextualização maior e mais
corpo, como matéria prima de suas funções, mas profunda da cultura vigente e das buscas pelas
que não se prendem a analisar perspectivas e oportunidades diferenciadoras, na prática
mudanças de padrões motores e psicológicos profissional. A liberdade de escolha possibilitará
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O corpo, o desenvolvimento humano e as tecnologias

que alguns sejam plenamente identificados com MUSEÉS DE MARSEILLE. L´art au corps: lês
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