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A Teoria do Conhecimento de São Isaque, o Sírio (São

Justino Popovich) [Parte 1/2]


Introdução

Na filosofia europeia, o homem sempre aparece, em maior ou menor grau, fragmentado. Em


nenhum lugar ele é visto em sua totalidade, em sua plenitude e integridade; está sempre
dividido ou em fragmentos. Não há qualquer sistema filosófico no qual o homem não esteja
dividido em partes; nenhum pensador jamais foi capaz de levar em conta sua totalidade. Por
um lado, o realismo ingênuo reduz o homem aos sentidos, e então, dos sentidos para as
coisas, para matéria, de modo que o homem não mais pertence a si mesmo, disperso entre as
coisas. Por outro lado, o racionalismo separa o homem de sua compreensão, considera-se a
razão a principal fonte da verdade e o critério supremo de tudo o que é, atribuindo-lhe todo
o mérito, tornando-a um absoluto e transformando-a em um ídolo, enquanto, ao mesmo
tempo, subestima-se e despreza-se todas as outras faculdades psíquicas e físicas do homem.
O pensamento crítico, por sua vez, não é mais do que uma apologia ao racionalismo e ao
sensualismo que, em última análise, reduz o intelecto - e com isso o homem em sua
integridade - ao nível dos sentidos. Quanto ao panteísmo, como todos os sistemas monistas,
consideram o mundo e o homem como uma totalidade de opostos contraditórios que nunca
poderão constituir uma única unidade lógica. Todos esses sistemas filosóficos têm o mesmo
resultado: uma compreensão superficial e fenomenalista do homem e do mundo.

Na filosofia fenomenalista - filosofia que sempre é relativista - o homem permanece privado


de um eixo, de um centro. Onde o mundo se fundamenta? E o homem? Qual é o fundamento
do intelecto e do conhecimento? O homem tenta explicar-se em termos das coisas, mas não
consegue; explicando-se em termos das coisas, o próprio homem, por fim, é reduzido a uma
coisa, a matéria. Por mais que se esforce, o homem da filosofia fenomenalista não está em
posição de atestar a realidade objetiva das coisas. Ainda menos é capaz de mostrar que as
coisas possuem verdade. Ao tentar explicar o homem pelo homem, a filosofia alcança um
resultado bizarro: apresenta uma imagem espelhada de uma imagem espelhada. Em última
análise, essa filosofia, seja qual for o seu caminho, é centrada na matéria e no homem. E uma
coisa resulta de tudo isso: a impossibilidade de qualquer conhecimento verdadeiro do homem
ou do mundo.

Este resultado compele o espírito filosófico do homem a fazer conjecturas que transcendem o
homem e a matéria. Através do idealismo, ele dá um salto para o sobrenatural. Mas esse
salto, por sua vez, lhe conduz ao ceticismo, pois o idealismo filosófico considera o homem
como uma realidade metafísica, que não pode ser nem descrita nem comprovada.

O homem, conforme compreendido na filosofia relativista, está sujeito a um destino trágico:


demonstra-se que a verdade transcende tanto o homem quanto a matéria. Há um abismo
intransponível entre o homem e a verdade. O homem está de um lado do abismo e não
consegue chegar ao outro lado, onde a Verdade transcendente pode ser encontrada. Mas o
poder da Verdade, do outro lado, responde à impotência do homem em seu lado. A Verdade
transcendente atravessa o abismo, chega ao nosso lado e revela a Si mesma - na pessoa de
Cristo, o Deus-homem. Nele a Verdade transcendente torna-se imanente no homem. Ele prova
a Verdade revelando a Si mesmo. Ele a revela, não pelo pensamento ou razão, mas pela vida
que é Sua. Ele não só possui a verdade, Ele mesmo é a Verdade. Nele, Ser e Verdade são um.
Portanto, Ele, em Sua pessoa, não só define a Verdade, mas mostra o caminho para ela:
aquele que permanece Nele conhecerá a Verdade, e a Verdade o libertará (cf. João 8:32) do
pecado, da mentira e da morte .

Na pessoa do Deus-homem, Deus e o homem estão indissoluvelmente unidos. A razão do


homem não é rejeitada, mas é renovada, purificada e santificada. É aprofundada e
divinizada, tornando-se capaz de compreender as verdades da vida à luz do Deus-feito-
homem. No Deus-homem, a Verdade absoluta foi, em sua totalidade, transmitida de forma
real e pessoal. É por isso que Ele, sozinho, entre os que nasceram na terra, possui o
conhecimento integral da Verdade e pode transmiti-lo. O homem que anseia conhecer a
Verdade precisa apenas de uma coisa: tornar-se um com o Deus-homem, tornar-se uma só
carne com Ele, tornar-se membro do Seu Corpo divino e humano, a Igreja (cf. Ef. 5:30, 3:6).
Tornando-se tal, o homem adquire "a mente de Cristo" (I Cor. 2:16), pensando, vivendo,
sentindo em Cristo, e assim alcançando o conhecimento integral da Verdade. Para o homem
em Cristo, as antinomias da razão não irreconciliáveis; são simplesmente rupturas causadas
pela revolta do pecado original no homem. Unindo-se a Cristo, o homem sente em si mesmo a
reunião das partes fragmentadas, à medida que a mente se cura, torna-se inteiro, completo
e, portanto, se qualifica para o conhecimento integral.

A verdade é objetivamente transmitida na pessoa de Cristo, o Deus-homem. Mas a maneira


pela qual isso se torna subjetivo - isto é, o lado prático da teoria cristã do conhecimento - foi
plenamente desenvolvida pelos Pais, filósofos experientes, santos e evangélicos. Entre os
mais notáveis desses santos filósofos se encontra o grande asceta, São Isaque, o Sírio. Em seus
escritos, com uma rara compreensão baseada na experiência, ele traça o processo de cura e
purificação dos órgãos do conhecimento do homem, seu desenvolvimento na compreensão e
seu caminho progressivo através da experiência para a aquisição da Verdade eterna. Na
filosofia de São Isaque, o Sírio, baseada na experiência da graça, os princípios e a
metodologia da teoria Ortodoxa do conhecimento encontra uma das suas expressões mais
perfeitas. Agora tentarei esboçar essa teoria do conhecimento, ou gnosiologia.

São Isaque, o Sírio

A Doença dos Órgãos do Conhecimento

O caráter do conhecimento é condicionado pela disposição, natureza e estado de seus órgãos


do conhecimento. Em todos os níveis, o conhecimento depende intrinsecamente dos meios de
compreensão. O homem não cria a verdade; o ato de compreender é um ato de tornar própria
uma verdade que já é objetivamente dada. Essa integração tem um caráter orgânico: é
semelhante a um enxerto feito numa videira (cf. João 15: 1-6). A compreensão é, portanto,
um fruto na árvore da pessoa humana. Assim como é a árvore, assim são seus frutos; assim
como são os órgãos do conhecimento, assim é o conhecimento que engendram.

Analisando o homem através de seus dons empíricos, São Isaque, o Sírio, descobre que seus
órgãos do conhecimento estão doentes. O mal é uma doença que afeta a alma e, portanto,
todos os órgãos do conhecimento. O mal tem seus próprios sentidos - as paixões - e essas são
"as doenças da alma". O mal e as paixões não pertencem à natureza da alma; são acidentes,
adições não naturais à alma.
O que são as paixões em si mesmas? Elas são "uma certa rigidez ou insensibilidade do ser".
Suas causas são encontradas nas coisas da própria vida. As paixões são o desejo de riqueza e
acumulação de bens, de bem-estar e conforto corporal; são sedentas pela honra e exercício
de poder; são luxo e frivolidade; são o desejo de glória dos homens e o medo do próprio
corpo. Todas essas paixões têm um nome comum - "o mundo". "O mundo significa conduta e
mente carnal". As paixões são os ataques do mundo contra o homem por meio das coisas do
mundo. A graça divina é o único poder capaz de afastá-las. Quando as paixões fazem seu lar
no homem, elas desenraízam sua alma. Elas confundem a mente, enchendo-a de formas
fantásticas, imagens e desejos, a fim de que os pensamentos sejam confusos, cheios de
fantasia. "O mundo é uma prostituta", que, por meio de seus desejos destruidores, seduz a
alma, enfraquece suas virtudes e destrói sua castidade dada por Deus. Assim, a alma,
tornando-se impura e uma prostituta, dá à luz ao conhecimento impuro.

Uma alma debilitada, um intelecto enfermo, um coração e uma vontade enfraquecida - em


suma, órgãos do conhecimento doentes - só podem gerar, moldar e produzir pensamentos,
sentimentos, desejos e conhecimento doentes.

A Cura dos Órgãos do Conhecimento

São Isaque dá um diagnóstico preciso da doença da alma e dos seus órgãos do conhecimento,
e claramente conhece o remédio, oferecendo-o categoricamente e com convicção. Uma vez
que as paixões são uma doença da alma, a alma só pode ser curada pela purificação das
paixões e do mal. As virtudes são a saúde da alma, assim como as paixões são a sua doença.
As virtudes são os remédios que progressivamente eliminam a doença da alma e dos órgãos do
conhecimento. Este é um processo lento que exige muito esforço e grande paciência.

A alma torna-se desregrada pelas paixões, mas pode recuperar sua saúde se fizer uso das
virtudes como o caminho para a sobriedade. As virtudes, no entanto, estão inteiramente
entrelaçadas com tristezas e aflições. São Isaque diz que toda virtude é uma cruz, e até
mesmo que as dores e aflições são a fonte das virtudes. Ele, portanto, defende
expressamente o amor à opressão e à tristeza, para que, através disso, o homem possa ser
libertado das coisas deste mundo e ter uma mente desapegada da confusão do mundo. Pois o
homem deve primeiramente libertar-se do mundo material para nascer de Deus. Tal é a
economia da graça e, portanto, a economia do conhecimento.

Se o homem resolve tratar e curar sua alma, primeiro ele deve se submeter a um exame
cuidadoso de todo o seu ser. Ele deve aprender a distinguir o bem do mal, as coisas de Deus
daquelas do diabo, pois "o discernimento é a maior das virtudes". A aquisição das virtudes é
um processo progressivo e orgânico: uma virtude segue outra. Uma depende da outra; uma
nasce da outra: "Toda virtude é a mãe da próxima". Entre as virtudes, não há apenas uma
ordem ontológica, mas também cronológica. A primeira delas é a fé.

É pela ascese da fé que o tratamento e a cura da alma enferma pelas paixões é iniciado. Uma
vez que a fé começa a viver no homem, as paixões começam a ser desenraizadas da alma.
Mas "até que a alma se torne intoxicada com fé em Deus, até que sinta o poder da fé", ela não
pode ser curada das paixões nem superar o mundo material. O lado negativo da fé consiste
na libertação da matéria pecaminosa e o lado positivo, a união com Deus.

A alma, que estava dispersa pelos sentidos entre as coisas deste mundo, é recolhida em si
mesma pela ascese da fé, pelo jejum das coisas materiais e pela dedicação constante a
lembrança de Deus. Este é o fundamento de todas as coisas boas. Libertação da escravização
à matéria pecaminosa é essencial para o avanço na vida espiritual. O início deste novo modo
de vida constitui-se na concentração dos pensamentos em Deus, em uma reflexão incessante
sobre o palavras de Deus e em uma vida de pobreza.

Através da fé, a mente, que antes estava dispersa entre as paixões, é concentrada, liberta da
sensualidade e dotada de paz e humildade de pensamento. Vivendo pelos sentidos em um
mundo sensível, a mente está doente. Com a ajuda da fé, no entanto, a mente é liberta da
prisão deste mundo, onde esteve sufocada pelo pecado, e entra na nova era, onde respira um
novo ar maravilhoso. "O sono da mente" é perigoso como a morte e, portanto, é essencial
despertar a mente pela fé através da realização das obras espirituais, pelas quais o homem se
superará e expulsará as paixões. "Afaste-se de si mesmo, e o inimigo será expulso de seu
lado."

Na ascese da fé, o homem é convidado a agir de acordo com uma antinomia que ultrapassa o
entendimento: "Esteja morto para sua vida e você viverá após a morte". Pela fé, a mente é
curada e adquire sabedoria. A alma torna-se sábia quando pára de "se envolver
descaradamente com pensamentos promíscuos". "O amor pelo corpo é um sinal de
incredulidade". A fé liberta o intelecto das categorias dos sentidos e o torna sóbrio através do
jejum, pela reflexão em Deus e pelas vigílias.

A intemperança e o estômago cheio obscurecem a mente, distraí-a e a dispersa entre


fantasias e paixões. O conhecimento de Deus não pode ser encontrado em um corpo que ama
o prazer. É da semente do jejum que a grama de um conhecimento saudável cresce - e é da
saciedade que a devassidão provém e a impureza do excesso.

Os pensamentos e desejos da carne são como uma chama inquieta no homem, e o caminho
para a cura é mergulhar o intelecto no oceano dos mistérios da Sagrada Escritura. A menos
que seja liberta das possessões terrenas, a alma não pode ser liberta de pensamentos
inquietantes, nem sentir a paz de espírito sem antes morrer para os sentidos. As paixões
escurecem os pensamentos e cegam a mente. Os pensamentos agitados e caóticos surgem de
um abuso do estômago.

O pudor e o temor de Deus estabilizam o tumulto da mente; a ausência dessa vergonha e


temor perturba o equilíbrio do conhecimento, tornando-o inconstante e instável. A mente
encontra-se numa base firme somente se mantiver os mandamentos do Senhor, tornando-se
pronta para suportar sofrimento e aflição. Se for escravizada pelas coisas da vida, torna-se
escurecida. Recolhendo-se pela fé, o homem desperta seu intelecto em relação a Deus e,
pelo silêncio orante, purifica sua mente e vence as paixões. A alma é restaurada à saúde
pelo silêncio. Portanto, é necessário treinar-se no silêncio - e este é um labor que traz doçura
ao coração. É através do silêncio que o homem alcança a paz de pensamentos indesejados.

A fé traz a paz ao intelecto e, ao trazê-la, elimina os pensamentos rebeldes. O pecado é a


fonte de inquietação e conflito nos pensamentos, e também é a fonte da luta do homem
contra o céu e contra outros homens. "Esteja em paz consigo mesmo, e você trará paz para o
céu e para a terra". Até que a fé apareça, o intelecto estará disperso entre as coisas deste
mundo; é pela fé que esta fragmentação do intelecto é superada. A errância dos pensamentos
é provocado pelo demônio da prostituição, assim como a errância dos olhos é causado pelo
espírito da impureza.

Pela fé, o intelecto é estabelecido no pensamento de Deus. O caminho da salvação é o da


constante lembrança de Deus. O intelecto separado da lembrança de Deus é como um peixe
fora da água. A liberdade do homem verdadeiro consiste na sua liberdade das paixões, na sua
ressurreição com Cristo e na alegria da alma.

As paixões só podem ser vencidas pela prática das virtudes, e toda paixão deve ser combatida
até a morte. A fé é a primeira e principal arma na luta contra as paixões, pois a fé é a luz da
mente que afasta a escuridão das paixões e a força do intelecto que expulsa a doença da
alma.

A fé contém dentro de si não só seu próprio princípio e substância, mas o princípio e a


substância de todas as outras virtudes - desenvolvendo como fazem uma a partir da outra,
organicamente, como os anéis do tronco de uma árvore. Se pode se dizer que a fé tem uma
linguagem, essa linguagem é a oração.

Oração

É pela ascese da fé que o homem supera o egoísmo, ultrapassa os limites de si mesmo e entra
em uma nova realidade transubjetiva e transcendente. Nesta nova realidade, novas leis
governam; as coisas velhas passam e tudo se faz novo. Submerso nas profundezas
desconhecidas desta nova realidade, o asceta da fé é conduzido e guiado pela oração; ele
sente, pensa e vive pela oração.

Traçando esse caminho da fé no intelecto do homem, São Isaque observa que o intelecto é
guardado e guiado pela oração, todo bom pensamento é transformado pela oração em uma
reflexão sobre Deus. Mas a oração também é uma luta difícil, ela põe em movimento toda
personalidade do homem. O homem crucifica-se na oração, 69 crucificando as paixões e
pensamentos pecaminosos que se apegam à sua alma. "A oração é a destruição dos
pensamentos carnais da vida carnal do homem".

A perseverança na oração é para o homem uma ascese muito difícil, a negação de si mesmo.
Isso é fundamental para a obra da salvação. A oração é a fonte da salvação, e é pela oração
que todas as outras virtudes - e todas as coisas boas - são adquiridas. É por isso que o homem
de oração é atacado por tentações monstruosas, das quais se defende por meio da oração.

O mais seguro guardião do intelecto é a oração. Ela afasta as névoas das paixões e ilumina o
intelecto trazendo sabedoria para a mente. A permanência contínua na oração é o sinal da
perfeição.

A oração espiritual se transforma em êxtase, no qual são revelados os mistérios da Santíssima


Trindade, e o intelecto entra na esfera do não-saber sagrado que é mais elevado que o
conhecimento.

Começando pela fé, a cura dos órgãos do conhecimento continua por meio da oração. Os
limites da personalidade humana se expandem cada vez mais, e o egocentrismo gradualmente
dá lugar ao teocentrismo.

Amor

"O amor nasce da oração" 78, assim como a oração nasce da fé. As virtudes provém de uma só
substância e, portanto, nascem uma da outra. O amor a Deus é um sinal de que a nova
realidade, na qual o homem é levado pela fé e oração, é muito maior do que a realidade
anterior. O amor a Deus e pelo homem é obra da oração e da fé; verdadeiramente, o
verdadeiro amor pelo homem é impossível sem a fé e oração.

Pela fé, o homem transforma o mundo: ele se move do mundo limitado para o ilimitado, onde
ele não mais vive pelas leis dos sentidos, mas pelas leis da oração e do amor. São Isaque dá
grande ênfase à convicção de que ele alcançou por meio de sua experiência ascética: o amor
a Deus vem da oração:

"O amor é fruto da oração". É possível que se receba o amor de Deus através da oração, mas
não é possível, de modo algum, adquiri-lo sem a luta da oração. Uma vez que o homem
alcança o conhecimento de Deus através da fé e da oração, torna-se estritamente verdade
que "o amor nasce do conhecimento".

Através da fé, o homem renuncia à lei do egoísmo; renuncia à sua alma pecaminosa. Embora
ame sua alma, ele abomina o pecado que está nela. Através da oração, ele se esforça para
substituir a lei do egoísmo pela lei de Deus, para substituir as paixões pelas virtudes, para
substituir a vida humana pela vida divina e assim curar a alma do pecado. É por isso que São
Isaque ensina que "o amor de Deus encontra-se no auto-controle da alma".

A impureza e a doença da alma são adições não naturais à alma; não fazem parte de sua
natureza criada, pois "a pureza e a saúde são o reino da alma".Uma alma debilitada pelas
paixões é um terreno apropriado para o cultivo do ódio e "o amor só é adquirido pela cura da
alma."
O amor é de Deus, "porque Deus é amor" (I João 4: 8). "Aquele que adquire o amor, veste-se
do próprio Deus". Deus não tem limites, e o amor é, portanto, infinito e ilimitado, de modo
que "aquele que ama a Deus e em Deus ama todas as coisas igualmente, sem distinções", São
Isaque diz sobre o homem que alcançou a perfeição. Como exemplo do amor perfeito, São
Isaque cita o desejo do santo Abba Agathon de "encontrar um leproso e trocar de corpo com
ele".

No reino do amor, as antinomias da razão desaparecem. O homem que se esforça no amor


goza de uma antecipação da harmonia do Paraíso em si mesmo e no mundo de Deus ao seu
redor, pois ele saiu de seu inferno egoísta e solipsista e entrou no paraíso dos valores divinos
e da perfeição. Nas palavras de São Isaque: "O paraíso é o amor de Deus, onde está a doçura
de todas as bênçãos". O inferno é a ausência do amor de Deus e "aqueles torturados no
inferno são torturados pelo flagelo do amor". Quando um homem adquire perfeitamente o
amor de Deus, ele adquire a perfeição. Portanto, São Isaque recomenda: "É necessário
primeiro adquirir amor, que é a forma original da contemplação do homem da Santíssima
Trindade".

Libertando-se das paixões, o homem se desprende gradualmente da auto-absorção que


caracteriza o humanismo. Ele abandona a esfera do antropocentrismo perverso e entra na
esfera da Santíssima Trindade. Aqui ele recebe a paz divina em sua alma, onde as oposições e
as contradições que surgem das categorias de tempo e espaço perdem seu poder de morte e
onde ele pode perceber claramente sua vitória sobre o pecado e a morte.

Humildade

A fé tem sua própria maneira de pensar, porque tem seu próprio modo de vida. O cristão não
apenas vive pela fé (II Cor. 5: 7), mas também pensa pela fé. A fé apresenta uma nova
categoria de pensamento, através da qual toda a atividade gnoseológica do homem que crê é
revelada. Essa nova categoria de pensamento é a humildade. Dentro da infinita realidade da
fé, o intelecto humilha-se diante dos inefáveis mistérios da nova vida no Espírito Santo. O
orgulho do intelecto dá lugar à humildade, e a modéstia substitui a presunção. O asceta da
fé, protege todos os seus pensamentos por meio da humildade, assegurando assim o
conhecimento da Verdade eterna.

Extraindo sua força da oração, a humildade continua crescendo e avançando sem fim. São
Isaque ensina que a oração e a humildade estão sempre equilibradas, e que o progresso na
oração significa também progresso na humildade e vice-versa. A humildade é uma força que
complementa o coração e impede que ele se dissipe em pensamentos orgulhosos e desejos
libidinosos. A humildade é sustentada e protegida pelo Espírito Santo, e não só atrai o homem
para Deus, mas também Deus para o homem. Além disso, a humildade foi a causa da
encarnação do Filho de Deus, a união mais íntima de Deus com o homem: "A humildade fez de
Deus um homem na terra". A humildade é "o adorno da divindade, pois o Verbo encarnado
falou conosco através do corpo humano com o qual ele mesmo assumiu."

A humildade é um poder misterioso e divino que é dado apenas aos santos, aos que são
aperfeiçoados nas virtudes, e é dado pela graça. "Contém todas as coisas dentro de si". Pela
graça do Espírito Santo "os mistérios são revelados aos humildes" e são aperfeiçoados na
sabedoria. "A humilde é a fonte dos mistérios da nova era".

A humildade é temperança, e "as duas preparam na alma uma promessa para a Santíssima
Trindade".

A temperança deriva da humildade, e é pela humildade que o intelecto é curado e feito


pleno. "Da humildade fluem uma mansidão e lembrança que é a temperança dos sentidos". "A
humildade adorna a alma com temperança".

Voltando-se ao mundo, o homem humilde revela toda a sua personalidade através da


humildade, imitando assim Deus encarnado. "Assim como a alma é desconhecida e invisível
aos olhos do corpo, assim o homem humilde é desconhecido entre os homens". Ele não só
busca passar despercebido pelos homens, mas também recolher-se em si mesmo quanto
possível, tornando-se "como alguém que não existe na terra, que ainda não veio a ser, e que é
completamente desconhecido até pela sua própria alma." Um homem humilde se despreza
diante de todos os homens, mas Deus, por esse motivo, o glorifica, pois "onde a humildade
floresce, lá a glória de Deus brota abundantemente", e a planta da alma produz uma flor
imperecível.

Graça e Liberdade

A pessoa de Cristo, o Deus-homem, apresenta em si a imagem ideal da personalidade e do


conhecimento humano. A pessoa de Cristo em si mesma traça e define o caminho da vida de
um cristão em todos os sentidos. Nele encontra-se a realização mais perfeita da união mística
de Deus e do homem, ao mesmo tempo em que revela a obra de Deus no homem e do homem
em Deus.

A sinergia Deus-homem é uma característica essencial da atividade do cristão no mundo. O


homem trabalha com Deus e Deus com os homens (cf. I Cor. 3: 9). Trabalhando interiormente
e ao redor de si mesmo, o cristão se entrega inteiramente à ascese, mas ele faz isso, e é
capaz de fazê-lo, somente através da incessante atividade do poder divino que é a
graça. Para o cristão nenhum pensamento, nenhum sentimento, nenhuma ação pode vir do
Evangelho sem a ajuda da graça de Deus. O homem, por sua vez, traz o desejo, mas Deus dá a
graça, e é dessa atividade mútua, ou sinergia, que a personalidade cristã nasce.

Em cada degrau da escada da perfeição, a graça é essencial para o cristão. O homem não
pode realizar nenhuma virtude evangélica sem a ajuda e o apoio da graça de Deus. Tudo no
cristianismo se dá por meio da graça e do livre arbítrio, pois tudo é a obra comum de Deus e
do homem. São Isaque enfatiza particularmente este trabalho comum da vontade do homem e
da graça de Deus em toda a vida do cristão. A graça abre os olhos do homem para o
discernimento do bem e do mal. Isso fortalece o sentimento de Deus dentro dele, abre-lhe o
futuro e o preenche de luz mística.

Quanto mais graça Deus dá ao homem de fé, mais Ele revela a ele os abismos do mal no
mundo e no homem. Ao mesmo tempo, Ele permite que haja maiores tentações para atacá-lo,
para que possa testar o poder da graça dada por Deus e que possa sentir e aprender que é
somente com a ajuda da graça que ele pode superar as tentações cada vez mais temíveis e
escandalosas. Pois, assim que a graça percebe que a alma do homem está se tornando auto-
suficiente, deixando-o bem aos seus próprios olhos, ela lhe abandona e permite que as
tentações o ataquem até que ele tome consciência de sua enfermidade e humildemente se
refugie em Deus.

Pelo trabalho conjunto da graça de Deus e de sua vontade, o homem por meio da fé se
aperfeiçoa. Isso acontece gradualmente, pois a graça entra na alma "pouco a pouco", sendo
dada antes de tudo aos humildes. Quanto maior a humildade, maior a graça, e sabedoria que
está contida dentro da graça. "Os humildes são dotados de sabedoria pela graça"

A sabedoria cheia de graça revela gradualmente os mistérios aos humildes, um após o outro,
culminando no mistério do sofrimento. Os humildes sabem por que o homem sofre, pois a
graça revela-lhes o significado do sofrimento. Quanto maior a graça que o homem possui,
maior é a compreensão do significado e propósito do sofrimento e da tentação. Se ele afasta
a graça dele devido a indolência e o pecado, o homem expulsa de si mesmo o único meio que
ele possui de encontrar o significado e a justificação para seus sofrimentos e tentações.

A Purificação do Intelecto

Por uma renovação incessante de si mesmo através de um ascetismo cheio de graça, o homem
gradualmente afasta o pecado e as paixões de todo o seu ser e de seus órgãos do
conhecimento, de modo a curá-los dessas doenças mortais. A cura dos órgãos do
conhecimento do pecado e das paixões é ao mesmo tempo sua purificação. Especial cuidado
deve ser tomado com o principal órgão do conhecimento, o intelecto, pois ele tem um papel
particularmente importante no domínio da personalidade humana.
Em nada mais a vigilância é tão vital como no trabalho de purificação do intelecto. Para essa
tarefa, o asceta da fé deve lutar com todas as suas forças, de modo que, com a ajuda das
virtudes evangélicas cheias de graça, ele possa renovar e transformar seu intelecto. São
Isaque nos oferece sua rica experiência nisso.

Segundo ele, a impureza e o caráter grosseiro do intelecto vêm de um estômago cheio. O


jejum é, portanto, o principal meio de purificar o intelecto. O intelecto é, por natureza, fino
e delicado, enquanto que a grosseria é uma adição não natural introduzida pelo pecado. É
através da oração que o intelecto torna-se refinado e claro, transparente. Trabalhando sobre
si mesmo, o homem rompe a crosta rígida de pecado de seu intelecto, o refina e o torna
capaz de discernimento.

Transformando-se com a ajuda do esforço ascético cheio de graça, o homem adquire a pureza
do intelecto, e com este intelecto purificado "passa a ver os mistérios de Deus". "A purificação
do corpo produz um estado que rejeita a mácula da impureza da carne. A purificação da alma
liberta-a das paixões secretas que surgem na mente. A purificação do intelecto ocorre através
da revelação dos mistérios".

Somente a mente que foi purificada pela graça pode oferecer um conhecimento puro e
espiritual. "Até que a mente seja liberta de seus múltiplos pensamentos e se torne
completamente pura, ela não pode receber conhecimento espiritual". Os homens deste
mundo "não podem purificar suas mentes por causa de seu mau conhecimento e aceitação da
perversidade. Poucos são capazes de retornar à pureza original da mente do homem."

A perseverança na oração purifica o intelecto, ilumina-o e o preenche com a luz da verdade.


As virtudes, lideradas pela compaixão, dão ao intelecto paz e luz. A purificação do intelecto
não é uma atividade dialética, discursiva e teórica, mas um ato da graça através da
experiência e é ética em todos os aspectos. O intelecto é purificado pelo jejum, vigílias,
silêncio, oração e outras práticas ascéticas.

"O que é pureza do intelecto? A pureza do intelecto é a realização, através da luta pelas
virtudes, da iluminação divina". É fruto do esforço ascético pelas virtudes. A prática das
virtudes aumenta a graça no homem, e ao trazer a graça ao intelecto purifica-o dos
pensamentos impuros. É através do ascetismo que o intelecto de um santo torna-se puro,
claro e discernente. "A pureza da alma era um carisma original de nossa natureza. Até que
tenha sido purificada das paixões, a alma não está curada da doença do pecado e não é capaz
de alcançar a glória que perdeu devido a sua transgressão. Se o homem se torna digno de
purificação - da saúde da alma - seu intelecto verdadeiramente recebe em si a alegria através
da consciência espiritual, pois ele se torna um filho de Deus e um irmão de Cristo".

Se ele supera as paixões, o homem alcança a pureza da alma. O "obscurecimento do


intelecto" provém da falta de compaixão e da indolência. As virtudes são "as asas do
intelecto", as quais o ajudam a subir aos céus. Cristo enviou o Espírito Santo aos Seus
apóstolos, e o Espírito Santo purificou seus intelectos e os fez perfeitos, mortificando neles o
velho homem das paixões e trazendo vida ao homem novo e espiritual".

Fragmentado por pensamentos pecaminosos e impuros, o intelecto se recolhe através da


oração, do silêncio e das outras práticas ascéticas. Quando o intelecto se liberta através
arrependimento de sua estreita ligação com as paixões, no primeiro momento é como um
pássaro que teve as suas asas cortadas. Ele se esforça para se elevar acima das coisas
terrenas por meio da oração, mas não consegue, estando amarrado à terra. A capacidade de
voar só é possível depois de uma longa luta pelas virtudes, pois é então que ele se recolhe e
aprende a voar.

O amor de Deus é um poder que conduz o intelecto a si mesmo. A leitura de hinos e salmos, a
reflexão sobre a morte e a esperança da vida futura são "coisas que recolhem o intelecto e o
protegem da fragmentação". O intelecto é destinado a reinar sobre as paixões, dominar os
sentidos, e controlá-los.
O propósito de todas as leis e mandamentos de Deus é a pureza de coração. Deus fez-se carne
para purificar nossos corações e almas do mal e trazê-los de volta ao seu estado original. Mas
há uma certa diferença entre pureza de coração e pureza do intelecto. São Isaque escreve:
"Em que a pureza do intelecto difere da pureza do coração? A pureza do intelecto é uma
coisa, mas a pureza do coração é outra. Pois o intelecto é um dos sentidos da alma, mas o
coração inclui os sentidos interiores e os governa. Ele é a raiz deles. E se a raiz é santa, então
os ramos também são santos. Se, então, o coração é purificado, claramente todos os sentidos
são purificados".

O coração adquire a pureza por meio de muitas provações, tribulações, lágrimas e pela
mortificação de tudo o que é do mundo. As lágrimas purificam o coração da impureza. À
pergunta: qual é o sinal pelo qual se pode saber se o homem alcançou a pureza de coração,
São Isaque responde: "Quando ele vê todos os homens como bons, e ninguém lhe parece ser
impuro ou profano".

A pureza do coração e do intelecto é adquirido através do ascetismo. "O ascetismo é a mãe da


santidade". A prática silenciosa da virtude corporal purifica o corpo da matéria que ali se
encontra. Entretanto, o "esforço físico extenuante, sem a pureza do intelecto, é como um
útero estéril e seios murchos. De tal maneira não é possível aproximar-se do Conhecimento de
Deus, fatiga-se o corpo, mas não erradica-se as paixões do intelecto. Assim, não há proveito".

O sinal da pureza é: regozijar com aqueles que se regozijam e chorar com os que
choram; sofrer com os doentes e chorar com os pecadores; alegrar-se com o arrependido e
participar da agonia daqueles que sofrem; criticar ninguém e, na pureza da própria mente,
ver todos os homens como bons e santos.

O intelecto não pode ser purificado nem pode ser glorificado com Cristo se o corpo não sofre
com e por Cristo; a glória do corpo é a "submissão comedida diante de Deus, e a glória do
intelecto é a verdadeira visão de Deus". A beleza da temperança é alcançada pelo jejum, pela
oração e pelas lágrimas. A pureza do coração e do intelecto, a cura do intelecto e dos outros
órgãos do conhecimento, tudo isso é fruto de um longo esforço sob a graça, no ascetismo. No
intelecto puro do asceta da fé, brota aquela fonte de luz que derrama doçura sobre o
mistério da vida e do mundo.

A Teoria do Conhecimento de São Isaque, o Sírio (São


Justino Popovich) [Parte 2/2]

O Mistério do Conhecimento
A cura e purificação dos órgãos do conhecimento humano é provocada pela ação comum de Deus e do
homem - pela graça de Deus e pela vontade do homem. No longo caminho de purificação e cura, o
próprio conhecimento se torna mais puro e saudável. Em cada etapa do seu desenvolvimento, o
conhecimento depende da estrutura ontológica e do estado ético de seus órgãos. Purificados e curados
pelo esforço de um homem nas virtudes evangélicas, os próprios órgãos do conhecimento adquirem
santidade e pureza. Um coração puro e mente pura geram conhecimento puro. Os órgãos do
conhecimento, quando purificados, curados e voltados para Deus, dão um conhecimento puro e saudável
de Deus e, quando voltados para a criação, dão um conhecimento puro e saudável da criação.

De acordo com o ensinamento de São Isaque, o Sírio, há dois tipos de conhecimento: aquele que precede
a fé e aquele que nasce da fé. O primeiro é o conhecimento natural, e envolve o discernimento do bem e
do mal. O último é o conhecimento espiritual, e é "a percepção dos mistérios", "a percepção do que está
escondido", "a contemplação do invisível".

Há também dois tipos de fé: a primeira vem através da audição e é confirmada e comprovada pela
segunda, "a fé da contemplação", "a fé que se baseia no que foi visto". Para adquirir conhecimento
espiritual, o homem deve primeiro libertar-se do conhecimento natural. Este é o trabalho da fé. É pela
ascese da fé que vem ao homem o "poder desconhecido" que o torna capaz do conhecimento espiritual.
Se o homem se deixa ser apanhado na teia do conhecimento natural, torna-se mais difícil de se libertar
dele do que remover pesadas correntes, e sua vida é vivida "contra a borda de uma espada".

Quando um homem começa a seguir o caminho da fé, ele deve deixar de lado todo seus velhos métodos
de conhecimento, pois a fé tem seus próprios métodos. Então o conhecimento natural cessa e o
conhecimento espiritual toma seu lugar. O conhecimento natural é contrário à fé, pois a fé e tudo o que
vem da fé, é "a destruição das leis do conhecimento" - embora não do conhecimento espiritual, mas do
conhecimento natural.

A principal característica do conhecimento natural é a sua abordagem por meio do exame e da


experimentação. Isso em si mesmo é "um sinal de incerteza sobre a verdade". A fé, ao contrário, segue
um modo de pensamento puro e simples, que está longe de todo exame enganador e metódico. Esses dois
caminhos levam para direções opostas. A casa da fé é "pensamento como de criança e simplicidade de
coração", pois é dito: Glorifique a Deus "em simplicidade de coração" (Col. 3:22), e: " se não vos
converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus"(Mateus 18:
3). O conhecimento natural se opõe à simplicidade do coração e à simplicidade do pensamento. Este
conhecimento funciona apenas dentro dos limites da natureza, “mas a fé tem o seu próprio caminho para
além da natureza.”

Quanto mais um homem se dedica aos caminhos do conhecimento natural, mais ele é agarrado pelo medo
e menos pode se livrar dele. Mas se ele segue a fé, ele é imediatamente libertado e "como filho de Deus,
tem o poder de fazer uso livre de todas as coisas," pois para a fé é dado o poder de "ser como Deus ao
fazer uma nova criação". Assim, está escrito: "Tu suplicaste, e todas as coisas são apresentadas diante de
ti" (cf. Job 23:13 LXX). A fé geralmente pode "gerar todas as coisas do nada", enquanto o conhecimento
não pode fazer nada "sem a ajuda da matéria". O conhecimento não tem poder sobre a natureza, mas a fé
tem tal poder. Armados com fé, os homens entraram no fogo e apagaram as chamas, sendo intocados por
elas. Outros caminharam sobre as águas como em terra firme. Todas essas coisas estão "além da
natureza"; elas vão contra os modos do conhecimento natural e revelam a vaidade de tais modos. A fé
"move-se acima da natureza". Os caminhos do conhecimento natural governaram o mundo por mais de
cinco mil anos, e o homem não conseguiu "levantar o olhar da terra e entender o poder de seu Criador"
até que "nossa fé surgiu e nos livrou das sombras das obras deste mundo" e de uma mente fragmentada.
Aquele que tem fé "não faltará nada" e, quando possui nada, "ele possui todas as coisas pela fé", como
está escrito: "Tudo o que pedirdes em oração, crendo, receberás" (Mateus 21:22); e também: "O Senhor
está próximo; não se preocupe com nada "(Filipenses 4: 5-6) .

As leis naturais não existem para a fé. São Isaque enfatiza decisivamente: "Tudo é possível para aquele
que crê" (Marcos 9:23), pois com Deus nada é impossível. O conhecimento natural restringe os discípulos
de "aproximar-se do que é estranho à natureza," para aquilo que está acima da natureza.

Este conhecimento natural a que se refere São Isaque aparece na filosofia moderna sob três títulos:
realismo baseado nos sentidos, crítica epistemológica e monismo. Essas três abordagens limitam o poder,
a realidade, a força, o valor, os critérios e a extensão do conhecimento dentro dos limites da natureza
visível - na medida em que estes coincidem com os limites dos sentidos humanos como órgãos do
conhecimento. Pisar além dos limites da natureza e entrar no reino do sobrenatural é algo considerado
contra a natureza, como algo irracional e impossível, proibido aos seguidores dos três caminhos
filosóficos em questão. Diretamente ou indiretamente, o homem está limitado aos seus sentidos e não se
atreve a passar além deles.

No entanto, esse conhecimento natural, de acordo com São Isaque, não é culpado. Não deve ser rejeitado.
Acontece apenas que a fé é maior. Este conhecimento só deve ser condenado na medida em que, pelos
diferentes meios que ele usa, ele se volta contra a fé. Mas quando esse conhecimento "é unido à fé,
tornando-se um com ela, se vestindo em seus pensamentos ardentes", quando "adquire asas da
despaixão", então, usando outros meios do que os naturais, eleva-se da terra para a "esfera do Criador",
para o sobrenatural. Este conhecimento é então realizado pela fé e recebe o poder de "subir às alturas",
para perceber Aquele que está além de toda percepção e "ver o brilho que é incompreensível para a mente
e o conhecimento dos seres criados". O conhecimento é o nível a partir do qual um homem se eleva às
alturas da fé. Quando alcança estas alturas, ele não mais precisará, pois está escrito: "Porque em parte
conhecemos, mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado" (1 Coríntios
13:9,10). A fé nos revela agora a verdade da perfeição, como se estivesse diante de nossos olhos. É pela
fé que aprendemos o que está além da nossa compreensão - pela fé e não pela pesquisa e pelo poder do
conhecimento.

As obras da retidão são: o jejum, a esmola, a vigília, a pureza do corpo, o amor ao próximo, a humildade
do coração, o perdão dos pecados, a reflexão sobre as coisas celestiais, o estudo dos mistérios da Sagrada
Escritura, o engajamento da mente em as obras mais elevadas - estas e todas as outras virtudes são passos
pelos quais a alma se eleva aos mais altos domínios da fé.

Existem três modos espirituais em que o conhecimento aumenta e diminui, e pelo qual se move e muda.
Esses são o corpo, a alma e o espírito. Embora o conhecimento seja um todo único por sua natureza, ele
muda o modo e a forma de sua ação em relação a cada um desses três. "O conhecimento é um dom de
Deus para a natureza dos seres racionais, dado a eles no início, na sua criação. É naturalmente simples e
indiviso, como a luz do sol, mas em função do corpo, da alma e do espírito, ele muda e se divide".

No seu nível mais inferior, o conhecimento "segue os desejos da carne", preocupando-se com riquezas,
vaidade, vestimentas, repouso do corpo e busca de sabedoria racional. Este conhecimento inventa as artes
e as ciências e tudo o que adorna o corpo neste mundo visível. Mas, em tudo isso, esse conhecimento é
contrário à fé. É conhecido como "mero conhecimento, pois é privado de todo o pensamento do divino e,
por seu caráter carnal, traz à mente uma fraqueza irracional, porque nela a mente é superada pelo corpo e
toda a sua preocupação é para a coisas desse mundo". É pomposo e cheio de orgulho, pois remete toda
boa obra a si mesmo e não a Deus. O que o apóstolo disse, "conhecimento traz orgulho" (I Cor. 8: 1),
obviamente foi dito sobre esse conhecimento, que não está ligado à fé e à esperança em Deus e não ao
conhecimento verdadeiro. O verdadeiro conhecimento espiritual, ligado à humildade, traz à perfeição a
alma daqueles que o adquirem, como se vê em Moisés, Davi, Isaías, Pedro, Paulo e todos aqueles que,
dentro dos limites da natureza humana, foram considerados dignos deste conhecimento perfeito.

"Com eles, o conhecimento sempre está imerso em refletir coisas estranhas a este mundo, em revelações
divinas e na contemplação elevada de coisas espirituais e mistérios inefáveis. Em seus olhos, suas
próprias almas são apenas pó e cinzas." O conhecimento que vem da carne é criticado pelos cristãos, que
o vêem em oposição não somente à fé, mas a qualquer ato de virtude.

Não é difícil ver que, neste primeiro e grau mais inferior de conhecimento do qual o Santo Isaque fala,
está incluído praticamente toda a filosofia européia, do realismo ingénuo ao idealismo - e toda a ciência
do atomismo de Democrates à relatividade de Einstein.

Do primeiro e mais inferior grau de conhecimento, o homem passa para o segundo, quando ele começa
tanto no corpo quanto na alma a praticar as virtudes: jejum, oração, esmola, a leitura da Sagrada Escritura,
a luta com as paixões e assim por diante . Todo bom trabalho, toda boa disposição da alma neste segundo
grau de conhecimento, é iniciado e realizado pelo Espírito Santo através do funcionamento desse
conhecimento particular. Ao coração é mostrado os caminhos que levam à fé, mesmo que esse
conhecimento permaneça "corporal e composto".
O terceiro grau de conhecimento é o da perfeição. "Quando o conhecimento eleva-se acima da terra e do
cuidado com as coisas terrenas e começa a examinar seus próprios pensamentos interiores e ocultos,
desprezando aqueles dos quais o mal das paixões brotam e se eleva para seguir o caminho da fé no que
concerne a vida por vir... e na busca de mistérios ocultos - então a fé toma esse conhecimento em si
mesma e absorve-o, retornando e dando à luz desde o início, de modo a se tornar "desde o início",
inteiramente espírito". Então, pode "tomar asas e voar para o reino dos espíritos incorpóreos e aprofundar
as profundezas do oceano insondável, ponderando sobre as coisas divinas e maravilhosas que regem a
natureza dos seres espirituais e físicos, penetrando os mistérios espirituais que só podem ser apreendidos
por uma mente simples e flexível. Em seguida, os sentidos internos despertam para a obra do espírito nas
coisas que pertencem a esse outro reino, imortal e incorruptível. Este conhecimento, de forma oculta, aqui
neste mundo, já recebeu ressurreição espiritual para dar testemunho verdadeiro da renovação de todas as
coisas".

Estes, de acordo com São Isaque, são os três graus de conhecimento com que toda a vida do homem está
ligada em corpo, alma e espírito. A partir do momento em que ele "começa a discernir entre o bem e o
mal até o momento de sua saída deste mundo", o conhecimento da alma é composto de um ou todos esses
três graus.

O primeiro grau de conhecimento "esfria o ardor da alma por empreendimentos no caminho de Deus". O
segundo "re-acende para o caminho rápido que leva à fé". O terceiro é um "descanso do trabalho", quando
a mente "regojiza nos mistérios da vida por vir ". "Mas, como a natureza não pode, ainda, ascender
completamente ao nível da imortalidade e superar o peso da carne e se aperfeiçoar no conhecimento
espiritual, nem mesmo esse terceiro grau de conhecimento é capaz de se mover para a perfeição total, de
modo a viver na mundo da morte e ainda deixa para trás a natureza completamente carnal ". Enquanto o
homem está na carne, portanto, ele passa de um grau de conhecimento para outro. Ele tem a ajuda da
graça, mas é impedido pelos demônios, "porque ele não é totalmente livre neste mundo imperfeito." Todo
trabalho do conhecimento consiste em "esforço e prática constante", mas o trabalho de fé "não consiste
em atos", mas em pensamentos espirituais e na pureza de alma, e isso está acima dos sentidos. Pois a fé é
mais sutil que o conhecimento, assim como o conhecimento é mais sutil do que os sentidos. Todos os
santos que alcançaram tal vida "habitam, por fé, nas delícias de uma vida acima da natureza". Essa fé
nasce na alma através da luz da graça que, "pelo testemunho da mente, ampara o coração que pode estar
incerto em esperança - numa esperança que está longe de qualquer presunção". Esta fé tem "olhos
espirituais" que percebem "os mistérios escondidos na alma, riquezas escondidas que estão ocultas dos
olhos dos filhos da carne", mas são reveladas pelo Espírito Santo, que é recebido pelos discípulos de
Cristo (cf. João 14: 15-17). O Espírito Santo é "o poder santo" que permanece dentro do homem de
Cristo, preservando e defendendo sua alma e corpo do mal. Este poder invisível é percebido com os olhos
da fé por aqueles cujas mentes estão iluminadas e santificadas. É sabido pelos santos "através da
experiência".

Para explicar ainda mais claramente o mistério do conhecimento, São Isaque apresenta mais definições de
conhecimento e fé. "O conhecimento que se preocupa com o visível e o sensual é chamado de natural; o
conhecimento que se preocupa com o espiritual e o incorpóreo é chamado de espiritual, pois recebe sua
percepção através do espírito e não através dos sentidos. O conhecimento que vem pelo poder divino, no
entanto, é conhecido como sobrenatural. É incognoscível e é superior ao conhecimento." "A alma não
recebe essa contemplação da matéria que está fora dela", como é o caso dos dois primeiros tipos de
conhecimento, "mas vem inesperadamente por si só como um dom imaterial contido dentro de si, de
acordo com as palavras de Cristo: 'O reino de Deus está dentro de vós' (Lucas 17:21). Não há razão para
aguardar seu aparecimento em alguma forma externa, pois não vem 'com observação' (Lucas 17:20)".

O primeiro conhecimento vem "do estudo contínuo e do desejo de aprender. O segundo vem de uma
maneira correta de vida e uma fé claramente mantida. O terceiro vem somente da fé, pois nela o
conhecimento é extinto, a atividade cessa, e os sentidos tornam-se supérfluos." Pois os mistérios do
Espírito, "que estão além do conhecimento e não são apreendidos nem pelos sentidos corporais nem pelos
poderes racionais da mente, Deus nos deu uma fé pela qual só sabemos que esses mistérios existem". O
Salvador chama a chegada do Consolador "os dons da revelação dos mistérios do Espírito" (ver João
14:16, 26), e, portanto, vê-se que a perfeição do conhecimento espiritual consiste "no recebimento do
Espírito, assim ocorreu com os apóstolos." "A fé é a porta de entrada para os mistérios. Assim como os
olhos corporais vêem as coisas materiais, a fé vê com os olhos espirituais o que está escondido." Quando
o homem atravessa o portão da fé, Deus o leva "aos mistérios espirituais e abre o mar da fé ao seu
entendimento".
Todas as virtudes têm um papel a desempenhar neste conhecimento espiritual, pois é fruto da prática das
virtudes.A fé "engendra o temor de Deus" e, a partir desse temor de Deus, segue o arrependimento e a
prática das virtudes, que dá origem ao conhecimento espiritual. Este conhecimento, "vindo de uma longa
experiência e prática das virtudes, é agradável" e dá ao homem um grande poder. A primeira e principal
base do conhecimento espiritual é uma alma saudável, um órgão de conhecimento saudável. "O
conhecimento é o fruto de uma alma saudável", enquanto uma alma saudável é o resultado de uma longa
prática das virtudes evangélicas. Os que "tem a alma saudável" são os perfeitos, e é para eles que o
conhecimento é dado.

É muito difícil, e muitas vezes impossível, expressar em palavras o mistério e a natureza do


conhecimento. No reino do pensamento humano, não existe uma definição pronta que possa explicá-lo
completamente. São Isaque, portanto, dá muitas definições diferentes de conhecimento. Ele é
continuamente ocupado neste assunto, e o problema é como um ponto de interrogação incerto diante dos
olhos deste santo asceta. O santo apresenta as respostas de sua experiência rica e abençoada, alcançada
através de uma longa e dura ascese. Mas a resposta mais profunda e, na minha opinião, mais exaustiva
que o homem pode dar a esta questão é a de São Isaque, sob a forma de um diálogo:

"Pergunta: o que é conhecimento?


"Resposta: A percepção da vida eterna.
"Pergunta: E o que é a vida eterna?
"Resposta: perceber todas as coisas em Deus. Pois o amor vem pela compreensão, e o conhecimento de
Deus é governante sobre todos os desejos. Para o coração que recebe esse conhecimento, todo prazer que
existe na terra é supérfluo, pois não há nada que possa comparar com o deleite do conhecimento de
Deus".

O conhecimento é, portanto, a vitória sobre a morte, a ligação desta vida com a vida imortal e a união do
homem com Deus. O próprio ato de conhecimento toca o imortal, pois é pelo conhecimento que o homem
ultrapassa os limites do subjetivo e entra no reino do trans-subjetivo. E quando o objeto trans-subjetivo é
Deus, o mistério do conhecimento torna-se o mistério dos mistérios e o enigma dos enigmas. Esse
conhecimento é um tecido místico tecido no tear da alma pelo homem que está unido com Deus.

Para o conhecimento humano, o problema mais importante é o da verdade. O conhecimento traz em si


uma atração irresistível para o mistério infinito, e essa fome de verdade que é instintiva para o
conhecimento humano nunca é satisfeita até que a verdade eterna e absoluta se torne a substância do
conhecimento humano - até que o conhecimento, em sua própria autopercepção, adquira a percepção de
Deus, e em seu auto-conhecimento, vem ao conhecimento de Deus. Mas isso é dado ao homem apenas
por Cristo, o Deus-homem, Ele que é a única encarnação e personificação da verdade eterna no mundo
das realidades humanas. Quando o homem recebe o Deus-homem em si mesmo como a alma de sua alma
e a vida de sua vida, este o homem é constantemente preenchido com o conhecimento da verdade eterna.

O que é verdade? São Isaque responde assim: "A verdade é a percepção das coisas que é dada por Deus".
Em outras palavras: a percepção de Deus é a verdade. Se essa percepção existe no homem, ele tem e
conhece a verdade. Se ele não tem essa percepção, então a verdade não existe para ele. Tal homem
sempre pode estar buscando a verdade, mas nunca a encontrará até chegar à percepção de Deus, onde se
encontra tanto a percepção quanto o conhecimento da verdade.

É o homem que restaura e transforma seus órgãos de conhecimento pela prática das virtudes que vem à
percepção e ao conhecimento da verdade. Para ele fé e conhecimento, e tudo o que acompanha, são um
todo indivisível e orgânico. Eles preenchem e são preenchidos um pelo outro, e cada um confirma e apoia
o outro. "A luz da mente dá à luz a fé", diz São Isaque, "e a fé dá à luz a consolação de esperança,
enquanto a esperança fortalece o coração. A fé é a iluminação do entendimento. Quando o entendimento é
escurecido, a fé se esconde e o medo mantém a influência, cortando a esperança. A fé, que banha o
entendimento na luz, liberta o homem do orgulho e da dúvida, e é conhecida como "o conhecimento e a
manifestação da verdade".

O conhecimento sagrado vem de uma vida santa, mas o orgulho escurece esse conhecimento sagrado. A
luz da verdade aumenta e diminui de acordo com o modo de vida do homem. Terríveis tentações caem
sobre aqueles que procuram viver uma vida espiritual. O asceta da fé deve, portanto, passar por grandes
sofrimentos e infortúnios para chegar ao conhecimento da verdade.
Uma mente perturbada e pensamentos caóticos são fruto de uma vida desordenada, e estes escurecem a
alma. Quando as paixões são expulsas da alma com a ajuda das virtudes, quando "a cortina das paixões é
retirada dos olhos de a mente", então o intelecto pode perceber a glória do outro mundo. A alma cresce
por meio das virtudes, a mente é confirmada na verdade e torna-se inabalável, "cingido por encontrar e
matar todas as paixões". Libertação das paixões é provocada pela crucificação do intelecto e da carne.
Isso torna o homem capaz de contemplar Deus. O intelecto é crucificado quando os pensamentos impuros
são expulsos dele, e o corpo quando as paixões são desenraizadas. "Um corpo entregue ao prazer não
pode ser a morada do conhecimento de Deus".

O verdadeiro conhecimento - "a revelação dos mistérios" - é alcançado por meio das virtudes, e este é "o
conhecimento que salva". A característica principal - e a "prova" - deste conhecimento é a humildade.
Quando o intelecto "habita no domínio do conhecimento da verdade", então todos os questionamentos
cessam, e uma grande calma e paz descem sobre ele. Essa paz mental é chamada de "saúde perfeita".
Quando o poder do Espírito Santo entra na alma, a alma "aprende através do Espírito".

Na filosofia de São Isaque, o problema da natureza do conhecimento torna-se um problema ontológico e


ético que, em última instância, é visto como o problema da personalidade humana. A natureza e o caráter
do conhecimento dependem ontologicamente, moralmente e gnoseologicamente da constituição da pessoa
humana, e especialmente da constituição e do estado de seus órgãos de conhecimento. Na pessoa do
asceta da fé, o conhecimento, por sua própria natureza, se transforma em contemplação.

Contemplação

Na filosofia dos santos pais, a contemplação tem um significado ontológico, ético e gnoseológico.
Significa a concentração da alma na oração, através da ação da graça, nos mistérios que superam nosso
entendimento e estão abundantemente presentes não só na Santíssima Trindade, mas na pessoa do próprio
homem e em toda a criação de Deus. Na contemplação, a pessoa do asceta da fé vive acima dos sentidos,
acima das categorias de tempo e espaço. Ele tem uma consciência vívida dos laços que o vinculam ao
mundo superior e é alimentado por revelações que contêm as coisas que "o olho não viu, e o ouvido não
ouviu, e não subiram ao coração do homem" (I Cor.2: 9 ).

São Isaque se esforça para colocar em palavras a sua grande experiência, adquirida através da graça que o
levou à contemplação. Na medida em que a linguagem humana permite a compreensão e a tradução das
verdades da experiência religiosa, ele procura explicar o mais claramente possível o que é a
contemplação. Segundo ele, a contemplação é o senso dos mistérios divinos escondidos nas coisas e nos
eventos. A contemplação é encontrada nos melhores trabalhos da mente e em contínua reflexão sobre
Deus. Sua morada é a oração incessante, e assim ilumina a parte espiritual da alma, o intelecto.

"Às vezes, a contemplação brota da oração, silenciando a oração dos lábios. Então o homem em oração se
torna através da contemplação um corpo sem respiração, fora de si mesmo. Este estado é conhecido como
a contemplação da oração." "Nesta contemplação orante existem vários graus e uma diversidade de dons",
porque "a mente ainda não passou" para aquele reino onde não há mais oração (onde "a oração não
existe"), pois naquele reino há algo maior do que a oração.

Com a ajuda de uma boa vida vivida na graça, o asceta da fé ascende à contemplação. "Para começar, ele
se torna confiante na providência de Deus para com os homens e é iluminado pelo amor por seu Criador e
se maravilha com o cuidado dele pelos seres racionais que Ele criou. Depois disso, surge nele a doçura de
Deus e um amor ardente por Deus em seu coração, um amor que queima as paixões da alma e do corpo".
Ele torna-se então "embriagado com o vinho do amor divino ... e seus pensamentos são atraídos para além
de si mesmos e seu coração feito cativo por Deus." "Às vezes parece que ele não está no corpo nem
mesmo neste mundo. Tal é o começo da contemplação espiritual em um homem - da contemplação e ao
mesmo tempo de toda revelação para a mente. "A mente" cresce "com a ajuda da contemplação e se
levanta às revelações" que estão além da natureza humana ". Parece-lhe às vezes que ele não está no
corpo ou mesmo neste mundo. Tal é o começo da contemplação espiritual em um homem - de
contemplação e ao mesmo tempo de toda revelação para a mente." A mente "cresce" com a ajuda da
contemplação e se eleva às revelações "que estão além da natureza humana". Em resumo: na
contemplação "são trazidos ao homem todas as contemplações divinas e revelações espirituais que os
santos recebem neste mundo, e todos os dons e revelações que a própria natureza é capaz de conhecer
neste mundo".
A virtude do entendimento "torna a alma humilde e purifica-a de pensamentos nublados, para que não se
perca entre as paixões, avançando para a contemplação". Essa contemplação aproxima a mente da sua
natureza primitiva e é chamada de "contemplação imaterial". É uma "virtude espiritual", porque "eleva a
alma acima da terra, aproximando-a da contemplação primitiva do Espírito, introduzindo a mente a Deus
e a contemplação de Sua inefável glória ... mantendo a mente para além desse mundo e a percepção dele."
A vida do Espírito é uma atividade na qual os sentidos não têm parte. Os santos pais escreveram sobre
isso: "Assim que os intelectos dos santos alcançam essa vida, a contemplação material e a opacidade da
carne recuam e a contemplação espiritual toma seu lugar".

"As modalidades de oração" são múltiplas, diz São Isaque, mas todas têm um único objetivo: a oração
pura. Nas profundezas desta oração pura, encontra-se "um arrebatamento que não é oração, pois tudo o
que pode ser chamado de oração cessa, e permanece uma contemplação na qual a mente não consegue
orar." "A oração é uma coisa, mas essa contemplação-em-oração é outra, embora uma surge da outra. A
oração é a semeadura, e a contemplação a coleta, em que o colhedor fica espantado com a maravilhosa
abundância que cresceram dos pequenos grãos que semeou." Neste estado de contemplação, o intelecto
passa além de seus próprios limites e entra "naquele outro mundo".

Transformada pela oração e outras práticas ascéticas, a mente se purifica e aprende "a contemplar Deus
com os olhos divinos e não humanos".

Aquele que guarda o coração das paixões contempla Deus a cada instante. Aquele que mantém uma
vigilância constante sobre sua alma "a cada hora contempla o Senhor". "Aquele que vigia a própria alma a
cada hora verá seu coração se alegrar com as revelações. Aquele que obtém a contemplação de seu
intelecto dentro de si mesmo contemplará o alvorecer do Espírito. Aquele que se afasta da dispersão de
sua mente contemplará o Senhor nos recessos internos do seu coração ... Eis que o céu está dentro de
você, se você é puro, você verá os anjos em seu esplendor e, com eles e dentro deles, o próprio Senhor ...
A alma do homem justo brilha mais do que o sol e se alegra a cada hora na contemplação das coisas
reveladas."

Quando, após a ascese rigorosa do Evangelho, o homem encontra em si o centro divino de seu ser - e
encontra também o centro da divindade transcendente neste mundo visível -, então, ele se eleva acima do
tempo e contempla-se a partir de eternidade. Ele se vê acima do tempo e espaço, imortal e eterno. Na sua
raiz, o verdadeiro autoconhecimento também é verdadeiro conhecimento de Deus, pois o homem traz o
caminho mais curto entre ele e Deus na imagem divina de sua própria alma. Aqui está a distância mais
curta entre o homem e Deus. Todos os caminhos do homem para Deus podem encontrar um beco sem
saída; somente este leva certamente a Deus em Cristo. Em sua filosofia, São Isaque dá grande ênfase ao
autoconhecimento.

"Aquele que foi considerado digno de ver a si mesmo", diz ele, "é maior que aquele que foi considerado
digno de ver anjos".

Para adquirir a capacidade de ver em sua própria alma, o homem deve primeiro abrir o coração para a
graça. "Na medida em que as almas são impuras ou escurecidas, elas não podem ver nem a si mesmas
nem a outras pessoas". A visão virá "se o homem purificar sua alma e trazê-la de volta ao seu estado
original". "Quem desejar ver Deus dentro de si mesmo deve esforçar-se pela constante lembrança de Deus
para purificar seu coração; e assim, com a luz dos olhos de sua mente, ele verá Deus a cada hora. Assim
como é um peixe fora da água, assim é um intelecto que se desviou da lembrança de Deus ... Para o
homem com uma mente pura, o reino do Espírito está dentro de si mesmo; o sol que brilha dentro dele é a
luz da Santíssima Trindade e o ar respirado pelos habitantes deste reino é o Espírito Santo, o Consolador
... Sua vida, sua alegria e felicidade é Cristo, o resplendor da luz do Pai. Tal homem sempre se alegra com
a contemplação de sua alma, maravilhando-se com a beleza que é mais brilhante do que mil sóis. Esta é
Jerusalém, o Reino de Deus, escondido, como o Senhor diz, dentro de nós (Lucas 17:21). Este reino é a
nuvem da glória de Deus, na qual somente o puro coração pode entrar para contemplar o rosto de seu
Mestre e preencher seus intelectos com o brilho de Sua luz ... Um homem não pode ver a beleza que está
dentro de si mesmo até que ele tenha rejeitado e desprezado toda a beleza que está fora dele ... Um
homem que é saudável de alma, que é humilde e manso, tal homem, assim que ele se volta para a oração,
vê a luz do Espírito Santo dentro de sua alma e se alegra em contemplar os raios de Sua luz, deliciando-se
na contemplação de sua glória ".
Um homem pode entender a natureza de sua alma pela luz do Espírito Santo. "Por natureza, a alma está
livre das paixões. Quando, na Sagrada Escritura, falam das paixões da alma e da carne, isso se refere às
suas causas, pois a alma é por natureza sem paixão. Isso não é aceito pelos adeptos da filosofia profana" -
ou, como diriamos hoje, os adeptos da filosofia materialista, realista e fenomenalista. Pelo contrário, Deus
criou a alma à Sua imagem e, portanto, sem paixão.

Existem três estados de alma: natural, não natural e sobrenatural. "O estado natural da alma é o
conhecimento da criação de Deus, tanto visível quanto espiritual. O estado sobrenatural da alma é a
contemplação da Divindade super-essencial. O estado não natural da alma é o envolvimento nas paixões",
pois as paixões não pertencem à sua natureza. A paixão é um estado não natural da alma, mas a virtude é
seu estado natural. Quando a mente é alimentada pelas virtudes, especialmente a da compaixão, a alma é
então "adornada com a beleza santa" através da qual o homem torna-se realmente semelhante à de Deus.

A "santa beleza" do ser do homem é revelada em um coração puro, e quanto mais o homem desenvolve
esta santa beleza dentro de si mesmo, mais ele verá a beleza da criação de Deus.

Isso mostra que o autoconhecimento é a melhor maneira de chegar a um verdadeiro conhecimento da


natureza e do mundo material em geral. "Aquele que se submete a Deus", diz São Isaque, "está próximo
de ser capaz de submeter todas as coisas a si mesmo. Para quem conhece a si mesmo é dado conhecer
todas as coisas, pois o conhecimento de si mesmo é a plenitude do conhecimento de todas as coisas." Se
um homem se humilha diante de Deus, toda a criação se humilha diante dele. "A verdadeira humildade
nasce do conhecimento, e o verdadeiro conhecimento é fruto da tentação" - isto é, vem pela batalha com
as tentações.

A natureza humana é capaz da verdadeira contemplação quando é purificada das paixões pelo exercício
das virtudes. A verdadeira contemplação do mundo material e imaterial, e da própria Santíssima
Trindade, é o dom de Cristo. Ele revelou essa contemplação aos homens e instruiu-os nela "quando Ele,
em Sua própria Pessoa Divina, completou a renovação da natureza humana e, através de Seus
mandamentos vivificantes, abriu um caminho para a verdade. A natureza humana só se torna capaz de
uma verdadeira contemplação quando o homem primeiro expõe o velho Adão ao suportar as paixões,
cumprindo os mandamentos e sofrendo o infortúnio ... Nessas circunstâncias, o intelecto se torna capaz de
nascimento espiritual e de contemplação do mundo espiritual, sua verdadeira pátria ... A contemplação do
novo mundo revelado pelo Espírito, no qual o intelecto tem deleite espiritual, ocorre sob a ação da graça
... Essa contemplação torna-se um alimento que nutre o intelecto, preparando-o para receber uma
contemplação ainda mais perfeita. Pois uma contemplação conduz a outra, até que o intelecto seja trazido
para o reino do amor perfeito. O próprio amor é a morada, o "lugar" do homem espiritual; ele habita na
pureza da alma. Quando o intelecto alcança o reino do amor, a graça trabalha nele e o intelecto recebe
contemplação espiritual e torna-se um espectador de coisas ocultas".

A contemplação mística "é revelada ao intelecto quando a alma foi curada". Aqueles que purificaram suas
almas pela prática das virtudes tornam-se dignos da contemplação espiritual. "A pureza vê Deus". Os que
se purificaram do pecado e que refletem de forma incessante sobre Deus O contemplam. "O reino dos
céus é chamado de contemplação espiritual, pois é isso o que é", diz São Isaque. "Não é encontrado
através da atividade do pensamento, mas pode ser provado pela graça. Até que um homem se purifique,
ele não tem condições de ouvir o Reino, pois ninguém pode adquiri-lo através de ensinamentos", somente
pela pureza de coração. Deus dá pensamentos puros aos que vivem vidas puras." Pureza de pensamento
brota da luta e da guarda do coração, e da pureza do pensamento vem a iluminação do entendimento. A
partir daí, a graça conduz o intelecto ao reino onde os sentidos não têm poder, onde eles não instruem
nem são instruídos".

Por meio da vigilância na oração, "a mente toma asas e ascende", "para as delícias de Deus". "Ela nada
em um conhecimento que supera o pensamento humano." "A alma que se esforça para se perseverar nesta
vigilância recebe os olhos dos querubins com o qual habita em contemplação constante e celestial". A
alma do homem vê a verdade de Deus através do poder de seu modo de vida, isto é, através da vida de fé.
"Se a sua contemplação é verdadeira, ele encontrará a luz e o que ele contempla estará no reino da
verdade". "A visão de Deus vem do conhecimento de Deus e não pode preceder esse conhecimento" .

O objetivo de um cristão é a vida na contemplação da Santíssima Trindade. De acordo com São Isaque, o
amor é "a contemplação primordial da Santíssima Trindade". "O primeiro dos mistérios é chamado de
pureza, e é alcançado através da realização dos mandamentos. Mas a contemplação é a contemplação
espiritual do intelecto." Ela vem da "mente entrando em êxtase e compreendendo tanto o que era como o
que será. A contemplação é a visão do intelecto. Nela, o coração é corrigido, renovado e purificado do
mal, familiarizando-se com os mistérios do Espírito e as revelações do conhecimento, elevando-se de
conhecimento em conhecimento, da contemplação à contemplação, e do entendimento ao entendimento,
aprendendo e crescendo secretamente até que é tomado pelo amor, incorporado na esperança, até que a
alegria habite em suas partes mais internas, até que seja levada a Deus e coroada com a glória natural de
seu próprio ser criado." Assim, a mente "é purificada e dotada de misericórdia, sendo realmente
considerada digno de contemplar a Santíssima Trindade". Pois há três tipos de contemplação natural em
que a mente "é edificada, ativa e engajada": "duas são do mundo criado - do racional e do não-racional,
espiritual e corporal; e a terceira é a contemplação da Santíssima Trindade ".

Se o asceta da fé, enriquecido pelas riquezas indescritíveis da contemplação, se volta para a criação, todo
o seu ser é cheio de amor e compaixão. "Ele ama o pecador", diz São Isaque, "ao passo que odeia suas
obras". Ele é entrelaçado com humildade e misericórdia, com arrependimento e amor. Ele tem um
coração cheio de amor para toda criatura. "O que é um coração misericordioso?" "É", responde São
Isaque, "um coração ardente de amor em relação a toda a criação: para homens, pássaros, animais,
demônios e toda criatura. Seus olhos transbordam de lágrimas ao pensar e vê-los. Da grande e poderosa
tristeza que aperta seu coração e da sua grande paciência, seu coração se contrai, e ele não pode suportar
ouvir ou ver o menor mal causado ou infortúnio sofrido pela criação. Portanto, ele também ora com
lágrimas incessantemente pelas bestas irracionais, pelos adversários da verdade e por aqueles que o fazem
mal, para que sejam preservados e recebam misericórdia. Ele também ora pelos répteis com grande
tristeza, uma tristeza sem medida em seu coração e que o assemelha a Deus".

Quando, por um ascetismo evangélico, alguém se move do temporal para o eterno, quando
vive em Deus e pensa nEle, quando fala "como de Deus" (II Cor. 2:17), quando ele olha para o
mundo sub specie Christi, então o mundo é mostrado a ele em sua beleza primordial. Com o
olhar de um coração purificado, ele penetra na crosta do pecado e vê o núcleo divinamente
criado da criação. A contemplação da Santíssima Trindade, essencialmente misteriosa e
incognoscível, é manifestada pelo asceta da fé neste mundo de realidades transitórias e
limitadas através do amor e da misericórdia, através da mansidão e humildade, através da
oração e do trabalho para todos, através da alegria com aqueles que se alegram e choro com
aqueles que choram, sofrendo com os que sofrem e se arrependendo com o penitente. Sua
vida neste mundo reflete sua vida no outro mundo de valores misteriosos e invisíveis. Seus
pensamentos e atos neste mundo têm suas raízes no outro mundo, e é do outro mundo que
eles extraem sua miraculosa e vivificante força e poder. Se alguém rastreasse algum de seus
pensamentos, sentimentos, atos ou práticas ascéticas, seria levado para a Santíssima
Trindade como a principal fonte de todos. Todas as coisas vêm dele do Pai através do Filho no
Espírito Santo. Temos o mais belo exemplo disso no próprio São Isaque, o grande asceta da
Santíssima Trindade que, com São Simeão, o Novo Teólogo, conseguiu, com a ajuda da graça
e da experiência ascética, dar-nos a justificativa mais convincente da verdade da divindade
trinitária e da imagem trinitária divina do ser pessoal do homem.

Conclusão

A teoria do conhecimento de São Isaque é dominada pela convicção de que o problema do


conhecimento é fundamentalmente um problema religioso e ético. Desde o seu início até a
sua plenitude infinita na graça, o conhecimento depende do conteúdo ético e da qualidade
religiosa da pessoa e, sobretudo, da cultura religiosa e ética e do desenvolvimento dos órgãos
do conhecimento do homem. Uma coisa é certa: esse conhecimento, em todos os níveis,
depende do estado religioso e moral do homem. Quanto mais um homem é perfeito do ponto
de vista religioso e moral, mais perfeito é o seu conhecimento. O homem foi feito de tal
maneira que o conhecimento e a moral estão sempre equilibrados dentro dele.

Não há dúvida de que o conhecimento progride através das virtudes do homem e regride
através das paixões. O conhecimento é como um tecido tecido pelas virtudes sobre o tear da
alma humana. O tear da alma se estende através de todos os mundos visíveis e invisíveis. As
virtudes não são apenas poderes criando conhecimento; elas são os princípios e a fonte do
conhecimento. Ao transformar as virtudes em elementos constituintes de seu ser através de
um esforço ascético, o homem avança de conhecimento em conhecimento. Poderia até
mesmo ser possível dizer que as virtudes são os órgãos sensoriais do conhecimento.
Avançando de uma virtude para outra, o homem se move de uma forma de compreensão para
outra.

Da primeira virtude, a fé, até a última, que é o amor por todos, existe um caminho
ininterrupto: o ascetismo. Neste longo caminho, homem se forma, transforma e se transfigura
através da graça de seus esforços ascéticos. Desta forma ele cura seu ser das enfermidades do
pecado e da ignorância, restaurando a integridade de sua pessoa, unificando e curando seu
espírito.

Curado e feito íntegro pelo poder religioso e moral das virtudes, o homem expressa a pureza
e a integridade de sua pessoa particularmente através da pureza e integridade de seu
conhecimento. De acordo com o entendimento ortodoxo evangélico encontrado em São
Isaque, o conhecimento é uma ação, uma ascese, de toda a pessoa humana e não de uma
parte de seu ser - seja ele o intelecto, o entendimento, a vontade, o corpo ou os sentidos. Em
todo ato de conhecimento, em todo pensamento, sentimento e desejo, todo o homem está
envolvido com todo o seu ser.

Curado pela graça do esforço ascético, os órgãos do conhecimento produzem conhecimento


puro e saudável, a "sã (literalmente saudável) doutrina" do Apóstolo (I Tim. 1:10; II Tim. 4: 3;
Tito 1: 9 ; 2: 1). Em todos os estágios de seu desenvolvimento, esse conhecimento é "cheio de
graça", pois é um produto do trabalho conjunto da ascese voluntária do homem e do poder
cheio de graça de Deus. Todo o homem compartilha nele com o todo de Deus. Por esta razão,
São Isaque fala continuamente da lembrança, a "reunião" da alma, da mente e dos
pensamentos, uma lembrança que é alcançada pela prática das virtudes evangélicas.

Mas essas virtudes diferem das de outras éticas religiosas e filosóficas, não apenas em seu
conteúdo, mas também em seu método. As virtudes evangélicas têm um conteúdo específico
que liga Deus e homem, e seu próprio método específico de trabalho. Em sua pessoa divino-
humana, ou "teantrópica" incomparavelmente perfeita, o Deus-homem, Jesus Cristo, mostrou
e provou que esse método, esse modo de vida divino-humano, é o único meio natural e
normal de vida e de conhecimento. O homem que toma esse caminho de fé para si, também
encontra nele um caminho de conhecimento. O que é válido para a fé é válido também para
as outras virtudes divinas: amor, esperança, oração, jejum, mansidão, humildade, e assim por
diante; pois cada uma dessas virtudes se torna, no homem que vive em Cristo, uma força viva
e criativa de vida e conhecimento.

Neste modo de vida e conhecimento teantrópico, não há nada que seja irreal, abstrato ou
hipotético. Aqui tudo é real com uma realidade irresistível, pois tudo é baseado na
experiência. Na pessoa de Cristo, o Deus-homem, transcendente, a realidade divina é
mostrada e definida de forma totalmente empírica. Por Sua encarnação Cristo deu à carne
humana a realidade mais sutil, a mais transcendente, a mais perfeita. Esta realidade não tem
limites, pois a pessoa de Cristo é ilimitada. Segue-se que a personalidade humana não tem
limites, nem o conhecimento dos homens, pois é dito e comandado: " Sede vós pois perfeitos,
como é perfeito o vosso Pai que está nos céus" (Mateus 5:48). Isso significa que os únicos
limites da personalidade e do conhecimento humano são os limites ilimitados de Deus.

A pessoa de Cristo, o Deus-homem, apresenta em si a perfeita e ideal realidade do monismo


teantrópico: uma passagem natural de Deus ao homem, do sobrenatural ao natural, da vida
imortal à vida humana. Tal passagem também é natural para o conhecimento quando, pela
ponte da fé, da esperança e do amor, passa do homem para Deus, do natural ao sobrenatural,
do mortal ao imortal e do temporal ao eterno, revelando assim a unidade orgânica desta vida
e da vida futura, deste mundo e do outro, do natural e do sobrenatural.

Este conhecimento é um conhecimento integral, pois ele eleva-se nas asas das virtudes
divinas e humanas e passa sem obstáculos através das barreiras do tempo e do espaço,
entrando no eterno. É desse conhecimento integral que São Isaque está pensando quando, ao
definir o conhecimento, ele diz que é "a percepção da vida eterna", e quando, definindo a
verdade, ele a chama de "percepção de Deus". Aquilo que é verdadeiro para as virtudes é
verdadeiro também para o conhecimento. Como cada virtude engendra outras virtudes e gera
conhecimento, então cada tipo de conhecimento engendra outro. Uma virtude produz outra e
sustenta-a, e o mesmo vale para o conhecimento.

Quanto mais o homem se exercita nas virtudes, maior se torna seu conhecimento de Deus.
Quanto mais conhece Deus, maior é o seu ascetismo. Este é um caminho empírico e
pragmático. "Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é
de Deus" (João 7:17). Em outras palavras: é vivendo a verdade de Cristo que se conhece a sua
veracidade e singularidade. Este é realmente um caminho empírico, experimental e
pragmático. O conhecimento da verdade não é dado aos curiosos, mas aos que seguem o
caminho ascético. O conhecimento é um fruto na árvore das virtudes, que é a árvore da vida.
O conhecimento vem do ascetismo. Para o verdadeiro cristão, a filosofia ortodoxa é de fato a
ascese teantrópica do intelecto e da pessoa inteira. Aqui, as fortes palavras do Salvador são
especialmente significativas: "A quem tiver, mais lhe será dado; de quem não tiver, até o que
pensa que tem lhe será tirado" (Lucas 8:18).

Observado à luz da teoria do conhecimento de São Isaque, o realismo ingênuo é trágico e


letalmente simplista. Não pode dar um conhecimento real do mundo, pois faz uso de órgãos
do conhecimento doentios e corruptos. Em contraste, o realismo teantrópico dá um
conhecimento real do mundo e da verdade que nele existe, pois usa órgãos de conhecimento
que foram purificados, curados e renovados e podem ver o coração de tudo o que é criado.

O racionalismo considera que o entendimento é um órgão infalível do conhecimento.


Portanto, em relação a toda a pessoa humana, ele aparece como um apóstata anárquico. É
como um ramo que se cortou da videira, que não pode ter vida plena ou realidade criativa por
conta própria. Ele não está em condições para conhecer a verdade, pois em seu isolamento
egocêntrico ele está dividido, espalhado e cheio de lacunas. A verdade, ao contrário, é dada
a um intelecto purificado, iluminado, transfigurado e deificado pela ação das virtudes.

O criticismo filosófico é quase que exclusivamente ocupado com o estudo dos órgãos do
conhecimento em seu estado psíquico e físico, tal como se encontra no domínio meramente
humano. A isso acrescenta o estudo das categorias e condições que são as premissas do
conhecimento. Mas não dá atenção à necessidade de cura e purificação dos órgãos do
conhecimento. Portanto, a crítica filosófica não pode, por si só, ter conhecimento da
verdade, pois não passa de um racionalismo e sensualismo cautelosos.

O idealismo filosófico baseia-se em realidades e critérios transcendentais, mas não está em


condições de provar a existência deles. Fundado em idéias transcendentais, é, no entanto,
incapaz de alcançar o conhecimento da verdade tão necessário para a natureza humana ou
para atenuar, mesmo em parte, a sede de verdade eterna e de realidades duradouras.

Tudo o que esses vários sistemas epistemológicos são incapazes de dar ao homem é dado pela
filosofia ortodoxa com sua teoria ascética cheia de graça do conhecimento. Aqui, a própria
Verdade eterna está diante do conhecimento humano na plenitude da Sua perfeição infinita,
entregando a Si mesmo ao homem iluminado e dotado de graça. Pois é na pessoa de Cristo o
Deus-homem que a verdade divina e transcendental vem ao homem. Nele, a verdade torna-se
objetivamente imanente e apresenta uma realidade histórica imediata e eternamente vital.
Para tornar este conhecimento seu, para torná-lo uma imanência subjetiva, é essencial que o
homem, pela prática das virtudes, faça do Senhor Jesus Cristo a alma de sua alma, o coração
de seu coração e a vida de sua vida.