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Susan J.

Blackmore

EXPERIÊNCIAS
FORA DO CORPO

Uma investigação com base em pesquisas realizadas pela


Society for Psychical Research

1
EXPERIÊNCIAS FORA DO CORPO
Uma Investigação

2
SUSAN J. BLACKMORE

EXPERIÊNCIAS FORA DO CORPO


Uma Investigação

Tradução
ANÍBAL MARI

EDITORA PENSAMENTO
São Paulo

3
Título do original:
Beyond the Body
An Investigation of Out-of-the-Body Experiences

Copyright (c) 1982 Susan J. Blackmore

Edição Ano
1-2-3-4-5-6-7-8-9 86-87-88-89-90-91-92-93

Direitos de tradução para a língua portuguesa


adquiridos com exclusividade para o Brasil pela
EDITORA PENSAMENTO LTDA.
Rua Dr. Mário Vicente, 374 – 04270 São Paulo - SP – Fone: 63 - 3141
Impresso em nossas oficinas gráficas.

4
Para Tom
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6
Sumário

Lista das Ilustrações, 8


Agradecimentos, 9
Prefácio, 10

1 Introdução, 15
2 Como Definir a EFC, 24
3 A Doutrina da Projeção Astral, 32
4 Os Viajantes Astrais, 40
5 Outros Exploradores, 51
6 Casos de Projeção Astral, 64
7 Análise de Compilações de Casos, 75
8 A EFC em Outras Culturas, 91
9 Pesquisas Sobre a EFC, 103
10 Como Induzir uma EFC, 117
11 Sonhos Translúcidos, 131
12 A Fisiologia da EFC, 147
13 Visões de Moribundos, 160
14 Encontros íntimos com a Morte, 170
15 O Duplo na Psicopatologia, 198
16 Imagens e Alucinações, 210
17 Percepção Extra-sensorial na EFC, 225
18 Experimentos Sobre Visão Fora do Corpo, 238
19 Aparições, Espíritos e Almas Visíveis, 251
20 Experimentos Para Detectar o Duplo, 265
21 Reavaliação das Teorias, 279
22 Uma Abordagem Psicológica da EFC, 295

Obras de Referência, 309


Índice Analítico, 319

7
Lista das Ilustrações

Entre as páginas 173 e 188

1 Túnel de árvores, 173


2 Ba e a múmia, 174
3 O fantasma ligeiramente fora de foco, 175
4 O fantasma acima do corpo físico, 175
5 O curso tomado pelo fantasma na projeção, 176
6 O fantasma projetado na posição ereta, 176
7 O retorno do fantasma, 177
8 Exteriorização violenta, 177
9 Exemplos do EEG da Srta. Z, 178
10 Blue Harary preparando-se para uma EFC, 179
11 Blue Harary e William Roll, 179
12 A partida do corpo astral na morte, 180
13 Imagens vistas de perspectivas insólitas, 181
14 Aspecto do túnel alucinatório, 182
15 A luz no centro do túnel, 183
16 Treliça em forma de espiral, 183
17 Um visitante astral, 184
18 Projeção durante um “transe hipnótico”, 184
19 O corpo de André no caixão, 185
20 A Sra. Baraduc, quinze minutos após sua morte, 185
21 A Sra. Baraduc, uma hora após sua morte, 185
22 O espectro ampliado de uma rã, 186
23 O espectro ampliado de um camundongo, 186
24 O espectro ampliado de um gafanhoto, 186
25 O Sr. Hopper e sua câmara de nuvens, 187
26 O duplo da Sra. Lambert, 188
27 A oscilação do corpo astral, 188
28 Uma figura ambígua, 188

8
AGRADECIMENTOS

Mal sei por onde começar a agradecer a todas as pessoas que me ajudaram na
pesquisa e na redação deste livro, mas devo talvez iniciar por meus inúmeros amigos:
Vick, Kevin, Johne tantos outros, que me encorajaram e orientaram nas experiências
que assinalaram o início do meu interesse pelas EFCs.* Sou grata também a todos os
que me fizeram sugestões e críticas úteis, particularmente a John Beloff, que leu uma
versão mais antiga deste livro, Richard Hellen, Leslie Price e Eleanor O’Keeffe.
Gostaria de agradecer à Sociedade Americana para Pesquisas Psíquicas, em Nova
Iorque, pela permissão para utilizar material de sua exclusiva propriedade; ao Museu
Britânico, de Londres; a Dodd, Mead and Co., de Nova Iorque; a Hutchinson Publishing
Group Ltd., de Londres; a Mockingbird Books Inc., da ilha de St. Simon, Geórgia, e a
Scientific American Inc. Obrigado ainda a Bill Roll, Blue Harary, John Harris e à
Sociedade para Pesquisas Psíquicas, que amavelmente me forneceram as fotos, e a Tom
Troscianko que preparou a maior partes das ilustrações. Gostaria, também, de agradecer
às instituições Blenner-Hassett, de apoio à pesquisa, e Perrott-Warrick, de concessão de
bolsas de estudo, pela ajuda financeira durante o tempo em que este livro foi escrito.
Finalmente, quero fazer um agradecimento especial a meus pais e a meu marido
Tom, por sua colaboração inestimável.

*
Experiências fora do corpo.

9
PREFÁCIO

Por volta de 1873, recordaria Frederic Myers em Human Personality [A


personalidade humana], um pequeno grupo de amigos da Universidade de Cambridge
chegou à conclusão de que nem a religião nem o materialismo haviam fornecido
respostas satisfatórias às questões que os intrigavam:

Nossos pontos de vista divergiam em alguns aspectos; mas ao menos no que me dizia respeito,
eu achava que não se fizera ainda nenhuma tentativa adequada, nem mesmo para determinar se se
poderia ou não aprender alguma coisa a respeito do mundo invisível. Ora, se for possível conhecer
algo sobre esse mundo, de tal modo que a ciência possa aceitar e sustentar esse conhecimento,
deverá ser ele descoberto não pela análise da tradição ou por manipulação metafísica, mas somente
por experimento e observação – somente pela aplicação correta aos fenômenos que ocorrem dentro
e ao redor de nós, dos mesmos métodos de investigação exata, intencional e imparcial que
formaram nosso conhecimento atual do mundo palpável e visível.

Juntamente com seus amigos — entre eles, sobretudo, Henry Sidgwick e Edmund
Gumey — Myers tornou-se um dos membros fundadores da Sociedade para Pesquisas
Psíquicas, formada em 1882 para pôr em prática estas idéias e cujo centenário está
sendo comemorado com a publicação desta série.
Convencionou-se classificar os fenômenos do “mundo invisível” a que Myers se
referia, em cinco categorias principais e para cada uma delas foi designada uma
comissão encarregada de investigá-las: telepatia, hipnotismo, “sensitivos”, aparições e
“os diversos fenômenos físicos, comu-

10
mente chamados espíritas”. Ao longo dos anos, o enfoque dado a elas tem sofrido
alterações, haja vista que o hipnotismo, rejeitado até então como um truque ilusionista,
estava prestes a ser aceito como uma realidade, deixando, assim, de ser considerado
como um fenômeno mediúnico. Em termos gerais, porém, os fenômenos em
investigação são os mesmos e os métodos de pesquisa permanecem exatamente como
Myers os planejou.
A terminologia, no entanto, mudou e tem mudado com certa freqüência, o que gera
alguma confusão. O próprio Myers introduziu o termo “telepatia”, já que “leitura do
pensamento” era ambíguo: poderia se referir ao modo pelo qual Sherlock Holmes
entendia o que se passava na mente de Watson, observando sua expressão. Contudo,
“supernormal”, que Myers achava preferível a sobrenatural para descrever a classe de
fenômenos com os quais a Sociedade estava lidando, foi, a partir de então, substituído
por “paranormal”. Por outro lado, “parapsicologia” vem lentamente tomando o lugar de
“pesquisa mediúnica”, embora alguns pesquisadores prefiram restringir seu uso ao
trabalho do tipo laboratorial, reservando o vocábulo “mediúnico” para a pesquisa de
fenômenos espontâneos. “Psi” também entrou em moda como um termo de mil e uma
utilidades para identificar ou descrever as forças atuantes, no caso, por exemplo, da
distinção entre um fato normal e outro paranormal.
A explicação, se é que necessária, em favor da “paraciência” — termo que talvez a
descreva com maior abrangência, hoje em dia, visto que o enfoque da pesquisa vem, de
uns tempos para cá, se deslocando da psicologia para a física — poderia ser encontrada
na composição da Sociedade, desde os seus primórdios. Poucas organizações atraíram
um quadro de sócios tão ilustres. Entre os físicos, estavam Sir William Crookes, Sir
John Joseph Thomson, Sir Oliver Lodge, Sir William Barrett e os dois Lordes Rayleigh
— o terceiro e o quarto barões. Entre os filósofos: o próprio Sidgwick, Henri Bergson,
Ferdinand Schiller, L. P. Jacks, Hans Driesch e C. D. Broad; entre os psicólogos:
William James, William McDougall, Sigmund Freud, Walter Franklin Prince, Carl Jung
e Gardner Murphy. E, ao lado destes, havia muitas figuras eminentes em vários campos:
Charles Richet, um ganhador do prêmio Nobel em fisiologia; o conde de Balfour,
primeiro-ministro de 1902 a 1906, e seu irmão Gerald, secretá-rio-executivo para a
Irlanda, no período de 1895 a 1896; Andrew Lang, polímata; Gilbert Murray, Professor
regius de grego na Universidade de Oxford e relator da primeira Constituição da Liga
das Nações; seu sucessor em Oxford, E. R. Dodds; a Sra. Henry Sidgwick, diretora do
Colégio Newnhan, de Cambridge; Marie Curie; a Sra. Alfred Lyttleton, represen-

11
tante britânica na Assembléia da Liga das Nações; o astrônomo Camille Flammarion e
F. J. M. Stratton, presidente da Associação Astronômica Real; Sir Alister Hardy,
professor de zoologia em Oxford.
Tal relação, como Arthur Koestler assinalou em The Roots of Coincidence [As
causas da coincidência], devia ser suficiente para demonstrar que a pesquisa sobre PES*
“não é um parque de diversões para excêntricos supersticiosos”. Pelo contrário, os
padrões de pesquisa são geralmente rigorosos, muito mais rigorosos que os da
psicologia, como os psicólogos foram forçados a admitir. A razão por que os resultados
não são aceitos consiste basicamente em que eles não são aceitáveis: percepção extra-
sensorial (PES) e psicocinesia (ou função PK) permanecem fora do domínio de ciência,
apesar das evidências. E, se bem que o preconceito contra a parapsicologia esteja
desaparecendo, ela ainda precisa assentar uma base sólida no mundo universitário, para
ser aceita como uma disciplina acadêmica.
Os céticos fizeram o possível para difundir a noção de que os pesquisadores dos
fenômenos paranormais acreditam em PES, PK, aparições e coisas do gênero, porque
anseiam ou precisam acreditar nisso. Ora, qualquer um que estude as Revistas e Atas da
Sociedade ou assista às suas reuniões, comprovará que esse conceito é falso e ridículo:
muitos dos mais assíduos e experimentados pesquisadores foram, no início, movidos
pela descrença — por um desejo, digamos, de desmascarar um médium como impostor.
Deve-se lembrar, também, que muitos, talvez a grande maioria, dos membros
desejavam e ainda desejam mostrar que as manifestações paranormais são naturais e
podem ser explicadas cientificamente — mas, como se sabe, não nos termos restritos da
ciência materialista, que, aliás, os físicos nucleares provaram ser duvidosa.
Não: até onde seja possível afirmar que uma Sociedade, que inclui um conjunto tão
diverso de pessoas, possui uma identidade como grupo, quase se poderia descrevê-la
como cética; sem dúvida alguma, como racional, como esta série mostrará. Não, porém,
como racionalista. Infelizmente os racionalistas na sua ânsia de expurgar a Sociedade
dos excessos religiosos e ocultistas, falharam repetidas vezes ao estabelecer uma
distinção entre as superstições e os fenômenos observados que as produziram, o que os
levou a cometerem erros, recusando-se, por exemplo, a aceitar a existência de
meteoritos, por causa da sua associação com os raios e trovões de Júpiter. E, até hoje,
não hesitam em tropeçar em falso, quando

*
Percepção extra-sensorial.

12
defendem dogmas tão rígidos e tão infundados quanto os de qualquer instituição
religiosa. Ainda que não sirva para mais nada, esta série pelo menos terá tido o mérito
de mostrar o nível de racionalidade — usando-se este termo no seu sentido próprio —
com que os autores examinam e apresentam as provas.
A experiência de abandonar nossos corpos e fazer uma visita a um lugar distante nos
é familiar; é o que fazemos incessantemente em sonhos e em fantasias. Mas algumas
pessoas casualmente, outras com bastante freqüência, têm a impressão verdadeira de
que deixam seus corpos, podendo até se lembrar de algum fato que parece confirmar
que estiveram realmente “fora do corpo”.
A crença neste fenômeno existe há muito tempo. Em comunidades tribais,
acreditava-se que o xamã, feiticeiro ou curandeiro, era capaz de viajar dessa forma: sua
capacidade para fazê-lo era, de fato, uma das qualificações básicas exigidas para a
função, já que a tribo poderia precisar dele para inspecionar a localidade à procura de
caça (ou de inimigos) ou para visitar os deuses da floresta a fim de descobrir seus
tesouros ocultos. Era freqüente ouvir exploradores que voltavam à civilização contar
como um xamã entrara num transe temporário e, depois, ao sair dele, descrevera o que
tinha visto num outro acampamento: às vezes sua descrição correspondia à realidade, tal
como o explorador confirmaria mais tarde.
Na tradição popular e na história, há também muitos relatos dessa natureza. Quando
o rei da Síria descobriu que seus planos estavam sendo passados para os israelitas e
suspeitou que eles tinham um espião escondido em sua corte, um servo lhe contou que o
espião era, na verdade, o profeta Elisha, que apesar de estar em Israel era capaz de ouvir
as conversas na câmara do rei e comunicá-las a seus chefes.
Supunha-se, geralmente, que a alma, ou espírito, deixa o corpo para ir ao seu destino,
seja onde for. Casualmente, porém, alguns indivíduos têm sido vistos em dois lugares
ao mesmo tempo — “bilocação”. Talvez o mais célebre exemplo seja o episódio em que
Alfonso Liguori, fundador da Ordem Redentorista, caiu em transe quando celebrava a
missa em Amalfi; ao voltar ao estado normal, contou à congregação de fiéis que estivera
no leito de morte do papa Clemente XIV. Não deram muita importância ao fato, até que,
alguns dias mais tarde, pessoas que haviam estado com o papa informaram que Luguori
estivera lá e conduzira as orações pelo moribundo.
Durante o século XIX, os pesquisadores do estado de transe hipnótico encontraram
casualmente sujeitos que, enquanto estavam sob suges-

13
tão, pareciam ser capazes de ir aonde quer que o hipnotizador sugerisse e descrever o
que viam ali. Muitos casos do que passou a ser descrito como “clarividência à distância”
foram relatados e alguns realmente comprovados. Mas tais pessoas viajavam de
verdade? Seria a explicação um caso de simples clarividência, ou poderiam os
depoimentos ser atribuídos a uma imaginação excessivamente empolgada? Com a
expansão do ceticismo e do materialismo, cientistas ortodoxos empenharam-se em
rejeitar as evidências como se baseadas em equívoco, por vezes associado à fraude. Até
mesmo os próprios pesquisadores de fenômenos mediúnicos da incipiente SPP*
encaravam a clarividência à distância — na verdade, qualquer tipo de clarividência,
diferente da telepatia — com desconfiança.
No entanto, continuava-se a ter informação de casos individuais do que se tornou,
desde então, conhecido como experiências fora do corpo ou EFCs. Recentemente, elas
têm sido submetidas a exame mais compreensivo, mas também mais rigoroso. Parecem
ser comuns — mais comuns do que geralmente se pensava. E tão numerosos são os
registros de casos de EFCs, que sua existência não pode mais ser seriamente contestada.
Ficam, porém, as indagações: é possível explicá-las nos termos da psicologia
convencional e incluí-las em categorias como a dos sonhos, por exemplo, ou a das
alucinações? Ou deve-se recorrer à parapsicologia?
Existe uma tendência para se considerar as EFCs como paranormais em si mesmas;
mas o fato de que algumas pessoas que as tenham experimentado viram algo que estava
acontecendo num outro lugar, simplesmente não classifica as EFCs como paranormais,
assim como o fato de algumas pessoas terem sonhado com eventos futuros não coloca
os sonhos na categoria paranormal. Susan Blackmore examinou com imparcialidade as
principais fontes de informação e tirou suas próprias conclusões. Alguns membros da
SPP não concordarão com elas; mas estou certo de que reconhecerão que, pela ênfase da
autora na pesquisa objetiva e na cuidadosa seleção das provas, este seu livro segue a
tradição iniciada e desenvolvida pelos fundadores da SPP.
Brian Inglis

*
Sociedade para Pesquisas Psíquicas.

14
1 INTRODUÇÃO

Uma experiência fora do corpo (EFC) pode ser inicialmente definida como uma
experiência em que uma pessoa tem a impressão de perceber o mundo de uma posição
fora de seu corpo físico. A definição parece bastante simples até que seja mais bem
examinada. Temos, normalmente, a impressão de perceber o mundo do interior do
nosso corpo e, nesse caso, então, temos uma experiência dentro do corpo? Quando
imaginamos uma cena distante ou sonhamos estar sobrevoando lugares longínquos, isso
é considerado como uma EFC? Talvez não se trate de perceber “o mundo”, mas algum
mundo imaginário; porém, onde se situa o limite entre a imaginação e a percepção?
Levantarei inúmeras questões do gênero neste livro; na verdade, mais perguntas do que
respostas; mas talvez o melhor ponto de partida seja a própria experiência.
Tive a intenção de começar o livro com um exemplo fictício de EFC, escolhendo
provavelmente algum que apresentasse aquelas características que eu queria ilustrar
com toda a clareza. Diverti-me com várias idéias, com vontade de que a história fosse
instrutiva, mas não insólita, até que finalmente decidi que seria melhor começar, como
comecei, pela minha própria experiência. Afinal de contas, essa foi a primeira coisa que
me obrigou a levantar todas essas perguntas de que trata o presente livro. Portanto,
pedindo desculpas pelo egocentrismo, vou descrever minha primeira EFC.
Aconteceu há uns dez anos, no meu primeiro período letivo na universidade. Eu já
estava interessada na pesquisa sobre fenômenos para-

15
normais e tentara entrar para a Sociedade de Pesquisas Psíquicas da Universidade de
Oxford. Contudo, logo descobri que dela restava apenas um único membro; por
conseguinte, com a ajuda dele, eu a restabeleci e pesquisei durante os três anos
seguintes. No primeiro período letivo, comecei a aprender teosofia, espiritismo, taro e
cabala pela primeira vez, e li um pouco sobre a teoria da “projeção astral”.
Certa noite, com um pequeno grupo de amigos, fizemos uma sessão mediúnica com a
ouija* na sala de aula da faculdade. Éramos um grupo de quatro ou cinco pessoas
sentadas em volta da mesa, com os dedos colocados sobre um copo emborcado, no
centro de um círculo formado de letras: uma atividade que eu não recomendaria a
ninguém. Ficar com o braço estendido durante três horas, tentando se comunicar com
“entidades” ignorantes ou barulhentas e sentindo-se responsável pelos outros, numa
atmosfera bastante carregada e tensa, é uma coisa estafante. Por volta das 22:30, eu
tinha muito mais vontade de dormir do que ir ao quarto de uma amiga para fumar. Mas
já havia prometido ir, prevendo o prazer de fumar um cigarro de haxixe e encerrar a
noite de uma maneira agradável. Decidi ir e ficar só meia hora e, assim, na companhia
de Kevin subi para o quarto de Vicki.
Tanto quanto consigo me lembrar, não houve nada de extraordinário, a não ser que
eu estava terrivelmente cansada. Vicki pôs um disco na vitrola e foi fazer um café,
enquanto fiquei sentada no chão, com as pernas cruzadas. Desliguei-me um pouco da
conversa, sentindo-me sonolenta e me indagando se teria forças para voltar ao meu
quarto e dormir. Fumei um pouco do cigano de haxixe que me ofereceram, muito menos
do que costumava, e por não me sentir muito bem, recusei fumar mais.
Enquanto estava sentada ouvindo música, as vozes de meus amigos pareciam
distantes. Quando pensava no meu próprio corpo, tinha a sensação de que ele se
despregara do soalho e parecia flutuar um tanto vagamente, como se estivesse cercado
por uma névoa de algodão. Sob o efeito do cansaço, minha mente acompanhava a
música, como se estivesse entrando numa alameda arborizada, ao longo da qual me
movia num tropel como que dirigindo uma carruagem puxada por vários cavalos, só que
eu estava muito rente do solo. Embaixo e bem perto de mim, havia folhas caídas das
árvores outonais, turbilhonadas pelas rodas e cascos. Em cima e realmente ao redor,
havia folhas matizadas, imóveis nos galhos. A visão

*
Marca comercial de uma tábua com alfabeto para comunicações mediúnicas (N. do T.).

16
geral se assemelhava a um túnel arborizado, por onde eu passava com estrondo. Tentei
retratar esta cena na Ilustração 1.
Eu teria esquecido este fragmento de devaneio, não fosse pelo fato de que vez ou
outra um trecho da cena me vem à memória com impressionante nitidez. A cena parecia
tão real, não, mais real do que pareceria se eu tivesse olhado para ela com os olhos
abertos. Esses relances duravam pouco, mas eram muito surpreendentes.
Ao mesmo tempo em que passava por esta experiência, eu estava consciente de ouvir
Vicki perguntar se eu queria café. Kevin respondeu, mas eu não: observava o fato como
se não me dissesse respeito. Vicki passou pertinho de mim e foi para a cozinha. Coube a
Kevin o mérito de me ter introduzido e ajudado no estágio seguinte. Muito
inesperadamente, nem sei por que motivo, ele me perguntou: “Onde está você, Sue?”
Esta simples pergunta me deixou desconcertada. Refleti, fazendo esforço para
responder; vi o caminho e as folhas, tentei divisar meu próprio corpo e, então, foi que o
vi realmente. Ele estava embaixo de mim. As palavras saíram num grito: “Estou no
teto.” Um tanto surpresa, olhei para baixo e vi a boca — a minha boca — abrir e fechar;
fiquei impressionada com o seu autocontrole.
Kevin não demonstrou o menor espanto diante dessa afirmação e continuou me
crivando de perguntas: Como é que era lá em cima? O que eu podia ver? Quem era
“eu”? Consumi toda a minha energia e concentração tentando responder às suas
perguntas. Não havia tempo para sentir medo, nem tampouco para pensar no insólito
estado em que me encontrava. Desconfio que foi por isso e por causa do meu extremo
cansaço que não fiquei alarmada na hora e nem “retornei”.
Enquanto elaborava respostas, a boca embaixo respondia. Parecia ter toda a
competência para dizer o que eu queria que ela dissesse, de modo que logo a deixei agir
por conta própria, procurando me concentrar na experiência. Do teto, eu podia ter uma
visão bastante nítida do quarto. Enxerguei tudo: a mesa, as cadeiras, a janela, meus
amigos e eu mesma, lá de cima. Em seguida, vi um fio ou cordão prateado, de brilho
tênue e movimento suave, estendendo-se do pescoço do meu corpo lá embaixo até mais
ou menos à altura do umbigo do corpo duplicado em cima. Achei que seria divertido
fazer com que ele se mexesse. Estendi a mão e, nesse exato momento, aprendi minha
primeira lição: não precisava usar a mão para movimentar o cordão; bastava apenas
pensar para que ele se movesse. Além do mais, podia escolher ter ou não quantas mãos
quisesse. Foi assim que aprendi um pouco sobre como agir neste mundo de reações
mentais.

17
Só muito depois é que fiquei sabendo que não precisava do cordão nem do corpo
duplicado e, quando compreendi este fato, ambos se evaporaram.
Animada, deixei o quarto e, atravessando as paredes, eu e meu cordão passamos pelo
andar superior e chegamos ao teto com facilidade. Notei claramente que os tetos tinham
cor vermelha e divisei uma fila de chaminés, antes de voar para lugares mais distantes.
Agora, o que acho particularmente interessante é que constatei, na manhã seguinte, que
não havia chaminés naquele lugar e que devo ter-me enganado a respeito de onde
estivera, pois passei através de um outro andar.
Os detalhes de minha viagem são menos interessantes. Visitei Paris e Nova York e
sobrevoei a América do Sul. Todos esses lugares eram como eu poderia tê-los
imaginado, e nem eu nem os outros tivemos a idéia de indagar sobre detalhes que
provavelmente eu não conhecia ou sequer adivinhava. Seja como for, deve-se destacar
alguns fatos interessantes. No Mediterrâneo, visitei “uma ilha em forma de estrela, com
100 árvores”. Achei na ocasião, e ainda acho, que essa ilha se parecia muito mais com a
idéia que alguém faz de uma ilha, do que com a visão real que dela tem um observador
normal. Diverti-me mergulhando na escuridão das árvores e, depois, subindo no ar
como um grande disco achatado. Boiei no mar, balançando com o movimento
desconfortável das ondas, e fiz um esforço inútil para escalar um penhasco que
desmoronava. Durante todo o tempo o “eu” físico ficou descrevendo estes fatos, num
excitado e rápido monólogo, interrompido por ocasionais perguntas de meus dois
amigos.
Voltei duas vezes ao quarto. A primeira vez abri os olhos para saber que horas eram
e verificar se tudo estava bem, mas isso exigiu de mim um grande esforço e preferi
continuar minhas viagens. A segunda vez retornei ao quarto sem dificuldade, mas agora
toda a aparência de normalidade, tão clara no início, tinha desaparecido. Meu corpo
sentou-se no mesmo soa-lho, mas estava sem cabeça. No entanto, não fiquei com medo
e, sem perder tempo, comecei pelo pescoço adentro a explorar o corpo vazio. Era uma
coisa estranha, pois meus conhecimentos de anatomia me levaram a esperar por algo
diferente de uma concha oca. A exploração dessa fascinante interioridade me fez chegar
a um tipo de experiência completamente diferente. Percebi que eu era muito pequena
para caber dentro do meu próprio corpo, de modo que tentei me imaginar maior. Essa
tentativa ultrapassou os limites esperados e me vi crescendo sem parar, como na história
de Alice no país das maravilhas. Com dificuldade cada vez maior, abarquei o prédio da
faculdade, a terra embaixo e o céu em cima,

18
o planeta inteiro, todo o sistema solar e, finalmente, o que deduzi ser o universo, ou
melhor, aquilo que meu limitado conhecimento de cosmologia entendia por universo —
embora eu pudesse estar enganada.
Não vou descrever esta experiência detalhadamente; direi apenas que, tendo atingido
aquele tamanho, fiz um extremo esforço com a ajuda e o estímulo de Kevin e vi que até
mesmo aqui, no limite desse universo, havia muito mais. Tive o relance de um outro
lugar. Prefiro descrever este estágio final como uma experiência religiosa, e não como
uma experiência fora do corpo. Daquele lugar meus esforços insignificantes estavam
sendo observados com benevolência e graça, enquanto eu continuava repetindo para
mim mesma que “por mais longe que se chegue, há sempre algo além”.
Fui obrigada, porém, a retornar. Eu já sentia cansaço quando começara e agora,
depois de duas horas, estava exausta. Tive não só que me encolher para voltar ao
tamanho normal, mas também que me readaptar ao fato de ter um corpo físico. Forcei-
me a permanecer num só ponto, a olhar de um único ângulo e a levar esse corpo pesado
junto comigo aonde quer que eu fosse. O processo não era apenas lento, como também
um tanto desanimador. Não obstante, foi finalmente concluído. Senti-me mais ou menos
ajustada ao meu corpo. Pude abrir os olhos de novo e ver o mundo assim sem muito
transtorno, além de ser capaz de mover meu corpo. A essa altura, já passava de uma
hora da manhã. A experiência toda durara quase três horas e fora testemunhada — pelo
menos, foi o que me disseram — por duas pessoas. Passei a noite em claro, mas depois
de dois dias me sentindo evidentemente insegura, voltei ao normal.
É desnecessário dizer que essa experiência me causou uma profunda impressão. O
mais importante de tudo foi que me forçou a fazer muitas perguntas que pareciam não
ter respostas fáceis. De fato, após dez anos de pesquisas, essas perguntas continuam a
não obter uma resposta fácil. Todavia, é para elas que este livro está voltado.
Pois bem, que perguntas são essas? As que me ocorreram naquela época são muito
diferentes das que faço agora. A exemplo de tantas outras pessoas que tiveram EFCs,
também tirei conclusões precipitadas na ocasião. Pensei logo: “Isto demonstra que ‘eu’
posso agir sem meu corpo físico e ver sem o auxílio de meus olhos. É óbvio, então, que
posso sobreviver à morte desse corpo. Possuo um outro corpo imortal; a morte não
existe; não sinto mais medo de morrer.” São comuns afirmações deste tipo após EFCs
espontâneas, mas é possível que se baseiem mais na emoção do que na razão.

19
Alguns dias depois de minha experiência, assim que me senti capaz, sentei-me para
escrever um relato do que acontecera para não esquecer. O pensamento lógico começou
a prevalecer e me pus a reavaliar aquelas conclusões apressadas. Em primeiro lugar, eu
não estava agindo sem o meu corpo físico. Parecia que eu estava num lugar diferente do
corpo, mas não há dúvida de que ele estava funcionando perfeitamente. Podia ser que
estivesse cansado, mas não estava morto. Ele se sentava, movia e conversava. Portanto,
não há motivo para concluir que uma experiência desse tipo pudesse ocorrer sem um
corpo em funcionamento. Mais adiante, discutirei casos de EFCs em que o corpo físico
se encontrava ou à beira da morte ou em estado grave; outra questão interessante é saber
se uma EFC pode acontecer quando há pouca ou nenhuma atividade cerebral. Porém, no
meu caso particular, assim como na maioria dos outros, é claro que tanto o corpo quanto
o cérebro estavam perfeitamente aptos para realizar qualquer atividade normal.
Quaisquer conclusões que se tire a respeito do funcionamento autônomo da “mente” ou
a respeito da sobrevivência após a morte física parecem, por conseguinte,
completamente injustificadas.
O mesmo se diga em relação à hipótese de que temos um segundo corpo. Logo no
início de minha experiência, o corpo duplicado parecia muito real, mas suas
transformações subseqüentes me levaram a concluir que ele não passava de um fruto da
minha própria imaginação. Sinto-me muito feliz por ter tido uma experiência tão longa e
rica assim, que me permitiu descobrir estas coisas empiricamente. Mas, seja lá como
for, encarando a questão com objetividade, é evidente que, por mais “real” que
parecessem ser o corpo, o fio de prata e todo o resto, existe sempre a possibilidade de
que tenham sido imaginados, e nem mesmo o acúmulo de tais experiências constitui
prova de que temos um segundo corpo.
Quanto à capacidade de ver sem os olhos, talvez aqui surja a questão mais intrigante
e difícil. Em que sentido estava eu “vendo” durante esta EFC? Será que “vi” realmente
as chaminés que imaginara haver no telhado? Se eu tivesse visto algo cuja existência
desconhecia e, posteriormente, verificado que o que vi existia de fato, minhas
conclusões poderiam ter sido diferentes. Tratarei detalhadamente desses casos no
decorrer deste livro. Mas, no que diz respeito à minha experiência pessoal, não obtive
indício algum de que podia “ver” alguma coisa sem a ajuda dos meus olhos.
O que estava vendo, então? Em que consiste o mundo da EFC? É possível que alguns
leitores estejam ficando impacientes com esse questionamento todo e insistam para que
eu aceite este fato evidente por si mesmo: que possuímos um segundo corpo, capaz de
viajar fora de nossos

20
corpos físicos. Para eles, no entanto, a questão de saber aonde ele vai se toma a mais
premente de todas. Não é fácil responder. Será que viajei pelo mundo concreto e real?
Se assim for, esse mundo parecia estranhamente distorcido e até mesmo imperfeito. Ou
será que estive viajando dentro de um mundo criado pelo pensamento, como aquela ilha
em forma de estrela, com cem árvores, poderia sugerir: uma espécie de mundo de
associações mentais? Algumas teorias esotéricas implicam tal conceito. Ou podia ser
que minha imaginação tivesse criado toda a experiência? Certas teorias psicológicas
sobre a EFC preferem esta versão; mas, nesse caso, o que fazer diante das numerosas
reclamações de pessoas que afirmam terem obtido informações, durante EFCs, que não
são possíveis de conseguir normalmente? De que forma podem ser explicadas?
Outra questão em que estou pessoalmente empenhada em responder consiste em
saber por quê, afinal, a coisa aconteceu. Terá sido, de alguma forma, planejada por
mim, como me pareceu então, ou foi apenas conseqüência do cansaço, entremeado com
o uso de tábua ouija ou com os efeitos da droga? Eu já tinha fumado muita maconha
antes daquela experiência e usado outros tipos de droga, sem jamais sentir qualquer
coisa remotamente comparável. Parece improvável, portanto, que, por si só, a droga
pudesse ser responsabilizada, apesar de achar que possa ter contribuído para prolongar a
experiência e evitar que eu tivesse medo. O que, então, a desencadeou? Aliás, o que
geralmente desencadeia tais experiências? Pode-se aprender a tê-las por vontade
própria? Enfim, por que a experiência tomou aquela forma? Por que o cordão prateado?
Foi só porque eu havia lido um texto sobre projeção astral? Ou há alguma outra razão
para estas peculiaridades? Farei o melhor possível para resolver todos estes enigmas no
decurso deste livro.
Um exame crítico das minhas conclusões iniciais levou-me, como se pode ver, a
rejeitar a maior parte delas por falta de comprovação e a substituí-las por uma série de
perguntas. Contudo, houve uma transformação: perdi o medo da morte. Conforme se
verá, existe indício de que este tipo de experiência, às vezes, precede a morte. Se eu
tivesse morrido no decorrer dela, se a morte significa ou não destruição total, acho que
não me importaria nem um pouco. Já que o temor é uma coisa subjetiva, posso afirmar
com segurança que a experiência reduziu meu medo da morte.
De mais a mais, conclusões apressadas não são confiáveis. Assim, o que se pode
aprender, tendo em vista este ou qualquer outro caso de EFC? Meu primeiro impulso é
perguntar: “O que aconteceu? E o que significa tudo isso?” Receio, porém, não ser
possível que estas indagações

21
tragam respostas satisfatórias, de modo que pretendo formular perguntas mais claras, no
meu entender, para as quais existe chance de se obter respostas.
Para maior clareza, elas podem ser divididas em duas categorias. A primeira diz
respeito aos fatos da EFC; a segunda, às explicações e às teorias. Eis a primeira:

1. Tiveram outras pessoas experiências análogas? Em caso afirmativo, como eram?


2. Até que ponto são comuns essas experiências?
3. Que pessoas afirmam tê-las e em que circunstâncias?
4. Podem tais experiências serem induzidas por vontade própria e controladas?
5. Possuem as EFCs semelhança com outros tipos de experiência, como os sonhos e as
alucinações?
6. Há indícios de que as pessoas podem ver coisas que não conhecem (isto é, podem usar PES)
durante as EFCs?
7. Há provas da existência de algum “duplo”?

É óbvio que cada um destes itens inclui uma porção de outros; mas tenho certeza de
que se conseguíssemos achar respostas, ainda que parciais, para alguns deles, estaríamos
numa posição mais confortável para começar a responder o segundo, e mais
complicado, tipo de questões:

1. Que teorias foram propostas para elucidar a EFC e quais são as mais adequadas?
2. Qual a melhor explicação para a EFC?

Embora tenha dividido questões como essas em empíricas e teóricas, é evidente que
os dois tipos não têm uma distinção nítida. Só se pode agrupar fatos dentro do contexto
de teorias; os depoimentos de pessoas comuns podem estar seriamente comprometidos
pelas crenças vigentes ou pelas suas concepções religiosas ou filosóficas. Por outro
lado, só se podem testar e desenvolver teorias em relação aos fatos e de acordo com a
visão que se tem deles na época. Por conseguinte, cada questão terá, necessariamente,
de ser discutida em relação às outras.
Não obstante, existe algum valor nesta distinção. Depois de ter reunido todas as
informações disponíveis, posso então fazer a mais difícil das perguntas. Há algum meio
satisfatório de esclarecer a EFC? Pessoalmente, meu objetivo é poder compreender o
que aconteceu naquelas poucas horas, há dez anos. Espero, contudo, que minhas
descobertas possam ser úteis para os outros. Muitas pessoas passaram por experiências
análogas.

22
Algumas estão preocupadas ou confusas e querem compartilhar suas experiências ou
descobrir mais a respeito delas. Com este intuito, muitos recorrem à Sociedade para
Pesquisas Psíquicas em busca de ajuda. A SPP está investigando essas e outros
experiências, há 100 anos e deve, a esta altura, estar capacitada para fornecer algumas
das respostas. Neste livro darei uma visão geral do que a SPP e outros aprenderam
nestes 100 anos.

23
2 COMO DEFINIR A EFC

Uma questão é fácil de responder: eu estava sozinha em minha experiência. Muitas


outras pessoas passaram por experiências semelhantes e parece que as EFCs podem
ocorrer com qualquer um em quase todas as circunstâncias. Eis um exemplo muito
simples, colhido por mim mesma:

Atravessei a estrada e entrei numa floresta bastante iluminada. Minha visão começou a ficar
turva e, cinco ou dez segundos depois, só conseguia enxergar a uma distância bem pequena; o
resto era “névoa”.
De repente minha vista clareou: eu estava olhando para as minhas costas e pés, de uma posição
recuada dois metros e meio ou três metros e meio do meu próprio corpo, e a cerca de trinta e cinco
centímetros acima dele. Meu corpo físico não possuía visão nem os outros sentidos; era
exatamente como se eu estivesse andando atrás de alguém, só que esse alguém era eu mesma...

Afirmo ser esta uma EFC porque se ajusta à minha definição precedente, mas antes
de examinar mais a fundo essa definição e suas implicações, gostaria de considerar
alguns outros fenômenos que não chamaria de EFCs. Existem, por exemplo, narrativas
populares de bilocação e tradições de duplos. E existem, também, experiências místicas
e religiosas, e visões ou “viagens” provocadas por drogas. Serão essas experiências do
tipo das EFCs? Nesse caso, como podemos ter certeza? Definindo a EFC como uma
experiência em que alguém tem a impressão de perceber o mundo de um ponto fora do
corpo físico. Conseqüentemente, se não ocorrer essa experiência, então o fenômeno não
é uma EFC. Esta distinção, porém, é apropriada e pode ser aplicada em qualquer
ocasião?

24
Para tentar responder a algumas dessas questões vamos dar uma olhada nos
fenômenos narrados. Grande parte deles envolve vários tipos de duplos. A idéia de que
nós todos temos um duplo, aparentemente se origina de uma EFC. Se você tem a
impressão de estar saindo de seu corpo físico e observando coisas do lado de fora dele,
então é natural supor que, pelo menos temporariamente, você possui um duplo.
Também parece óbvio que esse duplo possa ver, ouvir, pensar e se mover.
Esta idéia não é, necessariamente, verdadeira. Como Palmer (110b) assinalou com
muita exatidão, a experiência de estar fora do corpo não corresponde ao fato de estar
fora dele. Analogamente, a experiência de possuir um duplo não corresponde ao fato de
existir um duplo que vê, pensa e se move. Entretanto, a idéia toda do duplo está
intimamente ligada à EFC e uma das mais importantes questões que tentarei responder é
saber se algum tipo de duplo abandona o corpo numa EFC.
A noção de um duplo humano tem uma longa e pitoresca história. Platão nos dá uma
versão primitiva da idéia. Assim como muitos, antes e depois dele, Platão acreditava
que o que vemos nesta vida é apenas um vago reflexo daquilo que o espírito poderia ver
se fosse libertado do suporte físico. Aprisionado dentro de um grosseiro corpo físico, o
espírito é limitado; separado desse corpo, seria capaz de se comunicar diretamente com
os espíritos dos mortos e ver as coisas com mais clareza. Na verdadeira Terra, antes no
aither do que no ar, tudo é mais claro e transparente, mais saudável e feliz. Neste meio
mais puro, aqueles que se libertaram de seus corpos vivem em estado de graça e vêem
com a verdadeira visão. Apesar de esta idéia estar em desacordo com tudo o que
sabemos acerca da psicologia da visão, é provável que haja muitos que preferem pensar
assim hoje em dia.
Outra idéia que pode derivar dos gregos é a de que temos um segundo corpo. Mead
(90), um estudioso dos clássicos, reconstituiu, em seu texto de 1919, “a doutrina do
corpo sutil” que percorre a tradição ocidental. Outros corpos manifestam-se sob muitas
formas diferentes e há versões que falam da existência de até sete ou mais corpos
diferentes. Se não é o corpo físico, mas o espírito ou algum corpo sutil que vê, conclui-
se, então, que o espírito seria capaz de ver melhor sem seu corpo. Aristóteles ensinava
que o espírito podia abandonar o corpo e era capaz de se comunicar com outros
espíritos, enquanto Plotino sustentava a idéia de que todas as almas eram separáveis de
seus corpos físicos.

25
Talvez a idéia mais difundida a respeito de outros corpos seja a de que na morte
deixamos nosso corpo físico e assumimos uma forma mais sutil ou mais elevada. Este
conceito está enraizado não só no pensamento grego e em grande parte da filosofia
posterior, mas também em muitos ensinamentos religiosos. Os antigos egípcios
descreviam vários outros corpos, entre eles o ba, ou alma, e o Ka, que se assemelhava
ao corpo físico e ficava perto dele na morte (ver Ilustração 2).
Algumas religiões orientais incluem uma doutrina específica sobre as formas e
habilidades dos outros corpos e sobre a natureza dos outros mundos, ao passo que no
cristianismo há referências a um corpo espiritual. Algumas obras religiosas podem ser
vistas como uma preparação da alma para a sua transição na morte, como por exemplo o
Bardo Thodol, O livro tibetano dos mortos (37), ou o Ars Moriendi, sobre a arte ou
técnica de morrer (23). Rogo (124a) descreve relevantes ensinamentos no budismo
tibetano, outros consideram conceitos relativos com mais profundidade, mas terei de me
restringir às idéias que concernem mais diretamente à EFC.
Uma dessas deriva dos ensinamentos da teosofia. Dentro de um esquema que
envolve vários planos e vários corpos, a EFC é interpretada como uma projeção do
“corpo astral” a partir do corpo físico. Devido ao fato de que essa idéia tem exercido
tanta influência, discuti-la-ei detalhadamente no capítulo seguinte. Por enquanto, devo
apenas assinalar que, como todos os esquemas que incluem duplos, este é apenas um
dos meios de interpretar a EFC.
A idéia de que temos um duplo também aparece na mitologia popular. Os contos
noruegueses falam do vardfØer, a reprodução de uma pessoa que pode chegar ao seu
destino antes dela. O tàslach escocês é também uma espécie de aviso da aproximação
do viajante e pode chegar a uma casa, bater à porta e entrar muito antes que a versão
real tenha chegado lá. Em Cumberland, tais aparições de pessoas vivas eram chamadas
de swarths e representavam um outro eu que acompanha cada pessoa, mas só pode ser
visto por aqueles que possuem uma “segunda visão “. Nesse caso estão os antigos fetch
ingleses e os Doppelgünger alemães, ambos duplos ou aparições de pessoas vivas. É
freqüente terem esses duplos implicações maléficas ou estarem associados ao lado
sombrio do homem, lado este retratado tão brilhantemente nas histórias do Dr. Jekyll e
do Sr. Hyde, ou de Dorian Gray. Costuma-se, porém, crer que sejam totalmente
inofensivos.
Ao que parece, esses fenômenos têm relação com a EFC à medida que envolvem um
duplo, mas a semelhança acaba aí. Nos contos tradicionais de aparições e espectros, o
duplo costuma ser uma espécie de auto-

26
mato inconsciente, cujo “dono” nem precisa saber que ele foi visto. Por exemplo: se
meu fantasma tivesse de chegar ao bar antes de mim, eu não estaria consciente do fato.
Eu poderia aparecer mais tarde e descobrir que ele já pedira uma caneca de cerveja e
uma porção de salgadinhos e que o garçom estava esperando que ele pagasse a conta.
Certamente, não se trata aqui de uma EFC, comparável de algum modo àquelas que já
descrevemos. Nas EFCs, a característica decisiva é a experiência em que se tem a
impressão de deixar o corpo e na qual o duplo se toma o mais real dos dois. Em
contrapartida, o espectro ou aparição não passa de uma concha vazia.
Encontra-se a mesma diferenciação na experiência de autoscopia. Aristóteles contou
a história de um homem chamado Antiferon que um dia estava dando um passeio,
quando se viu frente a frente com um reflexo de si mesmo, vindo em sua direção.
Dostoievski escreve, em O sósia, sobre um homem que certo dia encontrou seu próprio
duplo sentado e trabalhando em sua escrivaninha. O fato de que quase todo mundo é
capaz de perceber o terror de uma tal experiência indica o vigor da história. Mas ela
toca numa verdade profunda e pouco compreendida, de que temos um duplo, ou reflete
um temor muito real, que não se baseia, porém, numa dualidade correspondente? Essas
experiências, de ver o próprio duplo, são chamadas de “autoscopia” ou alucinações
autoscópicas. Voltaremos a encontrá-las relacionadas com a psicopatologia (ver
Capítulo 15), mas ainda aqui o duplo não é a pessoa “real” ou consciente. É visto como
um outro eu, porém o eu original continua a parecer o mais real. Na EFC é o “outro”
que parece ser o mais vivo.
Conta-se que, na quinta-feira santa do ano de 1226, Santo Antônio de Pádua
ajoelhou-se para rezar na igreja de St. Pierre du Queyrrix, em Limoges, cobriu a cabeça
com o capuz e, no mesmo instante, ele apareceu do outro lado da cidade, em outra
cerimônia religiosa (8a). Outra célebre lenda é a de Alfonso Liguori, que perdeu a
consciência quando se preparava para celebrar uma missa em 1774. Ao recobrar os
sentidos, disse aos presentes que estivera no leito de morte do papa Clemente XIV, em
Roma, que ficava a quatro dias de viagem. Posteriormente, chegaram notícias não só de
que o papa havia morrido, como também de que os que o assistiam em seu leito de
morte tinham visto e conversado com o santo e participado das orações que ele
conduzira (97b).
Existem, também, histórias mais modernas de bilocação. Na década de 1840, uma
professora chamada Mile. Emile Sagée, de 32 anos de idade, foi demitida de seu décimo
nono emprego. As alunas na escola

27
viram duas Mlle. Sagée lado a lado, no quadro-negro, duas na hora do jantar e outras
duas realizando atividades totalmente distintas em volta da escola. Quando os pais
começaram a retirar suas filhas da escola, a diretoria decidiu despedir Mile. Sagée
(135).
Ainda mais recentemente, Osis e Haraldsson (104a) viajaram para a India a fim de
investigar rumores de que os swamis Satya Sai Baba e Dadaji tinham aparecido em dois
lugares diferentes ao mesmo tempo. Num dos casos, Dadaji estava sozinho numa sala
de orações, enquanto seus adeptos cantavam numa outra sala. Quando saiu, Dadaji
pediu a uma das mulheres ali presentes que perguntasse à nora dela em Calcutá se ele
tinha sido visto lá. Naquela hora, toda a família Mukherjee havia visto Dadaji. Ele
aparecera no estúdio deles e indicara silenciosamente que queria chá, tendo-lhe a filha
da casa trazido chá com biscoitos. Depois, ele sumiu da casa, deixando a comida e a
bebida pela metade, além de um cigarro ainda aceso. É claro que a história foi contada
algum tempo depois de ter acontecido e, assim como as lendas anteriores, pode ser
questionada. É interessante, porém, fazer uma comparação com EFCs. Podia ser que o
swami tivesse tido uma visão alucinatória ou que ela tivesse sido causada por PES; ele
podia tê-la “encenado” para sua própria reputação, ou a sua experiência podia coincidir
com uma EFC. Osis e Haraldsson preferem esta última interpretação. Mas, conforme
veremos, são raras as ações materiais em EFCs e nenhuma pessoa “fora do corpo”
jamais afirmou ter bebido sequer uma xícara de chá.
Também relacionados com EFCs estão os fenômenos de clarividência à distância, de
projeção de PES e o de “visão remota”, mais recente. O termo “clarividência à
distância”, mais antigo, era usado para descrever uma forma de clarividência na qual um
médium ou sensitivo parecia perceber um lugar distante. Vários videntes famosos foram
testados nesta habilidade durante o século passado, coletando-se uma considerável
quantidade de provas a respeito da exatidão do que viram (ver como exemplo o item 42
da Bibliografia). A nosso ver, o problema aí é que a “clarividência à distância” incluía
tanto EFCs como experiências em que o vidente “percebia” a cena distante (ou mesmo
uma cena que se passava num outro tempo), mas sem abandonar o corpo. Na
“clarividência à distância” e na “projeção de PES”, pressupõe-se a ocorrência de PES,
mas não a experiência de deixar o corpo. Uma vez que estou interessada nesta última,
evitei usar esses termos, sempre que possível.
Visão remota é uma expressão muito mais recente e mais bem-definida; descreve
uma técnica desenvolvida por dois cientistas, Russel Targ e

28
Harold Puthoff, no Instituto de Pesquisas de Stanford, da Califórnia (145). Sua
característica consiste em o paciente descrever ou desenhar as impressões de um lugar,
enquanto um “experimentador itinerante” visita um dos vários locais distantes,
selecionados aleatoriamente. Posteriormente, as descrições e os locais são confrontados,
ou pelo paciente ou por um árbitro imparcial. Tem-se afirmado que as descrições são
extremamente precisas algumas vezes e que, em muitos estudos, a maioria dos locais foi
corretamente comparada com as descrições, embora tenha havido muita controvérsia
sobre alguns dos resultados (87). Menciono visão remota, pois ela tem sido
freqüentemente comparada com EFCs. De vez em quando, utilizam-se pacientes que
podem ter EFCs. Ingo Swann, de quem ouviremos falar muito nos capítulos seguintes,
foi um dos primeiros a serem testados na pesquisa sobre visão remota. Na maior parte
das vezes, porém, os pacientes não possuem nenhuma experiência provável de estar fora
do corpo. Devido ao fato de ter definido a EFC como uma experiência, a visão remota
não se enquadraria na minha definição; conseqüentemente, não tratarei dela com
maiores detalhes.
Até agora conseguimos determinar o que constitui uma EFC pelo confronto com a
definição, mas a dificuldade aumenta no caso de outras experiências subjetivas, como
por exemplo os sonhos. Muitas pessoas argumentam que a própria EFC é algum tipo de
sonho e que envolve apenas um duplo imaginário. Todavia, o virtual abandono do corpo
e o processo consciente de percepção das coisas no momento em que estão acontecendo
não são aspectos importantes de um sonho comum. Mesmo se você sonha estar em
algum lugar distante, normalmente só se lembrará disto ao despertar e, então, de
imediato compreenderá que foi um sonho. Mas, e quanto aos sonhos translúcidos? São
aqueles em que o sonhador percebe, no ato, que está sonhando. Ele pode ficar
perfeitamente consciente no sonho e, nesse caso então, a experiência se parece muito
com uma EFC. Talvez seja a mesma coisa. (Discutirei esta questão no Capítulo 11.)
Argumenta-se que a EFC é uma alucinação e que qualquer outro corpo ou duplo é,
igualmente, alucinatório. De fato, há muitas semelhanças entre alguns tipos de
alucinação e algumas EFCs e, mais adiante, discutirei esse relacionamento.
Existe uma variedade de experiências religiosas e transcendentais, entre outras, que
se torna difícil separar das EFCs. Nesse tipo de experiências, as pessoas podem ter a
sensação de que aumentaram ou diminuíram de tamanho, tornando-se unas com o
universo ou com Deus. Tudo é visto numa perspectiva nova, dando a impressão de ser
“real”

29
pela primeira vez. É difícil estabelecer uma divisão entre uma experiência religiosa e
uma EFC, e qualquer divisão pode parecer artificial ou arbitrária. Uma experiência pode
brotar da outra e é comum encontrar-se EFCs em inúmeras experiências religiosas (ver
o item 5 da Bibliografia). Mas geralmente, com a utilização da definição dada, é
possível determinar se uma pessoa esteve virtualmente fora do corpo ou não. O
significado exato da relação entre estas experiências distintas será assunto para um
capítulo posterior.
Como se pode ver, a definição da EFC como uma experiência permite que se
excluam muitos fenômenos desde o início. Talvez não seja uma definição perfeita, mas
preferi usá-la neste livro como um todo. Uma de suas principais vantagens, e a razão
básica pela qual a adotei, é que não dá margem a qualquer interpretação da EFC. Pode
ser que haja ou não um duplo, pode ser que algo deixe ou não o corpo: a definição não
implica nenhuma dessas possibilidades.
As conseqüências deste fato são importantes. Em primeiro lugar, já que a EFC é uma
experiência, se alguém disser que teve uma EFC, temos então de acreditar em sua
palavra. Não se exige prova alguma de que algo deixou o corpo. Se uma pessoa
experimentar estar fora do corpo, então, por definição, ela tem sua EFC. É concebível
que possamos, no futuro, descobrir meios de medir a EFC, ou estabelecer critérios
exteriores para a sua avaliação, mas, por enquanto, só nos é lícito acreditar no
depoimento do indivíduo.
Uma outra conseqüência que podemos inferir é que a EFC não se enquadra em
nenhum tipo de fenômeno psíquico. Como Palmer explicou (usando uma definição um
tanto diferente), “a EFC não é, virtual ou efetivamente, um fenômeno psíquico” (110b,
p. 19). Esta sua afirmação tem sido, com freqüência, mal-entendida, mas o que ele diz é
conseqüência natural de uma definição empírica. Uma experiência pessoal pode tomar a
forma que se queira. Pode ser incrivelmente estranha, mas não é, obrigatoriamente,
paranormal ou psíquica: pode não ser nada disso. Somente em relação a outras
circunstâncias externas é que uma experiência se toma psíquica, assim como quando um
sonho “se concretiza”. Esta distinção é muito importante para a pesquisa sobre EFC,
pois não constitui um entrave o fato de lidarmos com algo definido como “paranormal”,
ou não explicável em termos normais. Estamos, isto sim; lidando com uma experiência,
que tanto pode vir a ser associada à PES ou a eventos paranormais, como não. Esta é
apenas uma das questões que espero esclarecer

30
no curso deste livro; e acho que começar com a definição dada aqui é começar passando
a limpo este assunto.
Agora espero ter deixado claro o que entendo exatamente por EFC e que este livro
abordará as múltiplas formas desse tipo de experiência e as tentativas para compreendê-
la. Irei, então, me lançar diretamente numa das mais conhecidas tentativas de explicação
da EFC: a doutrina da projeção astral. Tantas experiências foram descritas dentro desta
concepção que, para entendê-las, precisamos saber o que é “projeção astral”.

31
3 A DOUTRINA DA PROJEÇÃO ASTRAL

Vimos que a idéia do duplo humano tem uma longa história e está intimamente
ligada à EFC. Parece uma explicação superficial dizer que todos nós possuímos um
duplo que pode, de quando em quando, sair do corpo físico. No entanto, assim que se
adota esta idéia, aparecem os problemas e é forçoso que o sistema se torne mais
complexo para lidar com eles. Um dos mais intrincados e, certamente, o mais influente
desses sistemas, é a teoria da projeção astral, baseada nos conceitos teosóficos. Vou
descrever detalhadamente essa teoria, não porque ache que seja perfeita e útil, mas
porque tem sido freqüentemente usada para interpretar as EFCs.
Em 1875, Madame Blavatsky fundou a Sociedade Teosófica em Nova York com o
objetivo de estudar a sabedoria e as religiões orientais. A partir de seus ensinamentos,
recolhidos em viagens à Índia e a outras partes do Oriente, desenvolveu-se um sistema
complexo que inclui descrições de outros planos de existência e de outros corpos, além
do físico. Segundo os teosofistas, o ser humano não é apenas o resultado de seu corpo
físico, mas sim uma criatura mais complexa que consiste em muitos corpos, cada qual
mais perfeito e mais sutil que o outro “abaixo” dele na escala. Como ressaltava Annie
Besant (6), um dos principais expoentes da teosofia, o ser consciente ou individual deve
ser distinguido dos corpos que de tempos em tempos habita. Deve-se considerar os
corpos como um traje exterior que pode ser descartado para revelar o verdadeiro ser
interior.

32
Embora haja variações nos detalhes, é comum afirmar que existem sele- grandes
planos e sete corpos ou veículos correspondentes. O corpo físico, material, familiar a
todos nós, é o mais grosseiro de todos, mas acredita-se que haja um outro corpo,
também descrito como físico, que seria o duplo etérico. Alguns textos fazem confusão
entre o corpo astral e o duplo etérico, mas na doutrina teosófica eles são claramente
distintos. A substância etérica é vista como uma extensão do físico. O corpo físico
inferior consiste de sólidos, líquidos e gases; além disso, há quatro graus de matéria
etérica. São estes que formam o duplo etérico, ou veículo de força vital, que funciona
como uma espécie de transmissor de energia, mantendo o corpo físico comum em
contato com os corpos superiores. Esse duplo etérico está unido firmemente ao corpo
físico, sendo apenas ligeiramente maior e interpenetrando-o. Afirma-se que os dois
raramente se separam, só em caso de doença, por exemplo, ou na iminência de morte e,
depois dela, o duplo etérico toma-se supérfluo e desaparece para sempre. Não é raro
ouvir dizer que a alma penada vista em cemitérios nada mais é do que o duplo etérico
abandonando o seu corpo.
Quando a teosofia estava em crescimento ativo, no final do século passado, havia
aparentemente alguma base “científica” para esta idéia do mundo etérico. Annie Besant
nos diz que onde há eletricidade deve haver o éter. Mais tarde, em 1931, um livro
chamado On the Edge of the Etheric [À margem do etérico] alcançou enorme
popularidade (38). Nele, Arthur Findlay defendia a idéia de que os mundos etéricos
ocupavam as regiões do espectro eletromagnético que não eram conhecidas nem
detectadas pela ciência da época. Com o abandono da noção do éter e com o crescente
conhecimento do eletromagnetismo, o mundo etérico acabou perdendo esses nichos.
Todavia, os teosofístas continuam a discuti-lo e a afirmar que ele é visível com apenas
um ligeiro aumento da visão normal.
É provável que o seguinte na escala ascendente seja o mundo astral e seu
correspondente corpo astral. São mais puros que seus equivalentes Itéricoi e,
proporcionalmente, mais difíceis de se ver. O mundo astral liste de matéria astral, em
sete graus, e todos os átomos físicos possuem invólucros astrais, de forma que todos os
objetos físicos possuem uma réplica no astral. Portanto, existe uma cópia completa de
tudo no mundo astral; além disso, porém, há coisas no astral que não encontram
equivalentes no mundo físico. Existem formas mentais criadas pelo pensamento
humano, de cor e aspecto variados. Há elementais, modelados pela mente humana e
animados por uma multidão de desejos e emoções, e outros como a legião mais ínfima
de mortos que não progrediram desde

33
que deixaram o mundo físico (ver item 78 da Bibliografia). Todas essas entidades e
muitas outras são utilizadas em rituais de magia (ver item 24 da Bibliografia), podendo-
se criar formas mentais especialmente para realizar tarefas tais como as relacionadas
com a cura, o envio de mensagens ou a obtenção de informações.
Os teosofistas acreditam que o corpo astral seja o centro de todos esses sentidos, a
sede das paixões e desejos carnais e um veículo de consciência. A psicologia atual julga
que os sentidos são sistemas físicos que levam informação para o cérebro que a processa
e interpreta. Não há necessidade de nenhum outro corpo sensível. Mas, de acordo com
os teosofistas, o físico não produz sensibilidade alguma; ele apenas transmite a energia
para os planos superiores conscientes. Também afirmam que o astral reflete quaisquer
pensamentos que incidam nele, sejam os da própria pessoa sejam os de uma outra,
tornando possível a telepatia no astral.
Neste esquema, supõe-se que os que possuem essa capacidade sejam capazes de ver
a natureza dos pensamentos de uma pessoa por meio de mudanças na cor e na forma do
corpo astral. Envolvendo totalmente o físico, podem-se ver as cores brilhantes e
intensas que compõem a aura do corpo astral, maior que o físico. Numa pessoa pouco
desenvolvida, essa aura é pequena, com um contorno definido. Na pessoa
espiritualizada ou com alto grau de desenvolvimento, é maior e mais definida. Dizem
que a aura de Buda ou de Cristo podia preencher o mundo inteiro. As cores da
espiritualidade são azuis-claras; as do desenvolvimento intelectual tem os matizes do
amarelo; enquanto o orgulho se apresenta como vermelho-claro, o egoísmo e a
depressão em tons variados de marrom e a maldade como o preto (67). É provável que
todas essas cores sejam visíveis na aura astral, indicando dessa forma ao sensitivo que
tipo de pessoa ele está vendo.
Tudo isto tem relevância especial aqui, devido ao fato de que o corpo astral
provavelmente seja capaz de se separar do físico e viajar sem ele. Visto que o astral é o
veículo de consciência, é este corpo, e não o físico, que se mantém alerta, embora nem
sempre transmita para o cérebro físico as reminiscências de suas viagens. Segundo
consta, durante o sono o corpo astral retira-se do corpo adormecido. Na pessoa menos
evoluída, pouca coisa fica retida na memória, o corpo astral é indefinido e suas viagens
limitadas e sem objetivo; por outro lado, na pessoa treinada, o astral pode ser
controlado, percorrer grandes distâncias durante o sono e, até mesmo, ser projetado do
corpo físico à vontade. É a isso que chamam de projeção astral.

34
Na projeção astral, a consciência pode viajar quase sem restrição, mas somente pelo
mundo astral. Portanto, ela não distingue os objetos físicos, mas sim, seus equivalentes
no astral, assim como os seres que vivem no campo astral. Por causa do efeito da mente
sobre o mundo astral, ele é conhecido como o “mundo da ilusão”, ou mundo dos
pensamentos. O viajante incauto pode acabar sendo confundido pelo poder da sua
própria imaginação. Neste estado, ele pode surgir, na forma de uma aparição, para
qualquer pessoa que tenha a “visão astral”. Evidentemente, existe a possibilidade de
aparição para outras pessoas também, mas isso já acarreta o envolvimento de matéria
inferior, de matéria etérica, por exemplo, como no ectoplasma.
Um aspecto da viagem astral que ganhou importância em textos mais recentes,
embora pouco apareça na teosofia original, é o cordão prateado. Afirma-se que em vida
o corpo astral está ligado ao seu corpo físico por um cordão infinitamente flexível, mas
resistente, de uma fluida e delicada cor prateada. Em experiências espontâneas de
projeção astral, o viajante algumas vezes vê esse cordão alongando-se até o seu corpo.
Segundo a tradição, o cordão deve permanecer conectado ou a morte sobrevirá.
Normalmente, quando alguém se aproxima da morte, o corpo astral vai-se desprendendo
pouco a pouco, eleva-se acima do físico e então o cordão se rompe, permitindo que os
corpos superiores saiam. A morte é vista, assim, como uma forma permanente de
projeção astral, na qual a essência do ser humano sobrevive e passa para planos mais
elevados.
Além do astral, a teosofia distingue outros cinco níveis, a saber: o mundo mental ou
devânico, o búdico, o nirvânico e outros dois, tão distantes de nossa compreensão que
raramente são descritos. O dever de um verdadeiro discípulo de teosofia é passar por
todas estas etapas de evolução. Acredita-se, realmente, que seja o dever de todo ser
humano consegui-lo, através de muitas encarnações. Mas aqui estamos interessados
exclusivamente no astral, que fornece um meio de interpretar a EFC, que tem exercido
enorme influência.
Algumas pessoas descobriram referências à projeção astral na Bíblia. Alegam, por
exemplo, que a conversão de Paulo no caminho para Damasco é uma prova de que Jesus
era capaz de projetar-se voluntariamente. Martin Israel sugeriu que Ezequiel tinha
freqüentes EFCs, nas quais se transportava da Babilônia a Jerusalém (67), e Leonhardt
interpretou a história da visão de Jacó, na qual havia uma escada para o céu, por onde
anjos desciam e subiam, como uma EFC (81). Talvez a ascensão de Cristo ao céu e a
história de sua ressurreição seja uma interpretação mais comum, nesse

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sentido; mas entre os exemplos bíblicos mais freqüentemente citados, estão a alusão de
Paulo a um corpo espiritual (I Coríntios, 15.35-58) e esta breve passagem do Eclesiastes
(12.6):

[...] antes que se rompa o fio prateado, e se despedace o copo de ouro, e se quebre o cântaro junto à
fonte, e se desfaça a roda junto ao poço.

Foi esta referência ao fio prateado que levou tantos estudiosos a concluir que o
cristianismo apóia a idéia da projeção astral, mas é bem provável que estejam
enganados. Michael Perry, arcebispo de Durham (114), argumenta que o autor do
Eclesiastes estava simplesmente usando metáforas poéticas. O copo seria a cabeça, e o
fio, a espinha dorsal, ou então ambos poderiam fazer parte da lâmpada decorativa, um
símbolo da morte. Em todo o caso, parece igualmente provável que ele representasse
qualquer uma dessas coisas, assim como a idéia implícita no “cordão astral”. Não há
mais alusões a esse fio prateado em outras partes da Bíblia. Na minha opinião, não se
acrescenta nada às histórias bíblicas, distorcendo-as a fim de que se amoldem à estrutura
da projeção astral.
Se a doutrina da projeção não tem nenhum valor específico para a compreensão da
Bíblia, por outro lado, revela-se útil na compreensão de experiências estranhas.
Aspectos de algumas EFCs que parecem insólitos ao experimentador, se tornam
compreensíveis se ele conhece projeção astral, e este fato tem contribuído para o
sucesso delas. Há vários casos que se ajustam bem a esta característica, nos arquivos da
SPP.
Desde que foi fundada, as pessoas têm mandado para a Sociedade relatos de
experiências que consideram “mediúnicas” ou, simplesmente, que possuem alguma
ligação com a pesquisa de fenômenos paranormais. Estes depoimentos incluem histórias
de aparições e fantasmas, telepatia e clarividência, premonições e sonhos premonitórios
e, naturalmente, EFCs. Todos estes casos são cuidadosamente classificados, arquivados
e catalogados e se encontram à disposição dos sócios para consulta. Na seção intitulada
“Projeção Astral”, há muitos relatos de EFCs, espontâneas e intencionais. Eis a seguir
um exemplo que não se acha expresso em termos teosóficos, revelando-se, ao contrário,
como uma projeção astral clássica. O paciente, a quem chamaremos de Sr. K, ressaltou
que jamais tinha visto, lido ou ouvido falar de alguém que tivesse uma “experiência fora
do corpo”, antes de ter tido a sua própria. E só decidiu comunicá-la porque leu, na
Revista da SPP, um relato de experiência desse tipo.
O Sr. K mostrava-se preocupado com a sua esposa, que estava doente. Afirma não se
recordar de que maneira acabou se enfiando na cama da mulher, pois um instante antes
estava sentado à sua cabeceira:

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[...] lembrei-me de que estava ali deitado, ornando para cima. Tive a impressão de que tanto o teto
como o telhado desapareceram, e vi nitidamente uma i in li. ou algo que o valha. Aí (permitam-me
contar o que aconteceu, com minhas próprias palavras), recebi visão mediúnica, pois meu espírito
saiu do meu corpo, que vi deitado na cama, ao lado de minha esposa. Eu me assemelhava a uma
chama com um comprido fio prateado ligado ao meu corpo físico. Era como se eu estivesse
fruindo da paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento.

O Sr. K continua então, contando que lhe foi assegurado que sua esposa se
restabeleceria prontamente, e que, por fim, ele voltou ao seu estado normal, constatando
que o fio prateado, antes tão comprido, acabara ficando muito curto. Teve plena certeza
de que não devia rompê-lo. No dia seguinte, sua esposa melhorou e ele lhe contou tudo
o que acontecera. Mas só se sentiu disposto a conversar com estranhos a respeito disso
quando soube que outras pessoas também haviam passado por esta experiência.
A aura astral é muitas vezes comparada a uma chama maior do que o corpo físico,
podendo assumir várias formas: ovóide, cilíndrica ou vagamente semelhante à forma
física. Porém, assim como uma chama, ela se move, parece viva e brilha com luz suave.
No caso do Sr. K, a chama poderia ser a sua aura ou corpo astral. O fio também
encontra lugar neste esquema: a descrição que dele faz o Sr. K, o fato de que era
prateado e que se alongava à medida que ia se afastando cada vez mais, tudo se encaixa.
Esse tipo de relato confirma, então, a realidade da projeção astral?
Muitos investigadores acham que sim. Entre os mais conhecidos estão Muldoon e
Carrington, e Crookall. Sylvan Muldoon era capaz de se projetar espontaneamente e
descreveu suas experiências em The Projection of the Astral Body [A projeção do corpo
astral] (97a), escrito em colaboração com o pesquisador de fenômenos mediúnicos,
Hereward Carrington (ver Capítulo 4). Juntos, os dois coletaram muitos casos de EFCs
espontâneas, que serviram de suporte para demonstrar a realidade da projeção astral.
Muitos anos mais tarde, Robert Crookall fez o mesmo, de uma forma mais sistemática.
Às vezes, entretanto, essa abordagem pode obscurecer, em vez de iluminar a questão.
Os traços da experiência original podem acabar se perdendo num caos de interpretações.
E essas interpretações não são, necessariamente, as únicas nem as melhores.
Sem dúvida alguma, é essencial separar os detalhes de experiência real, das diversas
interpretações que podem ser aplicadas a eles. Mas não são apenas os investigadores
que tornam difícil este procedimento. Mui-

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tas pessoas que comunicaram EFCs acham proveitosa a noção da projeção astral e
descrevem suas experiências nestes termos. Aqui está um exemplo encontrado nos
arquivos da SPP. A Sra. F, como a denominaremos, teve muitas projeções e, a seguir,
transcrevemos uma ocorrida quando ela tentava visitar um amigo hospitalizado:

Deixei meu corpo assim que adormeci (ou melhor: cochilei). Deve ter sido entre 11:30 e 12
horas. Estava completamente lúcida quando deixei a casa e atravessei Londres. Viajei a baixa
altitude, pois acho que o trajeto foi muito mais curto do que normalmente tenho de fazer, e, em vez
de flutuar no plano mental, percorri o caminho todo no astral que é mais lento, e tão baixo que
atravessei todas as casas, em vez de passar por cima delas...

Essa narradora recebeu o dom de viajar e explicou o vôo rasante nesses termos. É
claro que ela pode muito bem ter escolhido um atalho convincente. Talvez se viaje
assim no astral, e muito mais alto no plano mental. Mas é difícil separar o esboço da
experiência, da interpretação que lhe é feita, neste e em muitos outros relatos. Isso toma
muito difícil descobrir a verdadeira aparência da experiência.
A teoria da projeção astral apresenta vários problemas graves. Voltarei a falar de
suas dificuldades teóricas oportunamente, mas quero mencionar aqui dois problemas
mais prementes. O primeiro é que muitas EFCs simplesmente não se enquadram bem na
estrutura da projeção astral. Célia Green (49c) reuniu muitos casos em que a pessoa não
descreve nenhum corpo astral, na verdade, nenhum outro corpo sequer. Alguns falam de
uma bolha ou de um ponto de luz, enquanto outros não mencionam absolutamente nada,
dizendo apenas que têm a impressão de estar vendo de fora do corpo. Ademais,
pouquíssimas pessoas se referiram realmente a algum fio, muito menos ao tradicional
cordão prateado.
É claro que se pode contornar a dificuldade de enquadramento deste tipo de
experiência afirmando-se que a visão astral dessas pessoas estava turva ou que o fio era
fino demais para ser visto, mas essas explicações começam por enfraquecer a teoria. E
dizem respeito também ao seu segundo problema, à “elasticidade”. A teoria é tão
complicada e flexível que quase tudo pode ser distorcido para caber no seu molde. Se
você não percebe os traços que deveria perceber, é porque sua visão não está bastante
clara, ou porque a informação não foi passada para níveis mais altos. Se você não
consegue se fazer visível para outra pessoa, é porque não havia suficiente matéria
etérica em jogo e coisas semelhantes. Dessa forma, a “teoria” corre o risco de explicar
tudo e nada ao mesmo tempo.

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Tendo em mente esses problemas e conhecendo algo sobre o que é a projeção astral,
podemos agora continuar a examinar os fatos. Há relatos de habituais “viajantes
astrais”, EFCs espontâneas, cosmovisões e experimentos. Só quando tivermos
examinado todos esses itens é que será possível determinar com alguma precisão se a
doutrina do projeção astral é um método útil e válido para interpretar a EFC, ou uma
ficção que gera mais confusão do que clareza.

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4 OS VIAJANTES ASTRAIS

Nossa primeira pergunta já foi parcialmente respondida: outras pessoas passaram,


sem dúvida alguma, por experiências análogas. Conseqüentemente, podemos agora
perguntar qual o aspecto dessas experiências. São todas exatamente iguais, ou há grande
variação entre elas?
Os relatos de pessoas que as vivenciaram classificam-se,grosso modo, em duas
categorias. Existem pessoas bastante comuns às quais uma EFC ocorreu uma única vez
ou poucas vezes, e que fizeram um relato da experiência; e há um reduzido número de
pessoas que alegam serem capazes de projetar-se à vontade, e que narraram uma
infinidade de EFCs. Duas delas, Oliver Fox e Sylvan Muldoon, descreveram suas
experiências basicamente em termos de projeção astral, e estudarei suas histórias
primeiro.

OLIVER FOX

Oliver Fox (44c) nasceu em 1885 e passou a infância na zona nordeste de Londres,
evoluindo, como ele próprio diz, “de doença em doença” e sentindo um pavor freqüente
de pegar no sono por causa dos pesadelos que este poderia trazer. Ele via tanto
aparições terríveis como agradáveis e havia momentos em que temia que, quando
estivesse envolvido em alguma atividade rotineira, as coisas saíssem “errado”,
deixando-o temporariamente paralisado e com a impressão de que tudo à sua volta
continha e ampliava cada pedaço seu. Seus sonhos iniciais são importantes, pois foi
através deles que aprendeu, pela primeira vez, a se

40
projetar espontaneamente. Seu primeiro domínio sobre os sonhos aconteceu ainda em
pequeno, quando costumava ver pequenos círculos vibratórios, de cor azul ou malva,
como uma desova de rãs. Ou apareciam rostos sorridentes, pressagiando um pesadelo,
ou então surgiam pequenos tinteiros, que o protegiam de um pesadelo, de modo que
aprendeu a apelar para os tinteiros a fim de evitar o terror de um sonho ruim.
Uma noite, no princípio do verão de 1902, quando Fox começara a estudar ciências
em Southampton, sonhou que estava parado, em pé, na calçada em frente à sua casa.
Mas notou que havia algo errado com o passeio; as pedrinhas retangulares que o
formavam, pareciam ter mudado de lugar durante a noite e estavam agora alinhadas
diante do meio-fio. O mistério se desfez quando, num lampejo de consciência, percebeu
que, apesar da manhã ensolarada parecer tão real quanto qualquer coisa, ele estava
sonhando. No instante em que percebeu que era um sonho, a qualidade de tudo mudou:
a casa, as árvores, o mar e o céu, tudo se tornou claro e cheio de vida, e o sonhador se
sentiu forte e livre; essa sensação durou apenas um momento antes de ele acordar. A
este tipo de sonho, que teria muitas outras vezes, Fox deu o nome de “sonho de
conhecimento”, pois a gente sabe que está sonhando. Outros chamaram-no de “sonho
translúcido”. Depois dessa sua primeira e divertida façanha, Fox continuou se
exercitando e descobriu como era difícil saber quando se está sonhando, até que acabou
aprendendo a executar esta façanha com certa regularidade.
Foi num desses sonhos que Fox se viu caminhando por uma praia numa manhã
ensolarada e, ao mesmo tempo, consciente de estar deitado na cama. Esforçou-se para
permanecer na praia, perdeu a “consciência dual”, mas ganhou uma terrível dor de
cabeça. Continuou lutando contra a dor, até que venceu a parada. Teve um “estalo” na
cabeça, e a dor passou. Encontrou pessoas na praia, mas elas pareciam não perceber sua
presença. Começou, então, a ficar assustado. Que horas seriam, há quanto tempo estava
ali e como faria para voltar? Será que estava morto? O temor de ser enterrado antes do
tempo apossou-se dele. Decidiu acordar, sentiu aquele estado de novo e voltou. Mas
estava paralisado, o que ainda era melhor do que estar fora do corpo. Levou, porém,
algum tempo antes de conseguir, após um desesperado esforço, mexer um só dedo,
interrompendo, assim, o transe e recuperando os movimentos normais.
Apesar desta terrível experiência, Fox foi rapidamente vencido pela curiosidade e
prosseguiu com suas experiências, aprendendo a afastar com facilidade o estado
cataléptico, pegando novamente no sono e deixando-o

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passar naturalmente. Descobriu que qualquer tipo de envolvimento emocional
perturbaria o sonho de conhecimento e constatou a dificuldade que era ler durante um
sonho. Apesar de tudo, parece ter tido êxito em reconhecer duas questões do exame que
faria no dia seguinte, mas não desejou repetir esta atividade um tanto desonesta.
Prosseguindo com seus experimentos, logo vivenciou um novo fenômeno, o “falso
despertar”. Certa noite acordou e percebeu que seu quarto estava às escuras, no entanto,
um clarão esverdeado parecia “filtrar” a atmosfera, vindo de um pequeno armário, ao
lado da cama. Só então despertou “realmente” e compreendeu que apenas sonhara que
estava acordado. Mais tarde é que soube que no falso despertar basta apenas tentar se
mover para se projetar efetivamente.
Fox também tentou fazer alguns experimentos com outras pessoas. Tinha dois
amigos no colégio que compartilhavam de seu interesse por teosofia e astrologia, e os
três decidiram que tentariam se encontrar na Câmara dos Comuns durante um sonho.
Dois deles fizeram a experiência e sonharam que se encontravam e que o terceiro amigo
não estava presente. Parece que o teste foi bem-sucedido, mas é impossível verificar se
houve alguma suposta razão para que o terceiro não conseguisse realizá-lo.
Noutra ocasião, um desses amigos resolveu visitar Fox uma noite. Fox acordou e viu
o amigo aparecer numa nuvem ovalada, de cor branca-azulada, por fora, e com reflexos
de outras cores, no lado de dentro. Ao que parece, isso também foi um sucesso, com a
ressalva, apenas, de que o amigo não se lembrou de ter tido uma experiência
semelhante. Fox concluiu que vira uma “forma mental”, projetada pelo amigo. Quer
seja ou não uma explicação satisfatória, o fato é que este tipo de experiência se repetiu
muitas outras vezes. Sabe-se, por exemplo, que, muito tempo depois, Fox viu ou falou
muitas vezes com a própria esposa em suas projeções, embora na manhã seguinte ela
não se recordasse absolutamente do encontro.
Houve, no entanto, um acontecimento diferente. Uma das namoradas de Fox, Elsie,
reprovava seus experimentos e ficou com mais raiva ainda quando ele insinuou que ela
“não passava de uma ignorantezinha, de mentalidade estreita”. Ela decidiu, portanto, se
pôr à prova, visitando-o uma noite. Fox não levou nem um pouco a sério a ameaça da
moça, mas o certo é que aquela noite ele viu uma grande nuvem ovalada, no meio da
qual Elsie apareceu com o cabelo desarrumado e vestindo uma camisola de dormir.
Notou que ela passou os dedos pela borda da escrivaninha do quarto mas, quando a
chamou pelo nome, a moça desapareceu. No dia seguinte, ela foi capaz de contar a
disposição dos móveis do

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quarto de Fox e até deu detalhes de objetos que havia nele, sem nunca ter estado lá
antes. Chegou mesmo a descrever um filete dourado nos cantos da escrivaninha, detalhe
que nem o próprio Fox imaginara existir. Esse incidente foi importante para Fox, pois
sentiu que era uma das poucas ocorrências que indicavam algo que não fosse
completamente subjetivo em suas peripécias fora do corpo.
Todavia, a maior parte de suas descobertas era puramente subjetiva, e Fox tinha
consciência de que, por esse motivo, eram rejeitadas pelos críticos. Questionarei mais
adiante a importância dessa distinção. Creio que a totalidade das descobertas sobre
EFCs feitas por Fox e outros seja puramente subjetiva, no sentido de que elas são
particulares, envolvendo exclusivamente uma experiência pessoal; mas, a meu ver, isso
não diminui o seu interesse. Fox, porém, tinha plena consciência do fato de que estava
tentando convencer um público renitente sobre a realidade da projeção astral. Por isso,
qualquer prova de que a experiência podia ser compartilhada ou qualquer informação
que esclarecesse a questão era decisiva para ele.
Muitos anos depois, Fox iria fazer outra descoberta importante. Ele havia admitido
que um sonho de conhecimento era essencial para a projeção, e que o estado de transe
seguia-se à projeção; mas um dia, quando estava deitado num sofá, à tarde, descobriu
que podia ver com os olhos fechados. Entrou em estado de transe, embora não tivesse
chegado a adormecer. Deixou seu corpo e se viu numa bonita região rural e, depois,
passou rapidamente por um cavalo e um furgão em movimento, na volta. Depois disso,
Fox percebeu que podia se projetar mesmo em estado de vigília, continuando, daí por
diante, a fazer a experiência sempre que tinha oportunidade de ficar deitado, sozinho e
em paz. Desta forma, ele aprendeu a utilizar o método de projeção, a que chamou de
“passagem pineal” (44a).
Um aspecto interessante, mencionado por Fox, é que ele nunca conseguia ver seu
corpo físico quando se projetava. É um fato estranho, pois o aspecto mais comum de
EFCs espontâneas é que a pessoa vê o próprio corpo como se estivesse de fora. Mas Fox
tinha uma explicação lógica para isso: argumentava que. se estava tendo uma visão do
mundo astral durante a projeção, então era natural que visse os equivalentes astrais dos
objetos físicos, e não seus aspectos físicos ou etéricos. Uma vez que seu próprio corpo
astral era projetado, não esperava vê-lo sem usar algum poder especial. Afinal de
contas, ele estava viajando em seu corpo astral.
Levando em conta este fato, parece estranho que outros escritores não tenham usado
o mesmo argumento. Posso dizer com segurança que

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não encontrei outros viajantes que não fossem capazes de ver seus próprios corpos
físicos. Haverá, então, algo errado com a tradicional teoria da projeção astral? Ou será
possível que se consiga ver ambos, o astral e o físico, ao mesmo tempo? Penso que não,
pois muitas vezes as coisas parecem ligeiramente diferentes, ou até completamente
diferentes, quando vistas “fora do corpo”, e a causa deve ser porque o que se vê é o
astral, não o físico. Não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. A mim me
parece que este argumento apresenta um problema interessante para os defensores da
teoria tradicional.
Certa vez Fox decidiu experimentar os efeitos do clorofórmio, mas esse teste
demonstrou ser desagradável. Fox teve a sensação de estar sendo projetado até as
estrelas e que um fio prateado brilhante ligava seu “eu celestial” ao corpo. Manteve essa
consciência dual do começo ao fim da experiência, quando verbalizava, as palavras
pareciam deslizar pelo fio abaixo e eram expressas pelo seu corpo; mas, de acordo com
seus companheiros, tudo o que ele disse não passou de um mero discurso. Fox não
tentou esse método de novo. A alusão ao fio, no entanto, foi uma das raras vezes em que
Fox mencionou algo que pudesse ser comparado ao cordão prateado tradicional. Em
outra ocasião, estava ele andando, no seu corpo projetado, por uma rua movimentada
quando começou a sentir um peso nos pés e o corpo ser puxado “como se um cordão
resistente e elástico, ligando meus dois corpos, tivesse surgido de repente e me
arrastasse”. Em muitas outras projeções, Fox pôde sentir também algo parecido com um
cordão, mas jamais o viu.
De 1913 e 1915, Fox realizou mais projeções. Os locais que visitou eram muito
variados, desde ruas comuns e familiares até campos de extraordinária beleza, ou
construções diferentes de tudo que já se fez na Terra. Algumas vezes, as condições
assemelhavam-se materialmente às que existiam na época; em outras, ele se deparava
gozando um dia de sol quente no meio da noite, ou com céus azuis e claros embora, na
realidade, estivesse chovendo lá fora. Concluiu que essas viagens aconteciam no plano
astral, enquanto outras se passavam em algum lugar terrestre. Previu as críticas que
viriam, com o seguinte comentário: “As pessoas que não conseguem sequer esquecer ou
perdoar o vício de fumar de algum pobre mortal ficarão muito irritadas comigo quando
eu disser que existem bondes elétricos no plano astral; mas a verdade é que eles
existem, a não ser que não haja plano astral algum e os bondes circulem apenas na
minha cabeça” (44c, p. 90).
Esse problema é muito familiar. Um grande número de mensageiros espirituais tem
tentado explicar por que é que existem campos de flores,

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casas e até mesmo coletores de impostos na vida após a morte ou “shangrilá”. A coisa é
sempre embaraçosa. Mas se o astral é composto de formas mentais, é natural que deva
haver bondes nele. A questão que se levanta aí é saber se as formas mentais são
objetivas — entidades compartilháveis, como alguns alegam ser — ou coisas
completamente pessoais. Mas vou deixar esta difícil questão para depois.
Freqüentemente acontecia de uma excursão ser interrompida, pois algo prendia a
atenção de Fox, que acabava por se envolver demais com o objeto. Uma vez ele ficou
parado atrás de uma moça bonita, observando-a pentear os cabelos castanho-
avermelhados. Quando se inclinava para tocar no ombro dela, a moça se assustou e Fox
voltou, mais que depressa, para o seu corpo. Numa outra vez, ele entrou em transe e
chegou a uma estrada na roça, por onde andou até encontrar um cavalo que pastava na
beira da estrada: “Eu o alisei e senti realmente sua quentura e seu pêlo um pouco áspero,
mas ele não demonstrou ter percebido minha presença. Foi um erro, porém: distraí
minha atenção do que estava fazendo, e meu corpo me chamou de volta.”
Fox observa, ainda, que existem maneiras diferentes de se mover no astral. Descreve
a dificuldade de mexer os braços ou as mãos, o que parece ser necessário num sonho de
conhecimento, comparando-a com os movimentos causados exclusivamente pela
vontade e possíveis na “escalada” ou “ascensão pelos planos”: os movimentos
desajeitados no sonho poderiam, de fato, ser desnecessários, sugere Fox, mas um
recurso útil para a concentração. Acho que este ponto é importante. Encontraremos
muitas peculiaridades sobre os procedimentos de viagem, métodos de movimento e
maneiras de induzir experiências, entre os diversos especialistas no assunto, mas
aprendi uma lição importante na minha limitada experiência. A de que é fácil ficar preso
a um hábito mental e usar artifícios familiares, tais como um corpo, um cordão ou
mundo luminosos, para fazer com que as coisas tenham uma aparência mais razoável.
Acho que assim como Fox aprendeu que seus movimentos eram inúteis, assim também
muitos outros não aprenderam que boa parte dos detalhes encontrados em suas viagens
são inúteis.
Fox dá, a seguir, instruções ao principiante sobre a melhor maneira de projetar-se
sozinho, mas vou deixar suas sugestões para o Capítulo 9. Fox escreveu seus primeiros
artigos falando de suas experiências no início dos anos 20 (44a, b), apenas alguns anos
antes de Sylvan Muldoon começar a escrever.

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SYLVAN MULDOON

Até meados de 1920, Hereward Carrington escrevera muitos livros sobre a pesquisa
mediúnica (17a-d) e mais de uma vez se referira ao fenômeno da projeção astral, porém,
ele fez basicamente um resumo de obras alheias e forneceu poucas informações que
tivessem interesse para alguém que passara por uma EFC espontânea. Então, em
novembro de 1927, ele recebeu uma carta de um jovem americano chamado Sylvan
Muldoon, dizendo-lhe com toda a franqueza o que pensava do seu livro. Muldoon
escreveu: “O que mais me perturba é que o senhor faz o comentário de que o Dr.
Lancelin contou praticamente tudo o que se conhece sobre o assunto. Ora, Sr.
Carrington, eu nunca li nada de Lancelin, mas se o senhor citou o ponto principal da
obra dele em seu próprio livro, nesse caso eu posso escrever um livro sobre as coisas
que Lancelin não conhecei” E Muldoon foi mais além, dando uma profusão de detalhes
sobre o mundo astral, o fio prateado e a formação e movimento de fantasmas. Com
muita naturalidade, ele acabou despertando a curiosidade de Carrington, que entrou em
contato com ele. Juntos, eles escreveram dois livros. O primeiro foi The Projection of
the Astral Body [A projeção do corpo astral] (97a) e era, em essência, um relato das
próprias experiências de Muldoon. O segundo, The Phenomena of Astral Projection [Os
fenômenos da projeção astral] (97b), continha uma série de casos que serão comentados
no Capitulo 5.
A primeira projeção consciente ocorreu quando Muldoon tinha 12 anos de idade. Ele
acordou no meio da noite sem saber onde estava e incapaz de se mexer, embora
consciente do que se passava; mais tarde, chamaria esse estado de catalepsia astral. Aos
poucos a sensação de flutuar foi tomando conta dele, seguida de uma rápida vibração no
corpo e uma enorme pressão atrás da cabeça. Saindo desse pesadelo de sensações, o
garoto começou, gradualmente, a recuperar a audição e, logo em seguida, sua visão
melhorou, o que lhe permitiu perceber que estava flutuando dentro do quarto e acima da
cama. Uma força estranha apossara-se dele e o colocara na posição vertical. Viu seu
duplo deitado na cama, dormindo tranqüilamente, e notou que entre os dois corpos se
estendia uma corda elástica, ligando a parte de trás da cabeça do ser consciente a um
ponto entre os olhos do corpo que estava na cama, numa distância de quase dois metros.
Debatendo-se e fazendo força no sentido contrário ao do cordão, Muldoon tentou se
arrastar até outro quarto a fim de acordar alguém, mas verificou que passava direto pela
porta e também pelos corpos das outras

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pessoas que dormiam, enquanto se esforçava para sacudi-las ou agarrar-se a elas.
Apavorado, ficou perambulando pela casa durante talvez uns quinze minutos, até que a
pressão na corda começou a aumentar puxando-o de volta para o seu corpo. Tudo
aconteceu ao inverso: ele voltou à posição horizontal, entrou novamente no estado de
catalepsia, sentiu as mesmas vibrações e, por último, com uma convulsão, retornou ao
corpo. Estava acordado e vivo de novo.
Muldoon fez centenas de outras projeções, mas nunca mais se manteve
completamente consciente, do começo ao fim da experiência, como da primeira vez.
Esta tem um interesse todo especial porque continha muitos dos aspectos que formariam
uma parte de seus textos posteriores. O primeiro é a catalepsia astral. No começo de
uma projeção, o estado cataléptico perdura até que o fantasma assuma uma posição
vertical; depois disso ele fica livre para se movimentar novamente. A aparência e a
capacidade do cordão ou fio variam muito, segundo Muldoon. Quando o corpo astral
está próximo do físico, o cordão é quase do diâmetro de uma moeda de cinco xelins,
embora sua aura circundante faça-o parecer maior. Quando possui uma espessura como
esta, o cordão exerce uma forte “atração magnética”, criando aquilo que Muldoon
denomina de “raio de ação do cordão”. Nas suas experiências de projeção, ele descobriu
que este círculo de atividade varia de cerca de 1,80 a 2,50 metros, dependendo do vigor
físico. Quando o corpo físico é saudável, o cordão exerce sua capacidade máxima e
alcança uma área de influência maior. De fato, em muitos casos o excesso de vitalidade
impede a projeção. Quando o corpo está enfraquecido, a atividade do cordão também se
enfraquece, a projeção é mais fácil e essa atividade tem uma influência menor. Eis por
que a doença ou a debilidade física, assim como o jejum, contribui para a projeção,
levando até a projeção final — a morte. Portanto, é significativo que tanto Fox como
Muldoon estivessem quase sempre doentes. Quando o corpo astral consegue se livrar do
físico e escapar dos limites de atividade do cordão, fica livre para ir aonde queira,
tomando-se o cordão o mais fino possível, quase da espessura de uma linha de costura.
(O esquema de Muldoon é mostrado nas Ilustrações 3-7.)
Uma vez fora do corpo físico, acredita-se que o astral tenha três velocidades
diferentes. Na mais lenta, simplesmente anda ou se move como faria um corpo físico.
Na velocidade intermediária, a pessoa em projeção sente-se imóvel e tudo anda de trás
para frente. Raios de luz desprendidos do corpo astral deixam um rasto. Finalmente, na
velocidade supernormal o fantasma pode cobrir grandes distâncias sem perceber, muito
mais rápido

47
do que a mente é capaz de imaginar. Poder-se-ia pensar que, ao percorrer tais distâncias,
o corpo astral acabaria se perdendo, mas Muldoon nega categoricamente esta hipótese.
Enquanto o cordão estiver intato, sempre poderá trazer a pessoa em projeção de volta.
Muldoon argumenta que a projeção, pelo menos a projeção parcial, é mais comum do
que pensa a maioria de nós. Quando levamos um choque ou sofremos uma pancada no
corpo físico, há possibilidade de que o astral se afaste temporariamente; já sob o efeito
de anestesia, ele se projeta, se bem que geralmente não temos lembrança da viagem.
Muldoon chega a sugerir que o corpo físico sofre uma parada brusca, quando, por
exemplo, freiamos um carro, o astral pode continuar em movimento por um momento,
fazendo com que a pessoa sinta os sintomas de doença. Todos os tipos de sensações
estranhas, desmaios, estados de excitação e contrações antes do sono, são atribuídas à
separação parcial do duplo. A mais importante, todavia, é a projeção durante o sono. No
sono normal, afirma Muldoon, o corpo astral se separa ligeiramente para ser
reabastecido de “energia cósmica”. A maioria das pessoas nem faz idéia disso e
permanece completamente inconsciente; porém, quando sonhamos que estamos caindo,
voando, e em outros tipos peculiares de sonhos, podemos vivenciar apenas uma parte
das excursões noturnas do corpo astral.
Em seus experimentos, Muldoon descobriu muitas outras características. A exemplo
de Fox, concluiu que o envolvimento emocional com alguma coisa interromperia a
projeção. Contatou também que o desejo sexual constituía um fator negativo, e que, em
compensação, certos tipos de tensão poderiam ajudar a induzir uma projeção. Quando o
corpo se acha imobilizado no sono, por exemplo, se houver um desejo intenso por
alguma coisa, o astral provavelmente tentará sair para consegui-la. Da mesma forma, a
ruptura de um hábito muito arraigado pode levar à projeção. Muldoon relacionava este
fato a lugares mal-assombrados nos quais, afirma, o fantasma pode continuar a cumprir
atividades rotineiras.
Entre os experimentos mais interessantes de Muldoon, estão aqueles em que tenta,
através de seu corpo astral, afetar objetos materiais. Não é uma tarefa fácil. A razão,
explica ele, é que o corpo astral tem um altíssimo grau de vibração quando está muito
distante do físico e, quanto maior o grau de vibração, menos pode interagir com objetos
de baixo grau de vibração. Muldoon alega que assim deve ser, pois se o corpo astral não
estivesse no estado mais elevado de vibração, jamais poderia passar através de objetos
materiais, e se estivesse no seu grau mais alto, nesse caso, então, outras entidades astrais
não seriam capazes de passar através dele em suas

48
viagens, como evidentemente o fazem. A conclusão que se extrai daí é que o corpo
astral vai aumentando suas vibrações à medida em que se afasta do físico e, por
conseguinte, se torna menos capaz de afastar objetos materiais.
Além do mais, Muldoon argumenta que a mente consciente não pode mover objetos
no plano astral, mas somente a mente subconsciente ou criptoconsciente. Certa ocasião,
quando estava muito doente, tentou chamar sua mãe aos berros, mas não conseguiu
acordá-la. Saindo da cama, arrastou-se pelo chão, mas acabou desmaiando; apenas seu
corpo astral subiu as escadas. Sua consciência, então, se apagou; mas depois ficou
sabendo que encontrara a mãe e o irmão menor discutindo exaltadamente a respeito do
fato de que o colchão onde dormiam fora sacudido violentamente e quase tinham sido
lançados fora da cama. Embora se possa sugerir outras explicações, Muldoon atribui o
efeito à vontade criptoconsciente. Em outra ocasião, ele fez com que outras pessoas
ouvissem pancadas na porta, enquanto ele estava sonhando que era ele quem batia à
porta; mas em muitas ocasiões ele não teve êxito em tocar ou mover objetos físicos
quando se projetava.
Um dos fatos que Muldoon destaca é a importância do pensamento no astral. O
pensamento favorece o corpo astral, pois quando ele anda num pavimento superior, não
é o soalho que o mantém no alto (ele poderia facilmente passar através dele); são os
seus hábitos de pensamento. De fato, o pensamento é tudo no mundo astral. Muldoon
imaginava que os críticos ficariam preocupados com as roupas do fantasma. Ora, por
que deveria o corpo astral usar temos, pijamas e vestidos comuns aos humanos, como
tantos relataram? A resposta, explicava ele, é que “o pensamento cria no astral, e uma
pessoa aparece para os outros tal como è mentalmente. Na realidade, todo o mundo
astral é governado pelo pensamento” (97a, p. 46).
Um grande número de leitores achará difícil entender as descrições de Muldoon. Ele
não faz simples relatos descritivos como Fox fazia. Em vez disso, cada relato está
embebido da teoria que desenvolveu com tanto esforço. Algumas de suas descobertas,
como o poder do pensamento no mundo astral e os métodos de locomoção, são
conhecidos de outros relatos; porém sua descrição minuciosa do fio com seu raio de
ação é bastante peculiar dele, assim como seu método e postura de projeção.
Muldoon faz constantes apelos ao leitor para que tente por si mesmo, o que
provavelmente é o único meio de aprender muitas coisas sobre projeção astral. Mas
estou certa de que a maioria das pessoas que fazem

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essa tentativa, achará que poucos detalhes apenas, elaborados por Muldoon, adaptam-se
às suas próprias experiências. Acima de tudo, estamos começando a perceber
exatamente quão variáveis as EFCs podem ser. Talvez a descoberta mais importante até
agora seja a de que “o pensamento se cria no astral”. Assim como os pensamentos de
uma pessoa diferem dos de uma outra, também é lícito esperar que sua EFC seja
diferente. No capítulo seguinte vamos aprender que as experiências descritas por três
viajantes habituais são diferentes entre si.

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5 OUTROS EXPLORADORES

YRAM

Yram (159) é o pseudônimo de um ocultista francês que, como Fox e Muldoon,


aprendeu a se projetar espontaneamente. Ao contrário dos outros, ele “... ficou farto de
fenômenos corriqueiros. Passar através de paredes de pedra, visitar amigos, vagar
livremente pelo espaço apenas pelo prazer de desfrutar este estado extraordinário, são
passatempos que acabam cansando.” Muitas descrições suas tratam de experiências em
“planos superiores”, nos quais ele se encontrava com outros seres ou forças poderosas.
Essas experiências estão expressas em termos de seus conhecimentos de física: níveis
envolvendo substâncias radioativas, átomos ultra-sensíveis e graus distintos de vibração.
Yram sugere que são necessários três fatores para a projeção astral: saúde perfeita (o
oposto do que Muldoon sugeria), preparação psicológica, envolvendo uma vida
tranqüila e a capacidade de relaxamento, e preparação mediúnica. Ele distingue três
tipos de projeção. No primeiro, ela acontece por meio de sensibilização. Neste
exercício, o praticante deve imaginar estar atravessando uma janela, porta ou algum tipo
de espaço. Yram descreve algumas sensações desagradáveis, decorrentes do uso deste
método: o experimentador pode sentir um tapa no rosto, projetar-se em forma de espiral
e ser derrubado. Mas, uma vez que escape do espaço fechado, afirma Yram, a pessoa
está livre e projetada. Esse “espaço fechado” pode ser semelhante aos túneis que
aparecem às vezes em EFCs espontâneas.

51
No segundo tipo, a projeção instantânea, a separação é brusca e incontrolável. Yram
conta que certa vez ele teve a sensação de que um alçapão repentinamente se abrira
debaixo dos seus pés e ele estivesse caindo. “Meu primeiro impulso foi
automaticamente fazer os mesmos movimentos que faria se o incidente tivesse
acontecido com meu corpo físico; estiquei os braços e as pernas na esperança de agarrar
alguma coisa e comecei a chorar.” O resultado foi que ele tomou consciência de que
estava em projeção.
Yram descreve o terceiro tipo de projeção, por redemoinho, como o “mais
agradável”. Não deixa de ser interessante, pois Muldoon e Carrington (97b) sugerem
que são as exteriorizações violentas, através de anestésicos, por exemplo, que provocam
a ascensão em espiral; mas é provável que a espiral e o redemoinho não sejam a mesma
experiência. De qualquer forma, Yram diz que foi removido de seu corpo, por um
redemoinho, e acompanhado por um dos muitos cães que via durante suas experiências.
Ele alegava que os cães seriam imagens enviadas pelos Protetores que assistem aos
experimentos mediúnicos, com a finalidade de transmitir confiança!
Uma vez projetada, a pessoa pode habitar muitos níveis diferentes. No nível mais
baixo, é incapaz de atravessar paredes ou outros objetos; para atingir um plano superior,
deve recorrer a algum método; o de imaginar novamente uma porta ou passagem, por
exemplo. Nos níveis mais altos, os objetos não oferecem qualquer tipo de resistência e a
iluminação é mais intensa também. Mesmo no escuro, uma suave fosforescência clareia
o mundo e é fácil saber onde se está. Nos diversos planos, também se habita corpos
diferentes. De acordo com Yram, os duplos de grau mais elevado, ou menos materiais,
são muito mais “radioativos” do que os que estão abaixo na escala, e os átomos que os
constituem são mais finos, menos densos e mais sensíveis (embora não sei a quê).
Em todos os níveis de projeção, a ligação entre o corpo físico e o duplo mais sutil é
feita através do conhecido fio prateado. Atribuem-lhe ilimitada capacidade de
alongamento, e Yram afirma ter visto milhares de finíssimos fios elásticos no ponto de
contato com o duplo. Assim como Muldoon, descobriu que, quanto mais próximo ele
estava do físico, maior era a força de tração do fio. O mesmo princípio, declara Yram,
se aplica à distância em termos de níveis de vibração; quanto mais alto o nível de
projeção, menor a sensação de se estar sendo puxado de volta para o corpo.
Quando estava em seu próprio quarto ou andando pelas ruas, Yram se movia tal
como fazia em seu estado físico normal; mas, quando se projetava no espaço, movia-se
apenas pelo poder do pensamento. No início,

52
era como se estivesse nadando de peito, depois aprendeu a andar de costas dando
impulsos com os pés, até chegar ao estágio em que flutuava na posição horizontal, como
fazem algumas pessoas em EFCs espontâneas. Segundo Yram, a posição é importante.
Em caso de perigo, deve-se adotar uma “posição defensiva” e nunca é aconselhável
viajar de cabeça para baixo.
Neste último método de projeção, Yram verificou que podia chegar a um lugar
desejado instantaneamente, e o resultado disso foi que sua consciência se tornou
extremamente clara. Retomou, da primeira viagem desse tipo, sob o efeito da
“influência das ondas radioativas, deste estado avançado, durante um dia inteiro”.
Acredita-se, porém, não se tratar de radioatividade, no sentido usual da palavra.
Esta excursão levara-o a visitar um amigo que residia num local distante e
desconhecido. Ao regressar, Yram escreveu um resumo de tudo o que vira na casa do
amigo e diz que, dois meses depois, recebeu “plena confirmação”. Em outras
oportunidades, também afirmou ter a capacidade de trazer, em suas viagens,
informações sobre lugares distantes. Após ter tido três ou quatro encontros pessoais com
uma moça, Yram conta que acabaram ficando separados um do outro por uma distância
de centenas de milhas, de modo que ele passou a visitá-la através de auto-projeção. Foi
nesse estado que ambos ficaram noivos, e Yram diz que sua noiva era capaz de
confirmar a exatidão de todos ós detalhes que comunicara a ela. Em outra ocasião,
parece que ele conseguiu dar detalhes exatos do quarto de um amigo; entretanto, este
último não se lembrava da visita.
Em muitos experimentos Yram tentou, como Fox e Muldoon tentaram, produzir
algum efeito sobre objetos materiais enquanto “fora de seu corpo”. Escolheu objetos
leves para serem deslocados, usou farinha para deixar impressões dos seus dedos astrais
e fez outros testes. Numa noite, colocou uma folha de papel em cima de uma cômoda.
Durante a exteriorização, aproximou-se dela, mas descobriu, consternado, que havia
agora não uma, mas duas folhas de papel. Sem desanimar, apanhou as folhas e deixou-
as em seu quarto, mas quando retomou para anotar tudo que havia acontecido, verificou
que a folha não tinha sido removida. Mais tarde fez nova tentativa, experimentou soprar
a folha, mas ela continuou firme, sem se mover.
Boa parte dos experimentos de Yram lidava com coisas muito distantes dessa tarefa
comum de deslocar uma simples folha de papel. Discute, com profusão de detalhes,
suas descobertas dos princípios das leis morais, de causa e efeito e outros princípios
gerais. Alguns destes são bastante aná-

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logos àqueles encontrados em muitos ramos do ocultismo. Uma vez, por exemplo, ele
estava sentado, conversando com amigos numa espécie de sala de visitas no plano
astral, que haviam criado para o seu próprio uso. Sem querer, Yram deixou escapar uma
“frase infeliz”. Imediatamente, ele despencou das alturas, voltando ao seu corpo físico.
Desse modo, aprendeu que pensamentos iguais se atraem e que pensamentos opostos se
repelem. Assim, para atingir os planos mais altos, deve-se ter pensamentos condizentes
com tais planos. Esta idéia faz parte de um princípio importante na magia e no
ocultismo: “Os semelhantes se atraem.” Os métodos com que Yram aborda situações
difíceis ou poderes malignos também são muito parecidos com muitos daqueles
encontrados na preparação ocultista (ver, por exemplo, o item 24 da Bibliografia). Ele
descreve vários tipos de formas mentais e entidades inferiores que se poderia encontrar
e explica como lidava com elas. Yram afirma que a melhor proteção está, sobretudo, na
pureza moral e que o pensamento é o instrumento pelo qual podemos viajar pelos
mundos evoluídos.
Deve-se encarar com bastante reserva os conceitos de física formulados por Yram.
Suas descrições sobre eletricidade e teoria da relatividade deixam claro que não utiliza
termos como “radiatividade”, “moléculas” ou “vibração” da maneira como um físico os
empregaria, e não posso deixar de pôr em dúvida a origem da sala de visitas e dos cães
protetores. Todavia, se considerarmos suas teorias como uma descrição da natureza do
mundo mental como ele próprio o via, é claro que elas contêm muito interesse. Grande
parte de suas descobertas assemelha-se àquelas feitas por ocultistas e outros viajantes
astrais. Suas três maneiras de viajar são semelhantes às de Muldoon, se bem que seus
métodos de projeção sejam diferentes. A descrição que Yram faz do fio prateado se
parece com muitas descrições anteriores, e sua insistência no fato de que é difícil se
lembrar das experiências, se não forem registradas imediatamente, também já é
conhecida. Pouco a pouco vamos tendo uma visão do que é permanente e do que é
efêmero nestas diferentes sondagens de autoprojeção.

J. H. M. WHITEMAN

Para Yram, as experiências fora do corpo são apenas parte de uma experiência mais
ampla. O mesmo é verdade para Whiteman, professor de matemática na Universidade
da Cidade do Cabo, na África do Sul. Em seu livro The Mystical Life [A vida mística]
(156b), ele descreve a visão que teve de Deus como uma luz arquetípica, sua prática de
constante medita-

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ção, sua descoberta da “Origem” e da Autoridade máxima, e faz outras revelações que o
levaram, após mais de vinte anos, a um “estágio avançado de Transformação”. É dentro
do contexto dessa evolução mística que Whiteman descreve suas experiências fora do
corpo.
Em certo sentido, a totalidade das experiências místicas ocorre “fora do corpo” – ou
seja, num mundo não-físico e por meio de sentidos não-físicos –, mas Whiteman
distingue muitos tipos diferentes de “separação”, que variam quanto ao nível de
consciência, presença de racionalidade e quanto ao grau de sensibilidade e atividade do
corpo físico. As experiências que ele chama de “separação total” são as mais
importantes aqui. E ocorrem quando “o corpo físico e seus órgãos dos sentidos parecem
adormecidos ou em transe, enquanto o próprio indivíduo está consciente apenas de
outro espaço e corpo, ou consciente simultaneamente de espaços diferentes do físico”
(156a, p. 240). Experiências correlatas incluem sonhos, “separações criadas pela
imaginação” e “semi-separação”. É fator decisivo para a separação total estar a
consciência do sujeito localizada inteiramente à parte do físico, ao mesmo tempo em
que se mantém a capacidade de reflexão racional.
Whiteman também faz distinção entre os estados psicológicos, mediúnicos e
místicos. O tipo de experiência depende do estado da pessoa que está se submetendo a
ela. Estados mediúnicos de separação parecem muito mais “reais” do que estados
físicos, quase como se se estivesse despertando pela primeira vez. A diferença entre
estados mediúnicos e místicos já é mais difícil de explicar, admite ele, mas de fácil
reconhecimento quando acontece.
A maior parte da obra de Whiteman diz respeito aos diversos processos envolvidos
na separação e no regresso. Em primeiro lugar aparecem as experiências em que a
separação é provocada por choque, drogas ou doença. Whiteman descreve uma
experiência que ocorreu quando ele tinha uns doze anos. Estava praticando em seu
laboratório quando se queimou com fósforos. Não sentiu dor, mas resolveu subir até o
quarto da mãe para que ela lhe fizesse um curativo na queimadura. Enquanto a
observava cuidar do machucado, teve a sensação de que o quarto mudava de aspecto, e
a atmosfera ficava candente como um sonho; os objetos pareciam mais distantes, e o
menino perdeu a audição e a visão, sucessivamente. Sentiu que seu corpo estava
desparecendo, desde os pés até a cabeça. Só quando todas as sensações acabaram, é que
percebeu que estava de pé e que ouvia o ruído de um objeto pesado caindo. Antes que
entendesse o que estava acontecendo, estava deitado no chão, envergonhado por ter
desmaiado.

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O segundo tipo de separação começa a partir de um sonho. Era este o método mais
comum para Whiteman, assim como havia sido para Oliver Fox. Na primeira
experiência deste tipo, ele ficou lúcido durante um sonho; repentinamente, sentiu que
sua percepção se liberara e aguçara muito. Pensou: “Nunca estive acordado antes.” O
teor dessa experiência também se compara à de Fox. Em outra separação, Whiteman viu
uma construção espetacular, um templo ou palácio fulgurante, com vitrais coloridos e
pessoas subindo e descendo as escadarias. Concluiu que a visão era o resultado das
recordações comuns de muitos seres humanos, elaborado durante um longo período de
tempo. Aos poucos, Whiteman foi retornando ao mundo físico, sentindo o corpo e o
espírito revigorados.
Outras separações efetuaram-se através da passagem por uma espécie de abertura.
Em certas ocasiões Whiteman viu uma abertura circular e, dentro dela, uma cena nítida
num parque. Noutras, costumava ver claramente o próprio quarto de dormir “através das
pálpebras”, embora estivesse com os olhos fechados, e, em seguida, passar através de
uma abertura no teto ou na parede. Whiteman relaciona este método de passar através
de uma abertura ao fenômeno dos túneis.
Um quarto tipo de separação pode provir de um estado equilibrado de dissociação.
Neste tópico, Whiteman inclui as separações que ocorriam de maneira espontânea
quando ele se encontrava num estado de desligamento voluntário; e aquelas provocadas
pela sua própria vontade ou trazidas à tona pela Autoridade. Afirma que estas últimas
causavam uma experiência qualitativamente melhor. Numa delas deixou seu corpo
físico dormindo na cama e examinou seu quarto, que apresentava apenas uma
semelhança superficial com o quarto real. Evitou o espelho para não criar fantasias, e
aproximou-se da porta, constatando que não tinha maçaneta. Voltou-se, então, para as
janelas, tentando se livrar do ar abafado, de onde deslizou para a calada da noite. Mas
aí, a experiência terminou e ele retornou ao corpo porque, segundo achava, lhe faltara
um grau elevado de reflexão e de obediência durante toda a experiência.
Whiteman descreve ainda outras experiências nas quais tinha consciência de estar em
mais de um espaço, simultaneamente. Embora não o diga, este estado é semelhante ao
estado de consciência dual já descrito. Em outras experiências, provavelmente
participava das recordações e da personalidade de outras pessoas, tendo consciência de
alguma situação, ao mesmo tempo desconhecida e familiar. Finalmente, neste último
tipo, ele realizava a separação por meio do reconhecimento das “Águas”. Com isso ele
queria dizer que há um estágio de transição no qual tudo parece

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informe e fluido. Muitas vezes este estado incidia num sonho de voar ou flutuar.
Whiteman descreve ainda uma gama de experiências com diferentes processos de
retomo. Em algumas, os dois corpos tomam-se gradualmente idênticos. Whiteman cita
como exemplo uma experiência na qual estava num parque ou floresta quando sentiu o
chamado do mundo físico. O espaço interior começou a se dissolver e, em seu lugar, se
formou um mundo paralelo, semelhante mas não idêntico ao físico, de onde o outro
corpo foi rebaixado ao nível físico, acabando a consciência por voltar ao corpo.
Um tipo alternativo de retorno implicava consciência dual de um mundo interior e de
um mundo físico, um sendo gradativamente suplantado pelo outro. Uma série de outros
autores descreve estes dois métodos de retorno ao físico. Whiteman menciona, além
disso, dois tipos de falso despertar. No primeiro, quando achava que tinha voltado de
uma projeção e se reincorporava ao físico, descobria, surpreso, que ainda estava
separado. No segundo tipo, quando parecia se recompor de um estado de dissociação,
verificava se encontrar num quarto estranho. Algumas das experiências de Whiteman
cessavam porque acabavam se transformando em outros tipos de experiência, tais como
um sonho ou um semidesligamento. Outras terminavam de maneira simbólica, com o
seu aparente retorno através de uma imersão na terra ou na água; e num tipo ulterior ele
acabava sendo absorvido por alguma outra entidade.
Whiteman descreve também as diversas formas assumidas nas experiências de
separação. Por exemplo, na separação mediúnica o outro corpo é parecido com o corpo
físico, mas nos estados místicos se manifestam formas desenvolvidas, cada vez mais
harmoniosas. Do mesmo modo, os mundos percebidos e a luz que os üurnina variam à
medida que a experiência se torna mais mística. Whiteman não descreve muitos
elementos que preocupam tanto outros escritores, tais como o fio prateado, as diferentes
maneiras de viajar ou os lugares e objetos materiais aparentemente vistos. Nem fez a
experiência de tentar deslocar objetos físicos ou de viajar para locais desconhecidos a
fim de constatar se estavam corretos os detalhes lá vistos. Na verdade, argumenta
especificamente que a verossimilhança das experiências, em termos materiais, é muito
menos importante do que a sua “realidade”, em termos desse outro mundo no qual elas
têm lugar.
As semelhanças entre as descobertas de Whiteman e as de outros implicam que estão
sendo descritas as mesmas experiências. As separa-

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ções através de choque, a partir de um sonho ou através de aberturas simbólicas são
todas conhecidas, assim como a consciência dual e o retorno através de imersão gradual.
A clareza e a vivacidade da experiência é um traço comum, mas a grande diferença
reside no enfoque de Whiteman. Para ele, cada estado é visto como um reflexo da
natureza da alma ou um estágio da evolução mística. Talvez seja devido a minha própria
deficiência em termos de percepção mística, mas tenho dúvidas de que a vida mística é
realmente um prelúdio necessário para estas experiências.
Por outro lado, muitas EFCs espontâneas de pessoas não-treinadas apresentam
qualidades místicas. Em minha própria EFC, vivenciei um estado de unidade com o
mundo e um sentimento maravilhoso de alegria, energia e claridade, apesar de não ter
tido nenhum treinamento místico ou qualquer experiência prévia. Whiteman enfatiza a
necessidade de obediência, argumentando que foi a aplicação de esforço que levou
Yram a ter experiências desagradáveis, se bem que Yram também diga que suas
experiências lhe proporcionaram alegria e bem-estar. Whiteman descreve que suas
tentativas de indução através de esforço lhe causaram desgosto e vergonha, mas me
pergunto se essa vergonha provinha de uma afinidade sensível a um universo evoluído,
ou de seus próprios preconceitos a respeito de como devia se comportar. Não tenho
certeza, mas não posso deixar de expressar algumas dúvidas.
Talvez só consigamos responder a certas questões se vivenciarmos esses estados por
nós mesmos. Uma coisa, porém, fica mais clara: a certeza de que se vivenciarmos esses
estados, eles serão diferentes de qualquer um a respeito do qual já lemos. Não existem
duas pessoas que tenham descrito experiências iguais ou cujas experiências fora do
corpo tenham tido uma progressão idêntica.

ROBERT MONROE

Robert Monroe não foi nenhum místico ou mago, mas simplesmente um executivo
norte-americano que vivia em Virgínia, com a mulher e os filhos (93). Trabalhando no
campo das comunicações, ele aprendera a fazer experiências durante o sono. Numa
tarde de domingo, ele estava deitado, enquanto a família tinha ido à igreja, quando, de
repente, um feixe de luz apareceu ao norte do céu, a uns 30° da linha do horizonte. Seu
corpo começou a vibrar e ele se sentiu incapaz de se mexer, como se estivesse preso a
um torno. Estas sensações não duraram mais que um momento, cessando quando ele fez
um esforço para se mover, mas durante

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as seis semanas seguintes a coisa se repetiu nove vezes ao todo. Sempre sentia o mesmo
tremor, porém não conseguia ver qualquer movimento real, e a agitação cessava
invariavelmente quando ele se movimentava.
Muito preocupado, procurou o seu médico, que lhe disse, no entanto, que não havia
nenhum problema com a sua saúde. Monroe logo tomou a decisão de enfrentar sem
medo aquelas sensações, ao invés de lutar contra elas, e descobriu que conseguia manter
a calma e sair ileso. Aí então, certa noite em que havia se deitado para dormir, elas
recomeçaram, só que desta vez, por acaso, seu braço estava estendido para fora do leito,
e as pontas de seus dedos tocavam no tapete sobre o chão. Sem querer, começou a
mexer os dedos e percebeu que pareciam transpor o tapete e, depois, atravessavam o
soalho, até que Monroe sentiu o contato áspero com a superfície do teto no andar de
baixo, apalpando um pedaço triangular de madeira, um prego dobrado e alguma
serragem. Seu braço emergiu do teto e, em seguida, tocou em água. Só quando seus
dedos se molharam, é que teve consciência do que estava acontecendo. Puxou o braço
para trás e as vibrações começaram a desaparecer gradualmente.
Uma outra vez, Monroe estava pensando em fazer um vôo com planador quando as
vibrações retomaram e ele se deu conta de que esbarrara numa estranha parede falsa,
que tinha, porém, a impressão de conhecer. Com o impacto, compreendeu que batera
com força contra o teto e percebeu que lá estava “ele”, ali embaixo na cama, ao lado da
sua esposa. Achando que tinha morrido, entranhou-se novamente dentro do seu corpo e
abriu os olhos. No geral, foi uma experiência assustadora, mas, com o estímulo de um
amigo psicólogo para que tentasse fazê-la de novo, Monroe acabou criando coragem e
iniciou sua longa incursão por EFCs.
À medida que progredia, Monroe aprendeu a provocar espontaneamente a
experiência e a se deslocar quando estivesse fora do corpo. Em várias oportunidades,
afirmou, teve êxito em visitar amigos e descrever o que estavam fazendo, os lugares
onde se encontravam e até as roupas que usavam. Aprendeu a reconhecer três
“localidades” diferentes que visitou durante suas projeções. A primeira delas,
Localidade 1, corresponde mais ou menos ao mundo físico normal. Nela estão pessoas e
lugares que correspondem a pessoas e lugares do mundo material. É nesta localidade
que foram obtidas todas as informações verídicas. Numa ocasião, por exemplo, tentou
visitar um amigo, o Dr. Bradshaw, e sua esposa. Monroe sabia que Bradshaw estava
doente de cama e tencionava conhecer o quarto dele, que jamais vira antes. Conseguiu
sair de seu corpo e viajou sobrevoando árvores e escalando uma montanha. Esta
escalada parecia intransponível

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até que alguém ergueu-o pelos braços e ajudou-o na subida. Depois, Monroe avistou o
Dr. e a Sra. Bradshaw, mas ficou surpreso ao vê-los fora de casa. Flutuou em círculos,
em tomo deles, tentando inutilmente chamar-lhes a atenção, até que conseguiu fazer
com que o amigo lhe dirigisse algumas palavras. Mais tarde, naquela noite, ligou para
os Bradshaw e soube que o amigo achara que um pouco de ar fresco lhe faria bem, de
modo que resolveu pôr o pé fora de casa, quase naquela mesma hora, juntamente com a
esposa que saíra para ir ao correio. Deu também uma ótima descrição das suas roupas,
mas o fato mais importante foi que a experiência não era o que Monroe esperara. Sua
importância consistiu em provar a Monroe, quando não a qualquer outra pessoa, que o
que lhe estava acontecendo não era só alucinação.
Obviamente, nem tudo o que viu em suas viagens estava correto. Na verdade, neste
episódio em particular, o Dr. Bradshaw não dissera as palavras que Monroe o ouvira
dizer. Ademais, em outras ocasiões, deu detalhes errados, ainda que acertasse muitos
outros. A par de tantas outras EFCs, os detalhes vistos tendiam a ser uma mistura de
certo e errado; certo o bastante para mostrar que estava em jogo algo além do simples
acaso, e errado o bastante para assegurar que o sujeito de uma EFC não estava vendo,
desta vez, uma reprodução perfeita do mundo físico. Um ótimo exemplo deste tipo de
mistura é fornecido por Charles Tart, em seu prefácio ao livro de Monroe (146d). Após
concluir uma série de testes de laboratório com Monroe (descritos no Capítulo 18), Tart
se mudou para a Califórnia e resolveu fazer uma experiência informal. Telefonou para
Monroe numa tarde, dizendo-lhe que ele e sua mulher tentariam ajudá-lo a ter uma EFC
e vir à casa deles, que Monroe não conhecia, numa determinada hora daquela noite. Não
deram detalhes adicionais. Naquela noite, Tart escolheu, ao acaso, uma hora em que
achou que Monroe já estaria dormindo. Ficou comprovado que eram 11:00 horas da
noite, pelo horário da Califórnia, ou 2:00 horas da madrugada, no local onde Monroe
residia. Tart e sua esposa concentraram-se durante meia hora, sem atender o telefone
que tocou às 11:05. No dia seguinte, Tart ligou para Monroe e pediu-lhe sua versão
pessoal do que aconteceu.
Um detalhe coincidiu muito bem. Fora Monroe que telefonara às 11:05. Fizera uma
projeção, assistido por alguém que o pegara pela mão e o conduzira. Depois, vagara à
deriva dentro de um quarto e, ao retornar, ligara para Tart para lhe contar. A hora
combinada fora boa, mas, acrescenta Tart, “em compensação, sua descrição seguinte do
aspecto de nossa casa e do que eu e minha mulher estávamos fazendo foi péssima: ele
‘viu’ uma

60
porção de gente dentro do quarto, me ‘viu’ fazendo coisas que não fiz e sua descrição
do próprio quarto foi bastante vaga” (146d, p. 21).
Aí está um exemplo claro de algo que encontraremos com freqüência: a mistura
frustrante de informações certas e erradas. É sempre tentador achar que tudo deve estar
certo ou errado; que a pessoa deve ou estar “fora do corpo” e, portanto, ver as coisas
corretamente, ou não estar “fora” e ver as coisas de maneira errada. Também é tentador
pensar que se os detalhes estão corretos, isto “demonstra” que o sujeito estava “fora”. É
claro que pode haver, de fato, muitas outras razões para que a informação esteja correta,
sem que a pessoa estivesse “fora do corpo”. Entre elas, incluem-se o acaso, deduções
racionais e o conhecimento adquirido através dos meios normais ou paranormais.
Portanto, apresentar a informação certa não constitui prova de que a pessoa estava
“fora”. Por outro lado, há clara evidência até agora (e muitas mais serão exibidas neste
livro) de que as informações obtidas numa EFC raramente são todas corretas. Assim
ocorre com o tipo necessário de teoria para a EFC. É esta a espécie de evidência que
precisamos reunir antes de começarmos a tarefa de teorização.
A “área” seguinte de Monroe é a Localidade 2, um outro estágio afastado da
realidade comum. Aqui estão o céu e o inferno, e todas as espécies de entidades
estranhas. Monroe explica que na Localidade 2 “‘o pensamento é a fonte da
existência’... A gente é aquilo que pensa”. Sua explicação de que nesta fase o
movimento é efetuado pelo pensamento, não por qualquer esforço físico, começa a soar
familiar, tão familiar como esta máxima: “Os semelhantes se atraem”, que, segundo ele,
explica muita coisa sobre a natureza da viagem à Localidade 2. Diz Monroe que a
direção aí depende dos desejos mais recônditos da pessoa, e não de seus planos
conscientes.
A Localidade 2 é, supostamente, um mundo de idéias, completamente separado do
físico, contendo, porém, muitas características deste. As entidades que aí vivem e que já
passaram pelo mundo físico uma vez, recriam determinados aspectos do seu ambiente
familiar ou criam para si mesmas coisas de que gostavam antes. Além disso, pondera
Monroe, entidades superiores podem criar um ambiente mais familiar em benefício dos
“recém-chegados” a esse mundo após a morte. Ele descreve algumas áreas “mais
próximas” do mundo físico como sendo de difícil travessia, enquanto os lugares “mais
afastados” são melhores. Na sabedoria oculta tradicional, era costume referir-se a esses
lugares como planos astrais inferiores e superiores, respectivamente. Com um longo
treinamento, Monroe apren-

61
deu a como navegar por eles; durante a travessia combateu criaturas hostis, entregues de
bom ou mau grado a aventuras sexuais, e foi guiado pelos “Auxiliares”. Monroe
acredita que é a essa Localidade que provavelmente todas as pessoas vão durante o
sono.
Monroe descobriu a Localidade 3 numa certa ocasião em que deu uma guinada de
180° (não fisicamente, é claro), indo parar diante de um buraco num muro que parecia
interminável. Após rápida inspeção e sucessivas tentativas, conseguiu, afinal, passar
pelo buraco e descobriu, do outro lado, um mundo parecido com o mundo físico normal,
em muitos aspectos, mas com estranhas diferenças também. Havia árvores, casas,
pessoas e cidades, tudo, no entanto, ligeiramente diferente. Não existia eletricidade, mas
mesmo assim havia carros e máquinas, inteiramente diversos de qualquer aparelho
mecânico visto na Terra. Monroe constatou que as pessoas dali ignoravam sua presença,
até que se fundiu com um outro ser vivo daquele mundo. Esta permuta não pareceu ser
nada vantajosa para o outro “ser”, pois Monroe quebrou o seu ritmo normal de vida em
várias ocasiões importantes, apossando-se dele súbita e inadvertidamente, por assim
dizer.
Monroe dá uma descrição detalhada do “segundo corpo”. Ele tem peso, é visível sob
certas circunstâncias, produz uma sensação tátil muito semelhante ao contato físico, mas
é mais maleável, podendo assumir qualquer forma que se necessite. É possível, sugere
Monroe, que ele seja o reverso do corpo físico. E chega mesmo a relacionar este fato
com suas idéias de que o segundo corpo pode consistir de antimatéria, se bem que seja
obscuro o que ele pretenda dizer com isso. Quanto ao cordão, tentou senti-lo em
algumas de suas excursões, mas não foi parte importante de sua experiência. Por último,
Monroe sugere que o segundo corpo está, de algum modo importante, relacionado com
a eletricidade e o magnetismo. Em ensaios com uma gaiola de Faraday, ele verificou
que não conseguia passar através das paredes quando uma corrente elétrica circulava
por elas, mas só quando estava desligada (entretanto, não são fornecidos detalhes
suficientes para avaliar corretamente a explicação). Sugere ainda a existência de uma
“terceira força”, ao lado da eletricidade e do magnetismo, usada pelo segundo corpo e
fundamental para o pensamento.
O que podemos concluir das descrições de Monroe? Como sempre, é difícil separar o
que ele descobriu sobre locais provavelmente visitados por outros, do produto de suas
preocupações ou preconceitos pessoais. Algumas descrições suas soam familiares,
outras, contudo, parecem apenas excêntricas. Na Localidade 2, conta que todos se
deitavam de barriga para cima, na passagem de algum ser poderoso, e fala da existência

62
de veículos estranhos que não obedecem aos princípios do movimento na Terra. Serão
esses detalhes parte de um “outro mundo” objetivo ou todos serão frutos da mente de
Monroe?
Não há nenhuma resposta óbvia a esta questão. O que podemos fazer é apenas tomar
conhecimento de tudo que estes iniciados têm para dizer e tentar manter o espírito
arejado, até que tenhamos juntado mais peças deste complicado quebra-cabeça. Discuti,
até aqui, os depoimentos de apenas cinco praticantes habituais de EFCs. É claro que
existem muitos mais (ver, por exemplo, os itens 56, 80, 141 e 151 da Bibliografia).
Alguns nunca contaram suas histórias publicamente. Outros participaram de
experimentos recentes, de que falaremos adiante. Mas, por enquanto, vamos voltar às
experiências de gente mais simples, para as quais a EFC surge de forma espontânea,
sem seu controle. Ao longo dos anos tem havido um acúmulo de tais casos.

63
6 CASOS DE PROJEÇÃO ASTRAL

Uma das maneiras mais fáceis de saber qual o aspecto da EFC é agrupar um grande
número de registro de casos e compará-los. Desse modo, pode-se separar todo e
qualquer traço comum e observar as variações. É possível aprender muito a respeito das
condições em que ocorreram as experiências, a respeito de sua duração e de suas
características. Mas, antes de ir mais longe, devemos considerar as limitações desse
método.
Primeiro, há muitas questões importantes que não podem ser respondidas pela coleta
de casos. Visto que as pessoas voluntariamente comunicam suas experiências, a amostra
necessariamente acaba sendo tendenciosa: só as pessoas mais eloqüentes e que estão
dispostas a compartilhar suas experiências, é que estão representadas. Certos tipos de
pessoa estarão mais bem preparados para fazer uma narração dos fatos e certos tipos de
experiência são mais prontamente partilhados do que outros. Por causa desta
tendenciosidade na amostra, não é possível determinar, por exemplo, até que ponto a
experiência é comum a diferentes grupos, ou que circunstâncias a precipitam na maioria
das vezes. Para responder a estas questões, exige-se uma visão geral. Também é
impossível saber até que ponto a descrição é uma mera narração da experiência e até
onde sofreu modificação para convir a uma interpretação particular ou àquilo que o
escritor acha necessário. E a memória está longe da perfeição. Muitos relatos são feitos
muitos anos ou até décadas depois do evento e, então, é impossível determinar até que
ponto a história sofreu alteração na memória com a passagem do tempo. Todavia, são
exatamente esses os problemas que terão de ser enfrentados.

64
Segundo, muitos indivíduos que tiveram EFCs alegam ter visto aposentos onde
nunca haviam estado antes, ter descrito com exatidão pessoas com quem jamais haviam
travado relacionamento, ou ter deslocado objetos materiais durante suas experiências.
Estas alegações possuem grande interesse para a parapsicologia, mas não podem ser
testadas com a coleta de casos. Em certas EFCs, outros participantes envolvidos podem
ser entrevistados e os fatos verificados, mas tudo isto só adiciona um pouco mais de
certeza àquilo que é, em essência, um método indireto de avaliar um evento decorrido
há muito tempo. O único meio direto de testar essas alegações é por experimento, como
veremos.
Terceiro, há aspectos da EFC que só podem ser conhecidos se a própria pessoa fizer
a experiência. Nenhuma parcela de descrições alheias é suficiente para dar idéia da
sensação que ela proporciona de liberdade e de realidade, ou do efeito que causa. Muito
pelo contrário. Nenhum livro é suficiente para se atingir este objetivo, embora, no
Capítulo 10, eu descreva com minúcias alguns dos muitos métodos utilizados para
induzir uma EFC, que o leitor intrépido pode tentar por si mesmo.
Essas limitações, no entanto, não diminuem, a meu ver, o mérito da coleta de casos,
que é, em certos aspectos, o alicerce da pesquisa sobre EFCs. Se não fossem os
freqüentes e constantes registros de ocorrência de EFCs espontâneas, provavelmente os
outros tipos de pesquisa nunca teriam começado. São esses relatos que nos informam o
que supostamente estamos investigando.
Tem havido coleta de informes de EFCs desde o início da pesquisa de fenômenos
mediúnicos, apesar de não terem sido, originalmente, discriminados como uma
categoria. Logo após a fundação da SPP, Gurney, Myers e Podmore, membros
fundadores da Sociedade (55), começaram a reunir um conjunto de casos de aparições
espontâneas e de telepatia, publicado em 1886 com o título de Phantasms of the Living
[Espectros da vida]. Do total de 350 casos, há alguns em que a imagem de uma pessoa é
vista por outras como uma alucinação ou uma visão onírica, ou tomada por engano
como se fosse a pessoa real. Vêem-se surgir aparições antes da pessoa física, às vezes
usando as próprias roupas dela, carregando seus próprios objetos ou, então, exibindo
todos os detalhes da pessoa viva, desconhecida daquela que teve a visão. Este tipo de
casos seria relevante aqui se o “agente” – a pessoa que foi vista naquela ocasião –
mostrasse indícios de estar “fora do corpo”, o que, porém, raramente acontecia. A maior
parte dos fantasmas foi vista quando os “agentes” não sabiam que havia algo refratário
ao seu controle e estavam entregues às suas atividades

65
cotidianas. Alguns ocorriam quando elas estavam dormindo – por vezes, sonhando com
a pessoa que as viu. Já em outros casos, o “agente”, ao que consta, estava, naquele
instante, pensando na pessoa que viu seu fantasma, mas este tampouco é um caso de
EFC, de acordo com a nossa definição neste livro. Entre os casos de maior interesse,
citam-se aqueles em que o “agente” estava na hora da morte e que serão assunto do
Capítulo 13.
Frederic Myers também coligiu casos semelhantes. Sua importante obra, Human
Personality and its Survival of Bodily Death [A personalidade humana e sua
sobreviência à morte física] (99b), foi publicada em 1903. Nessa densa obra-prima em
dois volumes, Myers trata pormenorizadamente dos efeitos do hipnotismo, dos aspectos
de alucinações e aparições e de uma vasta série de fenômenos psicológicos e espíritas,
além da mediunidade e do transe, da telepatia e da clarividência. Essa obra engloba
casos semelhantes aos descritos em Phantasms, incluindo-se aqueles em que se captava
a visão de alguém à beira da morte. Myers introduz, além disso, exemplos do que
denomina “autoprojeção” sob hipnose.
Durante, um longo período, não houve compilação de casos específicos de EFCs.
Apesar de ter havido relatos de algumas EFCs, mostrava-se uma tendência favorável às
experiências com indícios de natureza paranormal, tais como telepatia ou clarividência.
Só mais recentemente é que se tem demonstrado interesse suficiente- pela EFC em si
mesma, para motivar a reunião de casos.
A primeira grande compilação foi feita por Muldoon e Carrington e publicada em
1951 (97b). As próprias experiências de Muldoon já haviam sido publicadas,
juntamente com vários outros casos, com o propósito de ilustrar sua discussão sobre
projeção astral. Em seguida, e em colaboração com Hereward Carrington, ele compilou
uma porção de relatos de EFCs, a partir das publicações impressas e da correspondência
recebida em resposta ao seu primeiro livro. Quase uma centena deles foram
classificados e distribuídos em categorias que abrangiam os casos provocados por
drogas ou anestésicos, os casos ocorridos por acidente, morte ou doença e os casos
desencadeados por desejos reprimidos. Por último, eles apresentavam casos que
envolviam o aparecimento de espíritos, outros que se manifestaram durante o sono ou
sem qualquer causa aparente, e aqueles induzidos experimentalmente ou por hipnose.
Classificando os casos nestes vários itens, Muldoon e Carrington puderam compará-los
e interpretá-los à luz de seus conceitos da projeção astral, mas não foram além desta
análise um tanto simplista.

66
Se centenas de pessoas informam que saíram de seus corpos e vagaram por aí
utilizando um segundo corpo, e se as descrições destas viagens são extremamente
coerentes, não há aí uma indicação segura de que temos um outro corpo? É este o tipo
de argumento que Muldoon e Carrington usavam, acrescentando a ele a evidência de
que, em suas excursões astrais, as pessoas podiam recolher informações de lugares
distantes. Tudo isto implicava, do ponto de vista deles, que temos realmente um duplo,
capaz de ver à distância e até de sobreviver sem o corpo físico. Não posso concordar
com suas conclusões no que diz respeito ao significado dessa evidência, pois existe uma
gama de possibilidades que ainda nem sequer consideramos. Mas, antes, vamos dar uma
olhada em algumas das provas apresentadas por eles.
Em vários casos um anestésico foi a causa provável da expulsão de um corpo astral.
Cite-se o exemplo de um bedel de escola, um tal de Sr. Landa, que teve de fazer uma
operação, em conseqüência de um acidente. Ele descreve seu nervosismo antes da
operação e conta que ficou inconsciente quando lhe aplicaram a anestesia. Mas não
ficou em estado inconsciente por muito tempo. Sentiu-se como se estivesse sendo
separado do corpo por uma brusca e violenta reação; depois, tão repentinamente como
antes, a calma lhe voltou. Eis o resto da estória, contada com suas próprias palavras:

Eu me vi – ou melhor, eu vi o meu ser físico – deitado ali. Tive uma visão nítida dos detalhes
da mesa de operação. Solto no ar e olhando para baixo, me vi deitado na mesa de operação. Podia
ver a incisão cirúrgica no lado direito do meu corpo e pude ainda perceber o médico segurando um
instrumento que agora não consigo mais descrever com precisão.
Observei tudo com muita clareza. Tentei impedir que me operassem. Era uma coisa tão real!
Ainda ouço meus gritos: “Parem com isso! O que vocês estão fazendo aí?”

O Sr. Landa termina dizendo, como tantos disseram, que jamais esquecerá essa
experiência (97b, pp. 56-7).
Muldoon e Carrington seguem adiante, citando outros casos mais complexos, mas as
características básicas são as mesmas: sob o efeito de anestesia, um paciente que se
julgava estar inconsciente descobre que pode ver e ouvir e sente-se mais bem disposto e
cheio de energia do que antes. Como podemos interpretar experiências desse tipo?
Muldoon e Carrington, naturalmente, as descrevem em termos de projeção astral. Para
eles, o astral, ou algum corpo mais evoluído, é a sede da consciência, e a aplica-

67
ção de um anestésico faz com que saia do corpo físico. Geralmente, a razão por que se
esquece a experiência é que a maior parte das pessoas não têm um corpo astral bem
constituído e não aprenderam a transmitir as recordações ao cérebro físico. Posto que
esta forma de projeção astral é compulsiva, não natural, o corpo astral sai brusca e,
muitas vezes, forçadamente. Às vezes, com o choque, sua ascensão do corpo é em
espiral, movimento esse ilustrado por Muldoon e Carrington com um diagrama (ver
Ilustração 8).
Essa interpretação, evidentemente, não é a única possível. O motivo de tantos
pacientes anestesiados descreverem essa experiência de rotação em espiral (se é que de
fato a fizeram) reflete, talvez, mais as similaridades na ação das drogas sobre o sistema
nervoso do que o fato de um corpo astral ser compelido a sair. É interessante observar,
dentro deste contexto, que com as técnicas aperfeiçoadas de anestesia disponíveis hoje
em dia, experiências conscientes durante uma cirurgia parecem ser extremamente raras.
Dentro da teoria da projeção astral, sempre se acha algum tipo de “explicação” para
esses fatos. Talvez o corpo astral esteja, atualmente, muito mais distanciado do físico, o
que aumenta a sua dificuldade em retransmitir a recordação. Acho que uma explicação
fisiológica é preferível. Mas vamos voltar a Muldoon e Carrington.
Os casos que ocorreram em conseqüências de acidentes ou doenças vêm logo a
seguir. Um certo Sr. Johnson conta que se levantou da cama, uma noite, com cãimbras
nas pernas, e rolou com dores pelo chão. Lembra-se, depois, de ter observado os
esforços da mulher e das filhas para pô-lo de pé, com a sensação de estar dividido em
dois, e que a parte consciente olhava para a parte física caída no chão. 0 Sr. Johnson jura
que não sabia absolutamente nada dessas coisas, até que leu um conto de Sir Arthur
Conan Doyle e “teve a explicação”. E qual foi a explicação? Não sei. Mas a afirmação
do Sr. Johnson não surpreende. Muitas pessoas que passaram por experiências idênticas,
de ter a sensação de sair do corpo, acham a idéia da projeção astral uma explicação
satisfatória; mas o fato de a acharem satisfatória não reforça muito nem os argumentos a
favor nem os argumentos contra.
Entre os casos mais interessantes descritos por Muldoon e Carrington na seqüência,
figuram aqueles provocados por desejos reprimidos e muitos outros em que supostos
“espíritos” tomam parte. Lady Doyle, viúva do famoso criador de Sherlock Holmes,
após a morte do marido, teve uma experiência de divisão dos corpos físico e etérico,
quando se encontrava gravemente enferma. Achou que viajava para uma região de “luz
e calma,

68
os portais de um outro mundo maravilhoso”, onde viu seu querido esposo ao lado de
uma segunda pessoa. Ambos pareciam felizes e, cheios de ternura, mostraram-lhe a vida
maravilhosa que estava reservada a ela ali, mas Lady Doyle pensou em seus três filhos
e, em vez de permanecer naquele paraíso, resolveu voltar para cuidar deles.
Em outros casos de EFCs, experimentadores encontraram pessoas que não
conheciam, foram ajudados nas suas exteriorizações por auxiliares invisíveis, instruídos
por seres amáveis sobre a vida pós-morte ou sobre assuntos mediúnicos, ou ouviram
vozes que falavam com eles. Muldoon e Carrington interpretam esses casos como
encontros particulares com espíritos, tomados possíveis pelo fato de que a pessoa que os
vê se encontra, temporariamente, num plano evoluído. Não é raro que a própria pessoa
interprete a experiência como uma oportunidade propícia para confortá-la e aliviar suas
angústias ou para receber alguma lição necessária.
Muldoon e Carrington também incluem vários casos de EFCs não espontâneas,
provocadas quer pelo desejo de visitar uma pessoa ou lugar em particular, quer por uma
tentativa deliberada de vivenciar a projeção astral. Por ter Muldoon fornecido muitas
instruções sobre a forma de induzir a experiência, em seu primeiro livro (97a), alguns
leitores fizeram a tentativa e escreveram contando-lhe seus sucessos. Ele não estranha
que os relatos manifestem preferência a serem expressos nos mesmos termos do livro, e
é impossível saber em que medida a perspectiva de “projeção astral” contribuiu para
amoldar as experiências.
Boa parte dos relatos de Muldoon e Carrington descrevia experiências cujo ponto de
partida foi o sono ou o estado hipnogógico ou hipno-pômpico (antes ou depois do sono,
respectivamente). Em algumas experiências, a projeção foi precedida por um sonho de
queda ou vôo; noutras, pela sensação desagradável de acordar e descobrir que se está
aparentemente paralisado. Como Fox já havia comprovado, diziam que a partir deste
estado cataléptico a projeção ficava muito fácil. Bastava apenas que a pessoa tentasse se
mover, que já estava “fora”.
Outras pessoas sentiam como se estivessem sendo arrancadas de seus corpos ou
puxadas para fora da cama. A Sra. Haldey, por exemplo, contou que certa vez se
levantou da cama para verificar se havia alguém debaixo dela tentando empurrá-la. Não
achou nada, mas a sensação estranha logo recomeçou, só que desta vez a Sra. Haldey
flutuava fora do corpo. Partindo para Londres, ela acabou entrando num quarto estranho
dentro de uma casa também desconhecida. Meses depois, ela foi a Londres, em carne e
osso, e “[...] Imaginem meu espanto quando abri a porta e entrei naquele

69
mesmo quarto onde estivera em espírito naquela noite. Tudo era igualzinho como eu
tinha visto enquanto estive fora do meu corpo!” (97b, pp. 160-1).
Este caso não envolvia necessariamente precognição, ou visão do futuro, pois é de se
presumir que a casa já existia na época da experiência da Sra. Haldey, mas há uma
infinidade de casos em que parecem ter sido “vistos” acontecimentos futuros durante
uma EFC. Para estes, existem as possibilidades, entre muitas outras, de acreditar que o
corpo astral pode visitar o futuro; que uma alucinação pode estar associada com
precognição (e ambas envolvem problemas complicados); ou que a pessoa que contou a
história estava enganada, mentindo ou tinha uma memória muito fraca. Não nos é lícito,
porém, fazer um prejulgamento destas questões. A compilação de casos só nos informa
o que as pessoas contaram sobre suas experiências. Mais adiante, examinaremos
maneiras de descobrir se são legítimas as pretensões de pessoas que dizem ter visão
paranormal em suas EFCs. Por enquanto, vale a pena anotar, juntamente com Muldoon
e Carrington, que muitos fazem esse tipo de reivindicação.
Muldoon e Carrington não efetuaram análises complementares dos casos reunidos,
mas puderam chegar a algumas conclusões e fizeram a escolha dos seguintes pontos de
semelhança entre os casos. As pessoas têm a sensação de estar flutuando ou voando
bem alto, de olhar com pouco caso para o corpo físico de uma posição superior, de
verem um fio prateado unindo os dois corpos, de sentirem um estalo ou pressão na
cabeça, um estado de catalepsia física e uma perda momentânea de consciência ao
entrarem ou saírem do corpo. Às vezes, sentem um estado de depressão antes da
projeção e uma espécie de “reverberação” no retorno, sendo que é comum que a pessoa
que fez a exteriorização achar que deve estar morta. Muldoon e Carrington concluíram
que estas características se repetem constantemente, o que, sem dúvida, exige alguma
explicação. E a explicação que dão é que existe um mundo astral e que todos nós temos
corpos astrais e podemos viajar dentro deles. Na seqüência deste livro, vamos encontrar,
porém, muitos outros tipos de explicação.
Robert Croockall, geólogo britânico que dedicou os últimos anos de sua vida ao
estudo da projeção astral e de experiências místicas, reuniu o maior repertório de casos
de projeção astral. Em seus inúmeros livros (26a,i), apresentou centenas de casos que
mostram os mesmos tipos de regularidade que Muldoon e Carrington constataram.
Crookall também dividiu os casos de acordo com o seu modo de ocorrência (26a, c).
Em primeiro lugar vinham os casos “naturais” tanto de pessoas que quase morre-

70
ram ou estavam muito doentes, quanto de pessoas que gozavam de perfeita saúde.
Contrastando com estes, havia os casos “forçados”, que eram provocados por anestesia,
asfixia e queda, ou por sugestão hipnótica intencional. Crookall argumentava que
existiam diferenças essenciais entre os tipos natural e forçado.
Além disso, argumentava que as descrições de EFCs temporárias de pessoas vivas
eram, basicamente, semelhantes às descrições obtidas dos mortos, através de
mediunidade ou de outros meios. Isto o levou a concluir que ambos os conjuntos de
relatos são “basicamente verdadeiros”. Pedia ao leitor “para comparar os relatos
fornecidos neste livro, observar os comentários feitos e considerar que só é possível
explicar as congruências e ligações que ocorrem, se se aceitar a hipótese de que as
narrativas descrevem, de fato, experiências genuínas” (26a, p. 1). Seu argumento,
formulado mais claramente em livros mais recentes, implica que a interpretação é
verdadeira também, que há um corpo astral, um veículo de força vital e um cordão
prateado, e que sobrevivemos à morte e continuamos existindo num plano superior.
Antes de criticar este raciocínio, permitam-me seguir o exemplo de Crookall citando
alguns casos a título de ilustração, pois, sem dúvida alguma, sua meticulosa coleção tem
contribuído muito para a nossa compreensão da variedade e regularidade dos tipos de
EFC.
Entre os casos “naturais” de Croockall, há um narrado anteriormente, com mais
detalhes, por Ralph Shirley em The Mystery of the Human Double [O mistério do duplo
humano] (135). Certa noite, um gravador voltou para casa e, apesar de se sentir
extremamente cansado, resolveu não ir dormir; em vez disso, acendeu um candeeiro e
deitou-se no sofá para fumar um cigarro. Recostando a cabeça no travesseiro, sentiu
vertigem e a única coisa que sabe é que depois estava no meio do quarto e podia ver seu
corpo, ainda respirando, ali deitado. Ficou preocupado com o candeeiro, achando que
podia atear fogo nas cortinas, mas, por mais que tentasse, não conseguiu apagá-lo.
Observou que conseguia enxergar, através das paredes, a moldura dos quadros no quarto
pegado ao dele. Assim que pensou nisso, já estava atravessando a parede e entrando no
outro quarto; examinou quadros, mobília e até títulos de livros, coisas que não tinha
visto antes. Embora o quarto estivesse às escuras, ele parecia ser iluminado por uma luz
emitida de seu próprio “corpo físico”, que estava vestido de branco. Descobrindo que
poderia ir aonde quisesse, viajou até a Itália, mas a lembrança dessa parte da viagem
não era muito nítida. Finalmente, acordou às cinco da manhã, com o corpo duro e
gelado, e percebeu que

71
a luz do candeeiro já se extinguira. Posteriormente, revelou seu segredo ao zelador do
prédio e teve permissão para entrar no apartamento vizinho onde constatou que tudo,
inclusive os títulos dos livros, era como ele tinha visto (26a, pp. 38-9; 135, pp. 714).
A luz misteriosa iluminando a escuridão, o duplo vestido de branco, a capacidade de
viajar à vontade e a impossibilidade de afetar objetos materiais são traços específicos
deste relato. Outras características que Crookall considerava típicas da projeção natural
era o fio, ou cordão, que ligava os dois corpos, a sensação extraordinária de paz e
felicidade que acompanha muitas experiências, a claridade mental e a “realidade” de
tudo o que se vê. Aqui, no entanto, ele incluía casos “naturais” em que a pessoa se
achava, com efeito, muito cansada, sob tensão insuportável ou até no limiar da morte.
Em contrapartida, quando a experiência é causada por anestesia, asfixia ou queda —
Crookall argumentava — é comum que a pessoa se encontre não num ambiente feliz e
calmo, mas num estado de “Hades” ou sonho. Ou é possível que a vítima de uma
projeção forçada se encontre ainda na Terra. Cite-se o exemplo de um soldado (26a, p.
133) que foi atingido por uma explosão e se viu lançado no ar; olhando para baixo,
percebeu que seu corpo jazia no chão, a uma certa distância dele, e que parecia ligado a
ele por um fio delgado, de aspecto nitidamente prateado. Notou quando dois cirurgiões
se aproximaram e comentaram que ele estava morto. Depois, vieram os padioleiros e o
levaram para as trincheiras; em seguida, “aquele fio prateado foi baixando e regressei ao
meu velho corpo”. Crookall conclui daí que se trata de uma “clara indicação” de um
“duplo objetivo”.
No esquema de Crookall fica clara a razão desta diferença nos tipos de experiência.
Dois aspectos podem ser exteriorizados numa projeção: o corpo espiritual ou
mediúnico, equivalente ao astral, e o “véu material” ou “veículo de força vital”,
equivalente ao duplo etérico. Em EFCs naturais, o corpo espiritual desprende-se do
veículo de força vital, e a visão torna-se clara. Mas, no caso de uma EFC forçada, parte
do veículo inferior se solta ao mesmo tempo e turva a visão, aprisionando o espírito na
Terra ou mantendo-o num estado de Hades. De acordo com Crookall, os mesmos
princípios se aplicam às circunstâncias da morte. A morte natural leva a um estado
paradisíaco, mas a vítima de morte trágica corre o risco de ficar no Hades, desprovida
de luz e consciência.
Crookall também descreveu muitos detalhes do processo de separação. Às vezes
ouvem-se estalidos e outros sons e, quando o duplo sai,

72
em geral através da cabeça, há um esvaziamento ou perda momentânea de consciência.
Em outros casos ocorre o fenômeno do túnel. Uma mulher quase morreu “teve a
impressão de flutuar dentro de um túnel comprido” (26a, p. 8) e uma outra descreveu
“uma abertura semelhante a um túnel, no fundo do qual brilhava uma luz” (p. 13).
Existem aqui muitas semelhanças com o túnel de folhas que vi. Em casos mais
complexos, os dois veículos podem se desmembrar em duas “mortes”, voltando, então,
a se reunir na ordem inversa.
Uma vez exteriorizado, o duplo assume, por algum tempo, uma posição horizontal,
antes de endireitar-se e ser capaz de mover-se. Este movimento se efetua pelo poder
mental ou por força da vontade apenas. O movimento inicial ocorre, freqüentemente,
em forma de espiral, especialmente em casos de EFC forçada e, às vezes, ao se mover, o
duplo deixa atrás de si um rasto de luz.
Um dos mais importantes detalhes da EFC é o fio prateado que Croockall comparava
(embora sem muita justificação, conforme vimos) àquele narrado no Eclesiastes. É
luminoso e elástico, estendendo-se a grandes distâncias à medida que o duplo se
distancia do físico. Nem sempre é visto, mas pode-se senti-lo puxando o corpo. Na
morte o fio é rompido e o corpo astral é liberado para começar uma nova vida.
Crookall esforçou-se para impor sua opinião de que todos estes fatos, e muitos
outros, apontam para um duplo objetivo, e não para uma imagem mental (26b). Rebateu
teorias psicológicas que insinuavam que o duplo poderia ser um fenômeno puramente
subjetivo, criado pela imaginação, sustentando que isto não explicava todas as
semelhanças encontradas entre experiências de pessoas que de antemão nada sabiam a
respeito do assunto. Ele acreditava que até onde fosse possível ser provado, os inúmeros
casos de projeção astral que compilara provavam a existência de nossos outros corpos.
Examinarei adiante este argumento mais detalhadamente, assinalando algumas das
causas psicológicas que nos levariam a supor que as experiências fossem parecidas,
ainda que nenhum duplo deixe o corpo. No momento, limitar-me-ei a mostrar algumas
deficiências da interpretação de “projeção astral” em geral e da argumentação de
Muldoon-Carrington e a de Crookall em particular.
O primeiro problema se origina dos métodos utilizados por estes autores.
Acumulando uma quantidade considerável de provas para certos tipos de experiência,
demonstraram claramente que esses tipos se enquadravam perfeitamente na estrutura da
projeção astral; mas não questiona-

73
ram se poderiam igualmente se ajustar bem em qualquer outra teoria. Crookall
examinou sumariamente uma teoria psicológica, mas não forneceu detalhes de quais
seriam as perspectivas de EFC no contexto dela. Pode-se perguntar qual a necessidade
de alguma outra teoria, quando a projeção astral parece explicar tão bem os fenômenos.
Já mencionei algumas razões, entre as quais a flexibilidade e a complexidade da teoria
da projeção astral.
O fato de que a teoria pode ser ampliada a ponto de abranger quase todo tipo de
experiência, pode satisfazer alguns de seus proponentes, mas frustra qualquer
investigador, pois torna difícil formular prognósticos exatos a partir da teoria e, por
conseguinte, planejar meios de testá-la. E qualquer teoria que não possa ser testada não
tem validade científica. Sem dúvida alguma, dizer que a teoria da projeção astral é inútil
seria ir longe demais. Sua enorme influência sobre a pesquisa mostra que não. Mas ela
tem graves limitações.
O segundo problema consiste na sua complexidade, que parece ter aumentado com o
passar dos anos. Via de regra, seria preferível ter uma teoria mais simples, em vez de
uma que se torna cada vez mais complexa à medida que tenta explicar fatos novos;
qualquer teoria que seja mais clara e mais simples, que seja mais facilmente testável, ou
que combine melhor com a física ou a psicologia aceitas, provavelmente será preferível
à noção de projeção astral, se puder enquadrar os fatos tão bem. O que precisamos
determinar com mais clareza é a natureza desses fatos, antes de começarmos a tentar
decidir como interpretá-los ou que teoria é a mais conveniente. Outros compiladores de
casos tentaram, posteriormente, descobrir esses fatos sem se envolverem muito com
uma interpretação pessoal, e é para esses que voltarei minha atenção no capítulo
seguinte.

74
7 ANÁLISE DE COMPILAÇÕES DE CASOS

As compilações de casos anteriores foram feitas por pesquisadores que acreditavam


implicitamente na interpretação da projeção astral sobre a EFC e pouco mais fizeram
além de reunir uma grande quantidade de casos. Todavia, tais compilações podem ser
usadas de maneiras mais construtivas se lhes forem aplicadas análises adequadas.
Apesar de conter limitações decorrentes de preconceitos na escolha da amostragem,
possíveis falhas de memória e coisas do gênero, uma compilação de casos, se analisada
com propriedade, pode se constituir numa rica fonte de informações sobre as
características da EFC. As compilações de casos que passaram por uma análise
adicional incluem as de Hart, Green e Poynton, e as minhas análises pessoais dos casos
da SPP. A análise de Hart é um tanto diferente das outras, de modo que a examinarei
primeiro.

HART

Em 1954, Hornel Hart era um professor de sociologia da Universidade de Duke, na


Carolina do Norte, onde Rhine começou sua famosa pesquisa sobre PES e onde, até
hoje, a pesquisa parapsicológica prossegue em vários laboratórios independentes. Hart
reuniu casos que chamou de “projeção de PES” (60a). E definiu-a de acordo com as
seguintes condições:

1. que um observador obtivesse informações extra-sensoriais, tal como poderia ter feito se seus
órgãos dos sentidos estivessem localizados, na ocasião, numa determinada posição L;

75
2. que L, na época em que se obtiveram essas informações, estivesse fora do corpo físico do
observador; e
3. que durante o período de execução o observador vivenciasse um impulso constante para a
posição fora do corpo.

Deve-se notar que minha definição tratava a EFC como uma experiência apenas, ao
passo que Hart exigia que a pessoa não só tivesse uma EFC, mas também obtivesse
informações verídicas, como se estivesse fora do corpo. Essa restrição exclui muitas
EFCs nas quais a informação obtida estava errada, ou nas quais não se obtinha
informação que pudesse ser verificada.
Hart questionou estudantes sobre suas experiências e coligiu 288 casos de materiais
publicados. Entre estes, incluíam-se os casos citados por Muldoon e Carrington, mas
não a obra de Crookall, que não havia sido publicada até então. Destes 288, só 99 se
enquadravam na definição e passaram pelo “teste de probabilidade”. Esses 99 foram
então classificados conforme tivessem ocorrido espontânea ou experimentalmente.
Entre as projeções experimentais, 20 foram induzidas por hipnose, 15 por concentração
dirigida e 12 por métodos mais complexos de indução, que incluíam técnicas utilizadas
por médiuns, curandeiros e rosa-cruzes e drogas como o peiote.
Hart conseguiu alguns de seus casos, através de membros da Sociedade Americana
para Pesquisa Psíquica (SAPP) que assistiram a uma palestra proferida pelo Dr. Gardner
Murphy. Um desses casos dizia respeito a um tal de Sr. Apsey. Ele informou que uma
noite decidira tentar fazer uma projeção física e visitar a mãe, sem que a tivesse
informado previamente de seus planos. Fixou a mente nela durante cinco minutos e,
então, às 0:30 da madrugada, teve a impressão de a estar vendo. Diz ele:

Aí, então, vi mamãe de camisola vermelha sentada na beira da cama. Um fato peculiar que me
chamou a atenção foi que a camisola estava rasgada ou era tão incrivelmente decotada nas costas,
que a pele de mamãe ficava à mostra quase abaixo da cintura.

O Sr. Apsey anotou, depois, o que ocorrera e de manhã contou tudo à sua esposa.
Mais tarde, nesse dia, a mãe contou à nora que usara, de fato, aquela camisola, que tinha
sido um presente e não lhe caía bem, por ser decotada nas costas. Também disse que
fora acordada por alguém que não se parecia com o filho. Ela gritou e abriu os olhos,
depois do que a figura desapareceu.

76
Hart desenvolveu uma escala de valores que estabelecia pontos por comprovação
para os casos. O caso mais provável receberia 1,0, mas na realidade o mais alto valor
conferido foi 0,90 pontos. É claro que os casos que não apresentassem provas
testemunhais já tinham sido excluídos. O caso Apsey recebeu 0,72 pontos. Esta é uma
marca razoavelmente alta, mas mesmo aqui verificamos que muitos detalhes estavam
errados. O filho viu sua mãe sentada na beira da cama, mas quando ela contou sua
versão da história, disse que foi acordada por uma figura e abriu os olhos. A não ser que
ela dormisse sentada, temos de admitir que ele não viu sua posição correta. Além do
mais, a figura que ela viu não se parecia com o filho. Estes erros de maneira alguma
diminuem o valor da evidência sobre a camisola e da coincidência de horário entre a
aparição e a projeção; mencionei-os porque mostram uma mistura curiosa de visão
correta e incorreta que parece ser comum na EFC.
Hart prossegue registrando casos espontâneos. Uma primeira classificação incluía 30
casos em que foi vista uma aparição de pessoa viva no momento em que o projecionista
estava se concentrando, sonhando ou tendo uma visão que correspondia à imagem.
Esses casos são semelhantes a muitos daqueles narrados em Phantasms of the Living, e
incluíam três citados nesse livro. Os outros 22 englobavam aqueles em que o
projecionista obteve informações sobre determinado acontecimento que não poderia
obter de outra forma.
Hart continuou a comparar os tipos de casos, de acordo com uma série de
características. Estudou oito aspectos integrantes de “uma projeção completa de PES”,
que continha, por exemplo, os seguintes itens: que o sujeito fizesse observações
cuidadosas de pessoas, objetos ou fatos; que sua aparição fosse vista por outros e que
ele estivesse ciente de estar sendo visto; que ele visse seu próprio corpo de uma posição
externa; que ocupasse um “corpo projetado”, capaz de flutuar e passar através de coisas
materiais sem estorvo, e que tivesse a noção de estar viajando com velocidade pelo ar.
É claro que nem todos os casos de EFC que examinamos até agora, incluem todos,
ou sequer a maior parte, desses aspectos. Algumas pessoas não se lembram de olhar
para seus corpos; muitas não surgem como uma aparição para outrem ou não percebem
detalhes corretos de lugares e pessoas, e muitas não possuem um segundo corpo. Hart
achava que esses aspectos variavam de acordo com a maneira como a experiência era
induzida. Experiências produzidas por hipnose tendiam a incluir o primeiro aspecto,
mas careciam dos outros, o que não é de surpreender se considerarmos que

77
em muitos casos o sujeito era hipnotizado com o objetivo explícito de viajar para
observar acontecimentos ou objetos distantes. Os casos induzidos por concentração
incluíam, na maioria das vezes, o segundo aspecto e tinham falta de outros, o que
também não é surpreendente visto que muitos se concentravam em surgir como uma
aparição. Alguns nem mesmo davam informação de alguma viagem e, de qualquer
modo, não se enquadrariam era outras definições de EFC. Experiências provocadas por
métodos mais complexos, assim como os casos espontâneos, correspondiam melhor à
“projeção completa de PES”, mas em alguns dos casos espontâneos o projetador parecia
dirigir-se para regiões estranhas onde poderia encontrar pessoas já falecidas ou outros
seres evoluídos.
Comparando esses diferentes tipos de casos, Hart chegou à conclusão de que o
método mais promissor de induzir uma projeção de PES era a hipnose, e esboçou um
programa para uma futura investigação do fenômeno. Até então houvera muitos
experimentos com hipnose nos quais se pedia aos pacientes para deixar seus corpos,
mas o programa de Hart nunca foi levado até o fim e o uso de hipnose parece ter
declinado, em vez de aumentar, desde que ele lançou suas sugestões. Depois da hipnose,
argumentava Hart, o método da concentração simples poderia ser o mais útil para o
trabalho experimental, pois alguns dos outros métodos eram complicados demais.
Toda esta pesquisa parte de uma premissa importante, a de que a projeção de PES é
um fenômeno isolado que pode ter todos ou qualquer um dos oito aspectos examinados
por Hart. Mas, e se não for assim? Rogo (124d) e Tart (146g) sugeriram que vários tipos
diferentes de experiência podem ter sido englobados, indiscriminadamente, sob o rótulo
de “EFC”. É possível que projeção astral, clarividência à distância e aparições sejam
fenômenos muito diferentes e precisem de interpretações distintas, ou que outras
diferenças pudessem ser mais relevantes. E quanto aos casos sem comprovação que
Hart excluiu, por que devem ser excluídos? A razão que Hart apresentou está longe de
ser satisfatória: se não havia nenhuma prova de PES, eles não tinham importância. Mas
se pode ter tanta certeza assim se ocorreu mesmo uma PES? Toda a história da
parapsicologia indica que não, e que Hart excluiu a maioria dos casos com base num
critério muito frágil. Penso que temos de aceitar o fato de que, qualquer que seja a
definição que utilizarmos, podemos estar ou não estudando um tipo de experiência
claramente distinto que requer um único tipo de explicação.

78
OUTRAS COMPILAÇÕES DE CASOS

Três compilações de casos, além da de Hart, forneceram informações


complementares. Provavelmente a mais completa, e certamente a mais conhecida, foi
realizada por Célia Green, do Instituto de Pesquisas Psicobiológicas (49c). O Instituto,
que fica em Oxford (embora não ligado à Universidade), fez um apelo, pelos jornais e
estações de rádio, para que as pessoas enviassem seus relatos de experiências em que
tivessem a impressão de estar observando coisas de um ponto localizado fora de seus
corpos físicos. Cerca de 400 respostas foram recebidas e dois questionários foram
mandados às pessoas. 326 responderam ao primeiro e 251, ao segundo.
Notem que Green definiu uma EFC como uma experiência. De fato, ela se referia
geralmente à “experiência exossomática”, definida a seguir como “[...] aquela em que os
objetos de percepção estão, aparentemente, organizados de tal modo que o observador
tem a impressão de os estar observando de um ponto de vista que não coincide com seu
corpo físico”. Green analisou as respostas aos questionários, a fim de que pudesse
determinar que formas diferentes a experiência pode tomar, até que ponto pode variar e
que características permanecem constantes.
Em 1975, J. C. Poynton, fazendo uma conferência sobre ciências biológicas na
Universidade de Natal, comunicou os resultados de uma enquete sobre “experiências de
separação” (117). Apesar de Poynton chamá-la de enquete, eu a incluí aqui porque ele
não fez esforço algum para investigar uma amostra aleatória de indivíduos. A exemplo
de Greèn, publicou um anúncio nos jornais e distribuiu um questionário reser-
vadamente, escrito tanto em inglês como em zulu. Mas a reação foi muito insatisfatória.
Apesar de receber 200 respostas de leitores do jornal Johannesburg Sunday Times,
grande número delas descrevia experiências que não tinham relação com EFCs. Só uma
resposta aproveitável foi obtida do jornal de língua zulu. Também foram entregues
questionários a 222 estudantes negros de medicina, da Universidade de Natal, mas não
se receberam respostas aproveitáveis. Para finalizar, Poynton obteve relatos úteis de 100
pessoas, comunicando um total de 122 experiências. Os resultados de Poynton, no
conjunto, são semelhantes aos de Green, embora menos detalhados.
A terceira e última compilação de casos foi organizada pela SPP e por mim mesma.
Como já disse, a SPP coletou casos de toda espécie durante longos anos. Nos arquivos
sobre projeção astral há 44 casos disponíveis para análise. Na maioria destes, porém,
dispõe-se de poucas

79
informações, já que as pessoas, com freqüência, mandaram seus relatos há décadas
atrás, não havendo possibilidade de elas serem contatadas agora. E se deixaram de
mencionar se tiveram um outro corpo, nunca saberemos, nesse caso, se tiveram ou não.
Reuni meus casos particulares a partir de cartas e de uma pesquisa com estudantes, mas
o número deles é reduzido. Portanto, fiz a análise de todos esses casos, considerando
somente alguns aspectos que reputo os mais importantes. Os resultados dessas três
compilações podem ser comparados.

RESULTADOS DA ANÁLISE

Aparentemente, a maioria das pessoas tiveram apenas uma EFC, com as


percentagens variando de 47% a 69%, como mostra o Quadro 1.

Quadro 1 Alguns Resultados de Compilações de Casos

Green (71) Poynton (159) Casos da SPP Blackmore


Proporção de casos “isolados” 61% 56% 69% 47%
Alguns aspectos de casos
“isolados”:
Viram o próprio corpo 81% 80% 72% 71%
Tiveram um segundo corpo 20% 75% – 57%
Tiveram a sensação definida “não-maioria”
25% 36% –
de separação
Tiveram um fio de ligação 4% 9% 8% –

A maior parte das EFCs ocorre como fenômenos isolados, que nunca se repetem,
mas a freqüência de indivíduos que alegam ter muitas EFCs é suficientemente alta para
concluir que se uma pessoa teve uma EFC, é muito provável que tenha outra, um
assunto ao qual voltarei. Além disso, muitas pessoas aprendem a ter um certo controle
sobre suas EFCs, ainda que nunca tenham aprendido qualquer técnica de induzi-las
voluntariamente. Poucos dos entrevistados de Green conseguiram induzir uma EFC
voluntária, mas alguns disseram que conseguiam entrar num estado de

80
relaxamento, mas conscientes, no qual uma EFC seria muito provável. 18% dos
entrevistados de Poynton disseram que podiam produzir uma EFC “mais ou menos
voluntariamente”, e vários relatos da SPP parecem ser de pessoas que tiveram muitas
EFCs e têm algum controle sobre elas; mas eu só encontrei um único indivíduo que
alegou ser capaz de começar a experiência voluntariamente.

As circunstâncias da EFC

Já sabemos que EFCs podem ocorrer numa variedade de situações. Green constatou
que 12% dos casos ocorreram durante o sono, 32%, em estado inconsciente e 25%
estavam associados a algum tipo de tensão psicológica, tal como medo, preocupação ou
excesso de trabalho. Os números acima só valem para casos isolados, típicos de muitas
das análises seguintes, visto que é impossível obter informações detalhadas sobre cada
EFC, no caso de a pessoa ter tido inúmeras. É mais simples incluir apenas os casos
isolados nas análises estatísticas, mesmo que se utilizem informações dos casos
múltiplos na discussão. Nestes, alguns dos entrevistados de Green parecem ter saído de
seus corpos, enquanto estavam absortos em alguma questão filosófica. Um sujeito
realizou uma EFC enquanto martelava a pergunta “Quem sou eu?”, e um outro enquanto
estava concentrado nesta questão: “O que está acontecendo comigo?”
Alguns indivíduos continuaram exercendo suas atividades normais. Uma mulher diz
que se viu conversando sem parar, dentro de um aposento cheio de gente, enquanto
outra prosseguiu com seu exame de motorista. E conta:

[...] depois que me acomodei, liguei o motor e engatei a marcha, fiquei tomada de horror
porque simplesmente não estava dentro do carro, mas solidamente instalada no teto, olhando para
mim mesma; apesar de um pânico mental, fiz um esforço para voltar a mim. Fui incapaz de
consegui-lo, e realizei o teste todo (30 minutos?) vendo minha parte física fazer todo tipo de
asneiras possíveis num espaço de tempo tão reduzido (49c, p. 64).

A história não conta se ela passou ou não no teste!


Há o caso de um padre que conta que quando estava proferindo o sermão, não mais
que de repente se encontrou no lado oeste da igreja, olhando para o púlpito e ouvindo a
própria voz. Depois que a cerimônia terminou, ele perguntou a alguns fiéis, sem
explicar o motivo, se eles haviam notado algo errado, mas eles responderam-lhe que
tudo transcorrera bem.

81
Esses casos mostram que é possível ter uma EFC enquanto o corpo continua
realizando atividades complexas e coordenadas. Poynton cita casos em que a pessoa
estava trabalhando junto a um arquivo, se maquilando ou simplesmente caminhando. Os
casos da SPP incluem alguns em que o sujeito estava sentado, andando ou mesmo
correndo, e algumas EFCs aparentemente acontecem devido à tensão emocional durante
uma competição esportiva (98). Arthur Koestler conta que foi favorecido por uma
“cisão na consciência”, em conseqüência do temor que sentiu quando esteve prestes a
ser executado (73, p. 350).
Entre os casos da SPP, há o relato de um oficial sapador que estava dando instruções
a uma Companhia de Infantaria em Hyde Park, em 1939. Diz ele:

Eis senão quando meu espírito saiu imediatamente do corpo e elevou -se a uns doze metros do
chão, afastando-se um pouco da área de instrução. Em espírito, observei meu corpo físico de cima,
o qual prosseguiu com suas explicações sem interrupção. Pude ver o alto de minha cabeça, ou
melhor, o quepe como se pertencesse a uma outra pessoa: de fato, foi uma simples vista aérea, mas
não consegui ouvir o que estava sendo dito. Depois de flutuar assim no ar por um curto espaço de
tempo, senti que meu espírito começava a voltar ao corpo e, à medida que ia chegando mais perto,
as palavras que eu (meu corpo) estava falando foram ficando cada vez mais audíveis, até que meu
espírito retornou completamente ao corpo, peguei o fio da meada e continuei a explicação sem
pausa.

Parece que, neste caso, a experiência não afetou, de maneira alguma, as ações ou a
fala do oficial. Todavia, EFCs são muito mais comuns quando o corpo físico está
relaxado e inativo.
A maioria dos casos de Green ocorreram enquanto as pessoas se encontravam
deitadas (75%). Noutros, 18% estavam sentadas e as restantes estavam andando, em pé
ou em circunstâncias “mdeterminadas”. De fato, parece que o relaxamento muscular foi
parte essencial da experiência de muitas pessoas, e algumas que tiveram diversas EFCs
argumentaram que precisavam estar relaxadas antes que elas ocorressem. Muito poucas
acharam que seu corpo estivesse paralisado. Oliver Fox salienta que este fato fez parte
essencial de seu aprendizado em EFCs, e Sylvan Muldoon fala tanto sobre catalepsia
física como sobre catalepsia astral, mas sou da opinião de que esse tipo de paralisia,
embora às vezes ocorra, só raramente serve de prelúdio a uma EFC.
No estudo de Poynton, também verifica-se que a maioria das EFCs ocorreu quando
os indivíduos estavam fisicamente relaxados e deitados

82
ou sentados; já a grande maioria de casos da SPP (quase 90%) ocorreram quando o
sujeito estava deitado ou doente e, na minha própria pesquisa, 5 dos 7 casos isolados
foram deste tipo. Emerge daí uma outra questão importante: a de saber até que ponto
aspectos patológicos estão implicados na EFC. Isso será importante na abordagem de
teorias sobre a EFC, pois se a maior parte das EFCs ocorre em caso de grave
enfermidade, aumenta, então, a probabilidade de que um fator fisiológico esteja
envolvido.
Os diferentes estudos não chegam a um denominador comum quanto a este ponto.
Green não esclarece o número de indivíduos doentes na ocasião em que tiveram suas
EFCs, não obstante já ter sido mencionada a importância da estafa física e mental.
Poynton diz que 76% dos casos de EFC analisados por ele ocorreram quando o sujeito
gozava de um bom estado de saúde, ao passo que 64% dos casos da SPP mencionavam
doença, não raro grave. Pelo visto, é difícil chegar a conclusões concretas sobre o
número de casos provocados por algum tipo de doença. Na realidade, tudo o que se
pode inferir daqui é que, apesar da possibilidade de ocorrer a EFC numa larga variedade
de circunstâncias, o relaxamento muscular e uma postura descontraída contribuem
muito para a EFC.

Idade e sexo

Vários dos entrevistados por Green alegaram que tiveram EFCs quando eram muito
jovens. Um sujeito se lembrou de uma experiência que teve com apenas um ano e meio
de idade. Mas a maioria delas ocorreu numa fase posterior da vida. Constatou-se uma
diferença, em termos de faixa etária, entre os casos ‘isolados” – isto é, aquelas pessoas
que tiveram uma única experiência – e os casos múltiplos. Estes últimos mostravam
tendência a ter tido experiências na infância e aprenderam a repeti-las. Os casos isolados
tendiam a ocorrer, na maioria das vezes, entre os 15 e 35 anos. Devemos notar que o
método de Green não era realmente adequado para determinar a distribuição etária de
EFCs. Afinal de contas, essa pesquisadora divulgou um anúncio chamando a atenção
exclusivamente para os casos de EFCs, e conseguiu informação de pessoas dispostas a
responder. Pode ser que fosse menor a probabilidade de os indivíduos com menos de 15
e com mais de 35 anos lerem o jornal que continha o anúncio, ouvirem a estação de
rádio na ocasião em que foi divulgado o anúncio ou responderem por escrito, mesmo
que soubessem do apelo. Para descobrir em que faixas etárias essas experiências
ocorreram, é preferível fazer uma enquete dirigida, perguntando a uma amostra
adequadamente selecio-

83
nada de pessoas sobre suas experiências. Os outros estudos não analisaram de acordo
com a faixa etária, mas Poynton verificou que havia uma proporção maior de mulheres
entre os seus entrevistados. Em compensação, os casos da SPP incluem mais pessoas do
sexo masculino que do sexo feminino, mas, de qualquer modo, é provável que este tipo
de diferença seja devido a diferenças de amostragem.

A natureza das experiências

Sem dúvida, sensações de flutuar e de estar voando são comuns. Muitas das pessoas
pesquisadas por Green disseram que eram capazes de ficar suspensas no ar e observar as
situações de cima. Muitas até mesmo sentiram desprezo pelo próprio corpo. Algumas
falaram de fascinação que era ver esse corpo de um jeito novo, sem nenhum resquício
da sua velha imagem ao espelho, enquanto outras ficaram chocadas. Green compara
esse espanto à reação que se tem, de repente, ao ver a própria imagem aparecer num
programa de televisão: “Oh, aquele sou eu!”
Poynton verificou também que a maioria dos experimentadores, em sua pesquisa,
viram ou sentiram seus corpos físicos; já dos 25 casos isolados da SPP, 18 viram seus
próprios corpos físicos. Só um tentou vê-lo e não conseguiu. Um homem ficou
decepcionado ao ver o seu rosto com a barba por fazer, e um outro disse que “(...) achei
engraçado me ver deitado, coberto com um lençol branco, e com os braços para fora,
pois as mangas da camisa azul-marinho contrastavam com o lençol branco...”. Uma
mulher conta as suas impressões: “Imaginem só que arrastei esse corpo pesado esse
tempo todo! Que coisa horrível” 1
Muldoon e Crookall tinham um interesse especial nas sensações específicas ao sair e
ao retomar ao corpo, incluindo sons produzidos na cabeça, catalepsia, perda
momentânea de consciência e a sensação de viajar por um túnel. De acordo com esses
escritores, é de se esperar que, se a maior parte das EFCs envolvem a separação do
corpo astral, então devem conter algumas dessas sensações na separação.
Essa preocupação não transparece no estudo de Green. Raramente ocorria catalepsia.
Alguns sujeitos mencionaram ruídos no começo ou no fim da experiência, e um ou dois
ficaram momentaneamente inconscientes, mas este fato não parece constituir a regra. A
maioria dos sujeitos apenas se referiu ao estado exossomático. Citam-se relatos típicos:
“[...] do repente, eu me vi no ar, olhando para mim mesmo lá embaixo” (49c, p. 125);
ou ainda: “Eu estava deitado na cama. Depois, sem mais nem menos,

84
fiquei de pé, ao lado da cama, olhando para o meu próprio corpo deitado.” Se a EFC
começava enquanto o sujeito estava dormindo ou inconsciente, ele dizia que era como
se estivesse acordando ou “passando” para o estado exossomático. Quanto ao retomo,
era tão súbito quanto a partida, para a maioria das pessoas.
As descobertas de Poynton foram semelhantes. A catalepsia estava presente em
apenas nove casos (de um total de 122). Um quarto dos relatos incluía alguma
“sensação peculiar”, enquanto o restante se referia a ruídos estranhos, sensações de
formigamento, calafrios e tremores. Com o intuito de verificar se estas sensações
esquisitas poderiam ser sintomas de alguma doença de que o sujeito estivesse sofrendo
na ocasião, Poynton comparou a freqüência com que elas ocorriam em pessoas doentes
e sãs. E descobriu que “sensações peculiares” eram menos comuns em indivíduos
doentes, indicando que elas pouco relação tinham com um mau estado de saúde
anterior.
Entre os casos da SPP, pouquíssimos mencionaram sensações estranhas, quer na
separação quer no retomo. De 25 casos, só um mencionava catalepsia; um sentiu
“arrepios de excitação” e outro “rajadas de vento”; há um que conta que era como se
estivesse caindo num poço sem fundo, e outro como se estivesse passando através de
uma tela de projeção; a maioria, no entanto, apenas se viu do lado de “fora”. No geral,
acho que há pouca evidência de que sensações estranhas acompanhem o processo de
separação e de retomo, pelo menos nos casos isolados e espontâneos.
Uma descoberta interessante, feita por Green, foi a de que a maior parte dos sujeitos
que tiveram muitas EFCs passou por processos complexos de separação e de retorno.
Muldoon, Fox e Whiteman descrevem procedimentos complicados. Talvez seja só na
EFC intencional que eles têm uma importância especial. Quanto aos túneis, que
merecem destaque tão proeminente nos textos sobre projeção astral, Green não faz
nenhuma referência. Poynton também não, e tampouco aparece algum na minha
enquete. Nos casos da SPP, há um que menciona “funis escuros”, através dos quais o
sujeito “mergulhou” de volta para o seu corpo.
Até agora, as compilações de casos apresentam poucos indícios que confirmam os
detalhes habituais da projeção astral. Mas, o que acontece com aqueles detalhes mais
característicos dela, o corpo astral e o fio prateado?
Green dividiu os casos em “parassomáticos”, que implicavam um outro corpo, e em
“assomáticos”, nos quais não havia nenhum outro corpo. Ela constatou,
surpreendentemente, que 80% dos casos eram asso-

85
máticos – ou seja, não tinham nenhum outro corpo. Parece que muitos tinham o aspecto
de uma consciência desencarnada. Uma mulher que teve uma EFC enquanto estava
deitada, recorda: “Tive vontade de acordar meu marido e contar a ele, mas era como se
eu não tivesse mãos para sacudi-lo ou tocar nele; nada era meu, tudo que eu podia fazer
era ficar observando.” (49c, p 24).
80% dos casos representam uma considerável maioria, mas, na verdade, não é um
fato consumado afirmar que todos esses casos foram assomáticos. Alguns sujeitos
insistiram que não tinham um outro corpo, mas, depois, contaram que esticaram os pés
ou estenderam a mão para tocar em algo. Uma mulher declarou ter mãos “astrais”,
porém, quando tentou tocar na sua outra cabeça, descobriu que estava sem ela! Por
conseguinte, é preciso admitir que certos casos não são nem parassomáticos, nem
assomáticos, e que os 80% encontrados por Green podem ser apenas uma estimativa
aproximada. Poynton verificou que 75% dos seus casos tiveram algum outro tipo de
corpo que, na maioria dos casos, assemelhava-se ao físico. Rogo (124b) reuniu 28
casos, 12 dos quais (ou 43%) informaram ver uma “forma exossomática”, ao passo que
diversos outros sugeriram essa possibilidade. .Outros negavam ter algum outro corpo,
alguns davam a impressão de ter tido experiências de divisão e, num dos casos, foram
vistos dois corpos de uma terceira posição. Com base nestas descobertas, Rogo concluiu
que havia três tipos diferentes de EFC, mas não submeteu os casos a uma análise
complementar. Entre os casos por mim pesquisados, 4 tinham um outro corpo e 3 não.
Os casos da SPP só mencionavam o que os sujeitos consideravam importante e, dos 25
casos, só 2 se referiram a um outro corpo, em ambos semelhantes ao físico. Isso indica
que, para muitos experimentadores de EFC, a questão de saber se existe outro corpo é
tão sem sentido que sequer é abordada, mesmo em se tratando de relatos bastante
extensos. Talvez isso explique, em parte, a existência de resultados variados. Ainda que
se force as pessoas a responderem a questão, elas não podem saber realmente se
possuíam ou não um outro corpo.
Que informação isso nos traz sobre projeção astral? Poder-se-ia argüir que nos casos
“assomáticos” o corpo astral era, por várias razões, invisível. O defensor da teoria
sempre poderá achar um jeito de justificá-la, mas, na minha opinião pessoal, esses casos
apenas tendem a enfraquecer o exemplo da projeção astral, ou pelo menos a pôr
obstáculos em seu caminho, que só se resolvem complicando ainda mais a teoria.
Esta enfrenta problemas ainda maiores, no que diz respeito ao fio prateado. Green
perguntou aos seus entrevistados se haviam sentido alguma

86
ligação entre eles mesmos e seus corpos físicos. Um terço respondeu que sim, mas só
3,5% se referiram a alguma conexão visível ou material, tal qual um cordão, ao passo
que a grande maioria não sentiu ligação de espécie alguma. Os resultados obtidos por
Poynton dão uma versão parecida. Ele perguntou a respeito de um “elo perceptível entre
você e seu corpo físico”. Em resposta, um sujeito descreveu “um cordão elástico que se
esticava e afrouxava à medida que eu me movia para cima e para baixo”; outro, “um
cordão invisível, mas palpável”; e um terceiro, “um fino fio prateado... bastante opaco,
que nem mercúrio”, mas somente 9% falaram de alguma ligação. Entre os 25 casos da
SPP, só 2 pareciam ter um cordão, um deles “um cordão de borracha” e o outro, “um
comprido fio prateado ligado ao meu corpo na Terra”.
Os detalhes do cordão fornecem provas tanto a favor como contra a teoria tradicional
da projeção astral. Em primeiro lugar, quando se faz referência a cordões, eles parecem
ser muito semelhantes ao “cordão prateado”. Volta e meia, havia insinuações de que as
pessoas que leram a respeito da projeção astral, teriam maior probabilidade de ver um
corpo astral e um fio prateado. Poynton perguntou aos seus entrevistados se tinham lido
alguma coisa sobre a EFC antes das suas experiências, e constatou que a leitura prévia
não fazia diferença para os tipos de experiência comunicados pelos sujeitos, o que prova
a impropriedade desta crítica. Naturalmente, poder-se-ia argumentar que esses sujeitos
haviam lido alguma coisa que acabaram esquecendo depois ou que haviam ouvido falar
do cordão por intermédio de um amigo ou do rádio, mas se aceitarmos explicitamente as
descobertas de Poynton, elas indicam que a origem do fio prateado está em algum
aspecto diferente das descrições literárias.
Haja vista que os cordões são extremamente raros. E neste ponto todos os estudos
concordam. Podemos dizer que todos realmente têm um cordão, mas que a maioria não
consegue percebê-lo? Claro que sim, mas acho que este fato apenas acrescenta mais um
obstáculo no caminho da teoria da projeção astral.

Percepção do tipo fora do corpo

A meu ver, uma das mais interessantes questões diz respeito à natureza do mundo
visto durante a EFC. Será ele exatamente igual ao mundo físico? Terá antes o aspecto
do mundo “criado pelo pensamento” que Muldoon descreveu, ou será parecido com um
mundo onírico ou imaginário?
Green constatou que, no geral, o realismo perceptivo foi preservado.

87
Indivíduos viram os próprios corpos e os lugares onde estiveram como uma coisa
realista e sólida. Também, em muitos casos da SPP, o meio ambiente era um lugar
familiar, mas em algumas “cenas celestiais” houve vislumbre de “outros reinos de
existência”. Uma mulher viajou por um outro mundo constituído de campos, árvores e
estradas, e uma das pessoas que viu, comentou: “Oh, ela é da Terra.” Serão estes
estranhos ambientes regiões do mundo astral, acessíveis a todos nós, ou produtos da
imaginação de uma única pessoa? Sem dúvida alguma, nem todos fazem parte do meio
ambiente físico normal.
Ainda quando a cena parece ser perfeitamente normal, é possível que haja ligeiras
diferenças. Um dos sujeitos pesquisados por Green disse que tudo dava a impressão de
ser exagerado. Outros notaram uma qualidade estranha nos objetos. Uma pessoa
declarou: “Minha vontade seria dizer que tudo é perfeitamente normal, mas a cor tem
uma qualidade diferente, é intensa e brilhante demais...”
Eu vivenciei esse excesso de vivacidade em minha própria EFC, e muitos sujeitos
pesquisados por Green tentaram expressá-lo com palavras: “objetos e lugares tinham
cores brilhantes”, ou então, “as cores eram muito claras e brilhantes, como se vistas
através de um estereoscópio”. Um sujeito ficou em dúvida: “Será possível que minha
audição aumentou, mesmo estando desprovido de ouvidos?” Alguns relatos de SPP
descrevem a visão nos mínimos detalhes, e com uma vivacidade inesquecível. A
experiência consiste numa ou duas modalidades específicas: visão e audição. Green
descobriu que 93% dos casos isolados incluíam o exercício da visão, e que um terço
deles também envolvia a audição mas, quanto aos outros sentidos, o tato, o paladar e o
olfato e também a temperatura, raramente foram observados. Há muitas explicações
possíveis. Green salientou que a mesma coisa se dá com relação às aparições, sendo
também verdadeira com relação aos sonhos e a uma boa parte das experiências de
imaginação. Será que este fato indica que o mundo da EFC é um mundo de imagens?
Este tipo de informação será útil quando tentarmos organizar um painel de tudo o que
uma teoria da EFC precisa explicar.
Outra característica importante do mundo da EFC é a sua luminosidade.
Misteriosamente, o ambiente fica iluminado sem nenhuma evidente fonte de luz visível,
ou então, os objetos parecem brilhar com luz própria, conforme mostram as descrições
feitas por Fox e por Monroe. Uma mulher entrevistada por Poynton descreve o que
sentiu nos seguintes termos: “Eu podia ver o jardim e seus arredores perfeitamente em
ordem. O que me surpreendeu foi o fato de que o jardim era claramente visível, apesar
de saber que era quase meia-noite e que não havia lua” (117, p. 121). 88

88
Paranormalidade

Talvez a questão mais importante, no tocante à EFC, seja saber se as pessoas podem
ver coisas que não conhecem; em outras palavras, se utilizam PES numa EFC. Entre as
pessoas pesquisadas por Green, algumas acharam que poderiam ter visto alguma coisa,
mas faltou a motivação para testar esta hipótese. No entanto, algumas pessoas
afirmaram estar vendo coisas que não poderiam ver fisicamente. Uma mulher
hospitalizada descreveu uma outra paciente com muita exatidão, falando até da cor da lã
com que estava tricotando e dando detalhes da enfermaria onde estava internada. Estes
casos não eram comuns na compilação de Green, que declarou no entanto: “Ainda não
se constatou nenhum caso de EFC involuntária em que a informação obtida fosse
incorreta.” É explicável a ênfase nos casos de natureza involuntária, uma vez que se
cometeram erros em algumas EFCs intencionais. Há o exemplo de um homem que
passou através do teto de sua casa e viu uma chaminé; mas, no dia seguinte quando foi
verificar, descobriu que ela não existia. Este tipo de engano é semelhante aos que
cometi na minha própria experiência, e vamos encontrar uma porção deles pela frente,
em outras EFCs.
Existe, então, uma diferença entre os casos espontâneos e os casos intencionais, neste
aspecto tão importante? Essa diferença pode ser relevante já que é quase impossível
verificar as alegações de PES pelo simples acúmulo de casos e já que a maior parte das
provas disponíveis vem de experimentos. Porém, se as EFCs experimentais são
diferentes das naturais neste aspecto, nesse caso não é provável que os experimentos
sejam muito produtivos. Voltarei a falar deste problema oportunamente.
Uma outra questão pertinente é se numa EFC os indivíduos podem afetar objetos, ou
se têm o poder de psicocinesia. No geral, os indícios são desfavoráveis. A pesquisa de
Green mostra que alguns sujeitos tentaram mover coisas e fracassaram, exatamente
como Muldoon e Fox haviam feito. Uma mulher achou que tinha removido uma
anêmona de um vaso, mas Green tem o cuidado de observar que consciente ou
inconscientemente, a mulher poderia ter visto a flor antes e ter a ilusão de que a
colocara ali. São muito difíceis de se testar alegações desse tipo, assim como as de que o
sujeito de uma EFC surgiu para outrem, na forma de uma aparição. A compilação de
Hart incluía muitos casos de aparição, ao passo que Green não menciona nenhum e
Poynton só encontrou 4 casos, de um total de 122.

89
É necessário comentar um último aspecto: o de que uma EFC espontânea pode
causar uma impressão profunda na pessoa que a vivência. Às vezes as EFCs podem ser
muito assustadoras, outras vezes, excitantes, podendo até dar uma sensação de aventura.
É interessante o fato de que Green descobriu que o medo era mais comum nas
experiências finais, do que nas iniciais. E que também são comuns emoções agradáveis.
Poynton constatou que mais da metade de seus entrevistados achou a experiência
agradável. Muitos relatos da SPP incluem descrições de estados de êxtase, de lugares
belíssimos e de sons divinos. Uma mulher descreveu uma “sensação maravilhosa de
leveza”; outra, um “estado feliz, mas não festivo, de bem-estar, leveza e liberdade”. É
típica a insistência em dizer que a experiência foi intensamente real e que jamais será
esquecida.
A análise destes conjuntos de casos propiciou algumas informações valiosas.
Sabemos agora que as características comuns da EFC incluem sensações de voar ou
flutuar, de ver coisas com uma disposição incomum e observar o próprio corpo como
que do lado de fora. As outras características são mais flutuantes. Em geral, a transição
é repentina, mas alguns indivíduos têm sensações estranhas na separação ou no retomo.
Alguns possuem um outro corpo, mas há muitos que não. Uma parcela muito pequena
fala de um fio, ou coisa parecida, ligando os dois corpos, mas a maioria não. O mundo
visto quando o sujeito está fora do corpo pode variar, indo desde uma versão bastante
realista da situação verdadeira na época, passando por uma interpretação distorcida ou
um tanto anômala dos fatos e chegando até os limites dos mais variados e estranhos
universos de outras dimensões. Da mesma forma, as reações dos sujeitos podem ir de
um extremo a outro, do prazer ao terror e da alegria à indiferença. São raros os
indivíduos que afirmam terem dons mediúnicos, assim como são raros os fenômenos
paranormais na EFC. Para a maioria dos que passam pela experiência, estes fenômenos
não desempenham um papel importante.
Alguns destes detalhes parecem se enquadrar muito bem na interpretação tradicional
da projeção astral, enquanto outros divergem dela. Uns parecem indicar um componente
imaginário do mundo visto fora do corpo; muitos deixam claro a extrema variabilidade
da experiência. São fatos como estes que precisaremos levar em conta quando
examinarmos as teorias que tentam explicar a EFC.

90
8 A EFC EM OUTRAS CULTURAS

Até agora, a maior parte de nossos casos têm sido de pessoas que vivem no mundo
ocidental, em sociedades complexas e culturalmente evoluídas. Mas, sem dúvida
alguma, as EFCs não estão restritas a essas sociedades. As narrativas de duplos vêm de
culturas tão diversas que seria impossível examinar todas elas. Já ouvimos falar do
DoppelgUnger e do fetch, e é claro que muitas pessoas que acreditam terem uma alma
ou espírito não ficariam demasiado surpresas, se soubessem que a alma ou espírito
poderia se separar do corpo físico. Mas, nas diferentes culturas, a crença nesta
possibilidade assume formas variadas. Os Aranda, uma tribo da Austrália Central,
crêem que os riomens têm um duplo cu ngancha, que se parece com o homem físico,
mas que é a essência da própria vida. Eu disse que eles crêem que os homens têm um
duplo, pois, na verdade, na tribo, as mulheres estão excluídas dessa possibilidade.
Em seu estudo sobre o xamanismo, o eminente antropólogo Mircea Eliade (35) faz
uma descrição do modo como os xamãs da Sibéria e da América do Norte se prepara-
vam para os seus “vôos”. O xamã dos Yenisei Ostjak, ao que parece, comera com um
jejum e vai realizando uma série de rituais, dando pulos no ar e gritando: “Estou no alto
e vejo os Yenisei a centenas de verstas de distância” (p. 223). O xamã dos Kazak Kirgis
passa por rituais bastante desagradáveis na preparação, que incluem o caminhar sobre o
fogo, o segurar carvões em brasa e o talhar o rosto com facas afiadas. A utilização da
técnica da Kundalini, uma tradição da ioga antiga, pode levar a estados de êxtase;
Ehrenwald cita uma experiência dessas: “Eu vivenciei uma sensação de tremor e me
senti saindo rapidamente

91
do meu corpo. Eu me senti no auge da consciência, alargando-me mais e mais...
enquanto o meu corpo... parecia ter sumido de vista.”
Lukianowicz (85) descreve o papel do xamã na área circumpolar, no “enviar a alma”.
O xamã fica “possesso” num transe auto-induzido, o que então lhe permite enviar sua
alma para lugares distantes a fim de realizar boas ações, como trazer de volta a alma de
um outro membro da tribo. Esta pessoa infeliz que perdeu a alma, permanece em estado
de estupor histérico até que sua alma regresse. Ou o xamã pode mandar a sua alma para
outro lugar, longe ou perto, até mesmo à Lua, para saber o que está acontecendo ali.
Não há dúvida de que os membros dessas tribos vêem algum mérito nesta atividade.
Para Lukianowicz, escrevendo numa publicação psiquiátrica em 1958: “Parece ser
bastante óbvio que esta forma de clarividência tem apenas um caráter fictício, que se
assemelha à natureza do tipo faz-de-conta dos companheiros imaginários das crianças.”
Mas será tão óbvio assim? Precisamos estar convencidos de que as experiências
descritas são inteiramente “fictícias”? Um estudo mais detalhado de algumas crenças
pode nos ajudar a descobrir a resposta.
Em 1978, Dean Sheils (134) fez uma comparação entre as crenças de
aproximadamente 60 culturas diferentes, recorrendo a arquivos especiais, reservados
para pesquisa antropológica. Estes registros da área de Relações Humanas contêm
informações sobre muitas culturas, organizadas em tópicos, codificadas verbete por
verbete e microfilmadas. Para cada cultura, Sheils extraiu alguma informação
relacionada com a capacidade de um duplo ou alma viajar sem o corpo físico. De 54
culturas que dispunham de alguma informação a respeito, 25 (ou 46%) alegavam que
quase todas as pessoas podiam viajar desta forma, sob certas condições. Outras 23 (ou
43%) declaravam que algumas, do seu povo, tinham tal capacidade,enquanto só 3
culturas não expressaram crença alguma em coisas dessa natureza. Já em outras 3
culturas, admitiu-se a possibilidade de EFCs, mas a proporção de pessoas que podiam
vivenciá-las não foi indicada. Só por esta analise superficial já é possível ver que é
muito comum a crença nesse tipo de possibilidade.
Os Azande, na África, acreditam que o mbisimo, uma de duas almas, pode deixar o
corpo quando ele está adormecido e viajar, ter aventuras e conhecer um outro mbisimo.
Acredita-se ser este um fenômeno comum, que pode ocorrer com qualquer um, mas que
será esquecido ao despertar. Os Azande precisam estar bem despertos e alertas para
evitar a desagradável experiência de que o mbisimo retorne depressa demais ao corpo.

92
Uma outra cultura em que se diz que a viagem ocorre durante o sono é a dos Bacairi,
da América do Sul. A andadura ou sombra “tira a sua camisa” durante o sono, ou seja,
desprende-se do corpo. Mas há uma importante diferença entre as crenças dos Azande e
as dos Bacairi. A tribo africana não equipara os sonhos com viagens da alma: essas
viagens são esquecidas e os sonhos podem ser lembrados. Porém, para os Bacairi, os
sonhos têm grande importância e são interpretados como acontecimentos reais
experimentados pela sombra. Conta-se que em certa ocasião uma aldeia inteira entrou
em pânico quando um homem sonhou que os inimigos estavam se aproximando
sorrateiramente dela. Novamente, o perigo pode resultar de um despertar muito rápido.
A morte, inclusive, pode ser causada se a sombra não conseguir regressar ao corpo a
tempo de impedi-la. Um reflexo deste tipo de crença pode, aliás, ser visto em nossa
própria cultura. Sensações de queda e colisão ao despertar, são às vezes atribuídas ao
retorno precipitado da alma ou do “corpo astral”. Além disso, existe a superstição de
que, se a pessoa atingir o fundo de um penhasco num “sonho de queda”, ela morrerá.
Sheils menciona várias outras culturas que crêem que uma alma ou duplo viaja
durante o sono. Incluem-se, entre eles, a dos andamaneses, que habitam uma pequena
ilha na Ásia Ocidental e que acreditam que o ot-jumulo ou duplo, abandona o corpo no
sono; os Cuna, da América do Sul, cujo purba ou alma deixa o corpo, e os birmaneses,
que chamam sua contraparte viajante de borboleta, nome que lhe assenta muito bem, já
que acreditam que ela seja frágil e fácil de se ferir.
Parece que há também muitas culturas que não interpretam sonhos como EFCs.
Existem algumas, como os birmaneses com sua “borboleta”, que distinguem dois tipos
de sonho. Para eles, os sonhos do começo da noite, no estágio inicial do sono, são
chamados “sonhos falsos”. Depois, num segundo estágio, os sonhos são mesclados e
somente aqueles que ocorrem nas primeiras horas da manhã é que são chamados
“sonhos verdadeiros” e interpretados como recordações das jornadas da borboleta.
Mas, além do sono, há outras condições que podem levar a uma experiência do tipo
fora do corpo. As tribos negras da América do Sul crêem que um deslize ou queda pode,
ocasionalmente, resultar em projeção. Na Indonésia, acredita-se que um acesso violento
de raiva, especialmente em crianças, pode fazer com que a alma fique separada do
corpo. Os Maias, da América do Norte, julgam que a alma emigra para o outro mundo
logo após a morte e os Mossi, da África, afirmam que a doença ou o intenso sofrimento
também pode ser uma causa. Mas crenças desse tipo são relati-

93
vamente raras em comparação com as ocorrências durante o sono, e se tornam muito
interessantes quando comparadas com os casos de nossa própria cultura que
examinamos até o momento, muitos dos quais parecem ter sido provocados por uma
variedade de tipos de trauma, choque ou doença, ou por um esforço intencional.
A noção de que se pode induzir uma EFC de modo intencional não é inteiramente
desconhecida das culturas relacionadas por Sheils, apesar de estar, em geral, restrita a
certos tipos de pessoas. Em geral, só os xamãs podem fazê-lo, às vezes usando drogas
especiais ou lançando mão de métodos que provocam um transe. No entanto, assim
como os xamãs, outras categorias de pessoas podem ser consideradas como mais
propensas a ter EFCs. Em diversas culturas, os anciãos são mencionados e, mais
comumente, as crianças ou adolescentes.
Para onde vai a alma ou duplo durante estas expedições? De acordo com a teoria da
projeção astral, o corpo astral viaja dentro do mundo astral. De acordo com outras
teorias, não há viagem de espécie alguma. Podemos, portanto, comparar esta
interpretação com os relatos de outras culturas. Entre aquelas descritas por Sheils, havia
várias que acreditavam que a alma só podia viajar por localidades terrestres; outras que
achavam que ela podia circular pelo mundo dos mortos ou espíritos, e outras que
incluíam ambos os mundos. Pessoas comuns só podiam viajar por este mundo de vez
em quando, enquanto o xamã, os indivíduos com treinamento especial ou os
moribundos podiam ter uma comunicação direta com o outro mundo.
Os Tikopia, por exemplo, crêem que o duplo pode visitar terras longínquas porque
anda tão depressa que, na verdade, anula as distâncias; e, além de viajar sobre a Terra, o
duplo pode visitar o céu e entrar em contato com os espíritos de pessoas mortas há
muito tempo. Os malteses atêm-se a um costume nada agradável, segundo o qual só as
pessoas que nasceram na véspera de Natal são gaugau; nesse dia, elas podem viajar
pelos campos gemendo e assustando as pessoas e, depois, voltar sem se lembrar do que
fizeram. Entre as que pensam que a projeção está reservada só para os extratos “mais
altos”, estão os apaches que acham que as almas viajam para os “campos dos mortos”.
Finalmente, entre os pukapukans, a maior parte dos viventes está confinada a níveis
terrestres, com exceção dos xamãs que podem visitar o mundo subterrâneo.
Tenho me referido à alma, ao espírito e ao duplo como se todos estes termos
significassem a mesma coisa, mas, na realidade, conceitos diferentes são usados em
diferentes culturas e também variam as formas supos-

94
tamente tomadas pela parte itinerante do ser humano. Já vimos que em alguns casos de
nossa cultura há uma réplica perfeita do corpo físico, ao passo que em outros os sujeitos
da EFC parecem ter uma forma vaga, ou não serem mais que um ponto no espaço. Os
Lepcha, da Ásia Ocidental, descrevem a alma como a imagem espelhada do corpo físico
e os Mar-quesanos acreditam que ela tem a mesma aparência que o físico, porém outras
descrições contêm um “redemoinho”, de índole malévola e corrupta, ou formas de
insetos ou animais.
A ligação entre a alma e o corpo varia muito também. Num grande número de
culturas, está arraigada a crença de que qualquer dano infligido á alma pode ser sentido
também no corpo físico. Contudo, uma única cultura, na amostra de Sheils, os Kol, da
índia, fazia alusão a um “cordão fino”, que unia a alma projetada ao corpo.
É preciso não esquecer que todas estas informações foram extraídas de verbetes
reunidos por um considerável número de investigadores que não tinham,
necessariamente, nenhum interesse particular em EFCs e dos quais, portanto, não se
deveria esperar que fizessem grandes esforços para estabelecer o exato significado das
mesmas. Seria muito mais provável conseguir informações mais detalhadas de um
viajante com um interesse especial por casos de EFC.
Alastair Mcintosh trabalhou durante dois anos como professor voluntário e, depois,
como diretor substituto de uma escola perto de Kerema, na Província do Golfo de
Papua, na Nova Guiné. Enquanto permaneceu ali, trabalhou num pequeno projeto
hidroelétrico e, naturalmente, ficou conhecendo os alunos e outros trabalhadores que
estavam construindo novas salas de aula. Ao anoitecer, todos costumavam se sentar
juntos para contar histórias e Alastair teve a oportunidade de fazer perguntas sobre as
crenças dos nativos. Ele perguntou, por exemplo: “O povo de vocês acredita que é
possível que o espírito de uma pessoa saia do corpo por um curto período enquanto ela é
viva?”, e também: “O que acontece ao espírito de uma pessoa quando seu corpo
morre?” (99b).
Alastair conseguiu fazer estas perguntas a membros de três grupos, os Elema, os
Kamea da região do Golfo e os Rigo. Os Elema ficaram contentes de poder falar sobre
suas crenças e contaram que o espírito deixa o corpo na morte e fica nos arredores da
aldeia durante mais ou menos uma semana ou até que os ritos fúnebres terminem, antes
de partir para o mundo espiritual. (Alguns nativos achavam que esse mundo espiritual
ficava num país estrangeiro, em alguma parte do Ocidente!) Também achavam que os
feiticeiros tivessem o poder de induzir as EFCs e viajar

95
para algum lugar, de entrar em comunicação com espíritos e fazer magia enquanto seu
corpo permanecia em estado de catalepsia. O mais interessante foi que McIntosh teve
uma sorte enorme de passar algum tempo conversando com um feiticeiro, avô de um
dos estudantes, e descobriu que o homem não era nenhum praticante de EFC, apesar de
ter-lhe contado muita coisa sobre magia e ritual; é muito freqüente que as pretensões de
feiticeiros sejam muito mais modestas do que os terríveis poderes atribuídos a eles por
seus companheiros. A exemplo de muitas das culturas que já examinamos, este
feiticeiro dizia que o espírito deixa o corpo durante o sono, mas que o viajante sempre
esquece o fato ao acordar, e que os sonhos não são o produto dessas perambulações,
mas uma doação de espíritos ancestrais.
Indagado se as EFCs ocorriam em outras circunstâncias, um rapaz disse: “Se você
estiver caminhando pela selva e, de repente, alguém sair de trás de uma árvore e puser a
mão em você, você dará um pulo. O espírito também dá um pulo, mas pula mais alto
que o corpo e, então, ambos se separam por um breve tempo.” Uma sugestão
particularmente interessante foi a de que “o espírito pode deixar o corpo à procura de
água potável se a pessoa estiver tão doente que não consiga andar atrás de água e’ não
tiver ninguém para ajudá-la” (99b, p. 463) – particularmente interessante porque,
conforme veremos adiante, um dos meios sugeridos para induzir uma EFC é ficar sem
beber água, na esperança de que o “corpo astral” saia do físico adormecido e sedento
para procurar o líquido.
O povo do golfo de Kamea contou uma história bastante diferente. Na verdade, foi
quase impossível convencê-los a contar qualquer história. Mas, uma vez que tinham
conferenciado entre si, para tentar entender o que lhes estavam perguntando, disseram,
com certo constrangimento, que, pelo que sabiam, o espírito morria juntamente com o
corpo. Para eles, a morte é o fim de toda a existência.
O último desses três grupos, os Rigo da Província Central descreveram suas crenças
aperfeiçoadas em EFCs. Eles distinguiam dois tipos: a EFC, ligada ao sonho e ao sono,
e o tipo mágico. Só este último tipo era considerado “real”, sendo causado por bruxas.
Há um bom repertório de narrativas sobre as proezas das feiticeiras dos Samarais, ou
“bruxas voadoras”, da baía de Milne, no sudoeste da Província. Um incrédulo rapaz
Rigo foi convidado a dormir com a mãe de sua namorada, uma feiticeira, para que ela
lhe mostrasse que era possível voar. Em sono, ela levou-o de volta a Rigo, umas 250
milhas distante, e, como prova, trouxe para casa um cacho de bananas do pomar do pai
do rapaz. Este contou que

96
seu pai achou que elas tinham sido roubadas, até que soube da história.
É evidente que não temos nenhuma confirmação dessa história; mas ela é tão
interessante, em muitos aspectos, quanto a narrativa do “fio de algodão mágico” que
mantém o corpo e o espírito ligados durante o vôo e funciona como “uma linha de
pescaria”, conservando-se firme e esticando-se indefinidamente quando o espírito viaja.
Os Rigo acreditam que se ele for rompido, quando o espírito estiver longe, o corpo
morrerá, mas que, ao retomar ao corpo, numa curiosa analogia com o nascimento, a
própria feiticeira deve romper o fio de algodão para que o espírito possa retomar ao
corpo. O rapaz que viajou até o pomar do pai, aparentemente teve grande dificuldade
quando o fio de algodão ficou emaranhado, mas conseguiu, finalmente, rompê-lo e
regressar ao seu corpo.
Esta crendice é ainda mais interessante por causa de sua raridade. E traz muitas
semelhanças, excetuando-se a necessidade de ruptura, com o “fio prateado”; parece, no
entanto, que os Rigo são um dos poucos povos que têm uma crença desse tipo. Muldoon
e Carrington (97b) escreveram que os taitianos acreditam num cordão gasoso e Crookall
(26h) fala dos “cordões mágicos” dos “sábios” aborigines da Austrália, mas, conforme
vimos, Sheils só localizou uma cultura em sua amostra, com uma crença relativa. Os
Rigo, além disso, possuíam crenças bem consistentes sobre a natureza do espírito
itinerante. É possível que ele tome a forma exata do corpo físico, mas, por meio de
alguma magia, pode tomar a forma de um pássaro, de uma raposa voadora (ou morcego
frugívoro) ou de uma luz. Essa luz pode ter o tamanho de uma bola de futebol ou ter o
aspecto de uma estrela cadente com cauda que, quanto mais rápido se desloca, mais
cintilante fica, o que faz com que mude de cor, passando do amarelo para o vermelho e,
depois, para o azul. Essa descrição parece fantasiosa, mas lembrem-se que Muldoon
afirmava que, numa velocidade intermediária, o corpo astral deixava um rastro de luz
atrás de si; Crookall também faz alusão a algo semelhante.
Existem muitas outras narrativas de culturas diferentes que podem ter ou não algum
significado para o EFC. Quando estudava na Califórnia, Carlos Castaneda viajou para o
México à procura de informações sobre o uso de drogas alucinógenas. Posteriormente,
escreveu vários livros sobre seu suposto aprendizado com o bruxo Dom Juan (19), digo
“suposto” porque tem sido posta em dúvida a veracidade dessas histórias (428); porém,
quer exista quer não um homem do naipe de Dom Juan, o que importa é que Castaneda
contou experiências fascinantes. Entre elas, há uma série de “viagens” dos tipos mais
variados, das quais às vezes ele regressava,

97
ao fim de uma longa jornada, e encontrava seu corpo do jeito que deixara ao partir.
Algumas aventuras provocadas pelo uso de drogas podem ser encontradas em muitas
culturas. Rogan Taylor (147) sugere que a lenda do Papai Noel que voa com seu trenó
de renas pode ter evoluído de uma situação real: a intoxicação causada por cogumelos
que produzem alucinações, ao nordeste da Sibéria. As tribos dessa região dependem das
renas como alimento e vestuário, e os cogumelos tóxicos fazem-nas “voar”. Até mesmo
a cor da roupa do Papai Noel lembra os cogumelos de cor vermelha e branca.
Esta breve incursão pelas crendices de outras culturas teve de ser seletiva, mas
responde de maneira satisfatória a pelo menos uma das questões propostas.
Positivamente, as crenças em EFCs são amplamente difundidas e provêm de culturas
muito diversas das nações ocidentais evoluídas, sendo que algumas delas quase
nenhuma transformação sofreram durante milênios. Dizer qual a causa disso é, porém,
uma questão mais difícil. A resposta é porque todos nós possuímos um duplo itinerante,
ou haverá alguma outra razão? Enumeramos a seguir as quatro principais tentativas de
explicação:
1. a teoria da projeção astral (ou outras teorias que impliquem a separação de um
duplo do corpo físico);
2. as teorias de “controle social” e de “crise”;
3. a teoria dos sonhos; e
4. as teorias psicológicas da EFC.
Muitos autores chegaram à conclusão de que só a primeira teoria pode explicar as
analogias entre crenças de culturas tão diversificadas. Entre estes estão incluídos Sheils
e McIntosh, de um lado, e Muldoon, Carrington e Crookall, do outro. Pessoalmente,
acho que a última teoria é preferível, mas permitam que eu examine os argumentos
apresentados.
Sheils refutou o segundo tipo de teoria, com base nas provas que reuniu. Ela afirma,
por exemplo, que muitas culturas talvez mantenham tais crenças a fim de utilizar as
experiências ocorridas como forma de controle social, como recompensa ou punição
que ajudam a preservar as normas da sociedade. Evidentemente, muitas culturas se
valem da ameaça da ira dos deuses para manter o comportamento em ordem. Espíritos
ancestrais podem visitar um indivíduo indisciplinado e intimidá-lo a obedecer as regras.
Se este tipo de controle social fosse o motivo para a crença em EFCs, seria plausível
que encontrássemos muitos exemplos nos quais a ocorrência de uma EFC foi usada
desta maneira. Mcintosh (99b) conta a história de um rapaz chamado Daniel, nas ilhas
Trobriand, que havia ferido um amigo numa briga por causa de um bastão de críquete.
Naquela

98
mesma noite, ele teve um pesadelo horrível. Sonhou que a avó do amigo, a quem
descreveu como a “rainha das bruxas voadoras”, esvoaçava em volta da cama, tentando
devorá-lo com sua boca monstruosa. Seus gritos de pavor chamaram a atenção de
amigos, que vieram ajudá-lo, mas mesmo depois de acordado ele via uma cidade em
chamas avançando na sua direção e tinha certeza que a bruxa ainda estava ali. Dois dias
depois, a avó chegou da ilha onde morava e disse ao rapaz que viera intimidá-lo para
assegurar-se de que ele não machucaria seu neto outra vez. E, em seguida, fez os dois
comerem juntos para reatarem a amizade. Como bem ressalta McIntosh, poderia haver
uma infinidade de explicações “normais” para essa história, mas o fato é que ela
demonstra um possível uso de EFCs como meio de controle social. Sheils cita duas
sociedades onde as EFCs são tratadas desta forma. Para os Mundurucus, a projeção é
muito perigosa e pode ocorrer se alguma norma social importante for violada. Os
vietnamitas acreditam que se o khi, ou alma, deixar o corpo, eles ficarão doentes, o que
representa uma forma de punição corporal por causa de “maus atos”.
No entanto, Sheils cita duas, apenas duas sociedades desse tipo. O uso de EFCs como
um meio de controle social é raro e não há indícios de que contribuam
significativamente para explicar todas as ocorrências do fenômeno. Uma outra
possibilidade examinada por Sheils foi a teoria de “crise”, isto é, as EFCs poderiam ser
utilizadas como uma forma de dar às pessoas uma sensação de controle sobre situações
que, na vida real, não poderiam controlar. Utilizam-se muitos métodos mágicos para
criar uma ilusão de controle, sobre o clima, sobre o fracasso nas colheitas ou sobre as
doenças, mas como Sheils não descobriu nenhuma prova de que EFCs alguma vez
tenham sido usadas nesse sentido, ela acabou rejeitando a teoria.
O terceiro tipo de teoria sustenta que há uma crença tão generalizada nas EFCs por
representarem um meio através do qual os indivíduos tentam explicar as experiências
universais do sonho. Sheils refere-se, especificamente, à teoria da natureza onírica da
alma, proposta por Tylor, chamando-a de o Golias das explicações alternativas. Grosso
modo, essa teoria afirma que o homem primitivo, quando confrontado com seus
próprios sonhos, tentava explicá-los como um encontro com amigos ou inimigos, uma
conversa com os mortos ou uma excursão a lugares distantes. Numa tentativa de
explicar esses feitos, que seriam impossíveis em outras circunstâncias, o homem
primitivo chegou à conclusão de que algo, no caso o espírito da pessoa já falecida,
sobrevivera à morte física. Da mesma forma, ele poderia concluir que quando sonhava
estar viajando para lugares dis-

99
tantes fora, na realidade, sua alma ou espírito que fizera a peregrinação.
Se essa teoria estivesse correta, seria de se esperar que pudéssemos demonstrar que a
maioria das culturas interpretaram os sonhos como EFCs, ou que distinguíssemos
aquelas que mantinham crenças diferentes sobre EFCs, daquelas que não o fizessem.
Além do mais, não deveríamos supor que crenças específicas e comuns em EFCs
fossem fundamentadas em experiências que dizem ocorrer durante estados conscientes.
As provas indicam o contrário. Conforme Sheils demonstra, somente 14 das culturas
por ele estudadas (ou seja, 32% do total) colocam os sonhos ao mesmo nível das EFCs.
Já vimos que, para muitos, este fato não é verdadeiro, havendo, inclusive, algumas
culturas que fazem uma distinção específica entre sonhos e EFCs. Acrescente-se a isso o
fato de que muitas histórias de EFCs ocorreram quando a pessoa estava acordada, e que
as histórias e crenças em tomo de EFCs ocorridas tanto em sonhos como em estados
conscientes apresentam notáveis semelhanças, de maneira que se é tentado a pensar que
elas se originam de uma base comum. Tentativas de interpretar os sonhos podem ser um
estímulo importante para a crença em EFCs, mas por si mesmos não explicam por que
essas crenças são tão comuns ou por que detalhes específicos são semelhantes em
culturas separadas por continentes, oceanos e por uma variedade de estilos diferentes de
vida.
O argumento favorável à primeira teoria parece depender de uma série de pontos
semelhantes entre as experiências, os quais, no entanto, não estão livres de controvérsia.
Crookall (26h) faz uma impressionante relação de culturas em que um fio, uma fita ou
uma tira são mencionados, mas também inclui pontes, estacas ou bastões que, diga-se
de passagem, foram todos extraídos da lista de símbolos fornecida por Eliade e que
eram usados pelos xamãs para a ascensão ao ‘Paraíso”. Crookall argumenta que Eliade
desconhecia a existência de cordões “objetivos”, mas podemos igualmente contra-
argumentar dizendo que Eliade estava certo em chamá-los de símbolos. Vimos,
inclusive, que a crença mim fio de ligação não é comum, como tampouco o
aparecimento de cordões em EFCs, dentro do nosso próprio contexto cultural. A par do
que ocorre com muitos desses detalhes, é difícil saber até onde vai exatamente a
semelhança entre as crenças. Não resta dúvida de que o argumento de Crookall não é
tão convincente assim como poderia parecer à primeira vista.
Depois de terem examinado as provas e as teorias alternativas, McIntosh e Sheils
chegaram a conclusões semelhantes. McIntosh começa afirmando que as analogias por
cruzamento cultural servem de apoio para a teoria clássica da projeção astral.
Entretanto, argumenta que seria preciso

100
encontrar relações mais íntimas e detalhadas entre o fio prateado e o aparecimento do
duplo que pudessem justificar a teoria da projeção astral, e termina concluindo que essa
teoria não é a única viável. Por sua vez, Sheils rejeita as três explicações “sociológicas”
por ele examinadas, preferindo ficar com a possibilidade de que, como ele mesmo diz,
“a especificidade e a generalidade de crenças em EFCs seja, simplesmente, uma
resposta a um evento genuíno, isto é, a manifestação real de uma EFC”.
Crookall deduz que a freqüente semelhança de experiências é uma prova de um
duplo real, e Carrington (97b) pede ao leitor que se compare as experiências dos
taitianos com as de Muldoon:

Como poderia S.M. ..., vivendo numa pequena cidade de Wisconsin (sem nada ter lido do
assunto), ter feito essas observações idênticas no começo de sua adolescência – conhecer a forma e
a técnica de sair do corpo, o fio que une o astral ao físico, a maneira de viajar, a recepção que teve
no outro lado, quando fazia a projeção, e tudo o mais - se não tivesse passado por experiências de
projeção idênticas? F. absurdo supor que fossem meras coincidências, ou alucinações, ou que
tivessem sonhos tão exatamente parecidos. O que havia de comum entre ele e um curandeiro zulu
que os fizesse pensar ou sonhar da mesma forma, em todos esses aspectos? Não! O lógico é achar
que tiveram experiências semelhantes, que cada um observou do seu próprio jeito, e que essas
experiências nada mais são que fenômenos de projeção astral... (97b,pp. 234).

Em última análise, todos estes autores estão utilizando os mesmos argumentos


básicos. Concordo com eles num ponto: a crença difundida em EFCs e a consistência de
suas descrições sugerem que elas não ocorrem apenas em nossa sociedade, mas em
muitas outras. O raciocínio é simples. Se um grande número de pessoas descreve uma
experiência e se não temos um bom motivo para crer que estão mentindo ou inventando,
seríamos teimosos se não começássemos a acreditar na realidade de suas experiências.
Quando uma criança acorda de um terrível pesadelo não tentamos dizer a ela que não
esteve sonhando, ou quando um amigo nos conta as belas visões que teve ao tomar uma
droga alucinógena, não tentamos convencê-lo de que não as viu. Não; geralmente
aceitamos a experiência como verdadeira. O que não precisamos aceitar, porém, pelo
menos sem uma confirmação adicional, é a interpretação formulada.
Depois de terem sido excluídas as teorias do sonho, de “controle social” e de “crise”,
restam duas sugestões originais: a “teoria da projeção astral”, favorecida por muitos
autores já citados, e aquilo a que me referi como uma teoria psicológica da EFC. Ela
não envolveria a necessidade de

101
algum processo para se viajar aonde quer que fosse, explicando a experiência em termos
de imaginação, alucinação e memória. De acordo com tal teoria, a semelhança entre as
experiências seria o resultado de sistemas nervosos e processos psicológicos homólogos
em pessoas diferentes. É claro que não seria satisfatória nem para Crookall nem para
Carrington. De fato, colocada nestes termos, ela diz pouco, mas, sem dúvida, uma teoria
neste sentido poderia, virtualmente, explicar as semelhanças. Mais adiante, vou
examinar essa teoria com mais detalhes e só então será possível fazer uma comparação
justa entre ela e a interpretação baseada na “projeção astral”.
Por enquanto, é suficiente observar que EFCs e experiências pertinentes têm sido
conhecidas em culturas bastante’ diferentes, tal como as crenças em outros corpos além
do físico. E este é apenas um dos fatos curiosos que deveremos levar em consideração,
na tentativa de saber o que acontece realmente numa EFC.

102
9. PESQUISAS SOBRE A EFC

Uma das primeiras perguntas que minha própria EFC me impeliu a fazer foi saber
“qual a freqüência dessas experiências?” Uma compilação de casos não pode responder
a esta questão, mas uma pesquisa pode. Eu faço distinção entre compilações de casos e
pesquisas, com base em que as primeiras podem vir de qualquer fonte, enquanto as
últimas são tentativas feitas para fornecer amostra de uma população específica e fazer
as mesmas perguntas a uma quantidade de pessoas. Feito isto, é possível obter respostas
sobre a freqüência dos relatos das experiências, os tipos de pessoas mais propensos a
elas e suas características. Há várias pesquisas feitas sobre a EFC, mas antes de
considerar seus resultados, convém examinar alguns dos problemas com que elas se
defrontam.
Para descobrir, por exemplo, até que ponto a EFC é comum, podemos perguntar a
determinado número de pessoas se elas passaram por uma experiência ou não.
Teoricamente, gostaríamos de formular a cada indivíduo numa determinada população
uma questão do tipo: “Você já teve alguma EFC?” Mas, é óbvio que, na prática, só
podemos questionar certa parcela dessas pessoas, e a amostra escolhida talvez não seja
representativa do todo, em termos de idade, sexo, ocupação e, naturalmente, de
incidência de EFCs, entre elas. Nem todos estes fatores precisam ser relevantes, mas, de
qualquer.forma, os problemas consistem em selecionar uma amostra e evitar uma
predisposição para determinado tipo de amostragem. Particularmente, no caso de a
amostra escolhida ser muito pequena, os resultados obtidos terão menor chance de
serem confiáveis.
Depois de escolhida a amostra, se formula a pergunta. Mas que pergunta? Ela deverá
estar escrita ou ser feita pessoalmente por um entrevis-

103
tador? E como deve ser formulada? Se se fizesse esta simples pergunta: “Você já teve
alguma EFC?”, muitas pessoas não entenderiam, tomando-se incapazes de dar uma
resposta honesta. A forma da resposta depende, então, das “características exigidas”
pela situação, ou seja, o que as pessoas acham que se espera delas, e assim por diante.
Em último grau, a pergunta: “Você tem tido uma daquelas suas estranhas EFCs?”,
provavelmente gerará respostas diferentes desta outra pergunta: “As EFCs são
experiências bastante comuns entre pessoas perfeitamente normais; você já teve
alguma?” A situação, a hora do dia, o lugar ou até mesmo o clima podem afetar as
respostas das pessoas ou produzir uma resposta esperada ou “escolhida”.
Finalmente, se a pergunta for formulada diretamente pelo entrevistador, ela poderá
conter resquícios de suas próprias expectativas ou idiossincrasias; assim também, a
opinião que se tenha sobre o tipo de pessoa que o entrevistador parece ser, pode ter
importância. Um entrevistador jovem e atraente causa uma impressão favorável sobre os
entrevistados do sexo oposto, mais do que sobre os do mesmo sexo. Uma pessoa mais
velha se sentirá mais à vontade para responder sobre questões “pessoais” diante de outra
do mesmo sexo e idade. Por conseguinte, idade, sexo, aparência pessoal, status social e
assim por diante, são fatores que podem influir na veracidade das respostas.
Com todas estas complicações a serem levadas em conta, não podemos aceitar, pelo
seu valor extrínseco, a verdade ou a generalidade das respostas dadas por um grupo de
pessoas a uma única pergunta. Devemos reconhecer possíveis predisposições devidas às
características da amostra de entrevistados, ao teor das questões formuladas, à situação
em que é feita a entrevista e ao tipo de pessoa entrevistada. Contudo, tais dificuldades
não devem nos levar ao desespero de achar que jamais é possível tirar conclusões dos
resultados de pesquisas; é preciso apenas tratar todas as conclusões com cuidado. Tendo
estes problemas em mente, podemos agora examinar as poucas pesquisas disponíveis e
as questões que elas tentam solucionar.

1. Incidência: até que ponto são comuns as EFCs?

É possível que já tenhamos lido frases do tipo: “a EFC parece ser um fenômeno mais
ou menos comum” (124f, p. 17), ou ainda: “é uma experiência psíquica comum” (139,
p. 1); no entanto, somente uma pesquisa é

104
capaz de nos informar exatamente até que ponto ela é comum. A primeira pesquisa
nesse sentido foi realizada por Hornell Hart, da Universidade de Duke (60a). Num
estudo experimental, foi proposta uma série de perguntas sobre temas mediúnicos,
disfarçados no meio de outras questões, a uma “amostra representativa” de estudantes
de sociologia. A pergunta: “Você alguma vez já sonhou estar fora do seu corpo, ou
flutuando no ar perto dele?” foi feita a 113 estudantes, e 25% responderam “sim”. A
outros 42 estudantes foi colocada a seguinte questão: “Você já viu realmente seu corpo
físico de um ponto de vista totalmente fora dele, como se estivesse ao lado da cama,
olhando para si mesmo deitado na cama, ou como se estivesse flutuando no ar perto do
seu corpo?” Desta vez, 33% responderam “sim”. Hart combinou os dois grupos e
concluiu que 27% informaram ter tido uma EFC.
Mas tiveram mesmo? A primeira pergunta de Hart indagava se os estudantes tinham
sonhado estar fora do corpo. De acordo com a definição usada neste livro, poderíamos
escolher entre incluir ou excluir EFCs sonhadas, mas se as incluirmos, provavelmente
teremos de incluir todos os tipos de sonhos habituais em que o observador no sonho não
é o mesmo que o ator do sonho, e que talvez só sejam recordados ao acordar, além de
não terem nenhuma das qualidades de “realismo” tão freqüentemente associadas com
EFCs conscientes ou com sonhos lúcidos. A pergunta de Hart também poderia excluir
muitas EFCs. Eu, por exemplo, responderia “não”, já que em minhas EFCs eu não
estava sonhando, pelo que me consta. Em compensação, eu responderia “sim” à
segunda pergunta dele. Portanto, podemos ver que as duas perguntas não são idênticas.
A linguagem é decisiva. A amostra de Hart era pequena e muito restrita. Não devemos
supor que a resposta seria a mesma se um grupo diferente de pessoas fosse consultado.
Só nos cabe dizer que os resultados dão uma estimativa aproximada da incidência de
EFCs.
Hart também pesquisou um outro grupo. 108 pessoas que assistiam a uma
conferência preencheram um questionário, cujos resultados percentuais foram “bem
semelhantes” aos anteriores. Infelizmente, Hart não diz que questões foram enunciadas,
nem entra em detalhes sobre os resultados “bem semelhantes”. Uma vez que o público
assistia a uma palestra sobre pesquisa parapsicológica, era provável que consistisse de
pessoas interessadas neste campo, com uma boa proporção de indivíduos que tiveram
EFCs. Em outras palavras, tratava-se provavelmente de uma amostra “viciada”, de
modo que não é possível fazer conclusões seguras. Como complementação, fazem-se
vagas declarações de que a EFC é um fato “co-

105
mum”, mas não há dúvida de que são necessárias provas mais conclusivas.
Green tentou determinar a freqüência de EFCs entre estudantes ingleses. Ela fez a
seguinte pergunta a 115 estudantes da Universidade de Southampton: “Você já passou
por alguma experiência em que sentiu que estava ‘fora do seu corpo’?” 22
universitários, ou 19%, disseram “sim” (49a). Noutra pesquisa com 380 universitários
de Oxford, formulou uma questão semelhante, cuja diferença estava na ausência de
aspas. 131 pessoas deste grupo, ou 34%, responderam “sim” (49b).
Qual a probabilidade de essas estimativas serem precisas e por que são diferentes? A
meu ver, a pergunta formulada estava correta. Ao contrário das perguntas de Hart, ela
não especifica se foram “sonhadas”, nem enfatiza se “realmente” ocorreram fora do
corpo. O entrevistado só precisa dizer se “sentiu” que estava. A pergunta pode ser um
tanto indefinida, mas assim é a definição da EFC; eu a considero boa. As amostras,
porém, não foram tão satisfatórias. No estudo realizado em Southampton, o questionário
foi dado a estudantes que assistiam a uma palestra, previamente divulgada, sobre
“percepção extra-sensorial”; é provável que eles estivessem predispostos a terem um
interesse pelo paranormal, assim como é provável que a platéia incluísse um número
muito representativo de pessoas que tiveram EFCs. Green argumenta que a
predisposição poderia se dar em qualquer direção. “[...] Poderia, igualmente, ter
acontecido que a comunicação prévia atraísse pessoas contrárias à idéia de PES e que
viessem para criticar o conferencista. Parece que não houve jeito de saber em que
consistia a predisposição, se é que havia” (49b, p. 361). As opiniões sobre a PES podem
convergir nessa direção, mas a minha conclusão é que seria muito mais provável que
qualquer predisposição levasse a uma avaliação excessiva do número de EFCs.
Pode-se dizer o mesmo com relação à segunda amostra de Green. Visto que os
estudantes eram voluntários para experimentos de PES, era de se esperar que eles
tivessem tido um número bastante razoável de EFCs. Quanto à razão por que as
percentagens diferem tanto, não consigo apresentar nenhuma explicação plausível. Uma
vez que as amostras parecem ser “viciadas”, é bem possível que uma seja mais
tendenciosa que a outra, mas qualquer especulação do gênero só pode ser feita post hoc.
A própria Green não oferece qualquer explicação. Acho que só podemos aceitar essas
amostras como estimativas — e talvez exageradas — da incidência de EFCs entre
estudantes.
Duas pesquisas utilizaram amostras bem equilibradas, extraídas de populações
específicas. A primeira foi conduzida por Palmer e Dennis

106
(111, 110d). Eles escolheram os habitantes de Charlottesville, na Virgínia, cidade com
cerca de 35.000 pessoas, para teste populacional e selecionaram 1.000 delas como
amostra. A Universidade de Virgínia, em Charlottesville, abrange uma grande parcela
da população, de modo que houve uma proporção adequada tanto de estudantes como
de pessoas da cidade. 700 cidadãos foram selecionados pelo catálogo telefônico e 300
estudantes pela listagem da Universidade, usando-se números aleatórios, fornecidos
pelo computador. Um questionário sobre “experiências paranormais” foi enviado pelo
correio, para cada pessoa, havendo um retomo de respostas aproveitáveis de 534
cidadãos (76%) e 268 estudantes (89%). A pergunta sobre EFCs foi formulada da
seguinte maneira: “Você já teve alguma experiência em que sentiu que você estava
localizado fora ou longe do seu corpo físico; isto é, teve a sensação de que sua
consciência, mente ou percepção estava num lugar diferente de seu corpo físico? (Em
caso de dúvida, queira responder ‘não’.)” 25% dos estudantes e 14% dos cidadãos
responderam “sim” a esta questão.
Como antes, devemos indagar até que ponto é possível confiar nestas estimativas. A
amostra foi bem selecionada e, embora nem todos os questionários tenham sido
devolvidos, não é provável que este fato tenha influenciado os resultados. No caso dos
estudantes, o índice de retorno foi da ordem de 89%, que é muito elevado para uma
pesquisa deste tipo. E, apesar de ter sido menos satisfatório, em relação aos habitantes
da cidade (51%), Palmer enviou o questionário três vezes a pessoas que não
responderam na primeira vez. Como uma análise complementar não demonstrou
mudanças progressivas no padrão de respostas nas três séries de retornos, ele concluiu
que os que nunca devolveram os questionários, não dariam respostas acentuadamente
diferentes.
Podemos, então, nos perguntar por que os estudantes representavam o mais alto
índice. Considerando-se que, provavelmente, a sua média de idade era mais baixa,
poder-se-ia supor que relatassem um número menor de experiências, por terem tido
menos tempo para tê-las. Mas existem outras possibilidades. Talvez se lembrassem
melhor das experiências da infância do que as pessoas mais velhas. Talvez tivessem
tomado drogas psiquicamente mais ativas do que os cidadãos, e que ocasionaram as
experiências. Talvez as pressões sociais sejam diferentes entre os grupos. Talvez relatar
uma EFC fosse visto como algo atraente, no contexto da comunidade estudantil dos
anos 70, e recebido com menos aprovação pelos cidadãos. Se a razão da diferença fosse
esta, implicaria que o motivo da ocorrência era muito mais artificial do que devido a
reais diferenças.

107
Dados adicionais desta pesquisa permitem-nos adotar essas possibilidades — uma
vantagem que este tipo de pesquisa oferece. Os estudantes eram mais jovens (quase
todos estavam abaixo dos 30 anos), mas não se constatou nenhuma relação entre o fator
idade e as EFCs relatadas. Embora a questão relativa à pressão social não possa ser
respondida, existe prova de que o consumo de drogas era importante. Havia uma
pergunta sobre se os entrevistados alguma vez usaram “drogas ou remédios ‘que agiam
na expansão da mente’“ e, em caso positivo, se tiveram alguma experiência
parapsíquica relacionada, enquanto sob efeito delas. 7% dos cidadãos e 32% dos
estudantes disseram que sim. Pode ser que esta seja uma estimativa muito baixa, já que
os entrevistados talvez tivessem receio de complicações com a lei se dissessem “sim”.
Palmer achava que o uso de drogas era um prenuncio insignificante da maioria das
experiências parapsíquicas relatadas; mas, na amostra de estudantes, constatou um
relacionamento positivo e importante entre o uso de drogas e EFCs, e concluiu que isso
explicava a maior ocorrência de EFCs em estudantes. É claro que as EFCs não ocorriam
necessariamente sob a influência das drogas, mas elas podem ter facilitado tais
experiências. Com efeito, 13% dos cidadãos e 21% dos estudantes que relataram EFCs
afirmaram que tiveram pelo menos uma, ingerindo drogas.
O fato de que existe uma relacionamento entre o consumo de drogas e EFCs encontra
respaldo na obra de Tart (199). Em uma pesquisa com 150 viciados em maconha, este
autor verificou que 44% alegaram ter EFCs. Visto que esta percentagem está bem acima
de qualquer média apresentada até agora para outros grupos, é possível que o uso de
maconha facilite as EFCs. Evidentemente, há outras razões para este índice elevado. As
pessoas com maior probabilidade de ter EFCs talvez sejam exatamente do mesmo tipo
daquelas que provavelmente consomem maconha. Pelo fato de que a pesquisa consistiu
especificamente de viciados em drogas, os resultados não podem ser diretamente
comparados com os de outras pesquisas. Não obstante, considerando-se estes resultados
e as constatações de Palmer, parece, ao menos, possível que certas drogas estimulem as
EFCs e que seja por isso que os estudantes entrevistados afirmem terem tido muitas
dessas experiências.
A segunda pesquisa, que utilizou uma amostra bem planejada, foi efetuada por
Erlendur Haraldsson, um pesquisador islandês, e seus colegas da Universidade da
Islândia, em Reikjavic (58). A Islândia é um pequeno país, com uma população de
apenas cerca de 210.000 pessoas. Um questionário para a pesquisa foi enviado a uma
amostra aleatória de 1.157

108
pessoas, na faixa dos 30 a 70 anos, selecionadas do Registro Civil Nacional. Depois de
terem sido excluídos os residentes no exterior, os já falecidos, e assim por diante,
restaram 1.132 pessoas para a pesquisa. Após três expedições pelo correio, seguidas por
avisos telefônicos e até mesmo visitas domiciliares, uma taxa de retomo de 80% foi
alcançada. Havia 53 perguntas sobre várias experiências psíquicas e parapsíquicas,
inclusive uma tradução da pergunta de Palmer. A esta, apenas 8% dos islandeses
responderam sim.
Este índice baixo reflete uma peculiaridade do povo islandês? Se a resposta for
positiva, é um fato estranho pois, na mesma pesquisa, constatou-se que os islandeses
relataram um número maior dos outros tipos de experiências investigados do que o dos
americanos. Será que entenderam um outro significado para a pergunta? É muito difícil
saber, mas esta interpretação nos leva a um outro problema que se aplica a todas as
pesquisas: a possibilidade de surgimento de uma predisposição na pesquisa, pois as
pessoas que tiveram uma EFC compreendem melhor o sentido da pergunta do que as
que não tiveram, por mais cuidadosa que seja a maneira de enunciar a pergunta.
Deixem-me explicar melhor o problema. Se se fizer uma pergunta sobre EFC a uma
pessoa que já teve uma, a de Palmer por exemplo, ela compreenderá imediatamente o
sentido da questão, reconhecerá sua própria experiência e responderá “sim”. É bastante
improvável que diga “não”, havendo, assim, poucas negativas falsas. Por outro lado,
para a pessoa que não teve uma EFC a probabilidade de entender a questão é menor,
porque não há nada em sua própria experiência para ajudá-la. Muitos dirão “não”, talvez
a grande maioria, mas alguns podem ser incapazes de imaginar o que é uma EFC e
responder “sim”, com fundamento em sonhos ou devaneios. Por conseguinte, haverá
algumas respostas positivas falsas e, no cômputo geral, este fato tenderá a produzir uma
superestimativa da incidência de EFC. O fato terá uma dimensão ainda maior quando
houver mais ambigüidade na pergunta, ou pelo menos conhecimento sobre EFCs no
grupo entrevistado, ou quando, por alguma razão, houver maior probabilidade de que os
entrevistados interpretem erroneamente a pergunta. Supõe-se que tenha sido este o
motivo por que Palmer acrescentou aquele adendo: “Em caso de dúvida, responda
‘não’”, mas nem por isso se deve esperar que este efeito seja excluído totalmente.
Deve ser possível descobrir se esse efeito é importante. Há duas pesquisas relevantes
aqui. Num curso de parapsicologia na Universidade de Surrey, dei aos estudantes um
questionário por ano, no período de 1976

109
a 1979, que incluía esta questão: “Você já teve uma experiência fora do corpo?” Todos
os estudantes conheciam as EFCs, tinham assistido a uma conferência sobre o assunto e
tinham ouvido falar de casos discutidos. Duvido que algum deles tenha entendido mal a
pergunta. Por isso, é curioso que só 13% do total afirmaram ter tido uma EFC (ver
Quadro 2).

Quadro 2 Pesquisas Sobre a EFC

* Associação para a Pesquisa e Iluminação Espiritual.

Num estudo experimental com estudantes que não conheciam parapsicologia, 11 entre
33, ou 33%, declararam ter tido uma EFC (9d). Essa diferença revelou ser falsa, pois,
num segundo estudo, mais amplo, foi feita a mesma pergunta a 115 estudantes da
Universidade de Bristol, dando-se

110
apenas uma definição da EFC. 14% deles haviam tido tal experiência. Parece, portanto,
que faz pouca diferença se os estudantes dispunham ou não de muitas informações
prévias sobre EFCs. Posteriormente, esse fato se confirmou num estudo destinado a
comparar dois grupos: a um haviam sido dadas informações detalhadas sobre EFC
enquanto que a outro nada fora revelado. Nesse estudo, ambos os grupos, formados por
estudantes da Universidade de Amsterdã, totalizavam 18% de indivíduos que tiveram
uma EFC.
Individualmente, todos os estudos desses grupos diferentes se vêem às voltas com os
mesmos problemas. Seria razoável que os estudantes de parapsicologia demonstrassem
um interesse especial em EFCs e que talvez relatassem mais casos. Além do mais,
nenhum dos grupos era muito amplo, mas conseguimos elaborar um quadro geral que
mostra que 13% dos estudantes britânicos e 18% dos estudantes holandeses afirmam ter
tido uma EFC, não importando o grau de informação que tivessem anteriormente.
Outra pesquisa foi realizada, no outro lado da Terra, com estudantes australianos.
Irwin (65a) deu uma versão simplificada do questionário de Palmer sobre experiências
mediúnicas aos estudantes de um curso de psicologia da Universidade da Nova
Inglaterra. A pergunta sobre EFC era a mesma feita por Palmer, à qual 36 entre 177
estudantes, isto é, 20%, disseram sim. Irwin, entretanto, não aceitou este fato como a
verdadeira incidência de EFCs. Pediu que fizessem descrições complementares das
supostas EFCs, o que lhe permitiu excluir algumas. Das 36, cinco deram descrições que
Irwin não classificou como EFCs; outros nove deram descrições imprecisas demais para
permitir uma classificação precisa, e um não deu nenhuma descrição. Pelo critério mais
rigoroso, só 21, ou 12%, foram contados como tendo tido uma EFC. A exemplo de
Palmer, Irwin incluíra a cláusula: “Em caso de dúvida, responda ‘não’”, mas é evidente
que esta não é uma maneira segura de excluir todos os erros. Parece, assim, que
mediante um critério mais rigoroso para o que é válido como uma EFC, há uma queda
considerável na incidência. Finalmente, Kohr (74) entregou o questionário de Palmer a
membros da Associação para a Pesquisa e Iluminação Espiritual. Houve,
aproximadamente, 400 respostas, 50% das quais afirmavam ter tido uma EFC. Este
índice bastante elevado não é de surpreender, devido ao fato de que essas pessoas
tinham um interesse particular pelo assunto.
Afinal, qual é a taxa de incidência de EFCs? A cifra exata obtida vai depender do
entrevistado, da questão formulada e das circunstâncias de tempo e lugar. Mas podemos
tirar algumas conclusões. Todos os resultados

111
de onze pesquisas foram discutidos e são apresentados, a título de comparação, no
Quadro 2. As porcentagens variam de 8 a 50%.
Em geral, as pesquisas mais antigas se defrontaram com maiores dificuldades, em
termos das amostras utilizadas e das questões enunciadas, mas nenhuma é perfeita e
delas restaram várias estimativas. Já que existem motivos para acreditar que muitos
cálculos são exagerados, sou de opinião que os números mais baixos são mais exatos.
Além disso, já sabemos que os estudantes tendem a fornecer os índices mais altos e que
a maior parte das pesquisas foi feita com estudantes e por isso a percentagem de outras
pessoas talvez seja menor. Até que ponto, porém, desejamos que a nossa resposta seja
precisa? Chega um limite em que o aumento de precisão não vale o esforço despendido.
Se fizermos um esforço no sentido de realizarmos pesquisas cada vez melhores, pode
ser que tenhamos estimativas mais precisas sobre a incidência da EFC, mas,
paralelamente, seremos forçados a estabelecer, cada vez mais com rigor, critérios para
uma EFC e, conseqüentemente, a sua definição. No final das contas, se perguntarmos a
uma pessoa X se teve ou não uma EFC, acabaremos precisando de uma definição
extremamente específica de uma EFC para que ela possa responder, o que dá margem a
todos aqueles problemas de definição já discutidos. Chego à conclusão de que estas
pesquisas, apesar de todos os seus problemas e inadequações, nos possibilitam
responder muito bem à primeira pergunta. Aquelas vagas afirmações a respeito de que
EFCs são comuns recuam agora diante de uma variedade de números. Se eu tivesse de
fazer uma estimativa pessoal da incidência de EFCs, com base em todas as evidências
disponíveis, diria que ela gira em torno de 10%. Outros, sem dúvida alguma, dariam
uma proporção maior, mas acho que, em termos gerais, agora podemos dizer com mais
convicção que a EFC é uma experiência bastante comum!

2. A distribuição de EFCs

Na compilação de casos, vimos que, enquanto algumas pessoas só tiveram uma única
EFC na vida, outras, ao contrário, tiveram muitas, podendo até mesmo aprender a
induzi-las voluntariamente. Organizando uma pesquisa, é possível descobrir a
proporção de pessoas que relataram várias EFCs. Em minhas pesquisas com estudantes,
exatamente a metade daqueles que relataram uma EFC havia tido mais de uma. Porém,
de cerca de 300 estudantes, só dois afirmaram ser capazes de induzir uma
voluntariamente. Na pesquisa de Palmer, aproximadamente 80% de indi-

112
víduos com EFCs, incluindo estudantes e cidadãos, haviam tido mais de uma
experiência e 20% declararam ter produzido uma voluntariamente, o que é uma
constatação um tanto diferente. 72% dos entrevistados por Kohr, que passaram por uma
EFC, tiveram múltiplas experiências desse tipo. Em comparação, Green, em sua
compilação de casos, descobriu que só 39% tiveram mais de uma EFC, o que constitui
mais uma diferença. Portanto, aqui, não surge nenhum quadro nítido. No entanto, pode-
se afirmar que, se um indivíduo teve uma EFC, é mais provável que tenha outra. Todos
esses números são muito mais elevados do que seria de esperar se EFCs fossem
distribuídas ao acaso entre a população. Podemos, pois, concluir ou que determinada
pessoa esteja mais propensa a ter EFCs e, conseqüentemente, mais de uma também, ou
que, uma vez que uma pessoa tenha tido uma EFC, ela aprendeu algo que lhe possibilita
ter outra com mais facilidade. Poderia acontecer que as pessoas que as tiveram estejam
ansiosas para ter outra e, portanto, se esforcem mais do que as outras pessoas; apesar, é
claro, de alguns experimentadores não quererem mais nenhuma – uma já é mais do que
suficiente! Se há determinados tipos de pessoas mais propensas a EFCs, é algo que
também deve ser detectado a partir dos resultados de pesquisas; de fato, algumas
pesquisas foram conduzidas tendo em vista esse propósito.

3. As pessoas que têm EFCs

Tendo encontrado uma percentagem de 34% de respostas afirmativas a sua pergunta


inicial, Green prosseguiu comparando grupos diferentes a fim de verificar se haviam
tido números diferentes de EFCs. Em relação aos estudantes de Southampton e de
Oxford, não constatou diferenças no que diz respeito ao fato de serem estudantes de
“ciências humanas” ou de “ciências exatas”, de pertencerem ao sexo masculino ou
feminino ou de terem freqüentado escolas diferentes. A única descoberta que fez foi que
os estudantes com EFCs tinham mais probabilidade de relatar experiências consideradas
por eles como sendo apenas PES. Esse mesmo fato foi verificado por Palmer e Kohr.
Naturalmente, os estudantes de Southampton, entrevistados por Green, constituíam uma
amostra tendenciosa, ao passo que o grupo de Palmer pode ser considerado mais
representativo, tanto em termos de EFCs como de população utilizada.
Palmer e Kohr constataram que os sujeitos que relataram um tipo de experiência
parapsíquica ou relacionada com fenômenos mediúnicos, tinham tendência a relatar
outros. É evidente que isto talvez se deva ou a

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uma ocorrência verdadeira de todos os tipos de experiências paranormais na mesma
pessoa, ou a uma tendência não especificada que certas pessoas tinham de relatar mais
experiências de todos os tipos ou de interpretar com bastante freqüência acontecimentos
cotidianos como “mediúnicos”. Sabe-se muito pouco a respeito de como tais
experiências passaram a ser rotuladas de “mediúnicas” ou “paranormais”. Ê claro que
algumas pessoas, com grande vontade de acreditar na própria capacidade mediúnica,
interpretarão quase todas as coincidências insignificantes como “mediúnicas”. Outras,
extremamente céticas, atribuirão os eventos mais extraordinários ao acaso. As primeiras
são, às vezes, consideradas como casos patológicos, mas pouco se sabe sobre as
variações intermediárias. E, certamente, essas variações são responsáveis por grandes
diferenças nas respostas dadas aos quesitos da pesquisa.
Este aspecto nos leva a indagar se o mesmo fato poderia ser responsável pelo enorme
contingente de pessoas que relatam múltiplas e variadas EFCs. Será possível que estão
apenas demonstrando uma tendência a “exagerar” a experiência que tiveram, ou será
que afirmam ter tido outras mais? Se assim fosse, deveríamos supor que houvesse
menos informes de EFCs múltiplas em pesquisas cujo critério foi mais rigoroso.
Virtualmente, seria possível investigar esse aspecto, mas Irwin não relata EFCs
múltiplas e, em minhas próprias pesquisas, não faz muita diferença se os estudantes
sabiam muito a respeito de EFCs ou não. Por conseguinte, não temos condições de
esclarecer este ponto.
Da mesma forma que Green, Palmer também constatou que muitas variáveis simples
eram irrelevantes. Sexo, idade, raça, circunstâncias de nascimento, opiniões políticas,
visão e hábitos religiosos, educação, profissão e nível econômico — nenhum desses
fatores tinha relação com EFCs. A única exceção foi o estado civil; porém,
considerando-se a enorme quantidade de análises, provavelmente este fator era falso.
Haraldsson não informa esses detalhes em relação a EFCs apenas, mas acho justo dizer
que estes simples fatores variáveis não nos permitem saber que tipo de pessoa tem mais
probabilidade de ter uma EFC.

4. Outras questões

Possivelmente, muitas outras questões poderiam ser respondidas por meio de uma
pesquisa. Dei a alguns dos médiuns com que trabalhei um teste de PES, cujos resultados
não demonstraram se eles tiveram ou não uma EFC. Palmer encontrou relacionamentos
significativos entre EFCs

114
e a prática de meditação, experiências místicas e, como já vimos, experimentos com
drogas. A partir daí, começou a descobrir mais detalhes sobre EFCs relatadas, o que foi
possível devido ao fato de que utilizaram uma amostra muito mais ampla do que as
demais pesquisas. Palmer localizou cerca de 100 pessoas que relataram uma ou mais
EFCs e fez a elas várias perguntas sobre a experiência. Perguntou-lhes se haviam visto
seu corpo físico de uma “posição externa” a ele, o que foi confirmado por 44% das
experiências e por quase 60% dos indivíduos com EFCs. Parece, portanto, que esta
peculiaridade, embora comum, não é, evidentemente, unânime. Um número ainda
menor de médiuns com EFCs afirmou viajar até um lugar distante para “ouvir” ou “ver”
o que estava acontecendo lá. Menos de 20% das experiências envolviam
“deslocamento”, e menos de 30% dos médiuns com EFCs relataram este aspecto. Um
número ainda menor do que era de se esperar informou que havia obtido informações
por meio de PES enquanto “fora do corpo” (cerca de 14% das pessoas e 5% das
experiências) ou que haviam surgido como uma aparição para outrem (menos de 10%
dos médiuns com EFCs). Estes resultados confirmam as descobertas das compilações de
casos: que poucas EFCs contêm todos os aspectos de uma projeção astral clássica.
Osis (103f) aplicou um questionário num grupo de professores de parapsicologia e a
outros interessados. É claro que quaisquer taxas de incidência estariam fortemente
influenciadas, mas, mesmo assim, ele conseguiu descobrir muita coisa sobre a natureza
da experiência. Por exemplo, um fato típico foi que os médiuns relatavam experiências
ricas em detalhes visuais, descritos com precisão. Muitos viram objetos em perspectiva
normal, mas, para uma boa parte (4-0%), sem mais nem menos, ela se desgovernou,
produzindo uma visão às 360° que abarcava tudo bem de perto, e assim por diante;
metade dos indivíduos viu objetos com brilho intenso ou transparentes, ou auras em
torno deles. Todos estes detalhes podem parecer meio esquisitos e fantasiosos, mas só
4% deste grupo afirmaram que suas experiências assemelh3vam-se a visões oníricas.
No que diz respeito a um outro corpo, 36% afirmaram ter um. 22% referiram-se a ele
como “um corpo ilimitado, 14% consistiam de uma bola ou um ponto e outros tipos
diversos. No geral, a EFC parece ter tido um efeito bastante benéfico sobre os
experimentadores. Muitas afirmaram que seu medo de morrer diminuiu e que sua saúde
mental e seus relacionamentos sociais melhoraram, 95% disseram que gostariam de ter
outra EFC.
Omiti dois outros aspectos importantes de algumas pesquisas. Várias investigaram as
relações entre o fato de contar uma EFC e a capacidade

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de imaginação dos entrevistados, e várias propuseram questões sobre sonhos lúcidos e
sua ligação com EFC. Visto que essas questões são importantes, voltarei a falar sobre
elas oportunamente, mas antes eu gostaria de investigar alguns dos métodos que foram
utilizados para induzir uma EFC.

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10 COMO INDUZIR UMA EFC

Já mencionei vários iniciados que podiam produzir uma EFC voluntariamente e, a


julgar pelas compilações de casos e pesquisas, muitas outras pessoas podem fazer o
mesmo. O leitor pode estar agora curioso para saber que métodos eles usaram e se
qualquer pessoa pode aprender a ter uma EFC. Neste capítulo, vou examinar vários dos
métodos que foram recomendados.
Conforme veremos, muitos métodos utilizam como ponto de partida técnicas
destinadas a aperfeiçoar a capacidade de relaxamento, imaginação e concentração do
principiante. Muitos ocultistas chamaram a atenção para a importância do relaxamento
físico em EFCs, chegando até a sugerir que o relaxamento é essencial para garantir uma
“boa” experiência (12). O ideal parece ser um estado de relaxamento físico, ou mesmo
catalepsia, combinado com um espírito atento. Os que praticam a meditação vão achar
familiar esse estado e inclusive há ocasionais relatos de EFCs durante a meditação e a
ioga.
Se você não sabe como relaxar, uma das maneiras mais fáceis é fazer um
relaxamento muscular gradual. Em linhas gerais, a técnica consiste em começar pelos
músculos dos pés e tornozelos, tensionando-os e relaxando-os alternadamente, depois, ir
subindo pelos músculos da barriga das pernas e das coxas, peito, braços, pescoço e
rosto, até que todos os músculos tenham sido contraídos e relaxados. Quando feito com
cuidado, este procedimento leva a um relaxamento bem profundo no espaço de alguns
minutos e, com a prática, vai ficando mais fácil.
Muitos viajantes astrais enfatizaram a importância de uma imaginação ou
visualização perspicazes na indução de EFCs e, é claro, o treinamento da imaginação
constitui parte importante do desenvolvimento nas artes

117
mágicas. A maioria das pessoas tem alguma habilidade para imaginar e, mais adiante,
examinarei as formas de medir esta capacidade, mas, por enquanto, tente apenas realizar
esta simples tarefa para ver quão eficaz é a sua própria imaginação. Leia as instruções
devagar e depois tente imaginar cada etapa à medida que for prosseguindo.
Imagine uma laranja. Ela está sobre um prato azul e você sente vontade de comê-la.
Você enfia a unha na casca e remove parte dela. Continue descascando-a até o fim,
juntando as cascas no prato. Agora divida a laranja em gomos, ponha-os também sobre
o prato e, depois, coma um deles.
Se esta tarefa não lhe der água na boca e não conseguir sentir o sumo que
naturalmente espirra da laranja, nem provar o seu sabor, então você não tem uma
imaginação viva ou treinada. Tente de novo, com os olhos abertos e, em seguida, com
os olhos fechados para decidir qual das duas maneiras acha mais fácil. As cores devem
ser vivas e intensas e as formas e aspectos, claros e definidos. Com a prática desta e de
tarefas análogas, sua imaginação irá se aperfeiçoando até que você fique surpreso, sem
compreender como é que, antes, ela podia ser tão pobre.
Métodos progressivos de treinamento da imaginação são, freqüentemente, descritos
em tratados de ocultismo e magia, podendo-se encontrar uma orientação útil nas noções
elementares de ocultismo de Conway (24) e nas “passagens astrais” de Brerman (14). A
maior parte desses métodos começa com a prática constante de visualizar formas
geométricas simples e, depois, vão passando gradualmente para tarefas mais
complicadas, que consistem em imaginar formas tridimensionais complexas,
compartimentos inteiros e cenários abertos. Imaginar que o próprio corpo está se
expandindo ou contraindo muito, mudando de forma ou entrando e saindo de objetos
sólidos são também proezas comuns. Aqui está uma técnica mais difícil.
Visualize um disco, em branco e preto. Em seguida, imagine que ele gira em torno
do próprio eixo, subindo rápido e depois descendo devagar, até parar completamente.
Continue imaginando que o mesmo disco mudou de cor e ficou vermelho, mas, à
medida que gira, vai passando sucessivamente para as cores laranja, amarela, verde,
azul e lilás. Finalmente, experimente colocar dois discos lado a lado, girando em
direções opostas e mudando de cor também no sentido inverso. Em meu próprio
treinamento descobri que muitos destes testes, que pareciam tão difíceis no começo,
logo foram ficando cada vez mais fáceis. É claro que ninguém, a não ser você mesmo,
vai saber se está se saindo bem, mas a mudança será óbvia para você.

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Outras práticas úteis são concentração e controle. Você não só deve ser capaz dae
desenvolver uma imaginação viva, mas também de eliminar toda a imaginação da
mente, de reter imagens pelo tempo que quiser e de mudá-las quando quiser, tanto
rápida como lentamente. Brerman (14) sugere que se tente contar simplesmente, e nada
mais. No instante em que outro pensamento lhe vier à cabeça, você deve parar e voltar
desde o começo. Se você chegar a quatro ou cinco, está indo bem, mas é quase certo que
será interrompido por pensamentos como estes: “Isto é fácil, até já cheguei a três”, ou:
“Eu gostaria de saber até onde devo continuar.” Pessoas treinadas em determinados
tipos de meditação acharão fáceis estes exercícios, mas para outras é aconselhável uma
certa prática.
Afirma-se constantemente que todas essas habilidades – relaxamento, imaginação e
concentração – são necessárias para produzir uma EFC voluntariamente. A postura
também ajuda. Se você estiver deitado, poderá pegar no sono, apesar de Muldoon (97a)
recomendar esta posição. Por outro lado, não há dúvida de que o desconforto interferirá
na tentativa. Portanto, é melhor que procure uma postura atenta, mas confortável.
Alguns entendidos sugerem que é melhor não se alimentar algumas horas antes e evitar
qualquer tensão, irritação ou emoções negativas. O álcool atrapalha. Outros aconselham
que se espere com paciência até que se concretize a projeção desejada; mas, com toda a
certeza, as.condições ideais para cada indivíduo são diferentes e só podem ser
descobertas pela prática. Com todas estas coisas em mente, podemos agora voltar a
alguns métodos utilizados para produzir uma EFC.

1. Técnicas criativas

É possível usar apenas a imaginação, mas essa técnica exige muita habilidade.
Existem dois métodos básicos.
a) Deite-se de costas numa posição confortável e relaxe. Imagine que está levitando,
acima da cama. Mantenha essa posição, numa certa altura, por algum tempo, até perder
toda a sensação de contato com a cama ou o chão. Uma vez conseguido isto, vá subindo
lentamente, desprendendo-se do corpo e flutuando cada vez mais alto. Passe aos poucos
para uma posição ereta e comece a afastar-se do corpo, dando uma volta pelo quarto.
Preste atenção nos objetos e detalhes do quarto. Só quando você tiver conseguido certa
prática, é que deve tentar se virar e olhar para seu próprio corpo.

119
Apesar de ter ouvido muitas vezes sugerirem este método, cada estágio pode levar
meses de prática e acho que não é nada fácil para qualquer um que não esteja
acostumado a fazer EFCs. No entanto, pode ser útil quando combinado com outros
métodos.
b) Numa posição confortável qualquer, feche os olhos e imagine que há uma
reprodução de você mesmo, parada na sua frente. Você vai achar muito difícil imaginar
seu próprio rosto, de modo que é mais fácil imaginar este sósia, de costas para você.
Tente observar cada detalhe de sua postura, de suas roupas (se estiver vestido) e assim
por diante. À media que esse sósia imaginário for ficando cada vez mais concreto e real,
você poderá sentir alguma incerteza a respeito de sua própria posição física. Estimule
esta sensação, refletindo na seguinte questão: “Onde é que estou?”, ou mesmo em outras
questões semelhantes, do tipo: “Quem sou eu?” e assim por diante. Uma vez que o
duplo esteja claro e firme, e você se sinta relaxado, transfira sua consciência para ele. Aí
então você estará apto a “projetar-se” neste fantasma criado pela sua própria
imaginação. Novamente, cada estágio pode requerer uma longa prática.
Se você tentar estes exercícios, uma importante questão teórica assume um
significado prático. Quer dizer, qual é a diferença entre imaginar que você está tendo
uma EFC e ter realmente uma? Se você imaginar um duplo, este processo causa, de
algum modo, a separação do corpo astral, conforme afirma a teoria da projeção astral,
ou será que todas as EFCs não passam realmente de pura imaginação? Pela definição da
EFC, você está tendo uma se “tem a impressão de estar” fora do seu corpo físico.
Portanto, cabe a você decidir se está ou não. Se estiver muito côns-cio de sua posição
física, então não está “fora do corpo”, mas existem muitas etapas intermediárias entre
uma coisa e outra. Alguns iniciados dizem que isto fica claro quando você tiver
alcançado o estado desejado, e que há uma nítida diferença entre imaginação e o estado
de indescritível lucidez numa EFC. Outros constataram que, com o tempo, vivenciavam
situações que iam desde estados claramente imaginários e indefinidos, até estados de
consciência intensa e real. Há, então, dois tipos de experiência: uma EFC “imaginária” e
outra verdadeira? Ou será que existe uma ampla gama de experiências, em que não é
possível traçar uma linha divisória? Retornaremos a esta questão quando tentarmos
compreender a EFC.
Em suma, estes são apenas dois dos métodos que trabalham exclusivamente com a
imaginação, mas há diversos outros que os prolongam e desenvolvem de maneiras
diferentes. Os cinco métodos seguintes envolvem a visualização, mas apenas como
parte de uma técnica mais especializada.

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2. Criando uma motivação especial para deixar o corpo

Pode ser que a técnica para deixar o corpo, recomendada por Muldoon e Carrington
(97a), o convença. Eles acham que quando se deseja intensamente alguma coisa, o
subconsciente procurará instigar o corpo para obtê-la, mas se o corpo físico estiver
imobilizado, durante o sono por exemplo, nesse caso então, o corpo astral é que se
movimentará no lugar dele. Poder-se-iam usar muitas motivações, Muldoon, porém, não
aconselha o uso do desejo por atividade sexual, que é perturbador, ou com o intuito
danoso de vingança ou de maltratar alguém. Em vez disso, propugnava o desejo simples
e natural de matar a sede. Sua vantagem está na rapidez com que pode ser criado e na
possibilidade de ser satisfeito.
O que você precisa fazer é abster-se de ingerir líquidos algumas horas antes de ir
dormir. Durante o dia aumente sua sede, utilizando-se de todos os meios possíveis.
Ponha um copo com água na sua frente e fique olhando para ele; imagine que está
bebendo, mas não se permita fazê-lo realmente. Então, antes de ir para a cama, ingira
“cerca de um oitavo de uma colher de chá” de sal. Escolha um lugar convenientemente
afastado da cama para deixar o copo com água e repasse mentalmente todas as ações
necessárias para alcançá-lo: levantar-se, atravessar o quarto, estender a mão para pegá-
lo e assim por diante. Em seguida, você deve se deitar, ainda mentalizando sua sede e os
meios de satisfazê-la. O corpo deve ficar inerte, de modo que você deve estar relaxado,
respirando suavemente e diminuindo o batimento cardíaco; por fim, tente dormir. Com
um pouco de sorte, as auto-sugestões que criou farão com que a EFC desejada aconteça.
Muldoon assim descreve os resultados que conseguiu com este método (971, p. 129):

Sonhei que estava caminhando por uma estrada empoeirada. Fazia um calor sufocante. Eu
estava com sede, mas não achei onde beber. Rasguei a camisa e tentei umedecer os lábios com o
suor nela contido.
A sede foi aumentando. Já estava ficando fraco e cego com o sol quando, afinal, cheguei a uma
fazenda. Meu Deus, havia um moinho de vento! Corri o mais rápido que pude até b tanque
debaixo dele - mas estava seco. Levantei os olhos para a roda e vi que não estava girando. Sabendo
que a água seria bombeada se a roda girasse, comecei a subir pela armação, com a intenção de
ficar em pé no alto da plataforma e girar a roda com a mão a fim de bombear água para dentro do
tanque e, depois, descer para bebê-la.
Comecei a subir pela escada do moinho. Bem na hora em que alcancei o topo, a roda começou
a girar rapidamente e prendeu minha roupa, me

121
arremessando para fora, em pleno ar. Fiquei contente (no sonho) de estar voando pelo ar, pois
pude ver que estava avançando rapidamente em direção a um rio perto de minha casa, e que
provavelmente satisfaria minha sede ali. Não demorou muito e eu já estava de joelhos na beira do
rio, bebendo água. Foi neste instante que minha consciência clareou e percebi que era meu corpo
astral que estava na margem do rio.

Assim, criando a vontade de beber, sonhando que estava à procura de água, subindo
e descendo no sonho e, por fim, recuperando a lucidez ou a consciência de que tudo não
passava de um sonho, Muldoon realizava a projeção. Todavia, não sei de mais ninguém
que tenha tido êxito com esta técnica e, na minha opinião, esse método não é dos mais
agradáveis ou eficazes.

3. O “pequeno sistema” de Ophiel

Ophiel (102) sugere que você escolha um trajeto familiar, talvez a distância entre um
quarto e outro da sua casa, e que memorize cada detalhe dele. Selecione, no mínimo,
seis pontos ao longo dele e passe vários minutos por dia olhando para cada um e
fixando-os na memória. Símbolos, aromas e sons associados aos pontos podem reforçar
a imagem. Assim que tiver gravado o itinerário e todos os pontos na memória, deite-se e
relaxe, tentando “projetar-se” até o primeiro ponto. Se o trabalho preliminar tiver sido
bem feito, você será capaz de se mover de um ponto para outro e voltar novamente.
Mais tarde, pode começar a jornada imaginária a partir da cadeira ou da cama onde seu
corpo estiver e, então, observar a si mesmo enquanto faz os movimentos ou transferir
sua consciência para aquele que estiver fazendo os movimentos. Ophiel descreve outras
possibilidades, mas, em suma, se você tiver dominado totalmente o trajeto na sua
imaginação, será capaz de se projetar, e percorrê-lo e, com a prática, prolongar a
projeção.

4. A técnica de Christos

Esta técnica foi originalmente desenvolvida como um meio de entrar em contato com
“vidas passadas”. G. M. Glaskin, um jornalista australiano, experimentou-a com seus
amigos e a popularizou em vários livros, a começar por Windows of the Mind [Janelas
da mente] (48). Posteriormente, a técnica sofreu uma adaptação a fim de induzir as
EFCs. O método é basicamente o seguinte:

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São necessárias três pessoas: uma como médium e duas para prepará-la. O médium
se deita confortavelmente de costas, num quarto aquecido e escuro. Música e luz suaves
podem ser usadas para criar uma atmosfera relaxante. Um ajudante, em seguida,
massageia os pés e tornozelos do médium com bastante firmeza, com certa aspereza até,
enquanto o outro segura-lhe a cabeça. Com a parte macia do punho cerrado, este outro
esfrega a testa do médium vigorosamente, durante vários minutos. Esta fricção deve
provocar um zumbido na cabeça do médium e, em pouco tempo, ele começa a se sentir
ligeiramente desorientado. Seus pés começarão a formigar e ele talvez sinta o corpo
leve, solto no ar ou como se mudasse de forma. A massagem tem um efeito um tanto
parecido com aquela brincadeira infantil em que você fica em pé na entrada da porta e
levanta os braços tentando tocar na padieira.
Quando este estágio é atingido, começam os exercícios de imaginação. Pede-se ao
médium para imaginar que seus pés estão se alongando e crescendo uma polegada mais
ou menos. Depois que ele tiver conseguido isto, tem de deixar que eles voltem ao
normal e fazer a mesma coisa com a cabeça, alongando-a mais do que o normal. Depois,
alternando o tempo todo entre os pés e a cabeça, a distância vai sendo pouco a pouco
aumentada, até que ele consiga aumentar o comprimento de ambas as partes até um
metro ou mais. Neste estágio, o sujeito provavelmente conseguirá imaginar que está
esticando a cabeça e os pés ao mesmo tempo, sentindo que realmente aumentou muito o
seu tamanho e que, depois, começa a dilatar, enchendo o espaço como um enorme
balão. Cheguei a constatar muitas vezes que indivíduos que pensavam que “jamais
conseguiriam fazer uma coisa dessas”, como por encanto, passavam a achar muito
divertido ou fascinante sentir que estavam crescendo ou inflando, e desse ponto em
diante do processo, seu ego começava a perder força. Para certas pessoas, obviamente,
este método será mais fácil que para outras. Este procedimento deve ser feito na
progressão que for necessária, até que cada etapa seja superada. Sei de pessoas que
completam esta parte em cinco minutos, e sei de outras que levam mais de quinze
minutos; no entanto, é indispensável executá-la no ritmo adequado ao indivíduo.
Em seguida, pede-se que ele imagine que está do lado de fora da porta de entrada.
Ele deve descrever com detalhes tudo o que vir: as cores e o material de que são feitas a
porta e as paredes, o gramado e todo o cenário circundante. Aí então, deve ir subindo
por cima da casa, até conseguir ver toda a extensão do campo ou cidade. Para
comprovar se a cena está inteiramente sob o seu controle, deve-se pedir a ele que a
inverta do dia

123
para a noite e vice-versa, e que observe o nascer e o pôr-do-sol, as luzes da alvorada e
do crepúsculo. Por fim, pede-se que ele se solte e pouse onde quiser. Para muitos
indivíduos, nesse estágio a imaginação acaba ficando tão forte, que eles não encontram
dificuldade em fazer uma descrição inteiramente convincente de tudo o que vêem no
lugar onde aterrissaram.
Quando Glaskin usou essa técnica, os sujeitos presumivelmente foram parar numa
vida passada, mas também é possível pousar num lugar diferente, no tempo presente.
Alistair Mcintosh (89a) descreve vários experimentos com o uso da técnica de Christos
para produzir sonhos translúcidos ou EFCs, e consta que seus pacientes viajaram por
vários lugares. Dizem que uma mulher visitou o quarto de uma amiga e que foi capaz de
descrever uma pessoa que estava lá e que ela nunca havia visto antes.
Você talvez esteja ansioso para saber como é que a experiência termina, mas em
geral dispensa-se qualquer aviso; sem mais nem menos, o sujeito acabará anunciando:
“Estou aqui” ou “Oh, já voltei!”, e é comum que ele conserve uma lembrança muito
nítida de tudo o que disse e vivenciou. Mas é uma boa idéia ficar relaxando alguns
minutos antes de voltar ao normal.
O interessante, a meu ver, é a eficácia com que esta técnica rompe a imagem habitual
que o indivíduo tem do seu corpo, em termos de aspecto, tamanho e postura. Daí em
diante, é ela que dá as dicas e reforça a imaginação do indivíduo, ao mesmo tempo em
que mantém o seu corpo calmo e relaxado. Acho que é um método valioso, mas é
natural que todas aquelas velhas perguntas venham à baila: Qual é o papel da
imaginação? Será que realmente alguma coisa sai do corpo? Será que a técnica de
Christos dá margem a experiências idênticas ou semelhantes às outras EFCs?

5. O método de Robert Monroe

Em seu livro Journeys out of the Body [Viagens fora do corpo] (93) Monroe
descreve uma técnica complicada para a indução das EFCs. Em parte, ela se parece com
outros métodos que usam a imaginação, só que começa com a indução do “estado de
vibração”. Já ouvimos dizer que muitas EFCs espontâneas principiam com uma
sensação de tremor ou de vibração pelo corpo. Monroe induz primeiro esse estado
deliberadamente, sugerindo que você proceda da seguinte maneira: Deite-se num quarto
escuro, em qualquer posição confortável, mas com a cabeça voltada para o norte
magnético. Use roupas folgadas e retire as jóias ou objetos metálicos, mas assegure-se
de que ficará suficientemente aquecido. Tenha a certeza de

124
que não será incomodado e que dispõe do tempo que quiser. Comece com o
relaxamento e depois repita esta frase para si mesmo: “Vou ficar consciente e me
lembrar de tudo que porventura encontrar durante este processo de relaxamento. Vou
me recordar com detalhes, quando estiver completamente acordado, só dos fatos que
serão benéficos para meu ser físico e mental.” Comece então a respirar com a boca
entreaberta.
De olhos fechados, fixe um ponto na escuridão, a uns trinta centímetros da sua testa,
e concentre sua atenção nele. Vá deslocando este ponto gradualmente, até um metro de
distância, depois dois, e então faça-o girar 90° para cima, posicionando-o sobre sua
cabeça. Estas instruções parecem obscuras, no entanto Monroe dá várias explicações
diferentes sobre como conseguir as vibrações e saber reconhecê-las quando ocorrerem.
“É como se uma onda de fogo, sibilando e pulsando compassadamente, entrasse rugindo
dentro da sua cabeça. Daí ela parece espalhar-se por todo o corpo, tornando-o rígido e
imóvel” (93, p. 205). Em minha experiência, este método foi mais fácil do que parece.
Ao mesmo tempo em que tinha consciência de que meu corpo estava completamente
imóvel e relaxado, sentia que estava sendo arremessado para a frente e para trás, entre
dois pontos. Às vezes as vibrações dão a impressão de estar relacionadas com os
movimentos dos olhos, mas penso que nem sempre seja este o caso.
Assim que tiver alcançado o estado vibratório, você precisa aprender a controlá-lo e
a moderar as vibrações, “regulando-as”. A esta altura, adverte Monroe, é impossível
voltar. Ele sugere que você estenda a mão para agarrar um objeto que você sabe que
está fora do seu alcance normal. Sinta o contato com o objeto e depois permita que sua
mão passe através dele, antes de trazê-la de volta, parando as vibrações e conferindo os
detalhes e a posição real do objeto.
Para deixar o corpo, Monroe defende o método de “ascensão”. Para realizá-lo, pense
que está ficando cada vez mais leve e como seria bom subir flutuando. Uma alternativa
é a técnica de “rotação” na qual você gira deitado, virando primeiro a parte de cima do
corpo, cabeça e ombros, até virar todo o resto e subir flutuando. Depois disto, terá
condições de explorar outras coisas e, com bastante prática, Monroe garante que você
estará pronto para conseguir uma ampla gama de experiências.
Desde 1972, quando seu livro foi publicado, Monroe dirige o Instituto de Pesquisas
Mentais, localizado próximo às montanhas de Blue Ridge, na Virgínia. Aí, segundo
consta, ele utiliza uma variedade de técnicas para a indução de EFCs, utilizando-se de
colchões d’agua, efeitos sonoros

125
especiais e do isolamento, que contribuem para o desenvolvimento dos estudantes. Com
estes métodos, ele espera poder treinar grupos de pessoas e viajar juntas, a fim de que
possam contar e comparar o que vêem.

6. Métodos de magia ritual

Grande parte dos métodos de magia também se baseiam nas técnicas de imaginação
ou visualização e utilizam-se da concentração e do relaxamento. Em muitos casos, o
domínio dessas técnicas são os pré-requisitos necessários e, uma vez habilitado, o
estudante pode usá-las como base para o aprendizado de técnicas específicas do ritual e
para a indução de estados alterados de consciência. Entre estes, está a EFC, mas penso
que poucos magos distinguiriam uma EFC de tantas outras experiências que “funcionam
no astral”. Visto que muito trabalho astral é executado neste estado, é essencial saber
como entrar e sair dele e, para isso, existem diversos métodos.
Todos esses métodos requerem perfeito controle mental e conhecimento profundo do
sistema de instrumentos e símbolos que está sendo utilizado. Em termos de uma
tecnologia, os magos talvez tenham feito mais progressos do que qualquer outro grupo
esotérico. Charles Tart, ao introduzir o conceito de “ciências de estados específicos”
(146e) também tratou de tecnologias de estados específicos, isto é, meios de alcançar,
controlar e utilizar estados alterados de consciência. Muitos rituais de magia são
exatamente isto. Num exercício típico, o mago realizará um cerimonial de abertura, um
ritual de limpeza ou purificação e, depois, deverá passar de um estado para outro. Uma
vez no estado exigido, ele opera usando as regras próprias desse estado e retorna em
seguida, fecha a porta que estava aberta e termina o ritual. Mesmo neste resumo
simples, pode-se perceber a intenção de manter o “astral” separado da vida cotidiana,
assegurando-se que o estado de espírito e o propósito são corretos e estruturando-se
cuidadosamente a tarefa.
Mas, afinal, o que é o “astral” segundo os magos? É provável que haja tantas
respostas quantos magos houver, e que vão de uma posição extrema, em que todos os
reinos superiores são considerados como aspectos da mente do mago, a outra, em que
eles ganham existência objetiva e são vistos interagindo com o mundo material. Além
destes, existem aqueles que rejeitariam esta dicotomia, considerando-a irrelevante.
Voltarei a estas conceituações mais adiante, mas quero apenas deixar aqui registrado
que os métodos de magia podem ser vistos como uma tecnologia de estados alterados de
consciência.

126
Esta tecnologia varia quase tanto quanto a teoria, pois há várias maneiras de atingir o
astral. Pode-se usar as passagens dementais, tratar as cartas do taro como trampolins,
servir-se da cabala para realizar trabalhos de passagem ou recorrer a mantras (14,102).
Não tenho a intenção de examinar a fundo estes assuntos. Há a hipótese de que alguns
sejam secretos, e possivelmente por alguma boa razão, embora alguns sejam tratados em
livros sobre passagens astrais, de Brennan (14); sobre projeção astral, de Ophiel (102);
sobre magia, da SSOTBME (148), ou sobre os princípios elementares do ocultismo, de
Conway (24). Mas a chave de todos esses assuntos talvez esteja num treinamento
mágico, que não está ao alcance de todo mundo.
Todavia, é preciso assinalar que apesar de toda a parafernália esotérica da magia
ritual, as técnicas são bastante semelhantes ao conjunto das outras que estivemos
examinando. O estado inicial exigido é análogo. O processo de entrar por uma
“passagem astral” é uma reminiscência das experiências de Fox e Monroe de passar
através de aberturas simbólicas. Até mesmo a experiência bastante comum do túnel e as
maneiras de lidar com problemas, defendidas por Fox, são muito semelhantes àquelas
ensinadas na magia por pessoas como Dion Fortune (43). Portanto, podemos considerar
as complexidades da magia ritual simplesmente como uma forma alternativa de atingir
os mesmos objetivos.

7. Hipnose

Recursos externos que contribuem para atingir a EFC são a hipnose e o uso de
determinadas drogas. No período inicial da pesquisa sobre fenômenos mediúnicos, a
hipnose foi muito mais empregada do que agora para provocar “clarividência à
distância”. No entanto, ainda pode ser usada atualmente. Tudo que se exige é um
hipnólogo competente, com algum conhecimento do estado no qual deseja pôr o
paciente, e de um paciente com boa vontade. O método, porém, não é fácil. Todas as
reações naturais de medo ainda persistem aqui, e o paciente precisa ter confiança em si
mesmo e no hipnólogo antes de estar em condições de ter uma EFC.
O paciente deve ser colocado num estado hipnótico bastante profundo e, em seguida,
o hipnólogo pode sugerir-lhe que deixe seu corpo. Pode-se usar qualquer uma das
técnicas de imaginação já descritas. Pode-se pedir que se levante do corpo, crie um
duplo e entre dentro dele, que deslize para fora do leito ou cadeira ou que saia pelo alto
da cabeça. Depois, pode-se sugerir-lhe que viaje para algum lugar desejado, mas o
hipnólogo precisa especificar com muita clareza, e em termos que o pacien-

127
te compreenda, para onde ele deve se deslocar e trazê-lo de volta ao seu corpo são e
salvo assim que a expedição acabar. Se isso não for seguido à risca, é provável que o
paciente sinta dificuldade para se reencontrar mais tarde.
Hart considerava a hipnose como o método mais promissor na indução artificial da
EFC e, conforme veremos, ele forneceu indícios de que o estado alcançado lembra
muito mais o da EFC espontânea do que aqueles conseguidos por meio do uso de outros
métodos. Ainda neste livro examinarei detalhadamente alguns dos experimentos
fascinantes realizados através de hipnose na primeira metade deste século.

8. Drogas

Existem certas drogas que podem, sem sombra de dúvida, ajudar a desencadear uma
EFC. Os alucinógenos há muito tempo são usados em várias culturas para produzir
estados do tipo das EFCs, e em nossa própria cultura as EFCs são, por vezes, um
produto acidental de uma experiência com drogas. Na ausência de outras informações
complementares, é admissível fazer conjeturas sobre os tipos de drogas passíveis de
produzir esse efeito. Poderiam ser aquelas que deixam o sujeito fisicamente relaxado, ao
mesmo tempo em que mantêm sua consciência acesa e alerta. Drogas que distorcem o
seu sistema de recepção sensorial e rompem com a compreensão que o sujeito tem da
localização e aparência do próprio corpo, essas devem ajudar, como também qualquer
coisa que cause uma sensação de tremor ou vibração. A imaginação deve ser
intensificada sem que se perca o seu controle e, para finalizar, deve haver alguma razão,
ou vontade, para deixar o corpo.
Levando-se em conta esses pontos, é admissível supor que os alucinógenos sejam
mais eficazes do que os estimulantes, os tranqüilizantes ou os sedativos. Estes últimos
podem ajudar no relaxamento, mas não contribuem com nenhum dos outros aspectos.
Outros poucos tipos de drogas têm efeitos relevantes. E este detalhe está de acordo com
o que se sabe a respeito da eficácia das drogas na indução das EFCs. Monroe (93)
afirma que barbitúricos e álcool prejudicam a capacidade, o que faz sentido, já que
tendem a reduzir o controle sobre a imaginação, ainda que sejam relaxantes. Eastman
(33) afirma que os barbitúricos não levam a EFCs, ao passo que morfina, éter,
clorofórmio, os principais alucinógenos e haxixe podem levar a elas.

128
Há relativamente pouca pesquisa nesta área, em parte porque a maioria das drogas
importantes são ilegais nos países em que essa pesquisa poderia ser efetuada.
Entretanto, Masters e Houston (88) e Grof (52) verificaram que indivíduos que tomaram
LSD vivenciaram, às vezes, a separação de seus corpos. Em estudos com a terapia de
LSD para moribundos, Grof e Halifax (53) descreveram experiências que parecem ter
clara relação com EFCs, e Tart (146c) dá exemplos de EFCs que ocorreram em pessoas
que fumaram maconha. (Haxixe, erva e maconha são todos nomes para, ou produtos da
planta cannabis ou cânhamo-indiano, cuja principal substância ativa é o
tetrahidrocanabiol, THC.) Tart também mostrou que a proporção de fumantes que
vivenciaram uma EFC era muito mais elevada do que se esperava.
Assim, parece que certas drogas podem facilitar uma EFC, mas o que não está claro é
por que a experiência com drogas deve assumir essa forma, e não qualquer outra. Parte
da resposta é que em geral ela não assume. Não existe nenhuma droga específica que
crie uma EFC, e EFCs são, com certa raridade, parte de uma experiência psicodélica
com drogas. É provável que haja aí muitos fatores psicológicos envolvidos. Sabe-se que
as circunstâncias em que estas drogas são consumidas influem decisivamente na
natureza da experiência, e é evidente que se a pessoa tiver algum motivo, consciente ou
inconsciente, para querer “sair do corpo”, é muito provável que a experiência com
drogas assuma essa forma. Mas a pesquisa sobre a relação entre drogas e EFCs que
pode nos ajudar aqui é muito reduzida.
Drogas alucinógenas podem contribuir para a indução da EFC, mas eu não as
recomendaria como um caminho para a projeção instantânea. Para uma utilização bem-
sucedida, as circunstâncias de tempo e lugar e a preparação devem ser corretas, e um
dos riscos é que o fluxo de alterações perceptivas, emocionais e cognitivas pode ser
totalmente insuportável e assustador. As drogas talvez sejam um complemento útil para
outros métodos, mas não uma alternativa para o aprendizado de técnicas de
relaxamento, concentração e controle da imaginação.

9. Desenvolvimento através dos sonhos

Muitas EFCs começam a partir de sonhos e já que, por definição, é preciso estar
consciente para ter uma EFC, elas tendem a começar a partir de sonhos translúcidos. O
sonhador pode vir a ter consciência de que está sonhando e, depois, perceber que se
encontra num lugar diferente da sua cama e que é capaz de circular à vontade. Ele pode
ter um outro corpo

129
e até mesmo tentar ver seu corpo físico deitado e adormecido. Um bom exemplo é o
sonho de Muldoon produzido pela sede. Há inúmeras maneiras de aprender a ter sonhos
translúcidos e de projetar-se a partir dos sonhos. Fox (44c) e Ohpiel (102) descrevem
técnicas, mas o exame delas será assunto do capítulo seguinte, inteiramente dedicado ao
tema dos sonhos translúcidos e sua relação com as EFCs.

10. O método experimental de Palmer

Evidentemente, se houvesse um método simples e eficaz de induzir uma EFC num


voluntário numa situação experimental, seria de enorme ajuda para a pesquisa. À
procura de uma técnica desse tipo, Palmer e seus colegas (112a, b, c; 113a, b)
utilizaram-se de relaxamento e de estímulos audiovisuais. Os pacientes foram
submetidos a uma sessão de relaxamento muscular progressivo e, depois, ouviram sons
vibratórios e observaram uma espiral em rotação. Este método e todos os resultados
obtidos serão descritos posteriormente, mas uma das descobertas interessantes foi que
muitos pacientes declararam ter estado “‘literalmente’ fora” de seus corpos, havendo
indícios de que suas experiências diferiram muito, em alguns aspectos, de outras EFCs.
Este fato mais uma vez levanta o problema de se saber se todos estes métodos de
induzir uma EFC estão produzindo realmente a mesma coisa ou se estamos diante de
uma variedade enorme de experiências.
Para concluir, existem inúmeros meios de induzir experiências do tipo EFC. Os
elementos comuns costumam ser o relaxamento, a concentração e o controle da
imaginação, porém todos levam a uma pergunta importante: Será que todos eles
induzem à mesma experiência? A magia ritual e o método de Monroe causam o mesmo
efeito? E, se as técnicas de imaginação evocam uma experiência semelhante àquelas
verificadas com o uso de drogas ou de hipnose, como poderemos saber?
O problema parece agravar a impossibilidade de comparar experiências pessoais.
Mas, talvez, impossibilidade seja uma palavra forte demais. Se várias pessoas podem
aprender juntas a explorar essas técnicas e se pudessem desenvolver métodos para
descrever suas experiências, então talvez a tarefa não parecesse de todo impossível. Por
isso, se não por outra razão, acho necessário que os próprios experimentadores possam
ter EFCs. Ainda voltarei a falar dessas excitantes possibilidades; agora, porém, já é
tempo de tratar de outra experiência a que já nos referimos, o sonho translúcido.

130
11 SONHOS TRANSLÚCIDOS

Eu estava correndo pela estrada atrás de um ônibus no qual tentava subir, esquivando-me do
tráfego e segurando um cordão que me ligava ao ônibus. Esse cordão parecia elástico e percebi,
contrariado, que quanto mais ele espichava mais eu ia ficando para trás. Nesse instante preciso,
compreendi que estava sonhando e que não precisava perseguir o ônibus nem tampouco me
desviar dos carros em movimento. Aí, então, parei de correr e fiquei imóvel no meio da estrada – e
quando fiz isso, os veículos desapareceram (49d, p.34).

Eis como B., um indivíduo pesquisado por Green, descreveu um dos seus vários
sonhos translúcidos; ou seja, aqueles sonhos em que a gente sabe que está sonhando.
Há duas razões para se relacionar sonhos translúcidos com EFCs. Em primeiro lugar,
conforme vimos, muitos viajantes astrais experimentados também têm sonhos
translúcidos. Em segundo lugar, como Green assinalou (49d), é difícil reconhecer a
linha divisória entre uma EFC e um sonho translúcido. Em ambos, a pessoa tem a
impressão de estar observando um mundo coerente, que, porém, não é visto através dos
olhos físicos e pode variar desde uma representação perfeita do mundo físico até alguma
coisa muito fantástica. Além disso, o sujeito, ao contrário do que acontece num sonho
comum, está bem consciente de que se encontra em algum estado alterado e é capaz de
descrever e até de controlá-lo. É claro que se poderia dizer que os sonhos translúcidos
começam a partir do sono e que as EFCs, a partir do estado de vigília, e talvez a
expressão “sonho translúcido” deva ser reservada para o sono, excluindo-se os “sonhos
translúcidos” conscientes descritos por Green e outros. Mas mesmo ex-

131
cluindo-se estes, há alguns sonhos translúcidos nos quais a pessoa parece ver o corpo
dela mesma deitado e dormindo na cama, tal como numa típica EFC. Certamente é
possível traçar uma linha de separação entre as duas experiências, mas o importante é
compreender que essa linha não é clara e que ambas têm muita coisa em comum.
Assim, talvez um estudo sumário sobre sonhos translúcidos possa nos ajudar a entender
a EFC.
Diversos autores estudaram seus próprios sonhos. Entre eles estão Arnold-Foster (3),
Yves Delage (31) e P. D. Ouspensky (108). Este último desenvolveu uma técnica para
entrar num processo parecido com o sonho, através da qual se mantinha consciente
durante o sono. Desta forma, ele conseguiu observar o processo. O Dr. Van Eeden (153)
classificou seus próprios sonhos em nove tipos, incluindo o sonho translúcido e, como
já sabemos, tanto Fox como Whiteman estudaram os seus próprios sonhos. Mais
recentemente, Tart descreveu um tipo de sonho que chamou de “sonho superior”, em
que se sonha estar num estado alterado de consciência, mas sem necessariamente se
compreender que é um sonho (146f).
Alguns escritores descrevem o sonho translúcido como se fosse, de algum modo,
“menos importante” do que uma EFC, e talvez aqui se possa estabelecer uma
classificação, ainda que imperfeita. Primeiro, existem certos tipos de “sonho comum”
em que só se percebe que é um sonho ao despertar, mas que são considerados
precursores dos sonhos translúcidos, ou relacionados com eles, e que incluem toda sorte
de sonhos relacionados com queda, vôo ou flutuação. Segundo, vêm os do tipo “falso
despertar”, que incluem tanto os sonhos em que a pessoa está contando a alguém o que
sonhou, como se estivesse acordada, como aqueles em que a pessoa sonha que está
acordada. Terceiro, entre os sonhos comuns e os translúcidos, situam-se aqueles em que
o sonhador acha que pode estar sonhando, mas por uma razão ou outra acaba
concluindo que não está. E, quarto, aparecem os sonhos inteiramente translúcidos, se
bem que há muitos graus possíveis de lucidez.
Sonhos translúcidos e sonhos de voar costumam estar relacionados um com o outro.
Para Van Eeden: “Voar ou flutuar... é geralmente uma indicação de que sonhos
translúcidos estão chegando.” Em um livro intitulado Studies in Dreams [Estudos sobre
sonhos], a Sra. Arnold-Foster deu exemplos de muitos sonhos de voar. Ela costumava
voar em tomo do Museu Britânico ou de outras galerias de arte e, ao deparar com o
enorme vão existente entre o teto e as portas, era obrigada a descer quando queria passar
de uma sala para a outra. Enquanto deslizava pelas ruas, ficava preocupada com que as
pessoas notassem a maneira estranha como ela se

132
deslocava, de modo que criou um “traje de vôo” especial, que impedia que vissem seus
pés. Todavia, na maioria dessas ocasiões não tinha consciência de que estava sonhando.
Muitas pessoas acham que os sonhos de voar representam verdadeiras viagens do
corpo astral. Em 1906, houve acirrada discussão sobre o assunto nos Anais de ciência
parapsicológica. O coronel Albert de Rochas (ver 30), que tinha este tipo de sonho há
mais de cinqüenta anos, havia escrito um artigo para uma revista francesa e recebeu
uma porção de relatos de leitores em resposta. Uma “explicação” popular na época era
que o vôo resultava da incapacidade que tinha a pessoa adormecida, enquanto deitada,
de colocar firmemente os pés no chão. Mas de Rochas era contra essa opinião,
afirmando que o vôo era o resultado de viagens astrais.
De Vesme (30) entrou na discussão, argumentando que, se as viagens astrais
aconteciam realmente durante esses sonhos, então deveriam ser observadas afinidades
entre eles. Examinando uma quantidade de relatos, ele descobriu que algumas pessoas
voavam na posição diagonal, outras na posição vertical, ao passo que outras iam
saltando de planeta em planeta. Algumas batiam os braços para se deslocarem, enquanto
outras flutuavam de costas, pulavam, deslizavam ou davam braçadas como se
estivessem dentro d’água. Um sujeito aprendeu como prescindir de todos esses recursos
e se movimentava apenas pela força de vontade. De Vesme concluiu que esses sonhos
variavam tanto quanto quaisquer outros e assinalou que eles diferiam muito de outros
fenômenos mediúnicos. Argumentava que não eram acompanhados de feitos
sobrenaturais e concluiu dizendo que eles não forneciam nenhuma prova da existência
da alma ou de viagem do corpo astral.
Além dos sonhos de voar, Muldoon e Carrington (97a) relacionaram outros: os
“sonhos de projeção”, o “sonho em que contorcia o corpo todo”, o “sonho em que se
levava uma pancada na cabeça” e o sonho em que se caminhava em direção a um objeto
irreal. Eles explicavam que, dentro do “raio de ação do cordão”, o corpo astral poderia
ser lançado para qualquer lado pela ação do cordão, o que causaria as sensações
estranhas no sonho. O objeto irreal, acrescentavam eles, é o próprio corpo físico da
pessoa, para o qual o cordão puxa o corpo astral de maneira inexorável.
Dentre os sonhos de voar, eles classificavam o deslizar, o nadar e o pular como
movimentos do corpo astral, mas penso que também seria possível atribuí-los à livre
imaginação do sonho. Talvez o relato mais curioso feito por eles seja o do sonho de
queda. Quando o astral retorna

133
ao corpo no fim de um sonho (e esses autores ensinavam que todos os sonhos
implicavam projeção), ele cai à medida que se aproxima do corpo, e é isto que dá
origem à sensação de queda. E, acrescentam eles, isso ocorre porque sempre se acorda
antes de atingir o fundo de um penhasco, de um edifício alto ou de coisa que o valha.
Na realidade, como alguns leitores devem saber, isto não é verdade. Nem é
verdadeira aquela “conversa fiada” de que se você atingir o fundo, estará morto. Uma
vez eu sonhei que estava em pé no alto de um penhasco, onde o vento soprava forte,
olhando para as ondas que arrebentavam contra as rochas escarpadas lá embaixo. Por
algum motivo caí e fui rodando e rodando para baixo, aproximando-me cada vez mais
perto das rochas. Quando me espatifei contra elas, dei várias cambalhotas e meu corpo
se desfez em grandes pedaços. Enquanto alguém foi chamar uma ambulância, surgiram
várias pessoas, não sei de onde, e cada uma levou embora um pedaço do corpo, um
braço ficou para fulano, uma perna ou as duas para sicrano. Aparentemente, não liguei a
mínima.
Um outro tipo de sonho no qual a lucidez pode estar ou não presente é o falso
despertar. Fox acordou certa noite, ou pensou que acordou, mas como tudo parecia
estranhamente artificial, com uma luminosidade peculiar, ele não sentiu ânimo para se
mexer; somente quando tentou se mexer é que a luz desapareceu e ele despertou. Foi
durante este estado que ele viu Elsie aparecer para ele, mas quando a chamou pelo
nome, ela desapareceu (44c).
Um dos nove tipos de sonho classificados por Van Eeden era o “despertar
enganoso”, que ele descrevia como “demoníaco, perigoso e muito vivido e brilhante,
com uma espécie de agudeza e clareza de mau agouro, uma luz diabólica e forte (153).
Ademais, o sonhador tem consciência de que é um sonho, e um sonho ruim, e se esforça
para despertar”. Van Eeden achava que os demônios eram responsáveis por este tipo de
sonho, cujo terror só findava quando se percebia a presença deles e se compreendia o
que estava ocorrendo. Entretanto, outras pessoas que vivenciaram o falso despertar não
o descrevem como algo terrível nem sabem, durante a experiência, que se trata de um
sonho.
Delage, por exemplo, descreve uma série de sonhos repetidos em que ele ouvia
baterem à porta. Era alguém que viera chamá-lo para atender a um amigo que estava
doente. Ele se levantava, vestia-se e ia se lavar; então, o contato com a água fria no
rosto fazia com que acordasse para o fato de que tudo não passara apenas de um sonho.
Um pouquinho depois, sonhava que ouvia o chamado novamente, desta vez mais
insistente.

134
Achando que talvez tivesse pegado no sono outra vez, ele se vestiu apressadamente e
mais uma vez começou a se lavar com água fria, o que fez com que despertasse. Ao
todo, sonhou e acordou quatro vezes, sem que realmente tivesse saído da cama uma só
vez.
Green cita o exemplo de uma pessoa que sonhou que acordara e depois, ao entender
que era um sonho, despertou realmente (49d); mas o fato de perceber que se trata de um
sonho não faz necessariamente com que o sonho termine. Fox acreditava que era
possível sair do corpo neste estado e, conseqüentemente, dar início a uma EFC. Na
verdade, para fazer isto, era preciso que ele se servisse de algum falso despertar.
Podemos perceber que as formas de falso despertar variam muito. Um falso despertar
pode ser agradável ou apavorante, lúcido ou não, pode resultar no despertar, na
continuação do sonho ou ser uma transição para uma EFC. Os aspectos comuns, no
entanto, parecem ser a expectativa ou tensão no ar e o cenário, aparentemente quase
normal, mas, na maioria das vezes, um pequeno e simples detalhe errado chama a
atenção do sonhador para o fato de que existe alguma coisa estranha. Em outras
palavras, o sonhador pode dar o primeiro passo rumo à lucidez.
Podemos, agora, perguntar o que exatamente produz a lucidez. Por que será que, às
vezes, as pessoas percebem que estão sonhando? E por que, realmente, a maioria de nós
tem seguidamente os mais estranhos sonhos dentro de sonhos, sem jamais entender o
significado deles?
Há uma opinião bastante comum de que é o reconhecimento de uma situação
estranha dentro de um sonho que leva a esta compreensão. Num dos meus sonhos
translúcidos, eu estava prestes a sair de um edifício enorme quando percebi que
esquecera alguma coisa e voltei correndo para apanhá-la. Quando ia subindo as escadas
que acabara de descer um minuto antes, percebi que elas se haviam desprendido da
parede e ruído completamente a uma pequena distância à minha frente. Fiquei atônita,
sem saber como é que puderam ter-se deteriorado tão depressa e foi aí então que me
veio a resposta: “Porque é um sonho.”
Outros tiveram a compreensão pelo fato de reconhecerem um motivo familiar no
sonho. A. W., um médium estudado por Hearne 62a), percebeu que estava sonhando
imediatamente quando viu velhos artefatos de metal no fundo do mar e tentou
desenterrá-los. Percebeu que a situação simbolizava um desejo íntimo, que ele já sentira
muitas vezes em sonho, e portanto compreendeu que estava sonhando, conseguindo
examinar os arredores do lugar onde estava – a praia, a areia e o mar – e descobrir que a
perspectiva não dava a impressão de ser totalmente correta. Nem

135
todo mundo sonha que achou dinheiro, mas, de qualquer modo, a identificação dessa
experiência familiar representa alguma coisa e, de fato, o ato de voar satisfaz, com
bastante freqüência, esse propósito.
Green (49d) especificava quatro tipos de experiência onírica que podem coincidir
com o começo de lucidez: tensão emocional dentro do sonho, a identificação de contra-
senso, a introdução de pensamento analítico e a identificação da qualidade onírica da
experiência. Ela assinalou corretamente que uma relação de causa e efeito não é
estabelecida pelo fato de que a lucidez coincide com estas características, se bem que,
na minha opinião, os indícios de tal relação são positivos.
De acordo com Fox, tudo é uma questão de graus diferentes de atividade do senso
crítico (44c, pp. 35-6). Ele sugere que imaginemos que ele sonha que está vendo uma
moça com quatro olhos. Sem muita percepção crítica, ele simplesmente poderia
perceber que havia algo errado com a moça, e apenas comentar, como se tivesse feito
uma grande descoberta: “De repente eu entendi – ‘Ora, claro, ela tinha quatro olhos!’”
Com uma capacidade crítica um pouco mais aguçada, ele poderia chegar até a se
perguntar por que é que ela tinha quatro olhos e, com um pouco mais ainda de senso
crítico, poderia concluir que havia um espetáculo de monstros ou um circo na cidade.
Finalmente, poderia argumentar consigo mesmo que decerto nunca existiu uma
aberração dessas, isso é impossível. Logo, acabaria concluindo: “Estou sonhando.”
Muitas pessoas que não têm um senso crítico muito desenvolvido, podem ficar
irritadas ao acordar, lembrar de um sonho realmente maluco e se perguntarem por que,
droga, não perceberam que se tratava de um sonho. Evidentemente, alguém poderia
indagar: Não posso ter sido tão estúpido a ponto de acreditar que tudo estava realmente
acontecendo, será que posso? A resposta é que poderia. Uma noite, por exemplo, sonhei
que estava mostrando a um corretor de imóveis minha casa de quarenta dependências e
com salas de visitas dignas de um palácio. Descemos até um amplo patamar e comentei:
“Este é o quarto azul com cama de quatro colunas, banheiro privativo e com vista para
os jardins...” Alguma coisa, no íntimo, me dizia que havia algo errado. Minha casa não
tinha apenas dois dormitórios? Será que tinha se transformado de um dia para outro, ou,
quem sabe, seria uma outra casa? Mas por que, então, eu estaria vendendo a alguém
uma casa que não era minha? Apesar de todo esse interrogatório, jamais cheguei à
resposta: “Porque era um sonho.”
Um outro aspecto desta dificuldade é que muitas pessoas consideram a hipótese, em
seus sonhos, que estão tendo um sonho, mas chegam à

136
conclusão errônea de que não estão. Green (49d) chamou isto de um sonho pré-lúcido.
Ela cita um outro exemplo de Delage, que estava perdendo a visão, mas começou a
sonhar que era novamente capaz de enxergar perfeitamente bem. Em sonhos sucessivos
ele se lembrava que ficara desapontado antes de acordar e descobrir que apenas sonhara
que era capaz de enxergar novamente, de modo que se perguntou se não poderia estar
sonhando agora. Num desses sonhos ele pediu à sua nora para beliscá-lo. Nunca lhe
passou pela cabeça que isso também poderia ter sido um sonho, de modo que, quando
sentiu o beliscão, ficou muito feliz, convencido de que era real.
O sonho pode imitar a realidade com tanta perfeição, que o sonhador pode ser
incapaz de reconhecer a diferença. Na vida ativa normal, estamos constantemente
testando a realidade. Em cada um dos nossos atos de percepção, checamos tudo o que
vemos ou ouvimos; se algo parece não fazer sentido, olhamos mais uma vez, ou então
indagamos: “Perdão, mas o que foi mesmo que você disse?” No processo de sonho, este
teste de realidade quase inexiste e aceitamos os fatos mais contraditórios sem
questionar. Todavia, no sonho translúcido recupera-se algum vestígio desta função, e
algumas pessoas até aprendem a efetuar testes bastante complexos em seus sonhos.
Ouspensky (ver 49d) descreveu um sonho no qual ele estava dentro de um quarto, em
companhia de um gatinho preto. Ele aí resolveu testar se estava dormindo ou não,
ordenando que o gatinho se transformasse num canzarrão branco. O gatinho, de fato,
virou um canzarrão branco, mas, no mesmo instante, a parede da frente desapareceu e,
no lugar dela, surgiu uma paisagem. Ouspensky, então, tentou fazer um esforço para se
lembrar da coisa mais importante: “[...] que estou dormindo e consciente de mim
mesmo”, mas percebeu que estava sendo puxado para trás e acabou acordando.
Portanto, mesmo aqui, neste sonho, em que um teste de lucidez foi realizado com êxito,
foi difícil manter esse estado.
Outros, como Fox, fizeram testes que pareciam um tanto perigosos em seus sonhos:

Sonhei que eu e minha esposa acordamos, levantamos e nos vestimos. Ao abrir as cortinas,
descobrimos, surpresos, que o quarteirão de casas em frente desaparecera e, em seu lugar, havia
um terreno baldio. Eu disse à minha mulher: “Isto significa que estou sonhando, embora tudo
pareça tão real e eu me sinta plenamente acordado. Essas casas não poderiam desaparecer durante
a noite, e veja só todo aquele mato!” Mas, apesar de minha mulher ficar bastante confusa, não
consegui convencê-la de que era um sonho. “Bem”, pros-

137
segui, “estou disposto a ser razoável e pôr à prova o que estou dizendo. Vou pular da janela sem
sofrer qualquer arranhão.”
Insensível a suas súplicas e objeções, abri a janela e subi no peitoril. Em seguida, saltei e desci
flutuando suavemente até a ma. Quando meus pés tocaram a calçada, acordei. Minha esposa não
tinha lembrança alguma do sonho (44c, p. 69).

Em 1904, Van Eeden sonhou que estava em pé, diante de uma mesa, sobre a qual
havia vários objetos. Sabendo que era um sonho, decidiu fazer alguns experimentos.

Comecei tentando quebrar um copo de vidro, batendo nele com uma pedra. Depois, coloquei
uma plaqueta de vidro em cima de duas pedras e dei pancadas nela com uma outra pedra. No
entanto, ela não se partiu. Em seguida, peguei um cálice de um excelente vinho tinto de cima da
mesa e dei-lhe uma punhada com toda a força, ao mesmo tempo em que refletia no perigo que
seria fazer isto quando acordado; o cálice, porém, permaneceu intacto. Mas, vejam só, quando
voltei a olhar para ele, após algum tempo, ele estava quebrado.
O cálice havia-se desfeito todo em pedaços, só que um pouco tarde demais, tal como um ator
que esquece seu papel em cena. Este fato me deu a sensação curiosíssima de estar num mundo
falso, engenhosamente imitado, mas com pequenas falhas. Peguei as sobras do cálice e arremessei-
as para fora da janela, com o propósito de observar se conseguiria ouvir o tinido. Escutei
perfeitamente o barulho e cheguei até mesmo a ver dois cães correndo atrás dos cacos com toda a
naturalidade do mundo (153, p. 448).

Van Eeden prossegue contando que provou um pouco do vinho tinto, cujo gosto
sabia tão bem a qualquer vinho verdadeiro, e que achou que este mundo de sonhos era
uma reprodução perfeita do real.
Frederic Myers também teve a preocupação de comparar o mundo dos sonhos com o
mundo real, tentando descobrir tudo que pudesse em seus poucos sonhos translúcidos.
Quando estava fazendo este estudo, notou que todas as coisas pareciam embaçadas,
esquivando-se ao seu olhar fixo. Examinando o tapete da escada, tentou descobrir se
poderia visualizá-lo melhor do que na vida normal e constatou que “o tapete no sonho
não se parecia com o tapete verdadeiro que eu conhecia; ao contrário, era mais fino e
puído, uma cópia quase constituída, ao que parecia, por recordações de tapetes que vi
em hospedarias, em minhas viagens pelo litoral” (99a, pp. 241-2). Essas observações de
pessoas que tiveram sonhos translúcidos é que fornecem quase toda a base do que
sabemos sobre o cenário desse tipo de sonho.

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Já expliquei a dificuldade que é ficar lúcido num sonho, e é possível que você agora
tenha curiosidade em saber como se pode manter a lucidez. Dizer simplesmente que é
difícil não ajuda muito, mas não deixa de ser verdade. Myers chamava a atenção para o
fato de que havia passado uma existência inteira tentando arduamente e só conseguira
ter três sonhos translúcidos em quase 3.000 noites (99a). Para alguns de nós, porém, há
a perspectiva de aprender com mais facilidade do que Myers. A primeira coisa é
aprender a se lembrar dos sonhos. Algumas pessoas podem conseguir sem dificuldade e,
geralmente, lembram dos seus sonhos ao despertar. Para aquelas que não conseguem
lembrar, o aprendizado leva tempo, mas tudo de que precisam é deixar caneta e papel na
cabeceira da cama e anotar, escrupulosamente, até mesmo os fragmentos mais
insignificantes. Um mace te sugerido por Brennan é visualizar o nascer do sol ao
despertar (14), e um outro artifício é tentar reconstituir na memória os primeiros
momentos do despertar, mantendo a mesma postura relaxada. Ao fim de alguns dias, a
recordação deve melhorar e, para a maioria das pessoas, leva apenas algumas semanas
até que o fluxo de anotação vire rotina. Neste estágio, pode-se, inclusive, dispensar o
trabalho de escrever.
Uma vez que a memorização se torne satisfatória, há muitas técnicas para conseguir
a lucidez. Visto que os sonhos translúcidos começam a partir do momento em que o
sonhador se dá conta de detalhes incongruentes no sonho, é possível prestar atenção
especial apenas a esses detalhes e lembrar, na manhã seguinte, por exemplo, que você
estava voando, falando idiomas estrangeiros ou viajando a uma velocidade incrível.
Depois que outros métodos fracassaram, comecei a praticar este e, no fim de algum
tempo, passei a ter sonhos em que tinha a impressão de estar à beira da lucidez. Sonhei
certa vez que atirara em vários colegas meus e que fiquei espantada com o fato de que
eles não tinham morrido. Estive quase a ponto de ter uma explicação, mas não consegui
e o sonho seguiu seu curso.
Cerca de dois anos depois disso, tive meu primeiro sonho translúcido. Eu estava
subindo uma trilha de esquiadores, ao amanhecer. Era um belo cenário, cercado de
montanhas e iluminado por um clarão alaranjado. À medida que o sol nascia, eu ia
vendo os reflexos de cores na neve. No ponto mais alto da trilha, quando já estava
prestes a deslizar pela neve abaixo, percebi que não estava usando esquis. Não teria
condições de descer. Justamente nesse instante, ponderei: “Isto é tolice; o que estou
fazendo numa pista de esqui sem esquis? Aliás, ninguém faz essa escalada a esta hora
da manhã, no escuro.” Num relance tive a solução: devia ser um sonho. Por um
momento tudo ficou surpreendentemente claro: as monta-

139
nhas em tomo e o cortante ar puro. Eu me senti como se fosse capaz de voar do alto da
montanha. Mas, na verdade, atravessei a neve correndo, o estado de lucidez passou tão
depressa como viera e continuei sonhando.
Acho interessante observar que num dos sonhos eu estava no alto de uma pista de
esqui e, no outro, subindo uma escadaria. Parece que o ato de voar é um elemento
comum a ambos, como demonstra uma infinidade de sonhos translúcidos de outras
pessoas. Preciso, no entanto, salientar que o fato de ter um sonho translúcido não é sinal
de que eles são fáceis de acontecer assim de repente. Muitos meses se passaram antes
que eu tivesse um outro, que foi apenas um pouco mais demorado.
Muldoon (97a) recomendava o método de “controle do sonho”, com o objetivo de
produzir a projeção astral. Aconselhava que toda noite antes de adormecer a pessoa
deve praticar a técnica de manter viva a atenção até que consiga entrar direto no estado
hipnagógico antes de perder a consciência. Propunha, então, que a pessoa elabore um
roteiro do sonho que sirva para imitar as ações do corpo astral em projeção. O próprio
Muldoon imaginava que estava subindo de elevador, deitado de costas. Quando chegava
ao último andar, ele se levantava e saía. Uma outra alternativa, dizia ele, consiste em
produzir um sonho em que a pessoa esteja boiando ou emergindo à tona d’água, ou
então subindo uma escada. A dificuldade está em conseguir e manter o estado de
consciência, mas uma vez atingido esse estado, a projeção no sonho pode ser
consciente.
Estas informações sobre os sonhos translúcidos podem ser complementadas através
de pesquisas. Hearne (62) distribuiu um questionário a 48 estudantes que relataram
sonhos translúcidos e verificou que um sonho translúcido típico ocorre após as cinco
horas da manhã, dura apenas alguns minutos e é mais expressivo e mais colorido do que
um sonho comum. Disseram que o processo de raciocínio era mais claro do que nos
sonhos comuns e tão claro como no estado de vigília. A maior parte dos entrevistados
afirma que não voou nem tentou voar em seus sonhos translúcidos. Hearne, contudo,
deduziu que isto talvez se devesse ao fato de que todos eram muito jovens. Não há
dúvida de que outros estudos deste tipo seriam de muita utilidade.
Assim como no caso de EFCs, as pesquisas podem nos informar até que ponto são
comuns sonhos translúcidos e quais as pessoas que têm este tipo de sonho. De fato,
existem muito menos provas factuais deles do que de EFCs, mas geralmente as
principais pesquisas “sobre experiências mediúnicas” também se preocupam com a
existência de sonhos translúcidos.

140
Green (49a) descobriu que 73% de uma amostra de estudantes responderam “sim” à
pergunta: “Você já teve um sonho no qual sabia que estava sonhando?”, embora alguns
deles não fossem sonhos translúcidos genuínos. Palmer constatou que 56% dos cidadãos
e 71% dos estudantes pesquisados em sua amostra disseram ter tido sonhos translúcidos,
e muitos deles com regularidade (110d). Da mesma forma, 70% das pessoas
entrevistadas por Kohr declararam ter tido sonhos translúcidos (74).
Em minhas próprias pesquisas, 79% dos estudantes de Surrey disseram que os
tiveram, e a maior parte deles afirmou ter tido mais de um. Obtive um resultado
semelhante com os estudantes de Bristol. 72% relataram sonhos translúcidos, a maioria
deles afirmando se tratar de experiências múltiplas, e três estudantes chegaram mesmo a
dizer que eram capazes de induzir um por vontade própria. Todas estas pesquisas
parecem unânimes em concordar que o sonho translúcido é uma experiência bastante
comum, muito mais comum do que a EFC.
Se realmente há uma estrita semelhança entre EFCs e sonhos translúcidos, é razoável
supor que as mesmas pessoas relatassem ambos. As pesquisas podem esclarecer este
ponto, e a resposta parece ser positiva. Palmer (110d) descobriu relações significativas
entre EFCs e o relato de “sonhos expressivos” e de sonhos translúcidos, fazendo uma
espécie de análise de sonhos, mas nenhuma relação entre EFCs e a freqüência de
recordação de sonhos. Kohr (74) constatou quase exatamente a mesma coisa, com a
ressalva de que em sua pesquisa a freqüência de recordação de sonhos estava
correlacionada com a EFC.
Em minhas pesquisas, descobri relações muito semelhantes. Entre os estudantes de
Surrey, sonhos translúcidos e EFCs foram contados pela mesma pessoa. Na realidade,
todo indivíduo que teve uma EFC também teve sonhos translúcidos. Nesta pesquisa,
porém, não achei nenhuma relação com a expressividade ou a recordação de sonhos.
Entre os estudantes de Bristol, obtive resultados análogos, além de ter indagado sobre a
ocorrência de sonhos de voar. O mais interessante foi que 50% informaram ter tido pelo
menos um sonho de voar, e foram as mesmas pessoas que relataram sonhos de voar e
sonhos translúcidos. Tudo isto parece confirmar as idéias, antes exclusivas do
conhecimento tradicional a respeito de projeção astral, de que existe uma forte relação
entre certos tipos especiais de sonhos e a EFC.
Há outras perguntas que só podem ser respondidas pela experiência direta. Uma
delas consiste em saber se o sonho translúcido é, de fato, um sonho. Certos autores
deram a entender que se trata antes de uma

141
forma de imaginação hipnagógica ou hipnopômpica, do que um sonho verdadeiro, ou
seja, ocorre antes do sono ou logo após o despertar, e não durante um sonho
propriamente dito. Durante longo tempo, se pensou que era impossível testar esta
questão na prática; recentemente, porém, Keith Hearne, da Universidade de Liverpool,
achou uma fórmula. Para entendê-la, precisamos aprender um pouco sobre a físiologia
do sono.
Na década de 50, os registros de eletroencefalograma (EEG) obtidos com sujeitos
que dormiam no laboratório, demonstraram que quase todo mundo apresenta mudanças
fisiológicas durante o sono (ver itens 79 e 84 da Bibliografia). No estado de torpor que
precede o sono, o EEG se caracteriza por muitas ondas alfa (as ondas cerebrais são
rotuladas de alfa, beta etc., de acordo com a freqüência. As ondas alfa estão na faixa de
8 a 13 ciclos por segundo) e os músculos começam a relaxar. Gradualmente, este estado
dá passagem ao Estágio 1 do sono, seguido por mais três estágios, cada um com padrões
diferentes de EEG e crescente relaxamento. Na altura do Estágio 4, a pessoa que está
dormindo se encontra muito relaxada, sua respiração é mais lenta e sua resistência
epidérmica aumenta. É mais difícil que acorde. Se for acordada, a pessoa poderá dizer
que estava pensando em alguma coisa, descrever imagens vagas, mas raramente contará
algo que se pareça com um sonho típico.
Mas o sono não consiste apenas num crescente apagamento da memória. Num sono
normal à noite, ocorre uma nítida mudança uma ou duas horas depois que se adormece.
Apesar de os músculos continuarem relaxados, a pessoa que está dormindo pode se
mover e, pelos dados do EEG, é como se ela acordasse e voltasse a um estado mais ou
menos parecido com o Estágio 1 do sono. Contudo, ainda será muito difícil que ela
acorde e, neste sentido, está profundamente adormecida; por esta razão este estágio é às
vezes chamado de sono paradoxal. A característica mais freqüente, todavia, são os
movimentos oculares rápidos, ou MORs, e esse estágio é denominado de sono com
MOR. Nos estágios iniciais, pode-se girar os olhos lentamente; agora, porém, eles se
movem como se estivessem fixando alguma coisa. Se acordar agora, a pessoa que está
dormindo geralmente dirá que estava sonhando.
Num típico sono à noite, há quatro ou cinco ciclos completos, percorrendo os
diversos estágios do sono, com quatro ou cinco períodos caracterizados por MORs.
Quando a pessoa que está dormindo finalmente acorda, talvez se lembre apenas do
último dos sonhos que teve ou, então, de nenhum sequer; mas como quase todo mundo
apresenta um padrão semelhante, se supõe que todo mundo sonhe, mesmo que alguém
nunca

142
se lembre disto. Já que muitos animais apresentam um sono do tipo MOR, é admissível
supor que eles também sonhem. Os sonhos exigem tempo, e há indícios de que as
estimativas do tempo despendido no processo de sonho são razoavelmente precisas.
Tudo isto é relevante aqui, porque permite determinar se os sonhos ocorrem no
mesmo estado dos sonhos comuns e se são precedidos ou acompanhados por mudanças
fisiológicas. Não se conhece nenhuma fórmula para determinar se um sujeito está lúcido
ou não, simplesmente olhando para o registro do EEG, mas isto poderia ser revelado se
ele pudesse fazer algum sinal durante o sonho. O problema com a sinalização é que a
maioria dos músculos estão relaxados, praticamente paralisados, durante o sono com
sonhos; mesmo se uma pessoa, durante um sonho translúcido, tentasse acenar com o
braço ou gritar, provavelmente não conseguiria. Para contornar o problema, Hearne teve
a engenhosa idéia de que, já que os olhos se movem (em MORs), o sujeito também seria
capaz de movê-los voluntariamente (62a).
Hearne teve muita sorte de poder contar com um sujeito que tinha sonhos
translúcidos com certa freqüência, e que estava disposto a fazer o experimento e passar
muitas noites num laboratório de pesquisas sobre o sono. Pediram-lhe, portanto, para
mover os olhos” da esquerda para a direita oito vezes sucessivas se alguma vez ele
estivesse tendo um sonho translúcido. O teste funcionou: Hearne conseguiu detectar
movimentos exagerados dos olhos no polígrafo do laboratório e determinar em que
estágio do sono eles ocorriam. A resposta foi clara. Todos os sonhos translúcidos
ocorreram precisamente no período MOR. Em outras palavras, eram neste sentido,
sonhos verdadeiros.
Com este método, Hearne pôde aprender outras coisas sobre os sonhos translúcidos
deste paciente. Um sonho translúcido típico, por exemplo, durava entre dois a cinco
minutos, ocorria por volta das 6:30 da manhã, cerca de 24 minutos a partir do início de
um período MOR e terminava 22 segundos após a erupção de um segundo períodp
MOR. Estava também relacionado com uma aceleração cardíaca maior do que o normal,
embora não se saiba exatamente a razão disso. As noites em que sonhos translúcidos
ocorreram não apresentaram um padrão diferente de sono com relação a outras noites,
embora tivessem a tendência de seguirem-se a dias de estimulação acima da média.
Hearne também tentou usar métodos alternativos de comunicação. Pedia ao sujeito
que apertasse um botão de campainha, amarrado à sua mão, que gritasse quando
estivesse lúcido e, mais tarde, que alterasse

143
seu ritmo de respiração. Esses métodos foram tentados. Os dois primeiros fracassaram.
O sujeito sentiu que havia algo em sua mão durante o sonho, achou que tinha apertado o
botão e chegou mesmo a ouvir o clique quando o pressionou; mas para o pesquisador
não houve movimento nem pressão do botão. O sujeito também achou que tinha gritado
tão alto que faria com que o pesquisador saísse correndo, mas Hearne não ouviu nada.
Este fato confirmou o que já era esperado: que os músculos paralisados não puderam ser
utilizados; além disso, apresenta um curioso paralelo com aquelas inúmeras tentativas
fracassadas de mover objetos físicos em EFCs. Haveria possibilidade de que se
originassem da mesma causa? A mudança no ritmo de respiração, contudo, demonstrou
ser bem-sucedida, e Hearne concluiu que seria um método útil de comunicar sonhos
translúcidos.
Suas tentativas para achar meios de comunicação não pararam aí. Ele tinha esperança
de estabelecer um método de comunicação recíproca entre o sonhador e o
experimentador. Para essa finalidade, fez o sujeito cheirar aromas diferentes enquanto
estava sonhando e murmurou números em seus ouvidos; os resultados porém não foram
convincentes.
Todos esses resultados dependeram de um único sujeito. Embora Hearne encontrasse
vários sujeitos que afirmavam ter sonhos translúcidos regularmente, quando os levou
para fazer o teste de sono no laboratório, o número de sonhos translúcidos foi bem
menor do que o esperado com base em suas alegações. Não obstante, Hearne conseguiu
“pegar” um outro sonho translúcido de uma mulher que se submeteu à prova e foi capaz
de sinalizar através de movimentos dos olhos. Daí se conclui que essa técnica poderia
ser proveitosa se houvesse, pelo menos, mais pessoas dispostas a se submeterem aos
experimentos sobre sonhos translúcidos.
Para poder contar com mais pacientes, Hearne esperava estar em condições de
induzir o estado de lucidez. Para tanto, borrifava água no rosto das pessoas enquanto
estavam sonhando – um método já utilizado antigamente como estímulo para alterações
de personalidade dentro do processo de sonho e que funcionou aqui também. As
pessoas sonharam que imitavam o miado de gatos ou o comportamento de pessoas
conhecidas, ou que eram bebês jogando um mar de água para fora da banheira. Não
tinham consciência, porém, de que estavam sonhando. A tentativa de provocar um
estímulo aplicando um pequeno choque elétrico em seus pulsos não obteve êxito.
Assim, parece que é muito difícil induzir um estado lúcido desta forma.
Um último experimento merece atenção. Algumas pessoas têm reivindicado ter PES
em sonhos translúcidos. Green cita alguns exemplos e já ouvimos falar do sonho de Fox
no qual ele “lia” as folhas da sabatina

144
que iria fazer na escola. Van Eeden também afirmava ter tido visão premonitória em
alguns sonhos translúcidos. Hearne tentou fazer um teste de PES, pedindo ao seu
paciente que olhasse para um determinado número durante o sonho (62a, b). Quando
um sonho translúcido era sinalizado, ele pegava um número qualquer de listas
aleatórias. De fato, o paciente via números afixados nas portas ou portões de casas ou de
algum modo assimilados durante o sonho, mas nunca eram os números corretos. No
futuro, estes e outros experimentos podem ser grandemente ampliados através do
método criado por Hearne, e é de se esperar que levem a uma compreensão muito maior
dos sonhos translúcidos.
Podemos agora nos perguntar o que todas estas informações sobre o sonho
translúcido nos dizem sobre EFCs. Antes de tudo, acho que o mais importante é atentar
para as semelhanças. Em ambos, a pessoa parece ter a consciência desperta, ou algo
muito próximo disso. Ela é capaz de enxergar claramente, mas o que vê não se parece
muito com a realidade física e tem muitas propriedades de um mundo de sonhos ou um
mundo imaginário. Pode realizar atos como gritar ou deslocar objetos, nos quais
aparenta ter sucesso, não, porém, em termos físicos.
No caso do sonho translúcido, a interpretação mais óbvia é a de que a pessoa está
sonhando e o mundo de sonhos é criado inteiramente pela sua própria imaginação; sua
essência é o conteúdo da própria memória e ela constrói o mundo de sonhos para
proveito próprio. A única diferença entre o sonho lúcido e um sonho comum
provavelmente reside no estado de consciência e não no seu conteúdo. Se este modelo
for evidente, também tem possibilidades excitantes: já que possuímos um conhecimento
reduzido sobre mudanças de estados de consciência, eis aqui um exemplo desse estado
prontamente acessível a qualquer pessoa e que dispensa drogas, hipnólogos ou uma
parafernália específica. Tudo do que se precisa é de muita paciência e prática. Acredito
que o estudo deste estado particular de consciência poderá nos ensinar coisas úteis sobre
estados de consciência, em geral.
Mas, e quanto à EFC? A questão principal é saber se uma pessoa que faz uma EFC
está observando o mesmo mundo que um sonhador lúcido. Serão ambas as experiências,
essencialmente, aspectos do mesmo fenômeno? O mundo visto em ambas é um produto
da imaginação? Ou será a EFC algo inteiramente distinto, uma experiência na qual o
mundo físico ou algum “mundo astral” coexistente, é percebido? Ou será que talvez o
modelo esboçado acima está completamente errado, e ambas sejam experiências nas
quais um corpo astral se projeta?

145
Apesar de estar tentando manter um espírito aberto, devo dizer que a explicação
anterior possui algumas vantagens. Uma avaliação do sonho translúcido em termos de
processos de imaginação e de sonhos normais é, ao mesmo tempo, simples e atraente, e
as duas experiências, sonho translúcido e EFC, parecem ter muita coisa em comum.
Seria difícil traçar uma linha de separação segura entre ambas. No entanto, uma
informação crucial de que ainda não dispomos é que estado fisiológico está relacionado
com a EFC. Se tivéssemos essa informação, teríamos uma idéia melhor da sua relação
com o sonho translúcido. Por essa razão, voltar-me-ei em seguida para estudos da
fisiologia da EFC.

146
12 A FISIOLOGIA DA EFC

Numa carta dirigida à Revista da SPP em 1976, o eminente fisiologista da


Universidade de Cambridge, William Rushton, expressava sua perplexidade diante do
fato de que a EFC fosse levada tão a sério. “Apresenta-se-nos simplesmente a
lembrança, sem comprovação objetiva, de uma ‘experiência’ de um tipo mais ou menos
estranho”, declarou. “A coisa parece estar nos mesmos termos de um sonho
relembrado... O que não consigo entender é por que esse sonho deveria merecer mais
atenção do que um outro qualquer (127).” Rushton estava colocando uma questão
importante: será a EFC um tipo de sonho?
A esta altura, já temos uma resposta? É evidente que existem semelhanças entre
EFCs e sonhos. Em ambos vivenciamos um mundo no qual a imaginação desempenha
um papel relevante e no qual realizamos atos que não seriam possíveis na vida comum.
A EFC, porém, difere, em vários aspectos óbvios e importantes, daquilo que chamamos
de sonho comum. Para começar, geralmente ocorre quando o sujeito está desperto, ou
pelo menos entorpecido ou drogado, mas não dormindo. Segundo, as imagens e
atividades de uma EFC são, habitualmente, muito menos bizarras e mais coerentes do
que aquelas de um sonho comum e, na maior parte das vezes, o cenário tem mais pontos
de contato com o ambiente normal do que com a atmosfera peculiar dos sonhos.
Terceiro, os sujeitos das EFCs freqüentemente insistem em dizer que sua experiência
não tem nada a ver com sonhos. “Foi tão real, tão expressiva”, explicam eles e, visto
que acreditamos que a maioria das pessoas sabe diferenciar os sonhos da vida real a
maior parte do tempo, esta reivindicação insistente deve ter

147
algum valor. Finalmente, há uma grande diferença nos estados de consciência. Os
sonhos comuns se caracterizam por um estado vago de consciência, na melhor das
hipóteses, e são reconhecidos simplesmente como sonhos quando se acorda.
Mas essas diferenças não são suficientes. Poder-se-ia argumentar que num sonho
translúcido tanto as imagens como o estado de consciência têm muitas afinidades com
as imagens e o estado percebidos numa EFC. Portanto, talvez a EFC seja uma espécie
de sonho translúcido que ocorre no meio da vida consciente. Aqueles que tiveram uma
EFC poderiam, entretanto, protestar dizendo que não entendem assim, mas talvez
estejam enganados. Podia ser que um sonho que aparecesse, de súbito, nos estados de
vigília, desse a impressão de ser muito real; apesar de tudo, muitos entendidos acharam
parecidos a EFC e o sonho translúcido, conforme já tivemos oportunidade de verificar.
Assim, como podemos saber se a EFC é uma espécie de sonho?
Uma maneira de descobrir seria determinar o estado fisiológico no qual a EFC
ocorre. Como vimos, o sonho translúcido aparenta ser um sonho verdadeiro, que ocorre
no período MOR do sono. Se a EFC também se manifesta no período MOR do sono,
então devemos ter alguma razão em chamá-la de sonho e declarar que aqueles que
defendem o contrário estão errados. Por outro lado, se ela ocorre num estado de vigília
ou em algum outro estado, então seria dar uma conotação indevida ao vocábulo “sonho”
chamar a EFC de sonho, ainda mais que ambos têm diferenças significativas e ocorrem
em estados diferentes.
Não é esta a única razão para se querer saber que estado fisiológico acompanha a
EFC. Já vimos que muitas pessoas acreditam que é o corpo astral, e não o cérebro, o
responsável pela consciência e até mesmo pelo pensamento. Se isto fosse verdade e se o
corpo astral estivesse separado do físico, seria possível encontrar alterações evidentes na
atividade cerebral durante uma EFC. Em última instância, poderíamos supor que
cessasse toda a atividade do cortex cerebral no momento da saída do corpo astral.
Existem outros padrões importantes também. Está o sujeito da EFC relaxado ou tenso
durante a experiência? Reage a coisas que se passam ao redor dele, ou está seu corpo
completamente passivo? Poderíamos procurar sinais de medo ou excitação, e tudo isto
serviria para entendermos melhor a EFC.
Na maioria das vezes, geralmente, desejamos saber se a EFC ocorre num estado
distinto e claramente identificável, ou se pode ocorrer, via de regra, como por exemplo
os devaneios, num estado de vigília ou sonolento.

148
Se houvesse um estado específico de EFC, teríamos, então, melhores condições de
definir o fenômeno e de testar se determinada pessoa estava, de fato, tendo uma EFC.
Em outras palavras, poderíamos checar as declarações de EFCs. Teríamos também
condições de dizer quando uma EFC começou e parou, quanto tempo durou, e assim por
diante. De fato, poderíamos fazer com a EFC o que se tornou possível fazer com o
processo do sonho, através da identificação do período MOR do sono. Nem é preciso
falar da utilidade disso. Por outro lado, pode ser que não exista nenhum estado
característico de EFC. Isto só pode ser revelado por meio de experimentos em
laboratório; mas, primeiro, precisamos captar uma EFC no laboratório.
Não é uma tarefa fácil. Conforme vimos, a maioria das pessoas que tem uma EFC só
passou por uma, ou no máximo por algumas, na vida. E estas são imprevisíveis,
inapeláveis, ocorrendo nas mais desconcertantes situações. Para apreender uma EFC em
laboratório, é necessário um determinado tipo de indivíduo, que seja, ao mesmo tempo,
capaz de produzir uma EFC voluntariamente e disposto a se submeter à tensão de ser
testado sob estas condições. Exigir-se-á que produza a experiência requerida e que
indique quando ela se inicia e quando termina; e será preciso fixar eletrodos no crânio,
mãos e rosto, ligados a uma bateria de instrumentos.
Felizmente, estes sujeitos existem. Um dos primeiros a serem testados foi uma moça
chamada de Srta. Z, e o experimento foi realizado por Charles Tart que estudou as EFCs
dela (146b). A Srta. Z tinha vinte e poucos anos e tivera dois anos de formação
universitária. Segundo Tart, ela havia tido uma infância difícil, sofrerá de vários
problemas psicológicos e estivera internada num hospital psiquiátrico durante algumas
semanas antes de iniciarem os experimentos. Todas as suas EFCs ocorriam à noite. Ela
costumava acordar durante a noite e perceber que estava flutuando na altura do teto,
onde permanecia por alguns segundos ou, às vezes, até meio minuto. Apenas raramente
vivenciava algo além, ou tentava viajar para longe da cama e do quarto. Ao que consta,
ela achava este tipo de experiência bastante comum, até que as mencionou a alguns
amigos adolescentes; como eles a ridicularizaram, deixou de se referir ao fato.
Usando a Srta. Z como paciente, Tart inicialmente queria testar dois aspectos de
EFC: primeiro, se PES podia ocorrer durante uma EFC e, segundo, qual seria o estado
fisiológico relacionado com a experiência. Uma vez que todas as EFCs da Srta. Z
ocorriam à noite, ela foi convidada a passar várias noites no laboratório de pesquisas
sobre o sono, para observação. Foram utilizadas duas salas. Numa delas, a Srta. Z
dormia conforta-

149
velmente, e na outra, Tart passava a noite observando o funcionamento dos aparelhos de
registro e ouvindo, através de um intercomunicador, tudo o que a paciente dizia.
Pediram-lhe que tentasse ter uma EFC e, se tivesse sucesso, que dissesse a Tart a fim de
que ele pudesse marcar o tempo nos gráficos de controle das informações sobre sua
atividade fisiológica. Ao todo, a Srta. Z passou quatro noites não-consecutivas no
laboratório.
Os gráficos estavam programados para registrar uma variedade de aspectos
característicos. Primeiro, havia o eletroencefalograma: com discos de eletrodos fixados
ao couro cabeludo da paciente, o EEG fazia um registro constante durante a noite toda,
por intermédio de um polígrafo. Este instrumento serve para registrar múltiplas
variáveis ao mesmo tempo, aumentando-se o potencial dos eletrodos presos ao crânio,
os quais geram energia para as canetas que se movimentam para cima e para baixo, ao
longo de uma fita móvel de papel, o que produz um traçado sinuoso das mudanças em
potencial. Assim como o EEG, o polígrafo registrava os movimentos dos olhos, a partir
de mini-indicadores de pressão fixados sobre a pálpebra direita, e a resistência
epidérmica padrão, a partir de um eletrodo preso na palma da mão direita. Com este
mesmo eletrodo, também se media a intensidade de reação epidérmica, ou IRE.
(Quando alguém responde a um estímulo alarmante, como um som barulhento ou algo
de efeito emocional, ocorre uma alteração na pele da mão. Uma transpiração superficial
altera rapidamente a capacidade de resistência, e esta pode ser registrada como IRE – o
princípio usado no “detector de mentiras”.)
A pulsação cardíaca e o índice de volume sangüíneo também são medidos por um
fotopletismógrafo digital. Obviamente, é interessante conhecer a pulsação cardíaca, pois
ela tende a diminuir durante o sono e a aumentar sempre que o sujeito está mais
estimulado ou alerta. Mas como esse aparelho apresentava problemas, ele só foi
utilizado em duas das quatro noites.
Na sua primeira noite passada no laboratório, a Srta. Z conseguiu pegar no sono. No
espaço de meia hora ela atingira o Estágio 4 do sono e, durante a noite, teve três
períodos de MOR. Uma característica peculiar do registro foi que teve rápidos
movimentos dos olhos durante o período do Estágio 1 na sua primeira dormida.
Realmente este fato é raríssimo, mas Tart insinuou que poderia estar relacionado com o
fluxo de imagens muito expressivas que a Srta. Z relatara antes de pegar no sono.
Durante essa primeira noite ela não teve EFCs.
Na segunda noite, a Srta. Z acordou duas vezes e contou que estivera flutuando
acima do corpo e que, numa das vezes, flutuara e regredira

150
quatro ou cinco vezes nos cincos minutos precedentes. Na primeira vez, a Srta. Z ainda
não tinha adormecido e o EEG apresentou um quadro de sonolência seguido do
despertar quando ela contou a Tart sobre a experiência. Durante o tempo todo a
pulsação cardíaca mantivera-se estável e não houve MORs. Depois, às 3:15 da
madrugada, a Srta. Z acordou gritando: “Anote 3:13.” Aparentemente, ela deixara o
corpo e levitara alto o bastante para ver o relógio na parede. Desta vez o EEG mostrava
padrões variados, mas predominantemente atividade teta e alfóide (um padrão
semelhante, se bem que mais lento, ao estado alfa consciente). Havia poucos fusos do
sono (um aspecto do padrão de EEG em certos estágios do sono), não havia MORs nem
IREs, mas um batimento cardíaco estável. Na ocasião final, em que foram relatadas
várias EFCs breves, o EEG não pôde ser classificado, nem como um padrão de sono,
nem como um padrão de atividade desperta. (Exemplos desses padrões são mostrados
na Ilustração 9.)
Na terceira noite, a Srta. Z teve uma EFC dramática. Voando, percebeu que fora
parar em sua casa no sul da Califórnia, onde se encontrou com a irmã. Esta se levantou
da cadeira de balanço onde estava sentada e as duas se comunicaram sem palavras.
Após um momento, ambas entraram no dormitório e viram o corpo da irmã, deitado na
cama, dormindo. Tão logo percebeu que era tempo de ir embora, a EFC terminou e a
Srta. Z estava de volta ao laboratório.
Tart não conseguiu contatar a irmã para checar se ela soubera da visita, mas o
registro fisiológico demonstrou que houvera, basicamente, atividade alfóide sem MORs
e apenas dois minutos de duração do Estágio 1, sono com sonhos, sem MORs.
A última noite foi, em certos aspectos, a mais excitante, pois nesta ocasião a paciente
foi capaz de enxergar um alvo de PES previamente arranjado (há mais informações
sobre isso no Capítulo 18); o registro do EEG, porém, foi obscurecido por muitas
interferências. Tart descreveu-o como relativamente parecido com o Estágio 1 sem
MORs, mas acrescentou que não tinha certeza se se tratava de um Estágio 1 ou de
padrão de atividade desperta.
Por entre todos esses confusos e mutáveis padrões, emerge alguma certeza. Em geral,
o EEG apresentou um padrão muito parecido com um Estágio 1 pouco desenvolvido,
combinado com curtos períodos de vigília. Isto faz sentido, pois a Srta. Z sempre
acordava quando queria relatar as EFCs. A atividade do EEG foi regular, estava
relacionada com uma pulsação cardíaca constante e não apresentava MORs, nem
alterações visíveis

151
no IRE ou na resistência epidérmica padrão. Tudo isso quer dizer que a Srta. Z não
estava sonhando quando teve suas EFCs ou, para ser mais exata, ela não estava no sono
do estágio MOR. Para essa paciente, pelo menos, as EFCs não ocorrem no mesmo
estado do sonho. Tart gostaria de ter continuado o trabalho com a Srta. Z, mas isto
acabou se tornando impossível, visto que ela teve de retornar para a Califórnia.
No entanto, Tart (146a) pôde trabalhar com outro médium, Robert Monroe, que ficou
famoso com seu livro Journeys Out of the Body. Monroe foi preparado para nove
sessões com o EEG e outros dispositivos, mas já que suas EFCs não ocorrem durante o
sono, não teve necessidade de passar noites inteiras no laboratório, a não ser numa
ocasião, com o objetivo de testar seus padrões de sono. Normalmente, ele chegava ao
anoitecer e ficava durante algumas horas reclinado numa cama portátil, na sala de
experiências, enquanto era observado por Tart, ou um assistente, através de uma janela
da sala de observações.
Nesse ambiente, Monroe tinha dificuldade em induzir uma EFC. Os eletrodos eram
fixados em seu ouvido, o que achava muito incômodo. Durante o tempo todo em que
ficou tentando ter uma EFC, seu EEG apresentou uma estranha mistura de padrões.
Havia uma rara variação do ritmo alfa, fusos do sono variáveis e ondas teta de alta
freqüência. Uma vez que não houve nenhuma atividade alfa, os Estágios 3 e 4 não
puderam ser identificados. Em resumo, Tart concluiu que Monroe passou pelos Estágios
1 e 2 e que esteve relaxado e sonolento, entrando e saindo do sono. Para efeito de
comparação, Monroe passou uma noite no laboratório e Tart constatou que seu padrão
de sono era completamente normal, com exceção das características já observadas; isto
é, não apresentava ondas alfa e seus fusos de sono variavam de freqüência. Monroe teve
períodos normais de sonho, assim como um ciclo normal de sono.
Durante a penúltima sessão, Monroe conseguiu ter uma EFC. Ele estivera relaxando
e tentando massagear o ouvido dolorido quando teve a impressão de estar vendo uma
mulher sentada numa poltrona, conversando com dois homens. Monroe procurou
chamar a atenção do grupo, beliscando delicadamente a mulher, mas não obteve
resposta e acabou voltando. Logo depois teve uma nova “projeção”, desta vez
permanecendo dentro dos limites do quarto, onde chegou a cruzar com a técnica que
estava tomando conta da aparelhagem. Depois de retornar ao corpo, ele despertou e
chamou a técnica para contar-lhe tudo sobre o homem que vira na companhia dela e que
vinha a ser, de fato, o seu marido.

152
Foi muito difícil achar a correspondência entre esta longa e dupla EFC e o registro do
EEG. Mas, no que lhe dizia respeito, Tart concluiu que houve um longo período de
atividade alfa e sono correspondente ao Estágio I; depois, sono correspondente ao
Estágio 2, Estágio 1 com MORs, um breve despertar que durou 40 segundos; a seguir,
mais três minutos do Estágio 1 com MORs, antes do despertar final. Parecia que as duas
EFCs coincidiram com períodos do Estágio 1.
Tart deduziu que as EFCs de Monroe ocorreram no estado de sonho, o que lhe
apresentou um problema. Monroe insiste em dizer que, para ele, o processo do sonho e
as EFCs são inteiramente distintos; ele havia tido sonhos também em sua sessão
noturna, porém não relatou nenhuma EFC. Tart acabou concluindo que talvez as EFCs
fossem uma mistura de sonhos e “alguma coisa mais”. E achava que essa “alguma coisa
mais” poderia ser PES.
Esta evidência sugere que a EFC é, apesar de tudo, uma espécie de sonho? Eu penso
que não, pois é muito possível que Monroe estivesse antes no sono correspondente ao
Estágio 1, do que no Estágio caracterizado por MOR, quando teve suas EFCs. As
diferenças entre os dois estágios consistem numa insignificante diferença no padrão do
EEG, no fato de que o Estágio 1 ocorre na primeira vez em que se pega no sono e o
Estágio com MOR, geralmente, ocorre após um período de sono profundo e,
naturalmente, na presença de MORs. Monroe entrou neste estado de EFC uma vez, a
partir do sono correspondente ao Estágio 2, e outra vez, a partir de um curto período de
vigília. Isto seria exatamente o que se deveria esperar se ele estivesse sonolento ou
levemente adormecido e se as EFCs ocorressem no Estágio 1. Se fosse no Estágio com
MOR, seria provável que tivesse ocorrido primeiro um sono profundo. O fato de que
Monroe não apresenta Estágios 3 e 4 normais, complica a questão. Portanto,
basicamente, o único aspecto que podemos determinar são os MORs, dos quais Tart não
fornece detalhes. Assim, não temos certeza se Monroe estava num sono superficial,
demonstrando os movimentos de olhos mais lentos deste estágio, ou se estava no
(improvável) sono do período MOR, com verdadeiros MORs.
Pode ter sido um sono com verdadeiros MORs, mas se, por ora, supusermos que
meus argumentos são válidos e que ele estava no sono do Estágio 1, então Monroe
estaria certo em dizer que seus sonhos e EFCs são muito diferentes. As EFCs estariam
acontecendo no estado fronteiriço entre o sono e a vigília, no qual muitos de nós
vivenciamos imagens, visões e sons expressivos e no qual a imaginação parece correr

153
solta. Se é nesse estágio que a EFC acontece, podemos afirmar que não é um sonho, o
que confirmaria as descobertas feitas com a Srta. Z. Mas é óbvio que, em face de todos
estes argumentos e problemas, é necessário obter mais informações de outros sujeitos e
de outros laboratórios.
Um dos próximos sujeitos a ser testado desta forma foi Ingo Swann. Swann, que
acrescentou um segundo “n” ao nome a conselho de um numerologista, é um pintor que
mora em Nova Iorque. Ele pinta cosmo-visões inspiradas por suas viagens fora do corpo
através da galáxia. Sua primeira EFC ocorreu quando tinha somente três anos de idade e
recebeu uma anestesia para extrair as amígdalas. Depois disso, as experiências ocorriam
espontaneamente, mas só muito mais tarde, depois da universidade, três anos de carreira
militar e de começar a pintar, é que Swann aprendeu a controlar suas EFCs e a tê-las
voluntariamente (8a, 144).
Um belo dia, Swann apareceu na SAPP* e disse a Janet Mitchell que podia
“‘exteriorizar-se’ fora do próprio corpo em qualquer tempo e lugar, apesar de nem
sempre conseguir ‘ver’ perfeitamente” (92). Não é muito claro o que realmente Swann
entende por “exteriorizar”. Ele nega, por exemplo, que possa ter EFCs (8a), mas, por
outro lado, afirma que sua consciência se separa do corpo físico. Em todo caso, ele tem
participado de experimentos parecidos com os de outros sujeitos de EFCs.
Em vários experimentos efetuados na SAPP (106), Swann foi ligado ao EEG
enquanto repousava num quarto escurecido e tentava se exteriorizar, sem pressa, e viajar
até um quarto afastado, onde alvos de PES haviam sido colocados. Ao contrário dos
sujeitos anteriores, ele não adormeceu e foi capaz de fazer comentários sobre como
estava se saindo, através de um intercomunicador. Também segurava um botão de
campainha que pressionava ao retornar e que servia para o EEG registrar o tempo exato
da EFC.
Depois de passar alguns meses fazendo este tipo de experimento, Swann mostrou que
seria possível deixar o corpo voluntariamente, de modo que Mitchell combinou dar-lhe
um sinal audível que avisaria quando devia ir e quando devia voltar. Parece que Swann
teve êxito, o que significava, na prática, que as EFCs poderiam ser determinadas e
comparadas com facilidade. Durante os períodos da EFC, o EEG foi marcadamente
regular e houve alterações de freqüência, com um declínio de alfa e um

*
Sociedade Americana para Pesquisas Psíquicas.

154
aumento de atividade beta. Enquanto estas alterações ocorriam, a pulsação cardíaca se
manteve normal.
Estas descobertas são muito diferentes daquelas feitas com os sujeitos anteriores,
pelo fato de que Swann parece ter ficado mais alerta durante suas EFCs, enquanto os
outros sujeitos estavam num estado de sono ou de sonolência; mas isso apenas confirma
o que se depreendeu dos estudos de casos, ou seja, que a EFC pode ocorrer numa
variedade de estados. Tanto Swann como a Srta. Z apresentaram EEGs regulares e
pulsação cardíaca constante. O achado mais importante, porém, é que, em nenhum caso,
até agora, parece haver um estado característico em que a EFC se manifeste. Não houve
bruscas alterações, nem na EEG, nem nas funções vegetativas, que assinalassem o
começo ou término da EFC. Todas as alterações foram graduais; ao contrário dos
sonhos, a EFC não parece estar relacionada com um estado fisiológico característico.
Blue Harary é um outro médium que tem participado de numerosos experimentos
sobre a EFC, inclusive daqueles que se referem à medição de variáveis fisiológicas.
Stuart Blue Harary, que me foi apresentado pela primeira vez como o “Homem da
Projeção Astral”, nasceu em Nova Iorque, em 1953, e tem experiências mediúnicas
desde uma tenra idade. Afirma que, aos seis anos de idade, encontrou amigos
desencarnados, que não só lhe ensinaram como ver as coisas de uma perspectiva
diferente, mas também lhe deram informações sobre assuntos reservadamente familiares
que ele desconhecia (8d). Teve sua primeira EFC aos quatorze anos, e esta experiência
inicial foi desagradável. Certa noite, quando já estava deitado, ele se viu de repente
levitando acima do corpo, mas percebeu que não estava só. Pairando atrás dele estava
um vulto sombrio e ameaçador, apenas uma sombra. Apavorado, acendeu a luz e com
um solavanco voltou ao corpo; mas apesar de não ver mais a criatura, sentia que ela
continuava presente e, durante algum tempo, ficou assustado com a experiência.
Posteriormente, começou a ter mais EFCs, que não foram tão ruins assim, porém não
contou o segredo, nem aos familiares, nem aos seus amigos, como costumam fazer
tantos sujeitos que têm EFCs.
Em 1971, quando ainda estava cursando a universidade, Harary decidiu visitar a
Sociedade Americana para Pesquisas Psíquicas na cidade de Nova Iorque. Aí conheceu
Janet Mitchell, na época envolvida no trabalho com a EFC. Alguns meses depois, ele
conheceu também Karlis Osis, membro do conselho de pesquisas da Sociedade, que
iniciara um projeto para testar na prática pessoas que se diziam capazes de “sair fora do
corpo” voluntariamente (103e). Osis convidou-o a participar desse teste e Harary

155
teve um bom desempenho, viajando até um quarto afastado e relatando com certa
precisão o que viu ali.
Desde então, Harary tem participado de numerosos experimentos sobre a EFC, não
só como sujeito, mas também como experimentador. Ele se transferiu para a
Universidade de Duke para que pudesse ficar mais entrosado no trabalho
parapsicológico que estava sendo realizado em Durham e, daí em diante, tem sido
aquele tipo raro de pesquisador que vivência pessoalmente os fenômenos com que está
lidando.
Harary conta que suas experiências são muito variadas (59). Algumas vezes tudo
parece próximo do consenso normal de realidade; outras, é completamente diferente, e
suas experiências têm uma seqüência contínua, no meio da qual tudo é possível. Seu
“outro corpo” também varia. Ele pode se sentir como uma “bola de luz flutuando no
espaço, uma forma corpórea ou simplesmente como um ponto de consciência que se
concentra sobre uma determinada área ou se funde, em graus variáveis, com o meio
ambiente circundante” (59, p. 261). De tempos em tempos, ele tem consciência de
vivenciar duas posições simultâneas. Certas experiências são facilmente recordadas,
enquanto outras são esquecidas e, por vezes, a experiência parece tão real que ele não
percebe, no ato, que está tendo uma EFC. Um detalhe curioso é que Harary afirma que a
bola de luz varia de cor e intensidade. Esta afirmação soa muito parecida com as
descrições feitas pela tribo dos Rigo de Papua, Nova Guiné. Consta que a bola de luz de
Harary foi vista até mesmo por um amigo, a quem procurou visitar durante uma EFC.
Não admira que com tal variedade de experiências, com o seu domínio sobre elas e com
as expressivas descrições que fez delas, Blue Harary tenha demonstrado ser um
excelente sujeito para a pesquisa de EFC.
Os testes de medição de seu estado fisiológico foram realizados na Fundação para a
Pesquisa Psíquica. A FPP foi expressamente criada para estudar aqueles fenômenos que
aparentemente indicam sobrevivência parcial de um indivíduo depois da morte física.
Em 1973-1974, Harary estudou psicologia na Universidade de Duke e era assistente de
pesquisas na FPP, onde participou de uma série de experimentos (61, 68, 95, 96). Estes
realizavam-se, geralmente, à noite. Harary se preparava o dia todo, fazendo um
relaxamento cuidadoso e evitando qualquer coisa que pudesse desviar o seu espírito
durante a sessão noturna. Uma hora antes da sessão, costumava meditar por alguns
minutos, de modo que chegava calmo e relaxado para o experimento. Enquanto os
eletrodos eram ligados ao seu corpo, ele se “acalmava” ainda mais, por meio de um
relaxamento progressivo, e visualizava mentalmente o alvo aonde teria de ir,
preparando-se para sua visita ao local. Desta forma, ele atingia, às vezes, um tal estado,
em que dificilmente conseguiria resistir a ter uma EFC. Quando tudo estava pronto,
deixavam-no em um quarto completamente escuro, à prova de som, para evitar
interferências externas (ver Ilustrações 10 e 11).

156
Foram feitas medições fisiológicas em 13 sessões, as quais incluíam EEG,
movimentos dos olhos, atividade muscular (por meio de eletrodos fixos no queixo),
potencial epidérmico, pulsação cardíaca, volume sangüíneo e, finalmente, capacidade
respiratória. Todos esses dados foram registrados num polígrafo de 12 canais,
juntamente com indicadores de tempo e resultados do teste, e o período integral foi
dividido em sub-períodos de 30 segundos cada um, para fins de análise. Em cada sessão
determinaram que Harary saísse fora do corpo duas vezes. Antes de qualquer EFC,
Harary procurava “se acalmar” durante algum tempo e, depois, quando se achava
pronto, avisava que estava começando a projeção. No final da EFC, geralmente depois
de 2-3 minutos, ele dizia que estava de volta. Mais tarde, repetia-se o mesmo processo,
de forma que houve quatro fases no total, duas de “esfriamento” e duas de EFC. Por
esta comparação, foi possível ver se a EFC ocorria num estado acentuadamente distinto
daquele da fase de “esfriamento”.
Os resultados foram mais uma vez diferentes daqueles resultados de estudos
anteriores. Aqui não houve mudanças no EEG. A quantidade e freqüência de ondas alfa
foram as mesmas nas EFCs e nas fases de “esfriamento” e só houve poucos e
insignificantes movimentos de olhos nas fases de EFC. Essas medições demonstram
apenas que Harary estava acordado e que suas EFCs não ocorreram nos estados de sono,
de sonho ou num estado intermediário.
Outras medições apresentaram mudanças. O potencial epidérmico caiu, indicando
um relaxamento ainda maior, e foi este dado que forneceu o melhor indicador de que
uma EFC havia começado. A pulsação cardíaca e a atividade respiratória aumentaram, o
que é surpreendente, pois implica estado de vigília mais intenso, o oposto do resultado
do potencial epidérmico. Portanto, de certo modo, Harary estava mais relaxado, mas
também mais alerta. Mas talvez não seja tão surpreendente assim, se levarmos em conta
que o estado de relaxamento consciente é muitas vezes recomendado para o aprendizado
de EFCs. Por último, as outras medições feitas através do pletismógrafo e do
eletromiógrafo não apresentaram alterações.

157
Qual o significado dessas descobertas? Aparentemente, elas mostram que as EFCs de
Harary ocorrem quando ele se encontra num estado apenas um pouco diferente do
estado de “esfriamento” prévio. Ele está mais relaxado, e sua respiração e batimento
cardíaco são mais rápidos; porém, apesar destas alterações se manterem estáveis ao
longo dos diferentes períodos de EFC, elas são gradativas. Não houve nenhuma brusca
alteração no começo ou no final de uma EFC. Este estado não se parece muito com o
sonho, conforme foi confirmado por uma sessão que durou uma noite inteira e que
demonstrou que Harary teve um ciclo de sono normal, com períodos de MOR. Daí se
conclui que a EFC de Harary, muito mais do que a de outros sujeitos, não ocorre no
mesmo estado fisiológico do sonho.
Ao examinar estes estudos fisiológicos, tínhamos em mente dois objetivos principais:
descobrir se existe um estado característico de EFC, diferenciável de outros estados
fisiológicos, e, em caso afirmativo, qual é o seu aspecto; segundo, determinar se a EFC
pode ser considerada como um tipo de sonho. Ambos podem ser respondidos agora. No
primeiro caso, grandes diferenças entre os sujeitos tendem a dificultar o reconhecimento
de um padrão estável nos estados, mas no meio de toda esta confusão transparece uma
certeza: o começo de uma EFC não coincide com nenhuma alteração fisiológica brusca.
Não existe nenhum estado característico de EFC. Se levarmos em conta a multiplicidade
de situações cotidianas em que as EFCs têm sido observadas, talvez não haja nenhuma
surpresa neste fato.
Quanto à segunda questão, a resposta não deixa margem a equívocos. A EFC não
ocorre, pelo menos não para esses sujeitos e nessas condições, num estado semelhante
ao dos sonhos. No caso de Monroe, houve algo parecido com um estado de sono com
sonhos, mas a dúvida permaneceu. No caso dos outros sujeitos, seus estados, conforme
mostraram as medições feitas com EEG e os resultados da atividade do sistema
vegetativo, não coincidiam com o estado de sonho. Estavam relaxados e até mesmo
sonolentos ou levemente adormecidos, mas certamente não estavam sonhando quando
tiveram suas EFCs.
Há uma última e embaraçosa pergunta. Até que ponto podem esses resultados ser
extrapolados para outros sujeitos ou, mais especificamente, para outros tipos de EFC?
Já encontramos autores que acham que as EFCs induzidas diferem, em certos aspectos,
das experiências espontâneas. Outro problema é que algumas EFCs ocorrem em
situações-limite. O sujeito pode estar doente, sob tensão, sofrendo uma operação ou
acidente, ou até mesmo estar à beira da morte. Provavelmente, a única

158
conclusão certa é que as EFCs produzidas experimentalmente não se parecem com os
sonhos, nem mesmo com sonhos translúcidos. As duas experiências têm muitos pontos
em comum, mas os estados fisiológicos nos quais ocorrem são muito diferentes.

159
13 VISÕES DE MORIBUNDOS

O que acontece quando se morre? É claro que não espero, de fato, responder a uma
questão dessas, mas o que me levou a propô-la são as implicações contidas na EFC,
segundo a opinião de especialistas no assunto, a respeito do problema da sobrevivência.
Para ser mais exata: tem-se levantado a hipótese de que, se um corpo astral, ou alguma
espécie de duplo, pode deixar o corpo físico em vida, então talvez possa fazer o mesmo
na morte. Segundo essa concepção, a morte nada mais é que uma projeção astral
permanente, enquanto a projeção astral é um ensaio para a morte.
Essa opinião foi bravamente defendida por Muldoon e Carrington (97a) e Crookall
(26a). Algumas pessoas acham que as visões observadas pelos moribundos, assim como
os exemplos de “experiências de morte iminente” (EMIs), reunidos por autores como
Moody (94) e Kübler-Ross, corroboram esse ponto de vista. Opostas a ele, há duas
correntes alternativas principais. Em primeiro lugar, uma ampla variedade de doutrinas
religiosas, cujos pontos de vista são tantos e tão diferentes que não dá para discuti-los
detalhadamente neste livro; em segundo, várias abordagens psicológicas baseadas na
concepção materialista de que “a morte é o fim”.
De acordo com a teoria tradicional da projeção astral, a morte envolve um processo
de evolução. Quando o corpo físico morre, o astral gradualmente se liberta e se eleva
acima dele, tal como fazia numa projeção. Depois de ter pairado por perto algum tempo,
durante o qual a pessoa agonizante pode ver o próprio corpo e o que está acontecendo
em volta de si, finalmente ele parte para outros mundos. Agora, o corpo

160
etérico não é mais necessário, já que sua tarefa era servir de comunicação entre o astral
e o físico, de maneira que começa a se dissipar, podendo de vez em quando ser visível
como uma forma esbranquiçada em tomo ou sobre o corpo físico extinto. Ele demora
alguns dias para desaparecer. A teoria da projeção astral dá um esboço claro do que
acontece na morte. Qualquer clarividente, nos últimos momentos de vida, deve ser
capaz de ver a partida do corpo astral, seguida da dissipação do corpo etérico. A própria
pessoa agonizante pode vivenciar todos os fenômenos de projeção astral, inclusive as
sensações de separação e entrada no mundo astral. Aí, talvez seja capaz de vislumbrar
os espíritos dos mortos que vêm ao seu encontro para ajudá-la a percorrer o caminho. O
estado no qual ela começa sua vida póstuma vai depender da vida que levou na Terra e
do seu grau de evolução neste mundo. Mas, de qualquer modo, ela terá ampla
oportunidade de desenvolvimento após a morte e, portanto, de passar para planos mais
elevados, através de corpos ainda mais sutis (ver Ilustração 12).
Certos ensinamentos religiosos são compatíveis com essa descrição da morte. Outros
sugerem que, na morte, haverá transformação da consciência, com a perda do ego ou da
individualidade, e a absorção do individual na consciência coletiva ou cósmica. Outros
falam em regiões de céu, inferno, purgatório e “lugares” do gênero, para onde os mortos
vão. Também é comum a idéia de transpor um marco simbólico do outro mundo, tal
como o rio Estige. Mas eu acabaria me desviando muito do assunto de EFCs se tivesse
de examinar todas essas diferentes idéias ou discutir a questão da sobrevivência em
geral. Devo, portanto, me limitar ao exame das duas correntes principais.
Basicamente, o ponto de vista materialista é que se a consciência for um produto da
atividade cerebral e a pessoa e a sua personalidade única forem produtos do seu corpo,
cérebro e comportamento, então é claro que, quando o cérebro morre, o comportamento
cessa e o corpo é enterrado, a pessoa também deixará de existir. O mundo ficará privado
de sua personalidade, exceto no que sobrevive em suas criações, trabalhos, filhos ou
coisa que o valha, e sua consciência apenas pára de funcionar. Esse ponto de vista
geralmente é relacionado com a crença de que visões agônicas, EFCs e EMIs são
produtos da imaginação ou alucinações de um cérebro agonizante; de que não existem
anjos nem espíritos para serem vistos e de que o corpo nada deixa numa EFC. Visto que
essa opinião, nos termos em que é colocada, não explica de modo algum a totalidade
dos fenômenos, há necessidade de explicações complementares; e, conforme veremos,
muitas hipóteses psicológicas a respeito dos fenômenos de morte iminente

161
foram apresentadas. Em suma, as duas alternativas principais são: ou a de que algo
sobrevive – a mesma coisa que é projetada numa EFC –, ou a de que nada é projetado
numa EFC e nada sobrevive.
Existem muitas provas que servem para apoiar uma ou outra alternativa. Já desde a
fundação da SPP em 1882 e, de fato, muito antes, os pesquisadores de fenômenos
mediúnicos têm estudado a questão da sobrevivência humana após a morte física. Suas
técnicas são numerosas, envolvendo comunicações dos mortos através de várias formas
de mediunidade e o estudo de fenômenos agônicos ou de morte iminente, mas aqui só
vou considerar quatro tipos de provas. Primeiro, o estudo de aparições que ocorrem no
momento da morte; segundo, visões de um corpo astral ou de uma outra forma
observadas por aqueles que atendem a um moribundo; terceiro, as experiências de
moribundos e, finalmente, as experiências de pessoas que estiveram à beira da morte
mas sobreviveram para contar a história.

APARIÇÕES NA MORTE

As aparições em situações críticas constituíam parte importante das provas originais


em favor da sobrevivência. Era típico ouvir dizer que alguém viu ou ouviu uma aparição
e, depois, descobrir-se que a morte ou o acidente com certa pessoa vista como uma
aparição coincidiu exatamente com a experiência. O livro Phantasms of the Living (55)
possui muitos exemplos assim, que os seus autores preferiam atribuir antes a pessoas
vivas, do que aos mortos, devido à forte semelhança existente entre os fenômenos
observados em pessoas vivas e pessoas agonizantes. Myers também incluiu muitos
exemplos desse tipo em seu livro Human Personality and its Survival of Bodily Death
(99b); nos últimos anos há casos coletados por Bozzano (13), Carrington e Meader (18)
e por Camille Flammarion, em seu estudo Death and its Mystery [A morte e seu
mistério] (40). Evidentemente, há casos publicados também na Revista e Atas da SPP.
Tais casos têm relação com as EFCs, na proporção em que a aparição vista ou percebida
poderia ser interpretada como a saída do duplo da pessoa agonizante, mas esta não é,
obviamente, a única interpretação possível.
Primeiro, a comprovação de muitos casos pode ser questionada. Em geral, ela
depende de uma coincidência no tempo entre a aparição e a morte, o que é sempre
difícil de provar depois do caso. Não posso afirmar que todos os casos já apresentados
possam ser “racionalizados”, assim

162
como não posso ter certeza de que todos foram verdadeiros, mas posso apontar
possíveis fontes de erro. A memória é muito falível e poucas pessoas estão seguras
sobre a hora ou até mesmo o dia em que a aparição foi vista. Além disso, há muita
probabilidade de que alguém se lembre de uma experiência que coincidiu com uma
morte ou outro acontecimento importante e que se “lembre” disso como se ambas as
coisas tivessem ocorrido exatamente juntas. Só nos melhores casos é que existem
verificações imparciais sobre o horário tanto da aparição como da morte.
Há também o problema de saber se são freqüentes os casos de aparições que não
coincidem com nenhuma morte. É justamente isto que o “Censo de Alucinações” se
propôs a descobrir (136). Entre 1889 e 1894, um questionário simples foi entregue a
membros da SPP, com a seguinte questão:

Você já teve a nítida impressão de ver ou de ser tocado por um ser vivo ou um objeto
inanimado ou de ouvir uma voz, mesmo acreditando estar plenamente acordado? Pode descrever
alguma impressão que não tenha sido devida a qualquer causa física externa?

Seguiam-se, então, perguntas adicionais sobre a pessoa vista, seu estado de saúde na
ocasião e assim por diante. Recomendou-se aos membros da Sociedade que reunissem o
maior número de respostas possíveis e, no final, foram recebidas 17.000 respostas, das
quais 1.300 eram positivas. Os pesquisadores analisaram as respostas, fizeram uma
estimativa da probabilidade de várias coincidências e constataram que um número
impressionante de alucinações ocorreu no espaço de doze horas antes da morte da
pessoa vista. Este fato foi considerado por eles como uma prova de sobrevivência.
Considerando-se a época, este estudo foi muito avançado e os métodos estatísticos
utilizados eram novos; mas, fazendo um retrospecto, suas conclusões são poucos
confiáveis. O mais grave é que a amostra era muito tendenciosa. Os questionários foram
distribuídos a qualquer pessoa que estivesse em condições de preenchê-los sem ter sido
feita qualquer tentativa de amostragem aleatória. É óbvio que seria mais provável que
alguém que tivesse uma história interessante para contar tivesse mais vontade em
responder do que outra pessoa que nada tivesse para relatar. Muitos casos foram
investigados exaustivamente, mas, mesmo assim, falhas de memória, pequenos
exageros, conscientes ou não, e outros erros desse tipo não poderiam ser excluídos
inteiramente.

163
Há um outro problema mais sério para a questão da sobrevivência. Ainda que o mais
cuidadoso estudo apresentasse casos muito evidentes de aparições no momento da
morte, isto não é prova, nem da existência de um duplo, nem da sobrevivência. Sempre
seria possível argumentar que a telepatia ou a clarividência, combinadas com uma
alucinação, foi responsável pela visão. Este argumento se tomou conhecido como a
“hipótese da superPES”; “super” porque os poderes de PES tiveram de ser ampliados a
ponto de explicar alguns dos fenômenos declarados (47a).
O problema é que, para qualquer prova apresentada em favor da sobrevivência,
sempre se pode encontrar uma hipótese alternativa que envolve PES ou PK de pessoas
vivas, mesmo que essa hipótese pareça mais artificial do que a idéia de sobrevivência.
Este problema surge sob formas variadas e resulta do fato de que a PES é definida
negativamente e nunca pode ser excluída. Isto significa que a prova de sobrevivência
não é rigorosamente possível, mas, na realidade, este fato não é tão sério como parece,
porque não é realmente necessária “prova”. Se se pudesse demonstrar que a evidência
era tal que conviesse perfeitamente à idéia de sobrevivência e a tomasse ainda mais
inteligível do que qualquer outra alternativa, ela acabaria sendo aceita, quer tenha sido
ou não explicitamente descartada a possibilidade duvidosa de PES. Certamente existem
muitos que acreditam que a evidência possui tal qualidade.

VISÕES DE OBSERVADORES NO MOMENTO DA MORTE

O segundo tipo de prova, que tem relação mais próxima com EFCs, costumava ser
relatado antes com muito mais freqüência do que agora. Consiste nas visões observadas
ou nos sons ouvidos por expectadores num leito de morte. Ora podiam ouvir alguma
música muito agradável que se extinguia quando seus pacientes “morriam”; ora viam
“anjos” ou “espíritos de mortos” que vinham para levar o moribundo embora, mas os
casos mais interessantes aqui são aqueles em que algo parecido com um corpo astral foi
visto ao deixar o corpo físico no momento da morte. Sir William Barrett fez uma
coletânea de casos (4) e há exemplos dados por Greenhouse (50), Hyslop (150) e
Crookall (26h).
Um caso publicado na Revista da SPP em 1908 (4, pp. 105-08) dizia respeito a um
tal de Sr. G, cuja esposa faleceu em maio de 1902. Cinco horas antes de ela morrer, o
Sr. G olhou casualmente para a porta e viu “três camadas de nuvens diferentes em
separado. Cada nuvem parecia ter cerca de quatro pés de largura, seis a oito polegadas
de compri-

164
mento; a mais baixa estava a uns dois pés do solo, as outras separadas por intervalos de
aproximadamente seis polegadas...” Estas formas aproximaram-se do leito, e o Sr. G,
fitando através da névoa, viu uma visão dl mulher, transparente mas brilhantemente
dourada, vestindo um traje comprido e típico da Grécia e usando uma coroa de diamante
na cabeça. Mais duas figuras estavam ajoelhadas ao lado da cama e outras esvoaçavam
pelo quarto. Acima do corpo de sua esposa, flutuava uma figura branca e nua, ligada por
um cordão na testa. O Sr. G não despregou os olhos da visão até o fim. Sua esposa
ofegou, voltou a respirar e, quando deu o último suspiro, o cordão subitamente se
rompeu e a “figura astral” sumiu. As outras formas também partiram, o Sr. G sentiu
como se tivesse tirado um peso dos ombros e foi capaz de tomar uma decisão sobre o
que devia ser feito com o corpo. Ele conclui: “Deixo ao critério dos leitores decidir se
eu estava agindo sob o efeito de uma ilusão mental causada pela ansiedade, sofrimento e
cansaço, ou se meus pobres olhos mortais tiveram o privilégio de enxergar de relance
um mundo espiritual, repleto de beleza, felicidade e paz.”
Apesar de casos como este serem muito mais raros nos últimos anos,
impossibilitando a aplicação de métodos modernos sobre eles, a pergunta feita antes por
aquele homem continua tão pertinente como sempre e serve para todos os fenômenos
que vimos examinando aqui. É possível explicá-los em termos de fenômenos
psicológicos, alucinações e coisas do gênero? Ou será preciso invocar a teoria de um
duplo e de alguma forma de sobrevivência? É com respeito aos últimos dois tipos de
prova que esta questão recebeu o estudo mais detalhado. São as experiências de pessoas
à beira da morte.

EXPERIÊNCIAS DE MORIBUNDOS

As experiências deste tipo se dividem em dois grupos: experiências dos últimos


momentos de vida, que ocorreram com indivíduos que efetivamente morreram e que
são, em geral, contadas depois por alguém que presenciou a morte; e experiências de
morte iminente (EMIs) recontadas por pessoas que estiveram por um fio da morte, mas
se salvaram para contar suas histórias. Ambos os tipos fornecem descrições da situação
nos estágios finais de vida, mas deve-se ter em mente que em toda experiência de morte
iminente a pessoa sobreviveu e, por isso, não se pode dizer que ela estava morta no
momento de sua experiência consciente, mesmo que fisiologicamente tenha apresentado
todos os sinais

165
de morte. A mesma coisa se aplica às experiências dos últimos momentos de vida. Se a
pessoa foi capaz de recontar sua visão ou outra experiência, então não poderia estar
morta na ocasião. Assim, não ouviremos relatos de mortos, mas apenas de pessoas que
se depararam com a morte.
O estudo de experiências dos últimos momentos de vida tem uma longa história. Em
1926, Sir William Barrett reuniu uma pequena coletânea de casos, com o título de
Death-bed Visions [Visões do leito de morte] (4). Além de visões de espíritos que saíam
do corpo e de música ouvida na hora da morte, esse livro incluía vários tipos de
aparições vistas pelo próprio moribundo. Muitas dessas pareciam indicar a morte como
uma transição de um estado para outro; pode-se vislumbrar um mundo maravilhoso
além deste mundo e podem-se ver “espíritos” dos mortos em tomo do leito e “anjos” ou
outros seres espirituais que vêm para levar embora a pessoa agonizante. Barrett teve um
interesse especial pelo tipo de caso em que o moribundo via no quarto alguém que na
verdade já tinha morrido, fato este que desconhecia na ocasião. Casos análogos foram
anteriormente reunidos pela Srta. Cobbe em seu artigo ‘Peak in Darien” (20). Esses dois
autores acreditavam que este tipo de prova corroborava a teoria da sobrevivência e
Rogo, que reviu parte desta pesquisa (124c), concluiu que todos os investigadores foram
atraídos pela “hipótese da sobrevivência”.
Um destes casos foi relatado por Lady Barrett (4, pp. 10-15). Em seu trabalho como
cirurgiã-obstetra, certa vez ela fizera o parto de um recém-nascido, cuja mãe, porém,
estava agonizante e implorando para não ficar nas trevas. Aí, de repente, ela levantou os
olhos, aflita, para um determinado ponto do quarto e disse com um sorriso radiante:
“Oh, que maravilha! que maravilha!” Quando lhe perguntaram o que era maravilhoso,
respondeu que podia ver “uma claridade fascinante e seres maravilhosos”. Depois deu
um grito dizendo que tinha visto seu pai, muito contente por ela estar chegando. Quando
lhe mostraram o bebê, a mulher perguntou se devia ficar, pelo bem da criança, mas logo
acrescentou: “Não posso... não posso ficar! Se vocês pudessem ver o que estou vendo,
iriam saber que não posso ficar.” Mais tarde, conversando com o marido, ela lhe pediu
para não encobrir a bela visão e, em seguida, disse que estava vendo Vida, a irmã dela.
Cerca de uma hora depois de ter tido as duas visões, a mulher faleceu. Lady Barrett
acrescentou que a mulher não soubera da morte da sua irmã ocorrida umas três semanas
antes, por causa de seu precário estado de saúde.

166
Este caso inclui a maior parte das características apontadas como prova em favor da
sobrevivência por muitos pesquisadores de fenômenos mediúnicos, mas ainda se
poderia provar irrefutavelmente que as visões eram o produto de um cérebro agonizante
e que a morte da irmã fosse conhecida subconscientemente ou percebida através de
PES. É claro que, se tivermos de decidir qual das interpretações é a mais válida,
precisaremos de algo mais do que uma mera enxurrada de casos e, nesse sentido, têm-se
feito, recentemente, diferentes abordagens.
Extensas pesquisas envolvendo observações de pacientes à morte feitas por médicos
e pessoal de enfermagem foram realizadas por Karlis Osis, parapsicólogo americano, e
Erlendur Haraldsson (104b, c). Juntos, eles tentaram descobrir se visões no leito de
morte são uma evidência de vida póstuma ou se são o resultado de um mau
funcionamento do cérebro comatoso. Eles prognosticaram que, se fosse este último o
caso, então as aparições vistas refletiriam, em larga escala, as expectativas e a formação
religiosa do paciente e dependeriam, em grande extensão, da causa da morte e dos
medicamentos que foram administrados, havendo probabilidade de um número maior de
aparições vistas pelo paciente ser causado por alucinações. Com o propósito de verificar
essas aparições, Osis e Haraldsson distribuíram questionários a médicos e enfermeiras
tanto na América como na Índia.
Nos Estados Unidos, foram enviados questionários a 2.500 médicos e ao mesmo
número de enfermeiras, recebendo-se 1.004 respostas. Na índia, como uma pesquisa
pelo correio não foi considerada praticável, 704 funcionários do setor médico foram
entrevistados pessoalmente. Os quesitos da pesquisa incluíam informações sobre sua
formação cultural e crenças e, depois, sobre os pacientes que morreram sob seus
cuidados. Perguntaram-lhes quantos pacientes haviam atendido e quantos faleceram,
quantos haviam visto aparições ou vivenciado alterações radicais de humor e como elas
tinham sido. Além disso, pediram-lhes detalhes sobre as crenças religiosas, tipo de
enfermidade e causas da morte desses pacientes, e sobre os medicamentos que estavam
tomando antes da morte. Ao todo, 877 casos foram obtidos. A partir de todas estas
informações, Osis e Haraldsson tentaram determinar as variações das experiências dos
últimos momentos de vida.
Antes de mais nada, eles descobriram que a maioria das visões (80%) era de pessoas
mortas ou figuras religiosas. Este índice supera em muito a proporção de visões da
população geral. Na Índia houve mais visões religiosas e na América mais visões dos
mortos. Do total de pes-

167
soas mortas vistas, mais de 90% eram parentes do moribundo e 65% pareciam ter vindo
para levar o paciente embora. Neste ponto, uma curiosa diferença revelou-se entre as
duas culturas. A maior parte dos americanos estava disposta a “acompanhar” aqueles
que vinham para buscá-los, mas muitos hindus não mostraram a mesma disposição. De
fato, quase todos os que se recusaram a “ir” eram hindus. Osis e Haraldsson
relacionaram este fato com as crenças diferentes sobre a função desses mensageiros.
Curiosamente, foi esta a única diferença importante entre as culturas. Observou-se mais
“serenidade” entre cristãos do que entre hindus, porém, na maioria dos outros aspectos,
as visões eram comparáveis, apenas com ligeiras diferenças de interpretação.
Outro achado interessante dizia respeito ao efeito de drogas e de diferentes causas da
morte. Talvez seja melhor dizer ao não-efeito, pois no conjunto se constatou que as
visões e as alterações de humor não foram influenciadas por estes fatores. Com base nas
informações sobre medicamentos, temperatura, doença e assim por diante, os
pesquisadores criaram um “índice alucinogênico” como uma medida de probabilidade
de o paciente estar delirando. Eles verificaram que 43% das visões foram vivenciadas
por pessoas em estado normal de consciência, conforme descreveram, e esse índice
aparentemente não previa se as aparições eram vistas ou não. Finalmente, as visões não
estavam relacionadas a fatores como sexo, idade ou outras variáveis demográficas. Osis
e Haraldsson achavam que a origem das aparições vistas não estava na condição de mau
funcionamento do cérebro ou nas crenças e expectativas prévias do paciente, mas que as
visões apareciam independentemente desses fatores. Tudo isto os levou a concluir que
haviam reunido provas favoráveis à sobrevivência e não à hipótese de destruição.
Contudo essas conclusões devem ser postas em questão, assim como os dados
acumulados por Osis e Haraldsson. Sua pesquisa padecia de uma série de graves
desvantagens. Antes de mais nada, em relação à amostragem. Dos 5.000 questionários
remetidos, só 20% foram devolvidos e há razões para supor que as pessoas que
responderam diferiam daquelas que não respondiam. Por exemplo, elas poderiam ter
tido uma inclinação mais favorável pela idéia de sobrevivência, ou ter sido justamente
aquelas pessoas que mais assistiram a visões de pacientes à morte.
Mesmo supondo que essas pessoas poderiam ser consideradas como representativas
da população total, existem outros problemas. Todas as respostas se baseiam na
memória e na honestidade da pessoa que responde. Pode ser que todas tenham descrito
as experiências de seus pacientes com

168
a maior honestidade possível, mas certamente não é possível esperar que se lembrassem
com exatidão de cada paciente que provavelmente tenham atendido no curso de uma
longa carreira médica. Para encerrar, é óbvio que estavam dando relatos não originais
das experiências. Ainda que os médicos e o pessoal de enfermagem tenham tentado
remover dos relatos suas próprias predisposições e interpretações, jamais se poderia
esperar que dessem um relato equivalente ao que o próprio paciente poderia ter dado.
Por todas estas razões, os resultados conseguidos por Osis e Haraldsson devem ser
tratados com cautela. Eu não acho que podemos concluir com segurança que as visões
foram o resultado de um vislumbre de uma vida póstuma, mas, antes, um fenômeno
psicológico.
Já mencionei o problema de que todas essas descrições foram obtidas de segunda
mão, o que é um fato comum à maioria dos relatos de experiências agônicas; no entanto,
existem exceções. Certas pessoas, por exemplo, tiveram visões algum tempo antes de
morrerem. John Oxenham é um caso típico. Sua bronquite se agravou e, no meio do seu
sofrimento, ele ouviu uma enorme gritaria do lado de fora do quarto e um grande
estrondo, depois do que ele se achou num outro mundo, onde sua visão clareou. Ele viu
um lindo cenário, de edifícios e jardins, e conheceu e conversou com muitas pessoas.
Todas as suas peripécias “fora do corpo” estão descritas num pequeno volume, escrito
por ele e por sua filha, que lhe serviu de enfermeira (109). Evidentemente, tais relatos
de agonizantes são raros, mas uma outra maneira de abordar o problema consiste em
juntar os relatos de pessoas que escaparam da morte. Ou seja, relatos de experiências de
morte iminente. E eles são tão interessantes que merecem um capítulo à parte.

169
14 ENCONTROS ÍNTIMOS COM A MORTE

Recentemente, têm-se dado muita importância à pesquisa sobre experiências de


morte iminente (EMIs), experiências de pessoas que sobrevivem a um encontro íntimo
com a morte; no entanto, tal pesquisa não é nova. Lá pelo final do século passado,
Albert Heim, um geólogo suíço, reuniu uma série de relatos feitos por alpinistas que
tinham sobrevivido a quedas quase fatais nos Alpes (101a). Ele era um ativo alpinista e
foram seus próprios acidentes praticando alpinismo que despertaram seu interesse. Os
relatos de experiências à beira da morte provêm de muitas outras fontes. Vez por outra,
determinadas pessoas escrevem sobre suas próprias experiências. Carl Jung, por
exemplo, conta que viu a Terra do alto do espaço enquanto “estava por um fio da
morte” (94, p. 320). Além disso, podem-se encontrar relatos em muitas compilações de
casos.
De qualquer modo, existe uma boa razão para a recente onda de interesse pelas
EMIs, e o motivo é que um número maior de pessoas hoje em dia sobrevive a essas
lutas corporais com a morte. Na época de Myers, Barrett ou Flammarion, os relatos dos
últimos momentos de vida eram mais corriqueiros, pois as pessoas prolongavam o seu
sofrimento até o fim e freqüentemente morriam em casa. Hoje, porém, são levadas às
pressas para o hospital e ressuscitadas de estados em que, não há muito tempo atrás,
teriam sido dadas como mortas. Uma pessoa pode sofrer uma parada cardíaca, com
conseqüente cessação da atividade respiratória e até mesmo da maioria das atividades
cerebrais, e ainda assim ser “trazida de volta à vida”. Este fato provocou alterações na
definição da morte e na legislação que a rege, mas o mais importante aqui é que.
permitiu que um enorme contingente de pessoas que estiveram bem perto da morte,
sobrevivesse para contar a história.

170
Estas histórias foram bastante popularizadas por Elizabeth Kübler-Ross, que
trabalhou muito tempo com agonizantes e por Raymond Moody (94), um médico
americano que tentou superar o medo que as pessoas tinham de conversar sobre a morte
nos anos 70. Moody entrevistou muitas pessoas que sofreram acidentes ou foram
ressuscitadas, elaborando uma versão idealizada de uma típica experiência de morte
iminente. Ele chamou a atenção para o fato de que nenhuma pessoa fez uma descrição
completa destas experiências, mas que cada aspecto característico era encontrado na
maior parte das histórias. Moody descreve tão bem a experiência que achei melhor
transcrever suas próprias palavras:

Um homem está morrendo e, quando alcança o limite do sofrimento físico, ouve o médico
declará-lo como morto. Começa, então, a escutar um ruído desagradável, um forte zumbido ou
retinido, e, ao mesmo tempo, sente que está se movendo com muita rapidez através de um
comprido túnel escuro. Depois disso, de repente, percebe que está fora do próprio corpo físico,
mas ainda no meio físico imediato, e vê o próprio corpo à distância, como se fosse um expectador.
Observa a tentativa de ressuscitamento desta posição extraordinária e privilegiada e em estado de
agitação emocional.
Passado um momento, ele se refaz do impacto e acaba se habituando com a sua condição
singular. Repara que ainda possui um “corpo”, mas um corpo de natureza muito diferente e com
poderes também diferentes do corpo físico que deixou para trás. Logo, outras coisas começam a
acontecer. Outras pessoas vêm lhe dar as boas-vindas e ajudá-lo. Ele vê num relance os espíritos
de parentes e amigos que já morreram, e um espírito amoroso e cálido como jamais encontrou
antes – um ser de luz – surge diante dele. Esse ser lhe faz uma pergunta, não de maneira verbal, a
fim de que o sujeito possa avaliar sua vida, e encoraja-o a prosseguir mostrando-lhe uma
retrospectiva rápida e panorâmica dos principais acontecimentos de sua vida. A certa altura, o
sujeito se dá conta de que está se aproximando de uma espécie de barreira ou fronteira, que
aparentemente representa o limite entre a vida terrestre e a vida póstuma. Todavia, ele descobre
que deve voltar à Terra, que a hora de sua morte ainda não tinha chegado. Neste ponto ele resiste,
pois nesse intervalo de tempo ele já travou relações com a vida póstuma e não quer voltar atrás.
Está completamente dominado por intensos sentimentos de alegria, amor e paz. Apesar de sua
atitude, entretanto, de algum modo ele torna a se ligar ao seu corpo físico e vive.
Posteriormente, tenta contar aos outros a sua experiência, mas encontra dificuldades. Em
primeiro lugar, não consegue achar palavras adequadas para descrever estes episódios
sobrenaturais. Ainda por cima, descobre que é alvo de zombarias, de modo que pára de comentar
com os outros. Além disso, a experiência afeta profundamente a sua vida, sobretudo suas opiniões
sobre a morte e sobre a relação desta com a vida (94, pp. 21-3).

171
É visível a analogia entre esta experiência e muitas EFCs. Os pontos comuns são o
túnel por onde se viaja, a circunstância de se ver o próprio corpo de fora, a impressão de
possuir uma outra espécie de corpo e essa qualidade inefável que rodeia tudo que se vê.
Conclui-se que na morte ocorre uma típica EFCs, ou projeção astral, seguida de uma
transição para o outro mundo, com a ajuda de pessoas que já fizeram a travessia e de
seres mais evoluídos em cujo plano se iniciará a fase seguinte da existência.
Indubitavelmente, é este o tipo de conclusão a que muitos chegaram. O próprio Moody,
assim como Kübler-Ross, acredita que suas descobertas são um indício de
sobrevivência.
Antes, porém, de aceitarmos precipitadamente a pesquisa de Moody pelo seu aspecto
exterior, devemos estar cientes de suas inúmeras falhas, como o próprio Moody estava
(122b). A mais óbvia é que seus casos foram reunidos mais ou menos à medida que iam
aparecendo, sem que houvesse qualquer tentativa de organizar a amostragem. Ao
apresentá-los em seus livros, Moody selecionou aqueles que lhe agradavam e não se
preocupou em fazer qualquer análise estatística do material. Portanto, apesar de sua obra
ter dado uma boa idéia do que a morte representava para algumas pessoas, não tomou a
iniciativa de responder a perguntas do seguinte tipo: se este tipo de experiência é
comum, quantas vezes os traços distintivos da experiência ocorrem, se aparecem em
grupo, se são mutuamente exclusivos ou se acontecem numa determinada seqüência.
Moody tampouco determinou se a natureza da experiência varia com o estado de
espírito da pessoa agonizante, com a quantidade do consumo de drogas que ingeriu,
suas crenças prévias e coisas do gênero. Sua opinião de que a religião do moribundo
não afetava a experiência baseava-se mais em observação casual do que em análise
meticulosa.
Uma pesquisa mais pormenorizada e inspirada no trabalho de Moody esíá em
andamento atualmente, em especial nos Estados Unidos (ver, por exemplo, 51, 122b,
129 das Obras de referência). Formou-se uma sociedade para reunir as pessoas
interessadas nessa pesquisa, a Associação Internacional para Estudos de Experiências de
Morte Iminente, que publica uma revista, Anabiosis, na qual parte desta pesquisa tem
sido publicada. Afinal, já é possível saber se as descobertas de Moody foram
comprovadas?
Em geral, a resposta é sim, mas com algumas reservas e diferenças. Antes de mais
nada, já se tem uma idéia da incidência de EMIs. Fred Schoonmaker, um cardiologista,
entrevistou mais de 2.300 sobreviventes de situações com alto risco de vida desde 1961
(132). A maior parte

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deles tinha sido tratada na unidade cardiovascular onde ele trabalhava e, assim, pôde
conversar informalmente com eles, logo após suas crises. Schoonmaker constatou que
60% relataram experiências análogas àquelas divulgadas por Moody e que mais ou
menos um quinto daqueles que não quiseram dar o seu depoimento se dispuseram, após
insistentes convites e garantias, a discutir este tipo de experiência. Esta não foi uma
amostra adequadamente selecionada, mas Schoonmaker argumenta que ela pode ser
considerada como representativa; sem dúvida, ele tem a seu favor o fato de ter
conseguido entrevistar as pessoas logo após suas experiências, quer tivessem ou não
alguma coisa para contar. Sabom (ver 122b) também entrevistou pacientes, muitos
dentre os quais haviam tido paradas cardíacas. 78 foram entrevistados
prospectivamente, isto é, foram escolhidos somente porque se sabia que tinham estado à
beira da morte. 42% deste grupo contaram uma experiência parecida com aquelas
relatadas por Moody.

RING

A pesquisa mais detalhada foi realizada por Kenneth Ring, um psicólogo de


Connecticut (122a, b). Junto aos hospitais da região, ele conseguiu os nomes de pessoas
(acima de 18 anos) que estiveram quase à morte ou foram ressuscitadas depois de
estarem clinicamente mortas, em conseqüências de doença, acidente ou tentativa de
suicídio, e que se recuperaram o suficiente para falar sobre suas experiências. Os
hospitais indicaram muitas pessoas adequadas, mas havia poucos casos de acidente e de
suicídio. Por conseguinte, publicaram-se anúncios na esperança de atrair um número
maior. Os anúncios procuravam pessoas que tinham estado quase à morte, sem
mencionar se tinham tido qualquer espécie de “experiência”, o que, evidentemente, não
é um método de amostragem ideal. A partir dessas fontes, Ring obteve 102 entrevistas.
Aos entrevistados foram solicitadas informações demográficas e um relato livre do
episódio de morte iminente. A seguir, foram formuladas outras perguntas sobre detalhes
específicos, como os que Moody descreveu, e questões complementares sobre os efeitos
posteriores e mudanças no comportamento ou nas crenças religiosas.
Ring dividiu a descrição de Moody em onze componentes periódicos daquilo que
chamou de “experiência essencial”. Depois construiu um índice, um padrão de medida
da profundidade da experiência, e dividiu os entrevistados em três grupos: o de não-
experimentadores, o de

189
profundos experimentadores e o grupo intermediário. Quase metade da amostra (48%)
relatava experiências que eram, pelo menos parcialmente, análogas à descrição de
Moody. É provável que este percentual seja uma superestimativa da verdadeira
incidência porque os relatórios hospitalares forneceram um índice menor (39%) do que
o de casos citados diretamente, mas esta diferença não era significativa.
Uma das mais interessantes descobertas feitas por Ring dizia respeito aos estágios da
experiência. Ele demonstrou que os estágios iniciais também tendiam a ser relatados
com mais freqüência. O primeiro estágio, de paz, foi vivenciado por 60% dos
entrevistados, alguns dos quais não alcançaram estágios posteriores. Uma mulher que
quase morreu em virtude de um apêndice supurado disse: “Tive uma sensação de paz
total... Não senti mais medo.” Uma outra tentara cometer suicídio jogando-se no mar e
quase fora esmagada contra as rochas. Embora estivesse gelada e tremendo, disse: “Eu
me senti aquecida, segura, feliz, relaxada, podem usar aí todos os melhores adjetivos
que queiram... Era a própria perfeição, era tudo que alguém poderia desejar...” Pelo
visto, muitos não conseguiram achar as palavras para descrever esse estado positivo,
relaxado, passivo e feliz.
O estágio seguinte, que mais nos interessa aqui, foi o de “separação do corpo”, em
outras palavras, a EFC. 37% dos entrevistados por Ring alcançaram esse estágio e o que
relataram assemelha-se muito a uma série de EFCs que já examinamos. Um rapaz que
quase morreu de febre alta disse:

Tive a sensação de ter saído do corpo e que estava olhando para ele do outro lado do quarto.
Me lembro muito bem que olhei mais de uma vez para mim mesmo e é claro que fiquei
assustado... Me lembro que me vi deitado ali na cama, com um lençol e um cobertor hipotérmico
em cima de mim. Meus olhos estavam fechados, meu rosto estava muito pálido... Era como se eu
estivesse empoleirado ali no alto do quarto... (122b, p.46).

Uma mulher que teve uma experiência essencial muito profunda descreveu a fase da
EFC nestes termos: “Eu fiquei lá em cima, no canto direito do quarto, olhando para
baixo para ver o que estava acontecendo.” Uma outra, que sofrerá um grave acidente de
carro, pôde aparentemente ver e ouvir tudo o que estava se passando na sala de cirurgia.
Posteriormente, contou ao cirurgião o que ouvira e ele confirmou tudo. É claro que
saber se se tratava de percepção normal ou paranormal, já é uma outra questão.

190
Nem todas as “separações do corpo” foram tão evidentes. Muitos dos entrevistados
por Ring simplesmente descreveram uma sensação de estarem separados ou
desprendidos de tudo que estava acontecendo. Alguns tiveram a impressão de estar
observando coisas como se à distância, mas não viram realmente seus próprios corpos
do lado de fora. Ring tentou descobrir dois aspectos específicos destas EFCs. Primeiro,
indagou se eles tiveram um outro corpo. A resposta parecia ser “não”: a maioria
desconhecia qualquer outro corpo e respondeu que se sentiram como “espírito
somente”. Apenas duas pessoas descreveram alguma coisa parecida com um outro
corpo e, mesmo assim, incompleto. Houve também ausência de descrições do “fio
prateado”. Nem todas as pessoas foram sistematicamente questionadas sobre uma
ligação entre elas e seus corpos, mas das que foram, nenhuma descreveu algo parecido
com o cordão tradicional.
Assim, podemos ver que uma EFC de várias espécies constitui um estágio importante
da experiência de morte iminente, mas que não parece ter relação com a projeção astral
tradicional. A experiência consiste em sensações de desprendimento e em ver a situação
como que de cima, porém não está combinada com nenhuma sensação de ter um corpo
astral ou estar ligada por um cordão prateado. Tampouco os sujeitos da amostra de Ring
descreveram sensações claras de separação e retomo. Não obstante, Ring equipara estas
experiências com outras EFCs e é de opinião que as primeiras duas fases do encontro
íntimo com a morte são melhor explicadas supondo-se que a consciência se separa do
corpo físico.
Após o estágio da EFC, vem o “ingresso na escuridão” vivenciado por quase um
quarto dos entrevistados por Ring. Esse estágio equivale à viagem por um túnel escuro,
mas na pesquisa de Ring apenas nove pessoas descreveram algo parecido com um túnel.
Mais freqüentes foram as descrições de “um mergulho dentro de uma vastidão negra,
sem forma nem dimensão”. Este espaço foi descrito como “um vazio, um nada”, como
“uma escuridão muito serena” e como “uma escuridão suave e aveludada”. Uma vítima
de parada cardíaca disse: “Bem, era como se fosse noite. Estava escuro, muito escuro.
Mas foi como, como (pausa), como se eu estivesse no céu escuro. Espaço. Escuro. E
não havia coisa alguma ao redor. Nem estrelas nem objetos em torno”.
Houve, entretanto, algumas descrições de túneis, funis, tubos, bueiros e barricas.
Uma moça que quase morreu de um ataque de asma revelou:

191
Lembro-me que pensei comigo mesma que estava morrendo. E senti como se estivesse
flutuando através de um túnel... Digo túnel pois a única coisa que consigo imaginar, sabe, são
aqueles tubos de ligação de esgoto. Era redondo que nem esses tubos, mas muito maior. Eu
realmente não consegui ver as bordas dele; tenho a impressão que era redondo e tinha uma cor
esbranquiçada... Eu estava deitada de costas, simplesmente flutuando. E enquanto a fumaça, as
linhas brancas ou alguma coisa assim estava se aproximando deste lado (em direção a ela), eu
estava indo para o lado oposto (122b, p. 54).

Na literatura sobre projeção astral, geralmente se afirma que o túnel representa a


separação do corpo; que o corpo astral, ao deixar o físico, cria a sensação de túnel. Em
contraste, no esquema de Ring o túnel, quando ocorre, está no estágio seguinte à EFC.
Ele não esclarece se na maioria dos casos o túnel vinha antes ou depois da EFC, mas
apresenta um relato no qual uma velha senhora teve uma EFC antes de atravessar um
“enorme aqueduto” para “ver o que se passava do outro lado”. Este exemplo parece
conflitar com a interpretação tradicional sobre o túnel, mas se enquadra na interpretação
dada por Ring ao túnel como simbolizando uma mudança de consciência na passagem
de um nível para o outro.
Muitas pessoas não viram nada, a não ser escuridão em cujo final nem luz havia, mas
dezesseis alcançaram o estágio seguinte, a “visão da luz”. Ora a luz se encontrava no
final do túnel, ora era vista rapidamente à distância, mas em geral era dourada e
brilhante sem, no entanto, incomodar os olhos. Algumas vezes a luz estava relacionada
com uma determinada presença ou com uma voz que dizia à pessoa para voltar. A
mesma mulher que atravessou um aqueduto teve uma outra experiência em que viu
Jesus Cristo no centro de uma luz amarelo-dourada. Ele falou com ela e depois
desapareceu. Ela não quis contar a ninguém mais, além do marido, sobre a visão para
que não a considerassem louca.
Finalmente, houve alguns experimentadores, dez ao todo, que pareceram “penetrar
na luz” e passar para um outro mundo ou apenas vislumbrá-lo. Este foi descrito como
um mundo de grande beleza, com cores maravilhosas, prados de relva dourada, pássaros
cantando ou música divina. Neste estágio é que as pessoas eram recebidas por parentes
já falecidos e era deste mundo que não queriam voltar. Algumas, como este homem que
quase morreu por causa de uma extração dentária, descreveram-no como o céu:

192
Fiz uma viagem até o céu. Vi os mais belos lagos e anjos que voavam em círculos como fazem
as gaivotas. Tudo era branco. Duvido que algum ser humano já viu flores tão belas como as que vi
ali... Os lagos eram azuis, azuis claros. Tudo em redor dos anjos era de um branco imaculado
(122b, p.61).

A impressão dominante que ressalta de todas estas descrições é que as experiências


descritas foram agradáveis. Nenhum dos entrevistados de Ring foi a qualquer parte que
pudesse ser chamada de “inferno” e muitos batalharam para encontrar palavras fortes o
bastante para exprimir suas emoções reais. Sabom e Kreutziger também salientaram que
seus pacientes sentiram calma e paz durante as EMIs, independentemente do tipo de
intensidade do sofrimento físico (129).
A principal diferença entre as descrições de Ring e as de Moody foi no que diz
respeito ao “ser de luz”. Nenhum dos sujeitos de Ring descreveu esse ser, apesar de
muitos vivenciarem elementos dele. Tampouco disseram ter, ao mesmo tempo, sentido
uma presença e se encontrado com espíritos. Na opinião de Ring, as duas situações
servem ao mesmo propósito, mostrando a opção de ficar ou voltar, não havendo,
portanto, necessidade de que ambas ocorram simultaneamente.
Além disso, Ring procurou descobrir se faz diferença a maneira como se (quase)
morre. Aqui houve algumas diferenças em termos de sexo, mas no geral parece que os
doentes tinham mais probabilidade de ter experiências de morte iminente, seguindo-se
as vítimas de acidente e, por último, os casos de suicídio. Quanto a estes últimos, foram
os mais difíceis de interpretar; Ring, porém, concluiu que as experiências dos suicidas
tendiam a ser abortadas ou reprimidas, reduzindo-se o número de vezes em que os
estágios finais eram atingidos. Ele também examinou as diversas variáveis
demográficas e resumiu essa influência como sendo “negativa”. No que se refere a
crenças religiosas, chegou à conclusão de que a religiosidade anterior de uma pessoa
poderia determinar a interpretação da experiência, mas não alteraria o aspecto ou
profundidade dessa experiência.
Por último, Ring estudou as mudanças que aconteceram para as pessoas que tiveram
experiências de morte iminente. Um fato típico é que se sentiram renascer para uma
vida com mais significado e objetivo, e o amor e a ajuda ao próximo se tornaram
valores mais importantes do que os confortos materiais. Na maioria das vezes, parece
ter aumentado o significado da religião e a morte deixou de ser uma coisa temida.

193
NOYES E KLETTI

Um tipo de análise completamente diferente foi aplicada por Noyes e Kletti (100,
101b) a relatos feitos por vítimas de quedas, afogamentos, doenças graves e outras
situações de risco de vida. Eles chamaram a atenção para traços característicos como
alterações na percepção e sentido de tempo, sentimento de irrealidade e desvios
emocionais e sensação de desprendimento. Eles verificaram que esses traços apareciam
com maior freqüência em indivíduos que achavam que estavam para morrer. Isto
coincidia com a interpretação das experiências, propostas por eles, como uma forma de
despersonalização em face de uma ameaça à vida, quer dizer, como uma maneira de
escapar ou ficar desligado diante da iminência da morte física.
O curioso é que os casos reunidos por eles parecem muito diferentes daqueles que já
conhecemos até agora. Um piloto de corridas que sofrerá um grave acidente de carro
contou que teve a impressão de sair da realidade e entrar num outro mundo onde pôde
ver coisas “(...) mais clara e nitidamente do que em toda a minha vida”. Porém,
acrescentou: “A experiência toda foi como um sonho”, ao passo que, para tantas outras
pessoas, ela não foi justamente um sonho. Outras contaram que o tempo parecia
demorar a passar, que as emoções ficaram monótonas e que observaram coisas à
distância, mas nenhuma das descrições se parece com aquelas divulgadas por Moody ou
Ring. As EFCs também são citadas, mas para Neyes e Kletti elas são apenas uma outra
maneira de dissociar a personalidade diante do risco de aniquilação do corpo. “Os
relatos em que esta experiência fora do corpo constitui uma característica dominante”,
acrescentam eles, “geralmente não contêm as outras fases descritas, indicando que ela
representa, por si mesma, uma defesa adequada contra a ameaça de morte.”
Será a EFC, então, nada mais do que a última tentativa de resistência da pessoa
agonizante em aceitar o fato de que é ela quem está prestes a morrer? A idéia não é
nova. O psiquiatra Jan Ehrenwald (34) já havia sugerido anteriormente que a EFC
resulta da antiqüíssima busca de imortalidade e da necessidade de negar a morte. Na
verdade, há poucos indícios de que esta hipótese esteja correta. Parece extremamente
artificial estender esta explicação a todas as EFCs de pessoas normais; além disso, dizer
que ela envolve negação da morte está longe de ser uma explicação satisfatória de uma
experiência tão complexa e múltipla.

194
Ainda há dois outros aspectos a serem abordados. O primeiro é a ausência de viagens
ao “inferno”. Nem Moody nem Ring obtiveram relatos de experiências infernais. Sabom
não encontrou nenhum e Osis e Haraldsson, apenas um. Todavia, um outro
cardiologista, Maurice Rawlings (121) explicou que a razão é que, embora os pacientes
possam se lembrar dessas experiências infernais imediatamente após, tendem a esquecê-
las com o passar do tempo. Em outras palavras, suas memórias protegem-nos de
recordar os aspectos desagradáveis. De acordo com Rawlings, somente porque os
pacientes foram entrevistados muito tempo depois do encontro violento contra a morte é
que todas as experiências são relatadas como agradáveis.
Parece que é o lado “bom” das experiências que causa o maior impacto. Tome-se
como exemplo George Ritchie, um psiquiatra americano que quase morreu de
pneumonia na juventude. Ele conta que deixou o corpo, já coberto por um lençol, e que
viajou através dos Estados Unidos. Ele foi guiado por um ser luminoso a quem
reconheceu como Jesus, que lhe mostrou cenas da miséria humana e do inferno. Mas o
que levou consigo pela vida afora foi a visão que teve de uma cidade celestial e a
presença de Jesus (123).
Afinal, este esquecimento tem importância? Outros pesquisadores entrevistaram
pacientes imediatamente após suas experiências e não encontraram nenhuma que fosse
infernal; já que Rawlings não fornece os resultados da confrontação dos prazos
decorridos entre as experiências e as entrevistas, sua argumentação não pode ser
avaliada no seu devido valor (ver 122b, 128 da Bibliografia). Contudo, o mínimo que se
pode dizer é que uma experiência de morte iminente com conotação infernal é raríssima.
Um outro traço característico que merece menção é a “retrospectiva de vida”.
Verifica-se, freqüentemente, que uma pessoa à beira da morte parece ver. cenas de sua
vida passada se desenrolarem diante dela como que numa tela de projeção ou em
quadros. Em alguns dos casos de Moody, o “ser de luz” foi, ao que parece, responsável
pela retrospectiva. Helm (101a) constatou que muitas vítimas de quedas viram suas
vidas desfilar diante delas e experiências análogas são relatadas por Grof e Halifax (53)
em seu trabalho terapêutico com o uso de LSD no tratamento de pacientes agonizantes.
Ring verificou que cerca de um quarto de pessoas que fizeram experiências essenciais
falaram de uma retrospectiva de vida, que teve maior incidência em vítimas de acidentes
do que nas demais. Ele deu a entender que a rapidez da crise poderia ter um papel

195
importante no desencadeamento das lembranças. Noyes e Kletti (101b) também
informaram que 29% de uma amostra composta de 205 pessoas que se defrontaram com
a situação de risco de vida, alegaram ter vivenciado uma retrospectiva de vida. E citam
o exemplo de um jovem que se feriu acidentalmente com uma arma de fogo:

[...] voltei a atenção para as lembranças do passado. Elas começavam quando eu tinha três anos
e continuavam até o presente. Me vi aos três anos numa cadeira de bebê. Depois, em companhia de
papai, debaixo de uma ponte quando ele ganhou uma competição de pesca. Me lembrei também de
cenas em que eu estava ao lado dos meus amigos. As lembranças eram agradáveis mas me
deixaram triste, pois compreendi que era esta a vida que eu estava deixando (101b, p. 22).

Teorias sobre a origem da retrospectiva de vida talvez sejam mais variadas do que
qualquer outro aspecto da experiência de morte iminente. Ring faz uma comparação
muito forçada com o holograma para dizer que as retrospectivas de vida são
desencadeadas pelo “ser evoluído” que opera em um determinado nível, onde as
informações são armazenadas e vivenciadas holografícamente de uma só vez. Para
certas pessoas, essa retrospectiva representa o dia do juízo ou de autojulgamento,
enquanto para outras significa um retorno ao passado, diante do reconhecimento da
ausência de futuro. Para Siegel, o panorama tem muita relação com aquela espécie de
alucinação produzida pela estimulação do sistema nervoso central (137b, c).
Muitas interpretações diferentes também foram apresentadas para todos os aspectos
da experiência de morte iminente. Grosso (54b) fez um útil resumo dos mais
importantes. A maioria das pessoas parece concordar em que a experiência de morte
iminente apresenta uma notável corrência, havendo pequenas diferenças em termos
culturais e religiosos e quanto às causas da crise; a controvérsia está em saber por que
ela ocorre. Rawlings, por exemplo, reveste todas as suas descobertas com a linguagem
do cristianismo, em termos de céu e inferno e da possibilidade de salvação. Noyes
interpreta as experiências de morte iminente em termos de despersonalização; Siegel,
em termos de alucinações e Ring, dentro do contexto de um modelo parapsicológico e
holográfíco.
Mas, em termos gerais, há duas posições básicas. De um lado estão os que vêem a
experiência de morte iminente como um indício seguro de um outro mundo e de uma
vida póstuma; do outro, os que, de várias maneiras diferentes, interpretam a experiência
como uma parte da vida,

196
não da morte, a qual não nos diz absolutamente nada sobre uma “vida após a vida”.
O que posso dizer com segurança é que nenhum dos lados está, comprovada e
concretamente, correto. Os que argumentam que a experiência de morte iminente nos
revela o significado da morte deram um salto no escuro, pois partem da premissa de que
essa experiência continua com a experiência da morte, no que podem ou não estar
certos. Mas os que dizem que a experiência de morte iminente é uma experiência desta
vida também estão dando um salto a partir de fatos conhecidos. Estão afirmando que a
EMI e a EFC podem ser explicadas em termos de processos psicológicos ou
fisiológicos, mas ainda não deram uma demonstração prática desta hipótese. No sentido
de investigar mais a fundo esta possibilidade, vou concentrar agora minha atenção em
algumas experiências afins da psiquiatria e da psicologia para saber até onde podem
ajudar nossa compreensão a ir mais além.

197
15 O DUPLO NA PSICOPATOLOGIA

Se a EFC deve ser encarada como uma experiência que envolve mais processos
psicológicos do que paranormais, precisamos saber que processos poderiam ser.
Basicamente, há duas maneiras de proceder: comparar a EFC com estados patológicos
verificados em doenças mentais, ou considerá-la como um prolongamento natural de
processos psicológicos normais. Começarei com uma abordagem psiquiátrica para saber
se a EFC, ou algo que lhe corresponda, é encontrada na forma de um sintoma de alguma
doença mental.
Sem dúvida, muitas pessoas que tiveram EFCs, Muldoon entre elas (97a), acharam
que suas experiências significavam um começo de loucura. Existe alguma razão para
este receio? Se existe, seria razoável que encontrássemos uma extensa literatura nos
campos da medicina e da psiquiatria que nos pudesse ajudar a entender a experiência.
Uma declaração feita por Lhermitte, em 1951, parece animadora. Diz ele: “A aparição
do duplo faria com que se suspeitasse seriamente da incidência de uma doença (82).”
Todavia, basta um exame mais atento para descobrir que muitas das experiências
relatadas como alucinações psicóticas, duplos ou “autoscopia” pouca relação têm com a
EFC tal como a estivemos examinando até agora. No entanto, pelo conjunto de suas
diferenças, elas podem ajudar a situar a EFC nos seus devidos termos, de modo que
falarei um pouco mais sobre elas.

198
DESPERSONALIZAÇÃO E PERDA DA REALIDADE

No capítulo anterior vimos que Noyes e Kletti (101b) comparavam as experiências


de morte iminente com o fenômeno de despersonalização. Relacionado com este está a
perda da realidade, na qual os arredores e o meio ambiente começam por parecer irreais
e o sujeito tem a impressão de estar separado do real. A despersonalização é o mais
comum dos dois e envolve a sensação vivenciada pela pessoa de que seu próprio corpo
é estranho ou que não lhe pertence. Ela pode se queixar de que não sente emoções,
ainda que pareça exprimi-las, e sofrer de angústia, distorções de tempo e lugar e
alterações na imagem que faz do próprio corpo. Afirma-se até que na eventualidade de
ocorrer “duplicidade”, o sujeito pode ter a impressão de estar vendo as coisas à distância
de poucos metros à frente do corpo (41). Nesse caso, se diz que seu “ser” consciente
está fora do corpo, mas apesar desta descrição se parecer muito com uma EFC, os
outros sintomas não se parecem.
Noyes e Kletti citam uma descrição primitiva do fenômeno de despersonalização
feita por Schilder (101b):

Para o indivíduo despersonalizado, o mundo parece estranho,peculiar, alheio, irreal. Ora os


objetos parecem estranhamente diminuir de tamanho, ora parecem todos iguais. Os sons parecem
vir de longe. As características táteis dos objetos também parecem estar inexplicavelmente
mudadas. Além disso, os pacientes se queixam não só de mudanças em sua percepção, mas que
suas imagens mentais parecem alteradas. Os pacientes descrevem-nas como pálidas, desbotadas, e
alguns reclamam que perderam completamente o poder de imaginação. As emoções igualmente
sofrem alterações acentuadas. Os pacientes se queixam de serem incapazes de sentir dor ou prazer,
de que o amor e o ódio morreram dentro deles. Eles vivenciam uma mudança fundamental na sua
personalidade, e o clímax é atingido com as queixas de que se tornaram estranhos para si mesmos.
É como se estivessem mortos, inanimados ou fossem meros autômatos (p. 25).

Esta parece ser a descrição de alguém que tem uma EFC ou uma experiência de
morte iminente? Apesar do que dizem Noyes e Kletti, eu penso que não. É verdade que
há distorções na percepção espacial e alterações no processo de imaginação; mas, de
tudo que aprendemos até agora, parece que as imagens se tornam mais claras e
expressivas, cheias de cores e detalhes, ao contrário de pálidas e desbotadas. Existem
mudanças nas emoções, mas, ao invés de amor e ódio se extinguirem, muitos sujeitos
das EFCs dizem sentirem amor, alegria e emoções positivas muito mais

199
profundas do que já sentiram antes. Enfim, não acho que a maioria das pessoas que
tiveram uma EFC ou uma EMI diria que se sentiu “morta, inanimada, como mero
autômato”. Pelo contrário; elas dizem mais ou menos isto: “Eu nunca me senti tão vivo
antes em toda a minha vida.f Tudo isso me leva a concluir que os fenômenos de perda
da realidade e de despersonalização não nos ajudam de maneira alguma a compreender
a EFC. As pequenas semelhanças são superadas por diferenças marcantes.

DUPLOS

A rara “síndrome de Capgras” é um tipo de síndrome que envolve especificamente


duplos (36). Originalmente descrita em 1923 por dois franceses, Capgras e Reboul-
Lachaux, era chamada “L’illusion des sosies” ou a ilusão dos sósias. Uma pessoa que
sofra deste tipo de ilusão pode acreditar que um amigo ou parente foi substituído por um
sósia perfeito. Uma vez que este duplo é igual à pessoa verdadeira em todos os aspectos
visíveis, nada que a “pessoa verdadeira” diga ou faça convencerá o paciente do
contrário. Tem-se sugerido que a ilusão talvez represente uma solução radical para um
problema de sentimentos ambíguos. Desta forma, o paciente pode evitar o complexo de
culpa que sente por causa de sentimentos negativos ou mal-intencionados em relação a
uma pessoa querida. Mas, mesmo por esta descrição tão sumária, penso que está claro
que esta ilusão não demonstra nenhuma semelhança com a EFC.
Talvez sejam mais importantes os tipos de duplos vistos na autoscopia, que significa
literalmente “ver-se a si mesmo”. Como exemplo, Lukianowicz (85) cita o caso de um
arquiteto que vivenciou sua primeira alucinação autoscópica cinco anos depois que
começou a ter ataques epiléticos. Enquanto estava examinando alguns projetos com o
construtor, de repente parou de conversar, levantou os olhos para a porta e nem prestou
mais atenção às perguntas do construtor. Pelo que consta, ele viu um homem alto,
trajando um terno exatamente igual ao seu, atravessar a porta fechada e caminhar para a
escrivaninha onde ele estava sentado. Era semitransparente, e a única diferença entre ele
e o arquiteto era que ele não tinha o defeito numa das pernas como o segundo. O
fantasma se aproximou e, depois, como que se fundiu com o homem. Este contou mais
tarde: “Eu me senti como se toda a minha energia abandonasse o corpo e passasse para
ele.” Finalmente, os dois voltaram a se separar e o duplo desapareceu tal como viera,
através da porta fechada, e desta vez ele também estava mancando. Depois que o duplo

200
se fora, o arquiteto, num piscar de olhos, foi verificar se a porta estava realmente
trancada. Tentou continuar seu trabalho, mas foi obrigado a fazer uma pausa até se
sentir em condições de prosseguir.
A primeira observação a fazer neste caso é que o sujeito não descreveu qualquer
sensação de deixar o corpo físico.. Em vez disso, ele viu uma cópia de si mesmo ou
duplo, e, ao mesmo tempo, “ele” permaneceu onde estava. Aqui está a distinção entre
uma EFC e o fenômeno de autoscopia, ou visão de um sósia. No sentido em que
aplicarei os termos, uma EFC envolve o sentimento de estar fora do corpo, enquanto,
em geral, a autoscopia consiste em ver um duplo que se acha fora do corpo. Colvin (22)
trata as duas como coisas distintas e deixa implícito que a autoscopia ocorre, na maioria
das vezes, quando a pessoa está de pé, ao passo que as EFCs ocorrem quando ela está
reclinada. A forma vista na autoscopia é incompleta, enquanto na EFC é completa e a
visão mais clara. Afinal, podemos rejeitar terminantemente a autoscopia como um fato
independente da EFC?
O termo “autoscopia” tem sido definido de muitas maneiras. Pelo fim do século
passado, Féré se referiu a um médico que viu a própria imagem como que refletida e
empregou a expressão alucinação especular ou autoscópica. Em 1935, Menninger-
Lerchental criticaram os termos anteriores, preferindo encarar o fenômeno como uma
falsa percepção da própria forma de uma pessoa e propuseram o termo “heautoscopia”*,
aceito por Damas Mora e seus colegas, sob o fundamento de que o autos-cópio é um
instrumento para examinar os próprios olhos, de modo que haveria possibilidade de
gerar confusão (27). Todavia, o termo “autoscopia” é amplamente utilizado e de fácil
compreensão; assim, vou adotá-lo aqui. Quanto às definições, Critchley definiu
autoscopia como “deslocação ilusória da imagem corporal para o campo da visão” (25).
A fim de incluir um conjunto mais amplo de experiências, Lukianowicz definiu-a como
“uma complexa percepção psiconsensorial, na forma de uma alucinação, da auto-
imagem corporal projetada no espaço visual externo” (85).
Está claro que todas essas definições estão descrevendo algo diferente de uma EFC;
outras, porém, incluem a possibilidade tanto de ver um duplo como de ter uma EFO.
Damas Mora, por exemplo, definiu a heautoscopia como “a experiência de ver o próprio
corpo à distância” ou como “a experiência de duplicação da personalidade verdadeira da

*
Do inglês he: aquele que. Portanto, “aquele que se vê a si mesmo” (N. do T.).

201
pessoa”, e Lippman como “alucinações de dualidade física” (83). Todas estas definições
poderiam compreender ambos os tipos de experiência. Afinal, as EFCs estão incluídas
ou não? Isto é realmente difícil de dizer, pois a EFC raramente é discutida. Precisamos
examinar mais a fundo o fenômeno de autoscopia para saber se ela e a EFC são aspectos
do mesmo problema patológico subjacente ou se são completamente diferentes, mas
primeiro preciso dizer que vou usar o termo autoscopia como se ele não contivesse a
EFC, a fim de mantê-los independentes.
Embora a EFC seja raramente diferenciada da autoscopia na literatura psiquiátrica,
outras distinções, no entanto, são feitas. Se o duplo tem uma aparência diferente da
pessoa, a experiência pode ser chamada deuteroscopia. Existem outras formas de
heautoscopia: algumas pessoas vêem o seu corpo inteiro como um duplo; outras vêem
apenas algumas partes, talvez só o rosto. Há uma forma interna em que o sujeito pode
ver seus órgãos internos, e uma forma senestética na qual o sujeito não vê, mas apenas
sente a presença do seu duplo. Existe até uma forma negativa na qual o sujeito não
consegue se ver nem mesmo quando tenta se olhar num espelho.
Damas Mora e seus colegas distinguem a despersonalização heautoscópica, da ilusão
heautoscópica. Dão um exemplo da forma ilusória sofrida por um paciente
esquizofrênico que sentia também ter uma existência fora de si mesmo. Estava
completamente certo de que seu duplo o acompanhava aonde quer que fosse, mas
jamais o viu ou ouviu. Esse grupo de psicólogos também apresenta um caso da forma
mais comum, em que o paciente foi internado num hospital psiquiátrico depois que a
polícia o encontrou certa noite, de pijama, dentro do rio. Ele tinha visto seu duplo
vestido com uma capa comprida do exército alemão. Este sósia conversou com o
homem em alemão, um idioma que ele não conhecia, e convidou-o a segui-lo. O
homem, então, acompanhou seu sósia até o rio, para salvá-lo de afogamento, e depois
disso o duplo desapareceu.
Essas experiências foram rotuladas de alucinações, mas até mesmo aqui existe
controvérsia. Pode-se classificar como alucinação uma incapacidade de ver uma forma
de existência? E é necessário que a pessoa esteja convencida de que a visão é real, ou
apenas que a está vendo? Se uma alucinação é definida como “percepção sem um objeto
perceptível”, então pode-se dizer de alguém que vê um duplo, que está delirando — a
não ser que um corpo astral ou etérico tenha uma existência material! Outras definições,
no entanto, especificam que o sujeito deve estar conven-

202
cido que o que vê ou ouve exista realmente, e não que o tenha imaginado, para que a
experiência conte como uma alucinação. Por esta definição, muitas formas de
autoscopia seriam chamadas de pseudo-alucinações já que o sujeito é inteiramente
capaz de questionar a realidade da visão e até mesmo concluir que se trata de uma
alucinação.
Portanto, podemos ver que há muita confusão sobre a maneira de descrever muitos
destes fenômenos. Não obstante, existe um pouco mais de consenso a respeito de
algumas das condições relacionadas com eles. Entre estas, estão a epilepsia e a
enxaqueca, estados tóxicos de perturbações visuais no tifo e na gripe, determinadas
lesões cerebrais, intoxicações provocadas pelo álcool e por outras drogas, a
esquizofrenia e a depressão, só para citar algumas. Evidentemente, algumas destas
condições são problemas psíquicos bem definidos, enquanto outras são apenas nomes
genéricos para uma variedade de sintomas ou síndromes. Os fenômenos autoscópicos
são considerados tanto como um sintoma de outras síndromes, como quanto uma
síndrome propriamente dita.
Grosso modo, os fenômenos podem ser divididos em fenômenos secundários que
acompanham os distúrbios psíquicos; em fenômenos relacionados com a patologia do
cérebro e em fenômenos de natureza idiopática, isto é, não relacionados com qualquer
distúrbio orgânico. As teorias sobre eles recaem nestas três categorias, e a seguir vou
examinar uma por uma; no entanto, elas não são mutuamente exclusivas, havendo muita
justaposição. Além disso, devemos recordar que a EFC tem sido raramente mencionada,
de modo que é difícil saber até que ponto essas teorias podem nos ser úteis. Todavia,
acho que terão algum valor em nossa busca por formas de compreensão da EFC.

Teorias psicanalíticas sobre o duplo

As teorias psicanalíticas começaram com a análise do duplo, feita por Otto Rank,
como uma espécie de bode expiatório para a culpa que uma pessoa não conseguia
aceitar (119). A exemplo de Rank, os relatos psicanalíticos do duplo se tornaram
populares e Black (8b) reviu algumas de suas aplicações na EFC, que, no entanto, eram
muito mais utilizadas na explicação do aparecimento de duplos na poesia e na ficção. O
fenômeno do duplo é encontrável na obra de Maupassant, de Musset, Poe, Kafka,
Dostoievski e Wilde. O eu tem uma dupla personalidade que o acompanha por toda
parte, zomba e escarnece dele ou é responsável por seus pecados e erros. Em 1934,
outro psicanalista, Coleman (21), sugeriu que, como as

203
sombras ou demônios íntimos, o duplo era de natureza essencialmente libidinosa, que
ele expressava desejos sexuais profundos e era de fato, fundamentalmente, uma
personificação do falo. No caso de Dostoievski, Coleman achava que o duplo era a
expressão da desarmonia dele como indivíduo e o resultado de sua personalidade
esquizóide. Achar satisfatória ou não uma “explicação” dessas é, em larga escala, uma
questão de opinião. Talvez, o fato de que raramente se encontre este tipo de explicação
nos últimos anos, seja um indício de que outros, além de mim, o achem muito pouco
convincente, mas talvez não deva ser descartado completamente. Qual a diferença deste
outro tipo de divisão encontrado na história do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde, o lado
encantador e sincero e o lado cruel e desonesto do mesmo homem? Por que Stevenson
teria escolhido essa história? Seria apenas um meio eficaz de ilustrar nossa natureza
dual, ou será que ele teve alguma experiência particular que o levou a escrever sobre um
duplo?
As histórias de Guy de Maupassant fornecem um terreno mais fértil para
especulações já que o próprio Maupassant sofria de alucinações, embora não se saiba ao
certo se era por causa de condições hereditárias ou se eram um sintoma de sífilis. Todd
e Dewhurst (149) sustentam que suas alucinações não podem ser separadas da dementia
paralytica da qual ele acabou morrendo. Ao seu amigo Bourget, Maupassant perguntou:
“Como você se sentiria se tivesse de passar pelo que eu estou passando? Uma vez sim,
uma vez não, quando eu volto para casa, vejo meu duplo. Abro a porta e me vejo
sentado na poltrona. Sei que se trata de uma alucinação no instante em que o vejo. Mas
não é uma coisa extraordinária? Se você não tivesse sangue frio, não ficaria assustado?”
Parece que sua compreensão do fato não o impediu de continuar tendo alucinações.
Em 1887, o Dr. Sollier relatou: “Certa vez, quando estava sentado à mesa no seu
estúdio, Maupassant achou que ouvira a porta se abrir “... Ele se voltou e não ficou nem
um pouco espantado ao ver ele próprio entrar, sentar diante dele, com o rosto apoiado
nas mãos, e começar a ditar exatamente o que ele estava escrevendo” (21). Por fim, a
saúde do escritor piorou e, com ela, sua obra literária; em 1892, ele deu entrada num
hospício em Passy onde, em 1893, faleceu.
Se está claro que as próprias visões de Maupassant deram origem às suas histórias
sobre duplos, por outro lado, a razão por que viu os duplos em primeiro lugar não é tão
clara assim. Coleman sugeriu que o duplo era um artifício adequado para dar vazão aos
conflitos intrapsíquicos dele, e concluiu que o duplo de Maupassant era “uma projeção
da libido

204
sexual como inimiga e destruidora”. Por outro lado, Todd e Dewhurst chamaram a
atenção para a importância do narcisismo em Maupassant – sua excessiva preocupação
consigo mesmo. O narcisismo pode tomar a forma de fascínio ou vaidade com a própria
aparência, ou gerar receios hipocondríacos com a própria saúde; na opinião geral,
Maupassant tinha um pavor mórbido de morrer e sentia orgulho de suas aventuras
sexuais e do seu domínio sobre as mulheres, e talvez todos estes fatores contribuíssem
para a sua visão de duplos. Se a doença da qual sofria era suficiente para fazer com que
ele tivesse alucinações visuais, seu autofascínio talvez tenha sido suficiente para criar
alucinações com a sua própria pessoa.
Outros escritores narcisistas se utilizaram do simbolismo do duplo. O poeta
D’Annunzio descreveu em termos dramáticos sua própria alucinação autoscópica no
poema “Notturno”. Dizem que ele costumava ficar admirando a própria imagem e que
se vestia e perfumava com enorme vaidade: desta forma, já na maturidade, ele teve uma
visão perturbadora de si mesmo, contrastando com outra que teve aos dezesseis anos, na
qual tinha densos cabelos pretos, uma fronte delicada e uma expressão de “indescritível
pureza”.
Houve uma inspiração semelhante por trás de O retrato de Dorian Gray, de Oscar
Wilde, no qual o retrato pintado na juventude do herói o mostrava tal como era, um
simpático e bem vestido rapaz? Ao mesmo tempo em que levava uma vida marcada
pelos mais graves pecados e depravação, ele conservava sua expressão jovial e um rosto
inocente, enquanto o retrato tomava a horrível aparência de um homem envelhecido e
atormentado por anos de maldade.

Os distúrbios físicos e o duplo

Uma maneira completamente diferente de examinar o fenômeno de autoscopia é


estudá-lo através dos problemas físicos, com os quais está às vezes relacionado. Um
destes é a enxaqueca, cujo sintoma mais evidente é a dor de cabeça debilitante. A
enxaqueca é, às vezes, acompanhada de náusea e vômito e precedida por perturbações
sensoriais ou pela assim chamada “aura”. Pode ocorrer a visão de túnel ou cegueira
parcial e um efeito comum é a “ilusão de fortificação”, que consiste em configurações
de linhas ziguezagueantes. Durante, antes ou depois da crise da enxaqueca, os doentes,
ao que parece, vivenciam o fenômeno de autoscopia.

205
Lippman (83) apresenta vários históricos de casos de “alucinações da personalidade”
em pessoas que sofrem de enxaqueca, alguns dos quais parecem ter envolvido EFCs.
Quando ele pedia a elas para descrever suas experiências com suas próprias palavras, foi
muito mais fácil discernir o que realmente lhes aconteceu. Um dos exemplos foi
descrito por uma dona-de-casa com 37 anos de idade e mãe de três filhos. A exemplo de
todos os pacientes de Lippman, era uma mulher inteligente, ativa e socialmente
ajustada, sexualmente normal e que não apresentava traços neuro ou psicopáticos
hereditários. Ela sofria de uma cefaléia parcial com náusea e vômito desde a infância.

Até [...] cinco anos atrás, eu sentia a sensação esquisita de ser duas pessoas. Esta sensação
vinha exatamente antes de uma violenta crise de enxaqueca apenas. Na maioria das vezes,
enquanto eu estava servindo o café da manhã para meu marido e as crianças, como sempre. Num
instante, porém, elas já não me pareciam ser as mesmas pessoas [...] Eu tinha a impressão de estar
em cima de um plano inclinado, olhando para eles embaixo, a alguns centímetros do chão, e
observando a mim mesma servir o café da manhã. Era como se eu estivesse numa outra dimensão,
olhando para mim mesma e para eles. Eu não ficava com medo, apenas surpresa. Sempre soube
que estava realmente com eles. Contudo, havia duas de mim até que eu voltasse a ser uma só
pessoa! (83, p. 346).

Uma outra paciente de Lippman, dona-de-casa, 44 anos, casada e com um filho,


descreveu esta fascinante experiência:

Às vezes, durante uma forte dor de cabeça, eu tinha a impressão de que meu corpo estava
vibrando e se movendo, como um pêndulo muito rápido, da esquerda, onde eu estava, para a
direita, onde havia supostamente “um outro eu”, embora eu soubesse que meu corpo estava
imóvel. Era como assistir o Pluto dos filmes de Walt Disney correndo a toda velocidade para um
portão aberto, que na realidade está fechado, fazendo com que ele se choque contra um objeto
sólido. A pancada provoca um zumbido no seu corpo, que vibra de uma ponta à outra até que o
impacto cesse. Eu ficava olhando para o “outro eu” à direita como se ele não fizesse pane de mim,
e acho que, mesmo quando o zumbido parava, ainda estávamos separados (83, p. 347).

Este caso é particularmente interessante porque lembra muitíssimo todas aquelas


sensações de estremecimento e vibração descritas por muitas pessoas que tiveram EFCs.
Esta mulher, no entanto, não teve uma EFC típica. A sua outra metade não parece fazer
parte dela. Portanto,

206
há um indício de analogia, na sensação de vibração, entre a autoscopia e as EFCs. Uma
outra característica interessante do caso é que a mulher, como muitos que têm EFCs,
manteve a experiência em segredo para que não a achassem “esquisita”.
Apesar dessas semelhanças, todavia, quase todos os outros casos de Lippman
descreveram experiências muito distintas das EFCs. De qualquer modo, uma série de
exemplos de pessoas que sofrem tanto de enxaqueca como de autoscopia ou EFCs não
prova que haja alguma relação específica entre ambas. Em muitos dos casos de
Lippman, as experiências ocorreram bastante próximas às crises de dor de cabeça, mas,
por outro lado, não há evidência de que os pacientes com enxaquecas tenham mais
probabilidade de ter EFCs. Afinal de contas, tanto uma coisa como a outra são muito
comuns e, conseqüentemente, seria razoável que um bom número de pessoas
apresentasse ambos os casos. O que é preciso saber é se este número é maior do que o
que seria previsto numa associação casual. A única evidência disto provém de uma
pequena pesquisa realizada por Irwin entre estudantes australianos (65c), que não
constatou nenhuma relação entre EFCs e enxaqueca.
Talvez a abordagem teórica mais útil seja considerar, em primeiro lugar, as
condições propícias às alucinações em geral e, depois, os fatores específicos que
contribuiriam para fazer com que essas alucinações sejam mais da personalidade, do
que qualquer outra coisa. Já vimos que um conjunto de fatores propícios às alucinações
estava implicado na autoscopia. Todd e Dewhurst (149) observaram que a autoscopia
ocorre freqüentemente em indivíduos com “poderes supernormais de imaginação
visual”, mas, visto ser tão importante o tema da imaginação, eu o discutirei
minuciosamente no capítulo seguinte.
Já que existe uma predisposição para a alucinação, por que é que ela costuma tomar a
forma da própria pessoa? Uma das possibilidades, conforme já vimos, está no
narcisismo exagerado. De um ponto de vista psicanalítico, Rank interpretou a
autoscopia como uma projeção da libido narcisista: isto é, um desejo sexual do
indivíduo por si mesmo projetava-se fora do corpo do indivíduo (119).
Entra também em ação um modelo de pensamento arquetípico. A idéia é que, sob
determinadas condições, alguns indivíduos regridem a uma espécie de pensamento
primitivo, podendo estar propensos a aceitar, entre outras, a noção de que todos nós
possuímos duas, ou até mais, personalidades. Nesta concepção, fica implícito que a
noção é não só

207
primitiva, como também errônea, mas ainda não descartamos a possibilidade de que
esteja essencialmente correta.
Para finalizar, um dos aspectos mais curiosos aqui consiste na relação da autoscopia
com a formação e a manutenção da imagem corporal. Cada um de nós tem uma imagem
do próprio corpo. Aprendemos a formá-la através de todas as nossas experiências,
percebendo e tocando as coisas, vendo-as e assim por diante, e através de todas as
nossas interações com os objetos que nos cercam. Sabemos qual a posição e o aspecto
de nossas mãos e até onde elas podem alcançar. Esta imagem é essencial para todas as
atividades, pois, para pegar ou arremessar alguma coisa, apertar sem falhas o freio do
carro, sem confundi-lo com o acelerador, precisamos saber onde estão nossas mãos e
pés, e todas estas informações se acham integradas com a imagem corporal. É fácil
deduzir que se houver uma distorção na imagem corporal, ela levará a uma mudança na
percepção do eu e, em combinação com outros fatores, poderá dar a impressão de que
há duas personalidades.
Existem muitos tipos de distorção, tantos quantas são as causas. A dor pode causar
um aparente crescimento da área afetada e até mesmo a fome e a sede podem afetá-la.
Em suas atividades práticas uma pessoa pode achar que um pincel, um buril ou até
mesmo um carro constituem uma extensão do próprio corpo. Uma distorção comum é o
fenômeno do membro fantasma. Após a amputação de um braço ou de uma perna, a
imagem desse membro parece persistir, podendo até dar a impressão de que está doendo
ou sofrendo de câimbras. Alguns interpretam este fenômeno em termos da persistência
no astral do braço ou perna, mas há explicações muito mais convincentes em termos de
influências sobre os nervos periféricos e sobre a imagem corporal. Sabe-se que certas
áreas do cérebro estão relacionadas com a integração da imagem corporal e, se forem
lesadas permanente ou temporariamente, como quando ocorrem ataques epilépticos,
então resultam distorções da imagem corporal (15, 25).
Todd e Dewhurst citaram uma mulher que sofria de epilepsia e enxaqueca e era
perturbada por toda a sorte de distúrbios na sua imagem corporal. Suas pernas podiam
se tornar mais curtas ou dar a impressão de que simplesmente não existiam, e ela tinha
de olhar num espelho para readquirir a certeza. Ou então, achava que tinha um braço a
mais. Podia senti-lo ao longo e por cima do braço verdadeiro e podia vê-lo usando as
luvas que o braço verdadeiro usava. Parecia tão real que ela costumava escondê-lo
detrás das costas para que ninguém o visse e, no entanto, sabia

208
que ele era um produto de sua própria imaginação. Estas experiências estranhas tinham
relação com um distúrbio que afetava parte do lobo parietal direito do córtex.
Assim como representa a posição e a forma do corpo, a imagem corporal também
está associada com aquele sentimento de propriedade, de ser este o “meu” braço ou esta
a “minha” cabeça. Em alguns casos de autoscopia, o duplo não parece pertencer de
modo algum à própria pessoa, ainda que ela saiba que está vendo uma cópia de si
mesma. Isto também acontece em EFCs, embora não com a mesma freqüência. Às
vezes, o sujeito da EFC olha para o corpo físico abaixo dele como algo distante, não
importante ou sem relação com ele próprio, o eu real.
Estes são apenas alguns dos fatores que se acham envolvidos no estudo da
autoscopia. Mas será que este fenômeno nos ajuda a entender a EFC? Ao que parece,
não diretamente. As diferenças entre a autoscopia e a EFC são, pelo menos, tão
significativas quanto as semelhanças. Contudo, talvez tenhamos ficado com alguns
indicadores. Devemos tentar descobrir se as EFCs ocorrem com pessoas que têm
propensão para alucinações ou que têm, especificamente, uma boa imaginação. Nesse
caso, se se deve encarar a EFC como uma forma de alucinação, devemos tentar ver se
ela apresenta alguma semelhança com os produtos da imaginação ou da alucinação;
enfim, podemos indagar por que uma alucinação assumiria esta forma, preferivelmente
a qualquer outra. Pode ser que descubramos que esta linha de indagações nos levará a
uma melhor compreensão da EFC, ou que é um beco sem saída. Portanto, dedicar-me-ei
em seguida aos fenômenos da imaginação e da alucinação, para verificar de que forma
estão relacionados com a EFC.

209
16 IMAGENS E ALUCINAÇÕES

IMAGINAÇÃO

Na década de 1880, Galton pediu a alguns amigos que imaginassem as mesas onde
tomavam o seu desjejum, incluindo os alimentos, louça, talheres e outros acessórios
(45). E ficou surpreso ao descobrir que, enquanto alguns descreveram “quadros
mentais” expressivos e repletos de detalhes, tais como a cor da toalha de mesa e o
cheiro do bacon e do café, outros só foram capazes de dizer que estavam pensando a
respeito. Visto que alguns de seus amigos cientistas se encontravam neste último grupo,
Galton concluiu que uma imaginação viva não era imprescindível para o trabalho
científico.
Em 1906, Betts elaborou um questionário para avaliar a expressividade de
imaginação das pessoas. Ele solicitou a elas que imaginassem cenas, sons, gostos e
odores familiares e, em relação a cada item, o entrevistado tinha de atribuir uma escala
de pontos, de 1 a 7, à imagem que lhe viesse à mente. Esse questionário foi, então,
modernizado e abreviado e é usado ainda hoje (133 a, b). Apesar de haver a respeito
grande variação entre as pessoas, as conclusões de Galton parecem estar confirmadas:
há poucas, se é que há, atividades práticas que estão intimamente relacionadas com a
expressividade de imaginação. Recentemente, algumas conclusões foram aperfeiçoadas,
mas no conjunto, se quisermos conhecer o grau de expressividade de um indivíduo,
temos de perguntar a ele. É possível que estejamos curiosos para saber se uma
imaginação viva tem alguma função. As crianças parecem ter uma imaginação mais
viva, que

210
vão perdendo à medida que crescem; será ela, então, uma habilidade inútil de que se
pode prescindir?
Em parte, a resposta é que não devemos confundir a vivacidade de imaginação com o
uso que dela se faz. Aparentemente, podemos usar uma imagem mental como um meio
de organizar as recordações e as idéias, sem que necessariamente nos tivesse passado
uma imagem vivida pela cabeça. Ao lado do código verbal, a imaginação é um dos
meios mais importantes através do qual organizamos e classificamos as informações.
Por meio do código verbal, tudo é rotulado com palavras e as relações entre as coisas
são expressas em termos de linguagem. Por meio das imagens, empregam-se diferentes
tipos de informação. A forma, a cor, o gosto, a sensação ou o aroma de objetos e
acontecimentos são representados por imagens complexas que muitas vezes estão inter-
relacionadas em termos espaciais. Parece que todo mundo se utiliza de ambos em certa
medida, mas a extensão desse uso varia tanto para as tarefas práticas como para as
pessoas.
Determinadas tarefas se servem mais de uma dessas modalidades do que da outra.
Num exemplo radical, decorar listas de palavras se torna muito mais fácil se elas
estiverem verbalmente codificadas e imaginar garatujas e bolhas coloridas apenas se
torna difícil quando há excessiva verbalização. Assim, pois, as pessoas diferem quanto
ao grau de utilização de uma ou outra modalidade. As que se utilizam mais das palavras
são chamadas de “verbalizadoras”, enquanto as que se servem predominantemente das
imagens são denominadas de “imaginadoras”. Existem testes simples para avaliar se
uma pessoa se enquadra numa dessas duas categorias, embora presumivelmente todo
mundo se utilize, até certo ponto, das duas modalidades, nas formas de pensamento
matemático, abstrato e emocional.
Sem entrar em muitos detalhes sobre a imaginação, podemos dizer que há duas
maneiras de determinar a relação entre ela e a EFC. Uma delas consiste em conhecer o
significado das imagens mentais e em saber se são semelhantes ao que é “visto” numa
EFC. A outra consiste em saber se é mais provável que as pessoas que dispõem de um
enorme poder de imaginação, tenham EFCs.

Imagens mentais

Pois bem: em primeiro lugar, o que representam as imagens mentais? Em termos


abstratos, talvez seja muito difícil responder, mas podemos nos restringir a dois tipos de
imagens que são especialmente importantes na

211
EFC: as imagens que temos de nós mesmos e as imagens que temos do ambiente que
nos cerca.
Já conhecemos o conceito de imagem corporal e vimos que suas distorções
interagem na autoscopia. Existem dois aspectos particularmente relevantes para a EFC:
a idéia que formamos sobre o nosso próprio corpo e a posição em que achamos estar em
relação a ele. Na maior parte do tempo temos plena certeza de onde nosso corpo está, do
tamanho que ele apresenta, do que ele está fazendo e, em determinado sentido, do
espaço que ocupamos dentro dele. Na verdade, é mais interessante perguntar
diretamente às pessoas onde elas acham que estão. Muitos dizem que têm a impressão
de estar detrás dos olhos, outros, no entanto, dizem que estão no meio da testa, atrás da
cabeça e até mesmo na garganta ou no coração. Seguramente, é menos provável que os
cegos digam que estão detrás dos olhos e, seja como for, a posição percebida varia de
acordo com o que se estiver fazendo. Aceitamo-la como verdadeira, mas, na realidade,
não existe nenhuma boa razão para acreditar que ocupamos alguma posição
determinada. É provável que a razão pela qual organizamos nossa percepção desta
forma consiste em que se torna muito mais simples integralizar as diferentes
informações sensoriais recebidas em relação à imagem corporal. Entretanto, devemos
observar que isto é, até certo ponto, arbitrário e que não há nenhum motivo concreto que
nos convença de que não estamos realmente “dentro” do nosso corpo ou mesmo
completamente “fora” dele.
Se nos recordarmos de certas técnicas de indução de EFCs, veremos que boa parte
delas pretendem romper com aquela firme convicção de que estamos centrados “dentro”
da cabeça ou em qualquer outra parte do corpo. Na meditação, pode-se aprender certas
técnicas que transferem o aparente centro de consciência para vários pontos do corpo. A
técnica de Christos confunde deliberadamente a noção de posição corporal, deslocando
toda esta sensação para a cabeça e os pés. Os exercícios de imaginação são todos
planejados para deslocar o ponto de consciência para fora do corpo, e alguns recursos
não-específicos, como certas drogas e a hipnose, podem facilitar esta tarefa.
Não é de surpreender que se recorra a técnicas indiretas para romper com esta noção
de posição. Já que partimos do pressuposto de que o nosso funcionamento se toma
muito mais eficaz na vida normal se estivermos firmemente convencidos de ocupar
algum lugar dentro do nosso corpo, é razoável admitir que existem fortes pressões que
agem no sentido de manter estável essa noção de posição. Algumas são externas,
fazendo parte do

212
sistema de recepção sensorial que ajuda a manter essa noção de posicionamento, e
talvez um bloqueio nesse sistema contribua para produzir uma EFC. Outras são
internas, e precisamos superar a prática constante e arraigada de nos identificarmos com
o nosso próprio corpo, para chegarmos a ter a sensação de estar fora dele. Este hábito é
responsável, na maioria das vezes, pelo medo que se sente ao deixar o corpo e pelo fato
de que, em geral, é muito mais fácil aprender, primeiro, a voltar do que a sair “fora” do
corpo. Todas estas tendências que ajudam a manter a noção de saber onde “eu estou”
tentam nos trazer de volta para onde supostamente deveríamos estar! Se encararmos a
EFC como um processo de mudança na nossa noção habitual de posicionamento, acho
que uma porção de aspectos começarão, então, a entrar nos seus devidos lugares.

Imagens corporais

Voltando agora para o que representa a imagem corporal, um ponto assume uma
importância especial. As pessoas, freqüentemente, dizem algo parecido com isto: “Eu
me vi como se estivesse olhando de cima, mas na vida normal isso nunca me aconteceu
antes”, podendo dizer o mesmo a respeito de suas costas, da parte de cima de suas
cabeças ou de outra parte qualquer do corpo. Contudo, não é necessário ter poderes
paranormais para imaginar o alto da própria cabeça. A imagem do corpo não é algo
incompleto, com omissão das partes que o seu dono nunca viu. Ela não tem nada de
diferente de qualquer outro tipo de imagem ou do objeto de uma percepção visual. Se
partes de um objeto são obscurecidas por outros objetos, a pessoa não percebe um
vazio, mas imagina que o objeto continua existindo detrás dos obstáculos. Isto constitui
uma parte essencial na organização da percepção e o mesmo acontece com a imagem do
corpo. Imaginemos que o corpo tem as costas e o alto da cabeça através da sensação
generalizada que temos dessas partes do corpo e através do conhecimento que
adquirimos vendo as costas e as cabeças de outras pessoas.
Se você fechar os olhos e imaginar que está sentado lendo este livro, é possível que
imagine o corpo inteiro e seja capaz de “ver” de diferentes ângulos. É claro que estará
sabendo que se trata apenas de uma imagem, sem o mesmo sentido de premência que
teria numa EFC; mas aí está ele inteiro. Ou tente um outro exercício. Tente se lembrar
da última vez em que esteve numa praia ou próximo ao mar. Lembre-se do que estava
fazendo lá. Conforme Siegel assinalou (137a), é bastante provável que você se

213
“veja” correndo pela areia, saltando dentro d’água ou fazendo alguma coisa parecida,
como se estivesse observando de cima ou à distancia, ou vendo as coisas de
perspectivas diferentes (ver Ilustração 13). Logo, você está acostumado a se ver assim.
Isso também faz muito sentido, em termos psicológicos. Se sempre recordássemos de
situações em termos de impulsos sensoriais recebidos do mundo exterior na ocasião da
experiência, daquilo que vimos quando mergulhamos dentro d’água ou enquanto
corríamos pela praia, nossa memória seria desnecessariamente complexa. Nós a
simplificamos representando os acontecimentos como se à distância, como se fôssemos
um observador vendo as ações de mergulhar, caminhar ou pular. Tudo isto mostra que
nos é uma coisa muito familiar pensar em nosso corpo como que do lado de fora, por
mais certeza que tenhamos, normalmente, de estar “dentro”. Assim sendo, acho que faz
sentido dizer que o corpo físico que vemos durante uma EFC é um produto de nossa
própria imagem mental desse corpo.

Imagens do meio ambiente

A outra parte importante do mundo da EFC é constituída pelo meio ambiente onde
estamos inseridos. Nós todos temos uma imagem muito complexa do mundo que
conhecemos, chamada de “mapa cognitivo”: esta é semelhante a um mapa, em alguns
aspectos, porque tudo parece ocupar uma determinada posição. Se lhe pedissem para
imaginar o caminho que você faz para ir às compras, você provavelmente veria as
estradas ou ruas dispostas como que do alto, mas o mapa cognitivo é muito diferente de
qualquer mapa material. Para começar, ele tem três dimensões. Inclui representações de
escadas, morros e pontes, e os edifícios, paredes e seres vivos têm formas mais ou
menos sólidas. Esta tri-dimensionalidade também está relacionada com uma espécie de
transparência. É possível imaginar que você está olhando através das paredes da sua
casa ou dos edifícios ao longo de uma rua. Tente imaginar que você está vendo o
interior do aposento pegado a este onde você está para entender o que estou dizendo. É
claro que, na realidade, você não está vendo nada através da parede: apenas está usando
seu mapa cognitivo para construir um quadro daquilo que sabe, ou julga saber, que
existe nele. O resultado, porém, dá a impressão de ser um mundo formado de objetos
transparentes.

214
O mapa cognitivo é, além disso, muito complexo. Centenas de detalhes de forma, cor
e posição estão representados e relacionados com sentimentos, emoções e lembranças
de pessoas e acontecimentos. Por isso ele é simplificado. Existe uma tendência para
aplainar as curvas, transformar ângulos desproporcionais em ângulos retos e nivelar os
contornos desnecessários. Aquelas partes que você considera importantes ou que utiliza
para achar a ma ou esquina certas, serão incluídas com maiores detalhes, enquanto as
outras ficarão reduzidas a uma simples esquematização. Conhecem-se estas tendências a
partir de estudos práticos sobre a capacidade que as pessoas têm de desenhar mapas,
traçar rotas sobre mapas existentes, guiar outras pessoas e assim por diante. Este fato
leva a algumas características esquisitas. Por exemplo, você pode ser capaz de “ver” as
janelas de um prédio e não ser capaz de contá-las, ou então saber que há algo escrito,
mas não conseguir ler.
Você pode usar seu mapa cognitivo de múltiplas maneiras. Ele é flexível, crescendo
com a experiência. Você pode imaginar coisas novas nele, alterar partes dele ou tentar
conceber roteiros novos. Pode, inclusive, se mover através dele de maneiras diversas.
Por exemplo, pode “se mover” como se, na realidade, estivesse andando pela rua, e
vendo todas as construções do nível da rua enquanto vai passando, mas este processo é
lento e exige muitos detalhes. Ou então, pode imaginar que está passando “voando”, na
altura e na velocidade que quiser. Desta forma, você verá as construções passarem
embaixo, e mudarem de perspectiva à medida que vão passando; poderá ver as ruas
dispostas em séries e poderá, inclusive, ver veículos e pessoas em movimento. Se você
não consegue identificar estes dois métodos, tente, então, imaginar que está indo para o
trabalho (ou qualquer outro lugar que preferir). Você deve imaginar cada etapa do
caminho ou fazer o trajeto “voando” com mais rapidez.
Você também pode passar através de paredes. Tente imaginar que está circulando
através das paredes de sua própria casa, para entender o que quero dizer. É óbvio que
você sabe que nada está se movendo na realidade: você apenas está deslocando um
ponto de vista imaginário dentro dos limites do seu mapa cognitivo da casa. Finalmente,
é claro, você pode saltar de lugar para lugar. Você pode passar por estágios e trajetos
que conhece bem, mas pode também queimar as etapas intermediárias e saltar, na
imaginação, dos arredores de sua casa para as imediações do último lugar que visitou
nas férias.
Será que tudo isto se parece com o mundo da EFC? Ao meu ver, sim, em quase todos
os detalhes. Evidentemente, imaginar que está num

215
determinado lugar, utilizando seu mapa cognitivo, não é a mesma coisa que ter uma
EFC. Não existe a mesma sensação de instantaneidade e de “realidade”. Por outro lado,
a natureza desse mapa e a natureza do mundo da EFC parecem espantosamente
semelhantes. Na minha opinião – embora certamente muitos deixarão de concordar
comigo – faz muito mais sentido considerar o mundo da EFC como um mundo da
imaginação ou como um mapa cognitivo. Ademais, acho que isso corresponde a tudo
que se diz sobre o mundo astral. Pois ele é um “mundo criado pelo pensamento”, um
“mundo de imagens”, um “mundo de ilusões”.
No que diz respeito à imaginação e ao seu relacionamento com a EFC, o outro
problema a ser resolvido é saber se as pessoas com melhor capacidade de imaginação
têm mais probabilidade de ter uma EFC. Todd e Dewhurst (149) sugeriram que a
autoscopia ocorria particularmente com pessoas dotadas de poderes supernormais de
imaginação. E citam o caso de um homem que, num passeio solitário, não só viu frutas
inexistentes nos galhos de árvores estéreis, mas também “viu a própria imagem vindo
na sua direção como se estivesse lentamente emergindo do chão”. A imagem era igual à
imagem vista num espelho, e Todd e Dewhurst acrescentam que o homem não ficou
muito surpreso porque, aliás, tinha um forte poder de visualização.
Será que existe mais probabilidade de a EFC ocorrer com pessoas dotadas de uma
boa imaginação? Seria possível se a experiência fosse criada inteiramente pela
imaginação. Todavia, não se sabe exatamente que aspectos da capacidade de
imaginação são os mais importantes para a EFC, nem se são diferentes as habilidades
exigidas para induzir deliberadamente ou para ter espontaneamente uma EFC.
Conforme já vimos, existem muitos testes diferentes de capacidade de imaginação.
Alguns testam a expressividade, outros o domínio sobre a imaginação e outros as
modalidades cognitivas habituais. Apesar de a pesquisa sobre imaginação e EFCs estar
apenas começando, todos esses tipos de teste já são utilizados há tempos.
Irwin (65a, c) estava interessado em saber se os experimentadores de EFCs diferem
das outras pessoas, em termos de determinadas habilidades cognitivas ou de formas de
pensamento, inclusive a imaginação. Na sua pesquisa com estudantes australianos,
descobriu 21 indivíduos que classificou como experimentadores de EFCs e aplicou os
questionários de “formas de pensamento”, “diferencial de personalidade” e “grau de
expressividade de imaginação visual”. Em relação a cada um deles, comparou os
resultados quantitativos dos experimentadores de EFCs com as projeções feitas a partir
de estudos para grupos maiores da população. Embora seja

216
perfeitamente correto fazer esse tipo de comparação, note-se que ela difere da
comparação dos resultados entre experimentadores e não-experimentadores de EFCs a
partir da mesma amostra.
O questionário sobre a capacidade de imaginação consiste numa auto-avaliação
apenas do grau de expressividade da imaginação visual. Se os sujeitos soubessem o que
se esperava deles, poderiam responder de acordo com essas expectativas; portanto,
Irwin cuidou para que não houvesse nenhuma ligação explícita entre este questionário e
o questionário sobre a EFC, além do que, só o aplicou alguns meses depois dos outros
testes. Verificou-se, contrariamente às previsões, que os resultados quantitativos desse
pequeno número de experimentadores de EFC foram significativamente mais baixos do
que o normal, o que indica que possuíam uma imaginação menos viva do que a média.
Irwin concluiu que estes resultados contradiziam a teoria de que a EFC é uma forma
de alucinação e reduziam a força das teorias psicológicas sobre a EFC. Palmer (110e)
assinalou, posteriormente, que nenhuma teoria psicológica previa uma relação
específica entre expressividade de imaginação e uma predisposição para EFCs,
afirmando que talvez as imagens criadas intencionalmente não fossem importantes para
uma EFC espontânea. Irwin replicou (65b) dizendo que as imagens geradas, tanto
espontânea como intencionalmente, estão intimamente relacionadas, não podendo ser
separadas, de onde concluiu que, com isso, as teorias psicológicas perdem terreno,
enquanto Palmer achava que as descobertas pouco influem sobre elas.
O teste seguinte sobre formas de pensamento visa a testar a dimensão verbalizador-
visualizador, em termos cognitivos. Vinte dos experimentadores de EFCs, na pesquisa
de Irwin, preencheram este questionário, conseguindo uma soma de pontos não
diferente da média prevista para os estudantes daquela universidade. Portanto, não
houve prova de que os experimentadores de EFCs tenham uma tendência particular para
o uso de visualização ou de verbalização.
Apesar de não serem diretamente relevantes para o problema da imaginação, os
resultados do teste sobre diferencial de personalidade foram interessantes. Uma das
várias dimensões do estilo cognitivo medido por ele é a “absorção”. Ela se relaciona
com a capacidade de uma pessoa estar absorta em sua experiência. Por exemplo, alguém
que fica facilmente concentrado na observação da natureza, de uma obra de arte, na
leitura de um bom livro ou em um filme, com a exclusão do mundo exterior,
conseguiria muitos pontos na escala de “absorção”. Irwin esperava que os expe-

217
rimentadores de EFCs obtivessem marcas elevadas neste item, e teve confirmadas suas
previsões, pois eles saíram-se melhor do que a média na capacidade de envolvimento
com suas experiências. Irwin confirmou este fato, constatando resultados mais elevados
na capacidade de concentração para um grupo de experimentadores de EFCs, em
comparação com o grupo de não-experimentadores, o que demonstrou que indivíduos
com alta capacidade de absorção eram mais suscetíveis a um processo de indução de
EFCs (65c). Isto faz sentido, de um ponto de vista psicológico, pois numa EFC o sujeito
precisa estar envolvido na nova perspectiva, com a conseqüente exclusão da posição
habitual, do “interior”-do corpo; e ser capaz de ignorar todos os impulsos sensorials
externos que lhe informam a posição exata de seu corpo e tentam restabelecer a
sensação normal do espaço onde se encontra.
Eu também tive interesse pela imaginação e apliquei em alguns estudantes uma
versão reduzida do teste de Bett sobre “expressividade da escala de imaginação”. Neste
questionário autodirigido, os sujeitos atribuem uma escala de pontos à expressividade
de imagens em todas as modalidades sensorials, e não apenas quanto às imagens
visuais. Comparei a totalidade de pontos entre experimentadores e não-
experimentadores de EFCs, verificando que ambos eram aproximadamente iguais.
Todavia, usei um teste diferente com os estudantes de Bristol, uma versão ligeiramente
modificada e ampliada do questionário de Gordon sobre “domínio da imaginação”. Este
questionário pede ao entrevistado que imagine que há um carro estacionado na frente da
sua casa, depois, imagine que ele muda de cor, se põe em movimento, suba um morro,
capote e, finalmente, fique imprestável e seja desmontado num cemitério de
automóveis. Em cada estágio, o sujeito deve dizer se consegue ou não imaginar a cena
descrita. Os estudantes que tiveram uma EFC não se saíram melhor do que os outros
neste teste. Assim, pois, nem o domínio sobre a imaginação nem o grau de
expressividade da imaginação parecem ter importância para uma EFC.
Evidentemente, não podemos tirar qualquer conclusão segura com base numa
pesquisa tão limitada. É quase certo que os experimentadores de EFCs não possuem
uma imaginação mais viva ou mais controlada, nem existe uma tendência habitual a
serem mais visualizadores do que verba-lizadores, mas há uma certa evidência de que
têm resultados mais elevados em termos de “absorção”. No entanto, estes aspectos
precisam ser pesquisados mais a fundo.
Antes de encerrar a discussão sobre o tema da imaginação, gostaria

218
de mencionar um exemplo fascinante das experiências de um sujeito com um bom
poder de visualização. “A história de Ruth” é narrada por Morton Schatzman, um
psiquiatra americano residente em Londres, a quem Ruth procurou quando se sentiu
seriamente perturbada pelas aparições que viu do próprio pai (130a). Schatzman não
conhecia nenhum caso parecido com o de Ruth, pois, segundo consta, ela possuía
poderes extraordinários de imaginação. A princípio, ela foi incomodada pelo “realismo”
das aparições, pois era capaz não só de ver o rosto e o aspecto, mas também de ouvir a
voz e até sentir o cheiro característico do pai. Quando se sentava na cama, sentia o
movimento e via os contornos do espaço ocupado pela aparição na cama. Era o
fantasma, e não ela, quem escolhia o momento da aparição: ele costumava aterrorizá-la
com as recordações das vezes em que tentara estuprá-la quando menina. Finalmente, ela
passou a vê-lo ocupando o lugar do seu marido na cama, o que trouxe, evidentemente,
conseqüências alarmantes.
Schatzman tentou resolver o problema de Ruth, não pedindo que ela se livrasse da
aparição quando ocorria, mas fazendo com que ela própria a tivesse. No início, isso a
deixava apavorada, mas, com o tempo, ela conseguiu fazer com que o fantasma
aparecesse quando ela pedia, até que acabou aprendendo a criar e a controlar aparições
de amigos, parentes e outras pessoas. Mas o que mais nos interessa aqui é que Ruth foi
capaz de produzir uma aparição de si mesma.
Na sua primeira tentativa, Ruth levou duas horas para criar uma visão efêmera, mas,
nas tentativas subseqüentes, ela pôde se ver sentada na cadeira vaga que estava à sua
frente, usando as mesmas roupas e exibindo o mesmo anel na mão esquerda. Já que
Ruth também estava usando o anel na mão esquerda, a aparição não era a imagem vista
num espelho e, neste sentido, se parece mais com os duplos vistos em EFCs do que com
as imagens refletidas comumente na autoscopia. O duplo de Ruth lhe disse: “Entre
dentro de mim” e, assim fazendo, ela descobriu que podia voltar a qualquer período do
seu passado, mas o mais interessante é que podia ter EFCs. Ela entrava “dentro” da
aparição e via as coisas dessa posição (130 b). Schatzman, entretanto, não encontrou
nenhum traço de poderes para-normais em Ruth, assim como uma fotografia tirada da
aparição não revelou nada.
O que Ruth conseguia fazer tem muita semelhança com alguns métodos
recomendados para a indução de EFC: ou seja, criar uma auto-imagem tão clara quanto
possível e, em seguida, transferir a consciência para ela. E é isso exatamente o que Ruth
parece ter feito.

219
Este caso provoca muitas indagações. Devemos considerá-lo como uma experiência
que lança luz sobre todo o mecanismo das EFCs, ou como um exemplo de experiência
alucinatória que pouca relação tem com as EFCs espontâneas? Poder-se-ia até mesmo
argumentar que o que Ruth viu diante dela era o seu corpo astral. As perguntas que este
caso suscita são semelhantes às que examinamos no tocante aos sonhos translúcidos.
Aqui também, sou tentada a dizer que a conclusão mais simples e mais atraente é que as
experiências de Ruth e de outras EFCs são baseadas nos mesmos processos de
imaginação e alucinação.

ALUCINAÇÕES

Bem, e quanto às alucinações? Qual o seu significado e quais as suas relações com a
EFC? Já tomamos conhecimento de alguns dos problemas levantados na discussão das
alucinações. Não existe nenhuma definição exclusiva aceita e não se sabe muito bem de
que maneira as alucinações se relacionam com percepção sensorial, ilusão, sonhos e
imaginação. Todavia, vamos definir uma alucinação como uma aparente percepção de
alguma coisa que não está materialmente presente, acrescentando que para corresponder
ao critério de alucinação a coisa não precisa ser considerada como “real”. Nesta
categoria se enquadra uma série enorme de experiências que ocorrem com pessoas
normais, que não sofrem de nenhum distúrbio mental. As alucinações podem acontecer
antes do sonho (hipnagógicas), no momento do despertar (hipnopômpicas) ou podem
ser causadas por drogas, privação dos sentidos, insônia ou forte tensão. Podem assumir
muitas formas, indo das mais simples às situações mais complexas. Qualquer discussão
geral sobre o fenômeno das alucinações foge às limitações deste trabalho; no entanto, eu
gostaria de fazer referência àqueles seus aspectos característicos que são relevantes para
a EFC.
Embora seja possível se ter alucinações de quase toda espécie, há muito tempo se
sabe que existem notáveis semelhanças entre as alucinações de pessoas diferentes sob
circunstâncias também diferentes. A primeira classificação das alucinações foi
estabelecida no século passado, durante um período em que muitos artistas e escritores
faziam experimentos com haxixe e ópio como um recurso para vivenciá-las. Em 1926,
Klüver iniciou uma série de investigações sobre os efeitos da mescalina (substância
derivada do cacto do peiote), descrevendo quatro tipos regulares. Estes eram: primeiro,
o tipo reticulado, em treliça ou em forma de tabuleiro de xadrez; segundo, o tipo teia;
terceiro, o túnel, cone ou vaso

220
e, quarto, a espiral. Assim como existem aspectos constantes do estado de êxtase
causado pela mescalina em pessoas diferentes, Klüver constatou que estas formas
apareciam em alucinações causadas por uma ampla variedade de condições.
Na década de 60, quando muitas drogas psicodélicas começaram a ser largamente
utilizadas como simples passatempo, as pesquisas sobre seus efeitos proliferaram. Leary
e outros procuraram desenvolver métodos através dos quais os sujeitos drogados
poderiam descrever o que lhes estava acontecendo, mas como as visões mudavam com
muita rapidez, sendo difícil expressá-las com palavras, esta tarefa não era fácü.
Finalmente, Leary e Lindsley criaram a “máquina de escrever experimental” com vinte
teclas que representavam estados subjetivos diferentes. Os sujeitos foram treinados para
usá-la, mas as doses relativamente altas de drogas empregadas interferiam com a sua
capacidade de manejar as teclas, de modo que houve necessidade de um método mais
apropriado.
Uma década depois, Siegel utilizou maconha, ou THC, na experiência com seus
pacientes e pediu-lhes que simplesmente informassem o que estavam vendo. Mesmo
usando sujeitos não-treinados, ele constatou notáveis congruências nas alucinações. Nos
estágios iniciais predominaram as formas geométricas simples. Na maioria das vezes,
havia uma luz intensa no centro do campo de visão que obscurecia os detalhes centrais,
mas permitia que as imagens nas extremidades fossem vistas com maior clareza, além
do que, a localização dessa luz criava uma perspectiva do tipo túnel. Freqüentemente, as
imagens pareciam pulsar, aproximando-se ou afastando-se da luz no centro do túnel (ver
Ilustrações 14 e 15). Num estágio posterior, as formas geométricas foram substituídas
por imagens complexas, incluindo cenas identificáveis com pessoas e objetos, às vezes
com pequenos animais ou com caricaturas humanas. Mesmo neste estágio houve um
alto grau de consistência, representando as imagens da memória uma considerável
parcela.
Com base neste trabalho, Siegel construiu uma lista de oito formas, oito cores e oito
padrões de movimento e treinou sujeitos para lidar com elas sob a ação de uma
variedade de drogas, numa situação controlada. Com anfetaminas e barbitúricos,
observou-se o predomínio das formas brancas e pretas movendo-se indefinidamente,
mas com o THC, psilocibina, LSD e mescalina as formas se tornaram mais organizadas
à medida que a experiência progredia. Depois de 30 minutos, houve mais formas de
treliça e túnel e as cores passaram do azul para o vermelho, laranja e amarelo. O
movimento ficou mais organizado com padrões explosivos e

221
rotatórios. Depois de 90-120 minutos, as formas predominantes foram túneis de treliça
(ver Ilustração 16); depois disso, começaram a aparecer imagens complexas de
memórias e cenas da infância, lembranças emocionais e algumas visões fantásticas. Mas
mesmo essas cenas apareciam, na maioria das vezes, num esquema de túnel de treiiça.
No pico da experiência alucinatória, os sujeitos às vezes diziam que tinham se tornado
parte das fantasias. Pararam de usar comparações e mencionaram as imagens como
reais. Imagens muito criativas foram relatadas e as mudanças foram extremamente
rápidas. De acordo com Siegel (137a), neste estágio “os sujeitos informaram que se
sentiam dissociados de seus corpos”.
Essas notáveis regularidades não se restringem apenas à situação experimental.
Siegel demonstrou que os índios Huicol, que usam o peiote, têm alucinações
semelhantes, e a pesquisa antropológica tem, desde há muito, revelado uma aparente
regularidade na forma das alucinações, ao lado de uma diversidade de interpretações.
Estados excitados e hiperexcitados têm uma variedade de descrições: o entrar numa
realidade desconhecida, o visitar o céu e o inferno, o entrar em contato com os deuses e
o deixar o corpo; muitos antropólogos, porém, entre eles Weston la Barre (75),
garantem que todos esses estados “supernaturais” ou “mediúnicos” são melhor
compreendidos em termos de atividade alucinatória do cérebro. As semelhanças se
devem a semelhanças no cérebro e no sistema nervoso de pessoas diferentes.
É visível o paralelo entre as alucinações causadas por drogas e a típica EFC
espontânea. Não só alguns dos sujeitos que fizeram os experimentos de Siegel relataram
realmente EFCs, mas também houve os túneis familiares e as luzes intensas, tão
freqüentemente associados com as experiências de morte iminente. Também se falou no
“realismo” de tudo que era visto; e as mesmas drogas que propiciaram as alucinações
são supostamente aquelas que contribuem para EFCs.
Variam muito as opiniões sobre o motivo pelo qual a forma de túnel é tão comum.
De vez em quando ela é comparada ao fenômeno de “visão de túnel”, no qual o campo
de visão se toma muito afunilado, mas, geralmente, nas EFCs e alucinações, o aparente
campo de visão é muito amplo e tem apenas a forma de um túnel. Uma alternativa mais
plausível consiste em dizer que tudo depende da maneira como o espaço retínico se acha
projetado no espaço cortical. Se uma linha reta, na área responsável pela visão, no
córtex cerebral, tem uma representação circular na retina, então a estimulação nas linhas
retas que ocorre em estados de excitação cortical poderia produzir uma sensação de
círculos concêntri-

222
cos, ou a forma de túnel. Este tipo de argumentação é importante na compreensão das
ilusões visuais na enxaqueca, na qual a excitação se espalha por regiões do córtex; além
disso, essa linha de raciocínio pode levar a pesquisar o uso das formas de alucinação
como uma indicação da organização estrutural do sistema visual.
Uma outra especulação que se poderia fazer é a de que o túnel tem alguma relação
com mecanismos de estabilidade. À medida que os objetos se movem ou que nos
movemos em relação a eles, a projeção deles na retina muda de forma e tamanho e, para
compensar isso, dispomos de mecanismos de estabilização. No caso de objetos muito
grandes, as distorções são, necessariamente, um resultado de perspectiva, de modo que
continuamos a ver edifícios com paredes e tetos em linha reta. Se este mecanismo agisse
inadequadamente sobre os sinais espontâneos criados internamente, poderia produzir
uma perspectiva do tipo túnel, e toda e qualquer forma alucinatória seria percebida
contra este fundo distorcido.
Quer estas especulações demonstrem estar corretas ou não, ainda resta a
possibilidade de que o túnel venha a ser explicado em termos puramente fisiológicos
que dispensam as analogias psicanalíticas com o útero ou qualquer referência a corpos
astrais, fios prateados ou separação do corpo. Essa explicação fisiológica seria aplicável
a EFCs, assim como a alucinações causadas por drogas e a experiências de morte
iminente.
Já mencionei que nas alucinações causadas por drogas pode acontecer que o sujeito
se tome parte das imagens criadas, que lhe parecem ser bastante reais, apesar de
procederem de sua própria memória. A comparação com EFCs é interessante, pois uma
das características mais constantes de EFCs espontâneas é que os experimentadores
alegam que “a experiência toda parecia muito real”. Se ela fosse um tipo de alucinação
semelhante àquelas causadas por drogas, então daria a impressão de ser verdadeira.
Junte as informações do mapa cognitivo do sujeito acumuladas na memória e um estado
alucinatório, no qual essas informações são mencionadas como se estivessem sendo
captadas no ato, e você terá os ingredientes básicos para uma EFC clássica.
O que dizer, no entanto, das diferenças entre alucinações e EFCs? Pode-se assinalar o
estado de consciência relacionado com ambas e contestar dizendo que ocorrem EFCs
quando a pessoa alega estar plenamente acordada e com o raciocínio perfeitamente
normal. Mas isto também é possível com as alucinações. Sob o efeito de certas drogas, a
consciência e o poder de raciocínio parecem ficar mais claros do que antes, exatamente
como acontece numa EFC.

223
Pode-se rebater afirmando que uma diferença importante consiste em que na EFC os
objetos de percepção são organizados coerentemente, como se eles constituíssem um
mundo material e estável. Mas nem sempre é este o caso. Nas compilações de casos da
SPP e nas minhas próprias pesquisas, há muitos que envolvem experiências que vão
além de qualquer coisa vista no mundo físico. Cito o exemplo de uma mulher que
descreveu um mundo de amistosos seres anões; o caso de uma outra que esteve numa
cafeteria no alto de uma montanha, onde encontrou amigos já falecidos; e o caso de uma
outra pessoa que visitou um lago cuja superfície refletia cores estranhíssimas. Algumas
EFCs, como a que eu mesma tive, transformam-se em experiências nas quais distorções
radicais e imagens esquisitas predominam ou desembocam em alguma espécie de
experiência mística. Por conseguinte, é errado pensar na EFC como uma experiência
sempre distinta e isenta de aspectos claramente alucinatórios.
Afinal, até onde nos levam todas estas considerações? O exame da imaginação e das
alucinações poderia nos fornecer um modelo para a compreensão da EFC, que seria
considerada apenas como uma das formas de uma série de experiências alucinatórias.
Mas, e esta ressalva é importante, se a EFC é, basicamente, uma alucinação e se nada
deixa o corpo, não há possibilidade de os fenômenos paranormais estarem relacionados
com ela, nem de serem as pessoas capazes de ver lugares distantes e desconhecidos ou
de influir nos objetos enquanto estiverem “fora do corpo”; no entanto, muitas
reivindicam terem tal capacidade. Serão justificáveis estas reivindicações? Dedicarei os
capítulos seguintes à tentativa de achar respostas.

224
17 PERCEPÇÃO EXTRA-SENSORIAL NA EFC

Em abril de 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, um certo Dr. X estava saindo
do aeródromo de Clair Marais para socorrer um piloto ferido em combate, quando o
próprio avião em que estava teve de fazer uma aterrissagem forçada e ele foi
arremessado para fora da cabine. Ele caiu de costas, terminando por sofrer uma
concussão na espinha, mas não perdeu a consciência. Diz ele: “Repentinamente, eu
estava olhando para o meu corpo no solo, de uma altura de 70 metros.” Ele conta que
perdeu completamente o medo ao perceber claramente que o avião estava prestes a cair
e, em vez disso, ficou imaginando, com certo alheamento, de que forma o avião tocaria
o solo. Quando viu o piloto e mais duas pessoas correndo em direção ao ponto onde
estava caído seu corpo, ele se perguntou por que estavam preocupados com ele e chegou
até a desejar que o deixassem em paz!
O corpo do Dr. X caíra dentro de uma vala, de onde era impossível ver os hangares e
as outras instalações. Mas, daquele ponto privilegiado, muito acima do próprio corpo,
ele viu o tender Crossley, usado como ambulância, sair do hangar onde estava
estacionado e, depois, parar; aparentemente, o motor afogou. O motorista desceu rápido,
ligou-o de novo, girando a manivela, depois saltou para a boléia e continuou. De novo o
carro parou; dessa vez o médico assistente é que correu até a barraca para apanhar
alguma coisa. Nesse tempo todo, o Dr. X queria saber por que eles precisavam ter tanto
trabalho e começou uma jornada para outros lugares. E só voltou, num zás, quando
sentiu que uma solução de carbonato de amônia estava sendo despejada pela sua
garganta dentro. Ele pediu que

225
o assistente não fizesse aquilo, mas que esperasse a chegada do capitão médico que o
lavaria para o hospital. Somente quando chegou lá é que o Dr. X compreendeu que seria
completamente impossível que ele tivesse visto todos os acontecimentos descritos.
Segundo consta, ele contou toda a história ao oficial comandante que comprovou a
veracidade dos fatos.
Esta história foi publicada na Revista da SPP em 1957, por F. J. M. Stratton que
incluiu, além do relato escrito pelo Dr. X em 1956, uma declaração do Dr. G.
Abrahams, o médico que o removeu para o hospital (142). Esta é apenas uma das muitas
histórias publicadas que contam que uma pessoa, fora do próprio corpo, é capaz de ver
ou ouvir coisas que normalmente não teria condições de perceber. Em outras palavras,
parece que esse duplo possui percepção extra-sensorial, PES.
Se isto for verdade, tem um enorme significado. As teorias sobre EFC precisarão
explicar o fato, e as teorias sobre PES precisarão incorporar esta versão do fenômeno;
além disso, nossas concepções habituais a respeito do ser humano serão consideradas
limitadas e deficientes. Verificaremos qual a importância deste fato ao examinarmos
mais detalhadamente essas teorias no Capítulo 21. Mas, será verdade? Será que as
pessoas durante uma EFC realmente enxergam à distância? Neste e no próximo capítulo
vamos examinar as provas.
Os indícios provêm de diversas fontes. As mais importantes são os relatos de casos
isolados, as pesquisas e os experimentos. A começar pelos relatos isolados e pelos
históricos de casos, é óbvio que existem muitas alegações de PES durante EFCs. Há
histórias cujo interesse depende da veracidade da visão e que, no entanto, recebem
destaque em livros sobre EFCs. Mas, conforme veremos, elas nem sempre foram
adequadamente pesquisadas.

PROVA INCIDENTAL

A maior parte do material mais antigo sobre EFCs concentrava-se nos casos de
aparição, que examinarei depois, mas há também alguns sobre PES. Muldoon e
Carrington (97b) fizeram provavelmente a maior seleção de relatos de EFC cujos
sujeitos afirmavam possuir percepção à distância, mas muitos deles foram reunidos
longo tempo depois do acontecimento e os autores nem se deram ao trabalho de
investigá-los.
Hart fornece provas bem melhores (60a). Visto que ele estava particularmente
interessado em casos comprovados, ele se esforçou para incluir aqueles que tinham sido
investigados pelo menos até certo ponto.

226
Já falei da escala de pontos que ele usou e fiz um resumo do caso Apsey, um dos que
obtiveram as melhores marcas. Vimos aí a curiosa combinação de informações corretas
e incorretas que parece ser uma característica de tantas EFCs.
Green também dá alguns exemplos, fazendo a observação importante de que “em
nenhum caso de natureza involuntária já se constatou que as informações obtidas
estivessem incorretas” (49c, p. 142). Este fato é interessante, desde que seja verdade, e
poderia indicar uma diferença entre EFCs involuntárias e induzidas, mas não parece
invalidar a prova. Já examinei casos espontâneos que produzem uma combinação de
informações corretas e incorretas, e tratarei de um caso em que todas as informações
estavam aparentemente erradas. Até mesmo as provas dadas por Green deixam muito a
desejar. Ela não fez nenhuma tentativa para investigar as declarações de seus
entrevistados que poderiam muito bem ter deixado de mencionar se “viram” algo
errado. Ela reconhece que, em certos casos, as informações poderiam ter sido obtidas
diretamente, o que incluiria a possibilidade de que, em alguns casos, uma pessoa
“inconsciente” ouvisse o que estava se passando.
Talvez o caso mais impressionante de Green seja o daquela mulher internada num
hospital que dizia ter visto, enquanto fora do corpo, “uma mulher enorme sentada na
cama, com a cabeça envolta em ataduras, que estava fazendo um trabalho de tricô com
lã azul” (49c, p. 143). Esta outra paciente correspondia à descrição e seu quarto ficava
na curva da enfermaria em forma de L. Nenhuma das pacientes recebera permissão para
sair do leito. Neste caso, porém, não sabemos se a primeira mulher teve de passar pelo
quarto da outra quando deu entrada no hospital, ou se ouviu, por acaso, comentários
sobre a outra paciente. Além disso, não se dá qualquer tipo de comprovação da história
através de outras pessoas presentes.
Estas circunstâncias nos levam a perguntar que espécie de prova seria aceitável. Até
onde devem ir nossas críticas aos casos, e quão satisfatória a prova necessita ser? Para
esclarecer estas questões, vou examinar alguns dos problemas suscetíveis de provocar
confusão no estudo de EFCs espontâneas.
Há vários desses problemas. Primeiro, os fatos, na maioria das vezes, ocorreram
muito tempo antes de a história ser contada, o que complica a sua averiguação para o
investigador. Segundo, a memória é falha e existem muitos motivos que explicam por
que as pessoas se lembraram e deram informações “corrretas”, em detrimento das
informações “incorretas”. Terceiro, somos quase sempre informados de que tudo foi
compro-

227
vado ou considerado ser “exatamente assim”, mas é difícil saber o que isto quer dizer.
E, quarto, pode se tomar impraticável a tarefa de apurar todos os meios através dos
quais as informações podem ter sido obtidas.
Considerando-se o primeiro problema, as dificuldades com que se defronta o
investigador dependem de há quanto tempo atrás os fatos aconteceram e da lacuna
decorrida entre eles e a sua narração. No caso do Dr. X, o intervalo foi exatamente de
quarenta anos. É tempo suficientemente longo para que a memória sofra distorções ou
apare as rebarbas. Esse problema deixaria de existir se tivéssemos os depoimentos de
todas as outras pessoas envolvidas, mas o fato é que não temos. Stratton tentou localizá-
las, mas infelizmente o piloto (o oficial comandante) e o assistente foram assassinados
algumas semanas antes, e, das outras pessoas envolvidas, somente o médico que o
transportou para o hospital pôde ser localizado e deu um breve depoimento. Para
aumentar a confusão, o Dr. Abrahams declara que o acidente ocorreu na manhã de 16 de
abril de 1916, enquanto, no relato pessoal do Dr. X, a data fornecida era 21 de abril de
1916. Este fato, em si mesmo, pode não ter muita importância, mas indica a natureza do
problema.
A segunda grande dificuldade é a falibilidade da memória. Além de ser
freqüentemente imprecisa, a memória tende a distorcer as coisas para determinadas
direções. Com o tempo, a recordação de uma história se tornará gradativamente mais
simples e mais resumida, terá mais sentido e corresponderá melhor às expectativas e
desejos. Em muitos aspectos, a gente só se lembra do que quer lembrar. Isto pode
significar que o aspecto da PES se torne exagerado. Ele dá mais sentido à experiência e
mais interesse à história.
O Dr. X conta que, logo após sua experiência, pelo menos seis pessoas diferentes,
incluindo Sir Oliver Lodge, Lord Balfour entre outras, pediram-lhe para contar a
história. Estas pessoas estavam particularmente interessadas no aspecto de PES da
história, de modo que não se pode culpar o Dr. X, por ter dado mais destaque a ele no
seu relato. A repetição de um relato pode distorcer qualquer história, e o fato de que
alguém acredite nela já é um passo para dar uma conotação particular ao relato.
Apesar de todos terem uma memória falha, é tentador esquecer-se disso. Stratton, no
prefácio à história do Dr. X, encoraja o leitor a acreditar nela:

Para dar uma idéia da confiabilidade e integridade de caráter do Dr. X como observador, devo
dizer que ele é um clínico aposentado, doutor em

228
Medicina, membro da Associação Real de Medicina e que foi elevado a Comendador da Ordem do
Império Britânico em reconhecimento pelos seus serviços consultivos na Força Aérea Real (142,
p. 92).

Se esses elogios fazem com que você se sinta mais disposto a acreditar no lado
favorável à PES da história, nem por isto deveria. Pode-se crer na educação do homem,
no seu conhecimento sobre medicina e assim por diante, mas nenhuma dessas
habilidades o qualifica para ser um observador de confiança ou como alguém que possui
uma memória especialmente boa para os detalhes importantes.
É claro que alguns destes problemas não têm razão de ser quando o sujeito de uma
EFC faz o registro de suas impressões ou visões antes de elas terem sido confrontadas
com os fatos (como, aliás, acontece na maioria dos experimentos). Os primeiros
investigadores compreenderam bem a questão e Myers demonstrou cautela ao tentar
obter registros imparciais deste tipo; como, porém, a maior parte destes casos envolvia
mais aparições de que PES, vou deixar para discuti-los depois. O ideal seria que o
sujeito da EFC registrasse tudo o que viu imediatamente depois da experiência e
entregasse suas anotações a alguma outra pessoa, antes que ela fosse verificada. As
verificações poderiam, então,’ ser feitas e os detalhes, comparados. Mas, mesmo hoje
em dia, são poucos os casos em que isto é feito, e mais reduzidos ainda os casos em que
as outras condições são cumpridas e os detalhes demonstrem estar corretos. Na maioria
das vezes, os detalhes estão parcialmente corretos ou confusos e as condições
infelizmente não correspondem ao ideal. Observem, porém, que não estou procurando
dizer que não existe nenhuma prova segura, mas apenas tentando mostrar a dificuldade
que existe em estabelecê-la.
Finalmente, para aumentar ainda mais a confusão sobre este assunto, surge um fator
psicológico controvertido. A EFC geralmente é uma experiência tão vivida, que faz com
que tudo pareça tão real, que é difícü que o experimentador não fique convencido de
que tudo o que ele viu tinha uma existência real, mesmo que não tenha verificado os
fatos. Green (49 c) cita exemplos de pessoas que estavam convencidas de que eram
capazes de ver o que quisessem, apesar desta sua capacidade não ter sido testada. Nas
minhas próprias pesquisas, descobri que muito poucas pessoas realmente se
preocupavam em confirmar o que viram. Palmer (110d) verificou que apenas 14% dos
sujeitos que tinham EFCs (na proporção de 5% das experiências) alegaram PES durante
suas EFCs, mas não informa se suas alegações foram ou não confirmadas.

229
O terceiro problema diz respeito à confirmação dos detalhes. Em um caso ideal, os
detalhes específicos seriam relembrados e registrados antes de serem confrontados com
os fatos e, posteriormente, considerados corretos, pelo menos a maior parte deles. Mas
isto raramente acontece. Na maioria das vezes são dados alguns detalhes corretos e não
temos nenhuma idéia sobre o número dos outros que foram excluídos. Ou então, a
história é apresentada da seguinte forma: “Visitei a casa de um amigo onde nunca
estivera antes e, quando fui até lá, depois, para confirmar, descobri que tudo o que vira
era real.” No caso do Dr. X, ele declarou que o oficial comandante confirmou tudo o
que vira. Mas, o que exatamente isto quer dizer?
Eu ajudei a investigar um caso que me levou a tomar muito cuidado com esse tipo de
declaração. Um arquiteto canadense (vamos chamá-lo de Sr. C) tinha a sensação de
deixar o próprio corpo e atravessar o Atlântico, chegando até Londres. As viagens e
visões dele tinham uma intensidade dramática. A julgar pelas suas roupas e pelas
circunstâncias locais, ele achava que estava na Londres do período de 1840 a 1860,
descrevendo detalhadamente a vitrina de uma loja que vendia tecidos e artigos de
porcelana e o traçado de uma rua pavimentada com pedras arredondadas por onde as
pessoas trafegavam apressadas e que dava para uma praça contígua. Ao longo dessa rua,
havia prédios de três andares, com janelas estreitas e jardins bem cuidados na frente.
Lembrando-se claramente das curvas do Tâmisa, o Sr. C. foi capaz de fixar o ponto no
mapa: estava certo de que era uma determinada rua no bairro do Fulham. Ele nunca
estivera em Londres, mas pediu para um colega inglês descrever esta área. Segundo ele,
o colega “fez uma descrição das características da rua, do estilo das construções e dos
jardins de entrada – tudo exatamente como eu tinha visto!”
Tive oportunidade de investigar essa área de Fulham (e outras possíveis candidatas)
minuciosamente. Entre 1840-1860, havia só algumas casas esparsas nessa área e um
mapa de 1862 mostra campos de vegetação no local onde o Sr. C pensava ter visto a tal
rua. Quando a extensão da rede ferroviária trouxe desenvolvimento a Fulham, as
construções tinham dois pavimentos. Estas casas estão lá até hoje e não se parecem nada
com as que o Sr. C viu. Através de fotografias, fiz com que ele comparasse suas visões
com um tipo de construções urbanas do século dezoito que nunca houve naquela área.
Desapontada, concluí que as expressivas imagens que o Sr. C tinha de Londres não
provinham de nenhuma cena verdadeira da cidade. Quanto à sua alegação de que a
descrição feita pelo seu colega

230
correspondia em todos os detalhes àquilo que tinha visto, ficou demonstrado que não
tinha valor algum. De onde se deduz que só uma investigação apropriada dos detalhes é
que pode fornecer o tipo de prova exigido.
Para finalizar, chegamos ao complicado problema de saber quais são os
procedimentos normais para se obter as informações. Ainda neste aspecto, a memória é
importante. É perfeitamente possível ver ou ouvir alguma coisa, em seguida esquecê-la
completamente e, depois, desenterrá-la, passado muito tempo. Esse fenômeno,
conhecido como cripto-amnésia, é discutido amiúde em relação com a mediunidade e a
clarividência. Há pouco tempo atrás, o historiador Ian Wilson (157) demonstrou com
que eficácia as pessoas podem usar informações esquecidas e inimagináveis recursos
dramáticos para inventar convincentes, mas falsas “vidas passadas” quando retomavam
de transes hipnóticos. Os mesmos processos poderiam também ser postos em prática em
EFCs.
Uma outra possibilidade, freqüentemente omitida, é que uma pessoa pode se
comportar como se estivesse inconsciente, mas continuar ouvindo, e nossa capacidade
de formar um expressivo quadro mental a partir do que ouvimos é extremamente eficaz
– e sabemos disso, por exemplo, quando escutamos um programa no rádio. Tomemos
como ilustração o caso do Dr. X novamente. Não sabemos se ele podia ouvir o motor da
ambulância dar a partida, afogar e pegar de novo. Mas se pudesse, teria facilidade de
imaginar a cena como que de cima. E esta constitui apenas uma das várias
possibilidades que devemos levar em consideração.
Afinal de contas, qual é o valor da prova incidental? Simplesmente deixo que o
próprio leitor decida. Você pode protestar dizendo que procedi incorretamente
acumulando as minhas provas através de casos falhos, mas na minha experiência eles
constituem a grande maioria. Eu própria acho que as provas não são convincentes e que
pouquíssimos casos resistem a um exame minucioso, mas não posso afirmar nada além
disto.
Evidentemente, as provas incidentais não se mantêm de pé sozinhas, sendo
corroboradas por outros tipos. As provas fornecidas pelas pesquisas, por mais limitadas
que sejam, apontam para um fato interessante: o aspecto de PES durante as EFCs não é
relevante para a média dos experimentadores. Muito poucos alegam ter visto coisas à
distância e um número ainda menor tem a preocupação de confirmar os detalhes. Parece
que ele não representa, para a maioria das pessoas, um dos aspectos mais
impressionantes da experiência. Não há muito mais o que dizer sobre as pesquisas,
senão que os casos que as integram precisam ser submetidos aos mesmos testes
aplicados para todos os casos. Bem diferentes e muito mais extensas são as provas
reunidas através de experimentos.

231
PROVA EXPERIMENTAL

Os experimentos sobre PES em EFCs não são exatamente um empreendimento


recente. Pelo final do século passado eram realizados experimentos sobre a
“exteriorização da sensibilidade”. Achava-se que, sob determinadas circunstâncias, uma
pessoa poderia sentir um toque, picada ou outro estímulo num ponto fora e não na
superfície do corpo. Na maior parte das vezes, a situação específica consistia em que um
médium era colocado em transe hipnótico ou mesmeriano.
Atualmente o hipnotismo é uma parte aceita da medicina e da psicologia. É
pesquisado, assim como os mecanismos de sugestão e de submissão, em experimentos
psicológicos e é utilizado na medicina e como apoio para determinados objetivos como
perder peso e deixar de fumar. Apesar de não serem inteiramente conhecidos os
processos envolvidos e de haver muita discussão quanto a saber que condição específica
entra em ação no hipnotismo, são poucas as pessoas que o associam com alguma prática
misteriosa ou oculta. No entanto, há cem anos atrás, o hipnotismo não tinha se
desvencilhado de seus antepassados, o mesmerismo e o magnetismo animal, e muitos
ainda acreditavam que o “sono” era induzido através da passagem de algum fluido ou
substância magnética do hipnólogo para o paciente. O próprio processo, portanto,
parecia implicar substâncias invisíveis e estranhas. Daí era só um passo acreditar que
uma substância sensível poderia ser extraída do médium em transe, ou que um duplo
poderia ser exteriorizado, sugerindo-se-lhe que vagasse pelo quarto ou em algum outro
lugar.
Os sujeitos hipnotizados eram encorajados a “observar” cenas distantes, captar
pensamentos de outras pessoas e influir em objetos à distância (ver 47 b). Dois tipos de
experimentos efetuados com hipnose são importantes aqui: a “exteriorização de uma
mobilidade”, na qual um duplo afeta objetos à distância, será examinada adiante. A
“exteriorização de sensibilidade” implicava uma espécie de PES, pois se supunha que o
sujeito percebia coisas que ele próprio ou o seu corpo não poderia, normalmente,
detectar (ver Ilustrações 17 ou 18).
Dois pesquisadores franceses de fenômenos mediúnicos, o Dr. Paul Joire (69) e o
coronel Albert de Rochas (29a, b), estudaram a exteriorização da sensibilidade. De
Rochas hipnotizou vários médiuns, levando-os a um estado no qual não conseguiriam
mais sentir um toque na pele e, depois, descobriu que eles pareciam ser sensíveis a um
toque à pequena

232
distância da pele. A sensibilidade parecia ter sido deslocada alguns centímetros, e uma
picada ou a queima do oxigênio do ar nesse ponto provocava ferimento no sujeito. Ele
verificou, então, que se continuasse o “magnetismo”, formava-se uma nova camada
sensível no dobro da distância da pele, em relação à primeira, depois uma terceira
camada e assim sucessivamente. De Rochas dizia que essas camadas se estendiam até
dois metros, mas que cada uma tinha menos sensibilidade do que a camada anterior. Os
próprios sujeitos, segundo consta, eram capazes de ver as camadas como estratos
luminosos (143).
Estas descobertas levaram de Rochas a fazer experimentos ainda mais curiosos. Ele
acreditava que, sob o efeito do magnetismo, o corpo do médium expelia um fluido em
dois períodos diferentes que criavam camadas estáveis de altas vibrações. Ele tentou
distorcer as camadas com um prisma e colocou copos com água perto do corpo do
médium para que absorvessem o fluido. De Rochas tinha um profundo interesse pelo
ocultismo e magia, e achava que tinha descoberto o mecanismo da magia invisível.
Se os sujeitos realmente fossem sensíveis a estímulos distantes, então tratar-se-ia de
PES, mas há muitos motivos para duvidar das conclusões de de Rochas. O detalhe mais
importante é que a picada e a combustão do ar eram feitas apenas a algumas polegadas
dos pacientes. Portanto, dificilmente poderiam ignorar o que estava acontecendo ou
deixar de responder aos estímulos, pois de Rochas tinha feito tal sugestão e, consciente
oü inconscientemente, eles desejavam ser úteis ou ter um “bom” comportamento.
Mesmo na época desses experimentos, em que os controles experimentais não eram
nada do que são atualmente, muitos outros pesquisadores mantinham a opinião de que
todos esses resultados eram devidos à sugestão.
Muldoon (97a) procurou testar este efeito com seu próprio “agulheiro”. Fixou um
painel, no qual deixou espetadas várias agulhas, em cima da própria cama e, quando fez
a projeção, verificou que podia atravessá-lo sem sentir, e chegou à conclusão de que o
estado hipnótico era o responsável pelos resultados anteriores.
De Rochas não estava só, nestes estudos. O Dr. Lancelin, que também escreveu sobre
projeção astral, acreditava que em certas pessoas sensíveis, particularmente as de
temperamento nervoso, havia um grande fluxo de energia nervosa, ou, como ele a
denominava, “exteriorização da irritabilidade”. Ele utilizou o biômetro e o estenômetro,
instrumentos especialmente construídos para medir essas forças (17b), chegando até a
escrever sobre a estrutura do corpo astral detectado através dessa aparelhagem.

233
Hector Durville era um hipnólogo francês e pesquisador dos fenômenos mediúnicos,
que anteriormente ocupara o cargo de secretário geral da Sociedade Magnética da
França (32a, b). Ele trabalhou tanto com de Rochas como por iniciativa própria, usando
vários médiuns diferentes. Entre eles, citam-se as Srtas. Marthe e Nénette e as Sras.
Françoise, Edmée e Léontine. Estas senhoras vinham ao seu estúdio, ora acompanhadas
dos respectivos maridos, ora trazidas por outros cavalheiros, e sentavam-se em
poltronas espalhadas entre estantes de livros, escrivaninhas e outras peças de mobília,
para serem submetidas ao “sono magnético”. Todas elas eram capazes, quando
submetidas a uma “ação magnética vigorosa e prolongada”, de exteriorizar o seu eu
íntimo. De acordo com Durville, isso se dava na forma de emanações que saíam de
várias partes de corpo, causando uma sensação desagradável e, às vezes, até dor no
sujeito. Depois, havia a condensação de um duplo, ao lado do corpo, que adquiria a
forma do próprio sujeito. Este podia vê-lo como algo levemente luminoso, ao passo que
os outros, de acordo com o seu grau de sensitividade, ora o viam apenas como uma
tênue luz branca, ora como um ser cujas partes revelavam cores diferentes. Este duplo
era ligado ao corpo do médium por um cordão, da espessura do dedo mínimo, que
geralmente se estendia de umbigo a umbigo. Os sujeitos descreviam, inclusive,
pequenas intumescên-cias ao longo do cordão, que se formavam, segundo eles, durante
a projeção do duplo, além de dizerem que podiam ver a circulação ascendente e
descendente de um líquido luminoso através do cordão.
Naturalmente, trata-se apenas de descrições feitas por médiuns durante a hipnose.
Apesar dos detalhes intrigantes e das associações que se podem fazer com outras
descrições, não se deve dar outro sentido a essas descrições. Sabe-se que durante o
tempo todo em que durava a experiência, Durville ficava perguntando o que elas viam e
poderia muito bem ter sugerido certos detalhes a essas pessoas. Bastaria, por exemplo,
que perguntasse: “Sente alguma coisa ligando seu corpo ao duplo?”, para trazer à tona
descrições de cordões. Como não sabemos exatamente o que ele disse a elas, não temos
condições de avaliar a origem das descrições.
Assim que o duplo estava bem solidificado, os sentidos normais do médium
pareciam ficar totalmente inibidos, dando o duplo a impressão de ser o mais real dos
dois. Eis o que diz Durville: “[...] em todos os sujeitos o duplo é o indivíduo total e o
corpo físico como que cessa de existir. ‘O duplo sou eu mesma’, afirma Léontine, ‘o
corpo não passa de um saco vazio’“ (32a, p. 337). Esta descrição pode ser comparada
com muitos casos espontâneos nos quais o experimentador observa o próprio

234
corpo com distanciamento, considerando-o muito insignificante, quase como se não
fizesse parte dele ou como se não tivesse com ele nenhuma relação. Realmente, o Dr. X,
cuja história contamos no começo deste capítulo, declara: “Por que essas pessoas estão
preocupadas com o meu corpo? Eu me sinto muito bem onde estou.” Como tantos
outros sujeitos que tiveram EFCs, ele achava que só o seu duplo parecia real, o corpo
não.
É bem verdade que durante uma EFC o duplo se sente o mais real, mas o importante
é saber se, na realidade, ele pode perceber as coisas, ou se isso é apenas uma ilusão.
Durville encontrou muitas maneiras engenhosas de testar o problema. Ele repetiu os
experimentos feitos por de Rochas e verificou que todos os sujeitos testados não deram
sinais de sentir beliscões ou picadas no corpo, mas somente nas partes onde o duplo
parecia estar. Para testar a capacidade de visão, ele pegou uma folha de papel com
grandes letras impressas e colocou-a, primeiro, diante dos olhos do sujeito, depois, na
altura do pescoço, da cabeça e assim por diante. O sujeito disse que não conseguia ver
nada. Então, ele a colocou diante dos olhos do duplo; nada ainda. Mas quando o pôs na
altura da nuca, ele conseguiu ler “sem hesitação”. Concluímos, então, que o duplo
conseguia ler através da nuca? Penso que não, pois pelo que se sabe o mesmo papel foi
colocado, da primeira vez, diante dos olhos entreabertos do sujeito. Ele poderia, nessa
ocasião, ter visto, conscientemente ou não, o que nele estava escrito e,
conseqüentemente, o “ler” mais tarde quando o papel foi posto na frente do duplo. Se
Durville tivesse sugerido ao sujeito hipnotizado que ele não poderia ler, mas que o
duplo sim, é exatamente isto o que se poderia esperar! E o mesmo pode-se dizer dos
seus experimentos com a audição, nos quais Edmée era capaz de ouvir um relógio
colocado perto de seu ouvido, mas somente por meio do ouvido do duplo.
Durville também chegou à seguinte conclusão: “Embora de maneira um tanto
confusa, o duplo projetado pode ver dentro de outro aposento a partir do aposento onde
está.” Ele descreveu experimentos nos quais se pedia a outras pessoas que entrassem
num quarto diferente e aí executassem movimentos simples e de fácil descrição. O
duplo, então, ia para observar e contar o que estava vendo. Nos quatro casos relatados, o
médium fez uma descrição razoavelmente precisa do que estava acontecendo: a Sra.
Fournier estava sentada à mesa, três pessoas estavam fazendo gestos com as mãos e
coisas assim. Mas, antes de admitirmos que se trata de PES, precisamos saber se apenas
foram relatados os melhores exemplos B en mo as pessoas escolheram as ações a
realizar.

235
Se tivéssemos que efetuar este experimento atualmente, provavelmente anotaríamos
um número limitado de ações, colocaríamos dentro de envelopes numerados,
pediríamos à uma pessoa neutra para selecionar um envelope por algum método
aleatório e o entregaríamos às pessoas que deveriam realizar o ato. Elas seriam fechadas
dentro do outro quarto antes de abrirem o envelope, para que ninguém que estivesse no
quarto com o médium soubesse o seu conteúdo. Com este simples procedimento, os
erros seriam automaticamente excluídos. Mas Durville não tomou tais precauções, de
modo que não podemos confiar nos seus resultados.
Além de serem forçadas a ficar escutando o ruído de relógios colocados junto aos
seus ouvidos ou, até mesmo, entre os seus dentes, estas pobres médiuns ainda tiveram
de cheirar e provar substâncias horríveis. Mascaram pedaços amargos de aloés e
garantiram que não sentiam o seu gosto, mas quando eles foram postos na boca invisível
do duplo, declararam que eram realmente amargos. O mesmo teste foi feito com
quássia, açúcar, quinino, sal e até um pedaço de laranja. Quanto aos odores de óleo de
bergamota e de amoníaco, a médium afirmou que não os sentia; somente o duplo era
capaz de identificá-los.
Durville estava ciente do problema da sugestão, mas afirmou que ela não estava
presente porque, quando sugeria à médium que ela deveria sentir o cheiro do amoníaco
que ele mantinha diante do seu nariz, ela continuava dizendo que não conseguia senti-
lo. Este fato, no entanto, não elimina a sugestão. A médium poderia estar bem
consciente de que o resultado esperado era que apenas o duplo revelasse sensibilidade e,
portanto, apegar-se-ia ao que quer que Durville dissesse. Quanto ao relato das
experiências, não há exagero em afirmar que a médium sempre poderia ver o que estava
acontecendo e a primeira providência a tomar seria eliminar esta possibilidade se
resolvêssemos fazer experimentos semelhantes hoje em dia.
Estes são apenas alguns dos experimentos realizados há três quartos de século atrás,
sobre a exteriorização da sensibilidade. Seria ótimo se pudéssemos investigar como
esses métodos foram criados e desenvolvidos e descrever as experiências desde então.
Infelizmente isto não é possível, já que este tipo de estudo parece simplesmente ter
estagnado. Muitos cientistas da época achavam que os resultados eram devidos à
sugestão, e a maioria não estava muito interessada em levá-los adiante. O esmdo do
hipnotismo progrediu gradualmente e se tornou parte da psicologia, enquanto a pesquisa
parapsicológica se voltou, principalmente, para os métodos estatísticos introduzidos por
Rhine nos anos 30. Houve alguns

236
estudos isolados sobre exteriorização, mas nenhum progresso real até pelo menos dez
anos atrás, quando recomeçaram os trabalhos sobre experiências fora do corpo. Quando
isto aconteceu, o enfoque mudou e técnicas completamente diferentes foram utilizadas,
conforme veremos no capítulo seguinte.

237
18 EXPERIMENTOS SOBRE VISÃO FORA DO CORPO

Nos últimos anos da década de 60, Charles Tart começou a fazer os primeiros testes
de laboratório com sujeitos que podiam ter EFCs voluntariamente (146a, b). Já
examinamos suas descobertas sobre os estados fisiológicos desses sujeitos, mas, além
disso, ele também testou a capacidade deles de enxergar um alvo fora do alcance da
visão normal.
Antes de proceder aos testes formais com a primeira médium, a Srta. Z, ele pedia que
ela tentasse fazer um simples exercício em casa. Ela escrevia os números de um a dez
em tiras de papel e os colocava dentro de uma caixa, ao lado da cama. Cada noite tirava
um, sem olhar, e punha-o num lugar de onde pudesse ser visto de cima. Em seguida,
quando se encontrava fora do corpo, ela tentava ver que número era. Ela comunicou a
Tart que obtivera sucesso em todas as ocasiões.
Isto estimulou Tart a tentar experimentos específicos nos quais a paciente dormia no
laboratório e ele colocava um alvo em cima de uma estante, a cerca de um metro e
oitenta centímetros acima da cama onde estava deitada. A Srta. Z nao podia se sentar
nem sair da cama por causa dos eletrodos que a ligavam com a aparelhagem de EEG,
nem obviamente enxergar a parte de cima da estante. O alvo era um número com cinco
dígitos preparado previamente por Tart e colocado sobre a estante na presença da Srta.
Z, sem que, no entanto, ela pudesse vê-lo.
A Srta. Z dormiu quatro vezes no laboratório. Na primeira, não teve nenhuma EFC;
na segunda, ela conseguiu se elevar alto o bastante para ver o relógio, mas não o topo da
estante, e na terceira noite, ela teve uma

238
EFC, mas viajou para algum outro lugar e não procurou ver o número. Na quarta e
última noite, porém, ela acordou dizendo que tinha visto o número e que era 25132. Era
isso mesmo. Ela acertara todos os cinco algarismos, numa probabilidade de acerto por
acaso de apenas uma em 100.000. Portanto, é sensato eliminar a idéia de que se tratava
apenas de sorte. Afinal, qual seria a explicação? Teria alguma parte da Srta. Z deixado
seu corpo e visto o número? Ou poderia ter havido PES?
O próprio Tart mostrou relutância em admitir uma explicação paranormal. Ele
chamou a atenção para o fato de que a Srta. Z poderia, apesar dele pessoalmente ter
considerado a hipótese improvável, ter trapaceado usando espelhos ou algum tipo de
instrumento periscópico escondido dentro do seu pijama. Até se considerou a
possibilidade, embora remotíssima, de que tivesse lido o número refletido na superfície
do plástico preto do relógio pendurado na parede. Todas estas conjeturas parecem
forçadas, mas quando se está testando a ocorrência de um fenômeno paranormal é
preciso se ter plena certeza de que as outras possibilidades estão completamente
excluídas. Além do mais, nessa ocasião, o registro de EEG foi obscurecido por muitas
interferências com a intensidade de corrente de 60 ciclos. Parker (114, p.103) sugeriu
que isto seria previsível caso a Srta. Z tentasse se mover para ver o alvo. O
aprofundamento das pesquisas teria ajudado a esclarecer o problema, mas a Srta. Z
precisou retornar à sua casa, relativamente distante, de modo que não foi possível fazer
outros experimentos com ela.
O segundo médium estudado por Tart foi Robert Monroe, que se submeteu a nove
sessões no laboratório, mas, como sabemos, ele só conseguiu produzir uma EFC na
penúltima sessão e, em seguida, teve mais duas. Durante a primeira EFC ele teve a
impressão de ver um homem e uma mulher, mas não sabia quem ou onde eles estavam.
Na segunda, conforme afirmou no Capítulo 12, ele fez um esforço enorme para
permanecer “no local” e conseguiu ver a técnica, que estava controlando o
funcionamento da aparelhagem. Juntamente com ela, ele viu um homem, cuja presença
no laboratório ele desconhecia e de quem fez uma descrição posterior. Veio a se saber
que se tratava do marido da técnica, que viera lhe fazer companhia. À primeira vista,
isto parece ser um elemento de prova, mas, na realidade, é desprovido de valor, uma vez
que Monroe poderia ter ouvido quando o homem chegou ou ter tomado conhecimento
de sua presença por algum outro meio normal, além do que ele só deu uma descrição do
que tinha visto depois que pediu para ser apresentado ao homem. Visto que Monroe não
conseguiu ver o número que funcionava como alvo, não

239
houve possibilidade de se realizar um teste verdadeiro de PES.
Em 1971, Karlis Osis começou a planejar a pesquisa sobre EFC na SPP americana
(92). Um dos primeiros médiuns a serem testados aí foi Ingo Swann, que aparecia duas
ou três vezes por semana no laboratório, onde foi testado por Janet Mitchell com o
objetivo de verificar se ele poderia identificar alvos colocados fora do alcance da visão.
O próprio Swann descreveu sua participação como médium nestes experimentos (144).
Uma plataforma, dividida em duas seções, foi suspensa do forro a uma altura de uns
3 metros do chão. Vários objetos foram colocados em ambos os lados da plataforma,
sugerindo-se a Swann que se projetasse até o alto e tentasse distingui-los. O motivo da
divisão era verificar se Swann identificaria o alvo correto, correspondente à posição em
que ele declarasse estar. Muitas alterações tiveram de ser feitas na iluminação e no tipo
de objetos utilizados. Cores vivas e formas claramente conhecidas parecem ter tido
melhores resultados, enquanto fotografias ou objetos de vidro opacos não receberam
aprovação. Por último, entre os alvos usados, havia um abridor de cartas com cabo de
couro preto, uma ilustração contendo o desenho de um par de tesouras sobre um coração
escarlate, e um alvo de papel. Depois da sua EFC, Swann costumava fazer desenhos do
que tinha “visto”. Apesar destes desenhos serem toscas reproduções dos objetos
originais, demonstraram bastante semelhança numa determinada ocasião em que oito
conjuntos de alvos e respostas foram entregues a uma observadora neutra que comparou
corretamente cada par; um resultado que tem probabilidade de acontecer por acaso
apenas uma única vez em aproximadamente 40.000 (92).
Os resultados de todos estes experimentos foram muito animadores. Considerando-
se, particularmente, os resultados dos testes efetuados por Tart, parecia que, embora
fosse difícil para o sujeito conseguir chegar a ver o número, quando ele o via, sua visão
era correta. Se a visão fora do corpo fosse confiável, por mais difícil que fosse alcançá-
la, isto constituiria um grande avanço. Um dos principais achados da parapsicologia, se
se pode chamá-lo assim, é que a PES é extremamente imprevisível e imprecisa se é que
realmente ocorre, sendo quase impossível diferenciar uma ocorrência bem-sucedida de
uma PES legítima, de uma ocorrência casual. Se a visão fora do corpo fosse considerada
precisa, ainda que bastante rara, seria muito mais fácil de ser investigada do que a
evasiva PES.
Mas essa velha esperança não tem sido incentivada. Pesquisas complementares
demonstraram que a visão fora do corpo pode ser tão confusa e imprevisível quanto a
PES sempre deu a impressão de ser. Osis, por exem-

240
plo (103), divulgou um anúncio convidando pessoas que pudessem ter EFCs a virem se
submeter aos testes na SAPP. Aproximadamente cem pessoas atenderam ao chamado,
recebendo instruções no sentido de tentar viajar até um quarto distante e informar os
objetos que ali podiam ver. Osis descobriu que a maioria delas achava que podia
enxergar o alvo, mas que, em sua maior parte, elas estavam erradas. Estavam apenas
enganando a si mesmas.
Osis concluiu que a imensa maioria das experiências não tinha relação alguma com
verdadeiras e sinceras EFCs. Esta conclusão, porém, significa que Osis estava usando a
capacidade de ver corretamente como um critério para a ocorrência de uma EFC
legítima, o que levanta um problema complicado. O questionamento direto dos sujeitos
não levou a dois tipos de experiência claramente distintos: um que podia ser classificado
como uma EFC e outro que podia ser chamado de qualquer outra coisa. Aparentemente,
a “visão” obtinha melhores resultados quando o sujeito alegava ter saído do corpo de
repente, chegado imediatamente ao quarto onde havia o alvo e informado sobre sua
visão ciara; no entanto, estas eram apenas observações informais e não poderiam servir
de critério seguro para diferenciar os dois tipos de experiência. A única diferença óbvia
é que alguns atingiram o alvo certo e outros não. Isto, porém, não tem valor como
critério porque alguns podem tê-lo acertado por acaso. De fato, devido ao grande
número de sujeitos, este resultado é mais do que previsível.
Há muito tempo a parapsicologia enfrenta o problema aparentemente insolúvel de
tentar separar os sucessos fortuitos, das ocorrências bem-sucedidas de verdadeira PES, e
ainda não achou um método confiável. Da mesma forma, não é sensato pensar que se
poderia separar uma “visão” genuína durante uma EFC, de um sucesso fortuito
combinado com outro gênero de experiência. Hart se viu diante desse problema nas suas
compilações de casos (60a) e agora o reencontramos relacionado com os experimentos.
Penso que é lícito deduzir que se existem dois tipos de experiência – a EFC legítima e
alguma outra coisa –, então ninguém sabe como diferenciá-los. Por isso, prefiro me
apoiar na definição da EFC como uma experiência; assim, é forçoso admitir que em
algumas EFCs a visão parece ser precisa, mas que na maioria dos casos não.
Boa parte das pesquisas recentes sobre EFCs tem sido direcionada para esta
importante questão: alguma coisa deixa o corpo durante uma EFC? De um lado, estão as
teorias “exossomáticas” ou “extra-somáticas” que afirmam que sim. Essa coisa poderia
ser o corpo astral da teoria tradicional ou alguma outra espécie de entidade. Morris (95)
refere-se ao

241
“aspecto teta” do ser humano que pode deixar o corpo temporariamente numa EFC e
permanentemente na morte. Do outro lado, conforme vimos, estão as teorias que
afirmam o contrário. Algumas destas predizem que não há nenhum acontecimento
paranormal durante as EFCs, mas a principal proposta a ser considerada aqui é a de que
nada deixa o corpo e que, em vez disso, o sujeito usa PES para detectar o alvo. Esta
alternativa é chamada de teoria “da imaginação mais PES”.
Essa teoria é problemática. O termo PES é um balaio de gatos, tem uma definição
negativa e é suscetível de abranger quase todos os resultados que se queira mencionar.
De que forma, então, poder-se-ia excluí-lo? E, dadas estas duas teorias adversas, como
poderemos saber qual delas, caso seja uma das duas alternativas, é a correta? Apesar das
dificuldades, vários parapsicólogos empreenderam esta tarefa.
Osis, por exemplo, sugeriu a hipótese de que se o sujeito em uma EFC tivesse outro
corpo situado na posição afastada, ele veria as coisas como se estivesse olhando dessa
posição; ao passo que se estivesse usando PES, veria as coisas como que por meio dessa
faculdade. Essa idéia geral levou-o a propor que colocassem a letra “d” de tal maneira
que, quando olhada diretamente (ou, presumivelmente, através de PES), se veria um
“d”, mas quando olhada de uma certa posição estipulada, pareceria um “p”, refletido
num espelho (103). Ampliando esse raciocínio, Osis desenvolveu seu “dispositivo de
imagem óptica” que exibe várias imagens diferentes, de cores diversas e de quatro
quadrantes. A imagem final é formada usando contornos em branco e preto, uma roda
de cores e uma série de espelhos. Se alguém, por assim dizer, olhasse dentro da caixa
por meio de PES, não veria a imagem completa. Esta só pode ser vista olhando-se
dentro da caixa através de uma abertura (103d, 107).
Alex Tanous, um paranormal de Maine que dizia ter EFCs desde os cinco anos de
idade e que apresentou sinais promissores nos testes de Osis com uma centena de
voluntários, foi submetido aos experimentos com esse aparelho. Tanous ficava deitado
num quarto à prova de som, depois de ter recebido instruções para sair do corpo, ir até
onde estava a caixa contendo a aparelho, espiar dentro dela através da abertura de
observação, voltar e contar o que vira. Osis narra que, a princípio, Tanous não foi bem-
sucedido, mas que finalmente pareceu melhorar (103d).
Durante cada tentativa Tanous era informado se estava certo ou errado e, portanto,
contava com critérios que poderiam ajudá-lo a saber quando estava obtendo bons
resultados. Naquelas tentativas em que ele demonstrou maior segurança, seus resultados
“aproximaram-se significa-

242
tivamente” do aspecto relativo à cor no alvo. Osis afirmava que esse aspecto era o mais
importante recurso de que dispunha para testar sua teoria, porque algumas cores eram
modificadas pelo aparelho, o que tornava muito difícil acertar por meio de PES. Os
testes seguintes, portanto, usaram apenas um círculo de cores com três figuras e seis
cores. Desta vez, no cômputo geral, os resultados não foram significativos, mas
obtiveram-se resultados bastante confiáveis para o alvo completo e, na segunda metade
do experimento, Tanous alcançou marcas significativas em vários aspectos do alvo,
especialmente naqueles que, segundo Osis, exigiam uma “percepção localizada”.
A impressão de que tudo isto serve de estímulo para a teoria exossomática se
desvanece quando vêm à tona vários fatos importantes. Em primeiro lugar, os resultados
foram divididos em duas partes. Osis esperava por um declínio nas marcas obtidas por
Tanous, assim como havia acontecido em experimentos anteriores. Se a primeira parte
dos resultados tivesse sido melhor, seria indício de uma queda; porém, se a segunda
parte tivesse um desempenho melhor, seria indício de um aprendizado, exatamente
como aconteceu. Em qualquer uma das alternativas estamos diante de uma
“descoberta”. Além disso, não se sabe ao certo quantas análises foram feitas, mas o
número deve ter sido grande. Registraram-se, inicialmente, os pontos obtidos para o
alvo completo e, depois, para cada aspecto individual; para cada um desses aspectos
particulares marcaram-se os pontos conseguidos na primeira e na segunda parte, que
foram classificados como tentativas de alto e baixo grau de acerto. Quanto maior o
número de análises efetuadas, maior a probabilidade de se atingir um resultado de
acertos aleatoriamente “significativo”. Finalmente, além de ter havido um número
considerável de análises, acresce dizer que os resultados foram tidos como “bastante
significativos”. Levando-se tudo em conta, isto não constitui prova segura de que
Tanous estivesse alcançando resultados melhores do que os que se poderiam atribuir ao
acaso.
Mesmo que Tanous tivesse obtido bons resultados, seria isto uma confirmação da
teoria exossomática das EFCs? Acredito que não, pois não acho que se possa excluir o
processo de PES. Osis certamente se esforçou muito para descartá-lo. Primeiro, excluiu
a possibilidade de telepatia, garantindo que ninguém sabia onde estava o alvo e que ele
era selecionado em cada tentativa por meios mecânicos. Osis também procurou eliminar
a clarividência através do planejamento da caixa, construindo-a de tal maneira que para
conseguir a resposta certa o sujeito teria de descobrir a cor certa, a imagem certa e a
posição de todos os

243
espelhos para conhecer o resultado final. Sem dúvida, esta tarefa não é nada fácil, mas
será impossível? Eu diria que sabemos tão pouco a respeito de PES, que não podemos
ter certeza. De fato, as poucas provas li que dispomos sugerem que as funções PK
podem ter autonomia em relação à complexidade das tarefas (ver 71, 131, 140). Se
assim for, então essa tarefa poderia ser realizada tanto por meio de clarividência quanto
por qualquer outro meio e, conseqüentemente, poder-se-ia dizer que todo indivíduo
bem-sucedido usou a imaginação mais PES.
Por fim, existe a possibilidade de que o sujeito poderia usar a precognição para
verificar prospectivamente a ocasião em que deveria olhar para o alvo e marcar os
pontos. Osis procurou anular esta possibilidade usando um método baseado nos efeitos
vestigiais de Ehrenwald. Ele demonstrou que gráficos sobre condição emocional
preenchidos pelo médium revelavam uma ligação mais íntima com os resultados
quantitativos de PES do que com os resultados obtidos pelo tabulador. Esta é uma prova
indireta de que a PES não estava presente na época da tabulação dos pontos.
Todo este esforço enorme foi despendido para projetar um experimento que excluísse
a possibilidade de PES. Mas isto é simplesmente impossível. É impossível devido à
maneira como a PES é definida – ou seja, negativamente. Nós sabemos apenas o que a
PES não é, mas não o que ela é. Na realidade, acho que não sabemos nada sobre ela que
nos permita excluir a possibilidade de sua influência em qualquer experimento.
Este é um sério problema para a pesquisa, não só em EFCs. Portanto, por mais
engenhosos que fossem os experimentos de Osis, eles não poderiam ser bem-sucedidos
em eliminar a possibilidade de PES. Os mesmos argumentos se aplicam à psicocinesia
(PK). Se durante uma EFC uma pessoa afeta algum objeto, então podemos dizer que
isto se deveu à PK, não a um aspecto exteriorizado da pessoa. Logo, não é possível
excluir nem PES nem PK. No entanto, seria possível testar se a visão fora do corpo se
assemelha mais à PES do que à percepção localizada. O que é preciso, é comparar as
duas condições. Numa delas a pessoa poderia tentar fazer uso de PES (ou mesmo de
PK) e na outra poderia ter uma EFC. Se houvesse diferenças, isto poderia indicar que
algo mais do que simples funções psi entraram em ação na EFC, mas até agora não se
fez esse tipo de comparação.
Osis continuou fazendo novos experimentos com Alex Tanous. Em muitos deles,
Tanous foi aconselhado a tentar influir em sensores colocados num local afastado. Estes
resultados serão examinados adiante, mas nestes mesmos experimentos Tanous foi
lavado a crer que sua prin-

244
cipal tarefa consistia em ver o alvo como fizera antes. Desta vez havia quatro cores
possíveis e quatro quadrantes nos quais a imagem poderia aparecer e cinco contornos
diferentes. Marcava-se um tento certo se qualquer um dos aspectos fosse corretamente
percebido (105a, b, c). Osis diz que em 197 tentativas houve 114 acertos. Parece uma
média razoável, apesar de Osis não afirmar em parte alguma se este resultado foi ou não
significativo. Se você tentar calcular por si mesmo, verá que com uma quantidade tão
grande de aspectos do alvo, há uma probabilidade de 55% de acerto em cada tentativa, e
que havia uma previsão de ocorrerem 108 acertos por acaso. Ora, 114 não parece uma
média tão boa e, portanto, mais uma vez os resultados não fornecem nenhuma prova de
percepção correta na EFC.
Blue Harary, que deu tantas informações interessantes sobre a fisiologia da EFC, fez
o teste de percepção durante suas EFCs, mas, segundo Rogo (124e), só teve “sucessos
esporádicos” em estudos de alvo, de modo que a pesquisa com ele se concentrou em
outros aspectos de sua experiência.
Deixando de lado todos estes experimentos, na realidade, só há uma outra abordagem
importante para a questão da PES em EFCs: trata-se do trabalho realizado por Palmer e
seus colegas na Universidade de Virgínia, em Charlottesville. Esse grupo tentou
desenvolver métodos para produzir uma EFC em médiuns voluntários no laboratório e,
em seguida, testar sua capacidade de PES.
Não é difícil avaliar as vantagens potenciais de um programa dessa envergadura. Se
fosse possível pegar um voluntário e submetê-lo a uma EFC sob condições controladas,
quando e onde se quisesse, metade dos problemas da pesquisa sobre EFC seriam
solucionados. Seria possível testar hipóteses sobre a EFC muito mais rápida e
facilmente, mas, infelizmente, esta pesquisa acabou criando vários problemas.
Primeiramente, Palmer e Vassar (113a, b) desenvolveram uma técnica de indução
baseada nas noções tradicionais de que determinadas condições contribuem para a EFC.
Usando quatro diferentes grupos de sujeitos em três estágios, o método sofreu uma
modificação a fim de incorporar técnicas de relaxamento muscular e desorientação.
Cada sujeito era levado ao laboratório, onde recebia explicações sobre o experimento.
Depois, ele passava para um aposento interno, sentava-se numa confortável cadeira
reclinável e era informado que o alvo – um quadro – seria colocado sobre uma mesa
num aposento externo que ele já vira.

245
O primeiro estágio da indução consistia, aproximadamente, em 15 minutos de
relaxamento muscular progressivo, durante o qual o médium era aconselhado a contrair
e a relaxar alternadamente grupos de músculos do corpo todo. Em seguida, ele ouvia um
som pulsante através de fones de ouvido e alto-falantes que serviam para eliminar
ruídos externos e produzir um efeito desorientador. Simultaneamente, ele ficava
olhando para uma espiral verde e vermelha em rotação, üuminada por luz estroboscó-
pica: este estágio durava pouco menos de dez minutos. No estágio final sugeriam que
ele imaginasse que estava saindo da cadeira e flutuando em direção ao quarto externo a
fim de observar o alvo. Aqui, no entanto, foram introduzidas diversas variações. Alguns
médiuns eram orientados durante todo o processo através de fitas gravadas, enquanto
outros simplesmente tinham permissão para continuar observando a espiral e, ao mesmo
tempo, tentar imaginá-la por si mesmos. Para outros, a espiral consistiu apenas num
exercício de imaginação e para outros ainda, houve um estágio extra que também
consistiu em imaginar o alvo.
Depois de terminados estes estágios, o médium preenchia um questionário sobre suas
experiências durante o ensaio e fazia um teste de imaginação (um formulário abreviado
do teste de Betts sobre os graus de expressividade da imaginação). A seguir, eram
colocados cinco quadros diante dele. Um deles era o alvo, mas nem ele nem o aplicador
dos testes sabia qual era. Depois de terem sido avaliadas suas respostas para cada um
dos quadros, numa escala que variava de 1 a 30 pontos, o outro ex-perimentador era
chamado para dizer qual era o alvo.
Uma das perguntas formuladas foi: “Alguma vez durante o experimento você teve a
sensação de estar literalmente fora do seu corpo físico?” Dos 50 sujeitos aos quais se
formulou esta questão, 21 (ou 42%) responderam “sim”. Quanto aos resultados
quantitativos sobre os alvos, no côm-puto geral não foram significativamente diferentes
da expectativa de acertos por acaso. H evidente que se poderia prever que os que
tiveram EFCs teriam um desempenho melhor na tarefa de ver o alvo, mas quando foram
comparadas as médias de acertos entre 21 sujeitos que tiveram EFCs e outros que não
tiveram, não se constatou nenhuma diferença significativa entre eles. Os indivíduos que
tiveram EFCs obtiveram, significativamente, um número menor de acertos do que a
média prevista de acertos conseguidos por acaso, mas é difícil de interpretar este
resultado. Seria possível que os sujeitos que alegavam ter saído fora de seus corpos
tivessem percebido o alvo correto por meio de PES e, depois, escolhido um quadro
diferente? Por mais interpretações que se dê a este resultado, acho que

246
está claro que aqueles sujeitos que disseram ter tido uma EFC, não foram os mais
capazes de ver o alvo.
Por que isto terá acontecido? O primeiro problema consiste em esclarecer que os
sujeitos realmente tiveram uma EFC. Eu sei que, na prática, esta pergunta não tem
nenhum significado, porque não podemos diferenciar dois tipos de EFC, a verdadeira e
a não-verdadeira, conforme já expliquei. Já que definimos a EFC como uma
experiência, se um sujeito afirma que se sentiu “literalmente fora” do seu corpo físico,
então somos forçados a admitir que ele estava tendo uma EFC, a despeito de quaisquer
dúvidas que possamos nutrir sobre a natureza de sua experiência. Palmer e Vassar
incluíram a palavra “literalmente” na tentativa de excluir experiências puramente
imaginárias; porém, embora isto possa reduzir um pouco os números, não consegue
ocultar o fato básico de que a EFC é uma experiência que não podemos registrar
objetivamente. Em suma, não tem cabimento perguntar se eles estavam realmente tendo
uma EFC.
Há possibilidade de esclarecer algum outro ponto? Poderíamos, por exemplo,
perguntar se essas EFCs têm alguma coisa a ver com EFCs espontâneas relatadas por
pessoas comuns, ou com aquelas realizadas em laboratório por iniciados como Blue
Harary ou Ingo Swann. Mas nem mesmo este ponto podemos elucidar. Se um sujeito
tivesse tido uma EFC espontânea e, ao mesmo tempo, tivesse participado desses
experimentos, nesse caso seria possível pedir a ele que comparasse as duas experiências,
ou então o próprio pesquisador poderia fazê-lo. Mas isto não ajudaria muito, pois
poderia ser que a pessoa que teve EFCs anteriores, reagisse de maneira diferente ao
processo experimental. Da mesma forma, pessoas iniciadas poderiam achar que uma
EFC era induzida com mais facilidade por este processo do que outras pessoas.
Fundamentalmente, estes estudos nos deixam face a face com o maior problema da
pesquisa sobre EFC: o de que a experiência é particular e um experimentador nunca tem
certeza de quando ela está acontecendo. Não é um problema insuperável. Afinal de
contas, os sonhos também são privativos e, no entanto, a pesquisa sobre eles tem
evoluído aos trancos e barrancos nestas últimas décadas. Mas o problema é real, e
teremos de enfrentá-lo muitas e muitas vezes.
Palmer e Lieberman (112a, b) acrescentaram um outro estágio às técnicas. Foram
testados quarenta sujeitos, mas desta vez eles experimentaram um ganzfeld* visual: isto
é, bolas de pingue-pongue foram fi-

*
Em alemão no texto original. Significa, literalmente, “campo completo” (N. do T.).

247
xadas acima de seus olhos e uma luz forte incidia sobre elas, a fim de produzir um
campo visual homogêneo. Metade desse grupo recebeu uma “tarefa ativa”, com a
instrução de sair do corpo e se deslocar até o outro quarto para observar o alvo,
enquanto a outra metade recebeu uma “tarefa passiva”, com a instrução apenas de
permitir que as imagens fluíssem livremente pelas suas mentes.
Conforme o esperado, uma quantidade maior de sujeitos “ativos” informou ter se
sentido fora de seus corpos: 13 de um total de 20, em contraste com apenas 4 indivíduos
na condição passiva. Os sujeitos ativos também descreveram imagens mais expressivas
e informaram ter despendido mais esforços na tentativa de ver o alvo; quanto, porém,
aos índices obtidos no item PES, verificou-se que ambos os grupos tiveram resultados
próximos da previsão de ocorrências devidas ao acaso e que não houve diferenças entre
eles. Entretanto, aqueles sujeitos que relataram EFCs tiveram um desempenho
significativamente melhor do que os outros. Este resultado difere muito dos anteriores e
contradiz os prognósticos feitos por Palmer e Lieberman, mas confirma a hipótese de
que o fato de se ter uma EFC facilita a PES.
Palmer e Lieberman ofereceram uma explicação interessante sobre a razão por que
um número maior de sujeitos na condição ativa teria relatado EFCs. A explicação está
relacionada com a teoria das emoções formulada por Schachter, que tem exercido muita
influência na psicologia. Basicamente, ela sugere que, quando uma pessoa experimenta
qualquer emoção, primeiro ela sente os efeitos fisiológicos do estado de excitação, que
incluem uma leve transpiração, pulsação cardíaca, tremor e assim por diante, e depois
rotula estes sentimentos, de acordo com a situação de “raiva”, “paixão”, “medo” ou
coisa que o valha. No caso destes experimentos, a analogia é que o sujeito sente
sensações incomuns que se originam da indução e, em seguida, as qualifica de acordo
com as instruções recebidas. Se lhe dissessem para imaginar que estava deixando o
corpo e se dirigindo para um outro aposento, ele poderia interpretar seus sentimentos
como correspondentes à situação de deixar o corpo. Sem dúvida, este esclarecimento
tem implicações muito mais profundas no sentido de possibilitar a compreensão da
EFC, do que mostram estes simples experimentos.
No experimento seguinte, Palmer e Lieberman testaram mais de 40 sujeitos,
incorporando sugestões retiradas dos métodos de Robert Monroe para induzir EFCs.
Não houve ganzfeld e, em vez de ficarem sentados numa cadeira, os sujeitos deitaram
em camas, em cujas molas, às vezes,

248
foi fixado um vibrador. Desta vez, 21 indivíduos relataram EFCs e, um fato curioso,
alcançaram um número de pontos elevado no teste de sugestionabilidade de Barber, mas
não melhoraram as marcas obtidas para PES.
Por que, então, os participantes do experimento anterior obtiveram resultados
significativos? Um fator que Palmer levou em conta foi que ele conversou muito
rapidamente com os sujeitos depois deles já saberem qual era o alvo. Conforme ele
explica (112c), era extremamente improvável que esta circunstância tivesse afetado os
resultados, no que estou de acordo já que todas as minhas tentativas de produzir
resultados espúrios de PES (como, por exemplo, estabelecendo um ligeiro contato
sensorial entre agente e paciente) tiveram pouco êxito. De qualquer modo, esta pequena
falha estragou o único experimento no qual os sujeitos das EFCs obtiveram resultados
significativos.
No último experimento desta série, mais 40 sujeitos foram testados; 20 tiveram
campo total de visão e 20 receberam apenas instrução para manter os olhos fechados
(110c). Desta vez, 13 de cada grupo afirmaram ter tido uma EFC, mas, quer tenham tido
ou não, isto não estava relacionado com os pontos que obtiveram para o item PES.
Neste experimento também foi utilizado o registro de EEG, que, no entanto, não
apresentou diferenças relacionadas com as EFCs relatadas. Numa visão geral, parece
que estes experimentos obtiveram sucesso em contribuir para que os sujeitos tivessem
uma experiência qualificada como fora do corpo, mas não em melhorar as marcas
obtidas em PES ou em encontrar um estado característico de EFC identificável por meio
de EEG.
Esses estudos levantam a difícil questão da relação entre EFCs espontâneas e EFCs
produzidas experimentalmente. Serão elas completamente diferentes uma da outra, ou
correm dentro de uma progressão contínua? Num experimento planejado para examinar
o efeito de crenças religiosas na suscetibilidade a EFCs, Smith e Irwin (138) tentaram
produzir EFCs em dois grupos de estudantes, cujas preocupações com questões
religiosas e com a questão da imortalidade humana eram diferentes. A indução foi
semelhante àquela já descrita, mas, além disso, os sujeitos receberam um questionário
“sobre a natureza da EFC” e foram instruídos a tentar “visualizar” dois alvos num
quarto pegado. Posteriormente, foi feita uma avaliação quantitativa de suas impressões
em termos de verossimilhança dos aspectos dos alvos.
Não foram encontradas diferenças entre os grupos, com relação à natureza da EFC
ou com relação ao grau de verossimilhança, mas havia uma correlação muito
significativa entre estes dois aspectos. A implicação

249
disso é que, quanto mais parecida com uma EFC for a experiência, tanto melhor é a
PES. Ja demonstramos que isto teria importância se fosse verdade. Neste caso
específico, os resultados foram frustrantes pelo fato de que os mesmos dois alvos foram
utilizados em todas as ocasiões. Seja como for, a questão da natureza da EFC merece
um estudo mais aprofundado se tivermos de agrupar separadamente os diferentes tipos
de EFC.
Todos estes experimentos visavam a descobrir se os sujeitos poderiam ver um alvo
distante durante uma EFC. Nos melhores casos, houve pouquíssimos experimentos
adequadamente supervisionados (alguns críticos diriam que nâo houve nenhum) que
forneceram uma prova inequívoca de que um sujeito poderia descobrir alguma coisa por
meios diferentes dos normais. Embora a EFC experimental possa diferir do tipo
espontâneo, é possível chegar, através dos estudos experimentais, a uma simples
conclusão, ou seja, a visão fora do corpo, se é que ocorre, é extremamente insatisfatória.

250
19 APARIÇÕES, ESPÍRITOS E ALMAS VISÍVEIS

As tentativas de registrar aparições e detectar a alma, o espírito ou o duplo humano


têm uma longa e fascinante história. Instrumentos têm sido inventados para registrar
seus efeitos; fotografias têm sido tiradas de aparições e corpos astrais; máquinas têm
sido projetadas para determinar o peso do duplo e milhares de animais têm sido mortos
à procura da alma. A importância de tudo isso para as EFCs reside em saber se alguma
coisa deixa o corpo numa EFC. Se isto ocorre, então, certamente, segundo se afirma,
devemos ter condições de ver e detectá-lo. Além do que, talvez seja a mesma coisa que
deixa o corpo na morte e continua sobrevivendo sem ele. O sucesso em detectar um
duplo constituir-se-ia, então, numa prova importante para a questão da sobrevivência.
Talvez o modo mais simples e mais evidente de se detectarem duplos seja quando
eles são vistos como aparições. O estudo de aparições representou uma parte importante
da pesquisa parapsicológica inicial, tendo sido registrados muitos tipos diferentes de
aparição; os únicos, porém, que nos interessam aqui são aqueles em que espontânea ou
voluntariamente, uma pessoa que tem uma EFC surge simultaneamente para outrem
como uma aparição.
Existem muitos casos deste tipo na literatura mais antiga sobre o assunto. Phantasms
of the Living, Human Personality and the Survival of Bodily Death, de autoria de
Myers, as publicações da SPP, todos eles incluem esses casos. Alguns deles são
espetaculares, incluindo o mais famoso de todos os casos deste tipo, o caso Wilmot. Em
1967, Hart (60b) informou que ele já fora citado umas cinco vezes, o que certamente é
uma

251
subestimativa e uma razão suficiente para não citá-lo novamente; mas há outros casos
igualmente interessantes. Hart inclui vários em sua análise (60a). O seu mais elevado
“índice de comprovação” para todos os casos examinados incide no caso da Srta.
Danvers e, por ter ele considerado este o melhor caso, vou usá-lo como exemplo. Myers
(99b) propôs à Srta. Danvers que ela aparecesse para sua amiga, a Sra. Fleetwood, sem
avisá-la antecipadamente e que ela enviasse a ele um bilhete comunicando a sua
intenção antes de ela saber se a tentativa tivera êxito. Myers descreve vários desses
“experimentos”. No primeiro, em 17 de junho de 1894, às 12:00 horas, a Srta. Danvers
se deitou com os olhos fechados e os cabelos soltos e tentou aparecer para a amiga a
nove milhas de distância, mas antes disso escreveu um bilhete sobre o fato.
Aparentemente, a Sra. Fleetwood acordou no mesmo instante preciso e viu a Srta.
Danvers ajoelhada perto da cadeira que ficava ao lado da cama, com os cabelos soltos e
os olhos fechados ou abaixados. Ela também escreveu um bilhete sobre isto e o enviou
para a Srta. Danvers.
Os casos mais antigos, como este, têm sido citados repetidas vezes e um número
relativamente pequeno deles realmente forma o suporte principal das provas históricas
sobre aparições fora do corpo. Crookall (26a) e Smith (139) apresentaram alguns casos
recentes, mas eles também se concentram nos mais antigos. Green (49c) examina as
semelhanças entre as aparições em geral e o corpo assomático percebido por sujeitos
que tiveram EFCs, mas esta pesquisadora não fornece exemplos extraídos da sua
própria compilação de casos que indiquem que uma outra pessoa tivesse visto o duplo
exteriorizado. Em compensação, cerca de 10% dos sujeitos que tiveram EFCs, na
pesquisa de Palmer, afirmaram terem sido vistos como uma aparição (1 lOd) e Osis
afirma que, na sua pesquisa, os sujeitos das EFCs “freqüentemente” diziam que foram
observados por outros e em 16 casos (6% do total) ele conseguiu obter alguma
comprovação através de testemunhas, embora não se estenda sobre o assunto.
Evidentemente, seria muito útil se se pudesse reunir uma quantidade maior de provas
desta espécie e investigar completamente os casos recentes.
É óbvio que os problemas concernentes à fixação deste tipo de prova são os mesmos
que se aplicam a algumas histórias de casos. Podemos tomar o caso Danvers como
exemplo. Para mim, está claro que Hart atribuiu um valor tão elevado a ele porque
Myers obteve cartas de ambas as participantes escritas logo depois da ocorrência do
fato. Contudo, mesmo neste caso, há margem para dúvidas. A Srta. Danvers, ao que
parece, interpretou mal as instruções de Myers, pois, num experimento subseqüen-

252
te, ela realmente disse à Sra. Fleetwood que aguardasse a sua visita e, mesmo no
experimento acima descrito, ela não enviou diretamente a Myers seu próprio relato
conforme o solicitado, senão mais tarde, juntamente com o bilhete confirmatório que
recebeu da Sra. Fleetwood – contrariando, portanto, as boas intenções de Myers.
Observem, ademais, que os detalhes da situação vista não foram circunstanciados ou
precisos e que os detalhes corretos estavam misturados com detalhes incorretos. A
observação de que os cabelos da Srta. Danvers estavam soltos (o que era previsível às
12:00 horas) e seus olhos “fechados ou muito abaixados” estava correta, mas ela foi
vista ajoelhada, e não deitada. Chegamos até a considerar normal esta combinação
esquisita, mas o fato é que ela indica que não existe nenhuma linha divisória nítida entre
uma aparição perfeita e absolutamente nada – ao contrário, parece haver muita
graduação entre os extremos. Uma interpretação é que existem diversos tipos de EFC.
Outra é que a imaginação e a memória entraram em ação para criar a aparição, que não
é algo objetivo projetado pelo sujeito durante a EFC, senão um produto da sua
imaginação ou de uma pessoa dotada de faculdades telepáticas, ou de ambos, e que, por
isso, ela varia.
Quanto aos outros problemas, são todos conhecidos. Muitos dos acontecimentos
ocorreram há tanto tempo atrás que agora já não podem ser adequadamente verificados.
Na maioria das vezes, a coincidência de tempo sobre a qual muitos se baseiam não está
bem determinada e só em pouquíssimos casos os caprichos da memória podem ser
postos de lado. A prova perfeita é sempre enganosa. Mais uma vez, só nos é lícito
admitir que ela existe e fazer um julgamento justo baseados nisso.
Naturalmente, a prova apresentada pelos históricos de casos é apoiada por uma
variedade de tipos de prova experimental. De Rochas, por exemplo, ocasionalmente
aconselhava a uma das suas médiuns particulares que fosse dormir cedo à noite e
enviasse seu espectro até o lugar onde ele realizava seus experimentos hipnóticos. Li
havia uma outra médium à espera, que geralmente ficava espantada ao ver surgir um
fantasma inesperado. É preciso, no entanto, notar que, apesar de não ser revelado aos
médiuns que um fantasma estava sendo aguardado, todos os outros observadores
presentes tinha conhecimento do fato.
Este tipo de experimento tomou-se um passatempo muito popular entre pessoas
interessadas em projeção astral e foi tentado muitas vezes de formas diferentes.
Haemmerlé (57) descreve experimentos nos quais, segundo diz, conseguiu visitar sua
irmã gêmea e viu os fantasmas de dois

253
amigos que haviam combinado previamente fazer-ihe uma visita, mas, para variar, não
houve comparação entre as informações das pessoas que sabiam das visitas
programadas, de modo que, para nós, os resultados não passam de episódios
interessantes em relação aos padrões atuais.
Em outros experimentos hipnóticos realizados por de Rochas (29b), houve uma
exteriorização simultânea de dois duplos em quartos diferentes, pedindo-se a um deles
que aparecesse para o outro e pisasse nos seus pés, puxasse seus cabelos ou fizesse
outras coisas desse gênero. Na maioria dos casos afirma-se que o médium do duplo
atacado se retraiu como se estivesse machucado, embora às vezes a dor tivesse sido
sentida num ponto diferente ou sequer existido. Este efeito poderia ser algo semelhante
ao efeito de “repercussão”.
Examinarei os experimentos modernos relacionados com esses no capítulo seguinte,
mas antes quero considerar algumas das inúmeras tentativas de provar a objetividade do
duplo humano. Apesar de não envolverem diretamente EFCs, todas elas apresentam
algum significado para a importante questão de se saber se existe alguma coisa que
poderia deixar o corpo físico durante a experiência ou no momento da morte.

PESAGEM DA ALMA

Em 1906, Elmer Gates propôs um novo teste experimental sobre a morte (46). Ele
negou as notícias divulgadas pela imprensa de que tinha visto “a sombra da alma de um
rato”, mas talvez isto não estivesse muito distante das suas expectativas. Tendo medido
a opacidade do corpo humano em relação a “ondas elétricas” de vários comprimentos,
ele demonstrou que algumas passavam mais facilmente através de um corpo morto do
que através de um corpo vivo. Eis o que constituía seu chamado teste da morte. Ele
achava que a morte provavelmente era devida à cessação de correntes elétricas no corpo
extinto, mas talvez a explicação não esteja completa. Poderia haver alguma entidade que
sobrevivesse à morte física e fosse opaca com relação a certas correntes elétricas. Para
descobrir isto, seria necessário captar a mudança de transparência e observar o espectro
que havia em vida partir com a morte. Se o espectro pudesse ser visto enquanto
desaparecia, o fenômeno demonstraria que alguma coisa sobrevivia. Numa etapa
posterior, Gates esperava poder captar o espectro e provar que ele ainda tinha “mente”,
apesar de ter deixado o corpo físico.
Não é de estranhar que Gates jamais tenha realizado seus intentos, mas suas
sugestões foram acompanhadas por tentativas análogas. Em

254
1907, Duncan MacDougall comunicou seus notórios experimentos de pesagem (86). Ele
argumentava que se uma pessoa e sua consciência estavam destinadas a sobreviver,
deveriam consistir de uma substância que ocupasse um determinado espaço, a qual
provavelmente tinha força gravitacional, podendo-se determinar o seu peso. Por essa
razão, ele pesou seis pessoas no momento da morte, com permissão prévia,
evidentemente. Ele escolheu aquelas que estavam morrendo de alguma doença
definhante, tuberculose na maioria dos casos, para se assegurar de que poderia prever a
chegada da morte com certa antecipação e de que as pessoas estariam fracas demais
para lutar violentamente contra ela e perturbar o funcionamento do seu aparelho.
Quando a morte parecia estar próxima, o paciente era levado para uma maca especial
apoiada sobre uma leve armação fixada sobre uma ponte-balança, de delicado
equilíbrio, e o peso era observado do começo ao fim.
O primeiro homem foi observado por cerca de quatro horas durante as quais perdeu
gradativamente mais ou menos uns 28 g por hora, possivelmente através da perda de
água na respiração e na transpiração. No momento da morte, porém, MacDougall
informou que ele perdeu, de uma só vez, 21 g e que o travessão extremo da balança caiu
com um forte estrondo. Qual foi a causa desta perda de peso? MacDougall sustentava
que nem a evacuação intestinal, nem a micção, nem a respiração poderiam explicar tal
efeito e concluiu que a perda se devia forçosamente à saída da substância espiritual.
Um segundo paciente perdeu pouco mais de 44 g e o seguinte perdeu 14g, mas uma
série de problemas tornou impossível medir qualquer perda de peso dos três outros.
MacDougall não conseguiu levar a cabo a tarefa, mas, em vez disso, fez uma
comparação com animais. Afinal de contas, argumentava, se é a alma que está sendo
pesada, não deve haver perda de peso quando um animal morre.
Fazendo a pesagem de 15 cães enquanto morriam, ele não descobriu nenhuma perda
de peso correspondente. Contudo, os cães não estavam morrendo de alguma doença
definhante, mas foram mortos com drogas, pelo que MacDougall concluiu que isto
viciava os resultados. De qualquer modo, por que ele deveria estar tão certo de que um
cão não tem alma? Muitos experimentos posteriores usaram animais e parece que
MacDougall poderia ter se servido do argumento contrário. Se os cães perdessem peso,
então isto reforçaria a prova encontrada para seres humanos. Se não, ele poderia dizer
que os cães não possuem almas.

255
Seja como for, boa parte desta discussão é desnecessária pois havia muita coisa
errada com os métodos dele. Ele não controlou ou mediu a perda de água por
evaporação na hora da morte, nem utilizou algum método para determinar o tempo da
morte. Num dos casos, ele afirma que um homem, morrendo de tuberculose, parou de
respirar dezoito minutos antes de ser confirmada a sua morte e de perder peso. Como
então ele poderia concluir que o peso foi perdido “no momento da morte”?
Se tivéssemos de realizar um experimento desses hoje em dia, teríamos de decidir
antes que critério de morte empregaríamos. E qual seria este? Esperaríamos que a alma
partisse com a parada de respiração, quando o coração parasse de bater ou quando o
último sinal de atividade do cérebro tivesse terminado? Poder-se-ia apresentar
argumentos a favor de qualquer uma destas hipóteses ou ainda de outras. É óbvio que
ninguém mais realiza esses experimentos nos dias de hoje, presumivelmente porque as
conclusões de MacDougall estavam erradas e porque nenhuma diminuição de peso pode
ser registrada na morte que não seja atribuível à perda de água por evaporação.
Alguns dos ensaios que deixaram claro este ponto foram efetuados na década de 30
por H. L. Twining, na Califórnia (17e, 152). Ele controlou cuidadosamente a perda de
água através de várias maneiras. Primeiro, providenciou uma balança com uma proveta
em cada extremidade. Dentro de uma proveta colocou um animal vivo e, ao lado de
cada proveta, cianu-reto de potássio. A porção de cianureto junto ao animal foi
cuidadosamente transferida de fora para dentro da proveta para exterminar a infor-
tunada criatura, sem, no entanto, prejudicar o equilíbrio da balança. A morte do animal
foi quase instantânea e se notou uma diminuição de peso.
A seguir, o animal (um camundongo) foi fechado dentro de um tubo aquecido por
uma chama; a pobre criatura ficou asfixiada e morreu sem perda de peso. Twining
concluiu que, o que quer que o camundongo tivesse perdido na morte, não poderia ter
saído do tubo, “levantando-se a suspeita de que o que se perde é alguma espécie de
matéria vulgar conhecida, e não uma alma”. Quando o camundongo morria por
afogamento, uma solução de cloreto de cálcio, que absorve o vapor d’água, era colocada
dentro do frasco d’água onde estava mergulhado o animal, não ocorrendo perda de peso.
Twining deduziu que a perda fora de umidade e que ele não pesara a alma.
Estes parecem ser os únicos experimentos do gênero de que temos notícia, e o leitor
pode estar se perguntando como é que posso ter tanta certeza de que Twining estava
certo e MacDougall errado. A meu ver,

256
a resposta é que se houvesse algo como uma alma com peso físico, o fato ficaria
evidente de várias maneiras e seria bem aceito nas circunstâncias atuais, ainda que há
três quartos de século atrás se revelasse uma heresia. É possível até cogitar que se
tratava de uma descoberta importante abafada por ser inaceitável, mas a minha hipótese
é que outros tentaram reproduzir as descobertas do MacDougall e fracassaram, e que
esses fracassos jamais teriam a mesma publicidade que os possíveis sucessos. Qualquer
que seja a interpretação certa, experimentos sobre a pesagem da alma nunca foram
levados adiante. A idéia que outrora parecia tão promissora foi abandonada, a exemplo
de tantas outras na parapsicologia e no estudo de EFCs.

FOTOGRAFANDO O ESPÍRITO

Uma fascinante e parecida história de fracasso pode ser vista na pesquisa fotográfica
do corpo astral, do duplo ou alma. Nos primeiros tempos da fotografia, tinha-se a
impressão de que a câmara nunca poderia mentir. Se alguma coisa fosse apreendida em
filme, então com certeza deveria existir. Portanto, florescia a tentação de tentar captar a
alma dessa mesma forma.
Pode-se ver o mesmo processo em ação na proliferação da fotografia espiritual pelo
final do século passado. “Extras-espirituais” apareciam misteriosamente em fotografias
tiradas por médiuns. O rosto do modelo era cercado por outras faces; nuvens,
provavelmente de ectoplasma, podiam flutuar em tomo da cabeça dele ou uma
criancinha aparecer em seus braços. Entre as mais famosas, estavam as fotografias da
Sra. Deane, de William Mumler, que introduzira a técnica em 1860, e William Hope.
Mas foram freqüentemente descobertos casos de falsificação das chapas e de dupla
exposição (ver 17b; e; 154). Aos poucos a fotografia espiritual foi perdendo cada vez
mais prestígio e as provas contra ela aumentavam; atualmente, só resta um vestígio dela
nas pretensões da “mentalografia”, ou capacidade de produzir retratos sem expor o
filme.
Não pretendo me desviar muito do assunto entrando nos domínios dúbios, embora
atraentes, dessas práticas espíritas. Só mencionei esta última técnica porque ela está
intimamente relacionada com as tentativas de fotografar não os espíritos dos mortos,
mas os duplos de seres vivos. A mesma intenção de “prova” motivava ambas e os
mesmos riscos e possibilidades de fraude as ameaçavam. A fotografia foi utilizada de
duas maneiras básicas que são importantes para a EFC. Primeiro, houve muitas
tentativas de apreender em filme a “alma” ou o duplo que parte no mo-

257
mento da morte. E, segundo, existem fotografias de duplos exteriorizados de pessoas
normalmente saudáveis.
Conforme vimos, têm havido alegações de que uma forma fantasmagórica pode ser
vista deixando o corpo pouco antes ou depois da morte. Evidentemente, se a fotografia
pudesse captar esta visão no momento da morte, isto daria um considerável reforço às
provas verificadas nos experimentos de pesagem e favoreceria a hipótese da
sobrevivência. As primeiras fotografias deste tipo foram tiradas pelo pesquisador
francês de fenômenos mediúnicos, o Dr. Hippolyte Baraduc. Além de tentar fotografar
os pensamentos e emoções de pessoas vivas, Baraduc tirou retratos da mulher e do filho
logo após a morte deles (18). O filho, André, morreu de tuberculose com a idade de 19
anos, em 1907. Pelo que se sabe, pai e filho eram muito afeiçoados um ao outro e,
segundo Carrington e Meader, a comunicação telepática fora freqüente entre os dois.
Depois da morte de André, seu pai viu uma aparição do rapaz e eles conversaram um
com o outro. É claro que a única evidência de que dispomos é a palavra de Baraduc que,
no entanto, se esforçou para conseguir provas mais concretas da presença constante de
André usando a câmara fotográfica. Uma foto tirada umas nove horas após o
falecimento do rapaz mostra, emanando do caixão, uma “massa informe, nebulosa,
ondulatória, irradiando em todas as direções com considerável força...”
Essa mesma fotografia, porém, é de difícil reconhecimento (ver Ilustração 19).
Contudo, Baraduc continuou a aplicar o mesmo método, com mais prudência, quando
sua mulher Nadine morreu seis meses depois. Enquanto agonizava, ela deu três suspiros
suaves. Neste momento Baraduc tirou um retrato e, ao revelar a chapa, descobriu que
ela mostrava três globos luminosos pairando acima do corpo (ver Ilustração 20 e 21).
Ele tirou um novo retrato aproximadamente quinze minutos depois e um outro uma hora
mais tarde. Neste intervalo de tempo, os globos haviam-se condensado num único
ponto. Finalmente, três horas e meia após a morte da Sra. Baraduc, seu marido notou
um globo bem constituído acima do corpo afastar-se deste e flutuar dentro do seu quarto
de dormir. Aí ele dirigiu a palavra a ele que então se aproximou, fazendo o homem
sentir uma corrente de ar gelado. Nos primeiros dias seguintes, Baraduc aparentemente
viu globos semelhantes em várias partes da casa, com os quais entrou em contato por
meio de escrita automática, sendo informado que se tratavam de invólucros da alma de
sua mulher, que ainda sobrevivia.
Só dispomos das fotos de Baraduc como um registro desses acontecimentos e elas
não são inteiramente convincentes, por muitos motivos.

258
Pelo que me consta, nenhuma outra pessoa exerceu qualquer forma de supervisão sobre
o processo utilizado. O próprio Baraduc tirou as fotos c preparou a câmara. Ele estava
em estado de tensão, o que era previsível após as mortes recentes do filho e da mulher.
Além disso, sabemos que ele esteve conversando com globos de luz e com a aparição do
filho. Evidentemente, existem pelo menos duas interpretações para este fato: uma como
uma indicação de seu estado mental incomum e a outra como uma evidência da
presença real do filho na forma astral, conforme ele alegava. Mas, qualquer que seja a
interpretação que se dê, possivelmente a sua condição não era a melhor possível para
tirar fotografias com precisão e, é claro, que esse processo não era tão simples como é
hoje. Por fim, é preciso notar que existem poucas fotografias deste tipo. Onde há
alguma coisa tão controvertida como esta e quando ela constitui a única prova
disponível, precisamos estar mais do que habitualmente seguros de que podemos
confiar nos métodos empregados.
Por mais fascinantes que essas fotos sejam, prefiro reservar meu julgamento para o
que elas representam: indubitavelmente não constituem uma novidade na longa história
das fotografias desse gênero. Se algo deixa o corpo no momento da morte, não é
facilmente revelado em filme. É óbvio que este fato não surpreende um grande número
de pesquisadores de parapsicologia, espíritas ou ocultistas. Afinal de contas, apenas
certas pessoas gozam da fama de terem a faculdade de ver a matéria astral ou etérica, da
qual essas formas eram supostamente constituídas. Houve inúmeras conjeturas a
respeito do que poderia ser essa matéria, mas todos estavam de acordo num ponto:
poder-se-ia usar técnicas especiais para revelar o duplo, a “alma” ou o corpo astral. Uma
das muitas técnicas propostas para ampliar qualquer imagem era o uso da câmara de
nuvens.
No princípio deste século, o uso da câmara de nuvens para fotografar a trajetória de
partículas era comum na física nuclear. A técnica, introduzida por Wilson, se baseia
num princípio simples. Enche-se uma câmara com vapor d’agua e, em seguida, se cria
um vácuo parcial usando uma bomba dé sucção, o que reduz com muita rapidez a
temperatura dentro da câmara. Se uma partícula então atravessa o espaço, gotículas de
água se formam ao longo da trajetória e a “nuvem” constituída desta maneira pode ser
fotografada. A própria partícula pode ser imperceptível por causa de seu tamanho
reduzidíssimo, mas o vapor d’agua, algo parecido com o rasto deixado por um avião em
alto vôo, é fácil de ver.
O primeiro a aplicar esta técnica na pesquisa do duplo foi R. A. Waiters, quando
trabalhava na Fundação de Pesquisas Psicológicas do

259
Dr. William Johnston na cidade de Reno, no Estado de Nevada. Hereward Carrington
fizera uma proposta algo semelhante, delineando um possível experimento no Primeiro
Congresso Internacional de Pesquisa Parapsicoló-gica realizado em Copenhagem em
1921, e a discussão sobre quem fora o pai da idéia pode ser lida na cáustica
correspondência entre os dois, guardada atualmente na seção de documentação da SPP.
Mas, na realidade, muito tempo antes disso, em 1908, E. W. Bobbett descrevera um
experimento que utilizava uma câmara de nuvem. Em seu artigo nos Anais de Ciência
Parapsicológica (11), ele esboçou a idéia e fez um apelo no sentido de que qualquer
pessoa que tivesse meios de realizar o experimento entrasse em contato com ele, uma
vez que não tinha conseguido fazê-lo por iniciativa própria. Não tenho a menor idéia
sobre se alguém o realizou, mas o experimento, da forma como ele o descreveu, nunca
foi levado a cabo, pelo que estou informada.
Bobbett sustentava que o duplo era radioativo. Esta idéia parece muito estranha, até
mesmo impossível hoje em dia, mas na época tinha um certo sentido. A radioatividade
era conhecida através do efeito de radiação sobre as chapas fotográficas e da sua
detecção em câmaras de nuvens, mas não suficientemente compreendida; métodos
simples para detectá-la, como o contador Geiger, por exemplo, não estavam
prontamente disponíveis. O duplo tinha sido visto com o aspecto de nuvem, o que levou
por analogia à idéia de que ele poderia consistir de substância radioativa que se tomava
visível tal como a radiação dentro de uma câmara de nuvens. O fato de que correntes de
ar gelado estavam tradicionalmente relacionadas com fantasmas e, posteriormente, com
o aparecimento de ectoplasma e duplos reforçou a analogia. Bobbett também citou
como elemento de prova a capacidade de Eusapia Palladino, a famosa médium italiana
da época, de descarregar um eletroscópio sem contato físico. Ele achava que a médium
produzia uma emanação de raios que ionizavam o ar circundante que se tornava um
condutor e, conseqüentemente, descarregava o eletroscópio.
Hoje em dia, podemos simplesmente apontar um contador Geiger para um médium e
demonstrar que não há nenhuma radioatividade presente, mas naquela época isto não
era possível e, à luz da prova apresentada acima, talvez seja compreensível que muitos
pesquisadores de fenômenos mediúnicos pensassem no duplo em termos radioativos.
Pode-se encontrar idéias semelhantes nos textos de Findlay (38) e de Yram (159), sobre
os quais vou me estender mais nos capítulos finais.

260
Bobbett propunha que um animal fosse colocado dentro de uma gaiola. Por sua vez,
a gaiola deveria ser colocada dentro de uma caixa de alumínio contendo uma abertura;
em seguida, a caixa era colocada dentro de uma caixa maior, também com uma
abertura. À caixa interna deviam ser adaptados tubos para a entrada de gases
anestesiantes e de ar para o animal respirar. Esses tubos deveriam passar diretamente
para o ar livre. Por último, a caixa externa deveria ter uma bomba de sucção para
remover o ar de dentro e ser enchida com ar livre de impurezas ecom vapor d’agua.
Acreditava-se que os anestésicos expulsavam o duplo para fora do corpo físico;
apesar de EFCs serem menos comuns com os modernos anestésicos, houve freqüentes
relatos delas com o uso de oxido nitroso, éter e outros gases do gênero usados no
começo deste século, de modo que a idéia de que os gases empurravam o duplo para
fora parecia natural na época. Neste experimento os gases entrariam pela caixa central,
o animal ficaria’ inconsciente e seu duplo seria lançado na caixa externa. O ar seria
então removido pela bomba de sucção, a temperatura cairia e a caixa externa se tomaria
uma câmara de nuvens. Os diversos tipos de radiação emitidos pelo duplo radioativo
seriam percebidos como nuvens que dariam os contornos da forma do duplo. Através da
abertura, poder-se-ia tirar fotografias e, assim, apreender o duplo em filme. Como o
próprio Bobbett dizia: “Provaremos a existência deste corpo por métodos objetivos
inteiramente seguros.”
Se o experimento fosse bem-sucedido, o método poderia ser estendido e servir para
testar seres humanos anestesiados com clorofórmio. Todavia, como parece que ele não
foi tentado com animais, não sabemos se ele teria tido êxito. Naturalmente podemos
fazer conjeturas a respeito, e eu arrisco dizer que ele não teria tido sucesso. Considero
esta aventura como uma outra daquelas fantásticas idéias que assolam a história da
pesquisa parapsicológica, mas que se baseiam num raciocínio que acaba sendo, mais
tarde, mal aplicado. Mas é prematuro tirar conclusões apressadas sem primeiro
examinar os experimentos que foram realizados com o uso de uma câmara de nuvens,
como os de Watters, que utilizou este aparelho, não porque achava que o duplo fosse
radioativo, mas porque pensava que poderia revelar as diminutas partículas do duplo, da
mesma forma que fazia com outras partículas (155a, b).
Uma vez aceita a idéia de que a matéria consiste de partículas infinitesimais com
grandes espaços entre elas, os pesquisadores de fenômenos parapsicológicos e os
ocultistas tiveram a liberdade de sugerir que

261
o duplo ou corpo astral ocupa esses espaços. Com isso, parecia solucionado o problema
de se entender como é que o duplo podia assumir a mesma forma do corpo físico e
ainda ficar embutido dentro dele em condições normais. Watters deu a entender que o
duplo consistia desta “quantidade intra-atômica” e que estas partículas mais finas de que
era constituído poderiam deixar o corpo no momento da morte e ser reveladas dentro de
uma câmara de nuvens.
No começo da década de 30, Watters desenvolveu uma versão modificada da câmara
de nuvens criada por Wilson, dentro da qual colocou animais que haviam recebido uma
dose de anestésicos suficiente para matá-los ou pelo menos para matar a maior parte
deles. O ar foi removido do interior da câmara e tirou-se uma fotografia do corpo do
animal. Depois de reveladas, essas fotografias assinalavam formas nebulosas pairando
acima do corpo, cujo aspecto era igual, segundo Watters, ao do sapo, camundongo ou
inseto cujos corpos jaziam inertes. Ele também afirmava que nas ocasiões em que os
animais tinham sobrevivido, não se verificou nenhuma dessas formas, o que provava
que a entidade partia somente no momento da morte. Sem dúvida, esta opinião é
inteiramente diversa daquela tão comumente encontrada e que sustenta que o duplo
pode se separar do corpo em vida e de modo permanente apenas na morte. Pelo visto,
Watters não acreditava que seu aparelho tivesse a capacidade de fotografar o duplo
projetado de um ser vivo.
É muito discutível se Watters fotografou alguma coisa parecida com uma “alma”.
Para começar, observem as fotos que ele produziu (três delas estão reproduzidas nas
Ilustrações 22-24). São estas as fotos que ele enviou aos membros da SPP e que estão
atualmente guardadas nos arquivos da Sociedade. Talvez não sejam as melhores que
tirou, mas Watters as achou adequadas e são as melhores em disponibilidade. Seria
difícil identificar se as formas eram de sapos, camundongos ou mesmo de seres
humanos, se alguém não tivesse contado.
Deixando de lado a qualidade medíocre das fotografias, houve problemas com a
técnica de Watters. Ele jamais descreveu o aparelho pormenorizadamente, o que tomou
impossível que alguma outra pessoa o construísse e reproduzisse exatamente os mesmos
experimentos. Mesmo quando solicitado por Carrington e Hopper em cartas, agora em
poder da SPP, ele não mostrou disposição em fornecer detalhes adicionais. Insinuaram
que ele não havia removido completamente as impurezas do ar que utilizou e que isso
poderia produzir nuvens espúrias. Reparem que Bobbett havia enfatizado a necessidade
de usar ar livre de impurezas e que em seu

262
experimento duas caixas separadas deveriam ser utilizadas, separando assim o animal
do ar puro. Watters, porém, não fez nada que assegurasse a outros que ele controlara
este tipo de interferência. De mais a mais, ele não conseguiu explicar por que escolheu
usar uma abertura de papel celofane na câmara. Esse papel não é um material resistente
e, na época, era difícil fixá-lo ao metal sem cola moderna. Essa abertura pode ter
permitido que entrasse poeira dentro da câmara. Por último, parece que ele não manteve
a temperatura uniforme dentro da câmara.
Mesmo que a técnica de Watters fosse adequada, subsiste o fato de que não
demonstrou ser possível reproduzir suas descobertas. Suas afirmações continham tantas
potencialidades importantes que, assim que se tomaram conhecidas na Inglaterra, outros
pesquisadores começaram a tentar reproduzir os experimentos. O mais importante entre
eles foi B. J. Hopper, que era professor e físico interessado na pesquisa parapsi-cológica
e que trabalhava no Instituto Internacional de Pesquisa Parapsicológica em Londres.
Com a ajuda e a orientação de Nandor Fodor e de um certo Sr. Lauwerys, Hopper
projetou e construiu uma câmara de nuvens e tentou fotografar as formações de nuvens
(ver Ilustração 25). Fracassou. Não foram obtidas nuvens que se assemelhassem às de
Watters. Hopper comunicou seus resultados negativos em 1935 (64). Nos anos que se
sucederam, ele manteve extensa correspondência com Watters. Uma das cartas de
Watters dirigidas a Hopper foi estudada por Lauwerys, que chegou à seguinte conclusão
sobre o seu autor: “Sua linguagem é frouxa demais, sua técnica muito imprecisa, seu
conhecimento muito incompleto, suas pretensões fantásticas demais para inspirar
confiança ou respeito” (77). Como acontecera tantas vezes antes e depois, parece que
tudo que Watters descobriu não passou de uma história criada pela sua própria
imaginação.
Uma última tentativa merece menção. Em 1906 (2) noticiou-se a morte da Sra. Erich
Muenter, cujo marido, professor de alemão na Universidade de Harvard, tinha sumido e
estava sendo procurado pela polícia por assassinato. Este homem havia, supostamente,
aperfeiçoado um método de provar a existência de uma alma. O único problema era que
exigia a morte de alguém que ele amava para produzir o vapor que se abraçava a ele!
Acho que jamais ficaremos sabendo se o seu método nos traria informação sobre
alguma coisal
A pesagem de corpos no momento da morte parece que produziu apenas falsas
descobertas e as tentativas de fotografar a alma na morte ou

263
durante o efeito de anestesia não forneceram as provas sólidas e objetivas esperadas. Há
alegações de que algumas fotos são de uma alma que está saindo do corpo na morte,
mas o fato é que foram tiradas há muitos anos atrás e de lá para cá os fenômenos
aparentemente cessaram. Que conclusão podemos tirar de todos estes fatos?
Já mencionei anteriormente o trabalho de Elmer Gates. Ele fez uma abordagem
compreensiva desta pesquisa e concluiu: “Até mesmo o fracasso em encontrar a prova
da dualidade do ser humano através destas pesquisas sistemáticas teria valor, pois
reduziria a probabilidade de existência de um tal organismo espiritual e daria um
reforço adicional a outras hipóteses a respeito da imortalidade ou à crença de que a
homem não sobrevive após a morte. Não importa qual possa ser a verdade, pois
sabemos o que ela significa” (46).
Agora está claro que essa pesquisa fracassou em encontrar o tipo de prova que Gates
esperava, e que ele teria sido obrigado a concluir que a probabilidade era reduzida.
Seguindo seus princípios, eu diria que é muito improvável que exista alguma substância
essencial e alguma “alma” fotografável que deixa o corpo durante a anestesia e durante
a morte. Se alguma coisa abandona realmente o corpo, deve ser algo muito mais difícil
de compreender.

264
20 EXPERIMENTOS PARA DETECTAR O DUPLO

No capítulo anterior vimos que foram feitas tentativas para captar a alma no
momento da morte, mas e quanto ao duplo que deixa o corpo em vida? Também houve
uma série de tentativas para fotografá-lo. Em 1875, por exemplo, William Stainton
Moses, um afamado médium da época, fora fotografado no estúdio de Buguet em Paris,
numa ocasião em que seu corpo estava em casa, em Londres. Tal como ocorre na
tradição da fotografia espírita, havia uma modelo, o Sr. Gledstanes, na mesma foto em
que aparecia uma imagem desbotada de Stainton Moses quando a chapa foi revelada.
Mencionaram-se duas fotos, alegando-se que a segunda era uma cópia perfeita do
médium. A continuidade da história parece estranha, mas, na realidade, era uma
ocorrência bastante comum no espiritismo: Buguet acabou confessando que falsificara
as fotos, usando dupla exposição, mas depois desmentiu esta confissão (1, 42).
Entre outros pesquisadores, o Dr. Ochorowicz, que já lecionara Psicologia nas
Universidades de Varsóvia e Lemberg, também trabalhou no campo da “fotografia
mental”. Assim como Baraduc, Ochorowicz estava interessado em registrar em filme os
pensamentos, emoções e emanações do corpo humano. Não usava nenhuma câmara,
apenas segurava uma chapa envolta em papel diante do corpo de um médium (17b). Em
alguns destes experimentos, a médium, em estado de transe, recebia instruções para
projetar uma das mãos ou alguma outra parte do corpo astral sobre a chapa, mantida a
uma certa distância na frente dela. Parece, então, que ela viu, por entre a fraca luz
avermelhada, um ser fantasmagórico estender um longo e fino braço para tocar a chapa.
Quando essas chapas foram revela-

265
das, o contorno da mão era nitidamente visível. Ochorowicz descobriu que as mãos
vistas nas fotos eram, às vezes, bem maiores do que as da médium, mas que pareciam
ficar menores à medida que aumentava a sua distância em relação ao corpo. Uma mão
esquerda podia, ocasionalmente, emergir do lado direito da médium e, quando isso
ocorria, causava uma sensação de calafrio nos membros.
O coronel Alberto de Rochas, cuja obra sobre a exteriorização da sensibilidade já foi
estudada, também tirou fotografias de duplos exteriori-zados no final da década de 1890
(1, 29c). Ele utilizou vários sujeitos especiais, pois eram tanto médiuns como bons
colaboradores quando submetidos a hipnose, e entre eles estava a Sra. Lambert, uma
paranormal francesa, que participou de uma série de experimentos. O coronel de Rochas
e Jacques de Narkiewicz-Jodko tentaram fotografar o “corpo etérico” da paciente,
exteriorizado sob o efeito de hipnose. Duas fotos do duplo da Sra. Lambert aparecem
em Modern Psychical Phenomena [Modernos fenômenos psicológicos], escrito por
Carrington, e são reproduzidas neste livro (Ilustrações 26 e 27). Elas mostram um vago
corpo fantasmagórico em movimento oscilante. Na época, estes retratos talvez tenham
representado substancial progresso em termos da prova de existência do duplo, mas se
foi realmente um progresso ele parou aí. De Rochas mudou de opinião sobre a validade
das próprias fotografias que tirou quando surgiram dúvidas sobre a integridade de seu
colaborador.
Havia pontos de vista conflitantes sobre a legitimidade dessas primeiras fotografias.
Henry Blackwell saiu em defesa de Jodko e, em 1908, comunicou várias tentativas
aparentemente bem-sucedidas de fotografar o duplo humano (10). Mas, com exceção
desse relato eventual e isolado, esse fenômeno, seguindo a trilha traçada por tantos
outros na pesquisa sobre mediunidade, despareceu na surdina.
Uma abordagem completamente diferente consistiu em verificar se um duplo
exteriorizado podia influir em objetos materiais. Conforme vimos, nos estudos de casos,
as provas sobre isto são confusas. Boa parte dos iniciados afirmavam que se tentassem
tocar em alguma coisa durante a projeção, suas mãos passavam diretamente através do
objeto. Muldoon tentou muitas vezes deslocar coisas e fracassou. Ele desabafou: “Este
fracasso (em mover objetos físicos) é uma das coisas mais desagradáveis que eu
conheço” (97a). Todavia, foram raras e bem-sucedidas as vezes em que conseguiu
deslocar objetos e produzir sons de pancada seca. Entre os casos espontâneos, já
mencionei (no Capítulo 6) o homem que teve baldado os

266
seus esforços em apagar um lampião, e Green concluiu que o fracasso em interagir com
o meio ambiente constitui uma regra (49c).
Não obstante, sujeitos de EFCs espontâneas informaram terem casualmente
deslocado objetos. Um desses casos mais famosos foi contado por Lucian Landau em
1963 (76). Sua amiga Eileen, que viria a se tomar sua esposa mais tarde, ficou
hospedada em sua casa enquanto ele esteve doente e ocupou um quarto de frente para o
dele. A moça afirmou que o visitara certa noite “fora do corpo”. A título de
experimento, ele lhe entregou seu pequeno diário e sugeriu que se ela viesse novamente,
devia tentar trazê-lo consigo. Para facilitar a tarefa, eles deixaram as portas dos seus
quartos abertas. Numa tentativa, ela descobriu que não conseguiu apanhar o diário, mas,
em vez dele, levou seu próprio cachorro de borracha de brinquedo. O Sr. Landau
acordou no meio da noite e viu Eileen ali dentro do quarto dele, com uma expressão
mortalmente pálida. Ele saltou para fora do leito e seguiu a figura, que voltou para o
quarto da sua amiga. Ali ele viu Eileen adormecida na cama e a figura desapareceu num
relance. Ao voltar para o seu quarto, ele encontrou o cachorro de brinquedo caído no
chão.
Não se deve dar demasiado crédito a esta história. Ambas as portas foram deixadas
abertas durante o experimento, e só temos a palavra dos dois participantes sobre o que
aconteceu, mas o exemplo sugere que vale a pena tentar descobrir se um duplo
exteriorizado pode afetar objetos materiais.
Os mais antigos experimentos deste tipo estudavam o fenômeno chamado de
“exteriorização de mobilidade”. A situação típica consiste em pedir a um sujeito
hipnotizado que prolongue alguma parte de si mesmo além dos limites do próprio corpo
e afete objetos, pessoas ou aparelhos de registro distantes. Hector Durville trabalhou
com esses sujeitos, entre os quais citam-se as Srs. Lambert e Léontine e o Sr. Rousseau,
um representante comercial da cidade de Versailles que era capaz de projetar seu duplo
voluntariamente. Muitos destes experimentos, conforme vimos, diziam respeito à
sensibilidade do duplo, mas Durville também registrou efeitos físicos causados pelo
duplo (32a, b).
Acreditava-se que esse duplo assumia a forma do sujeito assim que se encontrasse
suficientemente “condensado”, mas que raramente ela era percebida por outras pessoas;
Durville achava que só as pessoas mais sensíveis conseguiam vê-la. De vez em quando
os espectadores viam luzes, mas nunca o corpo completamente duplicado. No entanto,
quando o “fantasma” se aproximava deles, Durville dizia que 9 entre 10 pessoas podiam

267
sentir sua presença como uma coisa fria ou como uma brisa. Ele associava esta à
sensação recebida de uma máquina eletrostática em operação, que naturalmente
condizia com a visão “elétrica” e popularizada do fenômeno. Outros sentiam uma
sensação de umidade na aproximação do fantasma ou um desagradável calafrio ou
tremor. Diziam que se colocassem a mão no fantasma durante algum tempo e depois a
retirassem, ela ficaria impregnada de uma leve luminosidade!
O que Durville não explica com clareza é como estas experiências eram realizadas.
Mas podemos imaginar que algo parecido com isso acontecia. Durville punha a médium
em transe hipnótico e lhe pedia para projetar o duplo até, digamos, uma poltrona perto
dela. Depois, quando achava que o duplo estava suficientemente denso, orientava a
médium no sentido de fazer o duplo circular por vários pontos do quarto, aproximar-se
de pessoas diferentes e pedir-lhes que tocassem nele ou procurassem senti-lo. Se isto era
feito corretamente, todos os espectadores ficariam sabendo onde o duplo se encontrava
e não seria surpreendente se sentissem sensações correspondentes. Talvez o
experimento não se processasse assim, mas parece razoável supor que a sugestão
desempenhava algum papel na produção dessas sensações.
Em experimentos complementares, Durville recomendou aos seus médiuns que
dessem pancadas secas, no que se saíram a contento, que deixassem suas impressões
numa massa de farinha ou movessem pedaços de papel suspensos por fios, tarefas em
que fracassaram. No entanto, ele chega a citar o caso de um fantasma que removeu a
porta de uma estante; Durville tinha esperança de conseguir provas mais concretas da
existência do duplo se conseguisse pesá-lo (32b). Ele preparou em cima de uma mesa
uma balança de peso, conectada a uma campainha elétrica. Depois, pediu à médium que
levasse o fantasma até os pratos da balança, e se qualquer peso da ordem de 2 gramas
fosse registrado, a campainha começaria a tocar. O duplo da Sra. Léontine foi projetado,
pedindo-se-lhe que subisse na mesa. Durville informa que se ouviram rangidos como se
alguém estivesse realmente subindo na mesa, pancadas secas e “vibrações peculiares”.
Em seguida, todos sentiram correntes de ar frio e, por fim, a campainha começou a soar.
Em experimentos semelhantes com a Sra. Lambert, seu fantasma não conseguiu
montar na mesa até que a médium teve permissão para apoiar as mãos sobre ela.
Depois, os pratos se moveram mas descobriram que havia algum defeito na campainha.
Finalmente, o duplo conseguiu disparar a campainha várias vezes, mas só depois que a
Sra. Lambert foi

268
autorizada a tocar na mesa. É preciso assinalar, tal como fez o editor dos Anais de
ciência parapsicológica, onde o trabalho de Durville foi publicado, que os experimentos
com balança de peso não provam coisa alguma, já que foram realizados em escuridão
total e os sujeitos recebiam permissão para tocar na mesa sobre a qual repousava a
balança.
A pesquisa de Durville depende menos dos experimentos de pesagem do que
daqueles realizados com telas de projeção. Ele afirmava que as telas que continham
sulfeto de cálcio ficam iluminadas quando em contato com o fantasma. Além do mais,
ele demonstrou que quando uma tela era posta sobre o corpo da Sra. Francois, quando
ela não se achava hipnotizada, brilhava; mas quando seu duplo era exteriorizado, uma
tela, colocada sobre o corpo dela, não brilhava, ao contrário do que acontecia com uma
tela colocada sobre o fantasma. Durville alegava ter repetido estes experimentos com
sete ou oito sujeitos diferentes e obtido os mesmos resultados; e concluiu que o duplo, e
não o corpo físico, era a fonte de radioatividade, emissora de raios N.
Para entender como Durville poderia ter acreditado que, por acaso, topara com uma
grande descoberta e por que atualmente achamos que ele estava redondamente
enganado, é necessário conhecer um pouco sobre a história dos raios N. A década de
1900 foi marcada por importantes descobertas no campo da radioatividade. Os raios X
tinham sido identificados e estavam sendo pesquisados, havendo receptividade da parte
dos físicos para conhecer novos e diferentes tipos de raios. Neste clima favorável, em
1903, o físico francês René Blondlot anunciou a descoberta do raio N. Durante o seu
trabalho com raios X ele descobrira um efeito que não conseguiu explicar, atribuindo-o
à ação do novo raio, ao qual batizou de “raio N” em homenagem à Universidade Nancy,
na França, onde trabalhava. Os raios N tinham algumas propriedades extraordinárias e
eram transmitidos por muitos materiais opacos à luz, tais como papelão, madeira, papel,
ferro, estanho e prata. Blondlot chegou, inclusive, a construir lentes e prismas de
alumínio para focalizá-los. Água e sal-gema eram substâncias que impediam a
passagem dos raios, podendo assim ser usadas para excluí-los. Os raios N eram emitidos
por muitas fontes, que incluíam diversos tipos de lâmpadas, tubos de descarga elétrica,
o Sol, e o que é mais importante aqui, o corpo humano. Outro físico da Universidade de
Nancy, Augustin Charpentier, informou ter constatado uma emissão particularmente
intensa de raios N dos nervos e músculos e sugeriu que esta descoberta poderia ser
utilizada como um ponto de apoio na pesquisa clínica do corpo humano.

269
Logo, outras pessoas saíram a campo para dizer que haviam sido os primeiros a
identificar o raio e suas propriedades. Entre elas estava Gustave le Bon, que também
estava interessado em fotografia mental, e Carl Huter, que era espírita; no entanto, a
maioria era composta de cientistas que competiam entre si pelo reconhecimento nesta
nova área. Em 1904, a Academia de Ciências concedeu o prêmio Leconte a Blondlot,
pelo menos em parte pela sua descoberta do “novo raio” e, com tal estímulo,
redobraram as pesquisas, propagando-se por todo o mundo da física. Isto poderia ter
ocorrido após a descoberta de qualquer fenômeno novo; a diferença é que neste caso
específico o raio N teria uma existência de curta duração.
Em 1904, um físico americano, R.W. Wood, fez uma visita ao laboratório de
Blondlot. Ele era um dos inúmeros cientistas espalhados pelo mundo inteiro que haviam
procurado reproduzir as descobertas de Blondlot e fracassado. Agora, o motivo da sua
visita a Nancy consistia em descobrir por si mesmo por que esses raios peculiares
tendiam a se manifestar aí e em nenhum outro lugar. Mostraram-lhe experimentos nos
quais os raios X aumentavam a intensidade da luz de uma descarga elétrica, mas por ele
não ter conseguido perceber esse efeito, disseram-lhe que seus olhos não eram sensíveis
o bastante, assim como fora dito a muitos pesquisadores que eles não eram sensíveis o
bastante, ou que suas atitudes não eram suficientemente positivas para detectar algum
fenômeno paranormal. Mas Wood estava convencido de que isto não passava de uma
desculpa. Quando colocada na frente da trajetória dos raios, a mão deveria impedir a
passagem deles, notando-se, então, uma mudança na intensidade de luz. Wood colocou
e retirou sua mão ou a manteve imóvel, pedindo aos físicos que anunciassem as
mudanças de intensidade. Ele verificou que as informações recebidas não apresentavam
nenhuma relação com os movimentos feitos pelas suas mãos.
Foram tiradas fotografias do foco de emissão de luz e, a fim de ampliar ao máximo
as diferenças, várias revelações foram feitas de cada cena, aproximando e afastando-se
dela uma tela de papelão umedecido. Wood demonstrou que os experimentadores
sabiam qual das fotos devia sair mais clara, de modo que poderiam, de maneira
completamente inconsciente, ter-lhe dado uma exposição mais demorada. Mas o fato
ainda mais devastador foi que num dos experimentos Wood removeu, às escondidas, o
prisma de alumínio essencial. Ao que parece, isto não causou nenhuma diferença, e as
mudanças de intensidade da luz continuaram a acontecer como antes.

270
Depois que as revelações de Wood foram publicadas na revista Nature (158),
praticamente o estudo dos raios N parou em todo o mundo, mas na França –
especialmente ali nas proximidades de Nancy – ele continuou durante algum tempo.
Para terminar, o periódico francês Revue Scientifique propôs que fossem preparadas
duas caixas idênticas, uma contendo uma liga de aço, supostamente uma fonte de raios
N, e a outra uma peça de chumbo. Em seguida, se deveria pedir a Blondlot para
diferenciá-las, mas ele não aceitou o desafio. Em 1906, escreveu: “Permitam-me recusar
inteiramente a sua proposta para cooperar com este experimento simplista; os
fenômenos que observamos são extremamente delicados e não se prestam a isso. Que
cada indivíduo forme sua opinião própria sobre os raios N, quer através de seus próprios
experimentos, quer através dos de outros em quem confiem.” Conforme mencionou
Klotz (72), foi isto de fato o que sucedeu. A opinião da ciência era que os raios N não
existiam, e não demorou muito para que eles fossem esquecidos.
Esta história contém, talvez, lições válidas para a parapsicologia. Assim como os
raios N, a PES é constatada em alguns laboratórios, mas não pode ser produzida em
outros. Exigem-se certos requisitos do experimentador e acredita-se que determinadas
pessoas não tenham capacidade de observar os seus efeitos. Por outro lado, ao contrário
dos raios N, a PES persiste e a qualidade e quantidade de indícios favoráveis à PES são
muito maiores do que já foram para os raios N. Cinqüenta anos depois de Rhine ter
usado o termo pela primeira vez e 100 anos desde que a SPP foi fundada, os fenômenos
continuam a ser investigados. Por quê? Será porque, ao contrário dos raios N, eles
realmente existem? Será porque as desculpas e as justificativas post hoc se tornaram
mais ardilosas? Ou será porque foi mais fácil refutar os raios N do que a PES? Estas
questões são importantes, mas podem nos desviar da nossa razão principal por estarmos
discutindo os raios N, ou seja, o fato de que no curto período de sua popularidade eles
absorveram a atenção dos pesquisadores de fenômenos paranormais.
Conforme já descrevi, Durville tentou detectar o duplo usando telas de sulfeto de
cálcio que, segundo ele, ficavam fortemente iluminadas, o que podia ser atestado por
todos os observadores presentes, quando eram atravessadas pelo fantasma. Talvez
pareça estranha a pretensão de concluir que ele e todo o conjunto de observadores
estavam totalmente enganados, mas lembrem-se que não ficou clara a posição exata do
fantasma. Qualquer ligeira alteração na intensidade de luz da tela, ou aparente
intensidade na opinião de cada observador, poderia marcar arbitrariamente a

271
posição do fantasma. Se pessoas diferentes viram mudanças em ocasiões diferentes, não
poderiam, absolutamente, pensar que viram a mesma coisa. Ademais, Durville afirmava
que as telas que haviam sido previamente expostas ao sol, eram as mais brilhantes, mas
ele tomou tal providência de antemão ou poderia ter usado “exposição insuficiente”
como um trunfo, caso a experiência fracassasse? Além disso, o recinto estava totalmente
às escuras, obrigando os observadores a adaptar sua vista à escuridão, a fim de poder
observar os acontecimentos, e previlegiando-se certo dom de “sensitividade”. Não é
demais imaginar que Durville tenha sugerido com bastante insistência que as mudanças
de intensidade de luz estavam se processando.
O próprio Durville achava que os experimentos com telas constituíam seu trabalho
mais importante, mas não foram poucos os que duvidaram dos fenômenos. Em resposta,
ele argumentava que ficaria patente a enorme diferença existente entre uma foto tirada
da tela üuminada na presença do fantasma e uma outra usada para efeito de comparação,
mas até 1908 esta hipótese não tinha sido posta em prática ou, caso tenha sido, não foi
divulgada. Provavelmente, jamais saberemos com exatidão o que ocorria naquelas
sessões, mas é justo concluir que Durville estava enganado quando afirmava que o
fantasma era uma “fonte extraordinariamente poderosa” de raios N.
Detectar a presença do duplo com uma tela era, afinal de contas, uma idéia
agradável. Carrington fez uso dela num seriado paranormal adaptado para o cinema,
com o título de Os mistérios de Myra. No filme, a heroína dormia, tendo ao lado da
cama uma tela de sulfeto de cálcio acoplada a uma campainha. Quando o corpo astral do
assaltante paranormal aparecia tentando estrangulá-la, a campainha soava num quarto
pegado e o detetive paranormal entrava correndo para salvá-la bem na hora. O método
deu uma boa história, mas infelizmente os resultados de Durville não foram copiados e
as telas desapareceram do repertório da pesquisa parapsicológica, da mesma forma que
os raios N desapareceram do campo da física.
Aos poucos foi morrendo o interesse em detectar o duplo. Após a década de 30,
houve uma proliferação de experimentos sobre PES através do uso de cartazes e
símbolos específicos e um relativo declínio da pesquisa sobre o problema da
sobrevivência, da alma e do duplo, que só renasceu quando o interesse pela projeção
astral, ou pelas EFCs, como então se tornaram conhecidas, recomeçou nas décadas de
60 e 70.
Em 1972, Karlis Osis, na SAPP, propôs que além de investigar a

272
detecção de alvos durante EFCs, devia-se tentar também detectar a presença do sujeito
da EFC através de uma série de instrumentos (103b). A maioria dos experimentos deste
tipo foi efetuada por Robert Morris e seus colegas na Fundação para a Pesquisa
Psíquica, com Blue Harary atuando como médium. Como nos experimentos sobre PES,
a intenção era determinar se um “aspecto teta” ou AT, estava dissociado do corpo e,
neste caso, se podia ser detectado aí por seres humanos, animais ou instrumentos físicos
(95).
Os detectores humanos talvez fossem considerados os mais fáceis. Em muitos casos
espontâneos houve relatos de aparições de sujeitos que tiveram EFCs e, nos mais
antigos experimentos já descritos, acreditava-se que o fantasma podia ser sentido como
uma corrente de ar frio ou úmido por outras pessoas. Parece, portanto, possível que uma
outra pessoa poderia detectar um indivíduo que tivesse uma EFC. Blue Harary, por
exemplo, ficava sentado num quarto dentro de um prédio diferente daquele onde
estavam os detectores e era orientado no sentido de ter uma EFC e tentar visitar as
pessoas no outro prédio. Em alguns testes, ele devia visitá-las duas vezes, em ocasiões
escolhidas pelos experimentadores, durante um período de quarenta minutos. Em
outros, ele também fez duas visitas, mas desta vez as pessoas dispuseram de quatro
períodos para detecção, duas EFCs e duas não. Em todos os casos os detectores tinham
um relógio sincronizado com o que havia no quarto de Harary e ligado a um gravador
de fita. Eles podiam registrar quaisquer impressões no gravador ou anotá-las por escrito.
Poderiam, por exemplo, sentir algo estranho, perceber um jato de luz ou ter alguma
outra percepção para a qual não conseguiam achar nenhuma explicação. Essas
impressões eram denominadas respostas de detecção.
Numa etapa seguinte, o número dessas respostas obtidas quando Blue Harary estava
tendo uma EFC, era somado e comparado com o número obtido quando ele não estava
tendo uma EFC. No primeiro processo, com o uso de um longo período de detecção,
houve significativamente mais respostas durante EFCs, mas no segundo processo não
houve diferença entre o número conseguido quando Blue supostamente estava no quarto
com eles e quando ele não estava. Os resultados foram, portanto, animadores, mas
pouco conclusivos.
Também foram empregados detectores animais. É opinião geral que cães e gatos
podem ver os fantasmas invisíveis de seus donos, ou que animais de estimação podem
prevenir perigo iminente ou doença. Se de algum modo eles são especialmente
sensíveis, então podem se constituir nos me-

273
lhores detectores do “corpo astral”. Nesses experimentos, eles pediam que Blue
visitasse alguns gerbilos e um hamster presos em pequenas gaiolas, uma cobra e dois
filhotes machos de gato. Os roedores passaram a maior parte do tempo afiando os
dentes nas grades das gaiolas ou descansando tranqüilamente, a cobra demonstrou
poucos sinais de atividade, mas os gatinhos trouxeram mais esperanças. Os
experimentadores tinham tirado os dois filhotes de uma ninhada que nascera nas
vizinhanças quando eles contavam com sete semanas de vida e os batizaram,
apropriadamente, de Espírito e Alma. Umas duas semanas depois, deram início aos
experimentos e Blue tentou visitar os gatinhos enquanto estava fora de seu corpo.
Espírito era o que mais parecia reagir à presença de Blue, de modo que foi usado
sozinho em experimentos regulares. Colocaram-no dentro de um “campo aberto”, uma
enorme caixa de madeira cujo piso foi dividido em quadrados numerados para que se
pudesse avaliar sua atividade. O número de quadrados nos quais o gatinho entrou foi
contado, anotando-se também o número de miados soltados simultaneamente. A tarefa
de Blue consistia em se deslocar até a caixa onde estava o gatinho, acariciá-lo e brincar
com ele, de modo a, se possível, reduzir sua atividade e miado.
Como antes, a sessão foi dividida em períodos curtos, dois períodos de EFC e dois
períodos de controle, durante os quais Blue ficava batendo papo, sem pensar no gatinho.
Cada um desses períodos foi precedido por um período intermediário no qual se aferiu a
atividade do filhote para descobrir qual era o seu comportamento normal. Os resultados
aparentemente demonstraram algum sucesso. Nos períodos intermediários o gato estava
ativo e miando. Quando sucedidos por um período de controle, a atividade aumentava,
mas quando Blue estava fora do corpo ela diminuía, e nem um único miado foi ouvido
durante todos os períodos de EFC. Tinha-se a impressão que Blue realmente conseguira
acalmar os filhotes acariciando-os, por assim dizer, astralmente.
Blue fora instruído para posicionar-se na parte do fundo da caixa onde estava o gato,
mas não houve, aparentemente, nenhum sinal de que o animal estivesse se dirigindo
para aquela direção determinada, ou seja, sua atividade diminuíra durante as EFCs, mas
ele não se comportara como se Blue estivesse realmente ali, num ponto específico da
caixa. Se o animal fosse capaz de orientar-se para esse ponto, seria uma prova mais
convincente de que era capaz de detectar a presença de Blue. Para testar esta hipótese, o
gato foi colocado dentro de uma caixa redonda, cujo piso foi dividido em oito
segmentos. Anotaram o tempo que ele gastou em cada um enquanto Blue procurava se
deslocar até um ponto fora da caixa. Em

274
quatro sessões, o comportamento do gato foi muito ativo e, no cômputo geral, passou
mais tempo nos segmentos próximos ao local onde Blue se encontrava; mas em três
outras sessões ele permaneceu no mesmo lugar onde foi posto. Examinando-se os dados
obtidos em todas as sessões, os resultados não foram significativos (126).
Numa série final de sessões, fizeram uma tentativa para relacionar o comportamento
do gato (agora completamente crescido) com a localização e também com a distância do
sujeito da EFC. Por várias razões, o experimento teve de ser abandonado, mas neste
ínterim se fez uma observação interessante. Um dos experimentadores, John Hartwell,
era o responsável pelo monitor de TV no quarto onde ficava o animal. Por quatro vezes
ele teve uma forte impressão de que Blue estava ali presente, chegando, numa dessas
oportunidades, a ver uma imagem dele num canto do quarto, na tela do aparelho de
televisão. Em todas essas quatro ocasiões, Blue estava tendo uma EFC, e realmente se
encontrava no canto apropriado quando John Hartwell achou que o tinha visto. Ele não
poderia ter tido conhecimento prévio disto, porquanto os períodos de EFC eram,
naturalmente, exclusivamente selecionados pelo experimentador no outro quarto, não
havendo, inclusive, comunicação entre os quartos. Pelo visto, este detector humano se
saiu melhor quando não estava especificamente tentando agir como um detector. É
óbvio, porém, que estas observações foram apenas casuais e precisariam ser apoiadas
por trabalho experimental complementar.
Por último, empregaram-se detectores físicos. Entre eles havia um dispositivo que
media campos eletromagnéticos de baixa freqüência que ocorriam numa área de vários
pés quadrados, um outro para medir as alterações na permeabilidade magnética e na
condutibilidade elétrica, num volume de aproximadamente uma polegada cúbica, e um
terceiro que controlava o fluxo de atividade eletromagnética entre 10 e 500 MHz.
Lâmpadas fotomultiplicadoras detectaram regiões próximas do infravermelho, visíveis,
e faixas distantes do ultravioleta no espectro eletromagnético, e termistores mediram a
temperatura. Embora tivessem sido obtidas algumas respostas dos instrumentos, foram
irregulares e não indicaram se havia relação com o fato de Blue Harary estar ou não fora
do corpo. Em outras palavras, nenhum dos instrumentos foi capaz de detectar a EFC.
Em geral, este tem sido o caso. Os detectores materiais não respondem. Certa vez,
em testes preliminares, Ingo Swann uma vez influiu aparentemente num magnetômetro
(8a). Ele estava trabalhando no Instituto de Pesquisas de Stanford, e vários instrumentos
haviam sido preparados para que ele tentasse afetá-los. O magnetômetro em questão
reagiu de uma

275
forma estranha. Parece ter ocorrido uma alteração no campo magnético e o rendimento
do instrumento não teve comparação com nada jamais visto antes. Todavia, é preciso
acrescentar que este não foi um experimento organizado corretamente. Não houve
nenhuma medição básica com a qual se pudesse comparar o resultado. Não havia sido
programada qualquer EFC para aquele momento, e o resultado específico não estava
previsto. Não se pode ter certeza de que Ingo Swann realmente influíra no instrumento
enquanto fora do corpo, e jamais foram relatados outros resultados.
Destacamos aqui um último experimento. Karlis Osis e Donna McCormick
recentemente realizaram novos estudos com Alex Tanous na qualidade de médium
(105a, b, c). Instruíram Tanous para sair do corpo e se deslocar até uma câmara blindada
que continha, além de um aparelho óptico para testar a PES, medidores de tensão que
detectariam efeitos mecânicos involuntários na posição fora do corpo. Níveis de
ativação desta aparelhagem foram amostrados antes e depois da criação do alvo. A
hipótese era que, depois que o alvo fosse elaborado e estivesse visível dentro da caixa,
Tanous estaria presente tentando vê-lo, de modo que haveria mais probabilidade de
afetar os medidores de tensão. Além disso, Osis prognosticara que deveria haver mais
efeito quando a adivinhação fosse um sucesso, isto é, quando Tanous adivinhasse o alvo
correto, uma vez que já estivesse evidente que ele se achava, por assim dizer, na posição
determinada.
Os resultados, realmente, confirmaram este fato. Houve um registro de maior
atividade pelos medidores de tensão depois da criação do alvo, ainda mais acentuada
nas provas em que o médium teve sucesso. Osis e McCormick concluíram que a
hipótese extra-somática se confirmara, isto é, que os resultados confirmaram a sugestão
de que Tanous estava realmente fora do corpo e que alguma parte dele se encontrava
presente na localidade do alvo.
No entanto, existem problemas que tornam duvidosa esta conclusão. Em primeiro
lugar, conforme Isaacs assinalou (66), a atividade padrão do dispositivo não foi avaliada
nem levada em consideração. Segundo, não informaram o índice total de acertos. O
argumento depende da noção de que se se obtém um acerto, há ocorrência de uma
“autêntica” (isto é, com PES) EFC. Todavia, quando calculei o índice de acerto, a partir
dos dados fornecidos por Osis, descobri que, no cômputo geral, o sujeito não conseguiu
mais acertos do que o que se poderia esperar em conseqüência do acaso. Isto implica
que quaisquer acertos obtidos tinham probabili-

276
dade de serem devidos ao acaso e não a uma EFC. A conclusão de Osis parece,
portanto, bastante injustificada e os resultados não corroboram, de maneira inequívoca,
a idéia de que Alex Tanous era capaz de influir nos medidores de tensão com sua
presença fora do corpo.
É importante considerar uma questão final. Na maioria das vezes se sabe, embora na
prática seja difícil fazer alguma coisa a respeito, que mesmo que se tivesse obtido uma
resposta positiva de detecção, ela poderia ter sido produzida antes por psicocinesia (PK)
do que por um duplo exteriorizado. Parece que não existe nenhum método simples para
excluir a ação de PK com segurança, de modo que esta alternativa sempre deve ser
cogitada.
É difícil resumir os resultados dos experimentos mais modernos. Aliás, o número
deles é reduzido. Na maior parte, foram conduzidos num determinado lugar com um
determinado sujeito, e os efeitos apresentados não foram acompanhados por
reproduções ou novas ampliações do trabalho original. A julgar pelas aparências, eles
demonstram que dispositivos físicos ou mecânicos constituem os piores detectores e que
os seres humanos não são muito melhores. Os detectores humanos escolhidos nunca
tiveram êxito, ainda que outras pessoas aparentemente reagissem à presença fora do
corpo de Blue Harary. Os animais parecem ser os melhores detectores, mas, na verdade,
esta conclusão depende do comportamento de um único animal, no caso um filho de
gato, e de sua resposta ao respectivo dono.
Isto faz algum sentido. Poderia ser que entre as condições especiais e necessárias
para detecção estivesse aquela em que o detector fosse um animal que tivesse uma
relação especial com o sujeito da EFC. Mas se assim for, a pesquisa se complica, pois
teremos de encontrar animais com e sem esta relação especial e testá-los. Uma coisa
parece clara, porém: não é fácil detectar a presença de um sujeito que está tendo uma
EFC quando não se sabe se ele está presente. Nos experimentos mais antigos com
médiuns hipnotizados, era normal que os observadores soubessem a suposta localização
do fantasma. Nos experimentos modernos onde isto não é permitido, correntes de ar frio
e mãos úmidas não são obtidas com tanta facilidade.
A conclusão que Morris tirou do trabalho na FPP talvez sintetize bem toda esta
pesquisa: “No cômputo geral, não houve detectores capazes de dar respostas sólidas que
indicassem uma detecção real de um aspecto ampliado do ser individual” (96).
Afinal, algo deixa o corpo numa EFC? Em caso afirmativo, os resultados de toda esta
pesquisa demonstram que isso é extremamente di-

277
fícil de ser detectado. Talvez exista. Talvez só precisemos construir esse aparelho ultra-
sensível ou encontrar um ser humano ou um animal com sensibilidade especial; talvez
isso aconteça no futuro. Mas, a meu ver, a conclusão mais simples é que nada detectável
deixa o corpo numa EFC.

278
21 REAVALIAÇÃO DAS TEORIAS

Já examinei um elenco de provas sobre a natureza da EFC, já mostrei com quem ela
ocorre, sob que circunstâncias e se as pretensões de poderes paranormais podem ser
confirmadas nos testes de laboratório. Algumas das questões mais fáceis já foram
respondidas, mas não é mais possível evitar as mais difíceis. O que acontece durante
uma EFC e por quê? De que forma podemos explicar estas experiências? Existe um
único fenômeno que requer um só tipo de explicação ou precisamos de várias teorias
para explicar tipos diferentes de EFC?
Até agora apenas citei diversas teorias envolvendo projeção astral, aspectos teta, PES
e imaginação. Já é hora de fazer uma reavaliação dessas teorias à luz de todas as provas
encontradas.
Basicamente, as teorias sobre a EFC ou afirmam que alguma coisa deixa o corpo
físico ou afirmam o contrário. Logo, dentro destas duas categorias principais, existem
vários tipos diferentes de explicação e talvez exista uma possibilidade final, a de que
qualquer uma dessas diferenciações é artificial e desprovida de sentido. Para facilitar,
vou classificar os diferentes tipos como se segue (ver também Quadro 3):

A) Algo deixa o corpo.


1. Teorias físicas
2. Teoria do mundo astral físico
3. Teoria do mundo astral mental

279
B) Nada deixa o corpo.
4. Teoria parapsicológica
5. Teorias psicológicas

C) Outras abordagens

Examinarei cada tipo de teoria respectivamente e tentarei, antes de mais nada,


determinar o que faz sentido, pois não interessa investigar as provas relacionadas com
uma determinada teoria se a própria teoria é inconsistente ou incompreensível. É
inevitável que eu acabe expressando as minhas próprias confusões e me defrontando
com as minhas próprias suposições, mas espero que, no decorrer do processo, eu
consiga mostrar a magnitude dos problemas que enfrentam algumas destas teorias sobre
a EFC.

ALGUMA COISA DEIXA O CORPO

1. Teorias físicas (um duplo físico viaja pelo mundo físico)

Em primeiro lugar, surge o tipo de explicação que sugere que cada um de nós tem
um segundo corpo físico que pode se separar do corpo comum. Pode ser que você
rejeite imediatamente esta proposição, alegando que o duplo é uma entidade não-física;
mas retornarei a esta questão oportunamente. A primeira providência é entender por que
uma teoria “física” da EFC tem pouco significado, visto que os mesmos argumentos
precisam ser invocados se alguma coisa classificada como “não-física” demonstre estar
embutida neste tipo de explicação.
Há dois aspectos a considerar: um diz respeito à condição e à natureza do duplo que
viaja; outro diz respeito à condição e à natureza do mundo no qual ele viaja. Nesta
primeira teoria ambos são materiais e interagem com o mundo físico normal. Para
emprestar ainda mais significado ao exame dessa teoria, é preciso se supor que esse
duplo é composto de material “mais fino” ou mais sutil, que é invisível ao olho
destreinado.
Essa noção é às vezes expressa em textos de ocultismo. O corpo etérico dos
teosofistas, por exemplo, descrito por Besant (6) ou Powell (116a, b) tem estas
características e uma idéia análoga surge naquele livro de Arthur Findlay, tão popular
no passado, On the Edge of the Etheric (38). O autor afirma: “Devemos, antes de mais
nada, compreender clara-

280
mente que o mundo etérico é parte deste mundo. Que ele está em toda a nossa volta.
Que é material, embora de uma substância fina demais para que nossos sentidos o
percebam normalmente...” e prossegue narrando como o corpo etérico se desprende do
físico na morte, continuando a existir sem ele. Yram também expressa algo semelhante
quando fala da “essência radioativa” ou dos “átomos ultra-sensíveis” que formam os
mundos superiores (159).
As objeções a este tipo de teoria são numerosas, tanto lógicas como empíricas. Em
primeiro lugar, o que poderia constituir o duplo? As possibilidades parecem variar entre
uma cópia real e perfeita do corpo comum a uma espécie de versão nebulosa e irreal.
Examinando cada uma altema-damente, podemos verificar que nenhuma das duas é
aceitável, embora por razões diferentes.
A idéia de uma duplicata perfeita do corpo humano poderia, aliás, ter sido criada
para fazer sentido. É possível imaginarmos um mundo no qual cada pessoa possui não
apenas um, mas dois corpos, e que os dois tenham a possibilidade de se separar e viajar
independentemente. É claro que o segundo corpo precisaria ter um mecanismo que o
pusesse em movimento e um sistema perceptivo e um cérebro que controlasse seu
comportamento. Na verdade, precisaria ser muito parecido com o nosso corpo habitual
e, sem dúvida, seria completamente visível e detectável. Eu disse que podemos imaginar
um mundo desses, mas é evidente que o mundo não se parece com este.
Ora, o duplo não poderia consistir de algum tipo de gás, bruma ou névoa, cujas
partículas preencheriam, por assim dizer, os espaços entre as partes mais densas, e
seriam invisíveis ao olho destreinado? Eu diria que não, por várias razões. Antes de
tudo, muitas idéias que pareciam completamente aceitáveis há 50 ou 100 anos atrás, já
não parecem mais tão atraentes. Em 1931, Findlay estruturou seu mundo etérico de
acordo com as divisões do espectro eletromagnético não conhecido ainda na época, mas
essas divisões há muito já se tornaram conhecidas e mensuráveis. Da mesma forma,
idéias a respeito de “átomos mais finos” que ocupariam os “espaços” entre os espaços
normais não têm o mesmo atrativo, à luz da física moderna. Talvez haja um domínio
completamente constituído de matéria desconhecida e não identificada, mas isto é
improvável. Não é uma boa explicação argumentar que o duplo é material, capaz de
fazer tudo o que se exija dele, e ao mesmo tempo que é invisível, indetectável e que
consiste de algum tipo de matéria sobre a qual não sabemos absolutamente nada. Isto é
apenas um subterfúgio, não uma explicação.

281
O mais importante, talvez, é a dificuldade de entender como é que uma forma
nebulosa ou uma entidade envolta em névoa poderia desempenhar tudo que era exigido
dela numa EFC. Teria ela músculos, nervos e cérebro? Em caso negativo, de que forma
poderia se movimentar e raciocinar? Teria olhos, ouvidos e nariz? Em caso negativo,
como poderia perceber o mundo físico? Se obtivesse informações do mundo, então com
certeza seria facilmente detectável; mas sabemos que não. Este problema foi assinalado
por William Rushton em carta dirigida à Revista da SPP em 1976. Famoso por sua
pesquisa sobre a visão de cor no ser humano, ele estava eminentemente qualificado para
se pronunciar sobre o problema de visão pelo duplo:

Sabemos que todas as informações que recebemos normalmente de fora são captadas pelos
órgãos sensoriais e codificadas pelos seus respectivos nervos, e que uma diminuta lesão na retina
(por exemplo) ou nos seus nervos ligados ao cérebro produz tais deficiências características na
sensação visual que em geral se pode precisar com exatidão a posição da lesão. Que espe’cie de
olho é este, fora do corpo, capaz de codificar a cena visual exatamente como faz o olho real, com
suas centenas de milhões de fotorreceptores e milhões de nervos ópticos de sinalização? Poder-se-
ia imaginar alguma coisa diferente de uma replica do olho verdadeiro com todas as propriedades
pertinentes a ele? Mas se esta réplica móvel é capaz de ver, ela deve captar luz c, portanto, não
pode ser transparente, sendo, forçosamente, visível às pessoas circundantes.
Na realidade, não se tem notícia da existência de olhos com capacidade de flutuação, nem isto
seria normal, já que eles só existem na fantasia (127, p.412).

Será esta sua argumentação tão condenatória quanto parece? Eu penso que sim. É
claro que existem contra-argumentos. Visto que a visão fora do corpo não é algo tão
real, ela poderia utilizar um olho mais simples ou que se baseasse em algo diferente da
luz. Não obstante, se ele pode realmente perceber o mundo físico de alguma maneira,
tem de captar informações vindas dele, e isso o tornaria detectável. Dessa forma, o
problema recai apenas num tipo mais complexo de detecção e, nesse sentido, muitas
possibilidades foram tentadas e fracassaram. Também me sinto tentada a perguntar por
que, caso exista um duplo perceptivo, invisível, contraiu) à ação da gravidade, móvel e
hábil, nos preocuparíamos com toda a parafernália de olhos, músculos e nervos? E a
resposta, a meu ver, é que a percepção não é possível sem alguns desses mecanismos.
Um último problema com relação a esse tipo de duplo consiste na sua aparência. Se
todos nós possuímos um segundo corpo, por que motivo,

282
para alguns indivíduos, ele se parece com uma bolha ou um globo, para outros, uma
chama ou um ponto de luz, e para outros ainda, uma cópia do corpo físico? E o que
dizer das suas roupas e pertences, malas e bengalas, feitas da mesma estranha
substância? Muldoon e Carrington (97a) se viram às voltas com este problema, assim
como Tart (146h), mais recentemente.
Se a idéia de um duplo físico é problemática, a idéia de que ele viaja pelo mundo
físico não fica menos atrás. Eu examinei a questão de obter informações do mundo
físico adjacente, mas, além disso, existem fartos indícios que sugerem que o que é visto
numa EFC não se trata absolutamente do mundo físico.
Em primeiro lugar, existem os tipos de erros cometidos numa percepção fora do
corpo, que não parecem ter algo a ver com a espécie de erros que poderiam provir de
um sistema de percepção deficiente, mas que muitas vezes dão a impressão de serem
erros fabricados, quer como acréscimos quer como omissões. As pessoas enxergam
tubos de chaminés onde não existiam, ou têm visão de lugares mais como gostariam que
fossem, do que como realmente são. Nessas ocasiões, às vezes, o mundo fora do corpo
reage ao pensamento, comparando-se à situação de um sonho em que um cenário pode
se transformar se a pessoa imagina que ele está mudando. Por último, há o fato de que
muitas EFCs fundem-se com outros tipos de experiências. O sujeito de uma EFC pode
ter a impressão de estar vendo lugares que jamais existiram sobre a Terra, ou pode
conhecer monstros fabulosos, encontrar figuras religiosas ou caricaturas de animais.
Todas estas características da EFC tornam difícil ver o mundo fora do corpo como o
mundo físico real, levando-nos a concluir que o mundo fora do corpo se assemelha mais
a um mundo criado pela mente.
Dada a natureza do mundo fora do corpo e os problemas surgidos quando se tenta
compreender como um duplo poderia interagir com o mundo físico sem ser detectável,
só me resta concluir que esta teoria deve ser rejeitada. A única forma na qual poderia
sobreviver consistiria no seguinte: existe um segundo corpo físico que todos nós
possuímos, mas que somente algumas pessoas podem ver. Ele pode deixar o corpo e
viajar por si próprio, tendo percepção do mundo que o cerca, mas não pode ser
detectado porque é composto de algum tipo de matéria até agora desconhecida e porque
se desloca por meio de alguma energia fora de nossa compreensão e tem um poder de
visão um tanto deficiente, usando um mecanismo sobre o qual nada sabemos, exceto
que não se vale da luz ou de qualquer outra forma de energia facilmente detectável.

283
No meu entender, essa teoria não tem qualquer valor predicativo e deve, portanto, ser
descartada.

2. Teoria do mundo astral físico (um duplo não-físico viaja pelo mundo físico)

Estou usando os termos “físico” e “não-físico” como se seus significados


dispensassem explicação. Em certo sentido é verdade, pois é bastante fácil, em muitos
contextos, diferenciar os termos “físico” e “mental”. Reflexões, sentimentos e idéias
podem ainda ser referidos como processos “mentais” por um materialista que acredita
que eles são, no final das contas, totalmente dependentes dos processos físicos do corpo
e do cérebro. Um dualista, no entanto, crê que a mente pode existir independentemente
da matéria e, quando fala de processos mentais ou processos não-físicos pode estar se
referindo a um determinado mundo ou substância mental no qual os processos ocorrem.
Muitos ocultistas acham que deve haver uma série completa de mundos não-físicos de
naturezas diferentes; e se referem não só aos processos físicos e mentais, mas também
aos espirituais, casuais e astrais.
Inúmeras teorias propõem que o duplo não é físico, mas, ao contrário, não-físico,
ainda que se desloque dentro do mundo físico. Dou a isto o nome de “teoria do mundo
astral físico”, porque uma de suas Innnas <-que o corpo astral é não-físico, contendo o
mundo astral todos os objetos do mundo físico. Afinal, em que sentido essas teorias
estão usando o termo não-físico? Se o que pretende dizer é “mental” no sentido em que
pensamentos são descritos como coisas mentais, então este tipo de teoria não faria
sentido. Pensamentos não viajam. Se eu imaginar ou sonhar que estou indo para o Peru
ou planejar o que vou fazer no próximo fim-de-semana, pode-se dizer que meus
pensamentos viajaram até lá, mas isto não quer dizer que alguma coisa está literalmente
no Peru ou no futuro. Por conseguinte, não-físico deve significar mais do que isso.
Por outro lado, o termo físico não deve estar subjacente, do contrário, todos os
problemas previamente suscitados estariam em ação. Vamos examinar alguns exemplos
deste tipo de teoria para tentar descobrir o que pretende dizer. Tart (146h, k) refere-se a
ele como a explicação “natural”. A descrição que dá dessa teoria sobre a EFC é a
seguinte: “[...] de fato, não há necessidade alguma de explicá-la; ela é simplesmente o
que aparenta ser. O homem possui uma alma não-física que é capaz, sob certas
condições, de deixar o corpo físico. Essa alma, conforme se manifesta naquilo

284
que chamamos o segundo corpo, é a sede da consciência. Embora contenha certas
características de um corpo físico comum, não está sujeita à maioria das leis físicas de
espaço e tempo, tendo, portanto, a capacidade de viajar à vontade”.
Já encontramos o “aspecto teta” relacionado com experimentos de detecção. Morris
et al. (96) explica que: “[...] a EFC pode ser mais do que uma condição especial que
contribua para um estado psicondutivo; ela pode ser, com efeito, a prova de que um
aspecto da individualidade é capaz de sobreviver à morte física. Por razões práticas,
esse aspecto hipotético de ser individual será, doravante, mencionado como um Aspecto
Teta (AT)”. Segundo Osis e Mitchell (106), é possível que “[...] alguma parte da
personalidade fique temporariamente fora do corpo”, e muitas teorias ocultistas
encerram mais a idéia de um duplo astral não-físico, do que de um duplo físico.
Alguma destas descrições explica o que se poderia entender por não-físico? Osis fala
na separação de “alguma parte da personalidade”, mas o que é personalidade? O
conceito mais fértil sobre ela é que constitui uma maneira de descrever o
comportamento de uma pessoa. As pessoas reagem de maneiras diferentes a situações
diferentes, mantêm opiniões diversas, possuem maneiras diferentes de se expressar, e
têm expectativas, receios e interesses diferentes. Tudo isso ajuda a compor a
personalidade. Têm sido elaborados questionários que procuram determinar essas
variáveis, com o intuito de classificar as pessoas em termos de alguma teoria da
personalidade. Embora as teorias difiram, elas concordam num ponto. A personalidade é
um aspecto de uma pessoa física. É o corpo que age e o cérebro que pensa e controla as
ações e, sem um corpo, não se poderia preencher questionários ou decidir ir a uma festa,
em vez de ficar em casa e ler um livro. Portanto, não faz sentido dizer que uma “parte
da personalidade” se separa do corpo, a não ser que se redifina o conceito de
personalidade.
Um outro conceito popular sustenta que a consciência se separa do corpo físico, ou
que fica localizada fora dele. Mas, em que sentido pode a consciência estar localizada
em algum lugar? Quando eu acordo de manhã e ouço os pássaros cantando lá fora ou a
chuva gotejando do telhado eu percebo em que tempo estou, minha consciência está
“dentro” de algumas dessas percepções? Ou está dentro da rninha cabeça, dos meus
ouvidos ou, então, onde? Eu diria que a consciência não é o tipo de coisa que tenha uma
posição definida. Sem querer discutir teorias sobre a consciência, sustento a idéia de que
se vamos dizer que a consciência deixa o corpo numa EFC, então precisamos definir a
consciência de tal modo que

285
ela tenha uma localização e que, por via de regra, se encontre “dentro do corpo”. Assim
procedendo, acho que talvez descubramos que não estávamos de maneira alguma
conversando sobre o que habitualmente entendemos por consciência.
Na maioria das vezes se diz que um aspecto da individualidade é o que parte, mas o
que é a individualidade? É um conglomerado da personalidade, da auto-imagem, das
opiniões, das idéias e das recordações do próprio indivíduo? Neste caso, então, a maior
parte, se não a totalidade dela, depende inteiramente do fato de possuir um corpo e,
portanto, não faz sentido dizer que ela deixa o corpo. Pode-se dizer que a
individualidade é mais do que isto. Que existe alguma centelha divina, alguma alma ou
ser íntimo imutável. Na expressão do Tart, pode haver uma “alma não-física de alguma
natureza”. Mas de que natureza?
A meu ver, o problema reside nisto. Se a “alma” deve interagir com os objetos do
mundo físico para que possa percebê-los, então deve ser detectável e, se assim for, todos
os outros problemas da teoria anterior voltam à tona. Por outro lado, se ela não interage
com o físico, então não pode fazer o que essa teoria espera que ela faça, ou seja, viajar
pelo mundo físico. Acho que não existe saída para este dilema. Se realmente possuímos
almas, não acredito que sejam elas que se desloquem numa EFC. De mais a mais, já
existe prova de que o que é visto numa EFC nffo 6, aliás, o mundo físico. Logo, temos
uma boa razão para rejeitar este tipo de teoria e passar para a próxima.

3. Teoria do mundo astral mental (um duplo não-físico viaja por um mundo astral não-
físico, porém, “objetivo”)

As provas examinadas até agora apontam para a conclusão de que as EFCs não
ocorrem absolutamente no mundo físico, mas num mundo mental ou criado pelos
pensamentos. Todos os três tipos de teoria seguintes partem desta premissa, mas são
muito diferentes um do outro e levam a concepções totalmente distintas da experiência.
Um “mundo mental” pode significar várias coisas. Poderia significar o mundo
totalmente privado criado por cada um de nós em pensamento. Se é este o significado
que atribuímos a ele, então a EFC é essencialmente uma experiência da imaginação,
assunto que abordarei no capítulo seguinte. Mas o que mais poderia significar? Uma
possibilidade é que exista um outro mundo (ou mundos) mental, mas de certa forma
compartilhável ou

286
objetivo, no qual todos podemos circular desde que alcancemos certos estados de
consciência. A pergunta principal passa, agora, a ser a seguinte: “O mundo fora do
corpo é privativo de cada indivíduo, ou comum e acessível a todos?
Os ocultistas propõem que existe um mundo mental compartilhável e sugerem que há
muitas outras versões deste tipo de teoria. Os aspectos pertinentes são: existe um mundo
não-físico que é acessível por meio do pensamento, manipulável por ele, e que é o
produto de muitas mentes individuais.
Tart (146h, k) propõe, como uma das cinco teorias da EFC, aquilo que chama de a
“explicação do estado manipulável mentalmente”. Ele levanta aqui o conhecido
problema de saber, conforme diz, de “onde vêm os pijamas”. Em outras palavras, se a
EFC envolve a separação de um “espírito” ou “alma”, temos de incluir a possibilidade
da existência de smokings e de gravatas-borboletas espirituais. Evidentemente, qualquer
teoria que postule um mundo “criado pelo pensamento” resolve este problema. Tart, por
conseguinte, propõe que um segundo corpo não-físico se move dentro de um mundo
não-físico, capaz de ser manipulado ou transformado pelos “pensamentos e desejos
conscientes e não-conscientes da pessoa cujo segundo corpo se encontra nesse espaço”.
Em 1951, Muldoon e Carrington chegaram a uma conclusão análoga (97b). Muldoon
declara: “[...] uma coisa está clara para mim – as roupas do fantasma são criadas, não
são uma réplica do vestuário físico” (97b, p. 46). Através de suas observações, e não
através de argumentação lógica, ele chegou à conclusão de que: “O pensamento cria no
astral... Na verdade, todo o mundo astral é governado pelo pensamento.” Mas, com isso,
ele não pretendia dizer que se tratava de um mundo pessoal de idéias.
Também relevante neste ponto é a noção esotérica das formas mentais. Os teosofistas
Besant e Leadbeater descrevem a criação de formas de pensamento através da mente e
dos desejos corporais e a manifestação delas como formas flutuantes nos planos mental
e astral. Segundo esta crença todos os objetos físicos têm suas réplicas astrais, de modo
que quando se viaja pelo astral, se observa uma mistura das formas astrais de coisas
físicas, com entidades criadas pelo pensamento ou puramente astrais.
Existem outras versões com uma idéia semelhante. Whiteman, por exemplo,
questiona a “teoria do espaço unilateral” das EFCs (156c) e Poynton segue sua linha de
raciocínio sugerindo que: “[...] o que é descrito não é o mundo físico, tal como posto em
prática pelos sentidos do

287
corpo físico, mas uma cópia, mais ou menos exata, do mundo físico” (117). Rogo
(124d) sugere que a EFC ocorre num mundo não-físico duplicado que é tão
“verdadeiro” para o sujeito da EFC quanto o nosso mundo é para nós. Acrescenta que o
sujeito da EFC poderia até mesmo ser capaz de manipular “nosso” mundo, através de
uma respectiva manipulação do seu próprio mundo. É exatamente este o princípio que
subjaz a algumas formas de operação mágica. Criando-se formas mentais bastante
coesas, pode-se influir no plano físico, e conseqüentemente, pôr a magia em prática.
Podemos ver, portanto, que existem muitas versões deste tipo de teoria, mas ela tem
razão de ser? Esse tipo de explicação nos permite relaxar e concluir que os problemas
da EFC estão solucionados? Eu acho que não, e por várias razões.
Fox (44c) menciona uma delasi a de que não temos condições de ver nossos próprios
corpos físicos se estamos vendo “réplicas astrais”. Rogo (124 d) contorna a dificuldade
dizendo que poderíamos ver tanto o físico como o astral juntos, mas é evidente que esta
hipótese reintroduz todos os problemas que giram em tomo de se saber de que modo
poderíamos ver o mundo físico.
Tart (146k) menciona outra razão. Ele assinala que existem poucas provas imparciais
a favor deste mundo manipulável, do espaço celeste sobrenatural ou do que quer que
seja, e que estamos explicando um mundo desconhecido invocando um outro. Talvez
isto seja aceitável. Afinal de contas, a ciência freqüentemente avança, inventando novos
“desconhecidos”. Entretanto, esses desconhecidos devem ser preferíveis, por alguma
razão, aos anteriores e devem ter algum significado. Eu arrisco dizer que a idéia de um
mundo de pensamentos compartilháveis, por mais atraente que seja, e por mais que eu
queira acreditar nela, não faz sentido.
Para entender por que ela não faz sentido, devemos primeiramente examinar suas
vinculações e, para tanto, devemos identificar as várias versões dos aspectos-chaves.
Primeiro, o mundo de pensamentos contém os pensamentos de uma multiplicidade de
indivíduos que se juntam para formar um mundo público, ou pelo menos parcialmente
objetivo. Segundo, os pensamentos neste mundo devem persistir durante algum tempo.
Não adianta se eles desaparecem quando a pessoa que os criou pára de pensar neles.
Terceiro, esses pensamentos devem ser acessíveis a outras pessoas que têm EFCs. Em
outras palavras, é preciso haver interação entre os pensamentos acumulados e os
pensamentos novos. Portanto, o problema parece consistir ém saber de que forma os
pensamentos diferentes são

288
combinados inicialmente, de que forma são armazenados e de que forma interagem com
novos pensamentos.
Em primeiro lugar, como os pensamentos poderiam ser combinados uns com os
outros para criar um mundo astral? Nenhuma das teorias especifica o processo, mas
podemos investigar algumas possibilidades. Vamos supor que existe no astral – por
assim dizer – uma versão da minha casa e que qualquer um que tenha uma EFC pode
vê-la se viajar até o “lugar” certo. Sabemos que essa casa será muito parecida com o
objeto real, mas ela pode ter alguns detalhes diferentes como, por exemplo, uma
chaminé em vez de duas, paredes sólidas em vez de frágeis, ou com a frente voltada
para o sul em vez de ligeiramente inclinada para o sudeste. Esta versão astral deve ter-se
originado de muitas formas do pensamento, mas como? Por que motivo todos os
pensamentos sobre a minha casa se fundiram, em vez de se confundirem com aqueles
sobre a casa do meu vizinho? Meus próprios pensamentos têm mais influência sobre a
forma astral por eu viver aqui e conhecer minha casa melhor do que ninguém?
Pensamentos mais freqüentes possuem maior influência? Será que algo como clareza de
pensamento serve de ajuda? Se eu fizesse um esforço para imaginar que em cima da
minha casa cresce uma pálida roseira, em vez de um pé de glicínias, será que a pessoa
que a viu no astral veria só a roseira, só a glicínia, ou ambas? E, por último: a própria
casa material exerce alguma influência, independente dos pensamentos das pessoas
sobre ela?
Não estou sugerindo que tais perguntas sejam irrespondíveis, mas apenas que
constituem um verdadeiro problema. Pode-se encontrar respostas parciais na literatura
esotérica. O princípio de que “os semelhantes se atraem” é fundamental. Pensamentos,
emoções e conceitos semelhantes se atraem e, conseqüentemente, se reúnem no astral.
Mas o que determina a semelhança? A imagem que tenho da minha casa parece-se mais
com a idéia que o meu marido ou a minha vizinha têm dela? Pode haver centenas de
planos de semelhança, mas por que alguns se tomam mais importantes do que outros?
Minha opinião é que a própria arbitrariedade de qualquer decisão deste tipo revela as
bases inseguras da idéia como um todo.
O segundo problema diz respeito ao armazenamento. Como podem os pensamentos,
uma vez criados, persistirem independentemente do cérebro? A idéia de que os
pensamentos têm esta propriedade, tem sido uma pedra angular de muitas teorias
esotéricas, no entanto, muitos parapsicólogos usaram uma idéia análoga para tentar
explicar a PES. Se os pensamentos ou conceitos de uma pessoa persistem de algum
modo depois que a pessoa parou de pensar neles e se outras pessoas podem ter acesso a

289
este estoque de idéias, então, é claro que uma pessoa pode ter acesso aos pensamentos
de outra pessoa. A telepatia não só é possível, mas também passa a ser vista como a
forma mais geral de memória.
Quando comecei a me interessar pela parapsicologia, foi esta idéia que me atraiu. Ela
parecia explicar tantas coisas de uma maneira bem simples. Até mesmo cheguei a
acreditar que fosse nova, mas logo descobri que não era. Uma de suas formas apareceu
em 1939 quando H. H. Price, um filósofo de Oxford e membro da SPP, descreveu sua
“hipótese do éter mediúnico”. Ele afirmava que pensamentos, imagens e conceitos são
criados por atos mentais, mas que depois tendem a persistir independentemente da
pessoa que os introduziu. Essas imagens podem afetar o conteúdo de qualquer mente, de
modo que pode ocorrer telepatia e criar-se um “éter de imagens” ou “éter mediúnico”.
Por associação com lugares ou edifícios, o éter pode também ser responsável por
assombrações (118).
Na década de 4Q, Whateley Carington efetuou numerosos experimentos que o
levaram a elaborar sua “teoria da telepatia por associação” (16). Se duas idéias ou
imagens estão associadas na mente de uma pessoa, essa associação não é privativa desse
indivíduo, mas persiste e pode ser usada por outros. Uma idéia afim é a noção do
“campo psi” desenvolvida por W. G. Roll (125a). Todo objeto material tem um campo
psi respectivo, ao qual muitas pessoas podem reagir. Na sua mais recente teoria de
“estruturas psi”, Roll ampliou essa idéia (125c).
Eram poucas as teorias que relacionavam PES e memória, mas desde então o
relacionamento entre ambas tem sido amplamente estudado (ver 9c, 120,125b). Esta
idéia, no entanto, tem notáveis implicações tanto para a memória como para a PES.
Ninguém sabe com certeza de que modo a memória é armazenada. Existem modelos
elétricos, químicos, estruturais e holográficos do processo de armazenamento de
memória, mas nenhum tem aceitação unânime. Seria possível que nenhum deles
estivesse certo e que a memória fosse armazenada psiquicamente? Eu costumava achar
que sim, mas minha segurança acabou perdendo terreno em conseqüência de muitos
anos de pesquisa sobre PES e memória e de muita reflexão a respeito dos problemas
envolvidos (9b).
No tocante ao processo de armazenamento, a questão principal está no substrato
sobre o qual as informações são codificadas. As informações a serem estocadas
precisam estar codificadas na forma de variações de algum sistema psíquico. Estocamos
a música na forma da estrutura material de discos ou na forma de fitas magnéticas. Em
computadores a memória é codificada em dígitos binários e armazenada em fitas, discos

290
magnéticos ou mesmo em cartões perfurados. As informações são retidas porque o
disco, a fita ou o cartão magnético são estáveis por períodos muito longos de tempo.
Mas no plano astral, o que é que assume esta função? Imaginamos que as informações
são armazenadas como variações de alguma substância não-material? Neste caso, é
preciso lembrar o que essa substância deve fazer. Ela tem de interagir com o cérebro
para que as informações processadas aí possam ser estocadas. Ela deve ser capaz de ser
alterada pelas informações que entram e deve reter as informações essenciais sem perda,
até que seja necessário. E deve retê-las de tal modo que os dígitos binários adequados de
informação possam ser recuperados pelas pessoas certas (e ocasionalmente pelas
pessoas erradas). Sem dúvida, é uma alta incumbência para a substância não-material
que é invisível, está aparentemente em todas as partes, e no entanto é completamente
desconhecida até o momento.
Com algum esforço de imaginação, tudo isto poderia ser possível, mas o problema
final, na minha opinião, é aquele que constitui o pior obstáculo para qualquer teoria
deste tipo. Ou seja, de que forma se recupera a informação quando necessário? Ou, já
que o assunto é a EFC, de que forma as pessoas conseguem observar o mundo astral de
pensamentos?
Mais uma vez a máxima esotérica “os semelhantes se atraem” é considerada como
responsável. Tomando novamente o exemplo da “minha casa”, a teoria afirma que se
uma pessoa pensa na “minha casa”, o pensamento a atrairá para outros pensamentos
análogos. Mas como? Basta ela ter um “pensamento” sobre mim, ou deverá dizer:
“Leve-me à casa dela?” Será que ela precisa do endereço ou do código postal? Será
necessário ter uma imagem perfeita da casa antes que possa ter sucesso? Aparentemente
não, já que as pessoas alegam ter visto lugares no plano astral que jamais tinham visto
fisicamente. A clareza é um fator importante, assim como a expressividade da imagem,
podendo ser ambas medidas? Estas perguntas poderiam ser novamente respondidas, mas
qualquer resposta parece ser extremamente arbitrária.
O problema reside, basicamente, no código. Sabemos que quando uma pessoa se
lembra de alguma coisa, em primeiro lugar ela processa as informações recebidas,
reflete sobre elas e as organiza, depois as transforma numa forma manipulável,
utilizando alguma espécie de código. Supomos que elas persistem nesta forma
específica até que seja necessário e até quando possamos usar o mesmo sistema de
código para reaver e usá-las. Mesmo que não conheçamos detalhes do seu mecanismo
de funcionamento, em princípio a pessoa não enfrenta nenhuma dificuldade porque

291
usa o mesmo sistema tanto para estocar o material como para reavê-lo. Porém, se os
pensamentos são armazenados no mundo astral, então somos forçados a dizer que uma
pessoa pode estocá-los ali e outra pode removê-los, e que essa outra pessoa pode ter
métodos completamente diferentes de codificar as informações. Assim, como podem
esses pensamentos no plano astral ter significado para ela? Pessoalmente, não conheço
nenhuma fórmula razoável para tentar resolver este problema e, em grande parte, é isto
que me força a concluir que essas teorias não fazem sentido.
Já examinei todos os tipos de teoria que propõem que alguma coisa deixa o corpo
numa EFC e não encontrei nenhuma satisfatória. Por isso vamos nos voltar para as três
teorias restantes.

NADA DEIXA O CORPO

4. Teoria parapsicológica (imaginação mais PES)

Se rejeitarmos a idéia de um mundo mental compartilhável, ficamos com um mundo


particular: cada um de nós mantém um estoque de imagens, memórias ou idéias que não
pode ser diretamente compartilhado com qualquer outra pessoa. Dessa forma, a EFC
não passaria apenas de uma jornada imaginária dentro de um mundo imaginário
privativo. De acordo com este tipo de teoria, nada deixa o corpo numa EFC e,
conseqüentemente, nada sobrevive à morte desse corpo. A vantagem de tal teoria é que
evita todos os problemas das anteriores, visto que não implica nem mundos astrais nem
outros corpos. No entanto, o que fazer com a prova de que ocorre PES durante EFCs, ou
seja, que as pessoas podem obter informações à distância em EFCs?
Conforme vimos, certos parapsicólogos tentaram incorporar esta possibilidade
insinuando que a EFC é “imaginação mais PES” ou PK. Uma das cinco teorias de Tart,
por exemplo, é a “alucinação-mais-psi explicação”. De acordo com esta hipótese: “Para
aqueles casos de EFCs nos quais se obtêm informações verídicas sobre acontecimentos
distantes, postula-se que a PES, que está bem provada, age num nível não consciente,
sendo essas informações utilizadas pela mente subconsciente para adaptar a cena
alucinatória ou onírica à correspondente cena real (146k, p. 339).” Osis (103 d) compara
sua “hipótese exossomática” com a “ilusão de viagem mais PES” e Morris (96) equipara
a teoria de que “algum aspecto palpá-

292
vel da individualidade pode se expandir além do corpo” com aquilo a que chama de
teoria do “estado psi favorável”. Na parapsicologia, acredita-se que muitos estados
contribuam para a PES. Eles incluem o relaxamento, o uso de ganzfeld ou de estímulos
não padronizados e os sonhos (63). Há muitas razões para se considerar uma EFC como
um estado propício à paranormalidade. Palmer deu a entender que ela poderia produzir
atitudes e expectativas compatíveis com a paranormalidade, facüitando, assim, a sua
ocorrência (110a).
Bem, este tipo de teoria é satisfatório? Eu acho que não. Aparentemente, ele evita
todos os problemas anteriores e ainda é capaz de lidar com os aspectos paranormais da
experiência. Reparem, porém, que digo “aparentemente”. Denominar a EFC de
imaginação ou alucinação nos diz muito pouco e afixar a expressão “mais PES” não
acrescenta nada. Sabemos muito pouco a respeito de PES. Ela é definida de modo
negativo e não podemos parar ou iniciá-la ou ter algum controle sobre ela. Na realidade,
tudo o que sabemos sobre ela é que, se existe, é muito ineficaz.
Isto nos traz de volta à “hipótese da superPES”. Muitos têm afirmado que a teoria da
imaginação mais PES deve ser rejeitada precisamente por causa da deficiência de PES,
porque os resultados que encontramos em experimentos sobre PES em laboratório são
muito insignificantes, comparados com o que se espera deles fora do laboratório, de
acordo com a hipótese da surperPES. Osis classifica-a como “aquela estranha invenção
que foge como um camundongo de ser testada no laboratório mas, na exuberante
especulação teórica, age como um leão feroz devorando as provas a favor da
sobrevivência” (103g, p. 31). Sua linguagem é persuasiva, mas no caso das EFCs não
creio que o argumento seja válido. Os efeitos paranormais encontrados durante as EFCs
são extremamente pequenos, conforme tenho procurado demonstrar. E acho que eles
são pouco mais fortes, talvez, do que a PES típica de laboratório.
Por conseguinte, podemos afirmar que a EFC é imaginação mais PES, mas isto
significa apenas juntar dois termos que são um balaio de gatos: “imaginação” e “PES”.
Não explica nada. Por esta razão, e somente por ela, é que rejeito esta teoria. Se algum
dia chegarmos a entender melhor a PES, então será possível testar sua função na EFC;
aí então valerá a pena examinar essa teoria. Enquanto isso, se dissermos que a EFC
envolve a imaginação, neste caso precisamos de uma teoria psicológica da EFC, com ou
sem PES, e será esta a questão que vou examinar no capítulo final.

293
Outras abordagens

Antes, porém, de prosseguir quero mencionar brevemente uma última possibilidade:


a de que todas as distinções e problemas que venho colocando sejam apenas artificiais.
Deveríamos simplesmente admitir que a mente não está nem “dentro” nem “fora” do
corpo? Grosso argumenta (54b) que talvez a gente sempre esteja “fora” e que numa
EFC apenas nos tornamos conscientes desse fato. Venho procurando saber como se
adquire a informação numa EFC, mas será que a diferença entre normal e paranormal
deve ser abandonada?
Durante uma EFC pode-se ter o que aparenta ser uma percepção mais clara dessas
questões. Dicotomias são transcendidas intuitivamente e sente-se a experiência como
algo natural e compreensível. Penso que essa percepção direta tem seu valor e, quanto
mais capazes forem os pesquisadores de aceitar esse processo de raciocínio, mais
profunda será a sua compreensão. Todavia, esta intuição não responde aos tipos de
pergunta que desejo esclarecer, nem pode relacionar uma teoria sobre a EFC com outras
teorias físicas, psicológicas ou parapsicológicas. Estou certa de não estar sozinha nesse
propósito. Gostaria de dizer que a percepção mística, intuitiva ou direta da experiência é
uma abordagem valiosa e até mesmo necessária, mas não uma teoria alternativa.
Finalmente, quero fazer uma pequena observação. Muitos teóricos têm procurado
contornar alguns problemas dizendo que as EFCs diferentes requerem explicações
diferentes ou se ajustam a modelos diferentes ou que há graduações na EFC. Contudo, é
preciso lembrar que, se uma teoria não faz sentido, então não muda nada dizer que ela
se aplica somente a algumas EFCs. Nem por um só instante sugeri que pode haver um
único tipo de EFC e uma única teoria; mas para mim nenhuma das teorias precedentes
funciona, nem acho que funcionam melhor para algumas EFCs do que para todas as
outras. Assim, pois, voltarei minha atenção para as teorias psicológicas sobre a EFC.

294
22 UMA ABORDAGEM PSICOLÓGICA DA EFC

Nossa última teoria alternativa afirma que todos os detalhes da EFC devem ser
explicados em termos psicológicos. Nada deixa o corpo em uma EFC. O corpo astral e o
mundo astral são produtos da imaginação e a própria EFC não oferece nenhuma
esperança para a questão de sobrevivência. Osis diz que os adeptos de tais teorias
reduzem a EFC a “nada mais do que uma excentricidade psicopatológica” (103h); a
meu ver, no entanto, essas teorias oferecem a abordagem mais promissora, desafiadora e
estimulante da EFC.
Entre as abordagens psicológicas da EFC, incluem-se interpretações psicanalíticas,
analogias entre o “túnel” e a experiência do nascimento; a criação do duplo tem sido
encarada como um ato de narcisismo ou como uma maneira de negar a inevitável
mortalidade do corpo humano. Eastman deixou implícito que o cordão pode simbolizar
uma fuga às limitações do corpo e que o corpo astral pode representar um símbolo da
essência do ser humano (33). Em seguida, surgem teorias que tratam a experiência de
morte iminente como uma forma de despersonalização ou de regressão a processos
primitivos de pensamento, ou aquelas que a vinculam ao aparecimento de um arquétipo.
Já examinei algumas delas e não pretendo discuti-las novamente, a não ser para dizer
que nenhuma oferece uma explicação completa da EFC. Algumas podem ter seu devido
lugar numa teoria psicológica da EFC. Vale dizer que um processo fisiológico
subjacente pode ser responsável por uma alteração no estado de consciência e que
determinado fator, como o narcisismo por exemplo, pode estar implicado na forma que
a experiência assume. Por conseguinte, não pretendo rejeitar uma teoria apenas porque
seu escopo é limitado. Todavia, se uma teoria

295
psicológica deve oferecer uma alternativa autêntica para os tipos de teoria anteriores,
então ela precisa fazer mais do que apenas resolver pequenas partes da experiência.

A TEORIA DE PALMER

A teoria psicológica da EFC mais completa até agora, é aquela proposta por John
Palmer que utilizou na sua explicação uma mistura de conceitos psicológicos e
psicanalíticos (110b). Palmer fez a importante observação de que a EFC não é nem
virtual nem realmente um fenômeno paranormal. Uma EFC pode estar relacionada com
processos paranormais, mas a própria experiência, tal como qualquer outra experiência,
não é o tipo de coisa que possa ser paranormal ou não.
Ele ainda sugere que a EFC quase sempre ocorre num estado hip-nagógico. Dentro
desse estado, ela é deflagrada por uma alteração no conceito que a pessoa tem do
próprio corpo, resultante de uma redução ou de outra alteração no estímulo dos órgãos
auto-receptores. Essa alteração, então, ameaça o conceito de individualidade, e a
ameaça ativa processos inconscientes profundos. Esses processos tentam restabelecer o
sentimento pessoal de identidade individual tão rápida e economicamente quanto
possível, e o método de ação deles segue as leis do processo primário descobertas por
Freud. Segundo Palmer, é esta tentativa de recuperar a identidade que constitui a EFC.
Isto explica por que a experiência parece tão real na ocasião, visto que a mente
inconsciente tem de convencer o ego da nova identidade, de modo a aliviar a ameaça.
Na teoria de Palmer, a EFC é vista apenas como um dos processos em que este objetivo
pode ser atingido. Um outro poderia ser a fuga total através do desmaio. A direção
tomada vai depender da situação específica. Uma pessoa que está agonizando,
provavelmente terá uma experiência diferente de outra que está num laboratório, sendo
submetida a um processo de indução de uma EFC.
Uma vez que todo o objetivo da EFC consiste em evitar uma ameaça, em geral a
pessoa permanecerá inconsciente dessa ameaça e da alteração na imagem corporal que a
precipitou. No entanto, Palmer acrescenta que é possível, com a prática, que o ego tenha
controle sobre o processo de atividade primária. Evidentemente, a EFC é,na melhor das
hipóteses, apenas uma solução parcial para a ameaça, e tanto o ego como o processo
primário se esforçam para recuperar o conceito corporal normal. Assim que cumprem
esta tarefa a contento, a EFC termina.

296
Para Palmer, quaisquer dons mediúnicos que se manifestem durante uma EFC,
devem-se mais à ocorrência da EFC num estado hipnagógico do que a alguma coisa que
realmente deixe o corpo. Palmer chama a atenção para o fato de que a teoria é neutra no
que diz respeito à relação entre cérebro e mente, mas uma implicação importante é que a
EFC não constitui nenhuma prova que demonstre separação entre corpo e mente.
Esta teoria tem muitos pontos a seu favor. Não precisa de corpos astrais ou de outros
mundos, evitando, assim, todos os problemas que apresentam as teorias anteriores. Ela
possibilita entender as situações em que a EFC ocorre, sem modo de variação e a
relação da EFC com as demais experiências. Contudo, ela tem suas próprias
dificuldades. Depende, basicamente, da idéia de que a EFC é um recurso para evitar
uma ameaça à integridade do indivíduo e a ansiedade que isso traria. Para mim, no
entanto, não está claro que a EFC não ofereça uma ameaça ainda maior do que a
mudança original no conceito corporal. Em si mesma, ela representa uma aparente cisão
entre mente e corpo, o que para muitas pessoas é uma forte ameaça e uma fonte de
ansiedade. Às vezes, elas sentem pavor de não poderem “retornar” para dentro do corpo,
o que não deixa de ser uma ameaça também. Naturalmente se pode argumentar que a
ameaça consciente da EFC é completamente diferente da ameaça inconsciente que a
provocou, e que numa EFC o “ser” permanece, de certa forma, inteiro, ainda que
separado do corpo. Mas eu gostaria de saber o que a teoria psicanalítica freudiana
previria neste caso. Que tipos de ameaças devem ser mais evitados e que soluções
seriam as mais eficazes? A meu ver, a psicanálise é reconhecidamente incapaz de fazer
este tipo de previsão.
Parece também que a teoria implica que tanto os processos primários como o ego são
dirigidos e se esforçam para conseguir um objetivo específico. Palmer, particularmente,
nega qualquer comprometimento com o pensamento teleológico, mas seria útil saber
para que direção tendem os esforços originados pelo processo primário e os meios de
persuasão do inconsciente. Para finalizar, a teoria de Palmer está longe de ser completa.
Ela nada informa a respeito de túneis e de sensações de separação, nem a respeito do
aparecimento do mundo fora do corpo, do corpo físico ou das experiências de voar e
flutuar, embora possa ter sido elaborada para explicar estes fatos em termos da lógica do
processo primário. Visto que Palrrier está pretendendo apresentar uma versão mais
detalhada, não me cabe fazer-lhe uma crítica prematura, mas apenas acrescentar que sua
teoria representa uma maneira nova e valiosa de abordar a EFC que deve fornecer novos
horizontes para a pesquisa.

297
Até aqui procurei apresentar os fatos tão objetiva e imparcialmente quanto pude, mas
agora vou me permitir expor meus preconceitos e ceder às minhas intuições, dando
minha interpretação pessoal da EFC.

UMA TEORIA PSICOLÓGICA

Em primeiro lugar, devo dizer que acho as provas existentes a respeito de


acontecimentos paranormais durante a EFC limitadas e pouco convincentes. Sem
dúvida, haverá quem discorde de mim, porém acho possível que todas as pretensões de
PES e PK em EFCs sejam infundadas. O leitor poderá objetar citando o famoso caso
Wilmot (99b), o caso Landau (76) ou uma série de outros. É verdade que eu teria de
rebater o argumento, afirmando que as testemunhas ou os investigadores estavam
mentindo ou enganados, o que, a meu ver, não é impossível; além do que, acho que não
existe, realmente, uma grande quantidade de provas que precise ser “explicada tintim
por tintim” dessa forma.
Podemos submeter estas pretensões à prova? Podemos estar definitivamente seguros
se houve ou não algum aspecto paranormal presente na EFC? Já vimos quão difícil
parece ser esta questão. Contudo, e talvez paradoxalmente, acho que nunca
precisaremos responder à questão, ainda que ela seja, teoricamente, muito importante.
Importante porque uma teoria puramente psicológica da EFC não pode explicar
diretamente fenômenos paranormais e, é claro que se eles ocorrem, necessitam de
explicação. Mas não creio que, no final das contas, precisemos dar uma resposta para a
questão. O que acho que vai acontecer é que uma teoria (talvez “abordagem” ou “plano
de pesquisa” fossem as palavras mais adequadas) começará a dar mais frutos do que
outras. Ela irá estimular a pesquisa que, por sua vez, vai se desenvolver, em vez de ficar
girando em círculos como algumas pesquisas recentes têm feito. Além disso, ela
conduzirá a novas idéias e a novas relações como outras áreas ou experiências e as
pessoas começarão a fazer uso dela com maior freqüência em suas reflexões, discussões
e pesquisas. Se isto acontecer, uma abordagem acabará sendo mais aceita do que outras
e, neste sentido, acabará predominando, pelo menos temporariamente.
Esta abordagem hipotética poderá incluir, como uma de suas pautei mais
importantes, a ocorrência de fenômenos paranormais e solucionar alguns dos problemas
aqui apresentados e que giram em torno dessa questão. Ou então, poderá ignorá-los
completamente. Seja qual for o caso, não mais nos preocuparemos em saber se há ou
não PES na EFC, pois ela pa-

298
recerá evidente. Creio que serão as teorias psicológicas que haverão de assumir esta
função e que a questão dos fenômenos paranormais será, tranqüilamente, abandonada.
Mas é evidente que alguma nova descoberta poderá, a qualquer hora, demonstrar que
estou redondamente enganada.
Afinal, que tipo de teoria psicológica tenho eu em mente? Minha hipótese é que a
EFC pode ser apropriadamente vista como um estado alterado de consciência (EAC) e
mais bem compreendida em relação com outros EACs. Tudo aquilo percebido numa
EFC é produto da memória e da imaginação e, durante a EFC, a pessoa vivência mais
intensamente a sua própria imaginação do que na vida cotidiana. Em outras palavras: a
experiência tem um pique privilegiado dentro do conteúdo da mente da própria pessoa.
Em qualquer EAC, os processos de pensamento e de percepção sofrem mudança. Em
alguns, como os sonhos por exemplo, a imaginação é expressiva, mas na ocasião
específica não há nenhum reconhecimento do que está acontecendo. Neste aspecto, os
sonhos diferem das EFCs, mas outros EACs podem estar quase no mesmo nível destas e
acho que muitos envolvem este tipo de experiência direta da própria imaginação
pessoal. As condições necessárias para que ocorra tal estado podem variar, mas suponho
que no caso da EFC são necessárias as seguintes:

1. fluxo de imagens expressivas e ricas em detalhes;


2. baixo índice de realidade para que recordações e imagens possam parecer
“reais”;
3. redução ou ausência da capacidade de recepção sensorial do corpo;
4. manutenção do estado de alerta e do pensamento lógico. [Condição esta
semelhante à dimensão de “racionalidade” proposta por Tart (146i, 1).]

Entretanto, devo dizer que outras experiências além da EFC podem ocorrer sob tais
condições.
Procurarei demonstrar como essas condições são importantes para a EFC, tomando
como exemplo um método para alcançar a EFC: por meio da utilização de uma droga
alucinógena. Através da pesquisa com drogas (por exemplo, 137a) sabe-se que nos
primeiros estágios de êxtase, certos tipos de imagens ganham intensidade. Túneis,
espirais e treliças são comuns e, embora sejam inicialmente vistos como separados do
sujeito, gradualmente começam a ficar mais “reais”, imagens complexas construídas a
partir de dados da memória vão-se sucedendo, a princípio vistas numa perspectiva de
túnel, mas depois tornando-se mais reais e confundindo-

299
se com a pessoa. Essas imagens da memória podem tomar muitas formas, de acordo
com a situação e as expectativas do sujeito. Às vezes são reconstituídas cenas de
infância e, devido ao estado de consciência, são vivenciadas como se estivessem
acontecendo de novo. (É mais provável que isto ocorra quando a pessoa acha que está
perto da morte, preferindo, então, olhar para o passado, em vez de encarar o futuro.)
Em outras oportunidades e em outras situações, o sujeito pode fruir de cenas
fantásticas e imagens parecidas com sonhos, tomando parte na ação imaginária ou
observando como que de fora. Mas, neste último caso, hábitos de pensamento e o grau
de expressividade de suas imagens podem impedi-lo de se ver como um observador
separado do corpo. Em vez disso, ele pode ter a ilusão de ser um pássaro voando ou
reconstituir seu corpo normal a partir da memória e da imagem que tem do próprio
corpo. À medida que a experiência avança, o critério de realidade fica quase totalmente
excluído. As imagens prendem completamente a atenção, perden-do-se toda consciência
do corpo físico.
Tudo isso pode acontecer em conseqüência do consumo de drogas alucinógenas, mas
quase se poderia dizer que a pergunta consiste em saber como o sujeito pode evitar ter
uma EFC. Penso que a resposta é que se a experiência é rotulada de “EFC”, “viagem”
ou “um barato”, depende não só do estado fisiológico em que a pessoa se encontra, mas
também do conteúdo de suas imagens e do papel representado pela sua imagem
corporal. Somente quando há predomínio de imagens de cenas comuns do mundo
cotidiano, percebidas como que de algum ponto diferente daquele onde está o corpo
físico, é que a experiência toma a forma de uma EFC.
Agora torna-se importante saber por que esse tipo específico de experiência
alucinatória é razoavelmente estável e descontínua. Se constitui apenas uma das formas
assumidas pelas alucinações, por que surge inextricavelmente entrelaçado com outras
formas, permutando-se as diferentes experiências entre si? Este detalhe é importante
porque sabemos que a EFC possui uma certa estabilidade. Suas características não
diferem muito, mesmo quando existe uma variedade de formas de indução, pelo que
sabemos dos relatos sobre ela e, apesar de às vezes estar relacionada com outras
experiências alucinatórias, é mais freqüente que ocorra sozinha. É também descontínua
no sentido de que pode começar num determinado momento, prosseguir por algum
tempo e acabar dc repente. São estas características que fizeram com que recebesse uma
denominação particular e fosse considerada uma coisa diferente de uma alucinação.

300
Penso que a resposta é dupla. Em primeiro lugar, existem processos cognitivos em
constante funcionamento a fim de manter estável a imagem corporal necessária na
coordenação de ações práticas. A imagem corporal não só é forte e completa – ou seja,
uma pessoa tem uma representação exata e vivida da forma do próprio corpo –, mas
também coincide com a verdadeira posição do corpo físico. Todos os estímulos
sensorials do corpo ajudam a mantê-la nessas condições. Entretanto, vamos imaginar
uma situação em que a pessoa tem a impressão de estar vendo o quarto numa das formas
em que ele está representado na memória, isto é, de um ponto próximo ao teto. Os
estímulos corporais estão ausentes ou são negligenciados, de modo que a imagem
corporal não precisa, necessariamente, coincidir com a posição do corpo físico. A
pessoa poderá ou não elaborar um novo “corpo” a partir da sua imagem corporal, na
posição em que está atualmente, isto é, em cima, no teto. Uma vez que esta posição é de
onde o indivíduo tem a impressão de estar olhando, ela naturalmente parecerá ser a mais
real. Olhando para baixo, o indivíduo “verá” a cadeira onde sabe que está sentado e aí
poderá se ver também, elaborando um quadro a partir da idéia visual que ele tem de
como outras pessoas o vêem.
Ora, nesta situação que estou propondo, a visão de “si mesmo” pode acabar sendo
muito desconcertante em termos da “nova perspectiva”. De fato, no treinamento para
indução da EFC, ela constitui uma grande barreira. É possível que sensações físicas
reafirmem seu domínio sobre a imagem corporal e que, de repente, nosso projetante
astral seja arremessado “de volta ao interior do corpo”. Todavia, se as imagens
continuarem vividas, o índice de realidade reduzido e assim por diante, a identificação
da pessoa como a “nova perspectiva” prevalecerá. Ela poderá ver uma imagem de si
mesma sentada na cadeira e, ao mesmo tempo, ter a impressão de estar em cima, no
teto. Desde que as condições que deram início à indução prevaleçam, esta situação
poderá ser mantida.
Este é um dos motivos pelos quais a experiência é relativamente descontínua. A
transição para a volta à “normalidade” exige um salto cognitivo, que pode ser
comparado à mudança perceptual feita quando se olha uma figura ambígua primeiro de
um jeito e, depois, de outro (ver 9a e Ilustração 28). Não se pode ver ambas as formas
da figura ao mesmo tempo. Talvez aconteça o mesmo em relação à EFC. Se duas visões
fossem vivenciadas juntas, o sujeito deveria estar vendo o quarto simultaneamente da
posição no teto e da posição relativa ao seu corpo. Sem falar do fato de que a situação
seria extremamente desconcertante para que pudesse

301
ser mantida; predominaria invariavelmente a “velha” visão. Qualquer influxo sensorial
observado, por mais insignificante que seja, estará do lado da “velha” posição, assim
como acontece com o hábito e a familiaridade. Por isso, mesmo que as duas venham a
coexistir, a velha posição sempre levará a melhor e a EFC acabará terminando. O sujeito
terá a impressão de ser arremessado de volta para dentro do seu corpo. Logo, podemos
verificar que a “nova” perspectiva só se mantém desde que a atenção não seja
transferida para a “velha” perspectiva e é descontínua porque qualquer visão incompleta
é extremamente efêmera. Neste sentido, é aquilo a que Tart chamaria de um “estado
descontínuo de consciência” (146i, j, 1).
Os outros motivos para a descontinuidade são a expectativa e o hábito. Se as imagens
alucinatórias de nosso sujeito são do seu próprio quarto, então ele deve supor que fora
do quarto fiquem o corredor e as escadas e que, fora da porta de entrada, haja um
passeio e o jardim. Ele pode ser conduzido pelas suas suposições e usando seu mapa
cognitivo através de muitos “lugares” como se estivesse “realmente ali” e,
evidentemente, eles terão todas as características do mapa cognitivo, conforme vimos.
Se, de acordo com o que descrevi, o pensamento lógico se mantém razoavelmente
intato, nosso indivíduo não se perderá em visões fantásticas ou em outros tipos de
alucinação. E, já que tudo parece tão real, ele ficará extasiado com o que vir. Na maioria
das vezes, ele não terá tempo ou disposição para ficar pensando em coisas assim: “Eu
poderia ir a qualquer lugar que quisesse, poderia transformar isto num outro tipo de
experiência.” Na típica EFC espontânea, a duração da EFC é curta e alguma coisa porá
fim à experiência antes que isto aconteça. Apenas as experiências mais longas ou
repetidas são passíveis de mudar ou prolongar-se desta forma.
Assim, de acordo com meu modelo, a EFC é um estado limitado, de um lado, pelo
restabelecimento da perspectiva normal da imagem corporal e do sistema de recepção
sensorial e, do outro, pelos hábitos de pensamento que mantêm, pelo menos
temporariamente, a associação entre o fluxo de imagens e a situação material. Além dos
limites do hábito, ficam muitos outros tipos de experiência mística, religiosa, imaginária
e psicodélica, mas para atingir qualquer uma destas é preciso ou que se modifiquem as
condições iniciais ou que se dê um salto mental, o que para muitas pessoas é difícil.
Assim, uma vez estabelecida, a EFC é, ao menos por algum tempo, estável e
descontínua.
Depois de esboçado o modelo, o importante é verificar se ele leva a previsões que
possam ser testadas, pois ele só terá utilidade se tiver condições de fazer isto. Em
primeiro lugar, é possível se fazer simples previsões

302
sobre a indução de uma EFC. Se os pré-requisitos essenciais são imaginação viva,
suspensão do critério de realidade, pensamento lógico e falta de (ou negligência para
com) estímulos sensorials, então existem muitas maneiras de conseguir ter esta
experiência. Todos estes termos não são muito mais do que rótulos para modalidades de
pensamento e qualquer um que seja capaz de passar de uma para outra, pode dispensar
recursos externos, tais como drogas, mas para a maioria das pessoas este despojamento
não é possível.
Para elas, determinadas drogas, privação dos sentidos ou condições de ganzfeld
podem reforçar a imaginação e reduzir a percepção sensorial, mas elas devem se manter
alertas ou a experiência resvalará para o sono ou devaneio. Deve também ser elaborada
uma imagem corporal alternativa, quer seja ela um “duplo” completo ou apenas um
ponto noutro lugar. Uma ruptura ou distorção da imagem normal do corpo poderá
ajudar, mas não será suficiente. O que é preciso é uma cisão entre a posição imaginada
do ser de cada indivíduo e o sistema de recepção sensorial. Uma EFC não será possível
se a imaginação for pobre ou indefinida e, particularmente, se o sistema de atividade
coordenada dos órgãos sensorials fortalecer o sentido de posição do corpo.
Tudo isto talvez só confirme o que se aprendeu através de tentativas de indução, mas
é possível fazer previsões mais específicas sobre os tipos de pessoas que teriam
probabilidade de ter EFCs e em quais elas teriam mais facilidade de ser induzidas.
Como temos visto, existe muita discussão para saber se as teorias psicológicas
podem prever um relacionamento entre capacidade de imaginação e EFCs. Tem sido
comum a utilização de testes gerais sobre a expressividade da imaginação, mas eu
arriscaria dizer que existem relações muito específicas que refletem a função das
imagens em diferentes tipos de EFC, em circunstâncias diferentes. Antes de mais nada,
o grau de expressividade da imaginação normal de uma pessoa não é necessariamente
importante quando a EFC é induzida, sobretudo, por algum fator alucinógeno, tal como
algum tipo de droga, doença ou acidente. Ele deve ter apenas importância em EFCs
induzidas intencionalmente ou naquelas em que não existe nenhum forte induzimento à
imaginação viva. Mesmo nesses tipos de EFC o controle da imaginação deve ser
importante. Isto poderia facilmente ser testado comparando-se a capacidade de
imaginação de pessoas que tiveram EFCs espontâneas e induzidas. Ou se poderia tentar
produzir EFCs em fortes e fracos visualizadores com e sem a aplicação de técnicas
destinadas a gerar imagens vigorosas.

303
Em segundo lugar, não vejo nenhum motivo pelo qual um visualizador ou
verbalizador habitual deva ser importante, ao contrário da capacidade de absorção,
conforme Irwin demonstrou. E, em terceiro lugar, acho possível também que uma
imaginação específica e certas habilidades cognitivas poderiam predispor alguém a ter
uma EFC mais do que a vivacidade de imaginação. Estes são os tipos de habilidade
requeridos para visualizar um quarto de cima ou um objeto de ângulo incomum; em
outras palavras, trata-se de habilidades de manipular o espaço. Esta hipótese poderia ser
submetida à prova comparando-se as habilidades de sujeitos de EFCs e de sujeitos que
não têm EFCs, ou procurando-se induzir EFCs em indivíduos com boas ou más
habilidades espaciais. A minha previsão é que essas habilidades específicas teriam
relação mais próxima com as EFCs do que a genérica vivacidade de imaginação.
Outras previsões dizem respeito à variabilidade da experiência. Se se precisa apenas
de tempo e habilidade para pensar em mudar e controlar a EFC, então as experiências
mais longas ou os casos múltiplos ou freqüentes de EFCs entre os iniciados devem ser
mais variados do que os casos rápidos e isolados. O sujeito com prática de EFCs deve
ser capaz de superar as limitações do seu mapa cognitivo e se deslocar de todas as
formas que sua imaginação permitir. Ele pode escolher deixar completamente este
“mundo físico” e alçar vôo para “espaços” diferentes, experiências místicas, concepções
profundamente diferentes do mundo ou para onde quer que sua imaginação o leve. Para
realizar isto basta apenas um salto mental.
Parece ser exatamente isto o que encontramos. Oliver Fox e Sylvan Muldoon se
deslocaram à “velocidade do pensamento” de lugar para lugar durante suas EFCs, e
Whiteman, assim como o próprio Fox, tinham freqüentes experiências que não faziam
parte deste mundo comum. Rogo (124d) fez uma análise cronológica das experiências
de Fox e demonstrou que com o passar do tempo foi aumentando o número daquelas em
que ele deixava a “realidade física”. Durante a longa EFC que eu mesma tive, aprendi
que todos os elementos de apoio da experiência inicial eram desnecessários: o corpo
duplicado, o encorajador cordão de ligação e o quarto familiar. Depois disso, minha
experiência enveredou para muitas formas e “lugares” diferentes. Tudo isto leva-nos a
fazer previsões sobre o relacionamento entre a extensão e freqüência de EFCs e a
natureza delas. E elas poderiam ser confrontadas com os dados de pesquisas ou testadas
em programas de treinamento e sessões experimentais de EFCs realizadas com sujeitos
treinados.

304
Podemos também prever, com base nesta abordagem psicológica, como a EFC deve
terminar. Se as condições originais persistirem, a experiência pode se transformar numa
experiência mística ou religiosa. Se qualquer uma delas se modificar, a EFC cessará um
tanto bruscamente. Por exemplo, se a imaginação se tomar menos viva, a nova visão
acabará perdendo sua vantagem temporária e a visão antiga recuperará sua posição. Se o
consenso de realidade reaparecer de repente, a pessoa poderá pensar: “Isto é absurdo –
estou realmente sentado na cadeira.” A atenção se transfere de volta para o corpo e a
experiência acaba aí. Se os influxos sensorials assumem uma posição defensiva,
novamente então a antiga visão predominará e, em todos estes casos, a mudança é
súbita. Poderá haver um momento entre as duas visões em que nenhuma delas está
fixada e em que não existe nada neste intervalo de tempo. Isto poderia produzir aquüo a
que Crookall se refere como a perda momentânea de consciência; penso que este efeito
é melhor explicado em termos cognitivos do que como uma sensação causada pelo
distanciamento ou retorno do corpo astral.
Finalmente, se houver perda do pensamento lógico e claro, a experiência poderá
passar para um estado de sonho. De acordo com este método de estudo da EFC, sua
relação com o sonho translúcido é muito próxima (embora não devamos esquecer as
diferenças fisiológicas entre os dois). Num sonho comum são preenchidas três
condições necessárias para a EFC: imaginação fértil, suspensão do consenso de
realidade e uma quase total eliminação dos influxos sensorials. O que falta é a clareza
de pensamento e o controle intencional necessários para acompanhá-las. Portanto,
podemos verificar que se uma pessoa se toma lúcida dentro de um sonho e se, na
expressão de Fox, a faculdade crítica está desperta, então todas as condições para uma
EFC são preenchidas. Evidentemente, a pessoa pode escolher continuar vivenciando as
imagens oníricas que tinha antes. Se elas apresentam uma qualidade fantástica, é
provável que ele qualifique a experiência de sonho. Mas, se elas ocorrem dentro dos
padrões normais de realidade, ele poderá chamá-la de uma EFC. Ou ainda, mais
especificamente, se a pessoa raciocina da seguinte maneira: “Oh, estou tendo um sonho;
gostaria de saber se conseguiria ver meu próprio corpo adormecido na cama”, então a
experiência se toma uma típica EFC, limitada novamente por outras experiências e
refreada por hábitos de pensamento.
No caso de um sonho translúcido, não há probabilidade de a pessoa regredir ao ponto
de vista normal, porque está dormindo e não reage aos influxos sensoriais. Isto só
ocorrerá se ela acordar, tal como às vezes acon-

305
tece em sonhos translúcidos. O mais provável é que ela passe para um sonho comum ou
para um tipo diferente de sonho translúcido. Tudo isto corresponde àquilo que
conhecemos sobre sonhos translúcidos e dá sentido à sua relação aparentemente íntima
com a EFC.
Venho tratando a EFC como se ela ocupasse um “lugar” dentro de um mundo
multidimensional de experiência imaginária, confinado nos seus diferentes lados por
esta ou aquela outra experiência, no meio das quais possui um nicho de estabilidade
temporária. Apesar de o aspecto espacial ser apenas uma metáfora, ele se adapta bem à
minha intenção. Partindo de uma base puramente materialista, pode-se ver que a
natureza e a estrutura de nossos sistemas nervosos tomam possíveis certas experiências
e outras não. Podemos imaginar um considerável número de estados potenciais deste
sistema altamente complicado, alguns dos quais poderiam ser estáveis, enquanto outros
são “proibidos” ou extremamente instáveis. Além disso, determinados trajetos entre eles
seriam mais fáceis do que outros, devido a similaridades de condições necessárias e à
estabilidade ou instabilidade dos estados interferentes.
Podemos ver que existe possibilidade de construir um mapa deste espaço
multidimensional. A idéia não é original. Alguns estudiosos consideram o I Ching, o
taro e a cabala como exemplos de cartografia do espaço experiencial e muitos outros
mapas foram tentados (39, 91, 146i, 1); até o momento, porém, nenhum mapeamento
deu resultado que permitisse fazer uma simples classificação de EACs, ou que
permitisse relacioná-los com condições fisiológicas ou psicológicas conhecidas e
mensuráveis. Eu acho que para conseguir isto precisamos identificar algumas variáveis
muito importantes que formam, na analogia espacial, dimensões significativas do
espaço e, depois, tentar localizar o que faz com que algumas áreas sejam mais estáveis
do que outras.
É isso o que venho procurando fazer em relação à EFC, ainda que de maneira um
tanto inadequada. Propus quatro pré-requisitos teoricamente importantes. Embora eles
necessitem ser definidos com maior clareza, já demonstrei como eles podem conduzir a
um estado alterado, uma das formas do qual a EFC é semi-estável. Tentei indicar
estados relacionados e mostrar de que forma a experiência pode se transformar em
outras, quando as condições ou as formas de pensamento se alteram; além disso,
assinalei de que modo a EFC deve terminar. Uma vantagem desta abordagem é que leva
a muitas previsões passíveis de teste, mas somente o tempo e a intensificação das
pesquisas mostrarão a sua eficácia diante dos resultados da análise.

306
Em 1972, Charles Tart (146e) formulou o conceito de ciências dos estados
específicos. Se os cientistas pudessem aprender a entrar e a manipular diretamente os
EACs, poderíamos realizar um trabalho científico através do aprendizado e da
comunicação a partir de dentro desses estados. O futuro da pesquisa sobre a EFC poderá
residir na tentativa de trazer este tipo de experiência subjetiva para o domínio público da
experiência científica.
Obviamente, teremos de aprender muitas aptidões novas, mas nesse sentido os
experimentos de pessoas iniciadas e a longa tradição de aprendizado esotérico poderiam
nos ser úteis. Vistos como mapas do espaço experiencial, talvez venhamos a descobrir
que essas velhas tradições constituem guias melhores do que pensávamos para o
pesquisador moderno. É até mesmo possível que a abordagem psicológica comece a
trazer luz sobre as regiões e planos ainda tão confusos do “mundo astral”. Poder-se-á
vê-los, então, como reflexos da estrutura e organização do cérebro e dos seus sistemas
de funcionamento.
Viajar pelo astral pode ser um processo de explorar os conteúdos da própria memória
e imaginação, restituídos à existência por um novo método de pensamento num estado
especial de consciência. A representação mais mundana do mapa cognitivo pode ser
vista como formando uma região inferior do astral, enquanto os monstros e criaturas
próprios das fantasias da infância habitam uma outra região. Serão os “planos
superiores” estados de consciência que envolvem meios de percepção que a maioria de
nós não consegue atingir? Muitos ocultistas rejeitariam esta interpretação, mas, a meu
ver, ela tem muito sentido e talvez signifique que poderíamos começar a entender os
ensinamentos ocultos se tentássemos integrá-los à psicologia da memória, imaginação e
consciência.
Gostaria apenas de mencionar mais duas implicações desta abordagem psicológica.
Em primeiro lugar, eu acho que nada deixa o corpo numa EFC. Tudo que se vê é fruto
da própria imaginação da pessoa, o que quer dizer que não há perspectiva de que
ocorram fenômenos paranormais de qualquer espécie durante a EFC. Esta abordagem
não é incompatível com a idéia de que a EFC é um estado psicondutivo, mas se isto for
verdade, constitui apenas um aspecto secundário da teoria.
Poder-se-ia argumentar que isto tira a EFC do campo da pesquisa dos fenômenos
mediúnicos ou parapsicologia; neste caso, porém, quem sai perdendo é a parapsicologia.
Muitos dos fenômenos atualmente classificados de “paranormais” podem acabar se
revelando não serem nada disso, mas não creio que a parapsicologia venha a rejeitá-los
por esse motivo.

307
Tenho esperança de que os parapsicólogos continuarão a investigar a EFC como parte
intrínseca da sua ciência, qualquer que seja a teoria que acabem adotando.
Para finalizar, é claro que ela não informa nada a respeito da questão de
sobrevivência. Nada deixa o corpo numa EFC e, portanto, nada há para sobreviver. Não
quero dizer que não haja sobrevivência; tenho muita esperança de que ela exista, mas,
de acordo com esta teoria, a própria EFC não toma partido nem a favor nem contra
nesta questão.
Alguns leitores podem achar que ela oferece uma perspectiva desanimadora para a
pesquisa sobre a EFC. Eu penso completamente o contrário: que ela é enormemente
estimulante. Trata-se de um estado alterado de consciência sobre o qual pouco sabemos,
que é bastante comum e que podemos facilmente explorar mais a fundo. Espero que,
através desta abordagem psicológica, finalmente possamos compreender muito melhor
do que agora todas as experiências que descrevi neste livro, inclusive a minha própria
que constituiu meu ponto de partida nesta busca. É minha esperança que nos anos
vindouros possamos contar com uma teoria coerente de EACs, incluindo a memória e a
imaginação, dentro da qual a EFC ocupará seu devido lugar como um daqueles espaços
particulares que a mente, por causa de sua inteligência humana, pode explorar.

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