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‘Existe uma demanda social pela violência policial’, diz


pesquisadora
Paula Miraglia 02 Jul 2017 (atualizado 07/Jul 14h17)

Professora da Universidade de Chicago, Yanilda María González estuda as instituições policiais na América Latina e
identifica uma resposta a demandas populares. No entanto, nem todos os grupos sociais têm as mesmas possibilidades de
influenciar a conduta policial e as decisões dos governantes

FOTO: BRUNO DOMINGOS/REUTERS

 POLICIAL DURANTE UMA OPERAÇÃO NA COMUNIDADE DO BOREL NO RIO DE JANEIRO EM 2010

O Brasil vive uma epidemia de violência há mais de três décadas, sem que o tema da Segurança Pública tenha recebido, nesse mesmo período
(http://www.ipea.gov.br/portal/images/170609_atlas_da_violencia_2017.pdf), respostas eficazes do ponto de vista das políticas públicas. Em 2015 foram registrados
59.080 homicídios em todo o país. Em 2005 esse número era 48.136.

Nessa equação, a violência policial ocupa um lugar central e os números elevados de mortes causadas pela polícia colocam em xeque não apenas as políticas de
segurança, mas a própria capacidade das instituições democráticas. De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, só em 2015, foram registrados em
São Paulo 848 mortes decorrentes de intervenção policial, foram 645 no Rio de Janeiro e mais 299 na Bahia. Esses são Estados onde há uma tendência de crescimento
desse tipo de morte. Por outro lado, uma pesquisa do Instituto Sou da Paz, que avaliou 601 boletins de ocorrência de mortes provocadas pela polícia e de mortes de
policiais entre 2013 e 2014, na cidade de São Paulo, mostra que mais de 70% dos policiais mortos estavam de folga no momento da ocorrência. Apenas 7,5% dos
policiais foram assassinados enquanto estavam em serviço. Tais estatísticas revelam, entre outras coisas, as fragilidades institucionais que cercam as corporações
policiais.

Para Yanilda María González, professora da Universidade de Chicago e doutora em Políticas Sociais pela Universidade de Princeton, “existe uma tolerância e até uma
demanda social afirmativa pela violência policial em alguns setores da sociedade, e essa demanda social impacta as decisões e a políticas dos governantes e as ações da
polícia”. Nesta entrevista para o Nexo, González fala sobre letalidade policial, treinamento e identidade das polícias e das possíveis interpretações para os altos níveis
de violência policial observados no Brasil, em outros países da América Latina e até nos Estados Unidos.

Democracia e violência policial estão relacionadas? De que maneira?


YANILDA MARÍA GONZÁLEZ A temática principal da pesquisa que desenvolvo e do livro que estou escrevendo é precisamente a ligação entre violência policial e
democracia. Mais especificamente, a permanência de altos níveis de violência e corrupção policial em contextos democráticos – principalmente na Argentina, no
Brasil, e na Colômbia. Meu argumento é que a democracia e a violência policial se relacionam principalmente em três formas, todas contraditórias.
A primeira camada dessa relação hipercomplexa entre a democracia e a violência policial é a relação inversa. Há uma expectativa teórica de que a democracia deveria
produzir uma redução nos níveis de violência policial. Isto é, em uma sociedade democrática onde os cidadãos elegem os governantes, onde há o Estado de direito e a
proteção efetiva dos direitos humanos, tais fatores deveriam servir para restringir o uso da força letal pela polícia e impedir abusos frequentes por esses agentes do
Estado. Essa seria a relação inversa: a democracia deveria produzir menos violência policial.

A segunda camada dessa relação é aquilo que encontramos na realidade empírica. O ponto de partida da minha pesquisa, sobretudo no caso do Brasil, é o grande
aumento no número de pessoas mortas pela polícia depois da transição à democracia no país. Ou seja, em contraste com a expectativa teórica, a democracia no Brasil
tem produzido mais violência policial, não menos. Mesmo reconhecendo a dificuldade de obter dados confiáveis em relação à violência policial em geral e em contextos
de ditadura em particular, os dados disponíveis apontam essa tendência. Por exemplo, uma pesquisa feita por Paulo Sérgio Pinheiro e colegas em 1991 sobre a
violência policial em São Paulo, durante os anos 1980, documentou o crescimento no número de pessoas mortas pela polícia entre o último governo da ditadura e o
governo Franco Montoro, quem prometeu o “retorno ao Estado de direito” no estado de São Paulo e lutou pela democracia no contexto nacional. Sabemos também que
esses números subiram de uma forma espantosa até chegar no ápice em 1992, com a massacre do Carandiru. Nos últimos anos, o número de pessoas mortas pela
Polícia Militar de São Paulo tem sido igualmente elevado. Também nos últimos anos, a polícia militar tem produzido o equivalente de 20 a 25% do total dos homicídios
no estado de São Paulo. Outros estados do país, como o Rio de Janeiro, por exemplo, têm tendências parecidas.

O que está acontecendo? Por que a democracia no Brasil não tem reduzido a violência policial e, ao contrário, parece ter aumentado as taxas de violência policial? Acho
que aqui é importante considerar a terceira camada dessa complicada relação entre democracia e violência policial, a relação perversa ou paradoxal. O que eu faço na
minha pesquisa é focar nas demandas que vêm da sociedade. Quais são as demandas e os pedidos de diferentes grupos sociais? O que observei durante minha pesquisa
de campo nesses três países é que existe, especialmente no Brasil, uma tolerância e até uma demanda social afirmativa pela violência policial em alguns setores da
sociedade, e essa demanda social impacta as decisões e a políticas dos governantes e as ações da polícia. Muitas vezes essas demandas são expressadas em espaços
altamente democráticos no sentido formal. Por exemplo, um dos focos da minha pesquisa em São Paulo foram os Consegs, os Conselhos Comunitários de Segurança,
uma instituição participativa em que o cidadão comum pode se comunicar de forma direta com o comandante de polícia e outras autoridades do Estado. Mas o que
acontece? Nesse espaço da democracia participativa, as pessoas que participam muitas vezes pedem repressão e outras respostas contrárias à lei e aos direitos
humanos. Eu já ouvi muitas vezes nessas reuniões dos Consegs a famosa frase de “bandido bom é bandido morto” e que “os direitos humanos são para os bandidos.”
Então, muitas vezes esses espaços democráticos produzem a reivindicação de mais violência policial, não menos.

Uma sociedade que vive com medo (em que por exemplo a violência urbana seja um grande problema) pode influenciar o
comportamento das suas forças policiais?
YANILDA MARÍA GONZÁLEZ O que a minha pesquisa mostra é que existe sim uma influência das demandas sociais na conduta da polícia. Porém, nem todos os grupos
sociais têm o mesmo acesso e as mesmas possibilidades de influenciar a conduta policial e as decisões dos governantes. O que eu vejo nos casos que estudo é que a
polícia e os políticos respondem à demanda da classe média. Mesmo nos bairros carentes, são as demandas de proprietários, comerciantes, etc. E a demanda que
muitas vezes vem desses setores relativamente mais poderosos, as quais escutei muitas vezes nas reuniões dos Consegs, por exemplo, favorece a repressão. As vozes
das pessoas mais vulneráveis, dos pobres, dos negros, pessoas em situação de rua, geralmente são excluídas, e as vezes ativamente expulsadas desses espaços.

Como chegamos nessa situação, não só no Brasil mas também em outros países? Parte do problema sem dúvida se explica pelos altos níveis de violência no Brasil.
Recentemente, uma pesquisa mostrou (https://igarape.org.br/wp-content/uploads/2017/06/Campanha-Instinto-ES-13-06-web.pdf) que 50 milhões de pessoas no
Brasil têm algum parente ou amigo que foi assassinado, e esse número é ainda maior entre a população negra e entre os homens. A violência é um problema que atinge
grande parte da sociedade. Mas se a problemática da violência tem causas variadas, complexas e multidimensionais, a solução proposta pelos governantes geralmente
é singular, simplista, e parcial — repressão, violência policial, redução da maioridade penal, etc. Logo, grande parte da sociedade acaba vendo esse tipo de resposta
como a única opção e começa a pedir mais violência policial, mais punição. Isso influi, sim, na conduta das polícias do país. Os policiais chegam a entender que essa
atuação truculenta responde a uma demanda social e política. De uma forma limitada, eles têm razão.

Quais são os requisitos para uma corporação policial saudável?


YANILDA MARÍA GONZÁLEZ Obviamente não há uma resposta simples a essa pergunta. O que eu observei na minha pesquisa sobre processos de reformas policiais na
Colômbia, Argentina e Brasil, em conjunto com minha leitura de processos de reforma em outros países, é que existe um pacote de reformas que pretendem resolver
uma série de problemas compartilhados por muitas forças policias do mundo. Geralmente eles incluem: descentralização territorial e operacional; desmilitarização;
critérios mais estritos de recrutamento, seleção e promoção; profissionalização da carreira policial; modernização do treinamento; estudo, planejamento e
gerenciamento civil das políticas de segurança; controle interno fortalecido e controle externo independente; policiamento comunitário e a participação da sociedade; e
melhorias nas condições sociais e laborais dos policiais.

Os processos de reforma da polícia colombiana e a polícia de Buenos Aires incluíram todas essas medidas, foram realmente processos integrais (mesmo que a
implementação das reformas tenha sido um processo inconcluso nos dois casos). Porém, os processos de reforma policial que eu pesquisei no Brasil, principalmente o
caso de São Paulo, têm sido muito mais limitados e parciais: por exemplo, a implementação da participação comunitária nos anos 1980 e a criação da ouvidoria de
polícia dez anos depois. Certamente esse modelo tem sido insuficiente.

Além das reformas que já indiquei, um conceito do qual se fala bastante hoje em dia é da justiça procedimental interna. Ou seja, a ideia é que ao ter processos mais
justos, transparentes e participativos dentro da corporação, a atuação da corporação em relação à sociedade será mais justa, transparente, e participativa também.

Dez anos atrás dei um curso de direitos humanos na escola de polícia em uma província Argentina. Tive que encarar o fato de que para os policiais era quase
impossível contemplar os direitos humanos da população sem antes falar das grandes violações de direitos humanos contra eles dentro da corporação. Então, além das
outras medidas estruturais das quais eu falei, é importante também falar da justiça procedimental interna. Mas também é fundamental considerar as relações e
estruturas sociais e políticas. Até a corporação policial mais “saudável” vai ser influenciada pela realidade social e política, não é possível separar uma coisa da outra.

Em alguns países a polícia se apresenta como um “serviço de polícia” em outros como uma “força policial” Qual a diferença
entre essas duas identidades?
YANILDA MARÍA GONZÁLEZ Existe uma diferença gigante entre a concepção da polícia como uma força do Estado e a concepção da polícia como um serviço para a
sociedade. É uma distinção histórica que nasce dos modelos de policiamento francês e inglês. Na sua versão mais simplista, o modelo tradicional da polícia francês foi
a polícia do Estado, enquanto a visão inglesa era de uma polícia que responde às necessidades da comunidade. A diferença entre os dois modelos fica muito clara, por
exemplo, quando consideramos qual deveria ser a resposta da polícia diante de um protesto social. A resposta de uma corporação policial que entende a missão
institucional como a proteção do Estado vai ser muito diferente da resposta de uma polícia cuja prioridade é responder às necessidades da comunidade. Na América
Latina, há muitas polícias que promovem um discurso de polícia da comunidade (ou polícia comunitária) mas mantêm estruturas (tanto formais quanto informais),
normas e condutas de uma polícia do Estado. Isso gera muitas contradições, as quais todos nós já conhecemos.

Como as condições de trabalho, salário e treinamento podem impactar a atuação das polícias?
YANILDA MARÍA GONZÁLEZ Eu considero que as condições laborais e o treinamento dos policiais são fundamentais para entender a questão da violência policial e a
falta de proteção que caracteriza muitas comunidades vulneráveis nas Américas. Infelizmente, há diversos exemplos em que a falta de treinamento resulta nas mortes
de muitas pessoas. Aqui nos Estados Unidos, conhecemos muitos casos de policiais que têm pouco treinamento no uso de armas, na resolução de conflitos, e na
abordagem de pessoas com crises de saúde mental. Esses policiais têm assassinado muitas pessoas. No Brasil também existe a mesma problemática – policiais sem
treinamento adequado, o que os coloca numa situação de risco, em que a única resposta que eles conhecem é atirar. O racismo, os estereótipos e preconceitos, a
truculência, e a ilegalidade chegam a substituir a capacitação e o treinamento adequado na sua atuação.

As condições laborais e de salário também são importantes. O policial de rua ganha muito pouco, e muitas vezes usa essa realidade para justificar a corrupção e a
ilegalidade. Não estou convencida de que a corrupção diminuiria com melhorias de salário, mas já escutei essa questão diversas vezes nas minhas entrevistas. Mas
falando das condições de trabalho em geral, elas também estão ligadas à justiça procedimental interna mencionada na minha resposta anterior.

Na minha pesquisa, a manifestação mais extrema dessa problemática foi a situação da polícia colombiana nos anos 1980 e o começo dos anos 90. Naquela época, o
período de treinamento foi reduzido de 12 meses para seis, alguns policiais ingressavam na corporação só com o ensino fundamental completo, os policiais contavam
que precisavam fazer vaquinha para comprar combustível para a viatura e que o salário que recebiam não era suficiente para comprar nem mesmo a farda oficial. Qual
foi o resultado? Uma polícia truculenta, corrupta, infiltrada pelo tráfico de drogas, frequentemente implicada em chacinas, desaparecimentos e muitos outros crimes
contra a população, e totalmente despreparada para responder à criminalidade urbana. É claro que essas condições de trabalho específicas tiveram um impacto na
conduta policial.

A sociedade deveria ter controle sobre as polícias? Nesse caso, como esse tipo de controle externo pode ser implementado?
YANILDA MARÍA GONZÁLEZ O controle civil da polícia e a participação da sociedade têm sido componentes importantes nos processos de reforma policiais que eu
venho estudando. Acho que a sociedade deveria, sim, exercer controle sobre a polícia, mas esse controle deveria corresponder realmente a toda a sociedade, não
somente aos setores mais poderosos como acontece hoje em quase todos os contextos que eu conheço. O que tenho observado é que o modelo do controle social sobre a
polícia inevitavelmente vai terminar reproduzindo as estruturas de poder da sociedade. Em sociedades segregadas e desiguais como as nossas, esse modelo de controle
da sociedade que não inclui as vozes dos grupos sociais mais vulneráveis muitas vezes tem como resultado mais repressão, mais exclusão, e mais violência.

Como criar um modelo de controle e participação da sociedade que realmente inclua as vozes dos setores mais vulneráveis e realmente responda às necessidades
deles? Não existe uma resposta única. Nos Estados Unidos, muitos ativistas comunitários acham que é necessária a abolição completa da polícia, mas também há
militantes, por exemplo aqui em Chicago, onde eu moro, que estão lutando para criar um conselho de “accountability policial” composto por cidadãos eleitos em cada
comunidade. Esse conselho exerceria um controle completo sobre a polícia dessa comunidade. Então existem diferentes visões e modelos de engajamento social com a
polícia.