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Ascensão e queda do

Terceiro Reich
O começo do fim
(1939- 1945)

William L. Shirer

TRADUÇÃO

Pedro Pomar e
Leônidas Gontijo de Carvalho

Volume II

Ia reimpressão

A
A g i r
Sumário

9 Nota do editor
11 Prefácio

I. A g u e r r a : p rim e ira s v i t ó r i a s e o m o m e n to d e c is iv o

19 c a p ítu lo 1 . A queda da Polônia


30 c a p ítu lo 2 . Sitzkrieg na frente ocidental
84 c a p ítu lo 3 . A conquista da Dinamarca e da Noruega
136 c a p ítu lo 4. Vitória no Ocidente
195 c a p ítu lo 5. Operação Leão do Mar: a malograda invasão
da Inglaterra
241 c a p ítu lo 6. “Barbarossa”: a vez da Rússia
320 c a p ítu lo 7. A reviravolta
344 c a p ítu lo 8. A vez dos Estados Unidos
388 c a p ítu lo 9. 0 grande momento decisivo: 1942 — Stalingrado e
El Alamein

II. O c o m e ç o d o fim

431 c a p ítu lo 1. A Nova Ordem


507 c a p ítu lo 2. A queda de Mussolini
531 c a p ítu lo 3. Invasão da Europa Ocidental pelos Aliados e
tentativas de matar Hitler

III. A q u e d a d o T e r c e ir o R e ic h

623 c a p ítu lo 1 . A conquista da Alemanha


652 c a p ítu lo 2. Gõtterdàmmerung: os últimos dias do Terceiro Reich

699 Notas
719 Bibliografia
733 Agradecimentos
737 índice
765 Sobre o autor
Sinto, não raro, profunda tristeza ao pensar no povo alemão, tão estimável
como indivíduo e tão infortunado na generalidade...
Go eth e

Hitler foi o destino da Alemanha, e esse destino não podia ser evitado.
W a l t e r v o n B r a u c h it s c h
Marechal-de-campo
Comandante-em-chefe do exército alemão

Mil anos passarão, e a culpa da Alemanha não será apagada.


H ans F rank
Governador-geral da Polônia,
pouco antes de ser enforcado em Nuremberg

Os que não se lembram do passado estão condenados a revivê-lo.


Santa ya n a
Nota do editor

Publicado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1960, Ascensão e queda
do Terceiro Reich contava mais de mil páginas em volume único. Dois anos de­
pois, ganhou edição brasileira, reorganizada em quatro tomos. Para esta nova
versão, a Agir optou por dividir a obra em dois volumes, delimitados por um
corte cronológico.
Nesta lógica, Triunfo e consolidação (1933-1939) registra as origens históricas
e sociais do nazismo, a tomada de poder na Alemanha por Adolf Hitler e as ante-
vésperas da Segunda Guerra Mundial. O começo do fim (1939-1945) narra, por
sua vez, o conflito bélico mundial desde o avanço inicial do nazismo sobre a Eu­
ropa até o fracasso e o conseqüente colapso do Terceiro Reich. As seis seções que
Shirer designou originalmente como “livros” tiveram estrutura e título mantidos
e foram renumeradas dentro da lógica de cada volume.
Preserva-se assim o conteúdo integral do clássico de Shirer, dividido em dois
volumes que, apesar de evidentemente complementares, podem ser lidos de for­
ma autônoma.
Prefácio

Embora eu tenha vivido e trabalhado no Terceiro Reich durante a primeira


metade de sua breve existência, observando diretamente Adolf Hitler consolidar
seu poder ditatorial sobre a grande mas desconcertante nação, e depois conduzi-
la à guerra e à conquista, esta experiência pessoal não me levaria a escrever o
presente livro, se não ocorresse, no fim da Segunda Guerra Mundial, um aconte­
cimento único na História.
Esse acontecimento foi a captura de quase todos os arquivos confidenciais
do governo alemão e de todos os seus departamentos, incluindo os do Ministé­
rio do Exterior, do exército e da marinha, do Partido Nacional-Socialista e da
polícia secreta de Himmler. Antes, creio eu, jamais tão vasto tesouro caiu nas mãos
de historiadores contemporâneos. Até então, os arquivos de um grande Estado,
mesmo quando era derrotado na guerra e seu governo deposto por uma revolu­
ção, como ocorreu na Alemanha e na Rússia, em 1918, eram preservados, e so­
mente os documentos que serviam aos interesses do regime dominante subse­
qüente eram posteriormente publicados.
O rápido colapso do Terceiro Reich, na primavera de 1945, resultou na captura
não apenas de enorme quantidade de documentos secretos mas também de outros
materiais de inestimável valor, tais como diários íntimos, discursos altamente se­
cretos, relatórios de conferências, correspondência, e até mesmo reproduções de
conversas telefônicas entre os chefes nazistas, registradas por um corpo especial
de funcionários criados por Hermann Gõring no Ministério da Aeronáutica.
O general Franz Halder, por exemplo, conservava um volumoso diário, em que
anotava, em taquigrafia Gabelsberger, não somente o que ocorria dia a dia mas o
que se verificava de hora em hora. Constitui esse diário uma fonte concisa de in­
formações referentes ao período que vai de 14 de agosto de 1939 a 24 de setembro
de 1942, quando ele era chefe do Estado-maior do exército e mantinha contatos
12 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 9 3 9 " 1 9 4 5 )

diários com Hitler e outros líderes da Alemanha nazista. É o mais revelador dos diá­
rios alemães; mas há ainda outros de grande valor, entre os quais o do dr. Joseph
Goebbels, ministro da Propaganda e íntimo colaborador de Hitler, e o do general
Alfred Jodl, chefe de operações do Alto-Comando das Forças Armadas (OKW).
Há diários do próprio OKW e do Alto-Comando Naval. Com efeito, as sessenta
mil pastas de documentos dos arquivos da marinha alemã, capturadas em Schloss
Tambach, perto de Coburg, contêm, praticamente, todos os sinais convenciona­
dos, anotações, diários de bordo, memorandos, etc., desde abril de 1945, quando
foram encontradas, até, reversivamente, 1868, quando foi fundada a moderna
marinha germânica.
As 485 toneladas de documentos do Ministério do Exterior alemão, captura­
das pelo lfi Exército americano em vários castelos e minas das montanhas Harz,
justamente quando estavam prestes a ser queimadas por ordem de Berlim, abran­
gem não apenas o período do Terceiro Reich, mas recuam, passando pela Repú­
blica de Weimar, até o início do Segundo Reich de Bismarck. Durante muitos
anos, após a Segunda Guerra Mundial, toneladas de documentos nazistas per­
maneceram selados num depósito do exército norte-americano situado em Ale­
xandria, Virgínia, sem que nosso governo demonstrasse sequer interesse em
abrir tais pacotes, a fim de ver que espécie de documentos de valor histórico po­
deriam conter. Finalmente, em 1955, dez anos depois de sua captura, graças à
iniciativa da American Historical Association e à generosidade de duas institui­
ções particulares, os documentos de Alexandria foram abertos, e um grupo la­
mentavelmente pequeno de eruditos, auxiliado por pessoal e equipamento ina­
dequados, entregou-se à tarefa de selecioná-los e fotografá-los, antes que o
governo, muito apressado em relação ao assunto, os restituísse à Alemanha. Tais
documentos constituíram rico achado.
O mesmo se pode dizer de documentos como o registro taquigráfico parcial de
51 “Conferências do Führer” sobre a situação militar diária, tal como era vista e
discutida no quartel-general de Hitler, e o texto completo das discussões dos gran­
des comandantes nazistas com seus antigos camaradas de partido e secretários,
durante a guerra. Os primeiros desses documentos foram salvos em meio aos res­
tos carbonizados de outros papéis de Hitler, em Berchtesgaden, por um oficial do
serviço secreto pertencente à 101â Divisão Aérea dos Estados Unidos, e os segun­
dos, encontrados entre os papéis de Martin Bormann.
PREFÁCIO 13

Centenas de milhares de documentos nazistas apreendidos foram apressada­


mente reunidos em Nuremberg, como provas, durante o julgamento dos princi­
pais criminosos de guerra nazistas. Enquanto fazia a cobertura jornalística da
primeira parte do julgamento, reuni montes de folhas mimeografadas e, mais
tarde, os 42 volumes de depoimentos e documentos publicados, acrescidos de
dez volumes de documentos importantes vertidos para o inglês. O texto de outros
documentos, publicados numa série de 15 volumes, acerca dos 12 julgamentos efe­
tuados em Nuremberg, foi-me valioso, embora muitos papéis e depoimentos te­
nham sido omitidos.
Finalmente, além desse acúmulo sem precedente de documentos, há os regis­
tros dos exaustivos interrogatórios a que foram submetidos os oficiais alemães, os
membros do Partido Nazista e os altos funcionários do governo, e depoimentos
subseqüentes, feitos sob juramento, em vários julgamentos do pós-guerra, pro­
porcionando uma quantidade de material como ninguém, creio eu, teve antes à
sua disposição, proveniente de tais fontes, depois das guerras anteriores.
Não li, por certo, toda essa atordoante quantidade de documentos, pois isso
estaria muito além da capacidade de um só indivíduo. Mas examinei parte consi­
derável desse material, retardando-me nessa pesquisa, como ocorre a todos os
que esquadrinham tão rico manancial, pela absoluta falta de índices adequados.
É realmente extraordinário que nenhum de nós, jornalistas e diplomatas que
nos encontrávamos na Alemanha durante o nazismo, soubesse o que estava efeti­
vamente ocorrendo atrás da fachada do Terceiro Reich. Uma ditadura totalitária,
pela sua própria natureza, age com grande sigilo, e sabe como manter esse sigilo
longe dos olhares perscrutadores dos estranhos. Era bastante fácil registrar e es­
crever os simples, excitantes e, não raro, revoltantes acontecimentos que se verifi­
cavam no Terceiro Reich: a ascensão de Hitler ao poder; o incêndio do Reichstag;
o expurgo sangrento de Rohm; o Anschluss (anexação) da Áustria; a capitulação
de Chamberlain e Daladier em Munique; a ocupação da Tchecoslováquia; os ata­
ques contra a Polônia, a Escandinávia, o Ocidente, os Bálcãs e a Rússia; os horro­
res da ocupação nazista e dos campos de concentração; e a liquidação dos judeus.
Mas as decisões fatais tomadas secretamente, as intrigas, as traições, os motivos e
as aberrações que conduziam a tais decisões, os papéis desempenhados pelos ato­
res principais nos bastidores, a extensão do terror que exerciam e a técnica de que
se valiam para implantá-lo — tudo isso e muito mais permaneceu, em grande
parte, oculto, até surgirem os documentos secretos alemães.
14 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 9 3 9 - 1 9 4 5 )

Talvez se possa pensar que ainda é muito cedo para alguém tentar escrever
uma história do Terceiro Reich; que tal tarefa deveria ser deixada para uma gera­
ção posterior de escritores, a quem o tempo proporcionasse melhor perspectiva
dos acontecimentos. Constatei que essa opinião prevalecia particularmente na
França, quando para lá me dirigi, a fim de fazer algumas pesquisas. Os historiado­
res não deviam abordar nada que fosse mais recente do que a era napoleônica,
disseram-me.
Essa opinião é bastante ponderável. A maioria dos historiadores aguardou
cinqüenta, cem anos, ou mais, antes de tentar escrever uma narração da vida de
um país, de um império, de uma época. Mas não seria isso devido, principalmen­
te, ao fato de levarem mais tempo a vir à luz os documentos pertinentes que lhes
fornecessem o material autêntico de que necessitavam? E, embora ganhassem
perspectiva, acaso não se perdia alguma coisa, devido ao fato de faltar aos autores,
necessariamente, um conhecimento pessoal da vida e dos ambientes em que vive­
ram as figuras históricas sobre as quais escreviam?
No caso do Terceiro Reich, que é caso único, quase todo o material documen­
tal se tornou disponível quando de sua queda, sendo enriquecido pelo testemu­
nho de todos os líderes, militares e civis, sobreviventes, alguns dos quais foram
posteriormente executados. Dispondo de fontes incomparáveis de pesquisa e ten­
do ainda vivos na memória não só a lembrança da vida na Alemanha nazista, mas
também o aspecto físico, a conduta e a natureza dos homens que a governavam,
sobretudo Adolf Hitler, decidi tentar escrever a história da ascensão e queda do
Terceiro Reich.
“Vivi durante toda a guerra”, observa Tucídides em sua História da guerra do
Peloponeso, um dos maiores livros de história já escritos, “numa idade em que me
era dado compreender os acontecimentos, e dedicava-lhes atenção, a fim de co­
nhecer a verdade exata a respeito deles”.
Pareceu-me extremamente difícil e nem sempre possível conhecer a verdade
exata acerca da Alemanha de Hitler. A avalanche de material documental nos
impelia pelo caminho da verdade até um ponto que, vinte anos atrás, seria impos­
sível atingir; por outro lado, a própria vastidão desse material nos deixava, não
raro, confusos, sobretudo quando se sabe que em todos os registros e depoimen­
tos humanos costuma haver contradições embaraçosas.
Sem dúvida, meus próprios preconceitos, que surgem inevitavelmente de mi­
nha experiência e formação pessoal, insinuam-se, de quando em quando, nas
PREFÁCIO 15

páginas do livro. Detesto, em princípio, as ditaduras totalitárias e passei a odiá-las


mais ainda ao viver em uma delas e ao presenciar seus ataques revoltantes contra
o espírito humano. No entanto, procurei ser, neste livro, rigorosamente objetivo,
deixando que os fatos falassem por si próprios e anotando a fonte de cada um de­
les. Nenhum incidente, nenhum episódio ou citação provém de minha imagina­
ção: baseiam-se todos em documentos, em depoimentos de testemunhas oculares
e em minha própria observação pessoal. Em algumas passagens, há certa especu­
lação, devido à ausência de fatos positivos, mas ela está claramente rotulada.
Minhas interpretações, não tenho dúvida, serão contestadas por muitos. Coisa
inevitável, já que nenhum homem é infalível em suas opiniões. Aquelas que, aqui e
ali, me aventurei a dar, a fim de esclarecer o leitor e aprofundar a narrativa, foi o que
de melhor pude deduzir dos fatos evidentes e de meu conhecimento e experiência.
Adolf Hitler talvez seja o último dos grandes conquistadores aventureiros,
dentro da tradição de Alexandre, César e Napoleão e o Terceiro Reich, o último
dos impérios a seguir o caminho percorrido anteriormente pela Macedônia,
Roma e França. A cortina desceu, afinal, sobre essa fase da História, devido à in­
venção da bomba de hidrogênio, dos mísseis balísticos e de foguetes que podem
ser dirigidos à Lua.
Em nossa época de inventos letais, aterrorizadores, que tão rapidamente su­
plantaram os antigos meios de destruição, a primeira grande guerra agressiva, se
agora vier, será deflagrada por homúnculos suicidas que apertam um botão ele­
trônico. Não haverá vencedores nem vencidos, mas apenas os ossos carbonizados
dos mortos sobre a crosta de um planeta desabitado.
A guerra: primeiras vitórias e o momento decisivo
CAPÍTULO 1

A queda da Polônia

Às 1Oh de 5 de setembro de 1939, o general Halder teve uma conferência com


o general von Brauchitsch, comandante-em-chefe do exército alemão, e o general
von Bock, que dirigia o grupo de exércitos do norte. Após examinarem a situação,
tal como ela se lhes afigurava ao começo do quinto dia do ataque alemão contra a
Polônia, concordaram, conforme Halder escreveu em seu diário, que “o inimigo
está praticamente derrotado”.
Na noite anterior, a batalha pelo Corredor Polonês terminara com a junção
do 4e Exército, comandado pelo general von Kluge que, da região da Pomerânia,
avançava para o leste, e o 3 fi Exército, sob o comando do general von Küchler,
que, da Prússia Oriental, fazia seu avanço. Foi nessa batalha que o general Heinz
Guderian conquistou renome com seus tanques. Em determinado ponto, arran­
cando para o leste pelo Corredor, eles foram contra-atacados pela brigada de
cavalaria de Pomorska. O autor deste livro, ao passar pelo campo de batalha dias
depois, viu ali aterradora prova de carnificina, símbolo daquela breve campanha
na Polônia.
Cavalos contra tanques! A comprida lança dos cavalarianos contra o comprido
canhão dos tanques! Apesar de sua bravura, valor e temeridade, os poloneses
foram facilmente dominados pelo ataque alemão. Foi sua primeira experiência
— e do mundo também — da guerra-relâmpago (blitzkrieg): o rápido ataque de
surpresa; os aviões de caça e os bombardeiros, roncando no alto, fazendo reco­
nhecimentos, atacando, espalhando o incêndio e o terror; os stukas zunindo ao
mergulharem; os tanques, divisões completas deles, rompendo linhas e avançan­
do cinqüenta ou sessenta quilômetros por dia; pesados canhões de autopropulsão
e fogo rápido rolando a sessenta quilômetros por hora, mesmo pelas estradas
acidentadas da Polônia; a rapidez quase inacreditável da infantaria, de todo aque­
le vasto exército de 1,5 milhão de soldados em carros motorizados, dirigidos e
20 A g u e r r a : p r i m e i r a s v i t ó r i a s e o m o m e n to d e c i s i v o

coordenados por um dédalo de comunicações eletrônicas que consistiam de


intrincadas instalações de rádio, telefone e telégrafo. Era um monstruoso peso
pesado mecanizado como jamais a terra havia presenciado.
A força aérea polonesa foi destruída no período de 48 horas, a maioria de seus
quinhentos aviões de primeira linha, pelo bombardeio que os alemães fizeram
nos aeródromos antes que pudessem decolar. Incineraram-se as instalações, e a
maior parte das tripulações de terra foram mortas ou feridas. Cracóvia, a segunda
cidade da Polônia, caiu em 6 de setembro. Nessa noite, o governo polonês fugiu
de Varsóvia para Lublin. No dia seguinte, Halder ocupou-se dos planos para
começar a transferência das tropas para a frente ocidental, embora não perce­
besse ali qualquer atividade. Na tarde de 8 de setembro, a 4a Divisão dos panzer
alcançou as proximidades da capital polonesa, enquanto, logo ao sul da cidade,
o 10a Exército, comandado por Reichenau, vindo da Silésia e Eslováquia, con­
quistava Kielce, e o 14a Exército, de List, chegava a Sandomierz, na junção dos
rios Vístula e San.
Numa semana, fora vencido o exército polonês. A maior parte de suas 35 di­
visões — tudo que houvera tempo de mobilizar — foi esmagada ou colhida num
vasto movimento de pinças que se fecharam em torno de Varsóvia. Restara para
os alemães a segunda fase: apertar o laço em volta das aturdidas e desorganizadas
unidades polonesas que tinham sido cercadas, destruí-las e completar um segun­
do movimento de pinças ainda maior a 160 quilômetros a leste, o qual colheria as
remanescentes formações polonesas a oeste de Brest Litovsk e do rio Bug.
Essa fase começou em 9 de setembro e terminou no dia 17. A ala esquerda dos
exércitos do grupo norte, do general von Bock, marchou para Brest Litovsk, que
o 19a Corpo de Guderian atingiu no dia 14 e conquistou dois dias depois. Em 17
de setembro, encontrou as patrulhas do 14a Exército, de List, a oitenta quilôme­
tros ao sul de Brest Litovsk, em Wlodawa, fechando as segundas grandes pinças.
O contra-ataque, como Guderian observou mais tarde, chegara a uma “conclusão
definitiva” em 17 de setembro. Todas as forças polonesas, salvo certo número de­
las na fronteira russa, ficaram cercadas. Bolsas de tropas polonesas, no triângulo
de Varsóvia e, mais a oeste, nas proximidades de Posen, resistiram galhardamente,
mas estavam condenadas. O governo polonês, ou o que dele restara, após ser in­
cessantemente bombardeado e metralhado pela Luftwaffe, chegou a uma aldeia,
na fronteira da Romênia, no dia 15. Para ele e para a altiva nação, tudo estava
A QUEDA DA POLÔNIA 21

terminado, salvo para os moribundos, nas fileiras das unidades, que ainda resis­
tiam com incrível força de vontade.
Chegara então a hora de os russos invadirem o país devastado para apoderar-
se de seu quinhão nos despojos.

Os russos invadem a Polônia

O Kremlin, em Moscou, como todas as outras sedes de governo, surpreendeu-


se com a rapidez com que os exércitos alemães se movimentaram na Polônia. Em
5 de setembro, Molotov, ao responder formalmente à sugestão dos nazistas para
que a Rússia atacasse a Polônia, do leste, declarou que isso seria feito “em ocasião
oportuna”, e que ‘essa ocasião não havia ainda chegado”. Julgava que uma “pressão
excessiva” poderia prejudicar a causa dos soviéticos. Insistiu, porém, em que os
alemães, mesmo que chegassem primeiro, deveriam observar escrupulosamente a
“linha de demarcação” na Polônia, conforme fora acordado nas cláusulas secretas
do pacto nazi-soviético.1 Já se tornavam evidentes as desconfianças dos russos em
relação aos alemães. A impressão, no Kremlin, era de que a conquista da Polônia
pelos alemães levasse talvez um tempo bastante longo.
Logo depois da meia-noite de 8 de setembro, porém, depois que uma divi­
são blindada alemã atingiu as imediações de Varsóvia, Ribbentrop enviou ur­
gentemente uma mensagem secretíssima a Schulenburg, em Moscou, declaran­
do que as operações da Polônia estavam “progredindo muito além de nossas
expectativas” e que, em tal circunstância, a Alemanha apreciaria conhecer as
“intenções militares do governo soviético”.2 Às 16:10h do dia seguinte, Molotov
respondeu que a Rússia se movimentaria militarmente “dentro dos próximos
dias”. Horas antes, nesse dia, o comissário dos Negócios Estrangeiros do gover­
no soviético felicitou oficialmente os alemães “pela entrada das tropas alemães
em Varsóvia”.3
Em 10 de setembro, Molotov e o embaixador von der Schulenburg viram-se
em situação bastante embaraçosa. Após declarar que o governo soviético fora
pego “completamente de surpresa pelos êxitos militares alemães inesperada­
mente rápidos” e que a União Soviética se achava, por conseqüência, em “situação
difícil”, o comissário das Relações Estrangeiras referiu-se à escusa que o Kremlin
22 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

teria que apresentar pela sua própria agressão na Polônia. A escusa, conforme a
mensagem telegráfica urgentíssima e secretíssima de Schulenburg a Berlim, foi:

que a Polônia se estava esfacelando e que, por conseguinte, era necessá­


rio que a União Soviética fosse em auxílio dos ucranianos e russos
brancos que se viam ameaçados pela Alemanha. Esse argumento [disse
Molotov] tornava-se necessário para que os povos aceitassem a inter­
venção da União Soviética, evitando-se, ao mesmo tempo, que lhe des­
sem a aparência de agressora.

Além disso, Molotov queixou-se de que o general von Brauchitsch tinha aca­
bado de ser citado pela D.N.B. como tendo declarado que “não mais se tornava
necessária uma ação militar na fronteira oriental alemã”. Se era assim, se a luta
estava terminada, a Rússia, disse Molotov, “não podia iniciar uma nova guerra”.
Toda aquela situação lhe havia desagradado bastante.4 Para complicar mais ainda
a questão, chamou Schulenburg ao Kremlin, em 14 de setembro, e, após informá-
lo de que o Exército Vermelho iria pôr-se em marcha mais cedo do que o previsto,
quis saber quando se daria a queda de Varsóvia. Com o propósito de justificar
suas operações, os russos deviam aguardar a conquista da capital polonesa.5
O comissário levantou algumas sugestões embaraçosas. Quando cairia Varsó­
via? Como os alemães acolheriam o fato de serem responsabilizados pela inter­
venção da Rússia? Na noite de 15 de setembro, Ribbentrop expediu uma mensa­
gem urgentíssima e secretíssima a Molotov, pela embaixada alemã, respondendo
àquelas perguntas. Varsóvia, informou ele, seria ocupada “nos próximos dias”. A
Alemanha “acolheria prazerosamente as operações militares dos soviéticos agora”.
Quanto à desculpa da Rússia de a Alemanha ser responsabilizada por esse fato,
isso “estava fora da questão (...) contrário às verdadeiras intenções dos alemães
(...) estaria em contradição com os arranjos feitos em Moscou e finalmente (...)
faria os dois Estados aparecerem inimigos perante o mundo inteiro”. Terminou
pedindo ao governo soviético que marcasse “o dia e a hora” em que atacaria a
Polônia.6
Foi o que se fez na noite seguinte. Dois despachos de Schulenburg, que figu­
ram entre os documentos capturados aos alemães dizendo como isso foi feito,
demonstram claramente o estratagema dos russos.
A QUEDA DA POLÔNIA 23

Estive com Molotov às 18h [telegrafou Schulenburg em 16 de setem­


bro]. Ele declarou que a intervenção militar da União Soviética estava
iminente — talvez se verificasse mesmo amanhã ou depois. Stalin acha­
va-se, no momento, em conferência com chefes militares (...)
Molotov acrescentou que (...) o governo soviético pretendia justificar a
ação como se segue: o Estado polonês desintegrara-se e não existia
mais; em conseqüência, todos os acordos concluídos com a Polônia fi­
caram nulos; outras potências talvez tentassem aproveitar-se do caos
surgido. O governo soviético considerava-se obrigado a intervir, a fim
de proteger seus irmãos ucranianos e russos brancos e possibilitar a
esse infeliz povo trabalhar em paz.

Como a Alemanha podia ser a única possível “terceira potência” na questão,


Schulenburg fez suas objeções.

Molotov admitiu que os argumentos do governo soviético encerravam uma


nota que feria a sensibilidade dos alemães, mas pediu-nos, dada a difícil situação
do governo soviético, que não nos ofendêssemos por uma coisa assim insignifi­
cante. O governo soviético não via, infelizmente, possibilidade de quaisquer ou­
tras razões, uma vez que a União Soviética não havia, até ali, considerado as con­
dições de sua minoria na Polônia e precisava, de um modo ou de outro, justificar
perante o estrangeiro sua presente intervenção.7

Às 17:20h de 17 de setembro, Schulenburg expedia outra mensagem urgentís­


sima e secretíssima para Berlim.

Stalin recebeu-me às 14h (...) e declarou que o Exército Vermelho atra­


vessaria a fronteira soviética às 18h (...) Os aviões soviéticos começa­
riam a bombardear o distrito a leste de Lwów [Lemberg].

Quando Schulenburg se opôs a três pontos do comunicado soviético, o dita­


dor russo “muito prontamente” alterou o texto.8
Foi assim que, com o mesquinho pretexto de que a Polônia deixara de existir
e de que o pacto de não-agressão soviético-polonês, portanto, deixara também de
24 a g u e r r a : p r im e ira s v i t ó r i a s e o m o m e n to d e c is iv o

existir e se tornava necessário proteger seus próprios interesses e os das minorias


de ucranianos e russos brancos, a União Soviética começou a esmagar a Polônia
prostrada, na manhã de 17 de setembro. Para maior afronta dessa injustiça, o
embaixador polonês, em Moscou, foi informado de que a Rússia manteria estrita
neutralidade no conflito da Polônia! No dia seguinte, 18 de setembro, as tropas
soviéticas encontraram-se com os alemães em Brest Litovsk, onde, exatamente 21
anos antes, um recém-nascido governo bolchevista menosprezara os laços que o
ligavam a seus Aliados ocidentais, recebendo e aceitando, do exército alemão,
uma paz em separado sob rígidas condições.
Conquanto fossem agora cúmplices da Alemanha nazista em varrer do mapa
a Polônia, os russos se mostraram ao mesmo tempo cheios de desconfianças para
com seus novos companheiros. Na reunião que tivera com o embaixador alemão,
na véspera da agressão soviética, Stalin manifestara suas dúvidas, conforme Schu-
lenburg notificou devidamente a Berlim, de que o Alto-Comando alemão mante­
ria os acordos firmados em Moscou e se retiraria para a linha com a qual haviam
concordado. O embaixador procurou tranqüilizá-lo a esse respeito, mas, ao que
parece, sem êxito. “Em vista da conhecida atitude de desconfiança de Stalin”, tele-
grafou Schulenburg a Berlim, “eu ficaria satisfeito se fosse autorizado a fazer uma
nova declaração dessa natureza de modo a remover as últimas dúvidas”.9 No dia
seguinte, 19 de setembro, Ribbentrop telegrafou ao embaixador, dando-lhe a au­
torização: “Informe Stalin de que os acordos que fiz em Moscou serão natural­
mente mantidos, e nós os consideramos a pedra fundamental nas novas relações
amistosas entre a Alemanha e a União Soviética.” 10
Continuaram, entretanto, os atritos entre os dois sócios forçados. Em 17 de
setembro, houve um desentendimento sobre o texto de um comunicado conjun­
to que justificaria a destruição da Polônia pelos russos e alemães. Stalin opôs-se
à versão alemã, porque “ela apresentava os fatos com demasiada franqueza”. Es­
creveu imediatamente sua própria versão, uma obra-prima de subterfúgios, e
forçou os alemães a aceitá-la. Declarava que o objetivo comum da Alemanha
e da Rússia era “restaurar a paz e a ordem na Polônia, que haviam sido destruí­
das com a desintegração do Estado polonês, e auxiliar o povo a estabelecer novas
condições para sua política”. Em matéria de cinismo, Hitler encontrara em Stalin
um igual.
A princípio, ao que parece, ambos os ditadores pensaram em estabelecer
um Estado polonês tampão — à feição do grão-ducado de Varsóvia de Napoleão
A QUEDA DA POLÔNIA 25

— com o propósito de abrandar a opinião pública mundial. Mas, em 19 de setem­


bro, Molotov revelou que os bolchevistas já estavam com idéias diferentes a
respeito. Após protestar irritadamente junto a Schulenburg que os generais ale­
mães estavam desrespeitando o acordo de Moscou, ao procurarem apoderar-se
do território que devia caber à Rússia, ele feriu o ponto principal.

Molotov deu a entender [telegrafou Schulenburg a Berlim] que a primei­


ra tendência manifestada pelo governo soviético e por Stalin pessoal­
mente, de permitir a existência do que restasse da Polônia, cedera lugar
à tendência de dividi-la ao longo da linha Pissa-Narew-Vístula-San. O
governo soviético deseja começar imediatamente as negociações.11

Partiu assim dos russos a iniciativa de dividir completamente a Polônia e ne­


gar ao povo polonês qualquer existência própria e independente. Não foi preciso
insistir muito para que os alemães concordassem. Em 23 de setembro, Ribbentrop
telegrafou a Schulenburg ordenando-lhe que informasse Molotov de que “a idéia
russa de uma linha limítrofe, ao longo do curso daqueles quatro rios conhecidos,
coincide com o ponto de vista do governo do Reich”. Propôs ir novamente de
avião a Moscou para elaborar os detalhes desse plano e da ‘estrutura definitiva da
área polonesa”.12
Stalin, então, encarregou-se pessoalmente das negociações, e os Aliados ale­
mães e, mais tarde, os Aliados britânicos e americanos, puderam ver o quanto ele
era um negociador inflexível, cínico e oportunista. O ditador soviético chamou
Schulenburg ao Kremlin às 20h do dia 25. O telegrama do embaixador, horas
depois, prevenia Berlim de algumas duras realidades e de outras novidades.

Stalin declarou (...) que considerava um erro deixar um Estado polonês


tampão independente. Propôs que, partindo do território a leste da
linha de demarcação, toda a província de Varsóvia que se estende até
o Bug fosse adicionada ao nosso quinhão. Em troca, renunciaríamos
às nossas pretensões sobre a Lituânia.
Stalin (...) acrescentou que, se consentíssemos, a União Soviética tra­
taria imediatamente da solução do problema dos países bálticos, de
conformidade com o protocolo [secreto] de 23 de agosto, e, a esse
26 a g u e r r a : p r i m e i r a s v i t ó r i a s e o m o m e n to d e c i s i v o

respeito, esperava o apoio irrestrito do governo alemão. Stalin citou


expressamente a Estônia, a Letônia e a Lituânia, mas não mencionou
a Finlândia.13

Era uma barganha demasiado dura e difícil. Stalin oferecia trocar duas pro­
víncias polonesas, que os alemães já haviam conquistado, pelos Estados bálticos.
Estava tirando vantagem do grande serviço que havia prestado a Hitler — tornando-
lhe possível atacar a Polônia — a fim de obter para a Rússia tudo o que pudesse
enquanto a oportunidade era boa. Além disso, propunha que os alemães puses­
sem sob seu domínio a massa do povo polonês. Como russo, ele sabia perfeita­
mente o que os séculos, na história, haviam ensinado: os poloneses jamais se sub­
meteriam pacificamente à perda de sua independência. Que eles dessem dores de
cabeça aos alemães, não aos russos! Entrementes, ele obteria os Estados bálticos
arrebatados da Rússia depois da Primeira Guerra Mundial e cuja posição geográ­
fica oferecia à União Soviética grande proteção contra algum ataque surpresa de
seu aliado alemão.
Ribbentrop chegou de avião a Moscou pela segunda vez, às 18h de 28 de se­
tembro. Antes de dirigir-se ao Kremlin, teve tempo de ler dois telegramas proce­
dentes de Berlim que o notificavam do que os russos estavam arquitetando. Eram
telegramas expedidos pelo ministro alemão em Tallinn, a capital, relatando que o
governo estoniano tinha acabado de informar que a União Soviética exigira, “sob
a mais grave das ameaças de ataque iminente”, bases militares e aéreas na Estô­
nia.14Mais tarde, nessa noite, após uma longa conferência com Stalin e Molotov,
Ribbentrop telegrafou a Hitler que “nesta mesma noite” estava sendo concluído
um pacto que colocaria duas divisões do Exército Vermelho e uma brigada da
força aérea “no território da Estônia, sem abolir, porém, o sistema de governo
desse país, no momento”. Mas o Führer, muito experiente nessas questões, sabia
como seria transitória a duração da Estônia. Logo no dia seguinte, Ribbentrop foi
informado de que Hitler ordenara a evacuação dos 86 mil Volksdeutsche da Estô­
nia e Letônia.15
Stalin apresentava sua conta, e Hitler, pela primeira vez, pelo menos, teve de
pagá-la. Estava abandonando imediatamente não só a Estônia mas a Letônia, am­
bas as quais — concordara no pacto nazi-soviético — pertenciam à esfera dos
interesses soviéticos. Antes de terminado o dia, renunciava também à Lituânia, na
A QUEDA DA POLÔNIA 27

fronteira nordeste da Alemanha, a qual, segundo as cláusulas secretas do pacto de


Moscou, pertencia à esfera do Reich.
Stalin apresentou aos alemães duas opções na conferência com Ribbentrop,
que começara às 22h de 27 de setembro e durara até lh. Conforme sugerira a
Schulenburg, no dia 25, eram: aceitação da primitiva linha de demarcação na Po­
lônia, ao longo dos rios Pissa, Narew, Vístula e San, obtendo a Alemanha com isso
a Lituânia; ou cessão da Lituânia à Rússia em troca de mais território polonês (a
província de Lublin e as terras a leste de Varsóvia), o que entregaria aos alemães
quase todo o povo polonês. Stalin insistiu fortemente na segunda opção. Ribben­
trop, num longo telegrama expedido às 4h de 28 de setembro, submeteu-a a Hi­
tler, que concordou.16
A divisão da Europa Oriental exigiu um bom número de traçados intrincados
nos mapas. Após mais três horas e meia de negociações na tarde de 28 de setem­
bro, a que se seguiu um banquete oferecido pelo governo, no Kremlin, Stalin e
Molotov retiraram-se a fim de conferenciar com uma delegação da Letônia, que
tinham chamado a Moscou. Ribbentrop correu para a Ópera a fim de assistir
ainda a um ato do O lago dos cisnesyvoltando ao Kremlin à meia-noite para fazer
novas consultas sobre mapas e outras questões. Às 5h, ele e Molotov apuseram
suas assinaturas num novo pacto oficialmente chamado Tratado de Amizade e
Limites Germano-Soviético, enquanto Stalin mais uma vez se mostrava, confor­
me relatou mais tarde um alto funcionário alemão, “visivelmente satisfeito”.* Ti­
nha razão para isso.17
O próprio tratado, que se tornou público, anunciava os limites dos “interesses
nacionais” dos dois países no “antigo Estado polonês” e declarava que, nos terri­
tórios adquiridos, iriam restabelecer “a paz e a ordem” e “assegurar ao povo que lá
vivia uma vida pacífica em harmonia com seu caráter nacional”.
Mas, da mesma maneira que o acordo nazi-soviético anterior, havia “protoco­
los secretos” — três, aliás, dos quais dois encerravam a parte substancial. Um
acrescentou a Lituânia à “esfera de influência” dos soviéticos e as províncias de
Lublin e Varsóvia oriental à dos alemães. O segundo era curto e decisivo.

* Esse alto funcionário, Andor Hencke, subsecretário do Ministério das Relações Exteriores, que duran­
te muitos anos servira na Embaixada de Moscou, escreveu um minucioso e interessante relatório sobre
as conversações. Foi o único registro que os alemães fizeram das conferências do segundo dia.18
28 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

Ambas as partes não tolerarão em seus territórios qualquer agitação


dos poloneses que possa afetar os territórios da outra. Eliminarão, em
seus territórios, toda agitação em seu início e informarão, um ao outro,
sobre as medidas convenientes para tal objetivo.

E assim a Polônia, à semelhança do que se passara anteriormente com a Áus­


tria e a Tchecoslováquia, desapareceu do mapa da Europa. Dessa vez, porém, Hi­
tler fora auxiliado e secundado na destruição pela União das Repúblicas Socialis­
tas Soviéticas, a qual, durante tanto tempo, se conclamava paladina dos povos
oprimidos. Era a quarta vez que a Rússia e a Alemanha dividiam a Polônia* (a
Áustria tomara parte nas outras) e, enquanto isso durou, revestiu-se da mais feroz
crueldade. No protocolo secreto de 28 de setembro,** Hitler e Stalin concordaram
em instituir na Polônia um regime de terror destinado a suprimir brutalmente a
liberdade, a cultura e a vida nacional.
Hitler guerreou contra a Polônia e ganhou a batalha, mas o maior vencedor foi
Stalin, cujas tropas quase não dispararam um tiro.*** A União Soviética obteve qua­
se metade da Polônia e um baluarte nos Estados bálticos. Isso bloqueava a Alema­
nha mais solidamente do que nunca em dois de seus principais objetivos a longo
prazo: o trigo ucraniano e o petróleo romeno, dos quais ela tinha grande necessi­
dade se quisesse sobreviver ao bloqueio britânico. Mesmo a região petrolífera de
Borislav-Drogobycz, na Polônia, que Hitler desejava, foi exigida por Stalin, e ele
prazerosamente concordou em vender aos alemães o equivalente da produção
anual dessa área.
Por que Hitler pagou aos russos um preço assim tão elevado? É verdade que
concordara com isso em agosto, a fim de manter a União Soviética afastada do
campo dos Aliados e fora da guerra. Ele nunca fora defensor de acordos feitos e,
com a Polônia conquistada por uma incomparável proeza das armas alemãs, era
de esperar que violasse o pacto de 23 de agosto, conforme insistia o exército. Se
Stalin fizesse objeção, o Führer poderia ameaçá-lo com o ataque do exército mais

* Amold Toynbee, em seus vários trabalhos, chama-a "a quinta divisão"

** Conquanto fosse assinado às 5h de 29 de setembro, o tratado é datado oficialmente de 28 de


setembro.

*** As baixas alemãs na Polônia foram oficialmente apresentadas como sendo 10.752 mortos, 30.322
feridos e 3.400 desaparecidos.
A QUEDA DA POLÔNIA 29

poderoso do mundo, de que a campanha da Polônia acabara de dar provas. Será


que poderia? Não enquanto os ingleses e franceses estivessem com seus exérci­
tos no Ocidente. Ele precisava manter livre sua retaguarda, para guerrear com a
Inglaterra e a França. Conforme suas declarações posteriores deixariam bem
claro, essa era a razão por que permitiu fechar aquele negócio tão duro com
Stalin. Não se esqueceu, contudo, das ásperas negociações do ditador soviético ao
voltar depois sua atenção para a frente ocidental.
CAPÍTULO 2

Sitzkrieg na frente ocidental

Nada importante acontecera na frente ocidental. Não se dera sequer um tiro.


O homem de rua alemão começava a chamá-la de a “guerra de braços cruzados”
— Sitzkrieg. No Ocidente, seria logo apelidada de “guerra de mentira”. Ali estava
“o exército mais poderoso do mundo (o francês)” para dizer com as palavras do
general britânico J. F. C. Fuller, “enfrentando não mais que 26 divisões (alemãs),
sendo imóvel e abrigado por trás de aço e concreto enquanto um aliado quixotes­
camente valente estava sendo exterminado!”1
Mostravam-se surpresos os alemães? Bem pouco. No primeiro registro do diá­
rio de Halder, o de 14 de agosto, este chefe do Estado-maior geral avaliou minu­
ciosamente a situação na frente ocidental caso a Alemanha atacasse a Polônia.
Considerou “não muito provável” uma ofensiva por parte da França. Tinha certe­
za de que ela não mandaria seu exército atravessar a Bélgica “contra a vontade
dela” Concluiu dizendo que os franceses permaneceriam na defensiva. Em 7 de
setembro, com o exército polonês aniquilado, Halder, conforme se notou, já se
ocupava com os planos de transferência das divisões alemãs para o Ocidente.
Nessa noite, ele anotou o resultado de uma conferência que Brauchitsch tivera
à tarde com Hitler.

A operação no oeste ainda não está clara. Segundo indicações, não


há realmente intenção de se travar uma guerra (...) Falta ao gabinete
francês uma têmpera heróica. Também na Inglaterra vislumbra-se pru­
dente reflexão.

Dois dias depois, Hitler expedia a Diretiva nfi 3 para a orientação da guerra, or­
denando que se providenciasse a remessa de unidades do exército e da força
aérea, da Polônia para o Ocidente. Não necessariamente para lutar, porém, “Mesmo
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 31

após a hesitante abertura das hostilidades pela Inglaterra (...) e a França, uma or­
dem expressa minha”, traçava a diretiva, “deve ser obtida em cada um dos seguin­
tes casos: cada vez que nossas forças de terra (ou) (...) um de nossos aviões cruza­
rem as fronteiras do Ocidente; (e) para cada ataque aéreo contra a Inglaterra”.2
Que haviam a França e a Inglaterra prometido à Polônia caso fosse atacada?
A garantia britânica era de ordem geral. A da França, porém, era específica. Fora
traçada no acordo militar franco-polonês de 19 de maio de 1939. Nele, acordara-
se que os franceses “desencadeariam progressivamente operações de ofensiva
contra limitados objetivos por volta do terceiro dia após o Dia da Mobilização
Geral”. A mobilização geral foi decretada em lô de setembro. Mas, além disso,
“concordou-se que assim que o principal esforço dos alemães se desenvolver
contra a Polônia, a França desencadeará uma ofensiva contra a Alemanha com o
grosso de suas forças, a partir do 15a dia após o primeiro dia da mobilização
geral dos franceses”. Quando o representante-chefe do Estado-maior polonês,
coronel Jaklincz, perguntou quantos soldados franceses estariam disponíveis
para essa grande ofensiva, o general Gamelin respondeu que haveria cerca de 35
a 38 divisões.3
Mas, em 23 de agosto, quando se tornava iminente o ataque alemão contra a
Polônia, o tímido generalíssimo francês informava ao seu governo, conforme já
vimos,* que ele possivelmente não poderia preparar uma séria ofensiva “em me­
nos de dois anos, aproximadamente (...) em 1941-1942” — na suposição, acres­
centara, de que a França, nessa ocasião, tivesse o “auxílio das tropas inglesas e do
equipamento norte-americano”.
Nas primeiras semanas da guerra, para sermos exatos, a Inglaterra infelizmen­
te dispunha de poucos soldados para enviar à França. Em 11 de outubro, três se­
manas após o término da luta na Polônia, estava com quatro divisões — 158 mil
homens — na França. “Uma contribuição simbólica”, assim a designou Churchill,
e Fuller anotou que a primeira baixa britânica — um cabo morto por um tiro
quando em missão de patrulhamento — só se verificou em 9 de dezembro. “Uma
guerra assim tão destituída de sangue”, comenta Fuller, “jamais ocorrera desde as
batalhas de Molinella e Zagonara”.**

* Ver capítulo "O início da Segunda Guerra Mundial: triunfo e consolidação (1933-1939)".
** Em 9 de outubro, este autor fez uma viagem por estrada de ferro pela margem leste do Reno, onde,
numa extensão de 160 quilômetros, o rio forma a fronteira franco-germânica, e anotou em seu diário:
32 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

Fazendo um retrospecto, em Nuremberg, os generais alemães concordaram


que os Aliados ocidentais perderam uma excelente oportunidade ao deixar de
atacar, a oeste, durante a campanha da Polônia.

O êxito na luta contra a Polônia somente foi possível [declarou o gene­


ral Halder] ao desfalcarmos quase completamente nossas fronteiras
ocidentais. Se os franceses tivessem percebido essa situação lógica e se
aproveitado do momento em que as forças alemãs se achavam empe­
nhadas na Polônia, teriam podido atravessar o Reno sem que pudésse­
mos impedir e teriam ameaçado a área do Ruhr, a qual era o fator mais
decisivo na direção da guerra traçada pelos alemães.4
(...) Não sofremos um colapso em 1939 [disse o general Jodl], devido
apenas ao fato de que, durante a campanha polonesa, aproximada­
mente 110 divisões francesas e inglesas, no Ocidente, mantiveram-se
completamente inativas contra as 23 divisões alemãs.5
E o general Keitel, chefe do OKW, acrescentou este testemunho:
Nós, soldados, sempre esperamos que a França nos atacasse durante a
campanha polonesa, e ficamos muito surpresos de nada ter acontecido
(...) Um ataque francês teria encontrado apenas uma tropa alemã de
cobertura, não uma verdadeira defesa.6

Por que, então, o exército francês (as duas primeiras divisões britânicas so­
mente se desdobraram na primeira semana de outubro), que tinha uma esmaga­
dora superioridade sobre as forças alemãs no oeste, não atacou, como o general
Gamelin e o governo francês prometeram por escrito que fariam?
Muitas foram as razões: o derrotismo no Alto-Comando francês, no governo
e no povo; a lembrança de como a França se esvaíra em sangue na Primeira Guer­
ra Mundial e a determinação de não sofrer novamente tal carnificina se pudessem

"Não há sinal de guerra, e o pessoal do trem contou-me que não se dera um tiro nessa frente desde que
a guerra começara (...) Podíamos avistar os abrigos franceses e, em muitos lugares, grandes redes de
aço, atrás das quais os franceses construíam fortificações. Via-se quadro idêntico no lado da Alemanha.
Os soldados (...) entregavam-se a suas atividades à vista e ao alcance uns dos outros (...) Os alemães
içavam canhões e suprimentos na linha férrea, sem que os franceses os perturbassem. Que guerra mais
esquisita." (Berlin Diary, p. 234).
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 33

evitar; a compreensão de que, em meados de setembro, o exército polonês fora de


tal forma derrotado que os alemães logo iriam poder movimentar um número
superior de forças para o oeste e, com isso, eliminar provavelmente quaisquer
avanços iniciais dos franceses; o temor da superioridade dos alemães em arma­
mentos e no ar. Na verdade, o governo francês insistira, desde o princípio, em que
a Real Força Aérea britânica não bombardeasse objetivos na Alemanha, temendo
represálias contra as fábricas francesas, se bem que um bombardeio total no Ruhr,
o coração das indústrias do Reich, pudesse redundar em desastre para os alemães.
Isso foi motivo de grandes preocupações para os generais alemães, em setembro,
como muitos deles admitiram mais tarde.
Fundamentalmente, a resposta à pergunta de por que a França não atacara a
Alemanha, em setembro, talvez tivesse sido enunciada melhor por Churchill.
“Esta batalha”, escreveu ele, “fora perdida uns anos antes”.7 Em Munique, em 1938,
por ocasião da reocupação da Renânia, em 1936; no ano anterior, quando Hitler
proclamou o recrutamento para a formação do exército, desrespeitando o Tratado
de Versalhes. O preço dessa lamentável falta de ação dos Aliados tinha de ser pago
agora, embora parecesse que, em Paris e em Londres, se julgava que, de um modo
ou de outro, poderia-se fugir ao pagamento pela inação.
No mar lutava-se, porém.
A marinha de guerra alemã não ficara naquela estagnação em que se com-
prazia o exército no Ocidente. Durante as primeiras semanas de hostilidades, pôs
a pique 11 navios britânicos, num total de 64.595 toneladas, quase metade da to­
nelagem destruída no apogeu da guerra submarina em abril de 1917, quando a
Inglaterra estivera às portas de uma catástrofe. As perdas britânicas decresceram
depois disso: 53.561 toneladas na segunda semana, 12.750 na terceira e apenas
4.646 na quarta — para um total, durante o mês de setembro, de 26 navios de
135.552 toneladas afundados pelos submarinos alemães e três navios de 16.488
toneladas pelas minas.*

* Churchill, na ocasião primeiro-lorde do almirantado, revelou as cifras gerais na Câmara dos Comuns,
em 26 de setembro. Dá as cifras oficiais retificadas, em suas memórias. Informou também à Câmara que
seis ou sete submarinos alemães haviam sido postos a pique, mas, na verdade, conforme observa em
seu livro, veio a saber-se que foram apenas dois.
O discurso de Churchill foi marcado por uma anedota engraçada, na qual conta como o comandante
de um submarino alemão lhe havia expedido pessoalmente uma mensagem, assinalando a posição de
um navio britânico que tinha acabado de ser posto a pique e aconselhando que fossem em socorro dos
34 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

Havia uma razão, que os britânicos desconheciam, para aquele nítido declínio.
Em 7 de setembro, o almirante Ráder teve uma longa conferência com Hitler. O
Führer, exultante com suas primeiras vitórias na Polônia e com a falta de ataque
por parte da França no Ocidente, aconselhou sua marinha que agisse mais moro­
samente. A França estava demonstrando ‘entraves políticos e militares”; os britâ­
nicos, sua “hesitação”. Em vista dessa situação, ficara decidido que os submarinos,
no Atlântico, poupariam todos os barcos de passageiros sem exceção e se abste-
riam completamente de atacar os de nacionalidade francesa, e que os encouraça-
dos de bolso, o Deutschland, no Atlântico Norte, e o GrafSpee, no Atlântico Sul,
se recolheriam, entrementes, a seus postos de espera. A “política geral”, observou
Ráder em seu diário, seria a de “exercer controles até que se tornasse mais clara a
situação política no Ocidente, o que levará mais ou menos uma semana”.8

O afundamento do Athenia

Houve outra decisão com que Hitler e Ráder concordaram por ocasião da
conferência de 7 de setembro. O almirante anotou no seu diário: “Não se deverá
fazer tentativa alguma para solucionar a questão do Athenia até que os submari­
nos regressem a suas bases.”
A luta no mar, conforme notamos, começou dez horas depois da declaração
de guerra da Inglaterra, quando o vapor inglês Athenia, repleto de passageiros,
mais ou menos em número de 1.400, foi torpedeado sem aviso às 21h de 3 de
setembro, a 320 quilômetros a oeste das Hébridas, com a perda de 112 vidas,
incluindo 28 americanos. O Ministério de Propaganda alemão conferiu os pri­
meiros comunicados de Londres com o Alto-Comando naval; informaram-no
de que não havia nenhum submarino alemão nas vizinhanças. Negaram pronta­
mente que o navio tivesse sido afundado pelos alemães. Essa catástrofe embara­
çou Hitler e o comando naval. A princípio não acreditaram nos comunicados in­
gleses. Haviam sido dadas ordens estritas a todos os comandantes de submarinos
para que observassem a Convenção de Haia, a qual proibia que se atacasse um

sobreviventes. "Eu não tinha muita certeza quanto ao endereço para o qual devia enviar uma resposta",
disse Churchill. "Contudo, o homem está agora em nosso poder." Não estava, porém. O autor entrevis­
tou o comandante do submarino, capitão Herbert Schulze em Berlim, dois dias depois, numa transmis­
são radiofônica para os Estados Unidos. Ele mostrou, em seu diário de bordo, a mensagem que havia
enviado a Churchill. (Ver Churchill, The Gathering Storm, p. 436-7; Berlin Diary, p. 225-7).
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 3 5

navio sem aviso. Como todos os submarinos alemães mantinham silenciosos seus
rádios, não havia meios de verificar imediatamente o que acontecera.* Isso não
impediu que os jornais controlados pelos nazistas afirmassem, dali a dois dias, que
os ingleses torpedearam seu próprio navio a fim de provocar a entrada dos Estados
Unidos na guerra.
A Wilhelmstrasse se achava realmente preocupada com a reação americana à
catástrofe, que causara a morte de 28 cidadãos americanos. No dia seguinte ao
afundamento, Weizsácker chamou o encarregado de negócios americano, Ale-
xander Kirk, e negou que um submarino alemão tivesse torpedeado o vapor. Ne­
nhum barco alemão se achava nas imediações, acentuou ele. Nessa noite, segun­
do depoimento que ele mais tarde prestou em Nuremberg, o secretário de Estado
procurou Rãder e lembrou-lhe como o afundamento do Lusitânia pelos alemães,
durante a Primeira Guerra Mundial, contribuíra para a entrada dos Estados Uni­
dos no conflito e instou com ele que “se fizesse tudo” para evitar-lhes provoca­
ções. O almirante garantiu-lhe que “nenhum submarino alemão estivera envolvi­
do no caso”.9
A instâncias de Ribbentrop, o almirante Rãder convidou o adido naval ameri­
cano para que fosse vê-lo em 16 de setembro, declarando-lhe, então, que já rece­
bera relatórios de todos os submarinos, “pelos quais ficou esclarecido definitiva­
mente que o Athenia não fora afundado por submarinos alemães”. Pediu-lhe que
informasse o seu governo a respeito, o que o adido fez prontamente.**10
O almirante não dissera toda a verdade. Não haviam ainda regressado ao por­
to todos os submarinos que se achavam no mar, em 3 de setembro. Entre eles
encontrava-se o [7-30, comandado pelo tenente Lemp, que somente aportou em
águas alemãs em 27 de setembro, sendo ali recebido pelo almirante Karl Dõnitz,
comandante de submarinos que, anos depois, em Nuremberg, descreveu e reve­
lou, finalmente, a verdade sobre quem afundara o Athenia.

Encontrei o comandante, o tenente Lemp, nas docas, em Wilhelmsha-


ven, na ocasião da chegada do submarino ao porto. Pediu permissão

* No dia seguinte, 4 de setembro, todos os submarinos alemães receberam a seguinte mensagem:"Por


ordem do Führer, não deverão levar a efeito, de maneira alguma, operações contra navios de passagei­
ros, mesmo quando estiverem escoltados."
** Aparentemente a mensagem não foi escrita em código. Exibiu-se em Nuremberg uma cópia da que
o adido naval expediu para Washington, a qual constava dos documentos navais alemães.
36 A g u e r r a : p r i m e i r a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

para falar-me em particular. Logo observei que parecia acabrunhado.


Contou-me então que julgava ser o responsável pelo afundamento do
Athenia na área do Canal do Norte. De conformidade com minhas ins­
truções anteriores, ele estivera exercendo severa vigilância sobre possí­
veis barcos mercantes armados, nas vias de acesso às Ilhas Britânicas, e
torpedeara um navio que, depois, pelas mensagens de rádio, identifica­
ra como sendo o Athenia. Torpedeara-o sob a impressão de que se tra­
tava de um barco mercante armado em serviço de patrulhamento (...)
Mandei-o imediatamente de avião para Berlim, a fim de comunicar o
fato ao Estado-maior da guerra naval [SKL]; entrementes, como medi­
da provisória, ordenei que se mantivesse completo sigilo. Mais tarde,
nesse mesmo dia, ou nas primeiras horas do dia seguinte, recebi uma
ordem do Kapitàn zur See Fricke de que:
1. O caso devia ser mantido em completo segredo.
2. O Alto-Comando naval [OKM] considerava não ser necessário um
conselho de guerra, porque achava que o comandante agira de boa-fé.
3. Esclarecimentos políticos seriam tratados pelo OKM*
Não tomei parte nos acontecimentos políticos, no decorrer dos quais o
Führer alegara que nenhum submarino alemão afundara o Athenia.11

Mas Dõnitz, que devia ter suspeitado da verdade durante todo aquele tempo,
pois de outro modo não teria estado nas docas para saudar o regresso do [7-30,
exerceu um papel no caso ao alterar o diário do submarino e o dele, a fim de eli­
minar qualquer prova que denunciasse a verdade. De fato, conforme confessou
em Nuremberg, ele próprio ordenou que se eliminasse do diário do U-30 qual­
quer menção ao Athenia e fizera o mesmo em seu próprio diário. Fez os tripulan­
tes do barco jurarem que guardariam absoluto sigilo.**

* Grifos do almirante.
** Os oficiais, Lemp inclusive, e alguns membros da tripulação foram transferidos para o U - 1 W e afun­
daram com ele em 9 de maio de 1941. Um membro da tripulação fora metralhado por avião poucos
dias após o afundamento do Athenia. Foi desembarcado em Reykjavik, Islândia, comprometendo-se a
guardar o mais estrito sigilo; mais tarde foi levado para um campo de prisioneiros de guerra, no Cana­
dá. Assinou, depois da guerra, um depoimento relatando os fatos. Ao que parece, os alemães receavam
que ele "desse com a língua nos dentes", mas ele só falou ao terminar a guerra.12
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 37

Os Altos-Comandos militares de todos os países costumam indiscutivelmente


manter certos segredos em seus gabinetes no decurso de uma guerra, e era com­
preensível, senão louvável, que Hitler, conforme o almirante Rãder depôs em Nu­
remberg, insistisse em que o caso do Athenia fosse mantido em segredo, sobretu­
do depois que o comando naval, agindo de boa-fé, negou, a princípio, a
responsabilidade da Alemanha. Ele teria ficado deveras embaraçado se tivesse
que admiti-la depois. Mas Hitler não ficou só nisso. Na noite de domingo, 22 de
outubro, o ministro da Propaganda Goebbels, falando pelo rádio — o autor recor­
da-se perfeitamente da irradiação —, acusou Churchill de ter afundado o Athe­
nia. No dia seguinte, o jornal oficial nazista, o Võlkischer Beobachter; publicou
uma história na primeira página com o título “Churchill afundou o Athenia\ nela
declarando que o primeiro-lorde do almirantado colocou uma bomba-relógio no
porão do navio. Ficou esclarecido em Nuremberg que o Führer; pessoalmente,
ordenara a declaração pelo rádio e a publicação daquele artigo — e também que
Rãder, Dõnitz e Weizsàcker, embora grandemente desgostosos com tão deslavada
mentira, não ousassem fazer coisa alguma a respeito.13
Essa submissão da parte dos almirantes e do suposto líder antinazista no Mi­
nistério das Relações Exteriores, que era completamente compartilhada pelos ge­
nerais, toda vez que o diabólico chefe nazista explodia, ia conduzir a Alemanha a
uma das páginas mais negras de sua história.

Hitler propõe a paz

“Esta noite os jornais falam abertamente na paz”, anotei em meu diário em 20


de setembro. “Todos os alemães, com os quais conversei hoje, estão absolutamen­
te certos de que teremos paz dentro de uma semana. Estão muito animados.”
Na tarde do dia anterior, eu ouvira, no ornamentado salão da prefeitura de
Dantzig, Hitler fazer seu primeiro discurso desde a oração com que se dirigira ao
Reichstag, em Ia de setembro, ao desencadear a guerra. Conquanto ele estivesse
enfurecido por ter ficado impedido de fazer aquele discurso em Varsóvia, cuja
guarnição resistia ainda heroicamente, e instilasse veneno toda vez que citava a
Inglaterra, fez um leve gesto a favor da paz. “Não tenho nenhum propósito de
guerra contra a Inglaterra e a França”, disse. “Minhas simpatias acham-se voltadas
38 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

para o poilu [soldado francês da Grande Guerra]. Ele não sabe por que está lutan­
do.” E invocou o Todo-Poderoso “que agora abençoou nossas armas para que os
outros povos compreendam como esta guerra será inútil (...) e reflitam sobre os
benefícios da paz”.
Em 26 de setembro, na véspera da queda de Varsóvia, os jornais e o rádio ale­
mães desencadearam uma grande ofensiva de paz. Registrei em meu diário o que
diziam: “Por que a França e a Inglaterra querem lutar agora? Não há razão para a
luta. A Alemanha nada pretende no Ocidente.”
Dois dias depois a Rússia, abocanhando rapidamente seu quinhão na Polônia,
uniu-se àquela ofensiva. Juntamente com a assinatura do Tratado de Amizade e
Limites Germano-Soviético, com suas cláusulas secretas de dividir a Europa
Oriental, Molotov e Ribbentrop prepararam e assinaram em Moscou, em 28 de
setembro, uma vibrante declaração em favor da paz.

Os governos da Alemanha e da Rússia [dizia], após terem resolvido


definitivamente os problemas oriundos da desintegração do Estado po­
lonês e criado uma base firme para uma paz duradoura na Europa
Oriental, exprimem mutuamente sua convicção de que atenderia aos
verdadeiros interesses de todos os povos dar paradeiro ao estado de
guerra entre a Alemanha e Inglaterra e França. Ambos os governos di­
rigirão, portanto, seus esforços comuns (...) no sentido de atingir esse
objetivo o mais breve possível.
Caso, porém, os esforços de ambos os governos se tornem infrutíferos,
isso demonstrará que a Inglaterra e a França ficam responsáveis pelo
prosseguimento desta guerra (...)

Desejaria Hitler a paz ou desejaria continuar a guerra e, com o auxílio dos


soviéticos, lançar sobre os Aliados ocidentais a responsabilidade de sua continua­
ção? Talvez ele mesmo não soubesse, embora estivesse convencido disso.
Em 26 de setembro, ele teve uma longa conferência com Dahlerus, que ainda
não renunciara de todo aos seus esforços em favor da paz. Dois dias antes, esse
infatigável sueco visitara seu velho amigo Ogilvie Forbes, em Oslo, onde o antigo
conselheiro da embaixada em Berlim servia então, nessa mesma posição, na le-
gação britânica da capital norueguesa. Dahlerus informou Hitler, segundo um
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 39

memorando confidencial do dr. Schmidt,14 que Forbes lhe comunicara que o go­
verno inglês desejava a paz. A única questão estava no seguinte: como poderiam
os ingleses salvaguardar seu prestígio?
“Se os ingleses desejam verdadeiramente a paz”, respondeu Hitler, “poderão
tê-la em duas semanas (...) sem que, com isso, percam seu prestígio.”
Eles teriam que conformar-se com o fato de que “a Polônia não podia erguer-
se novamente”, disse o Führer. Além disso, ele estava preparado — declarou —
para manter o status quo “do restante da Europa”, incluindo as garantias de “segu­
rança” para a Inglaterra, a França e os Países Baixos. Seguiu-se um debate sobre
como iniciar as conversações de paz. Hitler sugeriu que Mussolini o fizesse. Dah-
lerus aventou a idéia de que a rainha da Holanda talvez conviesse mais, dada a
“neutralidade de seus país”. Gõring, que se achava presente, sugeriu que represen­
tantes da Inglaterra e da Alemanha primeiro se encontrassem na Holanda, e de­
pois, se fizessem progresso, a rainha convidaria ambos os países para entabularem
as conversações sobre o armistício. Hitler, que várias vezes se manifestara cético
quanto à “vontade da Inglaterra de fazer a paz”, finalmente concordou com a pro­
posta do sueco, pela qual ele “iria à Inglaterra no dia seguinte a fim de sondar na
direção indicada”.
“Os ingleses poderão ter a paz se a quiserem”, declarou Hitler a Dahlerus no
momento em que ele saía, “mas terão de se apressar.”
Foi essa uma tendência do pensamento do Führer. Manifestou outra a seus
generais. No dia anterior, 25 de setembro, um registro no diário de Halder men­
ciona o recebimento de um “comunicado sobre o plano de Hitler para atacar o
Ocidente”. Em 27 de setembro, dia que se seguiu à garantia que dera a Dahlerus
de que estava pronto a fazer a paz com a Inglaterra, Hitler convocou os coman-
dantes-em-chefe da Wehrmacht para uma reunião na chancelaria e informou-os
de sua decisão de “atacar no Ocidente o mais breve possível, porque o exército
franco-britânico não se acha ainda preparado”. Segundo Brauchitsch, ele mesmo
estabeleceu uma data para o ataque: 12 de novembro.15 Sem dúvida, Hitler estava
entusiasmado nesse dia pela notícia de que Varsóvia finalmente capitulara. Prova­
velmente julgara que, pelo menos, poderia dominar a França com a mesma faci­
lidade que tivera na Polônia, se bem que dois dias depois Halder fez uma anotação
no diário para explicar ao Führer que “a técnica da campanha polonesa não servi­
ria de receita para o Ocidente. Não adiantaria contra um exército coeso”.
40 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

Talvez Ciano penetrasse melhor o espírito de Hitler quando manteve com ele
uma longa conferência em Berlim, em lfi de outubro. O jovem ministro das Rela­
ções Exteriores da Itália, que, a essa altura, já detestava bastante os alemães, mas
tinha de manter as aparências, encontrou o Führer disposto a confidências. Ao
traçar seus planos, os olhos do chanceler “faiscavam de maneira sinistra sempre
que discorria sobre seus métodos e seus meios de luta”, observou Ciano. Resumin­
do suas impressões, o visitante italiano escreveu:

(...) Hoje, oferecer ao povo uma paz sólida após uma grande vitória tal­
vez constitua um objetivo que ainda seduz Hitler. Mas, se para alcançá-lo
ele tiver que sacrificar, mesmo num mínimo grau, o que lhe parece frutos
legítimos de sua vitória, haveria então de preferir mil vezes a batalha* 16

Quando assisti à sessão do Reichstag que começou ao meio-dia, em 6 de outu­


bro, e ouvi Hitler pronunciar seu apelo de paz, isso me pareceu um velho disco de
gramofone que estava tocando pela quinta ou sexta vez. Quantas vezes, antes, o
ouvira daquela mesma tribuna, após sua última conquista, e, com o mesmo apa­
rente tom de seriedade e sinceridade, propor o que semelhava — se se esquecesse
de sua última vítima — uma paz decente e razoável. Ele o fizera assim naquele dia
revigorante e claro de outubro, com sua habitual eloqüência e hipocrisia. Fora um
longo discurso — uma de suas orações públicas mais compridas —, mas no final,
após mais de uma hora de típicas distorções da história e de um relato jactancioso
dos feitos das armas alemãs na Polônia (“este ridículo Estado”), chegou às propos­
tas de paz e às razões para isso.

Meu principal esforço tem sido libertar nossas relações com a França
de todos os traços de má vontade e torná-las toleráveis para ambas as
nações (...) A Alemanha nada mais pretende contra a França (...) Recu­
sei até mesmo mencionar o problema da Alsácia-Lorena (...) Sempre
manifestei à França meu desejo de sepultar, de uma vez por todas, nossa

* Mussolini não compartilhou da confiança de Hitler na vitória, que Ciano lhe comunicara. Achava que
os ingleses e os franceses "resistiriam firmemente (...) Por que escondê-lo?" Ciano escreveu em seu
diário, em 3 de outubro: "Ele (Mussolini) está um tanto ressentido com a súbita expansão da fama de
Hitler." (Ciano Diaries, p. 155).
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 41

antiga inimizade e reunir esses dois países, ambos os quais encerram


um passado tão glorioso (...)

E a Inglaterra?

Não menores têm sido meus esforços para chegar a um entendimento


anglo-germânico, ou antes, mais do que isso, à concretização das ami­
zades anglo-germânicas. Em tempo algum e em lugar algum agi contra
os interesses ingleses (...) Acredito que mesmo hoje em dia só poderá
haver verdadeira paz na Europa e em toda parte do mundo se a Alema­
nha e a Inglaterra chegarem a um entendimento.

E a paz?

Por que se deveria travar esta guerra no Ocidente? Para restauração da


Polônia? A Polônia do Tratado de Versalhes jamais se erguerá nova­
mente (...) A questão do restabelecimento do Estado polonês é um pro­
blema que não será solucionado pela guerra no Ocidente, porém exclu­
sivamente pela Rússia e pela Alemanha (...) Seria insensato aniquilar
milhões de homens e destruir propriedades valendo milhões a fim de
reconstruir um Estado que, na própria ocasião em que nasceu, foi ta­
chado de aborto por todos aqueles que não eram de origem polonesa.

Que outras razões existem?

Se se deve realmente travar esta guerra somente para dar à Alemanha


um novo regime (...) então milhões de vidas serão sacrificados inutil­
mente (...) Não, esta guerra no Ocidente não poderá solucionar ne­
nhum problema (...)

Havia problemas para serem resolvidos. Hitler apresentou toda uma lista de­
les: “formação de um Estado polonês” (que ele já tinha concordado com os russos
que não devia existir); “acomodação e solução do problema judaico”; colônias
para a Alemanha; restauração do comércio internacional; “garantia de uma paz
42 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

incondicional”; “redução dos armamentos”; “regulamentação da guerra aérea, ga­


ses venenosos, etc.”; e solução dos problemas das minorias na Europa.
Para “atingir esses grandes objetivos” ele propôs uma conferência das princi­
pais nações européias “depois da mais perfeita preparação”.

É impossível [continuou ele] que tal conferência, que tem por fim de­
terminar o destino deste continente para muitos anos vindouros, possa
levar a efeito suas deliberações enquanto os canhões estiverem troando
ou os exércitos mobilizados estiverem fazendo pressão para exercer in­
fluência sobre ela.
Se, porém, esses problemas devem ser solucionados logo ou mais tar­
de, é então mais sensato atacar a solução antes que se enviem para a
morte inútil milhões de homens, e que se destruam incomensuráveis
riquezas. Inconcebível a continuação do presente estado de coisas no
Ocidente. Dentro em pouco, cada dia que passar irá exigir sacrifícios
cada vez maiores (...) A riqueza nacional da Europa será dissipada em
forma de granadas, e o vigor de todas as nações, debilitado nos campos
de batalha (...)
Uma coisa é certa. Jamais houve, no curso da história do mundo, dois
vencedores; quase sempre, porém, somente perdedores. Oxalá esses
povos e seus líderes, que são da mesma opinião, dêem agora sua respos­
ta. E deixemos que aqueles que consideram a guerra a melhor solução
rejeitem a mão que agora estou estendendo.

Ele estava pensando em Churchill.

Mas, se as opiniões de Churchill e seus adeptos prevalecerem, esta mi­


nha declaração terá sido a última que faço. Então lutaremos (...) Não
haverá outro novembro de 1918 na história da Alemanha.

Parecia-me altamente duvidoso, conforme escrevi em meu diário, ao voltar do


Reichstag, que os ingleses e franceses dessem, “durante cinco minutos”, ouvidos
àquelas vagas propostas. Mas os alemães se mostraram otimistas. A caminho para
a estação de rádio, naquela noite, adquiri um exemplar da edição matinal do jor­
nal de Hitler, o Võlkischer Beobachter. Os flamejantes títulos diziam:
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 43

D e s e jo s d e paz da A lem an h a — N en h um d e s íg n io de g uerra

CONTRA A FRANÇA E A INGLATERRA — NENHUMA OUTRA REVISÃO DAS

PRETENSÕES, EXCETO AS RELATIVAS ÀS COLÔNIAS — REDUÇÃO DOS AR­

MAMENTOS — C o o p e r a ç ã o com todas as n a çõ es da E uropa —

PROPOSTA DE UMA CONFERÊNCIA.

Sabe-se agora, pelos documentos secretos alemães, que a Wilhelmstrasse se


sentiu encorajada a acreditar, pelos relatórios que recebia de Paris dos embaixa­
dores italiano e espanhol ali, que os franceses não se mostravam inclinados a con­
tinuar a guerra. Já em 8 de setembro, o embaixador espanhol informara aos ale­
mães que Bonnet ‘está se esforçando para conseguir um entendimento assim que
ficarem concluídas as operações na Polônia, dada a grande impopularidade da
guerra, na França. Há certas indicações de que ele se acha em contato com Mus-
solini para esse fim”.17
Em 2 de outubro, Attolico entregou a Weizsãcker o texto da última mensagem
do embaixador italiano em Paris, a qual afirmava que a maioria dos membros do
gabinete francês era a favor de uma conferência de paz e que a questão girava agora,
principalmente, em torno de “possibilitar à França e à Inglaterra salvaguardarem
seu prestígio”. Ao que parecia, porém, o primeiro-ministro Daladier não fazia
parte dessa maioria.*18
Via-se aí uma bela argúcia. Em 7 de outubro, Daladier respondeu a Hitler.
Declarou que a França não deporia as armas enquanto não obtivesse garantia de
uma “paz verdadeira e segurança geral”. Mas Hitler mostrou-se mais interessado
em receber notícias de Chamberlain do que do primeiro-ministro francês. Em 10
de outubro, por ocasião de um breve discurso no Palácio dos Esportes, para a
inauguração do Auxílio de Inverno, ele novamente acentuou sua “boa vontade
para estabelecer a paz”. A Alemanha, acrescentou, “não tem motivos para uma
guerra contra as potências ocidentais”
A resposta de Chamberlain chegou em 12 de outubro. Foi uma ducha fria
para o povo alemão, senão para Hitler.** Dirigindo-se à Câmara dos Comuns, o

* Pouco depois, era 16 de novembro, os italianos comunicaram aos alemães que, segundo informa­
ções recebidas de Paris, "considera-se o marechal Pétain advogado de uma política de paz na França
(...) Se a questão da paz se tornar mais aguda em França, Pétain virá a exercer um grande papel".19 Isso
parece ser a primeira indicação, para os alemães, de que Pétain talvez lhes viesse a ser útil mais tarde.
** No dia anterior, 11 de outubro, ocorreu em Berlim uma desordem relacionada à paz. Pela manhã, um
comunicado no rádio de ondas longas de Berlim anunciava que o governo britânico havia caído e que
44 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

primeiro-ministro declarou serem “vagas e incertas” as propostas de Hitler, ob­


servando que “elas não contêm sugestões para corrigir os males feitos à Tchecos-
lováquia e à Polônia”. Não se podia confiar nas promessas “do atual governo ale­
mão”, disse ele. Se o governo alemão desejava a paz, “que apresentasse atos e não
somente palavras”. Exigiu que Hitler desse “provas convincentes” de que desejava
realmente a paz.
O homem de Munique não se ludibriaria mais com as promessas de Hitler. No
dia seguinte, 13 de outubro, uma declaração oficial alemã dizia que Chamberlain,
ao rejeitar a proposta de paz de Hitler, havia deliberadamente escolhido a guerra.
O ditador nazista tinha, agora, sua desculpa.
Na verdade, como agora sabemos pelos documentos capturados dos alemães,
Hitler não esperou pela resposta do primeiro-ministro para ordenar os preparati­
vos para um ataque imediato no Ocidente. Em 10 de outubro, reuniu os chefes
militares, leu-lhes um longo memorando sobre a situação da guerra e do mundo,
e lançou a Diretiva ne 6 para a orientação da guerra.20
O fato de o Führer insistir, no fim de setembro, em que se preparasse um ata­
que no Ocidente o mais breve possível, deixou o Alto-Comando do exército sur­
preso. Brauchitsch e Halder, auxiliados por vários outros generais, uniram-se para
provar-lhe que uma ofensiva imediata estava fora de questão. Levaria vários me­
ses, disseram, para que os tanques usados na Polônia pudessem ser readaptados.
O general Thomas forneceu cifras para demonstrar que a Alemanha, mensalmen­
te, registrava um déficit de 600 mil toneladas de aço. O general von Stülpnagel,
chefe do serviço de intendência do exército, informou que havia munições dispo­
níveis apenas “para cerca de um terço de nossas divisões, para quatorze dias de
combate” — o que, certamente, não era suficiente para ganhar uma batalha contra
a França. O Führer não deu ouvidos ao comandante-em-chefe do exército e ao
chefe do Estado-maior geral quando eles lhe apresentaram um relatório formal
sobre as deficiências do exército em 7 de outubro. O general Jodl, principal paten­
te do OKW, depois de Keitel, preveniu Halder “de que se estava esboçando uma
crise muito séria” por causa da oposição do exército a uma ofensiva no Ocidente,
e que o Führer estava “irritado porque os generais alemães não lhe obedecem”.

haveria logo um armistício. A capital berlinense rejubilou-se ao se espalhar esse rumor. Mulheres já de
idade, nas feiras, tomadas de alegria, atiraram suas cestas para o ar, destruíram suas barracas e dirigi­
ram-se para o bar mais próximo a fim de brindar a paz com schnaps.
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 45

Foi nesse cenário que Hitler convocou os generais às llh, em 10 de outubro.


Não lhes foi pedido que dessem opinião. A Diretiva n2 6, datada da véspera, disse-
lhes o que deviam fazer:

SECRETÍSSIMO

Caso se torne aparente em faturo próximo que a Inglaterra e, com sua


liderança, também a França, não estão dispostas a dar paradeiro à
guerra, estou decidido a agir vigorosa e agressivamente sem grande
demora (...)
Por conseguinte, dou as seguintes ordens:

a — Devem ser feitos preparativos para uma operação de ataque (...)


nas áreas de Luxemburgo, Bélgica e Holanda. Esse ataque deve ser rea­
lizado (...) o mais cedo possível.
b — O objetivo será derrotar fortemente uma parte do exército de ope­
rações da França e dos Aliados que combatem a seu lado, e, ao mesmo
tempo, conquistar uma área tão grande quanto possível na Holanda, na
Bélgica e no norte da França, como base para realizarmos uma promis­
sora guerra aérea e marítima contra a Inglaterra (...)
Peço aos comandantes-em-chefe que me dêem, o mais breve possível,
minuciosos relatórios sobre seus planos com base nesta diretiva, e me
mantenham constantemente informado (...)

O memorando secreto, também datado de 9 de outubro, que Hitler leu para os


chefes militares antes de apresentar-lhes a diretiva, constitui um dos documentos
mais impressionantes que o antigo cabo austríaco escreveu. Mostrou não só do­
mínio da história, do ponto de vista alemão, e de estratégia e tática militares, o que
é notável, como também — o que se provaria mais tarde — a noção profética de
como a guerra se desenvolveria no Ocidente e com que resultados. A luta entre a
Alemanha e as potências ocidentais que — disse ele — vinha prosseguindo desde
a dissolução do Primeiro Reich alemão pelo Tratado de Münster (Vestfália), em
1648, “teria que ser resolvida de um modo ou de outro”. Após a grande vitória na
Polônia, contudo, “não haveria objeção em terminar a guerra”, contanto que as
conquistas na Polônia não ficassem comprometidas.
46 A g u e r r a : p r i m e i r a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

Não é objeto deste memorando examinar as possibilidades nessa dire­


ção ou mesmo levá-las em consideração. Limitar-me-ei exclusivamente
ao outro caso: a necessidade de continuar a luta (...) O alvo da guerra
alemã é destruir militarmente o Ocidente, isto é, destruir a força e a
capacidade das potências ocidentais de novamente poderem opor-se à
consolidação do Estado e ao novo desenvolvimento do povo alemão na
Europa.
No que tange ao mundo exterior, esse alvo eterno terá de sofrer vários
ajustes para propaganda (...) Isso não alterará o objetivo da guerra. É e
será a destruição de nossos inimigos ocidentais.

Os generais tinham se oposto a apressar a ofensiva no Ocidente. O tempo,


porém, favorecia o inimigo, disse-lhes ele. Lembrou-lhes que as vitórias na Polô­
nia foram possíveis porque a Alemanha, na verdade, teve apenas um front. Preva­
lecia ainda essa situação (...) mas por quanto tempo ainda?

Não se pode assegurar neutralidade duradoura com a Rússia soviética,


com tratados ou pactos. Presentemente, o bom senso não admite que a
Rússia abandone sua neutralidade. Daqui a oito meses, um ano ou mes­
mo vários anos, isso talvez fique alterado. Tem-se provado, nos últimos
anos, da parte de todos, o valor insignificante dos tratados. A maior
proteção contra qualquer ataque russo está (...) numa demonstração
imediata do poderio alemão.

Quanto à Itália, a ‘esperança do apoio italiano à Alemanha” dependia, em


grande parte, de Mussolini viver e de haver novos êxitos alemães para atrair o
Duce. Nisso, o tempo constituía também um fator, como o era para a Bélgica e a
Holanda, as quais podiam ser obrigadas pela Inglaterra e pela França a renunciar
à sua neutralidade — coisa que para a Alemanha não convinha esperar. Mesmo
em relação aos Estados Unidos, “tinha de se considerar o tempo como trabalhan­
do contra a Alemanha”.
Havia grandes perigos para a Alemanha, admitiu Hitler, numa guerra longa.
Enumerou vários deles. Os neutros amistosos e inamistosos (parece que se referia
principalmente à Rússia, à Itália e aos Estados Unidos) poderiam ser atraídos para
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 47

o lado oposto, como na Primeira Guerra Mundial. Além disso — continuou — “a


base limitada de alimentos e matérias-primas” da Alemanha faria que se tornasse
difícil encontrar “os meios para levar avante a guerra”. O maior perigo, disse ele,
estava na vulnerabilidade do Ruhr. O ataque a esse centro da produção industrial
alemã “acarretaria o colapso da economia de guerra da Alemanha e, portanto, de
sua capacidade de resistir”.
Deve-se admitir que, nesse memorando, o antigo cabo demonstrou extraordi­
nária compreensão de estratégia e tática militares, se bem que fosse acompanhada
de uma típica falta de moral. Há várias páginas sobre a nova tática desenvolvida
pelos tanques e aviões, na Polônia, e uma análise minuciosa de como essa tática
podia surtir efeito no Ocidente e nos pontos devidos. O principal, declarou ele,
era evitar a guerra de posições de 1914-1918. As divisões blindadas devem ser
usadas nas rupturas decisivas das linhas de defesa.

Elas não devem perder-se por entre o labirinto de infindáveis filas de


casas nos centros das cidades belgas. Não é necessário atacar os centros,
porém (...) que mantenham o fluxo do avanço do exército, impeçam as
linhas de frente de se tornarem estacionárias pelas investidas em massa
nas posições fracamente defendidas.

Era uma predição horrivelmente exata de como a guerra no Ocidente seria


travada. Quando a lemos, admiramo-nos de que ninguém, no lado dos Aliados,
tivesse tido idêntico discernimento.
Segue-se também uma estratégia de Hitler: “A única possível área de ataque”,
disse ele, era através de Luxemburgo, Bélgica e Holanda. Deveria haver em mente,
primeiro, dois objetivos militares: destruir os exércitos holandeses, belgas, france­
ses e britânicos e, com isso, conquistar posição no Canal e mar do Norte, dos
quais a Luftwaffe pudesse ser “empregada brutalmente” contra a Inglaterra.
“Antes de tudo”, disse, voltando à questão tática, “improvisem!”

A natureza peculiar desta campanha talvez torne necessário recorrer ao


máximo à improvisação, concentrando no ataque ou defendendo forças
em certos pontos numa proporção acima da normal [por exemplo, for­
ças de tanques ou antitanques] e, em concentração anormal, em outras.
48 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

Quanto à ocasião do ataque, Hitler declarou a seus relutantes generais, “nunca


seria cedo demais para iniciá-lo. Quaisquer que fossem as circunstâncias, tinha
que realizar-se (se de todo possível) neste outono”.
Os almirantes alemães, contrariamente aos generais, não tiveram necessidade
de ser incitados por Hitler a tomar a ofensiva, não obstante a inferioridade da
armada em relação à britânica. De fato, no fim de setembro e nos primeiros dias
de outubro, Ráder pleiteou junto ao Führer que levantasse todas as restrições que
pesavam sobre a armada. Isso foi feito gradativamente. Em 17 de setembro, um
submarino alemão torpedeou o porta-aviões britânico Courageous a sudoeste da
Irlanda. Em 27 do mesmo mês, Rãder ordenou que os encouraçados de bolso
Deutschland e GrafSpee deixassem suas áreas de espera e começassem a atacar a
navegação britânica. Em meados de outubro, eles destruíram sete navios mercan­
tes britânicos e apreenderam o navio americano City ofFlint.
Em 14 de outubro, o submarino alemão U-47, comandado pelo tenente Gün-
ther Prien, penetrou nas defesas aparentemente inacessíveis de Scapa Flow, a
grande base naval da Inglaterra, e torpedeou, pondo a pique, o encouraçado Royal
Oak que ali estava ancorado, com perda de 786 vidas entre oficiais e marinheiros.
Foi um notável êxito, explorado ao máximo pelo dr. Goebbels em sua propagan­
da, o que enalteceu a marinha de guerra no espírito de Hitler.
Os generais, porém, continuaram a ser um problema. A despeito do longo e
meditado memorando que Hitler lhes endereçou e a exposição da Diretiva ne 6,
instando a que se preparassem para um ataque no Ocidente, procuraram ganhar
tempo. Não que tivessem escrúpulos contra a violação dos territórios belga e ho­
landês; duvidavam, simplesmente, do êxito naquela ocasião. Havia, porém, uma
exceção.
O general Wilhelm Ritter von Leeb, comandante do grupo C de exércitos, que
defrontava os franceses no Reno e ao longo da Linha Maginot, não só se mostrava
cético quanto à vitória no Ocidente como também — sozinho conforme revelam
os documentos existentes — se opôs, pelo menos em parte e com fundamentos de
ordem moral, a que se atacassem a Bélgica e a Holanda, dada sua neutralidade. No
dia que se seguiu à conferência de Hitler com os generais, 11 de outubro, Leeb
preparou, ele mesmo, um longo memorando que enviou a Brauchitsch e outros
generais. O mundo inteiro, escreveu ele, voltar-se-ia contra a Alemanha,
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 49

que, pela segunda vez em 25 anos, ataca a Bélgica! A Alemanha solene­


mente garantira e prometera preservar e respeitar essa neutralidade
fazia poucas semanas!

Finalmente, após detalhar argumentos militares contra um ataque no Ociden­


te, fez um apelo em favor da paz. “Toda a nação”, disse ele, “anseia pela paz.” 21
Mas Hitler, a essa altura, ansiava pela guerra, pela batalha, e já não mais tole­
rava a atitude dos generais, que julgava imperdoável pusilanimidade. Brauchitsch
e Halder, em 14 de outubro, reuniram-se para uma demorada conferência. O che­
fe do exército via “três possibilidades: atacar; esperar para ver; mudanças funda­
mentais”. Halder anotou-as em seu diário nesse dia e, depois da guerra, explicou
que as “mudanças fundamentais” significavam “o afastamento de Hitler”. Mas o
fraco Brauchitsch considerou essa drástica medida “essencialmente negativa e
tendente a tornar-nos vulneráveis”. Chegaram à conclusão de que nenhuma das
três possibilidades oferecia “perspectivas de êxitos decisivos”. A única coisa a fazer
era continuar a ver o que se podia conseguir junto a Hitler.
Brauchitsch visitou o Führer novamente em 17 de outubro, mas seus argu­
mentos, contou ele a Halder, não surtiram efeito. A situação era desesperadora.
Hitler disse-lhes secamente, conforme Halder escreveu em seu diário nesse dia,
que “os ingleses estarão dispostos a conferenciar somente depois de uma surra.
Precisamos atacá-los o mais depressa possível. A data: entre 15 e 20 de novembro,
o mais tardar”.
Houve novas conferências com o senhor supremo da guerra nazista, o qual
traçou, em 27 de outubro, as normas que os generais deviam seguir. Após uma
cerimônia, em que conferiu a 14 deles a comenda de Cavalheiro da Cruz de Fer­
ro, o Führer passou logo a discorrer a respeito do ataque no Ocidente. Quando
Brauchitsch procurou explicar que o exército só estaria preparado para isso dali
a um mês, a 26 de novembro, Hitler respondeu que seria “demasiado tarde”. O
ataque, ordenou ele, começaria em 12 de novembro. Brauchitsch e Halder retira­
ram-se da conferência abatidos e derrotados. Nessa noite, procuraram consolar-
se um ao outro. “Brauchitsch acha-se cansado e descoroçoado”, anotou Halder
em seu diário.
50 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

A conspiração de Zossen para derrubar Hitler

Chegara então o tempo para os conspiradores entrarem mais uma vez em


ação, ou assim pensaram eles. Os infelizes Brauchitsch e Halder viram-se diante
de duas opções: ou levariam a efeito a terceira daquelas possibilidades que ha­
viam examinado em 14 de outubro — o afastamento de Hitler — ou organiza­
riam um ataque no Ocidente, que julgavam desastroso para a Alemanha. Os
conspiradores militares e civis, que subitamente entraram em cena, aconselha­
ram a primeira opção.
Já tinham deixado escapar uma oportunidade uma vez, desde que a guerra
começara. O general von Hammerstein, que havia muito estava afastado da ati­
va, fora novamente chamado para servir temporariamente, às vésperas do ata­
que à Polônia. Foi-lhe dado um comando no Ocidente. Durante a primeira se­
mana da guerra, ele insistiu para que Hitler visitasse o seu quartel-general a fim
de mostrar-lhe que não estava negligenciando naquela frente, enquanto se con­
quistava a Polônia. Hammerstein, na verdade, era um implacável adversário de
Hitler e planejava prendê-lo. Fabian von Schlabrendorff, já havia informado
confidencialmente Ogilvie Forbes sobre esse plano, no dia em que a Inglaterra
declarou a guerra — 3 de setembro — num rápido encontro que tiveram no
hotel Adlon, em Berlim. Mas o Führer, desconfiado de qualquer coisa, declinou
do convite para aquela visita ao antigo comandante-em-chefe do exército, e logo
depois destituiu-o.22
Os conspiradores continuaram a manter contato com os ingleses. Tendo dei­
xado de tomar qualquer medida para impedir que Hitler destruísse a Polônia,
concentraram seus esforços no sentido de evitar que a guerra se espalhasse para o
Ocidente. Os membros civis perceberam, mais do que nunca, que o exército era a
única organização no Reich que possuía os meios de deter Hitler; seu poder e
importância aumentaram enormemente com a mobilização geral e com a vitória
relâmpago na Polônia. Mas a própria expansão do exército, conforme Halder pro­
curou explicar aos civis, constituía também um empecilho. As fileiras de oficiais
ficaram repletas de elementos da reserva, muitos deles nazistas fanáticos, e a mas­
sa das tropas achava-se completamente imbuída da doutrina nazista. Seria difícil,
assinalou Halder — era um grande personagem para salientar dificuldades quer a
amigos quer a inimigos — descobrir uma formação do exército na qual se pudes­
se confiar para um golpe contra o Führer.
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 51

Houve outra consideração que os generais apontaram e que os civis compreen­


deram perfeitamente. Se preparassem uma revolta contra Hitler, a que se seguiria
uma confusão no exército e no país, não se aproveitariam os franceses e ingleses
para atacar no Ocidente, ocupar a Alemanha e impor uma paz severa ao povo
alemão — mesmo que se tivesse desembaraçado de seu líder criminoso? Era, por­
tanto, necessário manter contato com os ingleses a fim de chegar a um entendi­
mento bem claro, pelo qual os Aliados não se aproveitariam da vantagem que lhes
pudesse dar um golpe alemão antinazista.
Serviram-se de vários canais. Um foi criado no Vaticano pelo dr. Josef Müller,
ilustre advogado de Munique, católico devoto, de tão grande robustez física e
tremenda energia e resistência que o apelidaram, na mocidade, de Ochsensepp
(José, o Touro). No princípio de outubro, com a conivência do coronel Oster, da
Abwehr, Müller fez uma viagem a Roma e estabeleceu, no Vaticano, contato com
o ministro britânico junto à Santa Sé. Segundo as fontes alemãs, conseguiu obter
não só a garantia do ministro como também a aquiescência do papa no sentido
de agirem como intermediários entre um novo regime alemão antinazista e a
Inglaterra.23
O outro contato foi em Berna, Suíça. Ali, Weizsácker instalou Theodor Kordt,
até recentemente encarregado dos negócios alemães em Londres, como adido, na
legação alemã, e foi na capital suíça que ele se encontrou vez ou outra com um
s, o dr. Philip Conwell-Evans, que, por ter exercido uma cátedra na Univer­
sidade alemã de Kõnigsberg, tornara-se perito no tocante ao nazismo e, até certo
ponto, um simpatizante da doutrina. Conwell-Evans trouxe, no fim de outubro,
para Kordt, uma promessa solene de Chamberlain de tratar com justiça e com­
preensão o futuro governo alemão antinazista. Na verdade, o inglês apenas trou­
xera trechos do discurso de Chamberlain na Câmara dos Comuns, nos quais,
embora rejeitasse as propostas de paz de Hitler, o primeiro-ministro declarava
que a Inglaterra não desejava4excluir do lugar a que ela tinha direito uma Alema­
nha que quisesse viver com amizade e confiança com as outras nações”. Con­
quanto essa declaração e outras, nesse discurso de natureza amistosa para com o
povo alemão, tivessem sido irradiadas de Londres e, provavelmente, captadas
pelos conspiradores, eles acolheram o penhor trazido pelo representante não-
oficial dos ingleses em Berna como sendo da máxima importância. Com esse
penhor e as garantias dos ingleses que julgavam ter por intermédio do Vaticano,
52 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

os conspiradores voltaram-se esperançosos para os generais alemães. Esperanço­


sos, mas também desesperados. “Nossa única esperança de salvação”, disse Wei-
zsàcker a Hassell em 17 de outubro, “está num coup detat militar. Mas como?”
O tempo era curto. O ataque alemão pela Bélgica e a Holanda estava projetado
para iniciar-se em 12 de novembro. A conspiração tinha de ser levada a efeito
antes dessa data. Conforme Hassell prevenira os outros, seria impossível obter
uma “paz decente” depois que a Alemanha invadisse a Bélgica.
Há vários relatos de participantes da conspiração sobre o que aconteceu de­
pois, ou melhor, porque nada aconteceu de importante; tais relatos são contradi­
tórios e confusos. O general Halder, chefe do Estado-maior geral, foi mais uma
vez a figura-chave, como ao tempo de Munique, mas tornou-se vacilante e inde­
ciso. No seu interrogatório, em Nuremberg, explicou que as “unidades de forças
terrestres” não podiam levar a efeito a revolta, porque tinham “à sua frente um
inimigo completamente armado”. Declarou ter apelado ao “exército metropolita­
no”, que não estava defrontando o inimigo, para que agisse, mas o máximo que
conseguira de seu comandante, general Friedrich (Fritz) Fromm, fora o entendi­
mento de que ele, “como soldado”,24 executaria qualquer ordem de Brauchitsch.
Mas Brauchitsch mostrou-se ainda mais fraco que o seu chefe do Estado-
maior geral. “Se Brauchitsch não tem força de caráter suficiente”, disse o general
Beck a Halder, “para tomar uma decisão, cumpre então a você tomar a decisão e
presenteá-lo com um fait acomplu Halder, porém, insistiu no fato de que a res­
ponsabilidade final seria de Brauchitsch, uma vez que era ele o comandante-em-
chefe do exército. Ia-se, assim, passando a responsabilidade de um para outro.
“Halder”, queixou-se Hassell em seu diário no fim de outubro, “não está à altura
da situação, quer em capacidade, quer em autoridade.” Quanto a Brauchitsch, era,
conforme disse Beck, “uma figura elementar”. Ainda assim, os conspiradores, li­
derados dessa vez pelo general Thomas, economista do exército, e pelo coronel
Oster, da Abwehr, trabalharam junto a Halder que, finalmente, concordou — jul­
gavam eles — em preparar um Putsch assim que Hitler desse a ordem final para o
ataque no Ocidente. Diz o próprio Halder que isso estava condicionado à decisão
final que seria tomada por Brauchitsch. Seja como for, em 3 de novembro, segun­
do o coronel Hans Groscurth, do OKW, um confidente de Halder e Oster mandou
uma mensagem ao general Beck e Goerdeler, dois dos principais conspiradores,
para que se mantivessem de prontidão de 5 de novembro em diante. Zossen,
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 53

quartel-general do comando do exército e do Estado-maior geral, tornou-se o


foco da atividade dos conspiradores.
Cinco de novembro era a data-chave. Nesse dia devia começar o movimento
de tropas para os pontos de assalto fronteiriços à Holanda, à Bélgica e a Luxem­
burgo. Também nesse dia Brauchitsch teve um encontro com Hitler, para dar uma
explicação definitiva. Ele e Halder haviam visitado os grandes comandos do exér­
cito no Ocidente, 2 e 3 de novembro, e sentiram-se fortalecidos com as opiniões
negativas dos comandantes. “Nenhum dos grandes quartéis-generais, confiou
Halder ao seu diário, “julga que a ofensiva (...) ofereça qualquer perspectiva de
êxito.” Assim, suprido com os argumentos que ouvira dos generais na frente oci­
dental, com os dele próprio e os de Halder e Thomas, reunidos num memorando,
e levando consigo, como boa medida, um contra-memorando, no dizer de Halder,
respondendo ao memorando de Hitler, de 9 de outubro, o comandante-em-chefe
do exército alemão dirigiu-se à chancelaria, em Berlim, em 5 de novembro, deci­
dido a convencer Hitler de que não fizesse a ofensiva no Ocidente. Brauchitsch se
uniria então aos conspiradores para afastar o ditador, caso fosse mal-sucedido,
assim compreenderam eles. Estavam excitadíssimos (...) e otimistas. Goerdeler,
segundo Gisevius, já preparava uma lista dos membros de gabinete para o gover­
no antinazista, e teve que ser contido por Beck, o mais comedido em seus atos.
Somente Schacht mostrou-se demasiado cético. “Observem bem”, preveniu ele,
“Hitler vai ficar desconfiado e não tomará decisão alguma amanhã”.
Como sempre, erraram todos.
Brauchitsch, como era de esperar, não chegou a parte alguma com seus me­
morandos ou com os relatórios obtidos dos comandantes das linhas de frente, ou
com seus próprios argumentos. Quando acentuou o mau tempo reinante no Oci­
dente àquela época do ano, Hitler replicou que era tão ruim para o inimigo quan­
to para os alemães, acrescentando que talvez não seria melhor na primavera. De­
sesperado, o chefe do exército informou finalmente ao Führer que o moral das
tropas no Ocidente era idêntico ao que existira em 1917-1918, quando houve
derrotismo, insubordinações e, até, motins no exército alemão.
Ao ouvir isso, Hitler, segundo Halder (cujo diário constitui a principal fonte
para esse encontro altamente secreto), enraiveceu-se. “Em que unidades”, quis
saber, “houve casos de falta de disciplina? Que aconteceu? Onde?” Ele mesmo
voaria até lá no dia seguinte. O pobre Brauchitsch, consoante a anotação de Halder,
54 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

exagerara propositadamente “a fim de dissuadir Hitler”. Sentiu então toda a força


da incontrolável ira do Führer. “Quais as medidas tomadas pelo comando do
exército?” — gritou Hitler. “Quantas sentenças de morte foram executadas?” A
verdade era, esbravejou Hitler, que “o exército não queria lutar”.
“Era impossível prosseguir na conversação”, declarou Brauchitsch no tribunal,
em Nuremberg, ao evocar sua infeliz experiência. “Foi então que saí.” Outros lem-
bravam-se de que ele entrara cambaleante no quartel-general, 28 quilômetros dis­
tante, em tal estado de choque que, a princípio, não pôde narrar de modo coeren­
te o que acontecera.
Foi esse o fim da Conspiração de Zossen. Falhou tão ignobilmente quanto a
Conspiração de Halder, ao tempo de Munique. Todas as vezes que os conspirado­
res traçaram as condições para agir, foram elas atendidas. Dessa vez, Hitler man­
tivera sua decisão para que se efetuasse o ataque em 12 de novembro. De fato,
depois que o desolado Brauchitsch o deixou, mandou a ordem por telefone, a
Zossen, tornando a confirmá-la. Quando Halder pediu que a enviasse por escrito,
atendeu-o imediatamente. Tiveram assim os conspiradores, por escrito, a prova
da qual diziam ter necessidade a fim de derrubar Hitler — a ordem para um ata­
que que eles julgavam desastroso para a Alemanha. Nada mais fizeram, porém.
Foram tomados pelo pânico. Processou-se uma verdadeira luta para queimar do­
cumentos comprometedores e apagar vestígios. Ao que parece, somente o coronel
Oster manteve a calma. Mandou um aviso às legações belga e holandesa, em Ber­
lim, para que esperassem um ataque na manhã de 12 de novembro.25 Partiu de­
pois para a frente ocidental, numa expedição inútil: ver se podia interessar o ge­
neral von Witzleben na derrubada de Hitler. Os generais, Witzleben inclusive,
sabiam quando estavam derrotados. O antigo cabo havia, mais uma vez, triunfa­
do sobre eles com a maior facilidade. Dias depois, Rundstedt, comandando o gru­
po A do exército, reuniu seus comandantes de corpos e divisões para discutir os
detalhes do ataque. Conquanto ainda duvidasse do êxito, aconselhou os generais
a enterrar as dúvidas. “Foi dada ao exército uma tarefa, e ele terá que cumpri-la!”
Hitler, depois de quase ter provocado em Brauchitsch um colapso nervoso,
ocupou-se no dia seguinte em preparar o texto das proclamações aos povos da
Holanda e da Bélgica, justificando o ataque a eles. Halder anotou o pretexto: “Os
franceses estão marchando para a Bélgica.”
Logo no dia seguinte, 7 de novembro, para alívio dos generais, Hitler adiou a
data do ataque.
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 55

SECRETÍSSIMO

Berlim, 7 de novembro de 1939


(...) O Führer e comandante supremo das forças armadas, após ouvir os
relatórios sobre a situação meteorológica e dos transportes ferroviários,
ordenou:
O dia-A fica protelado por três dias. A próxima decisão será dada às
18h de 9 de novembro de 1939.
Keitel

Foi essa a primeira das 14 ordens de Hitler, sobre o adiamento durante o outo­
no e o inverno, das quais se encontraram cópias nos arquivos do OKW ao término
da guerra.26Elas demonstraram que, em tempo algum, o Führer abandonara por
um momento sua decisão de atacar no Ocidente: adiou o ataque, simplesmente,
de uma semana para outra. Em 9 de novembro, foi ele adiado para o dia 19; em 13 de
novembro, para o dia 22 do mesmo mês, e assim por diante, com seis dias de aviso
prévio de cada vez, citando-se geralmente o tempo como motivo. Talvez o Führer
estivesse, até certo modo, submetendo-se à opinião dos generais. Era possível,
porém, que se tivesse convencido de que o exército não estava preparado. Certa­
mente os planos estratégicos e táticos não tinham sido bem calculados, uma vez
que ele constantemente os modificava.
Talvez tivessem surgido outras razões para o primeiro adiamento da ofensiva
que ordenara. Em 7 de novembro, o dia em que foi tomada a decisão, os alemães
ficaram sumamente embaraçados com a declaração que o rei dos belgas e a rainha
da Holanda fizeram em conjunto, oferecendo-se como mediadores da paz “antes
que a guerra na Europa começasse com toda a violência”. Em tais circunstâncias,
teria sido difícil convencer quem quer que fosse — como Hitler procurava fazer
nas proclamações que elaborava — de que o exército alemão estava marchando
em direção aos Países Baixos porque soubera que o exército francês estava prestes
a marchar para a Bélgica.
Era também possível que Hitler tivesse sabido que seu ataque contra a peque­
nina Bélgica neutra não viesse a ter o cunho de surpresa com o qual contava. No
fim de outubro, Goerdeler fez uma viagem a Bruxelas com uma mensagem secre­
ta de Weizsàcker instando junto ao embaixador alemão, Bülow-Schwante, para
que prevenisse o rei, particularmente, da “extrema gravidade da situação”. Foi o
56 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

que fez o embaixador. Imediatamente o rei Leopoldo precipitou-se para Haia a


fim de consultar a rainha e, com ela, elaborar uma declaração. Mas os belgas tive­
ram informações ainda mais específicas. Algumas vieram de Oster, conforme vi­
mos. Em 8 de novembro, Bülow-Schwante telegrafou a Berlim prevenindo que o
rei Leopoldo comunicara à rainha da Holanda que possuía “informações exatas”
sobre uma concentração de tropas alemãs na fronteira, o que indicava uma ofen­
siva alemã através da Bélgica “dali a dois ou três dias”.27
Foi então que, na noite de 8 de novembro e à tarde do dia seguinte, verificaram-
se dois estranhos acontecimentos: a explosão de uma bomba que por pouco não
matava Hitler e o seqüestro de dois agentes ingleses pelas S.S., na Holanda, nas ime­
diações da fronteira alemã, o que, a princípio, desviou a atenção do chefe nazista
de seus planos de atacar o Ocidente; sustentou-lhe, entretanto, o prestígio na
Alemanha e assustou os conspiradores de Zossen, os quais, na verdade, nada ti­
nham a ver com ambos os casos.

O seqüestro praticado pelos nazistas e


a explosão da bomba na cervejaria

Na noite de 8 de novembro, 12 minutos após Hitler ter terminado seu discurso


anual aos companheiros da Velha Guarda do partido, na Bürgerbráukeller, em
Munique, comemorando o Putsch que tivera sua origem no salão da cervejaria
em 1923 — um discurso mais curto que de costume — explodiu uma bomba num
pilar logo atrás da plataforma do orador, matando sete pessoas e ferindo 63. Na­
quele momento, já todos os líderes nazistas importantes, com Hitler à frente, ha­
viam deixado precipitadamente o edifício, embora fosse costume deles, em anos
anteriores, permanecerem ali por mais algum tempo bebendo cerveja e trocando
reminiscências com os velhos companheiros sobre o Putsch inicial.
Na manhã seguinte, o Võlkischer Beobachter, o jornal de Hitler, foi o único que
publicou a história do atentado contra a vida do Führer. Lançava a culpa sobre o
serviço secreto britânico e até mesmo sobre Chamberlain, pela perfídia. “Essa
tentativa de assassinato”, escrevi essa noite em meu diário, “fortalecerá Hitler na
opinião pública e iniciará o ódio contra a Inglaterra (...) A muitos isso está chei­
rando a outro caso idêntico ao do incêndio do Reichstag.”
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 57

Que ligação podia ter o serviço secreto britânico com o fato, senão o que se
passasse na mente febril de Goebbels? Procurou-se logo estabelecer a relação.
Uma ou duas horas após a explosão da bomba em Munique, Heinrich Himmler,
chefe das S.S. e da Gestapo, telefonou para um de seus jovens subordinados então
em ascensão nas S.S., Walter Schellenberg, em Düsseldorf, e, por ordem do
Führen mandou-o atravessar no dia seguinte a fronteira da Holanda e seqüestrar
dois agentes do serviço secreto britânico com os quais ele, Schellenberg, estivera
em contato.
A ordem de Himmler deu ensejo a um dos mais bizarros incidentes da guerra.
Durante mais de um mês, Schellenberg, que, à semelhança de Alfred, era um fa­
cínora intelectual formado em universidade, estivera se encontrando na Holanda
com dois funcionários do serviço secreto britânico: o capitão S. Payne Best e o
major R. H. Stevens. A eles intitulava-se “major Schaemmer, oficial antinazista no
OKW (Schellenberg adotou o nome de um major ainda vivo), e contara a história
convincente de como os generais alemães estavam decididos a derrubar Hitler. O
que desejavam dos ingleses — dissera-lhes — eram garantias de que o governo de
Londres trataria com correção o novo regime antinazista. Como os ingleses sa­
biam por intermédio de outras fontes (conforme já vimos) de uma conspiração
militar na Alemanha, cujos membros desejavam a mesma espécie de garantias,
Londres interessou-se em desenvolver novos contatos com o “major Schaemmer.
Best e Stevens ofereceram-lhe um pequeno aparelho de rádio transmissor e recep­
tor. Disso resultaram inúmeras comunicações e novos encontros em várias cida­
des holandesas. Em 7 de novembro, quando eles se encontraram em Venlo, cidade
holandesa na fronteira alemã, os agentes ingleses deram a “Schaemmer uma
mensagem um tanto vaga recebida de Londres para os chefes da resistência alemã,
a qual expunha em termos gerais as bases para uma paz justa com o regime anti­
nazista. Combinou-se que “Schaemmel” traria um dos chefes — um general ale­
mão — a Venlo no dia seguinte, para encetarem as negociações definitivas. A
reunião, entretanto, foi adiada para o dia 9.
Até aquele momento eram claros os objetivos de ambos os lados. Os ingleses
estavam procurando estabelecer contato com os putschistas militares alemães, a
fim de os encorajar e auxiliar. Himmler tentava descobrir, por intermédio dos
ingleses, os conspiradores alemães e suas ligações com o serviço secreto do inimi­
go. Evidencia-se que Himmler e Hitler já suspeitavam de alguns generais e de
58 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

homens — como Oster e Canaris — da Abwehr (...) Mas, já na noite de 8 de no­


vembro, Hitler e Himmler viram que precisavam alcançar um novo objetivo: se­
qüestrar Best e Stevens e culpar os dois agentes do serviço secreto britânico pela
explosão da bomba na cervejaria.
Entrou então em cena um personagem conhecido. Alfred Naujocks, que ha­
via preparado o “ataque dos poloneses” à estação de rádio alemã de Gleiwitz,
surgiu comandando 12 robustos homens do serviço de segurança (S.D.) para
auxiliar Schellenberg a efetuar o seqüestro. Saíram-se bem na empreitada. Às 16h
de 9 de novembro, enquanto Schellenberg tomava um aperitivo no terraço de um
café em Venlo, aguardando o momento de encontrar-se com Best e Stevens, eles
chegaram num Buick e estacionaram-no atrás do café. Foram atingidos por uma
saraivada de balas, vindas de um carro das S.S. repleto de comparsas de Nau­
jocks. O tenente Klop, oficial do serviço secreto holandês que sempre acompa­
nhava os dois ingleses em suas conversações com Schellenberg, caiu mortalmente
ferido. Best e Stevens foram atirados para o carro das S.S. “como se fossem feixes
de feno” — segundo Schellenberg lembrou mais tarde — juntamente com o feri­
do Klop, e transportados para a Alemanha, tendo o carro cruzado a fronteira a
toda velocidade.*28
E assim, em 21 de novembro, Himmler anunciou ao povo que a trama para o
assassínio de Hitler, na cervejaria, fora solucionada. Realizara-se por instigação
do serviço secreto britânico, tendo sido presos dois de seus chefes, Stevens e Best,
“na fronteira germano-holandesa”, no dia seguinte ao da explosão da bomba. Ci­
tou-se como tendo perpetrado o atentado Georg Elser, carpinteiro alemão comu­
nista residente em Munique.
O relato minucioso que Himmler fez sobre o crime me pareceu suspeito,
conforme escrevi em meu diário no mesmo dia. Mas o que com isso conseguiu
não deixou de ser real. “O que Himmler e seu bando evidentemente planejam”,

* Segundo relato holandês de cunho oficial, que veio à luz depois da guerra, o carro inglês no qual vi­
nham Stevens, Best e Klop foi rebocado pelos alemães pela fronteira, que ficava a cerca de 40 metros.
No dia seguinte, 10 de novembro, o governo holandês solicitou nove vezes por escrito, em freqüentes
intervalos, que repatriassem Klop e o chofer holandês, exigindo também que a Alemanha investigasse
aquela violação da neutralidade holandesa. Só recebeu resposta em 10 de maio, quando Hitler justifi­
cou seu ataque contra os Países Baixos alegando que a questão de Venlo havia provado a cumplicidade
dos holandeses còm o serviço secreto britânico. Klop morreu dias depois, vítima dos ferimentos rece­
bidos. Best e Stevens sobreviveram ainda cinco anos em campos de concentração dos nazistas.29
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 59

registrei, “é convencer o ingênuo povo alemão de que o governo britânico tentava


vencer a guerra assassinando Hitler e seus principais auxiliares.”
O mistério sobre quem preparou o atentado não ficou completamente escla­
recido. Elser, conquanto não tivesse a imbecilidade daquele Marinus van der
Lubbe do incêndio do Reichstag, era um homem de limitada inteligência, se bem
que muito sincero. Não somente se confessou culpado de ter fabricado e feito
explodir a bomba, como também se vangloriou do fato. Ainda que, naturalmente,
nunca tivesse se encontrado com Best e Stevens antes do atentado, travou conhe­
cimento com Best durante os longos anos passados no campo de concentração de
Sachsenhausen. Ali contou ao inglês uma longa e complicada — e não muito ló­
gica — história.
Certo dia, em outubro, no campo de concentração de Dachau, onde estava
encarcerado desde meados do verão como simpatizante comunista — relatou ele
— foi chamado ao escritório do comandante do campo, onde o apresentaram a
dois estrangeiros. Explicaram-lhe a necessidade de eliminar alguns partidários
Kque estavam traindo” o Führer, fazendo explodir uma bomba na cervejaria ime­
diatamente depois que Hitler fizesse seu discurso habitual na noite de 8 de novem­
bro e deixasse o local. Devia colocar a bomba num pilar atrás da plataforma dos
oradores. Como Elser era hábil carpinteiro, eletricista e artífice, deram-lhe a en­
tender que era o homem indicado para aquele trabalho. Se o fizesse, arranjariam
para que pudesse escapar para a Suíça, munido de uma grande soma de dinheiro
que lhe permitiria ali viver com conforto. Para demonstrar que falavam seriamen­
te, prometeram-lhe, nesse ínterim, um tratamento melhor no campo de concen­
tração: alimentação melhor, trajes civis, grande quantidade de cigarros — ele era
fumante inveterado — mesa de carpinteiro e ferramentas. Ali, Elser construiu
uma bomba grosseira porém eficiente, dotando-a com o mecanismo de um reló­
gio despertador com oito dias de corda e um dispositivo pelo qual se podia deto-
ná-la. Elser afirmou que o levaram uma noite, no princípio de novembro, à adega
da cervejaria, onde instalou seu engenho no pilar apropriado.
Na noite de 8 de novembro, mais ou menos à hora em que a bomba devia de­
tonar, Elser foi levado pelos cúmplices — disse — para a fronteira suíça, recebeu
uma soma em dinheiro e — interessante — um cartão-postal mostrando a foto­
grafia do interior do salão da cervejaria, com o pilar no qual colocara a bomba
assinalado por uma cruz. Mas, em vez de ser auxiliado na travessia da fronteira
6o A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

— e isso parece ter surpreendido um pouco a inteligente criatura —, foi agarrado


pela Gestapo com o cartão-postal e tudo. Mais tarde foi instruído pela Gestapo
para que implicasse Best e Stevens por ocasião do julgamento que o Estado ia fa­
zer, e no qual se tornaria o alvo da atenção geral.*
Não se realizou, porém, o julgamento. Sabemos agora que Himmler, por mo­
tivos que só ele conhecia, não ousou levar a questão a julgamento. Sabemos tam­
bém — agora — que Elser continuou a viver em Sachsenhausen e depois nos
campos de concentração de Dachau, onde recebeu, aparentemente por ordem ex­
pressa de Hitler, que pessoalmente tanto ganhara com o atentado, um tratamento
humano, dadas as circunstâncias. Mas Himmler manteve-o sob vigilância até o
fim. Não convinha deixar o carpinteiro sobreviver à guerra e contar sua história.
Logo depois do término da guerra, em 16 de abril de 1945, a Gestapo anunciou
que Georg Elser morreu num bombardeio dos Aliados, no dia anterior. Sabemos
agora que a Gestapo o assassinou.30

Hitler dirige-se aos generais

Tendo escapado ao assassinato, ou ao que fizeram parecer que fosse, e domi­


nado a rebeldia de seus generais, Hitler prosseguiu em seus planos para o grande
ataque no Ocidente. Em 20 de novembro, expediu a Diretiva nQ8 para a orienta­
ção da guerra, ordenando a manutenção do “estado de alerta” de modo a “tirar
proveito imediato das condições do tempo” e traçando planos para a destruição
da Holanda e da Bélgica. Depois, para incutir coragem nos timoratos e estimulá-
los a manter o espírito que julgava necessário à véspera de grandes batalhas, con­
vocou os generais-comandantes e os membros do Estado-maior geral para uma
reunião em 23 de novembro, ao meio-dia.

* Posteriormente, em Dachau, Elser contou história semelhante ao pastor Niemõller que, desde então,
manifestou sua convicção pessoal de que o caso da bomba fora aprovado por Hitler a fim de aumentar
sua própria popularidade e estimular o povo para a guerra. É apenas um ato de justiça acrescentar que
Gisevius, arquiinimigo de Hitler, Himmler e Schellenberg, acreditava — conforme depôs em Nurem-
berg e escreveu em seu livro — que Elser tentara realmente matar Hitler e que não houve cúmplices
nazistas. Schellenberg, que merece menos fé, afirmou que, conquanto suspeitasse de Himmler e
Heydrich, chegara mais tarde à conclusão, depois de interrogar o carpinteiro e ler os interrogatórios
feitos enquanto Elser se achava primeiro sob o efeito de drogas e depois hipnotizado, que se tratava de
uma verdadeira tentativa de assassinato.
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 6 l

Foi uma das falas secretas reveladoras que dirigiu a seus principais chefes mi­
litares no sentido de animá-los, e, graças à descoberta que os Aliados fizeram em
alguns dos arquivos do OKW, em Flensburg, foi ela preservada na forma de ano­
tações feitas por um participante não identificado.31

O objetivo desta conferência [começou Hitler] é dar uma idéia dos inú­
meros pensamentos que me governam em face dos futuros aconteci­
mentos e informar minhas decisões.

O passado, o presente e o futuro dominavam-lhe o espírito. Falou àquele limi­


tado grupo com franqueza brutal e grande eloqüência, fazendo um magnífico
resumo de tudo que lhe vinha passando pelo cérebro pervertido, porém fértil, e
prevendo com implacável exatidão a forma das coisas futuras. É difícil imaginar
que alguém, que o ouvisse, pudesse ainda alimentar dúvidas de que o homem que
tinha em suas mãos o destino da Alemanha — e do mundo — se transformara
inegavelmente num perigoso megalomaníaco.

Tive a intuição clara do provável curso da história [disse ao discorrer


sobre suas primeiras lutas] e a vontade firme de tomar decisões bru­
tais (...) Quanto a este último fator, devo citar, com toda a modéstia,
minha própria pessoa como sendo insubstituível. Nenhum militar ou
civil poderá substituir-me. Poderão repetir-se as tentativas de assassi­
nato. Estou convencido da força de meu intelecto e de minhas deci­
sões (...) Ninguém jamais realizou o que tenho realizado (...) Conduzi
o povo alemão a grandes alturas, mesmo que o mundo agora nos odeie
(...) O destino do Reich depende somente de mim. Agirei de acordo
com isso.

Censurou os generais pelas dúvidas quando tomou a “dura decisão” de aban­


donar a Liga das Nações, decretar a conscrição, ocupar a Renânia, fortificá-la e
conquistar a Áustria. “Era muito reduzido o número de pessoas que confiava em
mim”, disse.
“O passo seguinte”, declarou ao descrever suas conquistas, com um cinismo
que é lamentável Chamberlain não ter presenciado, “foi a Boêmia, a Morávia e a
Polônia”.
62 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

Tornou-se-me claro, desde o primeiro momento, que eu não podia sa­


tisfazer-me com o território dos Sudetos alemães. Aquilo fora apenas
uma solução parcial. Tomou-se a decisão de marchar contra a Boêmia.
Seguiu-se depois o estabelecimento do protetorado e, com isso, assen­
taram-se as bases para a conquista da Polônia, mas eu não estava ainda
muito certo, nessa ocasião, se devia começar contra o leste e depois
contra o Ocidente, ou vice-versa. Dada a pressão dos acontecimentos,
coube-me primeiro lutar contra a Polônia. Alguém poderia acusar-me
de desejar lutar, lutar sempre. Na luta, vejo o destino de todas as criatu­
ras. Ninguém pode deixar de lutar se não quiser perecer.
O aumento cada vez maior da população [alemã] requeria um Lebens-
raum maior. Meu objetivo era criar uma relação racional entre o núme­
ro de habitantes e o espaço para eles viverem. Daí devia começar a luta.
Nenhuma nação pode evitar a solução desse problema; caso contrário
terá de capitular e decair gradualmente (...) Não adianta, para isso,
qualquer habilidade calculada: solução, somente com a espada. Um
povo incapaz de demonstrar energia para lutar deve retirar-se (...)

O mal dos dirigentes alemães do passado, incluindo Bismarck e Moltkee —


disse Hitler — foi “insuficiência de firmeza. A solução somente é possível atacan­
do um país no momento favorável”. O desconhecimento disso resultou na guerra
de 1914 “nas várias frentes. Ela não trouxe uma solução para o problema”.

O segundo ato desse drama está sendo escrito hoje [prosseguiu Hitler].
Pela primeira vez, em 67 anos, não temos de travar uma guerra em duas
frentes (...) Mas ninguém pode saber quanto tempo isso permanecerá
assim (...) Basicamente eu não organizei as forças armadas para não
atacarem. Eu trazia sempre comigo a decisão de atacar.

Os pensamentos daquelas bênçãos do momento, de ter uma só frente de guer­


ra, levaram o Führer a abordar a questão da Rússia.

A Rússia, presentemente, não oferece perigo. Acha-se enfraquecida por


muitos fatores de ordem interna. Além disso, temos um tratado com
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 63

ela. Contudo, mantêm-se os tratados enquanto atendem a um objetivo.


A Rússia o manterá somente enquanto ela mesma considerar que ele
lhe traz benefício (...) Ela ainda tem objetivos muito importantes, aci­
ma de todos o fortalecimento de sua posição no Báltico. Somente pode­
remos combater a Rússia quando estivermos livres no Ocidente.

Quanto à Itália, tudo dependia de Mussolini, “cuja morte poderá alterar tudo
(...) Do mesmo modo que o trespasse de Stalin, o do Duce poderá trazer-nos um
grande perigo. Eu mesmo já passei pela experiência de como a morte de um esta­
dista pode ocorrer facilmente”. Hitler não julgava que os Estados Unidos ainda
constituíssem perigo, “por causa das leis de neutralidade”, nem que o auxílio deles
aos Aliados fosse ainda de grande monta. O tempo, contudo, favorecia o inimigo.
“O momento é agora favorável; talvez não o seja mais daqui a seis meses.” Portanto:

Minha decisão é imutável. Atacarei a França e a Inglaterra no momento


mais favorável e o mais breve possível. A quebra da neutralidade da
Bélgica e da Holanda não tem importância. Ninguém questionará isso
quando tivermos triunfado. Não vamos justificar a quebra de neutrali­
dade com a mesma tolice que se fez em 1914.

O ataque no Ocidente — declarou Hitler aos generais — significa “o fim da


Guerra Mundial, não uma simples operação. Não diz respeito a uma única ques­
tão, porém à existência ou não existência da nação”. Lançou-se depois em sua
peroração.

O espírito dos grandes homens de nossa história deve estimular-nos a


todos. O destino não exige, de nós, mais do que exigiu dos grandes
homens da história da Alemanha. Enquanto eu viver, pensarei apenas
na vitória do meu povo. Não recuarei perante coisa alguma e aniquila­
rei todo aquele que se opuser a mim (...) Quero aniquilar o inimigo!

Foi um discurso eficaz, e tanto quanto se sabe nenhum dos generais ergueu a voz
quer para exprimir as dúvidas que quase todos os combatentes do exército com­
partilhavam acerca do êxito de uma ofensiva naquela ocasião, quer para contestar
64 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

a imoralidade de um ataque à Bélgica e à Holanda, cujas, neutralidade e fronteiras


o governo alemão havia solenemente garantido. Segundo alguns dos generais pre­
sentes, as observações de Hitler, sobre a fraqueza de espírito que reinava nos altos
escalões do exército e no Estado-maior geral, foram muito mais fortes que as des­
critas no relato anterior.
Horas depois, nesse mesmo dia, às 18h, o senhor supremo da guerra nazista
mandou chamar novamente Brauchitsch e Halder, e, ao primeiro — o chefe do
Estado-maior geral esperou do lado de fora da sala de Hitler como se fosse um
menino insubordinado — fez uma severa preleção sobre o “espírito de Zossen”. O
Alto-Comando do exército (OKH) estava completamente dominado pelo derro­
tismo, acusou Hitler, e o Estado-maior geral de Halder adotara “uma atitude tei­
mosa que o impedia de concordar com o Führer”. Exausto, Brauchitisch, segundo
seu próprio testemunho prestado perante o tribunal de Nuremberg, apresentou
sua resignação, mas Hitler rejeitou-a lembrando-lhe asperamente, conforme o
comandante-em-chefe se lembrava, “que eu tinha de cumprir meu dever e minhas
obrigações como qualquer outro soldado”. Nessa noite, Halder escreveu uma nota
taquigráfica em seu diário: “Um dia de crise!”32
Em muitos sentidos, o dia 23 de novembro de 1939 foi uma data importante.
Assinalou o triunfo final e decisivo de Hitler sobre o exército, o qual, na Primeira
Guerra Mundial, tinha afastado do poder o imperador Guilherme II e assumido
a suprema autoridade política e a autoridade militar na Alemanha. Desse dia em
diante, o antigo cabo austríaco considerou não só seu julgamento político, mas,
também, seu julgamento militar superior ao de seus generais e, portanto, recu­
sou-se a ouvir-lhes a opinião ou a permitir-lhes críticas (...) do que resultou, final­
mente, um desastre para todos.
“Verificou-se uma brecha”, declarou Brauchitsch no tribunal de Nuremberg ao
descrever os acontecimentos de 23 de novembro, “que se fechou mais tarde, mas
que não ficou completamente reparada.”
Além disso, a arenga de Hitler aos generais, naquele dia de outono, havia des-
coroçoado quaisquer desejos que Halder e Brauchitsch pudessem ter, por mais
ardentes que fossem, para derrubá-lo. Prevenira-os de que aniquilaria todo aque­
le que se opusesse a ele, e Halder declarou que Hitler acrescentara, de modo espe­
cífico, que esmagaria qualquer oposição “com força brutal”, qualquer oposição do
Estado-maior geral contra ele. Halder, naquele momento pelo menos, não era
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 65

homem para enfrentar aquelas terríveis ameaças. Quando, quatro dias depois, em
27 de novembro, o general Thomas procurou-o a instâncias de Schacht e Popitz,
e pediu-lhe que insistisse junto a Brauchitsch para que tomasse uma medida con­
tra o Führer (“Hitler tem que ser afastado!” Halder recordou-se mais tarde de
ter-lhe dito Thomas), o chefe do Estado-maior geral lembrou-lhe todas as “difi­
culdades”. Não estava ainda certo, disse, de que Brauchitsch “tomasse parte ativa
num coup d e ta tV 3
Dias depois, Halder apresentou a Goerdeler as razões mais ridículas para não
prosseguir com aqueles planos de quererem desembaraçar-se do ditador nazista.
Hassell anotou-as em seu diário. Além do fato de que “a gente não se rebela quan­
do se defronta o inimigo”, Halder acrescentou, segundo Hassell, os seguintes pon­
tos: “Devemos dar a Hitler a última chance de libertar o povo alemão da escravi­
dão do capitalismo inglês (...) Não temos ainda um grande homem à mão (...) A
oposição não se acha suficientemente amadurecida (...) Não se pode confiar em
oficiais jovens”. O próprio Hassell apelou ao almirante Canaris, um dos primeiros
conspiradores, para que levasse a coisa avante, mas nada conseguiu. “Ele renun­
ciou à esperança de que os generais resistissem”, registrou o antigo embaixador no
seu diário em 30 de novembro, “e acha que seria inútil tentar qualquer coisa mais
nesse sentido”. Hassell anotou, pouco tempo depois, que “Halder e Brauchitsch
não passam de lacaios de Hitler”.34

O terror nazista na Polônia: primeira fase

Não haviam decorridos muitos dias, após o ataque contra a Polônia, já meu
diário acumulava anotações sobre o terror nazista no país conquistado. Mais tar­
de se saberia que muitos outros diários estavam também repletos delas. Em 19 de
outubro, Hassell relatou ter tido notícias sobre os “chocantes atos bestiais pratica­
dos pelas S. S., especialmente contra os judeus”. Pouco tempo depois, ele registra­
va um fato narrado por um proprietário de Posen.

A última coisa que tinha visto fora um chefe distrital do partido, bêbado,
que ordenara que se abrissem as portas da cadeia; ele atirou contra cinco
meretrizes e tentou violentar outras duas.35
66 A GUERRA*. PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOM ENTO DECISIVO

Em 18 de outubro, Halder anotou no diário os pontos principais de uma con­


versa que teve com o general Eduard Wagner, chefe do serviço de intendência do
exército, que conferenciara com Hitler nesse dia, acerca do futuro da Polônia.
Esse futuro seria cruel.

Não pretendemos reconstruir a Polônia (...) Não para ser um Estado


modelo segundo os padrões alemães. Deve-se impedir que a classe cul­
ta se estabeleça como classe dirigente. Deve-se manter um baixo pa­
drão de vida. Escravos baratos (...)
Cumpre fazer uma desorganização total! O Reich dará ao general-go-
vernador os meios para executar esse plano diabólico.

O Reich os deu.
Pode-se fazer agora um breve relato do começo do terror nazista na Polônia,
conforme revelam os documentos capturados aos alemães e as provas apresen­
tadas nos vários julgamentos realizados em Nuremberg. Era apenas um precur­
sor de atos atrozes e tenebrosos que os alemães eventualmente iriam infligir a
todos os povos conquistados. Mas, do primeiro ao último, mais que em qual­
quer outro lugar, o pior foi na Polônia. Ali, o barbarismo nazista atingiu uma
incrível profundidade.
Pouco antes de ser desfechado o ataque contra a Polônia, Hitler informou os
generais, na conferência de Obersalzberg, em 22 de agosto, que iam acontecer
coisas que “não seriam do agrado dos generais alemães” e preveniu-os de que
“não deveriam interferir em tais questões e sim limitar-se a seus deveres milita­
res”. Sabia do que falava. Este autor logo ficou assoberbado, tanto em Berlim como
na Polônia, de relatórios sobre massacres nazistas. O mesmo se dava com os gene­
rais. Em 10 de setembro, com a campanha da Polônia em livre curso, Halder ano­
tou em seu diário um exemplo que logo se tornou conhecidíssimo em Berlim.
Alguns brutamontes pertencentes a um regimento de artilharia das S. S., tendo
feito cinqüenta judeus trabalharem o dia todo no serviço de reparo de uma ponte,
levaram-nos depois para uma sinagoga e, segundo as próprias palavras de Halder,
“massacraram-nos”. Até o general von Küchler, comandante do 32Exército, que mais
tarde iria ter suas apreensões, recusou-se a confirmar as leves sentenças que a
corte marcial aplicou contra os criminosos — um ano de prisão —, alegando que
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 6 ~J

o tribunal tinha sido muito benevolente. Mas o comandante-em-chefe do exérci­


to, Brauchitsch, revogou-as completamente, depois da intervenção de Himmler,
com a escusa de que havia sido dada uma “anistia geral”.
Os generais alemães que se tinham na conta de sinceros cristãos, acharam a
situação embaraçosa. Em 12 de setembro, houve uma conferência no vagão ferro­
viário do Führer; entre Keitel e o almirante Canaris, que protestou contra as atro­
cidades na Polônia. O lacaio-chefe do OKW respondeu rispidamente que “o
Führer já tinha tomado decisão nesta questão”. Se o exército “não quisesse partici­
par dessas ocorrências, teria que aceitar as S.S. e a Gestapo como rivais” — isto é,
teria que aceitar os comissários das S.S. em cada unidade militar “para levar a
efeito as execuções”.

Assinalei ao general Keitel [escreveu Canaris no seu diário que foi exi­
bido em Nuremberg] que se arquitetavam execuções em grande escala
na Polônia, especialmente da nobreza e do clero. O mundo, eventual­
mente, haveria de responsabilizar a Wehrmacht por esses atos.36

Himmler era demasiado esperto para deixar que os generais se esquivassem


de parte da responsabilidade. Em 19 de setembro, Heydrich, seu principal assis­
tente, fez uma visita ao Alto-Comando do exército e informou ao general Wagner
dos planos das S.S. para “limpar a casa, dos judeus (poloneses), da classe culta, do
clero e da nobreza”. A reação de Halder a tais planos foi registrada no seu diário
depois da informação que lhe prestou Wagner:

O exército insiste em que a “limpeza da casa” seja protelada até que ele
se tenha retirado e o país seja confiado à administração civil. Princípio
de dezembro.

Esse breve registro do chefe do Estado-maior geral fornece a chave para com­
preender a moral dos generais alemães. Não se oporiam seriamente à “limpeza
da casa” — isto é, à eliminação dos judeus poloneses, da classe culta, do clero e da
nobreza. Pediriam simplesmente que fosse protelada até que tivessem saído da Po­
lônia, podendo, assim, fugir à responsabilidade. E, naturalmente, tinha que se
considerar a opinião pública do estrangeiro. Como Halder anotou em seu diário,
68 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o MOMENTO DECISIVO

no dia seguinte, após demorada conferência com Brauchitsch sobre a limpeza na


Polônia:

Nada deve acontecer que proporcione aos países estrangeiros oportuni­


dade de desencadear qualquer espécie de propaganda sobre atrocida­
des baseadas em tais acidentes. O clero católico! Impraticável nesta
ocasião.

No dia seguinte, 21 de setembro, Heydrich enviou ao Alto-Comando do exér­


cito uma cópia de seus planos iniciais para a “limpeza da casa”. Como primeiro
passo, os judeus deveriam ser transportados para as cidades (onde seria fácil cer­
cá-los para seu extermínio). “A solução final”, declarou ele, levaria algum tempo
para ser atingida e devia ser mantida “estritamente secreta”, mas nenhum general
que tenha lido o memorando confidencial podia ter duvidado de que a “solução
final” era o extermínio.37 Decorridos dois anos, quando chegou a ocasião de exe­
cutá-la, tornou-se um dos nomes mais sinistros do código empregado pelos altos
funcionários alemães a fim de ocultar um dos mais horríveis crimes praticados
pelos nazistas durante a guerra.
O que restou da Polônia, depois que a Rússia se apoderou de seu quinhão a
leste e a Alemanha anexou formalmente suas antigas províncias e alguma parte
adicional do território a oeste, foi designado por um decreto do Führer, de 12 de
outubro, como o governo geral da Polônia. Hans Frank foi nomeado governador-
geral, sendo seu representante Seyss-Inquart, o quislingv ienense. Frank era o exem­
plo típico do facínora intelectual nazista. Ingressara no partido em 1927, logo
depois de se formar numa faculdade de direito, e adquirira rapidamente renome
como orientador jurídico do movimento. Sagaz, enérgico, muito lido não só em
direito como em literatura geral, apreciador das artes, especialmente da música,
tornou-se uma força na profissão de advogado depois que os nazistas assumiram
o poder. Serviu primeiro como ministro da Justiça da Baviera, depois como mi­
nistro sem pasta do Reich e presidente da Academia de Direito e da Associação
dos Advogados Alemães. Uma figura morena, elegante, pai de cinco filhos, sua
inteligência e cultura contrabalançaram em parte seu primitivo fanatismo e até
esse tempo fizeram-no um dos menos repulsivos elementos que cercavam Hitler.
Por trás desse verniz de civilizado, porém, estava o assassino frio. O diário de 42
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 69

volumes que manteve de sua vida e de sua obra, exibido em Nuremberg,* foi um
dos mais estarrecedores documentos a saírem do tenebroso mundo nazista, des­
crevendo o seu autor como um homem frio, eficiente, cruel e sedento de sangue.
Aparentemente, não omitiu nenhuma de suas concepções de bárbaro.
“Os poloneses”, declarou ele no dia seguinte à sua posse no novo posto, “deve­
rão ser escravos do Reich alemão.” Certa vez, ao saber que Neurath, Protetor da
Boêmia, colocara cartazes anunciando a execução de sete estudantes universitá­
rios tchecos, Frank exclamou para um jornalista nazista: “Se eu desejasse ordenar
que se deviam colocar cartazes para cada sete poloneses fuzilados, não haveria
florestas suficientes na Polônia para a fabricação de papel para esses cartazes.”38
Himmler e Heydrich foram destacados por Hitler para liquidar os judeus. A
tarefa de Frank, além de arrancar da Polônia alimentos, suprimentos e mão-de-
obra forçada, consistia em liquidar a classe culta. Os nazistas tinham um belo
nome de código para essa operação: Ação Extraordinária de Pacificação (Ausse -
rordentliche Befriedigungsaktion ou Ação AB, nome pelo qual passou a ser conhe­
cida). Levou algum tempo para Frank pô-la em plena atividade. Foi somente no
fim da primavera seguinte, quando a grande ofensiva alemã no Ocidente afastou
da Polônia a atenção do mundo, que ele começou a obter resultados. Em 30 de
maio, conforme demonstra seu próprio diário, Frank vangloriou-se, numa ani­
madora conversa com seus auxiliares policiais, dos grandes progressos feitos — a
vida de “alguns milhares” de intelectuais poloneses destruídos ou prestes a serem.
“Peço-lhes, senhores”, disse, “que tomem as medidas mais rigorosas possíveis
para auxiliar-nos nessa tarefa”. Acrescentou, confidencialmente, que eram “ordens
do Führer”. Hitler, declarou ele, exprimiu-as da seguinte maneira:

“Devem ser destruídos os homens que possam exercer liderança na


Polônia. Aqueles que os acompanharem (...) devem, por sua vez, ser
eliminados. Não há necessidade de sobrecarregar o Reich com isso (...)
nenhuma necessidade de enviar esses elementos para os campos de
concentração do Reich.”

Seriam eliminados ali mesmo na Polônia.39

* Foi encontrado em maio de 1945 pelo tenente Walter Stein, do 7e Exército, no apartamento de Frank,
no Hotel Berghof, nas imediações de Neuhaus, Baviera.
70 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Nessa conferência, conforme Frank anotou em seu diário, o chefe da polícia de


segurança entregou-lhe um relatório sobre o progresso feito. Cerca de dois mil
homens e centenas de mulheres, declarou, foram presos “no começo da Ação Ex­
traordinária de Pacificação”. A maioria já tinha sido “sentenciada sumariamente”
— eufemismo nazista para liquidação. Uma segunda leva de intelectuais estava
agora sendo reunida para receber a “sentença sumária”. Ao todo, “cerca de 3.500
pessoas”, as mais perigosas da classe culta polonesa, seriam assim eliminadas.40
Frank não se esqueceu dos judeus, embora a Gestapo se encarregasse direta­
mente da tarefa de extermínio. Seu diário está repleto de idéias e realizações sobre
o assunto. Registra, em 7 de outubro de 1940, o discurso que fez nesse dia a uma
assembléia nazista, na Polônia, resumindo seu primeiro ano de trabalho.

Meus camaradas! (...) Eu não poderia eliminar todos os piolhos e judeus


em apenas um ano. [“O público achou graça”, anotou ele nesse ponto].
Mas, com o tempo e se me ajudarem, esse objetivo será atingido.41

Duas semanas antes do Natal do ano seguinte, Frank encerrou uma reunião de
gabinete, na Cracóvia, seu quartel-general, dizendo:

No que diz respeito aos judeus, quero dizer-lhes com toda a franqueza
que eles precisam ser eliminados de um modo ou de outro (...) Senho­
res, devo pedir-lhes que se libertem de qualquer sentimento de pieda­
de. Precisamos aniquilar os judeus.

Era difícil — admitiu — “fuzilar ou envenenar os 3,5 milhões de judeus no


governo-geral, mas podemos tomar medidas que, de um modo qualquer, condu­
zam a seu aniquilamento”. Foi uma predição exata.42
A perseguição aos judeus e poloneses, arrancando-os das casas em que eles e
suas famílias haviam morado durante gerações, começou assim que terminou a
luta na Polônia. Em 7 de outubro, dia que se seguiu a seu “discurso em favor da
paz”, no Reichstag, Hitler nomeou Himmler chefe de uma nova organização: Co­
missariado do Reich para o Fortalecimento da Nação Alemã, ou, abreviadamente,
R.K.F.D.V. Cumpria à organização deportar primeiro os poloneses e judeus das
províncias polonesas anexadas à Alemanha, nelas colocando, em seu lugar, os
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL J1

alemães e Volksdeutsche, isto é, alemães de nacionalidade estrangeira que a elas


afluíam, procedentes dos países bálticos ameaçados e de várias partes adjacentes
da Polônia. Halder soube desse plano 15 dias antes e anotou em seu diário que
“duas pessoas serão expulsas da Polônia para cada alemão que se mudasse para
esses territórios”.
Em 9 de outubro, dois dias depois de assumir o último de seus postos, Himm-
ler decretou que 550 mil dos 650 mil judeus que viviam nas províncias polonesas
anexadas, juntamente com todos os poloneses não apropriados para a assimila­
ção, seriam deslocados para o território do governo geral, a leste do rio Vístula.
Em um ano, 1,2 milhão de poloneses e 300 mil judeus foram deslocados para o
leste. Mas somente 497 mil Volksdeutsche instalaram-se em suas terras. Foi uma
proporção melhor que a citada por Halder: dois poloneses e um judeu expulsos
para cada alemão que lá se instalava.
Foi um inverno extraordinariamente severo o de 1939-1940 — como bem se
recorda o autor deste livro —, com pesada neve. O “novo povoamento”, levado a
efeito com a temperatura a zero e, muitas vezes, durante tempestades de neve,
custou mais vidas de judeus e poloneses que as que se perderam diante dos pelo­
tões de fuzilamento e das forças nazistas. Pode-se citar, como autoridade na ma­
téria, o próprio Himmler. Dirigindo-se à Leibstandarte das S.S. no verão seguinte,
após a queda da França, traçou uma comparação entre as deportações que seus
homens estavam começando a proceder no Ocidente com o que havia realizado
na parte leste.

(...) aconteceu na Polônia, a temperatura marcando quarenta graus abai­


xo de zero, onde tínhamos de evacuar milhares, dezenas de milhares,
centenas de milhares; onde tínhamos de ser inflexíveis — devem ouvir
isso, mas devem também esquecê-lo imediatamente — e fuzilar milhares
de poloneses importantes (...) Senhores! É muito mais fácil, em muitos
casos, entrar num combate com uma companhia do que eliminar uma
população obstrucionista e de baixo nível cultural ou fazer execuções ou
evacuar um povo ou expulsar mulheres a gritarem histericamente.43

Já em 21 de fevereiro de 1940, o Oberführer das S.S., Richard Glücks, chefe da


Inspetoria dos Campos de concentração, procedendo a um reconhecimento nas
72 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

imediações de Cracóvia, informara Himmler de que encontrara um “lugar apro­


priado” para o novo “campo de quarentena”, em Auschwitz, uma cidadezinha algo
abandonada e pantanosa de 12 mil habitantes, na qual estava situado, além de al­
gumas fábricas, um antigo quartel da cavalaria austríaca. Fizeram-se, imediata­
mente, as obras necessárias e, em 14 de junho, Auschwitz foi oficialmente inaugu­
rado como campo de concentração para os prisioneiros políticos poloneses, aos
quais os alemães desejavam dispensar um tratamento especial e duro. Iria tornar-
se, logo, um lugar ainda mais sinistro. Entrementes, os diretores da firma I. G.
Farben, o grande truste de produtos químicos alemão, descobriram que Aus­
chwitz era um local conveniente para a instalação de uma nova fábrica de borra­
cha e óleo de carvão sintético. Ali, não só a construção dos novos edifícios, mas,
também, as operações da nova fábrica seriam beneficiadas com mão-de-obra es­
crava e barata.
Para superintender o novo campo e suprir a mão-de-obra escrava para a I. G.
Farben, chegou, na primavera de 1940, a Auschwitz, um bando dos mais selecio­
nados rufiões das S. S., entre eles Josef Kramer, que se tornaria mais tarde conhe­
cido do público inglês como a Fera de Belsen, e Rudolf Franz Hõss, um criminoso
que cumprira cinco anos de pena numa prisão — passou a maior parte da vida
adulta primeiro como convicto e, depois, como carcereiro — e que em 1946, à
idade de 46 anos, iria vangloriar-se em Nuremberg de que havia supervisionado,
em Auschwitz, o extermínio de 2,5 milhões de pessoas, sem contar meio milhão
que deixaram “sucumbir de inanição”.
Pois Auschwitz logo estaria destinada a tornar-se o mais célebre dos campos
de extermínio — Vernichtungslager —, que cumpre distinguir dos campos de con­
centração, onde uns poucos ainda puderam sobreviver. Não deixa de ser significativo,
para se compreender os alemães, até mesmo os mais respeitáveis, no governo de
Hitler, que uma firma tão ilustre e internacionalmente conhecida como a I. G.
Farben, cujos diretores se distinguiam entre os principais homens de negócios da
Alemanha, todos eles tementes a Deus, deliberadamente escolhessem aquele
campo de morte como local apropriado para operações lucrativas.
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 73

Atrito entre os totalitários

O eixo Roma-Berlim sofreu perturbações naquele primeiro outono da guerra.


Ocorreram sérias dissensões em vários níveis, em razão de divergências: a de
não ter a Alemanha levado a efeito a retirada de Volksdeutsche do sul do Tirol, na
Itália, com a qual ela havia concordado anteriormente, em junho; a de não ter ela
fornecido mensalmente à Itália um milhão de toneladas de carvão; a de os italianos
não terem suprido a Alemanha de matérias-primas, independentemente do blo­
queio britânico; a prosperidade do intercâmbio comercial da Itália com a Ingla­
terra e a França, inclusive a venda de matérias-primas a ambos os países; os sen­
timentos antigermânicos de Ciano, que se acentuavam cada vez mais.
Mussolini, como sempre, passava de um ponto de vista para outro, e Ciano
registrava suas vacilações. Em 9 de novembro, o Duce teve dificuldade de compor
um telegrama a Hitler, felicitando-o por ter escapado do assassinato.

Ele desejava que fosse caloroso, mas não muito, porque, em seu julga­
mento, nenhum italiano sente alegria pelo fato de Hitler ter escapado à
morte (...) muito menos o Duce.

No dia seguinte ao Natal, o Duce exprimia o “desejo de uma derrota alemã” e


instruía Ciano a advertir secretamente a Bélgica e a Holanda de que ambos os
países estavam prestes a ser atacados.* Já na véspera do ano-novo, porém, falava
novamente em lançar-se à guerra ao lado de Hitler.
A principal causa do atrito entre as duas potências do Eixo era a política da
Alemanha pró-Rússia. Em 30 de novembro de 1939, o Exército Vermelho sovié­
tico atacou a Finlândia, o que colocou Hitler numa posição humilhantíssima.
Expelido do Báltico como preço de seu pacto com Stalin, forçado a retirar apres­
sadamente as famílias alemãs que lá viviam, e cujas gerações vinham de séculos,
tinha agora de aceitar oficialmente o ataque não provocado da Rússia contra um
pequeno país que tinha laços muito estreitos com a Alemanha e cuja própria in­
dependência, como país não-comunista, havia sido arrebatada à União Soviética,

* Ciano transmitiu a advertência ao embaixador belga em Roma, em 2 de janeiro, anotando o fato em


seu diário. Segundo Weizsácker, os alemães interceptaram dois telegramas em código do embaixador,
para Bruxelas, contendo a advertência da Itália e decifraram-nos.44
74 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

em grande parte, graças à intervenção das tropas regulares alemãs em 1918 * Era
uma pílula difícil de engolir, mas ele a engoliu. Foram dadas instruções escritas às
missões diplomáticas no estrangeiro, à imprensa e às estações de rádio alemãs,
para que apoiassem a agressão russa e evitassem qualquer manifestação de simpa­
tia para com os finlandeses.
Isso podia ter passado do limite da tolerância de Mussolini, que teve de se
haver com demonstrações antigermânicas por toda a Itália. Seja como for, logo
depois do ano-novo, em 3 de janeiro, desabafou numa longa carta ao Führer.
Nunca antes e tampouco depois o Duce fora tão franco com Hitler, ou tão dispos­
to a manifestar uma opinião tão vigorosa e desagradável.
Ele estava “profundamente convencido” — disse — de que a Alemanha, mes­
mo auxiliada pela Itália, jamais faria a Inglaterra e a França “dobrar os joelhos ou
separarem-se. Querer acreditar nisso é iludir a si mesmo. Os Estados Unidos não
permitiriam que as democracias sofressem uma derrota total”. Portanto, agora
que Hitler se havia assegurado de sua fronteira oriental, era necessário “arriscar
tudo — o regime inclusive — e sacrificar a flor das gerações alemãs” a fim de ten­
tar derrotá-los? Poderia obter-se a paz — sugeriu Mussolini — se a Alemanha
consentisse na existência de “uma Polônia modesta, desarmada, que fosse exclu­
sivamente polonesa. A menos que estejais irrevogavelmente resolvido a prosse­
guir a guerra até o fim — acrescentou —, creio que a criação de um Estado polo­
nês (...) seria um elemento que resolveria a guerra e constituiria uma condição
suficiente para a paz”.
Mas foi a política com a Rússia que, principalmente, preocupou o ditador italiano.

(...) Sem desfechar um golpe, a Rússia tirou proveito da Polônia e dos


bálticos com esta guerra. Mas eu, revolucionário nato, vos digo que não
podeis sacrificar permanentemente os princípios de vossa revolução às
exigências táticas de certo momento político. É meu dever acrescentar
que o ato de dar mais um passo em vossas relações com Moscou terá
repercussões catastróficas na Itália (...)45

* Em 9 de outubro de 1918 — trata-se de pedaço de história pouco conhecido, mas um tanto ridículo
— , a Dieta finlandesa, sob a impressão de que a Alemanha estava ganhando a guerra, elegeu, por 75
votos contra 25, o príncipe Friedrich Karl, de Hesse, para rei da Finlândia. A vitória dos Aliados, um mês
depois, pôs termo a esse fantástico episódio.
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 75

A carta de Mussolini não só advertia Hitler do enfraquecimento das relações


ítalo-germânicas como feria um alvo vulnerável: a lua-de-mel do Führer com a
Rússia soviética, o que já começava a irritar ambos os partidos. Ela permitira ao
Führer desencadear a guerra e destruir a Polônia. Dera-lhe até mesmo outros be­
nefícios. Os documentos apreendidos aos alemães revelam, por exemplo, um dos
segredos da guerra mais bem mantidos: o auxílio da União Soviética ao propor­
cionar portos no Ártico, no mar Negro e no Pacífico, pelos quais a Alemanha
podia importar matérias-primas de que tinha necessidade e de que se via privada
com o bloqueio da Inglaterra.
Em 10 de novembro de 1939, Molotov concordou ainda que o governo sovié­
tico pagasse as tarifas de frete sobre todas as mercadorias transportadas nas ferro­
vias russas.46Foram dadas facilidades de reabastecimento de combustíveis e para
reparação de navios alemães, submarinos inclusive, no porto ártico de Teriberka,
a leste de Murmansk. Na opinião de Molotov, esse porto “não era bastante isola­
do”; achava que Teriberka “convinha melhor por ser mais distante e não visitado
por navios estrangeiros”.47
Durante todo o outono e na primeira fase do inverno de 1939, Moscou e
Berlim negociaram no sentido de incrementar o comércio entre os dois países.
No fim de outubro, foram consideráveis as entregas de mercadorias, especial­
mente trigo e óleo, que a Rússia fez à Alemanha, que desejava mais. Os alemães,
porém, estavam aprendendo que, em matéria de economia e política, os soviéti­
cos eram hábeis e de difícil negociação. Em l2 de novembro, o marechal-de-
campo Gõring, o grande-almirante Rãder e o general Keitel, “independente­
mente um do outro”, conforme anotou Weizsàcker, protestaram junto ao
Ministério das Relações Exteriores dizendo que os russos estavam exigindo da
Alemanha demasiado material bélico. Um mês depois, queixava-se Keitel nova­
mente a Weizsàcker de que as necessidades russas de produtos alemães, espe­
cialmente equipamento para fabricação de munições, estavam “tornando-se cada
vez mais volumosas e desarrazoadas”.48
Se a Alemanha desejasse alimentos e óleo da Rússia, no entanto, teria de pagar
com as mercadorias que Moscou desejasse e de que necessitasse. Tão desesperado
via-se o bloqueado Reich que depois, em 30 de março de 1940, num momento cru-
ciante, Hitler ordenou que a entrega de matéria-prima à Rússia devia ter prioridade
76 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o MOMENTO DECISIVO

até mesmo sobre as destinadas às forças armadas alemãs.*50A certa altura, os ale­
mães ofereceram, como parte dos pagamentos correntes a Moscou, o cruzador
pesado Lützou que ainda se achava inacabado. Anteriormente, em 15 de dezem­
bro, o almirante Ráder propusera vender aos russos, se pagassem “um preço bem
alto”,51os planos e desenhos do Bismarck, o maior encouraçado do mundo (45 mil
toneladas), então em construção.
No fim de 1939, o próprio Stalin participou das negociações, em Moscou, com
a delegação comercial alemã. Os economistas alemães acharam-no um notável
comerciante. Nos documentos apreendidos na Wilhelmstrasse existem longos e
detalhados memorandos das três inesquecíveis reuniões com o terrível ditador
soviético, o qual possuía uma compreensão nítida e extraordinária dos detalhes,
o que assombrou os alemães. Viram que Stalin não podia ser blefado ou ludibria­
do e sabia ser exigentíssimo; às vezes, o dr. Schnurre, um dos membros da delega­
ção nazista, reportou a Berlim, “tornava-se muito agitado”. A União Soviética —
lembrou Stalin aos alemães — “prestara um relevante serviço à Alemanha e
granjeara inimigos ao prestar esse auxílio”. Em retribuição, esperava certa consi­
deração da parte de Berlim. Numa conferência no Kremlin, na véspera do Ano-
Novo de 1939-1940,

Stalin declarou peremptoriamente que o preço total dos aviões estava


fora de cogitação. Representava mais que o dobro dos preços atuais. Se
a Alemanha não desejava entregar os aviões, ele preferia que declarasse
isso francamente.

Numa conferência à noite, no Kremlin, em 8 de fevereiro,

Stalin pediu aos alemães que propusessem preços convenientes e não


os fizessem demasiado altos como acontecera antes. Como exemplo,
citaram-se: o preço total de 300 milhões de Reichsmarks para aviões e
o de 150 milhões que os alemães haviam orçado para o cruzador Lüt­
zou. Não se devia aproveitar da boa disposição da União Soviética.52

* Após a conquista da França e dos Países Baixos, Gõring informou ao general Thomas, o economista-
chefe do OKW, que "desejava que se fizessem entregas pontualmente à Rússia somente até a primave­
ra de 1941" Acrescentou que "mais tarde não teríamos mais interesse em satisfazer completamente as
exigências russas".49
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL JJ

Em 11 de fevereiro de 1940, um complicado acordo comercial foi finalmente


assinado em Moscou, prevendo uma troca de mercadorias durante os 18 meses
seguintes, abrangendo, no mínimo, um valor de 640 milhões de Reichsmarks.
Tratava-se de outro além do que fora assinado durante o mês de agosto do ano
anterior, cujos fornecimentos montavam em aproximadamente 150 milhões por
ano. A Rússia devia receber, além do cruzador Lützou e dos planos do Bismarck ,
canhões pesados para a marinha de guerra e outros equipamentos como trinta
aviões de guerra alemães do último modelo, incluindo caças Messerschmitt 109 e
110 e bombardeiros de mergulho Ju-88. Além disso, os soviéticos deviam receber
máquinas para suas indústrias petrolíferas e elétricas, locomotivas, turbinas, gera­
dores, motores diesel, navios, ferramentas e amostras alemãs de armas de artilha­
ria, tanques, explosivos, equipamento químico para a guerra, etc.53
O que os alemães receberam no primeiro ano foi registrado pelo OKW —
um milhão de toneladas de cereais, meio milhão de toneladas de farinha de trigo,
900 mil toneladas de petróleo, 100 mil toneladas de algodão, 500 mil toneladas de
fosfatos, consideráveis quantidades de numerosas outras matérias-primas vitais e
o transporte de um milhão de toneladas de soja da Manchúria.54
De volta a Berlim, o dr. Schnurre, economista perito do Ministério das Rela­
ções Exteriores que orientara as negociações comerciais em Moscou para a Ale­
manha, elaborou um longo memorando sobre o que havia conseguido para o
Reich. Além das matérias-primas de que tinham grande urgência e de que a Rús­
sia ia supri-los, Stalin — disse ele — prometeu4generoso auxílio” em atuar1como
comprador de metais e matérias-primas em outros países”.

O acordo [concluiu Schnurre] significa para nós uma porta aberta para
o leste (...) Os efeitos do bloqueio britânico ficarão decisivamente en­
fraquecidos.55

Foi essa uma razão por que Hitler teve de conter seu orgulho, apoiou a agres­
são da Rússia contra a Finlândia — muito impopular na Alemanha — e aceitou a
ameaça das tropas e da aviação soviéticas ao assentarem bases nos três países bál­
ticos (eventualmente para serem usadas contra quem senão a Alemanha?). Stalin
estava auxiliando-o a superar o bloqueio britânico. Porém, mais importante do
que isso, Stalin ainda lhe dava a oportunidade de lutar numa só frente de guerra,
78 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o MOMENTO DECISIVO

concentrar todo o seu poderio militar no Ocidente para poder desfechar um gol­
pe formidável contra a França e a Inglaterra e invadir a Bélgica e a Holanda, após
o que (...) bem, Hitler já havia exposto aos generais o que tinha em mente.
Já em 17 de outubro de 1939, com a campanha da Polônia apenas terminada,
ele lembrava a Keitel que o território polonês

nos é importante do ponto de vista militar como posto avançado para a


arrancada e para a concentração estratégica de tropa. Para tal fim, de­
veriam ser mantidos em perfeita ordem os canais de comunicações, as
ferrovias e as estradas.56

Ao aproximar-se do fim o momentoso ano de 1939, Hitler compreendeu —


conforme informou aos generais em seu memorando de 9 de outubro — que não
podia contar para sempre com a neutralidade soviética. Dali a oito meses ou um
ano — disse ele — as coisas poderiam mudar. Acentuou, na arenga que lhes fez em
23 de novembro, que ‘somente poderemos combater a Rússia quando estivermos
livres no Ocidente”. Era uma idéia que jamais abandonava seu espírito inquieto.
Aquele ano fatídico mergulhava a história numa atmosfera curiosa e, até mes­
mo, lúgubre. Embora houvesse uma guerra mundial, não se lutava em terra, e, nos
ares, os grandes bombardeiros transportavam apenas panfletos de propaganda, e,
como tal, muito mal redigidos. Somente no mar é que havia verdadeiramente
guerra. Os submarinos alemães continuavam a ceifar a navegação britânica e, às
vezes, a de países neutros, no cruel e gélido Atlântico Norte.
No Atlântico Sul, o GrafSpee, um dos três encouraçados de bolso da Alema­
nha, saiu de sua área de espera e, no decurso de três meses, afundou nove navios
cargueiros britânicos num total de 50 mil toneladas. Depois, duas semanas antes
do primeiro Natal da guerra, em 14 de dezembro de 1939, o povo alemão foi sur­
preendido pela notícia, em flamejantes manchetes de imprensa e em boletins
transmitidos pelo rádio, de uma grande vitória no mar. O GrafSpee, diziam, tra­
vara combate com três cruzadores britânicos no dia anterior, a quatrocentas mi­
lhas marítimas da costa de Montevidéu, e pusera-os fora de ação. Mas o entusias­
mo logo se transformou em perplexidade. A imprensa anunciou, três dias depois,
que o encouraçado de bolso fora posto a pique pela própria tripulação no estuário
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 79

do Prata, quase defronte à capital do Uruguai. Que espécie de vitória era essa? Em
21 de dezembro, o Alto-Comando naval anunciou que o comandante do Graf
Spee, capitão Hans Langsdorff, “seguiu o destino de seu navio” e, assim, “atendeu,
como combatente e herói, às expectativas de seu Führer; do povo alemão e da
marinha de guerra”.
Não disseram ao infeliz povo alemão que o Graf Spee ficara seriamente danifi­
cado pelos três cruzadores britânicos, cujo poderio de fogo era inferior ao do
encouraçado de bolso,* que ele tivera que aportar em Montevidéu para reparos e
que o governo uruguaio, de conformidade com as leis internacionais, permitira que
ali permanecesse apenas 72 horas, o que não era suficiente, e que o herói, capitão
Langsdorff, em vez de se aventurar a uma nova batalha contra os britânicos, com
o seu mui danificado barco, preferira afundá-lo; e que ele mesmo, em vez de
acompanhar o encouraçado ao fundo, suicidara-se dois dias depois num quarto
solitário de um hotel, em Buenos Aires. Tampouco informaram — é claro — que,
conforme Jodl anotou em seu diário em 18 de dezembro, o Führer “ficou enfure­
cido por terem afundado o Graf Spee sem luta” e mandou chamar o almirante
Ráder, a quem fez severa crítica.57
Em 12 de dezembro, Hitler expediu outra diretiva secretíssima adiando o ata­
que no Ocidente e estipulando que nova decisão só seria tomada em 27 de dezem­
bro; e que a data para o Dia A seria, praticamente, l2 de janeiro de 1940. Informou
que se poderiam conceder, portanto, as licenças de Natal. Segundo meu diário, o
Natal, data festiva para os alemães, foi desanimador naquele inverno, com poucas
trocas de presentes, comida espartana, as casas sem seus homens, as ruas mergu­
lhadas no blecaute, as persianas e cortinas completamente fechadas e toda gente
queixando-se da guerra, da alimentação e do frio.
Houve uma troca de saudações de Natal entre Hitler e Stalin.

Os melhores votos [telegrafou Hitler] pelo seu bem-estar pessoal como,


também, para um futuro cheio de prosperidade para os povos da União
Soviética, nossos amigos.

* Na véspera do afundamento, Goebbels fez a imprensa alemã publicar um telegrama simulado de


Montevidéu dizendo que o GrafSpee sofrerá apenas "danos superficiais"e que as notícias inglesas de que
fora seriamente atingido eram "puras mentiras".
8o A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Stalin respondeu:

A amizade dos povos da Alemanha e da União Soviética, cimentada


pelo sangue, tem todos os motivos para ser duradoura e firme.

Em Berlim, o embaixador von Hassell aproveitou os feriados para conferenciar


com seus companheiros conspiradores, Popitz, Goerdeler e o general Beck, tendo
registrado no seu diário, em 30 de dezembro, o último plano, segundo o qual

certo número de divisões ficaria em Berlim “em trânsito de oeste para


leste”. Witzleben devia aparecer em Berlim e dissolver as S.S. Baseado
nessa ação, Beck seguiria para Zossen e assumiria o comando supremo,
tirando-o das mãos de Brauchitsch. Um médico declararia Hitler inca­
paz de permanecer no poder, e, com isso, o encarcerariam imediata­
mente. Far-se-ia depois um apelo com os seguintes pontos: prevenção
de novas atrocidades das S.S., restauração da dignidade e da moralida­
de cristã, continuação da guerra, mas com boa vontade para a instaura­
ção da paz numa base razoável (...)

Tudo isso, porém, era irreal, puro boato. E tão confusos se achavam os conspi­
radores que Hassell dedicou bom trecho de seu diário a considerações sobre se
deveriam ou não deter Gõring!
O próprio Gõring, juntamente com Hitler, Himmler, Goebbels, Ley e outros
chefes do partido, aproveitaram-se do Ano-Novo para expedir grandiosas pro­
clamações. Disse Ley: “O Führer está sempre certo! Obedecei ao Führer/” Hitler
proclamou que não tinha sido ele quem começara a guerra e sim “os judeus e os
capitalistas forjadores de guerras”, e prosseguiu:

Unidos no país, preparados economicamente e armados militarmente


até o mais alto grau, entramos neste ano mais decisivo da história alemã
(...) Tomara que o ano de 1940 nos traga a decisão. Aconteça o que
acontecer, será a nossa vitória.

Em 27 de dezembro, ele protelou novamente o ataque ao Ocidente “pelo menos


por uma quinzena”. Em 10 de janeiro, ordenou que fosse assentado definitivamente
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 81

para 17 de janeiro, “15 minutos antes do levantar do Sol — 8:16h”. A força aérea
devia começar o ataque em 14 de janeiro, três dias antes, sendo sua tarefa destruir
os aeródromos inimigos na França, mas não na Bélgica e na Holanda. Devia-se
deixar os dois pequenos países neutros conjeturando, até o último momento, so­
bre seu destino.
Em 13 de janeiro, porém, o senhor supremo da guerra nazista adiou novamen­
te o ataque “por causa das condições meteorológicas”. Os documentos apreendi­
dos no OKW no Dia D, no Ocidente, guardam silêncio até 7 de maio. O tempo
talvez tivesse exercido certo papel no adiamento do ataque em 13 de janeiro; sa­
bemos agora, porém, que principalmente dois outros fatores foram responsáveis
por isso: a infeliz aterrissagem de um avião alemão muito especial na Bélgica, em
10 de janeiro, e uma nova oportunidade que, na ocasião, surgiu no norte.
Naquele mesmo dia, 10 de janeiro, em que Hitler havia ordenado que no dia
17 se começasse o ataque através da Bélgica e da Holanda, um avião militar ale­
mão, voando de Münster para Colônia, perdeu-se nas nuvens sobre a Bélgica e foi
forçado a descer nas imediações de Mechelen-sur-Meuse. Achava-se nele o major
Helmut Reinberger, um importante oficial do Estado-maior da Luftwaffe. Sua
pasta continha os planos alemães, completos e com mapas, para o ataque no Oci­
dente. Ao aproximarem-se os soldados belgas, o major correu para um matagal
próximo e acendeu uma fogueira para queimar o conteúdo da pasta. Atraídos por
esse interessante fenômeno, os belgas extinguiram as chamas e salvaram o que
restara. Levado para um alojamento nas proximidades, Reinberger, num gesto
desesperado, agarrou os documentos em parte queimados que um oficial belga
havia colocado sobre a mesa e atirou-os a um fogareiro aceso. O oficial apanhou-
os rapidamente.
Reinberger informou o quartel-general da Luftwaffe, em Berlim, pela sua em­
baixada em Bruxelas, que conseguira queimar os documentos reduzindo-os a “in­
significantes fragmentos do tamanho da palma da mão”. Mas foi grande a conster­
nação nos altos meios militares. Jodl comunicou imediatamente a Hitler “sobre o
que o inimigo talvez soubesse, talvez não”. Ele mesmo, porém, ignorava-o. “Se
o inimigo se acha de posse de todos os documentos”, confiou a seu diário em 12
de janeiro, depois de avistar-se com Hitler, “a situação é catastrófica”. Naquela
noite, Ribbentrop enviou um telegrama urgentíssimo à embaixada alemã em Bru­
xelas, pedindo um relatório imediato sobre “a destruição da bagagem do mensa­
geiro especial”. Na manhã de 13 de janeiro, o diário de Jodl revela que houve uma
82 A guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

conferência de Gõring com o seu adido da aeronáutica, em Bruxelas, que voltou


às pressas para Berlim, e com os principais dirigentes da Luftwaffe. “Resultado:
dada como certa a queima da pasta do mensageiro”, registrou Jodl.
Mas isso não passara de conjectura, conforme assinala o diário de Jodl. Às
13h, diz a anotação: “Ordem ao general Halder por telefone: cessar todos os mo­
vimentos.”
Naquele mesmo dia 13, o embaixador alemão em Bruxelas informava urgen­
temente Berlim sobre consideráveis movimentos de tropas belgas “em conseqüên­
cia de notícias alarmantes recebidas pelo Estado-maior geral belga”. No dia se­
guinte, o embaixador expediu outra mensagem urgentíssima a Berlim: os belgas
estavam ordenando a Fase D, o próximo até o último passo na mobilização, e
convocando duas novas classes. A seu ver, a razão era “notícias de movimentos de
tropas alemãs nas fronteiras belgas e holandesas, e o conteúdo da mala, em parte
não queimado, encontrado em poder do oficial da força aérea alemã”.
Na noite de 15 de janeiro, surgiram dúvidas no espírito dos chefes militares,
em Berlim, sobre se o major Reinberger realmente destruíra os documentos incri­
minadores, como alegara. “Presumivelmente foram queimados”, observou Jodl
após outra conferência sobre a questão. Em 17 de janeiro, porém, o ministro das
Relações Exteriores da Bélgica, Paul-Henri Spaak, mandou chamar o embaixador
alemão e disse-lhe, categoricamente, conforme este último informou prontamen­
te Berlim, que

o avião fizera uma aterrissagem de emergência em 10 de janeiro, colo­


cando em mãos dos belgas um documento da mais extraordinária e da
mais grave natureza, o qual continha provas evidentes da intenção de
um ataque. Não se tratava de mero plano de operações, mas de uma
ordem de ataque elaborada com todos os detalhes, na qual ficara para
se inserir apenas a data.

Os alemães jamais tiveram certeza de que se tratava ou não de um blefe de


Spaak. Da parte dos Aliados — os Estados-maiores gerais da Inglaterra e da Fran­
ça receberam cópia do plano alemão — havia a tendência de considerar os docu­
mentos alemães “coisa forjada”. Churchill diz que se opôs vigorosamente a essa
interpretação, lamentando que nada tivesse sido feito com relação àquela grave
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 83

advertência. O certo é que, em 13 de janeiro, o dia que se seguiu à informação


que a respeito foi dada a Hitler, ele adiou o ataque e, na primavera, quando sur­
giu novamente a questão, todo o plano estratégico estava fundamentalmente
modificado.58
Mas a aterrissagem forçada na Bélgica e as más condições atmosféricas não
foram as únicas razões para o adiamento do ataque. Planos de um ousado ataque
alemão contra dois outros pequenos países neutros, mais ao norte, estavam sendo
esboçados e tiveram depois prioridade. A ‘guerra esquisita”, no que dizia respeito
aos alemães, estava chegando ao fim com a aproximação da primavera.
CAPÍTULO 3

A conquista da Dinamarca e da Noruega

O nome em código, de ressoante inocência, que os alemães deram para seu


último plano de agressão foi Weserübung ou Exercício de Weser. Suas origens e
desenvolvimento foram singulares, completamente diferentes dos que elabora­
ram para os ataques não provocados que ocupam uma parte tão grande desta
narrativa. Não foi fruto do cérebro de Hitler, como todos os demais, porém de um
ambicioso almirante e de um confuso chefete do partido nazista. Foi o único ato
da agressão militar alemã na qual a marinha de guerra desempenhou papel deci­
sivo. Foi, também, o único para o qual o OKW traçou os planos e coordenou as
forças das três armas. De fato, o Alto-Comando do exército e seu Estado-maior
geral nem sequer foram consultados, para grande aborrecimento deles, e Gõring
somente foi trazido à cena no último momento — menosprezo que enfureceu o
corpulento chefe da Luftwaffe.
Havia muito que a marinha de guerra alemã estava de olho no norte. A Ale­
manha não tinha acesso direto ao grande oceano, fato geográfico que ficara gra­
vado no espírito dos oficiais navais durante a Primeira Guerra Mundial. Uma cer­
rada rede britânica através do estreito mar do Norte, desde as Ilhas Shetland até a
costa da Noruega, mantida por uma barragem de minas e pelo patrulhamento de
navios, engarrafara a poderosa marinha imperial, dificultando seriamente as ten­
tativas dos submarinos alemães de irromper pelo Atlântico Sul e mantendo a
navegação mercante alemã fora dos mares. A frota de grande curso dos alemães
jamais atingira o alto-mar. O bloqueio naval britânico sufocara a Alemanha im­
perial. Entre as duas guerras, grande número de oficiais navais alemães, que co­
mandaram a modesta armada do país, meditou sobre aquela experiência e o fator
geográfico, chegando à conclusão de que, em qualquer guerra futura com a In­
glaterra, a Alemanha deveria procurar conquistar bases na Noruega, o que rom­
peria o bloqueio britânico no mar do Norte, abriria o grande oceano para os
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 85

navios de superfície e submarinos, e ofereceria, realmente, uma oportunidade


para se inverterem os papéis, e o Reich estabelecer um bloqueio eficiente contra
as Ilhas Britânicas.
Não constituiu surpresa, pois, que, ao romper a guerra em 1939, o almirante
Rolf Caris, o terceiro oficial em importância da marinha de guerra alemã e pode­
rosa personalidade, começasse a enviar sucessivas cartas ao almirante Rãder,
como ele anotou em seu diário e depôs em Nuremberg, sugerindo “a importância
da ocupação da costa norueguesa pela Alemanha”.1 Mas não foi preciso insistir
muito junto a Rãder. Em 3 de outubro, ao fim da campanha da Polônia, ele enviou
um questionário confidencial ao Estado-maior naval pedindo que se assegurasse
da possibilidade de conquistar “bases na Noruega sob a pressão conjunta da Rús­
sia e da Alemanha”. Consultado acerca da atitude de Molotov, Ribbentrop respon­
deu que “se podia esperar importantíssimo apoio” dessa fonte. Rãder informou
seu Estado-maior que Hitler devia ser informado o mais breve possível sobre as
possibilidades.2
Em 10 de outubro, num longo relatório ao Führer sobre operações navais, Rãder
salientou a importância de obter bases navais na Noruega, se necessário com o
auxílio da Rússia. Essa — segundo mostram os registros confidenciais — era a
primeira vez que a marinha levava diretamente a questão à atenção de Hitler. Diz
Rãder que o Führer “percebeu imediatamente a importância do problema norue­
guês”. Pediu-lhe que lhe deixasse suas notas sobre o assunto e prometeu conside-
rá-las. Nessa ocasião, porém, o chefe nazista achava-se preocupado com o desen-
cadeamento do ataque no Ocidente e com as hesitações dos generais, que
procurava vencer.* Ao que parece, escapou-lhe do espírito o caso da Noruega.3
Mas voltou-lhe novamente no decurso de dois meses, por três razões.
Uma, foi a chegada do inverno. A própria existência da Alemanha dependia
da importação de minério de ferro da Suécia. Para o primeiro ano de guerra, de
um consumo anual de 15 milhões de toneladas, os alemães contavam com a im­
portação de 11 milhões. Durante os meses quentes, o minério era transportado
do norte da Suécia; descia pelo golfo de Bótnia e atravessava o Báltico rumo à
Alemanha. Não apresentava problemas mesmo com a guerra, porque o Báltico

* Foi em 10 de outubro que Hitler convocou os chefes militares, leu-lhes um longo memorando sobre
a necessidade de um ataque imediato no Ocidente e entregou-lhes a Diretiva nfi 6, ordenando os pre­
parativos para uma ofensiva através da Bélgica e da Holanda. (Ver p. 45-7).
86 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

ficara eficientemente protegido contra os submarinos e os navios de superfície


ingleses. Mas, na estação invernosa, não se podia usar essa passagem de navega­
ção em virtude das camadas de gelo. Durante os meses frios, o minério sueco ti­
nha de ser embarcado por via férrea em um porto de Narvik, nas proximidades da
Noruega, e descia pela costa norueguesa por navio, para a Alemanha. Durante
quase todo o mês de janeiro, os barcos que transportavam o minério puderam
navegar nas águas territoriais norueguesas e, com isso, escapar à destruição por
parte dos bombardeiros e barcos da marinha britânica.
Por conseguinte, como Hitler acentuara a princípio à marinha de guerra, uma
Noruega neutra tinha suas vantagens. Isso possibilitaria à Alemanha obter o seu
minério vital, sem interferência da Inglaterra.
Em Londres, Churchill, nessa ocasião primeiro-lorde do almirantado, perce­
beu imediatamente o fato e, logo nas primeiras semanas da guerra, procurou con­
vencer o gabinete de que lhe permitisse colocar minas nas águas territoriais no­
rueguesas a fim de deter o tráfego do minério para a Alemanha. Mas Chamberlain
e Halifax mostraram-se extremamente relutantes em violar a neutralidade da No­
ruega, e a proposta foi, na ocasião, posta de lado.4
O ataque da Rússia contra a Finlândia, em 30 de novembro de 1939, modifi­
cou radicalmente a situação da Escandinávia, aumentando imensamente sua im­
portância tanto para os Aliados ocidentais quanto para a Alemanha. A França e a
Inglaterra começaram a organizar uma força expedicionária na Escócia, para ser
enviada em auxílio dos bravos finlandeses que, desafiando todas as predições,
resistiam estoicamente aos ataques do Exército Vermelho. Mas ela somente podia
alcançar a Finlândia pela Noruega e a Suécia. Os alemães perceberam imediata­
mente que, se às tropas aliadas fosse dada permissão para atravessar a parte seten­
trional dos dois países escandinavos, ou se o fizessem de qualquer maneira, um
número suficiente delas ali permaneceria com a escusa de manter comunicações,
para cortar completamente o suprimento do minério de ferro sueco* Além disso,
os Aliados franqueariam o Reich no norte. O almirante Ráder não hesitou em
lembrar a Hitler essas ameaças.

* Foi uma suposição exata. Sabe-se agora que o conselho supremo de guerra dos Aliados, numa reu­
nião realizada em Paris a 5 de fevereiro de 1940, decidiu que, ao enviar-se uma força expedicionária à
Finlândia, os campos de ferro da Suécia deviam ser ocupados pelas tropas desembarcadas em Narvik,
cujo porto ficava a pequena distância das minas. (Ver The Challenge of Scandinavia, p. 115-16 n. do au­
tor). Churchill observa que, por ocasião da reunião, decidiu-se "incidentalmente obter controle do cam­
po de minérios de Gullivare". {The Gathering Storm, p. 560).
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 87

O chefe da marinha de guerra alemã descobriu então na Noruega um valioso


aliado para seus desígnios, na pessoa do major Vidkum Abraham Lauritz Quisling,
cujo nome logo iria tornar-se, em quase todas as línguas, sinônimo de traidor.

Aparece Vidkun Quisling

Quisling começou a vida honradamente. Nascido em 1887, filho de aldeões,


diplomou-se como primeiro aluno de sua classe na Academia Militar Norueguesa
e, com apenas vinte e poucos anos, foi enviado a Petrogrado como adido militar.
Pelos serviços prestados, ao cuidar dos interesses britânicos depois que foram
rompidas as relações com o governo bolchevique, a Inglaterra concedeu-lhe o tí­
tulo honorífico de Comandante da Ordem do império britânico. Naquela ocasião,
ele era pró-Inglaterra e pró-União Soviética ao mesmo tempo. Permaneceu na
Rússia soviética durante certo tempo como assistente de Fridtjof Nansen, o gran­
de explorador e filantropo norueguês, na obra de socorro e auxílio aos russos.
O jovem oficial de exército norueguês ficou tão impressionado pelo êxito dos
comunistas na Rússia que, ao voltar a Oslo, ofereceu seus serviços ao Partido Tra­
balhista que, na ocasião, era membro do Comintern. Propôs fundar uma Guarda
Vermelha, mas o partido, suspeitando dele e de seu projeto, repeliu a proposta.
Quisling voltou-se então para o extremo oposto. Após servir como ministro da
Defesa, de 1931 a 1933, fundou, em maio desse último ano, um partido fascista
denominado Nasjonal Samling — União Nacional —, adotando a ideologia e a
tática dos nazistas que acabavam de assumir o poder na Alemanha. Mas o nazis­
mo não frutificou no fértil solo democrático da Noruega. Quisling nem mesmo
conseguiu eleger-se para o parlamento. Derrotado na eleição pelo seu próprio
povo, voltou-se para a Alemanha nazista.
Ali estabeleceu contato com Alfred Rosenberg, o desnorteante filósofo oficial do
movimento nazista, o qual, entre suas muitas outras, exercia a função de chefe
do gabinete do partido para os negócios estrangeiros. Esse amalucado báltico, um
dos primeiros mentores de Hitler, julgou ver no oficial norueguês grandes possi­
bilidades, pois uma das fantasias favoritas de Rosenberg era criar um grande im­
pério nórdico, do qual seriam excluídos os judeus e outras raças impuras, que,
88 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s E o M OMENTO DECISIVO

eventualmente, dominaria o mundo sob a liderança nazista. Em 1939 e nos anos


que se seguiram, manteve-se em contato com Quisling e cumulou-o com sua tola
filosofia e propaganda.
Em junho de 1939, ao acumularem-se as nuvens da guerra sobre a Europa,
Quisling aproveitou-se de uma convenção a que assistiu na Sociedade Nórdica,
em Lübeck, para pedir a Rosenberg algo mais além do apoio ideológico. Segundo
os relatórios confidenciais de Rosenberg, exibidos em Nuremberg, Quisling pre-
veniu-o do perigo de a Inglaterra obter o controle da Noruega no caso de uma
guerra, e das vantagens que adviriam para a Alemanha em ocupá-la. Pediu subs­
tancial auxílio para seu partido e seus jornais. Rosenberg, que escrevia admiravel­
mente, redigiu três memorandos: um a Hitler, outro a Gõring e outro a Ribbentrop,
mas os três figurões o ignoraram; ninguém, na Alemanha, levava muito a sério o
“filósofo oficial”. O próprio Rosenberg conseguiu arranjar um curso de treina­
mento de duas semanas na Alemanha, em agosto, para 25 robustos soldados das
tropas de assalto de Quisling.
Durante os primeiros meses da guerra, o almirante Rãder — ou de acordo
com o que ele depôs em Nuremberg — não teve contato com Rosenberg, a quem
mal conhecia, e nenhum com Quisling, de quem nunca ouvira falar. Logo depois
do ataque russo contra a Finlândia, porém, Rãder começou a receber relatórios de
seu adido naval em Oslo, capitão Richard Schreiber, sobre iminentes desembar­
ques dos Aliados na Noruega. Mencionou-os a Hitler, em 8 de dezembro, e acon­
selhou-o positivamente sobre “a importância da ocupação da Noruega”.5
Logo depois, Rosenberg apressou-se em dirigir um memorando (sem data)
ao almirante “sobre a visita do conselheiro privado Quisling — Noruega”. O
conspirador norueguês tinha chegado a Berlim, e Rosenberg achou que Rãder
devia ser informado sobre o que ele representava e o que pretendia. Quisling,
disse ele, tinha muitos simpatizantes entre os oficiais-chave do exército norue­
guês e, como prova, mostrou-lhe uma carta recente que recebera do coronel
Konrad Sundlo, o oficial-comandante em Narvik, descrevendo o primeiro-mi­
nistro da Noruega como “pessoa bronca” e um de seus principais ministros como
“um velho beberrão” e declarando sua disposição de “arriscar a vida pela insur­
reição nacional”. Mais tarde, o coronel Sundlo não arriscou a vida para defender
o país contra a agressão.
Rosenberg informou Rãder que Quisling tinha verdadeiramente um plano
para o golpe. A informação foi, sem dúvida, tomada a sério em Berlim, pois foi
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 89

copiada do Anschluss. Certo número de soldados das tropas de assalto de Quisling


seria treinado às pressas na Alemanha “por experientes e ferrenhos nacional-so-
cialistas que tinham prática em tais operações”. Os alunos, uma vez de volta à
Noruega, apoderar-se-iam dos pontos estratégicos de Oslo,

e, ao mesmo tempo, a marinha de guerra alemã, com contingentes do


exército alemão, aparecerá em uma preestabelecida baía defronte a
Oslo, atendendo a um apelo especial do novo governo norueguês.

Repetia-se, mais uma vez, a tática do Anschluss, com Quisling exercendo o


papel de Seyss-Inquart.

Quisling não duvida [acrescenta Rosenberg] que tal golpe (...) teria a
aprovação das seções do exército com as quais ele está agora relacionado
(...) Com referência ao rei, ele acredita que aceitará essefait accompli.
O número de soldados alemães que Quisling avalia serem necessários
para a operação coincide com a estimativa alemã.6

O almirante Ráder encontrou-se com Quisling em 11 de dezembro, tendo o


encontro sido arranjado com Rosenberg por um certo Viljam Hagelin, comer­
ciante norueguês cujos negócios o mantinham em grande parte do tempo na
Alemanha, e que era ali o chefe da ligação de Quisling. Hagelin e Quisling deram
muitas informações a Ráder, que as registrou devidamente nos arquivos confi­
denciais da marinha.

Quisling declarou (...) planeja-se um desembarque de ingleses nas vizi­


nhanças de Stavanger e propõe-se Kristiansand como possível base
inglesa. O atual governo norueguês, o Parlamento e toda a política
estrangeira estão controlados pelo conhecido judeu Hambro [Carl
Hambro, presidente do Storting], um grande amigo de Hore-Belisha
(...) Foram descritos com grandes minúcias os perigos que adviriam,
para a Alemanha, da ocupação inglesa (...)

Para antecipar-se ao golpe dos ingleses, Quisling propôs colocar as necessárias


bases à disposição das forças armadas alemãs. Já tinham sido comprados homens
90 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

em importantes posições (vias férreas, correios e comunicações) para esse objeti­


vo. Ele e Hagelin tinham ido a Berlim estabelecer “relações bem definidas com a
Alemanha para o futuro (...) Desejavam a realização de conferências para discutir
uma ação combinada, transferência de tropas para Oslo, etc”.7
Ráder, consoante o testemunho que prestou mais tarde em Nuremberg, ficou
bastante impressionado e informou seus dois visitantes que iria conferenciar
com o Führer e que depois lhes comunicaria o resultado. Foi o que fez no dia que
se seguiu ao encontro, ao qual Keitel e Jodl estiveram também presentes. O co­
mandante-em-chefe da marinha de guerra (cujo relatório sobre essa conferência
figura entre os documentos apreendidos) informou Hitler de que Quisling lhe
“dera a impressão de que se podia confiar nele”. Expôs-lhe então os pontos prin­
cipais que os noruegueses lhe haviam relatado, acentuando “as boas relações
que Quisling mantinha com oficiais do exército norueguês” e sua disposição de
“apoderar-se do governo por meio de um golpe político e de pedir o auxílio da
Alemanha”. Todos os presentes concordaram que a ocupação da Noruega pelos
ingleses não seria encorajada, mas Ráder, que se tornara subitamente muito cau­
teloso, assinalou que uma ocupação por parte dos alemães “provocaria natural­
mente fortes contramedidas dos ingleses (...) e a marinha de guerra alemã não se
encontra ainda preparada para enfrentá-los durante um grande período de tem­
po. No caso de uma ocupação, isso constitui um ponto fraco”. Por outro lado,
Ráder sugeriu que

se permitisse ao OKW traçar planos com Quisling para preparar e exe­


cutar de uma maneira ou outra a ocupação:
a) por métodos amigáveis, isto é, as forças armadas alemãs são chama­
das pela Noruega, ou
b) pela força.

Hitler não se achava, na ocasião, completamente disposto a chegar até esse


ponto. Respondeu que desejava primeiro falar pessoalmente com Quisling “a fim
de formar uma impressão sobre ele”.8
Foi o que fez no dia seguinte, 14 de dezembro. Ráder, pessoalmente, levou os
dois traidores noruegueses à chancelaria. Conquanto não tivessem sido en­
contrados registros da reunião, Quisling, evidentemente, deve ter causado boa
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 91

impressão ao ditador alemão,* como acontecera com o chefe da marinha de


guerra, pois, nessa noite, Hitler ordenou ao OKW que esboçasse um plano com as
indicações de Quisling. Halder ouviu que o plano abrangeria também um ataque
à Dinamarca.10
Hitler encontrou-se novamente com Quisling em 16 e 18 de dezembro, a des­
peito de suas preocupações com as más notícias acerca do GrafSpee. Aquele de­
sastre naval, porém, parece tê-lo tornado mais prudente com relação a uma aven­
tura na Escandinávia, a qual dependeria, acima de tudo, da marinha. Segundo
Rosenberg, o Führer salientou a seu visitante que “a atitude que se preferiria na
Noruega seria (...) a de completa neutralidade”. Contudo, se os ingleses estives­
sem se preparando para entrar na Noruega, os alemães teriam que tomar-lhes a
dianteira. Entrementes, forneceria fundos a Quisling para combater a propagan­
da inglesa e fortalecer seu próprio movimento em favor da Alemanha. Foi-lhe
concedida, inicialmente, a soma de 200 mil marcos ouro em janeiro, com a pro­
messa da concessão de 10 mil libras esterlinas por mês, durante três meses, a
partir de 15 de março.11
Pouco antes do Natal, Rosenberg mandou um agente especial, Hans-Wilhelm
Scheidt, à Noruega para trabalhar com Quisling; e, naqueles dias de festas natali­
nas, muitos oficiais do OKW, que estavam a par da questão, começaram a traba­
lhar no Estudo Norte, designação que a princípio foi dada aos planos. A opinião
da marinha achava-se dividida. Rãder estava convencido de que os ingleses ten-
cionavam ocupar a Noruega num futuro próximo. A divisão de operações do Es­
tado-maior geral da marinha discordou dele. Suas divergências foram abordadas
no relatório confidencial, em 13 de janeiro de 1940.12

A divisão de operações não acredita ser provável uma ocupação imi­


nente da Noruega pelos ingleses (...) Todavia, considera que a ocupação
da Noruega pela Alemanha, se não é de se temer um ataque inglês, seria
um empreendimento perigoso.

O Estado-maior geral da marinha concluiu, portanto, “que a solução mais favo­


rável é, positivamente, a manutenção do status quon e salientou que isso permitiria

* Ele não causou boa impressão ao ministro alemão em Oslo, dr. Curt Brãuer, que duas vezes, em dezem­
bro, preveniu Berlim de que "não se devia levar Quisling a sério (...) sua influência e futuro são (...) muito
fracos".9 Pela sua franqueza e relutância em fazer o jogo de Hitler, o ministro havia logo de pagar.
92 A guerra: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

que se continuassem a usar as águas territoriais norueguesas para o transporte de


minério “com perfeita segurança”.
Hitler se irritou com as hesitações da marinha e com os resultados do Estudo
Norte que o OKW lhe apresentou em meados de janeiro. Em 27 de janeiro, man­
dou Keitel expedir uma diretiva secretíssima mandando prosseguir nos trabalhos
do Estudo sob a “supervisão pessoal e imediata” do Führer e encarregando Keitel
de todos os preparativos. Devia-se instalar no OKW uma pequena comissão com­
posta da um representante de cada uma das três armas, e dali por diante a opera­
ção devia receber o nome em código de Weserübung.13
Essa medida parece ter posto um ponto final nas hesitações de Hitler com re­
lação à ocupação da Noruega, mas, se existisse ainda alguma dúvida, foi elimina­
da por um incidente em águas norueguesas, em 17 de fevereiro.
Um navio-auxiliar de abastecimento do Graf Spee, o Altmark, conseguira
romper o bloqueio inglês e, em 14 de fevereiro, foi descoberto por um avião de
reconhecimento inglês quando descia as águas territoriais da Noruega rumo à
Alemanha. O governo britânico sabia que a bordo havia trezentos marinheiros
ingleses que haviam sido capturados de navios postos a pique pelo Graf Spee.
Estavam sendo transportados para a Alemanha como prisioneiros de guerra. Os
oficiais navais noruegueses tinham feito uma inspeção superficial no Altm ark,
acharam que não havia prisioneiros a bordo e que o barco estava desarmado, e
deram-lhe permissão para que prosseguisse a viagem para a Alemanha. Chur­
chill, que tinha informações diferentes, ordenou pessoalmente que uma flotilha
de destróieres seguisse para as águas norueguesas, abordasse o barco alemão e
libertasse os prisioneiros.
O destróier britânico Cossack, comandado pelo capitão Philip Vian, levou a
cabo a missão na noite de 16 para 17 de fevereiro em Jõsing Fjord, onde o Altmark
procurara proteger-se. Após uma luta corpo-a-corpo em que quatro alemães fo­
ram mortos e cinco ficaram feridos, os atacantes britânicos libertaram 299 mari­
nheiros que estavam encerrados em cabinas e num tanque de óleo vazio para não
serem descobertos pelos noruegueses.
O governo norueguês fez um veemente protesto à Inglaterra acerca dessa vio­
lação de suas águas territoriais, mas Chamberlain respondeu, na Câmara dos
Comuns, que a própria Noruega violara as leis internacionais, ao permitir que
suas águas fossem utilizadas pelos alemães para transportar prisioneiros britâni­
cos para uma prisão na Alemanha.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 93

Isso foi além do limite da tolerância de Hitler. Convenceu-o de que os norue­


gueses não se oporiam seriamente a uma manifestação de força da Inglaterra em
suas próprias águas territoriais. Enfureceu-se também, conforme Jodl anotou em
seu diário, com o fato de a tripulação do Graf Spee, a bordo do Altm ark , não ter
oferecido uma luta mais dura — “nenhuma resistência, nenhuma baixa britânica”.
Em 19 de fevereiro, revela o diário de Jodl, Hitler “insistiu energicamente” para
que se terminassem os planos para o Weserübung. “Equipe os navios. Ponha as
unidades de prontidão”, ordenou a Jodl. Faltava-lhes ainda um oficial para dirigir
a empresa. Jodl lembrou-lhe que era tempo de nomear um general e seu Estado-
maior para esse objetivo.
Keitel sugeriu um oficial que havia combatido com a divisão do general von
der Goltz, na Finlândia, ao fim da Primeira Guerra Mundial, o general Nikolaus
von Falkenhorst, que, nessa ocasião, comandava um corpo de exército no Oci­
dente. Hitler, a quem passara despercebida essa pequena questão de comandante
para aquela aventura no norte, mandou chamá-lo imediatamente. Embora o ge­
neral se originasse de uma velha família de militares da Silésia, de nome Jastrzem-
bski, que ele mudara para Falkenhorst, (em alemão, “ninho do falcão”), Hitler não
o conhecia pessoalmente.
Mais tarde, no interrogatório que lhe fizeram em Nuremberg, Falkenhorst
descreveu aquele seu primeiro encontro na chancelaria, na manhã de 21 de feve­
reiro, o qual não deixou de revestir-se de aspectos engraçados. Falkenhorst nunca
ouvira falar da Operação Norte e era então a primeira vez que se avistara com o
chefe nazista que, aparentemente, não lhe infundiu terror como se dava com to­
dos os outros generais.

Mandaram que me sentasse [contou ele em Nuremberg]. Eu tinha en­


tão que relatar ao Führer as operações na Finlândia em 1918 (...) Disse
ele: “Sente-se e diga-me como elas se passaram”, o que fiz.
Levantamo-nos depois e ele me conduziu a uma mesa coberta de ma­
pas. Ele explicou: “(...) O governo do Reich tem conhecimento de que
os ingleses tencionam fazer um desembarque na Noruega (...)”

Falkenhorst declarou que teve de Hitler a impressão de que fora o incidente


com o A ltm ark que mais influenciara o Führer a “levar a efeito, agora, o plano”.
94 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

O general viu-se, com grande surpresa sua, nomeado nessa mesma ocasião para
executar o plano como comandante-em-chefe. O exército, acrescentara Hitler, co­
locaria cinco divisões à sua disposição. A idéia era apoderar-se dos principais
portos noruegueses.
Ao meio-dia, o chefe nazista, despedindo-se de Falkenhorst, ordenou-lhe que
voltasse às 17h com os planos para a ocupação da Noruega.

Saí e comprei um Bãdeker, um guia de viagem [explicou Falkenhorst


em Nuremberg], a fim de formar uma idéia sobre a Noruega. Não tinha
idéia alguma (...) Dirigi-me depois para o hotel e estudei o Bãdeker (...)
Às 17h voltei à presença do Führer.14

Os planos do general, elaborados de um antigo guia Bãdeker — não lhe ha­


viam mostrado os que foram traçados pelo OKW — eram, como se pode imagi­
nar, simples esboços; pareceram, porém, ter satisfeito Hitler. Devia-se escalar uma
divisão para cada um dos cinco principais portos da Noruega: Oslo, Stavanger,
Bergen, Trondheim e Narvik. “Não havia algo mais que se pudesse fazer”, decla­
rou Falkenhorst depois, “pois eles eram os grandes portos.” Depois de ter jurado
guardar sigilo e sido ordenado que “se apressasse”, o general retirou-se novamente
e tratou imediatamente de pôr mãos à obra.
Brauchitsch e Halder, ocupados nos preparativos da ofensiva na frente oci­
dental, ignoraram, em grande parte, todo aquele movimento até o dia em que
Falkenhorst visitou o chefe do Estado-maior geral (26 de fevereiro), quando so­
licitou algumas tropas, especialmente unidades alpinas, para levar a efeito as
operações. Halder não se mostrou muito cooperador; de fato, indignou-se e exi­
giu mais informações sobre o que se estava passando e sobre o que era preciso.
“Não havia sido trocada uma só palavra sobre essa questão entre o Führer e
Brauchitsch”, exclamou Halder em seu diário. “Cumpre registrar o fato para a
história desta guerra!”
Hitler, porém, não ia ser dissuadido em seus projetos pelos velhos generais do
exército, aos quais, e especialmente ao chefe do Estado-maior geral, votava grande
desprezo. Em 29 de fevereiro, aprovou entusiasticamente os planos de Falkenhorst,
inclusive a obtenção de duas divisões alpinas. Além disso, declarou que seriam
necessárias mais tropas porque desejava “uma poderosa força em Copenhague”.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 95

Acrescentara-se definitivamente a Dinamarca à lista das vítimas de Hitler; a força


aérea estava de olho nas bases dali, para empregá-las contra a Inglaterra.
No dia seguinte, le de março, Hitler expediu a diretiva formal para a operação
Weserübung (Exercício Weser):

SECRETÍSSIMO
O desenvolvimento da situação na Escandinávia exige que se façam to­
dos os preparativos para a ocupação da Dinamarca e da Noruega. Esta
operação impedirá que os ingleses invadam a Escandinávia e o Báltico.
Além disso, garantirá nossas bases de minério na Suécia e dará à nossa
marinha de guerra e à força aérea um ponto de partida para os ataques
contra a Inglaterra (...)
Dado nosso poderio militar e político, em comparação com o dos es­
tados escandinavos, a força a ser empregada no “Exercício Weser” será
mantida o mais reduzida possível. A fraqueza numérica será equilibra­
da por feitos ousados e operações de surpresa.
Como princípio, faremos todo o possível para fazer com que a opera­
ção pareça uma ocupação pacífica, cujo objetivo será a proteção militar
à neutralidade dos Estados escandinavos. Transmitir-se-ão, no começo
da ocupação, as correspondentes exigências aos governos. Se necessá­
rio, demonstrações por parte da marinha de guerra e da força aérea
ressaltarão sua importância. Se, a despeito disso, se encontrar resistên­
cia, empregar-se-ão todos os meios para esmagá-la (...) A travessia da
orla dinamarquesa e os desembarques na Noruega devem ser realiza­
dos simultaneamente (...)
É importantíssimo que os Estados escandinavos e os adversários ociden­
tais sejam pegos de surpresa (...) As tropas somente poderão ser informa­
das dos verdadeiros objetivos depois que se fizerem ao mar (...)15

Naquela mesma noite, l2 de março, o ambiente no Alto-Comando do exército


foi tempestuoso — relatou Jodl — por causa das exigências que Hitler fizera de
tropas para a operação no norte. No dia seguinte, Gõring esbravejou com Keitel e
foi queixar-se a Hitler. O gordo marechal-de-campo estava furioso por terem-no
mantido fora do segredo, e pelo fato de a Luftwaffe ter sido colocada sob o co­
mando de Falkenhorst. Ameaçado de uma séria disputa de jurisdição, Hitler
96 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

convocou os chefes das três armas à chancelaria, em 5 de março, para aplanar as


dificuldades, o que não foi fácil.

O marechal-de-campo [Gõring] deu vazão a seu mau humor [escreveu


Jodl em seu diário] porque não havia sido consultado antecipadamen­
te. Domina a discussão e procura provar que todos os preparativos an­
teriores não servem para nada.

O Führer abrandou-o, fazendo-lhe algumas pequenas concessões, e então


prosseguiu-se, celeremente, com os planos. Já em 21 de fevereiro, segundo seu
diário, Halder tinha a impressão de que o ataque contra a Dinamarca e a Noruega
somente começaria depois que a ofensiva no Ocidente tivesse sido desencadeada
e “conduzida até certo ponto”. O próprio Hitler estivera duvidoso sobre qual a
operação que devia ser empreendida em primeiro lugar, e abordou a questão com
Jodl em 26 de fevereiro. Jodl opinou que se deviam manter as duas operações
completamente separadas, e Hitler concordou, “se isso fosse possível”.
Em 3 de março, o Führer decidiu que o Exercício Weser devia preceder o Caso
Amarelo (o nome em código para a ofensiva no Ocidente) e manifestou “bem
claramente” a Jodl “a necessidade de uma ação forte e imediata na Noruega”. Nes­
sa ocasião, o corajoso exército finlandês, inferior, porém, em número e em arma­
mentos, se defrontava com um desastre ante a maciça ofensiva russa, e havia ru­
mores bem fundamentados de que um corpo expedicionário anglo-francês se
preparava para embarcar, de sua base na Escócia, com destino à Noruega; atraves­
saria esse país e a Suécia para ir em socorro dos finlandeses* Tal ameaça foi a
principal razão da pressa de Hitler.

* Em 7 de março, o general Ironside, chefe do Estado-maior geral britânico, informou o marechal


Mannerheim de que uma força expedicionária aliada de 57 mil homens estava pronta para ir em auxí­
lio dos finlandeses e que a primeira divisão, com 15 mil soldados, poderia chegar à Finlândia no fim de
março, se a Noruega e a Suécia lhe permitissem a passagem. Na realidade, cinco dias antes, em 2 de
março, conforme Mannerheim sabia, tanto a Noruega quanto a Suécia haviam rejeitado o pedido
anglo-francês para o direito de passagem. Isso não impediu que o primeiro-ministro Daladier, em 8
de março, censurasse os finlandeses por não pedirem oficialmente o auxílio de tropas dos Aliados e
desse a entender que elas seriam enviadas independentemente dos protestos da Noruega e da Sué­
cia. Mas Mannerheim não ia deixar-se ludibriar. Tendo aconselhado seu governo a pedir a paz, en­
quanto o exército finlandês se mantinha intacto e invencível, aprovou o envio imediato de uma dele­
gação a Moscou, em 8 de março, para negociar a paz. O comandante-em-chefe dos finlandeses, ao
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 97

Em 12 de março, porém, cessou repentinamente a guerra russo-finlandesa,


aceitando a Finlândia as duras condições de paz da Rússia. Conquanto o término
da guerra fosse em geral bem acolhido em Berlim, por ter libertado a Alemanha da
proteção impopular que estendia aos russos na luta contra os finlandeses e desse,
no momento, paradeiro à investida dos russos para se assenhorearem do Báltico,
a situação, entretanto, embaraçou Hitler no tocante à sua própria aventura na
Escandinávia. Conforme Jodl registrou em seu diário, tornou difícil o “motivo”
para a ocupação da Noruega e da Dinamarca. “A conclusão da paz entre a Finlân­
dia e a Rússia”, anotou ele em 12 de março, “priva a Inglaterra, e a nós também, de
qualquer base política para ocupar a Noruega”.16
De fato, Hitler enfrentava dificuldades para encontrar uma desculpa. Em 13
de março, o fiel Jodl registrou que o Führer “procurava ainda uma justificativa”.
No dia seguinte: “O Führer ainda não resolveu como justificar o Exercício Weser”.
Para agravar a situação, o almirante Rãder começou a hesitar. “Duvidava que fos­
se ainda importante empenhar-se numa guerra preventiva (?) na Noruega”.
Hitler, nessa ocasião, hesitou. Entrementes, surgiram dois outros problemas:
1) como tratar com Sumner Welles, o subsecretário de Estado dos Estados Uni­
dos, que chegara a Berlim em l2 de março, em missão do presidente Roosevelt,
para ver se havia qualquer possibilidade de terminar a guerra antes que começas­
se a matança no Ocidente; e 2) como acalmar o abandonado e ofendido aliado
italiano. Hitler ainda não se tinha dado ao trabalho de responder à desafiadora
carta de Mussolini, de 3 de janeiro, e, na verdade, as relações entre Berlim e Roma
tinham esfriado. Acreditavam agora os alemães, e com certa razão, que Sumner
Welles viera à Europa para tentar afastar a Itália do Eixo já algo abalado e, em úl­
timo caso, persuadi-la a não entrar na guerra ao lado da Alemanha se o conflito
continuasse. De Roma, haviam sido enviadas a Berlim várias advertências de que
já era tempo de fazer alguma coisa para acalmar o mal-humorado Duce.

que parece, mostrava-se cético quanto ao empenho dos franceses em lutar na frente finlandesa ao in­
vés de o fazerem na sua própria linha de frente, na França. (Ver TheMemoirs ofMarshal Mannerheim).
Pode-se especular sobre a confusão total que resultaria entre os beligerantes, se o corpo expedicioná­
rio anglo-francês tivesse chegado à Finlândia e combatido contra os russos. Em pouco menos de um
ano, a Alemanha estaria em guerra com a Rússia, caso em que os inimigos, no Ocidente, teriam sido
Aliados no leste!
98 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Hitler encontra-se com Sumner Welles e Mussolini

Era profunda a ignorância de Hitler, de Gõring e de Ribbentrop sobre os Esta­


dos Unidos.* Conquanto a política deles, nesse tempo, fosse a de procurar manter
os Estados Unidos fora da guerra, eles, como seus predecessores, na Berlim de
1914, não consideravam que a nação yankee fosse seriamente uma força militar
poderosa. Já em l Qde outubro de 1939, o adido militar alemão em Washington,
general Friedrich von Bõtticher, aconselhou o OKW, em Berlim, a não se preo­
cupar com a possibilidade do envio de uma força expedicionária americana à
Europa. Em Ia de dezembro, informou também a seus superiores militares, em Ber­
lim, que o armamento americano era simplesmente inadequado “para uma agres­
siva política de guerra” e acrescentou que o Estado-maior geral, em Washington,
“contrastando com a estéril política de ódio do Departamento de Estado e a polí­
tica impulsiva de Roosevelt — quase sempre baseada no cálculo exagerado do po­
derio militar americano — compreende perfeitamente a Alemanha e sua orienta­
ção de guerra”. Em sua primeira mensagem, Bõtticher observou que “Lindbergh

* Exemplos da opinião esquisita que Hitler formava dos Estados Unidos foram dados em capítulos
anteriores, mas existe entre os documentos apreendidos no Ministério das Relações Exteriores um
que revela o estado de espírito do Führer nessa mesma ocasião. Em 12 de março, teve ele uma longa
conferência com Colin Ross, um perito alemão no tocante aos Estados Unidos, que recentemente
chegara de uma viagem à América onde fizera conferências e contribuíra com seu quinhão para a
propaganda nazista. Quando Ross observou que prevalecia uma "tendência imperialista" nos Estados
Unidos, Hitler perguntou (segundo as anotações taquigrafadas pelo dr. Schmidt) "se essa tendência
imperialista não fortalecia o desejo de se fazer o Anschluss do Canadá aos Estados Unidos, criando,
com isso, uma atitude antibritânica".
Deve-se admitir que os conselheiros de Hitler, nessa questão dos Estados Unidos, não auxiliaram muito
para que se pudesse lançar luz sobre a matéria. Nessa mesma conferência, Ross, ao procurar responder
às perguntas de Hitler sobre por que os Estados Unidos eram tão antigermânicos, respondeu, entre
outras coisas, o seguinte:
(...) Um fator adicional do ódio contra a Alemanha (...) é o formidável poder dos judeus, que dirige, com
habilidade e capacidade organizadora realmente fantásticas, a luta contra tudo que é alemão e nacio-
nal-socialista (...)
Colin Ross falou depois sobre Roosevelt, que acredita ser inimigo do Führer por motivos de pura inveja
e, também, por causa de sua sede de poder (...) Roosevelt subira ao poder no mesmo ano que Hitler e
tinha que ficar observando os grandes planos do Führer, enquanto ele, Roosevelt (...) não havia atingido
seu objetivo. Ele também tinha suas idéias de ditadura que, em certos aspectos, semelhavam muito às
idéias do nacional-socialismo. Mas, precisamente por reconhecer que o Führer havia atingido seu obje­
tivo ao passo que ele não, dava à sua ambição patológica o desejo de representar no palco da história
mundial o papel de rival de Hitler (...) Depois que Herr Colin Ross se despediu, o Führer, comentando,
observou que Ross era um homem muito inteligente que, certamente, tinha muito boas idéias.17
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 99

e o famoso aviador Rickenbacker” recomendavam que os Estados Unidos se man­


tivessem fora da guerra. Em P de dezembro, porém, a despeito de seu fraco juízo
sobre o poderio militar americano, ele preveniu o OKW de que wos Estados Uni­
dos entrarão na guerra se considerarem que o hemisfério ocidental se encontra
ameaçado”.18
Hans Thomsen, o encarregado dos negócios da Alemanha em Washington,
esforçou-se por transmitir alguns fatos sobre os Estados Unidos a seu ignorante
ministro das Relações Exteriores, em Berlim. Em 18 de dezembro, quando a cam­
panha na Polônia se aproximava do fim, preveniu a Wilhelmstrasse de que “as
simpatias de esmagadora maioria do povo americano estão voltadas para os nos­
sos inimigos, estando a América convencida de que a culpa da guerra cabe à Ale­
manha”. Nessa mesma mensagem assinalou as calamitosas conseqüências de
quaisquer tentativas da Alemanha em levar a efeito sabotagens na América e pe­
diu que não as fizessem “de forma alguma”.19
O pedido não foi levado muito a sério em Berlim, pois em 25 de janeiro de
1940 Thomsen telegrafou a Berlim:

Soube que um germano-americano, von Hausberger, e um cidadão ale­


mão, Walter, ambos de Nova York, estão citados como planejando atos
de sabotagem contra a indústria de armamentos americana, sob a
orientação da Abwehr alemã. Supõe-se que von Hausberger possui
explosivos escondidos em sua residência.

Thomsen pediu a Berlim que renunciasse a tais processos, declarando que

não existe meio mais seguro de impedir os Estados Unidos de entrarem


na guerra do que recorrer novamente a um curso de ação que os fize­
ram entrar para as fileiras de nossos inimigos, outrora, na Grande
Guerra e que, incidentalmente, não lhes cerceou o desenvolvimento
das indústrias de guerra.

Acrescentou, além disso: “Ambos esses indivíduos são, sob todos os aspectos,
inadequados para agir como agentes da Abwehr.”*

* Weizsàcker respondeu que o próprio Canaris lhe havia assegurado que nenhum dos homens citados
por Thomsen era agente da Abwehr. São coisas, porém, que um bom serviço secreto jamais admite.
100 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

Desde novembro de 1938, quando Roosevelt chamara o embaixador america­


no em Berlim, em sinal de protesto contra o movimento de violências patrocina­
do oficialmente pelos nazistas contra os judeus, nenhum dos dois países ficara
representado, no outro, por um embaixador. O comércio ficara reduzido a uma
insignificância, em grande parte como resultado do boicote dos americanos, e
nessa ocasião foi completamente encerrado pelo bloqueio britânico. Em 4 de no­
vembro de 1939, levantou-se o embargo que pesava sobre os armamentos, em
seguida à votação do Senado e da Câmara, abrindo-se assim o caminho para os
Estados Unidos abastecerem de armamentos os Aliados ocidentais. Foi em meio
a esse cenário, em que se desvaneciam rapidamente as relações, que Sumner Wel-
les chegou a Berlim em lfi de março de 1940.
Na véspera, 29 de fevereiro — era ano bissexto —, Hitler tomara a desusada
medida de expedir uma “diretiva para as conversações com Mr. Sumner Welles”,
secreta.20 Exigia reserva da parte dos alemães e aconselhava que “deixassem Mr.
Welles falar tanto quanto fosse possível”. A diretiva traçava cinco pontos para
orientação de todos os altos funcionários que deviam receber o emissário especial
dos Estados Unidos. O principal argumento devia ser o de a Alemanha não ter
declarado guerra à Inglaterra e à França; e, sim, o contrário. O Führer oferecera a
paz em outubro e elas a recusaram; a Alemanha aceitara o desafio; os objetivos da
Inglaterra e da França eram “destruir o Estado alemão” e à Alemanha, portanto,
só restava a opção de prosseguir a guerra.

Deve-se evitar, tanto quanto possível, um debate [concluiu Hitler] sobre


questões políticas, como, por exemplo, a questão de um futuro Estado
polonês. No caso de [ele] trazer à baila assuntos dessa natureza, cumpre
responder que tais assuntos são decididos por mim. Fica inteiramente

Outros documentos do Ministério das Relações Exteriores revelam que, em 24 de janeiro, um agente da
Abwehr deixara Buenos Aires com instruções para se apresentar a Fritz von Hausberger, em Weeha-
wken, NJ.,"a fim de receber instruções referentes à nossa especialidade". Outro agente havia sido en­
viado daquela mesma cidade a Nova York, em dezembro, para colher informações sobre fábricas de
aviões americanos e sobre embarques de armamentos para os Aliados. O próprio Thomsen relatou em
20 de fevereiro a chegada do barão Konstantin von Maydell, um alemão do Báltico, de cidadania esto-
niana, o qual informara a embaixada alemã, em Washington, que se achava em missão de sabotagem
para a Abwehr.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 101

fora de questão discutir o caso da Áustria e do Protetorado da Boêmia


e Morávia (...)
Cumpre evitar todas as declarações que pudessem ser interpretadas
(...) como significando que a Alemanha, presentemente, esteja interes­
sada, de uma forma ou de outra, em discutir as possibilidades de paz.
Ao contrário, peço que a Mr. Sumner não seja dada a mais leve razão
para duvidar de que a Alemanha está decidida a terminar vitoriosa­
mente esta guerra.

Não só Ribbentrop e Gõring seguiram a diretiva ao pé da letra, como também


o próprio Hitler, quando se avistaram separadamente com Welles em l s, 3 e 2 de
março. Julgando pelas extensas minutas das conversações, conservadas pelo dr.
Schmidt (as quais figuram entre os documentos apreendidos), o diplomata ame­
ricano, homem algo cético e taciturno, devia ter tido a impressão de que entrara
num asilo de loucos — se pudesse acreditar no que ouvira. Cada um dos Três
Grandes Nazistas bombardeou Welles com as mais grotescas deturpações da His­
tória, nas quais se torciam fantasticamente os fatos e a mais simples das palavras
perdia toda a significação.* Hitler, que em l2 de março expedira a diretiva para o
Weserübung, recebeu Welles no dia seguinte e insistiu em afirmar que o objetivo
da guerra dos Aliados era o aniquilamento; o da Alemanha, a paz. Fez uma prele-
ção a seu visitante sobre tudo que havia feito para manter a paz com a Inglaterra
e a França.

Pouco antes do rompimento da guerra, o embaixador britânico se as­


sentara exatamente no lugar em que Sumner estava agora sentado, e o
Führer lhe havia feito a maior proposta de sua vida.

Todas as suas propostas aos britânicos tinham sido recusadas e agora a Ingla­
terra estava a campo para destruir a Alemanha. Hitler, portanto, acreditava “que a
guerra tinha de ser travada até o fim (...) não havia outra solução senão uma luta
de vida e morte”.

* "Perante Deus e o mundo" exclamou Gõring a Welles, "ele, o marechal-de-campo, podia afirmar que
a Alemanha não desejara a guerra. Forçaram-na a fazê-la (...) Mas que devia fazer a Alemanha quando
os outros desejavam destruí-la?"
102 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Não era de admirar que Welles confiasse a Weizsàcker e repetisse a Gõring que,
se a Alemanha estava decidida a conquistar uma vitória militar no Ocidente, sua
viagem, então, à Europa “era inútil (...) e nada mais havia que ele pudesse dizer”.*21
Embora tivesse salientado em suas conversações com os alemães que aquilo
que ouvira dos estadistas europeus, em sua viagem, destinava-se somente aos ou­
vidos de Roosevelt, Welles julgou prudente ser suficientemente indiscreto e expor
a Hitler e Gõring que tivera uma conversa “longa, construtiva e muito útil” com
Mussolini, e que ele julgava que “havia ainda possibilidades de realizar uma firme
e duradoura paz na Europa”. Se era esse o pensamento do ditador, então era tempo
— assim entendiam os alemães — de corrigi-lo. A paz, sim, mas somente depois
de uma retumbante vitória da Alemanha no Ocidente.
O fato de Hitler não ter respondido à carta de Mussolini, de 3 de janeiro, en­
cheu o Duce de preocupações. Durante todo esse mês, o embaixador Attolico
andou perguntando a Ribbentrop quando se podia esperar uma resposta e, ao
mesmo tempo, insinuava que as relações da Itália com a França e a Inglaterra — e
também de comércio com ambos os países — estavam melhorando.
Esse comércio, que abrangia vendas de materiais de guerra pela Itália, exacer­
bou os alemães que, constantemente, protestaram em Roma, dizendo que ela es­
tava indevidamente auxiliando os Aliados ocidentais. O embaixador von Ma-
ckensen continuou informando de suas “graves ansiedades” seu amigo Weizsàcker

* Um mediador não-oficial americano achava-se também em Berlim, nessa ocasião: James D. Mooney,
vice-presidente da General Motors. Estivera em Berlim, se bem me recordo, pouco antes ou pouco de­
pois do rompimento da guerra, tentando, como outro diplomata amador, Dahlerus — se bem que este
não tivesse as relações do primeiro — salvar a paz. No dia seguinte à saída de Welles de Berlim, 4 de
março de 1940, Hitler recebeu Mooney, que o informou — segundo um registro da conferência apreen­
dido aos alemães — que o presidente Roosevelt se mostrava "mais amistoso e mais bem disposto" para
com a Alemanha "do que geralmente se acreditava em Berlim", e estava preparado para agir como
mediador a fim de harmonizar os beligerantes. Hitler simplesmente repetiu o que havia declarado a
Welles dois dias antes.
Em 11 de março, Thomsen enviou a Berlim um memorando confidencial, que lhe foi preparado por um
informante americano incógnito, declarando que Mooney "era mais ou menos pró-alemães". O presi­
dente da General Motors foi certamente ludibriado pelos alemães. O memorando de Thomsen decla­
rara que Mooney informara Roosevelt, baseando-se numa conferência anterior com Hitler, que ele
"queria a paz e desejava impedir o derramamento de sangue numa campanha de primavera". Hans
Dieckhoff, o embaixador alemão que fora chamado de seu posto nos Estados Unidos e estava passan­
do tempo em Berlim, visitou Mooney logo depois da entrevista dele com Hitler, e informou o Ministério
das Relações Exteriores que o industrial americano era "um tanto loquaz" e que "não posso acreditar
que a iniciativa de Mooney tenha grande valor".22
A CONQUISTA DA DINAMARCA E DA NORUEGA 103

que já receava que a falta de resposta à carta de Mussolini, se persistisse por mais
tempo, daria ao Duce “liberdade de ação” — e tanto ele como a Itália poderiam ser
considerados perdidos para sempre.23
Foi então que Hitler teve, em F de março, uma boa oportunidade. A Inglater­
ra anunciou que estava cortando os embarques de carvão da Alemanha por mar,
via Roterdã, para a Itália. Representava isso um pesado golpe à economia italiana
e fez com que o Duce se enfurecesse contra a Inglaterra e melhorasse seus senti­
mentos para com os alemães, os quais, prontamente, prometeram descobrir um
meio de despachar o carvão por via férrea. Aproveitando-se dessa circunstância,
Hitler endereçou uma longa carta a Mussolini, em 8 de março, que Ribbentrop
entregou pessoalmente em Roma dois dias depois.24
Não apresentava desculpas pelo atraso na resposta, mas seu tom era muito
cordial. Expunha, com grande minuciosidade, o pensamento e a política do
Führer sobre todos os assuntos concebíveis e era mais prolixa que qualquer outra
carta que enviara anteriormente ao parceiro italiano. Defendia a aliança nazista
com a Rússia, o abandono dos finlandeses e o fato de não permitir a existência de
um Estado tampão polonês.

Se eu tivesse retirado as tropas alemães do governo geral, não teríamos


conseguido realizar uma pacificação na Polônia. Teríamos um caso
horrível. E a Igreja não exerceria suas funções em louvor de Deus; ao
contrário, seus sacerdotes seriam decapitados (...)

Quanto à visita de Sumner Welles — prosseguiu Hitler — nada adiantara. Ele,


Hitler, estava decidido a atacar no Ocidente. Sabia “que a próxima batalha não
será um passeio, porém a mais feroz das lutas na história da Alemanha (...) uma
luta de vida ou morte”.
Hitler, em seguida, fez o seu lance para Mussolini entrar na guerra:

Creio, Duce, que não poderá haver dúvida de que o resultado desta
guerra decidirá também o futuro da Itália (...) Algum dia sereis defron­
tado pelos mesmos adversários que hoje estão lutando contra a Alema­
nha (...) Eu, também, vejo o destino de nossos dois países, de nossos
povos, de nossas revoluções e de nossos regimes indissoluvelmente
unidos entre si.
104 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

E, finalmente, permiti-me assegurar-vos que, a despeito de tudo, creio


que, cedo ou tarde, o destino nos forçará a lutar lado a lado, isto é, vós
também não escapareis a esse choque de armas, independentemente do
que os aspectos individuais da situação possam desenvolver-se na atua­
lidade, e que vosso lugar, mais do que nunca, será a nosso lado, assim
como o meu ao vosso.

Mussolini sentiu-se lisonjeado com a carta e assegurou imediatamente a Rib­


bentrop que concordava que seu lugar era ao lado de Hitler, “na linha de fogo”. O
ministro nazista das Relações Exteriores, de sua parte, não perdeu tempo em
adular seu anfitrião. O Führer, disse ele, “ficou entusiasmado com as últimas me­
didas dos britânicos, impedindo os embarques de carvão da Alemanha para a
Itália, por mar”. Qual a quantidade de carvão de que os italianos necessitavam?
De 500 mil a 700 mil toneladas por mês, respondeu Mussolini. A Alemanha
achava-se agora preparada para fornecer um milhão de toneladas por mês e su­
priria a maior parte dos vagões para o transporte, declarou Ribbentrop com o
maior desembaraço.
Houve duas longas conversações entre os dois, com a presença de Ciano, em
11 e 12 de março. As minutas taquigrafadas pelo dr. Schmidt revelam que nunca
Ribbentrop se mostrara tão fluente.25 Embora houvesse assuntos mais importan­
tes para serem debatidos, ele exibiu mensagens diplomáticas que haviam sido
apreendidas aos poloneses, procedentes das capitais ocidentais, para demonstrar
£a culpa enorme que cabia aos Estados Unidos na guerra”.

O ministro das Relações Exteriores explicou que aqueles documentos


demonstravam especificamente o papel sinistro dos embaixadores
americanos Bullitt [Paris], Kennedy [Londres] e Drexel Biddle [Varsó­
via] (...) Davam a perceber as maquinações da facção plutocrática-ju-
daica, cuja influência, por intermédio de Morgan e Rockefeller, atingia
todas as camadas até Roosevelt.

Durante várias horas, o arrogante ministro nazista dos Negócios Estrangeiros


falou entusiasticamente, demonstrando, entretanto, sua habitual ignorância das
questões mundiais, salientando o destino comum das duas nações fascistas e o
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 105

fato de que Hitler iria logo atacar o Ocidente, “derrotar o exército francês no
decurso do verão” e expulsar os ingleses do continente “antes do outono”. Musso­
lini ouvia-o a maior parte do tempo, interpondo, vez ou outra, uma observação,
cujo sarcasmo escapava aparentemente à percepção do ministro nazista. Quando,
por exemplo, Ribbentrop declarou pomposamente que “Stalin renunciara à idéia
de uma revolução mundial”, o Duce replicou, segundo as anotações de Schmidt:
“Acreditais realmente nisso?” Quando Ribbentrop explicou que “não havia um
único soldado alemão que não acreditasse que a vitória seria conquistada este
ano”, Mussolini exclamou: “Eis uma observação interessantíssima.” Nessa noite,
Ciano anotou em seu diário:

Após a entrevista, quando ficamos a sós, Mussolini disse que não acre­
ditava na ofensiva alemã, nem numa só vitória completa dos alemães.

O ditador italiano havia prometido expor seus próprios pontos de vista na


conferência, no dia seguinte, e Ribbentrop sentia-se um tanto preocupado quanto
ao que poderiam ser. Telegrafou a Hitler dizendo que não pudera obter uma “idéia
sobre o que o Duce tinha em mente”.
Ribbentrop não devia ter-se preocupado. No dia seguinte, Mussolini mostrou-
se um homem completamente diferente. Segundo anotou Schmidt, “passou a ser
inteiramente pró-guerra”. A questão não era — disse ele a seu visitante — saber se
a Itália entraria na guerra ao lado da Alemanha, mas quando. A questão do prazo
era “extremamente delicada, pois só devia intervir quando todos os preparativos
estivessem terminados, a fim de não embaraçar seu parceiro”.

Entretanto, tinha de declarar nessa ocasião, com toda a firmeza, que a


Itália não estava em situação financeira para sustentar uma guerra pro­
longada. Não dispunha de meios para despender um bilhão de liras por
dia, como faziam a Inglaterra e a França.

Parece que essa observação embaraçou um pouco Ribbentrop, que procurou


fazer com que o Duce assentasse uma data para a entrada da Itália na guerra, mas
o Duce agiu com cautela para não assumir um compromisso. “Haveria de chegar o
momento”, declarou ele, “em que se definiriam as relações da Itália com a França
106 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

e a Inglaterra, isto é, em que ocorreria o rompimento” Seria fácil, acrescentou,


provocar o rompimento. Embora insistisse, Ribbentrop não conseguiu obter uma
data definitiva. Obviamente, o próprio Hitler teria que intervir pessoalmente para
isso. O ministro nazista das Relações Exteriores sugeriu, então, um encontro no
Passo de Brenner entre os dois homens na segunda quinzena de março, depois do
dia 19, com o que Mussolini concordou prontamente. Ribbentrop, incidental-
mente, não disse palavra sobre os planos de Hitler de ocupar a Dinamarca e a
Noruega. Havia certos segredos que não se deviam mencionar a um aliado, muito
embora se insistisse para que ele participasse da empresa.
Sem conseguir que Mussolini estipulasse uma data, Ribbentrop obteve dele o
compromisso de entrar na guerra. “Se ele desejava fortalecer o Eixo”, lamentou
Ciano em seu diário,4conseguiu fazê-lo.” Quando Sumner Welles, depois de visi­
tar Berlim, Paris e Londres, voltou a Roma e avistou-se novamente com Mussoli­
ni, em 16 de março, achou-o mudado.

Parecia ter-se desembaraçado de um grande peso [Welles escreveu mais


tarde] (...) Muitas vezes perguntei a mim mesmo se, durante as duas
semanas desde a minha visita a Roma, ele não estava resolvido a dar um
passo decisivo e se a visita de Ribbentrop não havia colaborado para
forçar a Itália a entrar na guerra.26

Welles não devia admirar-se por isso.


Assim que Ribbentrop deixou Roma em seu trem especial, o atormentado di­
tador italiano viu-se presa de novas considerações. “Ele está receando”, lançou
Ciano em seu diário em 12 de março, “que se tenha adiantado muito no seu com­
promisso de lutar contra os Aliados. Gostaria, agora, de dissuadir Hitler de sua
ofensiva em terra, e é isso que espera conseguir no encontro que vão ter no Passo
de Brenner.” Ciano, porém, mesmo com suas limitações, não se deixou enganar
pelos fatos. “Não se pode negar”, acrescentou no diário, “que o Duce está fascinado
por Hitler, fascinação que envolve algo profundamente enraizado em sua imagi­
nação. O Führer obterá do Duce mais do que Ribbentrop conseguiu.” Era uma
verdade — com reservas, como se verá dentro em pouco.
Nem bem regressara a Berlim, Ribbentrop telefonou a Ciano, em 13 de março,
pedindo-lhe que o encontro fosse realizado mais cedo, dia 18. “Os alemães são
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 107

intoleráveis”, explodiu Mussolini. “Não dão à gente tempo para respirar ou para
pensar sobre o assunto.” Concordou, entretanto, com a data.

O Duce estava nervoso [registrou Ciano em seu diário, nesse dia]. Até
agora ele vivia sob a ilusão de que não se travaria uma verdadeira guer­
ra. A perspectiva de um choque iminente, ao qual pudesse permanecer
estranho, perturba-o e, para usar suas próprias palavras, humilha-o.27

Nevava, quando os trens dos dois ditadores chegaram, na manhã de 18 de


março de 1940, à pequena estação da fronteira, no Passo de Brenner, abaixo dos
alterosos Alpes cobertos por um manto de neve. Como engodo para Mussolini, a
conferência realizou-se no seu vagão particular, mas foi Hitler quem esteve com
a palavra durante quase todo o tempo. Ciano resumiu a conferência em seu diá­
rio, na noite desse dia:

A conferência foi mais um monólogo (...) Hitler falou durante todo o


tempo (...) Mussolini escutou-o com interesse e deferência. Falou pou­
co e confirmou sua intenção de acompanhar a Alemanha. Reservou
para si apenas a faculdade de escolher o momento oportuno.

Ele compreendia, disse Mussolini quando finalmente pôde falar, que era “im­
possível permanecer neutro até o final da guerra”. A cooperação com a Inglaterra e
a França era “inconcebível. Nós as odiamos. Portanto, é inevitável a entrada da
Itália na guerra”. Hitler despendera mais de uma hora procurando convencê-lo
disso — se a Itália não quisesse ficar ao desamparo e, como acrescentara, vir a ser
uma potência de segunda categoria.28 Não obstante ter respondido à pergunta
principal a contento do Führer; o Duce começou logo a procurar uma escapatória.

O grande problema no entanto era a data (...) Ter-se-ia que preencher


uma condição para isso. A Itália teria que estar “muito bem preparada
(...)” Sua posição financeira não lhe permitia uma guerra prolongada (...)
Perguntou ao Führer se a Alemanha não correria perigo protelando a
ofensiva. Não acreditava que houvesse tal perigo (...) teria [assim] termi­
nado seus preparativos militares em três ou quatro meses e não ficaria
108 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOM ENTO DECISIVO

na embaraçosa posição de ver seu companheiro lutando e ele mesmo


limitado a fazer demonstrações (...) Desejava fazer alguma coisa e não
se achava, entretanto, em situação de fazê-lo.

O chefe nazista não tencionava protelar a ofensiva no Ocidente e declarou-o.


Tinha, entretanto, “algumas idéias teóricas” que talvez solucionassem as dificul­
dades de Mussolini em desfechar um ataque frontal na parte montanhosa do sul
da França, uma vez que o conflito — a seu ver — “exigiria muito sangue”. Por que
— sugeriu — a Itália não supriria uma poderosa força que, juntamente com as
tropas germânicas, avançaria ao longo da fronteira suíça rumo ao vale do Ródano,
“a fim de desviar da retaguarda a frente franco-italiana dos Alpes?” Antes disso,
os principais exércitos alemães, naturalmente, teriam feito os franceses e britâni­
cos recuarem do norte. Hitler, evidentemente, procurava facilitar as operações
para os italianos.

Quando o inimigo tivesse sido esmagado [no norte da França], seria


então o momento [prosseguiu Hitler] de a Itália intervir altivamente,
não no ponto mais difícil da frente Alpina, porém algures (...)
A guerra será decidida na França. Uma vez eliminada a França, a Itália
seria senhora do Mediterrâneo, e a Inglaterra teria que pedir a paz.

Cumpre dizer que Mussolini não demorou em perceber essa brilhante pers­
pectiva de obter grandes vantagens depois que a tarefa mais dura das batalhas ti­
vesse sido executada pelos alemães.

O Duce respondeu que interviria imediatamente, assim que a Alema­


nha tivesse feito um avanço vitorioso (...) Não perderia tempo (...)
quando os Aliados ficassem abalados pela ofensiva alemã e apenas fos­
se necessário um segundo golpe para fazê-los dobrarem os joelhos.

Por outro lado,

(...) declarou Mussolini que, se o progresso dos alemães fosse lento, ele
então esperaria.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 109

Essa barganha crua e covarde parece não ter perturbado Hitler. Se Mussolini
se sentia, intimamente, fascinado por ele, como disse a Ciano, “por alguma coisa
profundamente enraizada em sua imaginação”, poder-se-ia dizer que esse fascínio
era mútuo, pelas mesmas misteriosas razões. Desleal como fora para com alguns
de seus íntimos companheiros — alguns dos quais mandara assassinar, entre eles
Rohm e Strasser —, Hitler mantinha uma estranha e inusitada lealdade para com
seu ridículo parceiro italiano, lealdade essa que não enfraquecia e que, na verdade,
se fortalecera quando a adversidade e, depois, o desastre surpreenderam o pom­
poso e frágil César romano. É um dos paradoxos interessantes desta narrativa.
Seja como for, a entrada da Itália na guerra, pelo que valia — e poucos eram os
alemães além de Hitler, especialmente entre os generais, que a julgavam de algum
valor —, foi afinal prometida solenemente. O chefe nazista pôde voltar novamen­
te sua atenção para novas e iminentes conquistas. Da mais iminente — no norte
— não disse palavra a seu amigo e aliado.

Frustrados novamente os conspiradores

Mais uma vez os conspiradores antinazistas procuraram persuadir os generais


a depor o Führer — dessa vez antes que ele pudesse efetuar sua nova agressão no
norte, da qual vieram a saber por linhas transversas. O que os conspiradores civis
novamente desejavam era a garantia do governo britânico de que faria a paz com
um regime alemão antinazista, e, sendo como eram, insistiram que, em qualquer
acordo que fizessem, fosse permitido ao governo do Reich manter a maior parte
das conquistas territoriais de Hitler: a Áustria, a região dos Sudetos e a fronteira
de 1914, na Polônia, embora esta última apenas tivesse sido, no passado, obtida
pela eliminação da nação polonesa.
Foi com tal proposta que Hassell, mui corajosamente, viajou para Arosa, na
Suíça, em 21 de fevereiro de 1940, para conferenciar com um agente de contato
britânico, a quem ele chama de Mr. X em seu diário e que era um certo J. Lonsda-
le Bryans. Conferenciaram dentro do maior sigilo em quatro reuniões que efetua­
ram em 22 e 23 de fevereiro. Bryans, que fizera bela figura na sociedade diplomá­
tica de Roma, era outro dos que se tinham arvorado em negociadores da paz e que
citamos nesta narrativa. Tinha contatos em Downing Street, e Hassell, quando se
110 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o M OMENTO DECISIVO

encontrou com ele, teve boa impressão. Após o fracasso da tentativa do major
Stevens e do capitão Best, na Holanda, para entrarem em contato com os conspi­
radores alemães, os britânicos se mostraram algo céticos quanto a toda essa ques­
tão e, quando Bryans insistiu junto a Hassell que o esclarecesse de maneira fide­
digna quanto aos elementos em nome dos quais ele falava, o emissário alemão
mostrou-se reservado.
“Não estou em posição de citar os nomes das pessoas que me apoiam”, respon­
deu Hassell. “Somente posso garantir-lhes que uma declaração de Halifax chega­
ria às mãos das pessoas certas.”29
Hassell delineou, depois, o ponto de vista da oposição alemã: compreendia-se
que Hitler devia ser derrubado “antes que se empreendessem operações militares
de grande envergadura”; isso devia ser “uma questão exclusivamente alemã”; de­
via haver “uma declaração oficial inglesa” sobre a maneira pela qual um novo re­
gime antinazista em Berlim seria tratado e que “o principal obstáculo a qualquer
mudança de regime é a história de 1918, isto é, o receio dos alemães de que as
coisas se desenvolvam da maneira que o fizeram depois que o Kaiser foi sacrifica­
do”. Hassell e seus amigos desejavam garantias de que, se se livrassem de Hitler, a
Alemanha seria tratada mais generosamente do que fora depois que os alemães se
desembaraçaram de Guilherme II.
A essa altura, ele entregou a Bryans um memorando que ele mesmo elaborou,
em inglês. É um documento confuso, se bem que repleto de nobres sentimentos
sobre um futuro baseado “nos princípios de moral, justiça e leis cristãs, bem-estar
social e liberdade de pensamento e de consciência”. O maior perigo em continuar
“esta guerra louca”, escreveu Hassell, estava na “bolchevização da Europa”, que ele
considerava pior que a continuação do nazismo. E sua principal condição para a
paz era deixar a Alemanha com quase todas as conquistas de Hitler, as quais enu­
merou. Nem mesmo se poderia discutir a anexação da Áustria e da região dos
Sudetos, em qualquer proposta de paz; a Alemanha teria que ter a fronteira de
1914 com a Polônia que, naturalmente, embora não o dissesse, era verdadeira­
mente a de 1914 com a Rússia, porquanto não se permitira nesse ano que a Polô­
nia existisse.
Bryans concordou em que era necessária uma ação rápida, em virtude da imi­
nência da ofensiva alemã no Ocidente, e prometeu entregar o memorando de Hassell
a lorde Halifax. Hassell regressou a Berlim para informar seus companheiros de
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 111

conspiração sobre seu último passo. Embora esperassem o melhor do Mr. X de


Hassell, estavam nessa ocasião mais interessados num documento denominado
Relatório X que Hans von Dohnanyi, um dos membros do grupo na Abwehr
havia elaborado, baseado no contato do dr. Müller, com os britânicos, no Vatica­
no.* Dizia o relatório que o papa se achava disposto a intervir junto aos britânicos
para tratar de uma paz razoável com um novo governo antinazista, e pode-se
medir a opinião dos adversários de Hitler pelo fato de que uma de suas condições,
que pretendiam fossem apoiadas pelo santo padre, era “a solução da questão do
leste em favor da Alemanha”. O demoníaco ditador nazista obtivera a solução
no leste “em favor da Alemanha” por uma agressão armada; os interessantes cons­
piradores alemães desejavam que a mesma coisa lhes fosse concedida pelos britâ­
nicos com as bênçãos do papa.
O Relatório X agigantou-se no espírito dos conspiradores nesse inverno de
1939-1940. No fim de outubro, o general Thomas mostrou-o a Brauchitsch com a
intenção de animar o comandante-em-chefe do exército a dissuadir Hitler do desen-
cadeamento da ofensiva no Ocidente, naquele outono. Mas Brauchitsch não apre­
ciou esse encorajamento. De fato, ameaçou mandar prender o general Thomas, se
levantasse novamente a questão. Era “simplesmente alta traição”, gritou-lhe.
Com uma nova agressão nazista à vista, Thomas levou o Relatório X ao general
Halder com esperança de que ele pudesse tomar uma decisão. Foi, porém, uma
esperança vã. Conforme o chefe do Estado-maior geral informou a Goerdeler, um
dos mais ativos conspiradores — que também lhe pediu que liderasse o movimen­
to, uma vez que o desfibrado Brauchitsch não queria —, ele não podia, nessa oca­
sião, justificar a quebra de seu voto de lealdade para com o Führer. Além disso

a Inglaterra e a França haviam declarado guerra contra nós, e tínhamos


de ir até o fim. Aceitar o compromisso de uma paz era insensato. So­
mente na maior das emergências se poderia tomar a decisão desejada
por Goerdeler.

“AlsOy doch /” — exclamou Hassell em seu diário, em 6 de abril de 1940, ao re­


gistrar o estado de espírito de Halder conforme lhe fora comunicado por Goerdeler.
“Halder”, acrescentou, “que começara a chorar durante a discussão que, sob sua

* Ver p. 51.
112 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

responsabilidade, se travou, dava a impressão de um homem fraco, cujos nervos


estivessem completamente esfrangalhados.”
É duvidoso que tal impressão seja exata. Quando se examina o diário de Hal­
der durante aquela primeira semana de abril, repleto de centenas de minuciosos
registros acerca dos preparativos para a gigantesca ofensiva no Ocidente, em cuja
orientação auxiliava, a impressão que se tem, pelo menos o autor deste livro, é que
o chefe do Estado-maior geral se achava em alegre disposição quando conferen-
ciava com os comandantes das forças e examinava os planos finais para a maior e
a mais ousada operação militar na história da Alemanha. Não se percebe, em seu
diário, qualquer alusão a uma idéia de traição ou a uma luta com sua consciência.
Posto que tivesse apreensões acerca do ataque contra a Dinamarca e a Noruega,
baseavam-se elas puramente em razões de ordem militar. Não há uma palavra de
dúvida sobre o ponto de vista moral da agressão nazista aos quatro pequenos
países neutros, cujas fronteiras a Alemanha havia solenemente garantido e que
estava prestes a atacar, e contra duas das quais, a Bélgica e a Holanda, ele mesmo
exercera o principal papel na elaboração dos planos.
Terminou assim a última tentativa dos “bons alemães” para derrubar Hitler
antes que fosse tarde demais. Fora a última oportunidade que teriam para obter
uma paz generosa. Os generais, conforme Brauchitsch e Halder deixaram bem
claro, não estavam interessados em paz negociada. Pensavam agora, da mesma
maneira que o Führer; numa paz ditada por eles — ditada depois da vitória da
Alemanha. Somente depois que as probabilidades dessa vitória começaram a en­
fraquecer, voltaram eles a suas antigas idéias de traição, as quais haviam sido tão
fortes em Munique e Zossen, de eliminar o louco ditador. Cumpre lembrar-se
desse estado de espírito e de caráter, dados os acontecimentos subseqüentes e o
desgaste dos mitos que depois se processou.

Conquista da Dinamarca e da Noruega

Os preparativos de Hitler para a conquista da Dinamarca e da Noruega foram


chamados, por muitos escritores, um dos segredos mais bem guardados da guer­
ra, mas pareceu ao autor deste livro que os dois países escandinavos foram apa­
nhados desprevenidos, não porque não tivessem sido avisados do que estava para
vir, mas por não terem, nesse tempo, acreditado nas advertências.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 113

Dez dias antes do golpe, o coronel Oster, da Abwehr, avisou um amigo muito
chegado, o coronel J. G. Sas, adido militar da embaixada holandesa em Berlim,
dos planos alemães para o Weserübung, tendo Sas informado imediatamente o
adido naval dinamarquês, capitão Kjõlsen.30 O complacente governo dinamar­
quês, contudo, não quis acreditar em seu próprio adido naval; e quando, em 4 de
abril, o ministro dinamarquês em Berlim mandou Kjõlsen, às pressas, a Copenha-
gue, para retransmitir pessoalmente a notícia, ainda não a levaram a sério. Mes­
mo à véspera da catástrofe, na noite de 8 de abril, após ter sido recebida a infor­
mação de que um navio-transporte alemão, repleto de soldados, havia sido
torpedeado ao sul da costa da Noruega — mesmo ao norte da Dinamarca — e
tivessem os dinamarqueses visto, com seus próprios olhos, uma grande armada
alemã navegando ao norte, entre suas ilhas, o rei da Dinamarca repudiou, com
um sorriso, uma observação que fizeram por ocasião de um jantar, a de que seu
país estava em perigo.
“Ele não acreditava verdadeiramente nisso”, relatou mais tarde um oficial da
guarda que lá se achava presente. De fato, informou o oficial, depois do jantar o rei
seguiu para o Teatro Real muito confiante e com alegre disposição de espírito.31
Já em março, o governo norueguês recebeu informação de sua legação em
Berlim e dos suecos sobre uma concentração de tropas e navios da marinha de
guerra alemã nos portos do mar do Norte e do dos portos bálticos. Em 5 de abril,
chegaram de Berlim notícias definidas sobre iminentes desembarques alemães na
costa meridional da Noruega. Todavia, o complacente gabinete, em Oslo, mante­
ve-se cético. Nem mesmo no dia 7, quando vários grandes navios de guerra ale­
mães foram avistados subindo ao longo da costa norueguesa e chegaram notícias
de aviões britânicos metralhando uma frota de batalha alemã ao largo da embo­
cadura do Skagerrak; nem mesmo em 8 de abril, quando o almirante inglês infor­
mou a legação da Noruega em Londres que uma poderosa força naval fora desco­
berta aproximando-se de Narvik, e os jornais, em Oslo, relataram que soldados
alemães, salvos do transporte Rio de Janeiro, torpedeado nesse dia ao largo da
costa norueguesa, em Lillesand, por um submarino polonês, haviam declarado
que eles estavam a caminho de Bergen para defendê-la contra os britânicos —
considerou o governo norueguês necessário tomar providências, como se tornava
evidente, tais como mobilização do exército, completo guarnecimento dos fortes
que defendiam os portos, bloqueio das pistas dos aeródromos ou, o mais importante
114 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

de tudo, lançamento de minas que facilmente poderia ser feito nas estreitas águas
que davam acesso à capital e às primeiras cidades. Tivessem-no feito, e a história
teria tomado feição diferente.
Notícias tétricas, conforme disse Churchill, começaram a chegar em Londres
em 1- de abril. Em 3 de abril, o gabinete de guerra inglês discutiu as últimas notí­
cias do serviço secreto, principalmente as que procediam de Estocolmo, as quais
denunciavam a concentração de poderosas forças militares alemãs em seus portos
setentrionais com o objetivo de desembarcarem na Escandinávia. Mas, ao que
parece, as notícias não foram consideradas seriamente. Dois dias depois, em 5 de
abril, quando a primeira onda de navios alemães de abastecimento já se achava no
mar, o primeiro-ministro Chamberlain proclamou, num discurso, que Hitler, ao
deixar de atacar no Ocidente, quando os britânicos e franceses não se encontra­
vam preparados, havia “perdido a oportunidade” — uma frase da qual logo have­
ria de arrepender-se.*
O governo inglês, nessa ocasião, segundo Churchill, estava propenso a acredi­
tar que a concentração alemã nos portos do Báltico e do mar do Norte estava
sendo feita somente para possibilitar a Hitler um contra-ataque, no caso de os
britânicos, minando as águas norueguesas para cortar os embarques de minério
de Narvik, ocuparem também esse porto e talvez outros ao sul.
Na realidade, o governo britânico pensava nessa ocupação. Após sete meses de
frustrações, Churchill, primeiro-lorde do almirantado, finalmente obteve do ga­
binete de guerra do conselho supremo de guerra dos Aliados aprovação para mi­
nar as estreitas águas norueguesas em 8 de abril — operação denominada Wil-
fred. Como parecia provável que os alemães reagissem violentamente a esse golpe
mortal, de ficar com seus suprimentos de minério de Narvik cortados, decidiu-se
que uma pequena força anglo-francesa fosse enviada para Narvik e avançasse
para a fronteira sueca que ficava próxima. Outros contingentes seriam desembar­
cados em Trondheim, Bergen e Stavanger, mais ao sul, a fim de — conforme
Churchill explicou — “impedir que essas bases ficassem em mãos do inimigo”.
Essa operação era conhecida pela designação de Plano R-4.32
Assim, durante a primeira semana de abril, enquanto as tropas alemãs estavam
sendo carregadas em vários barcos de guerra para a travessia, rumo à Noruega,

* Os três primeiros navios alemães de abastecimento partiram para Narvik às 2h do dia 3 de abril. O
maior navio-tanque alemão zarpou de Murmansk para Narvik em 6 de abril, com a conivência dos
russos que prazerosamente forneceram a carga de combustível.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 115

tropas britânicas, ainda que em número muito menor, estavam sendo embarcadas
em transportes no Clyde e em cruzadores, no Forth, para o mesmo destino.
Na tarde de 2 de abril, Hitler, após uma longa conferência com Gõring, Ráder
e Falkenhorst, expediu uma diretiva formal ordenando que começassem a
Weserübung às 5:15h de 9 de abril. Expediu, ao mesmo tempo, outra diretiva es­
tipulando que “se devia impedir, a todo custo, a fuga dos reis da Dinamarca e da
Noruega de seus países por ocasião da ocupação”.33Nesse dia também o OKW pôs
o Ministério das Relações Exteriores a par do segredo. Uma longa diretiva foi
apresentada a Ribbentrop, dando-lhe instruções para preparar medidas diplo­
máticas induzindo a Dinamarca e a Noruega a se renderem sem luta assim que as
forças armadas tivessem chegado e para que inventasse qualquer justificativa para
a última agressão de Hitler.34
O embuste, porém, não ficaria limitado ao Ministério das Relações Exteriores.
A marinha de guerra recorreria também a ele. Em 3 de abril, com a partida dos
primeiros navios, Jodl, em seu diário, refletiu sobre o problema de como poderia
enganar os noruegueses no caso de virem a suspeitar da presença de tantos barcos
de guerra alemães em suas vizinhanças. Essa pequena questão, na verdade, já fora
elaborada pela marinha de guerra. A marinha dera instruções aos navios de guer­
ra e de transporte para que procurassem passar como barcos britânicos — mesmo
que fosse necessário hastear a Union Jacki Ordens secretas da marinha traçavam
instruções minuciosas para “encobrir e camuflar a invasão da Noruega”.35

SECRETÍSSIMO

Conduta durante a entrada no porto


Todos os navios mergulhados na escuridão (...) Deve-se mantê-los dis­
farçados em barcos britânicos o maior tempo possível. Todas as inter­
pelações dos navios noruegueses serão respondidas em inglês. Ao res­
ponder, observar-se-á algo mais ou menos parecido com o seguinte:
“Passando por Bergen para uma pequena visita. Nenhuma intenção
hostil.”
(...) As interpelações devem ser respondidas com nomes dos encoura-
çados britânicos:
Kõln — H.M.S. Cairo
Kõnigsberg — H.M.S. — Calcutta (...) [etc.]
1 16 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

Deve-se providenciar para que as bandeiras inglesas sejam iluminadas (...)


Para Bergen (...) O que se segue é para orientação, caso uma de nossas
unidades se veja obrigada a responder às interpelações de algum barco
que passar:
Para interpelar: [no caso do Kõln] H.M.S. Cairo.
Ordenar para parar: “[1] Favor repetir o último sinal. [2] Impossível
compreender seu sinal.”
No caso de um tiro de advertência: “Cesse fogo. Navio britânico. Bom
amigo.”
No caso de perguntarem qual o destino e objetivo: “Indo para Bergen.
Perseguindo barcos alemães.”*

E assim, em 9 de abril de 1940, às 5:20h, precisamente (4:20h na Dinamarca),


uma hora antes do alvorecer, os emissários alemães em Copenhague e Oslo, ten­
do arrancado do leito os respectivos ministros das Relações Exteriores vinte mi­
nutos antes (Ribbentrop insistira num horário estrito, em coordenação com a
chegada das tropas alemãs àquela hora), apresentaram aos governos da Dinamar­
ca e Noruega o ultimato da Alemanha exigindo que aceitassem, naquele instante,
e sem resistência, “a proteção do Reich”. O ultimato foi talvez o mais importante
documento até então composto por Hitler e Ribbentrop, que nisso eram grandes
artistas e já muito experimentados em ardis diplomáticos.37
Depois de declarar que o Reich tinha vindo em auxílio da Dinamarca e da
Noruega, para proteger ambos os países contra uma ocupação anglo-francesa, o
memorando dizia que:

As tropas alemãs, portanto, não descem em solo norueguês como ini­


migas. O Alto-Comando não pretende utilizar-se dos pontos ocupados
pelas tropas alemãs como bases para operações contra a Inglaterra en­
quanto não for forçado a isso (...) Ao contrário, as operações militares
da Alemanha visam, exclusivamente, proteger o norte contra a proje­
tada ocupação das bases norueguesas pelas forças anglo-francesas.

* Depondo perante o tribunal de Nuremberg, o almirante Ráder justificou tais táticas com o fundamen­
to de que era um legítimo "estratagema de guerra, contra o qual, do ponto de vista legal, não se pode
fazer objeção"36
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 117

(...) Dentro do espírito das boas relações que têm existido até agora
entre a Alemanha e a Noruega, o governo do Reich declara ao governo
real da Noruega que a Alemanha não tenciona infringir, com suas me­
didas, a integridade territorial e a independência política do reino da
Noruega, agora ou no futuro (...)
O governo do Reich espera, portanto, que o governo norueguês e o povo
(...) não ofereçam resistência a ele. Qualquer resistência teria que ser, e
seria, quebrada por todos os meios possíveis (...) e somente poderia,
pois, conduzir a um derramamento de sangue absolutamente inútil (...)

As expectativas dos alemães provaram ser justificadas quanto à Dinamarca,


não, porém, quanto à Noruega. Isso se tornou conhecido na Wilhelmstrasse com
as primeiras mensagens urgentes que receberam dos ministros naqueles países.
O emissário alemão em Copenhague telegrafou a Ribbentrop às 8:34h, dizendo
que os dinamarqueses haviam “aceitado todas as nossas exigências [embora] re­
gistrassem um protesto”. O ministro Curt Bráuer, em Oslo, tinha uma informa­
ção completamente diferente para dar. Às 5:52h, justamente 32 minutos depois
de ser entregue o ultimato alemão, telegrafou a Berlim a pronta resposta do go­
verno norueguês: “Não nos submetemos voluntariamente: a luta já se acha em
progresso.”38
O arrogante Ribbentrop sentiu-se ultrajado.* Às 10:55h telegrafou urgentíssi-
mamente a Bráuer: “Queira enfatizar mais uma vez ao governo, aí, que a resistên­
cia da Noruega é completamente insensata.”
Foi o que o infeliz emissário alemão não pôde mais fazer. O rei, o governo e os
membros do parlamento da Noruega, nessa ocasião, haviam deixado a capital e

* Raras foram as vezes em que o autor viu o ministro das Relações Exteriores nazista mais insuportá­
vel do que naquela manhã. Pavoneou-se perante a imprensa, numa entrevista especialmente convo­
cada para seu gabinete, envergando um brilhante uniforme cinzento de campanha e parecendo —
anotei em meu diário — "que era o senhor da terra". Declarou ele: "O Führer já respondeu (...) A
Alemanha ocupou o solo da Dinamarca e da Noruega a fim de proteger esses países contra os Aliados,
e defenderá sua verdadeira neutralidade até o fim da guerra. Salvou-se, assim, de uma ruína certa,
uma ilustre parte da Europa"
Era de se verem também os jornais de Berlim nesse dia. O Bõrsenzeitung:“IK Inglaterra tripudia friamen­
te sobre os cadáveres dos pequenos povos. A Alemanha protege os estados fracos contra os assaltan­
tes de estrada ingleses (...) A Noruega "deve reconhecer a justiça das medidas da Alemanha, as quais
foram tomadas para assegurar a liberdade do povo norueguês." O próprio jornal de Hitler, o Võlkischer
Beobachter, trazia a seguinte manchete: "A Alemanha salva a Escandinávia!"
1 18 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOM ENTO DECISIVO

voado para as montanhas, no norte. Por mais impossível que fosse a luta, eles es­
tavam determinados a resistir. De fato, já havia começado a resistência em alguns
lugares, com a chegada dos navios alemães na escuridão da noite.
Os dinamarqueses estavam em situação mais desesperadora. Seu país, uma
agradável ilha, não podia defender-se. A ilha era muito pequena, de superfície
demasiado plana, e a região maior — Jutlândia — jazia aberta por terra aos pa n -
zers de Hitler. Não havia montanhas para onde o rei e o governo pudessem fugir,
como era o caso da Noruega, nem podiam esperar qualquer auxílio da Inglaterra.
Tem-se dito que os dinamarqueses eram demasiadamente civilizados para lutar
em tais circunstâncias; seja como for, não lutariam. O general W. W. Pryor, co­
mandante-em-chefe do exército, foi quem, quase sozinho, pleiteou que se opuses­
se resistência; seu apelo, porém, foi rejeitado pelo primeiro-ministro Thorvald
Stauning, pelo ministro das Relações Exteriores Edvard Munch e pelo rei, o qual,
quando chegaram as más notícias em 8 de abril, recusou seus apelos no sentido de
ser decretada a mobilização. Por motivos ainda obscuros ao autor, mesmo após
uma investigação feita em Copenhague, a marinha não disparou um tiro, quer de
seus navios quer de suas baterias de terra, nem mesmo quando os navios de tro­
pas alemães passaram sob o nariz de seus canhões e podiam ter sido destruídos.
O exército fez algumas escaramuças na Jutlândia, a guarda-real disparou alguns
tiros ao redor do palácio, na capital, e teve alguns feridos. À hora em que os dina­
marqueses haviam terminado sua substanciosa refeição matinal, tudo já estava
terminado. O rei, a conselho do governo, contra, porém, o do general Pryor, capi­
tulou e ordenou que qualquer leve resistência cessasse.
Os planos para tomar a Dinamarca de surpresa e por meio de um estratagema,
conforme demonstram os documentos apreendidos ao exército alemão, foram
preparados com meticuloso cuidado. O general Kurt Himer, chefe do Estado-
maior da força de tarefa destinada à tomada da Dinamarca, havia chegado de
trem, em trajes civis, em Copenhague, no dia 7 de abril, para proceder ao reco­
nhecimento da capital e fazer os arranjos necessários para que o navio-transporte
de tropas Hansestadt D antzig pudesse ter um ancoradouro conveniente e para
arranjar um caminhão destinado ao transporte de suprimentos e um transmissor
de rádio. O comandante do batalhão — tudo isso foi considerado necessário para
tomar a grande cidade — estivera também em Copenhague, usando roupas civis,
dois dias antes, a fim de obter o traçado da região.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 119

Não era, portanto, tão estranho que os planos do general e do comandante do


batalhão fossem executados quase sem empecilho. O navio-transporte de tropas
chegou ao largo de Copenhague pouco antes do alvorecer, passou sem interpela­
ção pelos canhões do forte que protegiam o porto e os barcos patrulha dinamar­
queses, e atracou no cais da Langelinie, no coração da cidade, à pequena distân­
cia da Cidadela, quartel-general do exército dinamarquês, e a uma distância
também pequena do palácio Amalienborg, onde residia o rei. Ambos foram ra­
pidamente tomados por aquele batalhão isolado, sem que houvesse resistência
digna de menção.
No pavimento superior do palácio, em meio ao pipocar dos tiros dispersos, o
rei conferenciou com os ministros. Todos eles opinaram para que não se resistisse.
Somente o general Pryor foi quem pediu permissão para travar a luta. Pediu, de­
pois, ao rei que, pelo menos, partisse para Hvelte, o acampamento militar mais
próximo, para não ser capturado. Mas o rei concordou com seus ministros. Se­
gundo uma testemunha ocular, perguntou “se nossos soldados haviam lutado
bastante tempo”, ao que Pryor respondeu que não.*39
O general Himer impacientou-se com a demora. Telefonou para o quartel-
general, recomendando a realização da operação em conjunto — a qual havia sido
preparada em Hamburgo (as autoridades dinamarquesas não haviam ainda pen­
sado em cortar as linhas telefônicas ligadas à Alemanha) — e, segundo sua pró­
pria versão,40 solicitou a remessa de alguns bombardeiros para sobrevoar Cope­
nhague “a fim de forçar os dinamarqueses a aceitar as exigências alemãs”. A
conversação foi feita em código, e a Luftwaffe compreendeu que Himer estava
pedindo que realizassem um bombardeio, coisa que ela prometeu fazer imediata­
mente — engano que, finalmente, foi corrigido a tempo. Diz o general Himer que
os bombardeiros, “sobrevoaram ruidosamente a capital dinamarquesa, não deixa­
ram de causar impressão: o governo aceitou as exigências alemãs”.
Houve certa dificuldade em descobrir um meio de irradiar para as tropas
dinamarquesas a capitulação do governo, pois as estações de rádio locais não es­
tavam ainda no ar àquela hora da manhã. Solucionou-se a questão irradiando-a
nas ondas longas dinamarquesas pelo transmissor que o batalhão alemão trouxe­
ra consigo, e para o qual o general Himer havia, pensadamente, arranjado um
caminhão para transportar à Cidadela.

* O total das baixas dinamarquesas, em todo o reino, foi de 13 mortos e 23 feridos. As baixas alemães
foram em torno de vinte.
120 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

Às 14h daquele dia, o general Himer, acompanhado do ministro alemão Cecil


von Renthe-Fink, visitou o rei da Dinamarca, que já não era o soberano, embora
ainda não soubesse. Himer deixou um registro dessa entrevista nos arquivos se­
cretos do exército.

Aquele rei de 70 anos de idade parecia, no íntimo, abaladíssimo, se bem


que sua aparência fosse perfeita; manteve, durante a audiência, absoluta
dignidade. Todo o seu corpo tremia. Declarou que ele e seu governo
tudo fariam para manter a paz e a ordem no país e para eliminar qual­
quer atrito entre as tropas alemãs e o povo. Desejava poupar à pátria
infortúnios e sofrimentos.
O general Himer respondeu que, pessoalmente, lamentava bastante ir à
sua presença com tal missão, mas que estava cumprindo seu dever de
soldado (...) Fomos como amigos, etc. Quando o rei perguntou se podia
manter sua guarda, o general Himer respondeu (...) que o Führer per­
mitiria, sem dúvida, que a mantivesse. Não tinha dúvidas a respeito.
O rei mostrou-se visivelmente aliviado ao ouvir isso. No decurso da
audiência (...) o rei ficou mais à vontade e, ao terminá-la, dirigiu-se ao
general Himer com as seguintes palavras: “General, permite que eu,
como velho soldado, lhe diga uma coisa? De soldado para soldado? Os
senhores, alemães, fizeram novamente uma coisa inacreditável! Deve-
se admitir que é um magnífico trabalho!”

Durante quase quatro anos, até o momento em que mudou a maré da guerra,
o rei da Dinamarca e seu povo, uma raça de boa índole, despreocupada e civiliza­
da, poucas dificuldades ofereceram aos alemães. A Dinamarca tornou-se conhe­
cida como “protetorado-modelo”. O monarca, o governo, os tribunais, até mesmo
o parlamento e a imprensa, receberam de seus conquistadores, a princípio, um
surpreendente grau de liberdade. Nem mesmo os sete mil judeus dinamarqueses
foram molestados — durante certo tempo. Mas os dinamarqueses, depois de
muitos outros povos que haviam sido conquistados, compreenderam finalmente
que era impossível a “cooperação leal”, como a chamavam, com seus tiranos teu-
tônicos, cuja brutalidade aumentava com os anos e com os reveses da guerra, se
tivessem que manter qualquer sombra de respeito próprio e honra. Começaram
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 121

também a compreender que a Alemanha não poderia afinal ganhar a guerra, e


que a pequena Dinamarca não estava inexoravelmente condenada, como tantos
temiam a princípio, a ser um Estado-vassalo na inqualificável Nova Ordem. Foi
então que começou a resistência.

Resistem os noruegueses

A resistência começou na Noruega desde o início do ataque, se bem que não o


fosse por toda parte. Em Narvik, porto e estação da linha ferroviária do transpor­
te do minério de ferro da Suécia, o coronel Konrad Sundlo, que comandava a
guarnição local e que, conforme vimos, era um fanático adepto de Quisling,* ren­
deu-se aos alemães sem disparar um tiro. Já o comandante naval era diferente. Ao
aproximarem-se da embocadura do comprido fiorde dez destróieres alemães, o
Eidsvold, um dos dois antigos encouraçados, no porto, disparou um tiro de adver­
tência e fez sinal aos destróieres para que se identificassem. O contra-almirante
Fritz Bonte, que comandava a flotilha alemã, respondeu enviando um oficial
numa lancha ao barco norueguês, para exigir a rendição. Houve nisso certa trai­
ção por parte dos alemães, embora os oficiais navais alemães tenham, mais tarde,
defendido o seu ato com o argumento de que, na guerra, a necessidade não tem
lei. Quando o oficial, da lancha, fez sinal ao almirante alemão de que os noruegue­
ses haviam declarado que resistiriam, Bonte apenas esperou que a lancha se pu­
sesse fora do caminho e fez explodir o Eidsvold com torpedos. O segundo encou-
raçado norueguês, o Norge, abriu então fogo, mas foi rapidamente destruído.
Trezentos marinheiros noruegueses — quase toda a tripulação dos dois barcos
— pereceram. Às 8h, Narvik estava em poder dos alemães, tomada por dez des­
tróieres que passaram despercebidos por uma formidável frota britânica, e foi
ocupada por apenas dois batalhões de soldados nazistas sob o comando do gene-
ral-brigadeiro Eduard Dietl, um velho companheiro de Hitler, na Baviera, desde
os tempos do Putsch na cervejaria, que ia provar mais tarde ser um comandante
corajoso e cheio de recursos quando as coisas se tornassem duras em Narvik,
como aconteceu a partir do dia seguinte.
Trondheim, a meio caminho da longa costa ocidental da Noruega, foi tomada
pelos alemães quase com a mesma facilidade. As baterias do porto deixaram de

* Ver p. 88.
122 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

atirar contra os navios alemães conduzidos pelo cruzador pesado Hipper, ao apro­
ximarem-se eles do comprido fiorde. As tropas que vinham a bordo desse navio e
de quatro destróieres desembarcaram comodamente no cais, sem interferência.
Alguns fortes resistiram umas poucas horas e o aeródromo próximo, em Vaernes,
dois dias; mas essa resistência não afetou a ocupação de um belo porto muito
conveniente para a estadia de grandes barcos de guerra e de submarinos; e impor­
tante estação ferroviária de uma linha que atravessava o centro e o norte da No­
ruega em demanda da Suécia e pela qual os alemães esperavam, com certa razão,
receber suprimentos, caso os ingleses os bloqueassem no mar.
Bergen, o segundo porto e a segunda cidade da Noruega, situada cerca de 480
quilômetros ao sul de Tromdheim, na costa, e ligada a Oslo, a capital, por estrada
de ferro, opôs alguma resistência. As baterias que protegiam o porto danificaram
bastante o cruzador Kõnigsberg e um navio auxiliar, mas as tropas de outros bar­
cos desembarcaram a salvo e ocuparam cidade antes do meio-dia. Foi em Bergen
que chegou a primeira ajuda direta dos ingleses para os aturdidos noruegueses.
À tarde, 15 bombardeiros navais de mergulho puseram a pique o Kõnigsberg , o
primeiro barco desse porte a ir ao fundo como resultado de um ataque aéreo.
Fora do porto, os ingleses tinham uma poderosa frota de quatro cruzadores e
sete destroéieres, a qual podia ter subjugado a pequena força naval alemã. Ela ia
entrar no porto, quando recebeu ordens do almirantado para suspender o ata­
que, por causa do perigo que corria com as minas e um bombardeio pelo ar, de­
cisão da qual Churchill participara e que lamentou depois. Foi o primeiro sinal
de cautela e de meias medidas que ia custar caro aos ingleses nos dias cruciantes
que se seguiram.
O aeródromo de Sola, próximo ao porto de Stavanger, na costa sudoeste, foi
tomado por pára-quedistas alemães depois que as plataformas de metralhado­
ras — não havia verdadeiramente proteção de canhões antiaéreos — foram si­
lenciadas. Era o maior aeródromo da Noruega e, estrategicamente, o mais im­
portante para a Luftwaffe, porque dali os bombardeiros podiam ser lançados
não só contra a frota britânica ao longo da costa norueguesa, como, também,
contra as principais bases navais no norte da Inglaterra. Sua conquista deu aos
alemães imediata supremacia nos ares, na Noruega, e afastou qualquer tentativa
dos ingleses de desembarcar forças substanciais.
Kristiansand, na costa meridional, opôs considerável resistência aos alemães;
suas baterias duas vezes fizeram recuar uma frota inimiga dirigida pelo cruzador
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 123

leve Karlsruhe. Mas os fortes foram logo silenciados pelo bombardeio da Luft-
waffe, tendo o porto sido ocupado no meio da tarde. O Karlsruhe , porém, ao
deixar o porto nessa noite, foi atingido por um torpedo de um submarino britâni­
co e ficou tão seriamente avariado que teve de ser afundado.
Ao meio-dia ou logo depois, as cinco principais cidades e portos da Noruega
e um grande aeródromo, ao longo da costa ocidental e da costa sul que se esten­
dem por 2.400 quilômetros desde Skagerrak até o Ártico, estavam em mãos dos
alemães. Foram conquistados por um contingente de tropas transportado por
uma armada muito inferior à da Inglaterra. A ousadia, o estratagema e a surpresa
deram a Hitler uma retumbante vitória por um preço muito baixo.
Mas em Oslo, a principal presa, a força militar e a diplomacia do Führer de­
frontaram-se com dificuldades inesperadas.
Durante toda a gélida noite de 8-9 de abril, um alegre grupo de recepção da
legação alemã, dirigido pelo capitão Schreiber, adido naval, a quem, por acaso, se
juntou o atarefadíssimo dr. Bráuner, o ministro, achava-se no cais do porto de
Oslo esperando a frota e os navios-transporte alemães. Um adido naval secundá­
rio percorria a baía numa lancha, esperando agir como piloto para a frota, que
era dirigida pelo encouraçado de bolso Lützou (cujo nome anterior era Deuts-
chland e foi depois mudado, porque Hitler não queria correr o risco de perder
um navio com aquele nome) e pelo novíssimo cruzador pesado Blücher; a nau
capitânea da frota.
Esperaram em vão. Os grandes navios não chegaram. Tinham sido interpela­
dos na entrada do fiorde de Oslo, de oitenta quilômetros de extensão, pelo navio
lança minas Olav Trygverson, que pôs a pique um barco alemão e danificou o
cruzador leve Emden. Após desembarcar uma pequena força para subjugar as ba­
terias da costa, a frota alemã prosseguiu seu avanço pelo fiorde. Em certo ponto,
distante de Oslo uns 24 quilômetros, onde as águas se estreitavam, surgiram no­
vas dificuldades. Erguia-se ali a antiga fortaleza de Oskarsborg, cujos defensores
estavam mais alerta do que os alemães suspeitavam. Pouco antes do alvorecer, os
canhões Krupp de 28 centímetros abriram fogo contra o Lützou e o Blücher, e
torpedos foram também lançados da costa. O Blücher, de 10 mil toneladas, incen­
diado e despedaçado pela explosão de suas munições, foi ao fundo com a perda
de 1.600 homens, incluindo vários membros da Gestapo e funcionários adminis­
trativos (com todos os seus documentos), os quais deviam prender o rei e os
124 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

membros do governo e assumir a administração da capital. O Lützou foi também


danificado, não, porém, completamente imobilizado. O contra-almirante Oskar
Kummetz, comandante da frota, e o general Erwin Engelbrecht, que dirigia a 163â
Divisão de infantaria — que se achavam no Blücher — conseguiram chegar a
nado à costa, onde foram feitos prisioneiros pelos noruegueses. A mutilada frota
alemã retrocedeu imediatamente, para se aliviar um pouco dos estragos. Falhara
em sua missão de conquistar o principal objetivo dos alemães, a capital da Norue­
ga. Só conseguiram no dia seguinte.
A queda de Oslo, na realidade, verificou-se ante uma força fantasma de pára-
quedistas alemães lançados sobre o desprotegido aeroporto local. As notícias ca­
tastróficas procedentes de outros portos e o martelar dos canhões, 24 quilômetros
abaixo do fiorde de Oslo, fizeram a família real norueguesa, o governo e os mem­
bros do parlamento deixarem a capital às pressas, num trem especial, às 9:30h, e
rumarem para Hamar, 128 quilômetros ao norte. Vinte caminhões com o ouro do
Banco da Noruega e três outros com os documentos secretos do Ministério das
Relações Exteriores partiram à mesma hora. A valorosa ação da guarnição de
Oskarsborg frustrou, assim, os planos de Hitler de apoderar-se do rei, do governo
e do ouro da Noruega.
Oslo, porém, ficou completamente confusa. Havia ali algumas tropas norue­
guesas, mas não foram colocadas em posição de defesa. Ademais, nada se fizera
para bloquear o aeroporto nas imediações de Fornebu, o que podia ter sido feito
com alguns automóveis velhos estacionados ao longo da pista e em torno do cam­
po. A altas horas da noite anterior, o capitão Spiller, adido da aeronáutica alemã
em Oslo, ali permanecera para receber as tropas aerotransportadas que deviam
chegar depois que os barcos da marinha de guerra chegassem à cidade. Como não
haviam aparecido, a legação, extremamente inquieta, transmitiu um rádio a Ber­
lim informando sobre a inesperada e desastrosa situação. A resposta foi imediata.
Logo desciam em Fornebu pára-quedistas e tropas de infantaria aerotranspor­
tadas. Por volta do meio-dia, cinco companhias já se achavam reunidas. Como
estavam apenas equipadas com armas leves, podiam ter sido facilmente destruí­
das pelas forças norueguesas da capital. Mas, por motivos ainda não esclarecidos
— tão grande era a confusão em Oslo — não foram concentradas e muito menos
coordenadas, e a simbólica infantaria alemã marchou para a capital atrás de uma
retumbante e improvisada banda militar. Caiu assim a última das cidades da No­
ruega; não, porém, o país. Este ainda estava de pé.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 125

Na tarde de 9 de abril o Storting — Parlamento norueguês — reuniu-se em


Hamar com apenas cinco dos seus duzentos membros, mas suspendeu a sessão às
19:30h, quando chegaram notícias de que as tropas alemãs se aproximavam da
cidade. Passaram então para Elverum, poucos quilômetros a leste, na fronteira
sueca. O dr. Bráuer, instado por Ribbentrop, pediu uma audiência imediata com
o rei. O primeiro-ministro norueguês concordou, sob a condição de as tropas
alemãs, como medida de segurança, permaneceram a certa distância. Com isso
não concordou o ministro alemão.
Na verdade, mais uma traição nazista se preparava naquele momento. O capi­
tão Spiller, adido da aeronáutica, havia partido do aeroporto de Fornebu para
Hamar com duas companhias alemãs de pára-quedistas a fim de capturar o recal-
citrante monarca e o governo. Isso parecia-lhes mais um divertimento do que
qualquer outra coisa. Como as tropas norueguesas não haviam disparado um tiro
para impedir a entrada dos alemães em Oslo, Spiller não esperava encontrar resis­
tência em Hamar. De fato, as duas companhias, viajando em ônibus, tinham a
impressão de estarem fazendo um passeio turístico. Mas não contavam com um
oficial do exército norueguês que agiu de maneira diferente da de muitos outros.
O coronel Ruge, inspetor-geral da infantaria, que acompanhara o rei para o norte,
insistira em prover certa proteção ao governo fugitivo e instalara uma barricada
nas imediações de Hamar e ali ficara com dois batalhões de infantaria que conse­
guira reunir às pressas. O avanço dos alemães foi detido e, numa escaramuça que
se seguiu, Spiller ficou mortalmente ferido. Após sofrer novas baixas, os alemães
retrocederam para Oslo.
No dia seguinte, o dr. Bráuer partiu sozinho de Oslo pela mesma estrada, a fim
de se encontrar com o rei. Diplomata profissional da velha escola, o ministro ale­
mão apreciou muito o seu papel, mas Ribbentrop insistira fortemente com ele
para que convencesse o rei e o governo a se render. A difícil tarefa de Bráuer
complicou-se ainda mais, dados certos acontecimentos políticos que acabavam de
verificar-se em Oslo. Na noite anterior, Quisling pusera-se finalmente em ativi­
dade, assim que a capital ficou firmemente em mãos dos alemães: invadiu a esta­
ção de rádio e irradiou uma proclamação nomeando-se chefe do novo governo e
ordenando que, na Noruega, cessasse toda resistência. Embora Bráuer não pu­
desse compreender ainda tal situação — e nem Berlim a compreendeu depois —,
esse ato de traição condenou os esforços dos alemães para induzir a Noruega a
126 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

capitular. E, paradoxalmente, se bem que fosse aquele um momento em que toda


a nação se envergonhava com a traição de Quisling, esse gesto uniu os estupefatos
noruegueses para uma resistência que se tornaria formidável e heróica.
O dr. Brãuer encontrou-se com Haakon VII — o único rei que, no século XX,
fora conduzido ao trono pelos votos do povo e o primeiro monarca próprio que a
Noruega teve em cinco séculos* — numa escola da pequena cidade de Elverum,
às 15h do dia 10 de abril. Por uma conversa que o autor teve com o monarca,
tempos depois, e pela leitura de documentos e do relatório secreto do dr. Brãuer
— que figura entre os documentos do Ministério das Relações Exteriores apreen­
didos — é possível narrar o que aconteceu. Após considerável relutância, o rei
concordou em receber o emissário alemão na presença de seu ministro das Rela­
ções Exteriores, dr. Halvdan Koht. Quando Brãuer insistiu em falar a sós com
Haakon, ele, de acordo com Koht, consentiu em recebê-lo.
O ministro alemão, agindo de conformidade com instruções, ora linsonjeava
ora procurava intimidar o rei. A Alemanha desejava preservar a dinastia. Pedia
apenas ao rei que agisse como fizera seu irmão, em Copenhague. Era loucura re­
sistir à Wehrmacht. Disso resultaria apenas uma inútil carnificina para os norue­
gueses. Pedia-se ao rei que aprovasse o governo de Quisling e regressasse a Oslo.
Haakon, um homem sutil e de espírito democrático, um grande defensor, mesmo
naquele momento crítico, dos processos constitucionais, procurou explicar ao di­
plomata alemão que, na Noruega, o rei não tomava decisões políticas, as quais
cabiam exclusivamente ao governo, a quem iria então consultar. Koht entrou de­
pois na conversação, tendo ficado combinado que a resposta do governo seria
dada por telefone a Brãuer, para algum ponto do caminho de sua volta a Oslo.
Para Haakon, que embora não pudesse tomar decisões políticas podia, sem
dúvida, exercer sua influência nelas, havia uma única resposta aos alemães. Reti­
rando-se para uma modesta estalagem na aldeia de Nybergsund, nas proximida­
des de Elverum — dada a possibilidade de os alemães, após a partida de Brãuer,
tentarem um ataque de surpresa para capturá-lo — reuniu os membros do gover­
no como conselho de Estado.

* A Noruega fez parte da Dinamarca durante quatro séculos e da Suécia mais de um. Reconquistou sua
independência somente em 1905, quando se separou da Suécia. O povo elegeu o príncipe Carlos, da
Dinamarca, como rei na Noruega. Ele tomou o nome de Haakon VII. Haakon VI morrera em 1380. Ha­
akon VII era irmão de Cristiano X, da Dinamarca, o qual capitulara prontamente aos alemães na manhã
de 9 de abril de 1940.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 127

(...) De minha parte [disse-lhes] não posso aceitar as exigências dos


alemães. Entraria em conflito com tudo o que tenho considerado meu
dever como rei da Noruega desde que vim para este país, há coisa de 35
anos (...) Não desejo que a decisão do governo seja influenciada por esta
declaração ou baseada nela; mas (...) não posso nomear Quisling pri­
meiro-ministro, um homem em que sei que meu povo (...) e seus repre­
sentantes no Storting não depositam confiança alguma.
Se, portanto, o governo resolver aceitar as exigências alemãs — e eu
compreendo perfeitamente as razões em favor disso, considerando o
iminente perigo de guerra, a que tantos jovens noruegueses terão que
dar suas vidas — nesse caso, a abdicação é o único caminho que me
resta a seguir.41

O governo, embora nele pudesse haver alguns vacilantes até aquele momento,
não podia ser menos corajoso que o rei. Uniram-se todos a ele. Quando Bráuer
chegou a Eidsvold, metade do caminho de volta a Oslo, Koht já estava na linha
telefônica para dar-lhe a resposta da Noruega. O ministro alemão transmitiu-a
imediatamente à legação em Oslo, por telefone, apressando-se a legação a telegra­
fá-la para Berlim.

O rei não nomeará nenhum governo chefiado por Quisling, e esta deci­
são foi tomada com o parecer unânime do governo. À pergunta especí­
fica que fiz, o ministro das Relações Exteriores Koht respondeu: “A re­
sistência continuará tanto tempo quanto for possível.”42

Naquela noite, de uma fraca e pequena estação de rádio rural das imediações
— único meio de comunicação que ali havia para o mundo exterior —, o governo
norueguês atirou a luva para o poderoso Terceiro Reich. Anunciou sua decisão de
não aceitar as exigências alemãs e apelou para o povo — havia apenas três milhões
de almas — que resistisse aos invasores. O rei associou-se formalmente ao apelo.
Mas os conquistadores nazistas pareciam não acreditar que os noruegueses
estivessem falando seriamente. Fizeram-se duas tentativas para dissuadir o rei.
Na manhã de 11 de abril, um emissário de Quisling — o capitão Irgens — che­
gou à pequena localidade e insistiu para que o monarca regressasse à capital.
128 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

Prometeu que Quisling o serviria lealmente. Sua proposta foi repudiada com
silencioso desprezo.
À tarde, chegou uma mensagem urgente de Bráuer, pedindo nova audiência
com o rei para conversar sobre ‘certas propostas”. O bem apressado emissário
alemão fora instruído por Ribbentrop que dissesse ao monarca que ele “desejava
dar ao povo norueguês uma última oportunidade para um acordo razoável”.*
Desta vez, o dr. Koht, após consultar o rei, respondeu que, se o ministro alemão
tinha “certas propostas” a fazer, devia comunicá-las ao ministro das Relações
Exteriores.
A reação dos nazistas a essa recusa de um país tão pequeno, e que se achava
em trágica situação, foi imediata e característica. Os alemães tinham fracassado,
primeiro ao tentar capturar o rei e os membros do governo e, depois, quando
procuraram persuadi-los a que se rendessem. Procuraram então matá-los. Na
noite de 11 de abril, mandaram a Luftwaffe desencadear na aldeia de Nybergsund
todo o seu ódio. Os aviadores nazistas destruiram-na com bombas explosivas e
incendiárias e metralharam as pessoas que procuraram escapar às chamas das
ruínas. Aparentemente, os alemães acreditaram, a princípio, que haviam massa­
crado o rei e os membros do governo. O diário de um aviador alemão, capturado
mais tarde no norte da Noruega, registrava o seguinte com a data de 11 de abril:
“Nybergsund. Oslo Regierung. Alies vernichtef. (Governo de Oslo. Completamen­
te destruído).
A aldeia foi destruída; não, porém, o rei e o governo. Ao aproximarem-se os
bombardeiros nazistas, refugiaram-se numa floresta das proximidades. De pé,
com a neve até os joelhos, viram a Luftwaffe reduzir a um montão de ruínas as
modestas casas da aldeia. Viram-se diante da alternativa: ou seguir para a fron­
teira sueca, nas proximidades, e asilar-se nesse país neutro, ou avançar para o
norte, para suas próprias montanhas, que a neve ainda cobria profundamente.
Resolveram dirigir-se para o acidentado vale de Gudbrands que, passando por
Hamar e Lillehammer e as montanhas, conduzia a Andalsnes, na costa noroeste,

* Há um sinistro sinal de nova traição nas instruções secretas de Ribbentrop. Brãuer foi instruído a ar­
ranjar o encontro "num ponto entre Oslo e o atual local de residência do rei" Por razões óbvias, ele,
Brãuer, teria de discutir essa proposta com o general von Falkenhorst e, depois, teria também de infor­
má-lo sobre o local do encontro que ficasse combinado. Gaus, que telefonara as instruções de Ribben­
trop, relatou que “Herr Bráuer compreendeu claramente o significado dessas instruções" Não se pode
deixar de pensar que, tivesse o rei ido ao encontro, os soldados de Falkenhorst o teriam capturado.43
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 129

160 quilômetros a sudoeste de Trondheim. Poderiam talvez, ao longo dessa rota,


organizar as forças norueguesas ainda confusas e dispersas, para continuar a re­
sistência. E havia, também, certa esperança de que as tropas britânicas pudessem,
eventualmente, vir em seu auxílio.

As batalhas pela Noruega

No longínquo norte, em Narvik, a marinha britânica já reagira vigorosamen­


te à ocupação de surpresa dos alemães. Fora “completamente burlada” pelos ale­
mães, conforme Churchill, que a dirigia, admitiu. Agora, no norte pelo menos,
fora do raio de ação dos bombardeiros alemães com bases em terra, entregava-
se ela à ofensiva. Na manhã de 10 de abril, 24 horas depois de dez destróieres
alemães terem conquistado Narvik e desembarcado forças em Dietl, uma frota
de cinco destróieres britânicos entrou no porto de Narvik, pôs a pique dois dos
cinco destróieres alemães que ali se achavam, danificou os outros três e afundou
todos os barcos cargueiros alemães, exceto um. Nessa operação, foi morto o
comandante naval alemão, o contra-almirante Bonte. Quando deixavam, po­
rém, o porto, os barcos britânicos defrontaram-se com os cinco destróieres ale­
mães remanescentes surgidos de fiordes adjacentes. Os barcos alemães eram
dotados de canhões mais pesados e puseram a pique um destróier britânico e
forçaram outro a encalhar; nele, o comandante inglês, capitão Warburton-Lee,
foi mortalmente ferido. Danificaram ainda um terceiro destróier. Três dos cinco
destróieres britânicos conseguiram ganhar o mar aberto onde, ao retirar-se,
afundaram um grande navio cargueiro alemão carregado de munições, que se
aproximava do porto.
Ao meio-dia de 13 de abril os ingleses, dessa vez com o encouraçado Warspite,
sobrevivente da batalha da Jutlândia na Primeira Guerra Mundial, capitaneando
uma flotilha de destróieres, voltou a Narvik e destruiu os remanescentes vasos de
guerra alemães. O vice-almirante W. J. Whitworth, comandante-em-chefe, trans­
mitindo uma mensagem ao almirantado sobre sua operação, insistiu para que
Narvik fosse ocupada imediatamente “pela principal força de desembarque”, uma
vez que as tropas alemãs, em terra, ficaram aturdidas e desorganizadas (Dietl e
seus homens haviam de fato fugido para as montanhas). Infelizmente, para os
130 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

Aliados, o comandante do exército britânico, general-de-Divisão P. J. Mackesy,


era um oficial excessivamente cauteloso. Quando chegou no dia seguinte com o
contingente de vanguarda, composto de três batalhões de infantaria, resolveu
não arriscar um desembarque em Narvik, preferindo Harstad, 56 quilômetros ao
norte, localidade que se encontrava em mãos dos noruegueses. Foi um erro que
custou caro.
Dado o fato de haverem preparado um pequeno corpo expedicionário para a
Noruega, os britânicos agiram com inexplicável morosidade ao movimentar as
tropas. Na tarde de 8 de abril, depois de terem sido recebidas notícias sobre o
movimento de navios de guerra alemães no alto da costa norueguesa, a marinha
britânica desembarcou apressadamente as tropas que já tinham sido embarcadas
para proceder à possível ocupação de Stavanger, Bergen, Trondheim e Narvik, sob
o fundamento de que havia necessidade de todos os navios para as operações
navais. Ao tempo em que as forças britânicas em terra foram novamente embar­
cadas, todos aqueles portos estavam em poder dos alemães. E, quando chegaram
à parte central da Noruega, viram-se condenados, como todos os navios da mari­
nha de guerra britânica que deviam protegê-los, em virtude dos ataques da Luft-
waffe que estava com a supremacia dos ares.
Em 20 de abril, uma brigada britânica, reforçada por três batalhões de caçado­
res alpinos franceses, desembarcara em Namsos, pequeno porto, 128 quilômetros
a nordeste de Trondheim, e uma segunda, em Andalsnes, 160 quilômetros a su­
doeste de Trondheim, que assim seria atacada pelo norte e pelo sul. Mas nenhuma
dessas forças pôde ameaçar seriamente Trondheim, pois lhes faltavam artilharia,
canhões antiaéreos e apoio aéreo, e suas bases estavam sendo marteladas noite e
dia pelos bombardeiros alemães, os quais bloquearam novas remessas de abaste­
cimentos ou reforços. A brigada da Andalsnes, após encontrar-se com uma uni­
dade norueguesa em Dombas, junção ferroviária, 96 quilômetros a leste, aban­
donou o ataque que se propunha fazer ao norte, rumo a Trondheim, e avançou
pelo Gudbrandsdal a sudoeste, a fim de auxiliar as tropas norueguesas, que, sob
o enérgico comando do coronel Ruge, estavam retardando o principal avanço
alemão no vale, vindo de Oslo.
Em Lillehammer, ao norte de Hamar, o primeiro embate da guerra entre sol­
dados britânicos e alemães realizou-se em 21 de abril, mas foi uma luta desigual.
O navio que transportava a artilharia da brigada inglesa havia sido posto a pique,
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 131

e só havia fuzis e metralhadoras com os quais teria que enfrentar uma poderosa
força alemã armada de artilharia e tanques ligeiros. Pior ainda, a infantaria britâ­
nica, à qual faltava apoio aéreo, foi incessantemente atacada pelos aviões da Luft­
waffe que operavam partindo de campos noruegueses próximos. Lillehammer
caiu após uma batalha de 24 horas. As forças britânicas e norueguesas começaram
uma retirada de 224 quilômetros pela estrada ferroviária do vale que conduzia a
Andalsnes, detendo-se aqui e acolá para uma luta na retaguarda, o que diminuía
o avanço alemão sem, porém, detê-lo.
Nas noites de 30 de abril e l2 de maio, as forças britânicas foram evacuadas de
Andalsnes, e, em 2 de maio, o contingente anglo-francês, de Namsos; foram, aliás,
proezas formidáveis, pois ambos os portos estavam em chamas e em ruínas, em
conseqüência dos contínuos bombardeios dos alemães. Na noite de 29 de abril, o
rei da Noruega e os membros de seu governo foram acolhidos a bordo do cruza­
dor britânico Glasgowy era Molde, do lado oposto do Romsdalsfjord de Andals­
nes, que a Luftwaffe deixara também em ruínas, e levados para Tromso, muito
acima do Círculo Ártico e ao norte de Narvik, onde, no dia lfi de maio, foi insta­
lada a capital provisória.
Já nesse tempo, a parte meridional da Noruega, abrangendo todas as cidades e
os principais centros, havia ficado irreparavelmente perdida. A parte setentrional,
porém, parecia segura. Em 28 de maio, uma força aliada, composta de 25.000 ho­
mens abrangendo duas brigadas de noruegueses, uma brigada de poloneses e dois
batalhões da legião estrangeira francesa, expulsou de Narvik os alemães, ali em
número muito inferior. Não parecia haver razão para duvidar que Hitler ficasse
privado de seu minério de ferro e de seu objetivo de ocupar a Noruega e obrigar o
governo a capitular. Mas, a esse tempo, a Wehrmacht havia atacado com formidá­
vel poderio a frente ocidental, e necessitava-se de todo soldado aliado para preen­
cher os claros. Narvik foi abandonada, as tropas aliadas reembarcaram às pressas,
e o general Dietl, que havia resistido numa região selvagem e montanhosa nas
imediações da fronteira sueca, tornou a ocupar o porto em 8 de junho e, quatro
dias depois, aceitou a capitulação do perseverante e valoroso coronel Ruge e de sua
estupefata e ressentida tropa norueguesa, que achava ter sido abandonada pelos
ingleses. O rei Haakon e seu governo foram acolhidos a bordo do cruzador De-
vonshire, em Tromso, no dia 7 de junho, e partiram para Londres e o amargo exílio
132 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

de cinco anos* Em Berlim, Dietl foi promovido a general-de-Divisão, distinguido


com a Cruz de Cavalheiro e aclamado por Hitler como o Sieger von Narvik.
A despeito de seus extraordinários êxitos, o Führer teve seus maus momentos
durante a campanha da Noruega. O diário do general Jodl está repleto de regis­
tros concisos relatando uma série de crises de nervos do senhor da guerra. “Ter­
rível excitação”, anotou ele em 14 de abril, após ter Hitler recebido notícias de
que as forças navais alemãs haviam sido destruídas em Narvik. Em 17 de abril,
Hitler teve um acesso por causa da perda de Narvik. Exigiu que as tropas do
general Dietl fossem evacuadas pelo ar — uma coisa impossível. “Cada notícia
má provoca as piores apreensões”, escreveu Jodl. E dois dias depois: “Nova crise.
Falhou a ação política. Chamado o emissário Brãuer. Segundo Hitler, tem-se que
empregar a força (...)”** As conferências na chancelaria em Berlim, no dia 19 de
abril, tornaram-se tão tumultuosas, os chefes das três armas culpando uns aos
outros pelos atrasos, que até o lacaio Keitel se retirou da sala. “O caos ameaça

* Quisling não durou muito na sua tentativa de governo, na Noruega. Seis dias depois de se ter procla­
mado primeiro-ministro, em 15 de abril, os alemães puseram-no para fora e nomearam um conselho
administrativo formado de seis importantes cidadãos noruegueses, incluindo o bispo Eivind Berggrav,
chefe da igreja luterana da Noruega, e Paal Berg, presidente do Supremo Tribunal. Foi mais uma proeza
de Berg, um eminente e agressivo jurisconsulto que, mais tarde, passou a ser o chefe secreto do movi­
mento de resistência da Noruega. Em 24 de abril, Hitler nomeou Josef Terboven, um rijo Gauleiter na­
zista, para Comissário do Reich na Noruega, e foi quem verdadeiramente governou o país, com cres­
cente brutalidade, durante a ocupação. Brãuer, que se opusera a Quisling desde o começo, foi chamado
à Alemanha em 17 de abril, aposentou-se do serviço diplomático e acabou sendo enviado para a fren­
te ocidental como soldado. Os alemães reintegraram Quisling no cargo de primeiro-ministro em 1942;
embora sua impopularidade entre o povo fosse imensa, seu poder era nulo, a despeito de todos os
esforços que fazia para servir seus patrões alemães.
Ao fim da guerra, Quisling foi julgado por crime de traição e, após um exaustivo julgamento, condena­
do à morte e executado em 24 de outubro de 1945.Terboven preferiu suicidar-se a ser capturado. Knut
Hamsun, o grande romancista norueguês, que colaborara abertamente com os alemães, cantando-
lhes louvores, foi acusado de traição; as acusações, porém, acabaram sendo retiradas, alegando-se sua
senilidade. Foi, porém, julgado e condenado "por tirar proveito do regime nazista" e multado em 65 mil
dólares. Morreu em 19 de fevereiro de 1952, aos 93 anos de idade. O general von Falkenhorst foi julga­
do como criminoso de guerra por um tribunal militar composto de noruegueses e ingleses, sob a acu­
sação de ter entregado às S.S., para serem executados, os comandos Aliados que capturara. Condena­
ram-no à morte em 2 de agosto de 1946, mas a sentença foi comutada para prisão perpétua.

** Em 13 de abril, o general von Falkenhorst, sem dúvida incitado por Hitler que se achava furioso por
causa da resistência dos noruegueses, assinou uma ordem dispondo que se tomassem como reféns
vinte dos mais ilustres cidadãos de Oslo, incluindo o bispo Berggrav e Paal Berg, os quais, segundo as
palavras do ministro Brãuer, "deviam ser fuzilados, caso continuasse a resistência ou houvesse tentati­
vas de sabotagem".44
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 133

novamente envolver a direção”, anotou Jodl. E em 22 de abril acrescentou ele: “o


Führer está cada vez mais preocupado com os desembarques dos ingleses.”
Em 23 de abril, o lento progresso das forças alemãs que de Oslo avançavam
para Trondheim e Andalsnes fez “aumentar a excitação”, segundo as palavras de
Jodl, mas já no dia seguinte as notícias foram melhores e, desse dia em diante, a
situação continuou a apresentar-se mais rósea. No dia 26, o chefe nazista estava
em tão excelente disposição que, às 3:30h, durante uma sessão, que durou a noite
toda, com seus conselheiros militares, informou-os de que pretendia iniciar o
Caso Amarelo entre l2 e 7 de maio. O Caso Amarelo era o nome em código para
o ataque no Ocidente, através da Holanda e da Bélgica. Embora em 29 de abril ele
se mostrasse de novo “preocupado com Trondheim”, já no dia seguinte estava ale­
gríssimo com a notícia de que um grupo de batalha procedente de Oslo alcançara
a cidade. Pôde, finalmente, voltar sua atenção para o Ocidente. Em l e de maio,
ordenou que até o dia 5 ficassem prontos os preparativos para o grande ataque.
Os comandantes da Wehrmacht — Gõring, Brauchitsch, Halder, Keitel, Jodl,
Ráder e outros — puderam pela primeira vez ver, durante a campanha da Norue­
ga, como seu demoníaco chefe perdia completamente o domínio sobre si mesmo
sob a tensão de dificuldades, até mesmo pequenas, numa batalha. Era uma fra­
queza que o haveria de dominar quando, após uma série de novos e surpreenden­
tes êxitos militares, a maré da guerra mudasse, e que iria contribuir poderosa­
mente para a derrocada final do Terceiro Reich.
Por qualquer ângulo que se encare a situação, contudo, o fato é que a rápida
conquista da Dinamarca e da Noruega foi uma importante vitória para Hitler e
uma desanimadora derrota para os ingleses. Ela assegurou a rota para o transpor­
te de minério de ferro, aumentou a proteção na entrada do Báltico, permitiu que
a corajosa marinha de guerra alemã irrompesse no Atlântico Norte e proporcio­
nou, aos alemães, excelentes facilidades nos portos para os submarinos e navios
de superfície, na guerra marítima contra a Inglaterra. Proporcionou a Hitler bases
aéreas, centenas de quilômetros mais próximos do principal inimigo. E, talvez o
mais importante de tudo, aumentou imensamente o prestígio militar do Terceiro
Reich, diminuindo, na mesma proporção, o dos Aliados ocidentais. A Alemanha
nazista parecia invencível. A Áustria, a Tchecoslováquia, a Polônia e, agora, a Di­
namarca e a Noruega haviam sucumbido facilmente ante a força de Hitler, ou
ameaça de força, e nem mesmo o auxílio dos dois grandes Aliados, no Ocidente,
134 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

fora, nos últimos casos, da menor valia. A maré do futuro, conforme escrevera
uma eminente americana, parecia estar a favor de Hitler e do nazismo.
A última conquista de Hitler foi também uma atemorizadora lição para os
restantes estados neutros. Obviamente, a neutralidade não mais oferecia proteção
às pequenas nações democráticas que procuravam sobreviver num mundo domi­
nado pelos Estados totalitários. A Finlândia acabara de descobrir isso, e depois a
Noruega e a Dinamarca. Elas só podiam culpar a si mesmas por terem sido tão
cegas e por recusarem, no devido tempo — antes da agressão — a aceitar o auxílio
das potências de um mundo amigo.

Espero que esse fato [declarou Churchill na Câmara dos Comuns em


11 de abril] mereça a atenção de outros países que poderão amanhã, ou
daqui a uma semana, ou daqui a um mês, ser vítimas de um plano mi­
litar semelhante, meticulosamente preparado, tendo por objetivo a sua
destruição e escravização.45

Churchill pensou, evidentemente, na Holanda e na Bélgica; mas, mesmo no


caso de ambas, embora houvesse um mês de suspensão, não se fez tal cogitação*

* Os suecos, pegos entre a Rússia, na Finlândia e nos países bálticos, e a Alemanha, de posse de suas
vizinhas Dinamarca e Noruega, meditaram e acharam que não havia alternativa senão perseverar em
sua precária neutralidade e morrer lutando se fossem atacados. Acalmaram a União Soviética recusan­
do aos Aliados permissão para que as suas tropas transitassem em seu território rumo à Finlândia e
depois, sob forte pressão, acalmaram os alemães. Conquanto a Suécia tivesse enviado copioso estoque
de armamentos à Finlândia, recusou-se a vender à Noruega quer armas quer gasolina quando esse país
foi atacado. Durante todo o mês de abril, os alemães exigiram permissão da Suécia para o trânsito de
tropas rumo a Narvik, a fim de socorrerem Dietl, mas os suecos negaram-se até o fim das hostilidades,
se bem que tivessem permitido a passagem de um trem com pessoal médico e medicamentos. Em 19
de junho, temendo um ataque direto da Alemanha, a Suécia cedeu à pressão de Hitler e concordou em
permitir o transporte de tropas nazistas e material bélico pelas suas vias férreas para a Noruega, com a
condição, porém, de que o número de tropas, movimentando-se em cada direção, fosse equilibrado de
modo a não ficarem as guarnições, na Noruega, reforçadas com tal acordo.
Isso auxiliou imensamente a Alemanha. Transportando novas tropas e material bélico por terra, pela
Suécia, Hitler evitava o risco de vê-los afundados no mar pelos ingleses. Nos seis primeiros meses do
acordo, foram trocados 140 mil soldados alemães na Noruega, e os que ali se achavam foram grande­
mente fortalecidos pelos abastecimentos. Mais tarde, pouco antes do ataque alemão contra a Rússia, a
Suécia permitiu que o Alto-Comando nazista transportasse, pelo seu território, toda uma divisão do
Exército, completamente armada, procedente da Noruega, para a Finlândia, a fim de ser usada no ata­
que contra a União Soviética. Concedera à Alemanha nazista o que recusara aos Aliados um ano antes.
Para detalhes da pressão alemã sobre a Suécia e para o texto das cartas trocadas entre o rei Gustavo V
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 135

Havia também, para se aprender, razões de ordem militar da conquista relâm­


pago que Hitler fizera dos dois países escandinavos. A mais significativa era a
importância do poderio aéreo e sua supremacia sobre a potência naval, quando as
bases terrestres para aviões bombardeiros e aviões de caça se achavam próximas.
Não menos importante era uma antiga lição, a de que a vitória quase sempre cabe
aos ousados e imaginosos. A marinha de guerra e a força aérea alemãs mostraram
ser ambas as coisas, e Dietl, em Narvik, demonstrou a fertilidade de recursos do
exército alemão, o que faltava aos Aliados.
Houve uma conseqüência de ordem militar na aventura escandinava que não
foi aquilatada de imediato, se bem que isso fosse devido a não ter sido possível
antecipar de muito o futuro. As baixas, em soldados, na Noruega, em ambos os
lados, foram leves. Os alemães tiveram 1.317 mortos, 2.375 desaparecidos e 1.604
feridos, num total de 5.296 baixas; as dos noruegueses, franceses e britânicos fo­
ram pouco menos de 5 mil. Os britânicos perderam um porta-aviões, um cruza­
dor e sete destróieres, e os poloneses e franceses, um destróier cada. As perdas
navais alemãs, em comparação, foram muito mais pesadas; dez de vinte destróie­
res, três de oito cruzadores, enquanto os cruzadores de batalha Scharnhorst e
Gneisenau e o encouraçado de bolso Lützou foram tão seriamente danificados que
tiveram de ficar fora de ação durante vários meses. Hitler não teve, para aqueles
seus próximos movimentos de verão, uma frota digna de menção. Quando che­
gou a ocasião de invadir a Inglaterra, o que logo aconteceu, essa situação provou
ser um obstáculo insuperável.
Todavia, as possíveis conseqüências da séria imobilização da marinha de
guerra não entraram nas cogitações de Hitler, pois no começo de maio, com a
Dinamarca e a Noruega já somadas à sua longa lista de conquistas, ele estava es­
tudando com seus ansiosos generais — eles já não mais se mostravam apreensivos
como no outono anterior — os preparativos dos últimos minutos para o que, es­
tavam confiantes, seria a maior de todas as conquistas.

e Hitler, vide Documents on German Foreign Policy, IX. O autor relatou o assunto mais minuciosamente
em The Challenge ofScandinavia.
CAPÍTULO 4

Vitória no Ocidente

Logo após o alvorecer do belo dia de primavera, 10 de maio de 1940, o em­


baixador da Bélgica e o ministro da Holanda foram chamados à Wilhelmstrasse,
onde Ribbentrop os informou de que as tropas alemãs entrariam em seus países
para salvaguardar-lhes a neutralidade contra um iminente ataque dos exércitos
anglo-franceses — a mesma desculpa esfarrapada que havia sido dada, um mês
antes, à Dinamarca e à Noruega. Foi dado, formalmente, um ultimato aos dois
governos para providenciarem no sentido de não oferecerem resistência. Se re­
sistissem, seriam esmagados por todos os meios, e a responsabilidade pelo der­
ramamento de sangue ‘caberia exclusivamente aos governos reais da Bélgica e
da Holanda”.
Em Bruxelas e em Haia, como anteriormente acontecera em Copenhague e
Oslo, os emissários alemães encaminharam-se aos Ministérios das Relações Exte­
riores com mensagens similares. O que não deixa de ser irônico é o fato de, em
Haia, ter sido o portador do ultimato o ministro alemão conde Julius von Zech-
Burkersroda, genro de Bethmann-Hollweg, chanceler do Kaiser que, em 1914,
chamara publicamente de “farrapos de papel” a garantia que a Alemanha havia
dado de respeitar a neutralidade da Bélgica, a qual o Reich dos Hohenzollern
havia acabado de violar.
No Ministério das Relações Exteriores, em Bruxelas, enquanto os bombardei­
ros alemães roncavam no ar e a explosão de suas bombas, nos aeródromos adja­
centes, fazia estremecer as janelas, Bülow-Schwante, embaixador alemão, come­
çava a tirar do bolso um papel, assim que entrou no gabinete do ministro, quando
Paul-Henri Spaak o deteve.

“Desculpe-me, sr. embaixador. Sou eu quem fala primeiro.”


O exército alemão [disse Spaak, sem procurar ocultar o que sentia por
aquele ultraje] acaba de atacar nosso país. É a segunda vez, em 25 anos,
VITÓRIA NO OC IDENTE 137

que a Alemanha comete uma agressão criminosa contra uma Bélgica


neutra e leal. O que está acontecendo talvez seja até mais odioso que a
agressão de 1914. Nenhum ultimato, nenhuma nota, nenhum protesto,
de qualquer espécie, foram apresentados ao governo belga. Só com esse
ataque veio a Bélgica a saber que a Alemanha violou as garantias dadas
(...) O Reich alemão será responsabilizado perante a História. A Bélgica
está decidida a defender-se.

O infortunado diplomata alemão começou, depois, a ler o ultimato formal da


Alemanha, mas Spaak interrompeu-o. “Entregue-me o documento”, disse. “Eu
gostaria de poupar-lhe uma tarefa dolorosa.”1
O Terceiro Reich havia dado aos dois pequenos países inúmeras garantias de
que respeitaria sua neutralidade. A independência e a neutralidade da Bélgica
haviam sido garantidas “perpetuamente” pelas cinco grandes potências européias
em 1839, pacto observado durante 75 anos até que a Alemanha o rompeu em
1914. A República de Weimar prometeu jamais empunhar armas contra a Bélgica,
e Hitler, depois de assumir o poder, continuamente reafirmou essa política e deu
garantias semelhantes aos holandeses. Em 30 de janeiro de 1937, depois de repu­
diar o Tratado de Locarno, o chanceler nazista proclamou publicamente:

O governo alemão novamente assegura à Bélgica e à Holanda que está


preparado para reconhecer e garantir a inviolabilidade e a neutralidade
desses territórios.

Preocupada com a remilitarização do Terceiro Reich e a ocupação da Renâ-


nia, novamente, na primavera de 1936, a Bélgica — que prudentemente aban­
donara a neutralidade depois de 1918 — procurou de novo refugiar-se nela. Em
24 de abril de 1937, a Inglaterra e a França libertaram-na das obrigações de
Locarno e, em 13 de outubro daquele mesmo ano, a Alemanha confirmou ofi­
cial e solenemente

sua determinação de que, em circunstância alguma, prejudicaria a invio­


labilidade e a integridade [da Bélgica], e que respeitaria sempre o terri­
tório belga (...) e [estaria] preparada para auxiliar a Bélgica no caso de
ela estar sujeita a um ataque (...)
13» A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Desse dia em diante, houve uma nota familiar nas garantias que Hitler, solene
e publicamente, fizera aos Países Baixos e nas censuras que, particularmente, fazia
a seus generais. Em 24 de agosto de 1938, considerando um dos documentos que
lhe foram elaborados para o Caso Verde — o plano para o ataque contra a Tche-
coslováquia — ele falou sobre a “extraordinária vantagem” que adviria para a Ale­
manha se a Bélgica e a Holanda fossem ocupadas. Pediu a opinião do exército
“sobre as condições em que se poderia levar a efeito uma ocupação dessa área e o
tempo que isso levaria”. Em 28 de abril de 1939, em sua resposta a Roosevelt, Hi­
tler novamente acentuou as “declarações sobre as garantias” que havia feito, entre
outros países, à Holanda e à Bélgica. Menos de um mês depois, em 23 de maio, o
Führer; conforme se notou, dizia aos generais que “deviam ser ocupadas as bases
aéreas da Holanda e da Bélgica por forças armadas (...) imediatamente. Deviam-
se ignorar declarações sobre neutralidade”.
Não tinha ainda começado a guerra, mas seus planos estavam prontos. Em 22
de agosto, uma semana antes de desencadeá-la com o ataque à Polônia, conferen-
ciou com os generais sobre a possibilidade de violar a neutralidade dos dois paí­
ses. “A Inglaterra e a França”, disse, “não violarão a neutralidade desses países.”
Quatro dias depois, em 26 de agosto, ordenou a seus emissários em Bruxelas e em
Haia que informassem seus governos de que, no caso de irrompimento da guerra,
a “Alemanha em circunstância alguma prejudicaria a inviolabilidade da Bélgica e
da Holanda”, garantia que repetiu publicamente em 6 de outubro, após o término da
campanha da Polônia. No dia seguinte, 7 de outubro, o general von Brauchitsch
aconselhou os comandantes de grupo de seu exército, a instâncias de Hitler,

que fizessem todos os preparativos para a invasão imediata dos territó­


rios holandês e belga, se a situação política exigir.2

Dois dias depois, em 9 de outubro, Hitler ordenava na Diretiva ne 6:

Cumpre fazerem preparativos para uma operação de ataque (...) através


de Luxemburgo, Bélgica e Holanda. Esse ataque deve ser executado o
mais breve e o mais poderosamente possível (...) O objetivo desse ata­
que é adquirir na Holanda, na Bélgica, e no norte da França uma área
tão grande quanto possível.3
VITÓRIA NO OC ID EN TE 139

Os belgas e holandeses, naturalmente, não estavam a par das ordens secretas


de Hitler. Recebiam, não obstante, avisos do que estava reservado para eles. Certo
número desses avisos já havia sido anotado: o coronel Oster, um dos conspirado­
res antinazistas, preveniu os adidos militares holandeses e belgas em Berlim, em
5 de novembro, que aguardassem o ataque alemão em 12 de novembro, que era
então a data marcada. No fim de outubro, Goerdeler, outro dos conspiradores,
instigado por Weizsàcker, foi a Bruxelas prevenir os belgas de um ataque iminen­
te. E, logo depois do ano-novo, em 10 de janeiro de 1940, os planos de Hitler para
a ofensiva no Ocidente caíram em poder dos belgas quando um oficial, que os
levava, foi obrigado a aterrissar na Bélgica.*
Nessa ocasião, os Estados-maiores gerais da Holanda e da Bélgica souberam,
por seus serviços secretos, que os alemães estavam concentrando cerca de 50 di­
visões em suas fronteiras. Foram também beneficiados por uma desusada fonte
de informações na capital alemã. Essa fonte era o coronel G. J. Sas, adido militar
da Holanda em Berlim. Sas era amigo íntimo do coronel Oster e muitas vezes
jantava na residência dele, no retirado subúrbio de Zehlendorf — uma prática
que, assim que a guerra começou, era facilitada pelo blecaute que, nessa ocasião,
possibilitava a muitas pessoas alemãs e estrangeiras porem-se em movimento em
missões subversivas, sem receio de serem descobertas. Foi de Oster que Sas rece­
beu a informação, no princípio de novembro, sobre o ataque alemão que estava
sendo assentado para 12 de novembro. Oster deu nova informação ao adido, em
janeiro. O fato de nenhum ataque ter sido realizado diminuiu a possibilidade de
acreditar nas informações de Sas, em Haia e Bruxelas, onde naturalmente se
desconhecia o fato de Hitler haver realmente fixado datas para sua agressão,
adiando-as depois. Contudo, o aviso antecipado de dez dias que Sas recebeu, de
Oster, da invasão da Noruega e da Dinamarca; e a predição da data exata, parece
terem restabelecido seu prestígio em seu país.
Em 3 de maio, Oster contou positivamente a Sas que o ataque alemão no Oci­
dente, pela Holanda e a Bélgica, começaria em 10 de maio. O adido informou
prontamente seu governo. No dia seguinte, Haia recebeu a confirmação do fato
por intermédio de seu enviado no Vaticano. Os holandeses imediatamente a
transmitiram aos belgas. O dia 5 de maio era domingo e, ao começar a desdobrar-
se a semana, tornou-se evidente a todos nós, em Berlim, que o golpe no Ocidente

* Ver p. 52,53,81,82 e 83, respectivamente.


140 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

seria desfechado dentro de poucos dias. A tensão subiu na capital. Em 8 de maio,


telegrafei ao meu escritório em Nova York que segurasse um de nossos corres­
pondentes em Amsterdã, em vez de despachá-lo para a Noruega, onde a guerra
terminara de um modo ou de outro, e nessa noite os censores militares permiti­
ram-me insinuar, em minha irradiação, que logo haveria atividades no Ocidente,
incluindo a Holanda e a Bélgica.
Na noite de 9 de maio, Oster e Sas jantaram juntos — o que seria a última vez.
O oficial alemão confirmou que fora dada a ordem final para o desencadeamento
do ataque no Ocidente, ao alvorecer do dia seguinte. A fim de se assegurar de que
não haveria mudanças de última hora, Oster passou pelo quartel-general do
OKW, na Bendlerstrasse, depois do jantar. Não havia modificações. “O porco foi
à frente ocidental”, informou Oster a Sas. O “porco” era Hitler. Sas transmitiu a
informação ao adido militar belga e, dirigindo-se para sua legação, fez uma liga­
ção telefônica para Haia. Já havia sido arranjado um código especial para esse
momento. Sas disse algumas palavras aparentemente inofensivas, que transmi­
tiam a mensagem. “Amanhã ao alvorecer. Mantenham-se firmes!”4
Coisa bastante estranha: as duas grandes potências ocidentais, Inglaterra e
França, foram apanhadas desprevenidas. Seus Estados-maiores gerais não leva­
ram em conta as alarmantes informações procedentes de Bruxelas e Haia. A pró­
pria Londres estava preocupada com uma crise de gabinete que já durava três
dias, e somente ficou resolvida na noite de 10 de maio, pela substituição de Cham­
berlain por Churchill como primeiro-ministro. A primeira coisa que os quartéis-
generais francês e britânico ouviram sobre o ataque alemão foi quando a paz da
primavera se rompeu, antes do alvorecer, pelo ronco dos bombardeiros alemães e
o silvo dos bombardeiros de mergulho stukas seguidos, logo depois, ao surgir o
dia, pelos frenéticos pedidos de auxílio dos governos holandês e belga, os quais
haviam mantido os Aliados a distância durante oito meses, em vez de combina­
rem com eles uma defesa em comum.
Contudo, o plano dos Aliados para enfrentar o principal ataque alemão na
Bélgica seguiu seu curso, durante os dois primeiros dias, quase sem dificuldades.
Um grande exército anglo-francês precipitou-se para o nordeste, procedente da
fronteira franco-belga, para fortalecer a principal linha de defesa belga ao longo
dos rios Dyle e Mosa, a leste de Bruxelas. Acontece que era justamente o que
queria o Alto-Comando alemão. Esse maciço movimento circular dos Aliados
VITÓ R IA NO O C ID EN TE 141

favoreceu-lhe diretamente os planos. Embora não soubessem, os exércitos anglo-


franceses dirigiram-se diretamente para uma armadilha que, ao fechar-se, de­
monstraria logo ser totalmente desastrosa.

Os planos rivais

O primitivo plano de ataque dos alemães no Ocidente foi drasticamente mo­


dificado desde que caiu em mãos dos belgas e, como os alemães suspeitavam, em
mãos dos franceses e britânicos, em janeiro. O Fali Gelb (Caso Amarelo) havia
sido maquinado às pressas, no outono de 1939, pelo Alto-Comando do exército
sob a pressão da ordem de Hitler de desencadear a ofensiva no Ocidente em mea­
dos de novembro. Há muita controvérsia entre os próprios generais alemães so­
bre se esse primeiro plano era ou não uma versão do antigo plano Schlieffen;
Halder e Guderian sustentaram que era. O plano determinava a principal inves­
tida alemã contra o flanco direito através da Bélgica e norte da França, com o fim
de ocupar os portos do Canal. Ficou aquém do célebre plano Schlieffen, que por
pouco deixou de ter êxito em 1914; determinava não só a conquista dos portos do
Canal como, também, a continuação de um grande movimento circular que le­
varia a ala direita dos exércitos alemães através da Bélgica e norte da França e
para o outro lado do Sena, após o que eles virariam para leste, abaixo de Paris,
e encurralariam as remanescentes forças francesas. Seu objetivo era pôr rápido
paradeiro à resistência armada francesa, a fim de a Alemanha, em 1914, poder
voltar-se contra a Rússia com todo o peso de seu poderio militar.
Mas em 1939-1940 Hitler não teve que se preocupar com uma frente russa.
Seu objetivo, portanto, era mais limitado. Seja como for, na primeira fase da
campanha, seu plano não era eliminar o exército francês, mas fazê-lo recuar e
ocupar a costa do Canal, separando assim a Inglaterra de seu aliado e, ao mes­
mo tempo, assegurando-se de bases aéreas e navais com as quais poderia hosti­
lizar e bloquear as Ilhas Britânicas. Evidencia-se de suas várias arengas aos jor­
nais, nessa ocasião, que julgava que, após tal derrota, a Inglaterra e a França
estariam inclinadas a fazer a paz e deixá-lo livre para voltar a atenção mais uma
vez para o leste.
Mesmo antes de o plano original para o Fali Gelb ter caído em mãos do ini­
migo, ele já tinha sido previsto pelo comando supremo dos Aliados. Em 17 de
142 A guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

novembro, o supremo conselho da guerra dos Aliados, reunindo-se em Paris,


adotou o Plano D, o qual, no caso de um ataque alemão pela Bélgica, determinava
que os lfi e 2- Exércitos franceses e a força expedicionária britânica se precipitas­
sem para a principal linha de defesa nos rios Dyle e Mosa, que partia da Antuér­
pia, atravessava Louvain, Namur e Givet e alcançava Mézières. Uns dias antes, os
Estados-maiores francês e britânico, numa série de reuniões com o Alto-Coman­
do belga, haviam recebido dos belgas a garantia de que fortaleceria as defesas
nessa linha e faria ali sua principal resistência. Mas os belgas, que ainda se agarra­
vam às ilusões da neutralidade e fortificavam sua esperança de que talvez pudes­
sem ser poupados no envolvimento da guerra, não quiseram ir mais além. Os
chefes do Estado-maior britânico fizeram ver que não haveria tempo para desdo­
brar as forças aliadas para tão longe, se os alemães atacassem, mas prosseguiram
com o Plano D a instâncias do general Gamelin.
No fim de novembro, os Aliados acrescentaram um esquema para lançar o 7®
Exército, do general Henri Giraud, rumo à costa do Canal, a fim de auxiliar os
holandeses ao norte da Antuérpia, no caso de ser também a Holanda atacada.
Assim, a tentativa alemã de avançar através da Bélgica — e talvez da Holanda —,
para poder flanquear a Linha Maginot, seria enfrentada nesse jogo logo de início
por toda a força expedicionária britânica, pelo grosso do exército francês, pelas 22
divisões dos belgas e pelas dez divisões dos holandeses — uma força numerica­
mente igual à dos alemães, como aliás aconteceu.
Foi para evitar esse choque de frente e, ao mesmo tempo, pegar numa armadi­
lha os exércitos britânico e francês, que se precipitaram depressa a tão grande
distância, que o general Erich von Manstein (nome de família: Lewinski), chefe do
Estado-maior do grupo A dos exércitos de Rundstedt, na frente ocidental, propôs
uma mudança radical no Fali Gelb. Manstein era um prendado e engenhoso ofi­
cial do Estado-maior, de categoria relativamente inferior, mas durante o inverno
conseguiu que sua ousada idéia fosse submetida a Hitler não obstante a oposição
que a princípio ofereceram Brauchitsch, Halder e certo número de generais. A
proposta de Manstein era que o assalto principal fosse desfechado no centro, pelas
Ardenas, com uma maciça força blindada, que cruzaria depois o Mosa bem ao norte
de Sedan e, irrompendo em campo aberto, precipitar-se-ia depois rumo ao Canal,
em Abbeville.
Hitler, sempre atraído por soluções ousadas e até mesmo imprudentes, mos­
trou-se interessado. Rundstedt insistiu infatigavelmente na idéia, não porque nela
VITÓRIA NO OC IDENTE 143

acreditasse e sim porque daria ao grupo A um papel decisivo na ofensiva. Não


obstante a antipatia de Halder por Manstein e os ciúmes, próprios da profissão, da
parte de certos generais que lhe eram superiores na hierarquia militar, fizessem
com que ele fosse transferido de sua posição no Estado-maior para o comando de
um corpo de infantaria, no fim de janeiro, Rundstedt teve oportunidade de expor
pessoalmente suas teorias ortodoxas a Hitler, num jantar oferecido a certo núme­
ro de novos comandantes de corpos, em Berlim, em 17 de fevereiro. Argumentou
que um ataque de forças blindadas pelas Ardenas atingiria os Aliados onde eles
menos esperavam, porquanto seus generais, provavelmente, como a maioria dos
alemães, consideravam essa região montanhosa e cheia de florestas inapropriada
para tanques. Uma finta pela ala direita, das forças alemãs, faria precipitar os exér­
citos anglo-franceses em confusão para a Bélgica. Depois, abrindo uma fenda en­
tre os franceses em Sedan e avançando a oeste, ao longo da margem norte do
Somme em demanda do Canal, os alemães encurralariam as forças anglo-france-
sas e o exército belga.
Era um plano temerário, não sem riscos, conforme acentuaram vários gene­
rais, incluindo Jodl. Mas Hitler, que se considerava um gênio militar, acreditava
praticamente que se tratava de sua própria idéia. Seu entusiasmo cresceu. Halder,
que a princípio afastara a idéia julgando-a louca, começou também a absorvê-la e,
de fato, com o auxílio dos oficiais de seu Estado-maior geral, melhorou-a conside­
ravelmente. Em 24 de fevereiro de 1940, foi formalmente adotada uma nova dire­
tiva do OKW, tendo sido os generais instruídos para novamente desdobrarem
suas tropas em 7 de março. Em algum lugar, ao longo da linha, incidentalmente, o
plano para a conquista da Holanda, que havia sido riscado do Fali Gelb, numa
revisão feita em 29 de outubro de 1939, foi restabelecido em 14 de novembro a
instâncias da Luftwaffe, a qual desejava os aeródromos para usá-los contra a Ingla­
terra e se ofereceu para fornecer uma grande leva de tropas aerotransportadas
para essa pequena mas algo complicada operação. Baseados em tais considera­
ções são às vezes decididos os destinos de pequenas nações.5
E assim, ao aproximar-se a campanha na Noruega de seu fim vitorioso e já nos
primeiros dias quentes do começo de maio, os alemães, com o mais poderoso
exército que ao mundo era dado ver nesse momento, achavam-se prontos para
atacar no Ocidente. Em números simples, ambos os lados se igualavam: 136 di­
visões alemãs contra 135 divisões dos franceses, britânicos, belgas e holandeses.
144 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

Os defensores tinham a vantagem das vastas fortificações defensivas: a impene­


trável Linha Maginot no sul, a extensa linha de fortes no centro e os canais forti­
ficados da Holanda, ao norte. Mesmo em número de tanques, os Aliados se igua­
lavam aos alemães. Mas os aliados não os tinham concentrados como os alemães.
E por causa do erro dos holandeses e belgas em apegarem-se à neutralidade, não
houve consultas entre os Estados-maiores, pelas quais os defensores pudessem
coordenar seus planos e recursos para melhor vantagem. Os alemães tinham um
comando unificado, a iniciativa do ataque, nenhum escrúpulo moral contra a
agressão, uma confiança que os contagiava e um plano temerário. Adquiriram
experiência na batalha da Polônia. Ali testaram sua nova tática e suas novas armas
de combate. Conheciam o valor dos bombardeiros de mergulho e o uso de tan­
ques em massa. Sabiam, ainda, conforme Hitler nunca deixara de assinalar, que os
franceses, conquanto estivessem defendendo seu próprio solo, não sentiam qual­
quer ânimo para a luta.
Não obstante sua confiança e decisão, o Alto-Comando alemão, conforme dei­
xam bem claro os arquivos secretos, sofreu momentos de pânico ao aproximar-se
a hora zero — ou, pelo menos, Hitler, o comandante supremo, sofreu. O general
Jodl anotou-os em seu diário. Hitler ordenou vários adiamentos de última hora
para o ataque, o qual, em lfi de maio, ele determinara fosse efetuado no dia 5. No
dia 3, prorrogou-o para o dia 6, devido às condições atmosféricas, mas, talvez, em
parte também porque o Ministério das Relações Exteriores não julgasse suficien­
temente boa a justificação proposta para a violação da neutralidade da Bélgica e
da Holanda. No dia seguinte, marcou o 7 de maio como sendo o Dia X, e, depois,
adiou-o novamente para 8 de maio, uma quarta-feira. “O Führer terminou a jus­
tificativa para o Caso Amarelo”, anotou Jodl. A Bélgica e a Holanda seriam acusa­
das de terem infringido a neutralidade.

7 de maio: A composição ferroviária de Hitler devia partir de Finkenkrug


às 16:38h [continuou o diário de Jodl]. O tempo, porém, permanece
incerto, e, portanto, a ordem [para o ataque] fica anulada (...) O Führer
acha-se bastante agitado acerca dos novos adiamentos, porque existe o
perigo de traição. A conferência do emissário belga no Vaticano com
Bruxelas permite deduzir que foi cometida uma traição por um perso­
nagem alemão que partiu de Berlim para Roma em 29 de abril (...)
VITÓRIA NO OC ID EN TE 145

8 de maio : Notícias alarmantes vindas da Holanda. Cancelamento de


licenças, retiradas, barricadas, outros métodos de mobilização (...) O
Führer não quer esperar mais. Gõring quer que se protele até o dia 10,
pelo menos (...) O Führer está muito agitado; consente depois em pro­
telar para o dia 10 de maio, que diz ser contra sua intuição. Mas nem
um dia a mais (...)
9 de maio : O Führer resolve que o ataque seja, efetivamente, em 10 de
maio. Saída do trem do Führer.; às 17h, de Finkenkrug. Depois do relato
de que as condições atmosféricas serão favoráveis no dia 10, deu-se à
ocupação o nome em código de Dantzig às 21h.

Hitler, acompanhado de Keitel, Jodl e outros membros do Estado-maior do


OKW, chegou ao quartel-general, a que ele deu o nome de Felsennest (ninho
na rocha), nas imediações de Münstereifel, logo ao alvorecer do dia 10 de maio.
A 40 quilômetros a oeste, as forças alemãs estavam sendo arremessadas sobre a
fronteira belga. Ao longo de uma frente de 182 quilômetros, do mar do Norte
à Linha Maginot, as tropas nazistas irromperam pelas fronteiras de três pequenos
Estados neutros: Holanda, Bélgica e Luxemburgo, violando brutalmente a palavra
que a Alemanha, solene e repetidamente, havia dado.

As seis semanas de guerra: 10 de maio-25 de junho de 1940

Para os holandeses foi uma guerra de cinco dias e, verdadeiramente, nesse


breve período foi selado o destino da Bélgica, da França e da força expedicionária
britânica. Para os alemães, tudo decorreu de conformidade com suas normas, ou
melhor ainda, de conformidade com o desenvolvimento de sua estratégia e sua
tática. Seus êxitos ultrapassaram as mais caras esperanças de Hitler. Seus generais
ficaram perplexos com a rapidez fulminante e a extensão de suas próprias vitórias.
Quanto aos chefes Aliados, ficaram logo paralisados pelo desenvolvimento de
operações que mal esperavam e que — na total confusão que sobreveio — não
compreendiam.
O próprio Winston Churchill, que assumira o cargo de primeiro-ministro no
primeiro dia da batalha, ficou atônito. Foi acordado as 7:30h da manhã de 15 de
146 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOM ENTO DECISIVO

maio por um chamado telefônico do primeiro-ministro francês Paul Reynaud, de


Paris, que lhe disse em voz entusiasmada: “Fomos derrotados! Perdemos a bata­
lha!” Churchill recusou-se a acreditar no fato. O grande exército francês vencido
em uma semana? Era impossível. “Não compreendia”, escreveu depois, “a violên­
cia dessa revolução efetuada, desde a última guerra, pela incursão de uma massa
blindada a movimentar-se rapidamente”.6
Tanques — sete divisões deles concentradas num ponto, o mais fraco nas de­
fesas ocidentais, para a grande investida —, fora isso que causara tudo aquilo. Isso
e os bombardeiros de mergulho stukas e as tropas aerotransportadas que desce­
ram por trás das linhas aliadas ou sobre seus fortes aparentemente inexpugnáveis
e fizeram a devastação.
Nós, que estávamos em Berlim, indagávamos a nós mesmos por que aquela
tática alemã teria atingido com esmagadora surpresa os chefes Aliados. Não ha­
viam as tropas de Hitler demonstrado sua eficiência na campanha contra a Polô­
nia? Ali, as grandes investidas que haviam cercado ou destruído os exércitos po­
loneses no decurso de uma semana foram conseguidas pela massa de forças
blindadas depois que os stukas amoleceram a resistência. Pára-quedistas e tropas
aerotransportadas não se saíram bem na Polônia, mesmo na muito limitada esca­
la com que foram empregados; deixaram de conquistar, intactas, as pontes-chave.
Mas, na Noruega, um mês antes do ataque no Ocidente, aquelas forças agiram
prodigiosamente, conquistando Oslo e todos os aeródromos e reforçando os pe­
quenos grupos isolados que chegaram por mar em Stavanger, Bergen, Trondheim
e Narvik e com isso possibilitando-lhes resistir. Não haviam os comandantes Alia­
dos estudado essas campanhas e aprendido as lições que elas ensinavam?

A conquista da Holanda

Somente uma divisão de panzers pôde ser reservada pelos alemães para a
conquista da Holanda, em cinco dias, em grande parte por pára-quedistas e tro­
pas descidas de aviões-transporte por trás das linhas inundadas de água que mui­
tos, em Berlim, acreditavam que deteriam os alemães por algumas semanas. Aos
assombrados holandeses ficou reservada a experiência de se verem submetidos
ao primeiro ataque em grande escala de forças aerotransportadas na história da
VITÓRIA NO OC ID EN TE 147

guerra. Considerando que eles não estavam preparados para essa experiência, e
a completa surpresa com que foram atacados, agiram melhor do que na ocasião
se imaginou.
O primeiro objetivo dos alemães era desembarcar uma poderosa força pelo ar
nos aeródromos próximos a Haia, ocupar imediatamente a capital e capturar a
rainha e o governo, como haviam tentado fazer um mês antes com os noruegue­
ses. Mas em Haia, assim como em Oslo, o plano falhou, embora em circunstân­
cias diferentes. Voltando a si da surpresa e confusão iniciais, a infantaria holande­
sa, apoiada pela artilharia, pôde rechaçar os alemães — dois regimentos — dos
três aeródromos nos arredores de Haia, na noite de 10 de maio. Isso salvou a ca­
pital e o governo momentaneamente, mas imobilizou reservas holandesas que
eram imensamente necessárias em outros lugares.
A chave do plano alemão foi a conquista, pelas tropas aerotransportadas, das
pontes ao sul de Roterdã sobre o Nieuwe Maas e as situadas mais a sudoeste, sobre
os dois estuários do Mosa, em Dordrecht e Moerdijk. Era sobre essas pontes que
o 18®Exército do general Georg von Küchler, avançando da fronteira alemã, qua­
se a 160 quilômetros de distância, esperava forçar o caminho para a fortaleza da
Holanda. De nenhum outro modo podia este ponto entrincheirado, que jazia por
trás de formidáveis barreiras de água e abrangendo Haia, Amsterdã, Utrecht, Ro­
terdã e Leyden, ser conquistado fácil e rapidamente.
As pontes foram conquistadas na manhã de 10 de maio por unidades aero­
transportadas — incluindo uma companhia que aterrissou no rio, em Roterdã,
em antiquados aviões anfíbios — antes que os surpresos guardas holandeses pu­
dessem destruí-los. Unidades holandesas improvisadas fizeram desesperados es­
forços para rechaçar os alemães e quase conseguiram. Mas os alemães continua­
ram a lutar, se bem que fracamente, até que na manhã de 12 de maio chegou em
auxílio a única divisão blindada destinada a Küchler, a qual esmagou a linha Gre-
bbe-Peel, uma frente fortificada a leste, fortalecida por certo número de barreiras
aquáticas com as quais os holandeses esperavam resistir vários dias.
Havia certa esperança de que os alemães pudessem ser contidos nas pontes de
Moerdijk pelo 72 Exército francês, do general Giraud, que havia acorrido do Ca­
nal e chegado a Tilburg na tarde de 11 de maio. Mas aos franceses, da mesma
maneira que aos holandeses, que sofriam forte pressão, faltavam apoio aéreo, for­
ças blindadas e canhões antitanques e antiaéreos; foram facilmente rechaçados
148 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

para Breda. Isso abriu o caminho para a 9- Divisão panzer dos alemães, que atra­
vessou as pontes em Moerdijk e Dordrecht e chegou, na tarde de 12 de maio, à
margem sul do Nieuwe Maas oposta a Roterdã, onde as tropas alemãs aerotrans-
portadas ainda mantinham as pontes.
Os tanques, porém, não puderam atravessar as pontes de Roterdã. Entremen-
tes, os holandeses haviam-nas fechado na extremidade norte. Na manhã de 14 de
maio, a situação tornou-se desesperadora mas não perdida de todo. A fortaleza da
Holanda continuava ainda firme. As poderosas forças alemãs aerotransportadas
ao redor de Haia haviam sido ou capturadas ou dispersadas para as aldeias vizi­
nhas. Roterdã continuava resistindo. O Alto-Comando alemão, ansioso por tirar
da Holanda as tropas de apoio e a divisão blindada, a fim de explorar uma nova
oportunidade que acabara de surgir ao sul da França, não se mostrava satisfeito.
De fato, na manhã do dia 14, Hitler expediu a Diretiva na 11 que dizia: “A força de
resistência do exército holandês demonstrou ser mais poderosa do que esperáva­
mos. Considerações de ordem política e militar requerem que essa resistência seja
quebrada rapidamente.” Como? Ordenou que destacamentos da força aérea fos­
sem retirados da frente do 6a Exército, na Bélgica, “a fim de facilitar a rápida con­
quista da fortaleza da Holanda”.7
O Führer e Gõring ordenaram explicitamente que se bombardeasse pesada­
mente Roterdã. Os holandeses seriam forçados a render-se ante uma dose de
terror — da espécie da que havia sido aplicada no outono anterior, na sitiada
Varsóvia.
Na manhã de 14 de maio, um oficial do Estado-maior alemão do 39fi Corpo
atravessou a ponte em Roterdã empunhando uma bandeira branca e exigiu a ca­
pitulação da cidade. Preveniu que, a menos que capitulasse, seria bombardeada.
Enquanto se processavam as negociações — um oficial holandês fora ao quartel-
general alemão, nas proximidades da ponte, a fim de tratar dos detalhes e regres­
sava com as condições impostas pelos alemães —, surgiram bombardeiros que
destruíram o centro da grande cidade. Umas oitocentas pessoas, quase todas civis,
foram massacradas, muitos milhares feridos e 78 mil ficaram desabrigadas/ Essa
traição, esse ato de calculada crueldade, seria durante muito tempo lembrado

* Informou-se, a princípio, e durante muito tempo se acreditou, que haviam sido mortos de 25 mil a
trinta mil holandeses, e são essas as cifras dadas na edição de 1953 da Encyclopaedia Brítannica. Con­
tudo, em Nuremberg, o governo holandês deu a cifra como sendo de 814 mortos.8
VITÓRIA NO OCID EN TE 149

pelos holandeses, se bem que, em Nuremberg, Gõring e Kesselring, da Luftwaffe,


o defendessem, alegando que Roterdã não era uma cidade aberta, porém forte­
mente defendida pelos holandeses. Ambos negaram que soubessem que havia
negociações para a capitulação quando mandaram os bombardeiros, embora haja
fortes provas nos arquivos do exército alemão de que eles sabiam.*9Seja como for,
o OKW não apresentou, na ocasião, qualquer escusa. Eu mesmo ouvi pelo rádio
de Berlim, na noite de 14 de maio, um comunicado especial do OKW:

Sob a tremenda impressão dos ataques dos bombardeiros de mergulho


e o iminente ataque dos tanques alemães, a cidade de Roterdã capitu­
lou, evitando assim ser destruída.

Roterdã rendeu-se e, logo em seguida, as forças armadas holandesas. A rainha


Guilhermina e os membros do governo fugiram para Londres em dois destróieres
britânicos. Ao escurecer do dia 14 de maio, o general H. G. Winkelmann, coman-
dante-em-chefe das forças holandesas, ordenou às tropas que depusessem as ar­
mas e, às llh do dia seguinte, assinou a capitulação oficial. Em cinco dias termi­
nara tudo, isto é, a luta. Dali por diante, os alemães fariam descer durante cinco
anos sobre o pequenino país, que havia sido violado, uma noite de terror selva­
gem.

A queda da Bélgica e o cerco dos exércitos anglo-franceses

Ao capitular a Holanda, foi lançada a sorte da Bélgica, França e a força expe­


dicionária britânica. Catorze de maio, conquanto fosse apenas o quinto dia do
ataque, foi o dia fatal. Na véspera, as forças blindadas alemãs haviam estabelecido
quatro cabeças de ponte do outro lado das margens muito inclinadas e cobertas
de florestas do rio Mosa, de Dinant a Sedan, conquistaram Sedan — que havia
sido o cenário da rendição de Napoleão III a Moltkee, em 1870, e do fim do Ter­
ceiro Império — e gravemente ameaçaram o centro das linhas aliadas e o eixo
sobre o qual girara tão rapidamente a flor dos exércitos britânicos e franceses que
entrara na Bélgica.

* Em Nuremberg, não houve condenações pelo bombardeio de Roterdã.


150 A guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

Em 14 de maio desencadeou-se a avalancha. Um exército de tanques, cujo


número, concentração, mobilidade e poder ofensivo eram sem precedentes na
história das guerras — e que, na ocasião em que partira da fronteira alemã, em seu
território se estendia até o Reno, em três colunas, por uma distância de 160 quilô­
metros —, rompeu o 9a e o 2fi Exércitos franceses e dirigiu-se, rapidamente, para
o Canal, na retaguarda das forças aliadas na Bélgica. Foi uma formidável e estar-
recedora corrida de carros de assalto. Precedida por ondas de bombardeiros de
mergulho stukas, que enfraqueciam as posições defensivas dos franceses, com gran­
des levas de engenheiros de combate que lançavam barcos de borracha e erguiam
pontes de pontões para a travessia de rios e canais, cada divisão panzer, dotada de
sua artilharia de autopropulsão e de uma brigada de infantaria motorizada, e o
corpo blindado seguido de perto por divisões de infantaria motorizada para
manter as posições abertas pelos tanques, essa avalancha de aço e fogo não pôde
ser detida de modo algum pelos desnorteados defensores. Em ambos os lados de
Dinant, no Mosa, os franceses não puderam resistir ao 15a Corpo blindado do
general Hermann Hoth, de cujas duas divisões uma era comandada por um ou­
sado jovem general-brigadeiro, Erwin Rommel. Mais ao sul, ao longo do rio, em
Monthermé, a mesma ação estava sendo executada pelo 41fi Corpo blindado,
que era composto de duas divisões de tanques sob a direção do general Georg-
Hans Reinhardt.
Mas foi em torno de Sedan, de desastrosa lembrança para os franceses, que se
desfechou o maior golpe. Ali, na manhã de 14 de maio, duas divisões de tanques
do 19fi Corpo blindado,* do general Heinz Guderian, irromperam por uma ponte
de pontões construída às pressas sobre o Mosa durante a noite, e avançaram para
oeste. Embora as forças blindadas francesas e os bombardeiros britânicos procu­
rassem desesperadamente destruir a ponte — 40 dos 71 aviões da Real Força Aé­
rea foram derrubados num único ataque, a maioria por fogo antiaéreo, e 70 tan­
ques franceses foram destruídos — não conseguiram. À noite, a cabeça-de-ponte
dos alemães em Sedan era de 48 quilômetros de largura e 24 de profundidade; as
forças francesas, no centro vital da linha aliada, tinham sido destroçadas. Aqueles
que não tinham sido cercados e capturados tinham-se posto em desordenada

* Os dois corpos blindados de Reinhardt e Guderian formavam o grupo de panzers sob o comando do
general Ewald von Kleist, que se compunha de cinco divisões de tanques e três divisões de infantaria
motorizada.
VITÓRIA NO OC IDENTE 15 1

retirada. Os exércitos franco-britânicos no norte e as 22 divisões dos belgas foram


colocados em horrível perigo de ficarem isolados.
Os dois primeiros dias tinham corrido regularmente bem para os Aliados, ou
assim pensavam eles. A Churchill, que mergulhara com novo ardor em suas novas
responsabilidades como primeiro-ministro, “até a noite do dia 12”, conforme es­
creveu depois, “não havia razão para supor que as operações não estivessem cor­
rendo bem”.10Gamelin, o generalíssimo das forças aliadas, estava altamente satis­
feito com a situação. Na véspera, a melhor e a maior parte das forças francesas, o
lfi, o 7- e o 9a Exércitos, juntamente com a força expedicionária britânica, formada
de nove divisões sob o comando de lorde Gort, uniu-se aos belgas, conforme os
planos, numa forte linha defensiva que se estendia ao longo do rio Dyle e que
partia da Antuérpia, atravessava Louvain e ia até Wavre, de onde atravessava o
desfiladeiro de Gembloux, até Namur e descia pelo sul ao longo do Mosa até Se-
dan. Entre a formidável fortaleza belga de Namur e Antuérpia, numa frente de
apenas 96 quilômetros, o número das forças aliadas excedia ao dos atacantes ale­
mães, 36 divisões contra as 20 do 6- Exército, de Reichenau.
Os belgas, embora tivessem combatido bem ao longo da esfera de sua frontei­
ra nordeste, não resistiram ali tanto quanto se esperava, certamente não tão de-
moradamente quanto em 1914. À semelhança dos holandeses ao norte deles, sim­
plesmente não puderam enfrentar a nova tática revolucionária da Wermacht. Ali,
como na Holanda, os alemães apoderaram-se das pontes vitais por meio de gran­
de número de tropas especialmente preparadas, que aterrissaram silenciosamente
em planadores, ao alvorecer do dia. Dominaram os guardas em duas das três pon­
tes sobre o canal Albert, atrás de Maastricht, antes que os defensores pudessem
manobrar as chaves que deveriam fazê-las explodir.
Os alemães tiveram um êxito ainda maior ao conquistarem o forte Eben-Emael,
que dominava a junção do rio Mosa e o canal Albert. Essa fortaleza, moderna e
estrategicamente bem localizada, era considerada inexpugnável, tanto pelos Alia­
dos quanto pelos alemães, mais poderosa que qualquer coisa que os franceses
tivessem construído na Linha Maginot ou os alemães na muralha ocidental.
Construída numa série de galerias de aço e concreto subterrâneas, esperava-se que
suas torres de canhões protegidas por pesada blindagem e manobradas por 1.200
homens resistissem indefinidamente contra o martelar das mais pesadas bombas
e granadas. Caiu em trinta horas ante o ataque de oitenta soldados alemães que,
152 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

sob o comando de um sargento, haviam aterrissado em nove planadores sobre seu


teto e cujo total de baixas remontou a seis mortos e 19 feridos. Em Berlim —
lembro-me — o OKW fez que a empresa parecesse muito misteriosa, ao anunciar
num comunicado especial, na noite de 11 de maio, que o forte Eben-Emael havia
sido conquistado por meio de um “novo método de ataque”, comunicado que deu
origem a que se espalhassem boatos — e o dr. Goebbels deleitou-se em soprá-los
— de que os alemães possuíam uma novíssima “arma secreta”, talvez um gás que,
atuando sobre os nervos, paralisara temporariamente os defensores.
A verdade era muito mais prosaica. Com seu extraordinário gosto de prepara­
tivos minuciosos, os alemães, durante o inverno de 1939-1940, construíram em
Hildesheim uma réplica do forte e das pontes sobre o canal Albert e treinaram
uns quatrocentos soldados transportados em planadores, para conquistá-los. Três
grupos deviam conquistar as três pontes, e o quarto, o forte Eben-Emael. Essa
última unidade, formada de oitenta soldados, aterrou no topo da fortaleza e colo­
cou ali um explosivo “oco” especialmente preparado, sobre as torres blindadas,
que não só as punha fora de ação como espalhava chamas e gás nas câmaras,
embaixo. Lança-chamas portáteis foram também usados nos portais dos canhões
e nas aberturas de observação. Em uma hora, os alemães puderam penetrar nas
galerias superiores, tornar inúteis os canhões pesados e leves do forte e cegar os
postos de observação. A infantaria belga, atrás do forte, procurou em vão desalo­
jar o pequeno bando de atacantes; foi, porém, rechaçada pelos ataques dos stukas
e dos pára-quedistas que chegaram como reforços. Na manhã de 11 de maio, uni­
dades avançadas de panzers, que haviam atravessado as duas pontes intactas, no
norte, chegaram ao forte e cercaram-no e, após novos bombardeios dos stukas e
luta corpo-a-corpo nos túneis, foi hasteada uma bandeira branca ao meio-dia. Os
1.200 atordoados defensores belgas saíram em fileira e renderam-se.11
Esse feito, juntamente com a conquista das pontes e a violência do ataque
desfechado pelo 6e Exército, do general von Reichenau, que foi sustentado pelo
16a Corpo blindado de duas divisões de tanques e uma divisão de infantaria me­
canizada sob o comando do general Hoepner, convenceu o Alto-Comando dos
Aliados que, da mesma maneira que em 1914, a força ofensiva alemã estava sendo
descarregada pela sua direita, e tomaram medidas para detê-la. De fato, já na noi­
te de 15 de maio, as forças belgas, britânicas e francesas estavam mantendo-se
firmes na linha de Dyle, que ia da Antuérpia a Namur.
VITÓRIA NO OC IDENTE 15 3

Era justamente o que desejava o Alto-Comando alemão. Tornara-se agora


possível lançar o plano de Manstein e atacar o inimigo no centro. O general Hal­
der, chefe do Estado-maior geral, viu, muito claramente, a situação — e suas opor­
tunidades — na noite de 13 de maio.

Ao norte de Namur [escreveu ele em seu diário] podemos contar uma


completa concentração de 24 divisões britânicas e francesas e 15 divi­
sões belgas. Contra elas, nosso 6a Exército dispõe de 15 divisões na
frente e 6 na reserva (...) Estamos suficientemente fortes para afastar
qualquer ataque do inimigo. Nenhuma necessidade de se trazerem mais
forças. Ao sul de Namur enfrentamos um inimigo mais fraco. Cerca de
metade de nosso poderio. O resultado do ataque no Mosa decidirá se,
quando e onde poderemos explorar essa superioridade. O inimigo não
dispõe de força digna de menção atrás dessa frente.

Nenhuma força digna de menção atrás dessa frente que, no dia seguinte, foi
rompida?
Em 16 de maio, o primeiro-ministro Churchill voou para Paris a fim de averi­
guar. À tarde, quando se dirigia ao Quai d’Orsay para avistar-se com o prem ier
Reynaud e com o general Gamelin, pontas-de-lança alemãs estavam a 96 quilô­
metros a oeste de Sedan rolando pelo campo aberto e desprotegido. Nada de valor
se interpunha entre elas e Paris ou entre elas e o Canal. Churchill ignorava esse
ponto. “Onde está a reserva estratégica?”, perguntou a Gamelin, e passando para
o francês: “Oii est la masse de manoeuvre?” O comandante-em-chefe dos exércitos
Aliados voltou-se para ele e, meneando a cabeça e dando de ombros, respondeu:
“Aucuné ” (não há nenhuma).*
“Fiquei perplexo”, relatou Churchill mais tarde. Inacreditável que um grande
exército, quando atacado, não mantivesse tropas de reserva. “Admito”, disse Chur­
chill, “ter sido essa uma das maiores surpresas que tive em minha vida.”12
Não menor foi a surpresa do Alto-Comando alemão ou, pelo menos, de Hitler
e dos generais, no OKW, se não a de Halder também. Duas vezes, durante essa
campanha no Ocidente, que o próprio Führer dirigia, ele hesitou. A primeira, em

* Depois da guerra, Gamelin declarou que sua resposta não fora "não há nenhuma" e sim "não há mais
nenhuma" (UAurore, Paris, 21 de novembro de 1949).
154 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

17 de maio, quando se viu presa de uma crise de nervos. Nessa manhã, Guderian,
que estava a uma terça parte do caminho para o canal com seu corpo d epanzers,
recebeu ordem de suspender a marcha. Haviam sido recebidas informações da
Luftwaffe de que os franceses estavam preparando um grande contra-ataque para
isolar as forças blindadas cujas cunhas se estendiam a oeste de Sedan. Hitler con-
ferenciou apressadamente com o comandante-em-chefe do exército, Brauchitsch,
e com Halder. Estava certo de que se desenvolvia no sul uma séria ameaça dos
franceses. Rundstedt, comandante do grupo A de exércitos, a principal força que
havia feito a primeira ruptura no Mosa, apoiou-o quando conferenciaram mais
tarde, nesse dia. Esperava, disse, “uma grande contra-ofensiva de surpresa, por
poderosas forças francesas das áreas de Verdun e Châlons-sur-Marne”. Surgiu no
espírito febril de Hitler o espectro de um segundo Marne. “Estou vigilante nesse
ponto”, escreveu ele no dia seguinte a Mussolini. “O milagre do Marne de 1914
não se repetira.”13

Um dia muito desagradável [anotou Halder em seu diário, na noite de


17 de maio]. O Führer acha-se horrivelmente nervoso. Está preocupado
com seu próprio êxito, não quer arriscar coisa alguma e insiste em to-
lher-nos os movimentos. Desculpa-se dizendo que tudo isso é devido à
sua preocupação com o flanco esquerdo (...) Só tem provocado confu­
são e dúvidas.

O chefe nazista não demonstrou qualquer melhora durante o dia seguinte, a


despeito da avalancha de notícias sobre o colapso francês. Halder registrou a crise
em seu diário no dia 18.

O Führer acha-se inexplicavelmente preocupado com o flanco sul. Vo­


cifera e grita que estamos caminhando para a ruína de toda a operação
e cortejando o perigo de uma derrota. Não quer saber de continuar a
investida pelo oeste, muito menos a sudoeste, e apega-se sempre à idéia
de um avanço a noroeste. É essa a matéria de um debate desagradabilís-
simo entre o Führer; de um lado, e Brauchitsch e eu, do outro.

O general Jodl, do OKW, para quem o Führer quase sempre tinha razão, tam­
bém anotou a discórdia na alta esfera nazista:
VITÓRIA NO OC IDENTE 15 5

Dia de grande tensão [escreveu no dia 18]. O comandante-em-chefe do


exército [Brauchitsch] não organizou, o mais depressa possível, uma
nova posição de flanco ao sul (...) Brauchitsch e Halder foram chama­
dos imediatamente e a eles foi peremptoriamente ordenado adotarem
imediatamente as medidas necessárias.

Halder, porém, estava com a razão; os franceses não dispunham de tropas com
as quais pudessem preparar um contra-ataque ao sul. Conquanto as divisões p a n ­
zers, impacientes que estavam, recebessem ordens para nada mais fazer senão
prosseguir numa ação de “reconhecimento com pleno vigor”, isso foi tudo de que
precisavam para fazer pressão em direção ao Canal. Na manhã de 19 de maio,
uma poderosa força de sete divisões blindadas, investindo inexoravelmente na
direção oeste, ao norte do rio Somme, e passando pelos cenários históricos da
batalha da Primeira Guerra Mundial, achou-se apenas a uns oitenta quilômetros
do Canal. Na noite de 20 de maio, para surpresa do quartel-general de Hitler, a 2-
Divisão panzer chegou a Abbeville, na embocadura do Somme. Os belgas, a força
expedicionária britânica e os três exércitos franceses viram-se cercados.

O Führer não se contém de alegria [escreveu Jodl em seu diário nessa


noite]. Tece palavras laudatórias ao exército alemão e a seus chefes. Está
redigindo o tratado de paz que deverá conter o seguinte: devolução do
território roubado, durante os últimos quatrocentos anos, ao povo ale­
mão, e de outros valores (...)
Encontra-se nos arquivos um memorando especial contendo as pala­
vras do Führer, embargado pela emoção, ao receber a informação tele­
fônica do comandante-em-chefe sobre a conquista de Abbeville.

A única esperança dos Aliados de se livrar daquele desastroso cerco era os


exércitos, na Bélgica, virarem imediatamente para sudoeste, desembaraçarem-
se do 62 Exército alemão, atacando-o ali, abrirem caminho através da força blin­
dada alemã, que se estendia pelo norte da França até o mar, e unirem-se às for­
ças frescas dos franceses que avançavam em direção norte, vindas do Somme.
Foi, realmente, o que o general Gamelin ordenou na manhã de 19 de maio, mas
ele foi nessa noite substituído pelo general Maxime Weygand que, imediatamente,
156 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

cancelou a ordem. Weygand, que adquirira formidável fama na Primeira Guerra


Mundial, quis conferenciar antes com os comandos Aliados na Bélgica, e depois
resolver o que devia ser feito. Como resultado, perderam-se três dias para, por
fim, ele apresentar precisamente o plano de seu predecessor. Essa demora custou
caro. Havia ainda 40 divisões francesas, britânicas e belgas no norte, já experien­
tes na luta, e, tivessem elas atacado ao sul a fina linha blindada alemã, em 19 de
maio, conforme Gamelin ordenara, teriam conseguido rompê-la. Quando se
movimentaram, as comunicações entre os vários comandos daqueles países ti­
nham-se tornado caóticas, e os vários exércitos Aliados, sob a forte pressão em
que se achavam, começaram a agir desordenadamente. Seja como for, o plano de
Weygand existia apenas no espírito do general; nenhuma força francesa surgiu
do Somme.
Entrementes, o Alto-Comando alemão lançava na luta todas as tropas de in­
fantaria que puderam ser arremessadas para fortalecer e alargar a brecha das for­
ças blindadas. Em 24 de maio, os tanques de Guderian, avançando de Abbeville
para o Canal, capturaram Boulogne e cercaram Calais, os dois principais portos,
e atingiram Gravelines, na costa, a 32 quilômetros de Dunquerque. A frente na
Bélgica moveu-se para o sudoeste, ao tentarem os Aliados desligar-se dali. No dia
24, já os exércitos britânicos, franceses e belgas, no norte, se viram comprimidos
num triângulo relativamente pequeno com sua base ao longo do Canal, de Grave­
lines e Terneuzen, e seu vértice em Valenciennes, a 112 quilômetros no interior.
Não havia, agora, esperança de romper o cerco. A única, e parecia muito frágil, era
a possível evacuação por mar, em Dunquerque.
Foi nessa emergência, em 24 de maio, que as forças alemãs, agora à vista de
Dunquerque e estabilizadas ao longo do Canal Aa, entre Gravelines e St. Omer,
para o aniquilamento final, receberam uma estranha ordem — e aos soldados, no
campo, ela foi inexplicável — de suspenderem o avanço. Foi o primeiro dos gran­
des erros cometidos pelo Alto-Comando alemão na Segunda Guerra Mundial;
tornou-se o assunto de violenta controvérsia, não só entre os próprios generais
alemães como entre os historiadores militares sobre quem era o responsável por
isso, e por quê. Voltaremos a tratar dessa questão à luz de um acervo de material
agora existente. Quaisquer que fossem as razões para suspender a marcha, isso pro­
porcionou milagrosa trégua aos Aliados, especialmente aos britânicos, causando,
como causou, o milagre de Dunquerque. Mas essa ordem não salvou os belgas.
VITÓRIA NO OC IDENTE 157

A capitulação do rei Leopoldo

O rei Leopoldo III dos belgas capitulou nas primeiras horas da manhã de 28
de maio. O jovem e teimoso soberano, que tirara o país da aliança com a França e
a Inglaterra e se colocara à sombra de uma tola neutralidade, que recusara resta­
belecer essa aliança mesmo durante os meses em que sabia estarem os alemães
preparando um ataque maciço através de suas fronteiras, e que, no último mo­
mento, após o ataque de Hitler, clamara pelo auxílio militar dos franceses e britâ­
nicos e o recebera, abandonava-os agora, numa hora desesperadora, abrindo o
dique pelo qual as divisões se despejariam sobre o flanco das tropas anglo-france-
sas fortemente acossadas. Além disso — como disse Churchill em 4 de junho, na
Câmara dos Comuns —, “sem prévia consulta, sem o menor aviso possível, sem o
parecer de seus ministros, agindo de maneira puramente pessoal”.
Na verdade, contra o parecer unânime de seu governo, que ele, constitucional­
mente, jurara seguir. Às 5h de 25 de maio, houve uma reunião para uma explica­
ção definitiva entre o monarca e três membros do gabinete, entre eles o primeiro-
ministro e o ministro das Relações Exteriores. Eles aconselharam-no pela última
vez a não capitular pessoalmente e a não se tornar prisioneiro dos alemães, pois,
se o fizesse, “seria degradado ao papel de Hácha”, em Praga. Lembraram-lhe tam­
bém que era um chefe de Estado e o comandante-em-chefe, e que, se a situação
piorasse, poderia exercer seu cargo no exílio, como a rainha da Holanda e o rei da
Noruega haviam decidido fazer, até que se verificasse, eventualmente, a vitória
dos Aliados.
“Resolvi ficar”, respondeu Leopoldo. “A causa dos Aliados está perdida.”14
Às 17h de 27 de maio, mandou o general Derousseaux, chefe-representante do
Estado-maior geral belga, encontrar-se com os alemães e pedir um armistício. Às
22h o general trouxe as condições impostas pelos alemães: “O Führer exige que as
armas sejam depostas incondicionalmente.” O rei aceitou a capitulação incondi­
cional às 23h e propôs que se cessasse a luta às 4h, o que foi feito.
O prem ier Reynaud, da França, denunciou colericamente a capitulação de
Leopoldo numa violenta transmissão radiofônica. O primeiro-ministro belga,
Pierlot, também falou pela rádio de Paris, mas num tom mais condigno; infor­
mou o povo belga de que o rei agira contra o conselho unânime do governo, rom­
pera os laços que o unia ao povo e não mais se achava em posição de governá-lo;
l 58 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

e que o governo belga, no exílio, continuaria a luta. Churchill, ao falar na Câmara


dos Comuns em 28 de maio, evitou manifestar-se sobre o ato de Leopoldo, mas
em 4 de junho associou-se à crítica geral. A controvérsia perdurou muito tempo
depois de finda a guerra. Os defensores de Leopoldo, e havia muitos na Bélgica e
fora dela, acreditavam que ele fizera uma coisa justa e honrosa partilhando do
destino de seus soldados e do povo belga. E insistiram na afirmação de que o rei,
ao capitular, agira, não como chefe de Estado, mas como comandante-em-chefe
do exército belga.
Não se discute que as maltratadas forças belgas estivessem, em 27 de maio, em
situação desesperadora. Valentemente, concordaram em estender sua frente a fim
de dar aos britânicos e franceses a possibilidade de forçar um caminho para o sul.
E essa linha desmoronava-se rapidamente, embora os belgas lutassem tenazmen­
te. Leopoldo também não foi informado de que, em 26 de maio, lorde Gort rece­
beu, de Londres, ordem para se retirar para Dunquerque, salvando o que pudesse
da força expedicionária britânica. É esse um lado do argumento, mas há outro. O
exército belga achava-se sob o comando total dos Aliados, e Leopoldo havia feito
uma paz em separado sem consultá-lo. Em sua defesa, tem-se assinalado que, às
12:30h do dia 27 de maio, ele telegrafara a Gort, que logo “seria forçado a capitular
a fim de evitar um colapso”; e que o comandante britânico, que se achava atarefa-
díssimo e constantemente em movimento, não recebera a mensagem. Testemu­
nhou mais tarde que somente tivera conhecimento da capitulação pouco tempo
depois das 23h de 27 de maio, quando se viu “subitamente frente a uma brecha
aberta de 32 quilômetros entre Ypres e o mar, pela qual as forças blindadas do
inimigo poderiam alcançar as praias”.15Ao general Weygand, comandante militar
superior do rei, a notícia chegou por telegrama procedente dos franceses de liga­
ção junto ao quartel-general belga, pouco depois das 18h; e a notícia atingiu-o
— declarou mais tarde — “como um raio que tivesse caído do céu. Não houve
qualquer advertência (...)”16
Finalmente, mesmo como comandante-em-chefe das forças armadas, Leopol­
do, nessa monarquia constitucional e democrática, era obrigado a aceitar o con­
selho de seu governo. Quer nesse papel, quer no de chefe de Estado, não tinha
autoridade para capitular por conta própria. O povo belga, afinal, julgou como
convinha o seu soberano. Só foi chamado da Suíça, onde se refugiara, ao fim da
guerra, para assumir o trono, cinco anos depois. Quando isso se deu, em 20 de
julho de 1950, sua volta, após ter sido aprovada por 57% dos que votaram num
VITÓRIA NO OC IDENTE 159

referendo, provocou uma reação tão violenta entre o povo, que ameaçou irromper
uma guerra civil. Leopoldo logo abdicou em favor do filho.
Em qualquer coisa que se dissesse sobre a conduta de Leopoldo não deveria
haver — e no entanto houve* — contestação sobre a magnífica maneira com a
qual seu exército combateu. Durante alguns dias, em maio, eu segui o 6e Exército
na Bélgica, e presenciei a tenacidade com que os belgas lutaram contra dificulda­
des insuperáveis. Nem uma vez se prostraram sob o bombardeio impiedoso e li­
vre da Luftwaffe ou quando as forças blindadas procuraram atravessar suas linhas.
Não se poderia dizer isso de outras tropas aliadas nessa campanha. Os belgas re­
sistiram durante 18 dias e teriam resistido mais tempo, não tivessem eles, como a
força expedicionária britânica e os exércitos franceses do norte, sido apanhados
numa armadilha que não era criação sua.

Milagre em Dunquerque

Desde 20 de maio, quando os tanques de Guderian romperam as linhas em


sua investida para Abbeville, na costa, o almirantado britânico, obedecendo às
ordens pessoais de Churchill, começara a concentrar barcos para a possível eva­
cuação da força expedicionária britânica e outras tropas aliadas dos portos do
Canal. Elementos não combatentes e outras “bocas inúteis” começaram a ser trans­
portados imediatamente pelo estreito mar para a Inglaterra. Em 24 de maio, con­
forme vimos, a frente belga ao norte achava-se prestes a cair e, ao sul, as forças blin­
dadas alemãs, atacando de Abbeville, na costa, depois de conquistar Boulogne e
envolver Calais, atingiram o Canal Aa a apenas 32 quilômetros de Dunquerque.
Nesse bolsão foram apanhados o exército belga, as nove divisões da força expe­
dicionária britânica e dez divisões do lfi Exército francês. Conquanto o terreno,
na extremidade sul do bolsão, fosse ruim para a passagem de tanques, por ser en-
trecruzado de canais, fossos e áreas inundadas, os corpos de panzers de Guderian
e Reinhardt já haviam conseguido estabelecer cinco cabeças-de-ponte no lado
oposto da principal barreira, o Canal Aa, entre Gravelines, na costa, e St. Omer, e

* Entre muitos, do general sir Alan Brooke, que comandou o 2a corpo do Exército britânico, tornando-se
mais tarde marechal-de-campo lorde Alanbrooke, chefe do Estado-maior imperial. (Ver The Turn ofthe
Tide, de sir Arthur Bryant, baseado no diário de Alanbrooke).
1Ó 0 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

estavam prontos para os golpes que malhariam os exércitos Aliados contra a bi­
gorna dos 6a e 18GExércitos alemães que, do nordeste, vinham avançando e que os
destruiriam completamente.
Inesperadamente, na noite de 24 de maio, veio a ordem peremptória do Alto-
Comando — expedida ante a insistência de Hitler, apoiado por Rundstedt e
Gõring, porém a que objetaram violentamente Brauchitsch e Halder — para que
as forças de tanques se detivessem na linha do Canal e não procurassem avançar.
Isso proporcionou a lorde Gort um alívio inesperado e vital, que ele e a marinha
de guerra e a força aérea britânica aproveitaram ao máximo e que, conforme
Rundstedt mais tarde percebeu e afirmou, conduzira “a um dos grandes momen­
tos decisivos da guerra”.
Como surgiu essa inexplicável ordem para deter no limiar o que seria, certa­
mente, a maior vitória alemã nessa campanha? Quais foram as razões que a dita­
ram? E quem foi o responsável por ela? Essas questões provocaram uma das
maiores controvérsias da guerra, entre os generais envolvidos e entre os historia­
dores. Os generais, liderados por Rundstedt e Halder, lançaram a culpa exclusiva­
mente sobre Hitler. Churchill acrescentou mais lenha à fogueira no segundo vo­
lume de suas memórias sobre a guerra, afirmando que a iniciativa da ordem
partira de Rundstedt e não de Hitler e citando, como prova, os diários de guerra
do próprio quartel-general de Rundstedt. Na confusão dos testemunhos que se
entrechocam e contradizem, tem sido difícil estabelecer a verdade dos fatos.
Quando se preparava para escrever este capítulo, o autor dirigiu uma carta ao
general Halder pedindo-lhe que prestasse novos esclarecimentos, tendo recebido
prontamente uma delicada e minuciosa resposta. Com base nela e em muitas outras
provas agora existentes, podemos tirar certas conclusões e encerrar a controvér­
sia, senão de modo concludente, pelo menos razoavelmente convincente.
Quanto à responsabilidade pela célebre ordem, Rundstedt, a despeito das afir­
mações em contrário que fez depois, deve partilhá-la com Hitler. O Führer visitou
o quartel-general do grupo A de exércitos, sob o comando desse general, em
Charleville, na manhã de 24 de maio. Rundstedt propôs que as divisões panzers ,
na linha do canal diante de Dunquerque, suspendessem o avanço até que pudes­
sem chegar mais divisões de infantaria.* Hitler concordou, observando que as

* Esse fato, determinado segundo os registros do próprio quartel-general de Rundstedt, não impediu
que o general fizesse várias declarações após a guerra, nas quais lançava a culpa inteiramente sobre
Hitler."Se eu pudesse ter agido a meu modo", contou o general ao major Milton Shulman, um oficial do
VITÓRIA NO OC IDENTE 1 61

forças blindadas deviam ser conservadas para operações posteriores contra os


franceses, ao sul do Somme. Além disso, declarou que se o bolsão em que haviam
sido pegos os Aliados se tornasse demasiado pequeno, dificultaria as atividades
da Luftwaffe. Provavelmente Rundstedt, com a aprovação do Führer, expediu ime­
diatamente a ordem para sustar a marcha, pois Churchill observa que a força ex­
pedicionária britânica interceptou uma mensagem alemã pelo rádio dando or­
dens para esse fim, às 1l:42h.17Hitler e Rundstedt achavam-se, nessa ocasião, em
conferência.
Seja como for, nessa noite Hitler expediu a ordem formal do OKW, e Jodl e
Halder anotaram-na em seus diários. O chefe do Estado-maior geral ficou de-
soladíssimo:

Nossa ala esquerda, composta de forças blindadas e motorizadas [es­


creveu ele], ficará assim imobilizada no caminho por ordens diretas do
Führerl O aniquilamento do exército inimigo, cercado, fica a cargo da
força aérea!

Esse ponto de exclamação e de desprezo indica que Gõring interviera junto a


Hitler, e sabe-se que realmente interveio. Ofereceu-se para liquidar, somente com
sua força aérea, os soldados inimigos que estavam cercados! As razões de sua
ambiciosa e presunçosa proposta foram dadas ao autor na carta que recebeu de
Halder, em 9 de julho de 1957:

serviço secreto canadense, "os ingleses não teriam tão facilmente saído de Dunquerque. Mas minhas
mãos estavam amarradas pelas ordens diretas do próprio Hitler. Enquanto os ingleses subiam para os
navios ao largo da costa, eu fui obrigado a ficar inativo fora do porto, incapacitado de fazer um movi­
mento (...) Fiquei fora da cidade, observando os ingleses escaparem, enquanto meus tanques e a infan­
taria se achavam proibidos de mover-se. Esse inacreditável erro foi devido à idéia pessoal de Hitler
como dirigente." (Shulman, Defeatin the West, p. 42-3).
Rundstedt, em 20 de junho de 1946 (transcrição mimeografada, p. 1.499), acrescentou perante uma
comissão do Tribunal Internacional: "Foi um grande erro do comandante (...) Indescritível a cólera que
nós, chefes, sentimos na ocasião." Rundstedt fez declarações semelhantes a Liddell Hart (The generais
talk, p. 112-3) e perante o Tribunal Militar, em Nuremberg, no processo United States v. Leeb (p. 3.350-3,
3.931-2, da transcrição mimeografada).
Telford Taylor, em The March of Conquest, e o major L. F. Ellis, em The War in Trance and Flanders,
1939-1940, analisaram os documentos do exército alemão sobre o incidente, e suas conclusões dife­
rem de certo modo. O livro de Ellis é o relato oficial dos britânicos sobre a campanha e contém docu­
mentação tanto britânica quanto alemã. Taylor, que despendeu quatro anos como promotor dos nor­
te-americanos nos julgamentos de Nuremberg, é uma autoridade no tocante à documentação alemã.
1 Ó2 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Durante os dias que se seguiram [isto é, depois de 24 de maio], tomou-


se conhecido que a decisão de Hitler fora particularmente influenciada
por Gõring. Ao ditador, aquele rápido movimento do exército, cujos
riscos e perspectivas de êxito não compreendia por lhe faltar educação
militar, tornava-se quase sinistro. Estava constantemente apreensivo
com a possibilidade de uma reviravolta (...)
Gõring, que conhecia bem o Führer, tirou proveito dessa apreensão.
Ofereceu-se para empreender o restante da luta, nessa grande batalha
de cerco, somente com a Luftwaffe, eliminando-se assim o risco de uti­
lizar valiosas formações depanzers. Fez essa proposta (...) por uma razão
que caracterizava a falta de escrúpulos e a ambição de Gõring. Queria
assegurar para sua força aérea, após as operações até então surpreen­
dentemente fáceis para o exército, o ato final e decisivo na grande bata­
lha e, assim, conquistar a glória da vitória perante o mundo inteiro.

O general Halder narra depois, em sua carta, uma informação que lhe foi dada
por Brauchitsch depois de uma conversa que este último tivera com os generais
da Luftwaffe — Milch e Kesselring — na prisão de Nuremberg, em janeiro de
1946, na qual esses oficiais da força aérea declararam

que Gõring nessa ocasião [maio de 1940] enfatizou a Hitler que se os


generais do exército reivindicassem exclusivamente para si a grande vi­
tória na batalha que então se desenvolvia, o prestígio dele, Hitler, ficaria
abalado para sempre na Alemanha. Isso só poderia ser evitado se a
Luftwaffe, e não o exército, levasse a cabo a batalha decisiva.

É razoavelmente claro, pois, que a idéia de Hitler, inspirada por Gõring e


Rundstedt, à qual Brauchitsch e Halder se opuseram formalmente, era deixar que
a força aérea e o grupo B dos exércitos comandado por Bock — que, sem qualquer
força blindada digna de menção, vagarosamente fazia recuar os belgas e os bri­
tânicos a sudoeste, para o Canal — procedessem à operação de limpeza das for­
ças inimigas no bolsão. O grupo A dos exércitos, de Rundstedt, com uma das sete
divisões de tanques paradas nos canais a oeste e ao sul de Dunquerque, ficaria fir­
me ali, mantendo o inimigo cercado. Nem a Luftwaffe nem o grupo de exércitos,
VITÓRIA NO OC IDENTE 1Ó 3

de Bock, porém, demonstraram poder atingir seus objetivos. Na manhã de


26 de maio, Halder dava vazão à cólera em seu diário, dizendo que ‘essas ordens
do alto não têm sentido algum (...) Os tanques estão parados como se estivessem
paralisados”.
Finalmente, na noite de 26 de maio, Hitler anulou a ordem e concordou em
que, dado o lento avanço de Bock na Bélgica e o movimento de transportes ao
largo da costa, as forças blindadas reiniciassem o avanço contra Dunquerque. Mas
já era tarde. O inimigo encurralado tivera tempo para fortificar suas defesas e,
protegido por elas, começava a escapar pelo mar.
Sabemos agora que houve também razões políticas para a ordem fatal de Hi­
tler. Halder anotou, em seu diário, em 25 de maio, dia — disse ele — que “come­
çara com uma daquelas desagradáveis discussões entre Brauchitsch e o Führer
sobre os movimentos seguintes na batalha do cerco”, que

agora a ordem política criou a idéia fixa de que a batalha decisiva não
devia ser travada em solo flamengo e sim no norte da França.

Esse registro deixou-me perplexo. Quando escrevi ao antigo chefe do Estado-


maior geral, perguntei-lhe se se lembrava das razões políticas de Hitler para que­
rer terminar aquela batalha no norte da França em vez de na Bélgica. Halder
lembrou-se perfeitamente delas: “Segundo a lembrança que ainda tenho bem viva
na memória”, respondeu, “Hitler, em nossas conversações, naquele tempo, apoiou
suas razões para dar a ordem de suspender o avanço, tendo dois pensamentos em
vista. O primeiro, razões de ordem militar: a natureza do terreno imprópria para
os tanques, as altas perdas que resultariam, enfraquecendo o ataque contra o res­
tante da França, etc.” Em seguida — escreveu Halder — o Führer citou

uma segunda razão que sabia que nós, como soldados, não podíamos
combater, porque era de ordem política e não militar.
Essa segunda razão era que, por motivos políticos, ele não queria que a
batalha decisiva e final, que inevitavelmente causaria grande dano à po­
pulação, fosse travada em território habitado pelo povo flamengo. Ti­
nha a intenção, declarou, de formar com ele uma região nacional-socia-
lista independente, ligando-o, assim, mais para o lado da Alemanha.
1Ó4 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Seus adeptos, no solo flamengo, há muito vinham ali exercendo suas


atividades, e ele lhes prometera manter a região livre dos danos da guer­
ra. Se não mantivesse a promessa, agora, a confiança que nele deposita­
vam ficaria seriamente abalada. Isso criaria uma desvantagem para a
Alemanha que ele como chefe responsável por sua política devia evitar.

Absurdo? Se isso parece mais uma das súbitas aberrações de Hitler (Halder
escreveu que ele e Brauchitsch “não ficaram convencidos com tal raciocínio”),
outras considerações políticas que ele confiou a outros generais eram mais justas
(...) e importantes. Descrevendo, depois da guerra, a conferência de Hitler com
Rundstedt em 24 de maio, o general Günther Blumentritt, chefe de operações
de Rundstedt, informou Liddell Hart, o escritor militar britânico:

Hitler estava de bom humor (...) e deu-nos sua opinião de que a guerra
seria terminada dali a seis semanas. Depois disso, desejava concluir
uma paz razoável com a França, quando então o caminho estaria livre
para um acordo com a Inglaterra (...)
Ele surpreendeu-nos, depois, ao falar com admiração sobre o império
britânico, sobre a necessidade de sua existência e sobre a civilização que
a Inglaterra trouxera para o mundo (...) Declarou que tudo o que dese­
java da Inglaterra era que ela reconhecesse a posição da Alemanha no
continente. A devolução das colônias alemãs seria desejável mas não
essencial (...) Concluiu dizendo que seu objetivo era fazer a paz com a
Inglaterra numa base que ela considerasse compatível com sua honra,
para que pudesse aceitá-la.18

Tais pensamentos Hitler iria muitas vezes exprimir durante as semanas se­
guintes, a seus generais, a Ciano e Mussolini e, finalmente, em público. Ciano fi­
cou surpreendido, um mês depois, ao ver o ditador nazista, então no zênite de
seus sucessos, repisando a importância de manter o império britânico como “fa­
tor no equilíbrio do mundo”,19e em 13 de julho Halder, em seu diário, descreveu
o Führer como estando completamente perplexo com o fato de a Inglaterra deixar
de aceitar a paz. Fazer a Inglaterra dobrar os joelhos à força, declarou ele nesse dia
aos generais, “não beneficiaria a Alemanha (...) mas somente o Japão, os Estados
Unidos e outros países”.
V ITÓRIA NO OC IDENTE 165

Talvez fosse então por isso, embora muitos duvidem, que Hitler deteve suas
forças blindadas diante de Dunquerque, a fim de poupar à Inglaterra uma amarga
humilhação e, assim, facilitar um acordo para a paz. Teria de ser — conforme ele
disse — uma paz na qual a Inglaterra deixava livre a Alemanha para se voltar no­
vamente para o leste, dessa vez contra a Rússia. Londres teria de reconhecer, como
disse também, o domínio do Terceiro Reich sobre o continente. Durante os dois
meses seguintes, Hitler continuava confiante em que tal paz estava a seu alcance.
Mais do que nunca, em todos aqueles anos, compreendeu o caráter da nação bri­
tânica ou a espécie de mundo pelo qual seus líderes e seu povo estavam determi­
nados a lutar (...) até o fim.
Nem ele nem seus generais, desconhecedores do mar como eram — e conti­
nuaram a ser — sonharam que os britânicos, imbuídos todos de espírito maríti­
mo, pudessem evacuar uma terça parte de um milhão de homens, de um pequeno
porto bombardeado e daquelas praias sem proteção, mesmo sob o nariz deles.
Três minutos antes das 19h de 26 de maio, logo depois da anulação da ordem
de Hitler, o almirantado britânico deu sinal de começar a Operação Dínamo,
nome pelo qual se designou a retirada de Dunquerque. Nessa noite, as forças
blindadas alemãs reiniciaram o ataque contra o porto, vindas do oeste e do sul,
mas, dessa vez, os panzers encontraram dificuldades em sua marcha. Lorde Gort
tivera tempo de desdobrar contra eles três divisões de infantaria, apoiadas por
artilharia pesada. Os tanques fizeram pouco progresso. Entrementes, começou a
retirada. Uma armada composta de 850 barcos de todos os tamanhos, tipos e
métodos de propulsão, desde cruzadores e destróieres até pequenos barcos à
vela e skoots holandeses, muitos deles dirigidos por voluntários civis vindos das
cidades costeiras da Inglaterra, convergia para Dunquerque. No primeiro dia, 27
de maio, levaram 7.669 soldados; no dia seguinte, 17.804; no outro, 47.310; e,
em 30 de maio, 53.823, perfazendo o total de 126.606 nos primeiros quatro dias.
Era mais do que o almirantado esperava retirar. Quando começou a operação,
contavam retirar somente cerca de 45 mil soldados nos dois dias de prazo que
então julgavam ter.
Só no quarto dia da Operação Dínamo, 30 de maio, o Alto-Comando alemão
se deu conta do que estava acontecendo. Durante quatro dias os comunicados do
OKW repetiam que os exércitos inimigos, cercados, estavam condenados. Um co­
municado de 29 de maio, que anotei em meu diário, afirmou peremptoriamente:
l6 6 a guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

“O destino do exército francês em Artois está selado (...) O exército britânico, que
foi comprimido no território (...) ao redor de Dunquerque, está também a cami­
nho de sua destruição ante nosso ataque concêntrico”.
Mas não estava; estava a caminho do mar. Sem seus pesados armamentos e
equipamentos, é certo, mas com a segurança de que os homens viveriam para lu­
tar outra vez.
Já na manhã de 30 de maio, Halder registrava confidencialmente em seu diá­
rio que 4continua a desintegração do inimigo que cercamos”. Alguns dos britâ­
nicos, admitiu ele, estavam “lutando com unhas e dentes”, e outros “fugindo para
a costa e procurando atravessar o Canal em tudo que possa flutuar. Le débâcle”
concluiu, aludindo ao famoso romance de Zola sobre a derrota francesa na
guerra franco-prussiana.
À tarde, após uma conferência com Brauchitsch, o chefe do Estado-maior ge­
ral compreendeu o significado dos enxames de pequenos e miseráveis barcos, nos
quais os britânicos fugiam.

Brauchitsch está furioso (...) O bolsão teria sido fechado na costa, se o


avanço de nossas forças blindadas não tivesse sido suspenso. O mau
tempo imobilizou a Luftwaffe em terra, e nós, agora, devemos ficar ali
contemplando milhares e milhares de soldados inimigos fugindo para
a Inglaterra bem debaixo de nosso nariz.

Foi, realmente, o que eles presenciaram. A despeito da crescente pressão que


os alemães aplicaram por todos os lados do bolsão, as linhas britânicas resistiram
e mais tropas foram evacuadas. O dia seguinte, 31 de maio, foi o que apresentou o
maior número de soldados retirados. Uns 68 mil foram embarcados para a Ingla­
terra, uma terça parte deles das praias e os restantes do porto de Dunquerque.
Haviam sido retirados, então, 194.620 homens, quatro vezes mais do que a prin­
cípio esperavam.
Onde estava a famosa Luftwaffe? Parte do tempo, conforme Halder anotou,
impedida de alçar vôo em virtude das más condições atmosféricas; o restante do
tempo, encontrou ela inesperada oposição da Real Força Aérea, a qual, de bases
situadas no outro lado do Canal, a enfrentou com êxito pela primeira vez.* Apesar

* Muitos dos esgotados tommies, nas praias, que sofreram severo bombardeio, não perceberam isso,
porque os encontros no ar se davam, muitas vezes, acima das nuvens ou numa distância longínqua.
VITÓRIA NO OC IDENTE l6j

de em inferioridade numérica, os novos Spitfires britânicos provaram ser capa­


zes de vencer os Messerchmitts; ceifaram os pesados bombardeiros alemães. Oca­
siões houve em que os aviões de Gõring chegaram sobre Dunquerque, entre as
sortidas dos britânicos, e fizeram estragos em grande extensão do porto, o qual,
durante algum tempo, ficou imprestável, tendo as tropas de ser retiradas exclusi­
vamente das praias. A Luftwaffe atacou fortemente a navegação. De um total de
861 barcos, 243 foram afundados, a maior parte por ela. Mas não conseguiu rea­
lizar o que Gõring havia prometido a Hitler: o aniquilamento da força expedicio­
nária britânica. Em Ia de junho, quando desfechou seu mais pesado ataque (e
sofreu as mais pesadas baixas — cada lado perdeu trinta aviões), destruindo três
destróieres britânicos e certo número de pequenos transportes, o total de homens
retirados foi de 64.429, o segundo dia de maior número. Ao alvorecer do dia se­
guinte, somente 4 mil soldados britânicos permaneceram no perímetro, protegi­
dos por 100 mil franceses que guarneciam as defesas.
Entrementes, chegava a artilharia média alemã. Eles ficaram a seu alcance, e
as operações de retirada à luz do dia tiveram que ser abandonadas. Nessa ocasião,
a Luftwaffe não operava depois que escurecia, e, durante as noites de 2 e 3 de ju­
nho, o restante da força expedicionária britânica e 60 mil soldados franceses pu­
deram ser embarcados com êxito. Dunquerque, ainda defendida tenazmente por
40 mil soldados franceses, resistiu até a manhã de 4 de junho. Até esse dia, 338.226
soldados britânicos e franceses haviam escapado das garras alemãs. Não eram
mais um exército; a maioria — é compreensível — estava na ocasião em mísero
estado. Mas tinham a experiência da batalha; sabiam que poderiam enfrentar os
alemães se estivessem devidamente armados e adequadamente protegidos do ar.
A maioria, quando se estabelecesse o equilíbrio nos armamentos, haveria de pro­
vá-lo — e prová-lo-ia em praias não muito distantes da costa do Canal donde
haviam sido salvos.
Cabia aos britânicos o salvamento. Mas Churchill lembrou-lhes na Câmara, em
4 de junho, que “não se ganha guerras com retiradas”. A situação da Inglaterra era

Sabiam apenas que tinham sido bombardeados e metralhados durante todo o caminho de volta, da
parte leste da Bélgica até Dunquerque, e achavam que sua força aérea os tinha deixado entregues à
sua sorte. Quando chegaram aos portos da Inglaterra, alguns deles, insultaram os homens que enver-
gavam o uniforme azul da Real Força Aérea. Isso afligiu bastante Churchill, que tratou logo de esclare­
cer a situação, declarando na Câmara, em 4 de junho, que o salvamento em Dunquerque "foi consegui­
do por intermédio da força aérea"
i68 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

verdadeiramente grave, mais perigosa do que fora por ocasião dos desembarques
dos normandos um milênio antes. Não tinha um exército para defender suas
ilhas. A força aérea ficara grandemente enfraquecida na França. Restava apenas a
armada, mas a campanha norueguesa demonstrara quanto as grandes naus eram
vulneráveis à aviação com bases em terra. Os bombardeiros da Luftwaffe estavam
agora com suas bases a apenas cinco ou dez minutos de vôo do outro lado do es­
treito Canal. A França, é certo, ainda resistia abaixo do Somme e do Aisne. Mas
suas melhores tropas e armamentos haviam sido perdidos na Bélgica e no norte
de seu território; sua pequena e antiquada força aérea fora em grande parte des­
truída, e dois de seus mais ilustres chefes militares, o marechal Pétain e o general
Weygand, que agora começavam a dominar o vacilante governo, não mais tinham
disposição para lutar contra um adversário superior.
Esses lúgubres fatos dominavam o espírito de Winston Churchill, quando ele
se levantou na Câmara dos Comuns, em 4 de junho de 1940, enquanto os últimos
transportes de Dunquerque estavam sendo descarregados, decidido — conforme
escreveu mais tarde — a mostrar não só a seu próprio povo mas também ao mun­
do e, especialmente aos Estados Unidos, “que nossa resolução de continuar a lutar
se baseava em razões muito sólidas”. Foi nessa ocasião que pronunciou sua célebre
peroração, que por muito tempo será lembrada e cujo mérito ocupa, seguramen­
te, o mesmo nível das grandes orações até então proferidas:

Embora grande parte da Europa e antiquíssimos e famosos estados ha­


jam caído ou possam ainda cair nas garras da Gestapo e de todo o odio­
so aparato do domínio nazista, não haveremos de ceder nem fracassar.
Iremos até o fim: lutaremos na França, lutaremos nos mares e oceanos,
lutaremos, com crescente confiança e poderio, no ar; defenderemos
nossa Ilha custe o que custar; lutaremos nas praias, lutaremos nos aeró­
dromos, lutaremos nos campos, nas ruas e nas colinas; jamais nos ren­
deremos, e mesmo que — o que não creio sequer por um momento —
esta Ilha ou uma grande parte dela seja subjugada e esteja passando
fome, nosso império de além-mar, armado e guardado pela esquadra
britânica, continuará a lutar até que, quando Deus quiser, o Novo Mun­
do, com toda a sua força e poderio, se ponha em marcha para socorrer
e libertar o Velho.
VITÓRIA NO O C ID EN TE 1Ó 9

A queda da França

A determinação da Inglaterra em continuar a lutar parecia não ter perturbado


os pensamentos de Hitler. Ele estava convicto de que os ingleses veriam com
clareza a situação depois que tivesse liquidado a França, o que então tratou de
fazer. Na manhã que se seguiu à queda de Dunquerque, 5 de junho, os alemães
desfecharam um ataque maciço no Somme e, logo depois, com esmagador pode­
rio, ao longo de uma frente de 640 quilômetros que se estendia pela França,
desde Abbeville até o Alto Reno. Os franceses estavam condenados. Contra 143
divisões alemãs, incluindo dez blindadas, puderam desdobrar apenas 65, a maio­
ria delas de segunda categoria, pois as melhores unidades e a maior parte das
forças blindadas haviam sido consumidas na Bélgica. Pouco restava da defi­
ciente força aérea francesa. Os britânicos poderiam contribuir apenas com uma
divisão de infantaria, que havia estado em Saar, e parte de uma divisão blindada.
A Real Força Aérea podia reservar poucos aviões para essa batalha, a menos que
deixasse as próprias Ilhas Britânicas sem defesa. Acrescente-se a isso que o Alto-
Comando Francês, agora dominado por Pétain e Weygand, ficara presa do derro­
tismo. Algumas unidades francesas, contudo, lutaram com grande bravura e tena­
cidade, até mesmo detendo o avanço das forças blindadas alemãs aqui e acolá e
enfrentando, resolutamente, o incessante bombardeio da Luftwaffe.
Mas era uma luta desigual. Em “vitoriosa confusão” — como disse acertada-
mente Telford Taylor — as tropas alemãs derramaram-se pela França à semelhan­
ça de uma grande torrente, vinda a confusão do fato de serem elas em tão grande
número e movimentando-se tão rapidamente que, muitas vezes, chegavam a difi­
cultar o caminho umas das outras.20 Em 10 de junho, o governo francês deixou
apressadamente Paris e, em 14 de junho, a grande cidade, a glória da França, des­
protegida, foi ocupada pelo 182 Exército sob o comando do general von Küchler.
A bandeira com a suástica foi imediatamente hasteada na Torre Eiffel. Em 16 de
junho, o prem ier Reynaud, cujo governo havia fugido para Bordéus, resignou,
sendo substituído por Pétain que, no dia seguinte, pediu aos alemães, por inter­
médio do embaixador espanhol, o armistício.* Hitler respondeu no mesmo dia

* Nesse dia, 17 de junho de 1940, de seu exílio em Doom, na Holanda ocupada, o Kaiser enviou a Hitler
um telegrama de felicitações, embora a ele votasse, durante muito tempo, um grande desprezo, por
considerá-lo um aventureiro vulgar. O telegrama foi encontrado entre os documentos apreendidos aos
nazistas:
170 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

que devia, antes, consultar Mussolini, seu aliado. Esse guerreiro vacilante, após
assegurar-se de que os exércitos franceses estavam irremediavelmente vencidos,
havia, à semelhança de um chacal, saltado para a guerra em 10 de junho, a fim de
participar dos despojos.

O Duce crava seu pequeno punhal nas costas da França

A despeito de suas preocupações com o desenvolvimento da batalha do Oci­


dente, Hitler encontrava tempo para escrever a Mussolini freqüentemente — o
que não deixava de ser surpreendente —, mantendo-o informado das crescentes
vitórias alemãs.
Após a primeira carta (7 de maio) comunicando-lhe que estava atacando a
Bélgica e a Holanda “para assegurar-se da neutralidade de ambos os países”, e di­
zendo que manteria o amigo informado de seu progresso, a fim de que ele, Duce,
pudesse tomar sua própria decisão no devido tempo, escreveu outras em 13,18 e
25 de maio, cada qual mais minuciosa e entusiástica que a outra.22Embora os ge­
nerais, conforme confirma o diário de Halder, pouco se interessassem pelo que a
Itália fizesse — se entraria ou não na guerra —, o Führer, por alguma razão qual­
quer, ligava grande importância à intervenção italiana. Assim que a Holanda e a
Bélgica capitularam e os exércitos anglo-franceses do norte foram esmagados e as
tropas britânicas sobreviventes começaram a correr para os barcos em Dunquer­
que, Mussolini decidiu entrar na guerra. Informou Hitler por carta, em 30 de
maio, que a data seria 5 de junho. Hitler respondeu imediatamente, dizendo que
se sentia “profundamente emocionado”.

Sob a mais profunda emoção que me causa a capitulação da França, eu vos felicito, a vós e a toda a
Wehrmacht alemã, pela formidável vitória concedida por Deus, nas palavras do imperador Guilherme
o Grande, em 1870:"Que reviravolta nos acontecimentos nos proporcionou a Divina Providência"
Em todos os corações ressoa o coral de Leuthen cantado pelos vitoriosos de Leuthen, os soldados do
Grande Rei: "Agradeçamos todos, agora, ao nosso Deus!"
Hitler, que acreditava ser a formidável vitória devida mais a ele do que a Deus, elaborou uma concisa
resposta, mas os documentos não esclarecem se foi enviada.21
Pouco antes, o Führer enfurecera-se quando uma unidade alemã, que invadira Doom, colocou uma
guarda de honra em volta da residência do imperador exilado. Ordenou que fosse removida a guar­
da e que se mantivesse Doom fora dos limites para toda a soldadesca alemã. Guilherme II morreu em
Doom no dia 4 de junho de 1941, e ali foi sepultado. Sua morte, anotou Hassell em seu diário (p. 200),
"passou quase despercebida" na Alemanha. Hitler e Goebbels tomaram nesse sentido as devidas
providências.
VITÓRIA NO OCIDENTE 171

Se ainda houvesse qualquer coisa que pudesse fortalecer minha fé ina­


balável no resultado vitorioso desta guerra [escreveu Hitler em 31 de
maio], seria vossa declaração (...) O simples fato de entrardes na guerra
constitui um elemento bem calculado para desfechar um golpe fulmi­
nante contra a frente de nossos inimigos.

O Führer; entretanto, solicitou a seu aliado que adiasse a data para três dias
depois — desejava primeiro destroçar o restante da força aérea francesa, disse —,
e Mussolini aquiesceu marcando-a para 10 de junho. As hostilidades, declarou o
Duce , começariam no dia seguinte.
Elas não significaram muita coisa. Em 18 de junho, quando Hitler chamou seu
pequeno parceiro a Munique para discutir sobre um armistício com a França, 32
divisões italianas após uma semana de “luta”, não puderam desalojar uma simples
força francesa composta de seis divisões, da frente alpina e, mais ao sul, ao longo
da Riviera, embora os defensores estivessem na ocasião ameaçados, na retaguarda,
por um ataque dos alemães que avançavam pelo vale do Reno*
Em 21 de junho, Ciano anotou em seu diário:

Mussolini sente-se humilhado pelo fato de nossas tropas não terem


avançado um passo sequer. Mesmo hoje elas não conseguiram avançar,
e acham-se detidas diante da primeira fortificação francesa que opôs
certa resistência.23

O poderio militar de que se vangloriava Mussolini revelou-se inócuo desde o


começo, e isso colocou o desapontado ditador italiano em sombria disposição
quando ele e Ciano partiram de trem, na noite de 17 de junho, para conferenciar
com Hitler sobre o armistício com a França.

Mussolini está descontente [escreveu Ciano em seu diário]. Essa paz


inesperada perturba-o. Conversamos bastante durante a viagem, a fim

* O derrotista Alto-Comando francês proibiu qualquer ataque contra a Itália. Em 14 de junho, uma es­
quadrilha naval francesa bombardeou fábricas, tanques de óleo e refinarias nas imediações de Gênova,
mas o almirante Darlan proibiu novas operações desse gênero. Quando a Real Força Aérea tentou en­
viar bombardeiros dos aeroportos de Marselha para atacar Milão e Turim, os franceses conduziram ca­
minhões para o campo a fim de impedir que os aviões decolassem.
172 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o DECISIVO

de esclarecer as condições sob as quais se deverá conceder o armistício


aos franceses. O Duce (...) gostaria de ir até o ponto de ocupar todo o
território francês, e exige a capitulação da esquadra francesa. Sabe, po­
rém, que sua opinião tem apenas valor consultivo. A guerra foi ganha por
Hitler sem participação militar por parte da Itália, e é a Hitler que cabe a
última palavra. Isso, naturalmente, perturba e entristece Mussolini.

A suavidade da “última palavra” do Führer constituiu um verdadeiro choque


para os italianos, quando conferenciaram com o chefe nazista em sua casa, em
Munique, e onde Chamberlain e Daladier se haviam mostrado tão acomodatícios
perante os dois ditadores com referência à Tchecoslováquia, menos de dois anos
antes. O memorando secreto alemão sobre o encontro24 deixa claro que Hitler
estava decidido, acima de tudo, a não deixar a esquadra francesa cair em poder
dos britânicos. Ele receava, também, que o governo francês fugisse para o norte
da África ou para Londres e continuasse a guerra. Por essa razão, os termos do
armistício — os termos finais da paz poderiam ser algo diferentes — teriam de ser
moderados, destinados a manter “um governo francês funcionando em território
francês” e “uma esquadra francesa neutralizada”. Repeliu bruscamente as exigên­
cias de Mussolini de os italianos ocuparem o vale do Ródano, inclusive Toulon (a
grande base naval francesa do Mediterrâneo, onde se achava concentrada a maior
parte da esquadra) e Marselha, e para que se procedesse ao desarmamento da
Córsega, da Tunísia e de Djibuti. Esta última cidade, a porta de entrada para a
Etiópia dominada pela Itália, foi lançada na conferência por Ciano — dizem as
notas alemãs — “em tom baixo”.
Ciano achou que até mesmo o belicoso Ribbentrop se mostrava “excepcional­
mente moderado e calmo, e a favor da paz”. O guerreiro Mussolini achava-se
“muito embaraçado”, observou seu genro.

Ele acha que seu papel é secundário (...) Na verdade, o Duce receia que
a hora da paz esteja se aproximando cada vez mais e vê desaparecer,
novamente, o sonho que não pôde realizar em sua vida: a glória no
campo de batalha.25

Mussolini nem mesmo pôde fazer com que Hitler concordasse em negocia­
rem conjuntamente o armistício com os franceses. O Führer não ia partilhar seu
VITÓRIA NO OC IDENTE 17 3

triunfo justamente num lugar histórico (declinou o nome a seu amigo) com aque­
le companheiro de última hora. Prometeu, porém, ao Duce , que o armistício com
a França só entraria em vigor quando ela o assinasse também com a Itália.
Mussolini deixou Munique cheio de rancor e frustrado. Ciano teve impressão
bastante favorável sobre uma das facetas de Hitler, que seu diário deixa claro não
ter visto ou suspeitado antes:

De tudo que ele [Hitler] diz [escreveu ao regressarem a Roma], é claro


que deseja agir rapidamente para dar paradeiro a tudo isso. Hitler é
agora o jogador que, tendo ganho uma grande parada, gostaria de le-
vantar-se da mesa e não mais arriscar coisa alguma. Hoje ele fala com
reserva e perspicácia que, após tal vitória, não deixam de ser surpreen­
dentes. Não posso ser acusado de excessiva benevolência para com ele,
mas hoje admiro-o verdadeiramente.26

O segundo armistício em Compiègne

Segui o exército alemão em sua entrada em Paris naquele mês de junho, sem­
pre o mais belo dos meses na majestosa capital que agora se mostrava desolada.
Em 19 de junho, soube, por vias indiretas, do local onde Hitler estabeleceria os
termos para o armistício que Pétain havia solicitado dois dias antes. Seria o mes­
mo local onde o império alemão havia capitulado à França e seus Aliados, em 11
de novembro de 1918: uma pequena clareira da floresta, em Compiègne. Ali, o
chefe nazista teria sua revanche. O próprio local aumentar-lhe-ia a doçura da re-
vanche. Viera-lhe essa idéia em 20 de maio, apenas dez dias depois de começada
a grande ofensiva no Ocidente e no dia em que os tanques alemães atingiram
Abbeville. Jodl anotou-o no diário, nessa ocasião: “O Führer está elaborando o
tratado de paz (...) As primeiras negociações na Floresta de Compiègne.” Ao en­
tardecer do dia 19 de junho, dirigi-me de automóvel para lá e encontrei os enge­
nheiros do exército alemão demolindo a parede do museu onde haviam conser­
vado o velho vagão-dormitório do marechal Foch, no qual havia sido assinado o
armistício de 1918. Na ocasião em que saí, os engenheiros, trabalhando com bro­
cas pneumáticas, já haviam demolido o muro e estavam puxando o vagão para os
174 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

trilhos, no centro da clareira, para o lugar exato — disseram eles — em que esti-
vera às 5h do dia 11 de novembro de 1918 quando, sob as ordens de Foch, os
emissários alemães apuseram suas assinaturas no termo do armistício.
E foi assim que, na tarde do dia 21 de junho, parei na orla da floresta, em Com-
piègne, a fim de observar o mais recente e o maior dos triunfos de Hitler, dos
quais, no decurso de meu trabalho, vi tantos nesses últimos e turbulentos anos.
Foi um dos mais belos dias de verão que me lembro ter visto na França. Um sol
quente de junho batia sobre as majestosas árvores — olmos, carvalhos, ciprestes e
pinheiros —, lançando sombras agradáveis sobre as avenidas arborizadas que
conduziam à pequena clareira circular. Precisamente às 15:15h, Hitler chegou em
seu grande automóvel Mercedes, acompanhado de Gõring, Brauchitsch, Keitel,
Rãder, Ribbentrop e Hess, todos em seus vistosos uniformes; Gõring, o único
marechal-de-campo, brincava com o bastão nas mãos. Desceram dos automóveis
a 180 metros do Reich, defronte ao monumento da Alsácia-Lorena, coberto de
bandeiras alemãs, a fim de que o Führer não visse a grande espada (se bem que
dela eu me lembrasse de visitas anteriores, feitas em dias mais felizes), a espada
dos Aliados vitoriosos de 1918 espetada numa águia derrotada, que representava
o império alemão dos Hohenzollern. Hitler lançou um olhar para o monumento
e prosseguiu em seu caminho.

Observei-lhe o rosto [escrevi em meu diário]. Grave, solene, porém


cheio de vingança. Havia também nele, assim como nos passos ligeiros,
um ar de conquistador triunfante, de desafiador do mundo. Havia algo
mais (...) uma espécie de desprezo, uma alegria interior de se achar
presente àquela grande reviravolta do destino — uma reviravolta que
ele mesmo elaborara.

Quando chegou à pequena clareira, na floresta, e sua bandeira pessoal foi iça­
da no centro, sua atenção foi atraída por um grande bloco de granito que se erguia
a um metro do solo.
Hitler, seguido dos demais, caminhava vagarosamente em direção dele [estou
transcrevendo meu diário], sobe nele e lê a inscrição gravada (em francês) em gran­
des letras:
VITÓRIA NO OC IDENTE 17 5

“A q u i, e m 1 1 d e n o v e m b r o d e 1918 , c a i u o o r g u l h o c r i m i n o s o d o

I m p é r io A l e m ã o - v e n c i d o p e l o s p o v o s l i v r e s q u e e l e p r o c u r o u

ESCRAVIZAR.”

Hitler a lê e Gõring também. Todos eles a lêem ali, de pé, sob o sol de
junho e em meio ao silêncio reinante. Procuro ver a expressão no rosto
de Hitler. Estou a apenas 45 metros dele e vejo-o com meu binóculo
como se o estivesse vendo bem diante de mim. Já vi esse rosto muitas
vezes nos grandes momentos de sua vida. Mas, nesse dia! Está fremen-
te de desprezo, ira, ódio, vingança e triunfo.
Ele desce do monumento e esforça-se por fazer até com esse gesto uma
obra-prima de desprezo. Vira o rosto e lança-lhe um olhar, um olhar
de desprezo rancoroso — quase se lhe percebe o rancor, porque não
pode apagar aquelas letras terríveis e provocantes com um movimento
de sua alta bota prussiana.* Relanceia vagarosamente o olhar em volta da
clareira e agora, ao encontrarem seus olhos os nossos, pode-se perceber
a profundeza de seu ódio. Mas um ar de triunfo — um ar vingativo e de
ódio triunfante — via-se também nele. Subitamente, como se seu rosto
não estivesse concretizando inteiramente seus sentimentos, lança todo
o corpo em harmonia com sua disposição de espírito. Coloca rapida­
mente as mãos na cintura, arqueia os ombros e fica com os pés separa­
dos. É um majestoso gesto de desafio, de ardente desprezo por esse lu­
gar, agora, e por tudo que representou nos vinte anos que decorreram
desde que foi testemunha da humilhação do Império Alemão.

Hitler e seu grupo entraram em seguida no vagão do armistício, sentando-se


o próprio Führer na cadeira que Foch ocupou em 1918. Cinco minutos depois
chegava a delegação francesa, dirigida pelo general Charles Huntziger, coman­
dante do 2e exército em Sedan, e formada por um almirante, um general da força
aérea e um civil, Léon Noèl, o antigo embaixador na Polônia, que agora testemu­
nhava a segunda queda que lhe causavam as armas alemãs. Pareciam acabrunha­
dos, mas mantinham uma trágica dignidade. Não os haviam informado que se­
riam conduzidos àquele alto santuário francês para sofrer tal humilhação, e o
* Fizeram-no ir pelos ares três dias depois, por ordem de Hitler.
176 A GUERRA*. PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

choque foi sem dúvida o que Hitler calculara. Conforme Halder escreveu em seu
diário nessa noite, depois que Brauchistsch lhe contou o que presenciara,

os franceses não tinham sido prevenidos de que receberiam os ter­


mos do armistício no próprio local das negociações de 1918. Parecia
terem ficado abalados por esse arranjo e, a princípio, mostraram-se
taciturnos.

Talvez fosse natural, mesmo para um alemão tão culto como Halder, ou Brau­
chitsch, confundir uma dignidade solene com taciturnidade. Os franceses — per­
cebia-se logo — estavam certamente aturdidos. Contudo, contrariamente às in­
formações da épota, procuraram — conforme sabemos agora pelas minutas
oficiais dos alemães sobre as conferências, encontradas entre os documentos se­
cretos apreendidos aos nazistas27— suavizar as partes mais duras dos termos pro­
postos pelo Führer e eliminar as que julgavam desonrosas. Tentaram-no em vão.
Hitler e seu grupo retiraram-se do vagão-dormitório assim que o general Keitel
leu o preâmbulo dos termos do armistício aos franceses, deixando as negociações
a cargo do chefe do OKW, sem lhe dar, porém, margem para afastar-se das condi­
ções que ele mesmo havia traçado.
Huntziger declarou logo aos alemães, assim que as ouviu, que elas eram “duras
e cruéis, piores que as que a França havia entregado ali à Alemanha, em 1918”. Além
disso, se “outro país do outro lado dos Alpes, que não derrotou a França (Huntziger
despreza demais a Itália para citar-lhe o nome), apresentasse exigências similares,
a França, em circunstância alguma, submeter-se-ia a elas. Lutaria até a morte (...)
Era-lhe, pois, impossível apor sua assinatura no acordo do armistício (...)”
O general Jodl, o segundo oficial em importância no OKW, que presidia tem­
porariamente, não esperava aquelas palavras desafiadoras de um adversário ven­
cido e respondeu que, embora não pudesse deixar de manifestar sua “compreen­
são” pelo que Huntziger dissera acerca dos italianos, não dispunha de poderes
para modificar os termos do Führer. Tudo o que podia fazer — disse — era “dar
explicações e esclarecer os pontos obscuros”. Os franceses teriam que aceitar o
documento de armistício ou deixá-lo como estava.
Os alemães aborreceram-se com o fato de uma delegação francesa ter chega­
do sem autoridade para concluir um armistício, salvo com o acordo expresso do
VITÓRIA NO OC IDENTE 1JJ

governo em Bordéus. Por um milagre de engenharia e, talvez, com certa sorte,


conseguiram estabelecer uma ligação telefônica do velho vagão — e pelas linhas
de batalha, onde a luta continuava — a Bordéus. Os delegados franceses foram
autorizados a servir-se dela para transmitir o texto dos termos do armistício e
discuti-lo com seu governo. O dr. Schmidt, que servia de intérprete, foi instruído
a ouvir as conversações, que um carro de comunicações do exército interceptava a
poucos metros dali, atrás de um grupo de árvores. No dia seguinte, eu mesmo
consegui ouvir o registro alemão de parte da conversa entre Huntziger e o general
Weygand.
Para honra de Weygand, que tem sobre si a responsabilidade pelo derrotismo
e a capitulação dos franceses e a ruptura com a Inglaterra, deve-se consignar que
ele, pelo menos, se opôs tenazmente a muitas das exigências alemãs. Uma das
mais odiosas delas obrigava os franceses a entregarem ao Reich todos os refugia­
dos alemães antinazistas que se encontravam em território francês. Weygand ta­
chou esse ato de desonroso, em virtude do tradicional direito de asilo em França,
mas, quando se discutiu esse ponto no dia seguinte, o arrogante Keitel não quis
saber de sua eliminação. “Os emigrados alemães”, bradou ele, “eram os maiores
forjadores de guerras”. Tinham “traído seu próprio povo”. Deviam ser entregues
“de qualquer maneira”. Os franceses não protestaram contra uma cláusula segun­
do a qual todos os seus nacionais que fossem pilhados lutando com outro país
contra a Alemanha seriam tratados como “franco-atiradores”, e imediatamente
fuzilados. Isso se destinava a De Gaulle, que já estava procurando organizar uma
força da França Livre, na Inglaterra, e tanto Weygand como Keitel sabiam que se
tratava de uma clara violação das primitivas leis de guerra. Tampouco contesta­
ram os franceses um parágrafo de acordo com o qual todos os prisioneiros de
guerra permaneceriam em cativeiro até a conclusão da paz. Weygand estava certo
de que os britânicos seriam vencidos dali a três semanas, e que os prisioneiros
seriam depois libertados. Com isso, condenou um milhão e meio de franceses a
cinco anos de reclusão nos campos de prisioneiros de guerra.
O ponto crucial do tratado de armistício foi a disposição referente à marinha
de guerra francesa. Churchill, ao cambalear a França, propusera desligá-la de seu
compromisso de não fazer uma paz em separado se ordenasse que sua marinha se
dirigisse para os portos britânicos. Hitler estava decidido a que isso não se realizas­
se; compreendia perfeitamente, conforme disse a Mussolini em 18 de junho, que
l 78 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

seria fortalecer incomensuravelmente a Inglaterra. Com tanta coisa em jogo, tinha


que fazer uma concessão ou, pelo menos, uma promessa ao adversário vencido. O
acordo de armistício estipulava que a esquadra francesa seria desmobilizada e
desarmada, e os navios ancorados nos portos de França. Em troca disso,

o governo alemão solenemente declara ao governo francês que não ten-


ciona empregar para seus próprios fins, na guerra, a esquadra francesa
que se acha nos portos sob a supervisão dos alemães. Além disso, decla­
ra solene e expressamente que não tenciona apresentar qualquer reivin­
dicação referente à esquadra de guerra da França por ocasião da con­
clusão da paz.

Como quase todas as promessas de Hitler, essa também seria quebrada.


Hitler, finalmente, deixava ao governo francês uma zona não ocupada, no sul
e a sudoeste, na qual teria ostensivamente liberdade para governar. Foi um golpe
astuto; não só dividiria, geográfica e administrativamente a própria França, como
tornaria difícil, senão impossível, a formação de um governo francês no exílio e
anularia qualquer plano dos políticos em Bordéus de mudar a sede do governo
para a África do Norte francesa — projeto que quase foi realizado, sendo afinal
anulado não pelos alemães, mas pelos derrotistas franceses: Pétain, Weygand, La­
vai e seus adeptos. Ademais, Hitler sabia que os homens que agora tinham assu­
mido o controle do governo francês, em Bordéus, eram inimigos da democracia
francesa e que deles podia esperar que o auxiliassem a estabelecer a Nova Ordem
nazista na Europa.
Contudo, no segundo dia das negociações em Compiègne, os delegados fran­
ceses continuaram com protelações. Uma das razões era insistir Huntziger em
que Weygand lhe desse não uma autorização mas uma ordem para assinar o ar­
mistício — ninguém na França queria assumir essa responsabilidade. Às 18:30h,
finalmente, Keitel expediu um ultimato. Os franceses aceitariam ou rejeitariam os
termos alemães do armistício dentro de uma hora. Nesse intervalo, o governo
francês capitulou. Às 18:50h de 22 de junho de 1940, Huntziger e Keitel assinaram
o tratado de armistício.*

* Estipulou-se que entraria em vigor assim que o armistício franco-italiano fosse assinado, e que as
hostilidades cessariam seis horas depois desse acontecimento.
VITÓRIA NO OC ID EN TE 1J$

Eu ouvi até a última cena conforme estava sendo gravado por microfones
ocultos no vagão-dormitório. Antes mesmo de assinar, o general francês disse, em
voz trêmula, que desejava fazer uma declaração pessoal. Anotei-a em francês en­
quanto ele falava.

Declaro que o governo francês me ordenou que assinasse esses termos


do armistício (...) Forçada pela decisão das armas a cessar a luta na qual
nos empenhávamos ao lado dos Aliados, a França vê impostas sobre si
pesadíssimas condições. A França tem o direito de esperar que, nas fu­
turas negociações, a Alemanha demonstre um espírito que permita aos
dois países vizinhos viverem e trabalharem em paz.

Tais negociações para um tratado de paz jamais se realizariam, mas o espírito


que o Terceiro Reich nazista teria mostrado, se o tivesse, logo se evidenciou ao
tornar-se mais cruel a ocupação e ao ser aumentada a pressão sobre o servil regi­
me de Pétain. A França estava agora destinada a tornar-se um vassalo dos ale­
mães, como Pétain, Weygand e Lavai aparentemente acreditavam — e aceitavam.
Começou a chuviscar quando os delegados deixaram o carro do armistício e
tomaram seus automóveis. Pela estrada da floresta podia-se ver uma ininterrupta
fila de refugiados dirigindo-se para suas casas, muitos a pé, cansados, outros em
bicicletas, ou carroças, e uns poucos afortunados em velhos caminhões. Entrei na
clareira. Um grupo de engenheiros do exército alemão, gritando alegremente, já
havia começado a movimentar o velho vagão-dormitório.
“Para onde vão levá-lo?”, indaguei.
“Para Berlim”, responderam.*
O armistício franco-italiano foi assinado em Roma dois dias depois. Mussolini
só pôde ocupar o que suas tropas haviam conquistado, o que significava umas
centenas de metros de território francês, e impor uma zona desmilitarizada de oi­
tenta quilômetros do outro lado da França e Tunísia. O armistício foi assinado às
19:35h de 24 de junho. Seis horas depois silenciavam os canhões na França.
A França, que resistira sem fraquezas durante quatro anos na última vez, foi
posta fora desta guerra após seis semanas de luta. As tropas alemãs ocuparam a

* O vagão chegou a Berlim no dia 8 de julho. Ironia do destino: foi destruído num bombardeio que,
mais tarde, os Aliados ali realizaram.
180 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

maior parte da Europa; do cabo Norte, acima do Círculo Ártico, até Bordéus; do
Canal inglês até o rio Bug, na Polônia Oriental. Adolf Hitler havia atingido seu
ponto culminante. O antigo órfão austríaco, que foi o primeiro a unir os alemães
num estado verdadeiramente nacional, esse cabo da Primeira Guerra Mundial,
tornara-se então o maior dos conquistadores alemães. Tudo que se interpunha
entre ele e a implantação da hegemonia alemã, na Europa, sob sua ditadura, era
um indômito inglês, Winston Churchill, e o povo resoluto que Churchill guiava,
os quais não reconheciam a derrota quando ela os encarava de frente e que agora
se viam sós, virtualmente desarmados, sua ilha cercada pela mais poderosa má­
quina militar até então jamais vista pelo mundo.

Hitler joga com a paz

Dez dias depois que começara a ofensiva no Ocidente, na noite em que os


tanques alemães atingiram Abbeville, o general Jodl, após descrever em seu diário
a alegria do Führer, acrescentou: “(...) ele está redigindo o tratado de paz (...) A
Inglaterra poderá obter a paz em separado em qualquer tempo, após a restituição
das colônias.” Isso foi em 20 de maio. Durante várias semanas depois, ao que pa­
rece, Hitler não duvidava que, com a França vencida, a Inglaterra estaria ansiosa
por fazer a paz. Seus termos, do ponto de vista alemão, pareciam muito genero­
sos, considerando-se a derrota que os britânicos sofreram na Noruega e na Fran­
ça. Ele os expôs ao general von Rundstedt em 24 de maio, exprimindo sua admi­
ração pelo império britânico e acentuando a necessidade de sua existência. Tudo
que ele queria de Londres — disse — era liberdade de movimento no continente.
Estava tão certo de que os britânicos concordariam com isso que, mesmo de­
pois da queda da França, não traçou qualquer plano para continuar a guerra contra
a Inglaterra; e o arrogante Estado-maior geral, que, ao que se supõe, se preparava
antecipadamente com toda a meticulosidade prussiana para todas as contingên­
cias, não se deu ao trabalho de fornecer-lhe um plano. Halder, o chefe do Estado-
maior geral, não fez menção ao assunto, nessa ocasião, em seus inúmeros regis­
tros. Estava mais preocupado com as ameaças dos russos nos Bálcãs do que com
os britânicos.
VITÓR IA NO OC ID EN TE 1 81

De fato, por que continuaria a Inglaterra a lutar contra o impossível? Especial­


mente quando podia obter uma paz que, diferentemente da França, Polônia e to­
dos os demais países derrotados, a deixaria ilesa, intacta e livre? Era uma pergun­
ta que se fazia em toda parte, exceto em Downing Street onde — conforme
Churchill revelou mais tarde — ela jamais fora discutida, porque já se sabia qual
a resposta.28Mas o ditador alemão não sabia, e quando Churchill começou a dizer
publicamente que a Inglaterra não abandonaria a luta, Hitler, ao que parece, não
acreditou. Nem mesmo quando, em 4 de junho, após a retirada de Dunquerque, o
primeiro-ministro fez seu retumbante discurso no qual disse que continuaria a
lutar nas colinas e nas praias; nem mesmo quando, em 18 de junho, depois que
Pétain solicitou o armistício, Churchill reiterou na Câmara dos Comuns a “reso­
lução inflexível da Inglaterra em continuar a guerra”, e em outra de suas eloqüen­
tes e memoráveis perorações concluiu:

Apeguemo-nos, portanto, aos nossos deveres e comportemo-nos de tal


forma que, se o império britânico e sua comunidade de nações durarem
mil anos, os homens ainda dirão: “Aquela foi a sua hora mais bela.”

Isso podiam ser meras palavras animadoras de um talentoso orador, e isso era
o que Hitler, ele mesmo um brilhante orador, havia de ter pensado. Devia, tam­
bém, ter ficado encorajado pelas sondagens nas capitais dos países neutros e pelos
apelos que delas partiam para que se terminasse a guerra. Em 28 de junho che­
gou-lhe uma mensagem confidencial do papa — comunicações análogas foram
endereçadas a Mussolini e a Churchill — oferecendo sua mediação para “uma paz
justa e honrosa” e declarando que, antes de dar os primeiros passos, desejaria as­
segurar-se confidencialmente de como ela seria recebida.29O rei da Suécia entrou
também em atividade no sentido de propor a paz a Londres e a Berlim.
Nos Estados Unidos, a embaixada alemã, sob a direção de Hans Thomsen, o
encarregado dos negócios, despendia todos os dólares de que podia lançar mão
para apoiar os isolacionistas em manter os Estados Unidos fora da guerra, desen­
corajando, assim, a Inglaterra. Os arquivos apreendidos no Ministério das Rela­
ções Exteriores da Alemanha estão repletos de mensagens de Thomsen, relatando
os esforços da embaixada para fazer a opinião pública norte-americana inclinar-
se a favor de Hitler. Realizavam-se, naquele verão, as convenções dos partidos, e
182 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

Thomsen estava quebrando lanças para influir em suas plataformas sobre política
estrangeira, especialmente a dos republicanos.
Em 12 de junho ele telegrafou a Berlim, em código “urgentíssimo, secretíssi­
mo”, que um “congressista republicano conhecido”, que trabalhava intimamente
com a embaixada alemã, oferecera-se, por US$ 30 mil para convidar cinqüenta
congressistas republicanos isolacionistas para a convenção do partido “a fim de
que pudessem trabalhar junto aos delegados a favor de uma política estrangeira
isolacionista” Esse mesmo indivíduo, relatou Thomsen, desejava US$ 30 mil para
ajudar a pagar um anúncio de página inteira nos jornais americanos, com o cabe­
çalho: “Mantenhamos os Estados Unidos fora da guerra!”30*
No dia seguinte, Thomsen telegrafou a Berlim acerca de um novo projeto que
disse estar negociando por intermédio de um agente literário americano: fazer
com que cinco autores americanos de renome escrevam livros “dos quais espero
grandes resultados”. Precisava, para esse projeto, de US$ 20 mil, quantia que Rib­
bentrop aprovou poucos dias depois.31**
Uma das primeiras declarações públicas de Hitler, sobre suas esperanças de
fazer a paz com a Inglaterra, fora feita a Karl von Wiegand, correspondente do
Herald, e publicada no Journal-American, de Nova York, em 14 de junho. Quinze
dias depois, Thomsen informava o Ministério das Relações Exteriores da Alema­
nha que havia mandado imprimir um milhão de cópias extras da entrevista e que

pude ainda, por meio de um agente confidencial, induzir o deputado


isolacionista Thorkelson [republicano de Montana] a mandar inserir a
entrevista do Führer no Congressional Record, de 22 de junho, o que lhe
assegura a mais larga distribuição.33

* Tal propaganda apareceu no New York Times, em 25 de junho de 1940.


** Em 5 de julho de 1940, Thomsen ficara tão apreensivo com os pagamentos que telegrafou a Berlim
pedindo permissão para destruir todos os recibos e contas:
Os pagamentos (...) são feitos aos interessados por intermediários de confiança, mas, dadas as circuns­
tâncias, é evidente que não se podem esperar recibos (...) Tais recibos ou memorandos cairiam em
mãos do serviço secreto norte-americano, caso a embaixada fosse subitamente tomada pelas autori­
dades americanas, e, a despeito de toda a camoufiage, dado somente o fato de sua existência, eles
significariam a ruína política e trariam outras graves conseqüências para os nossos amigos políticos, os
quais provavelmente são conhecidos de nossos inimigos (...)
Solicito, portanto, que se autorize a embaixada a destruir esses recibos e contas e se dispense, doravan­
te, sua elaboração bem como a escrituração das contas de tais pagamentos.
Essa comunicação telegráfica foi destruída.32
VITÓRIA NO OC ID EN TE 1 83

A embaixada nazista, em Washington, lançava mão de todos os recursos. Em


certa ocasião, durante o verão, seu adido junto à imprensa transmitiu o que disse
ser uma sugestão de Fulton Lewis Jr., comentarista de rádio, que descreveu como
sendo um admirador da “Alemanha e do Führer, e um respeitabilíssimo jornalista
americano”.

O Führer devia enviar telegramas a Roosevelt (...) mais ou menos no


seguinte teor: “Vós, Mr. Roosevelt, tendes repetidas vezes apelado a
mim, manifestando sempre o desejo de evitar uma guerra sanguinária.
Eu não declarei guerra à Inglaterra; ao contrário, sempre acentuei que
não desejava destruir o império britânico. Os constantes pedidos que fiz
a Churchill para que fosse razoável e pudéssemos, assim, chegar a uma
paz honrosa, foram persistentemente rejeitados por ele. Sei que a Ingla­
terra sofrerá duramente quando eu ordenar que seja desencadeada uma
guerra total contra as Ilhas Britânicas. Peço-vos, portanto, que abordeis
Churchill e o conciteis a abandonar essa obstinação insensata”. Lewis
acrescentou que Roosevelt, naturalmente, daria uma resposta rude e
rancorosa; isso não teria importância. Tal apelo causaria, seguramente,
uma profunda impressão no povo norte-americano e especialmente na
América do Sul (...)34

Adolf Hitler não aceitou esse conselho de Mr. Lewis, mas o Ministério das
Relações Exteriores, em Berlim, telegrafou perguntando até onde ia a importância
desse comentarista radiofônico nos Estados Unidos. Thomsen respondeu que
Lewis havia “gozado, ultimamente, de certo sucesso (...) [mas que] por outro lado,
em contraste com outros proeminentes comentaristas americanos, não se lhe
dava importância política”.35*

* Os atos da embaixada alemã em Washington, nesse período, conforme revelam seus próprios despa­
chos publicados em Documents on German Foreign Policy, forneceriam material para um interessante
livro. Salta logo à vista a tendência dos diplomatas alemães para dizerem ao ditador nazista quase tudo
que ele desejava ouvir, prática comum entre os representantes de Estados totalitários. Dois oficiais do
OKW informaram-me, em Berlim, que o Alto-Comando, ou, pelo menos, o Estado-maior geral, nutria
fortes desconfianças quanto à objetividade dos relatórios da embaixada em Washington e havia esta­
belecido seu próprio serviço secreto militar nos Estados Unidos.
Eles não foram muito bem servidos pelo general Friedrich von Bõtticher, o adido militar alemão em
Washington, a julgar pelos despachos dele que se acham incluídos nos volumes do DGFP. Ele não se
184 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

O próprio Churchill, conforme relatou mais tarde em suas memórias, sentiu-se


um tanto inquieto com aquelas sondagens de paz emanadas da Suécia, dos Estados
Unidos e do Vaticano, e, convencido de que Hitler procurava tirar o maior partido
delas, tomou medidas severas para rebatê-las. Informado de que o encarregado

cansava de prevenir o OKW e os Estados-maiores do Exército e da força aérea, aos quais dirigia suas
mensagens, que os Estados Unidos eram controlados por judeus e maçons, e isso era exatamente o
que Hitler pensava. Bõtticher também exagerou a influência dos isolacionistas na política norte-ameri­
cana, especialmente a do coronel Charles A. Lindbergh, o qual surge em seus despachos como o seu
grande herói. Algumas transcrições indicam o teor de tais relatórios:
20 de julho de 1940: (...) Como expoente dos judeus, que, especialmente por intermédio da maçonaria,
controlam grandes massas do povo americano, Roosevelt deseja que a Inglaterra continue lutando e
que a guerra se prolongue (...) Os elementos do círculo de Lindbergh perceberam esse desenvolvimen­
to e procuram agora, ao menos, impedir o controle inevitável da política norte-americana pelos judeus
(...) Tenho informado constantemente sobre a campanha mesquinha e vil movida contra Lindbergh, o
qual os judeus temem como seu mais poderoso adversário (...) {DGFP, X, p. 254-5).
6 de agosto de 1940: (...) Cenário do ressurgimento de Lindbergh em público e a campanha contra ele.
Os elementos judeus controlam agora posições-chave nas forças armadas norte-americanas, depois de
terem preenchido, nas últimas semanas, os cargos de secretário da Guerra, secretário-assistente da
Guerra e secretário da marinha, com indivíduos subservientes e colocando um judeu preeminente e
muito influente, "coronel" Julius Ochs-Adler, como secretário do secretário da Guerra.
As forças que se opõem aos elementos judeus e à atual política dos Estados Unidos foram mencionadas
em meus relatórios, que também consideram a importância do Estado-maior. A figura inteligente de
Lindbergh, cujas relações são extensas, é a mais importante de todas. Os elementos judeus e Roosevelt
temem a superioridade de espírito desse homem, e especialmente sua superioridade moral e pureza.
Domingo (4 de agosto) Lindbergh desfechou um golpe que ferirá os judeus. Ele (...) insistiu para que
os Estados Unidos se esforçassem em colaborar sinceramente com a Alemanha, com vistas à paz e à
preservação da cultura ocidental. Horas depois, o velho general Pershing, que há muito vem sendo
um títere nas mãos de Roosevelt, e, portanto, dos judeus, leu pelo rádio uma declaração que lhe foi
insinuada pelos elementos que o manobram, dizendo que os Estados Unidos correriam perigo com a
derrota da Inglaterra (...)
O coro dos elementos judeus lançando suspeitas sobre Lindbergh na imprensa, e a denúncia que
contra ele fez um senador (...) Lucas, que falou contra Lindbergh, no rádio, segunda-feira à noite, a
pedido de Roosevelt (...) tachando-o de"quinta-colunista", isto é, traidor, serve apenas para acentuar o
temor pela força espiritual desse homem, sobre cujo progresso tenho enviado relatórios desde o co­
meço da guerra e em cuja grande importância para as futuras relações germano-americanas acredito
{DGFP, X, p. 413-5).
Em 18 de setembro, Thomsen, em nova comunicação, transmitiu conversação confidencial que disse
ter sido realizada entre Lindbergh e vários oficiais do Estado-maior norte-americano. Lindbergh mani­
festara a opinião de que a Inglaterra logo sucumbiria ante os ataques aéreos alemães. Os oficiais do
Estado-maior, porém, eram de opinião que o poderio aéreo dos alemães não era suficiente para forçar
uma decisão {DGFP, X, p. 413-5).
Em 19 de outubro de 1938, três semanas depois do Pacto de Munique, a Lindbergh foi conferida — e
ele aceitou — a Cruz de Serviço da Águia Alemã com Estrela. Esta era — creio — a segunda mais alta
condecoração alemã, geralmente conferida a estrangeiros ilustres que, nas palavras oficiais das cita­
ções, "bem mereciam do Reich".
VITÓRIA NO OCID EN TE 1 85

dos negócios alemães em Washington, Thomsen, estava tentando ter uma confe­
rência com o embaixador britânico ali, telegrafou que “lorde Lothian deverá ser
informado de que, de modo algum, poderá dar qualquer resposta à mensagem do
encarregado dos negócios”.36*
Ao rei da Suécia, que aconselhava a Inglaterra a aceitar um acordo para a paz,
o inflexível primeiro-ministro traçou uma forte resposta:

Antes que qualquer solicitação ou proposta desse gênero possa ser leva­
da em consideração, será necessário que garantias concretas, por meio
de fatos, não de palavras, sejam apresentadas pela Alemanha, quanto à
restauração da vida livre e independente da Tchecoslováquia, da Polô­
nia, da Noruega, da Dinamarca, da Holanda, da Bélgica e, acima de
tudo, da França (...)37

Era essa a essência do caso de Churchill e, ao que parece, ninguém em Londres


sonhava em comprometê-la, concluindo uma paz que preservaria a Inglaterra
mas que escravizaria permanentemente os países que Hitler conquistara. Isso, po­
rém, não foi compreendido em Berlim, onde, conforme me lembro, naqueles
dias de verão, toda gente, especialmente na Wilhelmstrasse e na Bendlerstrasse,
confiava em que a guerra já estava quase terminada.
Durante toda a segunda quinzena de junho e os primeiros dias de julho, Hitler
esperou notícias de Londres de que o governo britânico já estava pronto para dar-se
por vencido e concluir a paz. Em le de julho, ele comunicou ao novo embaixador

* Existem nos volumes do DGFP vários despachos ao Ministério das Relações Exteriores da Alemanha
sobre pretensos contatos com vários diplomatas e personagens britânicos, alguns diretos, outros por
intermédio de neutros, como os espanhóis de Franco. O príncipe Max von Hohenlohe, sudeto-alemão
anglófilo, informou Berlim sobre suas conversações com o ministro britânico na Suíça, sir David Kelly, e
com Aga Khan. Afirmou que Aga Khan lhe pedira que transmitisse a seguinte mensagem ao Führer:
O Quediva do Egito, que se encontra também aqui, havia combinado com ele que, no dia em que o
Führer se hospedasse por uma noite no Castelo de Windsor, eles beberiam uma garrafa de champanha
juntos (...) Se a Alemanha ou a Itália estivesse cogitando conquistar a índia, ele se colocaria à nossa
disposição (...) A luta contra a Inglaterra não era uma luta contra o povo inglês, porém contra os judeus.
Churchill estivera há anos a soldo deles, e o rei era demasiado fraco e limitado (...) Se ele fosse com essas
idéias à Inglaterra, Churchill mandaria encarcerá-lo (...) {DGFP, X, p. 294-5).
Deve-se ter em mente que se trata de relatórios alemães e que talvez não reflitam a verdade; mas era
nesses documentos que Hitler tinha que se basear. O plano nazista de atrair o duque de Windsor, na
realidade o plano de seqüestrá-lo e depois servir-se dele, conforme revelam os documentos do Minis­
tério das Relações Exteriores, acha-se anotado depois.
i8 6 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

italiano, Dino Alfieri,* que “não podia conceber que houvesse ainda alguém na
Inglaterra que acreditasse seriamente na vitória”.38Nada se fazia no Alto-Coman­
do no sentido de continuar a guerra contra a Inglaterra.
Mas no dia seguinte, 2 de julho, o OKW expediu finalmente a primeira direti­
va sobre o assunto. Era uma ordem hesitante:

O Führer e comandante supremo decidiu:


Que é possível um desembarque na Inglaterra, contanto que se possa
alcançar a supremacia nos ares e se satisfaçam certas outras condições
necessárias. Não está ainda decidida a data de começar. Devem-se ini­
ciar imediatamente todos os preparativos.

Aquela fraca disposição de Hitler em relação à operação e sua crença em que


não seria necessária acham-se refletidas no parágrafo final da diretiva:

Todos os preparativos devem ser feitos na base de que a invasão ainda


continua sendo apenas um plano e que não foi ainda decidida.39

Quando Ciano visitou o Führer em Berlim, no dia 7 de julho, teve a impressão


— conforme anotou em seu diário — de que o chefe nazista lutava com dificulda­
de para tomar uma resolução.

Ele está um tanto propenso a continuar a luta e a desencadear uma


tempestade de ódio e aço sobre a Inglaterra. Mas não chegou à decisão
final, e é por essa razão que está protelando seu discurso, do qual, con­
forme ele mesmo diz, deseja pesar todas as palavras.40

Em 11 de julho, Hitler começou a reunir todos os chefes militares no Obersalz-


berg para conhecer-lhes a opinião sobre a questão. O almirante Rãder, cuja arma­
da deveria transportar um exército invasor pelo Canal, teve uma longa conferên­
cia com o Führer nesse dia. Nenhum dos dois mostrou-se ansioso para atacar o
problema, porque, na realidade, passaram a maior parte do tempo discutindo a
questão da criação de bases navais em Trondheim e Narvik, na Noruega.

* Attolico havia sido substituído por Alfieri por instigação de Ribbentrop, em maio.
VITÓRIA NO OC ID EN TE l8j

O comandante supremo, a julgar-se pelo relatório confidencial de Ráder sobre


a conferência,41 mostrava-se moderado. Perguntou ao almirante se achava que o
discurso que planejava fazer no Reichstag “seria eficaz”. Ráder respondeu que sim,
especialmente se fosse precedido de um bombardeio concentrado contra a Ingla­
terra. O almirante, que lembrou a seu chefe que a Real Força Aérea estava levando
a efeito “ataques que causavam danos” às principais bases navais alemãs em Wi-
lhelmshaven, Hamburgo e Kiel, era de opinião de que a Luftwaffe devia entrar
imediatamente em atividade contra a Inglaterra. Mas, na questão da invasão, o
comandante-em-chefe da marinha de guerra mostrou-se decididamente frio.
Aconselhou insistentemente que a empreendessem “apenas como último recurso,
para forçar a Inglaterra a solicitar a paz”.

Ele [Ráder] estava convencido de que se podia obrigar a Inglaterra a


pedir a paz, bloqueando-se-lhe simplesmente o comércio de importa­
ção por meio da guerra submarina, ataques aéreos contra os comboios
e pesados ataques aéreos contra seus principais centros (...)
O comandante-em-chefe da marinha de guerra [Ráder], de sua parte,
não pode, portanto, apoiar a invasão da Inglaterra como o fez no caso
da Noruega (...)

O almirante pôs-se, em seguida, a dar uma longa e minuciosa explicação sobre


todas as dificuldades que tal invasão envolvia, o que devia ter sido bastante desa-
nimador para Hitler. Desanimador, mas também, talvez, convincente, pois Rãder
relata que “o Führer também encara a invasão como último recurso”.
Dois dias depois, 13 de julho, os generais chegaram em Berghof, acima de
Berchtesgaden, para conferenciar com o comandante supremo. Encontraram-no
ainda intrigado com a posição dos ingleses. “O Führer”, lançou Halder em seu
diário nessa noite, “acha-se obcecado com o fato de a Inglaterra ainda não desejar
tomar o caminho da paz.” Mas agora, pela primeira vez, uma das razões começa a
manifestar-se-lhe no espírito. Halder notou-a:

Ele vê, do mesmo modo que nós, que a solução está no fato de a Ingla­
terra continuar a depositar suas esperanças na Rússia. Assim, ele tam­
bém julga que a Inglaterra terá de ser compelida pela força a fazer a paz.
Não lhe agrada, contudo, tal disposição. Razões: se esmagarmos a
J.88 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Inglaterra militarmente, o império britânico desintegrar-se-á. A Ale­


manha, entretanto, não se beneficiará com isso. Com o sangue alemão
iríamos realizar algo que somente beneficiaria o Japão, os Estados Uni­
dos e outros países.

Nesse mesmo dia, 13 de julho, Hitler escreveu a Mussolini agradecendo e de­


clinando sua proposta de fornecer tropas e aviões italianos para a invasão da In­
glaterra. Evidencia-se nessa carta que o Führer estava, finalmente, começando a
tomar uma decisão. Os estranhos britânicos simplesmente não queriam dar ouvi­
dos à razão.

Fiz à Inglaterra tantas propostas de acordo, até de cooperação, e tenho


sido tratado tão indignamente [escreveu] que estou agora convencido
de que qualquer novo apelo à razão seria igualmente repelido. Pois,
naquele país, presentemente não é a razão que governa C..)42

Três dias depois, em 16 de julho, o chefe nazista chegou finalmente a uma


decisão. Expediu a Diretiva ne 16 sobre os preparativos de uma operação de de­
sembarque contra a Inglaterra.43

SECRETÍSSIMO
Quartel-General do Führer, 16 de julho de 1940. Uma vez que a Ingla­
terra, a despeito de sua desesperadora situação militar, continua a não
dar sinais de que está inclinada a chegar a um acordo, decidi preparar e,
se necessário, levar a efeito uma operação de desembarque contra ela.
O objetivo dessa operação é eliminar o solo inglês como base para a
continuação da guerra contra a Alemanha e, caso se torne necessário,
ocupá-lo completamente.

O nome em código para o assalto devia ser Leão do Mar. Os preparativos para
sua execução foram terminados em meados de agosto.
“Se necessário, levá-la a efeito .” A despeito de seu crescente instinto de que a
operação seria necessária, ele não se sentia ainda completamente seguro, confor­
me demonstra a diretiva. O “se” era ainda coisa preponderante quando Adolf
Hitler se ergueu no Reichstag, na noite de 19 de julho, para fazer sua última
V ITÓRIA NO O C ID EN TE 1 89

proposta de paz à Inglaterra. Foi o último de seus grandes discursos no Reichstag,


e o último de muitos que naqueles anos ouvi. Foi também um dos melhores que
proferiu. Registrei, nessa mesma noite, a impressão que tive dele:

O Hitler que vimos hoje à noite no Reichstag era o conquistador, e dis­


so tinha plena consciência, e ainda tão maravilhoso ator, tão magnífico
manipulador do espírito alemão, que mesclava admiravelmente a plena
confiança do conquistador com a humildade, atitude que as massas
acolhem sempre bem quando percebem que o homem está no auge do
poder. Sua voz era mais baixa nesse dia; raras vezes gritava como geral­
mente fazia, e em nenhuma vez debulhou-se em lágrimas histéricas
como o vimos fazer tantas vezes daquela tribuna.

Seu longo discurso estava, inegavelmente, repleto de falsidades sobre a histó­


ria e liberalmente salpicado de insultos pessoais a Churchill. Era, entretanto, mo­
derado no tom, considerando as brilhantes circunstâncias, e habilmente concebi­
do para ganhar o apoio, não só de seu próprio povo como também dos neutros, e
para dar às massas na Inglaterra algo que pudessem meditar sobre.

Da Inglaterr ouço agora apenas um único brado — não do povo, porém


dos políticos — de que a guerra deve continuar! Não sei se esses políti­
cos têm uma idéia exata de como será a continuação desta guerra. É
verdade que declaram que a prosseguirão e que, mesmo que a Inglater­
ra perecesse, prosseguiriam com ela, do Canadá. Dificilmente posso
acreditar que, com isso queiram dizer que o povo da Inglaterra deverá
ir para o Canadá. Presumivelmente só aqueles cavalheiros interessados
na continuação de sua guerra é que irão para lá. Receio, entretanto, que
ao povo caberá permanecer na Inglaterra e (...) ele certamente encarará
a guerra com olhos diferentes dos de seus pretensos líderes no Canadá.
Creiam-me, senhores, que me repugna profundamente esse tipo de po­
líticos inescrupulosos que arruinam nações inteiras. É-me quase dolo­
roso pensar que fui escolhido, pelo destino, para desfechar o golpe final
à estrutura que esses homens já deixaram vacilante (...) Mr. Churchill
(...) indubitavelmente já estará no Canadá, para onde o dinheiro e os
190 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

filhos dos principais interessados na guerra já foram enviados. Para mi­


lhões de outras criaturas, entretanto, irá começar o grande sofrimento.
Mr. Churchill talvez devesse, ao menos uma vez, acreditar-me quando
profetizo que um grande império será destruído — um império que
jamais tive a intenção de destruir ou, mesmo, de prejudicar (...)

Tendo assim investido contra o obstinado primeiro-ministro e procurado des­


ligar dele o povo britânico, Hitler chegou ao ponto decisivo de seu longo discurso:

Sinto nesta hora que é meu dever, perante minha própria consciência,
fazer, ainda uma vez, um apelo à razão e ao senso comum, tanto na
Inglaterra quanto em outras partes. Considero-me em posição de fazer
este apelo, uma vez que não sou adversário vencido a suplicar favores,
mas o vencedor, falando em nome da razão.
Não vejo razão para que se deva continuar esta guerra*

Não especificou mais do que isso. Não fez sugestões concretas para os termos
da paz, não mencionou o que aconteceria aos cem milhões de criaturas que agora
se achavam sob o jugo nazista nos países conquistados. Mas nessa noite poucos
havia no Reich, se é que havia, que acreditassem ser necessário, a essa altura, en­
trar em detalhes. Misturei-me com muitos funcionários e oficiais ao findar a ses­
são, e nenhum deles tinha a mais leve dúvida — conforme disseram — de que a
Inglaterra aceitaria a proposta do Führer; que julgavam muito generosa e até mes­
mo magnânima. Não ficaram, porém, enganados durante muito tempo.

* Houve, na história da Alemanha, uma cena muito animada e sem precedentes quando Hitler se in­
terrompeu subitamente em meio ao discurso para conferir bastões de marechal-de-campo a 12 gene­
rais, e um particularmente grande a Gõring, que foi elevado à categoria de marechal do grande Reich
alemão, havia pouco criada, o que o colocava acima de todos os outros. Foi-lhe também conferida a
Grande Cruz de Ferro, a única dada durante toda a guerra. Halder foi omitido nessa avalancha de
promoções ao posto de marechal-de-campo, sendo promovido apenas um grau: de tenente-general
para general. Essas promíscuas concessões — o Kaiser só nomeou cinco marechais-de-campo dos
corpos de oficiais durante toda a Primeira Guerra Mundial, e nem Ludendorff chegou a ser nomeado
— ajudaram indubitavelmente a abafar qualquer oposição latente a Hitler entre os generais, como a
que ameaçara afastá-lo, no passado, pelo menos em três ocasiões. Ao realizar isso, e ao depreciar o
valor do mais alto posto militar com a promoção de tantos elementos, Hitler agiu habilmente, a fim
de firmar seu domínio sobre os generais. Nove generais do exército foram então promovidos a mare-
chal-de-campo: Brauchitsch, Keitel, Rundstedt, Bock, Leeb, List, Kluge, Witzleben e Reichenau; e três
oficiais da Luftwaffe; Milch: Kesselring e Sperrle.
VITÓRIA NO OC IDENTE 191

Dirigi-me diretamente à estação de rádio a fim de transmitir para os Estados


Unidos uma notícia sobre o discurso. Nem bem cheguei ali, captei uma transmis­
são da BBC, de Londres, em alemão. Já transmitia a resposta britânica a Hitler
— na mesma hora. Era um decidido nãol*
Oficiais subalternos do Alto-Comando e funcionários de vários ministérios
achavam-se sentados em volta da sala ouvindo atentamente a transmissão. Ficaram
consternados. Não podiam acreditar no que ouviam. “Pode-se compreender isso?”,
gritou um deles perto de mim. Parecia confuso. “Pode-se compreender esses bri­
tânicos tolos?” continuou a gritar. “Rejeitaram agora a paz? Eles estão loucos!”
Ciano** ouviu nessa mesma noite a reação dos ingleses loucos, em Berlim, num
nível mais elevado que o meu. “Tarde da noite, escreveu ele em seu diário, quando
chegou a primeira reação fria dos ingleses ao discurso, uma sensação de mal dis­
farçado desapontamento espalhou-se entre os alemães.” O efeito em Mussolini,
segundo Ciano, foi justamente o contrário.

Ele (...) o define como “um discurso excessivamente hábil”. Receia que
os ingleses possam encontrar no discurso um pretexto para dar começo
a negociações. Isso seria ruim para Mussolini porque agora, mais do
que nunca, ele deseja a guerra.44

O Duce, conforme Churchill observou mais tarde, “não precisou incomodar-


se muito. Não lhe foi negada toda a guerra que ele desejou”.45
“Como manobra calculada para unir o povo alemão na luta contra a Inglater­
ra”, escrevi em meu diário naquela noite, “o discurso de Hitler é uma obra-prima,
pois o povo alemão dirá agora: Hitler oferece a p a z à Inglaterra e o f a z sem restri­
ções. Ele d iz que não vê razão p o r que se deva continuar a guerra. Se ela continuar ;
será p o r culpa da Inglaterra”.

* Churchill declarou mais tarde que essa imediata e brusca rejeição à proposta de paz de Hitler foi
aceita "Pela BBC sem qualquer sugestão da parte do governo de Sua Majestade, assim que o discurso
de Hitler foi ouvido pelo rádio". (Churchill, Their Finest Hour, p. 260).
** O ministro das Relações Exteriores da Itália conduziu-se como um clown durante a sessão, levantan-
do-se e sentando-se como um boneco de uma caixa de surpresas, para fazer saudação fascista toda
vez que Hitler fazia uma pausa para ganhar fôlego. Notei também a presença de Quisling, um homen-
zinho de olho de porco encolhido numa cadeira, num canto, no primeiro balcão. Tinha vindo a Berlim
a fim de pedir a Hitler que o reintegrasse no poder, em Oslo.
192 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

E não era essa a principal razão que daria três dias depois de expedir a Direti­
va nfi 16, mandando preparar a invasão da Inglaterra? Ele o admitiu — antecipa­
damente — a dois confidentes italianos, Alfieri e Ciano. Em lfi de julho, disse ao
embaixador:

(...) Era sempre uma boa tática fazer que o inimigo parecesse responsá­
vel perante os olhos da opinião pública, na Alemanha e no exterior,
para o futuro curso dos acontecimentos. Isso fortaleceria o seu próprio
moral e enfraqueceria o do inimigo. Uma operação, tal como a que a
Alemanha estava preparando, seria muito sangrenta (...) Devia-se, por­
tanto, convencer a opinião pública de que a princípio se fizera tudo que
pudesse evitar esse horror (...)
Em seu discurso de 6 de outubro [quando ofereceu a paz ao Ocidente,
ao concluir a campanha da Polônia — W.L.S.], guiara-o igualmente o
pensamento de tornar responsáveis, por todos os acontecimentos sub­
seqüentes, os adversários. Ganhara com isso a guerra, como ela se apre­
sentava, antes que tivesse realmente começado. Agora, mais uma vez,
por motivos psicológicos, pretendia fortalecer o moral, por assim dizer,
para a operação que estava prestes a empreender.46

Uma semana depois, no dia 8 de julho, Hitler confiou a Ciano que

ia encenar outra demonstração a fim de que, no caso de a guerra conti­


nuar — que ele julgava ser a única possibilidade verdadeiramente im­
portante —, pudesse conseguir um efeito psicológico sobre o povo in­
glês (...) Talvez fosse possível, por meio desse hábil apelo ao povo inglês,
isolar ainda mais o governo inglês na Inglaterra.47

Resultou que isso não foi possível. O discurso de 19 de julho surtiu efeito no
povo alemão, não, porém, no britânico. Em 22 de julho, lorde Halifax, numa
transmissão, tornou oficial a rejeição à proposta de paz de Hitler. Conquanto
isso fosse esperado, transtornou um tanto a Wilhemstrasse, onde encontrei
muitas fisionomias enfurecidas naquela tarde. “Lorde Halifax”, informou-nos o
porta-voz oficial do governo, “recusou-se a aceitar a proposta de paz do Führer.
Senhores, haverá guerra!”
VITÓRIA NO OC IDENTE 193

Era mais fácil falar do que fazer. Na verdade, nem Hitler, nem o Alto-Coman-
do, nem os Estados-maiores do exército, da marinha e da força aérea jamais
consideraram como se poderia travar uma guerra contra a Inglaterra e vencê-la.
Naquele meados de verão de 1940, não sabiam o que fazer de seus brilhantes
êxitos. Não tinham planos e quase nenhum desejo de explorar as maiores vitórias
militares que tinham registrado na história de sua nação de soldados. É um dos
grandes paradoxos do Terceiro Reich. No próprio momento em que Hitler estava
no auge do poderio militar, com a maior parte do continente europeu a seus
pés, seus exércitos, estendidos desde os Pireneus até o Círculo Ártico, desde o
Atlântico até além do Vístula, agora descansados e prontos para nova luta, ele
não tinha idéia de como continuar a guerra e conduzi-la a um final vitorioso.
Tampouco tinham seus generais, 12 dos quais empunhavam agora o bastão de
marechal-de-campo.
Há, naturalmente, uma razão para isso, se bem que, naquela ocasião, não nos
fosse clara. Aos alemães, a despeito de seu decantado talento na arte militar, falta­
va a concepção de uma grande estratégia. Seus horizontes limitaram-se — sempre
se limitaram — à guerra terrestre contra nações vizinhas no continente europeu.
O próprio Hitler tinha horror ao mar,* e a ignorância de seus capitães nessa esfera
era quase total. Cogitavam mais da terra que do mar. E embora seus exércitos
pudessem ter esmagado, numa semana, as fracas forças terrestres da Inglaterra, se
se tivessem atracado com elas, aquelas águas do estreito de Dover que os separa­
vam — tão estreito que se pode ver a costa do outro lado — agigantavam-se em
seu espírito ao começar o fim daquele esplêndido verão, como um obstáculo que
eles não sabiam como vencer.
Havia, naturalmente, outra tentativa para os alemães. Poderiam, talvez, subju­
gar a Inglaterra fazendo o ataque, no Mediterrâneo, com seus Aliados italianos,
conquistando Gibraltar, na sua frente ocidental, e, no leste, investindo das bases
na Itália, no norte da África, pelo Egito e o Canal até o Irã, cortando uma das
principais linhas vitais do império. Seriam porém necessárias vastas operações no
mar, em distâncias longínquas das bases da Alemanha, e, em 1940, isso parecia
estar além dos limites da imaginação alemã.
Assim, no apogeu de seus estonteantes êxitos, Hitler e seus capitães hesita­
ram. Não haviam calculado o próximo passo e ignoravam como executá-lo. Essa

* "Em terra sou um herói, mas no mar sou um covarde" disse ele uma vez a Rundstedt. (Shulman,
Defeatin the West, p. 50).
194 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

fatídica negligência demonstraria ser um dos pontos decisivos da guerra e, na


verdade, da breve vida do Terceiro Reich e da carreira meteórica de Adolf Hitler.
Após tantas vitórias espetaculares, começaria agora o fracasso. Isso certamen­
te não podia ser previsto, porque a Inglaterra, assediada e agora resistindo sozi­
nha, só poderia contar com os poucos meios de que dispunha para enfrentar o
ataque alemão naquele fim de verão.
CAPÍTULO 5

Operação Leão do Mar:


a malograda invasão da Inglaterra

“A vitória final da Alemanha sobre a Inglaterra é agora apenas uma questão de


tempo”, escreveu em 30 de junho de 1940 o general Jodl, chefe de operações no
OKW. “As operações de uma ofensiva inimiga em grande escala não são mais
possíveis.”
O estrategista favorito de Hitler estava confiante e complacente. A França ca­
pitulara na semana anterior, deixando a Inglaterra só e aparentemente indefesa.
Em 15 de junho, Hitler informou aos generais que desejava a desmobilização par­
cial do exército — de 160 para 120 divisões. “Supõe-se que isso signifique que a
tarefa do exército esteja terminada”, registrou Halder em seu diário nesse dia. “À
força aérea e à marinha será confiada a missão de levar a efeito, sozinhas, a guerra
contra a Inglaterra.”
O exército mostrou-se, na verdade, pouco interessado nesse particular. Tam­
pouco o próprio Führer demonstrou muito interesse. Em 17 de junho, o coronel
Walter Warlimont, representante de Jodl, informou à marinha que “com relação
ao desembarque na Inglaterra, o Führer (...) não manifestou até agora tal inten­
ção (...) Por conseguinte, mesmo nesta ocasião, não se fez qualquer trabalho pre­
paratório no OKW”.1 Quatro dias depois, em 21 de junho, no mesmo momento
em que Hitler entrava no vagão do armistício, em Compiègne, para humilhar os
franceses, foi a marinha informada de que o “Estado-maior geral não se está pre­
ocupando com a questão da Inglaterra. Eles consideram impossível a execução.
Não sabem como deverão ser conduzidas as operações da área meridional (...) O
Estado-maior geral rejeita a operação”.2
Nenhum dos inteligentes estrategistas das três armas alemãs sabia como pro­
ceder para invadir a Inglaterra, se bem que foi naturalmente a marinha que pen­
sou primeiro no assunto. Já em 15 de novembro de 1939, quando Hitler procura­
va, em vão, animar os generais para que se lançasse um ataque no Ocidente, Ráder
196 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOM ENTO DECISIVO

instruía o Estado-maior naval para que examinasse “a possibilidade de invadir a


Inglaterra, possibilidade que surgiria se certas condições fossem preenchidas no
decurso da guerra”.3 Foi a primeira vez na história que se pediu a um Estado-
maior alemão que considerasse tal operação. Parece provável que Ráder tivesse
dado esse passo em grande parte porque desejava antecipar-se a qualquer súbita
aberração de seu imprevisível chefe. Não existe registro de que Hitler tivesse sido
consultado ou sabido qualquer coisa a respeito. O mais que pensou naquela oca­
sião foi obter aeródromos e bases navais na Holanda, na Bélgica e na França, a fim
de apertar o bloqueio contra as Ilhas Britânicas.
Em dezembro de 1939, os altos comandados do exército e da Luftwaffe come­
çaram também a pensar no problema da invasão da Inglaterra. Trocaram-se idéias
algo vagas entre as três armas, mas não tiveram grande alcance. Em janeiro de
1940, a marinha e a força aérea rejeitaram um plano do exército por julgá-lo fan­
tasioso. Na opinião da marinha, o plano não levava em consideração o poderio
naval dos britânicos; na da Luftwaffe, ele subestimara a Real Força Aérea. <£Em
conclusão”, observou o Estado-maior geral da Luftwaffe numa comunicação ao
OKW, ‘uma operação combinada para desembarque na Inglaterra, como seu ob­
jetivo, deve ser rejeitada”.4 Conforme veremos depois, Gõring e seus auxiliares
iriam adotar um ponto de vista completamente contrário.
A primeira menção, nos documentos alemães, de que Hitler estava encarando
a possibilidade de invadir a Inglaterra, foi feita em 21 de maio, no dia que se se­
guiu à investida das forças armadas, rumo ao mar, em Abbeville. Rãder debateu,
“particularmente”, com o Führer, “a possibilidade de fazer depois um desembar­
que na Inglaterra”. A fonte dessa informação é o próprio almirante Rãder,5 cuja
marinha não estava participando da glória nas extraordinárias vitórias do exérci­
to e da força aérea, no Ocidente, e ele — o que é bastante compreensível — estava
procurando meios de trazê-la de novo para a cena. Mas os pensamentos de Hitler
estavam voltados para a batalha do cerco no norte e na frente do Somme que,
nessa ocasião, se formava ao sul. Não importunou seus generais com questões
além dessas duas tarefas urgentes.
Os oficiais navais, entretanto, com pouca coisa além para fazer, continuaram a
estudar o problema da invasão, e, em 27 de maio, o contra-almirante Kurt Fricke,
chefe da divisão de operações do Estado-maior naval, surgiu com um novo plano
intitulado Studie England. Começou-se também um trabalho preliminar sobre
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 197

concentração de navios e criação de barcos para desembarque, de que a marinha


alemã estava completamente desprovida. A esse respeito, o dr. Gottfried Feder, o
extravagante economista que auxiliou Hitler a traçar o programa do partido nos
primeiros dias de Munique e que agora era secretário de Estado do Ministério da
Economia, onde dispensavam um ríspido e sumário tratamento a suas idéias lou­
cas, apresentou um plano que denominou “guerra de crocodilo”. Tratava-se de
uma espécie de chata a autopropulsão, feita de concreto, que podia transportar
duzentos soldados completamente equipados ou vários tanques ou peças de arti­
lharia, rodar em qualquer praia e dar cobertura às tropas e veículos que desem­
barcassem. O plano foi estudado pelo comando naval e até mesmo por Halder,
que o mencionou em seu diário, tendo sido amplamente discutido por Hitler e
Ráder em 20 de junho. Terminou, porém, dando em nada.
O mês de junho já se aproximava do fim, e aos generais alemães parecia que
nada se concretizava relativamente à invasão das Ilhas Britânicas. Em seguida à
sua aparição em Compiègne, no dia 21 desse mês, Hitler partiu com alguns velhos
companheiros para uma breve visita a Paris* e depois aos campos de batalha, não
os desta guerra, porém os da Primeira, onde servira como correio. Junto a ele
achava-se o seu rude sargento daqueles tempos, Max Amann, agora um editor
nazista e milionário. O futuro curso da guerra — especificamente, como conti­
nuar a luta contra a Inglaterra — parecia a menor de suas preocupações, ou talvez
se desse o caso de ele acreditar que essa pequena questão já estava resolvida, uma
vez que os britânicos haveriam agora de ter “bom senso” e fazer a paz.
Hitler só voltou ao seu novo quartel-general, em Tannenberg, a oeste de Freu-
denstadt, na Floresta Negra, em 29 de junho. No dia seguinte, ao voltar para a
realidade, meditou sobre o memorando de Jodl que dizia respeito aos passos se­
guintes. Intitulava-se “Continuação da Guerra contra a Inglaterra”.6 Depois de
Keitel, no OKW, era Jodl outro que acreditava fanaticamente no gênio do Führer;
quando, porém, se achava só, era geralmente um prudente estrategista. Mas agora
ele partilhava da opinião geral, no supremo quartel-general, de que a guerra esta­
va ganha e quase terminada. Se a Inglaterra não percebia isso, ter-se-ia que aplicar
um pouco mais de força para lembrar-lhe. Para o cerco da Inglaterra, seu memo­
rando propunha três medidas: intensificação da guerra aérea e marítima contra a

* E para contemplar o túmulo de Napoleão nos Invalides. "Esse foi o maior e o mais belo momento de
minha vida" disse ele a Heinrich Hoffmann, seu fiel fotógrafo.
198 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

navegação, os armazéns, as fábricas e a força aérea da Inglaterra; “ataques de ter­


ror contra os centros populosos”; “desembarque de tropas com o objetivo de ocu­
par a Inglaterra”.
Jodl reconhecia que “a luta contra a força aérea britânica devia ter prioridade”.
Mas, no todo, achava que tanto este como os outros aspectos do ataque podiam
ser executados sem muita dificuldade.

Juntamente com a propaganda e ataques periódicos para implantar o


terror, enunciados como represálias, esse crescente enfraquecimento
das bases de abastecimento de alimentos paralisará e dobrará finalmen­
te a vontade do povo de querer resistir, e, com isso, forçará o governo a
capitular*

Quanto ao desembarque, podia

apenas ser considerado depois que a Alemanha tiver conquistado o do­


mínio dos ares. O desembarque, portanto, não devia ter como objetivo
a conquista militar da Inglaterra, tarefa que se podia deixar para a força
aérea e a marinha. Seu objetivo deverá, antes, ser o de aplicar um golpe
de morte [Todesstoss] a uma Inglaterra já economicamente paralisada e
não mais capaz de lutar nos ares, se isso ainda for necessário.**

Jodl, porém, julgava que tudo isso talvez fosse desnecessário.

Como a Inglaterra não mais poderá lutar para vencer, mas somente
para preservar suas possessões e seu prestígio no mundo, ela deverá,
segundo todas as predições, estar inclinada a estabelecer a paz quando
souber que ainda poderá conseguir por um preço relativamente baixo.

Foi essa também a opinião de Hitler, que qual se pôs imediatamente a trabalhar
no seu discurso em favor da paz, que pronunciaria no Reichstag. Entrementes,

* Grifo de Jodl.
** Jodl sugeriu também a possibilidade de "estender a guerra à periferia", isto é, atacar o império britâ­
nico com o auxílio não só da Itália, como também do Japão, da Espanha e da Rússia.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 199

conforme vimos, ele ordenou (em 2 de julho) que se fizessem certos planos preli­
minares para um desembarque e, em 16 de julho, visto não chegar qualquer pala­
vra sensata de Londres, expediu a Diretiva nfi 16 para a operação Leão do Mar.
Depois de mais de seis meses de hesitação, decidiu-se finalmente pela invasão da
Inglaterra, “se necessária”. Isso, conforme Hitler e seus generais começaram tar­
diamente a compreender, deveria ser uma grande operação militar, não sem ris­
cos e dependendo, para seu êxito, do fato de a Luftwaffe e a marinha de guerra
poderem ou não preparar o terreno para as tropas, contra a armada britânica que
lhes era superior e uma força aérea inimiga da qual não se deveria descuidar.
Seria a operação Leão do Mar um plano verdadeiramente sério? Tencionava-
se realmente levá-lo a efeito?
Até então muitos duvidavam e, nisso, foram apoiados pela voz unânime dos
generais alemães depois da guerra. Rundstedt, que estava no comando da invasão,
informou os inquiridores dos Aliados em 1945:

A proposta invasão da Inglaterra era uma tolice, porque não existiam


navios adequados (...) Considerávamos todo o plano uma espécie de
jogo, pois evidenciava-se que não era possível uma invasão quando
nossa armada não se achava em situação de proteger a travessia do
Canal ou de transportar reforços. Tampouco se achava a força aérea
alemã capacitada a assumir essas funções se a armada falhasse (...)
Sempre me mostrei cético a respeito de toda essa questão (...) Tenho a
impressão de que o Führer jamais quis verdadeiramente invadir a In­
glaterra. Não tinha coragem suficiente (...) Esperava definitivamente
que os ingleses aceitassem a paz (...)7

Blumentritt, chefe de operações de Rundstedt, expressou opinião similar a


Liddell Hart depois da guerra, afirmando que “entre nós a considerávamos [a ope­
ração Leão do Mar] um blefe”.8
Eu mesmo passei, em meados de agosto, uns dias no Canal, bisbilhotando
da Antuérpia a Boulogne à procura do exército da invasão. Em 15 de agosto,
vimos em Calais e no cabo Gris-Nez muitos bombardeiros e caças alemães pas­
sando pelo Canal rumo à Inglaterra, o que parecia ser o primeiro ataque aéreo
maciço. E conquanto parecesse evidente que toda a Luftwaffe saíra a campo, a
200 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

falta de navios e, especialmente, de chatas para invasão, nos portos, canais e rios
atrás deles, deixou-me também a impressão de que os alemães estavam blefan­
do. Pelo que pude ver, eles não dispunham de meios para transportar suas tropas
pelo Canal.
Mas um repórter pouco pode ver de uma guerra, e nós sabemos agora que os
alemães somente começaram a concentrar a frota de invasão em l2 de setembro.
Quanto aos generais, qualquer pessoa que leia seus depoimentos ou que os tenha
ouvido na inquirição, nos julgamentos de Nuremberg, acaba recebendo seu teste­
munho de pós-guerra com certas restrições.* A burla da memória de um homem
é sempre considerável, e os generais alemães não faziam exceção a esta regra. Ti­
nham, também, de resolver muitas dificuldades, sendo uma das mais importantes
a de desacreditar a liderança militar de Hitler. Realmente, o principal tema deles,
exposto segundo suas longas e aborrecidas lembranças e nos interrogatórios e
depoimentos, era que, tivessem eles que tomar as decisões, jamais Hitler teria le­
vado o Terceiro Reich à derrota.
Infelizmente para eles, mas felizmente para a posteridade e a verdade, os volu­
mosos documentos militares secretos alemães não deixam dúvida de que o plano
de Hitler para invadir a Inglaterra no princípio do outono de 1940 era sério; e de
que, conquanto sujeito a inúmeras hesitações, era de fato intenção do ditador
nazista levá-lo a efeito se houvesse qualquer probabilidade de êxito. Sua sorte final
foi decidida não por qualquer falta de determinação ou esforço, mas pelos azares
da guerra que então, pela primeira vez, começaram a se voltar contra ele.
Em 17 de julho, dia que se seguiu à expedição da Diretiva nfi 16, que ordenava
os preparativos para a invasão, e dois dias antes do discurso de paz do Führer no
Reichstag, o Alto-Comando do exército (OKW) distribuiu as forças para a opera­
ção Leão do Mar o ordenou que 13 divisões escolhidas fossem enviadas para os
locais de embarque na costa do Canal, para a primeira vaga de invasão. Nesse
mesmo dia, o comando do exército completou seu minucioso plano para o de­
sembarque numa larga frente na costa sul da Inglaterra.
O primeiro assalto ali, como na batalha da França, seria executado sob o co­
mando do marechal-de-campo Rundstedt (como seria nomeado em 19 de julho)

* Mesmo um crítico militar tão astuto quanto Liddell Hart deixou de fazê-lo, e essa negligência preju­
dica seu livro The German Generais Talk. De fato, eles falaram, mas nem sempre deixando transparecer
uma boa memória ou, mesmo, toda a verdade.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 201

como comandante do grupo A de exércitos. Seis divisões de infantaria do 16a


Exército, do general Ernst Busch, deveriam embarcar do Passo de Calais e atingir
as praias entre Ramsgate e Bexhill. Quatro divisões do 9- Exército, do general
Adolf Strauss, atravessariam o Canal, partindo da área do Havre e desembarcando
entre Brighton e a Ilha de Wight. Mais a oeste, três divisões do 6a Exército do
marechal-de-campo von Reichenau (do grupo B de exércitos, do marechal-de-
campo von Bock), partindo da península de Cherburgo, seriam desembarcadas
em Lyme Bay, entre Weymouth e Lyme Regis. Ao todo, 90 mil homens formariam
a primeira vaga; para o terceiro dia, o Alto-Comando planejou desembarcar um
total de 260 mil homens. Forças aerotransportadas auxiliariam, depois de lança­
das em Lyme Bay e em outras áreas. Uma força blindada, formada de não menos
de seis divisões panzers , reforçadas por três divisões motorizadas, seguiria na se­
gunda vaga. Planejou-se que, em poucos dias, teria sido desembarcado um total
de 39 divisões e mais duas aerotransportadas.
Era esta a tarefa: após firmarem-se nas cabeças-de-ponte, as divisões do grupo
A do exército, no sudoeste, investiriam para o primeiro objetivo, a linha que se
estendia entre Gravesend e Southampton. O 6QExército, de Reichenau, avançaria
ao norte para Bristol, isolando Devon e Cornualha. O segundo objetivo seria uma
linha entre Maldon, na costa leste, ao norte do estuário do Tâmisa, até o rio Se-
vern, isolando o País de Gales. Esperavam-se “grandes batalhas com poderosas
forças britânicas” na ocasião em que os alemães alcançassem seu primeiro objeti­
vo. Elas seriam, porém, vencidas rapidamente, Londres seria cercada, e a investi­
da para o norte reencetada.9 Brauchitsch declarou a Rãder, em 17 de julho, que
toda a operação seria completada em um mês e seria relativamente fácil.10*

* O serviço secreto alemão exagerou o potencial britânico em terra durante os meses de julho, agosto
e setembro, que era apenas 8 divisões. No princípio de julho, o Estado-maior geral alemão estimou as
forças britânicas em um número que ia de 15 a vinte divisões "valor combatente". Na verdade, havia 29
divisões na Inglaterra naquela ocasião, mas não mais que meia dúzia de "valor combatente", porque
não dispunha praticamente de elementos blindados ou de artilharia. Mas, ao contrário da crença geral
naquele tempo, que perdura até hoje, o exército britânico, em meados de setembro, teria rivalizado
com as divisões alemãs que haviam sido destinadas à invasão. Estava à época preparada para enfrentar
um ataque na costa sul uma força de 16 divisões bem treinadas, das quais três eram blindadas, e havia
quatro divisões, mais uma brigada blindada, cobrindo a costa leste, do Tâmisa a Wash. Isso representa­
va uma notável recuperação depois da derrocada de Dunquerque, que deixara a Inglaterra pratica­
mente indefesa em terra, em junho.
O serviço secreto britânico foi extremamente deficiente ao atentar para os planos dos alemães e, pela
primeira vez em três meses de ameaça de invasão, inteiramente inexato. Durante todo o verão, Churchill
202 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Mas Ráder e o Alto-Comando naval mostraram-se céticos. Uma operação da­


quela envergadura numa larga frente — estendendo-se por mais de 320 quilôme­
tros, de Ramsgate a Lyme Bay — estava além da capacidade de a marinha alemã
poder comboiar e proteger. Foi o que Ráder informou ao OKW, dois dias depois,
e trouxe à baila novamente em 21 de julho, quando Hitler o chamou juntamente
com Brauchitsch e o general Hans Jeschonnek (chefe do Estado-maior-Geral da
Luftwaffe) para uma conferência em Berlim. O Führer estava ainda confuso quan­
to ao “que se estava passando na Inglaterra”. Apreciava as dificuldades da mari­
nha, mas acentuou a importância de terminar a guerra o mais breve possível, pois
necessitava das divisões da invasão — disse —, e a “operação principal” teria que
estar terminada até 15 de setembro. Aliás, o chefe nazista mostrava-se otimista a
despeito da recusa de Churchill, naquela mesma ocasião, de dar ouvidos a seu
apelo de paz.

A situação da Inglaterra é desesperadora [anotou Halder como tendo


sido declarado por Hitler]. A guerra foi vencida por nós. Impossível
uma inversão das perspectivas de êxito.11

Mas a marinha, defrontando-se com a apavorante tarefa de transportar um


grande exército através do encapelado Canal, diante de uma armada britânica
incomensuravelmente mais forte e de uma força aérea que parecia ainda algo ati­
va, não alimentava, a respeito, a mesma certeza. Em 29 de julho, o Estado-maior
da marinha de guerra elaborou um memorando opinando “contra o empreendi­
mento da operação neste ano” e propondo que “fosse ela examinada em maio de
1941 ou depois”.12
Hitler, porém, insistiu em examinar a operação em 31 de julho de 1940, quan­
do novamente convocou seus chefes militares, dessa vez para sua Villa em Ober-
salzberg. Além de Ráder, lá se achavam Keitel e Jodl, do OKW, e Brauchitsch e
Halder, do Alto-Comando do exército. O grande almirante, como era agora, foi
quem mais falou. Não se mostrava muito esperançoso.
Quinze de setembro, disse ele, seria a data para começar a operação Leão do
Mar e, mesmo assim, somente se não houvesse “circunstâncias imprevistas devidas

e seus conselheiros militares ficaram convencidos de que os alemães fariam sua principal tentativa de
desembarque na costa leste, e foi ali que se concentrou, até setembro, o grosso das forças terrestres
britânicas.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 203

ao tempo ou ao inimigo”. Quando Hitler indagou sobre o problema atmosférico,


Ráder respondeu com uma preleção sobre o assunto e tornou-se eloqüente e, cer­
tamente, desagradável. Salvo a primeira quinzena de outubro, o tempo, explicou
ele, era “geralmente ruim” no Canal e no mar do Norte; um leve nevoeiro surgia
em meados daquele mês, e um nevoeiro denso no fim do mês. Isso, porém, era
apenas parte do problema do clima. “A operação”, declarou, “só poderá ser execu­
tada se o mar estiver calmo? Se as águas estivessem agitadas, as chatas afundariam
e até os grandes barcos se tornariam inúteis, porque não poderiam descarregar
abastecimentos. O almirante tornou-se mais sombrio à medida que previa o que
os aguardaria.

Mesmo que a primeira vaga faça a travessia com êxito [prosseguiu], sob
favoráveis condições de tempo, não há garantia de que haverá o mesmo
tempo favorável para o transporte da segunda ou da terceira vagas (...)
Realmente, devemos compreender que nenhum transporte digno de
menção poderá, durante vários dias, fazer a travessia até que possa se
utilizar de certos portos.

Isso deixaria o exército em trágica situação, paralisado nas praias, sem supri­
mentos e sem reforços. Rãder chegou depois ao ponto principal: a diferença entre
o exército e a armada. O exército desejava uma frente larga, do estreito de Dover
a Lyme Bay. A armada, entretanto, não poderia prover tal operação com navios
necessários, contra a forte reação que se esperava da marinha de guerra e da força
aérea britânicas. Ráder argüiu, pois, fortemente, em defesa do encurtamento da
frente, manifestando sua opinião de que ela deveria ser estendida apenas do es­
treito de Dover a Eastbourne. O almirante reservou seu argumento decisivo para
o fim. “Considerando-se tudo”, disse, “a melhor ocasião para a operação seria o
mês de maio de 1941”.
Hitler, porém, não queria esperar todo esse tempo. Concordou que, natural­
mente, nada havia que pudessem fazer com relação às condições atmosféricas.
Mas deviam considerar as conseqüências da perda de tempo. Na primavera, a
armada alemã não estaria mais forte vis-à-vis da britânica. O exército inglês, no
momento, achava-se em más condições. Dar aos ingleses mais oito ou dez meses,
permitir-lhes-ia dispor de trinta a 35 divisões, uma força considerável na restrita
204 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

área que se propunha invadir. Sua decisão, por conseguinte — segundo as notas
confidenciais de Rãder e Halder13— era a seguinte:

Devem-se estudar diversões na África. Mas o resultado decisivo so­


mente poderá ser obtido mediante um ataque contra a Inglaterra.
Cumpre, portanto, fazer um esforço para preparar a operação para 15
de setembro de 1940 (...) A decisão, sobre se ela deverá realizar-se em
setembro ou ser adiada para maio de 1941, será tomada depois de ata­
ques concentrados da força aérea ao sul da Inglaterra, durante uma se­
mana. Se o efeito dos ataques aéreos for tal, que prejudique seriamente
a força aérea, os portos, as forças navais, etc., do inimigo, a operação
Leão do Mar será realizada em 1940. Caso contrário, será adiada para
maio de 1941.

Tudo dependia da Luftwaffe.


No dia seguinte, lfi de agosto, Hitler expediu, como conseqüência, duas direti­
vas diretamente do OKW: uma assinada por ele próprio e outra por Keitel.

Quartel-general do Führer.; Ia de agosto de 1940


Secretíssimo
Diretiva na 17 para conduzir a guerra aérea e naval contra a Inglaterra.
A fim de estabelecer as condições necessárias à conquista final da Ingla­
terra, tenciono continuar a guerra aérea e naval contra o território in­
glês mais intensamente do que tem sido feito até agora.
Para esse fim, expeço as seguintes ordens:
A força aérea alemã deve vencer a força aérea britânica com todos os
meios a seu alcance e o mais breve possível (...)
Após ganhar a supremacia nos ares, local ou temporariamente, deverá
a guerra ser desencadeada contra os portos, especialmente contra os
estabelecimentos ligados ao abastecimento de produtos alimentícios
(...) Devem-se empreender ataques contra os portos na costa do sul na
menor escala possível, em virtude das operações que tencionamos (...)
A Luftwaffe deve estar a postos, em grande número, para a operação
Leão do Mar.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A M ALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 205

Reservo-me decidir sobre os ataques de terror como meio de represália.


A intensificação da guerra aérea poderá começar em 6 de agosto ou
depois (...) A armada fica autorizada a começar a projetada intensifica­
ção da guerra naval, na mesma ocasião.
Adolf Hitler14

A diretiva assinada por Keitel em nome de Hitler, no mesmo dia, diz em parte:

SECRETÍSSIMO

Operação Leão do Mar


Ao relatar o comandante-em-chefe da marinha de guerra, em 31 de
julho, que não poderiam ser terminados antes de 15 de setembro os
preparativos necessários à Leão do Mar, o Führer ordenou:
Os preparativos para a Leão do Mar devem ser continuados e estar ter­
minados, pelo exército e pela força aérea, por volta de 15 de setembro.
Oito ou 14 dias depois de desencadeada a ofensiva aérea contra a Ingla­
terra, cujo início foi marcado para mais ou menos 5 de agosto, o Führer
decidirá sobre se a invasão se dará ou não neste ano; sua decisão depen­
derá, em grande parte, do resultado da ofensiva aérea (...)
A despeito da advertência da marinha, de que somente ela poderá ga­
rantir a defesa de uma estreita faixa da costa [até Eastbourne, a oeste],
dever-se-ão continuar os preparativos para o ataque numa frente ex­
tensa, conforme se traçou no plano original (...)15

O último parágrafo só serviu para inflamar a disputa entre o exército e a ma­


rinha na questão sobre uma larga ou curta frente de invasão. Quinze dias antes, o
Estado-maior da marinha de guerra havia estimado que, para atender às exigên­
cias do exército para o desembarque de 100 mil homens com equipamento e abas­
tecimentos, na primeira vaga, ao longo de uma frente de 320 quilômetros, de
Ramsgate a Lyme Bay, seria necessário concentrar 1.722 chatas, 1.161 barcos a
motor, 471 rebocadores e 155 navios-transporte. Mesmo que fosse possível reunir
tão imensa quantidade de barcos, Ráder informou a Hitler, em 25 de julho, que
isso arruinaria a economia alemã, pois o afastamento de tantas chatas e rebocado­
res destruiria todo o sistema de transporte fluvial do país, do qual dependia em
206 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o M OMENTO DECISIVO

grande parte sua vida econômica.16 De um modo ou de outro, Rãder esclareceu


que a proteção de tal armada procurando atender a tão larga frente contra os
ataques certos das forças aéreas e navais britânicas estava além da capacidade
das forças navais alemãs. A certa altura, o Estado-maior da marinha de guerra
preveniu o exército de que, insistisse ele naquela frente extensa, a marinha pode­
ria perder todos os seus navios.
O exército, porém, insistiu na execução do plano. Exagerando o potencial dos
britânicos, como fazia, argumentava que o desembarque numa faixa estreita co­
locaria os atacantes ante uma força terrestre britânica em número superior à
deles. Em 7 de agosto, houve uma explicação definitiva entre as duas armas,
quando Halder se encontrou com seu oponente da marinha, o almirante Sch-
niewind, chefe do Estado-maior geral da marinha de guerra. Houve um choque
ríspido e dramático.
“Rejeito completamente a proposta da marinha”, esbravejou o chefe do Esta­
do-maior geral, habitualmente um homem muito calmo. “Do ponto de vista do
exército, considero-a um verdadeiro suicídio. Seria colocar as tropas desembarca­
das dentro de uma máquina de fabricar salsichas!”
Segundo o registro da reunião* do Estado-maior da marinha de guerra, Sch-
niewind respondeu que seria “igualmente um suicídio” tentar transportar tropas
para uma frente tão larga como a que o exército desejava, “em vista da supremacia
da armada britânica”.
Era um dilema cruel. Caso se tentasse estabelecer uma frente extensa com um
grande número de tropas para guarnecê-la, toda a expedição alemã poderia ser
destruída no mar pela marinha britânica. Caso se adotasse uma frente curta, com
menor número de tropas, portanto, os invasores poderiam ser arremessados para
o mar pelo exército britânico. Em 10 de agosto, Brauchitsch, comandante-em-
chefe do exército, informou o OKW de que “não podia aceitar” um desembarque
entre Folkestone e Eastbourne. Estava inclinado, contudo, se bem que “muito re­
lutantemente”, a renunciar ao desembarque em Lyme Bay, a fim de encurtar a
frente, fazendo, com isso, uma concessão à marinha.

* No registro que fez em seu diário, Halder não citou aquelas palavras como suas. Declarou, porém, que
"a conversação levou apenas à confirmação da existência de uma brecha intransponível". A marinha,
escreveu, "receava a esquadra britânica e sustentava que a defesa a ser feita pela Luftwaffe contra esse
perigo era impossível". A marinha, nessa ocasião, se não o exército, tinha poucas ilusões sobre o poder
ofensivo da força aérea de Gõring.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 207

Isso, porém, não era o suficiente para os obstinados almirantes, cuja cautela e
inflexibilidade começavam a exercer efeito no OKW. Em 31 de agosto, Jodl elabo­
rou uma apreciação da situação, traçando cinco condições para o êxito da Leão do
Mar que, aparentemente, teriam parecido aos generais e almirantes quase ridícu­
las, não fosse tão grave o dilema em que se encontravam. Primeiro, disse ele, a
marinha britânica teria de ser eliminada da costa sul, e, segundo, a Real Força
Aérea teria também que ser eliminada dos céus britânicos. As outras condições
diziam respeito ao desembarque de tropas com um potencial de força e uma rapi­
dez que, obviamente, estavam além da capacidade da marinha. Se essas condições
não fossem preenchidas, ele considerava o desembarque “um ato de desespero
que deveria ser executado numa situação desesperadora, o qual, entretanto, não
temos motivos para levar a efeito agora”.17
Se os temores da marinha passavam agora para Jodl, as hesitações do chefe de
operações do OKW começavam a produzir seus efeitos em Hitler. Durante toda a
guerra, o Führer apoiara-se muito mais fortemente em Jodl que no chefe do OKW,
o obtuso e servil Keitel. Não é de surpreender, portanto, que em 13 de agosto,
quando Rãder se avistou com o supremo comandante em Berlim e solicitou uma
decisão sobre o problema da frente larga ou curta, Hitler mostrou-se inclinado a
concordar com a marinha, optando pela operação em menor escala. Prometeu
uma decisão definitiva para o dia seguinte, depois de ter conferenciado com o
comandante-em-chefe do exército.18Após ouvir a opinião de Brauchitsch no dia
14, Hitler tomou finalmente sua decisão e, no dia 16, uma diretiva do OKW assi­
nada por Keitel declarava que o Führer resolvera renunciar ao desembarque em
Lyme Bay, que o 6- Exército de Reichenau deveria realizar. Deviam-se continuar
os preparativos para desembarques numa frente mais curta, em 15 de setembro,
mas agora, pela primeira vez, as dúvidas do próprio Hitler insinuavam-se numa
diretiva secreta: “Ordens finais”, dizia ela, “somente serão dadas quando a situação
estiver clara”. As novas ordens, porém, eram uma espécie de compromisso, pois
uma nova diretiva, nesse dia, ampliava a frente mais curta.

A travessia principal deverá ser feita numa frente estreita. Desem­


barques simultâneos de quatro mil a cinco mil soldados em Brighton,
transportados por barcos a motor, e o mesmo número de forças
aerotransportadas em Deal-Ramsgate. No dia D-menos-1, além disso,
208 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

deverá a Luftwaffe desencadear um forte ataque contra Londres, ataque


que obrigue a população a fugir da cidade e a bloquear as estradas.19

Conquanto Halder, em 23 de agosto, registrava uma nota taquigráfica em seu


diário, afirmando que “nesta base não há probabilidade de êxito este ano”, uma
diretiva com a assinatura de Keitel, em 27 de agosto, traçava os planos finais para
desembarques em quatro áreas principais na costa sul, entre Folkestone e Selsey
Bill, a leste de Portsmouth, tendo por primeiro objetivo, como anteriormente,
uma linha que se estendia entre Portsmouth e o lamisa a leste de Londres, em
Gravesend, a ser alcançada assim que as cabeças-de-ponte tivessem sido ligadas e
organizadas e as tropas pudessem atacar o norte. Ao mesmo tempo, eram dadas
ordens para preparar a execução de certas manobras de despistamento, das quais
a principal era a Viagem de Outono (Herbstreise). Estabelecia-se um ataque simu­
lado em grande escala contra a costa leste da Inglaterra, onde, conforme notamos,
Churchill e seus conselheiros militares ainda aguardavam que fosse desfechado o
principal golpe da invasão. Para tal fim, quatro grandes vapores, inclusive o Euro­
pa e o Bremen, os maiores da Alemanha, e dez transportes adicionais, escoltados
por quatro cruzadores, deviam sair dos portos meridionais da Noruega e da baía
de Heligoland no dia D-menos-2 e dirigir-se para a costa inglesa entre Aberdeen
e Newcastle. Os transportes estariam vazios e toda a expedição voltaria ao cair da
noite, repetindo-se a manobra no dia seguinte.20
Em 30 de agosto, Brauchitsch expediu uma longa lista de instruções para os
desembarques, mas os generais que a receberam indagaram a si mesmos qual a
confiança que o chefe do exército tinha agora no empreendimento. Ele intitulara-
a “Instruções para os Preparativos da Operação Leão do Mar” — um tanto tardias
naquele jogo mandar preparar-se para uma operação que ele ordenara que devia
ser executada a partir de 15 de setembro. “A ordem de execução”, acrescentou ele,
“depende da situação política”, condição que devia ter deixado confusos os gene­
rais apolíticos.21
Em lfi de setembro, começaram a movimentar-se os navios dos portos alemães
do mar do Norte rumo aos portos de embarque no Canal, e dois dias depois, em
3 de setembro, vinha do OKW uma nova diretiva:

A data mais próxima para a saída da frota de invasão foi fixada para 20
de setembro e a do desembarque para 21 de setembro.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 209

As ordens para o desencadeamento do ataque serão dadas no dia D-


menos-10, presumivelmente portanto em 11 de setembro.
As ordens finais serão dadas, o mais tardar, no dia D-menos-3, ao meio-dia.
Todos os preparativos devem ficar sujeitos a cancelamento 24 horas an­
tes da hora zero.
Keitel22

A coisa, agora, parecia séria. Mas o tom era enganador. Em 6 de setembro,


Ràder teve uma longa conferência com Hitler. “A decisão do Führer; de realizar os
desembarques na Inglaterra”, registrou o almirante no diário do Estado-maior da
marinha de guerra, nessa noite, “não está de forma alguma assentada, pois ele está
firmemente convencido de que a derrota da Inglaterra será conseguida sem de­
sembarque.” De fato, conforme demonstra o longo registro que Ráder fez da con­
ferência, o Führer discursou demoradamente sobre quase tudo, exceto sobre a
operação Leão do Mar: falou sobre a Noruega, Gibraltar, Suez, “o problema dos
Estados Unidos”, o tratamento das colônias francesas e sua fantástica opinião
acerca do estabelecimento de uma União Germânica do Norte.23
Se Churchill e seus chefes militares tivessem ao menos conhecimento do que
se passara nessa extraordinária conferência, a palavra em código Cromwell talvez
não tivesse sido transmitida na Inglaterra na noite do dia seguinte, 7 de setembro,
significando “invasão iminente” e que causou uma confusão sem fim, um repicar
interminável dos sinos pela guarda metropolitana, a destruição de várias pontes
pelos engenheiros reais e um desnecessário número de mortes devido às minas
colocadas às pressas.*
Mas às últimas horas da tarde de sábado, 7 de setembro, começaram os ale­
mães o primeiro bombardeio maciço de Londres, levado a efeito por 625 bombar­
deiros protegidos por 648 caças. Foi o mais devastador ataque aéreo desfechado

* Diz Churchill que nem ele nem os chefes do Estado-maior tinham "noção de que a palavra em código
Cromwell havia sido dada. Foi expedida pelo quartel-general das forças metropolitanas. {Their Finest
Hour, p. 312). Quatro dias depois, porém, em 11 de setembro, o primeiro-ministro, numa transmissão,
preveniu que se a invasão se realizasse, ela não poderia "demorar muito tempo". "Portanto", disse ele,
"precisamos considerar a próxima semana ou a seguinte como um período muito importante de nossa
história. Estamos na mesma situação daquele dia em que a armada espanhola se aproximava do Canal,
e Drake acabava de terminar seu jogo de bolas, ou da ocasião em que Nelson se interpôs entre nós e o
grande exército de Napoleão, em Boulogne."
210 A GUERRA*. PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOM ENTO DECISIVO

até aquele dia contra uma cidade — os bombardeios contra Varsóvia e Roterdã
foram simples picadas de agulha, comparados a ele, e, ao anoitecer, toda a área das
docas da grande cidade era uma imensa massa de chamas; toda a linha férrea para
o sul, tão vital para a defesa contra a invasão, estava bloqueada. Dadas as circuns­
tâncias, muita gente acreditava que esse monstruoso bombardeio era o prelúdio
de desembarques imediatos dos alemães, e foi por causa disso, mais que qualquer
outra coisa, que se expediu o sinal de alerta — o da “invasão iminente”. Como
logo se verá, esse selvagem ataque contra Londres, em 7 de setembro, conquanto
fosse uma prematura advertência e causasse muitos danos, assinalou um momen­
to decisivo na Batalha da Inglaterra, a primeira grande luta no ar que até então se
experimentava e que se aproximava de seu clímax.
Aproximava-se também a hora de Hitler tomar sua decisão fatal de desenca­
dear ou não a invasão. Ela devia ser dada, conforme estipulava a diretiva de 3 de
setembro, em 11 desse mês, dando às forças armadas dez dias para levarem a efei­
to as operações preliminares. Mas no dia 10 Hitler resolveu adiar sua decisão para
o dia 14. Parece que, pelo menos, houve duas razões para a protelação. Uma, era
a crença no OKW de que o bombardeio de Londres estava causando tanta des­
truição, não só nas propriedades como no moral do povo britânico, que talvez
não fosse necessária a invasão.*
A outra razão surgia das dificuldades que a marinha alemã começava a expe­
rimentar ao reunir seus navios. Além das condições atmosféricas, que as autori­
dades navais relataram em 10 de setembro como sendo “completamente anormais
e instáveis”, a Real Força Aérea, que Gõring prometera destruir, e a marinha britâ­
nica estavam intervindo cada vez mais na concentração da frota de invasão. Nesse
mesmo dia, o Estado-maior da marinha de guerra advertiu sobre o perigo dos
ataques aéreos e navais dos britânicos contra os movimentos de transporte ale­
mães, ataques esses que — dizia — haviam “sem dúvida, sido coroados de êxito”.
Dois dias depois, em 12 de setembro, o quartel-general do grupo naval do oeste
enviou uma mensagem sinistra a Berlim:

* Os alemães ficaram muito impressionados pelos relatórios procedentes da embaixada em Washing­


ton, que transmitiam informações de Londres, lá recebidas, exagerando-as.
Diziam os relatórios que o chefe do Estado-maior geral americano acreditava que a Inglaterra não
poderia resistir por muito tempo. Segundo o tenente-coronel von Lossberg {lm Wehrmacht
Fuehrungsstab, p. 91), Hitler esperava seriamente que irrompesse uma revolução na Inglaterra.
Lossberg era representante do exército no OKW.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A M ALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 211

As interrupções causadas pelas força aérea, artilharia de grande alcance


e forças ligeiras do inimigo assumiram, pela primeira vez, grande im­
portância. Os portos de Ostende, Dunquerque, Calais e Boulogne não
podem ser usados como ancoradouros noturnos, para a navegação, por
causa do perigo das bombas e granadas dos ingleses. Unidades da es­
quadra britânica podem agora operar no Canal quase sem serem mo­
lestadas. Dadas essas dificuldades, esperam-se novas protelações na
concentração da frota invasora.

No dia seguinte, a situação agravou-se ainda mais. As forças navais ligeiras


britânicas bombardearam os principais portos de invasão do Canal, Ostende,
Calais, Boulogne e Cherburgo, enquanto a Real Força Aérea afundava oitenta
chatas no porto de Ostende. Em Berlim, nesse dia, Hitler conferenciou com os
chefes das três armas durante o almoço. Ele achava que a guerra aérea ia muito
bem e declarou que não tinha intenção de correr o risco de uma invasão.24 De
fato, Jodl teve, das observações de Hitler, impressão de que 4ele, aparentemente,
decidira abandonar completamente a operação Leão do Mar”, impressão exata
nesse dia conforme Hitler confirmou no dia seguinte — quando, porém, mudou
novamente de idéia.
Ráder e Halder deixaram anotações confidenciais sobre a conferência de Hi­
tler com seus comandantes-em-chefe, em Berlim, em 14 de setembro.25 O almi­
rante conseguiu passar às mãos de Hitler um memorando antes da abertura da
conferência, expondo a opinião da marinha de que

a atual situação aérea não fornece condições para levar a efeito a opera­
ção [Leão do Mar], pois o risco continua sendo demasiado grande.

No começo da conferência, o chefe nazista demonstrou disposição algo nega­


tiva, e suas idéias estavam repletas de contradições. Não queria dar a ordem de
invasão, tampouco renunciar a ela — anotou Ráder no diário da marinha de guer­
ra — como “aparentemente planejara fazer em 13 de setembro”.
Quais teriam sido as razões para sua última mudança de idéia? Halder regis­
trou-as com certa minúcia:
212 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Um desembarque bem-sucedido [argumentou o Führer], seguido por


uma ocupação, terminaria a guerra em curto prazo. A Inglaterra mor­
reria de fome. Não se precisa levar a efeito um desembarque dentro de
prazo específico (...) Mas uma guerra demorada não é desejável. Já con­
seguimos tudo de que precisávamos.

As esperanças que os britânicos depositam na Rússia — disse Hitler — não se


concretizaram. A Rússia não derramaria sangue pela Inglaterra. O rearmamento
dos Estados Unidos somente estaria em plena eficácia em 1945. No momento, a
“solução mais rápida seria um desembarque na Inglaterra. A marinha tem prepa­
rado as condições necessárias para isso. As operações da Luftwaffe são mais que
louváveis. Quatro ou cinco dias de bom tempo trariam resultados decisivos (...)
Temos uma boa possibilidade de fazer a Inglaterra dobrar os joelhos”.
O que estava errado então? Por que hesitar mais tempo em proceder à invasão?
Hitler admitiu qual era o problema:

O inimigo está se restabelecendo novamente (...) Os caças inimigos não


foram ainda completamente eliminados. Nossos próprios relatórios so­
bre os êxitos obtidos não fornecem um quadro inteiramente digno de
confiança, se bem que o inimigo tenha sido seriamente atingido.

No todo, pois, declarou Hitler, “não obstante nossos êxitos, as condições indis­
pensáveis para a operação Leão do Mar não foram ainda estabelecidas”. (Grifo de
Halder).
Hitler resumiu suas reflexões:

Um desembarque bem-sucedido significa vitória, mas para isso preci­


samos obter completa supremacia nos ares.
As más condições atmosféricas têm, até então, impedido que obtivésse­
mos completa supremacia nos ares.
Todos os demais fatores estão em ordem.
A decisão, portanto, é a seguinte: ainda não se renunciará à operação.

Tendo chegado a essa conclusão negativa, Hitler passou logo a expor suas gran­
des esperanças de que a Luftwaffe talvez ainda trouxesse a vitória que, embora
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 213

próxima, continuava a fugir-lhe tão atormentadoramente. “Os ataques aéreos até


agora”, disse ele, “têm causado tremendo efeito, se bem que, talvez, mais sobre os
nervos. Mesmo que a vitória no ar só seja conseguida daqui a dez ou 12 dias, é
possível que os ingleses ainda venham a ser presa de histeria coletiva”.
Para auxiliar a provocar essa histeria, Jeschonnek, da força aérea, solicitou per­
missão para bombardear os distritos residenciais de Londres, porque, disse ele,
não havia sinal de “pânico no povo” em Londres, já que essas áreas estavam sendo
poupadas. O almirante Ráder apoiou entusiasticamente a idéia de ser realizado
um bombardeio de terror. Hitler, porém, achou que a concentração do bombar­
deio nos objetivos militares era mais importante. “O bombardeamento com o ob­
jetivo de causar pânico no povo”, disse, “deve ser deixado para o fim.”
O entusiasmo de Rãder pelo bombardeio de terror parece ter se originado de
sua falta de entusiasmo pelos desembarques. Interveio, nessa ocasião, para nova­
mente acentuar os “grandes riscos” envolvidos. A situação no ar, acentuou, mal
podia melhorar antes das projetadas datas de 24-27 de setembro para os desem­
barques; por conseguinte, a operação deverá ser abandonada “até 8 ou 24 de
outubro”.
Isso, porém, era renunciar completamente à invasão, conforme Hitler perce­
beu. Declarou que suspenderia sua decisão sobre o desembarque somente até 17 de
setembro — dali a três dias — de modo que a operação poderia ainda realizar-se
em 27 de setembro. Se não fosse praticável nessa ocasião, teria então que pensar em
outras datas de outubro. Expediu-se depois uma diretiva do comando supremo:

Berlim, 14 de setembro de 1940


Secretíssimo
(...) O Führer decidiu:
Fica adiado o começo da operação Leão do Mar. Nova ordem seguirá
em 17 de setembro. Devem-se continuar todos os preparativos.
Deve-se prosseguir os ataques aéreos contra Londres e estender a área
visada para as instalações militares e outras vitais [por exemplo: esta­
ções ferroviárias].
Ficam os ataques de terror, contra áreas puramente residenciais, reser­
vados como derradeiro meio de pressão.26
214 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

Assim, conquanto Hitler tivesse adiado por três dias a invasão, não abandona­
ra absolutamente a idéia. Dessem à Luftwaffe mais uns dias para liquidar a Real
Força Aérea e destruir o moral dos londrinos, e o desembarque poderia então ser
realizado. Traria a vitória final. Mais uma vez, pois, tudo dependia da tão alardea­
da força aérea de Gõring. Ela faria, de fato, seu esforço supremo no dia seguinte.
A cada hora que passava, ia se tornando pior a opinião da marinha sobre a
Luftwaffe. Na noite daquela decisiva conferência em Berlim, o Estado-maior da
marinha de guerra alemã apresentou o relatório dos severos bombardeios da Real
Força Aérea sobre portos de invasão, da Antuérpia a Boulogne.

(...) Na Antuérpia (...) infligiram-se consideráveis danos nos transpor­


tes — cinco vapores-transporte no porto pesadamente danificados;
afundamento de uma chata, destruição de dois guindastes, explosão de
trem de munições, incêndio lavrando em vários armazéns.

A noite seguinte foi ainda pior, comunicando a marinha “fortes ataques aéreos
do inimigo em toda a área costeira, entre o Havre e a Antuérpia”. Os marinhei­
ros expediram um S.O.S. pedindo mais canhões antiaéreos, para proteção dos
portos de invasão. Em 17 de setembro, o Estado-maior da marinha informou:

A Real Força Aérea ainda não está derrotada. Ao contrário, está demons­
trando crescente atividade em seus ataques aos portos do Canal e em sua
interferência cada vez maior nos movimentos de concentração.*27

* Em 16 de setembro, segundo uma autoridade alemã, os bombardeiros da Real Força Aérea surpreen­
deram um grande exército de treinamento para a invasão e infligiram pesadas perdas na soldadesca e
em barcos para desembarque. Isso deu origem a muitas notícias na Alemanha e em outras partes do
continente de que os alemães haviam realmente tentado um desembarque, tendo sido rechaçados
pelos britânicos. (Georg W. Feuchter, Geschichte des Luftkrieges, p. 176). Eu ouvi tal notícia na noite de
16 de setembro em Genebra, Suíça, onde passava uns dias de férias. Em 18 de setembro e, novamente,
no dia seguinte, vi dois grandes trens-ambulância descarregando soldados feridos nos subúrbios de
Berlim. Pelas ataduras, cheguei à conclusão de que a maior parte dos ferimentos eram queimaduras.
Não houve luta em terra durante três meses.
Em 21 de setembro, documentos confidenciais da marinha alemã assinalavam que 21 navios de trans­
porte e 214 chatas — cerca de 12% do total de barcos reunidos para a invasão — haviam sido perdidos
ou danificados. (Führer Conferences on NavalAffairs, p. 102).
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 215

Naquela noite havia lua cheia, e os bombardeios noturnos britânicos aprovei­


taram o máximo. O Estado-maior da marinha de guerra Alemã comunicou “per­
das bastante consideráveis” de barcos que se comprimiam nos portos de invasão.
Em Dunquerque, 84 chatas foram postas a pique ou danificadas, e, de Cherburgo
a Den Helder — informou a marinha —, entre outros itens depressivos, a explo­
são de 500 toneladas de munições, incêndio de um depósito de mantimentos, o
afundamento de muitos vapores e barcos-torpedos e muitas baixas. O severo
bombardeio, além do canhoneio de pesadas peças do outro lado do Canal, fez que
se tornasse necessário — comunicou a marinha — dispersar as naus e os navios
de transporte que já se achavam concentrados no Canal e parar com o movimen­
to da navegação para os portos de invasão.

Em caso contrário [dizia] com a enérgica ação do inimigo ocorrerão


perdas tais, no decorrer do tempo, que se tornará problemática a execu­
ção da operação na escala previamente elaborada.28

Já se tornava problemática.
Há no diário da marinha de guerra alemã um registro lacônico datado de 17
de setembro:

A força aérea inimiga de forma alguma está derrotada. Demonstra,


pelo contrário, crescente atividade. As condições atmosféricas, no seu
todo, não nos permitem esperar um período de calma (...) O Führer
decide, portanto , adiar indefinidamente a Leão do Mar.*29

Adolf Hitler, após tantos anos de brilhantes sucessos, havia finalmente fracas­
sado. Durante quase um mês, depois disso, manteve-se a impressão de que a in­
vasão ainda poderia realizar-se no outono; pura simulação, porém. Em 19 de
setembro, o Führer ordenou formalmente que cessasse a concentração da tropa
invasora e a dispersão de todos os barcos que já se achavam nos portos, M a fim de
que pudessem ser reduzidas ao mínimo as perdas de transportes causadas pelos
ataques aéreos inimigos”.
Mas era impossível manter dispersados até mesmo uma armada e todas as
tropas, canhões, tanques e abastecimentos que haviam sido concentrados para

* Grifo da marinha.
216 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

cruzar o Canal e destinados a uma invasão que fora adiada indefinidamente. Esse
“estado de coisas” — exclamou Halder em seu diário, no dia 28 de setembro —,
“de se arrastar continuamente a existência da operação Leão do Mar, é insuportá­
vel”. Quando Ciano e Mussolini se encontraram com o Führer no Passo de Bren-
ner, em 4 de outubro, observou o ministro das Relações Exteriores da Itália em
seu diário: “Não se fala mais em um desembarque nas Ilhas Britânicas.” O recuo
de Hitler colocou seu parceiro Mussolini num humor excelente, que há muito
não demonstrava. “Raramente vi o Duce com tão bom humor (...) como hoje no
Passo de Brenner”, anotou Ciano.30
Já a marinha e o exército insistiam junto ao Führer para que resolvesse cance­
lar de vez a operação Leão do Mar. O Estado-maior geral fez-lhe ver que a manu­
tenção de tropas no Canal, “sob contínuos ataques aéreos dos britânicos, acarre­
taria contínuas baixas”.
Em 12 de outubro, finalmente, o chefe nazista admitiu formalmente o fracas­
so; adiou a invasão para a primavera, se não para um pouco antes. Expediu-se
uma diretiva formal:

Quartel-General do Führer, 12 de outubro de 1940


Secretíssimo
O Führer decidiu que, a partir de agora e até a primavera, os preparati­
vos para a operação Leão do Mar deverão prosseguir somente para
manter pressão política e militar sobre a Inglaterra.
Caso se considere a invasão na primavera ou no princípio do verão de
1941, as ordens para renovação dos preparativos para a operação serão
expedidas mais tarde (...)

O exército recebeu ordem de destacar as formações da Leão do Mar “para


outras tarefas ou para empregá-las em outras frentes” A marinha foi instruída a
“tomar todas as medidas no sentido de desligar o pessoal e os transportes”. Ambas
as armas deviam camuflar seus movimentos. “Os britânicos”, declarou Hitler, “de­
vem continuar a crer que estamos preparando um ataque numa larga frente”.31
Que acontecera para obrigar, finalmente, Adolf Hitler a ceder?
Duas coisas: o curso fatal da Batalha da Inglaterra e a volta de seu pensamento,
mais uma vez, para o leste: a Rússia.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 217

Batalha da Inglaterra

A grande ofensiva aérea de Gõring contra a Inglaterra, Operação Águia (Adle-


rangriffe), havia sido desencadeada em 15 de agosto com o objetivo de afastar dos
ares a força aérea inglesa e assim conseguir uma condição da qual dependia a in­
vasão. O gordo marechal do Reich, posto a que havia sido elevado, não duvidava
da vitória. Em meados de julho mostrava-se confiante de que a defesa dos caças
britânicos no sul da Inglaterra poderia ser esmagada dentro de quatro dias por
meio de um ataque total, abrindo assim caminho para a invasão. Levaria um pou­
co mais para destruir completamente a Real Força Aérea, informou Gõring ao
Alto-Comando do exército: de duas a quatro semanas.32De fato, o condecoradís-
simo chefe da força aérea alemã achava que a Luftwaffe, sozinha, poderia fazer a
Inglaterra dobrar os joelhos, e que talvez não fosse necessária uma invasão por
forças terrestres.
Para atingir esse poderoso objetivo, dispunha ele de três grandes frotas aéreas
(Luftflotten): a ne 2, sob o comando do marechal-de-campo Kesselring, operando
nos Países Baixos e norte da França; a ne 3, comandada pelo marechal-de-campo
Sperrle, com suas bases no norte da França; e a n2 5, sob a direção do general
Stumpff, estacionada na Noruega e na Dinamarca. As duas primeiras possuíam
um total de 929 caças, 875 bombardeiros e 316 bombardeiros de mergulho; a n2 5
era muito menor, com 123 bombardeiros e 34 caças bimotores ME. Contra essa
vasta força, a Real Força Aérea dispunha, para a defesa aérea do reino, no princí­
pio de agosto, de setecentos a oitocentos caças.
Durante todo o mês de julho, a Luftwaffe aumentou gradativamente seus ata­
ques contra a navegação britânica no Canal e nos portos do sul. Foi uma operação
de sondagem. Conquanto fosse necessário varrer do Canal as naves britânicas,
antes de poder ser iniciada a invasão, o principal objetivo desses ataques prelimi­
nares era atrair os caças britânicos para a luta. Os alemães fracassaram nesse ob­
jetivo. O comando da Real Força Aérea evitou, astutamente, comprometer mais
que uma fração de seus caças, e, como resultado, consideráveis danos foram feitos
à navegação e a alguns portos. Quatro destróieres e 18 navios mercantes foram a
pique, mas esse encontro preliminar custou à Luftwaffe 296 aviões destruídos e
135 danificados. A Real Força Aérea perdeu 148 caças.
Em 12 de agosto, Gõring expediu ordens para que fosse desencadeada a
Operação Águia no dia seguinte. Logo de início, nesse dia, foram feitos pesados
218 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

ataques contra as estações de radar do inimigo, cinco das quais foram de fato
atingidas e danificadas e uma foi posta fora de ação; nessa fase, porém, os alemães
ignoravam o quanto o radar era vital para a defesa da Inglaterra e não prossegui­
ram no ataque. Nos dias 13 e 14 os alemães colocaram no ar cerca de 1.500 aviões,
a maioria deles contra os campos dos caças da Real Força Aérea, e, embora decla­
rassem ter “destruído completamente” cinco, o dano fora insignificante, perdendo
a Luftwaffe 47 aviões contra 13 dos ingleses.*
O dia 15 de agosto trouxe a primeira grande batalha aérea. Os alemães lança­
ram na luta o grosso de seus aviões de todas as três frotas, realizando 801 sortidas
de bombardeiros e 1.149 de caças. A Luftflotten nfi 5, operando da Escandinávia,
sofreu verdadeiro fracasso. Ao enviar oitocentos aviões num ataque maciço con­
tra a costa meridional, os alemães esperavam encontrar indefesas as costas a nor­
deste. Mas uma força de cem bombardeiros, escoltada por 34 caças bimotores
ME-110, foi surpreendida por sete esquadrilhas de Hurricanes e Spitfires quando
se aproximava de Tyneside e foi duramente castigada. Trinta aviões alemães, na
maioria bombardeiros, foram derrubados sem perda para os defensores. Foi o fim
da frota n2 5 na Batalha da Inglaterra; não voltou mais a atacar.
No sul da Inglaterra, nesse dia, os alemães foram mais felizes. Desfecharam
quatro ataques maciços, num dos quais puderam atingir Londres. Quatro fábricas
de aviões, em Croydon, foram atingidas, e cinco aeródromos de caças da Real For­
ça Aérea foram danificados. Em todos eles, os alemães perderam 75 aviões contra
34 da Real Força Aérea.** Nessa proporção, a despeito de sua superioridade numé­
rica, dificilmente os alemães poderiam esperar eliminar dos ares o adversário.
Gõring cometeu agora o primeiro de seus dois erros táticos. A habilidade do
Comando de Caças Britânico, ao empenhar seus aviões na batalha contra forças
atacantes grandemente superiores em número, baseava-se no uso inteligente do
radar. Desde o momento em que deixavam suas bases na Europa Ocidental, as
telas do radar os assinalavam e determinavam com tal precisão o seu curso que
o Comando de Caças sabia exatamente onde e quando podia atacá-los melhor.

* A Luftwaffe alegou ter destruído 134 aviões britânicos contra uma perda de 34. Dessa data em diante,
ambos os lados exageravam os danos causados um ao outro.
** Em Londres, nessa noite, um comunicado oficial mencionou que 182 aviões alemães haviam sido
derrubados e 43, provavelmente, haviam sido destruídos. Isso foi um grande estímulo para o moral
britânico em geral e, especialmente, para o dos pilotos de caça que lutavam dura e desmedidamente.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 219

Era algo novo, na guerra, que deixou os alemães intrigados; em relação aos ingle­
ses, estavam muito mais atrasados no tocante à criação e ao uso de dispositivos
eletrônicos.

Percebemos [depôs mais tarde Adolf Galland, famoso piloto alemão de


aviões de caça] que as esquadrilhas de caças da Real Força Aérea de­
viam ser controladas do solo por algum processo novo, porque ouvía­
mos ordens dirigindo, com habilidade e precisão, Spitfires e Hurricanes
contra as formações alemãs (...) Para nós, o radar e o controle dos caças
constituíram uma surpresa bastante amarga.33

Não se prosseguiu, contudo, o ataque às estações de radar da Inglaterra, o qual,


em 12 de agosto, causara tanto dano. Em 15 de agosto, dia de seu primeiro grande
revés, Gõring cancelou-os inteiramente, declarando: “É duvidoso haver qualquer
vantagem em continuar o ataque contra as estações de radar, uma vez que nenhu­
ma daquelas que têm sido atacadas foi, até agora, posta fora de ação.”
A segunda chave para a brilhante defesa dos céus do sul da Inglaterra foram as
estações de setores. Era o centro nevrálgico subterrâneo, do qual os Hurricanes e
Spitfires eram guiados para a batalha por meio de radiotelefonia, com base nas
últimas informações do radar, dos postos de observação terrestres e dos pilotos
no ar. Os alemães, conforme observou Galland, podiam ouvir as constantes con­
versações pelas ondas aéreas entre as estações dos setores e os pilotos, no ar, e fi­
nalmente começaram a compreender a importância daqueles centros de controle
terrestre. Em 24 de agosto modificaram a tática, visando à destruição das estações
de setores, sete das quais dos aeródromos em torno de Londres eram de suma
proteção para o sul da Inglaterra e a própria capital. Foi um golpe contra as partes
vitais da defesa antiaérea da Inglaterra.
Parecia, até então, que a batalha se processava desfavoravelmente para a Luft­
waffe. Em 17 de agosto, ela perdeu 71 aviões contra 27 da Real Força Aérea. O va­
garoso bombardeiro de mergulho Stuka, que auxiliara a preparar o caminho às vi­
tórias do exército na Polônia e no Ocidente, demonstrava ser um alvo perfeito para
os caças britânicos. Nesse dia, foi retirado da batalha por Gõring, o que reduziu a
força dos bombardeiros da Alemanha a uma terça parte. De 19 a 23 de agosto,
houve inatividade no ar devido ao mau tempo. Revendo no dia 19 a situação em
220 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Karinhall, local de exposições nas proximidades de Berlim, Gõring ordenou que


a Luftwaffe concentrasse os ataques exclusivamente contra a Real Força Aérea
assim que o tempo melhorasse.
“Chegamos ao período decisivo da guerra aérea contra a Inglaterra”, declarou.
“A derrota da força aérea inimiga constitui tarefa vital. Nosso primeiro objetivo é
destruir os caças do inimigo.”34
De 24 de agosto a 6 de setembro, os alemães empregaram, em média, mil
aviões por dia para consecução desse objetivo. Dessa vez, o marechal do Reich
tinha razão. A Batalha da Inglaterra entrara em sua fase decisiva. Embora os pi­
lotos da Real Força Aérea, já fatigados pelas sortidas diárias de seus aparelhos
durante um mês, lutassem valorosamente, a simples preponderância dos alemães
em número de aviões começou a produzir efeito. Cinco campos de caças, no sul
da Inglaterra, foram grandemente danificados e seis das sete estações-chave de
setores foram tão severamente bombardeadas que quase todo o sistema de co­
municações parecia prestes a ser posto fora de ação. A Inglaterra viu-se ameaçada
de uma catástrofe.
E o pior: o ritmo do ataque começou a se refletir nas defesas dos caças da Real
Força Aérea. Na decisiva quinzena de 23 de agosto a 6 de setembro, os britânicos
perderam 466 caças, destruídos ou seriamente danificados, e, conquanto não sou­
bessem na ocasião, as perdas da Luftwaffe tinham sido menores: 385 aviões, dos
quais 214 caças e 138 bombardeiros. Além disso, a Real Força Aérea havia perdido
231 pilotos, dos quais 103 mortos e 128 gravemente feridos — um quarto do total
de que dispunha.
“A balança”, escreveu Churchill mais tarde, “pendeu contra o comando dos
caças (...) Houve muita ansiedade”. Mais algumas semanas assim, e a Inglaterra
não teria defesa organizada nos ares. A invasão poderia ser bem-sucedida.
Gõring, logo depois, cometeu o segundo erro tático; em suas conseqüências,
foi comparável ao de Hitler quando ordenou a sustação do ataque das forças blin­
dadas contra Dunquerque, em 24 de maio. Salvou a derreada e entontecida Real
Força Aérea e assinalou um dos pontos decisivos da primeira grande batalha aé­
rea da história.
Com os caças britânicos da defesa a sofrerem perdas no ar e no solo, o que não
podia ser sustentado por muito tempo, a Luftwaffe mudou o alvo de seus ataques
em 7 de setembro; passou a efetuar bombardeios maciços noturnos em Londres,
e os caças da Real Força Aérea tiveram uma trégua.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 221

Que havia acontecido no campo alemão, para obrigar essa mudança de tática
que estava destinada a ser fatal às ambições de Hitler e Gõring? A resposta está
cheia de ironias.
Para começar, houve um pequeno erro de navegação por parte dos pilotos de
uma dúzia de bombardeiros alemães na noite de 23 de agosto. Instruídos para
lançar suas cargas sobre fábricas de aviões e tanques de óleo, nas vizinhanças de
Londres, erraram o alvo e deixaram-nas cair no centro da capital, destruindo ca­
sas e matando civis. Os britânicos julgaram que o ataque havia sido propositado
e, em represália, bombardearam Berlim na noite seguinte.
O bombardeio de Berlim não teve grande relevância. Havia uma densa cama­
da de nuvens sobre a cidade nessa noite, e somente cerca de metade dos 81 bom­
bardeiros da Real Força Aérea que para lá foram enviados encontraram o alvo. Os
danos materiais foram insignificantes; mas o efeito sobre o moral dos alemães foi
tremendo, pois era a prim eira vez que haviam caído bombas em Berlim.

Os berlinenses estão estupefatos [escrevi em meu diário no dia seguin­


te, 26 de agosto]. Nunca pensaram que isso pudesse acontecer. Quando
começou a guerra, Gõring assegurou-lhes que jamais aconteceria (...)
Acreditaram nele. A desilusão é, portanto, maior ainda. É preciso ver-
lhes os rostos para se poder avaliá-la.

Berlim estava bem defendida por dois grandes anéis de peças antiaéreas e du­
rante três horas, enquanto os bombardeiros visitantes roncavam acima das nu­
vens, o que impedia que centenas de baterias de holofotes os colhessem em sua
luz, o fogo antiaéreo foi o mais intenso até então por mim presenciado. Mas não
foi derrubado um único avião. Os britânicos, também, lançaram alguns boletins
dizendo que “a guerra que Hitler começou continuará e durará enquanto Hitler
prosseguir nela”. Foi uma boa propaganda, mas a explosão das bombas que caíam
foi melhor.
A Real Força Aérea tornou a aparecer, em maior número, na noite de 28 para
29 de agosto, e, conforme anotei em meu diário, “pela primeira vez matou ale­
mães na capital do Reich”. As cifras oficiais foram: dez mortos e 29 feridos. Os
chefes nazistas sentiram-se ultrajados. Goebbels, que havia ordenado à imprensa
que publicasse apenas umas poucas linhas sobre o primeiro ataque, deu então
222 a g uerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o M OMENTO DECISIVO

instruções para que proclamasse a brutalidade dos aviadores britânicos em atacar


mulheres e crianças indefesas, em Berlim. A maioria dos diários da capital trazia
os mesmos cabeçalhos: Covarde ataque dos britânicos. Duas noites depois, após a
terceira invasão, diziam: Piratas aéreos britânicos sobre Berlim!

O principal efeito de uma semana de constantes bombardeios notur­


nos, da parte dos britânicos [escrevi em meu diário em lfi de setembro]
foi espalhar grande desilusão entre o povo e semear a dúvida em seu
espírito (...) Na verdade, os bombardeios não foram muito mortíferos.

Primeiro de setembro era o primeiro aniversário da guerra. Notei a má dis­


posição do povo, afora seus nervos abalados, por terem sido privados do sono, e
o temor causado pela surpresa dos bombardeios e o barulho terrível do fogo
antiaéreo.

Neste ano, as armas alemãs obtiveram vitórias até então inigualáveis na


brilhante história militar dessa nação agressiva e militarista. E, entre­
tanto, a guerra não foi ainda terminada nem vencida. Eles anseiam pela
paz e a desejam antes da chegada do inverno.

Hitler julgou necessário dirigir-lhes a palavra em 4 de setembro, por ocasião


da abertura da Campanha de Auxílios de Inverno no Palácio dos Esportes. Seu
comparecimento ali foi mantido em segredo até o último momento, aparente­
mente pelo receio de os aviões inimigos poderem tirar partido da camada de nu­
vens e dispersar a reunião, se bem que ela fosse realizada à tarde, uma hora antes
do anoitecer.
Raramente vi o ditador nazista mais sarcástico ou tão imbuído do que o povo
alemão considerava humor, não obstante ser ele um homem essencialmente des­
tituído de bom humor. Descreveu Churchill como ‘esse conhecido correspon­
dente de guerra”. Para “um personagem como Duff Cooper”, disse, “não existe
palavra no alemão convencional; somente os bávaros têm um vocábulo que des­
creve apropriadamente esse tipo de homem, e ele é uma Krampfhenn ”, palavra
que se poderia traduzir como “uma galinha velha e nervosa”.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 223

A loquacidade de Mr. Churchill ou de Mr. Eden [disse ele] — o respei­


to pela velhice proíbe que se mencione Mr. Chamberlain — nada signi­
fica para o povo alemão. Quando muito, o faz rir.

E Hitler continuou a fazer o público, composto principalmente de enfermeiras


e assistentes sociais, rir e, depois, aplaudir histericamente. Viu-se frente ao pro­
blema de responder a duas questões que pesavam bastante no espírito do povo
alemão: quando seria invadida a Inglaterra e o que seria feito com relação aos
bombardeios de Berlim e outras cidades alemãs. Quanto à primeira:

Na Inglaterra, eles estão cheios de curiosidade e vivem perguntando:


“Por que ele não vem?” Tenham calma. Tenham calma. Ele vai! Ele vai!

Os ouvintes acharam graça na piada, mas também acreditaram que era uma
inequívoca promessa. Quanto aos bombardeios, começou com uma típica falsi­
dade e terminou com uma sórdida ameaça:

Mesmo agora (...) Mr. Churchill está apresentando seu novo filho prodí­
gio, a incursão aérea noturna. Está executando essas incursões não por­
que prometam ser eficazes, mas por não poder sua força aérea voar à luz
do dia sobre a Alemanha (...) ao passo que os aviões alemães voam sobre
o solo inglês todos os dias (...) Toda vez que o inglês vê uma luz, deixa
cair uma bomba (...) sobre os distritos residenciais, granjas e aldeias.

E veio depois a ameaça:

Durante três meses não respondi, porque acreditei que cessariam tal
loucura. Mr. Churchill tomou isso como sinal de fraqueza. Estamos
agora respondendo noite por noite.
Quando a força aérea britânica lançar dois ou três ou quatro mil quilos
de bombas, lançaremos então, numa só noite, 150,230, 300 ou 400 mil
quilos.

A esse ponto do discurso, segundo meu diário, Hitler teve de fazer uma pausa
por causa dos aplausos histéricos de suas ouvintes alemãs.
224 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

“Quando eles declaram”, prosseguiu Hitler, “que aumentarão seus ataques con­
tra nossas cidades, nós arrasaremos então as suas”. Nesse ponto, observei, as jo­
vens damas ficaram fora de si e aplaudiram freneticamente. Quando serenaram, o
Führer acrescentou: “Com o auxílio de Deus, faremos cessar o trabalho desses
piratas aéreos noturnos!”
Ao ouvirem isso, anotei também que “as jovens alemãs começaram a pular e,
arquejantes, aos gritos, manifestaram sua aprovação”.
“Virá a hora”, concluiu Hitler, “em que um de nós cederá, e não será a Alema­
nha nacional-socialista!” Ao ouvirem essas palavras, finalmente anotei, “as deli­
rantes jovens apenas se controlaram para romper, com selvagens brados de alegria
em coro, que a Alemanha jamais cederia!”
Ciano, em Roma, ouvindo a transmissão — que foi feita horas depois por meio
de discos —, confessou que ficara perplexo. “Hitler devia estar muito nervoso”,
concluiu.35
Seus nervos foram fator importante na fatal decisão de passar, dos ataques
decisivos da Luftwaffe à luz do dia contra a Real Força Aérea, para os bombar­
deios maciços a Londres, à noite. Foi uma decisão política e militar, feita, em
parte, para vingar os bombardeios de Berlim e de outras cidades alemãs (que
eram simples alfinetadas comparadas com as que a Luftwaffe estava realizando às
cidades da Inglaterra) e destruir a vontade de resistir dos britânicos, arrasando
para isso sua capital. Se fossem bem-sucedidos — e Hitler e Goebbels não alimen­
tavam dúvidas a respeito —, talvez não fosse necessária a invasão.
E assim, às últimas horas da tarde de 7 de setembro, começou o grande ata­
que contra Londres. Os alemães lançaram nele, conforme vimos,* 625 bombar­
deiros e 648 caças. Mais ou menos às 17h desse sábado, a primeira leva de 320
bombardeiros, protegidos por todos os caças de que dispunham os alemães,
voou sobre o Tâmisa e começou a despejar suas bombas sobre o arsenal de
Woolwich, sobre várias fábricas de gás, usinas elétricas, armazéns e docas, nestas
últimas numa extensão de vários quilômetros. Toda aquela vasta área transfor­
mou-se logo num mar de chamas. Numa localidade, Silvertown, a população
ficou cercada pelos incêndios e teve de ser retirada por via fluvial. Às 20:1 Oh,
chegou uma segunda vaga de 250 bombardeiros que renovou o ataque, mantido
até as 4:30h de domingo por sucessivas levas de aviões. Na noite seguinte, às 19:30h,

* Ver p. 209.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 225

foi o ataque recomeçado por duzentos bombardeiros, prosseguindo durante toda


a noite. Foram mortas 842 pessoas e feridas 2.347, segundo o historiador oficial
britânico, durante essas duas primeiras noites, tendo sido infligidos consideráveis
danos à espalhada cidade.36 As incursões prosseguiram durante toda a outra se­
mana, noite após noite.*
E foi então que, estimulada pelos seus êxitos, ou o que julgavam que fosse, a
Luftwaffe decidiu levar a efeito um grande ataque diurno contra a castigada capi­
tal em chamas. Esse ataque, realizado no domingo, 15 de setembro, provocou
uma das batalhas decisivas da guerra.
Bombardeiros alemães em número de duzentos, aproximadamente, escolta­
dos por cerca de seiscentos caças, apareceram sobre o Canal por volta do meio-
dia, dirigindo-se para Londres. O Comando de Caças observara a concentração
dos atacantes em suas telas de radar e, portanto, achava-se preparado. Os alemães
foram interceptados antes de se aproximarem da capital. Alguns aviões consegui­
ram atravessar a barreira, muitos foram dispersados e outros abatidos antes de
poder descarregar suas bombas. Duas horas depois, voltou uma formação alemã
ainda mais forte, e foi rechaçada. Conquanto alegassem os britânicos terem abati­
do 185 aviões da Luftwaffe, a quantidade verdadeira, conforme se soube depois da
guerra pelos arquivos de Berlim, foi muito menor: 56, mas, deste número, 34 fo­
ram bombardeiros. A Real Força Aérea perdeu somente 26 aparelhos.
Aquele dia demonstrou que a Luftwaffe no momento não podia, depois de ter
dado ao Comando de Caças uma semana para se refazer, levar a efeito com êxito
um ataque diurno contra a Inglaterra. Dado isso, as perspectivas de um desem­
barque eficaz eram sombrias. O dia 15 de setembro, portanto, assinalou um ponto
crítico, como mais tarde julgou Churchill, da Batalha da Inglaterra. Embora
Gõring no dia seguinte — ao ordenar uma mudança de tática estabelecendo o
emprego de bombardeiros à luz do dia não para bombardear, mas, tão-somente,
para servir de chamariz aos caças britânicos — alardeasse que os caças inimigos
“haviam de ser liquidados dentro de quatro ou cinco dias”,37 Hitler e os coman­
dantes do exército e da marinha não acreditaram nisso; dois ou três dias após
aquela batalha decisiva, em 17 de setembro, conforme se notou, o Führer adiou
sine die a operação Leão do Mar.

* Naquela ocasião, as defesas noturnas não se achavam ainda aperfeiçoadas, tendo sido insignificantes
as perdas alemãs.
226 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Embora Londres devesse receber durante 57 noites consecutivas, de 7 de se­


tembro a 3 de novembro, terríveis ataques de, em média, duzentos bombardeiros,
a ponto de parecer quase certo a Churchill, conforme ele revelou mais tarde, que
a cidade logo estaria reduzida a um amontoado de destroços, e embora a maioria
das outras cidades da Inglaterra, sobretudo Coventry, devessem sofrer grandes
danos durante todo aquele sombrio período de outono e inverno, o moral britâ­
nico não decaiu, tampouco a produção de armamentos, conforme Hitler esperava
tão confiantemente. As fábricas de aviões, na Inglaterra, um dos principais objeti­
vos dos bombardeiros da Luftwaffe, produziram, na verdade, mais que as alemãs,
em 1940: 9.924 aparelhos contra 8.070. As perdas de Hitler na Inglaterra, em
bombardeiros, foram tão graves que não puderam ser compensadas. De fato, a
Luftwaffe, segundo os documentos confidenciais alemães deixam claro, não pôde
refazer-se inteiramente do golpe que recebeu nos céus da Inglaterra naquele verão
e naquele outono.
A marinha de guerra alemã, imobilizada pelas perdas ao largo das costas da
Noruega, no princípio da primavera, não podia, conforme seus chefes admitiram,
prover a força marítima para a invasão da Inglaterra. Sem isso e sem a supremacia
dos ares, o exército alemão se via incapacitado de cruzar as estreitas águas do
Canal. Pela primeira vez, na guerra, Hitler viu-se detido; seus planos de nova
conquista foram frustrados exatamente naquele momento em que, conforme vi­
mos, estava certo de haver alcançado a vitória final.
Jamais concebera — tampouco outros até aquele momento — que uma bata­
lha decisiva podia ser travada no ar. Talvez ainda nem tivesse percebido, ao apro­
ximar-se o inverno europeu, que um punhado de pilotos de caças britânicos, im­
pedindo sua invasão, preservara a Inglaterra tornando-a uma grande base para a
possível reconquista do continente, do oeste, em data posterior. Seus pensamen­
tos estavam, forçosamente, voltando-se para outro lugar; e de fato, conforme ve­
remos, já se haviam voltado.
Salvou-se a Inglaterra. Durante quase um milênio ela se defendera brilhante­
mente com seu poderio marítimo. Bem a tempo, seus chefes, poucos deles, reco­
nheceram nos anos que entremearam a guerra, a despeito de todas as confusões
(das quais estas páginas estão repletas), que a força aérea se tornara, em meio ao
século XX, um fator decisivo, e o pequeno avião de caça e seu piloto, o principal
escudo para a defesa. Como disse Churchill na Câmara dos Comuns em 20 de
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 22 7

agosto, em outra memorável peroração, quando a batalha se travava nos ares com
toda a violência e o resultado era duvidoso: “Nunca, no campo dos conflitos hu­
manos, tantos deveram tanto a tão poucos”.

Se a invasão fosse coroada de êxito

A ocupação da Inglaterra pela Alemanha não teria sido uma questão deli­
cada. Os documentos apreendidos aos alemães não deixam dúvida a respeito.
Em 9 de setembro, Brauchitsch, comandante-em-chefe do exército, assinou
uma diretiva dispondo que “a população masculina fisicamente capaz, de 17 a 45
anos de idade (na Inglaterra), a menos que a situação local exija uma decisão
excepcional, será internada e despachada para o continente”. Ordens para esse
fim foram expedidas dias depois pelo chefe do serviço de intendência, no OKH,
aos 9- e 162 Exércitos que se achavam concentrados para a invasão. Em qualquer
outro país conquistado, nem mesmo na Polônia, haviam os alemães começado
com medidas tão drásticas. As instruções de Brauchitsch traziam o título: “Or­
dens Relativas à Organização e à Função do Governo Militar na Inglaterra”, e
entravam em um sem-número de detalhes. Pareciam destinadas a assegurar uma
pilhagem sistemática da ilha e a implantar o terror entre seus habitantes. Organi-
zou-se, em 27 de julho, um “Estado-maior econômico-militar na Inglaterra”, para
consecução desse primeiro objetivo. Tudo deveria ser confiscado imediatamente,
exceto as provisões normais ao abastecimento de uma família. Far-se-iam reféns.
Qualquer pessoa que colocasse um cartaz de que os alemães não gostassem fica­
ria sujeita a execução sumária; estabelecer-se-ia uma penalidade similar para
aquelas que deixassem de entregar suas armas de fogo ou aparelhos de rádio
dentro de 24 horas.
Mas o verdadeiro terror seria imposto por Himmler e pelas S.S. Isso ficaria a
cargo da temível R.S.H.A.,* sob a direção de Heydrich. O homem designado para
dirigir suas atividades, em Londres, era um certo coronel das S.S., o professor dr.
Franz Six, outro dos peculiares vilões intelectuais que, no tempo dos nazistas, se
sentiram de um modo qualquer atraídos para servir na polícia secreta de Himmler.

* R.S.HA , iniciais da Repartição Central da Segurança do Reich (Reichssicherheitshauptamt) que, confor­


me se notou, assumiu em 1939 o controle da Gestapo, a Polícia Criminal e serviço de segurança, ou S.D.
228 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

O professor Six tinha deixado sua posição de deão da faculdade de economia da


Universidade de Berlim para unir-se ao S.D. de Heydrich, onde se especializou
em “questões científicas”, cujo lado fantástico fascinou o míope Heinrich Himm-
ler e seus sequazes. Do que escapou o povo britânico, por não ter tido em sua
presença o dr. Six, pode ser julgado pela sua carreira, mais tarde, na Rússia, onde
exerceu atividades no Einsatzgruppen das S.S., cujos elementos se distinguiram
em massacres em massa; uma das especialidades do professor foi desentocar e
capturar comissários políticos soviéticos para serem executados*
Revelam os arquivos apreendidos à R.S.H.A. que Gõring ordenou a Heydrich,
em le de agosto, que se pusesse em atividade. A Polícia de Segurança (S.S.) e o
serviço de segurança (S.D.) deviam

começar suas atividades simultaneamente com a invasão militar, a fim


de combater as inúmeras e importantes organizações e sociedades que,
na Inglaterra, fossem hostis à Alemanha, e apoderar-se delas.

No dia 17 de setembro que, por ironia, foi aquele em que Hitler adiou indefi­
nidamente a invasão, o professor Six foi formalmente nomeado para seu novo
posto na Inglaterra pelo dr. Heydrich. Recebeu as seguintes instruções:

Sua tarefa é combater, com todos os meios necessários, todas as organi­


zações e instituições antigermânicas e grupos de oposição, dos quais se
possa apoderar, na Inglaterra, para ser impedida a remoção de todo ma­
terial existente, a fim de que se possa centralizá-lo e salvaguardá-lo para
futuro aproveitamento. Designo Londres como sua sede (...) e autorizo-
o a estabelecer pequenos Einsatzgruppen em outras partes da Inglaterra,
conforme exigir a situação e à medida das necessidades.

Já em agosto, Heydrich havia verdadeiramente organizado seis Einsatzkomman-


do para a Inglaterra, os quais deviam operar de quartéis-generais em Londres,
Bristol, Birmingham, Liverpool, Manchester e Edinburgo — ou em Glasgow, caso
se encontrasse destruída a Ponte Forth. Deviam levar a efeito o terror nazista;

* O dr. Six foi condenado, em 1948, em Nuremberg, como criminoso de guerra, a vinte anos de prisão.
Foi, porém, posto em liberdade em 1952.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 229

para começar, deviam todos os que se achavam na Lista de Buscas Especiais, I.


[Inglaterra], que em maio havia sido compilada às pressas e quase indiferente­
mente por Walter Schellenberg, outro dos espertos jovens formados numa uni­
versidade, a serviço de Himmler, que era então chefe da Repartição IV E — con­
tra-espionagem — da R.H.S.A. Ou foi mais ou menos isso que ele alegou mais
tarde, se bem que nessa ocasião estivesse ocupado principalmente em Lisboa,
Portugal, na estranha missão de seqüestrar o duque de Windsor.
A Lista de Buscas Especiais, I. (die Sonderfahndungsliste> I.) figura entre os
documentos mais divertidos sobre a invasão que se encontraram nos arquivos de
Himmler, se bem que, naturalmente, o fim não fosse uma diversão. Encerra os
nomes de cerca de 2.300 pessoas preeminentes na Inglaterra, nem todas inglesas,
que a Gestapo achava importante encarcerar imediatamente. Churchill figura
nela, naturalmente, com diversos membros do gabinete e outros conhecidos polí­
ticos de todos os partidos. Redatores, editores e repórteres de destaque, incluindo
dois antigos correspondentes do Times em Berlim, Norman Ebbutt e Douglas
Reed, cujas matérias haviam desagradado os nazistas, aparecem na lista. Escrito­
res britânicos requerem especial atenção. O nome de Shaw acha-se ausente, mas
o de H. G. Wells nela figura com os de outros escritores, tais como Virgínia Woolf,
E. M. Forster, Aldous Huxley, J. B. Priestley, Stephen Spender, C. P. Snow, Noêl
Coward, Rebecca West, sir Philip Gibbs e Norman Angell. Não se omitiram tam­
bém os doutos. Entre eles: Gilbert Murray, Bertrand Russell, Harold Laski, Bea-
trice Webb e J. B. S. Haldane.
A Gestapo pretendia também aproveitar-se de sua estada na Inglaterra para
arrebanhar os emigrados estrangeiros e alemães. Paderewski, Freud* e Chaim
Weizmann apareciam em sua lista, bem como Benes e Jan Masaryk, presidente e
ministro das Relações Exteriores do governo tchecoslovaco no exílio. Dos refu­
giados alemães havia, entre outros, dois antigos amigos pessoais de Hitler que se
voltaram contra ele: Hermann Rauschning e Putzi Hanfstàngl.
Muitos nomes ingleses estavam escritos tão erradamente que se tornavam qua­
se irreconhecíveis e, às vezes, ligavam-se-lhes bizarras designações para identifi­
cá-los; como o de lady Bonham Carter, que figurava na lista como “Lady Carter-
Bonham” e era descrita não só como “née Violet Asquith” mas como “uma senhora
política do Encirclement”. Em seguida a cada nome, achava-se marcada a seção da

* O célebre psicanalista morreu em Londres, em 1939.


230 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o M OMENTO DECISIVO

R.S.H.A. que devia cuidar da pessoa visada. Churchill devia ser confiado à Repar­
tição VI — serviço secreto no Estrangeiro — mas a maioria à Repartição IV —
Gestapo.*
Esse Livro Negro nazista era na realidade o suplemento de um suposto manual
altamente secreto denominado Informationsheft, que Schellenberg declara tam­
bém ter escrito e cujo objetivo parece ter sido auxiliar os conquistadores a faze­
rem pilhagens na Inglaterra e, ali, esmagar as instituições antinazistas. É ainda
mais divertido que a Lista de Buscas. Entre as instituições perigosas, além das lo­
jas maçônicas e organizações judaicas, que mereciam “atenção especial” da
R.S.H.A., figuravam as “escolas públicas” (na Inglaterra, as escolas particulares), a
Igreja Anglicana, que era descrita como “poderoso instrumento dos políticos im­
perialistas da Inglaterra”, e os escoteiros, assinalados como “excelente fonte de
informações para o serviço secreto britânico”. Seu venerando chefe e fundador,
lorde Baden-Powell, devia ser preso imediatamente.
Tivessem os alemães tentado a invasão, não teriam sido recebidos delicada­
mente pelos ingleses. Churchill, mais tarde, confessou que muitas vezes pergun­
tava a si mesmo o que teria acontecido. De uma coisa estava certo:

O massacre teria sido, dos dois lados, tenebroso e formidável. Não teria
havido mercê nem quartel. Os alemães teriam usado o terror, e nós es-
taríamos preparados para ir até o fim da linha.38

Ele não diz especificamente como, mas Peter Fleming, em seu livro sobre a
operação Leão do Mar, cita uma das disposições. Os ingleses haviam decidido —
diz ele — como último recurso e caso falhassem outros métodos convencionais de
defesa — atacar os cabeças-de-ponte alemães com gás mostarda lançado de aviões
em vôo baixo. Era uma decisão dolorosa que se tomara, nas altas esferas, e — co­
menta Fleming — a decisão foi “cercada de sigilo na ocasião e, mesmo, depois”.39
Esse massacre especial em que Churchill meditava, o desencadear do terror
que a Gestapo arquitetava, não ocorreu nessa ocasião e nesse lugar pelos motivos

* Figuram na lista de prisão diversos americanos, inclusive Bernard Baruch, John Gunther, Paul
Robeson, Louis Fischer, Daniel de Luce (o correspondente da Associated Press que aparece na letra
"D" como "Daniel, de Luce — correspondente dos Estados Unidos") e M. W. Fodor, correspondente
do Daily News, de Chicago, muito conhecido pelos seus artigos contra o nazismo.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 231

que foram expostos neste capítulo. Mas em menos de um ano, em outra parte da
Europa, os alemães lançariam o terror numa escala jamais presenciada. Antes
mesmo de ter abandonado a idéia de invadir a Inglaterra, já Adolf Hitler havia
chegado a uma decisão. Voltar-se-ia contra a Rússia na primavera seguinte.

Postscriptum: o plano nazista de seqüestrar o


duque e a duquesa de Windsor

Mais divertida que importante, e que não deixa de revelar o lado ridículo dos
governantes do Terceiro Reich, naquele verão de suas grandes esperanças, é a his­
tória do plano nazista para seqüestrar o duque e a duquesa de Windsor e, com
isso, induzir o rei da Inglaterra a trabalhar com Hitler para a celebração da paz
com a Inglaterra. A evolução desse fantástico plano acha-se exposta minuciosa­
mente nos documentos que foram apreendidos no Ministério das Relações Exte­
riores do Reich40 e citada por Walter Schellenberg — o jovem chefe S.S.-S.D. de­
signado para levá-lo a efeito — em suas memórias.41
A idéia — informou Ribbentrop a Schellenberg — era de Hitler. O ministro das
Relações Exteriores nazista acolheu-a com todo o entusiasmo a que sua profunda
ignorância muitas vezes o lançava, e o seu gabinete, juntamente com os represen­
tantes diplomáticos na Espanha e Portugal, viu-se forçado a perder muito tempo
com o plano durante o sombrio verão de 1940.
Após a queda da França, em junho de 1940, o duque, que havia sido membro
da missão militar britânica junto ao Alto-Comando do exército francês, fugiu
com a duquesa para a Espanha para não serem capturados pelos alemães. Em 23
de junho, o embaixador alemão em Madri, Eberhard von Stohrer, um diplomata de
carreira, telegrafou a Berlim:

O ministro das Relações Exteriores da Espanha solicita informações


sobre o tratamento que deverá dispensar ao duque e à duquesa de Win­
dsor, os quais deviam chegar a Madri hoje, aparentemente a caminho
da Inglaterra, via Lisboa. O ministro das Relações Exteriores supõe que
talvez estivéssemos interessados em deter o duque aqui e, possivelmen­
te, estabelecer contato com ele. Peço telegrafarem suas instruções.
232 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Ribbentrop expediu, logo no dia seguinte, instruções telegráficas. Sugeriu


que “detivessem na Espanha por umas duas semanas” os Windsor, mas preveniu que
não deixassem transparecer “que a sugestão partira da Alemanha”. No dia seguin­
te, 25 de junho, Stohrer respondeu: “O ministro das Relações Exteriores [da Espa­
nha] prometeu fazer todo o possível para deter os Windsor durante certo tempo”.
O ministro, coronel Juan Beigbeder y Atienza, avistou-se com o duque e transmi­
tiu a conversa que tivera com o embaixador alemão, o qual informou Berlim por
telegrama secretíssimo, em 2 de julho, que Windsor não regressaria à Inglaterra,
a menos que sua esposa fosse reconhecida como membro da família real e dessem a
ele uma posição importante. Caso contrário, instalar-se-ia na Espanha, num cas­
telo que o governo de Franco lhe prometera.

O próprio Windsor pronunciou-se perante o ministro das Relações Ex­


teriores e outros conhecidos [acrescentou o embaixador] contra Chur­
chill e contra esta guerra.

Os Windsor partiram para Lisboa no princípio de julho e, no dia 11, o minis­


tro alemão dali informou Ribbentrop que o duque fora nomeado governador das
Bahamas, mas “pretendia adiar a partida para lá o mais rápido possível (...) espe­
rando uma reviravolta dos acontecimentos favorável a ele”.

Ele está convicto [prosseguiu o ministro] de que, se tivesse permaneci­


do no trono, ter-se-ia evitado a guerra, e manifestou-se como firme
baluarte de um acordo de paz com a Alemanha. O duque acredita real­
mente que um contínuo e severo bombardeio prepararia a Inglaterra
para a paz.

Essa informação estimulou o arrogante ministro das Relações Exteriores ale­


mão a expedir de seu trem especial, em Fuschl, um telegrama assinalado “muito
urgente, secretíssimo” à embaixada alemã, em Madri, tarde da noite daquele mes­
mo dia 11 de julho. Desejava que impedissem a partida do duque para as Baha­
mas, trazendo-o de volta para a Espanha, preferivelmente por meio de seus ami­
gos espanhóis: “Depois da volta do duque e da duquesa de Windsor à Espanha”,
aconselhou Ribbentrop, “deveriam persuadi-lo ou obrigá-lo a ficar em território
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 233

espanhol”. Se necessário, a Espanha poderia interná-lo como oficial inglês e tratá-


lo como “fugitivo militar”.

Em tempo oportuno [prosseguiu Ribbentrop] deve-se informar o duque


que a Alemanha deseja a paz com o povo inglês, que a facção de Chur­
chill impede que isso se realize e que seria conveniente que o duque se
mantivesse preparado para novos desenvolvimentos. A Alemanha está
decidida, por todos os meios, a forçar a Inglaterra a estabelecer a paz e,
acontecendo isso, estaria disposta a acomodar qualquer desejo expres­
so pelo duque, especialmente com vista à subida dele e da duquesa ao
trono da Inglaterra. Se o duque tiver outros planos, estando, porém,
disposto a cooperar no estabelecimento de boas relações entre a Ale­
manha e a Inglaterra, nós também estaremos dispostos a assegurar-
lhes, a ele e à mulher, uma subsistência que permitiria (...) levar uma
vida apropriada a um rei.*

O estulto ministro nazista, cuja experiência como embaixador em Londres


pouco lhe ensinara acerca dos ingleses, acrescentou que tinha informações de
que o “Serviço Secreto Britânico ia liquidar” o duque assim que chegasse às
Bahamas.
No dia seguinte, 12 de julho, o embaixador alemão em Madri conferenciou
com Ramón Serrano Suner, ministro do Interior da Espanha e cunhado de Fran­
co, o qual prometeu conseguir a colaboração do generalíssimo na execução do
seguinte plano: o governo espanhol enviaria a Lisboa um velho amigo do duque,
Miguel Primo de Rivera, líder madrilense da Falange e filho de um antigo ditador
espanhol. Rivera convidaria o duque para umas caçadas na Espanha e, também,
para conferenciar com o governo acerca das relações anglo-espanholas. Suner in­
formaria o duque sobre o plano do serviço secreto britânico que visava matá-lo.

O ministro [comunicou o embaixador alemão a Berlim] ainda fará,


então, um convite ao duque e à duquesa para que aceitem a hospita­
lidade espanhola e, possivelmente, um auxílio financeiro. Também se

* Cinqüenta milhões de francos suíços, depositados na Suíça, declarou Ribbentrop a Schellenberg,


acrescentando ainda que "o Führer está disposto a aumentar esta cifra".
234 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E o M OMENTO DECISIVO

poderia impedir por algum meio a partida do duque. Em todo esse


projeto, nos manteremos em segundo plano.

Rivera, segundo os documentos alemães, regressou de Lisboa a Madri após


sua primeira visita aos Windsor, em 16 de julho, e trouxe uma mensagem ao mi­
nistro das Relações Exteriores da Espanha, que a transmitiu ao embaixador ale­
mão, o qual, por sua vez, a telegrafou para Berlim. Churchill, dizia a mensagem,
designara o duque governador das Bahamas “numa carta muito fria e categórica”
e ordenara-lhe que partisse imediatamente para seu posto. “Churchill ameaçara
Windsor de conselho de guerra” se deixasse de ir. O governo espanhol concordou,
acrescentava o despacho, “em preveni-lo com toda a urgência, mais uma vez, que
não assumisse o cargo”.
Rivera voltou para uma segunda visita, em 22 de julho, e, no dia seguinte, o
embaixador alemão em Madri relatou suas descobertas num telegrama “urgentís­
simo e secretíssimo” a Ribbentrop.

Ele teve duas longas conferências com o duque de Windsor; na última,


a duquesa esteve presente. O duque manifestou-se livremente (...) Poli­
ticamente, achava-se cada vez mais afastado do rei e do atual governo
britânico. O duque e a duquesa receiam menos o rei, que era bastante
tolo, do que a arguta rainha, que fazia hábeis intrigas contra o duque e
especialmente contra a duquesa.
O duque cogitava fazer uma declaração pública (...) desaprovando a
atual política inglesa e rompendo com o irmão (...) O duque e a duque­
sa disseram que desejavam muito voltar à Espanha.

Para facilitar isso, o embaixador arranjou com Suner, acrescentava o telegra­


ma, para que enviasse outro emissário espanhol a Portugal “para persuadir o du­
que a deixar Lisboa, como se fosse fazer uma grande excursão de automóvel e a
cruzar depois a fronteira, num local já combinado, onde a polícia secreta espa­
nhola providenciaria para que a travessia fosse feita com segurança”.
Dois dias depois, o embaixador acrescentou novas informações de Rivera num
telegrama “urgente e estritamente confidencial” dirigido a Ribbentrop.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 235

Quando aconselhamos o duque a não ir às Bahamas e a regressar à Es­


panha, porque seria provavelmente chamado a exercer importante pa­
pel na política inglesa, assumindo possivelmente o trono da Inglaterra,
tanto ele quanto a duquesa se mostraram surpresos. Ambos (...) res­
ponderam que, segundo a constituição inglesa, isso não seria possível
depois da abdicação. Quando o emissário confidencial manifestou en­
tão sua esperança de que o curso da guerra talvez trouxesse modifica­
ções até mesmo na constituição da Inglaterra, ficaram pensativos, espe­
cialmente a duquesa.

Nesse despacho, o embaixador alemão lembrou a Ribbentrop que Rivera não


sabia de “qualquer interesse dos alemães pela questão”. O jovem espanhol, ao que
parecia, julgava estar agindo por conta de seu próprio governo.
Elaborou-se na última semana de julho o plano nazista para o seqüestro dos
Windsor. Walter Schellenberg foi designado pessoalmente por Hitler para pô-lo
em execução. Ele voou de Berlim para Madri, conferenciou com o embaixador
alemão ali e, depois, seguiu para Portugal, a fim de dar início à tarefa. Em 26 de
julho, pôde o embaixador aprimorar um longo “urgentíssimo e secretíssimo” des­
pacho para Ribbentrop esboçando o plano.

(...) Pode-se presumir que é firme a intenção do duque e da duquesa de


voltarem à Espanha. Para fortalecê-la, foi enviado hoje um segundo
emissário confidencial com uma carta habilmente dirigida ao duque; a
ela anexou-se o plano que se preparou, com toda a precisão, para levar
a efeito a travessia da fronteira.
De acordo com esse plano, o duque e a duquesa devem partir oficial­
mente para umas férias de verão nas montanhas, num local próximo à
fronteira espanhola, a fim de fazerem a travessia num ponto precisa­
mente designado, em determinada hora, no decurso de uma caçada.
Como o duque está sem passaporte, conquistar-se-á a adesão do fun­
cionário encarregado da fronteira.
À hora estabelecida, de conformidade com o plano, o primeiro emissá­
rio confidencial [primo de Rivera] deverá achar-se na fronteira com
forças espanholas convenientemente colocadas, a fim de garantir a
segurança da operação.
236 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Schellenberg, juntamente com seu grupo, está operando fora de Lisboa


com relação a esse mesmo objetivo.
Para esse fim, a viagem ao local das férias de verão e as próprias férias
serão vigiadas com o auxílio de um chefe de polícia português de toda
a confiança (...)
No exato momento da travessia da fronteira, conforme programado, o
grupo de Schellenberg deverá tomar a seu cargo as disposições de segu­
rança no lado português da fronteira e continuar com elas pelo territó­
rio espanhol, como escolta direta, a qual deverá ser trocada de tempos
em tempos sem chamar a atenção.
Para segurança de todo esse plano, o ministro [espanhol] escolheu ou­
tro agente secreto, uma mulher, que, se necessário, poderá comunicar-
se com o segundo agente secreto e, se necessário ainda, levar informa­
ções para o grupo de Schellenberg.
Estão sendo feitos preparativos para que o duque e a duquesa possam
alcançar a Espanha por avião, no caso de uma emergência que o serviço
secreto britânico possa suscitar. Nesse caso, da mesma maneira que na
execução do primeiro plano, o principal requisito é obter a disposição
de sair por meio de uma hábil influência psicológica sobre a pronuncia­
da mentalidade inglesa do duque, sem dar impressão de fuga, explo­
rando a ansiedade com relação ao serviço secreto britânico e a pers­
pectiva de ele exercer diretamente do solo espanhol uma atividade
política completamente livre.
Além da proteção em Lisboa, está sendo considerada, em caso de neces­
sidade, a possibilidade de induzir essa disposição de sair por meio de ma­
nobras atemorizadoras que se imputarão ao serviço secreto britânico.

Tal era o plano nazista para o seqüestro dos Windsor. Um plano desajeitado,
tipicamente alemão, que se via prejudicado pela habitual incapacidade de eles
compreenderem “a mentalidade inglesa do duque”.
As “manobras atemorizadoras” foram devidamente executadas por Schellen­
berg. Certa noite, ele providenciou para que se arremessassem pedras contra as
janelas da residência dos Windsor, fazendo depois circular boatos, entre os cria­
dos, que aquilo havia sido feito pelo Serviço Secreto Britânico. Mandou um buquê
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A M ALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 237

de flores à duquesa, com um cartão: “Tenha cuidado com as maquinações do


serviço secreto britânico. De um amigo português que se interessa pelo seu bem-
estar.” E, num relatório oficial a Berlim, informou que “uns tiros (sem outras con­
seqüências além de algumas janelas quebradas), programados para a noite de 30
de julho, foram disparados, porque o efeito psicológico sobre a duquesa somente
aumentaria o seu desejo de partir”.
O tempo estava passando. Em 30 de julho, Schellenberg anunciou a chegada
em Lisboa de sir Walter Monckton, um velho amigo do duque e importante fun­
cionário do governo britânico. Sua missão, obviamente, era conseguir que os
Windsor apressassem o quanto antes sua ida para as Bahamas. Nesse mesmo dia,
o embaixador alemão em Madri enviou um telegrama “urgentíssimo e secretíssi­
mo” a Ribbentrop, informando-o de que um agente alemão em Lisboa lhe tinha
comunicado que o duque e a duquesa planejavam partir em ls de agosto — dali a
dois dias. Em vista dessa informação, perguntava a Ribbentrop “se devemos, até
certo ponto, sair de nossa atitude de reserva”. Segundo o serviço secreto alemão,
continuou o embaixador, o duque manifestara a seu anfitrião, o banqueiro portu­
guês Ricardo do Espírito Santo Silva, o “desejo de entrar em contato com o Führer”.
Por que não arranjar um encontro entre Windsor e Hitler?
No dia seguinte, 31 de julho, em nova mensagem “urgentíssima e secretíssi­
ma” a Ribbentrop, comunicava-lhe que, segundo o emissário espanhol que aca­
bara de voltar de uma entrevista com os Windsor em Lisboa, o duque e a duque­
sa, conquanto “fortemente impressionados com as notícias das intrigas dos
ingleses contra eles e com o perigo que corria sua segurança pessoal”, ao que pa­
recia, estavam planejando partir em l2 de agosto, se bem que o duque procurasse
“ocultar a verdadeira data da partida”. O ministro do Interior espanhol, acrescen­
tava o embaixador, ia fazer “um último esforço para impedir que o duque e a
duquesa partissem”.
A notícia de que os Windsor pudessem partir tão cedo alarmou Ribbentrop.
De seu trem especial em Fuschl, expediu um telegrama “urgentíssimo e secretís­
simo” ao ministro alemão em Lisboa, à última hora da tarde daquele mesmo dia,
31 de julho. Pediu que o duque, por intermédio de seu anfitrião, o banqueiro por­
tuguês, fosse informado do seguinte:

Basicamente, a Alemanha deseja a paz com o povo inglês. A facção de


Churchill está entravando essa paz. Em conseqüência de o último apelo
238 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

de Hitler ter sido rejeitado, a Alemanha está decidida a forçar a Ingla­


terra a fazer a paz por todos os meios a seu alcance. Seria conveniente
que o duque se mantivesse preparado para os novos desenvolvimentos.
Nesse caso, a Alemanha estaria inclinada a cooperar intimamente com
o duque para desobstruir dificuldades a qualquer desejo expresso por
ele e pela duquesa (...) Se o duque e a duquesa tiverem outras intenções,
estando, porém, dispostos a colaborar para o estabelecimento de boas
relações entre a Alemanha e a Inglaterra, a Alemanha também estará
preparada para cooperar com o duque e a arranjar o futuro do casal de
conformidade com o desejo deles. O confidente português, com o qual
o duque está residindo, deve fazer os maiores esforços para impedir a
partida deles amanhã, porque temos em nosso poder informações se­
gundo as quais Churchill pretende manter o duque em seu poder, nas
Bahamas, a fim de conservá-lo ali permanentemente; e também porque
o estabelecimento de contato num momento apropriado, com o duque,
nas ilhas Bahamas, apresentaria as maiores dificuldades para nós (...)

A mensagem urgentíssima do ministro das Relações Exteriores alemão che­


gou à legação pouco antes da meia-noite. O ministro alemão avistou-se com o sr.
Espírito Santo no decurso da madrugada e instou para que ele passasse as infor­
mações ao seu distinto hóspede. Foi o que o banqueiro fez na manhã de Ia de
agosto, e, segundo um despacho da legação, o duque ficou profundamente im­
pressionado.

O duque rendeu homenagem ao Führer pelo seu desejo de paz, a qual


estava de completo acordo com seu próprio ponto de vista. Estava fir­
memente convencido de que fosse ele o rei, não se chegaria à guerra.
Acolheu prazerosamente o apelo de cooperar, num tempo apropriado,
no estabelecimento da paz. Contudo, no atual momento, ele devia se­
guir as ordens oficiais de seu governo. Desobedecê-las seria revelar pre­
maturamente suas intenções, criar um escândalo e privá-lo de seu pres­
tígio na Inglaterra. Estava também convicto de que o atual momento
era demasiado cedo para ele aparecer, porque não havia ainda inclina­
ção na Inglaterra para uma aproximação com a Alemanha. Mas estaria
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A M ALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 239

pronto a voltar imediatamente assim que se modificasse essa disposição


de espírito (...) Ou a Inglaterra ainda o chamaria, o que ele considerava
inteiramente possível, ou a Alemanha manifestaria o desejo de nego­
ciar com ele. Em ambos os casos estava preparado para qualquer sacri­
fício pessoal e pronto para servir sem a mais leve ambição pessoal.
Permaneceria em comunicação constante com seu anfitrião, com quem
combinara uma palavra em código, à recepção da qual voltaria imedia­
tamente.

Para consternação dos alemães, o duque e a duquesa partiram na noite de lfi


de agosto no vapor americano Excalibur. Numa comunicação final sobre o fracas­
so de sua missão, feita num longo telegrama dirigido ao “ministro das Relações
Exteriores (Ribbentrop), pessoalmente”, no dia seguinte, Schelenberg declarou
que fizera todo o possível, até o último momento, para impedir a partida. Insta­
ram junto ao irmão de Franco, que era o embaixador da Espanha em Lisboa, para
que fizesse ainda um apelo de última hora aos Windsor para que não partissem.
O automóvel que transportava a bagagem do casal foi sabotado, informou Schel­
lenberg, a fim de que chegasse atrasado ao navio. Os alemães espalharam boatos
de que havia sido colocada uma bomba-relógio no barco. Os funcionários portu­
gueses revistaram-no de alto a baixo, atrasando com isso a saída.
Os Windsor, contudo, partiram nessa noite. O plano nazista falhara. Schellen­
berg, em seu último relatório a Ribbentrop, atribui o fracasso à influência de
Monckton, ao desastre do “plano espanhol” e à “mentalidade do duque”.
Há ainda um último documento sobre o plano nos papéis apreendidos dos
arquivos do Ministério do Exterior alemão. Em 15 de agosto, o ministro alemão
em Lisboa telegrafou a Berlim: “O confidente acabou de receber um telegrama do
duque, das Bermudas, pedindo-lhe que lhe comunique assim que for aconselhá­
vel agir. Deve-se dar alguma resposta?”
Não se encontrou resposta nos documentos da Wilhelmstrasse. Em meados
de agosto, Hitler resolveu conquistar a Inglaterra por meio de força armada. Não
havia necessidade de descobrir um novo rei para a Inglaterra. A ilha, como to­
dos outros territórios conquistados, seria governada de Berlim. Ou assim pen­
sou Hitler.
Não é preciso dizer mais sobre essa curiosa história, conforme foi contada pelos
documentos secretos alemães e acrescida por Schellenberg — a menos fidedigna
240 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

das fontes — se bem que seja difícil acreditar que tivesse inventado seu próprio
papel, o qual, ele admite, era absolutamente ridículo.
Numa declaração feita através de seus procuradores em Londres, em l2 de
agosto de 1957, após ter sido permitida a publicação dos documentos alemães, o
duque tachou as comunicações entre Ribbentrop e os embaixadores em Espanha
e Portugal de ‘completas invencionices e, em parte, de terem distorcido a verda­
de”. Windsor explicou que ao tempo em que estava em Lisboa, em 1940, esperan­
do partir para as Bahamas, “certas pessoas”, que ele descobrira serem simpatizan­
tes dos nazistas, fizeram definidos esforços para persuadi-lo a voltar para a
Espanha e não assumir seu cargo de governador.
“Foi-me até mesmo dado a entender que a duquesa e eu correríamos risco
pessoal se partíssemos para as Bahamas”, disse ele. “Em tempo algum alimentei
qualquer idéia de concordar com tal sugestão, que tratei com o desprezo que ela
merecia.”
O Ministério das Relações Exteriores britânico expediu uma declaração for­
mal de que o duque jamais vacilou em sua lealdade para com a Inglaterra durante
a guerra.42
CAPÍTULO 6

“Barbarossa”: a vez da Rússia

Enquanto Hitler se ocupava, naquele verão de 1940, em dirigir a conquista do


Ocidente, Stalin estava tirando partido das preocupações do Führer; movimen­
tando suas tropas para os Estados bálticos e estendendo-as para os Bálcãs.
Eram aparentemente amistosas as relações entre as duas grandes ditaduras.
Molotov agindo para Stalin não perdia a oportunidade de louvar e lisonjear os
alemães todas as ocasiões em que se verificava um novo ato de pressão ou uma nova
conquista. Quando a Alemanha invadiu a Noruega e a Dinamarca, em 9 de abril de
1940, o Comissário dos Negócios Estrangeiros dos sovietes apressou-se em infor­
mar o embaixador von der Shulenburg, em Moscou, na mesma manhã, que “o go­
verno soviético compreendia as medidas que a Alemanha se via forçada a tomar”.
“Desejamos à Alemanha completo êxito em suas medidas defensivas”, declarou.1
Um mês depois, quando o embaixador alemão visitou Molotov para informá-
lo oficialmente do ataque da Wehrmacht, no Ocidente, Ribbentrop instruiu seu
enviado para que explicasse que “a Alemanha se vira forçada a fazê-lo para impe­
dir que os anglo-franceses investissem contra o Ruhr pela Bélgica e a Holanda”. O
estadista soviético novamente manifestou sua satisfação. “Molotov recebeu a co­
municação com espírito compreensivo”, telegrafou Schulenburg a Berlim, “acres­
centando que compreendia que a Alemanha devia proteger-se contra o ataque
anglo-francês. Ele não duvidava de nosso êxito”.2
Em 17 de junho, dia em que a França pediu o armistício, Molotov convocou
Schulenburg a seu escritório “e exprimiu as mais calorosas felicitações do governo
soviético pelo esplêndido êxito da Wehrmacht alemã”.
O comissário dos Negócios Estrangeiros tinha algo mais a dizer e o que disse
não soou de modo muito agradável aos ouvidos dos alemães. Informou ao embai­
xador alemão, conforme telegrama urgentíssimo que ele enviou a Berlim, sobre “a
ação soviética contra os Estados bálticos”, acrescentando — e pode-se quase ver os
242 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E o M OMENTO DECISIVO

olhos de Molotov se iluminarem — “que se tornara necessário dar paradeiro a


todas as intrigas, pelas quais a Inglaterra e a França procuravam semear a discór­
dia entre a Alemanha e a União Soviética, nos Estados bálticos”.3Para dar paradei­
ro a tal discórdia, o governo soviético — acrescentou Molotov — enviou “emissá­
rios especiais” aos três países bálticos. Eles eram, de fato, três dos melhores
sequazes de Stalin: Dekanozov, enviado à Lituânia; Vishinsky, à Letônia; e Zhda-
nov, à Estônia.
Os emissários executaram suas atribuições com a meticulosidade que seria de
se esperar do trio, especialmente Vishinsky e Zhdanov. Já em 14 de junho, dia em
que as tropas alemãs entraram em Paris, o governo soviético havia enviado, à Li­
tuânia, um ultimato com o prazo de nove horas exigindo a resignação do governo,
a prisão de alguns de seus funcionários-chave e o direito de enviar para ali tantos
soldados do Exército Vermelho quantos lhe aprouvesse. Embora o governo lituano
aceitasse o ultimato, Moscou julgou a aceitação “não satisfatória” e no dia seguin­
te, 15 de junho, tropas soviéticas ocupavam o país, o único dos Estados bálticos
limítrofe com a Alemanha. Durante os dois dias seguintes, ultimatos semelhantes
dos soviéticos foram expedidos à Letônia e à Estônia, depois dos quais ambos os
países foram, igualmente, invadidos pelo Exército Vermelho.
Stalin podia ser tão rude e desumano quanto Hitler nessas questões — e até
mais cínico. Tendo sido suprimida a imprensa, presos os líderes políticos e decla­
rados ilegais todos os partidos, exceto o comunista, os russos encenaram eleições
nos três países em 14 de julho. Depois de os parlamentos assim eleitos terem vo­
tado a incorporação de seus países à União Soviética, o Soviete Supremo (parla­
mento) da Rússia admitiu-os na pátria-mãe: a Lituânia em 3 de agosto, a Letônia
no dia 5 e a Estônia no dia 6.
Adolf Hitler sentiu-se humilhado; ocupado, porém, como estava, em organi­
zar a invasão da Inglaterra, nada pôde fazer a respeito. As cartas dos emissários
dos três Estados bálticos, em Berlim, protestando contra a agressão russa, foram
devolvidas por ordem de Ribbentrop. Para humilhar ainda mais os alemães,
Molotov ordenou-lhes bruscamente, em 11 de agosto, que liquidassem suas lega-
ções em Kaunas, Riga e Tallinn dentro de 15 dias e fechassem seus consulados,
nos Estados bálticos, por volta de P de setembro.
A conquista dos Estados bálticos não satisfez o apetite de Stalin. O colapso
surpreendentemente rápido dos exércitos anglo-franceses incitou-o a obter tudo
“ba r b a r o ssa ”: a vez DA RÚSSIA 243

o que pudesse enquanto era fácil. Achou, evidentemente, que não tinha tempo a
perder. Em 23 de junho, dia que se seguiu à capitulação formal dos franceses e à
assinatura do armistício em Compiègne, Molotov chamou novamente o embaixa­
dor nazista em Moscou e declarou-lhe que “a solução da questão da Bessarábia
não mais comportava delongas. O governo soviético estava resolvido a empregar
a força, caso o governo romeno rejeitasse um acordo pacífico. Esperava que a
Alemanha não criasse embaraços e apoiasse os soviéticos em sua ação”. Além dis­
so, “as reivindicações soviéticas se estendiam também sobre a Bucovina”.4A Bes­
sarábia fora tomada à Rússia pela Romênia no fim da Primeira Guerra Mundial,
mas a Bucovina jamais havia pertencido à Rússia, tendo ficado sob o domínio da
Áustria até 1919, quando lhe foi arrebatada pela Romênia. Por ocasião das nego­
ciações em Moscou para a realização do pacto nazi-soviético, Ribbentrop, confor­
me lembrou então a Hitler que o inquiriu a respeito, havia sido obrigado a entre­
gar a Bessarábia à esfera de interesses da Rússia, mas não cedera a Bucovina.
Houve certo alarme em Berlim, que se estendeu até o quartel-general do OWK
no Ocidente. A Wehrmacht dependia vitalmente do petróleo da Romênia, e a
Alemanha precisava dos produtos alimentícios e forragens que também recebia
dali. Perderia isso se o Exército Vermelho ocupasse a Romênia. Tempos atrás, em
23 de maio, no auge da batalha da França, o Estado-maior geral romeno enviou
um pedido de socorro ao OKW, informando-o de que as tropas soviéticas esta­
vam se concentrando nas fronteiras. Jodl resumiu a reação no quartel-general de
Hitler, em seu diário, no dia seguinte: “A situação no leste está se tornando amea­
çadora por causa da concentração de forças russas contra a Bessarábia.”
Na noite de 26 de junho, a Rússia entregou um ultimato à Romênia exigindo a
cessão da Bessarábia e do norte da Bucovina e insistindo numa resposta no mes­
mo dia. Ribbentrop, alarmado, expediu imediatamente instruções, de seu trem
especial, a seu ministro em Bucareste, ordenando-lhe que aconselhasse o governo
romeno a ceder, o que foi feito em 27 de junho. As tropas soviéticas entraram, no
dia seguinte, nos territórios recentemente conquistados, e Berlim suspirou ali­
viada. Ao menos as ricas fontes de petróleo e alimentos não haviam sido cortadas
ao deixar a Rússia de abocanhar toda a Romênia.
Evidenciava-se, de seus atos e dos documentos secretos alemães, que Stalin,
embora estivesse agindo para conseguir tudo o que pudesse na Europa Oriental,
enquanto os alemães se vissem amarrados no Ocidente, não desejava ou não es­
perava um rompimento com Hitler.
244 A GUERRA*. PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOM ENTO DECISIVO

No fim de junho, Churchill procurou prevenir Stalin, numa carta pessoal, do


perigo que as conquistas da Alemanha representavam para a Rússia, assim como
para a Inglaterra.5O ditador soviético não se deu ao trabalho de responder; pro­
vavelmente, como quase todos os demais, julgava que a Inglaterra estivesse liqui­
dada. Tratou de informar aos alemães do que o governo britânico estava traman­
do. Sir Stafford Cripps, um líder da ala esquerda do Partido Trabalhista que o
primeiro-ministro mandara às pressas a Moscou como embaixador britânico, na
esperança de despertar mais interesse e simpatia da parte dos bolcheviques —
uma esperança frustrada, como admitiu pesarosamente mais tarde —, foi recebi­
do por Stalin no princípio de julho, numa entrevista que Churchill descreveu
como “formal e frígida”. Em 13 de julho, Molotov, seguindo instruções de Stalin,
entregou ao embaixador alemão um memorando relatando aquela conversação
confidencial.
É um documento interessante. Revela, como nenhuma outra fonte, as severas
limitações do ditador soviético em seus cálculos frios em relação aos negócios
externos. Schulenburg apressou-se em transmiti-lo a Berlim numa mensagem ur­
gentíssima e, naturalmente, secreta. Ribbentrop ficou tão satisfeito com o conteú­
do que disse ao governo soviético “ter apreciado bastante essa informação”. Cripps
insistira junto a Stalin, diz o memorando, para que tomasse uma atitude sobre
esta principal questão, entre outras:

O governo britânico estava convencido de que a Alemanha procurava


conseguir a hegemonia na Europa (...) Isso era perigoso para a União
Soviética e também para a Inglaterra. Por conseguinte, ambos os países
deviam fazer um acordo sobre uma política comum de proteção
própria contra a Alemanha e sobre o restabelecimento do equilíbrio
de forças na Europa (...)

As respostas de Stalin são dadas como segue:

Ele não via qualquer perigo de hegemonia de qualquer país na Europa


e ainda menos qualquer perigo de que a Europa pudesse ser tragada
pela Alemanha. Stalin observava a política da Alemanha e conhecia
bem vários estadistas ilustres desse país. Não descobrira qualquer desejo
“b a r b a r o ssa ”: a v e z d a r ú s s ia 245

da parte deles de tragar países europeus. Stalin não era de opinião que
os êxitos militares alemães ameaçassem a União Soviética e relações
amistosas suas com a Alemanha (...)6

Tão desconcertante ingenuidade, tão profunda ignorância, é de deixar qual­


quer um atônito. O tirano russo não sabia, naturalmente, os segredos da túrgida
mente de Hitler, mas a conduta passada dele, suas conhecidas ambições e con­
quistas, inesperadamente rápidas, deviam ter sido suficientes para preveni-lo do
terrível perigo em que a União Soviética se encontrava. Mas — é incompreensível
— não eram suficientes.
Dos documentos apreendidos aos nazistas e do testemunho de muitas das
principais figuras alemãs no grande drama que estava sendo representado, naque­
le ano, em vasta extensão da Europa Ocidental, evidencia-se que, naquele mesmo
momento da monumental complacência de Stalin, Hitler martelava em seu espí­
rito a idéia de se voltar contra a União Soviética para destruí-la.
Essa idéia básica remontava há 15 anos, pelo menos, à Minha luta.

E assim nós, nacional-socialistas [escreveu Hitler] recomeçamos onde


nos interrompemos há seiscentos anos. Vamos deter o interminável
movimento ao sul e a oeste da Europa e voltar nossas vistas para os
países do leste (...) Quando hoje falamos em novo território na Europa,
devemos pensar principalmente na Rússia e nos seus estados vassalos
limítrofes. O próprio destino parece assinalar-nos o caminho nesse
ponto (...) Esse colossal império no leste está amadurecido para a disso­
lução, e o fim do domínio judaico na Rússia será também o fim da Rús­
sia como Estado.7

Essa idéia jazia como coisa básica no espírito de Hitler, e seu pacto com Stalin
não a modificara absolutamente. Apenas fora protelada sua execução, mas por
breve tempo. De fato, menos de dois meses após o pacto ter sido assinado e utili­
zado para destruir a Polônia, o Führer deu instruções ao exército para que o terri­
tório conquistado à Polônia fosse considerado “área de concentração para as futu­
ras operações alemãs”. A data era 18 de outubro de 1939. Halder registrou-a nesse
dia em seu diário.
246 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

Cinco semanas depois, em 23 de novembro, quando arengava seus relutantes


generais sobre o ataque no Ocidente, não estava fora de suas cogitações a Rússia.
“Somente poderem os atacar a Rússia”y declarou, “quando estivermos livres no
Ocidente .” Nesse tempo, a guerra de duas frentes — o pesadelo que havia um sé­
culo pesava sobre os generais alemães — preocupava muito o espírito de Hitler, e
ele discorreu largamente sobre o assunto nessa ocasião. Não ia repetir o erro dos
antigos governantes alemães: continuaria a proceder de maneira a que o exército
tivesse uma única frente de cada vez.
Era natural, pois, que com a queda da França, com o exército britânico lan­
çado para o outro lado do Canal e as perspectivas de colapso iminente na Ingla­
terra, Hitler voltasse mais uma vez os pensamentos para a Rússia. Supunha-se,
agora, livre no Ocidente, e, com isso, que era chegada a condição que traçara a
fim de estar em situação de “atacar a Rússia”. A rapidez com que Stalin conquistara
os Estados bálticos e as duas províncias romenas, em junho, incitou Hitler a to­
mar uma decisão.
Pode-se agora ver como se elaborou a decisão. Diz Jodl que a “decisão funda­
mental” foi tomada “já durante a campanha no Ocidente”.8O coronel Walter War-
limont, representante de Jodl no OKW, lembra-se de que, em 29 de julho, Jodl
anunciou, num encontro dos oficiais da divisão de operações, que “Hitler preten­
dia atacar a URSS na primavera de 1941”. Algum tempo antes dessa conferência,
relatou Jodl, Hitler informara Keitel de “que pretendia desfechar o ataque contra
a URSS durante o outono de 1940”. Isso, porém, não convinha até mesmo a Keitel.
Procurou convencer Hitler a renunciar à idéia, explicando-lhe que as más condi­
ções atmosféricas no outono e as dificuldades para transferir o grosso do exército
do oeste para leste tornavam a operação impossível. Ao tempo dessa conferência,
29 de julho, relata Warlimont, “a data para o pretendido ataque [contra a Rússia]
havia sido novamente marcada para a primavera de 1941”.9
Apenas uma semana antes — sabe-se pelo diário de Halder10 —, sustentou
o Führer a possibilidade de levar a efeito a campanha contra a Rússia durante o
outono, se a Inglaterra não fosse invadida. Numa conferência militar realizada em
Berlim no dia 21 de julho, ele ordenou a Brauchitsch que tratasse de fazer os pre­
parativos. Que o comandante-em-chefe do exército e seu Estado-maior já tives­
sem pensado no problema — mas não o bastante — evidencia-se pela sua respos­
ta a Hitler. Brauchitsch informou-o de que a campanha “duraria de quatro a seis
“b a r b a r o ss a ”: a v e z d a r ú s s ia 247

semanas” e que o objetivo seria “derrotar o exército russo ou, pelo menos, ocupar
território russo suficiente de modo a impedir que bombardeiros soviéticos alcan­
çassem Berlim ou a área industrial da Silésia, enquanto, por outro lado, os bom­
bardeiros da Luftwaffe pudessem atingir todos os objetivos importantes da União
Soviética”. Brauchitsch achava que de oitenta a cem divisões alemãs poderiam
executar a tarefa; estimou as forças russas em torno de “cinqüenta a setenta boas
divisões”. As notas de Halder sobre o que Brauchitsch lhe contou da conferência
demonstram que Hitler se vira melindrado pelas conquistas de Stalin no leste,
achando que o ditador soviético estava “galanteando a Inglaterra” a fim de enco-
rajá-la a resistir, mas que ele não vira sinais de que a Rússia estivesse se preparan­
do para entrar em guerra contra a Alemanha.
Numa nova conferência, em Berghof, no último dia de julho de 1940, as
perspectivas de uma invasão da Inglaterra tornando-se cada vez mais distantes
fizeram com que Hitler anunciasse, pela primeira vez, aos chefes do exército, sua
decisão com relação à Rússia. Halder achava-se presente nessa ocasião e anotou
taquigraficamente as palavras exatas proferidas pelo chefe nazista.11 Elas reve­
lam não só que Hitler tomara definitivamente a decisão de atacar a Rússia na
primavera seguinte, mas, também, de que traçara em seu espírito os principais
objetivos estratégicos.

A Inglaterra deposita suas esperanças na Rússia e na América [disse


Hitler]. Se as esperanças que ela deposita na Rússia forem destruídas,
dar-se-á o mesmo com relação à América, porque a eliminação da Rús­
sia aumentará enormemente o poderio do Japão no Extremo Oriente.

Quanto mais meditava, tanto mais estava convencido — declarou Hitler — de


que a obstinada decisão da Inglaterra em continuar a guerra era devida a contar
com a União Soviética.

Algo estranho [explicou] aconteceu na Inglaterra! Os britânicos já ha­


viam tombado completamente.* Tornaram agora a levantar-se. Inter-
ceptaram-se conversações. A Rússia acha-se sobremodo preocupada
com o rápido desenrolar da situação na Europa Ocidental.
* Halder usa a palavra inglesa down no texto alemão.
248 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Basta a Rússia dar a entender à Inglaterra que não deseja ver a Alema­
nha muito forte, e os ingleses, como um homem a afogar-se, reconquis­
tarão a esperança de que a situação estará completamente mudada da­
qui a seis ou oito meses.
Mas se a Rússia for esmagada, ficará destruída a última esperança da
Inglaterra. A Alemanha será então senhora da Europa e dos Bálcãs.
Decisão: em vista dessas considerações, a Rússia deve ser liquidada. Pri­
mavera de 1941.
Quanto mais cedo, melhor *

O chefe nazista estendeu-se depois sobre seus planos estratégicos, os quais —


para os generais era óbvio — estivera amadurecendo em seu espírito durante al­
gum tempo, a despeito de todas as preocupações com a luta no Ocidente. Valeria
a pena, disse ele, executar a operação nem que seu objetivo fosse apenas esmagar
a nação soviética num só grande golpe. Não bastaria a conquista de uma parcela
do território russo. “Eliminar completamente a própria capacidade da Rússia de
existir! Eis o objetivo!”, acentuou Hitler. Haveria dois ataques iniciais: um, no sul
de Kiev e do rio Dnieper; outro, no norte, pelos Estados bálticos e depois em di­
reção a Moscou. Ali, os dois exércitos fariam uma junção. Se necessário, depois
dessa operação especial, conquistariam-se os campos petrolíferos de Baku. A pró­
pria idéia dessas novas conquistas empolgava Hitler; ele já tinha em mente o que
faria com elas. Anexaria imediatamente à Alemanha — disse — a Ucrânia, a Rús­
sia Branca e os Estados bálticos, e estenderia o território da Finlândia até o mar
Branco. Escalaria, para toda a operação, 120 divisões, mantendo sessenta para a
defesa do Ocidente e da Escandinávia. O ataque, traçou ele, começaria em maio
de 1941 e levaria cinco meses para ser completado. Estaria terminado no inverno.
Teria preferido fazer nesse ano — disse —, mas tudo demonstrava não ser possível.
No dia seguinte, 1Gde agosto, Halder pôs-se a trabalhar nos planos com seu
Estado-maior geral. Embora alegasse mais tarde que se opusera a toda aquela idéia
de ataque contra a Rússia, tachando-a de insana, o registro em seu diário, nesse
dia, revela todo o seu entusiasmo ao entregar-se à nova e desafiadora tarefa.
Procedeu-se ao traçado dos planos com a típica meticulosidade alemã, nos três
níveis: no Estado-maior geral do exército, junto aos elementos da divisão de ope­
rações sob a direção de Warlimont; no OKW; na seção de economia e armamentos
* Grifo de Halder.
“ba rb a ro ssa ”: a VEZ DA RÚSSIA 249

do OKW, sob a direção do general Thomas. Gõring instruiu Thomas, em 14 de


agosto, de que Hitler desejava que as entregas de mercadorias encomendadas pe­
los russos “somente fossem feitas na primavera de 1941”.* Entrementes, seu de­
partamento devia fazer um estudo minucioso da indústria, dos transportes e dos
centros petrolíferos soviéticos, como orientação para os objetivos e, mais tarde,
como auxílio para administrar a Rússia.
Dias antes, em 9 de agosto, Warlimont expediu sua primeira diretiva para a
preparação das áreas de desdobramento de forças no leste para o assalto contra os
russos. O nome em código para isso era Aufbau Ost (Construção Leste). Em 26 de
agosto, Hitler ordenou que fossem enviadas do Ocidente para a Polônia duas di­
visões blindadas e dez de infantaria. As unidades panzer, estipulou ele, deviam ser
concentradas no sudeste da Polônia, a fim de poderem intervir e proteger os campos
petrolíferos da Romênia.13A transferência de grandes corpos de tropas para leste**
não podia ser feita sem provocar facilmente as suspeitas de Stalin, se dela soubes­
se, e os alemães empenharam-se bastante para que ele não soubesse. Como alguns
movimentos não podiam deixar de ser percebidos, o general Ernst Kõstring,
adido militar alemão em Moscou, foi instruído para informar o Estado-maior
geral soviético de que se tratava apenas de uma substituição de soldados mais
velhos, que iriam servir nas indústrias, por outros mais novos. Em 6 de setembro,
Jodl expediu uma diretiva traçando minuciosamente os meios de camouflage e de
despistamento. “Esses reagrupamentos”, traçou ele, “não devem criar na Rússia a
impressão de que estamos preparando uma ofensiva no leste”.14
As forças armadas não devem, pois, descansar sobre seus louros depois das
grandes vitórias do verão, declarou Hitler em 12 de novembro de 1940, numa di­
retiva secretíssima e compreensiva em que traçava as novas tarefas militares em
toda a Europa e mais além. Voltaremos a falar sobre algumas delas. O que nos
preocupa agora é a que diz respeito à União Soviética.

* Em seu relatório a respeito, Thomas assinala o quanto as entregas das mercadorias pela Rússia à
Alemanha eram feitas pontualmente, nessa ocasião. De fato, diz ele, os russos continuaram a ser"muito
corretos até o início do ataque", e observa, não sem certa graça, que "mesmo durante os últimos dias,
os embarques de borracha, procedentes da índia, haviam sido completados (pelos russos) por trens
expressos"— presumivelmente pela Estrada de Ferro Transiberiana.12
** Os alemães conservaram somente sete divisões na Polônia, duas das quais foram transferidas para o
Ocidente durante a campanha da primavera. As tropas ali, troçou Halder, mal bastavam para manter o
serviço alfandegário. Se Stalin tivesse atacado a Alemanha em junho de 1940, o Exército Vermelho
poderia ter atingido Berlim antes que se organizasse qualquer resistência séria.
250 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

Iniciaram-se discussões políticas com o objetivo de esclarecer a atitude


da Rússia no momento atual. Independentemente dos resultados des­
sas discussões, deverão ser continuados todos os preparativos para a
operação no leste já ordenados verbalmente. Seguirão instruções a res­
peito assim que o esboço geral dos planos de operações do exército fo­
rem submetidos a mim e por mim aprovados.15

O fato é que, naquele mesmo dia, 12 de novembro, Molotov chegou a Berlim


para continuar com o próprio Hitler as discussões políticas.

Molotov em Berlim

As relações entre Berlim e Moscou tinham assumido, havia alguns meses, uma
feição desagradável. Uma coisa era Stalin e Hitler traírem terceiros e outra traí­
rem-se mutuamente. Hitler nada pudera fazer para impedir que os russos aboca­
nhassem os Estados bálticos e as duas províncias romenas da Bessarábia e norte
da Bucovina, e a frustração apenas aumentou seu já crescente ressentimento. A
investida russa para o oeste teria de ser contida e, sobretudo, na Romênia, cujos
recursos petrolíferos eram de importância vital para a Alemanha que, por causa
do bloqueio britânico, não mais podia importar petróleo por via marítima.
Para complicar o problema de Hitler, a Hungria e a Bulgária também exigiram
parcelas do território romeno. De fato, a Hungria, ao aproximar-se o fim do verão
de 1940, preparou-se para a guerra, a fim de reconquistar a Transilvânia, que a
Romênia lhe arrebatara depois da Primeira Guerra Mundial. Hitler percebeu que
tal guerra cortaria a principal fonte de abastecimento de óleo cru da Alemanha, e
traria provavelmente a intervenção da Rússia, a qual ocuparia toda a Romênia e
privaria para sempre da Alemanha o óleo desse país.
Em 28 de agosto, a situação tornou-se tão ameaçadora que Hitler ordenou que
cinco divisões panzer e três divisões motorizadas, juntamente com tropas pára-
quedistas e aerotransportadas, ficassem preparadas para se apoderar dos campos
petrolíferos da Romênia em F de setembro.16Nesse mesmo dia, ele conferenciou
com Ribbentrop e Ciano, em Berghof, mandando-os para Viena onde deveriam
ditar a lei aos ministros das Relações Exteriores da Hungria e da Romênia e fazê-los
“b a r b a r o s s a ” : a VEZ DA RÚSSIA 251

aceitar a arbitragem do Eixo. Essa missão foi realizada sem dificuldade depois que
Ribbentrop intimidou ambos os lados. Os húngaros e romenos aceitaram o acor­
do proposto pelo Eixo em 30 de agosto, no Palácio Belvedere, em Viena. Quando
Mihai Manoilescu, o ministro das Relações Exteriores da Romênia, viu o mapa no
qual se estipulava que cerca de metade da Transilvânia iria para a Hungria, des­
maiou, caindo sobre a mesa na qual se realizava a assinatura do acordo, e somen­
te voltou a si depois que os médicos o fizeram cheirar cânfora.*17A Romênia rece­
beu da Alemanha e da Itália — aparentemente pela sua sensatez, mas, na
realidade, para dar a Hitler uma desculpa legal a seus novos planos — uma garan­
tia para a manutenção do que restara do território.**
Fez-se luz sobre os novos planos do Führer, a seus íntimos, três semanas
depois. Em 20 de setembro, numa diretiva secretíssima, Hitler ordenou o envio de
“missões militares” à Romênia.

Ao mundo, sua tarefa será a de guiarem amistosamente a Romênia na


organização e instrução de suas forças.
A verdadeira tarefa — que não deve aparecer quer aos romenos quer às
nossas próprias tropas — será:
Proteger os distritos petrolíferos (...)
Preparar para o desdobramento, partindo de bases romenas, das forças
alemãs e romenas no caso de sermos obrigados a travar uma guerra
contra a Rússia soviética.18

Isso atenderia ao flanco sul de uma nova frente que ele começava a delinear
em seu espírito.
A decisão tomada em Viena e, especialmente, a garantia dada pela Alemanha
à Romênia no tocante ao restante de seu território, foram mal acolhidas em Mos­
cou, que não havia sido consultada. Quando Schulenburg visitou Molotov em l2
de setembro para apresentar-lhe um bombástico memorando de Ribbentrop, em

* O acordo custou 0 trono ao rei Carol. Em 6 de setembro, ele abdicou em favor de seu filho Miguel, de
18 anos, e fugiu com sua amante de cabelos ruivos, Magda Lupescu, num trem especial — cuja compo­
sição era constituída de dez vagões repletos do que se poderia descrever como"produtos de pilhagem"
— para a Iugoslávia rumo à Suíça. O general lon Antonescu, chefe da Guarda de Ferro fascista e amigo
de Hitler, tornou-se o ditador.
** Menos a parte sul de Dobrudja, que a Romênia foi forçada a ceder à Bulgária.
252 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

que procurava explicar — e justificar — o que havia acontecido em Viena, o co­


missário dos Negócios Estrangeiros (informou o embaixador) “mostrou-se reser­
vado em contraste com suas maneiras habituais”. Mas não se mostrou demasiado
reservado para lançar um forte protesto verbal. Acusou o governo alemão de vio­
lar o artigo III do pacto nazi-soviético, o qual exigia que se fizessem consultas, e
de apresentar à Rússia “fatos consumados” que colidiam com as garantias alemãs
sobre as “questões de interesse comum”.19Os ladrões, como é quase sempre inevi­
tável em tais casos, começavam a brigar por causa dos despojos.
As recriminações tornaram-se mais acaloradas nos dias seguintes. Em 3 de
setembro, Ribbentrop telegrafou um longo memorando a Moscou, negando que a
Alemanha tivesse violado o pacto de Moscou e acusando a Rússia de tê-lo feito, ao
tragar os Estados bálticos e as duas províncias romenas sem consultar Berlim. O
memorando estava escrito em linguagem forte, e os russos responderam a ele em
21 de setembro com palavras igualmente duras — nessa ocasião, ambos os países
estavam expondo seus casos por escrito. A resposta soviética reafirmava que a
Alemanha havia rompido o pacto, prevenia que a Rússia tinha ainda muitos inte­
resses na Romênia e concluía com uma sarcástica proposta: se o artigo que esta­
belecia consultas envolvia “certas inconveniências e restrições” para o Reich, o
governo soviético estava disposto a fazer uma emenda ou eliminar completamen­
te essa cláusula do tratado.20
As suspeitas que o Kremlin votava a Hitler foram ainda estimuladas por dois
acontecimentos em setembro. No dia 16, Ribbentrop telegrafou a Schulenburg
pedindo que visitasse Molotov e o informasse casualmente que reforços alemães,
destinados ao norte da Noruega, iam ser enviados pela Finlândia. Dias depois, em
25 de setembro, o ministro das Relações Exteriores nazista expediu outro telegra­
ma à embaixada, em Moscou, dessa vez dirigido ao adido, pois Schulenburg havia
regressado a Berlim, em férias. Era uma mensagem muito confidencial, marcada
“estritamente secreta — segredo de Estado” e informando que suas instruções
deviam ser executadas se o adido recebesse no dia seguinte, de Berlim, por tele­
grama ou por telefone, uma palavra especial em código.21
Ele devia informar Molotov que “nos próximos dias” o Japão, a Itália e a Ale­
manha assinariam em Berlim uma aliança militar. Não se visava aplicá-la contra
a Rússia — um artigo específico disporia sobre isso.
“b a r b a r o ss a ”: a v e z d a r ú s s ia 253

Essa aliança [declarou Ribbentrop] se dirige exclusivamente contra os


forjadores de guerra norte-americanos. Certamente, como de costume,
isso não está expressamente enunciado no tratado, mas pode-se facil­
mente inferir de seus termos (...) Seu fim exclusivo é fazer com que
aqueles que estejam pressionando para os Estados Unidos entrarem na
guerra readquiram o bom senso, demonstrando-lhes, de maneira con­
cludente, que, se entrarem na presente luta, automaticamente terão de
se haver com as três grandes potências como adversárias.22

O frio comissário dos Negócios Estrangeiros da União Soviética, cujas descon­


fianças para com os alemães já eram bem acentuadas, mostrou-se completamente
cético quando Werner von Tippelskirch, o adido, levou-lhe essa notícia na noite
de 26 de setembro. Disse imediatamente, com aquela pedante atenção para com
os detalhes, que tanto aborrecia aqueles com quem tratava, amigos ou adversá­
rios, que, segundo o artigo IV do pacto de Moscou, o governo soviético tinha o
direito de ver o texto da aliança militar tríplice — antes que fosse assinadof incluin­
do — acrescentou — o texto de “qualquer protocolo secreto”.
Molotov quis também saber mais pormenores sobre o acordo da Alemanha
com a Finlândia, relacionado com o transporte de tropas no país, sobre o qual tive­
ra notícia mais pela imprensa — disse — e até por um despacho da United Press
procedente de Berlim. Durante os três últimos dias, acrescentou Molotov, Moscou
havia recebido comunicações sobre o desembarque de forças alemãs em três portos
finlandeses, pelo menos, “sem que disso tivesse sido informada pela Alemanha”.

O governo soviético [continuou Molotov] deseja receber o texto do


acordo sobre a passagem de tropas pela Finlândia, incluindo suas par­
tes secretas (...) e ser informado quanto ao objetivo do acordo, contra
quem se dirige e os objetivos a que se destina.23

Era necessário apaziguar os russos — até mesmo o obtuso Ribbentrop com­


preendia isso — e, em 2 de outubro, ele telegrafou a Moscou o que dizia ser o
texto do acordo com a Finlândia. Reafirmou, também, que o pacto tríplice, que
entrementes havia sido assinado,* não se dirigia contra a União Soviética; e declarou

* Foi assinado em Berlim, em 27 de setembro de 1940, em meio a uma cerimônia burlesca que des­
crevi em outro lugar (Berlin Diary, p. 532-57). Nos artigos 1 e 2, o Japão reconhecia "a liderança da
254 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E o MOMENTO DECISIVO

solenemente que “não havia protocolos secretos nem qualquer outro acordo se­
creto”.24 Depois de instruir Tippelskirch, em 7 de outubro, para que informasse
Molotov incidentalmente que uma “missão militar” alemã ia ser enviada à Romê­
nia, e após receber a cética reação de Molotov a essa nova notícia (“Quantos sol­
dados estão enviando à Romênia?” quis saber o comissário dos Negócios Estran­
geiros),25 Ribbentrop expediu, em 13 de outubro, uma longa carta a Stalin, numa
tentativa de tranqüilizar os soviéticos a respeito da Alemanha.26
É, como se podia esperar, uma fátua e, ao mesmo tempo, arrogante epístola
repleta de tolices, mentiras e subterfúgios. Responsabiliza a Inglaterra pela guerra
e todas as suas conseqüências até então, afirmando que uma coisa era certa: “Esta
guerra foi ganha por nós. É apenas questão de tempo o momento em que a Ingla­
terra teria de admitir sua derrota.” Os movimentos da Alemanha contra a Rússia,
na Finlândia e na Romênia, e o pacto tríplice são explicados como um verdadeiro
benefício para a Rússia. Entrementes, a diplomacia e os agentes secretos — dizia
— estão tentando provocar dificuldades entre a Rússia e a Alemanha. Para frus­
trar-lhes o plano, por que não enviariam Molotov a Berlim — perguntava Ribben­
trop a Stalin — a fim de que o Führer pudesse “explicar pessoalmente seu ponto
de vista com relação à futura feição das relações entre nossos dois países?”
Ribbentrop, ardilosamente, deu uma idéia do que seria esse ponto de vista:
nada menos que a divisão do mundo entre as quatro potências totalitárias .

Parece que a missão das quatro potências [disse ele] — União Soviética,
Itália, Japão e Alemanha — é adotar uma política de grande raio de ação
(...) pela demarcação de seus interesses numa escala mundial*

Houve certa demora na embaixada alemã, em Moscou, em fazer chegar essa


carta a seu destinatário, o que enfureceu Ribbentrop e provocou áspero telegrama

Alemanha e da Itália no estabelecimento de uma Nova Ordem na Europa" e os dois países reconheciam
a liderança do Japão, para o mesmo fim, na Ásia Oriental. O artigo 3 dispunha sobre assistência mútua,
caso qualquer das potências fosse atacada pelos Estados Unidos, se bem que este país não fosse espe­
cificamente mencionado, apenas definido. Para mim, ao escrever em meu diário nesse dia, em Berlim,
a coisa mais significativa acerca do pacto era que ele dava a entender que Hitler estava agora confor­
mado com uma longa guerra. Ciano, que assinou o pacto pela Itália, chegou à mesma conclusão (Ciano
Diaries , p. 296). Apesar do desmentido, o pacto era e implicava uma advertência à União Soviética.
* Grifo de Ribbentrop.
“ b a r b a r o s s a ” : a VEZ DA RÚSSIA 255

seu a Schulenburg, exigindo que informasse por que a carta havia sido entregue
somente no dia 17 e por que, “dada a importância de seu conteúdo”, não fora en­
tregue pessoalmente a Stalin? (Schulenburg entregara-a a Molotov).27 Stalin res­
pondeu em 22 de outubro num tom extraordinariamente cordial. “Molotov admi­
te”, escreveu ele, “que se sente na obrigação de fazer-vos uma visita em Berlim.
Aceita, pela presente, vosso convite”.28A cordialidade de Stalin devia ter sido ape­
nas simulada. Schulenburg telegrafou a Berlim, dias depois, dizendo que os rus­
sos estavam protestando contra a recusa da Alemanha em entregar o material de
guerra, quando estava, na mesma ocasião, embarcando armas para a Finlândia.
“Essa é a primeira vez”, comunicou Schulenburg a Berlim, “que os soviéticos men­
cionaram nossas remessas de armas à Finlândia.”29

Molotov chegou num dia sombrio e garoento, sendo sua recepção


extremamente protocolar e formal. Subindo de automóvel a Linden
rumo à embaixada soviética, parecia-me um laborioso mestre-escola
provinciano. Devia, entretanto, ter seu valor para ter sobrevivido à im­
placável competição do Kremlin. Os alemães falaram garrulamente em
deixar Moscou realizar o velho sonho da Rússia, a posse do Bósforo e
dos Dardanelos, ao passo que eles tomariam conta do resto dos Bálcãs:
Romênia, Iugoslávia e Bulgária (...)

Assim comecei o registro em meu diário no dia 12 de novembro de 1940, em


Berlim. Foi exata aquela conversa dos alemães, pelo que se depreendeu. Hoje sa­
bemos muito mais a respeito daquela estranha e fatídica conferência — que resul­
tou ser realmente fatídica — graças aos documentos apreendidos no Ministério
das Relações Exteriores, nos quais se encontram as minutas confidenciais dos ale­
mães sobre cada uma das reuniões, todas, com exceção de uma, conservadas pelo
ubíquo dr. Schmidt.*30
Na primeira reunião entre os dois ministros das Relações Exteriores, pela ma­
nhã, Ribbentrop assumira uma de suas mais enfadonhas e arrogantes atitudes,
mas Molotov percebeu-lhe a manha e pôde aquilatar o jogo a que os alemães se

* Stalin confirmou mais tarde sua exatidão, se bem que não intencionalmente. Diz Churchill que rece­
beu de Stalin, em agosto de 1942, um relato sobre as conversações de Molotov em Berlim, "que em
nenhum ponto essencial difere do registro alemão", posto que fosse "mais incisivo". (Churchill, Their
FinestHour, p. 585-6).
256 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

entregavam. “A Inglaterra”, começou Ribbentrop, “está derrotada, e era apenas


questão de tempo o momento em que ela finalmente teria que admitir sua derrota
(...) O começo do fim já havia chegado para o império britânico.” Era verdade que
os britânicos estavam esperando que os Estados Unidos os auxiliassem, mas a ‘en­
trada dos Estados Unidos na guerra não tem importância alguma para a Alema­
nha. A Alemanha e a Itália jamais permitirão que um anglo-saxônico desembar­
que no continente europeu (...) Isso não constitui problema militar (...) As potências
do Eixo não estão, portanto, considerando como poderão ganhar a guerra, e sim,
ao contrário, como poderão terminá-la rapidamente, agora que está ganha”.
Visto isso, explicou Ribbentrop, chegou a ocasião de as quatro potências —
Rússia, Alemanha, Itália e Japão — definirem suas “esferas e interesses”. O
Führer , continuou ele, chegou à conclusão de que todos os quatro países se ex­
pandiriam naturalmente “em direção ao sul”. O Japão já se havia voltado para o
sul, assim como a Itália, enquanto a Alemanha, após o estabelecimento da Nova
Ordem na Europa Ocidental, iria encontrar seu Lebensraum —, (espaço vital)
— justamente onde? — na “África central”. Ribbentrop declarou que imaginava
se a Rússia não iria também “voltar-se para o sul, rumo à saída natural, o mar,
tão importante para ela”.
“Que mar?”, interrompeu Molotov friamente.
Foi uma pergunta embaraçosa, porém muito crítica, como os alemães iriam
descobrir durante as 36 horas seguintes de incessantes conversações com aquele
obstinado, prosaico e preciso bolchevique. A interrupção desconcertou Ribben­
trop por um momento, pois não pôde logo arquitetar uma resposta. Em vez disso,
passou a discorrer sobre “as grandes mudanças que se operariam em todo o mun­
do depois da guerra” e papaguear que o fato importante era que “ambos os parcei­
ros do pacto russo-germânico haviam realizado juntos um excelente negócio” e
“continuariam ainda a fazer outros”. Mas quando Molotov insistiu para que res­
pondesse àquela sua simples pergunta, Ribbentrop sugeriu que “afinal de contas a
mais vantajosa via de acesso ao mar, para a Rússia, poderia ser encontrada na di­
reção do Golfo Pérsico e no mar da Arábia”.
Diz o dr. Schmidt, que se achava presente fazendo anotações, que Molotov
mantinha “uma expressão impenetrável”.31 Falou pouco, salvo para comentar, no
final, que eram necessárias “precisão e vigilância” na delimitação das esferas de
interesses, “especialmente entre a Alemanha e a Rússia”. O astuto negociador
“ b ARBAROSSA” A VEZ DA RÚSSIA 257

soviético estava poupando suas munições para enfrentar Hitler, com quem se
avistou à tarde. Para o todo-poderoso chefe nazista, a conferência resultou numa
experiência surpreendente, de irritar os nervos, decepcionante e, até mesmo, úni­
ca no gênero.
Hitler mostrou-se tão vago quanto seu ministro das Relações Exteriores e até
mesmo mais grandioso. Assim que as condições atmosféricas melhorassem, co­
meçou ele a dizer, a Alemanha desfecharia “o golpe final contra a Inglaterra”. Ha­
via, certamente, “o problema da América”. Mas os Estados Unidos não podiam
“pôr em risco a liberdade de outras nações antes de 1970 ou 1980 (...) Nada tinha
a ver com a Europa, a Áustria ou a Ásia” — asserção que Molotov interrompeu
para dizer que concordava com ele. Não concordou, porém, com outras coisas
que Hitler disse. Depois que o chefe nazista terminou uma longa exposição de
agradáveis generalidades, salientando que não havia diferenças fundamentais en­
tre os dois países ao irem eles ao encalço de suas respectivas aspirações, e, em seu
comum interesse, rumo ao “acesso para o oceano”, Molotov respondeu que “as
declarações do Führer haviam sido de ordem geral”. Ia agora, disse, expor as idéias
de Stalin, o qual, à sua saída de Moscou, lhe dera “instruções detalhadas”. E desan­
dou a falar ao ditador alemão, que, conforme demonstram perfeitamente as mi­
nutas, estava mal preparado para aquela situação.
“As perguntas choviam sobre Hitler”, lembrou-se Schmidt depois. “Nenhum
visitante estrangeiro jamais lhe falara daquele modo em minha presença.”32
Que pretendia a Alemanha na Finlândia? — quis saber Molotov. Qual a signi­
ficação da Nova Ordem na Europa e na Ásia e que papel seria representado pela
URSS? Qual o significado do pacto tríplice? “Além disso”, continuou ele, “há ques­
tões que devem ser esclarecidas com relação aos interesses da Rússia nos Bálcãs e
no mar Negro e no tocante à Bulgária, Romênia e Turquia”. Ele apreciaria ouvir,
disse, algumas respostas e “explicações”.
Talvez pela primeira vez em sua vida Hitler se tivesse sentido demasiadamente
surpreendido. Propôs adiarem a conferência “em virtude de um possível alarme de
ataque aéreo”, prometendo discutir minuciosamente as questões no dia seguinte.
Não se sonegou uma explicação definitiva; foi apenas adiada. Hitler, na manhã
seguinte, quando recomeçou as conversações com Molotov, notou que ele se mos­
trou implacável. Para começar, a respeito da Finlândia, os dois mergulharam num
debate ferrenho e mordaz. Molotov exigiu que a Alemanha retirasse suas tropas
258 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

da Finlândia. Hitler negou que “a Finlândia estivesse ocupada por tropas alemãs”.
Estavam apenas sendo enviadas para a Noruega, através da Finlândia. Desejava,
porém, saber “se a Rússia tencionava marchar para a guerra contra a Finlândia”.
Segundo as minutas alemãs, Molotov “respondeu evasivamente a essa pergunta”,
o que não satisfez a Hitler.
“Não deve haver guerra no Báltico”, insistiu Hitler. “Seria provocar uma for­
te tensão nas relações germano-soviéticas”, uma ameaça que ele logo depois
ampliou dizendo que tal tensão poderia trazer “conseqüências imprevisíveis”.
Afinal, que mais desejava a União Soviética na Finlândia? — quis saber Hitler.
Seu visitante respondeu que desejava “um acordo no mesmo nível do da Bessa-
rábia”, o que significava anexação imediata. A reação de Hitler a essa resposta
deve ter perturbado até mesmo o impassível russo, que se apressou a pedir a
“opinião do Führer”.
O ditador, por sua vez, mostrou-se um tanto evasivo, respondendo que so­
mente poderia repetir que “não deveria haver guerra com a Finlândia, porque tal
conflito poderia ter uma repercussão muito séria”.
“Essa situação introduziu um novo fator nos debates”, replicou Molotov.
A discussão tornou-se tão acalorada que Ribbentrop, que a essa altura devia
ter ficado assustado, interveio para dizer — segundo as minutas alemãs — “que
não havia, verdadeiramente, razão alguma para criar um caso com a questão da
Finlândia. Talvez tudo não passasse de um mal-entendido”.
Hitler aproveitou-se da vantagem decorrente daquela oportuna intervenção
para mudar rapidamente de assunto. Não se poderia tentar os russos com a ilimi­
tada pilhagem que logo haveria com a queda do império britânico?
“Vamos tratar de problemas mais importantes”, disse.

Depois da conquista da Inglaterra [declarou ele], o império britânico se­


ria desmembrado como um gigantesco Estado mundial em bancarrota,
de quarenta milhões de quilômetros quadrados. Nesse Estado em ban­
carrota, a Rússia teria acesso ao oceano livre do gelo e realmente aberto.
Até aquela época, uma minoria de 45 milhões de ingleses havia gover­
nado os 600 milhões de habitantes do império britânico. Ele, Hitler,
estava na iminência de esmagar essa minoria (...) Em tais circunstân­
cias, surgiam perspectivas mundiais (...) Todos os países, possivelmente
“ba rb a ro ssa ”: a v e z d a r ú s s ia 259

interessados nesse Estado em bancarrota, deveriam suspender as con­


trovérsias entre si e dedicar-se exclusivamente à idéia da partilha do
império britânico. Isso se aplicava à Alemanha, à França, à Itália, à Rús­
sia e ao Japão.

O frio e impassível hóspede russo não pareceu emocionado por aquela bri­
lhante “perspectiva mundial”, tampouco se mostrou convencido como os alemães
— um ponto em que insistiu depois — de que o império britânico estaria maduro
para ser colhido. Desejava, disse, discutir sobre problemas “mais chegados à Eu­
ropa”. Por exemplo: sobre a Turquia, a Bulgária e a Romênia.
“O governo soviético”, prosseguiu, “é de opinião que a garantia que a Alema­
nha dera à Romênia contraria os interesses da Rússia soviética, se é que se pode
exprimir assim sem rebuços.” Ele se exprimira sem rebuços o dia todo, para abor­
recimento cada vez maior de seus anfitriões, e naquele momento continuava a
fazer pressão. Exigiu que a Alemanha revogasse a garantia. Hitler se recusou.
Muito bem, persistiu Molotov, dado o interesse de Moscou pelo Estreito, que
diria a Alemanha “se a Rússia desse à Bulgária (...) uma garantia exatamente nas
condições em que a Alemanha e Itália deram à Romênia?”
Quase se pode ver a expressão carrancuda de Hitler. Perguntou se a Bulgária
havia solicitado tal garantia, como fizera a Romênia. “Ele (o Führer)”, o memoran­
do alemão transcreve o que acrescentara, “ignorava que a Bulgária tivesse feito
qualquer pedido”. Em todo caso, teria primeiro de consultar Mussolini, antes de
dar aos russos uma resposta mais definida à pergunta. E acrescentou, como um
presságio, que se a Alemanha “estivesse, por acaso, procurando motivos para atri­
tos com a Rússia, não precisaria do Estreito para isso”.
Mas o Führer; geralmente tão loquaz, não pôde mais suportar uma conversa­
ção com aquele russo impassível.
“Àquela altura da conversação”, dizem as minutas alemãs, “o Führer chamou
a atenção para a hora avançada e declarou que, dada a possibilidade de ataques
aéreos ingleses, seria preferível interromper a entrevista, tanto mais que as ques­
tões principais haviam sido provavelmente bastante discutidas”.
Nessa noite, Molotov ofereceu um banquete de gala a seus convidados na
embaixada russa, na Unter den Linden. Hitler aparentemente exausto e ainda
irritado pela provação por que passara naquela tarde, não compareceu.
26o A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Os britânicos compareceram. Eu perguntava a mim mesmo por que seus


bombardeiros não apareciam sobre Berlim, como tinham feito quase todas aque­
las noites, para lembrar ao comissário soviético, em sua primeira visita à capital,
que, dissessem o que quisessem os alemães, os britânicos ainda estavam na guerra
e (...) golpeando. Confesso que muitos de nós aguardávamos esperançosos os
aviões, mas aconteceu que eles não vieram. Funcionários, na Wilhelmstrasse, que
temiam o pior, mostravam-se visivelmente aliviados. Mas não por muito tempo.
Na noite de 13 de novembro, os britânicos chegaram cedo.* Em Berlim, o tem­
po escurece por volta das 16h nessa época do ano. Logo depois das 21h, as sirenes
de alarme começaram a soar. Podia-se depois ouvir o ribombar do fogo antiaéreo
e, entrementes, o roncar dos bombardeiros no alto. Segundo o dr. Schmidt, que se
achava no banquete da embaixada soviética, Molotov acabara de erguer um brin­
de cordial e Ribbentrop levantara-se para responder quando o alarme antiaéreo
soou. Os convidados se dispersaram para se abrigar. Recordo-me da correria pela
avenida Unter den Linden e nas imediações da esquina da Wilhelmstrasse, quan­
do alemães e russos se precipitaram para o abrigo subterrâneo do Ministério das
Relações Exteriores. Alguns dos funcionários, entre eles o dr. Schmidt, mergulha­
ram no Adlon Hotel, em frente ao qual o nosso pequeno grupo ficou de observa­
ção. Não pudemos assistir à imprevista conferência que os dois ministros das Re­
lações Exteriores tiveram no subterrâneo do Ministério. As minutas dessa
conferência foram portanto tomadas, dada a ausência forçada do dr. Schmidt, por
Gustav Hilger, conselheiro da embaixada alemã em Moscou, o qual agiu como
um dos intérpretes durante a conferência.
Enquanto os bombardeiros britânicos cruzavam os céus, naquela noite, e os
canhões antiaéreos atiravam eficazmente contra eles, o manhoso ministro das Re­
lações Exteriores nazista tentou, uma última vez, ludibriar os russos. Tirou do
bolso o esboço de um acordo que, em substância, transformava o pacto tríplice
em um pacto das quatro potências, a Rússia como o quarto membro. Molotov
ouviu pacientemente a leitura de Ribbentrop.
O artigo II era o ponto essencial. Nele, a Alemanha, a Itália, o Japão e a União
Soviética comprometiam-se a “respeitar as naturais esferas de influência uns dos

* Diz Churchill que o ataque foi programado para aquela ocasião. "Tínhamos tido, de antemão, notícia
da conferência e, embora não fôssemos convidados para tomar parte na discussão, não desejáramos
permanecer inteiramente fora de seu curso." (Churchill, Their Finest Hour, p. 584).
“b a r b a r o ss a ”: a v e z d a r ú s s ia 261

outros”. Quaisquer disputas com relação a elas seriam solucionadas amigavelmen­


te. Os dois países fascistas e o Japão concordavam em “reconhecer a atual exten­
são das possessões da União Soviética e as respeitariam. Todos os quatro países,
no Artigo III, concordavam em não associar-se ou dar apoio a qualquer combina­
ção “dirigida contra uma das quatro potências”.
O próprio acordo, propôs Ribbentrop, seria tornado público; não, porém, os
protocolos secretos, é claro, os quais passou a ler. O mais importante definia as
“aspirações territoriais” de cada país. A da Rússia seria “concentrar o sul do terri­
tório nacional da União Soviética na direção do oceano Índico”.
Molotov não mordeu a isca. O tratado proposto era, evidentemente, uma ten­
tativa para afastar a Rússia de sua histórica pressão a oeste, nos Bálcãs e, através dos
Estreitos, no Mediterrâneo, onde inevitavelmente colidiria com os vorazes proje­
tos da Alemanha e da Itália A URSS não estava, pelo menos no momento, interes­
sada no oceano Índico, o qual jazia muito distante. No momento estava interessada
— respondeu Molotov — na Europa e nos Estreitos da Turquia. “Conseqüente­
mente”, acrescentou, “acordos no papel não satisfarão o governo soviético; ela te­
ria que insistir em garantias positivas para sua segurança.”

As questões que interessavam à União Soviética [elaborou ele] diziam


respeito não só à Turquia como também à Bulgária (...) Mas o destino
da Romênia e da Hungria interessavam também à URSS, e ela não po­
dia mostrar-se indiferente em quaisquer circunstâncias. Interessaria
ainda ao governo soviético saber o que o Eixo pretendia com relação à
Iugoslávia e à Grécia, e, também, o que a Alemanha pretendia no tocan­
te à Polônia (...) O governo soviético estava também interessado na
questão da neutralidade da Suécia (...) Além disso, havia ainda a ques­
tão das passagens fora do mar Báltico (...)

O incansável comissário dos Negócios Estrangeiros soviético, com sua expres­


são de jogador de pôquer, não deixou de esmiuçar tudo, e Ribbentrop, que se
sentia enterrado sob uma avalancha de perguntas — pois a esta altura Molotov
declarara que apreciaria se o seu convidado respondesse a elas — protestou dizen­
do que estava sendo “interrogado muito rigorosamente”.
2 Ó2 A guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

Podia apenas repetir, como o fizera antes [respondeu francamente] que a


questão decisiva era saber se a União Soviética estava preparada e em
posição de cooperar conosco na grande liquidação do império britânico.

Molotov apressou-se a dar uma resposta contundente. Hilger anotou-a devi­


damente nas minutas:

Em sua resposta, Molotov afirmou que os alemães presumiam que a


guerra contra a Inglaterra já houvesse sido ganha. Se, portanto [confor­
me Hitler sustentara], a Alemanha se encontrava empenhada em luta
de vida e morte contra a Inglaterra, ele apenas podia deduzir que isso
significava que a Alemanha estava lutando 4pela vida” e a Inglaterra
“pela morte”.

O sarcasmo talvez tivesse passado despercebido a Ribbentrop, um homem de


monumental estupidez, mas Molotov não quis correr nenhum risco. Às suas cons­
tantes afirmações de que a Inglaterra estava liquidada, o comissário respondeu
finalmente: “Se assim é, por que motivo nos encontramos aqui neste abrigo, e de
quem são essas bombas que estão caindo?”*
Hitler tirou finalmente suas conclusões daquela estafante experiência com o
duro negociador de Moscou e das novas provas que, 15 dias depois, teve do ape­
tite cada vez mais voraz de Stalin.
Deve-se consignar aqui que o ditador soviético, não obstante os desmentidos
que fez depois, aceitou a proposta de Hitler para unir-se ao campo fascista, se
bem que a um preço mais elevado que o que lhe havia sido oferecido em Berlim.
Em 26 de novembro, apenas duas semanas após o regresso de Molotov da Alema­
nha, ele informou o embaixador alemão em Moscou que a Rússia estava preparada
para associar-se ao pacto das Quatro Potências, sujeito às seguintes condições:

Que as tropas alemãs fossem retiradas imediatamente da Finlândia, a


qual (...) pertence à esfera de influência da União Soviética (...)
Que dentro dos próximos meses seja garantida a segurança da União
Soviética nos Estreitos, pela conclusão de um pacto de assistência

* Essa tirada de despedida é citada por Churchill, a quem foi relatada por Stalin tempos depois, na
guerra. (Churchill, Their Finest Hour, p. 586).
“ b a r b a r o s s a ” : a VEZ DA RÚSSIA 263

mútua entre a URSS e a Bulgária (...) e pelo estabelecimento de uma


base, pela União Soviética, para as forças de terra e mar dentro do al­
cance do Bósforo e dos Dardanelos, por meio de arrendamento a longo
prazo.
Que a área ao sul de Batum e de Bacu, na direção geral do golfo Pérsico,
seja reconhecida como centro das aspirações da União Soviética.
Que o Japão renuncie a seus direitos a concessões de carvão e petróleo
ao norte da Sacalina.33

Stalin pediu, ao todo, cinco protocolos secretos — em vez de dois —, cobrindo


suas novas propostas e, como boa medida, pediu que as quatro potências tomas­
sem medidas militares contra a Turquia, caso ela criasse dificuldades a respeito
das bases russas destinadas ao controle dos Estreitos.
As propostas constituíam um preço mais elevado do que Hitler estava disposto
a considerar. Tentara manter a Rússia fora da Europa, e Stalin estava agora exigin­
do a Finlândia, a Bulgária, o domínio sobre os Estreitos e, conseqüentemente, dos
campos petrolíferos da Arábia e da Pérsia, os quais normalmente abasteciam a
Europa com a maior parte de seu petróleo. Os russos nem mesmo citaram o oce­
ano Indico, que o Führer tentara impingir como centro das aspirações da Rússia.
“Stalin é muito esperto e manhoso”, disse Hitler a seus principais chefes mili­
tares. “Está aumentando suas exigências. É um chantagista de sangue-frio. A Rús­
sia não suporta as vitórias alemãs. Devemos, portanto, fazê-la dobrar os joelhos o
mais breve possível.”34
O grande e frio chantagista nazista encontrara seu igual, e isso o enfureceu.
No começo de dezembro, ordenou a Halder que lhe trouxesse o plano do Esta­
do-maior geral para o ataque contra a União Soviética. Em 5 de dezembro, Hal­
der e Brauchitsch obedientemente o levaram e, ao fim de uma conferência de
quatro horas, ele o aprovou. O diário de guerra do OKW e o próprio diário con­
fidencial de Halder, que foram apreendidos, encerram um relatório sobre essa
conferência crucial.35 O chefe nazista acentuou que o Exército Vermelho devia
ser atacado ao norte e ao sul do pantanal de Pripet, cercado e aniquilado “como
na Polônia”. Moscou, disse ele a Halder, “não era importante”. O importante era
destruir a “força vital” da Rússia. A Romênia e a Finlândia deviam associar-se ao
ataque. A Hungria não. A divisão alpina, do general Dietl, em Narvik, devia
264 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

atravessar a Suécia e dirigir-se para a Finlândia, a fim de atacar a região ártica


dos soviéticos.* Ao todo, cerca de “120 a 130 divisões” foram escaladas para essa
grande campanha.
No relatório sobre essa conferência, e nas referências anteriores ao plano de
ataque contra a Rússia, o diário do general Halder cita o nome em código “Otto”.
Menos de 15 dias depois, em 18 de dezembro de 1940, substituiu-se esse nome
por outro que se estenderia pela História. Nesse dia, Hitler deu um passo decisivo.
Expediu a Diretiva n2 21, sob o título Operação Barbarossa. Começava:

SECRETÍSSIMO

Quartel-general do Führer; 18 de dezembro de 1940


As forças alemãs devem estar preparadas para esmagar a União Soviéti­
ca numa campanha rápida, mesmo antes da conclusão da guerra contra
a Inglaterra.** Para este propósito, o exército deverá empregar todas as
unidades disponíveis, com a reserva de que os territórios ocupados
precisam ser garantidos contra ataques surpresa (...)
Os preparativos (...) deverão estar ultimados lá pelo dia 15 de maio de
1941. Tem-se de exercer grande cautela para que essa intenção de atacar
não seja descoberta.

A data em mira era a de meados de maio, na primavera seguinte. Hitler traçou


o “objetivo geral” da Operação Barbarossa como segue:

A massa do exército russo, na Rússia Ocidental, deverá ser destruída


em operações ousadas, por meio da penetração de profundas cunhas
couraçadas, e a retirada de unidades intactas e capazes de batalhar na
imensidão do território soviético deverá ser impedida. O objetivo final
da operação é estabelecer uma linha de defesa contra a Rússia asiática,
a partir de uma linha que corra do rio Volga a Arcangel.

* A Suécia, que havia recusado aos Aliados a passagem de tropas durante a guerra russo-finlandesa,
permitiu que essa divisão completa fizesse a travessia de seu território. A Hungria participou, natural­
mente mais tarde, daquela guerra contra a Rússia.
** Grifos de Hitler.
“b a r b a r o s s a ”: a v e z d a r ú s s i a 265

A diretiva de Hitler passava, depois, a citar minuciosamente os principais ele­


mentos de ataque.* Estava definido o papel que caberia à Romênia e à Finlândia.
Ambas tinham que prover as áreas para o lançamento dos ataques no extremo
norte e flanco sul, e tropas para auxiliar as forças alemãs naquelas operações. A
posição da Finlândia revestia-se de especial importância. Vários exércitos germa-
no-finlandeses deviam avançar contra Leningrado e a área do lago Ladoga, cortar
a linha férrea de Murmansk, conquistar as minas de níquel de Petsamo e ocupar
os portos russos livres de gelo, no oceano Ártico. Muita coisa dependia, admitiu
Hitler, de a Suécia permitir a passagem das tropas alemãs procedentes da Norue­
ga, mas ele predisse com exatidão que os suecos se poriam de acordo.
As principais operações seriam divididas pelo pantanal de Pripet. O golpe
principal seria desfechado ao norte do pantanal, por dois grupos completos do
exército. Um avançaria pelos Estados bálticos rumo a Leningrado; o outro, mais
ao sul, invadiria a Rússia Branca e viraria depois ao norte para ligar-se ao primeiro
grupo, cercando o que restasse das forças soviéticas porventura em retirada no
Báltico. Somente então, expôs Hitler, deveria ser empreendida uma ofensiva con­
tra Moscou. A capital russa, que uma quinzena antes lhe parecera “sem importân­
cia”, assumia agora grande valor. “A conquista dessa cidade”, escreveu ele, “significa
uma decisiva vitória política e econômica, além da queda da mais importante jun­
ção ferroviária do país”. E assinalou que Moscou era não só o principal centro de
comunicações da Rússia como também seu principal produtor de armamentos.
O terceiro grupo do exército investiria ao sul do pantanal, atravessaria a Ucrâ­
nia rumo a Kiev, sendo seu principal objetivo envolver e destruir as forças sovié­
ticas ali, a oeste do rio Dnieper. Mais ao sul, tropas romeno-germânicas protege­
riam o flanco da operação principal e avançariam para Odessa e, dali, ao longo do
mar Negro. Conquistariam em seguida a bacia do Donets, onde se concentravam
60% da indústria soviética.
Tal era o grandioso plano de Hitler, ultimado pouco antes das festas de Natal
de 1940, e tão bem preparado que nenhuma modificação essencial seria feita nele.

* Muitos historiadores contestam que Hitler, na sua primeira diretiva sobre a Operação Barbarossa, ti­
vesse entrado em detalhes; é um mal-entendido devido provavelmente à abreviadíssima versão citada
na tradução inglesa dos volumes da NCA. Mas o texto alemão completo, no TMWC, XXVI, p. 47-52, reve­
la todos os detalhes, mostrando assim o quanto estavam adiantados os planos militares dos alemães
numa data ainda bastante anterior.36
266 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Para mantê-lo em sigilo, fizeram-se apenas nove cópias da diretiva; cada uma
das três armas ficaria com uma cópia e as restantes seriam guardadas no quartel-
general do OKW. A diretiva deixava bem claro que até mesmo os altos comandan­
tes da campanha deviam ser informados de que o plano era somente a título de
“precaução, no caso de a Rússia modificar sua atitude anterior para conosco”. Hitler
deu instruções para que “se mantivesse o menor número possível” de oficiais a par
do segredo. Caso contrário, existiria o perigo de os preparativos tornarem-se co­
nhecidos, disso resultando as mais graves desvantagens políticas e militares.
Não há evidência de que os generais, no Alto-Comando alemão, se opusessem
à decisão de Hitler de atacar a União Soviética, a qual, ao cumprir lealmente o
pacto com a Alemanha, tornara possível suas vitórias na Polônia e no Ocidente.
Mais tarde, Halder escreveria ironicamente sobre “a aventura de Hitler na Rússia”,
afirmando que os chefes do exército se tinham oposto a ela desde o começo.37Não
existe, porém, em seu volumoso diário, quaisquer registros durante o mês de de­
zembro de 1940, em apoio de sua asserção. De fato, ele dá a impressão de que es­
tava entusiasmado com a aventura, em cujo plano ele próprio, como chefe do
Estado-maior geral, tivera a maior responsabilidade.
Seja como for, para Hitler a sorte estava lançada e, embora ele não soubesse, a
decisão de 18 de dezembro de 1940 selou seu destino. Aliviado por tê-la finalmen­
te tomado, conforme revelou mais tarde, foi celebrar o Natal ao longo do Canal,
com os soldados e aviadores — para afastar do espírito, o mais possível, quaisquer
preocupações com a Rússia. Possivelmente não lhe assediaram o espírito pensa­
mentos sobre Carlos XII, da Suécia, e Napoleão Bonaparte, que, após tantas con­
quistas gloriosas, não diferentes das suas, foram malograr na imensidão das este­
pes da Rússia. Como poderiam assediar-lhe o espírito? Naquela ocasião, conforme
os registros mostraram, o antigo pária de Viena considerava-se o maior conquis­
tador que até então aparecera no mundo. A egolatria, essa doença fatal de todos
os conquistadores, começava a dominá-lo.

Seis meses de frustrações

Entretanto, apesar de todas as tumultuosas vitórias da primavera e dos primei­


ros tempos do verão de 1940, houve seis meses de malogros para o conquistador
“ b a r b a r o s s a ” : a VEZ DA RÚSSIA 267

nazista. Não somente lhe escapara o triunfo final sobre a Inglaterra, como também
perdera a oportunidade de desfechar-lhe um golpe mortal no Mediterrâneo.
Dois dias depois do Natal, o almirante Rãder avistou-se com Hitler em Berlim,
mas poucas notícias animadoras teve para dar. aA ameaça da Inglaterra em todo o
Mediterrâneo Oriental, no Oriente Médio e no Norte da África — comunicou ao
Führer — foi eliminada (...) A ação decisiva, no Mediterrâneo, que esperávamos,
não mais se torna possível.”38
Adolf Hitler, desapontado com o astuto Franco, com a inépcia de Mussolini e
até mesmo com a senilidade do marechal Pétain, perdera, verdadeiramente, uma
oportunidade no Mediterrâneo. Uma catástrofe atingira o aliado italiano no de­
serto egípcio, que agora, em dezembro, se via novamente às voltas com outra nas
montanhas cobertas de neve da Albânia. Esses desagradáveis acontecimentos fo­
ram também os pontos decisivos na guerra e no curso da história do Terceiro
Reich. Verificaram-se não só por causa da fraqueza dos amigos e Aliados da Ale­
manha como também, em parte, por causa da incapacidade do chefe nazista de
apreender a grande estratégia intercontinental que se tornava necessária, na qual
Rãder e até mesmo Gõring insistiram com ele.
Duas vezes em setembro de 1940, nos dias 6 e 26, o almirante tentou apresen­
tar novas perspectivas para o espírito de Hitler, agora que o ataque direto contra
a Inglaterra parecia fora de questão. Na segunda conferência ficou a sós com Hi­
tler e, sem os oficiais do exército e da força aérea para intervirem na conversação,
fez ao chefe uma longa preleção sobre estratégia naval e a importância em atingir
a Inglaterra em outros lugares, sem ser pelo canal da Mancha.

Os britânicos [disse Ráder] sempre consideraram o Mediterrâneo o


pivô de seu império mundial (...) A Itália, cercada pelo poderio britâ­
nico, está se tornando rapidamente o principal alvo de ataque (...) Os
italianos ainda não perceberam o perigo de terem recusado nosso auxí­
lio. À Alemanha, porém, cumpre mover a guerra contra a Inglaterra
com todos os meios à sua disposição, e sem demora, antes que os Esta­
dos Unidos possam intervir eficazmente. Por essa razão, a questão do
Mediterrâneo precisa ficar resolvida nos meses do inverno.

Resolvida de que maneira? O almirante passou então aos fatos:


268 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

Deve-se conquistar Gibraltar. As ilhas Canárias devem ser tomadas


pela força aérea.
Deve-se conquistar o canal de Suez.

Depois de citar Suez, Ráder pintou um quadro róseo do que, logicamente, vi­
ria depois:

Torna-se necessária uma ofensiva partindo de Suez, atravessando a Pa­


lestina e a Síria, chegando até a Turquia. Se alcançarmos esse ponto, a
Turquia ficará em nosso poder. O problema da Rússia aparecerá então
sob uma luz diferente (...) É duvidoso se será necessário um ataque con­
tra a Rússia partindo-se do norte.

Tendo, no espírito, expulsado os britânicos do Mediterrâneo e colocado a


Turquia e a Rússia em poder da Alemanha, Ráder prosseguiu na exposição para
completar o quadro. Predizendo, com exatidão, que a Inglaterra, apoiada pelos
Estados Unidos e as forças de De Gaulle, eventualmente procuraria assentar pé
no noroeste da África como base para a subseqüente guerra contra o Eixo, o al­
mirante insistiu para que a Alemanha e a França de Vichy impedissem tal opera­
ção, apoderando-se elas mesmas, para isso, daquela região de grande importân­
cia estratégica.
Segundo Ráder, Hitler concordou com o “rumo geral de suas idéias”, mas
acrescentou que teria que discutir o assunto, antes, com Mussolini, Franco e Pé­
tain.39 Foi o que começou a fazer, após ter perdido muito tempo. Combinou para
conferenciar com o ditador espanhol em 23 de outubro, com Pétain — que agora
estava à testa do governo colaboracionista em Vichy — no dia seguinte, e com o
Duce alguns dias depois.
Franco, que devia seu triunfo na guerra civil espanhola ao maciço auxílio mi­
litar da Itália e da Alemanha, demonstrava, como todos os seus companheiros
ditadores, um desusado apetite por despojos, especialmente se pudessem ser ga­
nhos facilmente. Em junho, por ocasião da queda da França, apressara-se a infor­
mar Hitler de que a Espanha entraria na guerra se lhe dessem a maior parte do
vasto império francês na África, Marrocos e a Argélia Ocidental inclusive, e se a
Alemanha abastecesse liberalmente a Espanha de armamentos, gasolina e manti­
mentos.40 Foi para dar a Franco a oportunidade de resgatar essa promessa que o
“ b a r b a r o s s a ” : a v e z d a RÚSSIA 269

Führer chegou em seu trem especial à cidade de Hendaye, na fronteira franco-


espanhola, em 23 de outubro. Mas muita coisa havia acontecido, entrementes,
naqueles meses — e a mais importante era a galharda resistência da Inglaterra —,
e Hitler viu-se sob a ameaça de uma desagradável surpresa.
O astuto espanhol não se mostrou impressionado com a afirmativa jactanciosa
de que “a Inglaterra já está decisivamente derrotada”, nem satisfeito com a pro­
messa de Hitler de dar à Espanha, como compensação, territórios na África do
Norte francesa “até onde fosse possível compensar as perdas das colônias france­
sas com as colônias inglesas”. Franco queria o império francês na África sem res­
trições. Hitler propôs que a Espanha entrasse na guerra em janeiro de 1941, mas
Franco fez ver os perigos de um ato assim precipitado. Hitler quis que os espa­
nhóis atacassem Gibraltar em 10 de janeiro, com o auxílio de pára-quedistas
alemães, os quais haviam conquistado o forte belga de Eben-Emael. Franco res­
pondeu, com típico orgulho espanhol, que Gibraltar teria que ser conquistada
pelos espanhóis “sozinhos”. E assim debateram os dois ditadores as questões, du­
rante nove horas. Segundo o dr. Schmidt, que ali se achava presente, Franco falava
o tempo todo num tom de voz demasiado monótono e Hitler, exasperando-se
num dado momento, levantara-se — como fizera com Chamberlain — para
exclamar que não adiantava continuar as conversações.41
“Prefiro que me arranquem três ou quatro dentes a ter que tratar disso nova­
mente”, disse ele mais tarde a Mussolini, ao contar-lhe a provação por que passara
com o caudilho.42
Após nove horas em que houve apenas um intervalo para o jantar, no vagão-
restaurante do carro especial de Hitler, interromperam-se as conversações tarde
da noite, sem que Franco se tivesse comprometido definitivamente a entrar na
guerra. Hitler partiu deixando Ribbentrop, naquela noite, para continuadas con­
versações com Serrano Suner, o ministro das Relações Exteriores da Espanha, e para
conseguir que os espanhóis assinassem alguma coisa, pelo menos um acordo
para expulsar os britânicos de Gibraltar e fechar-lhes a parte ocidental do Medi­
terrâneo — mas nada adiantou. “Aquele covarde e ingrato! Deve-nos tudo e agora
não quer se unir a nós!”, esbravejou Ribbentrop junto a Schmidt na manhã se­
guinte, ao comentar sobre Franco.43
Já a conferência de Hitler com Pétain, no dia seguinte, foi melhor. Isso, porém,
porque o velho marechal derrotista, herói de Verdun na Primeira Guerra Mundial
e autor da capitulação da França na Segunda, concordou em colaborar com o
270 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

conquistador de seu país, num último esforço para subjugar a Inglaterra, até pouco
tempo sua aliada. De fato, assentiu em fazer por escrito esse odioso acordo.

As potências do Eixo e a França têm interesses idênticos em ver a der­


rota da Inglaterra o quanto antes. Conseqüentemente, o governo fran­
cês apoiará, dentro dos limites de sua capacidade, as medidas que, para
esse fim, as potências do Eixo possam tomar.44

Em retribuição a esse ato traiçoeiro, seria dado à França, na Nova Europa, tco
lugar a que ela tinha direito”, e, na África, receberia dos ditadores fascistas com­
pensação do império britânico por qualquer território que fosse obrigada a ce­
der a outros. Ambas as partes concordaram em manter o pacto “absolutamente
secreto”.*
A despeito das concessões desonrosas, porém vitais, de Pétain, Hitler não se
deu por satisfeito. Segundo o dr. Schmidt, desejava algo mais: nada menos que
a participação ativa da França na guerra contra a Inglaterra. Em sua longa via­
gem de volta a Munique, o intérprete encontrou Hitler desapontado e deprimi­
do com os resultados de sua viagem. Iria ficar mais desapontado e deprimido
ainda em Florença, onde chegou na manhã de 28 de outubro para se avistar com
Mussolini.
Em 4 de outubro — apenas três semanas antes — já haviam conferenciado no
Passo de Brenner. Hitler, como de costume, falou a maior parte do tempo, fazen­
do um de seus brilhantes tours tfhorizon, nos quais não incluiu qualquer menção
ao fato de estar enviando tropas à Romênia, também ambicionada pela Itália.
Dias depois, ao ter conhecimento desse fato, o Duce enfureceu-se.

Hitler sempre me aparece com um fait accompli [disse iradamente a


Ciano]. Desta vez vou pagar-lhe na mesma moeda. Ele vai saber pelos
jornais que ocupei a Grécia. Restabelecer-se-á, assim, o equilíbrio.45

* Conquanto não conhecessem o texto do acordo secreto realizado em Montoire, Churchill e Roosevelt
suspeitaram que as condições fossem piores. 0 rei da Inglaterra endereçou, através de canais america­
nos, um apelo pessoal a Pétain pedindo-lhe que não tomasse posição contra a Inglaterra. A mensagem
do presidente Roosevelt ao marechal foi vasada em termos fortes e severos, e prevenia-o das terríveis
conseqüências que adviriam se a França de Vichy traísse a Inglaterra. (Ver William L. Langer, Our Vichy
Gamble, p. 9 7 .0 professor Langer, para escrever esse livro, teve acesso aos documentos alemães que
somente 11 anos depois foram divulgados pelos governos britânico e americano).
“ b a r b a r o s s a ” : a VEZ DA RÚSSIA 271

As ambições do Duce nos Bálcãs eram tão fortes quanto as de Hitler, às quais
atrapalhavam, o que fez com que, já em meados de agosto, os alemães advertissem
Roma contra quaisquer aventuras na Iugoslávia e na Grécia. “É uma ordem termi-
nante de deter qualquer movimento”, anotou Ciano em seu diário no dia 17 de
agosto. Mussolini pôs de lado, pelo menos nessa ocasião, seus planos de obter
novas glórias marciais nos Bálcãs, confirmando isso numa humilde carta que en­
viou a Hitler em 27 de agosto. Mas a perspectiva, embora falsa, de uma rápida e
fácil conquista da Grécia, que o compensaria até certo ponto das brilhantes vitó­
rias de seu parceiro, provou ser uma tentação demasiado grande para que o em­
pertigado César fascista a ela resistisse.
Em 22 de outubro, marcou a data para o assalto italiano de surpresa contra a
Grécia para o dia 28 e escreveu, no mesmo dia, a Hitler, uma carta (antedatada de
19 de outubro) aludindo à operação que pretendia executar mas indicando vaga­
mente a natureza e data exatas. Temia — Ciano anotou nesse dia — que o Führer
pudesse ordenar-lhe que não fizesse qualquer movimento. Hitler e Ribbentrop
vieram a saber dos planos do Duce quando voltavam da França nos seus trens
especiais, e, a uma ordem do Führer; o ministro nazista desceu na primeira esta­
ção, na Alemanha, para telefonar a Ciano, em Roma, propondo uma conferência
imediata dos líderes do Eixo. Mussolini sugeriu que ela se realizasse em Florença,
em 28 de outubro. Quando seu visitante alemão desceu do trem na manhã desse
dia, cumprimentou-o, o queixo erguido e os olhos muito alegres: “Führer, estamos
em marcha! As vitoriosas tropas italianas atravessaram hoje, ao alvorecer, a fron­
teira greco-albanesa!”46
Segundo todas as versões, Mussolini divertiu-se imensamente com essa vin­
gança contra o amigo por todas as ocasiões anteriores em que o ditador nazista
marchara para um país sem informar previamente o aliado italiano. Hitler enfu­
receu-se. Aquele ato precipitado contra um forte adversário, possivelmente na
pior época do ano, ameaçava transtornar seus planos nos Bálcãs. O Führer, confor­
me escreveu a Mussolini pouco tempo mais tarde, tinha se apressado a ir a Floren­
ça na esperança de impedir a operação, mas chegara demasiado tarde. Segundo
Schmidt, que esteve presente ao encontro de ambos, o chefe nazista conseguiu
dominar sua raiva.

Hitler seguiu nessa tarde para o norte [escreveu depois Schmidt] cheio
de rancor. Malograra três vezes: em Hendaye, em Montoire e agora na
272 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o M OMENTO DECISIVO

Itália. Nas compridas noites de inverno dos anos seguintes, aquelas lon­
gas e estafantes viagens constituíram sempre o tema de constantes cen­
suras amargas contra amigos ingratos e indignos de confiança, os par­
ceiros do Eixo e os enganadores franceses.47

Devia, contudo, fazer alguma coisa para prosseguir na peleja contra os britâ­
nicos, agora que a invasão da Inglaterra se tornara impossível. Nem bem voltara a
Berlim, já a necessidade de agir se impunha sobre ele, dado o fracasso dos exérci­
tos do Duce na Grécia. Numa semana, o vitorioso ataque italiano contra esse país
transformou-se em malogro. Em 4 de novembro, Hitler convocou para uma con­
ferência na chancelaria, em Berlim, Brauchitsch e Halder, do exército, e Keitel e
Jodl, do OKW. Graças ao diário de Halder e à cópia do relatório que, sobre ela,
Jodl enviou à marinha e que foi apreendida, tomamos conhecimento das decisões
do chefe nazista, incorporadas à Diretiva n218 de Hitler, em 12 de novembro, cujo
texto figura no processo de Nuremberg.48
A influência da marinha alemã sobre a estratégia de Hitler tornou-se evidente,
da mesma maneira que a necessidade de fazer alguma coisa com relação ao vaci­
lante aliado italiano. Halder anotou que o Führer “não tinha confiança” na lide­
rança italiana. Em conseqüência, decidiu não enviar tropas alemãs à Líbia até que
o exército do marechal Rodolfo Graziani, que em setembro avançara 96 quilôme­
tros no Egito, até Sidi Barrâni, tivesse alcançado Mersa Matrüh, a 120 quilômetros
mais adiante ao longo da costa, o que não se esperava que fizesse antes do Natal,
se é que esperavam. Entrementes, far-se-iam planos para enviar alguns bombar­
deiros de mergulho ao Egito, a fim de atacarem a esquadra britânica em Alexan­
dria e minarem o canal de Suez.
Quanto à Grécia, o ataque dos italianos ali — Hitler admitiu a seus generais
— havia sido um “grande e lamentável erro” e, infelizmente, criara um perigo para
a posição da Alemanha nos Bálcãs. Os britânicos, ao ocuparem Creta e Lemnos,
haviam atingido bases aéreas, das quais podiam facilmente bombardear os cam­
pos petrolíferos da Romênia e, ao enviarem tropas para o território grego, amea­
çavam toda a posição dos alemães nos Bálcãs. Para contrapor-se a esse perigo,
Hitler ordenou ao exército que imediatamente preparasse planos para invadir a
Grécia, pela Bulgária, com uma força de, pelo menos, dez divisões, que seriam
primeiramente enviadas à Romênia. “É de prever que a Rússia se mantenha neu­
tra”, disse.
“b a r b a r o ss a ”: a v e z d a r ú s s ia 273

Mas a maior parte da conferência de 4 de novembro e da Diretiva nQ18 que


dela resultou foi dedicada à destruição da posição da Inglaterra no Mediterrâneo
Ocidental.

Gibraltar será conquistada [dizia a diretiva] e os Estreitos serão fechados.


Os britânicos ficarão impedidos de firmar-se em outro ponto da penín­
sula ibérica ou nas ilhas do Atlântico.

“Félix” seria o nome em código para a conquista de Gibraltar e das ilhas Caná­
rias, da Espanha, e das ilhas de Cabo Verde, de Portugal. À marinha cumpriria,
também, estudar a possibilidade de ocupar a ilha da Madeira e os Açores. Mesmo
Portugal talvez tivesse que ser ocupado. “Operação Isabella” seria o nome que se
lhe daria. Três divisões alemãs seriam concentradas na fronteira hispano-portu-
guesa para levá-la a efeito.
Deviam, finalmente, ser libertadas unidades da esquadra e algumas tropas da
França para que ela pudesse defender suas possessões no noroeste da África con­
tra os britânicos e De Gaulle. “Partindo dessa tarefa inicial, a participação da
França na guerra contra a Inglaterra poderá desenvolver-se completamente”, disse
Hitler em sua diretiva.
Os novos planos de Hitler, conforme foram expostos aos generais em 4 de
novembro e traçados em diretiva uma semana depois, entravam em muitos deta­
lhes de ordem militar — especialmente sobre a maneira como Gibraltar seria con­
quistada num golpe ousado dos alemães — e, ao que parece, impressionaram os
chefes do exército que os acharam audazes e hábeis. Mas, na realidade, eram meias
medidas que possivelmente não poderiam atingir seus objetivos e destinavam-se,
em parte, a enganar os próprios generais. Hitler assegurou-lhes, em 4 de novem­
bro — anotou Halder —, que Franco acabara de renovar-lhe a promessa de unir-
se à Alemanha na peleja; isso, porém, conforme vimos, não era absolutamente
verdade. Os objetivos quanto à expulsão dos britânicos do Mediterrâneo eram
razoáveis; mas as forças escaladas para essa tarefa eram insuficientes, especial­
mente em vista da fraqueza da Itália.
O Estado-maior da marinha de guerra assinalou a situação num memorando,
vasado em termos rígidos, que Ráder entregou a Hitler em 14 de novembro.49 O
desastre da Itália na Grécia — as tropas de Mussolini haviam sido agora rechaçadas
274 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o MOMENTO DECISIVO

para a Albânia e continuavam recuando — não somente havia melhorado gran­


demente a posição estratégica da Inglaterra no Mediterrâneo, anunciavam os ho­
mens do mar, como também levantara o prestígio dela em todas as partes do
mundo. Quanto ao ataque dos italianos no Egito, disse categoricamente a mari­
nha a Hitler: <CA Itália jam ais levará a cabo a ofensiva no Egito .* É lamentável a
chefia italiana. Eles não têm noção alguma da situação. As forças armadas italia­
nas não têm chefes nem eficiência militar para executar operações que, na área do
Mediterrâneo, se requerem para chegar a uma conclusão brilhante com rapidez e
decisão necessárias.”
Portanto, concluiu a marinha, cumpre à Alemanha executar essa tarefa. A
“luta pela área africana ” — preveniu a Hitler — constitui o “principal objetivo
estratégico da guerra da Alemanha como um todo (...) É de importância decisiva
para o resultado desta peleja”
Isso, porém, não convenceu o ditador nazista. Sempre encarara a guerra no
Mediterrâneo e no norte da África como algo secundário para seu objetivo prin­
cipal. Ao discorrer o almirante Ráder sobre as concepções estratégicas da mari­
nha, que desenvolvera na conferência que tiveram em 14 de novembro, Hitler
replicou afirmando que “estava ainda inclinado a uma demonstração contra a
Rússia”.50De fato, estava mais inclinado do que nunca, pois Molotov havia partido
de Berlim naquela manhã depois de ter-lhe acendido a ira. Quando o almirante se
avistou com seu chefe, dois dias depois do Natal, para informá-lo de como haviam
perdido a oportunidade no Mediterrâneo, ele não se perturbou. Fez ouvidos
moucos aos argumentos de que a vitória da Inglaterra sobre os italianos, no Egito,**

* Grifo da marinha.
** Naquela ocasião, uma força heterogênea britânica, formada de uma divisão blindada, uma divisão de
infantaria indiana, duas brigadas de infantaria e um regimento Royal Tank — 31 mil homens ao todo
— havia rechaçado do Egito uma força italiana três vezes maior e capturado 38 mil prisioneiros, custan­
do-lhe a operação 133 mortos, 387 feridos e oito soldados desaparecidos. A contra-ofensiva britânica,
sob o comando geral do general s/r Archibald Wavell, começou em 7 de dezembro e, em quatro dias,
destroçou o exército do marechal Graziani. O que havia sido começado como um limitado contra-
ataque de cinco dias prosseguiu até 7 de fevereiro, em cujo tempo os britânicos avançaram pela Cire-
naica, uma distância de oitocentos quilômetros, aniquilaram na Líbia todo o exército italiano formado
de dez divisões, capturando 130 mil prisioneiros, 1.240 canhões e quinhentos tanques, e sofrendo a
perda de quinhentos soldados mortos, 1.373 feridos e 55 desaparecidos. Para o cético escritor militar
britânico, general J. F. Fuller, foi "uma das mais audaciosas campanhas até então travadas". (Fuller, The
Second World War, p. 98).
“b a r b a r o s s a ” : a v e z d a r ú s s ia 275

e o crescente material que ela estava recebendo dos Estados Unidos requeriam
que se concentrassem todos os recursos alemães para subjugar os britânicos, e que
se protelasse a Operação Barbarossa até que “se derrotasse a Inglaterra”.
“Em vista do desenvolvimento da situação política atual e, especialmente, da
interferência da Rússia nas questões dos Bálcãs”, disse Hitler, “é necessário elimi­
nar, a todo custo, o último inimigo do Continente antes de nos atracarmos com a
Inglaterra”. Dali por diante, até o fim amargo, ele se apegaria fanaticamente a essa
estratégia fundamental.
Para agradar seu chefe naval, Hitler prometeu “tentar mais uma vez influen­
ciar Franco”, para que se pudesse efetuar o ataque contra Gibraltar e fechar o Me­
diterrâneo à esquadra britânica. Já tinha ele, na verdade, abandonado essa idéia.
Em 11 de dezembro, havia, sem alarde, ordenado que “não se executasse a Opera­
ção Félix, porque as condições políticas para isso não mais existiam”. Forçado,
pela própria marinha alemã e pelos italianos, para que insistisse junto a Franco,
Hitler fez um esforço final, se bem que lhe fosse penoso. Em 6 de fevereiro de
1941, endereçou uma longa carta ao ditador espanhol.

(...) Uma coisa, Caudilho, é preciso que se esclareça: estamos travando


uma batalha de vida e morte e não podemos, nesta ocasião, fazer quais­
quer caridades (...)
A batalha que a Alemanha e a Itália estão travando determinará tam­
bém o destino da Espanha. Somente com nossa vitória continuará a
existir o vosso presente regime.51

Para desventura do Eixo, a carta chegou às mãos do Caudilho no mesmo dia


em que as últimas forças do marechal Graziani haviam sido varridas do sul de
Benghazi pelos britânicos. Pouco era de admirar que, ao decidir-se Franco a
responder — em 26 de fevereiro de 1941 —, embora protestando sua “absoluta
lealdade” ao Eixo, ele lembrasse ao chefe nazista que os acontecimentos recentes

A marinha italiana sofreu também um golpe mortal. Na noite de 11 -12 de novembro, bombardeiros do
porta-aviões lllustrious (que a Luftwaffe alegara ter posto a pique) atacaram a frota italiana ancorada
em Taranto e puseram fora de ação, durante muitos meses, três encouraçados e dois cruzadores. "Um
dia negro", começou Ciano em seu diário, em 12 de novembro. "Os britânicos, sem qualquer advertên­
cia, puseram a pique o encouraçado Cavoure danificaram seriamente os navios Littorio e Duilio".
276 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

haviam deixado “as circunstâncias de outubro muito para trás” e que o entendi­
mento que naquela ocasião mantiveram se tinha tornado obsoleto.
Pelo menos uma vez em sua vida tempestuosa Adolf Hitler admitiu a derrota.
“A parte essencial dessa aborrecida incoerência espanhola”, escreveu a Mussolini,
“é que a Espanha não deseja entrar e nem entrará nesta peleja. Isso é extremamen­
te desagradável, porque significa que, para o momento, fica eliminada a possibili­
dade de atacarmos a Inglaterra da maneira mais simples, nas suas possessões do
Mediterrâneo.”
Mas era a Itália, e não a Espanha, a chave para derrotar a Inglaterra no Medi­
terrâneo; o frágil império do Duce, porém, não estava à altura da tarefa e Hitler
não teve suficiente senso para fornecer-lhe os meios — que tinha — para que pu­
desse fazê-lo. A possibilidade de atacar a Inglaterra, quer diretamente pelo Canal,
quer indiretamente pela larga faixa do Mediterrâneo, confessava ele agora, ficou
afastada, “no momento”. Conquanto fosse uma frustração, reconhecê-la trouxe-
lhe alívio. Podia agora voltar-se para as questões que lhe dominavam o espírito.
Em 8-9 de janeiro de 1941, realizou um conselho de guerra em Berghof, acima
de Berchtesgaden, que agora jazia numa profunda camada de neve do inverno. O
ar da montanha parecia ter-lhe clareado o espírito. Mais uma vez, conforme reve­
lam os longos relatórios confidenciais que, sobre a conferência, fizeram o almi­
rante Rãder e o general Halder,52 suas idéias estendiam-se por vasto campo ao
delinear sua grande estratégia aos chefes militares. Voltara-lhe o otimismo.

O Führer [anotou Ráder] está firmemente convencido de que a situação


na Europa não mais poderá desenvolver-se desfavoravelmente para a
Alemanha, mesmo que perdêssemos toda a África do Norte. Nossa po­
sição na Europa está tão firmemente estabelecida que não é possível
que o resultado nos seja desvantajoso (...) Os britânicos somente pode­
rão nutrir esperanças de ganhar a guerra se nos derrotarem no conti­
nente. O Führer está convencido de que isso é impossível.

Era verdade — admitiu ele — que a invasão direta da Inglaterra “não era pra­
ticável, a menos que esse país ficasse imobilizado em considerável grau e a Ale­
manha tivesse completa supremacia nos ares”. A marinha e a força aérea, disse,
devem concentrar os ataques às vias de navegação e cortar, com isso, o abasteci­
mento. Tais ataques — pensava — “poderiam acarretar a vitória já mesmo em julho
“ba r b a r o ssa ”: a v e z d a r ú s s ia 277

ou agosto”. Entrementes, prosseguiu, aa Alemanha deve fortificar-se no continen­


te, de tal maneira que possa atender ainda à guerra contra a Inglaterra (e os Esta­
dos Unidos)”. Os parênteses são de Halder e sua inclusão é significativa. É a pri­
meira menção, nos documentos alemães apreendidos, de que Hitler — no começo
de 1941 — estava encarando a possibilidade de os Estados Unidos entrarem na
guerra contra ele.
O chefe nazista tratou, em seguida, das várias áreas e problemas estratégicos e
explicou o que pretendia fazer a respeito.

O Führer é de opinião [escreveu Ráder] ser vital para o resultado desta


peleja que a Itália não sofra um colapso (...) Está decidido a (...) impedir
que ela perca o norte da África (...) Isso significa uma grande perda de
prestígio para as potências do Eixo (...) Está [portanto] resolvido a dar-
lhe apoio.

A essa altura, ele preveniu os chefes militares que se acautelassem quanto à


divulgação dos planos alemães.

Ele não deseja informar os italianos sobre nossos planos. Há o gran­


de perigo de que a família real esteja transmitindo informações à
Inglaterra!!*

O apoio à Itália, declarou Hitler, consistiria de formações antitanques e algu­


mas esquadrilhas da Luftwaffe para a Líbia. Mais importante ainda, ele enviaria
um corpo do exército, de duas e meia divisões, para animar as forças italianas
que estavam em retirada na Albânia — para onde os gregos as tinham agora lan­
çado. Seria desfechada, com isso, a Operação Marita.** A transferência de tropas
da Romênia para a Bulgária, ordenou ele, devia começar imediatamente, a fim de
que se pudesse dar início à Operação Marita em 26 de março. Hitler discorreu
longamente sobre a necessidade de se preparar para a execução da Operação

* Grifos de Rãder.
* * A Operação Marita foi promulgada na Diretiva na 20, de 13 de dezembro de 1940. Exigia um exército
de 24 divisões concentradas na Romênia e que, atravessando a Bulgária, atacariam a Grécia assim que
começasse um tempo favorável. Estava assinada por Hitler.53
278 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Átila — parecia que não havia fim para os nomes em código — a qual expusera
numa diretiva de 10 de dezembro de 1940. Era o plano de ocupação do restante
da França e da captura da esquadra francesa em Toulon. Julgava agora que se po­
dia levá-la a efeito logo. “Se a França criar dificuldades”, declarou, “terá que ser es­
magada completamente” Isso teria sido pura violação dos termos do armistício
celebrado em Compiègne, mas nenhum general ou almirante, segundo as anota­
ções de Halder e Rãder — ou pelo menos segundo o que se registrou — levantou
essa questão.
Foi nessa conferência de guerra que Hitler descreveu Stalin como “um chanta­
gista de sangue-frio” e informou os comandantes de que a Rússia teria que ser
subjugada “o quanto antes”.

Se os Estados Unidos e a Rússia entrassem na guerra contra a Alema­


nha [disse Hitler, e era a segunda vez que mencionava essa possibilida­
de por parte dos Estados Unidos], a situação se complicaria. Devia-se,
por isso, eliminar desde o início qualquer possibilidade de essa ameaça
vir a desenvolver-se. Caso se eliminasse a ameaça russa, poder-se-ia
travar indefinidamente a guerra contra a Inglaterra. Derrotada a Rús­
sia, o Japão ficaria bastante aliviado: isto, por sua vez, significaria um
perigo maior para os Estados Unidos.

Tais eram as idéias do ditador alemão sobre a estratégia total ao começar o ano
de 1941. Dois dias depois desse conselho de guerra, em 11 de janeiro, ele as incor­
porou na Diretiva na 22. Os reforços alemães para Trípoli deviam movimentar-se
de conformidade com a Operação Girassol, e os para a Albânia, com a Operação
Violetas dos Alpes.54

“O mundo ficará assombrado!”

Mussolini foi chamado por Hitler a Berghof a fim de conferenciarem nos dias
19 e 20 de janeiro. Abalado e humilhado pelas derrotas dos italianos no Egito e na
Grécia, não tinha ânimo para fazer a viagem. Ciano achou-o “carrancudo e ner­
voso” quando ele tomou seu trem especial, receoso que Hitler, Ribbentrop e os
“b a r b a r o ss a ”: a VEZ DA RÚSSIA 279

generais alemães se mostrassem insultuosamente condescendentes. O que agra­


vou ainda mais a situação: o Duce levou consigo o general Alfred Guzzoni, assis­
tente do chefe do Estado-maior, que Ciano, em seu diário, descreveu como ho­
mem medíocre, de ventre proeminente e que usava uma peruca tingida; e que
— julgava — seria positivamente humilhante apresentar aos alemães.
Para sua surpresa e alívio, Mussolini encontrou Hitler, que viera à plataforma
coberta de neve da pequena estação de Puch para saudá-lo, maneiroso e cordial,
não havendo censuras aos lamentáveis episódios da Itália nos campos de batalha.
Achou, também, conforme anotou Ciano em seu diário, seu anfitrião com forte
disposição contra os russos. Por mais de duas horas, no segundo dia, Hitler fez
aos hóspedes italianos e aos generais de ambos os países, ali reunidos, uma prele-
ção. Um relatório do general Jodl sobre essa preleção55 confirma que, enquanto o
Führer se mostrava ansioso por auxiliar os italianos na Albânia e na Líbia, seus
pensamentos estavam voltados para a Rússia.

Não creio que os Estados Unidos possam oferecer grande perigo [disse
Hitler] mesmo que entrem na peleja. Um perigo maior é o gigantesco
bloco da Rússia. Embora nossos acordos políticos e econômicos com
eles sejam muito favoráveis, prefiro confiar nos meios poderosos que
tenho à minha disposição.

Conquanto aludisse ao que pretendia fazer com seus “meios poderosos”, não
revelou seus planos para o parceiro. Eles, porém, já estavam suficientemente
adiantados para permitir que o chefe do Estado-maior geral do exército — res­
ponsável pela elaboração dos detalhes — os apresentasse ao comandante supremo
numa conferência em Berlim, 15 dias depois.
Essa conferência sobre a guerra, a que estiveram presentes os principais gene­
rais do OKW e do Alto-Comando do exército (OKH), durou desde meio-dia até
as 18h de 3 de fevereiro. Embora o general Halder, que traçara os planos do Esta­
do-maior geral do exército, afirmasse mais tarde em seu livro,56 que ele e Brau­
chitsch tinham levantado dúvidas sobre a própria avaliação que haviam feito do
potencial militar da Rússia e, de modo geral, se oposto à Operação Barbarossa,
tachando-a de aventura, não consta uma palavra, quer nos registros que nessa
mesma noite fez no seu próprio diário, quer no memorando secretíssimo do
28o A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

OKW sobre a conferência,57que confirme tal afirmação. Ao contrário, ambos re­


velam ter Halder, a princípio, feito por alto uma estimativa das forças oponentes,
calculando que, enquanto o inimigo teria aproximadamente 155 divisões, o po­
tencial alemão seria mais ou menos idêntico em número e, conforme Halder re­
latou, “muito superior em qualidade”. Mais tarde, ao começar a catástrofe, Halder
e seus companheiros generais perceberam que as informações de seus agentes
sobre o Exército Vermelho haviam sido fantasticamente falhas. Mas em 3 de feve­
reiro de 1941 eles não suspeitavam disso. De fato, tão convincente era o relatório
de Halder sobre as respectivas forças e a estratégia a ser empregada para aniquilar
o Exército Vermelho* que Hitler, no fim, não só manifestou sua concordância
com “tudo aquilo” como também, empolgado pelas perspectivas que o chefe do
Estado-maior geral apresentara, exclamou:
“Quando começar a Operação Barbarossa, o mundo ficará assombrado e não
fará comentários /”
Mal podia aguardar o momento para começá-la. Impacientemente, ordenou-
lhe que lhe mandassem “o quanto antes” o mapa das operações e o plano para o
desdobramento das forças.

Prelúdio nos Bálcãs

Antes que a Operação Barbarossa pudesse ser iniciada, na primavera, tinha-se


que conquistar e desenvolver o flanco sul que jazia nos Bálcãs. Na terceira semana
de fevereiro de 1941, os alemães concentraram um formidável exército de 680 mil
homens na Romênia, que bordejava a Ucrânia numa extensão de 480 quilômetros
entre a fronteira polonesa e o mar Negro.58Ao sul, porém, a Grécia ainda manti­
nha os italianos imobilizados, e Berlim tinha razão para acreditar que as tropas
britânicas, procedentes da Líbia, logo desembarcariam ali. Hitler, conforme as
minutas de suas numerosas conferências nesse período deixam bem claro, temia
que se pudesse formar uma frente aliada acima de Salonica, o que tornaria a situa­
ção, para a Alemanha, mais inquietante do que fora na Primeira Guerra Mundial,

* Traçou-se, em sua essência, a estratégia na Diretiva n2 21, de 18 de dezembro de 1940. (Ver p. 264-5).
Novamente ao comentar com Brauchitsch e Halder, Hitler salientou a importância de "varrer grandes
seções do inimigo" em vez de forçá-lo à recuar. E acentuou que "o principal objetivo (grifo dele) é conse­
guir a posse dos Estados bálticos e de Leningrado".
“ b a r b a r o s s a ” : A VEZ DA RÚSSIA 281

porque isso daria aos britânicos uma base de onde poderiam bombardear os cam­
pos petrolíferos da Romênia. Prejudicaria, além do mais, a Operação Barbarossa.
De fato, tinha-se previsto esse perigo já em dezembro de 1940, quando foi expe­
dida a primeira diretiva para um forte ataque contra a Grécia, através da Bulgária,
com tropas concentradas na Romênia.
A Bulgária, que errara ao calcular quais seriam os vencedores na primeira
guerra, o que lhe custara um preço muito caro, tornou a errar num cálculo simi­
lar. Acreditando nas afirmativas de Hitler, de que já havia vencido a guerra, e se­
duzida pela perspectiva de obter o território grego ao sul, o que lhe daria acesso
ao mar Egeu, concordou em participar da Operação Marita — pelo menos até o
ponto de permitir a passagem de tropas alemãs. Fez-se, secretamente, um acordo
em 8 de fevereiro de 1941, entre o marechal-de-campo List e o Estado-maior geral
da Bulgária.59Na noite de 28 de fevereiro, unidades do exército alemão proceden­
tes da Romênia atravessaram o Danúbio e tomaram posições estratégicas na Bul­
gária, a qual, no dia seguinte, se uniu ao pacto tríplice.
Os resolutos iugoslavos não se mostraram tão acomodatícios. Sua teimosia,
porém, apenas incitou os alemães a trazerem-nos também para a peleja. Em 4-5
de março, o regente — príncipe Paulo — foi chamado pelo Führer; com grande
sigilo, a Berghof. Fizeram-lhe as usuais ameaças e, além disso, para suborná-lo,
ofereceram-lhe Salonica. Em 25 de março, o prem ier da Iugoslávia, Dragisha
Cvetkovic, e o ministro das Relações Exteriores, Aleksander Cincar-Markovic,
tendo saído às ocultas de Belgrado na noite anterior para evitar demonstrações
hostis ou mesmo a possibilidade de serem seqüestrados, chegaram a Viena, onde,
na presença de Hitler e Ribbentrop, subscreveram, em nome da Iugoslávia, o pac­
to tríplice. Hitler ficou satisfeitíssimo e declarou a Ciano que isso facilitaria seu
ataque à Grécia. Antes de deixarem Viena, os chefes iugoslavos receberam duas
cartas de Ribbentrop confirmando a decisão da Alemanha de respeitar “a sobera­
nia e a integridade territorial da Iugoslávia para sempre” e prometendo que o Eixo
não exigiria direito de passagem para suas tropas pela Iugoslávia “durante esta
guerra”.60 Ambos os compromissos foram rompidos por Hitler, num prazo de
tempo que constituiu um recorde até mesmo para ele.
Nem bem os ministros iugoslavos regressaram a Belgrado, foram eles, o gover­
no e o príncipe regente derrubados do poder na noite de 26 para 27 de março, por
uma revolta popular encabeçada por certo número de altos oficiais da força aérea
282 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

e apoiada pela maior parte do exército. O jovem herdeiro do trono, Pedro, que es­
capara à vigilância dos funcionários da regência descendo por uma calha, foi no­
meado rei. Conquanto o novo regime do general Dusan Simovic se oferecesse ime­
diatamente para assinar um pacto de não-agressão com a Alemanha, era óbvio
em Berlim que ele não aceitaria a posição de títere para a Iugoslávia, que Hitler lhe
havia atribuído. Nas delirantes comemorações realizadas em Belgrado, durante as
quais a multidão cuspira no automóvel do ministro alemão, os sérvios demons­
traram para onde dirigiam suas simpatias.
O golpe em Belgrado lançou Adolf Hitler num dos maiores acessos de cólera
de toda a sua vida. Recebeu-o como afronta pessoal e, em sua furia, tomou subi­
tamente decisões que provariam mais tarde ser completamente desastrosas para a
sorte do Terceiro Reich.
Convocou apressadamente os chefes militares à chancelaria, em Berlim, no
dia 27 de março — a conferência foi convocada tão às pressas que Brauchitsch,
Halder e Ribbentrop chegaram tarde — e vociferou sobre a vingança que tomaria
contra os iugoslavos. O golpe de Belgrado, disse, pusera em perigo as Operações
Marita e, sobretudo, a Barbarossa. Estava, portanto, decidido a destruir militar-
mente a Iugoslávia como nação, sem mesmo esperar possíveis declarações de
lealdade do novo governo. Não se farão indagações diplomáticas — ordenou —
nem se apresentará um ultimato. A Iugoslávia, acrescentou, seria esmagada ‘com
dureza e sem piedade”. Ordenou ali mesmo a Gõring “destruir Belgrado em on­
das de ataques”, com bombardeiros operando das bases aéreas da Hungria. Expe­
diu a Diretiva n2 2561 para a imediata invasão da Iugoslávia e mandou que Keitel
e Jodl elaborassem, naquela mesma noite, os planos militares. Instruiu Ribben­
trop para que informasse Hungria, Romênia e Itália de que todos receberiam um
quinhão da Iugoslávia, a qual seria partilhada entre eles, exceto um pequeno esta­
do títere da Croácia.*
Segundo uma passagem sublinhada nas notas secretíssimas da OKW sobre a
conferência,62 anunciou em seguida a mais fatídica de todas as decisões: “O início
da Operação Barbarossa terá de ser adiado por mais quatro semanas?**

* "A guerra contra a Iugoslávia seria muito popular na Itália, Hungria e Bulgária", escarneceu Hitler. De­
clarou que daria a Banat à Hungria, a Macedônia à Bulgária e a costa do Adriático à Itália.
** Fora a princípio marcado para 15 de maio na primeira diretiva sobre a Barbarossa, datada de 18 de
dezembro de 1940.
“ b a r b a r o s s a ” : a VEZ DA RÚSSIA 283

A protelação do ataque contra a Rússia, a fim de que o chefe nazista pudesse


dar vazão a seu rancor contra um pequeno país balcânico que ousara desafiá-lo,
foi, provavelmente, a decisão mais catastrófica da carreira de Hitler. Não seria
exagero dizer que, ao tomá-la na chancelaria, em Berlim, naquela tarde de março,
durante um acesso de raiva, ele deixou de lado sua última e bela oportunidade de
ganhar a guerra e fazer do Terceiro Reich — que criara com tão estonteante gênio,
se bem que bárbaro — o maior império na história da Alemanha e tornar-se, ele
mesmo, o senhor da Europa. O marechal-de-campo Brauchitsch, comandante-
em-chefe do exército alemão, e o general Halder, o talentoso chefe do Estado-
maior geral, haveriam de lembrar-se dela com profundo amargor e, também,
com maior compreensão de suas conseqüências do que demonstraram na ocasião
em que foi tomada, quando, tempos depois, imaginando necessitar de três ou
quatro semanas para conseguir a vitória final, a neve profunda e a temperatura
abaixo de zero na Rússia os feriram. Eles e os generais, seus companheiros, have­
riam depois de condenar para sempre aquela decisão precipitada e insensata de
um homem vaidoso e enfurecido, devido aos desastres que dela resultaram.
A Diretiva militar nQ25, que o comandante supremo expediu aos generais
antes de dissolver-se a reunião, foi um documento típico de Hitler:

O Putsch militar na Iugoslávia alterou a situação política nos Bálcãs. A


Iugoslávia, a despeito de seus protestos de lealdade, deve ser considera­
da no momento um inimigo e, portanto, esmagada tão rapidamente
quanto possível.
É minha intenção invadir a Iugoslávia (...) e aniquilar-lhe o exército (...)

Jodl, como chefe da divisão de operações do OKW, foi incumbido de preparar


os planos naquela noite. “Trabalhei a noite toda na chancelaria do Reich”, contou
mais tarde no tribunal de Nuremberg. “Às 4h de 18 de março coloquei um aide-
mémoire nas mãos do general von Rintelen, nosso oficial de ligação com o Alto-
Comando italiano”.63
Mussolini, cujos exércitos deprimidos na Albânia corriam perigo de ser colhi­
dos na retaguarda pelos iugoslavos, devia ser informado imediatamente dos pla­
nos de operações dos alemães e ser solicitado a cooperar com eles. Para ter certe­
za de que o Duce compreendia o que dele se esperava, e sem esperar que o general
284 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Jodl consertasse os planos, Hitler escreveu rapidamente uma carta, à meia-noite


do dia 27, e ordenou que fosse telegrafada imediatamente, a fim de alcançar Mus­
solini naquela mesma noite.64

Duce, os acontecimentos forçam-me a fazer-vos, por este meio mais


rápido, minhas considerações sobre a situação e as conseqüências que
dela poderão advir.
Desde o princípio considerei a Iugoslávia um fator bastante perigoso na
controvérsia com a Grécia (...) Por essa razão, fiz tudo que pude e esfor­
cei-me sinceramente para trazer a Iugoslávia para a nossa comunidade
(...) Infelizmente minhas tentativas não tiveram êxito (...) As informa­
ções hoje recebidas não deixam dúvida alguma sobre a iminente mu­
dança na política exterior da Iugoslávia.
Já tomei todas as medidas necessárias (...) com recursos militares. Que­
ro pedir-vos cordialmente, Duce, que não empreendais qualquer outra
operação na Albânia no curso dos próximos dias. Acho necessário que
cubrais e defendais, com todas as forças disponíveis, os desfiladeiros
mais importantes que da Iugoslávia descem para a Albânia.
(...) Acho também necessário, Duce, que reforceis vossas forças na fren­
te ítalo-iugoslava com todos os elementos disponíveis e o mais rapida­
mente possível.
Considero necessário, Duce, que se guarde absoluto sigilo de tudo que
fizermos e ordenarmos (...) Essas medidas perderão completamente
seu valor caso se tornem conhecidas (...) Se se mantiver o máximo sigi­
lo, Duce, então (...) não terei dúvida de que iremos presenciar um êxito
que não será menor que o da Noruega, um ano atrás. Essa é minha fir­
me convicção.
Aceitai minhas saudações muito calorosas e amigas.
Vosso, Adolf Hitler.

No tocante a esse objetivo de pouca amplitude, o chefe nazista acertou nova­


mente em sua predição, mas parece que não imaginou o quanto lhe custaria, afinal,
a vitoriosa revanche contra a Iugoslávia. No alvorecer do dia 6 de abril, seus exér­
citos, em potencial esmagador, lançaram-se sobre a Iugoslávia e a Grécia pelas
fronteiras da Bulgária, Hungria e da própria Alemanha, com toda a sua blindagem.
“ b a r b a r o s s a ” : A VEZ DA RÚSSIA 285

Avançaram rapidamente contra defensores mal armados e estonteados pelos


usuais bombardeios preliminares da Luftwaffe.
Conforme Hitler ordenara, a própria Belgrado foi arrasada. Durante três dias
e três noites consecutivos, os bombardeiros de Gõring fizeram vôos rasantes so­
bre a pequena capital — pois a cidade não dispunha de canhões antiaéreos — ma­
tando 17 mil civis, ferindo muitos mais e reduzindo-a a destroços fumegantes.
Operação Punição — assim a chamou Hitler — e ficou evidentemente satisfeito
por ver que seus comandados a haviam executado com toda a eficiência. Os iu­
goslavos, que não tiveram tempo para mobilizar seu pequeno e forte exército, e
cujo Estado-maior cometera o erro de procurar defender todo o país, foram sub­
jugados. Em 13 de abril, as tropas alemãs e húngaras entraram no que restava de
Belgrado e, no dia 17, as remanescentes forças do exército iugoslavo, formadas
ainda de 28 divisões, renderam-se em Sarajevo, tendo o rei e o primeiro-ministro
escapado de avião para a Grécia.
Os gregos, que haviam humilhado os italianos em seis meses de luta, não pu­
deram resistir ao 122 Exército, do marechal-de-campo List, formado de 15 divi­
sões, quatro das quais blindadas. Os britânicos apressaram-se a enviar, da Líbia
para a Grécia, quatro divisões — 53 mil homens ao todo — as quais, como as gre­
gas, foram subjugadas pelos panzers alemães e pelos mortíferos ataques da Luft­
waffe. Os exércitos gregos do norte capitularam aos alemães e — pílula amarga
— aos italianos, em 23 de abril. Quatro dias depois, os tanques nazistas entravam
ruidosamente em Atenas e hasteavam a suástica na Acrópole. A essa altura, os
britânicos procuravam desesperadamente, mais uma vez, evacuar suas tropas pelo
mar — uma Dunquerque em pequena escala e quase com o mesmo êxito.
No fim de abril — em três semanas — estava tudo terminado, menos na ilha
de Creta, que foi conquistada aos ingleses pelos alemães, num assalto de forças
aerotransportadas, no fim de maio. Onde Mussolini fracassara tão tristemente,
durante todo o inverno, Hitler fora coroado de êxito em poucos dias, na primave­
ra. Conquanto se sentisse aliviado de se ter salvado daquela situação, o Duce sen-
tiu-se humilhado de que isso tivesse sido feito pelos alemães. Tampouco suavi-
zou-lhe o desgosto o desapontador quinhão nos despojos da Iugoslávia, cuja
partilha Hitler começara então a fazer.*

* Em 12 de abril de 1941, seis dias depois do desencadeamento de seu ataque, Hitler expediu uma di­
retiva secreta partilhando a Iugoslávia entre a Alemanha, a Itália, a Hungria e a Bulgária. A Croácia foi
286 A GUERRA*. PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Os Bálcãs não foram o único lugar em que o Führer salvou o seu desnorteado
parceiro subalterno. Após o aniquilamento dos exércitos italianos na Líbia, Hal­
der, embora relutantemente, consentiu finalmente em enviar uma pequena divi­
são blindada e algumas unidades da Luftwaffe ao norte da África, onde arranjou
para que o general Erwin Rommel assumisse o comando geral das forças ítalo-
alemãs. Rommel, um arrojado oficial das forças blindadas, cheio de recursos, que
se distinguira como comandante de uma divisão panzer na Batalha da França,
era um tipo de general que os britânicos ainda não haviam conhecido no norte
da África e que, durante dois anos, ia demonstrar ser um grande obstáculo para
eles. Esse, porém, não foi o único problema. A apreciável força aérea e o exército
que os britânicos haviam enviado à Grécia, procedentes da Líbia, deixara-os en­
fraquecidos no deserto. Não se mostraram, a princípio, realmente preocupados
nem mesmo depois que seus agentes secretos os informaram da chegada de uni­
dades blindadas alemãs na Tripolitânia, no fim de fevereiro. Mas deviam ter fica­
do preocupados.
Rommel, com sua divisão panzer alemã e duas divisões italianas, uma das
mais blindadas, atacou subitamente na Cirenaica, no último dia de março. Em 12
dias reconquistou a província, investiu contra Tobruk e atingiu Bardia, a poucos
quilômetros da fronteira egípcia. Toda a posição britânica no Egito e em Suez fi­
cou novamente ameaçada; de fato, com os alemães e italianos na Grécia, corria
grave perigo o domínio dos britânicos no Mediterrâneo Oriental.
Mais uma primavera, a segunda na guerra, havia trazido mais vitórias brilhan­
tes para a Alemanha, e a situação da Inglaterra, que agora resistia sozinha, gol­
peada em seu solo metropolitano pelos bombardeios noturnos da Luftwaffe, seus
exércitos no estrangeiro rechaçados na Grécia e na Cirenaica, parecia mais som­
bria e mais desesperada do que nunca. Seu prestígio, tão importante numa luta de
vida e morte, onde a propaganda constituía uma arma poderosa, especialmente
para poder exercer influência sobre os Estados Unidos e a Rússia, havia mergu­
lhado num novo nível baixo.*

criada como Estado títere e autônomo. O Führer serviu-se liberalmente, tomando a Alemanha todo o
território contíguo à velha Áustria e conservando sob ocupação tudo da antiga Sérvia, bem como os
distritos das minas de cobre e carvão. Deixou algo vago o quinhão da Itália; que não era substancial.65
* Charles Lindbergh, o aviador herói, que ao autor deste livro parecera ter-se deixado levar, com ex­
traordinária ingenuidade, durante suas visitas à Alemanha, pela jactanciosa propaganda nazista, já
havia considerado derrotada a Inglaterra, em seus discursos para grandes e entusiásticos públicos nos
“ b a r b a r o s s a ” : a VEZ DA RÚSSIA l 8 j

Hitler não demorou a tirar proveito da situação num discurso que, sobre suas
vitórias, pronunciou no Reichstag, em Berlim, no dia 4 de maio. Consistiu, prin­
cipalmente, de um venenoso e sarcástico ataque pessoal contra Churchill, acusan­
do-o de — juntamente com os judeus — instigador da guerra e de homem que
estava orientando a derrota.

Ele é o estrategista amador mais sanguinário de que se tem notícia na


história (...) Por mais de cinco anos esse homem se tem lançado pela
Europa como um louco em busca de alguma coisa a que possa atear
fogo (...) Como soldado, é um mau político, e, como político, um mau
soldado (...) O dom que Mr. Churchill possui é o de mentir com ex­
pressão piedosa no rosto e distorcer a verdade fazendo até das mais
terríveis derrotas gloriosas vitórias (...) Churchill, um dos mais infeli­
zes amadores em estratégia, conseguiu assim [na Iugoslávia e na Gré­
cia] perder dois palcos de guerra num só golpe. Em qualquer outro
país, ele seria submetido a conselho de guerra (...) A anormalidade de
seu espírito somente se explica por uma doença paralisante ou pelos
desvarios de um bêbado.

No tocante ao golpe dos iugoslavos, que provocou sua fúria, Hitler não procu­
rou ocultar seus verdadeiro sentimentos.

Espantou-nos a todos esse golpe, levado a efeito por um grupo de


conspiradores subornados (...) Compreenderão, senhores, que, assim

Estados Unidos. Em 23 de abril de 1941, no momento das vitórias nazistas nos Bálcãs e no norte da
África, ele discursou perante 30 mil pessoas em Nova York, na primeira reunião em massa do Primeiro
Comitê da América que se havia formado havia pouco tempo. "O Governo Britânico", disse ele, "tem
um último plano em seu desespero: (...) Persuadir-nos a enviar outra força militar americana à Europa
e participar militar e financeiramente do fiasco desta guerra". Condenou a Inglaterra por ter "encoraja­
do as pequenas nações da Europa a lutar contra fatos adversos". Não ocorreu a esse homem, aparen­
temente, que a Iugoslávia e a Grécia, que Hitler acabava de esmagar, tinham sido brutalmente ataca­
das sem que o tivessem provocado, e que elas instintivamente haviam procurado defender-se porque
tinham noção de honra e porque tiveram coragem mesmo em face dos acontecimentos adversos. Em
28 de abril, Lindbergh se demitiu de seu posto de coronel em comissão na reserva do corpo aéreo do
exército dos Estados Unidos, depois que, no dia 25, o presidente Roosevelt o tachou, publicamente,
de derrotista e apaziguador. O secretário de Guerra aceitou a resignação.
288 A guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

que eu soube desse acontecimento, dei imediatamente ordem de atacar


a Iugoslávia. Não se tolera tal tratamento ao Reich alemão.

Por mais arrogante que fosse em cantar suas vitórias naquela primavera e, es­
pecialmente, sobre a Inglaterra, Hitler não percebeu inteiramente o quanto elas
haviam golpeado esse país, tampouco quanto era desesperada a situação do impé­
rio. No mesmo dia em que ele discursava no Reichstag, Churchill escrevia ao
presidente Roosevelt sobre as graves conseqüências da perda do Egito e do Medi­
terrâneo Oriental, e pleiteava que os Estados Unidos entrassem na guerra. O pri­
meiro-ministro estava num de seus mais sombrios estados de espírito durante
toda a guerra.

Peço-vos, sr. presidente, que não subestimeis a gravidade da situação


que possa surgir no caso de um colapso no Oriente Médio.66

A marinha alemã instou junto a Hitler para que tirasse o máximo proveito da
situação. Para melhorar ainda mais a posição do Eixo, Rashid Ali, que recente­
mente havia sido nomeado premier do Iraque e era a favor dos alemães, encabe­
çou um ataque contra a base aérea britânica de Habbaniya, situada nas imedia­
ções de Bagdá, e apelou a Hitler para que o auxiliasse a expulsar os britânicos do
país. Isso foi no começo de maio. Conquistada Creta em 27 de maio, o almirante
Ráder, que nunca demonstrara entusiasmo pela Operação Barbarossa, apelou a
Hitler, em 30 de maio, para que preparasse uma ofensiva decisiva contra o Egito e
Suez. Rommel, ansioso por continuar o avanço assim que tivesse recebido refor­
ços, fez, também, do norte da África, idêntico apelo. “Esse golpe”, disse Ráder ao
Führer, “seria mais mortal ao império britânico que a conquista de Londres!”
Uma semana mais tarde, o almirante entregou a Hitler um memorando prepara­
do pela divisão de operações do Estado-maior da marinha de guerra, o qual pre­
venia que, embora Barbarossa permanecesse naturalmente em primeiro plano na
direção do OKW, não deveria, em qualquer circunstância, provocar o abandono
ou a demora na condução da guerra no Mediterrâneo”.67
Mas o Führer já havia tomado sua decisão: de fato, não a modificou desde a
festa do Natal, quando anunciou a Operação Barbarossa e informou o almirante
Ráder de que a Rússia devia ser “eliminada primeiro”. Seu espírito voltado inteira­
mente para a terra, simplesmente não compreendia a grande estratégia advogada
“ b a r b a r o s s a ” : A VEZ DA RÚSSIA 289

pela marinha. Mesmo antes de Ráder e o Estado-maior da marinha terem debatido


o problema junto a ele, no fim de maio, já havia tomado sua decisão com a Diretiva
n2 30, expedida em 25 de maio.68 Ordenou que uma missão militar, alguns aviões
e armamentos fossem enviados a Bagdá para auxiliar o Iraque. “Resolvi encorajar
a evolução dos acontecimentos no Oriente Médio, dando apoio ao Iraque”, disse.
Não tomou, porém, mais que essa pequena e inadequada medida. Quanto à gran­
de e ousada estratégia defendida pelos almirantes e Rommel, declarou:

Se —e, caso possível, quais os meios —é viável desfechar depois uma ofen­
siva contra o canal de Suez e, eventualmente, rechaçar os britânicos de
sua posição entre o Mediterrâneo e o golfo Pérsico, é questão que somen­
te poderá ser decidida quando estiver terminada a Operação Barbarossa.

A destruição da União Soviética figurava em primeiro lugar; tudo mais devia


esperar. Podemos ver, agora, que isso foi um erro extraordinário. Naquela ocasião
— fim de maio de 1941 —, Hitler, utilizando-se apenas de uma fração de suas
forças, poderia ter desfechado um golpe esmagador contra o império britânico;
talvez fatal. Ninguém compreendeu isso melhor do que Churchill, que se achava
em situação difícil. Em sua mensagem ao presidente Roosevelt, em 4 de maio, ele
admitira que, perdidos o Egito e o Oriente Médio, a continuação da guerra “seria
uma dura, longa e cruel proposição”, mesmo que os Estados Unidos entrassem na
peleja. Hitler, porém, não compreendeu isso. Sua cegueira é ainda mais incom­
preensível, porque sua campanha nos Bálcãs havia protelado o começo da Opera­
ção Barbarossa por várias semanas, comprometendo-a com isso. A conquista da
Rússia tinha que ser realizada em um espaço de tempo mais curto do que havia
sido projetado originalmente, pois havia um impasse inexorável: o inverno russo
que derrotara Carlos XII e Napoleão. Isso dava aos alemães apenas seis meses
para invadir, antes que começasse o inverno, um imenso país que jamais havia
sido conquistado do oeste. E, embora junho tivesse chegado, o vasto exército que
fora desviado para sudeste, a fim de atacar a Iugoslávia e a Grécia, tinha de ser
trazido novamente de grandes distâncias para a fronteira soviéticá, por estradas
sem calçamentos e linhas férreas de uma só via, completamente inadequadas para
atender a um tráfego tão pesado.
Resultou que a demora foi fatal. Os defensores do gênio militar de Hitler ale­
garam que a campanha dos Bálcãs não atrasara apreciavelmente o horário da
290 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Operação Barbarossa e que, em todo caso, a protelação fora, em grande parte,


devida ao degelo tardio que, naquele ano, deixou as estradas da Europa cobertas
de lama até meados de junho. O testemunho dos generais alemães é, contudo,
diferente. O marechal-de-campo Friedrich Paulus, cujo nome estará sempre liga­
do a Stalingrado e que, naquele tempo, foi um dos principais elaboradores dos
planos para a campanha da Rússia, no Estado-maior geral, depondo no tribunal
de Nuremberg, declarou que a decisão de Hitler, de destruir a Iugoslávia, fez que
se protelasse por “cerca de cinco semanas” o início da Operação Barbarossa.69 O
diário da marinha de guerra menciona o mesmo período de tempo.70O marechal-
de-campo von Rundstedt, que comandou o grupo do exército sul na Rússia, de­
clarou aos inquiridores Aliados, depois da guerra, que, por causa da campanha
nos Bálcãs, “começamos, pelo menos, com quatro semanas de atraso. Foi uma
demora que nos custou muito caro”, acrescentou.71
O fato é que Hitler, em 20 de abril, ao terminarem seus exércitos a conquista
da Iugoslávia e da Grécia, marcou a nova data para a Barbarossa. A operação de­
via começar em 22 de junho de 1941.72

O planejamento do terror

Nenhum ponto de apoio devia ser posto de lado na conquista da Rússia.


Hitler insistiu junto aos generais para que compreendessem isso perfeitamente.
No início de março de 1941, convocou os chefes das três armas e os principais
comandantes-em-chefe do exército em campanha e ditou a lei. Halder anotou
suas palavras.73

A guerra contra a Rússia [disse Hitler] será tal que não poderá ser
conduzida de maneira cavalheiresca. É uma luta de ideologias e de
diferenças raciais e terá de ser conduzida com uma dureza sem prece­
dentes, sem mercê e sem descanso. Todos os oficiais terão de desemba­
raçar-se de ideologias obsoletas. Sei que a necessidade de tais meios
para ser travada uma guerra ultrapassa a compreensão dos senhores,
generais, mas (...) insisto em que minhas ordens sejam executadas
sem oposição. Os comissários são os portadores de ideologia que se
“b a r b a r o s s a ”: a v e z d a r ú s s i a 291

contrapõe diretamente ao nacional-socialismo. Por conseguinte, liqui-


dar-se-ão os comissários. Desculpar-se-ão os soldados alemães acusa­
dos de quebrar as leis internacionais (...) A Rússia não fez parte da Con­
venção de Haia, não tendo, portanto, direito a elas.

Expediu-se assim a então chamada Ordem dos Comissários, que seria muito
debatida no tribunal de Nuremberg quando os generais ficaram confusos com a
grande questão moral: se deviam ter obedecido às ordens do Führer para comete­
rem crimes de guerra ou se deviam ter obedecido às próprias consciências.*
Segundo Halder — pelo que mais tarde se lembrou —, os generais revoltaram-
se contra aquela ordem e, assim que terminou a reunião, protestaram junto ao
comandante-em-chefe Brauchitsch. Esse servil marechal-de-campo** prometeu
que iria “combater aquela ordem na forma que havia sido dada”. Mais tarde —
Halder jurou — Brauchitsch informou o OKW, por escrito, que os oficiais do
exército “jamais poderiam executar tais instruções”. Informou realmente?
Em seu depoimento, ao ser inquirido em Nuremberg, Brauchitsch admitiu
que não tomou tal medida junto a Hitler “porque nada no mundo poderia modi­
ficar sua atitude”. O que o chefe do exército fez — contou ele ao tribunal — foi
expedir uma ordem escrita dizendo que “a disciplina no exército tinha que ser
observada estritamente dentro das normas e regulamentos que se aplicavam no
passado”.
“O senhor deu, diretamente, qualquer instrução referente à Ordem dos Co­
missários?, perguntou o juiz Lawrence, o mordaz presidente do tribunal, a
Brauchitsch.
“Não”, respondeu ele. “Eu não podia anular diretamente a ordem”.75
Os velhos oficiais de carreira, do exército, com suas tradições prussianas, tive­
ram nova ocasião de lutar com suas consciências contra as diretivas subseqüentes

* "Foi a primeira vez em que me vi envolvido no conflito entre a concepção que faço de um militar e o
dever de prestar obediência", declarou o marechal-de-campo von Manstein no julgamento realizado
em Nuremberg, ao debater a Ordem dos Comissários. "Na verdade, eu teria que obedecer; mas disse a
mim mesmo que, como soldado, possivelmente poderia não cooperar num caso como aquele. Falei ao
comandante do grupo de exércitos sob cujas ordens servia naquele tempo (...) que não poderia execu­
tar tais instruções, que eram contra a honra de um soldado."74
A título de registro: a ordem foi, naturalmente, executada em grande escala.
** "Uma nulidade", disse Hitler mais tarde referindo-se a ele. (Hitler's Secret Conversations, p. 153).
292 a g u e r r a : p r im e ir a s v i t ó r i a s e o m o m e n to d e c is iv o

expedidas em nome do Führer pelo general Keitel, em 13 de maio. A principal li­


mitava as funções dos conselhos de guerra alemães. Eles tinham de ceder a uma
forma de lei mais primitiva.

As transgressões puníveis cometidas por civis inimigos [na Rússia], até


novo aviso, ficarão mais sob a jurisdição dos conselhos de guerra (...)
As pessoas suspeitas de ação criminosa serão levadas imediatamente à
presença de um oficial. Ele decidirá se elas deverão ser fuziladas.
Com relação às transgressões cometidas contra civis inimigos por mem­
bros da Wehrmacht, não é obrigatória a instauração de processos, mesmo
que o ato seja ao mesmo tempo uma transgressão e um crime militar*

O exército foi informado para que agisse cautelosamente com tais transgresso­
res e se lembrasse, em cada caso, de todo o mal que, desde 1918, os bolcheviques
haviam feito à Alemanha. Somente seria justificado o conselho de guerra para os
soldados alemães se “a manutenção da disciplina ou segurança das forças exigisse
tal medida”. Seja como for, concluía a Diretiva, “confirmam-se apenas as senten­
ças do conselho de guerra que estiverem de conformidade com as intenções polí­
ticas do Alto-Comando”.76Essa diretiva devia “ser tratada com o máximo sigilo”.**
Uma segunda diretiva na mesma data, assinada por Keitel em nome de Hitler,
confiava a Himmler “tarefas especiais” para preparar a administração política na
Rússia: “tarefas”, dizia, “que resultam da luta que tem de ser levada a efeito entre dois
sistemas políticos opostos”. À sádica polícia secreta nazista eram delegados poderes
para agir independentemente do exército, “sob sua própria responsabilidade”. Os

* Grifos do original.
** Em 27 de julho de 1941, Keitel ordenou que se destruíssem todas as cópias dessa diretiva de 13 de
maio, relativas aos conselhos de guerra, se bem que "a validez da diretiva"— estipulou ele — "não fica­
ria afetada pela destruição das cópias". A ordem de 27 de julho, acrescentou, "seria destruída". Mas so­
breviveram cópias de ambas, e foram apresentadas em Nuremberg, para assombro do Alto-Comando.
Quatro dias antes, em 23 de julho, Keitel expediu outra ordem marcada secretíssima:
Em 22 de julho, o Führer, após receber o comandante do exército [Brauchitsch], decretou a seguinte
ordem:
Em vista da vasta extensão das áreas ocupadas no leste, as forças disponíveis para o estabelecimento
da segurança somente serão suficientes se toda resistência for punida, não pelo julgamento dos culpa­
dos por meio de processo legal, porém com a propagação do terror pelas forças de ocupação que por
si só sirvam para erradicar da população toda inclinação para resistir.77
“ b a r b a r o s s a ” : A VEZ DA RÚSSIA 293

generais sabiam bem o que significava a designação de Himmler para a execução


de “tarefas especiais”, embora negassem quando foram inquiridos em Nuremberg.
Além disso — dizia a diretiva —, as áreas ocupadas na Rússia ficariam interditadas
enquanto Hitler estivesse operando. Nem mesmo às “mais altas personagens do
governo ou do partido”, estipulou Hitler, seria dada permissão para vê-las. A mesma
diretiva nomeava Gõring para “pesquisar o país e assegurar-se de seu potencial
econômico a ser utilizado pela indústria alemã”. Incidentalmente, Hitler declarou
também nessa diretiva que, assim que fossem concluídas as operações militares, a
Rússia seria “dividida em Estados individuais com governos próprios”.78
Como isso seria feito, era matéria que devia ser elaborada por Alfred Rosen­
berg, o desnorteante homem dos Bálticos e, oficialmente, o principal pensador
nazista que, conforme vimos, havia sido um dos primeiros mentores de Hitler nos
tempos de Munique. Em 20 de abril, o Führer nomeou-o Comissário para o Con­
trole Central das Questões Ligadas à Região da Europa Oriental. Esse parvo na­
zista com positiva inclinação para interpretar mal a História, até mesmo a da
Rússia onde nascera e se educara, pôs imediatamente mãos à obra para construir
seus castelos na que fora outrora sua terra natal. Os volumosos arquivos de Ro­
senberg foram apreendidos intactos. À semelhança de seus livros, sua leitura cau­
sa horror, e não permitiremos que eles dificultem esta narrativa, embora, vez ou
outra, a eles tenhamos que nos referir, porque revelam alguns dos planos que
Hitler traçou em relação à Rússia.
No princípio de maio, Rosenberg elaborou seu primeiro trabalho prolixo
para o que prometia ser, na história, a maior conquista da Alemanha. Para come­
çar, a Rússia européia seria dividida em o que ele designava por comissariados
do Reich. A Polônia russa passaria a ser um protetorado alemão chamado Ost-
land; a Ucrânia, “um Estado independente aliado à Alemanha”; a Caucásia, com
seus ricos campos petrolíferos, seria governada por um plenipotenciário alemão;
e os três Estados bálticos e a Rússia Branca formariam um protetorado alemão
como medida preparatória para sua anexação ao grande Reich alemão. Essa úl­
tima façanha — explicou Rosenberg num de seus prolixos memorandos com
que cumulava Hitler e os generais, a fim de, conforme disse, elucidar “as condi­
ções raciais e históricas” para suas decisões — seria conseguida germanizando os
bálticos racialmente assimiláveis e “banindo os elementos indesejáveis”. Preve­
niu que “se tinha de considerar o banimento em grande escala na Letônia e na
294 a guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

Estônia. Os banidos seriam substituídos por alemães, preferivelmente veteranos


de guerra. “O mar Báltico”, estabeleceu ele, “deve transformar-se num mar inte­
rior germânico.”79
Dois dias antes do assalto das forças alemãs, Rosenberg dirigiu-se aos seus
colaboradores mais chegados, que deviam assumir o governo da Rússia:

A tarefa de alimentar o povo alemão [disse ele] figura no alto da lista de


reivindicações da Alemanha no leste. Os territórios ao sul [da Rússia]
terão que atender (...) à alimentação do povo alemão.
Não vemos, absolutamente, razão para qualquer obrigação de nossa
parte em alimentar também o povo russo com os produtos desse terri­
tório. Sabemos que é uma necessidade cruel, despida de quaisquer sen­
timentos (...) Muitos serão os anos duros que o futuro irá reservar aos
russos.80

Duríssimos, de fato, porque os alemães estavam projetando deliberadamente


a morte de milhões deles pela fome!
Gõring, incumbido da pesquisa econômica da União Soviética, deixou isso
ainda mais claro que Rosenberg. Numa longa diretiva, de 23 de maio de 1941, sua
divisão econômica de leste determinou que os mantimentos em excesso, proce­
dentes da faixa de terra preta da Rússia, no sul, não deviam ser desviados para a
população das áreas industriais, onde, aliás, as indústrias seriam destruídas. Dei­
xariam simplesmente os operários e suas famílias, nessas regiões, morrerem de
fome — ou, se pudessem, emigrarem para a Sibéria. A grande produção de ali­
mentos da Rússia deveria reverter para os alemães.

A administração alemã nesses territórios [declarava a diretiva] poderá


talvez procurar mitigar as conseqüências da fome que indiscutivel­
mente se verificará, acelerando a volta ao primitivo estado de agricul­
tura. Essas medidas, contudo, não evitarão a fome. Qualquer tentativa,
ali, para salvar da morte pela fome, importando a produção em excesso
da zona de terra preta, seria feita à custa dos abastecimentos para a Eu­
ropa. Isso reduziria a capacidade de resistência da Alemanha, na guer­
ra, e afetaria sua capacidade e a da Europa de resistirem ao bloqueio.
É preciso que isso fique clara e perfeitamente entendido.81
“b a r b a r o ss a ”: a vez DA RÚSSIA 295

Quantos russos morreriam em conseqüência dessa deliberada política alemã?


Uma conferência de secretários de Estado, realizada em 2 de maio, já havia dado
a resposta geral. “Não há dúvida ’, declarava o memorando secreto dessa confe­
rência, “que, como conseqüência, muitos milhões de pessoas morrerão de fom e, se
tirarmos do país o que nos é necessário.82 E Gõring dissera, assim como Rosenberg,
que seriam tiradas; isso devia ficar “clara e perfeitamente entendido”.
Algum alemão — um só que fosse — protestou contra essa crueldade que
projetaram, contra esse plano bem meditado para condenar à morte milhões de
seres humanos? Em todos os memorandos referentes às diretivas para espolia­
ção da Rússia não há menção a alguém que a isso tivesse feito objeção — como
pelo menos alguns generais fizeram relativamente à Ordem dos Comissários.
Tais planos não eram meras fantasias loucas e cruéis de almas e espíritos defor­
mados, tais como Hitler, Gõring, Himmler e Rosenberg. Evidencia-se pelos docu­
mentos que, durante semanas e meses, centenas de funcionários alemães trabalha­
ram arduamente em suas mesas, à alegre claridade dos dias quentes da primavera,
fazendo cálculos e compondo memorandos que computavam friamente o massa­
cre de milhões de pessoas. Pela fome, neste caso. Heinrich Himmler, o ex-granjeiro
de expressão amável, sentava-se também à sua mesa no quartel-general das S.S.,
em Berlim, naqueles dias, contemplando através de seu pince-nez os planos para
o massacre de outros milhões de um modo mais rápido e violento.
Muito satisfeito com o labor de seus ocupadíssimos lacaios, militares e civis,
no planejamento do ataque contra a União Soviética, de sua destruição e explora­
ção, e do massacre em massa de seus cidadãos, Hitler determinou em 30 de abril
a data para o assalto: 22 de junho. Fez seu discurso sobre a vitória, no Reichstag,
em 4 de maio, e retirou-se depois para seu abrigo favorito, o Berghof, acima de
Berchtesgaden, de onde podia contemplar o esplendor das montanhas alpinas,
seus picos ainda cobertos de neve da primavera e sua nova conquista, a maior de
todas, a qual, conforme dissera a seus generais, deixaria o mundo assombrado.
Foi ali, na noite de 10 de maio de 1941, sábado, que recebeu a estranha e ines­
perada notícia que o abalou até os ossos e o forçou, como aconteceu a todos no
mundo ocidental, a desviar por um momento seu espírito da guerra. Seu mais ín­
timo confidente, o representante do Führer no partido nazista, o segundo depois
de Gõring como seu sucessor, o homem que havia sido seu devotado adepto, de
uma lealdade fanática desde 1921 e desde o assassínio de Rohm, o amigo mais
chegado, havia, por conta própria, fugido para parlamentar com o inimigo!
296 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

O vôo de Rudolf Hess

A primeira notícia, tarde da noite de 10 de maio, de que Rudolf Hess partira


num avião de caça Messerschmitt-110 para a Escócia, atingiu Hitler, pelo que se
lembra o dr. Schmidt, ‘como se uma bomba tivesse caído em Berghof”.83O general
Keitel encontrou o Führer andando de um lado para outro em sua espaçosa sala de
trabalho, apontando o dedo para a testa e murmurando que Hess devia ter enlou­
quecido.84“Preciso falar com Gõring imediatamente”, gritou ele. Houve, na manhã
seguinte, ruidosa discussão com Gõring e todos os Gauleiter do partido, ao procu­
rarem “descobrir um meio” — as palavras são de Keitel — de apresentar aquele
embaraçoso acontecimento ao povo alemão e ao mundo. A tarefa não era fácil,
conforme Keitel atestou mais tarde, pois os britânicos, a princípio, mantiveram-se
silenciosos com relação ao seu visitante. Hitler e os que participaram da conferên­
cia tiveram, durante certo tempo, esperança de que talvez houvesse esgotado a ga­
solina do avião de Hess e ele tivesse caído no frio mar do Norte, afogando-se.
A primeira informação que chegou às mãos de Hitler veio numa carta de
Hess, um tanto incoerente, que lhe foi entregue por um mensageiro especial pou­
cas horas depois que ele partira de Augsburg, às 17:45h de 10 de maio. “Nem
parece próprio de Hess. É de pessoa diferente. Alguma coisa deve ter acontecido
a ele (...) alguma perturbação mental”, disse Hitler a Keitel. Mas o Führer tinha
também suas desconfianças. Foi ordenada a prisão de Messerschmitt, de cujo
campo, em sua empresa, saíra o avião, e de dezenas de homens da divisão de seu
representante.
Se Hitler ficara confundido com a repentina partida de Hess, o mesmo se deu
com Churchill com a inesperada chegada.* Despertou também fortes suspeitas
em Stalin. Durante toda a guerra, o bizarro incidente permaneceu envolto em
mistério. Somente foi esclarecido no julgamento de Nuremberg, do qual Hess foi
um dos réus. Vamos descrever sucintamente os fatos.
Hess, que sempre fora um trapalhão, não tão parvo quanto Rosenberg, voou
por conta própria para a Escócia com a ilusão de que poderia conseguir um acor­
do para a paz. Conquanto iludido, agira sinceramente — parece não haver razão

* Churchill descreveu pitorescamente como recebeu a notícia naquele sábado, tarde da noite, numa
visita ao interior, e como a julgou demasiado fantástica para que nela pudesse acreditar. {The Grand
Alliance, p. 50-5).
“ b a r b a r o s s a ”: a VEZ DA RÚSSIA 297

para dúvidas. Ele conhecera o duque de Hamilton em Berlim, em 1936, por oca­
sião dos jogos olímpicos; e foi a 19 quilômetros da propriedade do duque, na Es­
cócia, que — tão eficiente era sua pilotagem — saltou do Messerschmitt de pára-
quedas, caindo são e salvo no solo. Pediu a um sitiante que o encaminhasse ao
lorde escocês. Aconteceu que Hamilton, comandante de um grupo de esquadri­
lhas da Real Força Aérea, naquela noite de sábado, estava de serviço numa sala do
setor de operações, e havia percebido o avião Messerschmitt ao largo da costa
quando o aparelho apareceu logo depois das dez horas e caiu. Informaram-no,
uma hora depois, que o avião se destroçara e incendiara, e que o piloto, que havia
saltado de pára-quedas e dizia chamar-se Alfred Horn, alegara ter vindo em “mis­
são especial” para ver o duque de Hamilton. As autoridades britânicas providen­
ciaram para que o encontro se realizasse na manhã seguinte.

Hess explicou ao duque que estava em “missão de humanidade, e que o


Führer não queria derrotar a Inglaterra e desejava cessar a peleja”. Disse
Hess, ainda, que o fato de ser aquela sua quarta tentativa para voar até
a Inglaterra — nas outras três tivera de voltar por causa das condições
atmosféricas — e de ser ele, afinal de contas, um ministro do gabinete
do Reich demonstrava “sua sinceridade e a disposição da Alemanha de
estabelecer a paz”. Nessa entrevista, como nas subseqüentes, Hess não
hesitou em afirmar que a Alemanha ganharia a guerra e que, continuasse
ela, a Inglaterra ficaria em situação terrível. Portanto — disse — seria
preferível que seus anfitriões aproveitassem sua presença para negociar
a paz. Estava o fanático nazista tão certo de que os britânicos anuiriam
em parlamentar com ele que pediu ao duque que solicitasse “ao rei que
lhe desse livramento condicional, porque viera desarmado e por sua
livre e espontânea vontade”.85 Pediu, depois, ser tratado com o respeito
devido a um membro de gabinete.

As entrevistas subseqüentes, salvo uma, foram conduzidas do lado dos britâ­


nicos por Ivone Kirkpatrick, a inteligente ex-primeira secretária da embaixada
britânica em Berlim, cujos relatórios confidenciais foram mais tarde apresenta­
dos ao tribunal de Nuremberg.86 Hess transmitiu a essa sofisticada estudiosa da
Alemanha nazista suas propostas de paz, após repetir, como papagaio, as explicações
298 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

de Hitler sobre todas as agressões nazistas, desde a Áustria até a Escandinávia e


os Países Baixos, e de insistir que a Inglaterra seria responsável pela guerra e cer­
tamente a perderia se não a fizesse cessar agora. Não passava do que Hitler insis­
tira junto a Chamberlain — sem êxito — na véspera de seu ataque à Polônia: que
a Inglaterra devia dar mão livre à Alemanha, na Europa. Em troca, a Alemanha
dar-lhe-ia ‘completa liberdade de ação no império”. As antigas colônias alemãs
deviam ser devolvidas e, naturalmente, a Inglaterra teria que celebrar a paz com
a Itália.

Finalmente, quando íamos sair da sala [relatou Kirkpatrick], Hess fez


ainda uma observação: declarou que tinha esquecido de salientar que
ficava entendido que as negociações para aquela proposta somente se­
riam travadas pela Alemanha com outro governo inglês, e não com o
atual. O sr. Churchill, que havia planejado a guerra desde 1936, e seus
colegas que se tinham entregado à sua política de guerra, não eram
pessoas com as quais o Führer poderia negociar.

Para um alemão que tinha chegado até aquele ponto da luta selvagem, no par­
tido nazista e depois no Terceiro Reich, Rudolf Hess, como podiam atestar todos
que o conheceram, mostrou-se singularmente simplório. Evidencia-se, pelos re­
gistros das entrevistas, que ele esperava ser recebido imediatamente como impor­
tante emissário para negociações de paz — senão por Churchill, pelo menos pelo
“partido da oposição”, do qual julgava fosse o duque de Hamilton um dos chefes.
Quando seus contatos com o mundo oficial britânico continuaram restritos a
Kirkpatrick, tornou-se belicoso e ameaçador. Numa entrevista realizada no dia 14
de maio, descreveu à cética diplomata as horríveis conseqüências que adviriam à
Inglaterra se ela prosseguisse com a guerra. Haveria logo — disse — um terrível e
total bloqueio das Ilhas Britânicas.

Era inútil [falou Hess a Kirkpatrick] todos ali imaginarem que a In­
glaterra poderia capitular e, do império, travar a guerra. Era intenção de
Hitler, em tal eventualidade, continuar o bloqueio da Inglaterra (...)
de modo que teríamos que fazer face à morte deliberada da população
das ilhas, pela fome.
“b a r b a r o ss a ”: a vez DA RÚSSIA 299

Hess insistiu em que as conversações, para cuja realização tanto se arrisca­


ra, fossem atendidas imediatamente. “Seu primeiro vôo”, conforme explicou a
Kirkpatrick, “foi feito com a intenção de dar-nos uma oportunidade para ence­
tarmos as conversações sem haver perda de prestígio. Se rejeitássemos esse ense­
jo, seria prova evidente de que não desejávamos um acordo com a Alemanha, e,
nesse caso, Hitler teria o direito (de fato, seria seu dever) de destruir-nos com­
pletamente e de manter-nos, depois da guerra, em permanente sujeição.” Hess
insistiu em que fosse limitado o número de pessoas que deviam empreender as
negociações.

Como ministro do Reich, ele não podia colocar-se na posição de ver-se,


sozinho, às voltas com comentários e perguntas de um grande número
de pessoas.

E com essa nota ridícula terminaram as conversações no que dizia respeito a


Kirkpatrick. Mas — o que causa surpresa — o gabinete britânico, segundo escre­
veu Churchill,87 “convidou” lorde Simon para entrevistar Hess, em 10 de junho.
De acordo com a declaração que, em Nuremberg, fez o advogado do representan­
te do chefe nazista, Simon prometeu encaminhar ao governo britânico a proposta
de paz de Hess.*88
Os motivos de Hess são claros. Desejava, sinceramente, a paz com a Inglaterra.
Não tinha a menor sombra de dúvida de que a Alemanha venceria a guerra e
destruiria o Reino Unido, a menos que se concluísse imediatamente a paz. Havia,
decerto, outros motivos. A guerra deixara apagada sua pessoa; dirigir o partido
nazista como representante de Hitler, durante a guerra, era uma posição insípida
e não muito importante. O importante, agora, era dirigir a guerra e os negócios
estrangeiros. Eram essas as atividades que prendiam a atenção do Führer, com
exclusão de tudo o mais, e que ressaltavam as figuras de Gõring, Ribbentrop,
Himmler, Goebbels e os generais. Hess sentia-se frustrado e enciumado. Como
restabelecer sua antiga posição junto ao chefe amado e no país, senão realizando
um brilhante e ousado feito de habilidade política, realizando sozinho a paz entre
a Alemanha e a Inglaterra?

* Em Nuremberg, Hess disse ao tribunal que lorde Simon se havia apresentado a ele como"dr. Guthrie"
e declarara:"Venho com autorização do governo e estarei disposto a discutir com o senhor, tanto quan­
to parecer conveniente, tudo que desejar dizer para informação do governo."89
300 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Aquele homem de sobrancelhas hirsutas, representante do Führer; à feição de


alguns outros figurões nazistas — Hitler e Himmler inclusive — acabara acredi­
tando piamente em astrologia. Em Nuremberg, confiou ao psiquiatra americano
da prisão, dr. Douglas M. Kelley, que, no fim de 1940, um de seus astrólogos leu
nos astros que ele estava predestinado a estabelecer a paz. Relatou, também, como
seu antigo mentor, o professor Haushofer, o Geopolitiker de Munique, o vira num
sonho atravessando as salas dos castelos ingleses, fazendo a paz entre as duas
grandes nações nórdicas.90 Para um homem que não passara da adolescência
mental, isso era uma questão empolgante e, sem dúvida, auxiliou para que Hess
empreendesse sua fantástica missão junto à Inglaterra.
Em Nuremberg, um dos promotores britânicos sugeriu ainda outra razão: que
Hess voara para a Inglaterra a fim de tentar obter um acordo de paz para que a
Alemanha tivesse apenas uma única frente de guerra quando atacasse a União
Soviética. O promotor russo declarou ao tribunal que tinha certeza de que era
essa a razão. E o mesmo era o parecer de Joseph Stalin, cujas enormes desconfian­
ças naquela crítica ocasião parecem ter-se concentrado não na Alemanha, como
deviam, porém na Inglaterra. A chegada de Hess na Escócia convenceu-o de que
se arquitetava alguma trama profunda entre Churchill e Hitler, trama que daria à
Alemanha a mesma liberdade para atacar a União Soviética que o ditador russo
havia dado ao Führer para assaltar a Polônia e o Ocidente. Quando, três anos
mais tarde, o primeiro-ministro britânico, então em sua segunda visita a Mos­
cou, procurou convencer Stalin da verdade, ele simplesmente não acreditou.
Ficou mais ou menos claro nos interrogatórios conduzidos por Kirkpatrick, que
procurara sondar o líder nazista sobre as intenções de Hitler a respeito da Rússia,
que Hess não estava a par da Operação Barbarossa, ou, se estava, ignorava se ela
era iminente.
Os dias que se seguiram à partida de Hess figuram entre os mais embaraçosos
da vida de Hitler. Percebeu ele que o prestígio de seu regime ficara seriamente
abalado com o vôo do mais íntimo colaborador. Como explicaria o fato ao povo
alemão e ao mundo? O interrogatório dos membros da entourage de Hess, que
haviam sido presos, convenceu o Führer de que não houvera deslealdade para
com ele e, por certo, nenhum complô; e que seu lugar-tenente havia simplesmen­
te enlouquecido. Decidiu-se em Berghof, depois que os britânicos tivessem con­
firmado a chegada de Hess, oferecer essa explicação ao público. Logo depois, a
‘b a r b a r o s s a ” : a vez DA RÚSSIA 301

imprensa alemã obedientemente publicava breves notícias de que Hess, outrora o


grande astro do nacional-socialismo, transformara-se em “idealista desiludido,
tresloucado e confuso, atormentado por alucinações cujas causas se atribuíam a
ferimentos recebidos na Grande Guerra”.

Parecia [disse o primeiro comunicado da imprensa oficial] que o ca­


marada do partido, Hess, vivia num estado de alucinação, em conse­
qüência da qual achou que podia conseguir um entendimento entre a
Inglaterra e a Alemanha (...) Isso, porém, não terá efeito algum sobre
a continuação da guerra imposta ao povo alemão.

Particularmente, Hitler deu instruções no sentido de Hess ser fuzilado assim


que voltasse,* e, publicamente, destituiu o antigo camarada de todos os cargos,
substituindo-o, como seu representante no partido, por Martim Bormann, perso­
nagem mais sinistro e mais servil. O Führer esperava que esse esquisito episódio
fosse logo esquecido, e seus pensamentos não demoraram em se voltar para o
ataque contra a Rússia, que não estava muito distante.

Os apuros do Kremlim

A despeito de todas as provas quanto às intenções de Hitler — a concentração


das forças alemãs na Polônia Oriental; a presença de um milhão de soldados
nazistas ali nos Bálcãs; a conquista da Iugoslávia e da Grécia pela Wehrmacht; e
a ocupação da Romênia, da Bulgária e da Hungria —, os homens do Kremlin, so­
bretudo Stalin, conquanto reputados como fortes realistas, esperavam cegamente

* Hess, uma triste e alquebrada figura em Nuremberg, onde, durante uma parte do processo, simulou
uma amnésia total — seu espírito ficara certamente afetado —, sobreviveu a Hitler. Foi condenado à
prisão perpétua pelo Tribunal Internacional, escapando da condenação à morte em virtude de seu
colapso mental. Descrevi sua presença ali em EndofaBerlin Diary [Fim de um diário de Berlim].
Os britânicos trataram-no como prisioneiro de guerra, pondo-o em liberdade em 10 de outubro de
1945, para que pudesse ser julgado em Nuremberg. Durante seu tempo de prisão na Inglaterra, quei­
xou-se amargamente por lhe serem negados "todos os privilégios que se reservam aos diplomatas", os
quais constantemente exigia. Seu espírito, já não muito equilibrado, começou a piorar, e ele teve lon­
gos períodos de amnésia. Declarou ao dr. Kelley que, durante sua internação, tentara duas vezes suici­
dar-se. Tinha se convencido, disse, de que os britânicos estavam procurando envenená-lo.
302 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

que, de um modo ou de outro, a Rússia ainda escapasse da fúria do tirano na­


zista. As suspeitas que naturalmente nutriam não podiam deixar de ser alimen­
tadas pelos fatos que vinham à luz, e o crescente ressentimento ante os movi­
mentos de Hitler, no sudeste da Europa, tampouco podia ser eliminado. Há,
entretanto, algo irreal, quase inacreditável e completamente grotesco nas trocas
de mensagens diplomáticas, entre Moscou e Berlim, naquelas semanas da pri­
mavera (exaustivamente registradas nos documentos nazistas apreendidos),
nas quais os alemães inabilmente procuravam ludibriar o Kremlin até o fim, e
os russos pareciam incapazes de perceber toda a realidade e de agir a tempo.
Embora protestassem contra a entrada das tropas alemãs na Romênia e na
Bulgária e, depois, contra o ataque à Iugoslávia e à Grécia, como sendo uma vio­
lação do pacto nazi-soviético e uma ameaça aos “interesses da segurança”, os so­
viéticos se esforçaram por apaziguar Berlim ao aproximar-se a data do ataque
alemão. Stalin, pessoalmente, tomou a iniciativa nesse ponto. Em 13 de abril de
1941, o embaixador von der Schulenburg telegrafou uma interessante mensagem
a Berlim, narrando como, por ocasião da partida de Moscou, naquela noite, do
ministro das Relações Exteriores do Japão, Yosuke Matsuoka, Stalin se mostrava
“extraordinariamente amistoso” não só para com o japonês como também para
com os alemães. Na estação ferroviária

Stalin chamou-me em público [telegrafou Schulenburg] (...)colocou o


braço em volta de meus ombros e disse: “Precisamos permanecer ami­
gos, e o senhor deve agora fazer tudo para esse fim!” Virou-se, pouco
depois, para o adido militar em exercício, coronel Krebs, e, asseguran­
do-se em primeiro lugar de que ele era alemão, disse-lhe: “Permanece­
remos seus amigos tanto nas horas boas como nas más!”91

Três dias depois, o adido alemão em Moscou, Tippelskirch, telegrafou a Ber­


lim acentuando que aquela demonstração, na estação, monstrava a atitude amiga
de Stalin para com a Alemanha e que isso era de especial importância “em vista
dos rumores que corriam persistentemente de que era iminente um conflito en­
tre a Alemanha e a União Soviética”.92 No dia anterior, Tippelskirch informara
Berlim de que o Kremlin aceitaria incondicionalmente, após meses de debates, as
propostas alemãs para o acordo sobre a fronteira entre os dois países, do rio
“b a rb a ro ssa ”: a v e z d a r ú s s ia 303

Igorka até o mar Báltico. “A atitude complacente do governo soviético”, disse ele,
4parece muito extraordinária.”93 Certamente era, dado o que se estava preparan­
do em Berlim.
Ao abastecer de importantes matérias-primas a Alemanha bloqueada, o go­
verno soviético continuara a ser igualmente complacente. Em 5 de abril de 1941,
Schnurre, que se achava a cargo das negociações comerciais com Moscou, infor­
mou jubiloso aos chefes nazistas que, após o retardamento nas entregas russas em
janeiro e fevereiro de 1941, devido ao “resfriamento das relações políticas”, elas
haviam subido rapidamente em março, especialmente as de cereais, petróleo,
manganês e metais preciosos e não-ferrosos”.

O tráfego pela Sibéria [acrescentou ele] está se processando favoravel­


mente, como de costume. A pedido nosso, o governo soviético colocou
até mesmo um trem especial de carga à nossa disposição para o trans­
porte de borracha, na fronteira da Manchúria.94

Seis semanas depois, em 15 de maio, Schnurre informava que os russos pres-


timosamente haviam acrescentado vários trens de carga especiais a fim de que 4
mil toneladas de borracha em estado natural, de que se tinha grande necessidade,
pudessem ser despachadas para a Alemanha pela estrada de ferro da Sibéria.

As quantidades de matérias-primas contratadas estão sendo despacha­


das pontualmente pelos russos, a despeito do pesado encargo que isso
impõe a eles (...) Tenho a impressão de que poderíamos fazer exigências
de ordem econômica a Moscou, as quais ultrapassariam as disposições
do tratado de 10 de janeiro, destinadas a assegurar mantimentos e ma­
térias-primas à Alemanha acima das quantidades contratadas.95

As remessas de maquinaria para a Rússia estavam se atrasando, observou Sch­


nurre, mas ele não parecia preocupar-se com isso, uma vez que os russos não se
incomodavam. Todavia, em 15 de maio, mostrou-se inquieto com outro fator:
“Os inúmeros rumores de um iminente conflito russo-germânico estão criando
dificuldades”, queixou-se, culpando as fontes oficiais alemãs. Extraordinariamente,
304 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

as dificuldades, explicou Schnurre num longo memorando ao Ministério das


Relações Exteriores, não partiam da Rússia, porém das firmas industriais alemãs,
as quais — disse — estavam procurando retirar-se dos contratos que haviam assi­
nado com os russos.
Cumpre aqui ressaltar que Hitler se esforçava por contestar os rumores, mas,
ao mesmo tempo, estava ativamente procurando convencer os generais e os altos
funcionários de que aumentava, cada vez mais, o perigo de a Alemanha ser ataca­
da pela Rússia. Conquanto os generais, dadas as informações que provinham de
seu próprio serviço secreto militar, não acreditassem, era tal o fascínio que Hitler
exercia sobre eles que, depois da guerra, Halder, Brauchitsch, Manstein e outros
(menos Paulus, que parece ter sido mais sincero) afirmaram que uma concentra­
ção militar soviética na fronteira se havia tornado muito ameaçadora no início
daquele verão.
O conde von der Schulenburg, que viera de Moscou para uma breve licença,
conferenciou com Hitler em Berlim, no dia 28 de abril, e procurou convencê-lo
das intenções pacíficas da Rússia. “A Rússia”, tentou explicar, ‘está muito apreen­
siva com esses rumores que anunciam um ataque da Alemanha contra ela. Não
posso acreditar que a Rússia venha a atacar a Alemanha (...) Se Stalin não pôde
tomar o partido da Inglaterra e da França em 1939, quando ambos os países ainda
estavam fortes, certamente não irá tomar hoje tal decisão, quando a França está
destruída e a Inglaterra fortemente golpeada. Ao contrário, estou convencido de
que Stalin está pronto a fazer-nos ainda novas concessões”.
O Führer fingiu ceticismo. Havia sido prevenido, disse, “pelos acontecimentos
na Sérvia (...) Que diacho se apossara dos russos para que fossem concluir aquele
pacto de amizade com a Iugoslávia?”, perguntou.* Era verdade que não acreditava
— disse — que “a Rússia pudesse vir a atacar a Alemanha”. Contudo, concluiu, era
obrigado a acautelar-se. Hitler não informou seu embaixador junto à União So­
viética dos planos que tinha em vista para aquele país, e Schulenburg, um sincero
e decente alemão da velha escola, ignorou-os até o último momento.

* Em 5 de abril, na véspera do ataque alemão contra a Iugoslávia, o governo soviético concluiu apressa­
damente um tratado de não-agressão e amizade com o novo governo iugoslavo, aparentemente numa
desesperada tentativa de afastar Hitler de seus propósitos. Molotov havia informado Schulenburg sobre
o pacto na noite anterior. O embaixador exclamou que "a ocasião era muito infeliz" e procurou conven­
cer os russos de que, ao menos, adiassem a assinatura do tratado; nada, porém, conseguiu.96
“b a r b a r o ssa ”: a v ez da RÚSSIA 305

Stalin também ignorava o que Hitler estava tramando; não, porém, os sinais
ou os avisos. Em 22 de abril, o governo soviético protestou formalmente contra
oitenta casos de violação de fronteiras pelos aviões nazistas, que declarou terem-
se verificado no período de 27 de março a 18 de abril, fornecendo relatos minu­
ciosos sobre cada um deles. Num desses casos — disse — foram encontrados em
um avião alemão de reconhecimento, que havia aterrado nas proximidades de
Rovno em 15 de abril, uma máquina fotográfica, rolos de filmes já utilizados e um
mapa rasgado dos distritos situados na parte ocidental da URSS, “tudo isso evi­
denciando o objetivo da tripulação desse avião”. Mesmo no protesto, porém, os
russos mostraram-se conciliadores. Deram às tropas da fronteira — dizia a nota
— “ordem de não atirar contra os aviões alemães que sobrevoassem o território
soviético, contanto que tais vôos não ocorressem com muita freqüência”.97
Stalin tomou novas medidas conciliatórias no princípio de maio. Para agradar
Hitler, expulsou os representantes diplomáticos da Bélgica, Noruega, Grécia e até
mesmo da Iugoslávia em Moscou, e fechou suas legações. Reconheceu o governo
pró-nazi de Rashid Ali, no Iraque. Manteve sob o mais estrito controle a impren­
sa soviética, a fim de evitar qualquer provocação contra a Alemanha.

Essas manifestações das intenções do governo de Stalin [telegrafou


Schulenburg a Berlim em 12 de maio] destinam-se (...) a aliviar a ten­
são entre a União Soviética e a Alemanha, e a criar uma atmosfera me­
lhor para o futuro. Precisamos ter em mente que Stalin, pessoalmente,
tem sempre defendido a existência de relações amigáveis entre a Ale­
manha e a União Soviética.98

Embora Stalin fosse há muito tempo o ditador absoluto da União Soviética,


era essa a primeira vez que Schulenburg mencionara, em suas mensagens, a ex­
pressão “governo de Stalin”. Havia boa razão para isso. Em 6 de maio, assumira a
presidência do conselho dos Comissários do Povo, o cargo de primeiro-ministro,
substituindo Molotov, que permaneceu como comissário dos Negócios Estrangei­
ros. Era a primeira vez que o poderosíssimo secretário do Partido Comunista as­
sumia um cargo governamental, e a reação geral no mundo foi que isso significa­
va ter a situação se tornado tão séria para a União Soviética, especialmente em
suas relações com a Alemanha nazista, que somente Stalin poderia atender a ela
306 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

como chefe nominal do governo. Era óbvia esta interpretação; mas havia outra
não tão clara que o astuto embaixador alemão em Moscou assinalou prontamente
a Berlim.
Stalin — informou ele — estava descontente com o agravamento das relações
germano-soviéticas e culpara a inábil diplomacia de Molotov por muito daquela
situação.

Em minha opinião [disse Schulenburg] pode-se presumir com certeza


que Stalin resolveu atingir um objetivo de formidável importância na
política exterior (...) o que espera conseguir com seus esforços pessoais.
Acredito firmemente que, numa situação internacional que ele consi­
dera muito séria, está decidido a preservar a União Soviética de um
conflito com a Alemanha."

Não percebia o astuto ditador soviético a essa altura — meados de maio de


1941 — que isso era um objetivo impossível, nada havendo que pudesse fazer
para atingi-lo, salvo uma abjeta capitulação a Hitler? Conhecia seguramente o
significado da conquista da Iugoslávia e da Grécia por Hitler, da presença de
grandes massas de tropas alemãs na Romênia e na Hungria, em suas fronteiras a
sudoeste, e da concentração da Wehrmacht, na Polônia, em sua fronteira ociden­
tal. Os persistentes rumores, na própria Moscou, certamente chegaram até ele.
Em princípio de maio, o que Schulenburg descrevera numa mensagem do segun­
do dia desse mês como “rumores de uma iminente e definitiva explicação de or­
dem militar entre a Alemanha e a Rússia”, estava de tal modo fervendo na capital
soviética que ele e seus funcionários da embaixada alemã se viram em dificulda­
des para combatê-los.

Queiram ter em mente [aconselhou a Berlim] que as tentativas para


neutralizar tais rumores, aqui em Moscou, tornam-se forçosamente
inúteis, uma vez que eles procedem incessantemente da Alemanha, e
que todo viajante que vem a Moscou ou passa pela capital, não somen­
te os traz, como, também, chega a confirmá-los, citando fatos.100

O veterano embaixador, ele mesmo, já começava a ter suas desconfianças. Ber­


lim deu-lhe instruções para que negasse os rumores e espalhasse a notícia de que
“b a r b a r o s s a ”: a v e z d a r ú s s ia 307

não só não havia concentração de tropas alemãs nas fronteiras russas, como até
forças consideráveis (oito divisões, disseram-lhe para sua “informação pessoal”)
estavam sendo transferidas “do leste para o oeste”.101Essas instruções talvez apenas
viessem a confirmar a inquietação do embaixador, pois nessa ocasião a imprensa
de todo o mundo começava a trombetear a concentração militar alemã ao longo
das fronteiras soviéticas.
Muito antes disso, porém, já Stalin havia recebido advertências muito especí­
ficas sobre os planos de Hitler e, ao que parece, não lhes deu atenção. A mais
grave partiu do governo dos Estados Unidos.
No começo de janeiro de 1941, o adido comercial norte-americano em Ber­
lim, Sam Woods, enviou um relatório confidencial ao Departamento de Estado
dizendo que soubera, de fontes alemãs fidedignas, que Hitler estava fazendo pla­
nos para atacar a Rússia na primavera. Era uma longa e minuciosa mensagem que
descrevia o plano de ataque elaborado pelo Estado-maior geral (o que demons­
trou ser muito exato) e os preparativos que estavam sendo feitos para a exploração
econômica da União Soviética quando fosse conquistada.*
O secretário de Estado Cordell Hull pensou, a princípio, que Woods tivesse
sido vítima de uma vigarice dos alemães. Chamou J. Edgar Hoover, chefe do De­
partamento Federal de Investigações, que leu o relatório e julgou-o autêntico.
Woods havia citado algumas de suas fontes, nos vários ministérios de Berlim e
no Estado-maior geral alemão. Fizeram-se averiguações, e ficou confirmado em
Washington que se tratava de homens que deviam saber o que estava acontecendo
* Sam Woods, um amável extrovertido cujos conhecimentos sobre história e política não eram notá­
veis, parece-nos — a nós que o conhecíamos e apreciávamos — o último homem na embaixada norte-
americana que viesse a receber informações secretas de tal parte. Mas Cordell Hull confirmou o caso
em suas memórias e revelou detalhes. Woods — relata o finado secretário de Estado — tinha um ami­
go alemão, antinazista, que mantinha contatos nas altas esferas dos ministérios, do Reichsbank e do
partido nazista. Já em agosto de 1940, esse amigo informou-o sobre conferências que se estavam
realizando no quartel-general de Hitler, relativas a preparativos para um ataque contra a União Sovié­
tica. Desse tempo em diante, o informante manteve o adido comercial a par do que transpirava no
Estado-maior geral e entre as pessoas que projetavam a espoliação econômica da Rússia. Para evitar
que fossem descobertos, Woods encontrava-se com seu informante em vários cinemas de Berlim e, na
escuridão, recebia dele as informações. (Ver The Memoirs of Cordell Hull, p. 967-8).
Deixei Berlim em dezembro de 1940. George Kennan, o mais brilhante funcionário do Departamento
de Estado que servia na embaixada, que lá permanecera, informa-me que a embaixada soubera, de
várias fontes, do ataque que ia ser desfechado contra a Rússia. Duas ou três semanas antes do assalto
— disse ele — , o cônsul dos Estados Unidos em Kõnigsberg, Kuykendall, transmitiu um relatório no
qual dava, com exatidão, o dia do início do assalto.
308 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

e que eram antinazistas; daí terem dado com a língua nos dentes. A despeito das
tensas relações então existentes entre os governos soviético e norte-americano,
Hull resolveu informar os russos. Pediu ao subsecretário de Estado Summer Wel­
les que comunicasse o teor do relatório ao embaixador Constantine Oumansky, o
que foi feito em 20 de março.

O sr. Oumansky empalideceu bastante [escreveu Welles mais tarde].


Guardou silêncio por um momento, dizendo depois apenas o seguinte:
“Compreendo perfeitamente a gravidade da mensagem que o senhor
me entregou. Meu governo ficar-lhe-á reconhecido pela confiança que
lhe dispensa. Vou informá-lo imediatamente sobre o assunto de nossa
conversa.”102

Se se sentiu reconhecido, se realmente acreditou nessa informação dada a


tempo, não fez qualquer alusão ao governo norte-americano. De fato, conforme
o secretário de Estado Cordell Hull relatou em suas memórias, Moscou tornou-
se hostil e mais agressiva, porque o apoio dos Estados Unidos à Inglaterra impos­
sibilitava que se suprisse a Rússia de todos os materiais de que necessitava. Se­
gundo Hull, o Departamento de Estado, apesar disso, tendo recebido mensagens
de suas legações em Bucareste e Estocolmo na primeira semana de junho — in­
formando que a Alemanha invadiria a Rússia dentro de 15 dias — expediu cópias
delas ao embaixador Steinhardt, em Moscou, que as entregou a Molotov.
Churchill também procurou prevenir Stalin. Em 3 de abril, pediu a seu embai­
xador em Moscou, sir Stafford Cripps, que entregasse um memorando pessoal
ao ditador, assinalando a importância do movimento de tropas alemãs no sul
da Polônia, de que tivera conhecimento por um agente britânico. A demora de
Cripps em entregar a mensagem foi um fato que Churchill ainda lamentou quan­
do escreveu sobre o incidente, mais tarde, em suas memórias.103
Antes do fim de abril, Cripps sabia a data estabelecida para o ataque alemão, e
os alemães não ignoravam que ele soubesse. Em 24 de abril, o adido naval alemão
em Moscou enviou uma curta mensagem ao Alto-Comando naval, em Berlim:

O embaixador britânico prediz ser 22 de junho o dia do desencadea-


mento da guerra.104
‘b a r b a r o s s a ” : a v e z d a r ú s s ia 309

Essa mensagem, que figura entre os documentos apreendidos aos nazistas, foi
registrada no diário da marinha alemã no mesmo dia, com um ponto de exclama­
ção no fim.105Os almirantes ficaram surpreendidos com a exatidão da predição do
embaixador britânico. O pobre adido naval que, à semelhança do embaixador em
Moscou, não foi deixado a par do segredo, acrescentou em seu despacho que
aquilo era4evidentemente um absurdo”.
Molotov devia ter imaginado a mesma coisa. Um mês depois, em 22 de maio,
recebeu Schulenburg para discutir vários assuntos. “Como sempre, ele mostrou-
se amável, muito confiante e bem informado”, comunicou o embaixador a Berlim,
acrescentando que Stalin e Molotov, “os dois homens mais fortes na União Sovié­
tica”, esforçavam-se sobretudo para evitar um conflito com a Alemanha.106
Num ponto o embaixador, geralmente tão perspicaz, errou completamente.
Molotov, naquela ocasião, não estava certamente “bem informado”. Tampouco o
embaixador.
O nível da desinformação em que o comissário dos Negócios Estrangeiros
da Rússia demonstrava achar-se foi concretizado em 14 de junho de 1941, ape­
nas uma semana antes de a Alemanha desfechar o golpe. Molotov chamou
Schulenburg nessa noite, entregando-lhe o texto de uma declaração da Tass que,
disse ele, estava sendo transmitido naquela mesma noite e ia ser publicado nos
jornais na manhã seguinte.107Culpando Cripps pessoalmente por “espalhar boa­
tos de uma guerra iminente entre a URSS e a Alemanha pelos jornais ingleses e
estrangeiros”, essa declaração oficial do governo soviético tachava-os de “evidente
absurdo (...) uma grosseira manobra de propaganda das forças que se tinham
alinhado contra a União Soviética e a Alemanha”. A declaração acrescentava:

Na opinião dos círculos soviéticos, os boatos sobre a intenção da Ale­


manha (...) de desfechar um ataque contra a União Soviética são com­
pletamente destituídos de fundamento.

Mesmo os recentes movimentos de tropas alemãs dos Bálcãs para as fronteiras


soviéticas eram explicados no comunicado como “não tendo ligação com as rela­
ções germano-soviéticas”. Quanto aos boatos de que a Rússia atacaria a Alema­
nha, eram “falsos e insultuosos”.
Dois atos dos alemães, um no dia da publicação da comunicação — 15 de ju­
lho — e outro no dia seguinte, ressaltam a ironia da notícia da Tass.
310 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO

De Veneza, onde conferenciava com Ciano, Ribbentrop enviou uma mensa­


gem secreta a Budapeste, em 15 de junho, prevenindo o governo húngaro para
“tomar providências a fim de proteger suas fronteiras”.

Em vista da pesada concentração de tropas russas na fronteira oriental


alemã, o Führer provavelmente será obrigado, o mais tardar no início
de junho, a esclarecer as relações germano-soviéticas e, nesse sentido, a
fazer certas exigências.108

Os alemães avisavam os húngaros a respeito, e não o seu principal aliado.


Quando, no dia seguinte, durante um passeio de gôndola pelos canais de Veneza,
Ciano interpelou Ribbentrop acerca dos boatos de um ataque alemão contra a
Rússia, o ministro das Relações Exteriores nazista respondeu:

“Caro Ciano, nada posso dizer ainda, porque todas as decisões estão encer­
radas no espírito impenetrável do Führer. Uma coisa é certa, contudo: se
atacarmos a Rússia de Stalin, ela será riscada do mapa em oito semanas”.*

Enquanto o Kremlin, ingenuamente, preparava-se para irradiar ao mundo, em


14 de junho de 1941, que os boatos de um ataque alemão contra a Rússia não pas­
savam de “evidente absurdo”, Adolf Hitler realizava no mesmo dia sua última gran­
de conferência sobre a Operação Barbarossa com os principais oficiais da Wehr-
macht. O horário para a concentração de tropas a leste e seu desdobramento para
as posições de assalto havia sido posto em vigor em 22 de maio. Expediu-se uma
versão revisada do horário alguns dias depois.109É um documento longo e detalha­
do. Mostra que, no começo de junho, não só estavam completos todos os planos
para o ataque à Rússia, como estava sendo observado a tempo e a hora todo o vas­
to e complicado movimento de tropas, artilharia, carros blindados, aviões, navios
e abastecimento. Uma breve anotação no diário da marinha de guerra, em 29 de
maio, diz: “Começaram os movimentos preparatórios de navios de guerra para a
Barbarossa. Achavam-se terminadas as conferências com os Estados-maiores da
Romênia, da Hungria e da Finlândia; a Finlândia ansiava agora por conquistar

* Isso consta do último registro de Ciano, feito em 23 de dezembro de 1943, na cela 27 da prisão de
Verona, poucos dias antes de sua execução. Ele acrescentou que o governo italiano soube da invasão
da Rússia pelos alemães meia hora depois de ela ter começado. (Ciano Diaries, p. 583).
“b a r b a r o ss a ”: a v e z d a r ú s s ia 311

novamente o que lhe havia sido arrebatado pelos russos na guerra de inverno. Em
9 de junho, Hitler expediu, de Berchtesgaden, uma ordem convocando os coman-
dantes-em-chefe das três armas e os principais generais de campanha para uma
conferência final, em Berlim, no dia 14 de junho sobre a Operação Barbarossa.
A despeito da monstruosa tarefa, não só Hitler mas também seus generais se
mostraram confiantes ao examinar os mínimos detalhes da mais gigantesca ope­
ração militar da História — um ataque total numa frente que se estendia por 2.400
quilômetros, do oceano Ártico até Petsamo, no mar Negro. Na véspera, Brau­
chitsch havia regressado a Berlim de uma inspeção que fizera à concentração de
tropas no leste. Halder anotou em seu diário que o comandante-em-chefe do
exército estava satisfeitíssimo. Os oficiais e os soldados — disse ele — estão em
perfeita forma e preparados.
Essa última conferência militar, em 14 de junho, durou das 1lh até 18:30h. Foi
interrompida às 14h para o almoço, durante o qual Hitler dirigiu-se aos generais
com mais uma de suas pregações ardentes e estimuladoras que fazia na véspera
de uma batalha.110 Segundo Halder, foi “um discurso político compreensivo”, no
qual Hitler acentuou que precisava atacar a Rússia porque sua queda faria a Ingla­
terra desistir. Mas o sanguinário Führer devia ter salientado algo mais, ainda.
Keitel contou-o, durante seu interrogatório no tribunal de Nuremberg:

O tema principal de Hitler era que se tratava de uma batalha decisiva


entre duas ideologias, e que os métodos que nós, como soldados, co­
nhecíamos — os únicos admissíveis segundo as leis internacionais —,
deviam ser medidos por padrões completamente diferentes.

Em seguida — disse Keitel —, Hitler deu várias ordens no sentido de ser desen­
cadeado na Rússia, por “meios brutais”, um terror sem precedentes.
“O senhor, ou qualquer outro general, levantou objeções a essas ordens?”, per­
guntou o advogado do próprio Keitel.
“Não. Eu, pessoalmente, não fiz protesto algum”, respondeu o general. “Tam­
pouco os outros generais”, acrescentou.*

* Hassell confirma-o. Escrevendo em seu diário dois dias depois, em 16 de junho, observa: "Brauchitsch
e Halder já concordaram com a tática de Hitler [na Rússia]. Deve o exército, assim, assumir o ônus dos
assassínios e incêndios que até então ficavam limitados às S.S."
312 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

É quase inconcebível, mas nem por isso deixa de ser verdade, que os homens
do Kremlin, mesmo que gozassem a fama de desconfiados, sagazes e obstinados,
e a despeito de todas as provas e todas as advertências que lhes eram dadas, não
compreendessem até o último momento que iam ser atacados e com uma força
que poderia quase destruir seu país.
Às 21:30h da agradável noite de verão de 21 de junho de 1941, nove horas
antes de ter sido determinado o início do ataque, Molotov recebeu o embaixador
alemão em seu gabinete, no Kremlin, e proferiu suas “fatuidades finais.* Após ci­
tar novas violações das fronteiras pelos aviões alemães e dizer que havia instruído
o embaixador soviético em Berlim para que levasse esse fato à atenção de Ribben­
trop, Molotov voltou a tratar de outro assunto que Schulenburg descreveu num
telegrama urgente à Wilhelmstrasse naquela mesma noite:

Havia indicações de que o governo alemão [dissera-lhe Molotov] se


mostrava descontente com o governo soviético. Havia até boatos de que
se achava iminente uma guerra entre os dois países (...) O governo so­
viético não podia compreender as razões do descontentamento da Ale­
manha (...) Ele muito apreciaria se eu pudesse dizer-lhe qual o motivo
que criou a presente situação nas relações russo-alemãs.
Respondi [acrescentou Schulenburg] que não podia responder a essa
questão devido à falta de informações sobre o assunto.111

Iria obtê-las logo, uma vez que pelas ondas aéreas entre Berlim e Moscou vi­
nha uma longa mensagem em código, de Ribbentrop, datada de 21 de junho de
1941, marcada “Muito Urgente, Segredo de Estado, para o Embaixador Pessoal­
mente”, a qual começava:

A princípio, os "conspiradores" nazistas acreditaram ingenuamente que as ordens para a implantação


do terror na Rússia pudessem chocar os generais e os fizessem unir-se à revolta contra o nazismo. Mas
em junho o próprio Hassell ficou desiludido. O registro em seu diário, nessa data, começa:
A série de conferências com Popitz, Goerdeler, Beck e Oster para considerar se certas ordens que os
comandantes do exército receberam (mas que ainda não expediram) bastariam para abrir os olhos dos
chefes militares à natureza do regime para o qual estão combatendo. Essas ordens dizem respeito às
medidas brutais que as tropas deverão tomar contra os bolcheviques quando a Rússia for invadida.
Chegamos à conclusão de que nada se podia esperar agora (...) Eles [os generais] enganavam a si mes­
mos (...) Infelizes sargentos-ajudantes! {The von Hassell Diaries, p. 198-9).
* A expressão é de Churchill.
“ b a r b a r o ss a ”: a VEZ DA RÚSSIA 313

À recepção deste telegrama cumpre destruirdes todo o material em có­


digo que ainda exista aí. O aparelho de rádio deverá ser inutilizado.
Peço-vos informar Herr Molotov, imediatamente, que tendes uma comuni­
cação urgente a fazer-lhe (...) Rogo-vos declarar-lhe então o seguinte (...)

Era uma declaração familiar, repleta de mentiras e invencionices muito surra­


das, nas quais Hitler e Ribbentrop há muito se tinham tornado peritos e que
tantas vezes haviam engendrado antes, para justificar cada novo ato de agressão
não provocada. Talvez — pelo menos é a impressão deste autor ao relê-la — ul­
trapassasse todas as anteriores em desfaçatez e manhas. Enquanto a Alemanha
havia observado lealmente o pacto nazi-soviético — dizia —, a Rússia tinha-o
rompido repetidas vezes. A URSS havia praticado “sabotagem, terrorismo e es­
pionagem” contra a Alemanha. “Combateu as tentativas da Alemanha de estabe­
lecer uma ordem estável na Europa.” Conspirou com a Inglaterra, “para atacar as
tropas alemãs na Romênia e na Bulgária”. Ao concentrar “todas as forças russas
disponíveis numa longa frente, desde o Báltico até o mar Negro”, ameaçava com
isso o Reich.

Relatórios recebidos nos últimos dias [prosseguia] eliminavam as últi­


mas dúvidas quanto ao caráter agressivo dessa concentração dos russos
(...) Além disso, há relatórios da Inglaterra referentes às negociações do
embaixador Cripps para uma colaboração política e militar mais estrei­
ta entre a Inglaterra e a União Soviética.
Resumindo, o governo do Reich declara, portanto, que o governo so­
viético, contrariamente às obrigações assumidas,
(1) não somente continuou como até intensficou suas tentativas para
minar a Alemanha e a Europa;
(2) tem adotado uma política exterior cada vez mais antigermânica;
(3) tem mantido todas as suas forças de prontidão na fronteira alemã.
Com isso, o governo soviético quebrou seus tratados com a Alemanha
e está prestes a atacar a Alemanha, da retaguarda, na sua luta pela vida.
O Führer ordenou, portanto, que as forças armadas alemãs se oponham
a essa ameaça com todos os meios à sua disposição.112
314 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

“Peço-vos não discutirdes sobre essa comunicação”, advertiu Ribbentrop a seu


embaixador no final da mensagem. Que poderia dizer o abalado e desiludido
Schulenburg, que devotara os melhores anos de sua vida para melhorar as rela­
ções russo-alemães e sabia que o ataque contra a União Soviética não fora provo­
cado e não tinha justificativa alguma? Chegando novamente ao Kremlin ao raiar
do dia, contentou-se em ler a declaração alemã.* Molotov, afinal aturdido, ouviu
em silêncio, até o fim, dizendo depois:
“É a guerra. O senhor acha que merecíamos isso?”
Àquela mesma hora do amanhecer, uma cena semelhante verificava-se na
Wilhelmstrasse, em Berlim. Durante toda a tarde do dia 21 de junho, o embaixa­
dor soviético Vladimir Dekanozov estivera telefonando ao Ministério das Rela­
ções Exteriores para pedir uma audiência a Ribbentrop, a fim de entregar-lhe seu
pequeno protesto contra novas violações das fronteiras pelos aviões alemães.
Disseram-lhe que o ministro se achava “fora da cidade”. Às 2h do dia 22 foi infor­
mado de que Ribbentrop o receberia às 4h no Ministério. Ali o embaixador, que
havia sido representante do comissário dos Negócios Estrangeiros, um sequaz
de Stalin e quem arranjou a conquista da Lituânia, recebeu, à semelhança de
Molotov em Moscou, o maior choque de sua vida. O dr. Schmidt, que se achava
presente, descreveu o acontecimento:

Nunca vi Ribbentrop tão animado como naqueles cinco minutos, antes


da chegada de Dekanozov. Andava de um lado para outro na sala, como
um animal enjaulado (...)
Mandaram Dekanozov entrar, e ele, ignorando evidentemente que
qualquer coisa estivesse correndo mal, estendeu a mão para Ribben­
trop. Sentamo-nos (...) e Dekanozov começou a expor, em nome do seu
governo, certas questões que precisavam ser esclarecidas. Mal havia co­
meçado, quando Ribbentrop, com expressão dura, o interrompeu di­
zendo: “Não é esse o caso, agora” (...)

* Assim terminou a carreira diplomática do veterano embaixador. Voltando para a Alemanha e força­
do a aposentar-se, juntou-se ao círculo da oposição chefiado pelos generais Beck, Goerdeler, Hassell e
outros, tendo sido apontado, durante certo tempo, como o provável ministro das Relações Exteriores
de um governo anti-hitlerista. Hassell relatou que Schulenburg, em 1943, estava disposto a cruzar as
linhas russas a fim de conferenciar com Stalin sobre uma paz com um governo antinazista na Alema­
nha. (The von Hassell Diaries, p. 321-2). Schulenburg foi detido e encerrado numa prisão depois da
conspiração de julho de 1944 contra Hitler, e executado pela Gestapo em 10 de novembro.
“ba rba ro ssa ”: a v e z d a r ú s s ia 315

O arrogante ministro nazista explicou qual era o caso. Deu ao embaixador


cópia do memorando que Schulenburg estava, naquele momento, lendo para Mo­
lotov, e informou-o de que as tropas alemãs estavam naquele instante tomando
“contra-medidas militares” na fronteira soviética. O embaixador espantou-se —
diz Schmidt —, mas “recuperou depressa a calma e manifestou seu profundo pe­
sar” pelos acontecimentos, dos quais culpou a Alemanha. “Levantou-se, curvou-
se ligeiramente e retirou-se sem um aperto de mão.”113
Terminara a lua-de-mel nazi-soviética. Às 3:30h de 22 de junho de 1941, meia
hora antes de encerrarem-se as formalidades diplomáticas no Kremlin e na
Wilhelmstrasse, o troar dos canhões de Hitler ao longo de centenas de quilôme­
tros da frente destruiu-a para sempre.
Houve outro prelúdio diplomático para aquele conhoneio. Na tarde de 21 de
junho, Hitler achava-se sentado à mesa de trabalho em seu novo quartel-general
subterrâneo — Wolfsschanze (toca do lobo) —, nas proximidades de Rasten-
burg, numa obscura floresta da Prússia Oriental, e ditava uma longa carta que
dirigiria a Mussolini. Como se dera na preparação de todas as outras agressões,
não tivera suficiente confiança em seu aliado para mantê-lo a par do segredo.
Revelou-o somente no último momento. Sua carta é a prova mais evidente e
mais cabal que temos das razões determinantes daquele passo fatal que, durante
tanto tempo, intrigou o mundo e ia preparar o caminho para seu fim e o do Ter­
ceiro Reich. A carta — é certo — está repleta das costumeiras mentiras e dos
subterfúgios que sempre procurava impingir até aos amigos. Nas entrelinhas,
porém, surge seu raciocínio fundamental e suas verdadeiras — conquanto errô­
neas — idéias sobre a situação mundial ao começar oficialmente o verão de
1941, o segundo da guerra.

Duce!
Estou escrevendo esta carta num momento em que meses de ansiosas
deliberações e contínuas esperas, irritantes para os nervos, estão termi­
nando na decisão mais difícil de minha vida.
Situação :* A Inglaterra perdeu esta guerra. À semelhança de uma pes­
soa que se está afogando, procura agarrar-se ao que pode. Algumas
de suas esperanças, contudo, não são destituídas de certa lógica (...)
* Grifos de Hitler.
316 a guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

A destruição da França (...) fez com que os forjadores de guerra britâ­


nicos dirigissem, constantemente, os olhos para o lugar onde procura­
ram começar a guerra: a Rússia soviética.
Esses dois países, Rússia soviética e Inglaterra, acham-se igualmente inte­
ressados em uma Europa (...) exaurida por uma longa guerra. Por trás
desses dois países encontra-se a União Norte-Americana, que os incita (...)

Hitler, em seguida, explicou que, com inúmeras tropas militares russas em sua
retaguarda, jamais poderia reunir forças — ‘especialmente no ar” — para desfe­
char o ataque total contra a Inglaterra, para derrubá-la.

Realmente, todas as forças disponíveis encontram-se em nossas fron­


teiras (...) Se as circunstâncias me obrigarem a empregar a força aérea
alemã contra a Inglaterra, haverá o perigo de a Rússia começar então
sua estratégia de extorsões, às quais eu teria que ceder em silêncio, sim­
plesmente devido a uma sensação de inferioridade no ar (...) A Ingla­
terra se sentiria então menos disposta a celebrar a paz, porque poderia
apoiar suas esperanças no parceiro russo. Essas esperanças devem, na
verdade, aumentar naturalmente com o progresso no preparo das for­
ças armadas da Rússia. E, por trás disso, existem as remessas em massa,
dos Estados Unidos, que eles esperam receber em 1942 (...)
Após revolver constantemente o espírito, cheguei finalmente à decisão
de desfazer esse nó antes que venha a apertar mais (...) Minha perspec­
tiva global é, agora, a seguinte:
1. Como sempre, não se pode confiar na França.
2. A própria África do Norte, no que diz respeito a suas colônias, Duce,
provavelmente esteja fora de perigo até o outono.
3. A Espanha está indecisa e — receio —somente tomará posição quan­
do estiver decidido o resultado da guerra.
4. É fora de questão um ataque, antes do outono, contra o Egito (...)
5. É indiferente aos Estados Unidos entrarem ou não na guerra, mesmo
considerando o fato de eles apoiarem nosso inimigo com todo o pode­
rio que são capazes de mobilizar.
6. A situação na própria Inglaterra é ruim; a provisão de mantimentos e
matéria-prima está se tornando cada vez mais difícil. O espírito marcial
“b a r b a r o ssa ”: a VEZ DA RÚSSIA 317

para guerra está, afinal de contas, vivendo apenas de esperanças. Essas


esperanças baseiam-se unicamente em duas suposições: Rússia e Esta­
dos Unidos. Não temos meios de eliminar os Estados Unidos. Mas está
em nosso poder excluir a Rússia. A eliminação da Rússia significará ao
mesmo tempo um tremendo alívio para o Japão na Ásia Oriental e,
com isso, a possibilidade de uma ameaça mais forte às atividades dos
norte-americanos por meio de uma intervenção dos japoneses.
Dadas as circunstâncias, resolvi pôr um paradeiro à atuação hipócrita
do Kremlin.

A Alemanha, disse Hitler, não precisaria de quaisquer tropas italianas na Rús­


sia. (Elas não partilhariam a glória de conquistar a Rússia, da mesma maneira que
não o fizeram ao conquistar a França). Mas a Itália — declarou — poderia “prestar
um auxílio decisivo” dando maior poderio a suas forças na África do Norte e
preparando-se “para marchar para a França no caso de ela violar o tratado”. Era
esta uma bela isca para o Duce, faminto por terras.

No tocante à guerra aérea contra a Inglaterra, permaneceremos na de­


fensiva durante certo tempo (...)
Quanto à guerra no leste, Duce, ela será certamente difícil, nias não
alimento a menor dúvida quanto ao seu grande êxito. Espero, acima de
tudo, que nos seja possível assegurar uma base comum na Ucrânia para
o abastecimento de mantimentos, a qual nos possa fornecer suprimen­
tos adicionais à medida que deles possamos necessitar no futuro.

Veio depois a desculpa por não ter avisado seu parceiro mais cedo.

Se esperei até este momento, Duce, para transmitir-vos esta informa­


ção, é porque a própria decisão final somente será tomada hoje à noite,
às 19h (...)
Aconteça o que acontecer, Duce, nossa situação não poderá agravar-se
como resultado desse passo; somente poderá melhorar (...) Se a Ingla­
terra, entretanto, não tirar quaisquer conclusões desses fatos penosos,
poderemos então, com nossa retaguarda protegida, concentrar-nos
com maior poderio na liquidação de nosso inimigo.
318 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO

Hitler, por fim, descreveu sua grande sensação de alívio por ter tomado uma
decisão.

(...) Permiti-me acrescentar o seguinte, Duce. Depois de chegar, após


muita luta, a esta decisão, sinto-me de novo espiritualmente livre. A li­
gação com a Rússia, a despeito de toda a sinceridade de nossos esforços
para conseguir uma conciliação final, era, entretanto, muitas vezes abor­
recida para mim, pois de um modo ou de outro ela parecia desviar-se de
toda a minha origem, meus conceitos e antigas obrigações. Sinto-me
satisfeito, agora, por ter desembaraçado meu espírito desse tormento.
De vosso
Adolf Hitler114

Às 3h de 22 de junho, apenas meia hora antes do ataque das tropas alemãs, o


embaixador von Bismarck acordou Ciano em Roma para entregar-lhe a longa
missiva de Hitler, cujo texto o ministro das Relações Exteriores da Itália transmi­
tiu depois, por telefone, a Mussolini, que se achava repousando em Riccione, em
sua casa de verão. Não era a primeira vez que o Duce era despertado de madruga­
da por uma mensagem de seu parceiro do Eixo. Ressentiu-se por isso. “Nem meus
criados são por mim perturbados à noite”, irritou-se Mussolini com Ciano, “e os
alemães fazem-me saltar da cama a qualquer hora, sem a mínima consideração”.115
Apesar disso, assim que se sentiu bem desperto, deu ordens para que se preparas­
se imediatamente uma declaração de guerra contra a União Soviética. Ficara
agora completamente prisioneiro dos alemães. Sabia-o e ressentia-se. “Espero
apenas uma coisa: que nesta guerra, no leste, os alemães percam muito de sua
arrogância”.116Mesmo assim, compreendia que seu próprio futuro dependia ago­
ra das armas alemãs. Tinha certeza de que os alemães venceriam a Rússia, mas
esperava que, pelo menos, sofressem alguns reveses. Ele não podia saber, nem
suspeitava, como não o suspeitava nenhum outro no oeste, em ambos os lados,
que passariam por uma situação muito pior. Na manhã de 22 de junho, um domin­
go, dia em que Napoleão atravessou o rio Niemen em 1812 na sua marcha para
Moscou, e exatamente um ano depois que a pátria de Napoleão — a França —
capitulara em Compiègne, os exércitos blindados e mecanizados de Hitler, até en­
tão invencíveis, atravessaram também o Niemen e vários outros rios, penetrando
“b a r b a r o s s a ”: a v e z d a r ú s s i a 319

rapidamente na Rússia. O Exército Vermelho, a despeito de todos os avisos e si­


nais de advertência, ficou — conforme o general Halder anotou em seu diário no
primeiro dia — “taticamente surpreso ao longo de toda a frente”.* As primeiras
pontes foram conquistadas intactas. De fato, diz Halder, em muitos lugares ao
longo da fronteira os russos não haviam estendido suas forças para a luta e foram
dominados antes de organizar a resistência. Centenas de aviões russos foram des­
truídos nos aeródromos.** Em poucos dias, começaram a chegar dezenas de mi­
lhares de prisioneiros; exércitos inteiros foram rapidamente cercados. Parecia
uma repetição da Feldzug in Polen.
“Não é exagero dizer”, anotou Halder, geralmente muito cauteloso, no dia 3 de
julho, em seu diário, depois de estudar os últimos relatórios do Estado-maior
geral, “que a Feldzug contra a Rússia seja vencida em 14 dias”. Estará terminada
em questão de semanas — acrescentou.

* Há uma anotação curiosa no diário de Halder sobre esse primeiro dia. Após mencionar que, ao meio-
dia, as estações de rádio russas — que os alemães estavam controlando — voltaram ao ar, escreveu ele:
"Eles pediram ao Japão que servisse de mediador nas diferenças políticas e econômicas que existiam
entre a Rússia e a Alemanha e permanecesse em ativo contato com o Ministério das Relações Exteriores
da Alemanha". Acreditava Stalin — nove horas depois do ataque — que de um modo ou de outro ainda
poderia contornar a situação?
** O general Günther Blumentritt, chefe do Estado-maior do 4* Exército, lembrou mais tarde que um
pouco depois da meia-noite do dia 21, quando a artilharia alemã já havia colocado alça zero contra
seus objetivos, o trem-expresso Berlim-Moscou passou pelas linhas alemãs às margens do rio Bug,
atravessou-o e chegou a Brest Litovsk"sem incidentes". Afigurou-se-lhe um "momento fantástico". Qua­
se igualmente fantástico foi, para ele, a artilharia não responder até mesmo quando começou o assalto.
"Os russos", escreveu depois, "foram tomados inteiramente de surpresa em nossa linha de frente". Ao
alvorecer, postos de rádio alemães captaram mensagens da rede de rádio do exército russo. "Estão
atirando contra nós?" — cita Blumentritt como uma das mensagens dos russos. E veio a resposta do
quartel-general: "Vocês devem estar loucos. E por que sua mensagem não está em código?" (The Fatal
Decisions, publicado por Seymour Freidin e William Richardson).
CAPÍTULO 7

A reviravolta

No começo do outono de 1941, Hitler acreditava que a Rússia estava liquidada.


Em três semanas após o início de campanha do grupo de exércitos do centro,
do marechal-de-campo von Bock, com trinta divisões de infantaria e 15 divisões
panzer ou motorizadas, havia avançado de Bialystok até Smolensk. Moscou ficava
apenas 320 quilômetros mais além, a leste, ao longo da estrada que Napoleão ha­
via tomado em 1812. Ao norte, o grupo de exércitos do marechal-de-campo von
Leeb, formado de 21 divisões de infantaria e seis divisões blindadas, movimenta-
va-se rapidamente pelos Estados bálticos rumo a Leningrado. Ao sul, o grupo de
exércitos do marechal-de-campo von Rundstedt, composto de 25 divisões de in­
fantaria, quatro motorizadas, quatro alpinas e cinco panzer, avançava em direção
ao rio Dnieper e Kiev, capital da fértil Ucrânia, que Hitler cobiçava.
Tão Planmãssig (de conformidade com o plano) — na expressão dos comuni­
cados do OKW — era o progresso dos alemães ao longo de uma frente de 1.600
quilômetros desde o Báltico até o mar Negro, e tão confiante se sentia o ditador
nazista de que o avanço continuaria, a passo acelerado, ao render-se ou dispersar-
se um exército russo atrás do outro, que em 14 de julho — apenas três semanas
depois da invasão — ele expediu uma diretiva informando que o esforço do exér­
cito poderia ser ‘consideravelmente reduzido em futuro próximo” e que a produ­
ção bélica seria concentrada em navios de guerra e especialmente aviões para a
Luftwaffe, para conduzir a guerra contra o último inimigo que restava, a Ingla­
terra; e acrescentou: “E contra os Estados Unidos, se for o caso.”1No fim de setem­
bro, determinou ao Alto-Comando que se preparasse para dar baixa em quarenta
divisões de infantaria, a fim de ser esse elemento humano utilizado na indústria.2
As duas maiores cidades da Rússia, Leningrado — que Pedro, o Grande havia
construído como capital no Báltico — e Moscou — a antiga e também agora a
capital dos bolcheviques — pareciam a Hitler prestes a cair. Em 18 de setembro,
ele expediu ordens muito estritas: “A capitulação de Leningrado ou de Moscou
A REVIRAVOLTA 321

não deve ser aceita mesmo que ofereçam.”3Deixou bem claro a seus comandantes,
numa diretiva de 29 de setembro, o que devia acontecer a ambas as cidades:

O Führer decidiu varrer da face da terra Petersburgo [Leningrado].* A


continuação da existência dessa grande cidade não interessará, uma vez
vencida a Rússia (...)
A intenção é aproximar-se da cidade e arrasá-la por meio de artilharia
e contínuos ataques aéreos (...)
Pedidos para que tomemos a cidade serão rejeitados, pois o problema
da sobrevivência da população e de abastecê-la de mantimentos não deve
ser resolvido por nós. Nesta guerra pela existência, não temos interesse
em manter até mesmo parte da população dessa grande cidade.4**

Naquela mesma semana, em 3 de outubro, Hitler regressou a Berlim e, num


discurso ao povo alemão, proclamou o colapso da União Soviética. “Declaro hoje,
e faço-o sem qualquer reserva” — disse — “que o inimigo no leste foi derrubado
e jamais se levantará (...) Atrás de nossas tropas já há um território duas vezes
maior que o Reich alemão quando assumi o poder em 1933”
Quando em 8 de outubro caiu Orei, cidade-chave ao sul de Moscou, Hitler
mandou de avião a Berlim seu agente publicitário, Otto Dietrich, para informar
aos correspondentes dos principais jornais do mundo que, no dia seguinte, os
últimos exércitos intactos soviéticos — os do marechal Timoshenko, que defen­
diam Moscou — ficariam encurralados pelos alemães em dois bolsões de aço,
diante da capital; que os exércitos do sul, do marechal Budénny, haviam sido re­
chaçados e dispersados; e que de sessenta a setenta divisões do marechal Voroshi-
lov estavam cercadas em Leningrado.
“Para todos os fins militares, a Rússia soviética está liquidada. Dissipou-se o
sonho dos britânicos de uma guerra de duas frentes”, concluiu Dietrich presun­
çosamente.

* Grifos do original.
** Algumas semanas depois, Gõring declarou a Ciano: "Este ano, de vinte a trinta milhões de pessoas
morrerão de fome na Rússia. Talvez convenha ser assim, pois certos povos devem ser dizimados.
Mesmo que não fossem, nada se poderia fazer a respeito. É evidente que, se a humanidade está con­
denada a morrer de fome, os últimos a morrer serão os nossos dois povos (...) Nos campos para pri­
sioneiros russos, eles começaram a comer uns aos outros" (Ciano's Diplomatic Papers, p. 464-5).
322 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o

Essas jactâncias públicas de Hitler e Dietrich — para falarmos o mínimo


— foram precipitadas.* Os russos, na realidade, não obstante a surpresa com que
foram atacados em 22 de junho, suas subseqüentes grandes perdas em homens e
equipamentos, sua rápida retirada e o encurralamento de alguns de seus melho­
res exércitos, haviam começado, em julho, a organizar uma resistência cada vez
maior, como jamais a Wehrmacht enfrentara antes. O diário de Halder e os rela­
tórios dos comandantes das Unhas de frente — como os do general Guderian,
que dirigia um grande grupo panzer na frente central — começaram a ser ponti­
lhados, e depois carregados, de informes sobre duras lutas, desesperada resistên­
cia e contra-ataques dos russos, e sobre pesadas baixas tanto dos alemães como
dos soviéticos.
“A conduta das tropas russas”, escreveu o general Blumentritt mais tarde,
“mesmo nesta primeira batalha [pela conquista de Minsk] contrastou extraordi­
nariamente com a dos poloneses e Aliados ocidentais na derrota. Mesmo quando
cercados, os russos resistiam e lutavam”.5 E provou-se que havia maior número
deles, e com melhor equipamento, do que Hitler pensara fosse possível. Novas
divisões soviéticas, das quais o serviço secreto alemão não tinha a menor idéia,
estavam sendo continuamente lançadas à peleja. “Está se tornando cada vez mais
evidente”, escreveu Halder em seu diário no dia 11 de agosto, “que subestimamos
o poderio desse colosso russo não só na esfera econômica, como também na mi­
litar. A princípio, calculávamos que tivessem umas duzentas divisões, e já identi­
ficamos 360. Ao ser destruída uma dezena delas, os russos lançam outra mais.
Nessa grande extensão de terra, nossa frente é demasiado estreita. Não tem pro­
fundidade. Resulta que os repetidos ataques do inimigo são, muitas vezes, coroa­
dos de êxito”. Rundstedt declarou, sem rebuços, aos inquiridores Aliados depois
da guerra: “Percebi, logo depois de termos começado o ataque, que tudo que se
escrevera sobre a Rússia não passara de tolices.”
Vários generais — entre eles Guderian, Blumentritt e Dietrich — deixaram
relatórios manifestando surpresa no primeiro encontro que tiveram com os tan­
ques T-34 russos, dos quais não tinham ouvido falar antes e que eram tão pesada­
mente blindados que as granadas dos canhões antitanques alemães se tornavam

* Não prematuras, porém, quanto às advertências do Estado-maior geral americano que, em julho,
havia informado confidencialmente aos redatores americanos e aos correspondentes em Washington
que o colapso da União Soviética era apenas questão de poucas semanas. Não é de surpreender que as
declarações de Hitler e do dr. Dietrich fossem, no início de outubro, largamente acreditadas nos Esta­
dos Unidos e na Inglaterra, assim como na Alemanha e em outras partes do mundo.
A REVIRAVOLTA 323

ineficazes contra eles. A aparição dessa viatura, disse Blumentritt mais tarde, mar­
cou o começo do que se chamou “terror dos tanques”. Também, pela primeira vez
naquela guerra, os alemães não se beneficiaram da esmagadora superioridade
aérea para proteger suas tropas de terra e abrir-lhes caminho. A despeito das pe­
s