Núcleo Espírita Nosso Lar
UNIVERSIDADE ESPÍRITA NOSSO LAR
O SAGRADO ATRAVÉS DA CULTURA
Os alunos dos Cursos de Capacitação de Colaboradores do NENL/CAPC
tiveram como primeira matéria de 2010 “O Sagrado Através da Cultura”,
disciplina que transcorreu em 8 horas/aula, nos meses de fevereiro e março.
Nos textos a seguir, aqueles que tiverem interesse em rememorar ou
conhecer sucintamente o que foi ministrado é só acompanhar.
CONCEITOS DE CULTURA
O ser humano cria e inventa a cultura (Colere). cultiva a natureza, com isso,
cultiva também a sua própria natureza, tomando o sentido de aprimoramento,
de educação.
O cultivo do conjunto de todas as suas criações, materiais ou simbólicas,
compõem a cultura humana.
No processo histórico o espírito humano cria, reelabora e engrandece sua
criação no horizonte da mais rica diversidade.
CONCEITOS DE SAGRADO
O sagrado (Sacratu) se apresenta como manifestação de uma realidade de
natureza diferente da realidade cotidiana, física ou profana.
Existe uma realidade, uma força, uma “razão”, um espírito, uma energia, que
subjaz, transcende, esconde-se por trás da realidade física do mundo.
Quando esta realidade de natureza divina irrompe, participa, interage com a
realidade física dos fenômenos da natureza e da cultura, o sagrado se revela.
Essa aparição do sagrado, do divino, no mundo, nas coisas, no homem, vem
ocorrendo em todo percurso da história humana, em todos os povos. Aquilo
no qual o sagrado se manifestou, torna-se símbolo, um elemento que medeia
e junta o humano à realidade divina.
CONCEITOS PARA XAMANISMO
O Xamanismo é a prática espiritual que remonta os primórdios da
humanidade, com ocorrência em todos os continentes e vinculada a atividade
de um Xamã (Shaman).
Pinturas Paleolíticas encontradas nas cavernas de Lascaux, França, com
mais de 15.000 a.C, ilustram as origens remotas do xamanismo
O xamã é o líder espiritual de seu povo, várias características lhe conferem
poder, destacando-se sua capacidade para voluntariamente mediar à relação
da sua comunidade com o mundo espiritual, o mundo dos espíritos e dos
ancestrais a partir de técnicas específicas.
(A Mãe-Terra) Outra característica digna de nota do Xamanismo no horizonte
das sociedades tribais e nômades, no processo histórico da cultura humana,
é a forte integração dessas sociedades com a Terra, de forma que esses
povos vivenciam a ordem, a “razão” da natureza, em sua plenitude.
CONCEITOS PARA MITO
Os agrupamentos humanos vão se sedentarizando na medida em que os
homens vão se tornando agricultores e pastores (8.000 a.C, Mesopotâmia).
Vão fundando aldeias e depois cidades. Estabelecendo seus mundos, seus
centros de identidade. A manifestação do sagrado e sua elaboração vão se
transformando num tempo que flui. E o Mito toma forma.
O Mito fala das origens. Discursa sobre eventos que ocorreram num tempo
imemorial, primordial. Seu tema é o relato da criação dos deuses, do mundo,
dos homens, de um lugar, de um animal ou planta, sempre a partir da ação
do sobrenatural, do sobre-humano, que ao intervir estabelece uma nova
ordem, um novo tempo.
O Mito é constituinte da cultura humana, muitas sociedades desenvolveram
uma mitologia bastante sofisticada, como os sumérios, persas, egípcios,
indianos, gregos, romanos, celtas, germanos, astecas, maias, incas,
construindo complexos panteões.
Na atualidade, como na antiguidade, sua influência vai além da dimensão
sagrada, interagem em todas as dimensões da cultura, e tem forte impacto
no espírito humano.
A ESCRITURA DO SAGRADO
Neste estágio as sociedades estão em franco processo civilizatório e de
urbanização. Há a administração do sagrado, administração da política e da
economia no cotidiano das cidadelas. O surgimento da escrita revolucionou a
cultura humana há cerca de 3.500 a.C, pois, a tradição oral ocorre na
mobilidade do tempo e desaparece, enquanto a escrita é o registro que se
conserva no espaço. As civilizações em formação interagem através do
comércio e da guerra.
Em meio a um complexo cenário de todos os tipos de politeísmos, em
aproximadamente 600 a.C o Judaísmo instituiu o Monoteísmo através das
escrituras do profeta Isaías: “Antes de mim, Deus nenhum se formou, e
depois de mim nenhum haverá... Eu sou Deus; também de hoje em
diante, eu o sou”, que com outras Escrituras iram compor a Torá - Velho
Testamento, que reúnem escritos que vão do século X a.C. ao II a.C.
(Enquanto isso... na Grécia, pensadores fundadores da filosofia questionam a
explicação mitológica e buscam respostas através de uma reflexão racional.)
Há cerca de 2.000 anos nasceu Jesus. Fundador do Cristianismo. Pregava
através de parábolas, nas montanhas, nos jardins, ao ar livre, que o Reino de
Deus não é desse mundo; que é preciso amar Deus, a si mesmo e aos
outros; que o homem deve se transformar desenvolvendo virtudes como a
caridade, simplicidade, humildade, perdão, mansidão, fé, entre outras.
Esta mensagem se transformou em Escrituras pelos Apóstolos, conhecidas
como Novo Testamento, que servirão de base para o Cristianismo, através
de todas as suas várias e distintas Igrejas, nos séculos seguintes.
Em 632 d.C., o profeta Maomé, inspirado por um anjo identificado como
Gabriel, trazendo-lhe uma mensagem de Alá (Deus), que é registrada na
Escritura conhecida como Alcorão, funda o Islamismo. É considerado uma
religião e ao mesmo tempo uma civilização, pois, como dizem os
mulçumanos é “um modo de vida completo”.
Desta forma, o Sagrado codificado foi transformado em lei, em código, por
três grandes religiões (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), duas das quais
se expandem no tempo e no espaço, e pela “força” da persuasão dominam
boa parte do planeta. A “razão” de Deus se torna a razão do mundo. Porém,
um Deus distante, uma razão separada, por isso, talvez, tenha sido o motivo
de neste período ter surgido o termo religião, religare, de religar com o que
está separado.
O EXÍLIO DO SAGRADO
O sagrado foi engessado, cristalizado, dogmatizado pelas Escrituras que
continham a palavra de Deus, logo, portadoras da verdade.
Mas, o mundo girou, girou... a noite parecia mais longa que o dia, mas o
mudo gira, e gira em torno do Sol. Esta última metáfora serve para entender
o que houve depois.
Não havia a concepção de que a história ocorre no mundo Real, divino e
essencial. A história não era entendida como cenário em movimento por
onde o divino se manifesta. E ela é o mundo profano e físico no qual o
espírito humano se processa. Assim, naqueles tempos, não se compreendia
que na história nada é imutável, que nela tudo se transforma. E no século XV
ocorreriam mudanças profundas na cultura ocidental.
O mundo se alarga com as navegações, o pensamento clássico chega a
Europa através do mundo árabe, e com ele Aristóteles. A curiosidade
humana que se escondia nas sombras busca a luz do sol, e o sol se torna o
centro do mundo, do cosmos físico, contrariando as Escrituras.
O enfraquecimento da economia feudal, as cidades ressurgindo, as artes
aflorando, ciência e filosofia ebulindo. A matemática e a razão protagonizam
a cena. A terra sai do centro e vai se tornando máquina. A terra é
desmontada, o céu é investigado, a vida é classificada, o homem é
dissecado. Tudo se transforma em objeto sem alma, observado por um
homem cuja alma está na razão: a razão humana “toma” o timão da história.
O novo modelo científico de investigação exilou do mundo sua alma. E
rompeu com a religião instituída.
O pensador Francis Bacon( 1561/1626) escreveu que “o império do homem
sobre as coisas se apóia, unicamente nas artes e nas ciências”. E no
seu método indutivo, do particular para o geral, defendeu que era preciso
“extrair da natureza sob tortura todos os seus segredos”.
Em seguida, René Descartes (1596/1650), estabeleceu a dúvida como
método para busca da verdade. O método cartesiano é, nesse sentido, um
caminho rigoroso que busca separar o mental do natural, o observador do
objeto para explicar, em última instância, seu mecanismo. Nasce o
mecanicismo, o mundo opera como uma máquina. O trabalho dos homens,
dos cientistas, é conhecer leis gerais de funcionamento do mundo-máquina,
e assim, obter o controle e o domínio sobre ele. Para tanto basta dividir o
todo em suas partes, classificá-las e estabelecer suas relações. “Penso, logo
sou”
A CODIFICAÇÃO ESPÍRITA
O Espiritismo tem seu início em meio ao deslumbramento da Ciência
Moderna. Revoluções e avanços na ciência, economia e políticas parecem
consolidar uma nova era. Há uma crença na ciência e em sua filha dileta, a
tecnologia, como promessas de felicidade na terra. O homem está no pódio,
iluminado pela razão.
Foi nesse contexto que nasceu e cresceu Hippolyte Léon Denizard Rivail
(1804/1869). Em 1855 começou a interessar-se pelo fenômeno das “mesas
girantes” na movimentada Paris. A partir daí dedicou-se à sistematização e
compreensão dessa realidade, buscando integrá-la na cultura da época.
Deste modo, com o pseudônimo de Allan Kardec, seu nome durante uma
encarnação entre os Druidas, na Gália, conforme revelação de um espírito
chamado Zéfiro, assumiu a importante tarefa como Codificador do
Espiritismo.
A Codificação constitui a base do Espiritismo, o Pentateuco da Doutrina:
O Livro dos Espíritos (1857) - obra que funda o Espiritismo;
O Livro dos Médiuns (1861) – que demonstra as ligações entre espíritos e
pessoas;
O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864) – que trás a doutrina de Jesus
para dentro do Espiritismo;
O Céu e o Inferno (1865) – que define a visão das nossas diversas vidas na
matéria;
A Gênese (1868) – que apresenta a visão espírita para o mundo existente.
O sagrado desdobra-se seguindo um plano. Como a lagarta já conserva a
borboleta. Os espíritos revelam: “Importa que cada coisa venha a seu
tempo. A verdade é como a luz: o homem precisa habituar-se a ela,
pouco a pouco; do contrário, fica deslumbrado”. LE: 628
É preciso a consciência de que o sagrado não é a aparição do anormal, da
anomalia, seu aparecimento na historia não é obra do acaso:
“As comunicações entre o mundo espírita e o mundo corpóreo estão na
ordem natural das coisas e não constituem fato sobrenatural, tanto que
de tais comunicações se acham vestígios entre todos os povos e em
todas as épocas.”. (LE, Prolegômenos)
Motivo pelo qual devemos buscar as raízes do sagrado no chão da história,
pois, para o “estudioso, não há nenhum sistema antigo de filosofia,
nenhuma tradição, nenhuma religião, que seja desprezível, pois em
tudo há germens de grandes verdades. Ricos são tais objetos e podem
contribuir grandemente para vossa instrução”. LE 628
Para entender o Espiritismo como “ciência nova que vem revelar aos
homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natureza do
mundo espiritual e as suas relações com o mundo corpóreo. Ele no-lo
mostra, não mais como coisa sobrenatural, porém, ao contrário, como
uma das forças vivas e sem cessar atuantes da Natureza, como a fonte
de uma imensidade de fenômenos até hoje incompreendidos e, por
isso, relegados para o domínio do fantástico e do maravilhoso.” (ESE-
1,5)
Ciência e ao mesmo tempo Doutrina Cristã, pois “O Cristo foi o iniciador
da mais sublime moral, que há de renovar o mundo, aproximar os
homens e torná-los irmãos; que há de fazer brotar de todos os corações
a caridade e o amor ao próximo e estabelecer entre os humanos uma
solidariedade comum; É a lei do progresso, a que a Natureza está
submetida, que se cumpre, e o Espiritismo é a alavanca de que Deus se
utiliza para fazer com que a Humanidade avance.” (ESE: 1,9)
Balizado no tripé da Filosofia – Ciência- Religião, o Espiritismo identifica
dimensões, porém concebe um único mundo, criado e regido por um único
Criador, pelo qual as criaturas evoluem.
Na cosmologia revelada, Deus É Inteligência Suprema, causa primeira de
todas as coisas, criou o Espírito, princípio inteligente do universo, que se
prende e se serve da Matéria como instrumento de exercício da sua ação. O
Espírito tem supremacia sobre a Matéria, a seu equilíbrio reflete a matéria a
qual se atrela, portanto, qualquer terapia para cura humana tem que influir no
Espírito.
No imenso universo criado por Deus, o maravilhoso curso da evolução flui
regulado pelas Leis Naturais ou Divinas, onde matéria, cultura e espírito
evoluem, na necessária marcha que passa pelo mineral, vegetal, animal,
hominal (ser moral cujo livre arbítrio já lhe foi outorgado), marcha espiral que
tem na reencarnação a manifestação da sagrada sabedoria e justiça do
Criador.
REDESCOBERTA E RETORNO DO SAGRADO
A modernidade revolucionou o mundo, no campo econômico, artístico,
político e, principalmente, cientifico. Tempo de Luzes, idade da razão.
Mas, e o coração humano? Interiorizou aquilo que os grandes profetas,
líderes espirituais da humanidade, vieram ensinando ao longo dos milênios?
Não, o progresso foi, fundamentalmente, no campo material, do conforto do
individuo, da satisfação de necessidades efêmeras, do desenvolvimento
tecnológico.
O século vinte foi um tempo de desentendimento, de guerras mundiais, do
mundo dividido por um muro, e desenvolvimento de um modo de vida
profundamente predatória com relação à natureza e as criaturas que
coabitam a terra com os humanos.
Surge o vazio, a falta de significado, a razão humana, arrogante, é posta em
xeque.
Entretanto, é da crise que surgem as oportunidades, da crise que emerge
quando o velho morreu e o novo não nasceu, mas do velho nasce o novo,
transformado e engrandecido. Em um tempo em que o mundo se tornou
global, inteiro, no percurso da história, o espírito humano construiu um
monumental edifício em todos os campos, e de modo significativo no campo
do sagrado, da filosofia e da ciência, as oportunidades só podem ser
grandiosas.
A ciência é aberta, flui no tempo, reflexões e inspirações pairam nos céus,
modelos se modificam, a consciência vai unificando as partes.
A dimensão espiritual é retirada do exílio pela visão sistêmica, de que tudo
está interligado, de que tudo é sagrado, tudo faz sentido.
“Ao término de um período de decadência sobreveio o ponto de
mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. O movimento é
natural, mas este não é gerado pela força, surge espontaneamente.
Por essa razão a transformação do antigo tornou-se fácil. O velho é
descartado e o novo é introduzido. Ambas as medidas se harmonizam
com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano.” (I Ching)
“Embora se configure inconcebível para a razão comum, vocês e os
demais seres estão integrados reciprocamente, portanto esta sua vida
atual não é meramente uma parte de toda a existência, senão que, em
certo sentido é o Todo. Assim, vocês podem ser lançar ao chão,
espraiando-se na Mãe Terra, com a convicção de que você é uno com
ela e ela contigo”. (Erwin Schöedinger –1964 – um dos fundadores da
física quântica)
“Todas as religiões, todas as artes e todas as ciências são o ramo de
uma mesma árvore. Todas essas aspirações visam o enobrecimento da
vida humana, elevando-se acima da esfera da existência puramente
material e conduzindo o individuo para a liberdade.” (Albert Einstein,
1972).
“Hoje estamos aprendendo a linguagem pela qual Deus fez a vida.
Estamos ficando cada vez mais admirados pela complexidade, pela
beleza e pela maravilha da dádiva mais divina e mais sagrada de Deus.”
(Francis Collins - diretor responsável pelo Projeto Genoma)
A razão não é mais da natureza, de um Deus antropomórfico, nem é a razão
humana, é a Razão cósmica, fonte cujo homem toma consciência de si
enquanto natureza e espírito, transformando-se em jardineiro e cultivador do
jardim do Criador.
BIBLIOGRAFIA BÁSICA
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CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus: Mitologia Primitiva. São Paulo:
Palas Athena, 2008.
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Palas Athena, 2008.
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Palas Athena, 2008.
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ELIADE, Mircea. O sagrado e o Profano. Saõ Paulo: Martins Fontes, 2008.
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ELIADE, Mircea. Dicionário de Religião. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
GAARDER, Jostein. O Livro das Religiões. São Paulo: Cia. das Letras.
KARDEC, Allan. Livros da Codificação, Rio de Janeiro: Editora da FEB.
OTTO, Rudolf, A idéia do sagrado, Imprensa Metodista, SP
WILBER, Ken. Espiritualidade Integral – Uma nova função para a religião
neste início de milênio. São Paulo: Ed..Aleph, 2007.
PIRES, Herculano. O Espírito e o Tempo. São Paulo: Ed. Paidéia, 2009.
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