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Barroco

Contra reforma
Durante o século XVI ocorreram profundas transformações na sociedade
européia. Surgia uma nova classe social, a burguesia, que não se encaixava
nas limitações impostas pela Igreja da época. O Renascimento havia
difundido um novo pensamento à população e a burguesia dava um novo
fôlego ao comércio através do qual acumulava seu lucro que a Igreja
condenava como sendo um pecado mortal, renegando as mudanças que
vinham ocorrendo e se atendo aos antigos costumes feudais. Mas, a verdade
é que a Igreja havia se tornado muito poderosa até então e se afastado de
seus dogmas de pobreza, humildade e sofrimento deixando a sociedade
ainda mais descontente. A Igreja se tornara uma ostentação do luxo. Dona de
muitas terras em diversos países (principalmente na Alemanha), a Igreja
começou a se valer de diversos subterfúgios com o intuito de acumular ainda
mais riquezas, como a venda de indulgências e de cargos eclesiásticos. Tudo
isso levou à chamada Reforma, deflagrada por Martinho Lutero (Luteranismo)
na Alemanha. A ele se seguiram João Calvino (Calvinismo) e Henrique VIII
(Anglicanismo) que faria eclodir a última revolta do período das Revoltas
Protestantes.
A esta altura a Igreja já havia perdido o domínio sobre a Inglaterra, metade
da Alemanha e parte de diversos países da Europa. Desta forma, a Igreja se
viu obrigada a tomar medidas drásticas para frear a onda protestante que se
alastrava pela Europa. Assim, foi reaberto antigo Tribunal da Santa
Inquisição. Além disso, a Igreja publicou em 1564 o “Index Libro rum
Prohibitorum”, onde listava todos os livros considerados hereges por pregar
contra os dogmas da Igreja.
Então, em 1545 realizou-se o Concílio de Trento, que duraria até 1563 e pelo
qual a Igreja conseguiu provar que ainda era bastante poderosa para deter as
reformas que haviam se alastrado pela Europa. Dentre uma série de medidas
tomadas no Concílio podemos destacar o fortalecimento da autoridade do
Papa e o surgimento de novas ordens religiosas (como a Companhia de
Jesus). O Concílio decidiu também, criar regras para o clero, os padres
deveriam estudar em seminários, estudando o catolicismo a fundo, coisa que
não acontecia anteriormente, e estabeleceu-se um limite mínimo de idade
para a ordenação: 25 anos para padre e 30 para bispo. Foi estabelecido
também, que a Bíblia só poderia ser interpretada pela Igreja e foram mantidos
os cultos das imagens e da Virgem Maria.
Após a Contra-Reforma ou Reforma Católica o papado havia se fortificado e
a Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola em 1543, tornou-se a
escola dos filhos da nobreza o que ajudou a fortalecer ainda mais a Igreja.

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O período conhecido como Barroco, ou Seiscentismo, é constituído pelas
primeiras manifestações literárias genuinamente brasileiras ocorridas no
Brasil Colônia, embora diretamente influenciadas pelo barroco europeu, isto
é, vindo das Metrópoles. O termo denomina genericamente todas as
manifestações artísticas dos anos 1600 e início dos anos 1700. Além da
literatura, estende-se à música, pintura, escultura e arquitetura da época.

"Vaidade" (sem data), de Domenico Piola


Contexto Histórico
Após o Concílio de Trento, realizado entre os anos de 1545 e 1563 e que
teve como consequência uma grande reformulação do Catolicismo, em
resposta à Reforma protestante, a disciplina e a autoridade da Igreja de
Roma foram restauradas, estabelecendo-se a divisão da cristandade entre
protestantes e católicos.
Nos Estados protestantes, onde as condições sociais foram mais favoráveis à
liberdade de pensamento, o racionalismo e a curiosidade científica do
Renascimento continuaram a se desenvolver. Já nos Estados católicos,
sobretudo na Península Ibérica, desenvolveu-se o movimento chamado
Contrarreforma, que procurou reprimir todas as tentativas de manifestações
culturais ou religiosas contrárias às determinações da Igreja Católica. Nesse
período, a Companhia de Jesus passa a dominar quase que inteiramente o
ensino, exercendo papel importantíssimo na difusão do pensamento
aprovado pelo Concílio de Trento.
O clima geral era de austeridade e repressão. O Tribunal da Inquisição, que
se estabelecera em Portugal para julgar casos de heresia, ameaçava cada
vez mais a liberdade de pensamento. O complexo contexto sociocultural fez
com que o homem tentasse conciliar a glória e os valores humanos
despertados pelo Renascimento com as ideias de submissão e pequenez
perante Deus e a Igreja. Ao antropocentrismo renascentista (valorização do
homem) opôs-se o teocentrismo (Deus como centro de tudo), inspirado nas
tradições medievais.
Essa situação contraditória resultou em um movimento artístico que
expressava também atitudes contraditórias do artista em face do mundo, da
vida, dos sentimentos e de si mesmo; esse movimento recebeu o nome de
Barroco. O homem se vê colocado entre o céu e a terra, consciente de sua
grandeza mas atormentado pela ideia de pecado e, nesse dilema, busca a

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salvação de forma angustiada. Os sentimentos se exaltam, as paixões não
são mais controladas pela razão, e o desejo de exprimir esses estados de
alma vai se realizar por meio de antíteses, paradoxos e interrogações. Essa
oscilação que leva o homem do céu ao inferno, que mostra sua dimensão
carnal e espiritual, é uma das principais características da literatura barroca.
Os escritores barrocos abusam do jogo de palavras (cultismo) e do jogo de
ideias ou conceitos (conceptismo).

Temas frequentes na Literatura Barroca


- fugacidade da vida e instabilidade das coisas;
- morte, expressão máxima da efemeridade das coisas;
- concepção do tempo como agente da morte e da dissolução das coisas;
- castigo, como decorrência do pecado;
- arrependimento;
- narração de cenas trágicas;
- erotismo;
- misticismo;
- apelo à religião.

Arte Barroca
A arte barroca procurou captar a realidade em pleno movimento. Mais do
que estrutura, porém, o que se buscava era o embelezamento de portas e
janelas e da ornamentação de interiores. As colunas, altares e púlpitos eram
recobertos com espirais, flores e anjos – revestidos de ouro –, numa
integração da pintura, escultura e arquitetura, exercendo sobre o espectador
uma grande atração visual. No Brasil, a exploração do ouro e de pedras
preciosas na região de Minas Gerais impulsionou a produção da arte barroca.

Basílica de Nossa Senhora do Carmo em Recife (PE), uma das glórias do barroco brasileiro.

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Última Ceia (1795-1796), do escultor Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho

A influência barroca manifestou-se claramente nas pinturas feitas em tetos e


paredes de igrejas e palácios. As cenas e elementos arquitetônicos (colunas,
escadas, balcões, degraus) proporcionavam uma incrível ilusão de movimento e
ampliação de espaço, chegando, em alguns casos, a dar a impressão de que a
pintura era a realidade, e a parede, de fato, não existisse.

Afresco da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto (MG), por Manuel da Costa Athayde

Basílica do Bom Jesus de Matosinhos, em Contagem (MG)

Barroco no Brasil
O Barroco foi introduzido no Brasil por intermédio dos jesuítas. Inicialmente, no
final do século XVI, tratava-se de um movimento apenas destinado à catequização.
A partir do século XVII, o Barroco passa a se expandir para os centros de produção
açucareira, especialmente na Bahia, por meio das igrejas. Assim, a função da igreja
era ensinar o caminho da religiosidade e da moral a uma população que vivia
desregradamente.
Nos séculos XVII e XVIII não havia ainda condições para a formação de uma
consciência literária brasileira. A vida social no país era organizada em função de
pequenos núcleos econômicos, não existindo efetivamente um público leitor para as
obras literárias, o que só viria a ocorrer no século XIX. Por esse motivo, fala-se
apenas em autores brasileiros com características barrocas, influenciados por fontes
estrangeiras (portuguesa e espanhola), mas que não chegaram a constituir um

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movimento propriamente dito. Nesse contexto, merecem destaque a poesia de
Gregório de Matos Guerra e a prosa do padre Antônio Vieira representada pelos
seus sermões.
Didaticamente, o Barroco brasileiro tem seu marco inicial em 1601, com a
publicação do poema épico Prosopopeia, de Bento Teixeira.
Conheça a seguir os trechos selecionados:

Prosopopeia

Cantem Poetas o Poder Romano,


Sobmetendo Nações ao jugo duro;
O Mantuano pinte o Rei Troiano,
Descendo à confusão do Reino
escuro;
Que eu canto um Albuquerque
soberano,
Da Fé, da cara Pátria firme muro,
Cujo valor e ser, que o Ceo lhe
inspira,
Pode estancar a Lácia e Grega lira.

II

As Délficas irmãs chamar não


quero,
que tal invocação é vão estudo;
Aquele chamo só, de quem espero
A vida que se espera em fim de
tudo.
Ele fará meu Verso tão sincero,
Quanto fora sem ele tosco e rudo,
Que per rezão negar não deve o
menos
Quem deu o mais a míseros
terrenos.

Esse poema, além de traçar elogios aos primeiros donatários da capitania de


Pernambuco, narra o naufrágio sofrido por um deles, o donatário Jorge
Albuquerque Coelho. Apesar de os críticos o considerarem de pouco valor literário,
o texto tem seu valor histórico pois foi a primeira obra do Barroco brasileiro e o
marco inicial do primeiro estilo de época a surgir no Brasil.
Autores
Gregório de Matos Guerra: o Boca do Inferno

Gregório de Matos Guerra nasceu em


Salvador (BA) e morreu em Recife
(PE). Estudou no colégio dos jesuítas e
formou-se em Direito em Coimbra
(Portugal). Recebeu o apelido de Boca
do Inferno, graças a sua irreverente
obra satírica.

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Gregório de Matos firmou-se como o primeiro poeta brasileiro: cultivou a poesia
lírica, satírica, erótica e religiosa. O que se conhece de sua obra é fruto de
inúmeras pesquisas, pois Gregório não publicou seus poemas em vida. Por essa
razão, há dúvidas quanto à autenticidade de muitos textos que lhe são atribuídos.
O poeta religioso
A preocupação religiosa do escritor revela-se no grande número de textos que
tratam do tema da salvação espiritual do homem. No soneto a seguir, o poeta
ajoelha-se diante de Deus, com um forte sentimento de culpa por haver pecado, e
promete redimir-se. Observe:
Soneto a Nosso Senhor
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinquido
Vos tem a perdoar mais empenhado.

Se basta a voz irar tanto pecado,


A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada


Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história.

Eu sou, Senhor a ovelha desgarrada,


Recobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

O poeta satírico
Gregório de Matos é amplamente conhecido por suas críticas à situação econômica
da Bahia, especialmente de Salvador, graças à expansão econômica chegando a
fazer, inclusive, uma crítica ao então governador da Bahia Antonio Luis da Camara
Coutinho. Além disso, suas críticas à Igreja e a religiosidade presente naquele
momento. Essa atitude de subversão por meio das palavras rendeu-lhe o apelido de
"Boca do Inferno", por satirizar seus desafetos
Triste Bahia
Triste Bahia!
ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi abundante.

A ti tricou-te a máquina mercante,


Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e, tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

O poeta lírico
Em sua produção lírica, Gregório de Matos se mostra um poeta angustiado em face
à vida, à religião e ao amor. Na poesia lírico-amorosa, o poeta revela sua amada,
uma mulher bela que é constantemente comparada aos elementos da natureza.
Além disso, ao mesmo tempo que o amor desperta os desejos corporais, o poeta é
assaltado pela culpa e pela angústia do pecado.
À mesma d. Ângela
Anjo no nome, Angélica na cara!
Isso é ser flor, e Anjo juntamente:

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Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara:

Quem vira uma tal flor, que a não cortara,


De verde pé, da rama fluorescente;
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus o não idolatrara?

Se pois como Anjo sois dos meus altares,


Fôreis o meu Custódio, e a minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda,


Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
O poeta erótico
Também alcunhado de profano, o poeta exalta a sensualidade e a volúpia das
amantes que conquistou na Bahia, além dos escândalos sexuais envolvendo os
conventos da cidade.
Necessidades Forçosas da Natureza Humana
Descarto-me da tronga, que me chupa,
Corro por um conchego todo o mapa,
O ar da feia me arrebata a capa,
O gadanho da limpa até a garupa.
Busco uma freira, que me desemtupa
A via, que o desuso às vezes tapa,
Topo-a, topando-a todo o bolo rapa,
Que as cartas lhe dão sempre com chalupa.
Que hei de fazer, se sou de boa cepa,
E na hora de ver repleta a tripa,
Darei por quem mo vase toda Europa?
Amigo, quem se alimpa da carepa,
Ou sofre uma muchacha, que o dissipa,
Ou faz da mão sua cachopa.

Padre Antônio Vieira

Padre Antônio Vieira nasceu em


Lisboa, em 1608, e morreu na Bahia,
em 1697. Com sete anos de idade,
veio para o Brasil e entrou para a
Companhia de Jesus. Por defender
posições favoráveis aos índios e aos
judeus, foi condenado à prisão pela
Inquisição, onde ficou por dois anos.

Padre Antônio Vieira, por Arnold van


Westerhout (1651-1725)

Responsável pelo desenvolvimento da prosa no período do barroco, Padre Antônio


Vieira é conhecido por seus sermões polêmicos em que critica, entre outras coisas,
o despotismo dos colonos portugueses, a influencia negativa que o Protestantismo
exerceria na colônia, os pregadores que não cumpriam com seu ofício de catequizar
e evangelizar (seus adversários católicos) e a própria Inquisição. Além disso,
defendia os índios e sua evangelização, condenando os horrores vivenciados por
eles nas mãos de colonos e os cristãos-novos (judeus convertidos ao Catolicismo)
que aqui se instalaram. Famoso por seus sermões, padre Antônio Vieira também se
dedicou a escrever cartas e profecias.
Mito do Sebastianismo

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Com o desenvolvimento do mercado marítimo, Portugal vivenciou um período de
ascenção e grandeza. Porém, com o declínio do comércio no Oriente, Portugal viveu
uma crise econômica e dinástica. Como consequência, o então rei de Portugal D.
Sebastião resolve colocar em prática seu plano de organizar uma cruzada em
Marrocos e levando à batalha de Alcacer-Quibir em 1578.
A derrota na batalha e seu dedesaparecimento (provável morte em batalha), gerou
especulações acerca de seus paradeiro. A partir de então, originou-se a crença de
que o rei retornaria para transformar Portugal novamente em uma grande potência
econômica. Padre Antônio Vieira era um dos que acreditavam no Sebastianismo e,
mais adiante, Antônio Conselheiro anunciava o retorno de D. Sebastião nos
episódios da Guerra de Canudos.
Os sermões
Escreveu cerca de duzentos sermões em estilo conceptista, isto é, que privilegia a
retórica e o encadeamento lógico de ideias e conceitos. Estão formalmente divididos
em três partes:
Intróito ou Exórdio: a apresentação, introdução do assunto.
Desenvolvimento ou argumento: defesa de uma ideia com base na
argumentação.
Peroração: parte final, conclusão.
Seus sermões mais mais famosos são:
Sermão da Sexágésima (1655):
O sermão, dividido em dez partes, é conhecido por tratar da arte de pregar. Nele,
Padre Antônio Vieira condena aqueles que apenas pregam a palavra de Deus de
maneira vazia. Para ele, a palavra de Deus era como uma semente, que deveria ser
semeada pelo pregador. Por fim, o padre chega à conclusão de que, se a palavra de
Deus não dá frutos no plano terrreno a culpa é única e exclusivamente dos
pregadores que não cumprem direito a sua função. Leia um trecho do sermão:
Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que "saiu o pregador evangélico a semear" a palavra divina.
Bem parece este texto dos livros de Deus ão só faz menção do semear, mas também faz caso do sair: Exiit,
porque no dia da messe hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. (...) Entre os
semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a
semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se
contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em
casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura e
hão-lhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os
de lá, com mais passos: Exiit seminare. (...) Ora, suposto que a conversão das almas por meio da pregação
depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender a
falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus? (...)

Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda


(1640):
Neste sermão, o padre incita os seguidores a reagir contra as invasões Holandesas,
alegando que a presença dos protestantes na colônia resultaria em uma série de
depredações à colônia. Leia um trecho do sermão:
Se acaso for assim — o que vós não permitais — e está determinado em vosso secreto juízo, que entrem os
hereges na Bahia, o que só vos represento humildemente, e muito deveras, é que, antes da execução da
sentença, repareis bem, Senhor, no que vos pode suceder depois, e que o consulteis com vosso coração
enquanto é tempo, porque melhor será arrepender agora, que quando o mal passado não tenha remédio.
Bem estais na intenção e alusão com que digo isto, e na razão, fundada em vós mesmo, que tenho para o
dizer. Também antes do dilúvio estáveis vós mui colérico e irado contra os homens, e por mais que Noé

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orava em todos aqueles cem anos, nunca houve remédio para que se aplacasse vossa ira. Romperam-se
enfim as cataratas do céu, cresceu o mar até os cumes dos montes, alagou-se o mundo todo: já estaria
satisfeita vossa justiça, senão quando ao terceiro dia começaram a boiar os corpos mortos, e a surgir e
aparecer em multidão infinita aquelas figuras pálidas, e então se representou sobre as ondas a mais triste e
funesta tragédia que nunca viram os anjos, que homens que a vissem, não os havia.

Sermão de Santo Antônio (1654):


Também conhecido como "O Sermão dos Peixes", pois nele o padre usa a imagem
dos peixes como símbolo para fazer uma crítica aos vícios dos colonos portugueses
que se aproveitavam da condição dos índios para escravizá-los e sujeitá-los ao seu
poder. Leia um trecho do sermão:
Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra,
porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra
se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode
ser a causa desta corrupção? (...) Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao
menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera
desconsolar o Pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão
ordinária, que já pelo costume quase se não sente (...) Suposto isto, para que procedamos com clareza,
dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas atitudes, no segundo
repreender-vos-ei os vossos vícios. (...)

RESUMO

O Barroco: século XVII

CONTEXTO HISTÓRICO

- Contrarreforma;

- Renascimento.

CARACTERÍSTICAS

- Conflito entre corpo e alma;

- Passagem do tempo;

- Cultismo e conceptismo;

- Figuras de linguagem.

PRINCIPAIS AUTORES

- Bento Teixeira;

- Gregório de Matos Guerra;

- Padre Antonio Vieira.

Barroco – Características
O estilo barroco nasceu em decorrência da crise do Renascimento, ocasionada,
principalmente, pelas fortes divergências religiosas e imposições do catolicismo e pelas
dificuldades econômicas decorrentes do declínio do comércio com o Oriente.
Todo o rebuscamento presente na arte e literatura barroca é reflexo dos conflitos
dualistas entre o terreno e o celestial, o homem (antropocentrismo) e Deus
(teocentrismo), o pecado e o perdão, a religiosidade medieval e o paganismo presente no
período renascentista.

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1) A arte da contrarreforma
A ideologia do Barroco é fornecida pela Contrarreforma. Em nenhuma outra época se
produziu tamanha quantidade de igrejas, capelas, estátuas de santos e monumentos
sepulcrais. As obras de arte deviam falar aos fiéis com a maior eficácia possível, mas em
momento algum descer até eles. A arte barroca tinha que convencer, conquistar e impor
admiração.
2) Conflito entre corpo e alma
O Renascimento definiu-se pela valorização do profano, pondo em voga o gosto pelas
satisfações mundanas. Os intelectuais barrocos, no entanto, não alcançam tranquilidade
agindo de acordo com essa filosofia. A influência da Contrarreforma fez com que houvesse
oposição entre os ideais de vida eterna em contraposição com a vida terrena e do espírito
em contraposição à carne. Na visão barroca, não há possibilidade de conciliar essas
antíteses: ou se vive a vida sensualmente, ou se foge dos gozos humanos e se alcança a
eternidade. A tensão de elementos contrários causa no artista uma profunda angústia:
após arrojar-se nos prazeres mais radicais, ele se sente culpado e busca o perdão divino.
Assim, ora ajoelha-se diante de Deus, ora celebra as delícias da vida.
3) O tema da passagem do tempo
O homem barroco assume consciência integral no que se refere à fugacidade da vida
humana (efemeridade): o tempo, veloz e avassalador, tudo destrói em sua passagem. Por
outro lado, diante das coisas transitórias (instabilidade), surge a contradição: vivê-las,
antes que terminem, ou renunciar ao passageiro e entregar-se à eternidade?
4) Forma tumultuosa
O estilo barroco apresenta forma conturbada, decorrente da tensão causada pela oposição
entre os princípios renascentistas e a ética cristã. Daí a frequente utilização de antíteses,
paradoxos e inversões, estabelecendo uma forma contraditória, dilemática. Além disso, a
utilização de interrogações revela as incertezas do homem barroco frente ao seu período e
a inversão de frases a sua tentativa na conciliação dos elementos opostos.
5) Cultismo e conceptismo
O cultismo caracteriza-se pelo uso de linguagem rebuscada, culta, extravagante, repleta
de jogos de palavras e do emprego abusivo de figuras de estilo, como a metáfora e a
hipérbole. Veja um exemplo de poesia cultista:
Ao braço do Menino Jesus de Nossa Senhora das Maravilhas, A quem infiéis despedaçaram

O todo sem a parte não é todo;


A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo o todo. (Gregório de Matos)

Já o conceptismo, que ocorre principalmente na prosa, é marcado pelo jogo de


ideias, de conceitos, seguindo um raciocínio lógico, nacionalista, que utiliza uma
retórica aprimorada. A organização da frase obedece a uma ordem rigorosa, com o
intuito de convencer e ensinar. Veja um exemplo de prosa conceptista:
Para um homem se ver a si mesmo são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é
cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelhos e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de
luz. Logo, há mister¹ luz, há mister espelho e há mister olhos. (Pe. Antônio Vieira)

¹mister: necessidade de, precisão.

Figuras de Linguagem no Barroco

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As figuras de estilo mais comuns nos textos barrocos reforçam a tentativa de
apreender a realidade por meio dos sentidos. Observe:
Metáfora: é uma comparação implícita. Tem-se como exemplo o trecho a seguir,
escrito por Gregório de Matos:
Se és fogo, como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?

Antítese: reflete a contradição do homem barroco, seu dualismo. Revela o


contraste que o escritor vê em quase tudo. Observe a seguir o trecho de Manuel
Botelho de Oliveira, no qual é descrita uma ilha, salientando-se seus elementos
contrastantes:
Vista por fora é pouco apetecida
Porque aos olhos por feia é parecida;
Porém, dentro habitada
É muito bela, muito desejada,
É como a concha tosca e deslustrosa,
Que dentro cria a pérola formosa.

Paradoxo: corresponde à união de duas ideias contrárias num só pensamento.


Opõe-se ao racionalismo da arte renascentista. Veja a estrofe a seguir, de Gregório
de Matos:
Ardor em firme Coração nascido;
pranto por belos olhos derramado;
incêndio em mares de água disfarçado;
rio de neve em fogo convertido.

Hipérbole: traduz ideia de grandiosidade, pompa. Veja mais um exemplo de


Gregório de Matos:
É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.

Prosopopeia: personificação de seres inanimados para dinamizar a realidade.


Observe um trecho escrito pelo Padre Antonio Vieira:
No diamante agradou-me o forte, no cedro o incorruptível, na águia o sublime, no Leão o generoso, no Sol o
excesso de Luz.

Durante o Renascimento o homem cresceu bastante, adquiriu autoconfiança, se


tornou senhor da terra, mares, ciência e arte; libertou-se aos poucos da fé
medieval.

Essa libertação foi marcada principalmente pela Reforma Protestante que atingiu
diretamente a igreja.

A Companhia de Jesus foi fundada para combater o Protestantismo.

Durante esse momento de dualismo e contradição surgiu o Barroco que


expressava artisticamente todo o período.

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O espírito contraditório da época que se dividiu entre as influências do
Renascimento e da religiosidade foi registrado pela arte barroca.

Contexto histórico

O Barroco corresponde à segunda etapa da Era Clássica, iniciou-se no fim do


século XVI, teve seu ápice no século XVII, e se prolongou até o início do século
XVIII. O movimento surgiu como uma forma de reagir às tendências humanistas,
tentando reencontrar a tradição cristã.

Vivia-se a revolução comercial, a política econômica era o mercantilismo. A


burguesia detinha o poder econômico. O Estado absolutista se consolidava, esse
sistema era voltado para atender às necessidades da burguesia.

O século XVII foi marcado pelos reflexos das crises religiosas, essas ocorreram no
século anterior, dentre as quais se destacam a Reforma Protestante e a Contra-
Reforma.

Características da nova estética:

- Culto do contraste: o Barroco procurava aproximar os opostos como


carne/espírito, pecado/perdão, céu/terra etc.

- Conflito entre o “eu” e o “mundo”: o artista encontra-se dividido entre a fé e a


razão.

- Pessimismo: o pessimismo marca muitos textos e manifestações artísticas do


Barroco.

- Fusionismo: fusão das visões medieval e renascentista.

- Feísmo: a miséria da condição humana é explorada.

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A linguagem barroca:

- Emprego constante de figuras de linguagem;

- Uso de uma linguagem requintada;

- Exploração de temas religiosos;

-Consciência de que a vida é passageira: ao mesmo tempo em que o homem ao


pensar na efemeridade da vida busca a salvação espiritual ele tem desejo de
gozar dessa antes que acabe;

- Cultismo: exploração dos efeitos sensoriais.

- Jogo de idéias: formado por sutilezas do raciocínio e do pensamento lógico.

Na estética barroca, observam-se duas tendências: o cultismo e o conceptismo.

- O cultismo se refere à exploração de elementos sensoriais, baseadas em figuras


de linguagem.

- O conceptismo se caracteriza pelo uso de conceitos, linguagem marcada pelo


jogo de idéias e pelo raciocínio lógico.

O cultismo predomina na poesia e o conceptismo na prosa.

Exemplo de poesia barroca:

Buscando a Cristo

A vós correndo vou, braços sagrados,

Nessa cruz sacrossanta descobertos

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Que, para receber-me, estais abertos,

E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados

De tanto sangue e lágrimas abertos,

Pois, para perdoar-me, estais despertos,

E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,

A vós, sangue vertido, para ungir-me,

A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,

A vós, cravos preciosos, quero atar-me,

Para ficar unido, atado e firme.

(Gregório de Matos. In: Antonio Candido e J. A. Castelo. Presença da literatura


brasileira – Das origens ao Romantismo. São Paulo: Difel, 1968. p. 73.)

Teatro Barroco Espanhol: O Século de Ouro

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Chamado de a arte da contra-reforma era simultaneamente uma reação ao
materialismo renascentista e às idéias reformistas de Lutero e Calvino e um
retorno à tradição cristã. Os dramaturgos espanhóis do século XVII tinham
profundas raízes na tradição popular, falando mais ao povo, e desprezando as
imposições eruditas de muitos dramaturgos da renascença. Em 1609, Lope de
Vega (dramaturgo e poeta) publicou a obra 'Arte Nuevo de Hacer Comedias"
apontando os elementos básicos da produção teatral da época:

- Divisão da obra em três atos;

- Ruptura da unidade de ação;

- Mistura do trágico com o cômico;

- Ruptura das unidades clássicas de tempo e lugar;

- Composição em verso.

O Teatro do Renascimento às Luzes

O Renascimento, de facto, foi a idade de ouro do teatro europeu. Apesar das


limitações ao profano que o Concílio de Trento logo em 1548 tentou impor, o
teatro perdeu a sua quase exclusiva componente sacra da Idade Média. Assumiu-
se cada vez mais como "teatro popular", mas já mais "profissionalizado", com a
comédia separada da tragédia e com os autores a ganharem importância e
independência criativa. O carácter sacro não se perdeu, porém, principalmente
em Espanha (com os seus autos sacramentales). A comédia ganhou novo alento
na Itália, graças à influência do folclore, assistindo-se ao apogeu da commedia
dell´arte, com a Pulcinella ou o Pantalone, que influenciaria imenso vários
autores, como, por exemplo, Molière. O teatro "nacional" desenvolveu-se,
principalmente em Inglaterra e Espanha, evocando as memórias antigas e os
feitos e grandezas do passado, misturando o mundo da cavalaria com os clássicos
redescobertos. Isso mesmo pode ver-se em Shakespeare, um autor do seu tempo
e dos tempos antigos, com o seu Falstaff, por exemplo.

Os adros das igrejas eram entretanto substituídos por novos "palcos", mais
profanos, mais concorridos e com públicos mais diversificados: da estalagem às
praças, das feiras aos salões reais. Aparecem as companhias, os géneros, os
15
guarda-roupas e cenários, e até lucro com os bilhetes das peças, por via de
investimentos importantes, mecenato ou atores particulares (reis, famílias...). Os
grandes autores deste teatro renascentista foram, para além de Shakespeare,
Lope de Vega e Marlowe, Beaumont, Fletcher ou Ben Jonson, entre outros.

O teatro não mais deixou de ganhar em fulgor e redescoberta, apurando-se


géneros como a comédia, principalmente, graças a autores como Marivaux e
Beaumarchais, em França, ou Goldoni, em Itália. A ópera, uma das grandes
paixões do século XVIII, conferiu ainda mais força ao teatro. A tragédia, que
evoluiu mais para o drama e para o melodrama, declinou nos séculos XVII e XVIII,
pois mantinha ainda um profundo sentimento social e religioso. A tragédia
heroica, de Corneille ou Racine, será uma exceção a esse declínio.

Na segunda metade do século XVIII, com Voltaire, o teatro adapta-se à sua época,
simplificando-se cenicamente, em relação à ópera, principalmente. Se o
repertório é ainda o do século XVII, de Racine, Shakespeare, Molière, dos
espanhóis, os espaços são já diferentes, mais apropriados e dignificados
cenicamente, tanto em teatros como em palácios ou abadias imperiais (como
Einsiedeln, dos Esterházy). Entretanto, o século XVIII verá nascer dois novos
géneros, a comédia sentimental, com o irlandês Steele, e a tragédia doméstica,
com o inglês Lillo.

Arte Barroca

Não há qualquer exagero em dizer que a Arte Barroca é reacionária. Como


movimento, o Barroco surgiu como uma contraposição à Reforma Protestante
iniciada por Martinho Lutero. O cânon promulgado no Concílio de Trento ( 1545-
63 ) iniciou a Contra-Reforma e determinou que as pinturas e esculturas
representativas nas igrejas apelassem para os sentimentos e mentes dos menos
intelectuais, das pessoas simples, que estavam mais vulneráveis a uma exposição
da retórica luterana e que as manifestações artísticas fossem empregadas
primariamente como instrumento de propagação da fé cristã e da doutrina da
Igreja Católica. Assim, os elementos estéticos desse movimento serviriam à
popularização das artes como instrumento para a divulgação das doutrinas
católicas, frente à expansão das idéias protestantes. Do ponto de vista prático,
entretanto, o período barroco teve início em 1580 na Itália e logo desenvolveu-se
na Espanha e Portugal (países predominantemente católicos), e desses países se

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propagou para todos os centros culturais da Europa e do Novo Mundo. Como
movimento, perdurou até cerca de 1756, quando foi sucedido pelo Classicismo. O
termo barroco significa detalhe, saliência ou imperfeição. Originou-se da frase
portuguesa "perola barroca (irregular)", usado para indicar uma pérola de forma
irregular, de textura áspera e cheia de imperfeições ou desprovida da esférica, .
Isto não quer dizer que a arte barroca pudesse admitir imperfeições, mas tão
somente uma alusão à sua riqueza de detalhes. Sabe-se, todavia, que nesse
período estilístico riquíssimo da História Ocidental, o termo barroco nem era
utilizado ou conhecido por aqueles que fizeram o movimento. Tudo indica que
essa denominação seja uma inserção posterior que, de início, tinha uma
conotação pejorativa, devido ao abuso dos detalhes, ao excessivo apelo
dramático/emocional, ao emprego de elementos estéticos rebuscados, contrários
a racionalidade e sobriedade do Renascimento.

Embora na origem, o barroco tenha surgido para elevar o fervor religioso, logo
atraiu a atenção da nobreza e da aristocracia, que viam no estilo possibilidades de
autopromoção e engrandecimento. Assim surgiram temas heróicos, míticos e
mitológicos com forte apelo ao respeito pela hierarquia e cultivo das virtudes.

Foi um estilo vigoroso, com forte fundamento teórico e marcado por


características que o diferenciava bastante do estilo Renascentista. Ao contrário
deste, o Barroco primava pelo emocional sobre o racional, deixando o artista livre
de qualquer regra ou padrão rígidos para obter uma completa liberdade em sua
criação. Como meio de expressão artística, os elementos estéticos/filosóficos do
Barroco se fizeram presentes sobretudo na Pintura, Escultura e Arquitetura, mas
também com notável intensidade na Música, Literatura e nas Artes Dramáticas.

O Barroco na Pintura

Essa reviravolta em direção a um conceito popular nas funções das artes sacras,
ao contrário da abordagem acadêmica e elitista do Renascimento, está na origem
do esforço dos pintores italianos, exatamente aqueles que estavam mais
próximos ao centro de influência da Igreja, Roma. As inovações de Caravaggio
(1571-1610) e dos irmãos Carracci são consideradas as primeiras manifestações
dessa tendência nas artes visuais. Caravaggio utilizava um plano escuro, por vezes
completamente negro, e iluminava os elementos principais do tema com um
17
impressionante jogo de luz. Essa disposição conferia realismo e dramaticidade à
sua pintura, trazendo os elementos retratados para o primeiro plano e levando o
expectador, com toda a emoção possível, para dentro da cena.

*Não confundir com Michelangelo di Ludovico Buonarroti Simoni (1475-1564) o


famoso pintor, escultor, poeta e arquiteto renascentista italiano.

Entre a família Carracci de Bolonha, Itália, destacaram-se Agostino (1557-1602) e


seu irmão Annibale (1560-1609), Antônio (1583-1618) e Francesco (1595-1622)
sobrinhos de Annibale. Ludovico (1555-1619) era primo de Agostino e Annibale.
Todos com importância reconhecida na pintura desse período.

No barroco não havia o rigor geométrico elaborado dos renascentistas. O


elemento cênico principal poderia muito bem nem estar no centro do quadro.
Havia sim, uma preocupação sobre o emocional, habilmente permitido fluir, da
cena para o expectador, nos contornos salientados pela dicotomia luz/escuridão,
pela combinação de cores, pelo dinamismo e movimento, pelas faces e corpos
retorcidos, pela textura da pele viva, tenra ou musculosa, pela dramaticidade ou
pela suavidade, porém sempre a serviço da emoção que podia gerar. Esta foi a
marca registrada na pintura barroca, vista em sua plena força, também, nos
espanhóis Velázques (1599-1660) e Murillo (1618-1682), nos belgas Van Dyck
(1599-1641) e Frans Hals (1583-1666), nos holandeses Rembrandt (1606-1669) e
Vermeer (1632-1675) e no flamengo Rubens (1577-1640).

Nos países de predominância protestante, como Holanda, Alemanha e a Região


flamenga (Flandres, atualmente na Bélgica), havia uma maior permissão ao livre
pensar, e isso contribuiu para que a pintura se aventurasse por uma visão mais
pertinente aos eventos seculares do cotidiano. Ainda assim, havia essa tendência
religiosa bem próxima das origens do barroco, mas, nesse caso, o movimento
floresceu como instrumento de inspiração cristã, não necessariamente ligado à
doutrina católica

Barroco na Arquitetura e Escultura

Nas disposições artísticas do Século XVII, a arquitetura e as esculturas estão


entrelaçadas de tal forma, que se faz necessário analizá-las conjuntamente.
Ambas procuravam impressionar pela grandiosidade no interior das construções,
evocando as mesma emoções de piedade e fervor religioso característico do

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estilo. As igrejas e capelas, com suas fachadas relativamente simples, guardavam
em seus interiores toda a grandiosidade nos adornos, capitéis, nas colunas, nos
altares e nichos laterais que finalmente conduziam ao altar principal, num
crescente grandeur, como que preparando o visitante numa seqüência de
surpresas, que o levasse à experiência emocional, à reverência e ao afloramento
ou fortalecimento da fé.

Os arquitetos empregavam a mesma disposição dualística claro/escuro nos


elementos arquitetônicos, aos quais mesclavam esculturas iconográficas ou
meramente decorativas pintadas ou não, combinadas com quadros da pintura
representativa do período. Podemos destacar as esculturas figurativas ou
iconográficas, onde força e dinamismo estão presentes nas formas humanas ou
animais. As figuras humanas representam divindades, santos, membros da
nobreza e aristocracia, heróis nacionais ou mitológicos, dispostos de maneira a
inspirar emoções e valores elevados. As esculturas figurativas barrrocas eram
concebidas para integrarem um conjunto harmônico e combinado com a
arquitetura de tal maneira que não se poderia dizer se elas serviam como
decoração ao edifício ou este foi construído apenas para abrigá-las. As figuras
eram dispostas em grupos ou solitárias, sempre com o objetivo de causar uma
emoção de certa forma planejada. Quando em grupos, as figuras assumiam uma
disposição circular ou espiralada, com bastante espaço vazio entre elas para
serem admiradas a partir de ângulos diferentes e trazer o observador para o meio
da cena.

Com finalidade decorativa, os artistas barrocos utilizavam motivos florais ou


geométricos, com predominância das curvas e valorização do entalhe na
construção de altares e nichos, com luxo na decoração e aplicação a ouro. Várias
técnicas eram usadas, dentre as quais uma, denominada Trompe l'oeil e ainda de
uso corrente, emprega truques de perspectiva, cores, luz e sombra, para criar
objetos ou formas que na verdade não existem, num interessante e
desconcertante efeito de ilusão de ótica. A expressão Trompe l'oeil é proveniente
da língua francesa e significa 'engana o olho'. Como um exemplo desse truque,
temos a figura ao lado: o que realmente existe é a parede . . . tudo o mais é
pintura ! A nobreza e a aristocracia logo viram na retórica dramática da
arquitetura e arte barroca a oportunidade de igualmente impressionar visitantes,
ao evocar a idéia triunfal de controle e poder. A simplicidade das fachadas

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disfarçavam o que estava disposto nas áreas internas, com pórticos
monumentais, ante-salas e recepções impressionantes que levavam a outras
ante-salas e finalmente à sala principal, onde escadarias majestosas impunham
reverência e poder.

O barroco preocupava-se em manter a hierarquia vigente na Igreja e no Estado,


conferindo poder absoluto aos papas, aos reis e à aristocracia. Defendia, pois, a
manutenção do absolutismo em ambas as esferas. Como expressão estilística
secular, a arquitetura barroca manifestou-se na forma de grandes palácios,
inicialmente na França, a exemplo do Château de Maisons (1642) do arquiteto
François Mansart (1598-1666), e logo se espalhou por toda Europa. No Brasil há
de destacar o talento incomum de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730-
1814), arquiteto, escultor, desenhista, construtor e entalhador maior do barroco
brasileiro. Sua obra prima é o conjunto denominado Os doze Profetas esculpido
em pedra-sabão, disposto no pátio do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos em
Congonhas, Minas Gerais.

Música Barroca

Se considerarmos que o estilo barroco predominou de 1580 até 1756, a


denominação "Música Barroca" surgiu num período posterior, em torno de 1919
por sugestão do historiador da arte e musicólogo alemão Curt Sachs (1881-1959).
Apesar de que tenham existido compositores de musicalidade tão diversa quanto
os italianos Jacopo Peri (1561-1633) e Domenico Scarlatti (1685-1757) e o alemão
J. S. Bach (1685-1750), há, entretando, que se atentar para as diferenças
marcantes dá música desse período com os períodos anterior e posterior na
história da música, quais sejam: Renascimento e Clássico respectivamente. Essas
diferenças foram suficientes para a identificação da música desse período, que
compartilhava valores estético-filosóficos e os mesmos propósitos doutrinários e
ideológicos das outras artes do período. Assim fica muito claro definir a música
dessa época como sendo barroca. Houve um notável desenvolvimento da teoria
musical, da tonalidade diatônica e do contraponto imitativo. Foi uma época de
ornamentação musical bem mais elaborada com muitas mudanças na notação
musical. O forte apelo emocional, visando o fervor religioso, fêz-se sentir na
música barroca em perfeita consonância ao espírito da época. Grandes
compositores enriqueceram a música desse período com dedicação e talento,
entre os quais se destacaram os italianos Alessandro Scarlatti (1660-1725), o
20
compositor e violinista Arcangelo Corelli (1653-1713) cujo estilo seria adotado
como a técnica de tocar o violino predominante nos 200 anos seguintes, Nicola
Porpora (1689-1767) que seria o mestre de Joseph Haydn (1732-1809), grande
compositor do Período Clássico; o inglês Henry Purcell (1659-1695), o alemão
Gottfried Heinrich Stölzel (1690-1749) e o francês Jean-Baptiste Lully (1632-1687).

Muitos são os músicos, compositores e renomados mestres dessa música


estilística que sucedeu ao Renascentismo. Vivaldi, Handel e Bach, entretanto, são
os maiores e mais completos representantes da música barroca.

Antonio Lucio Vivaldi (1687-1741) era um sacerdote católico, nascido em Veneza


e exímio violinista. Foi um compositor bastante prolífico, com uma obra
impressionante, tanto em densidade e importância musical, quanto em
quantidade com a incrível cifra de mais de 500 concertos, 210 dos quais
dedicados ao solo para violino e violoncelo, 46 óperas, 73 sonatas, 23 sinfonias e
inúmeras músicas de câmara e peças sacras. Difundiu o concerto grosso, onde
mais de um solista alterna com o restante da orquestra e nesse estilo, sua peça
mais conhecida é As Quatro Estações (1723). Apesar da rígida formação
acadêmica, Vivaldi demonstrava grande alegria em compor, com igual paixão,
música sacra e profana. Era capaz de compor música bem ao gosto popular, o que
o tornaria bastante famoso no seu tempo, dentro e fora da Itália. Bach recebeu
forte influência do mestre italiano, e com freqüência transcrevia as peças deste,
para violino e violoncelo, adaptando-as para teclas solo e orquestra. Como
exemplo disso temos o Estro armonico (1712), que é um conjunto de doze
concertos grosso, seis dos quais transcritos por Bach para cravo e órgão.

Compôs notadamente música sacra, com destaque para o oratório Juditha


Triumphans, três Gloria catalogados sob os números RV 588, RV 589 e RV 590
(esse jamais encontrado) e ainda as obras Stabat Mater, Nisi Dominus, Beatus Vir,
a belíssima Magnificat e Dixit Dominus entre outras.

George Frideric Haendel (1685-1759) era filho de um cirurgião-barbeiro que não


o queria vê-lo tornar-se músico, o que não conseguiu inibir o telento natural do
menino. Em 1703 transferiu-se para Hamburgo, então o centro teatral e musical
da Alemanha, onde estudaria música com o renomado mestre organista
F.W.Zachau, da catedral de Nossa Senhora, em Halle. Aos onze anos já era um
mestre no órgão, violino, cravo e outros instrumentos e começara a compor,

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dominando com desenvoltura a arte da polifonia e do contraponto. Aos 20 anos
de idade, sua primeira ópera, Almira, foi apresentada com grande sucesso. Em
1706, viajou à Itália, numa jornada que durou três anos. Entrou em contato com
a música e os mestres italianos, recebendo forte influência de Alessandro
Scarlatti. As suas obras foram apresentadas em Florença, Roma, Nápoles e
Veneza, sempre com enorme repercussão, obtendo reconhecimento e prestígio.
Ao retornar da Itàlia em 1710, Haendel se estabelece em Hannover como diretor
da orquestra da corte. No ano seguinte viaja à Londres, onde apresenta sua ópera
Rinaldo. Diante do sucesso obtido, é convidado a permanecer na Inglaterra, com a
missão de criar um teatro real de ópera que ficou conhecido como a Royal
Academy of Music. Entre 1720 e 1728, Haendel escreveu 14 óperas para essa
academia, o lhe valeu grande popularidade em toda a Europa. Dedicou-se com
igual paixão à composição de óperas e oratórios, estes, entretanto, ocupam lugar
central em sua obra. Compôs 32 oratórios, magníficas peças corais, os quais eram
apresentados em ocasiões solenes por coros grandiosos de várias dezenas de
cantores. Entre seus principais oratórios destacam-se Esther (1718), Athalia
(1733), Saul (1739), Israel no Egito (1739), Messias (1742), Sansão (1743), Judas
Maccabaeus (1747), Solomão (1748) e Jephtha (1752). Suas óperas (compôs cerca
de 40), apesar de contarem com produções esmeradas nos palcos dos teatros,
especialmente na Royal Academy of Music, não tinham a mesma força dramática
de seus oratórios. Podemos destacar as óperas Agripina (1709), Rodelinda (1725),
Ottone e Teofano (1723), Tamerlano (1724), Orlando (1732), Ézio (1733). Júlio
César (1724) é considerada sua obra-prima no gênero. Embora tenha se dedicado
à composição de obras vocais, a produção instrumental de Haendel é
considerável: 110 cantatas, 20 concertos, 39 sonatas, fugas, suítes, obras sacras
para missas e obras orquestrais. Haendel teve na fé luterana uma motivação
profunda para sua música religiosa e, assim como Bach, deu maiores dimensões à
polifonia vocal, com base na polifonia instrumental da música para órgão, pois
eram ambos grandes virtuoses desse instrumento.

Johann Sebastian Bach (1685-1750) foi criado em meio religioso da Igreja


Luterana. Sua música refletia sua devoção e fervor religioso, com destaque
àquelas especialmente compostas para as missas dominicais, as cantatas. Compôs
as famosas paixões, grandes obras para corais que eram executadas nas
cerimônias da semana santa. A Paixão segundo São João (1724) e a Paixão
segundo São Mateus (1729) estão entre suas maiores composições. Bach
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escreveu em 1731 a Paixão segundo São Marcos uma peça que embora tenha sua
existência histórica bem estabelecida, permanece como uma obra perdida.
Apesar de ser um compositor protestante, compôs a grandiosa Missa em si
menor (1733-1738), imbuído de raro espírito ecumênico. Outras obras célebres
do mestre alemão são as Variações Goldberg, uma série de trinta variações para
cravo publicadas a partir de 1741 sob o título Clavierübung (Prática para Teclado),
que se constitui na obra mais séria, complexa e grandiosa composta para cravo.
Sua Arte da Fuga, talvez seja sua obra mais representativa do barroco. Contêm
dezenove fugas, variações sobre um tema, repletas de contraponto, que é uma
característica dominante na música barroca. Bach compôs uma série de trinta
Invenções: quinze a "duas vozes" e outras quinze a "três vozes". Essas últimas,
formam o estilo também conhecido como sinfonia, que não deve ser confundido
com as Sinfonias típicas do Período Clássico. As Invenções, assim nomeadas pelo
próprio Bach, são técnicas compostas com finalidade didática, para treinar a
execução independente das mãos e que desvendam e ensinam de forma simples
as intrincadas nuances da arte musical do contraponto, definidas em temas de
rara inspiração. Os Concertos de Brandenburgo, uma série de seis concertos
grosso, foram compostos sob evidente influência do mestre italiano Vivaldi, de
quem Bach tinha muita admiração. Célebres pela forte densidade polifônica,
esses concertos incorporam temas aristocráticos e do folclore alemão, numa bem
balanceada mistura, desprovida de qualquer conotação extra-musical doutrinária
ou ideológica. É a música pela música, numa perfeita combinação de todos os
instrumentos da orquestra. Os Concertos de Brandenburgo constituem o exemplo
maior da genialidade, inspiração e maturidade musical de Bach. Demonstram
expressividade, fluência, conhecimento e talento musical dignos do maior músico
de todos os tempos. Mais que tudo isso, é pura sabedoria !

Literatura e Teatro Barrocos

A Literatura barroca foi marcada por um forte senso de polaridade ou dualismo.


Neste aspecto, o conflito maior era entre as alegrias e dores da existência terrena
com as delícias e promessas espirituais. O confronto entre o prazer maior e a
perda final, configurados como Eros e Tânatos, estava no centro das alegrias e
dores individuais, enquanto o nacionalismo e o universalismo distendiam a
polaridade dos sentimentos coletivos. O conteúdo emocional competia com o
rigor formal. Tudo demarcava o inevitável conflito entre as necessidades da

23
sociedade versus as do indivíduo. A prosa e a poesia tinham como característica
principal a ênfase na originalidade, com bastante uso de elementos estilísticos
tais como as figuras de linguagem, notadamente metáforas, hipérboles e
antíteses. O objetivo principal era, como sempre, evocar emoções e permitir o
afloramento de religiosidade e virtudes elevadas bem ao espírito da época, tendo
como plano de fundo a natureza, a história e os dramas e sentimentos individuais.
Os escritores e poetas alcançaram popularidade como nunca havia acontecido. A
Literatura estava na vida do povo, mas nisso ela não se fez sozinha. Tornou-se
aliada inseparável de uma manifestação artística poderosa, o Teatro.

O Período Barroco foi sem dúvida o período do Teatro, alimentado


convenientemente por sua irmã, a Literatura. Com sua retórica poderosa, podia
tocar fundo nas emoções humanas trazendo aos palcos o conflito entre os dramas
individuais e as demandas da sociedade. O grande impulso recebido pelo Teatro
veio, no início, de uma fonte inesperada, a Igreja, na figura dos jesuítas. Eles
usaram o teatro como ferramenta pedagógica, com encenações elaboradas,
trazidas das praças para as escadarias das igrejas, palcos improvisados. Nos países
protestantes, a Literatura e o Teatro não seguiram a agenda contra-reformista da
Igreja Católica. Foi exatamente nesses países que o Teatro ganhou força e
independência, deslocando-se gradualmente de uma abordagem popular rumo a
uma linguagem mais intelectual, incorporando a música, as artes plásticas na
confecção de cenários, com uso cada vez mais freqüente de tecnologias diversas
utilizadas para aprimorar a arte da ilusão e causar mais impacto na platéia,
explorando os elementos mais importantes do diálogo entre o Teatro e essas
artes visuais. Na Inglaterra houve o desenvolvimento das famosas Masques,
produções teatrais luxuosas e bem elaboradas, com custosos cenários planejados
e executados por arquitetos e pintores famosos. A popularidade e força do Teatro
viria a consolidar o termo theatrum mundi (o mundo é um palco) como o lema da
época, pela capacidade do teatro para descrever, analisar e entender as
atividades, emoções, anseios e vivências das pessoas e dos acontecimentos em
suas vidas. No barroco, a Literatura e o Teatro estão interligados de tal forma que
caso tivessem tomado rumos independentes, certamente nada seriam. Quase
todos os autores nesse período foram essencialmente dramaturgos. Entre os
mais importantes e representativos podemos citar:

24
Miguel de Cervantes (1547-1616) novelista e dramaturgo espanhol cuja obra
mais conhecida é Dom Quixote.

William Shakespeare (1564-1616) é o maior poeta e dramaturgo inglês conhecido


pelas peças Romeu e Julieta (1595), Rei Lear (1603-06), Macbeth (1603-06),
Hamlet (1599-1601) e Sonhos de uma Noite de Verão (1590). Escreveu 38 peças
das quais 17 comédias, 10 dramas históricos, 11 tragédias, além de 154 sonetos,
vários poemas e muitos outros trabalhos menores.

John Fletcher (1579 – 1625) foi um dos mais prolíficos e influentes dramaturgos
de seu tempo. Obteve reconhecimento e sucesso ainda em vida e os críticos de
então, consideravam-no (juntamente com Ben Johnson) como superior ao próprio
Shakespeare.

Lope de Vega (1562-1635) poeta, dramaturgo e novelista espanhol dominou a


chamada Era de Ouro do teatro da Espanha. Seus trabalhos contam La Arcadia
(1598), La Dragontea (1598), El Isidro (1599), La Hermosura de Angélica (1602) e
uma série de sonetos sacros intitulados Rimas sacras (1614).

Ben Johnson (1572-1637) poeta e dramaturgo inglês, contemporâneo de


Shakespeare e durante o período de vida de ambos era considerado pelos críticos
como superior a este. Johnson, associado ao arquiteto inglês Inigo Jones (1573-
1652), produziu e popularizou o estilo masque, que animava as festividades da
corte dos Stuarts.

Pedro Calderón de la Barca (1600-81) um dos principais dramaturgos da Era


Dourada de teatro espanhol, conhecido por seus Autos Sacramentales, série de
peças religiosas encenadas em um ato apenas.

Pierre Corneille (1606-84) poeta e dramatista francês muito importante na


evolução da dramaturgia neo-clássica do Século XVII.

Jean Baptiste Poquelin Molière (1622-73) dramaturgo e diretor de teatro francês,


o maior artista cômico conhecido.

John Dryden (1631-1700) escritor e dramaturgo inglês cujos dramas heróicos,


comédias e tragédias dominaram os palcos nos anos que seguiram a restauração

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da monarquia inglesa (1660) após o período de guerra civil que assolou a
Inglaterra, Escócia e Irlanda.

Philippe Quinault (1635-88) dramaturgo e letrista francês que colaborou com


Lully nas letras de muitas óperas.

Jean-Baptiste Lully (1637-82) músico e compositor italiano, que viveu sua vida
artística na França, onde se dedicou a composição e produção de óperas durante
três décadas.

Jean Racine (1639-99) o principal dramaturgo trágico francês do século 17.


Phèdre (1677), uma tragédia em cinco atos, é sua obra mais conhecida.

As artes têm esse poder de comunicar e repassar as tradições, a cultura e as


características de um povo, impregnada, pois, de nacionalismo. Todavia, sempre
foi a ambição maior da arte ser universalista. Todo artista é um contador de
estórias e um narrador da história, comprometido com a análise, reflexão e
entendimento dos anseios, desejos e expectativas próprios da vida humana. A via
media pode ser o que está escrito num livro ou livreto, o som que emite um
instrumento ou uma orquestra, a representação pictográfica de uma pintura ou
escultura, a magnificência de uma construção ou o palco de uma apresentação
teatral. Ao expectador ou ouvinte, basta admirar e se inspirar no que o artista
teve de melhor, num determinado momento; sentir uma emoção ressonante,
com a que o artista sentiu e desejou compartilhar, seja essa emoção de alegria,
tristeza, medo, amor ou os sentimentos extáticos e indescritíveis dos mistérios da
fé. Hoje, decorridos tantos anos, podemos não mais nos afetar diretamente pelas
motivações sociais, ideológicas ou religiosas de então, mas, o que realmente
importa, é que diante de qualquer expressão artística do Barroco sentiremos,
ainda , uma forte emoção e isto pela pura e simples magia da Arte.)

*As imagens dos trabalhos dos mestres pintores apresentadas neste artigo, são
disseminadas livremente na internet, seja em sites comerciais, educativo-
acadêmicos, de organizações não governamentais ou em blogs e sites pessoais.
Caravaggio - Santa Catarina de Alexandria - www.aug.edu
Annibale Carracci - A zombaria de Cristo - www.pintoresfamosos.cl
Ludovico Carracci - Rinaldo e Armida - www.valsesiascuole.it
Murillo - Duas moças na janela - www.artchive.com

26
Meninos comendo frutas - wiikipediia.net
Trompe l'oeil - www.trompe-l-oeil-art.com
Vivaldi - Gloria ( Domine, Fili unigenite ) - www.botproductions.com
Haendel - Messiah ( Overture ) - www.botproductions.com
Bach - Invention nº 06 - www.bachcentral.com

O primeiro teatro nacional da Europa moderna é o espanhol, do fim do


século XVI e do século XVII. Humanismo e Renascença manifestam a
influência, nesse teatro, nos enredos, tirados da antiguidade greco-romana e
da novelística italiana. Mas os dramaturgos espanhóis não se preocupam
nada com as regras ou pseudo-regras antigas; a forma do seu teatro e
medieval, ligeiramente desenvolvida e já se aproximando das convenções
cênicas do teatro moderno. Assim também usam enredos da história
espanhola e de outros países, roteiros livremente inventados, e os da
história bíblica e das vidas dos santos. Um gênero especial é o Auto,
representação alegórica de temas religiosos, especialmente para a festa de
Corpus Christi.

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O Teatro Clássico Francês

O Teatro clássico francês do século XVII é radicalmente diferente dos teatros


espanhol e inglês da mesma época, porque lhe falta totalmente a raiz
popular. Há, nas origens, influências espanholas e da Commedia dell'Arte
italiana. Mas foram logo superadas para agradar ao gosto de seu público
culto, sofisticado e disciplinado por rígidas normas de comportamento da
sociedade: La Cour et la Ville, a Corte de Versailhes e a cidade de Paris. A
formação intelectual desse público era humanística. Por isso, o espírito
barroco de época contra-reformista e absolutista teve de acomodar-se às
formas ditas antigas, isto é às mal compreendidas regras aristotélicas,
unidade de ação, de lugar e de tempo; enredo reduzido ao essencial e
expressão verbal disciplinada pelas bienséances, ao modo de falar em boa
sociedade. Nenhum teatro do passado é, pelo menos aparentemente, mais
distante do nosso do que esse; mínimo de ação e mínimo de poesia. Mas é
aparência. Na verdade, este é o primeiro exemplo de teatro moderno.

No teatro clássico francês a posteridade aprendeu a construção lógica e


coerente, livre das exuberâncias e incoerências dos teatros espanhol e inglês
que admiramos como grande poesia, embora hoje às vezes nos choquem; e
o mínimo de ação exterior teve como efeito a concentração nos
acontecimentos dentro dos personagens, isto é, a moderna psicologia
dramática. A influência espanhola ainda predomina no Venceslas e Saint
Genest de Rotrou (1609-1650), mas já devidamente disciplinada. Corneille
já modifica muito os enredos tomados emprestados a autores espanhóis,
enriquecendo-os pela disciplina religiosa dos jesuítas e pela política dos

27
maquiavelistas, fantasiados de romanos antigos. Em Racine o Jesuitismo é
substituído pela psicologia religiosa do Jansenismo e a política romana pelo
erotismo grego. Ao mesmo tempo Molière, inspirado de inicio na Commedia
dell'Arte italiana e nas recordações escolares de Terêncio, cria a fina
comédia de sociedade, psicológica e satírica. Racine e Molière são tão
perfeitos, dentro do estilo dramático escolhido, que não será possível
continuá-los. Toda continuação seria imitação e repetição.

A tragédia francesa, depois de Racine, petrifica-se em fórmulas vazias; em


vão Crébillon (1674-1762) tentaria revivificá-la pela introdução de horrores
físicos à maneira de Sêneca. Na comédia Regnard (1655-1709) não chegou
além de farsas alegres; Dancourt (1661-1725) e o romancista Le Sage, em
Turcaret, cultivavam a sátira, já não contra determinados tipos psicológicos,
mas contra classes da sociedade. No entanto, a decadência do teatro
clássico francês foi retardada pelo gênio de Marivaux e pela habilidade de
Voltaire. Racine, o trágico, não tinha cultivado muito talento pela comicidade
(Les Plaideurs); Molière, o cômico, foi pela rigidez das regras impedido de
cultivar a tragédia (Le Misanthofe). Mas Marivaux introduziu na fina comédia
de costumes a psicologia erótica de Racine e criou um novo gênero. Voltaire
estendeu as fronteiras do estilo trágico francês pela escolha dos enredos
orientais e medievais, pela maior preocupação com detalhes arqueológicos e
geográficos, e pela tendência filosófico-política; o que lhe falta é a
verdadeira tragicidade. A tendência revolucionária infiltrou-se, enfim,
também na comédia: a de Beaumarchais contribuiu para a queda de Ancien
Régime; o teatro clássico não sobreviveu à Revolução Francesa.

Teatro clássico

Teatro Clássico Francês

Cleone Augusto Rodrigues

(...) Em termos de periodologia literária, o classicismo é a resultante de um lento


processo de maturação de idéias estético-literárias, que se estende por nada
menos de três séculos, por diversos países, e recebe do Renascimento italiano
seus elementos fundamentais, como: o modelo grecolatino para as artes plásticas
ou literárias, os princípios da intemporalidade do belo e da necessidade das
regras, o gosto da perfeição, da estabilidade, clareza e simplicidade das estruturas
artísticas.

28
A Poética de Aristóteles, cuja exegese crítica se verificara na Itália, na segunda
metade do séc. XVI, vai ser o grande fundamento em que se alicerça o
classicismo.

A obra clássica deve atentar para a verossimilhança (anulatória do maravilhoso


barroco). Busca não o particular, mas o universal e o intemporal. Isto repousa na
visão clássica, que afirma a existência de algo permanente, além do mutável e
acidental. Busca o conhecimento do homem, nos seus sentimentos e paixões.
Impregnado de intelectualismo, o clássico tem fé na razão, fiel da balança, que
impede, em qualquer parte e em qualquer tempo, a perda do equilíbrio pela
submissão aos excessos da fantasia. Sendo uma arte profundamente social,
respeita sobremodo as conveniências, evitando chocar a sensibilidade, costumes
e preceitos morais do público a que se dirige. Considera que é seu dever unir o
útil ao agradável, contribuindo - assim para o aperfeiçoamento do ser humano.

(...)

O séc. XVII francês se estende, para o crítico e para o historiador, desde 1610
(morte de Henrique IV), a 1715 (morte de Lula XIV). É o século do Rei Sol e da
monarquia absoluta, quando se desenvolvem a literatura clássica, protegida pelo
soberano, e as academias. No âmbito das letras, sobressai o teatro trágico de
Corneille e de Racine, ao lado das comédias de Molière; Boileau elabora a teoria
da arte clássica; La Fontaine produz suas fábulas; La Bruyère dedica-se à crítica e
La Rochefoucauld às máximas, ao lado da oratória sagrada de Bossuet. No campo
das idéias, a preciosidade porfia com os libertinos, a filosofia de Descartes se
contrapõe ao jansenismo de Pascal e, para culminar, eclode a Querela dos Antigos
e dos Modernos, a respeito de ideais e modelos para a arte.

Teatro Clássico Francês

O Teatro clássico francês do século XVII é radicalmente diferente dos teatros


espanhol e inglês da mesma época, porque lhe falta totalmente a raiz popular.
Há, nas origens, influências espanholas e da Commedia dell'Arte italiana. Mas

29
foram logo superadas para agradar ao gosto de seu público culto, sofisticado e
disciplinado por rígidas normas de comportamento da sociedade: La Cour et la
Ville, a Corte de Versailhes e a cidade de Paris.

A formação intelectual desse público era humanística. Por isso, o espírito


barroco de época contra-reformista e absolutista teve de acomodar-se às formas
ditas antigas, isto é às mal compreendidas regras aristotélicas, unidade de ação,
de lugar e de tempo; enredo reduzido ao essencial e expressão verbal disciplinada
pelas bienséances, ao modo de falar em boa sociedade. Nenhum teatro do
passado é, pelo menos aparentemente, mais distante do nosso do que esse;
mínimo de ação e mínimo de poesia. Mas é aparência. Na verdade, este é o
primeiro exemplo de teatro moderno.

No teatro clássico francês a posteridade aprendeu as construções lógicas


e coerentes, livres das exuberâncias e incoerências dos teatros espanhol e inglês
que admiramos como grande poesia, embora hoje às vezes nos choquem; e o
mínimo de ação exterior teve como efeito a concentração nos acontecimentos
dentro dos personagens, isto é, a moderna psicologia dramática. A influência
espanhola ainda predomina no Venceslas e Saint Genest de Rotrou (1609-1650),
mas já devidamente disciplinada. Corneille já modifica muitos os enredos
tomados emprestados a autores espanhóis, enriquecendo-os pela disciplina
religiosa dos jesuítas e pela política dos maquiavelistas, fantasiados de romanos
antigos. Em Racine o Jesuitismo é substituído pela psicologia religiosa do
Jansenismo e a política romana pelo erotismo grego.

Ao mesmo tempo Molière, inspirado de inicio na Commedia dell'Arte


italiana e nas recordações escolares de Terêncio, cria a fina comédia de
sociedade, psicológica e satírica. Racine e Molière são tão perfeitos, dentro do
estilo dramático escolhido, que não será possível continuá-los. Toda continuação
seria imitação e repetição.

A tragédia francesa, depois de Racine, petrifica-se em fórmulas vazias; em


vão Crébillon (1674-1762) tentaria revivificá-la pela introdução de horrores físicos
à maneira de Sêneca. Na comédia Regnard (1655-1709) não chegou além de
farsas alegres; Dancourt (1661-1725) e o romancista Le Sage, em Turcaret,
cultivavam a sátira, já não contra determinados tipos psicológicos, mas contra
classes da sociedade. No entanto, a decadência do teatro clássico francês foi

30
retardada pelo gênio de Marivaux e pela habilidade de Voltaire. Racine, o trágico,
não tinha cultivado muito talento pela comicidade (Les Plaideurs); Molière, o
cômico, foi pela rigidez das regras impedido de cultivar a tragédia (Le
Misanthofe). Mas Marivaux introduziu na fina comédia de costumes a psicologia
erótica de Racine e criou um novo gênero. Voltaire estendeu as fronteiras do
estilo trágico francês pela escolha dos enredos orientais e medievais, pela maior
preocupação com detalhes arqueológicos e geográficos, e pela tendência
filosófico-política; o que lhe falta é a verdadeira tragicidade.

A tendência revolucionária infiltrou-se, enfim, também na comédia: a de


Beaumarchais contribuiu para a queda de Ancien Règime; o teatro clássico não
sobreviveu à Revolução Francesa.

Drama Burguês

No tempo da sociedade burguesa (séc. XV a XVIII), existe a ideia de que o passado


e o futuro se estendem ao infinito. O passado ficou pra trás e o futuro ainda nem
existe. Há um espaço para o novo, daí a valorização do tempo presente.

No mundo moderno o mito e a religião deixam o centro para o indivíduo. É o


momento em que a pessoa tem escolha sobre seu próprio destino, é o que se
chama de Ação Eletiva. Afinal, o futuro está aberto, ele não é mais determinado.

Surge nessa época o Drama Burguês que, em seu auge, é um gênero teatral que
aparece com a burguesia. Diderot é o teórico do Drama Burguês, que não dá
muito certo. É a burguesia inventando um teatro onde seus valores estão
imbuídos de forma indireta, pelo drama.

Este gênero tem duas funções:

- A moral, segundo seu tempo. Ele acha que o teatro tem de ser transformador.
Entende-se por transformador: esclarecer os homens, racionalizá-los; ensiná-los a
amar a virtude e a odiar o vício.

(A moral é determinada por homens como um conceito de atitudes e ações


aceitas pela sociedade, nada tem a ver com a política, polis, ou seja, com o que
acontece na cidade).

(Virtude= disposição para seguir aquilo que é considerado regra, moral admitida
numa época por um conjunto de homens em seu momento histórico).
31
- Outro aspecto, além da moral, por o presente em cena, de forma secundária,
afinal, seu interesse é moralizar.

Pois, como é possível transformar o espectador? Para Diderot, você tem de agitar
o público, transtorná-lo, levá-lo às lágrimas. Teatro ali não é a palavra, são as
expressões faciais, os gritos, o corpo. Esse é um teatro ilusionista, é levar a platéia
a crer que aquilo que está acontecendo ali é o que acontece no mundo, é o real.

Pra isso ele cria dois "gêneros intermediários"

- A Tragédia Doméstica

- A Comédia Séria

(Comédia é tratar de assuntos baixos do cotidiano, tudo de forma ilusória).

Neste ponto ele democratiza o teatro, afinal não são mais os reis e rainhas que
figuram como personagem, é também a burguesia, o trabalhador. É a natureza
humana, a sentimentalidade sua estratégia teórica, que tem a ver com interesses
específicos. Ele vai mudando quem é objeto sério e quem é objeto de riso.

Diderot é o teórico do realismo, mas para ele realismo tem a ver com produzir
um efeito do real.

O foco disso tem uma dimensão privada.

Ele considera o mundo privado o centro do teatro, figurado na família burguesa.


E faz isso porque a família é o espaço ideal para o culto da virtude, a família é um
bem supremo, único lugar onde se pode ser feliz, pois lá fora é o lugar da
competição. Aí ele privatiza o teatro.

Lembrem que: teatro não é isso, isto é um teatro. Diderot não separa conteúdo e
forma. O drama ali é um teatro fechado para a relação interpessoal, a imagem do
homem liberto das coerções externas. O centro do drama é a decisão do homem
à partir de sua ação e vontade naquele momento.

Nota: nada mais interessante pro capitalismo que o homem seja senhor de seu
destino, assim ele pode competir livremente, sem culpas ou moralismos, ele pode
determinar o seu futuro sozinho e por qualquer meio.

32
O drama burguês, portanto, fala do homem que é livre e que só através do
diálogo ele realiza suas vontades. Não há prólogo, prefácio ou posfácio, só existe
o momento.Neste drama não há futuro previsto, ele sempre é aberto para o
novo. Só existe situação, personagem e diálogo. Situação, personagem e diálogo.
Situação, personagem e diálogo. As palavras são só aquelas que saem da boca do
personagem. O autor e a narrativa, no sentido figurado, desaparecem. A
profundidade está no indivíduo e na privatização, não há mundo externo, não há
influência externa, só existe a família. Nesse ínterim, o espectador é um
espectador passivo, que se constitui numa identificação pelo irracional. Se eu me
identifico com o personagem, eu compro a dramaticidade, eu aceito para mim
sua sensação e não penso ou discuto sobre ela.

Exemplo: filmes de Hollywood, quem nunca se colocou na situação da Rose e


chorou quando Jack morreu congelado depois do Titanic ter naufragado? A ação
deste drama, aberto ao futuro, trata de ilusão, que trás uma imagem do que
promete ser a modernidade: você vê a peça e constitui uma imagem do que é o
presente.Já o Teatro Moderno critica a imagem que a burguesia faz, mas sem
negá-la, ele mostra que você é livre, mas questiona isso, critica o presente e
promove abalos nesta realidade.

Diferenciando o Barroco do Clássico na prática

O Barroco é detalhista…

Em resumo, o Barroco é aquela arte cheia de detalhes, cores fortes, uma enorme
religiosidade e um grande contraste entre o sagrado e o profano. Então repare a
quantidade de detalhes nessa estátua da Alemanha…

33
Elias Räntz: Markgrafenbrunnen (ou “Fonte do Marquês”) em Bayreuth, Alemanha

… e depois ouça o início do Concerto de Brandeburgo n.2 em Fá Maior de Bach:

Repare a quantidade de informações presentes na música: é muita gente tocando


coisas diferentes (e interessantes!) ao mesmo tempo. Até mesmo quando o
violino toca sozinho, tem um baixo comentando algo diferente no fundo. Aliás a
melodia que o baixo toca é apaixonante e nada monótona, com muitos saltos e
frases rápidas cheias de notas diferentes. Veja como a música está sempre
trocando de instrumentos, e a mesma melodia passa de um instrumento para
outro com muita facilidade.

… e o Clássico é racional

Vamos para o Clássico então. Aqui surge a influência do Iluminismo, aquela


corrente de pensamento mais racional e matemática e menos religiosa. Há uma
forte sensação de ordem em tudo, todas as coisas precisam estar nos seus
devidos lugares. Isto se reflete nas artes plásticas por uma procura pelo
geometrismo e pela simetria, como nesta pintura do Goya:

34
Francisco de Goya y Lucientes: O Guarda-sol

Tem uma folha no chão; se ela fosse barroca, ela estaria cheia de curvas, rebarbas
e detalhes. Olhe o bosque no fundo, todo borrado: onde estão as folhas das
árvores? Mas o que é mais importante no quadro está em grande destaque, é a
senhorita à frente, seu sorriso e seu cachorro; o restante não tem tanta
importância. E a sombrinha verde está na mesma direção do muro, compondo
uma simetria com a árvore vergada pelo vento. Agora ouça o início do
Divertimento K.136 de Mozart:

A melodia tem todo o destaque, o resto não tem importância alguma. Tente
cantar junto a linha dos baixos, e você irá notar que ela tem uma nota só, a
mesma nota repetida muitas vezes e só de quando em quando muda. Quando
aparece uma viola para cantar algo diferente, que nada, ela também fica
repetindo sempre a mesma nota. O classicismo passa essa impressão de
“simplicidade”, o que não significa que ele seja mais simples que o barroco. Sua
complexidade reside na estrutura da obra, a forma que dá ordem à música e põe
as melodias nos seus devidos lugares. Quem quiser mais informações pode
consultar nosso post sobre forma-sonata (que é a forma do divertimento logo
acima) e o tema com variações.

O Barroco é cheio de ornamentos…

Porta do palácio de Peterhof (Foto de Korzun Andrey)

A foto ao lado é de uma porta no palácio de Peterhof, em São Petersburgo,


Rússia, ricamente adornada em estilo barroco. Parecem folhas de um jardim,
não? E quanto mais se chega perto, mais detalhes saltam aos olhos: além de
folhas nós vemos pássaros, conchas e um busto lá em cima. Agora ouça a Ária que
abre as Variações Goldberg de Bach:

É uma música lenta, mas repare como tanto a melodia quanto o baixo são cheios
de ornamentos – e por ornamentos entenda, são aquelas notinhas “extras” de
enfeite, um trinado aqui (laiaiaiaiai), um mordente acolá (pariram, tirarim),

35
algumas apogiaturas (piram, tarim), etc. A melodia nunca é “lisa”; se pudéssemos
desenhá-la, ela teria tantas curvas quanto a porta da foto ao lado.

… e o Clássico é enxuto

Contrastando com o barroco, no clássico encontramos apenas o “essencial”,


simples e direto, sem tantos fru-frus. Por exemplo, ouça esse Concerto para Piano
de Mozart (um trecho do famoso Concerto n.21 K.467 em Dó Maior):

E repare como as melodias são lisas e sem rebuscamento, e o acompanhamento


sempre muito simples: um-pa-pa-pa-pa-pa um-pa-pa-pa-pa-pa…

O Barroco é contrastante…

A arte barroca também é uma arte de contrastes binários: o escuro e o claro,


Deus e o homem, o sacro e o profano. O que você vê nessa pintura de Vermeer?

Johannes Vermeer: O soldado e a garota sorrindo

Eu vejo sombras e luz; uma mulher e um homem; alguém de frente e outro de


costas; uma janela e um mapa (duas visões do mundo). Agora ouça o terceiro
movimento do concerto O Outono de Vivaldi.

Você ouve: forte e fraco (não tem meio termo); ou toda a orquestra ou só o
violino solo (não tem meio termo); ou lento ou rápido. Não tem trechos com o
ritmo acelerando ou volume crescendo – ou pelo menos, não há nada escrito
sobre isso na partitura. Se você ouvir qualquer gravação barroca com crescendos
e acelerandos, saiba que isto é uma liberdade do músico executante (liberdade
esta bem aceita hoje em dia).

36
Belvedere, em Charlottenburg (foto de Marcus Horn)

…e o Clássico é simétrico

A foto ao lado é da fachada da casa de chá (Belvedere significa mirante) do jardim


do palácio de Charlottenburg, em Berlim, Alemanha. Observe que um lado é
exatamente igual ao outro; é quase tudo muito reto, sem todas aquelas folhas e
contornos complexos do barroco. Em cada andar há exatamente duas janelas de
um lado, duas janelas do outro. No centro, primeiro andar, há duas colunas de um
lado, duas do outro. Lá em cima, um triângulo marcando o centro. A entrada é
simples e funcional.

BARROCO

O Barroco começa a partir do ano de 1600 e todas as manifestações entre essa


data e 1700 estão inseridas em um contexto assimétrico e rebuscado das obras
barrocas.

O estilo barroco nasceu da crise de valores renascentistas ocasionada pelas lutas


religiosas e pela crise econômica vivida em consequência da falência do comércio
com o Oriente. O homem do Seiscentismo vivia um estado de tensão e
desequilíbrio, do qual tentou evadir-se pelo culto exagerado da forma,
sobrecarregando a poesia de figuras, como a metáfora, a antítese, a hipérbole e a
alegoria.

Todo o rebuscamento que aflora na arte barroca é reflexo do dilema, do conflito


entre o terreno e o celestial, o homem e Deus (antropocentrismo e
teocentrismo), o pecado e o perdão, a religiosidade medieval e o paganismo
renascentista, o material e o espiritual, que tanto atormenta o homem do século
XVII. A arte assume, assim, uma tendência sensualista, caracterizada pela busca
do detalhe num exagerado rebuscamento formal.

37
Na literatura, as características principais são:

* Culto do contraste: o poeta barroco se sente dividido, confuso. A obra é


marcada pelo dualismo: carne X espírito, vida X morte, luz X sombra, racional X
místico. Por isso, o emprego de antíteses.

* Pessimismo: devido a tensão (dualidade), o poeta barroco não tinha nenhuma


perspectiva diante da vida.

*Literatura moralista: a literatura tornou-se um importante instrumento para


educar e para “pregar” por parte dos religiosos (padres).

AUTOR IMPORTANTE

Gregório de Matos: Conhecido como o Boca do inferno. A sua obra tinha um


cunho bastante satírico e moderno para a época, além de chocar pelo teor
erótico, de alguns de seus versos. Buscava satirizar os vícios da sociedade em que
vivia. Produzia obras satíricas, líricas e sacras.

CLASSICISMO

A chamada Era Clássica compreende os fatores socioeconômicos que marcaram


os séculos XVI, XVII e XVIII. Essa fase retoma os valores da Antiguidade Clássica e,
por isso, recebe a denominação citada. O período histórico da Era Clássica
envolve a queda do feudalismo, a expansão marítima e o desenvolvimento do
capitalismo e perdura até que uma nova configuração política, econômica e social
se estabeleça com a chegada das Revoluções Industrial e Francesa.

A Era Clássica enfatiza a poesia, a mitologia; os autores clássicos, como Homero,


Virgílio e Horácio; a exaltação da vida no campo e o bucolismo.

Pode, ainda, ser dividida por três estilos literários: Classicismo, Barroco e
Arcadismo.

O Classicismo surge durante o Período do Renascimento, ou seja, em meio ao


movimento artístico no qual a cultura clássica ocupava o espaço da medieval, o
capitalismo consolidava-se e a Idade Média tinha seu fim.

Então, a Idade Moderna precedia a nova realidade, mais liberal, mais


antropocêntrica (o homem como centro). Todas as manifestações literárias que
figuravam este modelo renascentista são chamadas de Classicismo. Este último,
38
passa a existir em Portugal no ano de 1527, com o retorno de Francisco Sá de
Miranda da Itália, o qual divulga os novos conceitos europeus da arte e da poesia.

São características das obras do Classicismo: a presença de adjetivos, a perfeição


estética, a pureza das formas, a retomada da mitologia pagã, a busca do ideal de
Beleza encontrado nos modelos dos autores da Antiguidade Clássica.

Características
• Idealização amorosa, neoplatonismo;

• Predomínio da razão;

• Paganismo;

• Influência da cultura Greco-romana;

• Antropocentrismo;

• Universalismo;

• Nacionalismo.

• Gosto pelo soneto;

• Busca do equilíbrio formal.

AUTOR IMPORTANTE

Luís de Camões: Escreveu sonetos e foi responsável pela primeira epopéia em


língua portuguesa: Os Lusíadas. Em toda a sua obra havia um retorno a forma
clássica. Em Os Lusíadas, Camões narra as histórias e feitos do povo português
tendo como ação central a descoberta do Caminho das índias por Vasco da Gama.

Renascimento e o Barroco
O renascimento (século XV e XVI) um estilo frio e estático, teve como berço Itália,
baseou-se no classicismo (antiguidade clássica), sem o copiar, reinterpretando-o
numa compreensão humanista, racionalista e naturalista.

39
Deus deixou de ser o centro do universo. Valorizava-se o antropocentrismo,
uma concepção que considera que a humanidade deve permanecer no centro do
entendimento dos humanos, isto é, o universo deve ser avaliado de acordo com a
sua relação com o Homem - "o Homem no centro das atenções".

Na Escultura procurava-se a articulação de uma lógica racional e


proporções rigorosas – canones. Na pintura procuraram um método preciso de
medidas, criaram novas fórmulas para as perspectivas. Na arqutectura as colunas
tomaram o lugar dos pilares. A palavra de ordem na arquitetura passa a ser
‘rigor’, dando valores exactos às medidas principais dos edifícios. A arquitetura,
abandona o linearismo gótico e recupera o arco redondo e a cúpula.

Os nomes significativos foram: Donatello, Leone Alberti, Botticelli,


Leonardo da Vinci, Michelangelo, Rafael.

O Barroco (séculos XVII a XVIII), também nasceu em italia, paralelamente à


contra-reforma do catolicismo. O significado etimologico da palavra é ‘grotesco’,
retorcido, irregular. A palavra de ordem é ser o mais pitoresco possível.
A religiosidade é manifesta de forma grandiosamente dramática e drástica,
não atingiu muito os países da reforma como Inglaterra, Holanda, Suécia, entre
outros. Procurava-se atingir o esplendor no momento das liturgias com a
decoração interna das igrejas.
Foi uma reação contra os estilos anteriores, o Barroco procurava
surpreender, maravilhar e emocionar o observador.
O seu objetivo é o contraste e o exagero.
Há grande teatralidade, dinamismo, urgência, subjetividade, apelo
40
emocional, passionalidade e conflitos nas obras. Do ponto de vista técnico, há o
uso recorrente a curvas, diagonais, jogos de luz e texturas.

No barroco a harmonia individual pode ser sacrificada em nome da


produção total.
Os principais artistas foram: Caravaggio, Pieter Bruegel, Bernini, Van Dyck,
Rembrandt, Velasquez.

Para o renascentista o que importava era o detalhe, não tanto o todo, para o
barroco, o mais importante era a harmonia do conjunto.

Santa ceia – Leonardo da Vinci (Renascimento)

41
Santa ceia - Tintoretto (Barroco)

O Classicismo francês

No mesmo momento em que o teatro renascia em Londres, os autores franceses


lançavam sérias críticas à obra de Shakespeare, a quem não perdoavam o
desprezo pelas regras aristotélicas, principalmente à unidade de tempo e espaço
e à nítida separação de elementos trágicos e cômicos. Ou seja: os dramaturgos
franceses do século XVII seguiam fielmente as regras estabelecidas pela “Poética”
de Aristóteles. Mas sua obra, quando comparada à dos gregos, é repleta de
artificialismo e arbitrariedade, pois faltava-lhe o sentido trágico que os atenienses
haviam encontrado naturalmente em sua comunidade. Apesar de tudo, o teatro
de Corneille e Racine atingiu momentos de grande perfeição formal.

Molière

É o maior nome do teatro francês da época. Embora pertencesse à classe média,


como a maioria dos escritores do período, Molière conquistou os salões porque
não era um simples executante de trabalho manual, a cujo respeito a nobreza
nutria seu mais antigo preconceito. Além disso, não punha em xeque a instituição
da monarquia, a autoridade da Igreja e os privilégios da corte. Mas, ao colocar em
cena heróis que reagiam com empenho diante de um problema – Em “O tartufo”,
diante da religião; em “Don Juan”, diante do amor; em “O misantropo”, diante da
sociedade – e ao descrever impostores, falsos devotos e maus cristãos, Molière
angariou a fúria dos censores. Suas peças continham mais verdade do que seria
desejável. Mas, sempre que pôde, o autor de “O burguês fidalgo” não deixou de
criticar a estupidez dos nobres com a mesma irreverência com que mostrou a
vulgaridade de camponeses, pequenos comerciantes e burgueses.

42
Século XVIII: dramas burgueses e tragédias político-históricas

Neste século surge o drama burguês. Esse teatro exprimia anseios romântico-
emocionais, mas acaba insistindo nas convenções herdadas do classicismo. Sem
compreender a verdadeira diferença entre tragédia e tristeza, o público preferia
sempre um desenlace satisfatório. Os principais nomes do drama burguês – Lilo,
Diderot e Lessing – escreveram peças em que o indivíduo era condicionado pela
realidade do cotidiano. Ao mesmo tempo, na corte de Weimar (Alemanha),
Schiller e Goethe desenvolviam o classicismo alemão, criando dramas e tragédias
político-históricas movidos por intenções idealistas.

43