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KRISHNAMURTI
ÍNDICE
M ADRASTA (índia): A mutação da mente. . . . 19

MADRASTA: Viver em nova d im e n s ã o 29

MADRASTA: Existência r e p e t i t i v a ....................... 40

M ADRASTA: O tempo ........................................ 52

M ADRASTA: A energia e a i n é r c i a ................... 64

M ADRASTA: Silêncio c r i a d o r ............................ 75

BOMBAIM: A relação entre imagens . . . . . . . 88

BOMBAIM: Viver em p a z .................................. 99

BOMBAIM: O campo da c o n s c iê n c ia ............ 109

BOMBAIM: O medo ........................................... 120

BOMBAIM: O conflito da d u a lid a d e ............... 131

BOMBAIM: Que é ação .................................... 142

NOVA DELH I: Inclinações, temperamento, cir­


cunstâncias ......................................................... 153

NOVA DELH I: A peregrinação do homem . . . 165

NOVA DELH I: Da insignificância do nosso


viver ................................................

NOVA DELHI: Da ene-gia .................................... 199

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MADRASTA:
A mutação da mente

T J L emos num erosas questões para considerar juntos, muitos


problem as que nos estão desafiando todos os dias. E, para esse
exame em conjunto, certas coisas se tornam, obviam ente neces­
sárias. Em prim eiro lugar, deve estabelecer-se entre nós a co­
m unicação correta e, graças a ela, a correta relação, pois, de
contrário, nenhum problem a poderá ser exam inado racional e
equilibradam ente. Por conseguinte, cum pre haver cooperação de
vossa parte com o orador, a fim de poderm os, juntam ente, re ­
fletir sobre as diferentes questões. N ão estais m eram ente a ouvir
o que se está dizendo, pcrém , na realidade, participando no
exam e; isso requer intensa cooperação por p arte de todos, no
mesmo nível e ao m esm o tempo. Só dessa m aneira p oderá haver
entre nós a verdadeira com unicação.
N ão sei se já notastes que, em. todas as relações, quando
ambas as partes se acham intensam ente cônscias do problem a
que se está considerando, estabelece-se um a com unicação que,
com efeito, é uma verdadeira com unhão, na qual se transcendem
as palavras. Mas, prim eiram ente, é necessário com preender a
palavra, antes de tentar transcendê-la. Igualm ente necessário me
parece que, de parte a parte, não só ouçam os a palavra, mas
também escutem os o conteúdo da palavra, seu significado e im­
portância. Isso, porque um a palavra pode ser interp retada dife­
rentem ente, quando a intenção do orador é dar-lhe um sentido
especial, um significado diverso.
Assim, deve o ouvinte estar tam bém cônscio da interpreta-

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ção que dá à palavra, do preconceito com que considera uma
sentença, o respectivo significado. E, tam bém , deve estar n atu ­
ralm ente cônscio de com o reage ao que se está dizendo. Tudo
isso exige m uito trabalho de vossa parte, porquanto estas pales­
tras seriam de todo inanes, pouco significativas, se ficásseis me­
ram ente a ouvir o que diz o orador, concordando ou discordan­
do dele e voltando a casa com certos conceitos, que vós mesmo
podeis form ular, com eles concordando ou deles discordando.
Eis, pois, a tarefa que incum be a cada um de nós: o orador não
vai fazer sozinho todo O' trabalho, enquanto vos lim itareis a
ouvi-lo.
Julgo im portantíssim o com preender isso, porquanto esta­
mos aqui verdadeiram ente interessados em prom over um a revo­
lução radical em todas as relações hum anas. As relações consti­
tuem a essência m esm a de nossa existência, não só a exterior,
m as tam bém , e m uito m ais, a interior. E urge efetuar uma
m utação radical na estru tu ra das relações da sociedade em que
vivemos — relações entre indivíduos, entre famílias etc. A vida
é toda de relações; e enquanto não com preenderm os claram ente
o problem a das relações, em nossa vida, em qualquer nível que
tentem os viver, a pleno ou fragm entariam ente, nos veremos sem­
pre num estado de conflito, confusão e aflição. O que vamos,
pois, investigar, juntos, em todas estas palestras, é a m aneira de
prom over um a m utação radical em nossas relações, no sentido
econôm ico, social, político, etc., e tam bém em nossas relações
com nós m esm os, com as im agens que criam os a respeito de nós
m esm os e de acordo com as quais estam os vivendo. A menos
que haja um a alteração em relação à im agem que cada um tem
a respeito de si próprio, da sociedade, dos valores que temos
atribuído à vida; a m enos que considerem os claram ente todos
esses problem as, a m era m udança produzida pelo com unism o,
pela guerra ou pelas grandes invenções, será m uito pouco signi­
ficativa. Porque a imagem interior que tem os de nós mesmos e
segundo a qual vivemos, sem pre se projetará. Se não ocorrer uma
m utação em relação a essa im agem , se ela não for com pletam ente
destroçada, nenhum a possibilidade terem os de estabelecer rela­
ções corretas e, por conseguinte, um a m aneira de vida total­
m ente diferente da atual.
M as, para investigar estes problem as, temos tam bém de

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com preender que ninguém vai ser persuadido a aceitar alguma
coisa, algum conceito ou fórm ula. A propaganda é um a coisa
terribilíssim a, p o rquanto visa a influir nas pessoas, fazendo-as
pensar de determ inada m aneira; não é isso o que pretendem os
aqui. O que querem os é com preender a existência total, a tota­
lidade da vida, e não um m ero fragm ento dela. P ortanto, fica
entendido, desde já, que aqui não existe nenhum a autoridade,
nenhum desejo de vossa p arte ou da parte do orador, de ser
persuadido a pensar de m aneira diferente ou a desfazer-se de
coisas velhas para adotar novas. Pois, quando se vê um fato com
toda a clareza — e tal é a finalidade destas reuniões: ver as
coisas m uito claram ente — esse próprio ato de ver é ação.
V er é agir. Q uando não se vê com m uita clareza, toda ação
se torna naturalm ente confusa e, p o r conseguinte, procuram os
outra pessoa para nos ensinar o que devemos fazer. Com o não
podem os ver por nós mesm os o que cum pre fazer, vê-lo clara e
precisam ente, a todas as horas, em todos os dias de nossa vida,
vamos pedir a outrem que nos ajude a ver claram ente. Ninguém
pode aju d ar outrem a ver claram ente: isto deve ficar bem en­
tendido entre õ orador e vós. P o r conseguinte, vossa responsa­
bilidade, com o ouvinte, se to rn a altam ente significativa, porque
tendes de descobrir, não um m étodo, porém se é possível m udar­
mos radicalm ente, para vivermos um a vida com pletam ente di­
ferente.
V am os, pois, am igavelm ente, exam inar um problem a, sem
que qualquer de nós procure persuadir quem quer que seja a
aceitar ou rejeitar algum a coisa. E, num exam e feito em con­
junto, am bas as partes devem escutar, e esta é que vai ser a
dificuldade.
E scutar é um a das coisas mais difíceis. N ós nunca escuta­
mos. E stam os sem pre a escutar nossos próprios pensam entos,
nossas p róprias idéias, nossos próprios conceitos, as norm as que
devem reger nosso com portam ento. E stam os interessados em
nossas ocupações, nossos problem as, nossas aflições, e temos so­
luções e explicações próprias ou as explicações e os ditos de
outra pessoa, que respeitam os ou tem em os — que é a mesma
coisa.
O ato de escutar — tal com o o de ver — é, com efeito,
um a das coisas mais difíceis que há. O ver um a coisa m uito

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claram ente exige-nos toda a atenção — ver um a árvore delinea­
da contra o crepúsculo, ver claram ente cada um dos seus ram os,
sua beleza, sentir a intensidade da luz que bate na folha, a form a
do ram o, do tronco, ver e sentir a totalidade da árvore e sua
beleza. P ara ver, é preciso estar-se altam ente vigilante, atento.
M as, se a m ente estiver ocupada, não se poderá ver a árvore
em toda a sua excelência; ou, se a m ente estiver a interpretar,
a dar-lhe um a denom inação botânica, estará então distraída. Por
conseguinte, não se estará vendo m uito claram ente. De m odo
idêntico, não sereis capaz de ouvir, de escutar m uito claram ente
se vossa m ente não estiver profundam ente interessada, não esti­
ver participando no que se está dizendo, de m aneira com pleta
e não parcial. E , não é possível aplicar toda a atenção, quando
se diz: 1‘C oncordo com isto e discordo daquilo”', ou quando se
com para o que se está dizendo com o que já sabe; ou se traduz
o que se ouve segundo a p rópria experiência, os próprios conhe­
cim entos; ou a “c u ltu ra ” de que o indivíduo faz parte.
Assim, o hom em que escuta deve estar perfeitam ente côns­
cio de tudo o que se diz; e não poderá estar atento se se lim itar
a ouvir palavras e a opor-se a elas, ou se p retender apenas
confirm ar sua opinião pessoal. Nós não estam os exam inando
opiniões; isso é dialética, coisa sem nenhum valor. O que vamos
fazer nestas palestras, do com eço ao fim, é olhar de frente os
fatos — não vosso fato particular, ou o fato do orador. Só há
fatos, e não vosso fato favorito ou meu fato favorito, que tra ­
duzim os conform e nossa fantasia. V am os ocupar-nos exclusiva­
m ente de fatos, com o que realm ente é, para daí partirm os, pene­
trarm os profundam ente. M as, se não virdes o fato como fato, não
terem os possibilidade de prosseguir juntos.
A gora, feito esse preâm bulo, passem os às questões que p re­
tendem os exam inar juntos. Dissemos que se faz necessária, dentro
em nós mesmos e em nossas relações, um a grande m udança,
porquanto com o entes hum anos não podem os continuar a viver
com o estam os vivendo: num a batalha contra nós mesmos. A
sociedade é vós, e vós sois a sociedade. A estrutura psicológica
da sociedade foi criada p o r cada ente hum ano, e nessa estrutura
psicológica cada ente hum ano se vê aprisionado. E enquanto o
ente hum ano não quebrar, dentro de si m esm o, com pleta e tctal-

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mente, essa estru tu ra psicológica, não será capaz de viver pacifi­
camente, com intensa percepção da realidade. Interessa-nos,
pois, prom over essa m utação em nós mesmos, com o entes hu­
manos (n ão isoladam ente, porém em nossas m útuas relações, as
quais constituem a sociedade), p o rquanto necessitam os de paz. A
paz e a liberdade são um a necessidade absoluta, porque nada
pode florescer, funcionar p lena e com pletam ente, a não ser na
paz, e a paz não é possível sem a liberdade. H á m ilhões de
anos que vivemos em conflito, não só interiorm ente, mas tam ­
bém exteriorm ente. Nos últim os cinco mil e quinhentos anos
travaram -se catorze mil e tantas guerras — quase três guerras
em cada ano, d urante a história escrita do hom em — e aceitam os
tal m aneira de viver, aceitam os a guerra com o norm a da vida.
Mas, nad a pode funcionar cu florescer no ódio, na confusão, no
conflito. Com o entes hum anos, tem os de encontrar um a dife­
rente m aneira de viver — de viver neste m undo sem conflito
interior. E ntão, esse sentim ento interior de paz p o d erá expres­
sar-se, em ação, n a sociedade.
C um pre, portanto, a cada um averiguar por si próprio se,
vivendo em .relação com o m undo, como ente hum ano, é capaz
de encontrar aquela paz — não um a paz im aginária, mítica ou
mística, fantástica; se é capaz de viver sem nenhum a espécie de
conflito interior e de ser totalm ente livre, não im aginariam ente
livre, num certo m undo místico, porém realm ente livre, interior­
m ente — pois então esse estado se expressará exteriorm ente,
em todas as suas relações. Eis as duas questões principais.
C um pre-nos descobrir se o hom em — vós e eu — tem
possibilidade de viver e atu ar neste m undo de m aneira diferente,
sem conflito de espécie algum a, tornando-se, assim, capaz de
criar um a estrutura social não baseada na violência. N este país
pregou-se a “ não violência” d urante trinta, quarenta anos, ou
mais, e todos vós aceitastes esse “ ideal da nãc violência” , e in­
cessantem ente repetíveis essa frase. D urante m ilhares de anos
vos disseram que não deveis m atar. De repente, da noite para o
dia, tudo isso desapareceu. Isso é um fato, e não um a opinião
m inha. E é bem estranhável que não hajam aparecido indivíduos
capazes de dizer: “ N ão quero m a ta r” — e dispostos a enfrentar
as conseqüências. T udo isso — isto é, viver “verbalm ente” ,
aceitar facilm ente ideais e com igual facilidade abandoná-los —

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denota um a m ente sem nenhum a seriedade, nenhum a gravidade,
um a m ente leviana e não um a m ente interessada a sério nos
problem as mundiais.
Um dos principais problem as do m undo é a guerra — não
im porta se ofensiva ou defensiva. E n q u an to existirem Estados
soberanos, nacionalidades separadas, governos separados, com
seus exércitos, fronteiras, nacionalism os, tem de haver guerra.
Serão sem pre inevitáveis as guerras, enquanto o hom em estiver
vivendo entre as fronteiras de um a ideologia. E nquanto o ho­
mem existir dentro dos limites do nacionalism o, dentro dos lim i­
tes religiosos ou dos limites dos dogm as — cristão, hinduísta,
budista ou m aom etano — haverá guerras. Porque esses dogmas,
essas nacionalidades, essas religiões separam os homens. E, es­
cutando o que se está dizendo, naturalm ente direis: “ Que posso
eu, com o ente hum ano, fazer quando m inha pátria me cham a
às arm as?” . Tendes de ir p ara a luta, inevitavelm ente. Isso
faz parte desta estrutura social, econôm ica e política. M as, des­
sa m aneira não se resolve problem a algum. Com o já disse, houve
nos últimos cinco mil e tantos anos quase três guerras em cada
ano. Urge, pois, encontrarm os um a diferente m aneira de viver
— não no céu, porém sobre a terra — um a diferente norm a de
com portam ento, um valor diferente. E isso não será possível se
não com preender o problem a d a paz, que é tam bém o problem a
da liberdade.
Por conseguinte, a prim eira necessidade é de descobrirm os
se é possível a cada um de nós, nas suas relações — no lar, no
trabalho, em. todos os setores da vida — acabar com o conflito.
Isso não significa isolar-se, tornar-se m onge, refugiar-se num
certo recesso da im aginação, da fantasia; significa, sim, viver
neste m undo com com preensão do conflito. Porque, enquanto
houver conflito de algum a espécie, nossa m ente, nosso coração,
nosso cérebro, não p o derão funcionar com o m áximo de eficiên­
cia. Só podem, funcionar a pleno quando não há atrito, quando
h á clareza. E só há clareza quando a m ente, que é o todo — o
organism o físico, as células cerebrais — quando essa totalidade
que se cham a “ m ente” se encontra num estado de “não conflito” ,
funcionando sem atrito algum; só então pode haver paz.
E, para com preenderm os esse estado, temos de com preen­
der o nosso diário e crescente conflito, a batalha que todos os

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dias está a travar-se dentro de nós m esm os e com nossos seme­
lhantes — conflito no em prego, no lar, conflito entre um ho­
mem e outro, entre o hom em e a m ulher; tem os de com preender
a estrutura psicológica desse conflito, o foco do conflito. C om pre­
ender — tal com o ver e escutar — é tam bém um a das coisas
mais difíceis. Q uando se diz “ C om preendo”, isso, com efeito,
significa, não só que se apreendeu o inteiro significado do que se
disse, m as tam bém essa p ró p ria com preensão é ação. Q uer dizer,
não com preendeis prim eiro e depois agis, porém a com preensão
é ação. N ão podeis com preender se estais apenas a perceber
intelectualm ente, verbalm ente, o que se está dizendo aqui; se só
escutais intelectualm ente, isto é, verbalm ente, isso decerto não é
com preender. Ou, se apenas estais percebendo em ocionalm ente,
sentim entalm ente, isso tam bém não é com preensão. Só com pre­
endeis verdadeiram ente quando todo o vosso ser com preende,
isto é, quando não olhais um a coisa fragm entariam ente, ou seja
intelectual ou em ocionalm ente, porém quando a olhais total­
mente.
Por conseguinte, a com preensão da natureza do conflito
exige, não a com preensão de vosso conflito individual, porém
a com preensão do conflito total, vosso conflito com o ente hu­
mano, esse conflito total, que inclui o nacionalism o, as diferenças
de classes, a am bição, a avidez, a inveja, o desejo de posição e
prestígio, o desejo de poder, de dom ínio, o sentim ento de medo,
de culpa, de ansiedade (que tam bém inclui a m o rte ), a m editação
— a totalidade da vida. E , p ara com preender o todo da vida,
não devem os ver e escutar fragm entariam ente, porém, olhar o
vasto m apa da vida. U m a de nossas dificuldades é que fun­
cionamos fragm entariam ente, cada um num a só seção ou parte
— com o engenheiro, artista, cientista, negociante, advogado, fí­
sico — com o entidade dividida, fragm entária. E cada fragm ento
está em guerra com outro fragm ento, desprezando-o ou sentin­
do-se superior a ele.
Sendo assim, a questão, é: Com o olhar a vida em sua tota­
lidade, e não fragm entariam ente? E stá claro? Q uando olham os a
totalidade da vida — não com o hinduísta, m uçulm ano, com unis­
ta, socialista, católico, professor ou indivíduo religioso; quando
vemos esse extraordinário m ovim ento da vida, que abarca todas
as coisas — a m orte, o sofrim ento, a aflição, a confusão, a total

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ausência de am or, e a imagem do prazer que há séculos nutrim os
e que dita nossos valores e atividades — quando olham os essa
vastidão, globalm ente, totalm ente, então nossa reação a essa
totalidade é com pletam ente diferente. E ssa reação é que produ­
zirá um a revolução em nós mesmos. E ssa revolução é absolu­
tam ente necessária. Os entes hum anos não podem continuar a
viver com o têm vivido, a m atar-se e odiar-se reciprocam ente, a
dividir-se em nações, em atividades triviais, estreitas, individua­
listas, porque p o r esse cam inho o que se encontra é m ais aflição,
mais confusão e mais sofrim ento.
É possível ver-se a totalidade da vida, a qual sem elha um
rio, a ro lar infinitam ente, sem descanso, cheio de beleza, im pe­
lido pelo enorm e volum e de suas águas? Pode-se ver totalm ente
essa vida? Pois só vendo totalm ente um a coisa, a com preende­
m os; m as não podem os vê-la totalm ente, com pletam ente, se
há algum a atividade egocêntrica a guiar, a m oldar a nossa ação e
os nossos pensam entos. É a imagem egocêntrica que se identifica
com a família, com a nação, com conclusões ideológicas, com
partidos — políticos ou religiosos. É esse centro que, dizendo-se
em busca de D eus, da V erdade, im pede a com preensão do todo.
da vida. E o com preender esse centro, tal como realmente) é,
necessita um a m ente que não esteja repleta de conceitos e con­
clusões. Devo conhecer realm ente, e não teoricam ente, o que
sou. O que penso, o que sinto, m inhas am bições, m inha avidez,
inveja, m eu desejo de sucesso, de preem inência, de posição, pres­
tígio, ganho, m inhas aflições — tudo isso constitui o que eu
sou. Posso pensar que sou Deus, que sou “ou tra coisa’, m as isso
faz ainda p arte do pensam ento, parte da imagem que se “pro­
jeta” através do pensam ento. Assim, a m enos que se com preenda
essa coisa, não segundo Sankara, B uda ou outro mais, a menos
que vejais o que realm ente sois, em cada dia — vossa m aneira
de falar, de sentir, de reagi?, não só consciente, mas tam bém
inconscientem ente — a menGs que seja lançada essa base, que
possibilidade tereis de ir m uito longe? Podeis ir longe, mas
isso será im aginação, fantasia, ilusão, e sereis um hipócrita.
E sta base vós tendes de lançar: C om preender o que sois.
M as só sereis capaz de com preender o que sois pela auto-obser-
vação, não tentando corrigir ou m oldar o que observais, não
dizendo que isto é certo ou errado, porém vendo' o que de fato se

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passa. Isso não significa tornar-se mais egocêntrico. Pelo con­
trário, um a pessoa só se torna egocêntrica quando está a cor­
rigir o que vê, a traduzi-lo de acordo com seus gostos e aversões.
M as, quando sim plesm ente se observa, não há fortalecim ento dc
centro.
E o ver a totalidade da vida requer grande afeição. Estam o-
ncs tornando entes insensíveis, e pode-se ver porquê. N um país
superpovoado, num país interior e exteriorm ente pobre, num
país que sem pre viveu de idéias e não de realidades, que sempre
venerou o passado e sem pre seguiu a autoridade radicada no
passado — num tal país, naturalm ente, os entes hum anos são
indiferentes aos fatos reais. Se observardes a vós mesmo, vereis
o pouco- que tendes de afeição, da afeição que é zelo. Afeição
significa percepção da beleza e não unicam ente da “decoração”
exterior. M as, a percepção d a beleza só pode existir quando há
brandura, consideração, zelo — a essência m esm a d a afeição.
E, se está seca essa fonte, nosso coração tam bém seca e, por con­
seguinte, tratam os de enchê-lo com palavras, idéias, citações; e,
tornando-nos cônscios dessa confusão, tentam os ressuscitar o
passado1, cultuam os a tradição: retrocedem os. N ão sabendo cla­
rificar a confusão da presente existência, dizem os “Voltemos
atrás, volvamos ao passado, vivam os em conform idade com uma
certa coisa m o rta” . Eis porque, quando nos vemos frente a frente
com o presente, nos refugiam os no passado ou num a certa ideo­
logia ou utopia, e, estando vazio o nosso coração, tratam os de
enchê-lo de palavras, imagens, fórm ulas e slogans. O bservai-vos,
e sabereis de tudo isso.
Assim, p a ra se prom over, n atu ral e livrem ente, essa m uta­
ção. M as nós não desejam os prestar atenção, porque temos medo
do que possa acontecer se realm ente com eçarm os a pensar nos
fatos reais, diários, de nossa vida. E , porque tem os m edo de
exam iná-los a sério, preferim os viver com o cegos, sufocados,
aflitos, desditosos, triviais. P o r conseguinte, nossas vidas se to r­
nam vazias, sem significação. E , sendo a vida sem significação,
tratam os de inventar um a significação^ para ela. M as a vida não
tem significação. A vida é p a ra ser vivida, pois nesse próprio
viver é que se descobre a realidade, a verdade, a beleza da vida.
P ara descobrir a verdade, a beleza d a vida, é necessário com ­

27
preender o seu m ovim ento total. E, para com preender esse m o­
vim ento total, tem os de cessar todo c nosso pensar fragm entário
e nossas m aneiras de vida; tendes de deixar de ser hinduísta, não
apenas no título, porém interiorm ente; tendes de deixar de ser
m uçulm ano, budista ou católico, abandonar todos os vossos dog­
mas, porque essas coisas estão separando os entes hum anos, di­
vidindo vossa p ró p ria m ente e coração.
E — - fato estranho — após terdes escutado um a hora in­
teira o que se esteve dizendo, voltareis a casa p a ra repetir o
mesmo padrão1. E a repeti-lo continuareis, infinitam ente, esse
padrão que se baseia essencialm ente no prazer.
Tendes, pois, de exam inar vossa pró p ria vida, voluntaria­
mente, e não por influência do governo ou de alguém. Tendes
de exam iná-la voluntariam ente, sem dizer que isto está certo ou
que isto está errado: tendes de olhá-la! E se olhardes dessa m a­
neira, vereis que o fareis coin olhos cheios de afeição; não com
condenação, com julgam ento, porém com zelo e, por conseguin­
te, com im ensa afeição. Só quando há grande afeição e am or
pode-se ver o m ovim ento total da vida.

22 de dezem bro de 1965.

28
MADRASTA:
Viver em nova dimensão

c^ L y O N T IN U E M O S com o assunto que estávam os consideran­


do outro dia. Dissemos então: O hom em , em sua história escrita,
já sustentou guerras sem conta e, nem no exterior, nem em seu
interior o hom em ainda encontrou a paz. N esta ou naquela parte
do m undo está sem pre a fravar-se um a guerra, entes hum anos
estão a assassinar-se m utuam ente, em nom e de nacionalidades,
etc. E aceitam os a guerra com o a norm a da vida, tanto exterior
como anteriorm ente. O conflito interno é m uito mais complexo
do que o conflito externo. E o hom em ainda não foi .capaz de
resolver esse problem a. H á séculos as religiões vêm pregando a
paz — não m atar! — entretanto nenhum a delas pôs cobro à
guerra! C om o entes hum anos — não com o indivíduos — não
temos enfrentado esse problem a e precisam os ver se não há pos­
sibilidade de resolvê-lo totalm ente.
C onsidero necessário diferençar entre o indivíduo e o ente
hum ano. O indivíduo é “localizado”, um a entidade “ local”, com
seus peculiares costum es, hábitos, condições, cem seu estreito
condicionam ento — geográfico, religioso etc. M as o hom em ,
com seu condicionam ento, seus tem ores, seus dogm as, pertence
ao m undo inteiro. T anto na Índia, com o na R ússia, na C hina ou
na A m érica, o hom em ainda não foi capaz de resolver esse pro­
blema. E trata-se de um problem a da m aior im portância, pro­
blema que cada um de nós, com o ente hum ano, tem de resolver.
Para resolver um problem a, temos de vê-lo m uito claram en­

29
te. C um pre haver clareza e observação. P ara observar um a coisa,
necessita-se de claridade, de luz — artificial ou solar. N o exte­
rior, se desejais ver claram ente um a folha, necessitais de luz,
pois tendes de observá-la visualm ente. É relativam ente fácil ob­
servar objetivam ente um a folha, desde que haja luz — artificial
ou cutra. M as o ato de observar torna-se m uito mais complexo
quando nos voltam os para dentro, onde tam bém necessitamos
de claridade — se de fato desejam os observar por inteiro o fe­
nôm eno hum ano: o hom em ccm seus pesares, suas dores, suas
aflições, seu p erpétuo conflito interior: avidez, desespero, frus­
trações, problem as crescentes, não apenas m ecânicos, porém hu­
manos. A í tam bém necessita-se de claridade, de luz, para ver
esse m ecanism o em funcionam ento nc ente hum ano. E, p ara ob­
servar, não há necessidade de escolha. Q uando vedes uma coisa
m uito claram ente, assim com o vedes este microfone, ou aquela
árvore, ou o vossc vizinho de cadeira, não h á necessidade de
escolha, nem de conflito. O conflito exterior e interior verifica-
-se quando não vemos claram ente, quando nossos preconceitos,
nossas nacionalidades, nossas peculiares tendências, etc., nos ve­
dam a claridade, a luz. Q uando há luz, pode-se observar.
A observação' e a: luz se completam.; de contráric, não é
possível ver. N ão se pode apreciar um a árvore, ver-lhe o tronco,
de todos os lados, sua natureza, suas curvas, sua beleza e carac­
terísticas, a m enos que h aja luz em abundância. E a observação
deve ser atenta. Podem os olhar aquele tronco indiferentem ente,
e passar adiante. Mas, p ara observar-lhe os detalhes, temos de
olhá-lo atentam ente, com carinho, afeição, ternura. Só assim há
observação.
Essa observação, na claridade, nãc exige nenhum a espécie
de escolha. Isso precisa ser com preendido m uito claram ente, por­
quanto vam os considerar problem as ou questões que exigem de­
tida observação, clara percepção dos detalhes — ver, escutar.
Em geral, só nos interessam os pelos sintom as — tal a guerra,
que é um sintom a.
E pensam os que, exam inando1, com preendendo a causa, com ­
preendem os os sintom as. Ficam os, assim, perpetuam ente, a os­
cilar entre o sintom a e a causa, sem saber o que fazer em rela­
ção à causa; e, mesm o se o sabem os, surgem -nos obstáculos e
influências sem conta, que nos im pedem a ação.

30
N osso problem a, portanto, se torna m uito simples: para
vermos, claram ente, necessitam os de m uita luz; e essa luz só nasce
da observação — quando som es capazes de ver m inuciosam ente
cada m ovim ento de pensam ento e de sentim ento. O utrossim , pa­
ra verm os com clareza, não pode haver conflito, nem escolha.
Por conseguinte, temos de en ccn trar um a m aneira de viver na
qual a guerra — interior e exteriorm ente — tenha sido com ple­
tam ente abolida. É um fato, um fenôm eno bem estranho este,
que em nosso país, onde há milênios se prega a paz — não m a­
tar, não odiar, ser brando, “ nãc violento” — não tenha apare­
cido um só indivíduo disposto a defender o que considera cor­
reto — não m atar — disposto a nadar contra a corrente e, se
necessário, a ir para a prisão ou ser fuzilado. Pensai nisso, nesse
fato extraordinário, que não houve um só dentre vós que dissesse
“E u não m atarei. A guerra é um m al” — não aos ouvidos de
outrem , porém em altos brados, mesmo que fesse p arar na pri­
são, fuzilado, morto. Mas, direis: “ Que é que isso resolverá?”
— N ão resolverá nada, mas pelo menos indicará que sabeis com ­
portar-vos, que vossa conduta é ditada pela afeição, pelo amor,
e não por um a idéia. Pensai nisso, nas vossas horas de lazer, no
por que nada fizestes em prol de uma coisa que sentíeis em vosso
coração. V ossas E scrituras, vossa civilização, etc., ves têm p re­
ceituado: “ Sede brandos, não vos mateis m utuam ente!” Isso in­
dica, não é verdade? — que vivemos de idéias e de palavras.
Mas a palavra ou a explicação não constitui o fato. O fato é
que há conflito no interior e guerra no exterior. H ouve quase
três guerras por ano, na história da hum anidade! A prim eira
m ulher a chorar deve ter esperado que “ aquela" fosse a última
guerra; entretanto, continuam os a guerrear! Aqui, no sul, sen-
tindo-vos em segurança, podeis dizer: “Eles que lutem , lá no
N orte; que lutam no V ietnam e; os outros que chorem ” — con­
tanto que continueis em segurança! — Mas este problem a vos
concerne tam bém , porque é um problem a hum ano: Com o pro­
m over um a transform ação da m ente e do coração do homem?
Com o dissemos, este problem a, como qualquer outro, nunca
será resolvido se não entrarm os num diferente território, numa
esfera com pletam ente diversa. Com preendeis? Interiorm ente, os
entes hum anos se vêem presos a essa roda de perpétuo sofri­
m ento, conflito, aflição, e sem pre tentaram resolver esse proble­

31
m a em relação ao presente, em relação às condições sociais,
am bientes, religiosas. Sem pre cuidaram dos sintom as ou trataram
de descobrir as causas. Isso significa resistência, e resistir é ali­
m entar o conflito.
O ra, os problem as que tem todo ente hum ano, com seus
sintom as e causas, só serão resolvidos se cada um de nós passar
a um a dim ensão com pletam ente diferente, a um a investigação
de diferente natureza. É isso que pretendemos- fazer. Sabemos
que há guerras. Sabem os que, enquanto houver governos sobe­
ranos, enquanto houver políticos, divisões geográficas, exércitos,
nacionalism o, divisões religiosas — m uçulm anos, hinduístas etc.
— continuareis com vossas guerras, ainda que os com putadores
vos indiquem que não deveis fazê-las porq u e já não é lucrativo
m atar pela pátria. Os com putadores, os cérebros eletrônicos irão
ditar-vos o que deveis e o que não deveis fazer; mas vossa ati­
vidade é bem diferente quando ditada p o r um a m áquina.
Nosso problem a, p e r conseguinte, é este: Pode-se olhar,
“viver” e com preender todos esses problem as, de um a esfera
com pletam ente diferente, de um diferente cam po ou dimensão?
P or favor, não tireis conclusões: Deus, E u interior, E u superior
ou A tm a n — palavras totalm ente sem significação! Já as tendes
há milhares de anos, todas as vossas E scrituras as m encionam e,
entretanto, com o ente hum ano, continuais no conflito e na afli­
ção, continuais num estado de guerra, interior e exteriorm ente.
A guerra interior — com petição, avidez, inveja, ganância —
está a travar-se perenem ente, e tentais resolver esses problem as,
esses sintomas, buscando-lhes as causas e esperando elim iná-las,
a seu tem po, à m aneira com unista, à m aneira socialista, à m a­
neira religiosa. M as o fato é que os entes hum anos — com ex­
ceção talvez de um ou dois — jam ais resolveram o problem a
do conflito.
M as, para com preender esse problem a, necessitam os de um a
m ente nova, diferente desta nossa m ente desvigorada, m orta. A
m ente sem pre se ocupa com os sintom as, crendo que, resolvidos
os sintom as, está resolvido o problem a. Nós necessitam os de
um a m ente nova, uma m ente capaz de ver. P ara ver, a m ente
necessita de luz, quer dizer, não deve existir, em nenhum a parte
dela, consciente ou inconsciente, nenhum resíduo de conflito. P o r­
que o conflito interior é que é a causa da escuridão, e não a

32
falta de capacidade intelectual p ara observar. Todos vós tendes
muita agudeza p ara observar: Sabeis quais são as causas da
guerra, sabeis quais são as causas de vosso p róprio conflito in­
terior, as quais são muito fáceis de observar intelectualm ente.
Mas a ação não nasce do intelecto. A ação procede de um a di­
m ensão com pletam ente diferente. E nós temos de agir; não po­
demos continuar com o estam os, com nosso nacionalism o, nos­
sas guerras, conflitos, com petição, avidez, inveja, aflição. Sabeis
que esse estado de coisas existe h á séculos e séculos. O com pu­
tador vai aliviar o hom em de todos os labores cansativos, nos
escritórios e tam bém na política, irá incum bir-se de todo o tra­
balho hum ano nas fábricas. F icará assim o hom em cheio de la­
zeres. Eis um fato; podeis não vê-lo, presentem ente, porém, é
um a realidade que se aproxim a, com o um a vaga trem enda, e
tereis de escolher um a m aneira de ocupar o vosso tem po.
Dissemos “escolher” — • escolher entre diferentes form as de
distração, de entretenim ento, as quais incluem os fenôm enos re­
ligiosos — os tem plos, a missa, a leitura das E scrituras. Tudo
isso são form as de entretenim ento? N ão riais, por favor; esta­
mos tratando de um assunto m uito sério. N ão h á tem po para rir,
quando nossa casa está a arder. M as, sim plesm ente não quere­
mos pensar no que está acontecendo. E vós tendes de escolher
isto ou aquilo, e no escolher h á sem pre conflito. Isto é, quando
se nos apresentam duas alternativas de ação, a escolha só p ro ­
duz mais conflito. Todavia, se pudésseis ver com toda a clareza
o que se passa dentro de vós mesmo — com o ente hum ano p er­
tencente ao m undo inteiro e não apenas a um insignificante país,
uma desprezível divisão geográfica ou divisão de classe (b râm a­
ne, não brâm ane etc.) — se vísseis m uito claram ente o p ro ­
blema, não haveria escolha nenhum a. A ação livre de escolha
não gera conflito.
M as, para verdes muito claram ente, necessitais, de luz. E s­
cutai com atenção! A inda que o façais intelectualm ente, já será
bom, porque algum a coisa se enraizará em algum a parte. Não
se pode ter claridade, quando não se percebe que a palavra, a
explicação não é a coisa. A palavra “ árvore” não é a árvore!
Para se ver esse fato (a árv o re ), a palavra é desnecessária.
A ponto-vos um a coisa objetiva; podeis tocá-la, apalpá-la, e vê-la
muito claram ente. M as, interiorm ente, quando penetram os em

33
nós mesmos, os fatos são m uito mais sutis, m uito mais difíceis
de apreender, de reter; para tanto necessita-se de muito mais
clareza. N asce a clareza quando se com eça a perceber quq a
palavra não é a coisa, que ela produz a reação do pensam ento,
e o pensam ento é reação da m em ória, da experiência do conhe­
cim ento etc.
A claridade, pois, é essencial à observação. M as a claridade
interior deve ser original, e não de em préstim o. Q uase todos nós,
entes hum anos, só temos claridade em prestada, luz em prestada
— a luz da tradição, a luz das E scrituras, a luz dos políticos,
das influências am bientes, da doutrina com unista etc. — tudo
puros ideais, luz artificial, por meio da qual procuram os viver.
Por isso, há sem pre contradição dentro de nós. Isto é, a idéia é
com pletam ente diferente dc- fatc, assim com o a palavra “árvore”
não constitui a árvore, a palavra “ avidez” ou a palavra “sofri­
m ento” não constitui o fato. E, p a ra se observar o fato, a pala­
vra, que produz o pensam ento e suas associações, lem branças,
experiências, conhecim entos etc., não deve provocar reações.
Exam inem os esta m atéria, para verm os claram ente.
Estam os falando a respeito de um a vida com pletam ente li­
vre de conflito; de um a vida sobre esta terra e não no céu nem
num a certa utopia; de um viver diário no qual não haja o mais
leve sinal ou som bra de conflito. Porque é só na paz que a bon­
dade pode florescer, e não quandc estam os em conflito, quando
estamos forcejando p ara ser bons ou cultivando a idéia de “ser
bom ” . H avendo paz, há bondade. Q uando há claridade, não há
escolha e, por conseguinte, nenhum a ação da vontade. Porque,
o que então se vê, vê-se claram ente e não há necessidade de
escolha ou da vontade. V ontade significa resistência, controle,
repressão; e a repressão, o controle e a resistência dependem da
escolha. Mas, não existindo escolha, não há nenhum esforço de
vontade.
Assim, pode um indivíduo viver, com o ente hum ano, neste
m undo, sem nenhum a espécie de conflito, que se torna existente
quando há escolha, quando há vontade?
Para se com preender isso, é necessário, em prim eiro lugar,
com preender, exam inar, observar, não só a mente consciente,
mas tam bém a m ente inconsciente. E stam os mais ou menos fa­
m iliarizados com a m ente consciente, os fatos diários: o que fa­

34
zemos, o que dizemos, o term os de freqüentar um escritório, dia
por dia, ncs próxim os q uarenta anos, tornando a m ente cada
vez mais em bctada, pesada, entorpecida, “b u ro crática” , dando
continuidade a uma vida de rotina, uma vida mecânica. Essa
consciência superficial, externa, é relativam ente fácil de observar
e com preender. M as nós não somos constituídos apenas das ca­
m adas exteriores da consciência; nela (na consciência) há uma
grande profundidade e, se não a com preendem os e tratam os
m eram ente de estabelecer um a tranqüilidade superficial, nãc re­
solvemos o problem a. Por conseguinte, cum pre-nos com preender
a consciência total do hom em ; não apenas suas cam adas super­
ficiais, mas tam bém as mais profundas.
Pela observação — sem ler os psicólogos, cs Freuds, os
Jungs e dem ais filósofos e psicólogos m odernos — ficamos sa­
bendo o que é o inconsciente: o resíduo racial, a experiência da
raça, as. condições sociais, o am biente, a tradição, a cultura —
política, reiigiosa, educacional — profundam ente radicados no
inconsciente.
O ra, pode-se olhar, observar o inconsciente, se não há luz?
Com preendeis esta pergunta? Para observar, deve haver luz; pa­
ra observar o inconsciente, necessitais de luz, de claridade. Cc-
mo podeis ter clareza a respeito de um a coisa que desconheceis?
Tendes um a idéia, um m ero conceito e não a realidade. Sem a
com preensão do inconsciente, o mero ajustam ento superficial não
traz a liberdade necessária para se viver pacificam ente.
Vede, por favor, que não estam os tratando de nenhum a
filosofia profunda, porém de uma coisa m uito simples. “C ons­
ciência” é um a palavra, nãc? Mas, a palavra não é a coisa. Se
observardes, vereis que a palavra “ consciência” põe em ação o
pensam ento, e dizeis então que a consciência é isto, aquilo, aquilo
outro. Se sois o que se cham a uma m entalidade religiosa, direis
que existe um a entidade espiritual etc. Se não o sois, direis que
a consciência é puram ente pensam ento condicionado pelo am­
biente, e nada mais. — M as a palavra não é a coisa, tal como a
palavra “ árvore” não é o fato. Por conseguinte, a consciência,
que é palavra, não é o fato. A tentai nisso!
Assim, para terdes clareza, deveis observar o fato, sem a
palavra; isso significa observar sem que esteja funcionando o
m ecanism o do pensam ento. Esse mecanismo do pensam ento cons­

35
titui a consciência. Vede, senhores: afirm a o orador que m atar
é um a iniqüidade. Q ue acontece? O orador fez uma asserção, e
a essa asserção “respondeis” conform e o vosso condicionam ento,
conform e vossas necessidades presentes, conform e as pressões por
parte de outros países etc. P o r conseguinte, o mecanismo do
pensam ento está a funcionar p o r reaçãci e, portanto, não estais
vendo o fato: O pensam ento está “reagindo” . Exato? Isto é
muito simples. Tem os, pois, que a palavra não é a coisa. C onse­
quentem ente, a investigação do inconsciente se torna absoluta­
m ente desnecessária, sem nenhum a significação, se a palavra não
é a coisa e estais, entretanto, observando; o que há então é total.
A atenção total é a essência da consciência e a transcende. Isto
é, só vos tornais consciente quando há atrito; de outro modo,
não há consciência. Q uer dizer, quando sois desafiado, “reagis” .
Se a reação é totalm ente adequada ao desafio, não h á conflito,
não h á atrito. Só quando inadequada a reação ao desafio, existe
atrito. Esse atrito é que causa, que gera, a consciência.
■Tende a bondade de observar-vos interiorm ente, e vereis
que, se encontrasse um meio de evitar a m orte (tom o-a para
exem plo; falarem os sobre a m orte nou tra o p o rtu n id ad e), se se
encontrasse um meio de vencer a m orte — m edicam ente, cien­
tificam ente ou de outra m aneira — nunca lhe sentiríeis medo.
Não haveria, por conseguinte, conflito entre o viver e o m orrer
e, assim ficaríeis totalm ente inconsciente da morte. Só quando
há atrito — m edo — gera-se a consciência e dizeis então: “ T e­
nho m edo de m o rrer” .
Estam os falando de um estado em que o conflito foi de
todo banido da m ente — não m ediante escolha ou ação da
vontade, nem por força de algum a asserção ou aceitação de uma
certa doutrina ou com prom isso, que determ ine em vós a ausên­
cia de auto-identificação, fazendo-vos pensar que estais vivendo
sem conflito — quando em verdade não estais, pois estais ainda
a exercer resistência.
Perguntam os, pois, se podem os viver neste m undo, saben­
do que não temos possibilidade de resclver os nossos problem as
por meio da repressão, da aceitação, da obediência, do ajusta­
m ento, da im itação, com o o hom em vem fazendo h á séculos.
Tem es possibilidade de viver de m aneira com pletam ente dife­
rente? Agora, que a vós fazeis esta pergunta e reagis ao desafio,

36
que respondeis? É óbvio que, se sois deveras inteligente, vossa
pronta resposta é: “N ão sei” . — Podeis tam bém afirm ar que
isso não é possível, ou responder de acordo ccm vossa tradição,
vossas idéias e, por conseguinte, vossa reação ao desafio é ina­
dequada. Vós tendes de escutar a pergunta: É possível viver-se
neste m undo, sem ser no isolam ento, com o m onge num m osteiro,
porém com o ente hum ano, gozando de perfeita paz, tanto exte­
rior com o interiorm ente, em especial interiorm ente? Se puderm os
viver com tranqüilidade interior, então todas as nossas ações
serãc pacíficas e, por conseguinte, não haverá guerra.
Assim, para descobrirm os se podem os viver sem conflito,
temos prim eiro de com preender o que é o conflito — não o sin­
toma. Entendeis? Pode-se-vos m ostrar o sintom a e a causa, mas
o conhecim ento da causa ou do sintom a n ão dissolverá o sin­
tom a ou a causa. É óbvio que temos de en trar diretam ente em
contato ccm o conflito — coisa que nunca fazemos. E u me
explico:
O hom em sem pre sofreu, sem pre viveu num cam po de ba­
talha, por causa de sua atividade egocêntrica: Prim eiro E U , de­
pois os outros. Prim eiro E U : m eus interesses, m inha segurança,
m eu prazer, m eu sucesso, m inha posição, m eu p'restígio. Prim eiro
EU — identificado com a pátria, a família, a doutrina. P o r meio
da identificação, esperam os dissolver o EU! C onhecem os a cau­
sa, que é o egotismo; a causa (p a ra dizê-lc b ru talm en te) é nossa
atividade egocêntrica. C onhecem os tam bém o resultado de tal
atividade, c que ela produzirá externam ente, no m undo: a guer­
ra. A guerra é a expressão final do conflito interior. H á guerra
contínua: nc m undo dos negócios, no m undo político, no mundo
religioso, entre cs vários gurus, as várias seitas, os vários dog­
mas. Sabemos disso. A inteligência nos m ostra que isso é um
fato e, todavia, não vivemos pacificam ente!
E stá visto, pois, que a paz não pode ser criada pela m era
análise d a causa ou do sistema. P or conseguinte, temos de p e­
netrar n um novo território, num a dim ensão diferente..
Pois bem ; se quiserdes ingressar agora, junto comigo, numa
dim ensão diferente, descobrireis p o r vós mesmo com o alcançá-la.
Ela não pode ser alcançada intelectualm ente, nem em ocional­
mente, nem verbalm ente; tudo isso já tendes feito, tendes exer­
cido o intelecto, tornado vosso cérebro tão penetrante como um a

37
agulha — mas não resolvestes o problem a. Assim, c intelecto,
as emoções, a perene leitura do G ita, as absurdas práticas reli­
giosas — nada disso tem im pedido o hom em de m atar o homem.
M ata-se, não apenas com baionetas e canhões, mas também com
palavras, com atitudes, e quandc com petis uns com os outros
em vossos em pregos, quando sois agressivos, brutais, visando
unicam ente o vosso próprio sucesso. T u d o isso é guerra! Assim,
o intelecto, as emoções, as idéias — que são palavras coorde­
nadas — jam ais resolveram um só dos vossos problem as. Tendes
de descobrir uma diferente m aneira de viver, com total ausência
de conflito.
Com o consegui-lo? O ra, o tem pc, a q ualquer respeito, é
desordem . Se disserdes: “ A m anhã ou na próxim a vida consegui-
-lo-ei” — isso é com pletam ente sem im portância. O homem que
sofre não pensa no am anhã ou na próxim a vida; quer uma so­
lução. E, se não achais tal solução, ficais vivendo de palavras,
de crenças e dogm as, que se tornam vossos meios de fuga! Disso
sabem os muito bem.
C om o ingressar num a vida nova, agora e não am anhã, na
qual o passado se desprenda com pletam ente de vós? Sabemos
que, quando nos vemos confusos, tratam os de cultuar o passado,
de voltar ao passado, ou de cultivar um a utopia, na qual espe­
ram os encontrar a solução! As revoluções econôm icas, as revo­
luções sociais sem pre nutriram a idéia dessa utopia que jamais
se realizou nem na Rússia nem em parte alguma! Assim, as p a ­
lavras já nada significam, e tam pouco as idéias. A menos que
expulseis tudc isso de vossa m ente — palavras, idéias, emocio-
nalism os, intelectualism os — não sereis capaz de com preender
o que a seguir vam os dizer.
Q ue acontece quando não ficamos na dependência do fu­
turo? N ão h á am anhã — exceto o am anhã em que teremos de
ir ao escritório, a um encontro m arcado etc. Psicologicamente,
não existe am anhã. V ou explicar-vos intelectualm ente, por m iúdo,
por que não existe am anhã. O am anhã não é um a realidade por­
que é um a invenção do pensam ento, destinada a dar-nos, psi­
cologicam ente, uma certeza de continuidade, assegurar-nos o bem-
-estar. A realidade é o agora, presente viver. M as não podeis
viver agora se estais transportando a caiga do passado.
Que é, pois, que o perará a total m utação da mente? C om ­

38
preendeis, senhor? Já vos m ostram os o m apa da vida hum ana,
em bora desprezando os detalhes. Tendo-vos m ostrado esse m a­
pa, perguntam os: “Precisam os de um a nova m ente, um a nova
m aneira de viver. C om o surgirá ela? C om o encontrá-la?” —
Estais esperando que eu vo-lo diga? N ão riais; isto é sério. Estais
esperando que este orador vo-lo diga? Se estais, isso criará um
novo atrito e, portanto, não ficareis livre de conflito. M as, se
com preenderdes que nem a palavra, nem a em oção, nem o in­
telecto vos dará solução algum a, que acontece então? F echam se
todas as portas que inventastes — as portas socialistas, com u­
nistas, 'religiosas, psicológicas. N ão há mais saída alguma. Q uan­
do sabeis disso, que acontece?
Com eça aqui a verdadeira m editação. Entendeis, senhores?
Vem à existência um a m ente que já não é movida por nenhum a
influência externa ou interna, que já não é controlada por ne­
nhuma idéia, nenhum prazer, nenhum dos valores que a mente
criou para sua pró p ria guia. T odas essas coisas desapareceram ;
falharam lam entavelm ente e já não têm significação alguma.
Assim, se me estais acom panhando, que sucedeu? Nao mais to r­
nareis a dizer: “ Pensarei nisso am an h ã” , “C oncordo” , “ D iscor­
do” — pois dessa m aneira não estam os em com unicação. Mas
se, com efeito, com preendeis isto m uito claram ente, que suce­
de? Surge a luz, a claridade. A claridade, a luz é sem pre nega­
tiva, pois a própria descrição dela ou a im itação d a descrição, é
ação positiva que veda a luz.
Espero que vós e eu estejam os trabalhando juntos. Que
sucede quando escutais — não a palavra, não as vossas reações,
não vosso concordar ou discordar de um a opinião? Q uandc es­
tais escutando, estais quieto, aprendendo; vossa mente, todo o
vosso ser está alertado, vigilante. N essa atenção, nesse escutar,
encontra-se a claridade.

26 de dezem bro de 1966.

39
MADRASTA:
Existência repetitiva

f^ C O N T I N U E M O S com o assunto de que estávam os tratando


outro dia, ou seja o descobrim ento de um a dim ensão diferente,
de um cam po diferente que não pede ser descoberto pela m era
atividade intelectual, sentim ental ou em ocional. Porque, com o
dissemos, nossa vida atual é (de fato, e n ão ideologicam ente e
sem darm os à existência um significado mais am plo e profundo)
toda a agonia, confusão, ansiedade, sentim ento de culpa, pro­
funda frustração. E, em vista do tédio, da solidão, do medo
existente na vida de cada dia, é óbvio que devemos descobrir
um a m aneira, um estado ou um a existência que não seja de
m era repetição, com o a atual.
C onform e temos assinalado, a palavra ou a explicação não
representa o fato real. O fato é um a coisa, e a explicação, ou a
idéia, ou a opinião, ou a filosofia relativa à idéia ou ao fato, é
outra coisa. M uito im porta com preender isso, porque a m aioria
de nós está enredada em palavras: ‘D eus” , “ m edo” , “com unista” ,
“socialista” . . . Palavras com o “m orte” , “ am or” estão “ carrega­
d as” de significado. M as a m orte, o am or e o ódio são coisas
m uito diferentes das respectivas palavras ou definições. E a m aio­
ria de nós, feliz *ou infelizmente,' desenvolveu o intelecto a um
tão alto grau, que nos satisfazem os com palavras e explicações
ou exposições m inuciosas. M as, com efeito, o que com preende­
mos são as palavras e suas significações, e não o fato. Tem os

40
pois, de precaver-nos das explicações fáceis e das palavras “car­
regadas” de significação pela tradição e pelo uso. Porque pala­
vras ccm o “ D eus” , “ cristão” , “católico”, provocam, certas rea­
ções e estas reações impedem a com preensão do fato, a com ­
preensão do que realm ente é. A menos que estejam os cônscios
desse processo de reação m otivado pelas palavras, estas assu­
mem um a im portância trem enda — como, por exem ple, a pala­
vra “ hinduísta” cu “ m uçulm ano” .
O que vamos considerar nesta tarde exige que encontrem os
uma m aneira de viver nossa vida de cada dia livres d a conta­
minação do passado — sendo “o passado” não só o tem po, mas
tam bém , tradição, experiência, conhecim ento, m em ória. Isso não
significa quç devam os viver com a m ente “em branco” ou num
estado de am nésia, porém , sim, que devemos com preender o p ro ­
cesso “ repetitivo” , m ecânico, de nossa atual existência. Pois nos­
sa vida é, pela m aior parte, im itativa. N osso falar, nossos pen­
samentos, nossa m aneira de vida, nossos atos, a totalidade de
nossa consciência, tudo é resultado de imitação. P or favor, não
rejeiteis nem aceiteis isto, porém , antes, escutai, a fim de desco­
brirdes o fato ou a falsidade do que se está dizendo. A menos
que se com preenda esse processo altam ente com plexo d a exis­
tência “ im itativa” que estamos levando, não será possível a li­
berdade. E, não havendo liberdade, não pode ocorrer, é óbvio,
o descobrim ento de algo totalm ente novo. Talvez m uito de vós
não tenham sequer pensado nestas coisas. E se pela prim eira vez
estais pensando nesta questão da im itação, não salteis a conclu­
sões, porém , antes, exam inem os juntos o problem a.
Porque, com o temos dito, a responsabilidade de escutar (se
posso em pregar a palavra “responsabilidade” ) pesa sobre vós.
O orador poderá transm itir assinalar certos fatos. E “ escutar
fatos” é um trabalho m uito árduo. Porque o escutar um fato, o
observar um fato, exige que estejam os livres de opiniões; é claro.
Se dizeis que não é possível viver sem im itação, já chegastes a
uma conclusão e, por conseguinte, não pedeis ir m ais longe,
para indagar se não existe um estado m ental totalm ente incon-
tam inado pelo tempo. Se aceitais sim plesm ente a asserção de
que tal estado existe, não tereis possibilidade de descobrir o
fato p er vós mesmo. T orna-se, pois, m uito im portante a vossa
responsabilidade com o ouvinte, uma vez que estam os trabalhan­

41
do juntos. N ão estais m eram ente a escutar c que diz o orador;
estam os, todos juntos, participando num a investigação, a fim de
descobrim os, por nós m esmos, diretam ente, se há ou não a pos­
sibilidade de lim a m ente nova. U m a “ m ente nova” não é m era­
m ente um resultado, um a coisa organizada pelo pensam ento, ou
seja um a m era idéia, um a conclusão, que procuram os im itar,
praticar ou seguir: isso não é um a m ente nova.
C onseqüentem ente, temos de exam inar juntes, passo por
passo, o inteiro processo da im itação. C um pre-nos descobrir se
uma m ente im itativa, que é o resultado do tem po, se um cérebro
cultivado e desenvolvido através de séculos e séculos, através
do processo do tem po e da tradição — se essa mente, esse cé­
rebro, tem a possibilidade de quietar-.se e de descobrir um a nova
m entalidade, um novo espaço. É sobre isto que vam os falar
nesta tarde.
Q uando em pregam os a palavra “ im itação”, entendem os: se
guir, praticar, obedecer, ajustar-se a um padrão; ajustar-nos ao
que nos parece correto, e evitar o que nos parece errado. Im itar
é seguir, ajustar-se, subm eter-se, obedecer à autoridade, à lei, e
obedecer à autoridade interior, representada pela m em ória, a ex­
periência, o conhecim ento. T ende a bondade de escutar com a
devida atenção; de contrário, cessará a com unicação entre nós.
C om unicação, em relação a estas coisas, significa, com efeito,
estar em com unhão: com a natureza, com o pôr-do-sol, com
aquela árvore desenhada sobre o fundo lum inoso do crepúsculo;
estar em com unhão uns com os outros e, em particular, neste
m om ento, em com unhão com o orador, e este em com unhão
convosco. Tal só é possível quando olhais (com o olhais aquela
árvore à luz do sol p oente) com atenção, com zelo, com afeição.
N ão é possível com ungar com algum a coisa quando a mente
está noutra parte, não está prestando ted a a atenção à beleza
da luz, da árvore, da flor; quando não está em intim idade com
a natureza. M as a palavra “com unhão” não é o fato, e tam pouco
o é a descrição do estado de com unhão.
N ecessita-se de um sentim ento de urgência. Porque a casa
está em cham as; vê-se, em todo o m undo, tanta aflição, caos,
insensibilidade, guerra, indiferença, m orticínio; sordidez, miséria,
pobreza! T udo isso está a brad ar por um a solução. N ão pode­
mos quedar indiferentes; não podem os esconder-nos atrás de fór­

42
mulas, conceitos, deuses, teorias — que perderam toda a signi­
ficação, se algum a vez a tiv e ra m . . .
Assim, p ara estarm os em, c o m u n h ã o como' estam os agojra
tentando — precisam os desse sentim ento de urgência. T al sen­
tim ento im plica intensidade; não, superficialidade, indiferença,
porém um a intenção séria: intensidade. E deve tam bém haver
um certo estado de afinidade, de afeição, zelo. A o olhardes para
aquela árvore, podeis fazê-lo indiferentem ente, e isso nada sig­
nifica. Mas, se o olhardes sem perm itir a interferência do pen­
sam ento ou das reações, se a olhardes com intensidade, com
atenção, dessa atenção nasce o zelo. E ntão, não só vos deleitais
com a árvore, mas tam bém a zelais, lhe dais nutrição, a prote­
geis para que floresça, para que não seja danificada, destruída.
Nosso trab alh o aqui im plica com unhão e não um a m era troca de
hábeis argum entos, ou disputa em torno de opiniões; implica
intensidade. Sc o homem m u ito sério sabe o que é viver — e
não os levianos, nem os que m eram ente se com prazem em exer­
cer suas profissões.
A com unhão, pois, im plica intensidade e o sentim ento de
zelo que a acom panha: ternura, afeição, am or. É isso que deve
existir entre nós. Isso não significa aceitar o que o orador diz:
isto não é afeição.
Nós vam os exam inar, juntos — com afeição, com zelo, com
intensidade.
N ecessita-se de paz e de liberdade, neste m undo; não da
paz política, nem da liberdade existente em certas dem ocracias:
precisam os de estar livres, interiorm ente, da ansiedade, do medo,
do desespero, do incessante conflito, da interm inável batalha
que se trava dentro de nós mesm os. A menos que se estabeleça
essa liberdade e essa paz, não terem os possibilidade de florescer
— em bondade, beleza, afeição. O m undo não tem necessidade
de mais filósofos, mais religiões organizadas e mais dogmas. O
de que o m undo necessita é um a m ente toda diferente, uma
mente inteiram ente livre do m edo que em cada dia a atorm enta.
E nenhum a possibilidade tendes de encontrar com a velha mente
essa m ente neva. N enhum a possibilidade tendes de encontrar
aquela juvenilidade, se não com preenderdes integralm ente o fe­
nôm eno da im itação — o qual vam os exam inar.
O cérebro, ccm o o sabeis, é resultado do tem po, de cópia

43
— im itação. A educação, a sociedade, a cultura, forçam o cé­
rebro ao ajustam ento. N ão é fácil m ostrar com palavras de di­
ferença entre “ m ente” e “cérebro” . C itam os essas duas palavras
para ver se há diferença entrei elas. M as as palavras não são
fatos, e tam pouco as definições sãc fatos. A m ente é a coisa
que tudo abarca, a totalidade que observa, que existe através do
cérebro. Assim, com preendendo-se a natureza do cérebro, da
m em ória, da experiência, do conhecim ento, essa com preensão re­
vela-nos tam bém o significado, a natureza da mente. Fizem os a
divisão apenas por conveniência. N ão se trata de duas coisas
diversas, localizadas em diferentes com partim entos, divididas em
fragm entos e conservadas coesas, estreitam ente ligadas entre si
pelos nossos conceitos.
Nossas reações resultam do processo de nosso viver, ba­
seado no aceitar, no seguir, no obedecer à autoridade e ao m edo.
T ende a bondade de observar vossas próprias reações. N ão estais
escutando o orador, porém escutando o funcionam ento de vosso
próprio cérebro — suas reações ao. que se está dizendo. O que
se está dizendo é que o pensam ento, reaçãc da m em ória (que,
por sua vez, é experiência, conhecim ento) é sem pre im itativo e,
por conseguinte, não existe pensam ento novo. Se aparece um
pensam ento que reconhecem os com o “ novo” , esse reconhecim ento
vem do passado e, por conseguinte, trata-se de coisa velha; tal­
vez num nível m ais alto, porém sem pre do passado. Vê-se, pois,
que o pensam ento jam ais pode ser livre. Com o poderia sê-lo, se
está ligado à m em ória? O cérebro eletrônico e a ciência da ci­
bernética, que p roduz essas m áquinas adm iráveis, baseiam -se
nesse princípio de associação, m em ória etc.; e é assim que nós
tam bém funcionamos! O pensam ento, por conseguinte, nunca é
original.
T ende a bondade de observar-vos! N ão aceiteis o que o
o rad o r está dizendo: observai vosso próprio pensar. Se o fizer­
des, vereis que não há nada original. O pensam ento é o resul­
tado de um a série de imitações, ajustam entos, obediência, acei­
tação (a que cham am os “ conhecim ento” ); com base nesse cé­
rebro, funcionam o pensam ento, as células etc. C onsiderai um
simples exem plo (em b o ra eu não gcste de ex em plos): Q uando
vos perguntam “O nde m orais?” ou “ Q ual é o vosso nom e?” ,
vossa resposta é im ediata; não há intervalo de tem po entre a

44
pergunta e a resposta, porque a pergunta vos é fam iliar, e sabeis
o vosso nom e e endereço. O m ecanism o do pensam ento funciona
com extraordinária rapidez, quando estais bem fam iliarizado com
a pergunta. M as funciona mais lentam ente quando a pergunta é
mais com plicada. N ecessitais então de um certo tem po, de um a
pausa entre a pergunta e a resposta. M as, ao responderdes, vossa
resposta baseia-se ainda no conhecim ento, que é acum ulação de
experiência — vossa pró p ria ou da sociedade, da “cultura” etc.
O pensam ento, pois, é “repetitivo”, nunca livre. E a mente
que procura libertar-se por meio do pensam ento, do exercício,
da im itação, de um a dada form a de disciplina, jam ais será livre
e, por conseguinte, jam ais descobrirá se existe algum a coisa ori­
ginal. E spero estar-m e explicando com clareza. Isto é, o todo da
consciência (tan to o consciente com o o inconsciente, quer deste
estejais cônscio quer n ão ) resulta de im itação. Isso é bem evi­
dente. E nós funcionam os dentro desse lim itado espaço da cons­
ciência hum ana — que procede tam bém do anim al, um a vez que
ainda resta m uito do animal no ente hum ano. D entro desse cam po
funcionam os. Isso não me parece requerer m uita argum entação
ou investigação; é um simples fato.
Assim, d entro do cam po da consciência, tentam os resolver
os nossos problem as — os problem as da guerra, da paz, dos
indivíduos e dcs entes hum anos; os problem as de nossos pró­
prios pesares e sofrim entos, da m orte, da aflição, da confusão,
do medo e agonia de nossa existência. E, por conseguinte, não
parecem os em tem po algum resolver os ncssos problem as. Isto
é, dizem os cientistas que o hom em vive há dois m ilhões de anos
e mais. E o homem sem pre lutou; para ele a vida se tornou um
cam po de batalha, não só exteriorm ente, mas tam bém interior­
mente. E ntretan to , o hom em ainda não logrou ultrapassar as
fronteiras do sofrim ento, da ansiedade, do medo. O bjetivam ente,
poderá não ter m edo de feras, de serpentes etc., mas, em seu
interior encontra-se o terror, a tortura.
A través dos séculos, o hom em se tornou um ente torturado.
Olhai a vós mesmos, por favor! Assim como vos podeis olhar a
um espelho, podeis olhar-vos psicologicam ente. V ereis então o
que se está passando — ansiedades, tem eres, am bições, com pe­
tição, avidez, inveja, brutalidade — na vida que estais levando.
E o hom em ainda não conseguiu resolver este problem a da vida.

45
O que tem feito é fugir da vida — adorando a Deus, adotando
dogm as, crenças, ritos, ideologias, fórm ulas, o culto dos ances­
trais — qualquer coisa, enfim, com que possa evitar sua presente
agonia e ansiedade. T al é o estado em que o hom em vive há
m ilhares de anos. Podem os hipnotizar-nos, lendo a Bíblia, o
G ita etc. — tudo isso m uito infantil. O fato é que nenhum de
nós, com o ente hum ano, resolveu este estado de coisas. Só po­
derem os resolvê-lc se descobrirm os um a m ente nova, capaz de
atacar e liquidar todos esses problem as.
O ra, p ara descobrirm os a m ente nova, é necessário, não só
que com preendam os as reações de nosso velho cérebro, mas
tam bém que esse velho cérebro se torne quieto. O velho cérebro
deve m anter-se ativo, porém quieto. E ntendeis isto? Vede, se­
nhor, se desejais descobrir diretam ente, por vós mesmo (e não
pelo que outro d iz ), se existe um a realidade, um Deus (a pala­
vra “ D eus” não é o fa to ), o vosso velho cérebrc, nutrido num a
certa tradição pró ou contra Deus, num a cultura, num am biente
de influências e de propaganda, de asserções sociais, m ultisse­
culares — esse Velho cérebro deve quietar-se. Porque, do con­
trário, ele só irá p ro je ta r suas próprias imagens, seus próprios
conceitos, seus próprios valores. Mas esses valores, esses con­
ceitos, essas crenças resultam do que vos foi ensinado ou de
vossas reações a esse ensino, de m odo que, inconscientem ente,
dizeis: “E sta é m inha experiência!”
Tendes, pois, de contestar a própria validade da experiên­
cia, tanto vossa com o de c u tra pessoa, quem quer que ela seja.
E ntão, pelo duvidar, pelo investigar, indagar, exigir, olhar, escutar
atentam ente, quietam -se as reações do velho cérebro. Mas, ele
não fica a dorm ir, porém m uito ativo — e quieto. Essa quietude,
ele a alcançou pela observação, pela investigação. P ara investi­
gar, observar, necessita-se de luz; essa luz é a vigilância cons­
tante.
N ão vem a clareza, se não observais, se não escutais, se
não exam inais todas as vossas reações — o que dizeis, o que
sentis, o que pensais. Q uando com eçais a citar os Upanishads, a
Bíblia, Sankara, Buda, isso são só palavras, palavras ditas por
outros, e não representa um descobrim ento feito por vós m es­
mo. P ara descobrir se algum a coisa existe além dessa reação imi-
tativa, copiadora, do cérebro, deve este com preender todas as

46
suas reações às inum eráveis influências que vos cercam — da
influência de vossa avó à influência exercida pela im prensa m o­
derna, da influência dos antigos instrutores à dos mais m odernos
gu\rus. T odos estão influenciando a todos, e cada um deve tor-
nar-se cônscio disso. Só por meio dessa atenta observação, desse
escutar, vem a claridade — claridade que traz ao cérebro a paz,
a tranqüilidade e, por conseguinte, a atenção.
Estam os, pois, em presença do fato, e não de um a opinião,
de um a idéia. Esse fato é que a totalidade de nossa consciência,
e não uma simples parte dela, é o resultado de im itação — imi­
tação de Sankara, de Buda, ou de quem quer que seja. Tem os de
descobrir o fato, a im itação — o ajustar-se, com base na auto­
ridade, produto do medo.
C um pre, aqui, com preender a autoridade da Lei e bem as­
sim a autoridade que nos é im posta pela experiência, pelo conhe­
cimento, ou pelo desejo de prazer. É claro que temos de obede­
cer à Lei — m anter-nos do lado direito ou do lado esquerdo da
estrada (conform e o país em que vivem os), pagar im postos,
com prar selos etc. A com pra de selos poderá ser um meio de
contribuir para a guerra; pagando os vossos impostos, podeis
estar patrocinando a guerra! Se sois pacifista, estais perdido. Se
sois um ente hum ano, direis “ N ão m atarei — não por causa
de um a certa idéia ou conceito, porém , sim, porque tendes amor
no coração; não m atareis! Significa isso que não com prareis mais
selos, que não pagareis mais im postos? D ecerto que não. D eixar
de pagar im postos, de com prar selos, deixar de viajar por via
férrea e utilizar-se das pernas com o meio de locom oção, nada
disso resolverá o problem a. O que origina o problem a d a guerra
são as divisões nacionalistas, lingüísticas, geográficas; são as
diferenças religiosas — vós hinduísta, eu m uçulm ano, vós com
vossos dogm as e limitações, eu com os meus. A m enos que trans­
cendam os todas essas coisas, o m ero fato de não pagar im postos,
de não viajar de trem , não resolverá coisa algum a, não será mais
que um m ero capricho pessoal — exibicionismo! O que estou
dizendo causa-vos um certo desconforto, pcrq u e não percebeis o
problem a inteiro. Vedes a vida fragm entariam ente, e com esses
fragm entos esperais encontrar um a solução. M as, por meio de
fragm entos não se encontra solução algum a p ara as agonias da
vida.

47
C hegam os, pois, a um ponto em que vedes que tudo o que
fazeis, interiorm ente, representa um processo de im itação. N a ­
turalm ente, tendes de freqüentar o vosso em prego, de cum prir
pontualm ente os vossos com prom issos. N ão estamos discorren­
do acerca dessas coisas óbvias, com o sejam o fator tem po e as
atividades que temos de desem penhar. Estamo-<nos referindo, sim,
ao fato de nos ajustarm os e que tudo o qu© fazem os intejrior-
m ente — controlar, reprim ir, copiar, seguir — é um processo de
im itação e, por conseguinte, a nossa ação se to rna “ repetitiva” .
Q uer aprazível, quer não, a repetição representa um esforço para
vencer o medo. N ão sei se estais percebendo bem.
Assim, o que quer que façais, qualquer ação positiva que
adotardés para superar a im itação, é ainda im itação. N ão é um
fato isso? Se dizeis “ Q uero viver livre de im itação” , essa própria
declaração indica que nãc com preendestes a questão, o proble­
ma. Se dizeis: “ Q uero descobrir um m eio de libertar-m e da imi­
tação” , então, nessa busca de um meio diferente, o m otivo con­
tinua a ser im itativo, porquanto desejais fugir da im itação por
meio de um a nova espécie d e im itação, de um novo hábito. Vede,
senhor: Se um a pessoa se disciplina de um a certa m aneira, essa
disciplina, esse ajustar-se a algum p ad rão ou norm a, se baseia
por certo no m edo que essa pessoa tem de não fazer o que é
correto, de não ser feliz, de não obter o que com er, de não en­
contrar Deus, etc, etc. E ssa disciplina, por conseguinte, se b a­
seia na im itação, e esta origina-se da reação ao medo. Isso é
bem evidente. O que quer que se faça, em relação à im itação, é
sem pre um ato im itativo. Eis um fato; se exam inardes bem, ve­
reis que assim é. Q ue cum pre fazer, então?
A té aqui, viestes seguindo, m esm o verbalm ente, intelectual­
mente, o que se esteve dizendo. Se ultrapassastes a palavra (não
intelectualm ente), apresenta-se-vos. este problem a: Sabendo que
toda a vossa vida, do nascer ao m orrer, consiste em ajustar-vos,
imitar, obedecer, subm eter-vos às leis sociais ou a um a certa
idiossincrasia que faz p arte de vosso caráter pessoal, sendo
disso, percebeis que toda atividade oriunda do pensam ento, de
um a idéia, um a ideologia, um a fórm ula, um a tradição ou alguma
sugestão vinda do passado — é im itativa.
Q ue fazer então? E spero esteja clara esta pergunta. Nosso
cérebro diz: “ É preciso agir, é preciso fazer alguma coisa, p a ra

48
resolver este imenso e tão com plexo problem a” . V ossa reação,
a reação do cérebro, é agir: pensar, procurar um a solução. O ra,
procurar um a solução, fazer algum a coisa em relação ao proble­
ma, é o que cham am os “ ação positiva” . É sem pre isso o que
fazemos. Se sou m edroso, quero encontrar um a m aneira de so­
brepujar esse estado, e trato, assim, de desenvolver certas carac­
terísticas que denom ino “ coragem ”, para vencer o medo. É sem­
pre assim que agimos. Q uando nos vemos em presença de um
problem a de qualquer espécie, nossa reação instintiva é fazer
alguma coisa em relação a ele, p o r meio do pensam ento, do sen­
tim ento ou de um a determ inada atividade, a qual é a atividade
do velho cérebro. Exato? O velho cérebro é resultado do tempo,
da experiência, do conhecim ento dc passado; por conseguinte,
ele é imitativo, e sua reação a um problem a será necessariam ente
imitativa.
Assim, que se deve fazer? Dissem os que a reação do “velho
cérebro” é im itativa, que nada d o que ele faz constitui um a solu­
ção. E a essa reação do passado é que cham am os “ a atividade
positiva da vida” — a qual só gera m ais confusão e mais con­
flito. V edes-vos, pois, em presença desta imensa questão: Que o
velho cérebro é im itativo e suas reações sem pre im itativas; por
conseguinte, o pensam ento, que inclui o sentim ento e as em o­
ções, etc., é tam bém im itativo; dessarte, não se pode encontrar
solução algum a por meio do pensam ento. O intelecto não é a
porta pela qual podem os fugir do passado; tam pouco o é o sen­
timento. E m conseqüência, to d a ação positiva tem de cessar de
todo; isso significa que o velho cérebro tem de ficar num estado
com pletam ente negativo, quer dizer, com pletam ente quieto. E s­
tais-m e acom panhando? O velho cérebro só pode quietar-se, ob­
servando suas atividades à luz de seu próprio percebim ento. E n­
tendeis? V ede, senhor: E u posso ver aquela árvore porque há
luz; do contrário, não poderia vê-la. Se h á luz — artificial ou
solar — posso observar. Se não há, p e r mais que eu tente obser­
var, nada verei.
Tem , pois, o velho cérebro de ficar quieto, num estado ne­
gativo. Percebeis agora o que entendem os por “negativo” e “po^-
sitivo”? Esse estado negativo, essa quietude, não se torna pos­
sível por meio de disciplina, de ajustam ento, porém , tão-só, pela
observação, p o r ele m esm o (o velho céreb ro ), do inteiro pro­

49
cesso de seu próprio pensar — pelo p ô r-se num estado de obser­
vação. E sta r quieto e observar significa ter luz, pois sem luz não
é possível observar nada. N ão se trata, pois, de nenhum artifício
— de ficar sentado, imóvel, a m editar, a forçar. T odos esses
artifícios que se vêm em pregando h á séculcs e séculos, com o
nom e de “ processos de m editação” , são inteiram ente sem valia.
A m editação é coisa inteiram ente diferente; se houver tem po,
dela tratarem os um dia destes. Em presença desse fato form i­
dável, vereis que toda a vossa vida, inclusive vosso A tm a n , vossa
alm a, vcsso Deus, tudo, enfim, é imitativo. R epetis o que se vos
ensinou. A o com unista ensina-se que não existe “essa coisa ab ­
surda cham ada alm a” , e ele, portanto, repete: “ N ão existe essa
coisa absurda cham ada alm a” . Ele repete, todos repetem .
Com o vem os, o todo da vida, cada canto de nossa cons­
ciência é “ im itativo” , reconhecível. O ra, quando se reconhece
um a coisa, ela já é conhecida c, p o rtan to , representa o passado;
por conseguinte, é im itativa, e, sendo assim, está ainda dentro da
esfera do conhecido. Deste modo, quando vos vedes em presença
desse imenso problem a, a solução dele está na total quietação
do cérebro, a qual vem espontaneam ente, por meio da observa­
ção à luz de seu p róprio percebim ento. E , conseqüentem ente,
nessa claridade nasce a m ente nova. Só então pode-se descobrir
a natureza e a estru tu ra do que é original — se existe algum a
coisa original. N ão traduzais isto segundo vossa particular teo­
logia ou conceito pessoal. Porque é necessário acharm os algum a
coisa nova, original, não contam inada pelo pensam ento. Do* con­
trário, continuarem os a ser um a m era m áquina “ repetitiva” , ci­
tando este, seguindo aquele, discutindo “ isto”, disputando a res­
peito de palavras pertencendo a “tal” seita ou a “ tal” sociedade,
e denotando, assim, um a absoluta falta de m adureza.
C abe-nos tam bém encontrar um a nova m aneira de viver —
o que n ão significa pôr-nos a dorm ir, ou fugir p a ra os m osteiros
ou as m ontanhas, ou fazer coisa sem elhante, igualm ente im atura.
Mas só é possível encontrar-se, agora, um a m aneira de viver
isenta de conflito, se a m ente libertar-se de seu presente conflito,
que é essencialm ente o conflito d a im itação. V ereis, então, que
o cérebro se to rn a altam ente sensível. Só a m ente sensível é vul­
nerável, perm anece quieta e não a m ente ou o cérebro que está
sem pre a reagir em conform idade com seu velho padrão. Só então

50
pcde-se achar a nova m aneira de viver. N ão vos cabe achá-la,
pois sois incapaz de achar o que quer que seja. A idéia de “bus­
car a V erd ad e” é de todo em todo absurda. Porque a busca de
algum a coisa im plica que querem os achá-la, descobri-la. M as, co­
mo descobrir, com um a m ente em botada, “repetitiva”, um a coisa
que não pode ser procurada, que é viva, que se move, que é
totalm ente nova? N ão podeis procurá-la!
Sei que um a das coisas atualm ente em voga, na religião, é
“a busca da verdade ou D eus” . T endes de lançar ao m ar essa
palavra sem significação. O que tem significação é descobrir se
o cérebro pode tornar-se altam ente sensível, quieto, livre. Porque
só em liberdade pode-se viver pacificam ente neste m undo, e
criar um m undo novo, um a nova geração, um a nova hum anidade.

29 de dezem bro de 1965.

51
MADRASTA:
0 tempo

P
ML ROSS1GAM OS, se o permitis, com o assunto de que estáva­
mos tratando na últim a reunião.
Dizíamos quanto era im portante que se operasse um a m u­
tação da m ente, não uma m era reform a ou m elhoram ento: uma
transform ação total. C onform e assinalam os, o hom em vive, há
m uitos e m uitos séculos, em sofrim ento, aflição, confusão. E não
parece o ente hum ano capaz de encontrar um a saída dessa situa­
ção. V ê-se enredado num a teia de circunstâncias p o r ele próprio
criada, e incapacitado de se transform ar totalm ente. T ornou-se
mais ou m enos civilizado. A função da m aioria das religiões tem
sido esta de am ansar nelô o anim al feroz. E ntretanto, subsiste
ainda m uito do anim al na m aioria de nós. E , em vista de tanta
degradação e corrupção — m oral, espiritual, ética e tam bém es­
tética — com o atualm ente existe, torna-se bem óbvia a necessi­
dade de prom over, ou, m elhor, de nos tornarm os cônscios dos
fatores que reclam am um a radical transform ação do nosso p e n ­
sar e sentir.
E ssa m utação faz-se necessária, em prim eiro lugar, interior­
mente. E m b o ra quase todas as scciedades e goveínos se m ostrem
em penhados em m elhorar as circunstâncias exteriores, em tornar
a vida um pouco mais confortável —• proporcionando mais ali-

52
mentos, mais roupas, etc, etc. — há m uito pouca gente interes­
sada em realizar a revolução interior.
N esta tarde, pretendem os falar sobre um a m udança que só
pode operar-se instantaneam ente. T o d a m utação é instantânea.
N ão se pode pensar acerca de tal m udança, rodeá-la de andai­
mes ou planejá-la cuidadosam ente, fase por fase. Já exam inam os
isso mais ou menos profundam ente, d a últim a vez.
H oje gostaríam os de exam inar, junto convosco, a questão do
tempo. M as, antes de fazê-lo, acho necessário considerarm os o
que é aprender. Pois tanto vós com o eu vamos aprender a res­
peito do tem po. E, se puderm os com preender o que está impli­
cado nesta questão d o tem po, perceberem os talvez que esta ques­
tão é inerente à de com o op erar a transform ação.
P ara a m aioria de nós, aprender é acum ular conhecim entos
ou um a técnica, ou m em orizar certas idéias adquiridas pela ex­
periência ou m ediante instrução; tal processo é o que cham am os
“ aprender” : C ultivar a m em ória e, depois, com a experiência e
os conhecim entos acum ulados, arm azenados, agir. É isso o que
geralm ente cham am os “ apren d er” . Q uer dizer, aprender e depois
aplicar o que se aprendeu. T en d o acrescentado e arm azenado
inform ações, conhecim entos, experiência, desta base p arto para
agir; isto é, aprendi e com o conhecim ento adquirido funciono.
M as eu acho que há enorm e diferença entre “ aprender” e
“ter aprendido” : a prim eira dessas coisas está sem pre no presente
ativo, e a o u tra sem pre no passado. O processo de aprender se
verifica continuam ente, infinitam ente. M as, se um a pessoa apren­
deu e a isso acrescenta o que está aprendendo, cessa o aprender
Exam inem os isso um pouco, para que o com preendam os clara­
mente.
O aprender, que é o presente ativo, é operar, agir. O opeírar
e o agir estão no aprender. A ação não está separada do apren­
der. A prendo ao mesmo tem po que opero, que atuo — e não,
“ ter aprendido” e atuar. São dois estados com pletam ente dife­
rentes. Isso precisa ser percebido claram ente, logo de início, a
fim de poderm os com preender a questão do tem po. Isto é, uma
pessoa aprende um a técnica, estuda-a, guarda-a na m em ória; e,
tendo-a arm azenado, cultivado por meio d a experiência, do es­
tudo, d a m em ória, a pessoa atua. E ssa ação é de tcdc< diferente
da ação que nasce no ato de aprender. A tuo enquanto aprendo,

53
e não depois de ter aprendido, experim entado. E spero que isto
esteja claro. São duas coisas inteiram ente diferentes. U m a é
m ecânica; é a m esm a coisa que fazem os com putadores, os cé­
rebros eletrônicos. A o com putador fornecem -se os dados neces­
sários, relativos a um dado assunto; e, quando lhe fazem uma
pergunta relativa a tal assunto, a m áquina dá prontam ente a
resposta. E o m esm o fazem os nós. Por conseguinte, não há nisso,
liberdade.
Com eçam os, pois, a descobrir que o conhecim ento não nos
dá liberdade. Só a faculta o aprender. Porque não se tra ta de
um processo m ecânico, aprende-se continuam ente e, com esse
aprender, atua-se seguidam ente. Se, pois, está bem claro isto, pas­
sam os à questão do tem po.
Servim o-nos d o tem po com o m eio de operar qualquer tran s­
form ação. R eferim o-nos ao tem po psicológico, e não ao tem po
m arcado pelo relógio. E ste é necessário; de contrário, não po­
deríeis estar aqui, eu não poderia estar aqui; não pegaríeis o
ônibus am anhã de m anhã, à h ora de irdes p a ra o escritório. O
tem po cronológico é absolutam ente necessário, cria um a certa
ordem e eficiência.
M as, existe tem po psicológico? E que se entende por “tem ­
p o ” nesse sentido? Sabemos o que significa “ ontem ” , “ hoje” ,
“ am anh ã” , segundo o calendário. T enho de tom ar um trem , um
ônibus, um avião, num certo dia etc. Isto é bastante simples. M as,
ao falarm os de um tem po existente num a dim ensão inteiram ente
diferente — isso é, do tem po psicológico — existe de fato essa
coisa? Se existe, que é ela? Tem os de com preender o tem po em
relação com o que cham am os “m utação” — essa revolução tre­
m enda, radical. Se não com preenderm os, integralm ente, a sig­
nificação do tem po, jam ais conseguirem os com preender o sig­
nificado da m utação.
O tem po cronológico é um fato indubitável. M as existe
o u tra espécie de tem po? Se existe, com o o entendem os? Para
investigar esta questão, exam iná-la a fundo, tem os de considerar
uma coisa de todo diferente, a saber: E xiste um a divisão, uma
separação, um a cisão entre o observador e a coisa observada.
Vede, p o r favor, que isto não é um assunto abstrato e, portanto,
não fiqueis a dorm ir ou num estado vago. E ste assunto requer
reflexão m uito clara de vossa parte, sem concordar, nem dis­

54
cordar. A m ente deveras esclarecida, que deseja descobrir a ver­
dade, não ccn co rd a nem discorda: observa, exam ina, sem b a­
sear-se em preconceitos, gostos e aversões. R equer-se, pois, uma
m ente disposta a pensar a fundo, do começo ao fim. Só um a
mente assim é verdadeiram ente séria; e só a m ente séria des­
cobrirá a resposta — e não aquela que exam ina filosoficamente
a questão do tem po.
Que entendem os, pois, p o r “ tem po”, se tal coisa existe?
É possível pôr fim ao tem po? E stam os habituados a pensar em
termos de gradualidade: E u m udarei, serei bem , “devo ser” ,
“não devo ser” etc. T u d o isso envolve tem po, ou seja, o futuro.
A ação da vontade — “devo” , “não devo” — im plica tem po,
porque há um intervale entre o que é e o que deveria ser, e para
se alcançar o que deveria ser necessita-se de tem po. C ronologi­
cam ente, requer-se tem po p a ra irdes daqui a vossa casa. E, do
mesmo m odo, quando desejais alterar o que é, pensais em ter­
mos de tem po. O “ devo”, p e r conseguinte, im plica tem po; isto
é, depois de acum ular experiência, depois de aprender, atuo.
V am os exam inar isto. Talvez não vos esteja bem claro, p o r en­
quanto. Se não ficar claro, sinto m uito. E sta questão precisa ser
explicada com m uito cuidado, exam inada passo por passo; e
vossa m ente deve tam bém estar alertada, vigilante, p a ra seguir
todas as suas im plicações, senão perdereis o seu significado.
Assim, o tem po que conhecem os — o tem po psicológico
— im plica ação da vontade — “devo” , “não devo” — • que
obviam ente significa: m ovim ento de um ponto a outro ponte,
um a distância a percorrer no tem po. É assim que se inventa a
desculpa do am anhã etc. Por conseguinte, onde há ação da
vontade está im plicado o tem po. E quando tem os o tem po, en­
tram em jogo cutros fatores e influências, que m odificam o que
“ deveria ser” . A causa, pois, produz o efeito, e o efeito se torna
causa. Senhores, perm iti-m e sugerir que não traduzais o que es­
tais ouvindo em vossa própria term inologia, não traduzais o que
estamos dizendo em term os sanscríticos ou de vossa própria
língua; porque a vessa linguagem , as vossas palavras sânscritas
estão “carregadas” e, p e r conseguinte, não com preendereis di­
retam ente o que o orador quer dizer. P ortanto, não interpreteis
por vossas próprias palavras o que se está dizendo; ide-me se­
guindo, sim plesm ente, ainda que intelectualm ente.

55
Com o dissemos, se não com preenderm os a questão do tem ­
po, a m utação p erderá seu total significado. Porque, então, es­
tarem os apenas interessados no autom elhoram ento, — em tor­
nar-nos m elhores, m ais nobres, mais bondosos (ou menos bon­
do so s), etc, etc. — e isso requer tem po. Vem os, pois, que, se
entra em ação o conhecim ento com o vontade, está envolvido o
tem po. E quando entre o agente e a ação figura o tem po, tor-
nam -se existentes outros fatores, de m odo que a ação nunca é
com pleta. P retendo deixar de fazer um a certa coisa — quer di­
zer, am anhã deixarei de fazê-la. Q ue sucede entre agora e am a­
nhã? Sucede que h á um intervalo de tem po, um a dem ora. Nesse
espaço surgem outros fatores, outras pressões, outras tensões.
Por conseguinte o que deveria ser já está sendo m odificado,
e m inha ação tam bém . E , assim, a ação nunca é com pleta. C o­
m eçarei am anhã a fazer um a certa coisa (in te rio rm e n te ): aban­
d onar um hábito, p raticar um certo ato, ajustar-m e, im itar etc.
— e outros fatores, outras pressões, ou tensões, ou circunstân­
cias intervêm e influem na ação; p o r conseguinte, entre o que
é e o que deveria ser, a ação se está continuam ente m odificando
e, por conseguinte, nunca se com pleta.
Então, tam bém , p o r força do hábito, da tradição, d a aqui­
sição de conhecim entos técnicos, costum am os dizer, habituam o-
-nos a dizer: “Fá-lo-ei noutro dia” , “T ransform ar-m e-ei gradual-,
m ente” . A í tem os, mais um a vez, a idéia da gradualidade, que
envolve o tem po, que se to rn a a condição da modificação. As­
sim, cum pre investigar mais profundam ente o que é o tem po.
Nós conhecem os o tem po cronológico. V em os o tem po em
ação com o vontade. V em os tam bém que a m ente —■ por pre­
guiça, indolência — inventou o tem po, a fim, de adiar a ação;
temos, pois, a idéia, e a ação. H á a idéia baseada no pensam ento
organizado, conform e a tradição, o conhecim ento, a cultura ad­
quirida; e, em conform idade com essa idéia, tem os a ação; aí
está im plicada a gradualidade. O ra, estam os ainda num nível
m uito superficial, e cabe-nos pen etrar m uito mais fundo n a ques­
tão. Espero ter-m e explicado, até aqui, com mais ou menos
clareza.
Im pede-nos descobrir se existe realm ente o tem po. P o r­
que, se puderm os com preendê-lo, se puderm os pôr-lhe fim, te­
mos a ação im ediata. A m ente, então, o cérebro, já não é indo­

56
lente, já não é cap az de indolência. Se sei que am anhã m orrqrei,
atuo im ediatam ente. T enho, pois, de varrer da m ente esta expli­
cação superficial do tem po. Isso tem os feito verbalm ente. M as
se tratais esta explicação com o um a m era explicação, m eras p a­
lavras, ela não é então urrj fato. Q ue sucede, se assim fazeis?
A crescentais, sim plesmente, a explicação aos conhecim entos que
já possuis e, com base neles, ides agir; por conseguinte, nunca
estais livre para aprender.
Existe o tem po? Porque, se n ão acabam os com o tem po,
nunca terem os liberdade, nunca term inará o sofrim ento; a vida
será sem pre um a série de reações contínuas etc. A ssim , pode
o tempo acabar? Se a m ente puder descobrir isso, com preendê-lo,
a ação terá então um significado totalm ente diverso. E stá certo?
Senhor, se alguém vier dizer-vos que vossa casa está em cham as,
não ficais sentado aqui! Se vos dizem isto, não h á am anhã; ficais
horrorizado! C ronologicam ente, há um am anhã; m as, psicologi­
cam ente, não há am anhã. E se não h á am anhã, isso representa
um a trem enda revolução interior. E n tão o am or, a ação, a be­
leza, o espaço, a liberdade, têm um significado totalm ente di­
ferente.
Eis, pois, o que vamos descobrir; n ão ides ouvir e acum ular
inform ações dadas pelo orador, com. elas concordando ou delas
discordando. Ides desccbri-lo, passo a passo, cautelosam ente.
E, então, estareis libertado do tem po. O sentim ento não m oti­
vado pelo pensam ento é todo diferente do sentim ento produzido
por um estímulo. A tentai nisto. O sentim ento relativo ao espaço
é com pletam ente diverso da palavra “ espaço”, em relação com
o que pensais, sentis ou sabeis acerca d o espaço. Sabeis, se­
nhores, o que é sentir um a coisa, olhar um a coisa? Sentir aquele
pôr-do-sol, olhá-lo; e tam bém aquela árvore, com sua folhagem ;
ver a intensidade daquela beleza, daquela luz m aravilhosa! Esse
sentir difere m uito do m ero estím ulo que o ocaso vos p ro p o r­
ciona; aí, sois dependente: dizeis que aquilo é um belo pôr-do-
-sol que vos desperta recordações, sentim entos, idéias etc. Mas
o contem plar aquela beleza com im enso sentim ento, não p ro ­
vocado p o r estím ulo algum, é coisa com pletam ente diferente.
Exam inem os, pois, não verbalm ente, esta questão do tem po.
Para a com unicação, as palavras necessárias; do contrário, não
podeis saber o que querem os com unicar. Vós e eu, suponho,

57
sabem os inglês. As palavras são necessárias, mas a palavra não
é a coisa. A quela luz — se vós não a sentis, não a vedes, a
m era palavra “luz” ou “ beleza” é inteiram ente sem significação.
Tem os, pois, de penetrar, passo a passo, na questão que pre­
tendem os exam inar, ou seja a questão d o tem po.
O tem po m edido pelo relógio, esse nós sabem os que é um
fato. Conhecem os o tem po como vontade — tam bém um fato.
Conhecem os, mais, o “ processo g radual” , quando pensam os:
“ Isso será feito am an h ã” — tam bém tem po. Sabemos ser isso,
por igual, um fato. Pois bem ; afora isso, que é o tem po? Existe
tal coisa — tem po? P ara o descobrir — n ão de m aneira p u ra ­
m ente teórica, intelectual ou em ocional, mas penetrá-lo real­
mente, é necessário investigar a questão do “ observador e coisa
observada” . P o r exem plo, ao olhardes aquele pôr-do-sol, existe
o observador e o fato, a coisa observada; h á separação entre o
observador e a coisa observada. E sta separação é o tempo.
Ora, o observador não é um a entidade perm anente. Não
digais que o observador já existia antes. Perm iti-m e prevenir-vos,
aqui. Olhai esta questão como se nunca tivésseis lide um só livro
sagrado; os livros sagrados, de qualquer m aneira, são sem im ­
portância. O lhai-a, com o se a estivésseis olhando pela prim eira
vez. N ão a traduzais segundo o que disse Sankara ou outro qual­
quer: que existe c observador, a entidade original — o “ obser­
vador silencioso” ! Pode-se inventar um a porção de palavras e de
teorias, mas nãc o façais, porque assim perdereis inteiram ente o
ponto essencial.
Q uando se observa qualquer coisa — um a árvore, vossa
esposa, vossos filhos, vosso vizinho, as estrelas, à noite, a luz
brilhando n ’água, a ave nos ares, qualquer coisa — há sem pre o
observador — o censor, o pensador, o experim entador, o que
busca — e a coisa que se está observando: observador e coisa
observada: pensador e pensam ento. H á, portanto, sem pre, se­
paração. Essa divisão é que é o tem po. E ssa divisão é a mesma
essência do conflito. E quando há conflito, há contradição. H á
“ observador e coisa observada” : um a contradição, um a sepa­
ração. E, conseqüentem ente, havendo contradição, há conflito.
E, quando h á conflito, há sem pre a ânsia de transcendê-lo, de
vencê-lo, superá-lo, fugir-lhe, de fazer algum a coisa em relação
a ele. T o d a essa atividade envolve tempo.
Assim, enquanto existe “observador e coisa observada'’ co­
mo duas entidades separadas, há sem pre o tem po. Isso não sig­
nifica que o observador deva identificar-se com a coisa obser­
vada; pois tam bém nesse processo de identificação está com ­
preendido o tem po. Se dizeis que credes em Deus — crença, e
não a verdade — tratais então de identificar-vos com Ele. Essa
identificação exige tem po, m uitc evidentem ente, porque tendes
de fazer esforços, renunciar a isto, fazer aquilo, etc, etc. Ou,
cegamente vos identificais, e ides acabar num hospício.
Vamos, pois, que há essa divisão dentro de nós mesmos.
E vemos que, enquanto ela existir, o tem po inevitavelm ente con­
tinuará existente, jam ais acabará. E é possível que deixe de exis­
tir essa divisão? — isto é, que o observador se torne a coisa
observada, “ o que busca” se torne a coisa buscada? Não tra-
duzais isso conform e vossa própria term inologia: “o que busca”
é Deus,, entidade espiritual ou o que mais seja; e, por conseguinte,
o pensam ento diz: “ Eu sou o. A t m a n ” — ou o u tra entidade
semelhante. Se dizeis tais coisas, estais a enganar-vos, não seguis
o cam inho do descobrim ento; estais m eram ente alegando ou afir­
m ando um a coisa sem nenhum a validade.
Com o poderá (note-se, mais uma vez, que, aqui, “ com o”
não significa m étodo; estam os apenas perguntando) — como
poderá term inar esta separação entre o observador e a coisa
observada? E nquanto continuar a existir esta divisão, o tempo
continuará existente — e tem po é sofrim ento. E o hom em que
desejar com preender com o cessará o sofrim ento, terá, prim ei­
ram ente, de com preender isto, terá de descobrir e de transcender
essa dualidade entre o pensador e o pensam ento, o experim en­
tador e a coisa experim entada. Isto é, quando há separação
entre o observador e a coisa observada, o tem po existe e, por
conseguinte, o sofrim ento jam ais cessará. Que cum pre fazer, en­
tão? C om preendeis esta pergunta? V ejo que, dentro de mim
mesmo, o observador está sem pre a observar, a julgar, censurar,
aceitar, rejeitar, disciplinar, controlar, m oldar. Esse observador,
esse pensador é resultado do pensam ento, evidentem ente. O pen­
sam ento vem prim eiro, e nãc o observador, o pensador. Se não
houvesse pensam ento, não existiria observador, p ensador; have­
ria então, unicam ente, atenção com pleta, total.
Assim, com o term inará essa separação entre o pensador e

59
o pensam ento, o observador e a coisa observada? Aqui não po­
demos depender do tem po. Entendeis? Se pratico certas coisas
a fim de anular a separação, isso envolve tem po; estou, pois, a
perpetuar, a d ar continuidade à separação entre o pensador e o
pensam ento. Q ue fazer, pois? Fazei esta pergunta, não verbal­
mente, porém com um intenso sentim ento de urgência. Só sen­
timos urgência quando sentim os um a coisa m uito intensam ente;
quando vos enraiveceis, quando sentis um a dor física, atuais,
porque h á “intensidade” . Existe o problem a do sofrim ento —
não só d o sofrim ento individual, mas do sofrim ento do hom em ,
que vive há tantos milênios, a sofrer, a ser torturado, sem ja ­
m ais ach ar solução. E o encontrar a solução é um problem a u r­
gentíssimo. Assim, tem os de com preender esta questão m uito
profundam ente; isto significa escutar a questão, escutar o que
se disse.
Sabeis o que é “escutar”? E scu tar o rum orejar d a brisa
entre as folhas, sem nenhum a resistência, sem interpretação, sem
distração. N ão existe “distração” quando estam os escutando.
Q uando escutais aquele rum orejar da brisa, estais escutando
com toda a atenção e, p o r conseguinte, o tem po se torna inexis­
tente. Estais escutando; não estais raduzindo, interpretando,
concordando ou discordando, não estais dizendo: “ Pensarei nisso
am anhã” . E stais no verdadeiro “estado de escuta” ; estais ver­
dadeiram ente em penhado em escutar (se posso em pregar tal
p alav ra ), porque sofreis. E , assim, vos aplicais de corpo e alm a,
com todos os nervos, com tudo o que tendes, a essa escuta.
Pcis bem; se estivestes escutando dessa m aneira, podem os
passar a oullro problem a que nos ajudará a com preender a se­
paração entre o observador e a coisa observada, e com o poderá
ela term inar. N ós precisam os de ordem , é preciso haver ordem
— não apenas ordem social, mas tam bém ordem exterior, ordem
no nosso quarto, ordem na rua, asseio. Sem ordem , não se pode
atuar adequadam ente. O rdem é virtude, ordem é correção, e
sem ela não se pode funcionar com eficiência. Assim, a ordem ,
tanto social com o interior, é essencial. A sociedade e o ente
hum ano não são duas entidades diferentes; quando h á ordem no
ente hum ano, tem de haver ordem no exterior. Porque em todos
nós existe desordem , existe desordem no exterior. E so cuida­

60
mos m eram ente de “rem endar” a ordem exterior, a ordem social
(que é n ecessária), isso não resolverá a nossa desordem interior.
Com o dissemos, a virtude é ordem , e a virtude, tal como' a
hum ildade, não pode ser cultivada. C ultivar a hum ildade é ape­
nas encobrir a própria vaidade. A hum ildade é um a coisa que
só pode florescer naturalm ente. E — sem hum ildade não há
aprender. A ordem , pois, é virtude, e a virtude não pode ser
cultivada. E scutai: A virtude que se cultiva, já não é virtude.
N ão podeis cultivar a virtude — podeis? Podeis cultivar o ódio,
a avidez, a inveja, tornar-vos mais cortês, mais gentil, mais afá­
vel, mais generoso, m as isso não é am or. O am or nad a tem em
comum com o tem po, nem com a m em ória. E essa excelência
que cham am os am or é com paixão, a qual inclui a ternura, a
bondade, a generosidade etc. M as, generosidade não é am or,
afabilidade não é am or. Assim com o não se pode cultivar o
am or ou a hum ildade, não se pode, de m odo nenhum , cultivar
a virtude. E ntretanto, por hábito e tradição, em penham o-nos em
cultivar a virtude — e isso é, m eram ente, resistir ao fato. O fato
é este: Apesalr de tudo o que vindes dizendo h á séculos, sois
violentos. Podeis não esbordoar-vos m utuam ente porque temeis
ir para a cadeia. M as sois violentos, porque sois ambiciosos,
ávidos, invejosos, e quando vcssa p átria é atacada, vos indignais
e vos identificais com a pátria e ides m atar-vos uns aos outros
— sendo isso a violência do anim al, inerente a cada um.
O ra, im plantar a ordem , em meio à violência, é acabar
com a violência, e isso deve acontecer im ediatam ente e não
am anhã. O cessar d a violência, ou seja a cirdem, não envolve
tempo. Com preendei isto, por favor. Se se req u er o tem po, que
é vontade, que é adiam ento, que é gradualidade (livrar-m e-ei da
violência gradualm ente, com a ajuda das idéias, pelo ajustam en­
to e tc .), não estais realm ente libertado d a violência. O libertar-
se da violência tem de ser agora, e não am anhã.
Assim, há necessidade desse sentim ento de virtude, de re­
tidão, o qual nasce quando se com preende a n atureza do tempo.
Entendeis, senhores? Q uando sois bom por tem er punição ou
desejar recom pensa, h á então um m otivo; por conseguinte, issc!
não é bondade, porém medo. A virtude, pois, é sem pre sem
motivo. E nessa esfera das relações hum anas, i.e., n a esfera da
virtude, não existe o tempo. Q uando am ais alguém, que signi­

61
fica isso? Q uando amais um a pessoa, um. animal, um a árvore, o
céu, o ar livre, qualquer coisa — que significa isso? Decerto
não significa ação intelectual, nem reação da m em ória, porém ,
sim, que existe um a “intensidade” entre dois indivíduos ou entre
dois objetos, intensidade no m esmo nível e ao mesmo tem po; há
então um a com unicação não verbal, não intelectual, não senti­
m ental. O am or n ão é sentim ento, o am or não é em oção, o
am or não é devoção.
Assim, quando se com preende a natureza do tem po, o que
nele se encerra, a virtude é então ordem , a qual é imediata.
Q uando se com preende esta virtude que é ordem, que é im e­
diata, com eça-se então a perceber que a separação entre o ob­
servador e a coisa observada é inexistente. P o r conseguinte, o
tem po cessou. E só então a m ente pode conhecer o que é novo.
Vede, senhor, nós só conhecem os o espaço quando há o
objeto que o cria em torno de si. A qui está este microfone; por
causa dele há o espaço que o circunda. Prestai atenção, por
favor. H á espaço no interior da casa, por causa das quatro p a ­
redes, e há espaço do lado de fora, criado pela casa, com o ob-
je;to. Assim , quando h á o espaço criad o por um objeto, há
tempo.
Existe espaço sem nenhum objeto? C om preendeis esta pe)r-
gunta? Vós tendes de descobrir isto. É um desafio. N ão se trata
de reagir ou não reagir, porém , sim, de descobrir. Porque nossa
m ente é tão trivial e limitada* funciona sem pre dentro dcs li­
mites de suas atividades egocêntricas. T odas essas atividades
estão dentro desse centro e ao redor dele, no espaço que o cen­
tro cria dentro e ao redor de si mesm o, como o faz este m icro­
fone.
Assim, quando há o espaço criado por um objeto, um pen­
sam ento ou um a imagem, esse espaço jam ais pode dar-nos a
liberdade, porque nele existe sem pre o tem po.
O tem po, pois, só cessa, quando há o espaço sem objeto,
sem centro, sem o observador e, portanto, sem o objeto. Só
então a m ente pode conhecer a Beleza. A beleza não é um es­
tim ulante; ela não é produzida ou form ada pela arquitetura,
pela pintura, pelo olhar um pôr-do-sol ou um belo rosto. A be­
leza é coisa inteiram ente diversa; só pode ser com preendida quan­

62
do já não existe o experim entador e, por conseguinte, deixou
de existir a experiência. Ela é com o o am ar; no m om ento em
que dizeis, verbalm ente, ou sentis, que am ais, deixais de am ar.
Porque o am or é então um m ero fenôm eno m ental, um mero
sentim ento, um a em oção, na qual está presente o ciúme, o ódio,
a inveja, a avidez.
Tendes, pois, de com preender a natureza do tem po, não
teórica ou intelectualm ente, porém de fato, interiorm ente. Por­
que, quando se com preende a natureza e estrutura do tem po, a
ação é im ediata; por ccnseguinte, o sofrim ento cessa — agora,
e nãc am anhã. E, para com preender o tem po, tem -se de com ­
preender tam bém o espaço e a Beleza. H á m uito pouca beleza
neste m undo (o que há é m uita d eco ração ), e sem a beleza
não há amor.
É necessário, pois, com preender todas estas coisas, e que
é só o tem po que nos im pede de viver. Se tiverdes penetrado
tudc isto, m uito profundam ente, não vdrbalm ente, porém de
fato, enquanto estivem os exam inando, falando, vereis que essa
“atem poralidade” se torna existente sem ter sido solicitada.
Torna-se existente porque estivestes escutando sem nenhum a re­
sistência, nenhum conhecim ento e não havia nenhum vós, na qua­
lidade de ouvinte, mas tão só, o escutar. E ntão, uma vez detido
o tem po, vereis que terá cessado todo sofrim ento, conflito e
contradição.

2 de janeiro de 1966.

63
*

MADRASTA:
A energia e a inércia

cX ^ E R T O pregador costum ava, todas as m anhãs, pronunciar


sermões aos seus discípulos. U m a certa m anhã, ao subir ao púl­
pito, um passarinho veio p ousar no peitoril da janela e começou
a cantar. Depois, alçou vôo e foi-se. E ntão, o instrutor, vol­
tando-se p ara os discípulos, disse-lhes: “ E stá concluído o ser­
mão desta m anhã” , e retirou-se. Com o seria bom se pudéssem os
fazer a m esm a coisa! (O canto de u m pássaro precedeu a pa­
lestra de K rishnaji).
H oje desejo falar sobre um assunto que m e parece bastante
im portante. E a importância, dessa questão reside, não n a co­
m unicação verbal porém , antes, em que cada um de nós se torne
capaz de descobrir, de exam inar e com preender a sua realidade,
por si próprio. T odo hom em , assim me parece, tende á satisfazer-
-se com m eras explicações, a tom ar a p alav ra pela coisa, e re­
tirar-se com o sentim ento de ter adquirido um certo conheci­
m ento, um a certa com preensão. N inguém pode adquirir com ­
preensão de outrem ; porque a com preensão, a verdade relativa
a um a questão, só pode ser investigada, exam inada e sentida
pela própria pessoa. P o r conseguinte, a com unicação verbal só
tem im portância p ar transm itir-nos um certo significado, levar­
m os a um a certa profundidade. M as cada um tem de exam inar,
com m uita atenção, por si mesmo, o que se está dizendo, nada
aceitando nem rejeitando. E , p ara um exam e profundo, neces­

64
sita-se de um a certa atenção. A atenção parece ser um a das
coisas mais difíceis, porque, quando querem os p restar atenção,
vemo-nos distraídos — o pensam ento interfere e, portanto, re ­
sistimos ao pensam ento, à distração. M as, em verdade, não
existe, absolutam ente, distração. A idéia de que estam os sendo
distraídos quando querem os cencentrar-nos, só significa' que es­
tamos resistindo ao que cham am os “distração” ; mas, efetiva­
mente, não h á distiração. Sem pre que o vosso pensam ento co­
m eçar a divagar, prestai-lhe. toda a atenção, não o cham eis dis­
tração.
Porque a atenção requer m hita energia. O prestar toda a
atenção a um assunto requer nossa energia total. Senhores, per-
mitis-m e rogar-vos que fiqueis escutando, sem to m ar notas? P o r­
que, quando um a pessoa está tom ando notas, não está escutando,
não está prestando atenção. Tem -se de p restar atenção agora,
e não mais tarde, em casa, ao reler as notas. Isto aqui não é
um a conferência; o o rador não é um professor a dar um a lição,
porém , ao contrário, estam os aqui procurando, juntam ente, com ­
preender este m uito ccm plexo problem a do viver. E p a ra com ­
preendê-lo requer-se atenção, é necessária a plena intenção de
com preender. E não é possível com preender, escutar atenta­
mente, quando se está a tom ar notas. Q uando olhais o pôr-do-
-sol ou um a árvore, ou escutais o canto de um pássaro, isso não
é distração. F az p arte da atenção total. Se cuidais m eram ente
de resistir ao barulho que o pássaro está fazendo, para não ser­
des perturbado, ou se não quereis olh ar o ocaso .porque desejais
prestar grande atenção a certas coisas que se estão dizendo nesse
caso estais apenas procurando concentrar-vos e, portanto, re­
sistindo. M as se, ao contrário, estais escutando o pássaro, ob­
servando o pôr-do-sòl, ouvindo aquele m artelar d o o utro lado
d a rua, véndo o brilho de luz n a folha, isso decerto faz parte
d a atenção total, não é um a distração. P ara poderdes prestar
atenção dessa maneara com pleta, necessitais de energia. É isto
o que vamos considerar nesta tarde.
E nergia é força. E pouquíssim os, dentre nós, possuem a
energia necessária para prom over em si próprios um a transfor­
m ação radical. E ssa força, essa energia, esse impulso, essa pai­
xão, essa intenção profunda — quão poucos a possuem! E para
acum ularm os essa energia, possuirm os essa energia que inclui

65
aquela trem enda intensidade, paixão, im pulso, força, pensam os
ser necessário form ar certos hábitos, estabelecer um a certa fo r­
ma de conduta, de m oralidade, um a certa resistência a uma
sensação. É-nos bem fam iliar esse m odo de pensar. Já vivemos
através de tantas gerações, de tantos m ilhares de anos, e entre­
tanto ainda não acham os aquela energia que transform ará as
norm as d o nosso viver, do nosso pensar e sentir. E, se o per­
mitis, desejo en trar nesta questão porque me parece que neces­
sitam os dessa energia — um a energia de espécie diferente, um a
paixão que não seja provocada p o r estímulo, que não dependa
do pensam ento, não seja por ele criada.
E, p a ra ser encontrada essa energia, tem os de com preender
a inércia; com preender, não a m aneira de encontrar a energia,
porém com preender a inércia que tão ocultam ente existe em
todos nós. Por inércia entendo “falta de energia intrínseca para
agir” (energia inerente a si m esm a). O bservando-se bem, vê-se
que existe em nós um a área de p ro fu n d a inércia. N ão quero di­
zer indolência, preguiça, que são coisas m uito diferentes. Fisi­
cam ente, um a pessoa pode sentir preguiça e nãc estar inerte.
Pode estar cansada, “com preguiça” , sem disposição — mas isso
é m uito diferente. A pessoa pode estim ular-se à ação, obrigair-se
a sair da ociosidade, da indolência. Pode disciplinar-fce p ara se
levantar cedo, praticar certos atos regularm ente, observar cer­
tas práticas, etc, etc. M as não é a n ad a disso que nos estam os
referindo. Este é um ponto fácil de considerar e de com preen­
der; a ele podem os voltar mais adiante, se houver tempo.
O que nos interessa é a inércia, inerente a todos nós e que
tão poucos são capazes de descobrir e, em relação a ela, fazer
algum a coisa. Sabem os o que fazer em relação à p'*reguiça, sa­
bemos o que fazer quando nossa m ente está em botada. Pode-se
aguçá-la, aprim orá-la, estudá-la livremente. M as não é disso que
estamos tratando. Q uerem os considerar esta questão da inércia,
ou seja a falta de energia para atuar, inerente a todos nós e
profundam ente oculta. E sta inércia é essencialm ente resultado
do tem po. A inércia resulta de acum ulação. E o que se acum ula
é tempo. N ecessita-se do tem pc, não só para acum ular infor­
mações, conhecim entos, experiência, mas tam bém para agir em
conform idade com essa experiência, esses conhecim entos e in­
formações.

66
Tem os, pois, esse processo de acum ulação, do qual em ge­
ral estam os pouco conscientes. T an to no inconsciente com o no
consciente esse processo de acum ulação está continuam ente em
vigor. E nquanto estais a ouvír-m e, estais a recolher, a aceitar, a
acum ular. E ssa m esm a acum ulação red u n d ará em inércia. Se
observardes com um pouco de atenção, vereis que assim é. E stou
aprendendo um a técnica; isso requer tem po — horas, dias, anos:
acum ulação. E, segundo esse conhecim ento, essa técnica, fun­
ciono. Mas tam bém um nível m ais profundo m antém -se em
vigor esse processo de acum ulação — de conhecim entos, tradi­
ção, de m inha pró p ria experiência, ou das coisas que leio etc.
Aí tam bém está em ação o processo de acum ulação e dele não
estou consciente, absolutam ente.
Deixai-me pedir-vos não fiqueis m eram ente a ouvir pala­
vras, mas que experim enteis realm ente o que se está dizendo,
que abrais a porta, p a ra verdes o desenrolar desse processo.
Vede: Se sois hinduísta, acum ulastes consideráveis conhe­
cimentos acerca de Deus, disto e daquilo. Vós os aceitastes,
e isso por óbvias razões: medo, conform ism o, opinião pública
etc. Vós os aceitastes e eles lá estão, depositados no consciente
e bem assim no inconsciente (isso não significa que haja sepa­
ração entre am bos; trata-se de um m ovim ento to ta l). Essa acu­
m ulação é inércia, e esta inércia, tempo. P a ra acum ular neces­
sita-se de tem po, pois de cu tro m odo não é possível acum ular.
Por favor, não digais: “C om o posso ficar sem acum ular?” . Se
o disserdes, estareis de novo acum ulando — inevitavelmente!
Vede que isso precisa ser pensado, investigado, com muita
atenção e sutileza.
Essa inércia é sem a força da ação intrínseca. “A ção in­
trínseca” é ação não preced en te do que se acum ulou, como
conhecim ento, idéia, tendência, tem peram ento, com o capacidade
ou dom ou talento. Essencialm ente, qualquer dom , talento, co­
nhecim ento, é inércia — inércia que fortalecem os por meio da
resistência, em várias form as. Resisto a qualquer espécie de
m udança, tanto exterior com o interiorm ente; a ela resisto por
causa do m edo à insegurança etc. — não é necessário entrar­
mos em m uitos porm enores a este respeito.
H á, pois, inércia, com o resultado da acum ulação, da re­
sistência e da adoção de um a determ inada norm a de conduta.

67
Tende, por favor, mais um p o uco de paciência para seguir o que
estou dizendo. A inércia, que é a falta de energia intrínseca
para agir, é tam bém um resultado de term os m otivos. Está
certo? Isto é bastante simples. Vemos, pois, que a inércia é
constituída, form ada pela m otivação, pela acum ulação de co­
nhecim entos, de inform ações, de tradição, tanto exterior com o
interiorm ente (com o a aquisição de um a técn ica), e tam bém
pelo com prom eter-nos a executar um a certa série de atos. H á
o com unista, o socialista, um a classe de pessoas que pensam de
um a certa m aneira; isso representa um com prom isso que for­
talece a inércia. A inda que, exteriorm ente, a pessoa se mostre
extraordinariam ente ativa, “ a subir e a descer a pista” , a ocu­
par-se com toda espécie de reform a, a fazer coisas de toda
ordem , trata-se, contudo, de um a atividade que está a fortalecer
a inércia. E a inércia se form a tam bém pela resistência: Gosto,
não gosto, gosto de vós, não gosto de vós, gosto disto, disto
não gosto. H á, pois, a inércia que se form a pelo ajustar-nos,
pela atividade etc. Vede que isso está ocorrendo dentro em
vós. Não estou dizendo nada de fantástico. Isso se está pas­
sando, a todas as horas, em todos nós.
Assim, am pliam os o cam po da inércia por meie de formas
variadas de conhecim ento, com prom isso, atividade, motivo, re­
sistência. E, tornando-vos cônscio desse fato, dizeis: “N ão me
com prom eterei a executar qualquer espécie de ação, ou “Tentarei
pôr de lado os m otivos” , ou “T entarei não resistir” . Por favor,
prestai atenção. N o m om ento em que dizeis “N ão quero” ou
“ D evo. . . ” estais justam ente fortalecendo a inércia. Isso é bem
claro. Istc é, o processo positivo é o de fortalecer a inércia,
com o tam bém o é o processo negativo. Tem os, pois de p er­
ceber este fato que toda a nossa vida, toda a nossa atividade,
todo o nosse pensar, fortalece a inércia. Segui c que estou
dizendo. N ão estais aceitando nenhum a teoria, não estais im­
pugnando nenhum a idéia com vossa opinião. T rata-se de um
fato, um fato psicológico que podeis observar se vos olhardes
muito profundam ente. Se não o podeis, não concordeis nem
discordeis: exam inai.
Que fazer, pois? Com o pode ser quebrada essa inércia?
Em prim eiro lugar, tenho de estar consciente dela. N ão posso
dizer “ Sou inerte” — pois isso nada significa. Podeis traduzi-la

68
como insuficiência de atividade física, de atividade m ental ou
de estímulo. M as não é disso que estam os tratando. E stam os
falando sobre um a coisa que se passa num nível m uito mais
profundo, ou seja, que o todo d a consciência é inerte, porque
o todo da consciência está baseado na im itação, no ajustam ento,
na aceitação, na rejeição, na tradição, no acum ular e atuar em
conform idade com essa acum ulação — de conhecim ento, técnica,
experiência. D ez mil anos de propaganda fo rm aram essa cons­
ciência. A o perceber esse estado extraordinário, que deve a
mente fazer?
Que pode a m ente fazer, ao tornar-se cônscia dessa inércia,
ao saber — não verbalm ente, porém de fato que o todo da
consciência é essencialm ente inerte? E la p ode atu ar dentro do
cam po de sua própria projeção, de seus próprios conceitos, de
seus próprios conhecim entos e inform ações, de sua p rópria tra ­
dição, de sua pró p ria experiência, que está a acum ular-se. Esse
acum ular, que constitui a consciência, é essencialm ente inerte.
Está certo? P or favor, não estais aceitando o que se está di­
zendo. Se considerardes isso m uito profundam ente, vereis que
assim é. Podeis inventar, dizer que existe um estado m ental
inatingível pela inércia — D eus ou que outro nom e lhe derdes.
M as isso ainda faz parte daquela consciência. Q ue fazer, pois?
Pode-se realm ente fazer algum a coisa?
O ra, descobrir o que se pode fazer e o que se n ão pode
fazer — é m editação. V ou tra ta r disto agora. A ntes de mais
nada, a p alavra “m editação” está fortem ente “carregada” . P rin­
cipalm ente neste país e ao oeste dele, tal p alav ra provoca rea­
ções de toda espécie. A o ouvi-la, a pessoa logo se põe mais
ereta — com o estou vendo acontecer aqui. Prestai mais um
pouco de atenção; todos reagis de acordo com vossa tradição.
Ou, tendo praticado o que quer que seja, d u ran te anos, a r e ­
fletir num m antram ou num a frase, no m esm o instante em que
se profere aquela palavra (m ed itação ), surgem todas aquelas
reações e vos vedes na arm adilha do pensam ento. P a ra o ora­
dor, isto não é m editação, absolutam ente; é u m a espécie de
prazer, um a m aneira de ad o rar um a projeção de vossa própria
mente, condicionada com o hinduísta, budista ou cristã; e podeis
deixar-vos em polgar por aquela m aravilhosa visão, do Cristo,
do Buda, ou de vossos próprios deuses. Isso de m odo nenhum

69
é m editação. Podeis ficar sentado eternam ente à frente de uma
imagem, e jam ais achareis nada, além dessa imagem. Só podeis
inventar.
C onta-se um a história de certo patriarca que, um a vez, es­
tava a sós, sentado em baixo de um a árvore. Eis que chega um
de seus discípulos, um hom em que andava a “buscar” , e senta-
se à sua frente, de pernas cruzadas, dorso ereto, etc, etc. Pas­
sados alguns instantes, pergunta-lhe o patriarca: “ Q ue estás
fazendo am igo?” . R espondeu o discípulo: “ E stou tentando al­
cançar um nível superior de consciência” . A o que retrucou o
p atriarca: “ C ontinua” . A breve trecho, o patriarca pega de
dois pedaços de pedra e com eça a esfregá-los um no outro,
fazendo barulho. Diz então o discípulo: “Q ue estais fazendo.
M estre?” E o p atriarca responde: “E stou esfregando estas pe­
dras para fazer um espelho!” . O discípulo ri-se e diz: “ M estre,
podeis ficar mais m il anos a esfregá-las, e nunca fareis delas um
espelho” . R eplica então o p atriarca: “E tu podes ficar sentado
aí, nessa atitude, por mais um m ilhão de a n o s . . . ” .
A m editação, pois, é coisa inteiram ente diversa. Se dese­
jardes m ergulhar nela, tendes naturalm ente de ab andonar todos
os vossos conceitos acerca d a m editação, todas as vossas fór­
m ulas, e práticas, e disciplinas, e m étodos de concentração, p o r­
que estareis ingressando num a esfera totalm ente nova. M as as
vossas práticas, as vossas divisões, as vossas disciplinas são todas
o reultado de “ atividade acum ulada” e, p o r conseguinte, con­
duzem, essencialm ente, a um a inércia mais profunda. Assim, o
que ncs interessa é isto: Q ue deve “a m ente fazer quando está
cônscia de sua inércia e de com o se criou? Pode fazer alguma
coisa? Sabendo que qualquer atividade de sua parte é sem pre o
resultado dessa inércia que constitui a consciência, como pode a
m ente tornar-se totalm ente quieta e, ao m esm o tem po, total­
mente desperta? C om preendeis esta pergunta? Isto é, encon­
tram os, profundam ente jacente em nós mesmos, esse cam po de
inércia. E percebem os que toda atividade por parte do cérebro
— toda atividade, todo m ovim ento, em qualquer direção — está
sem pre com preendida no cam po da consciência e, por conse­
guinte, fortalece a inércia. Reconhecem os, tam bém , que, para
evitar o fortalecim ento da inércia, não podem os observar certas
práticas, não podem os dizer: “N ão serei mais inerte” ; tudo isso

70
faz parte do mesm o e velho jogo. Percebe-se então o que é
necessário: U m a total inação que se to rn a ação, no silêncio.
Ora, com o pode a m ente quietar-se? Q uando em prego a
palavra “com o”, não se trata de nenhum m étodo ou sistema.
Estou sim plesm ente perguntando: É possível a m ente, o cérebro,
m anter-se totalm ente desperto, totalm ente quieto? O cérebro,
com toda a sua acum ulação de conhecim entos, inform ações, rea­
ções e condicionam ento, resulta do tem po. E o cérebro rea­
girá sem pre com tanta rapidez que não é possível controlá-lo,
porquanto h á séculos vem sendo exercitado p ara reagir. P er­
cebeis a dificuldade do problem a? N ão digais, sim plesm ente:
“Forçar-m e-ei a controlar os m eus pensam entos” — isso é pura
ingenuidade, falta de m adureza; não tem significação nenhum a.
Estam os vendo, pois, qu'e todo m ovim ento em qualquer
direção, em qualquer nível d a consciência (consciente ou in­
consciente), só tem o efeito de fortalecer esse quantum , esse
cam po, essa área de inércia; p o r conseguinte, a m ente tem de
estar totalm ente quieta, e bem assim o cérebro. Pois só no si­
lêncio total h á ação não m otivada pela inércia. M as, se disser­
des: “T enho de pôr em silêncio a m inha m ente” , e com eçardes
a recorrer a artifícios de toda ordem , a tom ar drogas, a parti­
cipar um sem -núm ero de coisas, estareis então, ainda, a cons­
truir no terreno da inércia. Só quando a m ente — que n atu ­
ralm ente inclui o cérebro e tam bém o corpo — está totalm ente
quieta, só então a sua ação não provém d a inércia. É bem de
ver que o silêncio é exterior ao cam po d a consciência; esse
silêncio não foi criado pela consciência, pelo pensam ento, pelo
desejo, pela resistência, pela prática, por artifício algum. Estais
seguindo isto? A quele silêncio, por conseguinte, é coisa de todo
em todo diferente; e ele só pode tornar-se existente quando o
cérebro, a m ente, .percebe que todo m ovim ento interno, de sua
parte, está fortalecendo a inércia.
M editação, pois, não é tradição; n ad a tem em com um
com essa coisa absurda. Digo “coisa absu rd a” , porque qualquer
homem adulto pode perceber o fato básico, im plicado n a m e­
ditação tradicional, com um ente aceita, a qual é auto-hipnose,
um hábito de fazer um a certa coisa vezes sobre vezes e de
tornar a m ente em botada, estúpida, sem beleza. N ão é dela que
estamos falando. Estam os falando da m editação com o coisa

71
totalm ente diferente. N esta m editação encontra-se m uito apra-
zim ento, im enso júbilo, um novo estado. Esse estado tem de
acontecer, sem s^r procurado. N ão podeis buscá-lo, persegui-
lo, não podeis p erguntar: “Com o posso alcançá-lo?’* nada disso
tem significação. Assim , m editação é com preender, é estar
cônscio do processo total da consciência, e nada fazer em re­
lação a ele; quer dizer, m orrer instantaneam ente para o pas­
sado.
Perm iti-m e um as poucas considerações a respeito da m orte.
O hom em jam ais com preendeu a m orte; fez dela um objeto de
devoção. O hom em tem vivido para m orrer, fez da m orte uma
coisa m uito mais im portante do que o viver. É o que têm feito
as civilizações, o que vêm fazendo as sociedades. E têm-se
encontrado várias m aneiras de fugir à m orte: reencarnação, res­
surreição, im ortalidade, etc, etc. Os que crêem na reencarnação,
os que nela crêem de fato, deverão decerto preocupar-se com
a espécie de vida que estão levando agora, e não como viverão
am anhã. Se viveis agora virtuosam ente, com o plenitude, não
existe am anhã. O fato é que não crem os na reencarnação nem
noutra coisa qualquer. Porque, se nela crem os realm ente, tudo
tem de ser agora: cada palavra, cada pensam ento, cada ação.
O hom em , pois, jam ais com preendeu esse portentoso fenôm eno
que é a m orte. N ão a m orte física. N ão é a esta que me refiro.
A m orte física é um fato óbvio, em bora os cientistas este­
jam procurando prolongar a vida e dizendo que talvez se possa
prolongar indefinidam ente a vida hum ana; quer dizer, podere­
mos prosseguir indefinidam ente com nossas aflições, nossa me­
diocridade, nossas am bições im preenchidas, e freqüentar o es­
critório por mais cem anos!
E temos vários meios e modos de encarar a m orte: racio­
nalização, fuga, crença, dogma, esperança, etc, etc. E ntretanto,
nunca sentim os o que significa m orrer. A m enos que com pre­
endem os este fenôm eno — psicologicam ente, e não fisiologi-
cam ente — jam ais alcançarem os aquela consciência de um a
ação nova nascida do silêncio total. E stais com preendendo? Eis
por que temos de m orrer para tudo o que conhecem os: a cons­
ciência, o passado, o resultado acum ulado do tempo. Porque
só na m orte, na m orte total, pode haver um a coisa nova, um
silêncio total em que se poderá viver um a vida diferente. E u

72
não vos estou hipnotizando. T ende a bondade de escutar aten­
tam ente. F alando de “m orte to tal”, quero dizer: Pode um a
pessoa m orrer — não p ara aquilo que acum ulou, o que é rela­
tivam ente fácil — porém de um a m aneira tal, que nada possa
penetrar aquele silêncio? Entendeis?
Vede, senhor! Existe a questão do perdão. Penso que per­
doar é um a coisa essencialm ente falsa. E scutai-m e até ao fim.
Recebeis um a ofensa, um insulto. C onsiderais o caso, e depois
dizeis: “Perdôo aquele hom em ” . Mas» se, de m odo nenhum ,
vos deixais ofender, não h á necessidade de perdão. C om preen­
deis? Isso não significa que erguestes em torno de vós um a
barreira intransponível — com o o faz a m aioria das pessoas.
Significa, sim, que tendes de m anter-vos tão vivo, tão sensível,
tão esclarecido que nada penetre, p a ra ser guardado, consi­
derado, e tom ado por base d a ação, na form a de perdão,
com paixão etc. Estais-m e seguindo?
Assim, m orrer p a ra o passado significa não só que o pas­
sado deixa de existir, mas tam bém que o presente não assume
nenhum a função de acum ular, e criar, assim, um a consciência
— e inércia. N ão sei se estais seguindo isto. V ede, senhor!
Que há luz intensa, não h á som bras, porém só claridade. Dessa
claridade nasce um a ação totalm ente diferente da ação oriunda
da confusão, d a acum ulação, etc. E stam os, pois, falando sobre
o m orrerm os para tudo o que conhecem os, p a ra viverm os na
luz, exercendo nossos em pregos, etc. — funcionando com base
naquele estado livre do conhecido.
Senhores: Podeis m orrer p ara um p razer — sem discuti-lo,
controlá-lo ou reprim i-lo — porém sim plesm ente m orrer para
ele? Gostais de um a certa coisa: podeis m orrer p a ra ela, aban­
doná-la, sim plesm ente, sem discussão, sem nenhum a atividade
mental, nenhum arrazoado? O ra, se se faz isso, nasce um a nova
mente. E u não sei se o fizestes. Isto não é tão fantastica­
m ente difícil: ab andonar um a coisa sem nenhum m otivo. Q uan­
do se vê um a coisa m uito distintam ente, o vê-la, o exam iná-la
cria luz e esta luz atua; não sois vós que “decidis” ou “não
decidis” . A o ver-se m uito claram ente um a coisa, ocorre um a
ação totalm ente diversa d a ação elaborada pelo pensam ento.
Estam os, pois, falando acerca d o m orrer p ara as coisas
que temos experim entado, conhecido, acum ulado, de m odo que

73
a m ente se torne vigorosa, juvenil. Porque só a m ente juvenil
é capaz de silêncio — e não a velha m ente, a m ente m orta.
A ndam dizendo os cientistas que a criança já nasce condicio­
nada etc. e tal; mas eu estou dando à palavra “juvenil” um
sentido diferente.
Assim, pois, o silêncio, a m editação e a m orte estão inti­
m am ente relacionados. Se não h á m orte p ara o ontem , torna-se
impossível o silêncio. E o silêncio é necessário, absolutam ente
necessário, para haver um a ação que não seja acum uladora e,
portanto, fautora de inércia. A m orte se torna uma coisa horro­
rosa, aterradora, quando tem os de perder tudo o que acum u­
lamos. M as, não havendo acum ulação de espécie alguma, em
todo o curso da vida (de agora em d ia n te ), não há então isto
que cham ais “ m orte” ; viver é então m o rrer — duas coisas in­
separáveis.
O viver que conhecem os é aflição, confusão, agitação, tor­
tura, esforço, com ocasionais lam pejos de beleza, am or, alegria.
E tal viver é o resultado dessa consciência inerte, incapaz dc
qualquer ação nova. O hom em que deseje descobrir um a vida
nova, um a nova m aneira de viver, deve investigar, apreender
esse m irífico poder do silêncio. E o silêncio só é possível
quando há a m orte p ara o passado — sem argum entos, sem
motivos, sem dizer-se “ A lcançarei um a recom pensa” . — Esse
m esm o processo é m editação, a qual to rn a a m ente sobrem odo
alertada, sem um só ponto obscuro, um só recesso contam inado
— quer dizer, um só recesso que não tenha sido exam inado.
A m editação, pois, c em si um a coisa m aravilhosa, uma
alegria inefável. Porque, nela, há o silêncio que é, em si, ação;
silêncio inerente a si próprio — ação. E n tão a vida, o viver
de cada dia provém do silêncio e não do conhecim ento (exce­
tuado o conhecim ento técnico). E essa é a única m utação que
o hom em poderá alcançar. De outro m odo, prosseguirá uma
existência sem ou tra significação senão sofrim ento, aflição, e
confusão.

5 de janeiro de 1966.

74
MADRASTA:
Silêncio criador

c
^ ^ V r e io que esta é a última palestra desta tem porada. O ho­
mem sem pre andou buscando algum a coisa fora de seus con­
flitos, aflições, fora de sua diária existência d e m onotonia e
solidão. Certas pessoas disseram que existe algo que excede as
limitações do hom em , e nós as adoram os ou seguimos e, dessa
m aneira, as destruím os. Ou, vendo-nos em tam anha aflição e
confusão, agarram o-nos a algum a esperança que qualquer um
nos oferece — quanto mais abstrata, quanto mais im aginosa,
quantc mais satisfatória, melhor! M as é bem evidente que bem
poucos dentre nós descobriram , p o r si próprios, algum a coisa
original, realm ente verdadeira.
A palavra “ verdadeiro” suscita dificuldades, porque cada
um a interpreta conform e seu pró p rio tem peram ento, seus co­
nhecim entos, sua experiência. E filósofos e instrutores a têm
torcido à vontade, dando-lhe inúm eros significados: verdade
m atem ática, verdade ab strata etc, etc. E , em nossa confusão,
em nossa aflição, em nosso extrem o desespero, em penham o-nos
em descobrir algo que seja duradouro, verdadeiro, algo não
criado pela im aginação, pela mente. N ão conseguindo desco­
bri-lo, recorrem os a outras autoridades, outros instrutores, ou­
tros livros etc.
Nesta tarde, seria bom se pudéssem os com unicar-nos a
respeito de um a certa coisa que não se pode transm itir por meio
de palavras apenas — o que não significa que tenham os de

75
m ergulhar num a certa fa iltas^a5 m itologia ou ilusão. M as, se
pudéssem os p articipar, c o ifu n g a r (e tal é a verdadeira com uni­
cação) num exam e não só verbal, mas tam bém além dos li­
mites da palavra, teríam os a possibilidade de descobrir, ca d a um
por st, algo de intacto, im aculado, original. T al é a intenção
deste o rador nesta tarde.
M as, intenção é um a coisa, e realidade o u tra coisa, f o rq u e
cada um de nós é um a e ffid a d e com plexa, im pedida p o f pres­
sões inúm eras, forçada p o r tantas tensões, que não sabem os o
que fazer, o que pensar, com o pensar, o que sentir. Assim ,
torna-se dificílimo p a rtic ip a r num a coisa que requer exame
m uito atento, que requer dm a m ente vigorosa, sã — e não um a
m ente deform ada, um a m ente m edrosa e ansiosa. Sem dúvida,
a m ente m edrosa, confusa? q ue se satisfaz com uma m era expli­
cação, é com pletam ente incapaz de exame.
E temos de perceber claram ente, logo de início, que a p a­
lavra e a explicação não tem significação algum a quapdo há
realm ente a sede, a fom e de descobrir. Deveis, pois, rejeitar
as explicações de q ualquer instrutor, qualquer livro, qiialquer
psicólogo, qualquer apologista de um a vida nova. Deveis re­
jeitar mesmo o que este o rador está dizendo, p ara descobrirdes,
claram ente, por vós mesmo- Isto é m uito im portante.
A m aioria dos que, dentre nós, têm refletido sobre a vida,
vivido neste m undo san$u in ario e brutal, neste m undo total­
mente em pedernido, provavelm ente nunca fizeram a si próprios
perguntas conducentes a respostas corretas. Podem os pefguntar
— e de fato p erguntam os: “Qual a finalidade da vida?” Esta
é um a de nossas p erguntas favoritas. “ Existe D eus?” , “ Existe
a V erdade?”, “Q ual a m aneira de m editar?” , etc., são, a meu
ver, perguntas totalm ente inanes. M as, um a pergunta correta
requer um a m ente de cer *a qualidade. O fazer um a pergunta
correta requer, em vós mesmo, um a clara com preensão dns p a la­
vras que em pregais e do m otivo da pergunta. Porque o motivo
e a palavra d itarão a i-esposta.Se sentis m edo e perguntais
“ Com o libertar-m e do fnedo?” , o vosso m otivo é apenas o
interesse de ves libertardes do1 m edo e não o de com pfeender,
por inteiro, a estrutura d o medo. Se vos interessais por com pre­
ender a estrutura do m e^o ( e a com preensão põe fim â estru­
tura do m ed o ), vossa pergunta será então m uito diferente, vosso

76
exam e já se não baseará num m otivo pessoal, num m otivo que
impele a lu tar p a ra dom inai tal ou tal coisa.
Assim, é um tan to difícil fazer um a pergunta correta. Para
fazer um a pergunta correta, a pessoa deve estar plenam ente
am adurecida — não em anos, porém interiorm ente. M aturidade
não significa desenvolvim ento espiritual. T al coisa não existe:
desenvolvim ento espiritual. M aturidade im plica — não achais?
— com preensão total da existência — não de apenas um a seção
dela, m as percepção total: escutar, ver, com preender o am or,
a verdadeira essência de um viver total. Só essa m ente am adu­
recida pode fazer a pergunta correta, e esta pergunta correta
não requer um a resposta de fora, porém a resposta estará con­
tida nela própria.
N esta tarde, portanto, vamos exam inar. E n ão podeis exa­
m inar se não prestais atenção. A tenção não é um a coisa que
se cultiva; não digais “ E xercitar-m e-ei p a ra estar atento” —
pois isso será um a ação m ecânica. U m a entidade m ecânica não
pede jam ais estar atenta. M esm o o com putador, o m ecanism o
mais perfeito, ainda que repleto de “ inform ações” , não pode
ser original. Assim, o exam inar requer atenção. A atenção
não é m ecânica. Tem -se de prestar atenção com pleta. Q uando
prestais atenção àquele pô|r-do-sol, com todo o vosso ser, sem
em oção alguma, sem nenhum sentim ento, n e n h u m a . exigência,
então a vossa m ente, o vosso cérebro, o vosso corpo, os vossos
nervos — tudo funciona em perfeita união, e esse estado é
atenção. N ão podeis de m odo nenhum praticá-la dia p o r dia,
olhando diariam ente o ocaso, a um a certa hora, e dizendo: “Devo
desfazer-m e de m eus sentim entos, de m inhas emoções, para
concentrar-m e” ; isso nunca acontecerá.
A atenção, pois, torna-se existente quando h á a urgência,
a necessidade im ediata de com preender a vida. E não se pode
com preender esse extraordinário m ovim ento d a vida, intelectual­
mente, ou sentim entalm ente, ou em conform idade com um certo
padrão de pensam ento — idéias, dogm as, sistemas.
P ara se com preender qualquer coisa, é necessário dar-lhe
atenção. E a com preensão não decorre de um a asserção ver­
bal, ou do sentim ento de que, em ocionalm ente, intelectualm ente,
a coisa foi com preendida. A com preensão é im ediata e é,
em si p rópria, ação; quer dizer, não se com preende prim eiro,

77
para depois agir — ou, não se presta prim eiro atenção, para
em seguida agir.
Com o dissem os, nós vam os exam inar. E, p ara exam inar,
cum pre observar — não consoante o nosso tem peram ento, nossa
fantasia, nossa teologia, nem tam pouco em conform idade com
a cultura em que fomos criados; é necessário ver, escutar, sem
preconceito e sem tendência de espécie algum a. Assim, vamos
não só exam inar o que é, mas tam bém , exam inando-o, ultra­
passá-lo.
N ossa vida diária, tal com o é, é um fenôm eno de relações.
Viver é um estado de relação. E star em relação significa con­
tato, não só físico, mas tam bém psicológico, emocional, inte­
lectual. M as só é possível haver relação quando há um a grande
afeição. Eu não estou em relação convosco, e vós não estais
em relação com igo se entre nós só existe um a m era relação
intelectual, verbal; este não é o verdadeiro estado de relação.
Só há esse estado de relação quando há o sentim ento de con­
tato, de com unicação, de com unhão; tudo isso implica uma
grande afeição.
Nossas relações atuais são realm ente m uito confusas, desdi­
tosas, contraditórias, isoladas; nelas, cada um trata de estabe­
lecer para si, em torno de si, e d entro de si, um a m uralha ina­
cessível. Exam inai-vos — não o que deveríeis ser, mas o que
realm ente sois. C om o sois inacessíveis, cada um de vós! —
pois tendes tantas barreiras, idéias, tem peram entos, experiências,
aflições, cuidados, preocupações! E vossa atividade de cada
dia está sem pre a isolar-vos; ainda que casado, com filhos, estais
sem pre a funcionar, a atu ar egocentricam ente. De m odo que,
na realidade, quase não existe relação algum a entre o pai e a
mãe, entre a filha e seu m arido etc. — num a com unidade so­
cial.
A m encs que se estabeleça um correto estado de relação,
toda a nossa vida será um a batalha constante, individual e co­
letivam ente. Podeis, com o com unista, obreiro social, socialista,
dizer que estais trabalhando para a com unidade, esquecido de
vós m esm o; mas, em verdade, não estais esquecido de vós m es­
mo. N ão podeis esquecer a vós mesmo, identificando-vos com
o que é maior, ou seja a com unidade! N ão se trata de um ato
de dissolução do E U , do E G O . Pelo contrário, trata-se da iden­

78
tificação do E U com o que é m aior e, por conseguinte, a bata­
lha prossegue, com o se pode claram ente observar nos países em
que mais se fala de com unidade, de coletividade. O com unista
fala incessantem ente em coletividade, mas ele próprio está iden­
tificado cem a coletividade. A coletividade se to rna então seu
E G O , e por ela estará disposto a lutar, a suportar todas as
torturas e disciplinas, um a vez que está identificado com ela,
assim com o o religioso se identifica com um a idéia a que cham a
“ D eus” . Essa identificação é sem pre EG O .
Estam os, pois, observando que a vida são relações e está
baseada na ação dessas relações, não é verdade? E stou em re­
lação convosco, com o esposa, com o m arido, como um a parte
da sociedade. M inhas relações convosco ou com meu patrão
produzem um a ação vantajosa não só p ara mim, em prim eiro
lugar, mas tam bém p a ra a com unidade; e o m otivo de m inha
identificação com a com unidade é igualm ente vantajosa para
m im ! Prestai atenção a isto: Nós temos de com preender o
motivo de nossa atuação.
E a vida diária, tal com o a conhecem os, é um a batalha
constantej uma aflição, um a confusão interm inável, com ocasio­
nais lam pejes de alegria, de íntim o prazer. Assim, a m enos
que ocorra um a revolução fundam ental em nossas relações, a
batalha prosseguirá e, por esse cam inho, nunca se achará so­
lução alguma. C om preendei isto, por favor! N ão há saída al­
guma, através desta batalha das relações. E, entretanto, estamos
tentando achá-la! N unca dizemos: “As relações precisam alte­
rar-se, a base de nossas relações deve m udar” . M as, vendo-nos
em conflito, tratam os de fugir-lhe m ediante vários sistemas de
filosofia, de bebidas, do sexo, de toda espécie de entreteni­
m ento intelectual ou em ocional. Assim, a menos que, interior­
mente, haja um a revolução radical nas nossas relações (as quais
significam “ vida”, “ m inha m ulher” , “m inha com unidade”, “meu
p atrão” , “meus p aren tes” ) — a menos que haja um a radical
m utação nas relações, tudo o que se fizer (podem os ter as mais
nobres idéias, falar e discursar infinitam ente acerca de Deus
etc.) será sem significação algum a, porque é m era fuga.
A presenta-se, assim, o problem a: Como posso eu, que vivo
em relação, operar um a m utação radical nas m inhas relações?
Eu não posso fugir das relações. Posso hipnotizar-m e, reco­

79
lher-m e a um m osteiro, retirar-m e do m undo e tornar-m e sany-
asi, fazer isto e aquilo; mas continuo a existir com o um ente
hum ano em relação. V iver é estar em relação. Assim, tenho de
com preender e de alterar as relações. T enho de descobrir um
meio de operar um a transform ação total de minhas relações;
porque, afinal de contas, elas estão produzindo guerras — como
estam os vendo acontecer neste país, entre os paquistanis e os
hindus, entre os m uçulm anos e os hinduístas, entre os alemães
e os russos. Assim, não h á saída nenhum a através dos tem plos,
nem das m esquitas, nem das igrejas cristãs, nem pelo estudo dos
Vedas e dos diferentes sistem as de filosofia. N ão há solução
alguma, a menos que, com o ente hum ano, m odifiqueis radical­
mente as vossas relações.
E temos agora o problem a: C om o posso alterar, não abs­
tratam ente, essas relações ora baseadas em atividades e praze-
res egocêntricos? E sta é a questão real, não achais?
Isso significa, com efeito, com preender o desejo e o p ra ­
zer. Com preender, e não dizer: “Preciso reprim ir o desejo, p re­
ciso livrar-m e do p razer” — como há séculos se vem tentando.
“T rabalh ar sem desejo” — não sei o que isto significa. “ Ser
sem desejos” — é um a frase oca, porque todos nós estam os
cheios de desejos, ardendo em desejos. N ad a adianta reprim ir
o desejo, disciplinar-vos contra ele, engarrafá-lo e arrolhá-lo:
ele continua existente. E qual é o resultado? O resultado é que
vos tornais endurecido, sem com paixão.
Cum pre, pois, com preender o desejo e com preender o p ra ­
zer. Porque os nossos valores e juízos interiores estão baseados
no prazer — não em princípios magníficos, superiores, porém
simplesm ente no prazer. A spirais a D eus porque vos d á um
prazer m aior o fugir desta vida m onótona, feia, estúpida, e
sem m uita significação! Assim, o princípio ativo de nossa vida
é o prazer. N ão podem os rejeitar o prazer. O lhar p ara aquele
pôr-do-sol, para as folhas contra a luz, e ver sua beleza e deli­
cadeza — isso proporciona um sentim ento de extraordinário
deleite. N ão há beleza em nossa vida, não h á sequer bom gosto.
O bom gosto pode ser aprendido, mas a beleza não se pode
aprender. E, para com preender a beleza, é necessário com pre­
ender o prazer.

80
Tendes, pois, de com preender o prazer, o seu significado,
como ele aparece, sua natureza e estrutura — em vez de re ­
jeitá-lo. N ão enganem os a nós mesmos com o dizer: “ Meus
valores são valores divinos. T enho ideais nobres” . Se vos exa­
m inardes profundam ente, vereis que vossos valores, vossas
idéias, vossa perspectiva da vida, vossa m aneira de agir — que
tudo se baseia no prazer. P o r conseguinte, tratem os de exam i­
ná-lo, não apenas verbal ou intelectualm ente. V am os, com efei­
to, descobrir o que é preciso fazer em relação ao prazer, onde
ele tem cabim ento, onde não tem cabim ento, seu valor ou des-
valor; isso requer um exam e m uito atento.
Para com preender o prazer, temos de exam inar o desejo.
Temos de averiguar o que é o desejo, com o nasce, o que lhe
dá duração e se o desejo pode ter fim, como deve ter. A menos
que o com preendam os, o ap aren tar ausência de desejo, o lutar
para ser sem desejo é contra-senso, porque vos perverte e des-
trói a m ente, deform a todo o vosso ser. E, p a ra com preender­
des o que quer que haja para com preender, precisais de uma
mente m uito vigorosa, sã, clara — e não de um a m ente p er­
vertida, deform ada, controlada, m oldada, posta na escuridão.
Vam os, pois, verificar com o nasce o desejo. Peço-vos aten­
ção para isto, porque vamos depois exam inar um a outra ques­
tão. N ão espereis pela outra, antes de com preender esta! Tem os
de com eçar do com eço, p a ra com preenderm os aquilo a que nos
levará o presente exame. Se não fordes capaz de exam inar esta,
não sereis capaz de exam inar ou com preender aquela. P ortanto
não digais: “ V ou saltar p o r cim a d esta” .
Em verdade, é muito simples com preender com o nasce
o desejo. Vejo aquele belo pôr-do-sol: ato de ver. E vendo
sua beleza, suas cores, a delicadeza das folhas, o ram o escuro,
desenhados contra o céu — desperta-se em mim o desejo de
continuar olhando. Tem os, pois: percepção, sensação, contato
e desejo. E xato? Isto não é nad a de com plicado. V ejo um belo
carro, todo reluzente, de linhas im pecáveis: percepção. A pal­
po-o: sensação. E , em seguida, o desejo. V ejo um belo rosto,
e logo se põe em m ovim ento todo o m ecanism o do desejo, da
concupiscência, da paixão. U m a coisa simples.
A outra questão, um pouco mais com plicada, é esta: Que

81
é que d á ao desejo duração, continuidade? Se eu com preender
isso, saberei o que fazer em relação ao desejo. Estais-m e se­
guindo? A inquietação com eça com a continuidade do desejo.
L uto, então, para preenchê-lo, desejo repetição. Se eu pudesse
descobrir o elem ento-tem po do desejo, saberia o que fazer em
relação a ele. Nós vamos exam inar isto; eu vo-lo m ostrarei.
Sabemos com o nasce o desejo, ao ver-se um carro, o pôr-
-do-sol, um rosto bonito, um ideal da beleza, do “ hom em per­
feito” (esta p alavra nega o h o m em ). Sabem os com o nasce o
desejo. Vamos investigar o que é que dá ao desejo a energia,
a força que o faz durar. Que é que faz o desejo durar? Eviden­
tem ente, o pensam ento. Vejo o carro, sinto um forte desejo e
digo: “ Q uero-o!” O pensam ento, ocupando-se com o desejo, dá-
lhe duração. A duração resulta do prazer que me vem do
pensar naquele desejo. Certo? Vejo um a bela casa, um a casa
excelente tanto por suas qualidades arquitetônicas com o por sua
serventia para m orada, e apresenta-se o desejo. E n tra então em
cena o pensam ento “G ostaria de possuí-la” . Com eço a lutar.
N ão posso adquiri-la, porque sou pobre; daí m e vem um senti­
m ento de frustração, de ódio. Assim com eça o problem a. Com o
vemos, tão logo o pensam ento intervém no desejo, surge o pro­
blema. N o m esm o instante em que o pensam ento, que se baseia
no prazer, interfere no desejo, tem início o conflito, a frustração,
a batalha.
Assim, se a mente puder com preender a estrutura do desejo
e a estru tu ra do pensam ento, saberá o que fazer em relação ao
desejo. Isto é, desde que *o pensam ento deixe de interferir no
desejo, este desaparece. Com preendeis? Prestai atenção! Vejo
uma bela casa, e posso cham á-la “ bela” . Que m al há nisto? A
casa tem belas proporções, é limpa. Mas, no m om ento em que
intervém o pensam ento “Com o seria bom possuí-la e m orar
nela!”, com eça o problem a. O desejo, por conseguinte, não é
m au, nunca o é; mas o pensam ento, nele interferindo, cria o
problem a. E nós, em vez de procurarm os com preender o desejo
e com preender o pensam ento, tratam os de reprim ir, de controlar,
de disciplinar o desejo. N ão é exato?
Espero que estejais seguindo, não a escutar m eram ente,
porém , trabalhando tão diligentem ente com o o orador; de outra
m aneira, não estais cooperando: estais m eram ente a escutar, as

82
palavras a entrarem por um ouvido e a saírem pelo outro; é o
que geralm ente fazemos! E scutar significa: estar atento. Se
escutardes realm ente, com toda a alm a, percebereis o que estou
dizendo e sabereis o que é a vida, descobrireis um a m aneira de
viver totalm ente nova.
Bem; estam os exam inando o m ecanism o do pensar. Esse
m ecanism o está baseado essencialm ente no prazer; é “ gostar”
e “ não gostar” . E, no prazer, encontra-se sem pre a dor — é
claro! N ãc desejo a dor, mas quero o prazer constante, conti­
nuado. Desejo livrar-m e da dor.- Mas, para livrar-m e da dor
tenho de livrar-m e tam bém do prazer; os dois não podem separar-
se, são um a unidade. Assim, pela com preensão do pensam ento,
vou descobrir se o “ princípio do prazer” pode ser quebrado.
Entendeis?
N osso pensar se baseia no prazer. E m bora tenham os sofrido
muito, não só física mas tam bém m oralm ente; em bora haja em
nossa vida tanta tristeza, tanta ansiedade, tanto medo e terror
e desespero — isso tudo é o resultado de nosso desejo de viver
e de estabelecer os nossos valores na base do prazer. Não
estam os dizendo que se deva viver sem prazer, nem que a ele
nos devamos entregar livremente. M as, pela com preensão da
estrutura da mente e do cérebro, fundam ente baseada no prazer,
saberem os com o olhar o desejo e abster-nos de nele interferir
e, por conseguinte, saberem os com o pôr fim à confusão e ao
sofrim ento que podem resultar de seu prolongam ento.
O pensam ento é mecânico. U m bom com putador! A prendeu
um a infinidade de coisas, acum ulou experiências inúm eras, não
só individuais e coletivas, senão tam bém hum anas. Ele existe,
tanto no consciente com o no inconsciente. O todo da consciência
é a sede, a m aquinaria do nosso pensar. E esse pensar baseia-
se não só na im itação e no ajustam ento, m as tam bém , sempre,
no prazer. A justo-m e, porque isso me dá prazer; sigo alguém
porque me dá prazer; digo “ Ele não tem razão” porque me dá
prazer dizê-lo. Q uando digo: “E sta é m inha p átria e por ela
estou disposto a m o rrer” — digo-o porque me d á prazer —
prazer este baseado num prazer m aior, proveniente da segurança
etc.
O pensam ento, pois, é mecânico, não im porta de quem seja
ele, mesm o o de vossos gurus, e instrutores,( e filósofos. O pen-

83
sarnento é a reação da m em ória acum ulada; e esta m em ória,
se a exam inardes m ais profundam ente, está baseada naquele p rin ­
cípio do prazer. V ós credes no A tm a n , n a alm a, no que quer
que seja; se a penetrardes profundam ente, vereis que essa crença
é prazer! P orque esta vida é tão incerta, porque existe a m orte,
porque existe o m edo, credes que existe um a coisa m uito mais
profunda, à qual dais um nom e; isso vos proporciona um imenso
conforto, e este conforto é prazer. Assim, o pensam ento, o m eca­
nismo do pensar — por mais com plexo e sutil e original que o
concebais — fundam enta-se nesse princípio.
T endes, pois, de com preender isto. E só podeis com preen­
dê-lo, se estais totalm ente atento. O ra, se escutardes com toda
a atenção o que se está dizendo, vereis im ediatam ente a sua
verdade ou falsidade. M as não h á nada de falso no que se está
dizendo, porque se tra ta de fatos, e não de idéias que podem
ser discutidas ou a respeito das quais podeis form ar vossa opinião
ou ad o tar a opinião de outrem . T u d o isso são fatos, feios ou
belos — com o quer que sejam. E é dessa m aneira que vimos
funcionando há séculos e séculos. Tem os pensado, dito a nós
mesm os: “ O pensam ento pode alterar todas as coisas” . O pensa­
m ento se baseia no prazer, e a vontade é o resultado do prazer;
e, assim, dizemos: “D esta base alterarem os todas as coisas” . M as,
se exam inardes bem , vereis que não podeis alterar coisa algum a,
se não com preendeis esse princípio do prazer.
Assim, ao com preenderdes tudo isso, cessará o conflito —
o que não significa tornar-se um “vegetal” ! M as vós tendes de
com preender o desejo, de observar dia por dia o seu funciona­
m ento, e observar a interferência do pensam ento, o qual acres­
centa ao desejo o elem ento-tem po. A o exam e e à com preensão
está inerente a disciplina. V ede, senhor! O escutar o que se está
dizendo requer disciplina — escutar, não só verbalm ente, mas
tam bém interiorm ente, profundam ente, e sem ser de acordo com
nenhum padrão. O p róprio ato de escutar é disciplina, m uito
certam ente. N ão achais?
Assim, quando a m ente com preende a natureza do prazer,
do pensam ento, d o desejo, esse próprio exam e acom panha-se de
disciplina. Por conseguinte, não h á nenhum problem a de ceder,
de não-ceder, de dever, de não-dever — tudo isso desaparece.
Por exemplo: um a certa com ida vos causa “ dor de barriga” ; se

84
o prazer do paladar é m aior do que a dor de barriga, continuais
a com ê-la, e constantem ente dizeis: “N ão devo com ê-la” — o
que é um a m aneira de tap ear a vós mesmo, pois continuais a
comê-la. M as, quando a dor se torna mais intensa, começais
então a prestar atenção ao que comeis. M as, se tivésseis pres­
tado atenção desde a prim eira vez que sentistes a dor, não teria
havido a necessidade de passardes por esse conflito entre a dor
e o prazer.
O que estivem os dizendo leva-nos a um certo ponto, ou
seja: cada um de nós deve ser a luz de si próprio. N ós não o
somos, porque dependem os de outros. E n q u an to escutais, estais
contando que o orador vos diga o que deveis fazer. M as — se
estais escutando com atenção — o orador não vos está dizendo
o que deveis fazer; ele vos está pedindo que exam ineis, vos está
m ostrando com o exam inar e o que o exam e implica. M ediante
cuidadoso exam e vos libertais de toda dependência e sois a luz
ie vós mesmo. E isso significa que estais com pletam ente só.
Nós não estam os sós. E stam os aprisionados, isolados. Sois
o resultado de tantos séculos de cultura, p ropaganda, influência,
clima, alim entação, trajos, o que outros disseram , o que não
disseram etc, etc.; p o r conseguinte, não estais só. Sois um
resultado. E, para serdes a. luz de vós m esm o, tendes de estar
só. Um a vez tenhais rejeitado toda a estrutura psicológica da
sociedade, do prazer, do conflito — estais só!
E essa solidão não é um a coisa temível, um a coisa dolo­
rosa. Só quando há isolam ento, há dor, há ansiedade, há medo.
A solidão é coisa totalm ente diversa, porque só a m ente que está
só não é influenciável. Isso significa que ela com preendeu o prin­
cípio do prazer e, por conseguinte, nada pode atingi-la — nada.
Nem lisonja, nem fam a, nem capacidade, nem talento, nada pode
atingi-la. E essa solidão é essencial.
Q uando olhais atentam ente o pôr-do-sol, estais só, não?
A beleza está sem pre só (n ão no estúpido sentido de isolam ento).
Tal é a excelência da m ente que sobrelevou a propaganda, os
gostos e aversões pessoais, e deixou de funcionar na base do
prazer. Só na solidão pode a m ente perceber a beleza. E la al­
cança esse extraordinário estado quando deixou de ser influen­
ciada e, por conseguinte, se libertou do condicionam ento am ­
biente, do condicionam ento da tradição etc. Só então, nessa

85
solidão, pode a m ente aplicar-se a observar o silêncio. Porque
só no silêncio podeis ouvir o piar daquelas corujas. Se ficardes
a p a lrar com os vossos problem as, nunca o ouvireis. Em virtude
do silêncio, ouvis. Em virtude do silêncio, agis. E — ação é
vida.
C om preendendo o desejo, o prazer e o pensam ento, vos
livrastes de toda autoridade; porque a autoridade, de qualquer
espécie (in terior ou e x te rio r), nunca vos conduziu a parte alguma.
A bandonaste com pletam ente a fé na autoridade — interiorm ente
•— e, por conseguinte, não dependeis de ninguém. E assim,
graças ao exam e do pensam ento e do prazer, estais só. E “ estar
só” implica silêncio; não podeis estar só, se não estais em silên­
cio . Desse silêncio procede a ação. Isso requer mais exame.
A ação, para nós, funda-se em idéia, ou seja num ideal,
princípio, crença, dogm a. E m conform idade com tal idéia, atuo.
Se posso regular m inhas ações pela idéia que adotei, considero-
me um hom em m uito sincero e nobre! M as, com o h á sempre
diferer ;a entre a idéia e a ação, há sem pre conflito. E, havendo
conflito, de qualquer natureza, não há claridade. E xteriorm ente,
podeis m ostrar-vos m uito piedoso, levar o que se cham a um a
vida m uito simples — quer dizer, andar de tanga e tom ar um a
só refeição por dia. Isso não é vida simples. U m a vida simples
exige m uito mais e está num nível m uito mais profundo do que
esse. V ida simples é a vida sem conflito.
O silêncio, pois, nasce da solidão. Esse silêncio está além
da consciência. C onsciência é prazer, pensam ento, é o m aqui-
nismo (consciente ou. inconsciente) do prazer e do pensam ento.
Nesse cam po nunca é possível o silêncio, e qualquer ação que
nele se verifique terá sem pre confusão, tra rá sem pre sofrim ento,
criará sem pre aflição.
Só quando a ação procede do silêncio term ina o sofrim ento
A menos que a m ente esteja com pletam ente liberta do sofrim ento
— pessoal ou de outra natureza — , estará vivendo na escuridão,
no medo, na ansiedade e, por conseguinte, qualquer que seja a
sua ação. haverá sem pre confusão, qualquer que seja a sua esco­
lha, esta criará sem pre conflito. Assim, um a vez com preendido
tudo isso, vem o silêncio. O silêncio, em si, é ação — não,
prim eiro silêncio, e depois ação. Provavelm ente, isto nunca vos
aconteceu: estar com pletam ente em silêncio. Se estais em silên­

86
cio, podeis falar de dentro desse silêncio, em bora tenhais vossas
lem branças, experiências e conhecim entos. Se não possuísseis
conhecim entos, não teríeis nenhum a possibilidade de falar! M as,
quando há silêncio, desse silêncio procede a ação, ação que nunca
é com plicada, nem confusa, nem contraditória.
E, quando se com preendeu esse princípio do prazer, do
pensam ento, da solidão, e o vazio do silêncio; quando se alcançou
este ponto — não no fim de certo tem po, porém realm ente —
então, p o r haver atenção total, há um a ação proveniente do
silêncio (no qual h á inação total — e esta inação é a ç ã o ); e,
em virtude dessa total inatividade do silêncio, dá-se um a explosão.
Só ao ocorrer essa explosão total pode aparecer algo totalm ente
novo — um “ novo” não reconhecível e, portanto, não experi-
m entável; conseqüentem ente, não há dizer: “E u estou experi­
m entando, vinde a m im para aprender a experim entar” .
T udo isso, pois, vem n atural e espontaneam ente, ao com ­
preenderm os o fenôm eno da existência, que é um estado de re­
lação. R elações, para a m aioria de nós, significam confusão e
aflição; e p ara nelas operarm os um a trem enda e p rofunda m uta­
ção, um a m udança radical, temos de com preender o desejo, o
prazer, o pensam ento, e tam bém a natureza da solidão. Porque,
então, daí nasce o silêncio. E esse silêncio, por ser totalm ente
inativo, atua quando dele se requer ação; e, sendo ele totalm ente
inativo e, por conseguinte, totalm ente imóvel, ocorre um a explo­
são. Os cientistas andam dizendo que as galáxias se formam
quando a m atéria se imobiliza e sobrevêm um a explosão.
E só em virtude de uma explosão poderá tornar-se existente
uma m ente nova, um a m ente verdadeiram ente religiosa. Só a
m ente religiosa pode resolver os problem as hum anos.

9 de janeiro de 1966.

87
BOMBAIM:
A relação entre imagens

c
onvém definir um a vez por todas o que entendem os por
“com unicação” . Nós — vós e eu — tem os de com preender esta
questão, porque uma das coisas mais difíceis é o com unicar-nos
uns com os outros.
Em geral, não escutam os nada; tem os naturalm ente nossas
idéias — opiniões, preconceitos, conclusões — as quais se
tornam um a barreira, im pedindo-nos de escutar. Afinal, para
escutar, a pessoa tem de estar atenta. E não pode haver atenção
se estam os ocupados com os nossos pensam entos, conclusões,
opiniões e juízos; cessa então qualquer espécie de com unicação.
Isso é um fato óbvio; infelizm ente em bora se trate de um fato,
raram ente estam os cônscios dele. C um pre pôr de lado todos
os nossos pensam entos, conclusões e opiniões, p ara escutar; só
então se torna possível a com unicação.
A com unicação envolve responsabilidade, tanto por parte
do ouvinte como por parte do orador. O orador deseja trans­
m itir um a certa coisa, e ao ouvinte cabe participar, com partilhar
com ele o que se está dizendo. N ão é um a ação unilateral. T anto
vós com o o orador deveis estar em com unicação um com o outro;
isto é, as palavras do o rad o r devem ter para vós a m esm a signi­
ficação que têm para ele. D eve haver não só um a com unicação
verbal, mas ainda u m a com preensão intelectual das palavras e
bem assim do significado das palavras e das sentenças. E pre-

88
cisa haver tam bém contato em ocional. Intelectualm ente, podeis
ficar bem cônscios de estar concordando ou discordando, rejei­
tando ou aceitando; m as isso não nos levará longe. Já se houver
um percebim ento intelectual do que se está dizendo, e do seu
conteúdo, e ao m esm o tem po um contato em ocional, tornar-se-á
então possível a com unicação entre nós.
O lim itar-se a ouvir intelectualm ente uma palestra desta
natureza pouco significa. M as, se fordes capaz de escutar inte­
lectual, em ocional e fisicam ente — isto é, de dispensar toda a
vossa atenção ao que se está dizendo — a com unicação se tor­
nará então um a coisa altam ente interessante. R aram ente há
com unicação direta entre nós. Vós tendes vossas conclusões,
vossas experiências, vossos conhecim entos e inform ações, vossa
tradição, a sociedade, a cultura em que vos form astes; e se o
orador não pertence à m esm a categoria, à m esm a tradição, à
mesma cultura, e nega toda a estrutura dessa cultura, dessa
m entalidade estreita e lim itada, será então nula a com unicação
entre vós e o orador. Assim, para estarm os em com unicação,
requer-se não só um pensar intelectual, racional, claro, mas
também franca atenção; só então é possível com preender profun­
dam ente o que se diz; não concordar ou discordar, porém ver a
validade e a verdade do que se está dizendo. Por conseguinte,
cabe-vos tanta responsabilidade quanto ao orador.
Nós vamos trab alh ar em com um , e isso naturalm ente é
com unicação. Se vos limitais a escutar o que se diz, sem o
com partilhar com o orador nesse caso é impossível a com uni­
cação. Conseqüentem ente, a com unicação só tem valor quando
am bas as partes estão em relação e com partilham o m esm o p ro ­
blema, p rocurando cada um a não só a solução, senão o pleno
significado de seu próprio problem a. Só então, a m eu ver, podem
a “com unicação” e estas p alestras ter alguma significação; isto
significa, com efeito, escutar.
Para escutar, há vários requisitos. Prim eiro, a m ente deve
estar quieta; do contrário, não pode escutar. Se vossa mente
está a palrar, a opor-se, a concordar ou discordar, nesse caso
não estais escutando. M as, se estais quieto, se estais em silêncio,
e se nesse silêncio há atenção, há então o ato de aprender. Toda
com unicação é aprender (que não é repetir o que se diz) para
aquele que deseje com preender, que deseje escutar, que deseje

89
realm ente resolver os vários problem as da vida que vam os e x a ­
minar.
N ós temos de escutar, tem os de estar em com unhão com
problem a. M as não podem os estar em com unhão com o pro­
blem a se não o escutam os, se não com preendem os o seu inteiro
significado; e nada se pode com preender se não há quietude, se
não há atenção. E é tam bém necessário estabelecer, mais ou
m enos, um estado de relação entre vós e o orador: não um a
relação baseada em palavras, em conclusões ideológicas, porém
um a relação decidida a investigar em com um o problem a da
existência; não ficareis, portanto, a escutar, e o orador a investigar
ou a explicar, porém , am bas as partes, o orador e vós, estarão
fazendo juntas um a viagem, um a viagem de exploração, de inves­
tigação, com o fim de com preender essa coisa extraordinária
que se cham a vida. Isso im plica um a p articipação ativa de
vossa parte; não um a atenção superficial, indiferente, mas a
participação ativa de um ouvinte que está viajando junto com
o orador.
O bserva-se, em todo o m undo, um declínio, um a deteriora­
ção geral. T ecnicam ente, pode estar havendo um progresso tre­
m endo: cérebros eletrônicos, com putadores, autom ação, viagens
à L ua etc, etc. H á, tam bém , o cham ado progresso científico
E o hom em vem dependendo da ciência, da política, das cha­
m adas religiões, das crenças organizadas etc., ,para resolver os
seus num erosos problem as. Perm anece ele mais ou menos o que
era há m ais de 2 milhões de anos: atorm entado, infeliz, em
conflito, em confusão; vive ainda num estado de desespero, de
ansiedade, de sentim ento de culpa, sem d ar nenhum significado
à existência, ou dando-lhe significado conform e seu tem pera­
m ento, seus conhecim entos, seu desespero etc. Em verdade, o
hom em — os entes hum anos, vós e eu — não m udou essencial­
m ente; continua a ser ávido, invejoso, confuso, aflito, e sempre
em guerra. Todos sabem os disso. O hom em que lê a história
de nossos dias, que lê jornais e revistas, que ouve rádio etc.
etc., sabe m uito bem o que está acontecendo em sua própria
cidade, nas suas vizinhanças, no seu país e nos outros países. Sabe
tam bém que há deterioração (m ais ou menos, conform e o lu g a r),
intelectualm ente e tam bém na cham ada vida espiritual. A reli­
gião já nada significa a não ser p a ra os velhos porque estão
perto da m orte e a religião lhes proporciona um a certa esperança.

90
A religião nada significa para o hom em ativo, o hom em que
reflete, o hom em racional, esclarecido. H á decadência m oral,
como se pode observar neste país. H á decadência religiosa,
em bora possa haver mais swamis, iogues e seitas — sendo isso
um indício de declínio, porquanto visa a restabelecer o passado,
restabelecer tradições m ortas e sem nenhum a significação.
Para quem observa o m undo, as aflições, as guerras, o
interminável sofrim ento do ente hum ano — para esse, as escri­
turas, a autoridade, as crenças, os ritos, os inúm eros discursos
políticos, os m ovim entos ideológicos e políticos — o m ovim ento
com unista, o socialista, o parlam entarista, o dem ocrata, o repu­
blicano — nada mais significam. E seria verdadeiram ente absurdo,
infantil, esperar que essas ideologias possam produzir um a trans­
form ação no m undo, criar um a boa sociedade, não u m a grande
sociedade; um a grande sociedade não é necessariam ente uma
boa sociedade.
V endo-se tudo isso, com o deveis vê-lo, pergunta-se natural­
mente: Podem os entes hum anos m udar? Podeis vós, posso eu
m udar? Tem os algum a possibilidade de operar em nós mesmos
uma m utação tão profunda que, com o entes hum anos, nossas
relações não fiquem baseadas em atividades tem porárias, con­
venientes, egocêntricas? Porque o que tem a m áxim a im por­
tância são as relações. A m enos que se opere um a revolução
radical nas relações entre dois entes hum anos, é puro contra-
-senso falar acerca de Deus ou das E scrituras, ou reverter aos
Vedas, à Bíblia etc. N ada disso tem significação, se não se
estabeleceram as relações corretas entre os entes hum anos.
E será este o assunto de nossa palestra: com o o p erar uma
revolução fundam ental em nossas relações, de m odo que não
haja mais guerras, que as nações não fiquem divididas pelas na­
cionalidades e fronteiras, pelas diferenças de classe etc. A menos
que nós, vós e eu, estabeleçam os essas relações, não teórica, nem
ideológica, nem hipoteticam ente, porém de fato, realm ente, tere­
mos inevitavelm ente o declínio e a deterioração em escala cada
vez maior.
Que se entende por relações? Que significa “estar em re­
lação“? Em prim eiro lugar, nós estam os em relação? Relações
significam contato, estar junto — estar relacionado, em contato
direto com outro ente hum ano, conhecer-lhe todas as dificuldades,
seus problem as, sua aflição, sua ansiedade que é tam bém nossa.

91
E, com preendendo a vós m esm os, com preendeis o ente hum ano
e, conseqüentem ente, podeis o perar um a transform ação radical
na sociedade. O “indivíduo” tem m uito po u ca significação; mas
o ente h u m ano é de trem enda significação. O indivíduo pode
alterar-se, conform e as pressões, as tensões, as circunstâncias, m as
essa alteração não atingirá radicalm ente a sociedade. P o r outro
lado, se os problem as do hom em , não do indivíduo, porém do
ente hum ano que vive h á 2 milhões de anos, ou há m uito mais
tem po, com seus conceitos, suas ansiedades, seus tem ores, sua sa­
gacidade, e tendo de enfren tar a m orte (e tudo isso constitui o
problem a hum ano) — n ão forem com preendidos, não haverá pos­
sibilidade de criar-se um a diferente cultura, um a nova sociedade.
Assim , torna-se de essencial necessidade a radical transfor­
m ação do ente hum ano. P o rq u e quase todos nós ainda somos
anim ais. Se observardes os anim ais, vereis que somos parentes
m uito próxim os. O bservai um cachorro, um anim al de estim ação!
Com o são cium entos! C om o gostam de adulação, de afagos etc.,
exatam ente com o os entes hum anos! H á, pois, um a relação m uito
estreita entre o anim al e o ente hum ano. A m enos que seja to tal­
m ente transform ado o anim al em nós existente, por mais que
nos esforcem os, ainda que nos liguemos às mais extravagantes
ideologias ou a um certo grupo político, religioso ou econôm ico
— nunca resolverem os este problem a.
Im p o rta, pois, com preender o que significam as relações.
E stam os em relação? A lgum ente hum ano está em relação com
outro? P o r “ relações” entendem os: estar em contato, intelectual,
em ocional e psicologicam ente. E stam os assim em contato? Ou
só há contato, relação, entre a imagem que tendes de vós mesmo
e a im agem que tendes de outro? A respeito de vós mesmo,
tendes um a im agem , idéias, conceitos, experiência etc. Tendes
vossas idiossincracias, tendências, que constituíram a vossa im a­
gem de vós mesmos. T ende a bondade de escutar, de observar
isso em vós m esm o. N ão fiqueis — com o disse — apenas a
ouvir palavras; estas pouco significam. M as se, ouvindo as pa­
lavras, elas vos revelam vossa própria consciência, vosso próprio
estado, então as palavras têm real significação. Se observardes,
vereis que tendes u m a im agem de vós m esm o: que sois isto, que
sois aquilo; que tivestes esta e aquela experiência; que sois feio
ou belo; que desejais ser isto ou aquilo. Tendes um a imagem,
um a conclusão, um a idéia sobre vós m esm o: que sois um a enti­

92
dade espiritual, que sois A tm a n , que sois a alm a etc. etc. Tendes
um a imagem talh ad a pela m ente, ou por vossa experiência, ou
pela tradição, pelas circunstâncias ou pressões externas. Existe
essa imagem de vós mesmo, e a o utra pessoa tam bém tem um a
imagem de si própria. E quando entram em contato as duas
imagens, cham am os a isso “relações” . Q uer se trate da íntima
relação entre esposo e esposa, quer se trate d a im agem que
criastes acerca d a Rússia, da A m érica, do V ietnam e, disto ou
daquilo, o contato entre as duas imagens é o que cham am os
“relações” . Segui, por favor, o que estou dizendo. É só essa
espécie de relação que conhecemos.
Tendes um a imagem a respeito de vós m esm o e criastes
uma imagem a respeito de outro indivíduo — am ericano, ou
russo, ou chinês. Tendes um a im agem a respeito da paquistanês,
uma imagem a respeito do hindu, e a imagem de um a linha que
chamais “ fronteira” — e estais prontos a m atar-vos m utuam ente
por causa de tais imagens. E essas im agens são fortalecidas pelas
bandeiras, pelo espírito nacionalista, pelo ódio etc. E, assim,
estais dispostos a m atar-vos m utuam ente por causa de u m a pala­
vra, de um a idéia, de um a imagem. Os chineses têm um a imagem
de si próprios, e estão prontos a destruir qualquer outro por
causa dessa imagem. Já houve na história hum ana, segundo
me consta, quase três guerras por ano.
O hom em não resolveu o problem a d a guerra. M uitas mães
e m uitos pais devem ter ch orado após a prim eira batalha. E
continuam os a chorar. Para nós, que vivemos em B om baim , bem
longe da fronteira, a guerra tem m uito pouca significação. Mas,
para todo hom em , com o ente hum ano, a guerra constitui um
problem a, não im porta onde se esteja travando: no V ietnam e,
na Rússia, no Paquistão, ou na Índia: um problem a de relações.
Este país, onde m uito se falou em não violência, onde por
tantos anos se pregou ahimsa (n ão m a ta r), de tudo se esqueceu
da noite para o dia e está disposto a m atar porque tem uma
imagem a respeito de outro país, e o outro tem um a imagem
sobre esta nação. E , pensando bem , é m uito estranho que neste
país, onde tanto se falou de paz, não violência, m oralidade, espi­
ritualidade, não aparecesse um só ente hum ano que ousasse dizer
“N ão m atarei!” — não em segredo aos seus amigos, porém alto
e bom som, com o outros já o fizeram .

93
Tudo isso indica o terrível declínio que está ocorrendo. A
menos que se opere um a transform ação radical nas nossas rela­
ções, não terem os a paz. E a paz é absolutam ente necessária —
não a paz dos políticos, a paz entre duas guerras, duas contendas,
nem a paz que se fru irá num certo lugar, num céu longínquo,
porém a paz sobre esta T erra, entre vós e mim. Nós precisam os
dela. Porque, se^ não tiverdes paz, se em vossa m ente e em vosso
coração não se en contrar essa coisa inefável, não tereis possibi­
lidade de florescer em bondade, em beleza, não vereis o céu, não
vereis a beleza da T erra. Se há conflito den tro d e vós, nada
podeis ver. Assim, a paz, essa coisa que o hom em sem pre pro­
curou (e nunca achará p o r meio de um certo m étodo de m edi­
tação, de livros etc.; tratarem os disso mais tard e) é a paz nas
relações, na qual dois entes hum anos possam trabalhar juntos,
pensar juntos, e juntos resolver os seus problem as. Poderem os
deter as guerras, por m edo à bom ba atôm ica ou outras bom bas
que venham a criar-se, mas isso não nos assegurará aquela paz.
Essa paz só se realizará quando houver em cada um de nós
a com preensão das relações e a total transform ação dessas rela­
ções. Tem os, pois, de com preender, realm ente e não teorica­
m ente, o que significam as relações ora existentes. São as rela­
ções de duas imagens, e nada m ais; e entre duas imagens não
pode haver am or. Com o posso am ar-vos e com o podeis am ar-
me, se vós tendes uma im agem de mim, se tendes idéias a ineu
respeito? Se vos ofendi, se vos em purrei de m eu cam inho, se
fui am bicioso e sagaz e vos tom ei a frente, com o podeis am ar-m e?
Com o posso am ar-vos, se am eaçais a minha posição, o meu
em prego, se seduzis a m inha esposa? Se vós pertenceis a um
país e eu a outro país, se pertenceis a um a seita — hinduísm o,
budism o, catolicism o etc. — e eu sou m uçulm ano, com o p o ­
demos am ar-nos? Assim, a menos que se verifique uma trans­
form ação radical nas relações, não há possibilidade de paz. T o r­
nando-vos m onge ou sanyasi e retirando-vos para as m ontanhas,
não resolvereis os vossos problem as. P orque onde quer que
estejais vivendo, num m osteiro, num a caverna ou num a m on­
tanha, estareis sem pre em relação. N enhum a possibilidade tende
de isolar-vos, seja da imagem que vós m esm o criastes a res­
peito de Deus, da V erdade, seja da imagem que tendem de vós
mesmo etc.

94
Assim, estabelecer a correta relação significa destruir a
imagem. Com preendeis o que significa destruir a imagem? Signi­
fica destruir a imagem que tendes de vós m esm o e de mim: que
sois hinduísta, que eu sou paquistanês, m uçulm ano, católico,
judeu, com unista etc. Tendes de destruir o m ecanism o que fa­
brica a imagem — o m ecanism o em vós existente e o mecanism o
existente em outro. Do contrário, podeis destruir uma imagem e
o m ecanism o criar uma nova imagem. Por conseguinte, é neces­
sário não só descobrir a existência da imagem — isto é, estar
cônscio de vossa imagem particular — mas tam bém conhecer a
natureza do m ecanism o criador da imagem.
V ejam os o que é esse mecanismo. Com preendeis esta per­
gunta? Isto é, prim eiro temos de estar cônscios, de conhecer, de
saber — sabê-lo, não verbal ou intelectualm ente, porém real­
mente, com o um fato — da existência dessa imagem. E sta é uma
das coisas mais difíceis, porquanto o conhecim ento da imagem
requer m uita atenção. Podeis conhecer, podeis observar este
microfone — um fato. Podeis cham á-lo por diferentes nomes;
mas, se sabem os o que é que cham am os por tais nomes, perce­
bemos o fato — o microfone. P ortanto, não há necessidade de
interpretações: tanto vós com o eu sabem os que se trata de um
microfone. M as, coisa diferente é com preender a imagem sem a
interpretação, perceber a existência dessa imagem sem o obser­
vador, porquanto o observador é o fabricante da imagem — a
imagem é o pensam ento do observador. Esta é um a questão
m uito com plexa. Não se pode sim plesmente dizer: “ Destruirei
a im agem ” — e ficar m editando sobre isso, ou praticando algum
artifício, hipnotizando-vos, sugestionando-vos que podeis destruir
a imagem. N ão podeis! Isso requer m uita com preensão. Requer
intensa atenção e exploração, e nenhum a conclusão em tem po
algum; o hom em que está explorando nunca chega a uma con­
clusão. A vida é um rio imenso, que corre, que se move inces­
santem ente. Se não acom panham os livremente o seu movimento,
com deleite, com sensibilidade, com júbilo, não podem os ver, em
sua plenitude, a beleza, o volum e, a “ qualidade” desse rio. Cabe-
-nos pois, com preender este problem a.
Q uando em pregam os a palavra “com preender” , por ela
entendem os “ não intelectualm ente” . Talvez tenhais com preen­
dido a palavra “ im agem ” , com o a imagem é criada pelo conhe­

95
cim ento, pela experiência, pela tradição, pelas diferentes tensões
e pressões a que estam os sujeitos na vida em fam ília, n a vida
profissional etc. Q ual o m ecanism o que fabrica essa imagem?
Com preendeis? A im agem precisa de ser form ada e precisa
ser sustentada, para não desfazer-se. Im pende-vos, assim, des­
cobrir por vós m esm o com o funciona esse m ecanism o. E quando
se com preende a natureza do m ecanism o, o significado do m eca­
nismo, a imagem deixa de existir; não só a im agem consciente,
aquela que tendes de vós m esm o conscientem ente, que superfi­
cialm ente conheceis, m as tam bém a im agem existente nas p ro ­
fundezas da consciência: a imagem total. E sp ero esteja claro
isso.
É necessário exam inar e descobrir com o a imagem se torna
existente e se é possível deter o m ecanism o que a cria. Só então
se tornará possível a correta relação entre os entes hum anos; tal
relação não pode existir entre duas imagens, duas entidades
m ortas. Isto é m uito simples. Vós me lisonjeais, me respeitais;
e eu tenho de vós um a imagem, criad a pela lisonja ou pelo
insulto. T enho experiências — sofrim ento, m orte, aflição, con­
flito, fom e, solidão. T u d o isso cria em mim um a im agem : eu
sou essa imagem. M as a im agem e eu não somos diferentes: o
EU é a imagem, o “pensad o r” é a imagem. É o pensador que
cria a imagem. Com suas “respostas” , com suas reações —
físicas, psicológicas, intelectuais etc. — o pensador, o obser­
vador, o experim entador cria aquela imagem, com a ajuda da
m em ória, do pensam ento. O m ecanism o, portanto, é q pensar,
vem a existência por meio do pensam ento. E n tretanto, o pensa­
m ento é necessário, pois sem ele não podem os existir.
Assim, em prim eiro lugar temos de ver o problem a. O
pensam ento cria o pensador. O pensador com eça a criar a
imagem relativa a si próprio: Ele é A tm a n , é Deus, é alma, é
brâm ane, não-brâm ane, m uçulm ano, hinduísta etc. C ria a im a­
gem, e nela fica vivendo. O pensar, pois, é o começo do m eca­
nismo. Direis: “Com o posso p arar de pensar?” N ão podeis. M as
podeis pensar sem criar im agem nenhum a. U m a pessoa pode
observar que é com unista ou m uçulm ano. Podeis observar isso;
mas, por que ciiar um a im agem a respeito de vós mesmo? Só
criais um a imagem a respeito de mim, com o m uçulm ano, com u­
nista etc., porque tendes um a imagem a respeito de vós m esm o,

96
a qual me está julgando. M as, se nenhum a imagem tivésseis de
vós mesm o, então poderíeis olhar-m e, observar-m e, sem criar
nenhum a imagem a m eu respeito. Eis p o r que esta questão requer
intensa atenção, um a grande som a de observação de vossos pró­
prios pensam entos e sentim entos.
Com eçam os, pois, a perceber que, com efeito, as nossas
relações se baseiam , pela m aior parte, nessa form ação de imagens;
tendo form ado a imagem, a pessoa estabelece ou espera estabe­
lecer relações entre duas imagens. E, naturalm ente, entre duas
imagens não pode haver relações. Se vós tendes um a opinião de
mim, e eu tenho um a opinião de vós, que relação pode haver
entre nós? A s relações só podem existir livres — quando estamos
livres dessa atividade form adora de imagens (tratarem os desta
m atéria nas palestras v in d o u ras). Só quando q u eb rada a imagem
e cessada a form ação de imagens, terem os a term inação do con­
flito, sua total extinção. Só então haverá paz, não só interior­
mente, m as tam bém exteriorm ente. E só depois de estabele­
cerdes aquela paz interior, a m ente será livre e p oderá ir muito
longe.
Vede, senhor, que a liberdade só pode existir quando a
m ente não está em conflito. Q uase todos nós estam os em con­
flito — a menos que estejam os m ortos. Podeis hipnotizar-vos,
identificar-vos com um a certa causa, um certo com prom isso, uma
certa filosofia, seita ou crença; m as, nesse estado de identificação,
estais sim plesm ente hipnotizado, vivendo num estado de sono.
A m aioria de nós está em conflito; o findar desse conflito é
liberdade. Com o conflito, não podeis ter liberdade. Podeis
buscá-la, desejá-la, porém jam ais a tereis.
A relações, pois, requerem a extinção do m ecanism o for­
m ador de im agens; um a vez extinto esse m ecanism o, estabelecer-
-se-ão as relações corretas e, por conseguinte, estará term inado
o conflito. Q uando o conflito cessa, há liberdade, naturalm ente —
liberdade real; não liberdaçje com o idéia, porém o estado real,
o fato. E ntão, nesse estado de liberdade, a m ente — que já
não está sendo torcida, torturada, influenciada, que já não está
à m ercê de fantasias, de ilusões, de concepções ou visões, místicas
— poderá ir m uito longe. “ L onge” , não no tem po ou no espaço
porque, quando há liberdade, não h á espaço nem tem po. E m ­
prego as palavras “ muito longe” — palavras que realm ente não

97
têm significação nenhum a — para dizer que podem os então des­
cobrir que naquela liberdade se encontra um estado de vazio, um.
estado de alegria, de bem -aventurança, que nenhum Deus,
nenhum a religião, nenhum livro, pode dar-nos.
Eis por que, a m enos que se estabeleçam relações corretas
entre vós e vossa esposa, vosso vizinho, vossa sociedade, entre
vós e os outros, jam ais tereis paz e, portanto, jam ais tereis liber­
dade. Tendes, pois, de estabelecê-las. E ntão, com o ente hum ano,
não com o indivíduo, podereis transform ar a sociedade. N em o
socialista, nem o com unista, nem o u tra qualquer pessoa o fará.
Só o homem que com preendeu o significado das relações cor­
retas pod erá criar um a sociedade na qual o ente hum ano viverá
livre de conflito.
13 de fevereiro de 1966.


BOMBAIM:
Viverem paz

J L ^ ia última reunião dissem os quanto era im portante que se


realizasse um a revolução radical — não apenas na estrutura
externa da sociedade, m as tam bém nas profundezas da mente
e do coração hum anos; um a revolução não planejada, não idea­
lizada, não provocada pelas circunstâncias.
Este é, com efeito, um problem a sobrem odo com plexo, por­
quanto envolve muitas coisas. Prim eiro, temos de exam inar a
questão e de com preender o mais profunda e am plam ente pos­
sível o que essa m udança implica. Todos nós desejam os certas
reform as — exteriorm ente, socialm ente. Desejam os um a socie­
dade mais capaz de atender aos interesses hum anos; política e
econom icam ente, desejam os mais eficiência. Por outro lado, em
nosso íntim o, percebem os que as coisas superficiais — por mais
necessárias e m elhores que sejam — não parecem atender a
todas as necessidades do homem.
Necessitam os de algum a coisa m uito mais profunda, muito
mais relevante. E o hom em sem pre esteve a perseguir, a buscar
essa coisa, nos tem plos, nas reform as, por meio de toda uma
variedade de editos sociais e sanções religiosas. Temos percor­
rido todas as galerias desse labirinto. P restando atenção a esta
situação, percebem os claram ente que não chegam os a parte
alguma, e, assim, caímos invariavelm ente num a espécie de deses­
pero; e nesse estado ficamos vivendo, a racionalizar o nosso
desespero, a dar-lhe um significado intelectual. Ou, ainda, acei­
tamos crenças tradicionais, retrocedem os ao passado e, nesse re­

yy
fúgio, ficam os vivendo com o cegos, sem pensar, sem duvidar, a
aceitar, porque isso nos p roporciona consolo e aquieta a m ente
indagadora. M as, um a m ente inteligente e capaz d e investigar
rejeita tudo isso, porque sabe que não existe nenhum a verdade
no passado, nem no futuro. A verdade se encontra além da
esfera do tem po; assim, se retornam os às coisas ditas pelos
antigos — p o r mais sábias e verdadeiras — isso nenhum valor
tem , po rquanto essas coisas nada significam no presente. E n tre ­
tanto, a m ente a elas se apega, porque exercem um certo fas­
cínio, proporcionam um a certa esperança. A m aioria de nós
precisa de um arrim o, de algum a coisa a que apegar-se, coisa
criada pela m ente ou imagem feita pela m ão, u m a filosofia que
nos satisfaça. M as, depois de atravessarm os tudo isso, perce­
bem os que o problem a central continua existente.
E stá-se vendo que se necessita de ordem na sociedade, e
de liberdade, no mais am plo sentido da palavra. E tam bém neces­
sitam os d e ordem den tro de nós mesmos. N ão se obtém, a ordem
m ediante com pulsão, porque nesse caso ela é m eram ente um a
operação militar. Se forçais a vós mesm o, se forçais, torceis,
reprim is a vossa m ente, esperando alcançar a ordem , isso, d e­
certo, só pode a carretar desordem . Assim, a força, a com pulsão,
a determ inação, um a ânsia incoercível de m udança, não prom o­
verão m udança nenhum a; só acarretarão um a desordem m aior
ainda — com o qualquer observador pode ver claram ente. N eces­
sitam os de ordem social e necessitam os tam bém de ordem interior.
Mas, não se trata de duas ordens diferentes. N ós é que, infeliz­
mente, dividim os a vida em “exterior” e “ interior” . E , ou des­
prezam os o “ exterior” , para concentrar-nos no “ interior” , ou re ­
jeitam os o “in terior” p a ra aceitar o m undo tal com o é e dele
tirar o m elhor proveito possível. N ão percebem os que se trata
de um m ovim ento único, um m ovim ento unitário — exterior e
interior. Se não há ordem exterior não h á ordem interior. E ,
para se prom over a ordem interior, cum pre com preender o
m undo exterior, em vez de considerá-lo m era ilusão, em vez de
rejeitá-lo com o irreligioso ou com o coisa “intocável” . São duas
coisas inseparáveis. N ão podem os divorciá-las em tem po algum.
Em vista disso, com o pode uma pessoa, um ente hum ano,
chegar a essa revolução total? E por “revolução to tal” não enten­
dem os um a revolução m eram ente superficial, intelectual, m oral,

100
ética, artística etc., porém total — em todos os pontos do nosso
ser. Porque, se ião h á percepção da beleza e, por conseguinte,
percepção do am or, por mais reform as que operem os exterior­
mente, em nosso com portam ento, em nossos atos, atitudes e
valores, tais atos, valores e com portam entos pouco significarão.
Assim, a beleza e aquela coisa extraordinária que cham am os
“am or” não podem ser fabricadas, form adas a força, não podem
ser o resultado de nenhum a espécie de com pulsão externa. E a
beleza, em sua verdadeira essência, é sensibilidade; e a m ente
que não é sensível, alertada, vigilante, atenta, é incapaz de “ res­
ponder” de m aneira total.
A questão, pois, é esta: com o pode um cérebro, um a mente,
ou seja o ente hum ano total (fisiológica e neurologicam ente
considerado) m udar com pletam ente? C om o alterar em seu todo
o ente hum ano? Essa m udança é necessária, evidentem ente. E, a
menos que ela ocorra, haverá sem pre guerra — nação contra
nação, nacionalidade contra nacionalidade, vossa p á tria contra a
pátria de outro: a aterradora brutalidade da guerra; haverá sem­
pre diferenças lingüísticas, diferenças econôm icas, diferenças
sociais, diferenças m orais — um a perene batalha, exterior e inte­
rior. É m ister um a m udança. M as, com o operá-la?
Vede, por favor, a enorm e com plexidade desta questão, o
que ela implica. O hom em tem tentado um a infinidade de meios
— retirando-se para as m ontanhas, renunciando ao m undo e
virando sanyasi, entranhando-se na floresta p a ra m editar, je­
juando, tornando celibatário; tudo o hom em tem feito (tudo
quanto pôde in v en tar), hipnotizando-se, forçando-se, exam inando
e analisando sua consciência (consciente e inconsciente) — tudo
tem feito para o p erar uma revolução radical dentro de si mesmo.
E, essencialm ente, ele tem sido cruel, não só com o indivíduo,
mas tam bém com o ente hum ano — duas coisas com pletam ente
diferentes. O indivíduo é um a entidade “local” : um parsi, um
budista, um m uçulm ano, etc. O indivíduo é condicionado pelo
am biente. Porém , o ente hum ano o excede; interessa-lhe o homem
total, e não sua pátria, as diferenças lingüísticas, suas insigni­
ficantes guerras e contendas, seus pequeninos deuses etc. etc.;
interessa-lhe a condição total do hom em , seu conflito, seu deses­
pero. Q uando se vê o todo, pode-se com preender a parte. M as
a parte não pode de m odo nenhum com preender o todo. Assim,

101
para o indivíduo em penhado em constante introspecção, a inves­
tigação não tem significação algum a, p o rq u an to ele só está inte­
ressado no p adrão de sua pró p ria existência condicionada pela
sociedade (inclusive a religião e tudo o m ais). M as o hom em
— o ente hum ano que vive há 2 milhões de anos — tem
sofrido, pensado, investigado, gerado filhos, não im porta se vive
na Rússia, na China, na A m érica ou aqui.
E o hom em , o ente hum ano, tudo tem feito para prom over
um a m udança radical; entretanto, fundam entalm ente, ele não
mudou em nada. Somos os mesmos há 2 milhões de anos. É
muito forte o animal em nós existente. O anim al, com toda a
sua avidez, inveja, am bição, violência, crueldade, subsiste ainda
no fundo de nosso coração e de nossa mente. Por meio da reli­
gião, da cultura, da civilização, temos aprim orado o exterior,
adquirindo (pelo menos alguns de nós) m elhores m aneiras, etc.
Sabemos um pouco mais. T ecnicam ente estam os m uito adian­
tados. Somos capazes de discorrer sobre filosofia e literatura
ocidental e oriental, de viajar o m undo inteiro. M as, interior­
mente, bem no fundo, as raízes estão firm em ente plantadas.
Em vista disso, com o pode um a pessoa — vós com o ente
hum ano, e eu com o ente hum ano — m udar? N aturalm ente, não
o conseguirem os por meio de lam entações, não o conseguirem os
por meio do intelecto, pelo seguirm os um a utopia ideológica,
pelo subm eter-nos a um a tirania externa ou nossa própria tirania
(um a tirania que im pom os a nós m esm os). P ortanto, tudo isso
tem de ser rejeitado, e espero que o tenhais feito. Com preendeis?
R ejeitar a própria nacionalidade; rejeitar os próprios deuses, as
próprias tradições, as próprias crenças — todas as crenças em
que fomos criados. É dificílim o rejeitar tudo isso. Intelectual­
mente, podem os m ostrar-nos de acordo, mas m uito fundo, no
inconsciente, persiste a idéia d a im portância do passado a que
estamos apegados. Bem; conheceis agora o problem a. J á o
exam inam os suficientem ente e é desnecessário entrarm os em mais
detalhes a seu respeito.
A questão, pois, é esta: com o pode um a pessoa, um ente
hum ano, prom over em si próprio uma m udança tão extraordi­
nária, que possa continuar a viver neste m undo, funcionando
tecnologicam ente e raciocinando sãm ente, lucidam ente, vigoro­
sam ente? A vontade (que é desejo fortalecido) não pode pro­

102
duzir m udança nenhum a; porque a vontade é resultado do desejo,
está baseada no desejo, e o desejo faz parte do prazer. Continuai
a prestar um pouco de atenção. C om o ente hum ano, preciso
m udar. Q ue devo fazer? Percebo que o exercício da vontade,
no sentido de controlar, de reprim ir, de dar-nos um impulso
num a direção positiva, não pode produzir essa m udança. Porque
no próprio exercício da vontade há conflito; e onde h á conflito,
é óbvio, não pode haver m udança nenhum a. C onflito não produz
mudança. Se vós e eu estivéssemos em conflito por um a razão
qualquer (com o de fato estais, com o vosso país está, com outro
país), em tal conflito não haveria com preensão, não haveria
harm onia, nenhum a possibilidade de m útuo entendim ento. Onde
há conflito em quaisquer condições, em qualquer nível que seja,
não pode haver m udança. C om o vemos, a m udança não pode
ser operada por meio de conflito, e a vontade, por sua própria
natureza, não só é produto de conflito, mas tam bém cria conflito.
Tende a bondade de escutar. T endes de com preender isto, antes
de passardes adiante.
Deveis perceber que o prazer é justam ente o princípio pelo
qual o nosso cérebro funciona. T odos os nossos valores baseiam-
se no prazer. Nossos interesses, nossos motivos, nossos princí­
pios, tudo está essencialm ente baseado no prazer. T odos os vos-
os deuses e vossas esperanças, toda a estrutura de vossos valores
e estim ativas, alicerçam -se no prazer. Por favor, não contes­
teis. Nós estam os explorando. N ão aceiteis, mas exam inai. Se
disserdes: “N ão, senhor, alguns dos meus valores são nobilís­
simos” , tratai de exam iná-los. Se exam inardes isso que cha­
mais “n o b re” , vereis que, essencialm ente, atrás desses valores
está o princípio do prazer.
Assim, com o vemos, a m udança operada por m eio da von­
tade e do prazer não é m udança nenhum a. Isto é, por força
de um a determ inação, de um a idéia, não há possibilidade de
mudança. A m udança é então um a m era reform a, um m ovi­
mento d entro do mesmo cam po e, por conseguinte, não é uma
revolução radical. Tem os, pois, de reconhecer que a aplicação
da vontade nenhum a significação tem, quando estam os pensan­
do em m udança. A vontade im plica repressão, resistência, ajus­
tam ento, aceitação, obediência, a autoridade de outrem ou de
nós mesmos. Assim, se exam inardes isso, vereis que, se vos in­

.103
teressa uma revolução radical na existência total do homem, a
vontade não tem aí nenhum valim ento. M as a m aioria de nós,
a m aioria dos entes hum anos em todo o m undo aceitou a von­
tade com o m eio de m udança. Se rejeitardes a vontade — m e­
lhor, se com preenderdes integralm ente a estrutura e a natureza
da vontade, e ela, p o r conseguinte, tiver perdido a sua, im por­
tância, que surgirá à vossa frente? C om preendeis esta pergunta?
O hom em tem feito uso da energia, a qual, afinal de con­
tas, é “vontade” ; essa vontade cria conflito, que tam bém é
energia. E o hom em tem vivido em conflito e tem aceito o con­
flito com o parte necessária d a vida, com o pad rão d a vida, da
existência. Q uer dizer, aceitam os o conflito, com o um a coisa ine­
vitável. O hom em vive em conflito h á 2 milhões de anos,
por conseguinte já nos acostum am os com ele e o dizemos inevi­
tável — conflito entre esposo e esposa, entre um hom em e
outro hom em , entre um país e outro país, etc. Dizemos que o
conflito é inevitável; m as, decerto, ele é sem pre ação da ener­
gia. Se não tivésseis energia não haveria conflito nenhum . Se
não tivésseis energia p ara disputar, para lutar, para discutir,
não haveria conflito. Assim, com o descobrir o meio de liber­
tar a energia de m odo que ela não crie conflito? C om preendeis?
Está claro?
V ede, senhor! E nergia é vida. T udo o que fazemos, que pen­
sam os, que sentim os, faz p arte d aquela energia. Privados de
energia, estaríam os m ortos. M as aquela energia está a criar
conflito a todas as horas. É dessa m aneira que vivemos. Nossos
pensam entos, nossos sentim entos, nossas am bições, e tudo o que
fazemos, geram conflito. É possível libertar essa energia, de
m odo que nesse p róprio ato cesse o conflito?
Tom em os um simples exemplo. Se olhais p a ra um a árvore,
há duas m aneiras de fazê-lo. O u olhais p a ra ela com pensa­
m ento; ou a olhais sem pensam ento, mas ao m esm o tem po inten­
sam ente cônscio da árvore. Isto é, ao olhardes um a árvore, que
sucede? H á a percepção visual e em seguida o dar nom e à
árvore, generalizá-la; por conseguinte, não a estais olhando
realm ente. E xperim entai olhar aquela árvore. Ao fazê-lo, dizeis
im ediatam ente que é um a m angueira, que é isto ou aquilo. Essa
própria atividade de dar nom e à árvore constitui o “processo”
de criar conflito. M as se, ao contrário, não lhe désseis nome,

104
porém a observásseis realm ente, não haveria conflito entre vós
e ela. P rocurai fazqr isso num a ocasião em que estiverdes
sossegado em vosso quarto. O lhai um a flor. Olhai-a! E m p ri­
meiro lugar, descobrireis por vós m esm o quanto é difícil olhar
qualquer coisa. O lhando um a coisa, deveis dar-lhe vossa aten­
ção total. E para se dar atenção total, n ão pode haver verbali­
zação, porque esta se torna desatenção. Q uando, olhando para
aquela flor, digo “ É um a rosa, gosto dela” ou “N ão gosto dela,
prefiro outra flor” , etc., estou desatento. P ara olhar ou escutar
tenho de estar com pletam ente atento. E scutai os corvos. Vós
os escutais ou desatentam ente ou com atenção com pleta. Se
escutais com atenção com pleta, não há irritação, não h á conflito,
não dizeis “ Seria bom se eles se fossem em bora” . Só quando
estais desatento — isto é, quando desejais escutar o orador e
repelir o barulho dos corvos — é só então, nesse estado de
desatenção, que h á conflito. Isto é simples, com o podeis verifi­
car por vós mesmo.
Assim, o conflito só se torna existente quando há desaten­
ção. Escutai, por favor. Vós não podeis exercitar-vos para
estar atento. M as podeis ficar cônscio de estar desatento. E
quando estais cônscio de estar desatento, estais atento. Assim
o que nos interessa é prom over a m udança sem conflito nenhum
— conflito na m ente consciente ou nos níveis inferiores d a cons­
ciência — em todos os pontos do nosso ser. A m udança funda­
mental não pode, em circunstância algum a, ser produzida pelo
conflito. Por conseguinte, se perceberdes isso, vereis que nenhu­
ma significação tem a vontade, a disciplina, o controle, a subju­
gação e o ajustam ento. Se com preenderdes m uito claram ente que
não há revolução radical no ajustar-se, no obedecer, no rep ri­
mir ou no aceitar, descobrireis então por vós m esm o se estais
real e profundam ente interessado nessa radical revolução do ser
hum ano. Tereis então de descobrir se é possível um hom em
viver neste m undo fazendo uso pleno de seu cérebro, viver racio­
nal e sãm ente sem ter conflito em nível nenhum . V ou exam inar
este ponto.
Deveis saber que há m uito pouca beleza em nossa vida. L en­
tam ente nos tem os tornado insensíveis à natureza; por an d ar­
mos m uito ocupados com os nossos-problem as e interesses, nos­
sa m ente, nosso coração e nosso cérebro se tornaram insensíveis.

105
A ceitam os o conflito com o a norm a da vida. M as onde h á con­
flito não h á sensibilidade. O conflito e o am or não podem andar
juntos. E, no entanto, a norm a de nossa vida — no em prego,
no tem plo, na igreja, na rua — é um a série de conflitos, super­
ficiais ou im portantes. E, se querem os m udar tudo isso, deve­
mos aprender não só a olhar um a árvore, a escutar o silêncio
do anoitecer, mas tam bém a viver num a sociedade tão corrupta,
cuja verdadeira essência é a desordem .
Para com preender tudo isso, devem os com preender a n a­
tureza do nosso pensar. N osso cérebro é o m ecanism o d o pen­
sam ento, e esse pensam ento o resultado de um sem -núm ero de
experiências. A ntes de exam inar este ponto, peço-vos que es­
cuteis, sem concordar, porque nesta m atéria n ão há concordar.
Eu não estou fazendo nenhum a propaganda. N ão estou tentan­
do fazer que vos transform eis noutra coisa. Se sois capaz de
observar, vós m esmo opereis essa m udança. Escutai, por fa­
vor. Assim com o estais escutando, assim com o vedes à noite
a beleza do céu e a tranqüilidade de um soberbo rio, assim tam ­
bém escutai — não intelectualm ente, não apenas as palavras,
mas tam bém o conteúdo delas. Bem poucos de nós somos capa­
zes de escutar, porque já temos nossos preconceitos, nossas con­
clusões. Pensam os que sabem os. N u n ca estam os aprendendo.
Para aprender, requer-se o escutar, e quando escutais há
atenção. Estam os vendo, pois, que, para aprender, necessita-se
de silêncio, atenção e observação. Esse processo, em seu todo,
é aprender — não, acum ular — é ir aprendendo, aprender agin­
do; não, "ler aprendido" e agir. São dois processos com pleta­
mente diversos. N ós estam os aprendendo quando estam os exa­
m inando, quando estam os observando — e isso não é o mesmo
que ter aprendido e, depois, observar. Os dois m ovim entos são
inteiram ente diferentes.
O que agora estam os fazendo é “ aprender agindo” , porque
vós não estais sendo ensinados. A qui não há instrutor nem dis­
cípulo. N ão há guru de espécie algum a. Porque cada um tem
de alum iar seu cam inho com sua própria luz e não com a luz
de outrem . Se cam inhardes com a luz de outrem , ela vos leva­
rá à escuridão. E m uito im porta com preender isto: Q ue estais
aprendendo. Para aprender, requer-se silêncio. C om o podeis
aprender, se vossa m ente está a palrar — como olhar, como

106
prestar atenção? O bservai um colegial! Se está realm ente inte­
ressado na m atéria que tem de estudar, ele se conserva essencial­
m ente tranqüilo, prestando atenção; em virtude dessa atenção
está aprendendo. A inda que deseje olhar pela janela, esse pró­
prio ato, esse olhar, faz parte daquele aprender.
Estam os, pois, aprendendo. Para aprender, não se necessi­
ta de nenhum instrutor; o que se requer é só atenção, aquele
silêncio simples e tranqüilo, então, aprende-se. E, nesse apren­
der, nenhum livro, nenhum instrutor, ninguém está a guiar-nos;
a coisa está sim plesm ente acontecendo.
O ra, interessa-nos um a m aneira de vida em que tenha ces­
sado todo conflito. Vam os aprender. Não tem os de dizer: “ Que
devo fazer para viver sem conflito?” Esta é a pergunta mais
im atura, mais infantil, e no mesmo instante em que a form ulais
estais criando o hom em que vos ensinará o que deveis fazer, e,
por conseguinte caístes num a rede. Portanto, tendes de ver que
o aprender está no agir; se se com ete algum erro ou nenhum
erro — isso não im porta.
O aprender está no agir e não ser ensinado (exceto
tecnologicam ente; tecnologicam ente, tenho de ser ajudado a com ­
preender o cérebro eletrônico, e tc .). N inguém pode ensinar-vos,
e vós m esm o é que tendes de iniciar esse aprender. O que ou­
trem ensina não é a verdade. O seguidor destrói a verdade, tan­
to quanto o guru a destrói. Por conseguinte, vós tendes de apren­
der; e o aprender está no agir. Eis a beleza do aprender. Esse
aprender torna-se um a alegria, um deleite, e não um a coisa te­
diosa, um a coisa que tem de ser feita.
Assim, para entrarm os nesta questão de com o viver sem
conflito, em todos os níveis de nosso ser, intelectualm ente, em
nossas emoções, em nossos sentim entos, em nosso com portam en­
to externo, tem os de aprender. A inda que seja o orador quem faz
a investigação, vós tendes de aprender; e isso, por conseguinte,
significa que estais investigando junto com ele. Conseqüente­
mente, o aprender é sem pre cooperativo; quer dizer, é sempre
um processo de relação. C om preendei a beleza disso, por favor!
Não podeis aprender sozinho. O aprender está no agir, e o agir
— nas relações. N ão temos de isolar-nos, para exam inar, anali­
sar e, afinal, aprender. A prender é um ato de relação, e rela­
ção é vida. A vida é esse estupendo m ovim ento das relações

107
de cada dia. E descobrir uma m aneira de viver sem conflito
é fazer o m aior dos descobrim entos, é a m aneira suprem a de
agir.
Assim, antes de com eçarm os a exam inar — o que prova­
velmente farem os na próxim a reunião — a prim eira coisa que se
precisa perceber é que o conflito, em bora constitua um a parte
considerável de nossa vida, não pode, de m odo nenhum e em
circunstância algum a, produzir uma vida de profundo percebi-
m ento, silêncio e beleza. Um hom em em conflito não tem pos­
sibilidade de am ar. C om o o poderia? Ele se acha em conflito,
frustrado, deseja preencher-se e todo esforço que faz é nesse
sentido. Por conseguinte, não há beleza, não h á afeição, não
há ternura. P oderá ter sentim entalidade, em otividade, mas isso
não é am or.
Assim, urge com preender profundam ente que o conflito,
em todas as suas form as e em todas as circunstâncias, e p o r mais
que a ele estejam os habituados, que nele tenham os vivido —
destrói, perverte. A m ente que com preendeu isso, que perce­
beu todas as im plicações do conflito e com eça a aprender um a
m aneira de vida inteiram ente isenta de conflito e, todavia, inten­
sam ente ativa — essa m ente não se deixará adorm entar, não se
to rn ará letárgica, inerte, em botada, entorpecida. O hom em em
conflito é que leva um a vida m onótona e estúpida — - e não aque­
le que vive livre dç conflito.
Mas, para se com preender e alcançar esse extraordinário
estado m ental isento de conflito, tem -se de com preender a estru­
tu ra e a natureza do conflito, de ver, real e objetivam ente, todos
os seus m ovimentos. Assim, percebido isso, pode-se passar adian­
te. M as, se o não perceberdes, jam ais ireis além. Isso é com o
um hom em falar das belezas da vida, ouvir m úsica, freqüentar
os teatros, observar à tarde a beleza das árvores contra o sol
poente — e nunca notar a sordidez das ruas. Tendo-se habi­
tuado às im undícies, à m iséria e à pobreza das ruas, esse
hom em não é um verdadeiro am ante da beleza. Para serdes ca­
paz de am ar, tendes de notar tam bém toda a sordidez e miséria
e as desum anãs condições que a vida vos depara.

16 de fevereiro dc 1970.

108
BOMBAIM:
O campo da consciência

cV / o m o dissemos em nossa últim a reunião, aprender é um fa­


tor im portante na vida. O aprender, como ação, só pode veri­
ficar-se quando há silêncio e atenção: nesse estado, a mente
aprende. M as a palavra “ aprender” implica geralm ente adqui­
rir conhecim entos baseados na experiência ou no estudo, em
m em orizar certas idéias, princípios ou conceitos e atu ar de acor­
do com essa m em orização, esse conhecim ento. De m odo geral,
é isso o que a palavra “ ap render” implica. M as não estamos
tratando dessa espécie de aprender, porém de coisa com pleta­
m ente diferente, ou seja do aprender ao mesmo tem po que exer­
cemos nossas atividades — aprender agindo; não é “ prim eiro
aprender e depois agir.”
O aprender a que nos referim os exige atenção. Q uando
se presta atenção, seriam ente, há nessa atenção um estado de
silêncio. Se prestardes atenção aos ruídos que se estão ouvindo
aqui — o barulho dos corvos, dos ônibus, das pessoas que
vos rodeiam — se prestardes atenção às cores, aos sem blantes
etc., vereis (se estiverdes observando por vós m esm o) que há
nessa atenção um estado de silêncio. N esse silêncio, nessa aten­
ção, existe um processo de aprender. Isso implica, naturalm ente,
uma certa seriedade.
C um pre explicar mais um a vez o que entendem os pela pa­
lavra “sério” . Em geral consideram os muito sério aquele que

109'
segue determ inado princípio, crença, idéia ou fórm ula; ou o
que tem um certo ideal e procura viver de acordo com esse ideal
ou princípio, ou conform e um a certa finalidade ou objetivo. Q uan­
do uma pessoa faz tais coisas, consideram o-la séria. N o meu
entender, essas pessoas não são sérias. Porque seriedade supõe
aplicação, não consoante um a dada idéia ou fórm ula, porém
aplicação ao aprender, quer dizer, aplicar toda a atenção a estu­
dar não apenas um a determ inada m atéria, um a particularidade
da vida, porém o todo da vida, que é um cam po imenso. Se nos
devotam os a um a particularidade d a vida e a ela aplicam os nos­
sa atenção, isso decerto não constitui um a ação m uito séria. M as
o aprender a respeito da totalidade da vida — que é a totalida­
de da consciência — req u er m uita atenção. A quele que escolhe
unicam ente um a parte desse vasto cam po que cham am os “ a cons­
ciência” , e a essa parte aplica toda a atenção — não posso
considerar séria tal pessoa. Sério, ardoroso, apaixonado, “ inten­
so” , é aquele que procura com preender o inteiro processo da
consciência, ou seja o todo da vida.
Assim, o que nesta tarde vam os fazer, se possível, é estudar
essa coisa cham ada “consciência” . P ara estudar a consciência,
é claro que a ela devem os aplicar-nos de m aneira nova. Podeis
ter lido livros, ter idéias e opiniões, mas o que lestes, as vossas
opiniões, os vossos conhecim entos adquiridos de outrem , nada
disso é o que é — o fato. Para se com preender um fato não
há necessidade de opiniões; estas, pelo contrário, constituem um
obstáculo. E, para poderm os investigar essa consciência, temos
de estar livres, não estar ligados a nenhum a teoria ou conheci­
mento.
Por conseguinte, para o hom em sério, que deseja aprender,
o prim eiro requisito é que esteja livre para investigar •— isso
significa não ter m edo; que esteja livre para olhar, observar,
criticar; que seja inteligentem ente cético, não aceite opiniões. Nós
vamos investigar um assunto que exige toda a vossa atenção; e
não podeis dispensar-lhe atenção se tendes um a opinião, uma
idéia, um a fórm ula, ou conhecim ento de coisas ditas por outra
pessoa. Com o antes dissem os, quando cam inham os com a luz de
outrem , essa luz nos levará à escuridão — não im porta quem se­
ja o que nos oferece a luz. M as, para poderm os cam inhar com
a luz de nossa p ró p ria com preensão, requer-se atenção e silên­
cio e, por conseguinte, m uita seriedade.

1 10
Estão-se verificando im portantes m udanças no m undo, no
cam po científico e no cam po d a medicina. Tem os o com putador,
a autom ação, que irão p roporcionar ao hom em m uito lazer.
Ainda não chegou talvez a h ora de fruirm os esse lazer, m as está
por chegar. O homem vai ter liberdade e lazer em abundância,
para fazer o que quiser. A ciência está tam bém investigando a
questão de prolongar indefinidam ente a vida, de gerar filhos
por diferentes m étodos, etc. T u d o isso está acontecendo e irá
revolucionar toda a sociedade. A fam ília, as relações entre m a­
rido e m ulher — tudo vai ser revolucionado. N a h o ra atual,
ocorre um a extraordinária m udança no m undo, no terreno eco­
nômico, social, científico, médico.
Que irá acontecer ao hom em — a vós e a mim — nesta
trem enda revolução? Q ual a finalidade do hom em ? Por que exis­
te ele? A gora que as m áquinas, a tecnologia, vão proporcionar-
lhe tantos lazeres e a m edicina vai prolongar-lhe a vida indefi­
nidam ente — p o r que e para que existe o hom em ? O trabalho
cansativo e rotineiro lhe será retirado. Já se fala em d ar ao
hom em , ao nascer, um a certa quantia de dinheiro e deixá-lo ser
livre. Isso está a vir. T udo é possível agora. Que h á de fa­
zer o hom em ? Eis um a pergunta m uito séria. Q ue iremos fazer
neste mundo, com o entes hum anos, quando houver desaparecido
de todo a idéia de alm a, de reencarnação, da existência contínua
de um dado indivíduo?
Tem os, pois, de aprender de m aneira nova e de descobrir
uma nova m aneira de viver. Para isso, temos de investigar o
atual estado d a m ente, da consciência, e ver se é possível ope­
rar uma m utação fundam ental e radical dessa consciência. Por
consciência entendem os, não é verdade?, o pensam ento, o sen­
tim ento e a ação, conscientes ou inconscientes. É isso o que
geralm ente se entende por “ consciência” — o processo total
do pensar. Os sentidos, que criam o sentim ento, e as fórm ulas,
os conceitos, as idéias, a opinião, a crença positiva ou negati­
va — tudo isso está com preendido no cam po da consciência.
E essa consciência é resultado do tem po, de tem po entendido
com o duração, anos, como processo evolutivo. D a ausência de
pensam ento ao pensar mais profundo, do sentim ento superfi­
cial às grandes profundezas do sentir, tudo isso im plica um la r­
go espaço de tem po, não só do tem po m edido pelo relógio, mas

111
tam bém do tem po considerado psicologicam ente, interiorm ente.
O pensam ento é consciência, o pensam ento é tem po. E foram
precisos séculos de acum ulação de experiência e conhecim ento,
de dores, de sofrim entos, p ara se form ar esse processo e nos
tornarm os capazes de pensar.
Existe o pensar — pensar consciente ou pensar inconscien­
te. E tanto o inconsciente com o o consciente estão com preendi­
dos no cam po da consciência; nós os dividim os p o r conveniência,
porém , na realidade, tal divisão não existe. Pois bem , isso tudo
é o resultado de séculos de experiência, de conhecim ento, de
instrução, de tradição — tradição m ilenar oü tradição de alguns
anos ou dias — d a influência tecnológica ou do conhecim ento
tecnológico. Isso tudo está no cam po da consciência, que com ­
preende o consciente e o inconsciente. D entro desse cam po nós
atuam os. E d entro dele se encontra sofrim ento, prazer, dor —
o sofrim ento consciente ou o sofrim ento profundo, não revelado,
latente.
A m udança radical tem de operar-se fo ra dessa consciência,
fora do tem po, pois todo pensam ento que se verifica no cam ­
po da consciência faz p arte do tem po. É p o r essa razão que di­
zemos que necessitam os do tem po, de um processo gradual, para
poderm os prom over um a transform ação radical. Ou dizem os que
am anhã nps transform arem os, e nesse caso estam os ainda no
cam po d a consciência; o u dizem os que a m utação ocorrerá em
nossa próxim a vida, n a vida futura, e aqui tam bém estam os ainda
no cam po da consciência. Assim, enquanto o pensam ento, que é
tem po, estiver funcionando naquele cam po, n ão poderá operar
qualquer m udança. P od erá prom over m odificação •— um a ati­
vidade continuam ente m odificada, um ajustam ento. M as nesse
cam po não há nenhum a possibilidade de m udança radical. Isto
precisa ficar bem claram ente entendido entre nós. P orque, n a ­
quele cam po, toda ação resulta do pensam ento — consciente
ou inconsciente; esse pensam ento cria certos valores e tais va­
lores se baseiam no prazer. Os valores m orais, éticos, os cham a­
dos valores nobres, baseiam -se essencialm ente no prazer. E n ­
quanto estiverm os em atividade, efetuando ou tentando efetuar,
por m eio do pensam ento, qualquer m udança d entro desse cam po,
não haverá m udança algum a, porque o pensam ento só é capaz
de criar conflito.

112
Peço-os ouvir o que se está dizendo, sem. aceitar, nem
discordar, nem rejeitar. E xam inai-o, olhai-o, se possível, como
se o estivésseis olhando pela prim eira vez. E sta é, com efeito, a
arte de escutar. Em geral, nós não escutam os nada. Sois capa­
zes de ouvir, mas o escutar exige atenção. E p a ra se prestar
atenção têm de ser postos à m argem todos os valores, opiniões,
juízos, avaliações, interpretações. Só então sois capaz de escu­
tar o vosso amigo, a vossa esposa, qualquer coisa. D a mesma
m aneira tem os de descobrir o m eio de prom over n a m ente hu­
mana, no coração hum ano, um a revolução total, não subordinada
ao tem po, à evolução.
O pensam ento é todo esse m ecanism o de acum ular m em ó­
ria, através da experiência, do conhecim ento, das variadas pres­
sões e tensões e influências. Esse pensam ento não pode, em cir­
cunstância algum a, operar um a revolução radical. P or quê? P o r­
que o pensam ento se baseia essencialm ente no prazer, e onde
há prazer há sem pre dor. T odos os nossos valores sociais, m o­
rais e éticos baseiam -se no prazer. E nossa crença (que é um
processo de pensam ento) em Deus o u na inexistência de Deus, é
sempre um a busca de conforto, de segurança psicológica, e isso
tam bém se fundam enta no prazer. Por conseguinte, h á sem­
pre conflito e esforço. U m a vez que a consciência é tem po, toda
ação exercida nesse cam po acarretará necessariam ente conflito
e sofrim ento. Assim, para se efetuar, no ente hum ano, um a re­
volução radical, essa revolução deve ocorrer fora do cam po da
consciência.
O hom em vive há 2 m ilhões de anos, ou mais, mas
ainda não resolveu o problem a do sofrim ento. E stá sem pre su­
jeito ao sofrim ento, que o acom panha com sua som bra — o so­
frim ento causado pela perda de alguém , pela im possibilidade de
preencher suas am bições, sua avidez, de aplicar suas capacidades,
pela dor física, pela ansiedade psicológica, pelas esperanças frus­
tradas e o desespero; foi sem pre essa a sina do hom em , de
cada ente hum ano. E ele sem pre lutou p ara resolver esse proble­
ma, pôr fim ao sofrim ento existente no cam po d a consciência,
esforçando-se por evitá-lo, reprim i-lo, identificando-se com al­
guma coisa m aior do que ele, entregando-se à bebida, ao sexo,
tudo fazendo p ara evitar essa ansiedade, essa dor, esse .deses­
pero, a imensa solidão e tédio de sua vida; e todos esses esforços

113
são sem pre feitos dentro do cam po da consciência, a qual é
resultado do tempo.
Assim, com o vemos, o hom em sem pre exerceu o pensa­
mento com o meio de libertar-se do sofrim ento, procurando agir
corretam ente, pensar corretam ente, viver m oralm ente etc. O
exercício do pensam ento foi sem pre o seu m odo de ação — pen­
sam ento com o intelecto, etc. M as o pensam ento é resultado do
tem po, e tem po é consciência. N ão im porta o que o homem
faça no cam po da consciência, seu sofrim ento nunca term inará.
T anto faz procurar o tem plo com o beber — é tudo a mesma
coisa. Q uando pois, um hom em aprende, pode ver que, por meio
do pensam ento, não h á nenhum a possibilidade de m udança ra ­
dical; o que há é só a continuação do sofrimento.
Ver esse fato é passar a um a dim ensão diferente. N ão estou
em pregando a palavra “ ver” no sentido de perceber intelectual
ou verbalm ente, porém no de com preender totalm ente este fa­
to: que o sofrim ento não pode ser extinto pelo pensam ento. M as
isso não significa que tem os de suprim ir o pensam ento. Se ne­
gamos o pensam ento, isso significa apenas que o pensam ento
está negando a si próprio, mas continua existente.
V er um fato é um a das coisas mais difíceis deste m undo.
É m uito simples ver o fato constituído por este m icrofone. Ele
existe; vós e eu dem os um certo nom e a este objeto, e dizemos
am bos que o estam os vendo, que ele é bom ou ruim. Já o olhar
para aquela árvore se to rn a um pouco m ais complexo. P o r­
que, quando o fazeis, é o pensam ento que olh a a árvore e não
os vossos olhos. O bservai, e vereis por vós m esm o que assim
é. O lhai um a flor! Q uem é que está olhando? Os vossos olhos?
Ver com os olhos significa que não há opinião, não h á pen­
sam ento, não h á julgam ento, não há d ar nom e; só há olhar.
Q uando dizeis que estais olhando um a flor, é vossa m ente que
está a olhar; isto é, o pensam ento é que está a olhar, a funcio­
nar. Por conseguinte, nunca vedes a flor. A flor é u m a coisa
objetiva. Mas p enetrar em si m esm o p ara olhar um fato
interior, isso é quase impossível, p orque os preconceitos, as
lem branças, as experiências, o prazer, a dor — tudo isso inter­
fere e prejudica a observação. O pensam ento, por conseguinte,
não pode em tem po algum term inar pela sua pró p ria ação. Uma
vez que o pensam ento constitui a totalidade de nosso pensar-sen-

114
tir, por mais que nos esforcem os, não há possibilidade nenhu­
m a de porm os fim ao sofrim ento nessa área da consciência. Isso
é um fato, pois o hom em jam ais conseguiu libertar-se do sofri­
mento.
Vemos, pois, que o tem po, o pensam ento, não pode operar
m udança alguma. E a m udança, no sentido mais profundo da
palavra, é absolutam ente necessária, porquanto não podem os con­
tinuar com o estam os indo, com nosso separatism o, nosso estrei­
to nacionalism o e tantos outros absurdos que acum ulam os a tra­
vés dos séculos; com nossos deuses, nossas crenças, nossos ritos
etc., tudo p u ro contra-senso. Pois não sabem os o que significa
amor. Com o podem os am ar se há aflição em nosso coração, em
nossa mente? C om o podem os am ar quando há com petição, avi­
dez, inveja? Tem os vivido com a violência, e com ela continuare­
mos a viver, a não ser que oco rra um a m udança radical, inde­
pendente do tem po. Assim, se vedes fato de que o tem po não
pode produzir nenhum a revolução radical, nem exterior nem
interiorm ente, que sucede então?
N ecessitam os de m udança social, de um a revolução com ­
pleta em nossas relações, que geraram esta sociedade m onstruo­
sa. Existe a violência em nossos corações e em nossas rela­
ções. C ada um só se ocupa de si próprio e de ninguém mais.
E a ação, invariavelm ente, gera conflito; nossa vida, não im por­
ta o que estejam os fazendo, só produz confusão, aflição, con­
flito. Isto tam bém é um fato. Q uer conscientes, quer inconscien­
tes, todas as nossas ações produzem conflito em nossa existên­
cia. O consciente é racional, sua atividade deliberada. O incons­
ciente é m uito mais forte que o consciente. O lhai para dentro
de vós m esm o, profundam ente, não de acordo com F reu d ou
outro — olhai-vos realmente. E para vos olhardes, deveis estar
livre para olhar. Se dizeis: “ Isto é correto” ou “ Isto é errad o ” ,
“Isto é bom ” ou “ Isto é m au ” , “ T enho de fazer isto” , “N ão devo
fazer isto” , neste caso não estais livre p ara olhar, para observar,
para penetrar neste imenso cam po da consciência. O inconscien­
te, com o já disse, é muito forte. E le é o repositório racial, cole­
tivo, e nos governa m uito mais do que a m ente consciente. E,
também , tem seus próprios motivos, im pulsos, alvos. Envia-nos
m ensagens através de sonhos etc, — mas não vamos trata r disso
agora. Assim , a m enos que se opere aquela revolução radical,

115
fundam ental, o conflito hum ano d u rará infinitam ente. A inda
que venham os a prolongar indefinidam ente a nossa existência
física, ainda que disponham os de lazeres graças à autom ação
e ao cérebro eletrônico, a aflição e o conflito existirão sem pre.
Assim, que se deve fazer? Entendeis esta pergunta? Está
o hom em condenado p a ra sem pre a viver em conflito, n a aflição,
ignorando o que significa ser totalm ente livre e, por conseguinte,
ignorando o que é am ar? Q uando se percebe que o tem po, o
pensam ento, não é o m eio de term inar o sofrim ento, que sucede
então? Entendeis o que querem os dizer com a p alavra “perce­
ber”? Q uando percebeis que um determ inado cam inho não vos
leva a casa, abandonai esse cam inho e segui outro. N ão con­
tinuai a seguir obstinadam ente tal cam inho. Se o fazeis, então,
m entalm ente, existe algum desequilíbrio; não estais m entalm en­
te são; estais surdo, estais cego, teim ando em que aquele cam i­
nho vos levará a casa. É isso, exatam ente, o que estam os fazen­
do. Estam os a teim ar que o pensam ento, o tem po, a evolução
nos tirará deste caos, desta aflição.
D essarte, sabendo-se que a ação gera, inevitavelm ente, so­
frim ento (com o o faz em nossa v id a ), e que a inação, p o r sua
vez, tam bém gera tribulações, que deve o ente hum ano fazer?
O u há algum a coisa p ara fazer? E ntendeis esta pergunta? Tem os
freqüentado os tem plos, temos m editado, temos descoberto
novos m étodos de prolongar a vida, temos feito todo o possí­
vel, aplicado nossa inteligência, segundo um a determ inada linha
de ação — com unista, religiosa, ou de o u tra espécie. E ntretanto,
ainda não temos liberdade, ainda não se acabou o sofrim ento,
temos conflito e vivemos em penhados num esforço constante.
Percebendo isso, o hom em são, racional, diria: “ Este não é.
o cam inho certo, não continuarei a segui-lo” .
Só quando vedes com toda a clareza que o cam inho não
vos leva a casa, é só então que não continuais a segui-lo. M as,
percebê-lo significa com preender a totalidade do pensam ento e
do sentim ento — da consciência. Isto é, p o r m eio das ativida­
des criadas pelo pensar, pelas idéias, pelos sentim entos, não há
possibilidade de se pôr fim ao conflito e, por conseguinte, ao
sofrim ento. V er esse fato, com o se pode ver o fato constituído
por este microfone, por aquelas árvores, req u er atenção. E quan­
do se p resta atenção, a consciência está totalm ente em silêncio;

116
não há interferência do pensam ento. É dessa m aneira que se
pode descobrir, aprender.
Ora, além e acima da consciência, existe um a o u tra dim en­
são? N ão salteis logo à conclusão de que essa dim ensão é Deus;
isso é falta de bom senso. A m ente que conscientem ente pensa
em Deus está ainda entre os limites de sua pró p ria consciência.
C om preendeis? Se pensais em D eus, esse D eus é um a criação
de vosso pensar; e, um a vez que vosso pensar é resultado do
tempo, vosso Deus é tem poral; isso não tem sentido nenhum .
Perguntam os se existe um a dim ensão diferente. T al pergunta só
pode ser um a pergunta válida, fundam ental, não teórica, quando
se com preendeu a natureza do tem po. Percebeis?
Vede, senhor! O m undo está “estourando” de população.
O bservai as m ultidões que enchem as ruas — incultas, atrasadas,
supersticiosas, etc. E a com iseração, a com paixão vos faz dizer:
“Ser-lhes-á dada nova oportunidade na próxim a vida; eles hão
de evoluir com o nós outros” . T odos crem os nisso. N ão gosta­
mos de pensar que passam os nossa vida na confusão e que
poderíam os ter sido atirados à sarjeta, com o tantos outros, com o
peixes podres. Dizemos que só uns poucos conhecerão aquela
incom parável liberdade que se alcança fora da consciência. Por
isso, inventam os a evolução, esperam os que, gradualm ente, o
homèm se irá tornando mais livre, mais am orável, mais benevo­
lente, não violento etc. etc. N o m om ento em que se adm ite o tem ­
po, adm ite-se a continuidade do sofrim ento. Sem o tem po, que
esperanças vos restam , se já estais velho, fortem ente condicio­
nado e dificilm ente podeis quebrar os vossos hábitos, m esm o os
mais triviais? Tem os de quebrar os nossos hábitos instantanea­
mente, e não am anhã; não só os hábitos superficiais, m as tam bém
os mais profundos, as rotinas de nosso pensar, de nossas crenças
e dogmas. Tem os de q u ebrar hábitos profundam ente enraizados
e, por isso, dizem os: “ Eles não podem ser quebrados im ediata­
mente, necessitam os de tem po p a ra quebrá-los” . P o r conseguin­
te, dizem os que o farem os na próxim a vida, ou na próxim a se­
m ana — que é a m esm a coisa, pois é adm itir o tem po.
Em vista disso, pergunta-se, inevitavelm ente: “Existe um a
ação fora do tem po — um a ação que nos possibilite viver, dia
a dia, neste m undo, fora desta confusão, deste caos, livres destas
aflições, disputas, sordidez, superstição, deuses grotescos? Pode­

117
mos, vós e eu, aprisionados que estam os no tem po, libertar-nos
das redes do tem po? Isso tem de ser feito im ediatam ente, instan­
taneam ente. De contrário, conservarem os a esperança na evo­
lução, na gradualidade, que a pouco e pouco nos libertará do
sofrim ento. M as, não poderem os, nunca, livrar-nos do sofri­
m ento, pô-lo à m argem , por meio do tem po. P ortanto, requer
se um a ação instantânea. E , decerto, existe essa ação instantâ­
nea, capaz de rom per a rede do tem po. D ireis: “ Que devo fa ­
zer? Dizei-mo! Q ue devo praticar? Q ue m étodo seguir? Com o
devo pensar, para alijar esse peso trem endo do tem po?” Tais
perguntas indicam que ainda estais pensando dentro dos lim i­
tes do tem po. T oda prática exige tem po. T odo m étodo exige
tem po. E sp erar que alguém vos diga o que deveis fazer tam bém
exige tem po. E o fazê-lo em conform idade com as instruções
dadas se verifica no cam po do tem po. Por conseguinte, não há
esperanças no cam po do tem po: só desespero e crescente sofri­
mento.
Tendes, pois, de ver a verdade a esse respeito. Isso é m e­
ditação — da qual tratarem os noutra oportunidade. M as só se
pode ver essa verdade se estais com pletam ente atento, com to­
do o vosso ser. E não se pode estar atento quando não h á si­
lêncio. É só nesse silêncio — que não se alcança por m eio do
tem po — é só com essa atenção que o sofrim ento pode term inar.
Pode-se então ver que existe um a dim ensão totalm ente diferente
— não a dim ensão dos deuses e dem ais futilidades que o hom em
inventou com seu m edo e seu desespero. H á um a dim ensão onde
a ação não cria conflito e contradição e onde, portanto, não
existe esforço. M as a m ente, por mais que se esforce, não poderá
alcançá-la se não com preender todo o cam po d a consciência. Esse
cam po não pode ser com preendido por meio do tem po nem por
meio do pensam ento, porém pelo percebim ento instantâneo.
Senhor, tendes de ser bastante sério e ardoroso p ara p o d er­
des observar, em seu todo, o m ovim ento do pensam ento, que é
consciência, que é com o o fluir de um rio; observar o enorm e
oeso de conhecim ento, tradição, esperança, desespero, ansieda­
de e aflição que im pulsiona o pensam ento. Tendes de v arrer tu ­
do isso — não com o observador e coisa observada. O pensador
é o pensam ento; o observador é a coisa observada. Q uando
olhais um a árvore, quando contem plais a beleza do céu e o

118
encantam ento de um a noite tranqüila, vós — o centro — perm a­
neceis e, por conseguinte, sois o observador. O observador cria
espaço ao redor de si e nesse espaço experim enta o que pode
ser experim entado. Isto é, se observais na qualidade de observa­
dor, estais então sem pre criando a coisa observada. Se não há
observador, o centro de onde se está olhando, só há então o
fato.
Escutai aqueles corvos. Escutai! Se escutais integralm ente,
existe um centro de onde estais escutando? Vossos ouvidos estão
ouvindo o barulho, a vibração etc., mas não h á nenhum centro
de onde estais escutando. E stá havendo atenção. Por conse­
guinte, quando escutais integralm ente, não há entidade que es­
cuta, só há o fato — o barulho. Para escutar integralm ente, ne­
cessitais de silêncio, e esse silêncio não é um a coisa existente no
pensam ento, criada pelo pensam ento. E scutando aquele corvo
que está a fazer barulho antes de dorm ir, escutando tão inte­
gralm ente que desapareça o sujeito que escuta, vereis que não
há então nenhum a entidade a dizer “ E stou escutando” .
Vê-se pois, que o pensador e o pensam ento são um só todo;
sem pensam ento não há pensador. E quando não há pensador
e só há pensam ento, há então um estado de percebim ento sem
pensam ento; o pensam ento desaparece. Por favor, não prati­
queis essas coisas. N ão vos senteis num a certa atitude, respiran­
do corretam ente, segurando o nariz, não vos ponhais de cabeça
para baixo, não façais nenhum a dessas infantilidades. O de que
estamos falando exige m uita m adureza. M adureza significa sen­
sibilidade, inteligência. N ão podeis estar atento, se não sois
inteiram ente sensível, se vosso corpo, vossos nervos, vossa m en­
te, vosso coração, se todo o vosso ser não está plenam ente des­
perto, vigilante. E n tã o . . . não vou dizer que descobrireis algu­
m a coisa, porque vós não podeis descobrir nada; o pensador,
que sois vós, jam ais encontrará a realidade.
É preciso ver este fato: que existe um a dim ensão onde a
ação não gera conflito ou sofrim ento. E para descobri-la, en­
contrá-la de m aneira não sabida, m isteriosa, sem pensar, ne-
cessita-se de liberdade desde o com eço, e não no fim — liberdade
para investigar, olhar, observar, sem medo.

20 de fevereiro de 1966.

119
BOMBAIM:
O medo

Jl esta tarde exam inarem os a questão do m edo. M as, antes


disso, tem os de com preender que o sím bolo não é a realidade.
A palavra não é o fato. A palavra “m edo” não é o estado real,
o medo. E ntretan to , a m aioria de nós vive de palavras. C onsi­
deram o-las m uito im portantes. As palavras têm , com efeito,
um certo valor com o m eio de com unicação, mas, em si m esm as,
não têm m uita im portância. O im portante é o fato que a p ala­
vra representa.
Assim, ao exam inarm os a questão do m edo e a que depois
dela virá, devem os perceber m uito claram ente que a realidade
não pode ser experim entada por meio de palavras e que a p a ­
lavra não é a coisa. A palavra “ árv o re” , a palavra “ m ulher” , a
palavra “ hom em ” , não constituem a realidade árvore, m ulher,
homem. E com a m aioria de nós acontece que o sím bolo preju­
dica a percepção real do fato. A palavra, o símbolo, desperta
o m edo; isto é, ela provoca o m edo, ou im pede a com preensão
do medo. Tem os de com preender não só o significado d a pala­
vra, mas tam bém que ela não deve interferir no fato.
Por conseguinte, um a das coisas mais relevantes parece-m e
ser esta que devem os prim eiram ente libertar-nos d a p alavra —
por exem plo, da palavra “ paquistani” , ou “hindu” , ou “p arsi” ,
ou “com unista” — po rq u an to a palavra encobre o fato. A p a­
lavra, com as lem branças que evoca, com seu conteúdo, sua

120
influência, impede o percebim ento da realidade. E, tam bém ,
ela agita a realidade; a palavra “m o rte” , p o r exem plo, desperta
im ediatam ente um a quantidade de imagens, cenas, fantasias, es­
peranças, desespero. Mas a palavra não é o fato. Im porta não
só com preenderm os esse fato, esse “ processo” — ou seja que
a palavra não é a coisa e freqüentem ente im pede o percebim ento
da realidade — mas tam bém que devemos libertar-nos da p a­
lavra para observar o fato.
Porque a liberdade é essencial para poderm os ver, obser­
var, ouvir, sentir, pensar claram ente, exam inar. A liberdade é
absolutam ente necessária exatam ente no com eço e não quando
se está chegando ao fim. Isto é, se desejo exam inar aquela árvo­
re, ou um a idéia, ou um sentim ento, ou um fato, preciso estar
livre para exam iná-lo, não devo estar preso a m inhas opiniões,
meu julgam ento, m inhas avaliações, meus preconceitos, às in­
fluências de m eu am biente. A liberdade, pois, é imprescindível
ao exam e, d e s d e \) começo. E a palavra “ liberdade” não é o
fato. O fato é inteiram ente diferente. N o m om ento em que
temos liberdade para exam inar, a palavra se torna sem valor;
pode-se ver, então, quanto é difícil ser livre para exam inar.
Para a m aioria de nós a liberdade não tem im portância ne­
nhuma. N ão a desejamos. Preferim os depender, preferim os vi­
ver no velho padrão, num a d ad a sociedade ou cultura, a exigir
que o ente hum ano se liberte com pletam ente. E claro é que essa
liberdade não nos pode ser dada. N ão podem os com prá-la. P o­
demos ler livros a seu respeito. Ler livros, perguntar a outros o
que ela é significa ocupar-se com um m ero símbolo, um a idéia,
um a palavra; e através de palavra não podem os entrar em con­
tato com o fato. Assim, quando nos pom os a exam inar esse as­
sunto do m edo, temos de perceber claram ente, logo no começo,
que a liberdade é necessária a todo exam e; não deve haver acei­
tação de nada, porém , ao contrário, devemos ser capazes de
dizer “ N ão ” . P ara se poder descobrir algum a coisa, é sempre
preferível dizer “N ão ” a dizer “Sim ” . Um dos principais fato­
res ou causas d a decadência deste país, da deterioração a que
estam os assistindo, é o de estarm os sem pre aceitando e, depois,
vivendo no estado que aceitam os. N unca dizemos “ N ão ” . “N ão”
significa revolta. Sois capazes de revoltar-vos com o reação —
mas isso não leva a parte algum a. O ra, no dizer “N ão ” ao ver­

121
mos um a rua suja, coberta de lixo, nesse pró p rio protesto há
ação. A ação não vem depois de dizerm os “N ão ” , porém é
sim ultânea com o dizê-lo.
Tende a bondade de prestar toda a atenção a isto, p o r­
que, para com preenderm os o m edo consciente ou inconsciente
— e este é um dos principais problem as de nossa vida — precisa­
mos de liberdade para dizer “ n ão ” em relação a ele, em vez
de tentarm os achar meios e m odos de fugir-lhes. A través dos
séculos construím os um a verdadeira rede de vias de fuga. Somos
obviam ente incapazes de enfrentar um fato — o fato d a guerra
e tudo o que ele implica, ou outro fato qualquer. O enfrentar o
fato exige ação; mas, se fugimos à ação, se fugimos ao fato, o
fato se torna então problem a.
Existe o m edo; dele tratarem os mais adiante, pois temos
prim eiram ente de perceber o que ele implica. Existe o medo.
Nunca entram os diretam ente em contato com esse fato. Se o
fazemos, então, ou sabem os verdadeiram ente que somos incapa­
zes de enfrentá-lo, ou sabem os de que m aneira enfrentá-lo. M as,
se fugimos ao fato, a fuga se torna o problem a e não o fato. E n­
frentar um fato é um a das coisas m ais difíceis porque à nossa
m ente repugna olhar qualquer coisa diretam ente. O bservai isso
com o um a realidade existente em vós m esm o; não fiqueis m e­
ram ente a ouvir palavras.
O medo, que é o percebim ento de um perigo, assume m ui­
tas form as. N ão h á m edo abstrato. O m edo não é um a abstra­
ção, porém um a realidade. C onhecem os a gênese do medo. Ela
existe sem pre em relação com algum a coisa. N ão pode existir
sozinho. E só há um a única form a de m edo, o medo relacio­
nado com a sobrevivência física. Se vedes um a serpente, todo
o m etabolism o do organism o se altera e agis: fugis ou fazeis
algum a coisa: agis. E sta é um a coisa. A quela reação física é
necessária; sem ela, seríeis destruído. Isto é, to da a estrutura
do cérebro se baseia na sobrevivência, na sobrevivência física.
Mas o ente hum ano transfere esse fato p a ra o psique e diz que
precisa sobreviver psicologicam ente. E stá claro o que eu disse?
Vamos agora exam inar a questão.
O que- nos assusta não é a dor física, o perigo físico, porém
o m edo psicológico — o que pensarão de nós os outros, o m edo
de perderm os o em prego, de não sobreviverm os após a m orte
etc. Q uanto mais desperto e vigilante o indivíduo, tanto mais
prem ente e, p ortanto, tanto m aior é o em penho de sobreviver
fisicamente. De outra m aneira, não podem os pensar e sentir,
como é bem óbvio. M as, psicologicam ente, essa sobrevivência
física é negada ao hom em por causa de seu nacionalism o, d e suas
divergências religiosas, suas diferenças de classe; tudo isso gera
a guerra e, por essa razão, a sobrevivência física é negada ao
homem. C om preendei, por favor, este fato óbvio. Assim sendo,
o hom em que deseja com preender o m edo deve libertar-se do
nacionalism o, de todas as crenças e dogm as religiosos: de con­
trário, não terá possibilidade de exam inar o m edo. U m a vez
totalm ente libertado do m edo psicológico, estará ele apto a ob­
servar, olhar, escutar e — nessa claridade — agir.
Com o dissem os, o que nos interessa não é a sobrevivência
física, porém a sobrevivência psicológica. Q uerem os ser hindus,
ser um a nação, com fronteiras, com um a linha divisória, geográ­
fica. Disso fazem os questão fechada, porque nos proporciona
um a enorm e satisfação. E o nosso sem elhante que vive do outro
lado daquilo que cham am os “a fro n teira” , faz exatam ente a mes­
m a coisa. Ele com. seus peculiares dogm as e crenças religiosas,
seus costum es, seus hábitos e tradições, e nós, do lado de cá,
com nossas idiossincrasias, nossos tem peram entos, tradições, dog­
mas; de m aneira que a sobrevivência física nos é negada por
causa de nossas exigências e necessidades psicológicas, nosso
aferro a fatos que absolutam ente não são fatos.
N ós vam os investigar o m edo, a fim de com preenderm os
a sua natureza e vermos se tem os algum a possibilidade de liber­
tar-nos dele. Porque o medo obscurece a mente, im possibilitan­
do-nos de pensar com clareza. Ficam os confusos, quase paralisa­
dos, ao m anifestar-se o medo.
Para nos livrarm os totalm ente do m edo não há necessida­
de de esforço algum. Peço-vos com preender isso bem claram en­
te. Para com preenderm os um a coisa, temos de olhá-la, observá-
la, temos de observar sua natureza, sua estrutura e de que m a­
neira ela com eça a existir: temos de ver. Q uando vedes com
m uita clareza uma certa coisa, estais sem dúvida nenhum a livre.
Ao verdes que um a coisa é venenosa, ao com preenderdes a sua
natureza e significação, nesse m om ento, evidentem ente, estais
com pletam ente livre.

123
P ortanto, não há necessidade de esforço p a ra nos livrarm os
do medo. O esforço só é necessário p ara fugirm os do m edo —
reprim i-lo, resistir a ele, ou sublim á-lo. M as, no m esm o instante
em que com preendeis a natureza e a estrutura do medo, ele
está acabado. M as não podeis com preendê-lo, a menos que en­
treis em contato com o fato, diretam ente e não através do sím­
bolo ou d a palavra.
O ra, para com preenderm os o m edo, temos de com preender
o prazer. Isso porque todos os nossos valores, todas as nossas
relações, alicerçam -se no prazer. C om preendei isso, por favor.
Nós não estam os condenando o prazer. N ão estam os dizendo
que ele é bom ou m au. E stam os a exam iná-lo. E , para com ­
preenderm os o prazer, temos de exam inar a questão do desejo.
Porque desejo e prazer estão intim am ente relacionados entre
si. O desejo se torna existente por reação. V edes um belo carro,
uma bela m ulher, um a bela casa; dá-se um a reação, em segui­
da o contato e depois a sensação; essa sensação põe em funciona­
mento o desejo. Podeis observar isso na vida real de cada dia —
o ver, o contato, a sensação e, por fim, o desejo. E que é que dá
força e vitalidade ao desejo? Atenção! E stá clara esta pergunta?
H á a percepção daquela casa — sua sim etria, seu estilo
e beleza: o ver, o contato, a sensação, o desejo; depois, o pensa­
m ento “ E u tenho de possuí-la” ou “ T enho de possuir aquele
homem, aquela m ulher” — • o que quer que seja. E que é que
dá força ao desejo? Peço-vos seguir o que estou dizendo. Q ual­
quer espécie de repressão, de controle ou satisfação do desejo,
nega a liberdade. M as, se com preendo integralm ente a estrutura
do desejo, não tratarei de reprim i-lo, saberei o que fazer com
ele, e o farei. H á a percepção de um a casa bonita, de um auto­
móvel, de um a m ulher; m anifesta-se o desejo: um a reação nor­
mal, saudável. É licito olhar um a bela casa; ver a sua beleza
é essencial. M as, o que é que introduz nisso o conflito, to r­
nando-o um problem a? V ejam os.
Tenho de averiguar o que é que d á vitalidade, vigor, con­
tinuidade ao desejo. Se eu o descobrir, o desejo terá então m uito
pouca im portância. Posso fazer algum a coisa em relação a ele
ou nada fazer; não se criará problem a algum. V ejam os, pois, o
que lhe dá vitalidade, continuidade. É o pensam ento, sem dú­
vida nenhum a. Penso naquela casa, desejo a casa; esse pensa­

124
m ento está form ando o desejo, dando-lhe força e determ inação.
Com eça o conflito. A quela casa me proporcionará prazer, e o
prazer é criado pelo pensam ento: possuindo-a, viverei mais con­
fortavelm ente, serei um a pessoa im portante etc. etc. O desejo
em si não lícito nem ilícito: é um fato. M as, quando o pensa­
mento interfere nesse desejo e lhe d á continuidade, com o prazer,
com eça o problem a. Q uando vemos um a bela m ulher — se não
estamos paralisados, cegos, não podem os deixar de vê-la — logo
entra em cena um pensam ento, o qual cria diferentes imagens de
prazer e, em seguida, o problem a.
Tem os, pois, de com preender a natureza do pensam ento.
Sabemos que há prim eiro o desejo, depois o prazer, e precisa­
mos saber por que o pensam ento interfere. Se consigo desco­
brir a relação existente entre os três, o desejo se torna então
um a coisa m uito insignificante. Posso ver um a casa e esquecê-la,
ver um a bela m ulher sem que se produzam as costum eiras rea­
ções. O pensam ento se constituiu através do tem po. O pensa­
mento é tem po. Se deixais de pensar, não há mais am anhã.
Nós temos de pensar; mas, se o pensam ento se baseia no prazer,
no desejo, ele se torna um problem a, um perigo.
Assim, é possível verm os um a casa, um a m ulher, e não
deixarm os o pensam ento interferir? N ão de caso pensado, deli­
beradam ente, dizendo-se que o pensam ento não deve interferir
porque é um fator de sofrim ento, de aflição etc. — porém ven­
do-se o fato e não a explicação; vendo-se o fato real de que se
o pensam ento interfere no desejo ou lhe atribui im portância, ele
se torna prazer, e onde há prazer h á sem pre dor. A s duas coisas,
o prazer e a dor, não são separadas; prazer é dor. E ste é um
fato óbvio. A m aioria dos nossos valores, conceitos, ideais, de
nossas relações com hom ens, m ulheres, vizinhos — tudo se
baseia no prazer e daí advêm todos os nossos problem as. F uncio­
namos segundo o “princípio do p razer” .
O ra, há um a vasta diferença entre prazer e am or. Conside­
rai isso p o r um m inuto. T odas as nossas relações, com o acaba­
mos de dizer, se baseiam no prazer; e o prazer sem pre traz a
dor. Isto é um fato. E onde há p razer não há am or. O amor
não é um “processo” de pensam ento. N ão é resultado de um
pensam ento, ao passo que o prazer é. Se com preenderdes isso
— não com o efeito de raciocínio intd ectu al, verbal — se p e r­

125
ceberdes o fato que o prazer destrói o am or e que onde há
prazer não h á alegria; se virdes m uito claram ente que estais fun­
cionando com base no prazer, que todas as vossas atividades e
pensam entos, todo o vosso ser, vossos deuses, tudo se baseia no
prazer, o qual é resultado do pensam ento; se virdes que é o
pensam ento que dá continuidade ao prazer, ao desejo — se
virdes toda essa estrutura, que lugar há para o medo?
Exam inem os o medo. A m aioria de nós tem e a m orte.
H á tam bém outras form as de m edo — m edo do escuro, da opi­
nião dos outros, de perder o em prego; há dúzias de outras form as
de medo. É ele sem pre o mesmo, ainda que sob form as diferen­
tes. Tom em os um a só dessas form as (o m edo da m orte) e a
exam inem os de m aneira com pleta.
A m aioria de nós teme a m orte. N ão sabemos o que é a
m orte e já lhe tem os medo. E porque tem em os esse fato for­
midável, procuram os fugir dele. Se sois hinduísta, credes na
reencarnação; se sois cristão, credes na ressurreição. M as com
isso não resolvestes o problem a do tem or, nem a questão da
morte. A penas fugistes. E stá certo isso? N ão o rejeiteis. N ão
digais: “ E ntão não h á rencarnação?” . O hom em que não tem e
a m orte não espera nem desespera. O ra bem, se seguirdes o que
se está dizendo — seguirdes, não intelectual ou verbalm ente,
porém realm ente — se aplicardes toda a vossa atenção a este
ou a outro qualquer assunto, cessa o conflito; p o r conseguinte,
estais habilitado a enfrentar o fato. Isto é, temeis a m orte, m as
na realidade não conheceis essa experiência. T endes visto a
morte. T endes na m ente a im agem da m orte, mas estais apega­
do às coisas conhecidas — vossa casa, vossa fam ília, vosso no­
me, vosso depósito no banco. A isso estais apegado, po rq u e é
tudo o que possuís. E a vida, tal com o a estam os vivendo, é um
conflito, um a aflição, um desespero, um a agonia, um a ansie­
dade, um a batalha constante, com o todos nós sabem os m uito
bem. O freqüentar um escritório por quaren ta anos, tédio, estu­
pidez — tal é a vida que conhecem os: e apegam o-nos com todas
forças a nossos pesares, nossa aflições, nossa confusão, nossa
insignificância. T udo isso preferim os a um a coisa que desco­
nhecemos.
O que temem os não é o desconhecido, porém a perda do
conhecido. Esse conhecido é nossa aflita existência. N ão im ­

126
porta se somos m ilionários ou pobres, nossa existência é um a
aflição. A vida de um santo ou a de um pecador é a mesma
vida de aflição, conflito, batalha. A essa vida estam os apega­
dos, ao mesmo tem po que nos prom etem os um a “ próxim a vida” ,
uma “vida fu tu ra” — para a qual levarem os tudo o que conhece­
mos: pelo m enos assim esperam os. O que conhecem os é esta
aflição, este sofrim ento, esperando que depois virá coisa melhor.
Os cientistas andam investigando a possibilidade de prolongar
a vida indefinidam ente, por meio de corações artificiais, de
rins artificiais, de im plantações, de congelam ento do corpo por
um certo núm ero de anos. O nde está a vossa alma? Entendeis
esta pergunta? Existe um a alm a que nos sobreviverá?
O pensam ento é resultado do tem po, constituindo-se de m e­
mória, experiência etc. A presenta-se-lhe o fato de que possi­
velmente ele terá fim — um fato p ertu rb ad o r em extrem o.
Assim sendo, o pensam ento inventa todos os meios possíveis de
fuga a esse fato; desse m odo ele adia (1) a m orte, afasta-a, põe-na
a distância. Isso é perfeitam ente com preensível, senhores. Aos
vinte anos, tem os mais uns q uarenta anos p a ra viver, e no
fim deles, inevitavelm ente, a m orte. A inda que possam os viver
mil anos, o fim é certo. Assim, pois, criam os com o pensa­
m ento um a distância entre o fato — a m orte — e a realidade
do viver. Essa realidade do viver é a nossa aflição e um ou ou­
tro m om ento de alegria e prazer. O que nos faz m edo é perder­
mos o conhecido, perderm os nossos prazeres.
O ra, p ara com preender a m orte, é claro que temos de
com preender o viver. Porque, se não souberm os o que é o vi­
ver, com o saberem os o que é a m orte — um fenôm eno tão ex­
traordinário com o o viver? É possível vivermos de m aneira d i­
ferente? Porque, se se operar um a m utação em nosso viver, a
m orte terá, nessa m utação, um significado.
Nosso problem a, portanto, é este: Pode-se operar um a m u­
dança na vida que estou atualm ente vivendo, a qual se constitui
de desespero, m edo, ansiedade, fugas ardilosas? É isso que cha­
mamos “ viver” . Se essa m udança for um a coisa que iá conheço,
não será m udança nenhum a. E spero esteja isso claro. Porque
esta é um a pergunta muito com plexa: T enho algum a possibili­

(1) I.e., adia a questão da m orte (não se pode adiar a m o rte). N . do T.

127
dade de m u d ar totalm ente, de m odo que, nesse p róprio ato de
m udar, o corra a m orte?
Porque o que tem continuidade supõe o tem po. Isto é,
estou vivendo um a vida lastim ável. E spero alterá-la no tem po e,
portanto, digo: “ D ai-m e tem po” . P o r conseguinte, prefiro adiar
a m orte. C om o não sei o que me irá acontecer, alego que’ o
tem po é necessário para a m udança e evito a m orte. M as, se
sei com o posso m u d ar im ediatam ente, então não tenho m edo
nenhum d a m orte. C om preendestes a m inha pergunta? Se sei
perfeitam ente com o posso efetuar um a revolução na m inha vida,
a m orte já não tem então significação algum a com o coisa temível.
O problem a, portanto, não é a m orte, nem o medo, nem o
prazer, mas, sim, descobrir se podem os m udar, o perar im ediata­
mente, instantaneam ente, um a m utação total. O ra, p ara desco­
brir isso, temos de estar livres da idéia do tem po. Isto é, todo
esforço im plica tem po. Isto é evidentem ente m uito simples. É
possível m udarm os? T om em os para exem plo um a coisa m uito
sem im portância com o o hábito de fum ar; é possível abandoná-
lo im ediatam ente? Se sois capaz de abandoná-lo instantaneam en­
te, não h á então esforço, nem tem po, nem conflito: h á m utação.
O ra, só sois capaz de abandoná-lo instantaneam ente se ficardes
com pletam ente atento ao fato de estardes fum ando — quer di­
zer, se não estiverdes resistindo nem cedendo ao prazer de fum ar,
porém atento a tudo o que fum ar im plica. E não podeis estar
atento, se estais procurando razões p a ra continuar ou não con­
tinuar a fum ar, se estais pensando nas conseqüências desse h á­
bito ou com m edo delas. Só podeis ficar livre dele, estando com ­
pletam ente atento a cada m ovim ento que executais — o levar
a m ão ao bolso, tirar um cigarro, pô-lo na boca, acender um
fósforo, chegá-lo ao cigarro, aspirar-lhe a fum aça — todos os
atos que constituem esse hábito.
H avendo atenção não há esforço. C om preendei este fato
tão simples. U m a vez com preendido, tudo mais se esclarecerá.
O nde há atenção, aí não h á esforço. Só a falta de atenção p ro ­
duz esforço. Só a falta de atenção produz conflito. Assim , quan­
do estais totalm ente atento à vossa vida — a vossas aflições,
conflitos, desejos, prazeres, lem branças, pensam entos, ativida­
des — quando estais totalm ente vigilante, podeis ver cada fato
com o fato, em vez de traduzi-lo em prazer ou dor, de dar-lhe
continuidade com o prazer.

128
Assim, o hom em que deseja com preender a m orte tem de
com preender a vida. E o v iv e r não é iss' >que cham am os “ viver”,
esse cam po de batalha existente tan to em nosso interior' com o ex­
teriormente. O viver é coisa inteiram ente diferente, na qual
nenhum m edo existe. E para nos livrarm os do m edo tem os de
estar livres desde o começo, p ara poderm os exam iná-lo, inves­
tigá-lo, penetrá-lo. Vê-se então que viver é m orrer, porque c
viver é de m om ento em mom ento. O que tem continuidade é o
desespero e não o viver; e quando há desespero, é claro que há
pensam ento. É desse m odo que se cria o círculo vicioso do
pensam ento. O problem a da vida consiste unicam ente em ope­
rar-se um a m utação, não num a d ata futura, porém im ediatam en­
te, instantaneam ente; e essa m utação instantânea só pode veri­
ficar-se quando estais com pletam ente atento.
H á ainda um a coisa para exam inar, ou seja a questão do
amor. A m aioria de nós tem diferentes conceitos, idéias, opiniões
a esse respeito — am or divino e am or profano; am or a um só
e am or a todos; pode-se am ar a todos se se am a a um só? E
só conhecem os o am or porque somos cium entos. P ara nós o
ciúme faz p arte do am or. Vós am ais vossa esposa, vossos fi­
lhos, a fam ília; nesse am or h á ciúm e, inveja, am bição, avidez.
A família não representa para vós um fator de com odidade,
mas assum e um a enorm e im portância e se torna anti-social. E
onde há ciúme, inveja, avidez, am bição, com petição, é bem
óbvio que não há amor. Sabemos tam bém que a p alavra “ am or”
não é o fato. E se não há am or em nosso coração, em nosso ser,
por mais que nos esforcemos haverá sem pre aflição e conflito.
Sendo assim, com o pode a m ente ou o coração alcançar
essa coisa extraordinária cham ada “ am o r”? T odos falam a res­
peito dela, o político, o ladrão, o explorador, o sacerdote, o guru.
Todo o m undo traz nos lábios a palav ra “ am or” . M as descobrir
o que ele é, isso é outra coisa. Saber o que ele significa é coisa
muito diferente. N ão tendes nenhum a possibilidade de sabê-lo
quando tendes ciúme, inveja de outrem , quando vossa m ulher
olha para outro hom em , quando estais em busca d e poder, posi­
ção, prestígio. N ão há am or quando um guru diz que sabe e
que vós não sabeis, ainda que esse guru fale em am or e pronuncie
sermões sobre o am or. N o m om ento em que qualquer pessoa
diz “E u sei, e vós não sabeis” , essa pessoa que diz “ Sei” não
conhece o am or.

129
O am or, p o r conseguinte, não é um a coisa facilm ente adqui-
rível. Tem os de estar cônscios, o mais profundam ente possível,
das diferentes características, dos diferentes conflitos — estar
simplesm ente cônscios, observar, escutar. E não pode haver
am or quando a m ente está em botada. A m ente da m aioria de
nós está em botada porque a qualidade de educação que recebe­
mos em bota-nos a mente. A fim de preparar-vos para exercer
determ inada profissão técnica, concentrais nessa m atéria toda
a vossa energia. Q u e acontece quando vos concentrais numa
única coisa? A s outras partes definham , ficais insensível, incapaz
de perceber a beleza.
As religiões sem pre negaram a beleza. A beleza é conside­
rada pecado, porquanto excita os sentidos. Por conseguinte, de­
veis repeli-la; não podeis olhar um a árvore e ver a sua beleza.
A beleza do céu, de um rio em plena cheia — tudo isso é ne­
gado porque, dessa m aneira, podeis tornar-vos sensual, e isso
por sua vez é prazer. Por conseguinte, para as pessoas ditas
religiosas, a beleza está relacionada com o prazer. Tais pessoas
não são, absolutam ente, religiosas; são autênticos m undanos que
não com preenderam a vida.
P ara com preenderdes a vida, não podeis negar a vida. Para
com preendê-la, tendes de vivê-la. E não podeis vivê-la se não
sois livre, livre desde o com eço, desde a infância mesmo, para
olhar, observar, escutar, sentir. Em virtude desse observar, es­
cutar, olhar, a pessoa se torna delicada, afetuosa, atenciosa, cor­
tês: Há então um próxim o. O nde há consideração há afeição,
e esta não é produto do intelecto. E, quando tendes tal afei­
ção, talvez então daí provenha o am or — não no tempo, não
am anhã.
E, por certo, quando o violência deixou de existir (não
por meio da não violência, pois a violência só pode cessar quan­
do enfrentam os o fato da violência); quando a mente, está quieta
e o coração com preendeu real e profundam ente o viver (não
esta constante aflição, desespero e sofrim ento), então, em virtude
dessa com preensão, conhecereis o am or. E quando esse amor
existe, podeis fazer o que quiserdes. O céu está então aberto,
não um céu místico e longínquo, porém aqui neste m undo, nes­
ta vida.

23 de fevereiro de 1966.

130
BOMBAIM:
O conflito da dualidade

1 ^1 as últim as vezes que nos reunim os aqui, estivemos falan­


do acerca de vários assuntos, inclusive sobre o quanto im porta
se realize um a m utação radical na m ente e no coração hum anos.
Exam inam os a questão do tem po e dissemos que o pensam ento
é produto d o tem po e não pode em circunstância algum a operar
uma revolução, sendo apenas capaz de efetuar modificações c.
não aquela revolução radical de todo necessária. F alam os tam ­
bém sobre as questões do m edo, do sofrim ento e da morte.
E agora, nesta tarde, pretendo falar-vos, se o perm itis, so­
bre um a questão muito com plexa, cujo exam e requer um a m en­
te nova, uma m ente disposta a exam inar, a investigar, a desco­
brir por si própria, uma m ente capaz de indagar. M ui poucos
de nós são capazes de indagar. O que em geral fazem os é inda­
gar e querer achar um a resposta. O ra, decerto, a indagação que
exige resposta deixa de ser indagação, po rq u an to nesse caso
só estam os interessados na resposta e não n a própria questão.
O que vam os fazer nesta tarde, se possível, é indagar sem nos
pormos a fesperar pela resposta.
Para indagarm os, necessitamos de liberdade. M as se inda­
gamos com o intuito de achar um a resposta conveniente, confor­
tante, satisfatória, acabou-se a indagação. U m a das coisas mais
im portantes d a vida é o questionar, o nunca aceitar, porém
sempre dizer “ n ão ” . Assim é que se com eça a descobrir. D e­
vemos ser sem pre capazes de dizer “n ão ” , em vez de dizermos
sem pre “sim ” . D esse m odo com eçam os a descobrir por nós m es­
mos, sem perguntar nada a ninguém.
V am os tratar de um assunto sum am ente im portante. Em ­
prego a palavra “sum am ente” sem exageração; o assunto é de
fato im portantíssim o. Porque, se a pessoa não sabe m editar, se
desconhece o significado da m editação, isso é o m esmo que estar
cego. N unca verá a beleza do céu, nunca verá as cores, nunca
verá os m ovim entos das árvores, os m orros, a beleza da T erra.
E o descobrim ento do que significa m editar — não do “com o”
m editar — exige um a m ente apaixonada. Mui poucos dentre
nós são capazes de apaixonar-se profundam ente. A ndam os atrás
do prazer e tom am os o prazer por paixão. A paixão não se
encontra no cam po do tem po, mas o prazer está sem pre dentro
desse cam po. E nós necessitam os de paixão para indagar e pros­
seguir indagando até o fim. E quando tendes paixão, tendes ne­
cessariam ente energia; a energia não é produto do pensam ento,
de nenhum a operação m ental. V am os, pois, investigar juntos
o que significa m editar.
A ndam os sem pre em busca de uma certa coisa de m isterio­
so em nossa vida, porque nossa existência é bastante tediosa,
cheia de solidão e fealdade, sem valor nem significação. Tem os
de freqüentar diariam ente um escritório, de trabalhar em v ã o . . .
em nossa existência há tanto tédio, tan ta solidão, toda ela é tão
pouco significativa que precisam os de algum m istério, do senti­
m ento de alguma coisa de rom ântico, de místico. E por meio
da m editação esperam os alcançar essa experiência rom ântica,
mítica. A m ente indagadora nunca está em busca de experiência.
Peço-vos prestar toda a atenção a isto. Porque, se o não fizerdes,
no fim de tudo vos vereis de mãos vazias e direis: “Ele nunca
nos disse com o devem os m editar” . O “ com o m editar” não nos
interessa; m uito mais im portante é saber-se o que é m editação.
A pessoa que pergunta com o deve m editar está desejando algu­
m a experiência. Porque o m undo é tão superficial e vazio, e
tão entediante, nossa vida pouco significa. P o r isso, desejam os
mais e mais experiências, e por meio das drogas, de várias form as
de m editação e auto-hipnose, etc., esperam os ter experiências
mais profundas.
Tem os pois, de com preender o significado da experiência.

132
Necessitam os de experiência para adquirirm os proficiência. Para
uma pessoa se to rn ar um bom m édico necessita de experiência,
isto é, de prática. Um bom cirurgião faz num erosas operações
e sabe que suas m ãos trabalham com m uita precisão. Essa p re ­
cisão e segurança das mãos resultam de longa experiência. M as,
como dissemos, querem os experiência num a diferente dim ensão,
num nível diferente, e p o r isso perguntam os com o se deve m e­
ditar, o que se deve fazer. Esse desejo do “com o” é determ i­
nado pelo prazer que estam os buscando num a experiência mais
significativa. Eis p o r que buscam os um m étodo, um sistema, um
m odo de nos exercitarm os; por isso é que se tom am dessas dro­
gas m odernas que exaltam a sensibilidade da pessoa, dando-lhe
uma experiência, experiência sem pre dependente das suas con­
dições de espírito, de coração, de cultura, de conduta, de crença.
De m odo que as experiências, as visões, os m étodos suscitam a
“resposta” d itad a pelas condições da pessoa. Assim, toda e
qualquer experiência, visão, exigência de m ais sensações, de uma
percepção m ais am pla, está sem pre na dependência do prazer que
a pessoa está buscando.
Assim, todo aquele que realm ente pretende investigar esta
questão da m editação — e vós deveis investigá-la — deve livrar-
se com pletam ente do m étodo e do desejo de experim entar. P o r­
que, se desejardes um a experiência, “p rojetareis” aquilo que
desejardes experim entar. P ortanto, deveis pôr tudo isso à m ar­
gem, p a ra poderdes com eçar a investigar. Porque, se estiverdes
investigando com o fim de experim entar u m a certa e fantástica
visão de vosso deus insignificante, criado p o r vossa m ente insig­
nificante ou pela cultura na qual fostes educado, experim entareis
tal visão, porém ela será o resultado de vossa p ró p ria estreiteza
e insignificância: não estará, absolutam ente, em nenhum a rela­
ção com a realidade. E stá visto, pois, que n ão há nenhum m é­
todo ou sistem a de m editação. O utrossim , m editação não é
oração, não é dirigir rogos e súplicas a um a certa divindade,
pelo fato de estardes doente, de desejardes um em prego m elhor
etc. Se já pusestes tudo isso à m argem , podeis com eçar a inves­
tigar o que é m editação. Porque, com o já disse, se não fordes
capaz de m editar não conhecereis o valor d a m editação; jam ais
sabereis o que é a beleza; qual um cego, qual um hom em m orto,
não ouvireis o ciciar da brisa entre as folhas, não vereis o pás­

133
saro nos ares, não apreciareis a beleza dos m orros, não ouvireis
o grito solitário de um animal no meio d a noite. P ortanto, todo
ente hum ano deve com preender o que é a m editação.
E m prim eiro lugar, com o dissem os, toda investigação exige
paixão. Pode-se investigar acidentalm ente ou por curiosidade
ou, ainda, investigar com um motivo. Se investigais com um
motivo, ou por curiosidade, ou acidental e passageiram ente, ja­
mais tereis a paixão necessária para indagar e prosseguir inda­
gando até o fim. E , p ara terdes paixão, necessitais de energia.
Com o temos dito, o prazer e o entusiasm o não significam pai­
xão. A paixão im plica um a energia constante, persistente, não
lim itada ao cam po de vossa m ente insignificante. Se desejais
conhecer algum a coisa — o que quer que seja — precisais de
abundante energia para descobri-la. É isso que vam os fazer nes­
ta tarde.
Em prim eiro lugar, com o libertar essa energia? — um a
energia não deturpada, não resultante de tortura; um a energia
livre; um a energia não encerrada no espaço de nosso pensam en­
to, de nosso desejo, de nosso prazer. E o libertar dessa energia
não contam inada pelo pensam ento requer m uita atenção, total
autoconhecim ento. A energia é dissipada pelo conflito, tanto
exterior com o interior. Para acum ular essa energia diz-se que
é preciso fazer um as certas coisas: a pessoa tem de ser celiba­
tária, tem de conter, de controlar, de regular, de treinar a ener­
gia. Fazer isso é m oldar a energia, é confiná-la num a fórm ula
e im prim ir-lhe um a determ inada direção conform e o motivo.
Por conseguinte, nós consum im os nossa energia por meio
do conflito. Se, conform e dizem os santos, a pessoa tem de ser
celibatária para possuir essa trem enda energia, que sucede? O b­
servá-lo em nós mesmos. O que há é só repressão, controle, e
por todo o resto da vida um a batalha com vós mesmo — com
vosso organism o, vossa m ente, vossos sentim entos. Ao olhardes
outras pessoas, desaguçais os vossos sentidos a fim de preser­
vardes essa energia, de transm utá-la ou transfundi-la. Dessa
m aneira banis toda a sensibilidade à beleza — não olhais se­
quer um a árvore — um a vez que a sensibilidade requinta os
sentidos, fazendo-vos sentir um grande deleite em olhar uma
árvore, um hom em , uma m ulher. E o sexo é tabu para o ho­
mem que deseja achar Deus (o que quer que isso signifique).

134
Tudo is.so implica repressão, deform ação, controle, é como por­
des um a tam pa em vós m esm o; por dentro ficais em efervescên­
cia. T al processo constitui um a perversão da energia.
Com o o sexo faz parte da vida, tendes de com preendê-lo,
e não de reprim i-lo, de negá-lo ou ceder às suas exigências. Ele
assume uma im portância trem enda em nossa vida. Q uando não
se encontra nenhum a possibilidade de descarga (da energia)
por meio do intelecto, das em oções, da sensibilidade, é ele a
coisa única que nos resta e que pode proporcionar-nos satisfa­
ção, prazer. N ão estamos advogando a incontinência. Como
disse, precisam os com preender o sexo.
Estais, pois, percebendo que para term os paixão precisa­
mos de energia; e essa energia deve ser inteiram ente livre e não
devemos pervertê-la. A m ente torturada pelo conflito não é,
decerto, um a m ente livre; sua energia está sendo sem pre defor­
mada, pervertida, condicionada, reprim ida. E, em tais condi­
ções, com o pode a mente investigar? Q ualquer investigação
exige m uita vitalidade, vigor, energia. E desperdiçam os toda a
energia em conflito: o conflito da dualidade; o bom e o m au,
isto é certo e aquilo é errado, isto tem de ser feito e a idéia,
a fórm ula segundo a qual estais atuando. Tendes, pois, como
agora estais fazendo, de descobrir uma m aneira de com preen­
der essa dualidade e nunca mais vos achardes em conflito por
causa dela.
Que é dualidade? Existe a dualidade — hom em e mulher,
preto e branco, m anhã e tarde, E U e N Ã O E U , desejo ter muito
sucesso e com esse objetivo estou trabalhando, etc. Vivemos
nessa dualidade. O ntem , hoje e am anhã; odiar e querer alcan­
çar o am or; ser violento e desejam um estado de não violência;
ação e inação. Sabemos o que é a dualidade e nesse beco vi­
vemos aprisionados. O pensam ento está sendo constantem ente
batido, a oscilar entre os dois opostos e a criar aflição para si
próprio. Tem os, pois, de com preender a dualidade, a fim de
a transcenderm os. N ão podem os transcendê-la se não a com ­
preendem os.
Assim, cum pre indagar com o surge a dualidade. Isso não
quer dizer que não exista dualidade, que não exista este m undo
e um a certa coisa muito além dele, que não exista brutalidade
e am or, porém , sim, que temos de com preendei a realidade des­

135
se conflito existente na dualidade. Se não o com preenderdes
e dele não vos livrardes, a energia que tendes de despender no
conflito se deform a, se perverte e, por conseguinte, ficais sem
energia p ara indagar, p ara investigar com paixão com o surge
a dualidade e com o caís na arm adilha dos opostos.
Q ue é que torn a a m ente escrava da dualidade? T ende a
bondade de p restar atenção. E sta não é um a pergunta super­
ficial. Ela exige vossa atenção. Exige vossa capacidade de p e­
netração. Porque existe essa divisão em hinduísta e m uçulm ano,
entre católico e não católico — por quê? V ossa p á tria e a pátria
de outro, vosso Deus e o D eus de outro, céu e inferno — por quê?
Para o saberm os, tem os de investigar o processo do pensar. O bje­
tivam ente, qualquer um pode analisar com m uita clareza. Pode-
se ver m uito claram ente quais são as causas d a guerra; para
isso não se necessita de um a inteligência m uito atilada e pene­
trante. H á m uitas causas da guerra. O descobrim ento dessas
causas não vos habilitará a sentir que a guerra e o ódio destroem
a hum anidade. N ão há quantidade de análise que possa dar-vos
tal sentim ento. P ortanto, é necessário não só analisarm os m uito
claram ente, objetivam ente, im piedosam ente, sãm ente, m as tam ­
bém term os aquele sentim ento. Porque por meio da análise
nunca se alcançará tal sentim ento, o sentim ento de “ ver um a
coisa com pletam ente” . Para isso, necessita-se de paixão.
V am os, pois, exam inar juntos a questão d a dualidade. V ede,
por favor, que não estais m eram ente escutando as palavras do
orador: estais, em verdade, observando, através das palavras
do orador, os fatos no meio dos quais estais vivendo em cada
dia. De contrário, visto que vamos investigar profundam ente a
questão da m editação, não tereis possibilidade de acom panhar
essa investigação a qual, do com eço até o fim, é m editação; é o
estado de atenção que nada tem em com um com a concentra­
ção. Q ualquer criança, qualquer colegial é capaz de concentrar-
se. M as, p a ra se exam inar a questão do com eço até o fim, p o n ­
do-se à m argem todos os desejos, am bições e prazeres pessoais
e tratando-se de descobrir tudo o que diz respeito à questão da
dualidade, p a ra isso a atenção é necessária. Porque, com o dis­
se, se assim não fizerdes, o conflito, em todas as suas form as,
irá perverter a energia, isto é, esperdiça-se a energia. Só q uan­
do a m ente não deixa desperdiçar-se a sua energia e é capaz de

136
funcionar plena e vigorosam ente, sem esforço algum, só então
essa energia terá um extraordinário alcance. E nós vam os fa­
zer essa investigação nesta tarde, não só para que com preendais
a questão d a dualidade, mas tam bém para que dela vos liber­
teis. N ão podereis libertar-vos p o r meio da análise, porém uni­
cam ente com o percebim ento da verdade que só pode ser perce­
bida quando temos o sentim ento de que a guerra e o ódio não
resolvem problem a algum. E essa verdade não pode ser perce­
bida, se tratam os da questão apenas intelectualm ente.
P o r que é que nossa m ente, que todo o nosso ser se acha
envolvido neste conflito da dualidade? Por outras palavras, por
que é que as próprias raízes de nosso ser geram conflito? Posso
olhar p a ra um a m ulher, p ara um autom óvel, p a ra qualquer
pessoa; porque ficar em conflito? Posso perceber que há coisas
belas e coisas feias; mas, por que o conflito? Posso ver a beleza
de um rosto, o horrível com portam ento dos entes hum anos, mas
por que deixar-m e envolver em qualquer espécie de conflito?
Exam inem os isto. Para fazê-lo, tem os de atacar a própria raiz, e
não os ram os, os sintomas.
E nquanto houver pensador e pensam ento, haverá inevita­
velmente dualidade. E nquanto houver um sujeito a buscar algu­
m a coisa, tem de haver dualidade. E n q u an to existir um expe­
rim entador e um a coisa para ser experim entada, tem de haver
dualidade. H á, pois, dualidade quando existem o observador
e a coisa observada. Isto é, enquanto houver um centro, o cen­
sor, o observador, o pensador, o sujeito que busca, o experi­
m entador — haverá necessariam ente o oposto.
O ra, é possível pôr-se fim a todo o buscar? T ende a bonda­
de de escutar com total atenção. Porque no m om ento em que
começais a buscar está criado o objeto que ides buscar. E n ­
quanto existir um experim entador a desejar experim entar, estará
criado o oposto com o qual ele en trará em conflito. E nquanto
houver censor, juiz, um a entidade julga, avalia, critica, condena,
existirá necessariam ente o oposto e, por conseguinte, o conflito:
O ra, pode o pensador, o observador, term inar sem fazer esfor­
ço algum? . Se o observador faz algum esforço p a ra pôr fim a
si próprio, esse esforço representa uma perversão, um desper­
dício de energia, e redunda sem pre em conflito.
Pois bem ; é possível olhar sem o observador? Espero estar

137
tornando claro o assunto. T enho a possibilidade de olhar para
aquela casa sem o observador, de m odo que o observador seja
a coisa observada e, por conseguinte, não h aja conflito ne­
nhum ? E spero que enquanto falo estejais observando a vossa
mente, o vosso coração. Porque, se o não fizerdes, não sa­
bereis dar o próxim o passo.
Podeis olhar para uma coisa sem pensam ento? Isso não
significa ficar dorm indo, num estado de vacuidade. Podeis olhar
aquela árvore, aquela flor, aquela m ulher, ou aquele céu do
sol poente, sem que nisso o observador esteja a tom ar parte
e a julgar? Isto é, quando olhais um a flor, um hom em , uma
m ulher, uma criança, estais olhando a flor ou a pessoa, ou
estais olhando a imagem que dela tendes? Ao olhardes vossa
esposa, vosso filho, vosso vizinho, tendes imagens deles, cons­
tituídas de lem branças. A imagem que tendes de vossa esposa
e a imagem que ela tem de vós estão a olhar-se. Ao olhar­
des aquela flor, não a estais olhando com os vossos olhos, porém
a estais olhando através da palavra, do conhecim ento botânico
que tendes da flor, do nome que lhe dais; por conseguinte, nãc
estais olhando.
Mas, se puderdes olhar uma coisa sem lhe dar nom e nem
avaliá-la, porém observando-a realm ente, não há então nenhum
observador. Isto é, se sois capaz de o lhar vossa, am bição, vosso
ódio ou vossa cólera — que acontece? Justificais o que estais
vendo. Digamos que tendes avidez — que é um a outra form a
de ambição. Ao olhardes a avidez, que sucede? Ou a justificais,
dizendo que todo o m undo a tem, ou condenais, porque tendes
certos conceitos m orais relativos à avidez. Conseqüentem ente,
nunca entrais em contato com o fato — a avidez. Sois sem pre
a entidade que diz “ E u sou ávido” : “E u ” e a avidez somos duas
coisas diferentes. M as é o próprio observador que é a avidez.
Sc fordes capaz de olhar o fato — avidez, violência etc. — di­
retam ente e não por meio de palavras, de fórm ulas, conceitos,
imagens, não há então observador nenhum e, por conseguinte,
nenhum a dualidade: só há o fato e, assim, não existe conflito.
D essarte, quando olhais o fato, quando só há a observação
desse fato, então, por não haver conflito, tendes a energia neces­
sária para olhar, observar, agir. Q uando, pois, o observador é
a coisa observada e começais a perceber a dualidade com seu

138
cortejo de dores, ânsias, conflitos, torm entos, a dualidade per­
de toda a sua significação e vitalidade. E vós tendes de ver
isso e não dizer sim plesm ente “C om o vê-lo?” . Já explicam os o
que é que im pede a m ente de ver o fato de que o observador
é a coisa observada. Q uando o vedes, já não estais em conflito,
já não estais na arm adilha da dualidade; p o r conseguinte, há
uma libertação de energia — energia que não está sendo dirigi­
da e, portanto, é livre.
E agora, depois de terdes percorrido todo este cam inho,
que sucedeu? P ara com preenderdes que o conflito e o esforço
consciente ou inconsciente pervertem a energia, em qualquer
nível e em qualquer m om ento, tivestes de prestar total atenção;
estivestes “ escutando” , vigiando, observando a vós mesmo. Nesse
processo gerou-se naturalm ente um a certa disciplina. N o escutar
destas palestras — se de fato as escutais — esse próprio ato
de escutar é um ato de disciplina. T al disciplina não é im posta
à força, não é “ im itativa” , não se ajusta por m edo a nenhum
padrão. Estivestes escutando porque estáveis interessado e esse
próprio interesse criou sua peculiar disciplina. Por conseguinte,
a energia que se consum ia na repressão no ajustam ento etc., é
agora um a energia altam ente disciplinada — não por efeito do
desejo, do prazer ou da experiência — e é altam ente proficiente.
T udo isto — a presente palestra e as anteriores — consti­
tuiu um desenrolar, um desdobrar do processo d o pensar, do
processo da consciência. E agora — se chegastes a esse ponto,
não verbalm ente, m as realm ente — podeis com eçar a investigar
a questão do espaço e do vazio. H á necessidade de espaço, pois,
de contrário, não pode haver liberdade. N a m ente lim itada não
há espaço nenhum . A m ente respeitável, “ burguesa” , educada
com muito esm ero e, portanto, cheia de problem as, ansiedades,
temores, desesperos — não contém espaço nenhum . Portanto,
cum pre-nos exam inar a questão do espaço.
Que é espaço? O espaço é criado pelo objeto. T ende a
bondade de escutar e com preender. A qui está este microfone
— o objeto. Por causa do objeto existe espaço ao redor dele;
e o objeto existe por causa desse espaço. Ali está um a casa
e naquela casa há um a sala. A sala, por causa das quatro p a ­
redes, cria o espaço existente entre as quatro paredes; e há
espaço ao redor da casa, do lado de fora. D entro de nós há

139
espaço porque existe um centro. E ste centro é o observador,
o censor, o sujeito que busca, a entidade que diz “ E u fui” , “ Eu
sou”, “E u serei” . Esse centro cria espaço em r e d o r 'd e si; do
contrário, ele não poderia existir.
O ra, pode haver espaço sem aquele centro? Só se pode
responder a esta pergunta sem “verbalização” , sem argum en­
tação, sem se apresentar tal ou tal opinião. Só há possibilidade
de resposta sem o centro. E , se o centro existe e está a criar
espaço, não h á nesse espaço liberdade nenhum a; a pessoa está
para sem pre escravizada.
A libertação, p o r conseguinte, requer que cada um des­
cubra por si próprio o que é o “espaço sem centro” . Onde
existe o centro, o objeto, este está criando espaço em redor de
si; e, visto que ele existe e só pode existir no espaço que o
cerca, não tem liberdade de espécie algum a. Conseqüentem ente,
enquanto existir um centro — isto é, o observador, a entidade
que busca — não há liberdade, pois só pode haver liberdade
quando h á espaço absoluto e não um espaço encerrado entre os
limites da mente.
E temos tam bém de investigar a questão do vazio, um a
questão da mais alta im portância. Porque, se não houvesse vazio,
nenhum a coisa nova poderia existir. Se só existe um a continui­
dade — que é tem po — então nenhum a atividade, nenhum a
ação decorrente dessa atividade, pode produzir coisa nova. O
que pode é só produzir um a “continuidade m odificada” . N ão
há mais tem po para exam inarm os isto. Só a m ente que com ­
preendeu o espaço, a m ente que conhece esse vazio, dele está
perfeitam ente cônscia, só ela é capaz de com pleta quietação.
A quietação, o silêncio, não é produto do pensam ento. O
silêncio existe fora do cam po d a consciência. N ão se pode dizer:
“Experim eritei um estado de silêncio” . Se o tendes experim en­
tado, isso não é silêncio. Se disserdes: “ Q uero descobrir o que
é o silêncio e vou p raticar o silêncio ficando calado” — se
disserdes isso ou coisa sem elhante, não tereis o silêncio. Já se
com preendestes a consciência, a dualidade, o tem po, e a questão
da disciplina, da ordem , isso significa que investigastes e desco­
bristes por vós m esmo o que é espaço e o que é vazio. N a rea­
lidade, não podeis descobri-lo: ele desce sobre vós, tòrna-se
presente. D o m esm o m odo, assim com o não se pode experi­

140
m entar o espaço e o vazio, não se pode experim entar o silêncio.
M as, trata-se de um estado absolutam ente essencial. Porque
só nele pode haver um a energia com pletam ente livre, inconta-
m inada, não dirigida pelo prazer.
E agora — se a m ente percorreu toda esta distância (e
isso faz p arte d a m editação) — apresenta-se um fato que não
se pode expressar p o r meio de palavras. Porque as palavras têm
sem pre um significado lim itado. T o d a palavra é “ carregada” .
Por exem plo, a p alavra “ am or” — quê enorm e “carga” ela
contém , que peso ela tem! O u a palavra “virtude” . O ra, nem
a palavra “ am o r” nem a p alavra “virtude” constituem o fato.
O fato “am o r” não é a palavra. M as, para poderm os viver nesse
estado de am or e de beleza, necessitam os de espaço, de vazio e
de silêncio. D o silêncio vem a ação; isso não é “ aprender
prim eiro e depois agir” . N enhum a ação é então geradora de
conflito. E ntão, a vida, o viver neste m undo, o freqüentar dia­
riam ente um escritório, o fazer coisas de todo gênero — se torna
um a alegria, um a bem -aventurança que não é prazer, um êxtase
não oriundo do tem po. E , sem isso, não im porta o que façamos,
nem ordem nem desordem social, nem guerras nem conflitos
produzirão um ente hum ano feliz.
O que traz a bem -aventurança é o percebim ento total desse
intenso silêncio de onde em ana a ação. Aí, sabereis o que é
bem -aventurança.
27 de fevereiro de 1966.

141
BOMBAIM:
Que é ação

m IÁ sta é a últim a palestra deste ano. A meu ver, quanto mais


se observam as condições do m undo, tanto mais evidente se
torna a necessidade de um a ação diferente. O bserva-se no
m undo, inclusive na Índia, tanta confusão, sofrim ento, aflição,
fome, um declínio geral. E stam os bem cônscios desse fato e
tam bém o conhecem os pela leitura dos jornais, revistas e livros.
IVÍas tudo fica no nível intelectual, porque não parecem os ca­
pazes de fazer coisa algum a em relação a ele. Os entes hum anos
se vêem no desespero, há neles m uito sofrim ento e frustração e
ao redor deles, caos. Q uanto mais se observa e penetra esse fato
— não intelectual nem verbalm ente, porém estudando, obser­
vando, agindo, investigando, exam inando — tanto melhor se pode
ver com o estão confusos os entes hum anos. E stão com pleta­
m ente desorientados. M uitos julgam que não estão desorien­
tados porque pertencem a determ inado grupo ou círculo. Q uanto
mais se preparam , quanto mais executam certas coisas, quanto
mais se entregam a atividades sociais, a isto ou àquilo, tanto
m aior a sua certeza de que o m undo será transform ado graças
à sua insignificante ação.
O m undo se acha em guerra; e acredita-se que, pelo poder
de uma certa prece, uns poucos indivíduos, reunidos e pronun­
ciando determ inadas palavras, serão capazes de resolver esta
imensa questão que há mais de 5 mil anos perm anece sem
solução. E continuam a repetir-se tais palavras, em bora se saiba

142
que jam ais se porá fim à guerra dessa m aneira. C ada um, pois,
pertence a um certo grupo, a um certo p artid o político, a uma
seita religiosa, etc., e aí se deixa ficar, aferrado ao passado, ao
que foi; nessa rede fica aprisionado. Podem os adm itir —
quando no-lo m ostram — existe caos, declínio geral, deterio­
ração, exterior e exteriorm ente, e perceber que, com efeito, o
homem está desorientado. E sem procurarm os descobrir por que
ele se acha nesse estado, por que há tanto caos e aflição, sem
nos darm os ao trabalho de exam inar profundam ente esta questão,
respondem os superficialm ente, alegando que não estam os se­
guindo os m andam entos de Deus, ou que não am am os; dam os
respostas superficiais, perfeitam ente banais, sem valor nenhum .
E, no d ecorrer destas palestras — se as estivestes escutando
verdadeira — deve ter-vos ocorrido a pergunta: P o r que tanta
desordem , por que tanta confusão? Se investigardes bem profun­
dam ente, verificareis que o hom em é indolente. O caos se ori­
ginou da preguiça, da indiferença, da inércia do homem, do seu
espírito de aceitação. E sta é a m aneira mais fácil de viver:
aceitar tudo, ajustar-se ao am biente, às condições, à cultura em
que se está vivendo; aceitar, p u ra e sim plesm ente. Essa acei­
tação gera um a trem enda indolência. M uito im porta com pre­
endermos que, com o entes hum anos, somos bem indolentes.
Pensamos ter resolvido o problem a d o viver quando temos
um a crença e dizem os: eu creio nisto ou naquilo. T a l crença se
baseia essencialm ente no m edo e n a incapacidade de resolverm os
o problem a do m edo, fato esse indicativo de um a u m a indolência
de raízes m uito profundas.
Observai-vos. Caím os num p adrão de pensam ento e de
ação, onde nos deixam os ficar por ser m uito mais côm odo, pois
já não temos necessidade de pensar; antes, talvez tenham os refle­
tido um pouco, mas agora não há mais necessidade de fazê-lo.
Isso proporciona ao indivíduo um a enorm e satisfação com o fazê-
-lo pensar que está realizando um ótim o trabalho; ele não ousa
questionar nada, porque isso é m uito incôm odo e perturbador.
Não ousais questionar vossa religião, vossa com unidade, vossa
crença, a estrutura social, o nacionalism o, a guerra; aceitais tudo.
Observai-vos interiorm ente. V ede com o sois indolente. O caos
atual é devido a vossa indolência, porque desististes de ques­
tionar, desististes de duvidar; porque aceitais.

143
Conscientes d a terrível desordem existente tanto externa
com o internam ente, esperam os que algum acontecim ento exterior
venha estabelecer a ordem , ou que algum líder ou guru possa
ajudar-nos a sair dela (da deso rd em ). Dessa m aneira vivemos
há séculos e séculos, sem pre a contar que outro resolva os nossos
problem as. Seguir outra pessoa é a essência da indolência. Chega
um a certa pessoa que provavelm ente refletiu um pouco, teve tais
visões, e sabe fazer isto ou aquilo. Essa pessoa vos ensina o
que deveis fazer e ficais plenam ente satisfeito. O que desejam os
verdadeiram ente, neste m undo, é conforto, satisfação; querem os
que outro nos m ostre o que devem os fazer. T udo isso revela a
nossa indolência; não querem os pensar a fundo em nossos pro­
blemas, olhá-los, dissipar todas as dificuldades. Esta indolência
não só nos im pede de questionar, de investigar e exam inar, mas
tam bém de aplicar-nos a um a questão muito mais profunda:
descobrir o que é ação. O m undo se acha num estado de caos,
e nós num a grande aflição. N enhum a das soluções, das dou­
trinas, das crenças, das “exibições” conhecidas pelo nom e de
m editação — nenhum a dessas coisas resolveu nada. E se tivés­
semos a possibilidade de descobrir por nós mesmos o que é
ação, trataríam os de agir, de fazer algum a coisa de vital, de enér­
gico, de dinâm ico, p a ra instituir uma m entalidade diferente, uma
existência de diferente natureza.
C um pre-nos, pois, exam inar a questão da ação, não do que
é ação correta e ação incorreta, porque sc nos abeiram os da
ação com essas idéias de “ correto” e “ incorreto”, já estam os no
cam inho errado. D ir-nos-ão que isto é ação correta, aquilo ação
incorreta, e nós, já inclinados à indolência, não tratarem os de
investigar a fundo a questão. Por exemplo, aceitam os com o cor­
reta um a dad a m aneira de agir, porque a pessoa que a preconiza
é um brilhante advogado; e portanto a adotam os. Mas o que
nós vam os fazer nesta tarde é descobrir o que é ação. Tende em
m ente que não estam os discrim inando entre ação correta e ação
incorreta. Só há ação — nem correta, nem incorreta; nem ação
em conform idade com a Bíblia, o G ítâ ou o A lcorão, ou em
conform idade com o com unism o o socialism o, etc. H á só ação,
ou seja, viver. T em os de descobrir a m aneira de viver, o com o
viver — mas não um m étodo; porque se seguimos um m étodo,
um sistema, um a norm a, estam os dando mais alento à nossa
inata indolência. P ortanto, precisam os de um a mente muito

144
esperta para não serm os apanhados nesta arm adilha da indo­
lência, na qual de m uito bom grado nos deixam os cair.
Tende a bondade de escutar o que se está dizendo. Com o o
escutais? Q uando estais escutando verdadeiram ente, vós o fazeis
a fim de com preender o que o orador está tentando transm itir;
com preender, e não discordar ou concordar. P ara com preen­
derdes por vós m esm os um a coisa, tendes de escutar, de inves­
tigar, de exam inar; não podeis aceitar nem dizer: “ E spero que
ele confirm e o m eu ponto de vista, que é correto” . Tendes de
escutar; e, evidentem ente, esta é um a das coisas mais difíceis.
A m aioria de nós gosta de falar, de expressar-se. A ndam os cheios
de opiniões e idéias que não são nossas, porém de outrem .
Aceitamos um a enorm e quantidade d e frases banais, as quais
papagueam os e pensam os ter com preendido a vida. Estais, pois,
escutando — não uma explicação, nem vossos preconceitos e
idiossincrasias, nem as coisas que já sabeis; estais escutando a
fim de com preender.
Para com preender, a mente deve estar perfeitam ente quieta.
Como já dissemos, para se com preender qualquer coisa dois
estados são essenciais: tranqüilidade m ental e atenção. Só dessa
m aneira podem os escutar seja nossa esposa, nossos filhos, nosso
patrão, seja o grasnido dos corvos ou o grito de um a ave. É
necessária a tranqüilidade, é necessária a atenção; nesse estado
podemos escutar. E stam os então ativos, já não somos indolentes,
libertam o-nos do hábito de escutar parcialm ente, de parcialm ente
concordar, de estar só parcialm ente sérios e, p o rtanto, nunca
penetrando profundam ente o que estam os escutando. Assim, se
desejardes escutar verdadeiram ente, escutai não só o que diz o
orador, mas tam bém os barulhos do m undo; escutai os clam ores
do coração hum ano, escutai o caos, escutai vossa p ró p ria aflição,
vossa incerteza, vosso desespero. Se soubésseis escutar, seríeis
então capaz de resolver o problem a. Se escutardes vossas ago­
nias — se as tendes, com o a m aioria dos entes hum anos —
encontrareis a solução, estareis livre delas. M as n ão sereis capaz
de escutar nada, se disserdes: “ A solução deve corresponder ao
meu prazer, ao m eu desejo” — pois nesse caso só estareis escu­
tando a voz de vossos próprios desejos e de vosso prazer.
Aqui, pelo m enos nesta tarde, tratai de escutar para com ­
preender. P orque vam os exam inar um a questão que requer abun­
dante atenção, calm a investigação, detido exame. N ão é caso

145
para dizerdes: “M ostrai-m e o que devo fazer, e eu o farei” .
Visto que em torno de nós tudo está a desm oronar-se, faz-se
necessária um a ação de espécie totalm ente diferente — não ação
em concordância com fulano ou sicrano ou m esm o este orador.
Vam os averiguar por nós mesmos o que é ação, como viver —
porque viver é agir. T ornam os o nosso viver terrivelm ente caó­
tico, cheio de aflições, e tão inane.
P ara se descobrir o que é ação necessita-se de um alto
grau de m aturidade — m aturidade independente do tem po e não
como o am adurecer de um fruto na árvore, em seis meses. Se
precisais de seis meses p a ra am adurecer, já lançastes as sementes
da desgraça, já plantastes a árvore do ódio e da violência, que
conduzem à guerra. P ortanto, tendes de am adurecer im ediata­
m ente; e isso acontecerá se fordes capaz de escutar e, por conse­
guinte, aprender. O aprender não constitui um processo de
adição. A prender e adicionar para constituir conhecim ento e agir
com base nesse conhecim ento — é isso o que estam os sem pre
fazendo. Tem os experiências, crenças, pensam entos; e essas
experiências e pensam entos e idéias se convertem em conheci­
m ento, o qual nos serve de base para a ação. Por conseguinte,
não estam os aprendendo realm ente: estam os apenas a adicionar,
e adicionar, a adicionar. Tem os adicionado a nós mesmos um a
enorm e som a de conhecim ento nestes 2 milhões de anos;
todavia, continuam os a fazer a guerra, a odiar; nunca um m o­
m ento de paz e tranqüilidade; nunca um findar do sofrim ento.
O conhecim ento é necessário no terreno da tecnologia, da capa­
cidade profissional. M as, quando agis com base no conhecim ento,
que é idéia, já não estais aprendendo. A m aturidade, portanto,
nada tem que ver com o tem po e a evolução; vem ela quando
há o ato de aprender. Só um a m ente am adurecida é capaz de
escutar, de estar m uito atenta a tranqüila. A m ente sem m adu­
reza é que crê, que diz: “ Isto é certo e aquilo errad o ” e age sem
lógica.
V am os, p ortanto, aprender juntos a respeito da ação. Vós
ides pensar, escutar. V am os fazê-lo juntos, pois trata-se de vossa
vida, e não da m inha; trata-se de vossa vida, de vossa aflição,
de vossa confusão. T endes de descobrir o que é ação.
Q ue é ação? É fazer algum a coisa. T o d a ação implica um a
relação. N ão h á ação isolada. A ação, com o ora a conhecemos,
está em relação com a idéia. D ecerto, a idéia e a execução

146
dessa idéia é um a coisa excelente no dom ínio da tecnologia, m as
se torna um em pecilho quando se trata de com preender as re­
lações. As relações se alteram constantem ente. V ossa esposa ou
vosso m arido não é sem pre a m esm a pessoa. M as, por causa
de vossa indolência, de vosso desejo de conforto, segurança,
dizeis: “E u o conheço bem ou a conheço bem ; ele ou ela é
assim ”. D esse m odo “fixastes” a pobre m ulher ou o pobre
homem. Vossas relações, pois, são de acordo com um a imagem
ou idéia. Dessa im agem ou idéia do estado de relação provém
a ação. Prestai atenção a isto, por favor. N ão conhecem os outra
espécie de ação: “E u creio” , “ E u tenho princípios” , “ Isto é cor­
reto ”, “ A quilo é errad o ” , “ Assim é que deveria ser” — e agimos
nesta conform idade. O hom em é violento; sua violência se m ostra
na am bição, na com petição, em b ru tal agressividade — reações
próprias do anim al — e tam bém na cham ada disciplina, que é
repressão, etc. Dessa base é que agimos, e por isso há sempre
conflito na ação.
Dizemos que ação deve obedecer a um padrão, distinguir o
certo do errado, em conform idade com certos princípios e cren­
ças, com a tradição, as influências do am biente e a cultura em
que som os criados. A ação, portanto, conform e a vemos, e
no que respeita à nossa vida, é regulada por um a determ inada
imagem, p adrão ou fórm ula. E tal fórm ula, im agem ou idéia
até hoje não resolveu nada, neste m undo, nem política, nem
religiosa, nem econom icam ente. N ão resolveu nenhum de nossos
problem as fundam entais. E n tretanto, continuam os a insistir em
que essa é a única m aneira certa de agir. D izem os: “Com o
podem os agir sem pensar, sem ter uma idéia, sem seguir, dia
por dia, um a certa rotina?” . E , assim, aceitam os o conflito como
a norm a da vida — o conflito resultante de nossas ações, de
nossa m aneira de vida, de nossas relações, de nossas idéias, de
nossos pensam entos. Eis um fato incontestável: T endes um a
idéia, um princípio, vossa crença no hinduísm o, etc., e estais
agindo em conform idade com essa tradição, dentro dessa estru­
tura; desse m odo, não pode deixar de haver conflito. A idéia,
“ o que deveria ser” , difere do fato, o que é. Isto é m uito simples.
Dessa m aneira temos vivido há milênios. O ra, existe outra m a­
neira de vida — um a vida de ação e de relações, porém sem
conflito, ou seja, sem idéia?
Prestai atenção. V ede prim eiram ente o problem a. “ P ro ­

147
blem a” — que significa esta palavra? Um desafio. T odos os
desafios se tornam problem as, porque não sabem os “ responder'’.
A qui está um problem a, o problem a do m undo, um desafio
que vos é lançado, e não conheceis nenhum a outra m aneira de
“responder” a esse problem a, senão a velha m aneira: ajusta­
m ento, im itação, repetição, firm ação de hábitos; e consoante
essa m aneira de vida repetente, im itativa, habitual, agis. Essa
m aneira “hab itu al” de vida é o que cham ais “ ação”, e essa ação
tem causado caos e sofrim entos inenarráveis n a mente e no
coração hum anos.
Tal é o fato óbvio. D aí podem os prosseguir. N ão digais
depois que isto não é um fato, não vos iludais a este respeito.
Se o analisardes, penetrando bem fundo em vós mesmo, vereis
que ele pode ser form ulado m uito sim plesm ente: Tendes um
prazer e desejais a repetição desse prazer (u m prazer sexual
ou de outra espécie qualq u er) e ides levando pela vida esse
prazer, na m em ória ou no pensam ento; e tal prazer, tal pensa­
m ento, vos impele à ação; e nessa ação há conflito, há dor,
há aflição; estabeleceu-se o hábito e de acordo com ele agis.
O ra, existe outra m aneira de viver, totalm ente diferente,
ou seja o viver que é ação? Q uer dizer, “ escutastes” m uito
cuidadosa e atentam ente a m aneira com o tendes vivido até hoje
e sabeis de tudo o que ela envolve. E scu tar integralm ente signi­
fica ver, ouvir, exam inar o problem a em seu todo e não apenas
em suas linhas gerais. Q uando escutais o barulho daqueles
corvos com a m ente quieta, atenta, sem interpretar, sem con­
denar, sem resistir, isso significa estardes escutando integral­
mente. Estais escutando o som total: não o som produzido
por um corvo. Do mesmo modo, se souberdes “escutar” inte­
gralm ente o problem a da ação, esse problem a com que já estais
bem fam iliarizado; se souberdes “ escutar” a m aneira como estais
vivendo (procedendo d a idéia para a a ç ã o ), tereis então a
energia necessária p ara escutar outras coisas. M as, se não
“ escutastes” integralm ente vossa atual m aneira de agir, não
tereis a energia necessária para seguir o que agora se vai dizer.
Afinal, para se com preender qualquer coisa necessita-se de
energia, e para investigar um a coisa totalm ente nova é neces­
sária um a grande abundância de energia. M as para terdes essa
energia é preciso que tenhais “ escutado” — sem condenar nem
aprovar — o velho padrão de vida. Precisais tê-lo “escutado”

148
totalm ente, quer dizer, tê-lo com preendido, ter com preendido a
futilidade de viver dessa m aneira. A pós terdes “escutado” a futi­
lidade de tal padrão, estareis livre dele. Tereis então percebido,
não intelectualm ente, porém profundam ente, a inutilidade de
viver daquela form a; tereis então a energia necessária ao inves­
tigar. Se não tiverdes tal energia, n ão podereis investigar. Isto
é, negando aquilo que causou a presente aflição e conflito, a
cujo respeito já falamos, essa própria negação é ação positiva.
A este respeito, vou estender-m e um pouco mais. Pergun­
tam os: “Existe outra espécie de ação na qual não h aja conflito,
ação não iterativa, um a form a sem pre repetida de p razer?” —
Para averiguá-lo, temos de exam inar esta questão; Q ue é o amor?
N ão vos ponhais num estado sentim ental, em ocional ou extático!
Nós vam os investigar. O am or é, necessariam ente, negativo. Ele
não é pensam ento. O am or nunca é contraditório — mas o p e n ­
sam ento é. O pensam ento, que é um a reação da m em ória, baseada
nos instintos anim ais — pois esse é o m ecanism o do pensar —
é sem pre contraditório. E sem pre que há um a ação oriunda
do pensam ento, tal ação, que é contraditória, acarreta conflito
e aflição. E , ao investigardes, ao exam inardes se existe alguma
outra atividade não produtiva de dor, de ansiedade, de conflito,
deveis achar-vos num estado de negação. Com preendeis? Para
investigar, exam inar, cum pre achar-vos num estado de negação;
de contrário, não podeis exam inar. Deveis achar-vos num estado
de “não sab er” ; de contrário, com o exam inar?
O modo de vida a que estam os habituados é o que se
cham a o “ m odo positivo” , porque podem os experim entá-lo, p ra ­
ticá-lo dia após dia, repetidam ente, baseados na im itação, no
hábito, no seguir, no obedecer, no sermos treinados pela socie­
dade ou por nós mesmos. T udo isso é atividade positiva, onde
há conflito e aflição. Continuai a escutar, por favor. E quando
o negais (o m odo de vida positivo), esse m esm o processo de
negá-lo, o m esm o “ processo” de lhe voltardes as costas, é um
estado de negação, porquanto não sabeis o que vem depois. Isso,
decerto, não é com plicado. Intelectualm ente, parecerá com pli­
cado; mas não é. Q uando voltais as costas a um a coisa, o caso
está liquidado.
Dizemos agora que o am or é negação total. Nós não
sabem os o que ele significa. N ão sabem os o que significa o am or.
Sabemos o que é o prazer, o qual confundim os com o am or.

149
Onde está o am or, aí não está o prazer. O prazer, é óbvio,
resulta do pensam ento. O lho um a coisa bela; o pensam ento
entra em cena e com eça a ocupar-se com ela, criando um a im a­
gem. O bservai isso em vós mesmo. E ssa im agem vos p ro p o r­
ciona um enorm e prazer, a propósito daquele espetáculo e do
sentim ento que provocou; e o pensam ento dá a esse prazer
nutrição e continuidade. E na vida fam iliar isso se cham a “ am or” ,
mas nada tem que ver com o am or. Só se está interessado no
prazer; e onde está o desejo de prazer, encontra-se a continui­
dade no tem po. “E scu tai” bem isso. O am or, ao contrário, não
tem continuidade, porque o am or não é prazer. E, para se
com preender o que é o am or, para nos acharm os nesse estado,
a negação é necessária •— a rejeição do positivo. Certo? Podem os
prosseguir?
Vede, senhores! quando dizeis que amais alguém — vossa
esposa, vosso m arido, vossos filhos, isso im plica o quê? D espojai-o
de todas as palavras e sentim entos e em ocionalism os e conside­
rai objetivam ente esse am or. Q uando dizeis: “ am o m inha m ulher,
meu m arido, meus filhos” — que é que isso implica? Essencial­
mente, prazer e segurança. Isto não é cinismo. São fatos. Se
amásseis deveras vossas esposas e vossos filhos (deveras, e não
apenas p ara fruirdes o prazer de serdes m em bro de um a fam ília,
de um grupo restrito, insignificante, e terdes a possibilidade de
vos satisfazerdes sexualm ente e de dar largas ao vosso egotism o)
— teríeis um a educação diferente; não faríeis vosso filho inte­
ressar-se unicam ente na aquisição de aptidões técnicas, não o
ajudaríeis apenas a passar nuns exames estúpidos, de pouca
valia, a fim de obter um bom em prego; haveríeis de educá-lo
para com preender o processo do viver em seu todo — não
apenas um a parte, um segm ento, um fragm ento desta im ensidade
que é a vida. Se amásseis verdadeiram ente o vosso filho, nunca
haveria guerra; faríeis o necessário a esse respeito. Quer dizer,
não teríeis nacionalidades, nem religiões separativas, nem castas
— todos esses absurdos deixariam de existir.
E stá visto, pois, que o pensam ento não pode, em circuns­
tância alguma, criar um “estado de am o r” . O pensam ento só
é capaz de com preender o que é positivo, e não o que é negativo.
Isto é, com o se pode, por meio do pensam ento, descobrir o que
é o am or? Impossível. N ão se pode cultivar o amor. N ão podeis
dizer: “Exercito-m e todos os dias em ser generoso, bondoso,

150
delicado, cortês, em ter consideração p ara com outrem ” . Isso
não cria am or, pois é ainda ação positiva d itad a pelo pensa­
mento. Por conseguinte, só com a ausência do pensam ento é
possível com preender-se o que é “ser negativo” ; nunca por meio
do pensam ento. O pensam ento só é capaz de criar um padrão
e de agir em conform idade com esse p adrão ou fórm ula. Por
isso, há conflito. E para se descobrir um a m aneira de viver isenta
de todo e qualquer conflito, a todas as horas, deveis com pre­
ender esse am or que é negação total.
Senhores, com o se pode am ar, com o pode haver am or, quan­
do há atividade egocêntrica, seja na form a de virtude, de com pla­
cente respeitabilidade, seja na form a de am bição, de avidez, inveja,
com petição — tudo isso “processos” positivos de pensam ento?
Com o am ar, em tais condições? Im possível. Podeis afetar amor,
em pregar a palavra “ am or” , m ostrar-vos m uito em ocional e senti­
m ental, podeis ser m uito leal; mas nada disso tem alguma coisa
que ver com o am or. P ara com preenderdes o que é o amor,
tendes de com preender essa coisa positiva que se cham a “ pensar” .
Assim, em virtude dessa negação cham ada “ am or” , vem um a ação
da mais alta positividade porque não cria conflito. A final de
contas, é isto o que todos desejam os: V iver num m undo onde
não haja conflito, onde haja realm ente paz, externa e interna­
mente. Precisais de ter paz, senão sereis destruído. Só na paz
pode a bondade florescer. Só na paz se m ostra a Beleza. Se
vossa m ente está sendo torturada, se está ansiosa, se é invejosa,
se é um cam po de batalha, com o podeis ver o que é belo? A
beleza não é pensam ento. N enhum a coisa criada pelo pensam ento
é Beleza.
Para descobrirdes um a ação não baseada em idéia, conceito,
fórm ula, deveis “ escutar” toda aquela estrutura, vê-la, com pre­
endê-la integralm ente; pois por essa própria com preensão ficareis
livre dela. E stará então a vossa m ente num estado de negação,
que não significa acrim ônia ou cinism o; ela estará vendo a futi­
lidade de viver daquela m aneira e, portanto, porá fim a ela.
Q uando se põe fim a um a coisa, com eça a surgir o novo. M as
nós temos m edo de pôr fim ao velho, p o rque desejamos
traduzir o novo em term os do velho. Percebeis? Se verifico que
não am o realm ente m inha fam ília — e isso significa não ser
responsável por ela — estou então livre para conquistar outra

151
m ulher ou outro hom em ; isso, mais uma vez, é “processo” do
pensam ento. Por conseguinte, o pensam ento não é a solução.
A pessoa pode ser m uito inteligente e erudita; mas, para
descobrir um a m aneira de agir totalm ente diferente, que traga
felicidade à sua vida, ela deve com preender o inteiro m ecanism o
do pensar. E, pela p ró p ria com preensão do que é positivo — o
pensam ento — a pessoa entra num a dim ensão diferente, de
ação, a qual é, essencialm ente, am or. Q uer dizer: P ara inves­
tigar, a pessoa deve ser livre; de contrário, não pode investigar,
não pode exam inar. E o caos e a confusão atualm ente reinan­
tes no m undo requerem um reexam e com pleto, não segundo
as vossas condições, as vossas fantasias, prazeres, idiossincrasias,
ou os com prom issos que assumistes. Tendes de pensar na questão
de m aneira inteiram ente nova.
E o novo só pode surgir da negação e n ão da asserção posi­
tiva do que foi. E só pode tornar-se existente o novo quando
há aquele vazio total, que é o am or real. D escobrireis então, por
vós m esm o, o que é a ação isenta de conflito em todo e qualquer
m om ento; essa é a renovação de que a m ente necessita. Só
quando a m ente se tiver renovado p o r m eio d o am or, o qual
é a total negação (isenta de sentim entalism o, devoção ou obe­
diência) da m aneira de vida ditada pelo pensam ento positivo,
só então poderá ela construir um novo m undo, um novo estado
de relação. E só então estará capacitada p a ra u ltrapassar todas
as limitações e ingressar num a dim ensão totalm ente diferente.
Essa dim ensão é um a coisa que não há palavra, nem pensa­
m ento, nem experiência que seja capaz de descobrir. Só quando
se nega totalm ente o passado, que é pensam ento, só quando o
negais totalm ente em cada dia de vossa vida de m odo que nunca
haja um só m om ento de acum ulação — só então podeis descobrir
por vós m esm o um a dim ensão onde se encontra a suprem a feli­
cidade, um a dim ensão independente do tem po — um a coisa ina­
tingível pelo pensam ento hum ano.

2 de m arço de 1966.

152
NOVA DELHI:
Inclinações, temperamento, circunstâncias.

r onsidero necessário refletirm os sobre o que está acontecendo


em todo o m undo e não unicam ente neste país. Verificam-se
graves incidentes. Questões profundas estão surgindo e parece-m e
que devemos, antes de mais nada, considerar esses acontecim en­
tos com objetividade. O bserva-se um a geral deterioração — um
fato incontestável. M oral e religiosam ente, os velhos padrões
desapareceram . H á p erturbação e descontentam ento, em larga
escala em todas as partes do m undo. Q uestiona-se a finalidade
da educação, a finalidade do próprio homem , não apenas de
m aneira lim itada, com o neste país, mas tam bém em extensão e
profundidade.
E pode-se ver que, tanto no O cidente com o neste país, esse
questionar, esse desafio não está sendo enfrentado adequada­
mente. Em nosso país, sabeis tão bem quanto eu (provavelm ente
melhor, pois eu resido no estrangeiro e só esporadicam ente, em
cada ano, venho passar uns poucos meses aqui e tenho oportu­
nidade de o b serv ar), está havendo um rápido declínio: homens
dispostos a se deixarem queim ar por causa de questões tão
fúteis com o esta de decidir se se deve ter um ou dois governa­
dores etc.; dispostos a jejuar a propósito de insignificâncias;
“santos” dispostos a agredir os dem ais, etc. etc. T udo isso é
um a m aneira prim itiva, um a m aneira “tribal” de atender um
problem a da m ais alta im portância. E não me parece que este­

153
jamos verdadeiram ente conscientes deste im enso problem a. Este
povo tem dissipado suas energias em trivialidades, reagindo con­
form e as circunstâncias, sem um a visão mais larga das coisas,
tratand o de cada problem a, inclusive o problem a da fome, do
ponto de vista nacionalista. N ão se leva em consideração o
hom em com o um todo, porém tão só a lim itada esfera de uma
dada tribo, de um certo e estreito ,ponto de vista religioso,
sectário. T odos nós sabem os dessas coisas e é bem evidente que
tanto o governo com o o povo são incapazes de lhes pôr fim.
T odos se m ostram totalm ente ineficientes, profundam ente des­
confiados e im possibilitados de “ responder” integral e profunda­
mente ao problem a total. E pode-se observar tanto na E uropa
e na A m érica com o na R ússia e na C hina um enorm e descon­
tentam ento, a que se está “ respondendo” de m aneira muito
estreita.
H á guerra; e as guerras são consideradas com favor ou
desfavor, guerras justas ou politicam ente injustas. Vós tom ais
partidos e, tendo pregado a não violência d urante quarenta e
mais anos, estais prontos a batalh ar e a m atar, a tornar-vos
violentos num abrir e fechar de olhos. E , à vista de tudo isso e
considerando-se o que está sucedendo tanto no O cidente com o
na índia, o problem a se torna imenso. E não julgueis que qual­
quer dos políticos ou dos guias religiosos, p o r todo o m undo,
esteja vendo o problem a com o um todo. V êem -no de acordo
com seu lim itado ponto de vista político ou religioso, ou
conform e suas particulares necessidades econôm icas ou sociais.
E videntem ente, ninguém quer considerar o problem a com o um
todo, p ara tratar dele de m aneira total e não fragm entariam ente,
com o hinduísta, com o m uçulm ano, com o cristão católico, com u­
nista ou socialista. E , já que ninguém trata do problem a como
um todo, todos procuram fugir de diferentes m aneiras, tom ando
a droga L.S.D ., proporcionadora de extraordinárias experiências,
saindo por tangentes. D essa m esm a m aneira infantil, im atura,
reagem a qualquer desafio secundário e igualm ente infantil.
O problem a, p o r conseguinte, interessa a todos nós, nem
pode deixar de interessar. H á fome, há guerra; a religião falhou
totalm ente e nada mais significa, exceto para um as poucas pes­
soas. A crença organizada está perdendo a sua força, a despeito

154
da espetaculosa propaganda que se faz, nos jornais e em tod a
a parte, em nom e de Deus, em nom e da paz. V em os, assim,
que nem a educação, nem a religião, nem a política resolveu o
problem a, e tam pouco a ciência o resolveu. É inútil continuar­
mos a contar com essas coisas ou com qualquer guia ou instrutor,
pois ninguém mais tem fé. E, tendo perdido a fé, o hom em sente
m edo e, conseqüentem ente, torna-se violento. H á violência, não
só neste país, mas pelo m undo todo — arruaças na A m érica
entre pretos e brancos e os horríveis acontecim entos que se
estão desenrolando neste país. Essencialm ente, o hom em não
só perdeu a fé nas religiões, nos ideais, nos valores estabelecidos,
mas tam bém em si próprio. P erdeu de todo a fé. N ão sabe para
onde se voltar, que direção tom ar, em busca de um pouco de
iuz. Perdida a fé, o hom em tem e; e sua única reação ao medo
é a violência. É o que está acontecendo.
Assim, nós temos de ser sérios, verdadeiram ente ardorosos
— não em conform idade com algum a crença ou padrão —
para poderm os redescobrir a fonte que secou.
N ão sei se já observastes isso em vós m esm o — como ente
hum ano e não com o um fragm ento, num m undo fragm entado.
U m ente hum ano — não im porta se indiano, hinduísta, m uçul­
m ano, cristão, com unista, socialista — um ente hum ano não
tem nacionalidade. C om o ente hum ano, vós não pertenceis a
nenhum a religião, a nenhum partido político ou ideologia. Se já
vos observastes, podeis ver em vós mesmo e, portanto, nos
outros, que a fonte de nosso ser, de nossa existência, o significado
de nossa vida, a lu ta em que nos vem os em penhados da m anhã
à ,n o ite — podeis ver que nada disso tem ainda algum a signi­
ficação. P or conseguinte, tem os de achar por nós m esm os aquela
fonte que secou e, tam bém , redescobrir as águas d a R ealidade
im ensurável e, com base nessa R ealidade, agir. É o que vamos
investigar, p o r nós mesmos, durante estas palestras.
C om preendeis o problem a, senhores? As religiões, os guias,
políticos ou religiosos, os livros, a propaganda, as crenças, as
doutrinas, os salvadores, perderam toda a significação. Q ualquer
hom em inteligente, realm ente sério e perfeitam ente cônscio desses
problem as pode ver que todas as coisas em que confiávam os
perderam seu significado. Já não sois a gente religiosa que afetais

155
ser. Já não sois entes hum anos, porque perdestes o sentido, o
significado de vossa existência. Podeis freqüentar o vosso em ­
prego p o r mais quarenta anos, mas isso não é solução.
Assim, para fazerm os aquele descobrim ento, com preender­
mos este imenso problem a, temos de considerá-lo de m aneira
nova, não com olhos de cristão, de hinduísta, m uçulm ano ou
com unista. Tem os de olhá-lo de m aneira inteiram ente nova.
Isso, em prim eiro lugar, significa que não devemos deixar-nos
im pelir pelas circunstâncias; temos de agir em face dos problem as
imediatos, mas não com o se fossem a única coisa im portante da
vida: devem os estar cônscios das circunstâncias, sem nos dei­
xarm os impelir por elas.
Entendeis o problem a? Neste país, estam os disputando por
causa de pedaços de terra e dispostos a queim ar-nos e m atar-nos
m utuam ente, porque p o r acaso sois m uçulm ano, hinduísta, ou
sabe Deus que mais. E tão forte é a com pulsão do ambiente,
das circunstâncias, que sois obrigado a reagir.
Por conseguinte, deveis estar cônscios das circunstâncias e
de tudo o que elas im plicam , agir o m enos possível na depen­
dência das circunstâncias. C ada um deve conhecer o próprio
tem peram ento, para não se deixar guiar por ele. E tam pouco
deve deixar-se guiar p o r suas inclinações. Essas três coisas são
essenciais, quando se está em presença de um problem a imenso.
Não se deixar guiar pelas próprias inclinações, por mais agra­
dáveis e por mais im periosas que sejam — eis a prim eira coisa
que se precisa com preender claram ente. E m segundo lugar, não
perm itir que vossas atividades, vossa vida sejam m oldadas por
vosso tem peram ento, com o quer que ele seja, intelectual ou
em otivo, e quaisquer que sejam as vossas idiossincrasias. E , em
terceiro lugar, não vos deixardes impelir pelas circunstâncias. Se
puderm os com preender estas três coisas, estarem os aptos a en­
frentar este im enso desafio, este imenso problem a que envolve
o destino do ente hum ano. Com preendeis? D ar im portância a
simples questões de terras, de governo, é falta de m adureza,
pura infantilidade, um a coisa lamentável.
Assim, o que nos cum pre fazer, se somos realm ente sérios
— e é absolutam ente necessário que sejam os sérios, porque a
casa está em cham as; não só esta casa cham ada “ín d ia” , mas
o m undo inteiro está a arder — o que nos cum pre fazer é

.156
“ responder” totalm ente e não procurarm os apagar o incêndio
com um balde de areia. Tem os de ser im ensam ente sérios. Mas,
infelizmente, não parecem os sérios; temos dissipado, esperdiçado
nossas energias, em todos os sentidos, reagindo a circunstâncias
triviais. Vós vos tornastes seguidores de G a n d h iji(1), seguidores
de outro e mais outro. T endo assim dissipado a vossa energia,
ao ver-vos em presença de um problem a imenso, sois incapazes
de “ responder” de m aneira total.
Portanto, temos de com preender este enorm e problem a, ou
seja que está em jogo o destino do hom em , a sorte do ente
hum ano e não a de algum indivíduo em particular. H p ara o
com preenderdes, deveis, em prim eiro lugar, não vos deixar
guiar por vossas inclinações, nem por vossos gostos e aversões.
Tendes de olhar o problem a. M as não podeis olhá-lo se estais
na dependência de vossas inclinações pessoais ou sendo guiados
por vosso tem peram ento. Somos em geral m uito com petentes,
porque lemos muitos livros e passam os em m uitos exames. Nossa
mente, nosso intelecto é m uito astucioso, solerte, hipócrita, e
nosso tem peram ento tem seu jeito de enganar a si próprio, de
im por-se, de funcionar por determ inada norm a, conform e suas
próprias exigências. E, naturalm ente, quando sois impelido pelas
circunstâncias, com pelido a agir segundo as circunstâncias, não
tendes nenhum a possibilidade de interessar-vos pelo ente hum ano
total.
São, pois, estas as prim eiras coisas de que precisam os ficar
bem conscientes: as inclinações, o tem peram ento e as circuns­
tâncias. Um a vez com preendidas, estareis apto a enfrentar o
imenso problem a do hom em . Vossas inclinações pessoais, vossa
crença ou descrença em Deus, nada mais são do que um pre­
conceito pessoal: não tâm valor algum. Q uando começais a
considerar um problem a intelectualm ente, ou em ocionalm ente,
ou sentim entalm ente, está em ação o vosso particular tem pe­
ram ento. Poderíam os exam inar muito mais profundam ente esta
questão do tem peram ento, mas isso não é im portante agora.
Assim a m aneira com o considerais este m om entoso problem a
indica sem pre que estais sendo guiado por vossas inclinações ou

(1) M a h a tm a Gandhi.

157
impelido pelas circunstâncias, ou que estais agindo sob as ordens
de vosso estreito e insignificante tem peram ento.
Assim, se está bem claro isso — que não devemos de m odo
nenhum agir de acordo com essas três coisas — estam os habi­
litados a considerar o problem a de um a m aneira com pletam ente
diferente. V em o-nos em presença de um im enso problem a,
porque o homem, isto é, o ente hum ano perdeu — se algum a
vez a teve — a fonte, o m anancial, a profundeza, a vitalidade
da renovação; ele se tornou um ente isolado, assustado, ansioso,
desesperado, descontente, infeliz, aflito. Podeis não estar cônscio
disso, já que ninguém gosta de olhar bem claram ente a si p ró ­
prio; isso é dificílimo, porque desejam os fugir de nós mesmos.
E quando nos olham os, não sabem os o que fazer de nós mesmos.
Nosso problem a, portanto, é este: U m a vez que a fonte
de nosso ser, de nossa existência, está a secar e a perder sua
significação, precisam os tra ta r im ediatam ente de descobrir por
nós mesmos a razão disso. Sabeis o que está sucedendo no
O cidente. M oços que passaram brilhantem ente nos exam es e
vêm à guerra perguntaram : “ Q ual a finalidade desta luta, a
finalidade da guerra, de um a pessoa preparar-se, ganhar muito
dinheiro, quando a vida já nada significa?” E com eçam a tom ar
drogas que lhes proporcionam experiências novas e extraordiná­
rias. E não são estúpidos os que assim procedem : são pessoas
inteligentes, sensíveis, com petentes.
Já que a vida não significa mais nada inventa-se um a signi­
ficação, inventa-se um a finalidade. M as tais invenções são
meros produtos de um a m ente intelectual e, p ortanto, sem vali­
dade. A fé, p o r sua vez, já não tem validade algum a; pouco
im porta crer ou não crer, porque vossa crença dependerá sempre
das circunstâncias. Se nascestes neste país, sereis hinduísta,
sikh, m uçulm ano, cristão etc. C onform e as circunstâncias, sois
forçado a crer ou a não crer. Assim, a crença, um a finalidade
da vida inventada, um a significação caprichosam ente elaborada
pelo intelecto — nada disso significa ainda algum a coisa.
N ão me parece que estais vendo quanto isso é grave. O
hom em deixou de inventar, de ter crenças, dogm as, deuses, espe­
ranças, temores •— tudo isso acabou definitivam ente. Podeis
não estar consciente deste fato, podeis estar ainda escondido

158
atrás dos m uros de vossa crença, de vossas esperanças. Mas
tudo são ilusões, sem validade algum a, ante a crise atual.
Assim, percebido o fato — se sois capazes de percebê-lo —
temos de tra ta r im ediatam ente de descobrir o meio de renovar
nossa mente e toda a nossa existência. Percebeis? E spero esteja
claro isto. Vede, senhor, por mais de 5 mil anos os entes
hum anos lutaram , enfrentaram sua própria e imensa desdita,
suas guerras e desilusões, as irrem ediáveis condições desta vida
sem significação, sem pre a inventar deuses, sem pre a inventar
um céu e um inferno, p ara se conservarem virtuosos, sempre
rodeados de idéias, de ideais, de esperanças. M as tudo isso são
coisas passadas. Vossos R am as e Sitas, vosso U panishades,
vossos deuses magníficos — tudo se desfêz em fum o, e vos vedes
frente-a-frente com vós mesmos e tendes de “responder” (rea­
g ir). T orna-se, por conseguinte, enorm e a vossa responsabili­
dade, com o ente hum ano.
Perguntam os, pois: Com o pôde um a m ente que por tantos
séculos foi fortem ente condicionada e tantas agonias atravessou,
tornar-se nova e capaz de funcionar, de pensar, de m aneira
com pletam ente diferente? Entendeis esta pergunta? Os com u­
nistas e os totalitários dizem: “Nós m oldarem os a m ente. Nós
farem os a m ente; quebrá-la-em os e tornarem os a condicioná-la” .
Estais vendo? Os católicos, os protestantes, os hinduístas, os
m uçulm anos e m uita gente por este m undo assim tem feito,
repetidam ente. E cada ente hum ano está sendo fortem ente con­
dicionado — condicionado de um a m aneira e recondicionado
de outra m aneira pelos políticos, pela propaganda, pelos sacer­
dotes, pelos com issários, pelos socialistas, pelos com unistas; a
ser e torn ar a ser reform ado, infinitam ente. E ao perceberdes
este fato, esta verdade absoluta — não depende do m eu nem
do vosso ponto de vista — deveis perguntar-vos se existe alguma
possibilidade de quebrar este condicionam ento sem se entrar
noutro condicionam ento; isto é, se tem os possibilidade de ser
livres, para que a m ente se torne um a coisa nova, sensível, ativa,
desperta, “intensa”, eficiente. Eis o nosso problem a. N ão há
outro problem a. Porque, um a vez renovada, a m ente é capaz
de resolver qualquer problem a, quer se trate de um problem a

159
científico, quer do problem a da fom e ou da corrupção. Está
apta a enfrentar quaisquer circunstâncias.
Este é, pois, nosso principal pro b lem a: Se a m ente, que
há tantos séculos tem sido fortem ente condicionada, é capaz de
descondicionar-se sem cair n o u tra espécie de condicionam ento,
e tornar-se, por conseguinte, livre, proficiente, intensam ente
ativa, nova, vigorosa, apta a enfrentar qualquer problem a. Com o
disse, esta é a única questão que, com o entes hum anos, temos
de enfrentar e resolver. N ão deveis depender de ninguém para
saberdes com o podeis descondicionar-vos; porque, se depender­
des de outra pessoa, estareis condicionando a vós m esm o em
conform idade com suas idéias e, p o r conseguinte, vos achareis
de novo num a arm adilha.
V ede, pois, o im enso problem a que tendes de enfrentar.
N ão h á mais guias, nem salvadores, nem gurus, nem autoridades.
Porque o que todos eles têlm feito é condicionar-vos com o hin-
duísta, m uçulm ano, cristão ou com unista. N ão resolveram o
problem a. N ão encontraram nenhum a solução para a aflição,
a ansiedade, o desespero do hom em . Só vos têm proporcionado
meios de fuga; e fuga não é solução. U m a pessoa atacada de
câncer não pode fugir do seu m al; tem de enfrentá-lo.
Portanto, esta é a prim eira coisa que se deve perceber: Que
não podeis contar com ninguém para vos descondicionardes. Ao
percebê-la, ou vos assustareis, vendo que não podeis contar com
ninguém , mas só e unicam ente com vós m esm o (e isso é deveras
a te rra d o r); ou, reconhecendo que ninguém pode valer-nos e,
portanto, vós m esm os tendes de trabalhar, já não sentireis medo
e tereis vitalidade, energia, entusiasm o. Só podeis ter esse en tu ­
siasmo, essa energia, essa vitalidade, quando não dependeis de
mais ninguém , nem tendes medo. E ntão, a ninguém m ais se­
guireis. Sereis vosso próprio m estre, vosso próprio discípulo;
estareis aprendendo, estareis descobrindo.
Assim , estando bem clara a questão, com o devemos com e­
çar? E ntendeis esta pergunta? O problem a tem de estar bem
claro, pois de con trário n ão podereis resolvê-lo. A questão pode
ser form ulada de um a dúzia de m aneiras diferentes, m as a
essência do problem a perm anece a m esm a: A m ente hum ana
está sendo m oldada, condicionada, pelas circunstâncias, pelas

160
influências am bientes, pelo tem peram ento e inclinações pessoais
de cada um. E a m ente que está condicionada, que foi m oldada
segundo determ inada crença, determ inado dogm a, determ inada
experiência ou tendência, não pode d e m odo nenhum responder
àquela pergunta. A m ente, que se tornou tão em botada, pesada,
entorpecida, tão fortem ente condicionada, pelas circunstâncias,
pelo am biente etc. — tem algum a possibilidade d e libertar-se
e, portanto, de enfrentar de m aneira nova todos os problem as
da vida?
Digo que tem, conform e vou m ostrar-vos. M as eu não sou
vosso instrutor, nem vós tam pouco sois meus discípulos: Deus
nos livre disso! Porque, no m om ento em que com eçam os a
seguir outra pessoa, está destruída a V erdade. Q uando tendes
um guia, estais destruindo a V erdade. Só um a coisa podemos
fazer: refletir juntos, viajar juntos. N ão irei levar-vos por um
certo cam inho ou m ostrar-vos esse cam inho: estarem os viajando
juntos, participando todos juntos no exam e desta questão, des­
cobrindo as dificuldades e as respectivas soluções.
Assim, “participar” não significa sim plesm ente estender a
mão para receber algum a coisa. Significa que deveis ser capazes
de com partilhar, que deveis m ostrar-vos verdadeiram ente des­
pertos e em penhados em com preender; do contrário, é im possí­
vel a participação. Se ganhais um a belíssima jóia e não sabeis
quanto ela é preciosa, podeis jogá-la fora; sois incapaz de apre-
ciá-la em com panhia de outros. E p ara viajardes juntos, deveis
ser capazes de m archar juntos. A capacidade de m archar, de
com partilhar, de observar, depende de vosso pró prio em penho.
Esse em penho, essa seriedade, se torna existente ao perceber-se
a im ensidade do problem a. O problem a é que vos põe sério;
não sois vós que vos fazeis sério. C om preendeis a diferença?
Dizemos que atacam os o problem a porque somos sérios, mas
não é tal. O pró p rio problem a é tão grande que, com sua
grandeza, nos torna sérios. Essa seriedade tem flexibilidade,
tem força e vitalidade extraordinárias, que nos possibilitam exa­
m inar o problem a até o fim. E stam os, pois, viajando juntos e,
portanto, com partilhando. Por conseguinte, já não sois simples
ouvintes, não estais m eram ente a ouvir palavras e idéias e acei­

161
tando-as ou rejeitando-as, dizendo: “G osto desta, não gosto
daquela” . Porque já ultrapassastes tudo quanto é mera inclinação.
Assim, nossa prim eira questão é: tem a mente hum ana,
tão fortem ente condicionada que está, algum a possibilidade de
quebrar as cadeias de seu condicionam ento? Não tendes ne­
nhum a possibilidade de fazê-lo, se não estais cônscio de vosso
condicionam ento. Este é um fato bem óbvio, não achais? Não
podeis dizer: “ Estou condicionado e devo libertar-m e desse con­
dicionam ento” . Isto não significa nada. E ntretanto, se perce­
beis o quanto estais condicionado e quais são os fatores de vosso
condicionam ento, as circunstâncias que o determinaram,, então,
graças a esse percebim ento, podeis fazer alguma coisa. Mas,
se não o estais percebendo, nada podeis fazer. A prim eira coisa,
portanto, é estardes consciente de vosso condicionam ento —
com o pensais, com o sentis, quais os motivos determ inantes desse
pensar e sentir.
Podeis dizer: “O ra, isto é com plicado dem ais; dai-m e uma
pílula fácil de tom ar, que resolva inteiram ente o problem a” .
Não existe essa pílula. A vida é um processo muito complexo,
que não podeis resolver por meio de m eros artifícios. Tendes
de ver-lhe a com plexidade, e só a vereis se fordes com pleta­
mente simples. Entendeis, senhores? Se fordes realm ente sim­
ples, vereis o quanto sois com plexo, vereis todo o vosso condi­
cionam ento. M as, ser simples é um a das coisas mais difíceis
do m undo. Sim plicidade não é andar de tanga ou tom ar só
um a refeição por dia, ou dar a volta ao m undo a pregar uma
idiotice qualquer. Sim plicidade não é obediência. Tende a bon­
dade de prestar atenção. Simplicidade não é seguir um ideal.
Simplicidade não é im itação, tornar-se simples apenas “ a fim
de olh ar.” Só podeis olhar um a árvore, uma flor, a beleza de
um a tarde, quando vossos olhos não estão em panados, quando
vossa m ente não está noutra p arte, quando não estais sendo
torturado por vosso p róprio problem azinho. E ntão, podeis olhar
a árvore; então a tarde tem beleza; então, em virtude dessa
sim plicidade, sois capaz de observar,
E, como já disse, ser simples é um a coisa das mais difíceis
e árduas: ser simples. M as, como deveis saber, aquela palavra
(sim plicidade) está fortem ente “carregada” , por obra dos “ san-

162
tos” , com suas ostentações e seus dogmas. P or isso mesmo,
eles, os “ santos” , não são, em absoluto, hom ens simples. M ente
simples significa a m ente capaz de ver com m uita clareza. E,
quando se pode ver com clareza um problem a, ele está acabado.
Eis por que, p ara olhardes vosso condicionam ento, necessitais
de clareza. E só podeis ter clareza quando não dizeis “G osto”
ou “N ão gosto”. Entendeis, senhores? Desejo ver-m e, a mim
mesmo, com o ente hum ano, ver o que realm ente <?, e não o que
ostento, o que afeto ser etc. P ara ver m uito claram ente, neces­
sito de luz, e não h á luz se traduzo o que vejo em “ gosto” ou
“ desgosto” . Estais com preendendo?
A coisa é simples, senhor: quando a aprofundam os, pode­
mos ver quanto ela é simples. Isto é, para vermos qualquer
coisa, necessitam os de luz, precisam os de zelo. E ntão, com cla­
ridade e zelo, estam os aptos a observar. M as nega-se esse clari­
dade e esse zelo ao condenardes o que vedes ou justificais o
que sois. Por conseguinte, quando desejardes ver bem claro,
não há mais gostar e não gostar, julgar e condenar. Entendeis?
Isto é m uito sério. Vereis então que sois vosso próprio guia,
vossa própria luz — luz que ninguém p ode extinguir. Dessa
m aneira, podeis descobrir a fonte de toda a vida, a fonte que
secou e que os homens têm buscado incessantem ente.
Pode haver grande prosperidade, com o existe no Ocidente
e na A m érica; pode haver m iséria, fom e e aflição; m as a simples
solução desses problem as não constitui a resposta, porque o
que está em jogo é nossa existência, a existdncia do ente h u ­
mano. Vossa casa — que sois vós mesmo — está em chamas.
E para achardes um a resposta, deveis ser capaz de olhar clara­
mente. Por conseguinte, quando olhais com clareza, podeis
raciocinar com clareza. A razão se torna dem ência quando há
escuridão. Com preendeis, senhores? Os políticos, porque se
acham na escuridão, estão suscitando a inépcia, o ódio, a dis­
córdia entre os hom ens. E tam bém os sacerdotes, seja no Oci­
dente, seja no O riente, estão contribuindo p a ra essa escuridão.
A religião, afinal, não é um a questão de crença, não é o que
cremos ou o que n ão cremos. Religião é o m ovim ento da vida.
Não depende de nenhum a crença, de nenhum dogm a, de nenhum

163
ritual. Só a m ente religiosa, a m ente que vive em paz, pode
descobrir a realidade final.
Talvez alguns de vós desejem fazer perguntas e, se a ocasião
é opo rtu n a para fazê-las,, a elas responderem os. Se não, talvez
na próxim a reunião haja tem po para se fazerem perguntas.
Q uando se faz um a p erg u n ta correta, nesta p rópria pergunta
está contida a resposta, M as o fazer a pergunta correta existe
alta inteligência, não m era habilidade de erudição. Fazer a per­
gunta correta exige um a grande sensibilidade, inteligência, claro
percebim ento do problem a que nos interessa. E então, quando
se faz a pergunta correta, vem a correta resposta. Se tiverdes
sido deveras inteligente e sensível, percebendo claram ente o
vosso problem a, então, graças a esse percebim ento, fareis a per­
gunta correta, e essa p ergunta correta será a correta resposta.

15 de dezem bro de 1966.

164
NOVA DELHI:
A peregrinação do homem

r^ C o1n t i n u e m o s com o assunto de que estávam os tratando na


ultima reunião. Falam os então sobre a im portância e a urgência
de um a revolução total na consciência. E assinalam os que, em
todo o m undo, se observa um geral declínio e deterioração —
declínio m oral, ético, religioso. T rata-se de um fato observável
e não de simples opinião pessoal, m inha, porquanto não estamos
interessados em opiniões, porém em fatos. E não há possibili­
dade de se com preenderem tais fatos, se nos pom os a conside­
rá-los com nossas inclinações ou tem peram entos pessoais ou a
reagir diretam ente às influências ambientes.
Dissemos que se faz necessária um a transform ação radical,
uma m utação d a m ente, porque o hom em já experim entou todos
os m étodos, tanto exterior com o interiorm ente, para transfor­
mar-se. F reqüentou templos, igrejas e m esquitas, tentou vários
sistemas políticos, vários m étodos de organização econôm ica.
No entanto, continua a haver grande prosperidade ao lado de
extrem a pobreza. P o r todos os meios — a educação, a ciência,
a religião — tentou o hom em p rom over em si p ró p rio um a m u­
tação radical — recolhendo-se a mosteiros, renunciando ao
m undo, m editando interm inavelm ente, recitando orações, prati­
cando sacrifícios, seguindo ideais e instrutores, pertencendo a
seitas diversas. De todas as m aneiras possíveis — com o se pode

165
observar através da H istória — tentou o hom em descobrir um a
solução para esta confusão, esta aflição, este sofrer, este infin­
dável conflito. Inventou um céu. E, a fim de evitar o inferno,
ou seja, o castigo, p raticou tam bém várias form as de ginástica
m ental, várias form as de controle; experim entou drogas, sexo,
tudo quanto um a m ente m uito hábil é cap az de inventar. T o d a­
via, em todo o m undo, o hom em continua a ser o mesmo de
antes. O hom em herdou instintos anim ais, e a m aioria de nós
conserva ainda essa herança de avidez, direitos de propriedade,
direitos sexuais, etc., etc. Somos o resultado do animal. E,
consciente ou inconscientem ente, tem os procurado fugir desse
fato. E ntretanto, continuam os tais com o éram os, ligeiram ente
m odificados por efeito de pressões, das influências ambientes, de
am eaças, da necessidade; m udam os superficialm ente aqui e ali,
mas essencialm ente continuam os como dantes. N o fundo, somos
agressivos, violentos, ávidos, invejosos, brutais, com o se pode
observar em todo o m undo. E o que está acontecendo neste
país após tantos anos de pregação da filosofia da não violência?
O hom em é violento, e o ideal da não violência, é um a m aneira
im atura de resolver o problem a da violência. O im portante é
que sejam os capazes de enfrentar a violência, de com preendê-la
e transcendê-la, em vez de inventarm os um meio de fuga, um
ideal cham ado “não violência”, um a coisa com pletam ente irreal,
com o o dem onstram os fatos ocorrentes neste país e noutras
partes.
Estam os, pois, vendo objetivam ente, claram ente, a necessi­
dade d a total m utação do homem . Intelectualm ente com cer­
teza, todos estão de acordo a este respeito. T odo hom em sério,
sinceram ente intencionado, ardoroso, honesto, e que não se dei­
xa iludir p o r teorias ou dogm as, está interessado nesta questão:
é possível aos entes hum anos, não im porta se vivem na Rússia,
na A m érica, aqui ou n o u tra parte, operar um a m utação total,
para que comecem a viver diferentem ente e não fiquem, quais
animais, a lu tar incessantem ente, a destruir-se m utuam ente, sem ­
p re em conflito, aflitos, a sofrer, cheios de m edo e incerteza e
à espera d a m orte, com as penas, a ansiedade, o “ sentim ento de
culpa”, etc., inerentes à idéia da m orte? Inventaram -se filoso­
fias; os psicanalistas têm rem ediado algum a coisa, aqui e ali.

166
E ntretanto, o problem a subsiste: é possível descondicionar o
hom em totalm ente, para que ele viva feliz, na claridade, livre
de toda confusão e conflito?
A gora, form ulado o problem a básico — o qual espero vos
esteja claro — que se pode fazer? E stá-se vendo o problem a:
o conflito do hom em , sua brutalidade, suas ânsias, seus ciúmes,
suas ambições, seu desejo de ferir os outros, de fom entar ódios.
É possível transform ar essa consciência num a coisa totalm ente
diferente, que n ão seja um ideal, que não se possa prever, que
não seja um resultado prem editado? Entendeis? P orque, se essa
m ente que está confusa, que é brutal, violenta, “p ro je ta r” um
ideal, um futuro, essa “projeção” será de acordo com seu próprio
padrão, apenas m odificado; p o r conseguinte, o ideal, o objetivo,
a m udança final condicionada pelo que é, continua a ser o que é.
N ão é verdade isso?
O problem a é claro: se estou confuso e, nessa confusão,
imagino a clareza ou crio um ideal d a clareza, esse ideal é ainda
o resultado d a confusão e, p o r conseguinte, essa cham ada cla­
reza, esse cham ado ideal, esse cham ado “objetivo final”, será
o produto de um a m ente confusa e, portanto, tam bém confusão.
Vede, por favor, quanto isso é im portante. Porque, vendo-nos
aprisionados nesta gaiola, nesta arm adilha d a ch am ada civiliza­
ção, estam os sem pre a pro jetar um a idéia do que “deveria ser” ,
um a filosofia, um a doutrina, a qual ficam os seguindo, cada um
conform e o seu condicionam ento, sua crença, sua religião, con­
soante o clima, as circunstâncias, as inclinações, etc. D essa m a­
neira cria-se o futuro, um fu tu ro radicado no presente, que é o
passado. Assim, enquanto a m ente for capaz de criar p ara si
própria um a fórm ula para o futuro, tal fórm ula será o resultado
do passado — experiências do passado, conhecim entos do pas­
sado, cultura do passado. P o r conseguinte, o futuro, o ideal
será ainda um resultado que foi. C onseqüentem ente, a m udança
do que é para o que "deveria ser” é ainda o que é, em bora m o­
dificado.
Tende a bondade de ver e de com preender isto com toda a
clareza, não verbalm ente apenas, mas realm ente. E aqui se
apresenta a questão do escutar. Porque, verbalm ente, podem os
com unicar-nos uns com os outros, com o agora estam os fazendo.

167
Presum o que todos vós com preendeis o inglês; portanto, verbal­
m ente, estam os em com unicação. Estais a traduzir o que estou
dizendo em vossa linguagem própria, estais ouvindo as minhas
palavras. M as, oúvir palavras não é escutar realm ente. E quando
aplicais toda a vossa atenção a qualquer problem a, há não só
eficiência, clareza, um a visão racional, m as tam bém transcen­
deis o problem a. É o que estam os fazendo agora. Estamos,
não apenas em com unicação verbal, mas tam bém escutando
juntos o que é verdadeiro — não, o verdadeiro segundo outra
pessoa. A verdade não é cristã, hinduísta, vossa ou m inha. Ela
é o fato. E p a ra observardes esse fato, não só tendes de escutá-lo
atentam ente, mas tam bém de evitar qualquer tradução desse
fato. Porque, se o traduzirdes, o fareis de acordo com vosso
condicionam ento, vossas lem branças, vossas inclinações ou ten­
dências, e conform e a pressão das circunstâncias. Nesse estado,
por conseguinte, não estareis escutando. M as, nesta tarde, espero
que estejais escutando fatos, e não opiniões, nem conclusões.
C om o já dissemos, faz-se necessária um a revolução radical,
um a m utação da mente,, porque, de acordo com os biologistas e
os arqueólogos, os hom ens já viveram dois m ilhões de anos, ou
mais, na aflição, no sofrim ento, a se m atarem e destruírem uns
aos outros, a fom entarem a inimizade. As religiões preceituam :
“ N ão m atarás” . As religiões preceituam : “ Amai-vos uns
aos o u tro s” , “Sede bondosos” , “ Sede generosos” . E elas, as
religiões, têm cultivado a crença e a propaganda organizada da
crença, do dogm a, do ritual; não lhes interessa o com porta­
m ento do homem. M as, p ara nós, muito im porta o com porta­
m ento do hom em, dia a dia, porque o hom em precisa viver em
paz; de contrário, não poderá fazer coisa algum a. O cientista,
em seu laboratório, está com pletam ente em paz e, portanto, tem
a possibilidade de inventar, de observar. O hom em poderá ir à
Lua, mas não tem paz, nem no lar, nem no emprego, nem
exterior, nem interiorm ente. Por conseguinte, está confuso, com
medo. É, portanto, bem evidente a necessidade daquela trans­
form ação radical que com o já dissemos, não se deve operar em
conform idade com nenhum padrão, nenhum ideal ou utopia do
futuro — invenções de um a m ente que está sendo condicionada
e, desejando libertar-se, inventa uma filosofia, um ideal, um

168
alvo, nascidos de sua própria confusão e condicionam ento. Isto
é bem óbvio. E, tam bém , a transform ação radical deve reali­
zar-se im ediatam ente.
Dividimos o tem po em presente e futuro. N ão entrarei em
minúcias a este respeito, porque o assunto é por demais com ­
plexo e não me sobra tem po para isso. M as qualquer um pode
ver o que temos feito. Todos percebem os a necessidade de m u­
dança im ediata. Percebem o-la e dizemos que não é possível
m udarm os im ediatam ente, que necessitam os de tem po, de dias,
para operar a m udança. P or outras palavras, conhecem os os
problem as im ediatos deste país: fome, desordem , inépcia, cor­
rupção, disputas infantis por causa de pedaços de terra, hom ens
que queim am uns aos outros e a si próprios, etc. E às circuns­
tâncias presentes todos reagem. Dizemos: “ Precisam os fazer
algum a coisa em relação a elas. É m uito bom falar em pro­
blemas fundam entais, mas o “fu n d a m e n ta r não é tão im por­
tante com c o “ im ediato” . E ccm essa concepção, essa fórm ula
de que o “im ediato” é muito mais im portante do que o “ funda­
m ental” , vamos vivendo. N ão é verdade isso? Podeis dizê-lo de
m aneira diferente, mas é isso o que está acontecendo. O polí­
tico está todo interessado no “im ediato”, e bem assim o refor­
m ador e o cham ado obreiro social. A todos interessa o “ ime­
diato” ; acham que o “fundam ental” pode “estar certo”, mas
o im portante é o “ im ediato” . E assim dividiu-se o tem po em
presente e futuro. M as o “fundam ental” contém o “ im ediato” .
O im ediato não contém o fundam ental. E o hom em que se
preocupa com o im ediato — esse é que é o verdadeiro malfeitor,
como político, com o religioso ou com o reform ador. M as, se se
com preender o “fundam ental” , nele estará a ação im ediata.
Assim, se dividimos o tem po em ontem , hoje e am anhã, se
pensam os sob a influência do im ediato — que é o am biente, as
circunstâncias a que devemos reagir im ediatam ente (tal como
o fazem os políticos e toda gente neste m undo) — que sucede?
Espero me estejais acom panhando.
Com o bem sabeis, não estam os acostum ados a prestar aten­
ção durante um longo período. A pessoa é capaz de prestar
atenção por dois ou trêis m inutos, mas depois, no resto do tem po,
fica ouvindo apenas superficialm ente. Desse modo, não é pos­

169
sível absorver o que se está dizendo. E nós estam os tratando
de um problem a m uito sério. Para o com preenderdes, acom ­
panhardes o seu m ovim ento, tendes de dispensar-lhe vossa in­
teira atenção durante todo o tem po que estiverdes aqui, e não
apenas por um período de dois ou três m inutos e depois sairdes
a divagar. E stam os tratando de um a m atéria que exige total
receptividade, atenção total.
Se divides o tem po em presente e futuro, não só estais
criando conflito entre “o que é” e o que “deveria ser” , mas
. tam bém criando um am biente, circunstâncias que estarão em
contradição com o que “ deveria ser”. O tem po é um movimento
que o hom em dividiu em ontem , hoje e am anhã. Sendo um
movim ento, se o dividirdes vos vereis necessariam ente em con­
flito.
Vede, por favor, que isto é im portante e p recisa ser com ­
preendido. Porque, se o não com preenderdes, certam ente não
com preendereis o que virá depois. Interessa-nos a m udança, a
total m utação da consciência, m as a consciência está condicio­
nada para pensar em m udança com relação ao que é e ao que
deveria ser; p o r conseguinte, o que deveria ser exige tem po
futuro. Desse m odo, nunca se verifica m udança nenhum a. E n ­
tendeis, senhores? Q uando pensam os que estam os m udando disto
para aquilo, trata-se de um “ m ovim ento estático” , vale dizer,
m ovim ento nenhum . “ Q uero m udar disto p ara aquilo” ; aquilo
é projetado p o r m inha m ente, aprisionada em o que é, a qual,
em virtude de sua confusão, sua aflição, seu pensar, criou o
futuro. O futuro, p ortanto, já é conhecido. P o r conseguinte,
quando a m ente passa de o que é p ara o que deveria ser, esse
m ovim ento é estático, não é m ovim ento nenhum ; portanto, não
há m udança.
O hom em é violento, incontestavelm ente. É violento em
várias e diferentes m aneiras. Isto é um fato. Poderá, ocasional­
m ente, m ostrar-se não violento, mas toda a sua estrutura psico­
lógica baseia-se na violência, na am bição, no desejo de poder,
de posição, dom ínio, autoridade, no apego àquilo a que ele
cham a “ p ropriedade” , ao sexo, etc. Sua total estrutura apoia-se
na violência. Isto é um fato. Inventa, pois, a não violência, um a
idéia, um a teoria, e tal coisa não é um fato. Diz ele: “Sou vio­

170
lento e me m udarei para a não violência. Passarei dís'to para
aquilo” . E ssa m udança, esse m ovim ento para o ideal, não é
m ovim ento nenhum ; é puram ente estática, um a m era idéia. O
fato é a violência. Por conseguinte, buscando o ideal, o hom em
está evitando o real. E o que ele cham a “ideal” , “ exercício” ,
“ disciplina” , é m era atividade de um a m ente que se tornou es­
tática, em botada, um a m ente que não está viva. O que está vivo
é a violência, em diferentes form as.
O ideal, por conseguinte, não tem im portância alguma.
P ara a m aioria das pessoas, esta é um a pílula m uito difícil de
engolir, porque estam os acostum ados a viver de ideais, a ser nu­
tridos de ideais; fomos condicionados para pensar em ideais, fi­
nalidade, significado da vida, etc., etc. — H á, pois, som ente o
fato; e a não violência não é um fato. Q uando um hom em diz
que “com o tem po” se tornará não violento, o que está fazendo
é lançando as sem entes da violência, pensando que, no fim, se
tornará um ente pacífico. Isto é bastante claro, bastante óbvio.
Assim, enquanto o hom em pensar em futuro, em operar a m u­
dança segundo um ideal, o que deveria ser, continuará com sua
violência; esse movim ento, por conseguinte, não tem valor ne­
nhum.
C onseqüentem ente, surge o problem a: C om o pode a m en­
te, que é violenta, ávida, etc., m udar totalmente?* Avidez, inveja,
com petição, agressividade, e tam bém a cham ada disciplina, que
nos é im posta e que é ajustam ento — tudo isso faz parte da­
quela violência; e com o pode a violência ser alterada totalm ente,
de m odo que deixe de ser violência — independentem ente do
tem po, independentem ente de um ideal do futuro? Com preendeis
agora a questão? M inha m ente já não está sendo distraída, já
não está a desperdiçar sua energia com ideais — o que deve­
ria ser, o que não deveria ser. E stá totalm ente atenta ao p ro ­
blema, que envolve m uitos outros problem as. N ão há “funda­
m ental” , nem “im ediato” : Só h á o problem a. Certo? Com o o
hom em atacado de câncer, ele tem de decidir im ediatam ente,
e a decisão im ediata não depende de sua fantasia, de seu am ­
biente, de sua família, do que outros dizem ou não dizem. T ra-
ta-se de um a necessidade im ediata e, portanto, a decisão tem

171
de ser im ediata e não um a decisão ditada pela m ente que quer
atuar sobre o fato.
A ssim , o tem po, com o m eio de vencer, ou destruir, ou ul­
trapassar o fato, deixou de existir. Entendeis? O tem po, como
meio de m udança, term inou. Por conseguinte, o tem po, como
vontade, term inou. A vontade é tem po, não? “E u farei isto” .
Esse “farei” é o resultado de determ inação, inclinação, desejo;
é o que a palavra implica. E quando digo “ eu me tornarei pací­
fico” , essa própria asserção “ me to rn arei” im plica o tem po.
E quando digo “ E u me to rn a re i. . . ” , esse m ovim ento p ara me
tornar algum a coisa é estático, sem vida — coisa m orta. A s­
sim, a vontade e o tem po têm de ser postos à m argem . Vede,
por favor, quanto isto é im portante. E stam os habituados a
fazer asserções, a dizer “F arei isto” , “ Devo fazer isto” , “Deve­
ria fazer isto” — e tudo isso im plica o tem po. N ão é verdade?
Evidentem ente, “será”, “ deveria ser” , “ deve ser” representam o
futuro de “ser” . M as, “ ser” é sem pre presente ativo. Por conse­
guinte, quando um hom em afirm a que “fará tal coisa” , o que
está sucedendo é que ele está em pregando o tem po com o meio
de realizá-la; o meio e o fim estão sendo projetados pela mente
condicionada e, p o r conseguinte, o fim é ainda o que é. Se isto
vos está dando dor de cabeça, sinto muito, pois, com efeito, é
m uito simples.
O hom em viveu até agora pela vontade e pelo tem po, e
pode-se ver que a vontade e o tem po não operaram m udança
nenhum a no homem. Esse foi sem pre o seu m odo favorito de
fugir; inventa o futuro, etc., e continua n a mesma. A m aioria
de vós, talvez, crê na reencarnação. E , se credes na reencarna-
ção, o que im porta é com o viveis agora e não o que ides fazer
am anhã. M as não credes a tal ponto n a reencarnação: trata-se
de um a simples teoria, de um a esperança confortante, um a idéia
agradável, p o r conseguinte, sem valor nenhum . Assim, elim ina­
dos o tem po e a vontade, ficais apenas com este problem a.
Estais então cheio de energia para atacar o problem a, “ atra­
car-vos” com ele; isso é uma revolução total na m ente — a
revolução que não é um resultado final, porém im ediata. E
quando não existe o tem po com o meio de realização, nem a
vontade com o o instrum ento dessa realização, resta então apenas
o problem a central: C om o pode a m ente, que tão condicionada

172
está, m udar, prom over um a com pleta m utação? — isto é, se
já não está lutando para tornar-se algum a coisa. A m ente é o
que é: ávida, invejosa, am biciosa, cheia de ódio e das demais
qualidades anim ais, cultivadas e prolongadas através dos sé­
culos. Isto é o que existe realm ente; e todo esforço para efetuar
um a m udança nessa estrutura d a m ente hum ana faz ainda parte
do tem po e, portanto, de todo ineficaz.
Assim, que acontece quando vossa m ente já não está pen­
sando de m odo relativo ao tem po e à vontade? O o rador pode
explicar-vos o que acontece, mas tal explicação será m eras p a­
lavras. M as, se vós mesmos o descobrirdes, vereis que se torna
existente um a ação extraordinária quando o tem po foi abolido;
já não tereis de ceder às circunstâncias, às inclinações ou ten­
dências pessoais, e não mais vos servireis da vontade com o ins­
trum ento. Se o descobrirdes, de fato e não teoricam ente, agireis
então im ediatam ente, assim com o agis sob a prem ência de uma
doença ou de um perigo. A ação não dependerá então da von­
tade nem do tem po. Será um a ação total e não a ação fragm en­
tária da vontade e do tem po; a ação total contém a ação ime­
diata, exigida pelas circunstâncias.
Vede, senhor, h á fome, neste país superpovoado, e total ine­
ficácia do governo. E cada político, cada grupo, quer resolver
o problem a da fome p o r meio de sua teoria predileta. Os com u­
nistas, os socialistas, os congressistas, etc., têm teorias para a
solução desse problem a. Uns indivíduos tom am este ou aquele
partido, visitam a A m érica ou a Rússia, conform e as respectivas
teorias; e, no ínterim , o povo continua passando fome. Vós po­
deis não estar nessas condições, m as h á m uita gente passando
fome. T odos nós, sem dúvida, já tivemos ocasião de saber o
que significa falta de alim ento. O problem a da fome não pode
ser resolvido pelos políticos; isso nunca aconteceu. É um p ro ­
blem a m undial, e o m undo foi dividido pelos políticos e pelas
tribos que eles representam — a tribo am ericana, a tribo hindu,
a tribo m uçulm ana, a tribo africana. T odos nós constituím os
tribos, todos pertencem os a tribos; isto tam bém é um fato.
P or conseguinte, enquanto a m ente pensar de m odo relativo a
tribos e fórm ulas, o problem a d a fom e continuará existente. Vede
este fato tão simples, senhor. E nquanto fordes hindu, com vos­

173
sa nacionalidade, vosso governo separado, etc., haverá fome,
porque cada grupo deseja resolver este problem a a seu m odo e
se recusa a cooperar com os outros. O com unista pouco se im ­
porta com a fome do povo, nem tam pouco o congressista, o de­
m ocrata ou o republicano — porque o que eles querem é m an­
ter-se no poder, ocupar posições. P ara resolver-se o problem a
da fom e, o que nos deve interessar é, tão-só, alim entar o povo,
e não quem é que vai alim entá-lo, qual o sistem a que o fará,
etc. M as ninguém tem interesse em resolver o problem a.
Q uando o que nos interessa resolver é o problem a, pouco
nos im porta qualquer sistem a de resolvê-lo. D a m esm a m aneira,
quando o que nos interessa é o problem a da m utação total, não
nos interessa saber com o efetuá-la. N unca perguntarem os “co­
m o?” , porque o “com o” é o m étodo, e m étodo im plica tem po,
prática, e conhecim ento prévio do resultado final; portanto, esse
resultado final não é m udança nenhum a. Assim, o que podem os
fazer é, tão-só, nos tornarm os totalm ente cônscios da função
da vontade e com pletam ente indiferentes a ela; não temos de
b atalhar contra ela, mas devem os ver a sua falsidade. E ntão,
só nos interessará o problem a central: prom over a revolução
total. E quando essa revolução vos interessar no mais alto grau,
vereis que ela se realizará, independentem ente de vossa von­
tade.
A gora, se houver tem po, podeis fazer perguntas, pôr em
discussão o assunto. E peço-vos fazer perguntas concisas, por­
que eu terei de repeti-las. N ão façais longos discursos. . .
.IN T E R R O G A N T E : Senhor, aquele estado é possível?
K R IS H N A M U R T I: Um cavalheiro pergunta: “ A quele es­
tado é possível?” . O estado acerca do qual estive falando, não
é isso? Ao indagardes “é possível?” , fazeis esta pergunta por
curiosidade.
IN T E R R O G A N T E : Não.
K R IS H N A M U R T I: T ende a bondade de escutar. Fazeis
esta pergunta por curiosidade ou a fazeis por terdes dúvida, por
haver em vosso espírito um sentim ento da im possibilidade de tal
estado? Se dizeis “ não é possível” , estais fechando o cam i­
nho a vós mesmo, estais im pedindo a investigação. Se dizeis

174
“ é possível” , isso tam bém, naturalm ente, im pedirá a investiga­
ção, pois significa que já form astes um conceito antecipado. A s­
sim, para verdes se é possível ou impossível, tendes de trab a­
lhar, tendes de investigar, tendes de exam inar; e para exam i­
nar, deveis estar livre. Se tendes algum preconceito, alguma ten­
dência, etc., não estais livre para investigar, para penetrar o
assunto. Mas o penetrá-lo não depende do tempo. Tendes de
a.plicar-lhe toda a vossa m ente e coração, vossos nervos, tudo
o que tendes. M as o fato é que nos falta o ardor, a intensi­
dade necessária. Para penetrar fundo, necessitais de uma tre­
m enda energia; e só podeis ter tam anha energia quando não há
distrações, das que a mente inventa para eximir-se de enfren­
tar o fato — e o fato é o que realm ente sois. Vossa violência,
vossa avidez, vossa inveja, vossa com petição, vossa brutalidade,
vosso desejo de sucesso, de serdes alguém, na vida, tudo isso
e mais o resto — eis o fato; e o enfrentar esse fato exige toda
a vossa energia. E, tam bém , para enfrentá-lo, tendes de pôr de
lado o tem po e a vontade; tendes de olhar.
Eis porque, senhor, é tão im portante saber olhar, saber ob­
servar. Talvez nunca tenhais olhado um a árvore. Talvez nunca
tenhais observado vossa esposa, vosso m arido ou vossa filha.
Tendes observado vossa esposa através da imagem que dela
formastes, e vossa esposa vos observa através da imagem que
formou de vós — sendo a imagem m em ória. Q uando am bos vos
olhais através da im agem que cada um criou a respeito do outro,
não há observação nenhum a. A o olhardes um a árvore, tendes
um a idéia, um a imagem, um símbolo, um a certa definição d a á r­
vore; por conseguinte, a definição, o símbolo, a idéia, impe­
dem a observação da árvore. Para olhar, tendes de estar livre
da imagem. E , quando sois livre, não olhais com o intelecto,
nem com a em oção, porém com am or, com clareza, com uma
“certa coisa” totalm ente nova. O lhando vossos filhos, vossa es­
posa, vosso m arido, sem imagem nenhum a, estareis no verda­
deiro estado de relação. O verdadeiro estado de relação é afei­
ção, am or. Sem estes, não im porta o que façais, haverá sem pre
aflição e sofrim ento.
IN T E R R O G A N T E : Senhor, qual a função da m em ória, e
que estado é esse a que vos referis?

175
K R IS H N A M U R T I: Q ual a função da m em ória, e que es­
tado é esse a que nos referim os? A qui está outro problem a bas­
tante com plexo. T odos os problem as hum anos são com plexos;
não são problem as mecânicos. P or conseguinte, neles temos de
pensar de m aneira nova.
Qual a função da m em ória? E com o se to rna existente a
m em ória? A ntes de poderm os investigar a função da m em ória,
temos de descobrir com o se form a ela. Já notastes algum a vez
que, quando reagim os totalm ente a um a coisa, fica m uito pouca
m em ória? Já? Q uando reagis com vosso coração, vossa m ente,
todo o vosso ser, fica m uito pouca mem ória. N ão o tendes no­
tado? É só quando não reagis com pletam ente a um desafio, que
há dor, confusão, luta. A luta, a confusão, a d o r ou o prazer,
constituem a m em ória. Isto é simples. É um fato diariam ente
observável em vossa vida. Desenvolveis a m em ória aprendendo
um a técnica. E ntrais p a ra um colégio a fim de aprenderdes
determ inada técnica-, p o rq u e essa técnica vos d a rá um emprego.
Esse aprendizado desenvolve a m em ória, porque precisais dessa
m em ória p ara poderdes desem penhar satisfatoriam ente um a dada
função. D esta espécie de m em ória necessitais, é claro, pois,
d o contrário, não podeis ser eficiente. M as eu tem o a memória
psicológica: as coisas que me dissestes, as ofensas, as lisonjas,
os insultos que m e dirigistes. E vós tendes vossa m em ória psico­
lógica. H á, por conseguinte, as imagens que eu form ei acerca
de vós e as imagens que a m eu respeito form astes. Essas m em ó­
rias se conservam e se acrescentam continuam ente. Essas m em ó­
rias é que irão reagir. P o r conseguinte, o pensam ento, sendo
resultado d a m em ória, é sem pre velho; nunca é novo e, p o r­
tanto, nunca é livre. N ão existe isso a que cham am liberdade de
pensam ento — um p u ro disparate.
V ossa m em ória tem seu lugar próprio, p ara poderdes fun­
cionar proficientem ente, e a proficiência é necessária. A m e­
m ória, num certo nível, é necessária. M as, quando se torna um a
m era ação m ecânica, nas relações hum anas, a m em ória é peri­
gosa, nociva. Todos os instintos tribais fazem p arte da m em ó­
ria. Vós sois hinduísta, aquele m aom etano, aqueloutro cristão:
o m ecanism o do condicionam ento. A m em ória, aí, é m ortal.
Porque a vida é um m ovim ento e não um a coisa que talhais
para vós m esm o, em vossa pequena oficina. A vida é um m o­

176
vimento total, um m ovim ento infinito, e não um m ovim ento
evolutivo. Um a de vossas teorias favoritas é esta, que, com
o tem po, o hom em se to rn ará perfeito e, no ínterim, pode se­
m ear o ódio e a destruição. A m em ória, pois, tem seu lugar
próprio e, nesse lugar, quando funcionam os naturalm ente, ela
tem de ser eficiente, racional, im pessoal, clara, etc. Mas, há um
estado m ental onde a m em ória tem m uito pouco que fazer. N es­
ta palestra estam os usando a língua inglesa. Este em prego da
língua inglesa representa, naturalm ente, mem ória. Mas a m ente
que a está em pregando se acha num estado de silêncio, não está
sendo tolhida pela m em ória; esta é que é a verdadeira liber­
dade.
1N T E R R O G A N T E : Senhor, para onde vai a alma após a
morte?
K R 1SH N A M U R T I: Um m om ento, senhor.
IN T E R R O G A N T E : Falastes sobre a m ente descondicio-
nada e acerca d a sim plicidade da mente. E u tenho m inhas dúvi­
das sobre se existe alguma m aneira de alcançarm os essa sim­
plicidade m ental e um a mente descondicionada.
K R IS H N A M U R T I: Pergunta este senhor: Falastes sobre
a m ente condicionada; existe algum a m aneira ou m étodo de al­
cançar essa m ente descondicionada?
IN T E R R O G A N T E : Sem se falar a respeito dela.
K R IS H N A M U R T I: Sem se falar a respeito dela. N ão sei
o que isto significa. Existe alguma m aneira de descondicionar
a mente?
O ra, há dois estados. Em prim eiro lugar, temos de ser
muito sensíveis às palavras — sensíveis, vivos — temos de sentir
as palavras. Se o não fazeis, nenhum a palavra que usardes terá
significação. A o em pregardes a palav ra “ descondicionar” e a
palavra “m aneira” , com preendestes a palavra “descondicionar”?
T rata-se apenas de um a com preensão verbal e, p o r conseguinte,
irreal? A m era com preensão intelectual dessa palavra, que signi­
fica “libertar a m ente de seu condicionam ento” , é apenas um a
definição do dicionário. E se em pregais a palavra, dando-lhe ape­
nas a significação lexicológica, ela não tem profundidade ne­
nhum a. M as, se dizeis: “ Descobri que estou condicionado. Eu

177
mesmo o descobri. Estou vendo este fato. Hoje de m anhã per­
cebi claram ente, por um m inuto, o quanto estou condicionado.
Eu penso com o hinduísta; tenho pensam entos de ódio, de ciú­
m e” . — E ntão, ao em pregardes a palavra “ descondicionar” , ela
tem vitalidade, profundidade, tem perfum e, “qualidade” . E, ao
em pregardes a palavra “m aneira” , que está im plicado em tal
palavra? Um m ovim ento disto p ara aquilo; um cam inho, um m é­
todo, um sistema, cuja observância me habilitará a descondi-
cionar-m e, a alcançar um estado de “ não condicionam ento” .
A tenção a esta pergunta: Um m étodo pode descondicionar-vos?
N enhum m étodo pode fazê-lo. Tendes brincado com. essas p ala­
vras, tendes praticado tantas coisas, há séculos — gurus, m os­
teiros, Zen, este e aquele m étodo — e o resultado é que vos
vedes preso num a arm adilha, escravizado ao m étodo, não é
verdade? N ão sois livre. O m étodo produzirá seu resultado mas
tal resultado provém de vossa confusão, de vosso condiciona­
m ento e, por conseguinte, estará tam bém condicionado. Assim,
quando fazeis aquela pergunta (um m étodo pode descondicio­
nar-vos?), já tendes a resposta.
Foi por isso que eu disse na últim a reunião: F azer um a
pergunta é m uito simples, mas fazer a pergunta correta é uma
das coisas mais difíceis. E vós tendes de fazer perguntas, em
todo o curso de vossa vida, m as têm de ser sem pre perguntas
corretas. Fazendo a pergunta correta, tendes a resposta correta
e não precisais de pedi-la a ninguém.
IN T E R R O G A N T E : U m a pergunta, senhor. A não violência, que
G andhi, por si próprio, tentou praticar, é tam bém conde­
nável?
K R IS H N A M U R T I: Senhor, lem brai-vos do que estive dizendo?
Q ualquer prática de não violência é violência.
IN T E R R O G A N T E : Isso precisa ser provado.
K R IS H N A M U R T I: Provado p o r quem?
Senhor, fizestes um a pergunta, e deveis ter tam bém a gen­
tileza de ouvir a resposta.
IN T E R R O G A N T E : E u fiz um a p erg u n ta. . .
K R IS H N A M U R T I: Sim, senhor, nós todos somos muito im pa­
cientes.

178
IN T E R R O G A N T E : E falta o resto da pergunta.
K R IS H N A M U R T I: Sim, senhor, já sei. Podeis praticar a não
violência quando sois violento? Violência significa não só
violência física, mas também violência psicológica. Q uando
me disciplino em conform idade com um padrão, que esta­
beleci com o “o ideal”, sou violento. N ão levais nada disso
em conta. A disciplina, conform e praticada pela m aioria
das pessoas, é repressão, é ajustam ento, é controle exerci­
do p o r uma idéia, um padrão; isso é violência, é “ torcer"
a mente. Mas isso não significa que não exista uma dis­
ciplina que nenhum a sem elhança tem com controle, repres­
são, ajustam ento. E ssa disciplina verdadeira nasce quando
estais frente-a-frente com o problem a e interessado unica­
m ente no problem a.
Vede, senhor. A disciplina, a disciplina correta, a verda­
deira disciplina, a única disciplina im portante — pois nenhum a
das outras é im portante — é a que acom panha o pró p rio ato de
aprender. Q uando estais aprendendo — não, adquirindo! —
quando estais aprendendo, esse pró p rio ato de aprender é disci­
plina. Por exem plo, estou aprendendo um a língua; é-m e sum a­
mente interessante aprender uma língua, e esse próprio interesse
é disciplina. O ra, o homem é violento. Q uando há interesse em
com preender o problem a da violência, com preendê-lo realm ente,
“acom panhá-lo” do com eço ao fim, investigá-lo profundam ente
— essa própria investigação é o com eço da disciplina. Não
precisais de nenhum a das cham adas disciplinas que o homem
tem praticado, destruindo a si próprio, torturando sua mente
pela im itação, pelo ajustar-se a uma form a, a um padrão.
IN T E R R O G A N T E : Para onde vai a alm a após a morte?
K R IS H N A M U R T I: Pra onde vai a alm a após a m orte? Se­
nhor, esta é uma questão m om entosa. Dela poderem os tratar na
próxim a reunião, p o rquanto exige m uito exame — já que a pa­
lavra “ alm a” ou “atm an” ou não im p o rta que palavra, faz tam ­
bém parte de vossa tradição. R epetis incessantem ente tal pala­
vra. Nunca investigastes se existe de fato essa tal coisa que ch a­
mais “alm a" — um a entidade perm anente em vós existente, a
qual, depois de m orrerdes, irá para um certo lugar. Existe al­

179
gum a coisa perm anente em vós? D escobristes, em vós, alguma
coisa perm anente?
IN T E R R O G A N T E : Sim, senhor.
K R ISH N A M U R T 1: Sim? Senhor, vede com clareza. Existe em
vós algum a coisa perm anente? V ós estais sem pre a m udar, vos­
so corpo m uda — a m enos que estejais m orto. Tudo está em
movim ento, m as vos recusais a aceitar esse movimento. E dizer
que existe um a alm a, um atm an, significa que o pensam ento
a pensou ou inventou. Se o pensam ento pode pensá-la, ela se
acha ainda no cam po do pensam ento e, por conseguinte, faz
parte do “velho” , não é nada de novo. C om o já disse, o pensa­
m ento é sem pre velho. P ortanto, a palavra “ alm a” é um a p a­
lavra que usais sem com preendê-la ou exam iná-la. E la é p ro ­
duto do pensam ento, porque o homem teme a m orte. Assim
com o tem m edo da vida, ele tem m edo da m orte. Por favor,
senhor, deixai de lado esta questão, pois não estais prestando
atenção.
IN T E R R O G A N T E : O condicionam ento. . .
K R 1SH N A M U R T I: Um m om ento, senhor. Um momento! A cho
que por hoje basta. Vede, senhor. Vós fizestes perguntas; cada
um só está interessado em sua própria pergunta e não presta
atenção às outras. Q uando respondo a uma pergunta, se lhe
prestais atenção, vossas perguntas ficarão tam bém respondidas.
Mas, nós som os m uito im pacientes. E que significa isso? Que
cada um só está interessado em seu problem a pessoal; e o pro­
blem a pessoal não contém o problem a geral. Q uando se com ­
preende o problem a geral, nele está contido o problem a pes­
soal, e este últim o estará resolvido — corretam ente resolvido.
Com o disse, é m uito fácil fazer perguntas. E devemos sempre
fazer perguntas, devemos ter sem pre um a ponta de ceticismo a
respeito de tudo, inclusive do que diz este orador. M as, o fazer
a pergunta correta exige m uita inteligência, m uita sensibilidade
às palavras, um percebim ento claro de nosso condicionam ento.
E ntão, quando se faz um a pergunta, ela vem cheia de luz e de
beleza.

18 de dezem bro de 1966

180
NOVA DELHI:
Da insignificância do nosso viver

V W amos continuar com o assunto de que estávam os tratando


outro dia? Dizíam os ser absolutam ente necessária uma revo­
lução radical na nossa m aneira de viver, em nossa visão das
coisas, em nossas atividades, em nosso estado de consciência.
E m ostram os as razões dessa necessidade. C onsiderando-se o
atual estado do m undo — extrem a confusão, aflição, guerras,
corrupção, uma vida sem nada de novo, uma mente que não
se renova totalm ente, todos os dias, tornando-se vigorosa, ju ­
venil, inocente — considerando-se tudo isso, torna-se evidente
a necessidade de uma m utação total da mente. Nossa m ente é
o resultado de séculos e séculos de propaganda. Tem os sido m ol­
dados pelas circunstâncias, por nossas inclinações e tendências.
Somos o resultado do tem po, pois foi no tem po que a m ente
am adureceu, desenvolveu-se, evoluiu (se preferis este term o)
do animal para o seu estado atual. Nossa vida presente, tal
como é (realm ente e não teórica ou idealisticam ente, não com o
desejaríam os que fosse; o fato real, o que ela é hoje) é um a
vida de sofrim ento, um a vida de frustração, de profunda an­
siedade, de “sentim ento de culpa” , um tatear, em busca de algu­
m a coisa diferente do que é, uma batalha constante, não só
exterior, mas tam bém interiorm ente. Nossa vida é um cam po
de batalha, uma luta interm inável e fútil. Luta-se para alcan­
çar poderio — com o a m aioria de nós o faz. O poder dá-nos

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um certo sentido à existência, política, econôm ica ou interior­
mente. Por meio da propaganda pode-se dom inar os dem ais;
podeis dom inar vosso vizinho, vossa esposa, vosso m arido. T udo
isso implica poder. E implica tam bém , norm alm ente, uma vida
de constante com petição, com certas m elhorias das condições,
etc., porém um a vida de am bição e rivalidade, de inútil busca,
vida de terrível solidão, de desesperança — ainda que de nada
disso estejam os cônscios. Em geral não estam os cônscios des­
se estado, porque temos m uito m edo de observá-lo. Mas o fato
é este.
Assim é a nossa vida de cada dia, na qual não h á afeição
nem am or. Só há sentim ento de insegurança e constante busca
da segurança, e sem pre o fim: a morte. Eis o que cham am os
“ viver". Sentindo medo, inventam os deuses, inventam os teorias,
intelectualm ente, teologicam ente, religiosam ente. Tem os idéias,
fórm ulas relativas ao que deveríam os ser. E funcionam os em
conform idade com tais fórm ulas: a isso cham am os “ viver inteli­
gentem ente” . Tem os grande orgulho de nosso intelecto. Q uanto
mais intelectual a pessoa, tanto mais im piedosa e brutal. O inte­
lecto, em geral, é assim. T al a nossa vida. Q uer nos agrade,
quer não, este é um fato que parecem os incapazes de alterar.
E, principalm ente no m undo m oderno, a vida se está tornando
mais e mais m ecânica: freq ü en tar o em prego todos os dias, por
quarenta ou cinqüenta anos, suportar am eaças e insultos dos
superiores, etc., etc. E perguntam os: “H á algum a possibilidade
dc efetuarm os um a revolução radical em nossa vida?” . É claro
que sem pre m udam os um pouco aqui e ali, porém impelidos
pelas circunstâncias; um a invenção nova pode alterar, exterior­
mente, nossa m aneira de vida, etc. E stam os vendo, pois, o
que de fato se está passando em nossa consciência, em nossa
vida diária. C reio que qualquer um que esteja cônscio, por
pouco que seja, não só de si próprio, mas tam bém da situação
do m undo, pode ver que isto está acontecendo, que somos o re ­
sultado de um a form idável p ropaganda religiosa, política, com er­
cial, etc. N ão sei se ouvistes dizer ou se lestes que um certo
general russo, da mais alta graduação, um m arechal de cam po,
declarou, em relatório às autoridades superiores, que os soldados
estavam sendo instruídos por meio do hipnotism o.

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C om prendeis? Por meio do hipnotism o estão ensinando aos
soldados novas técnicas, quer dizer, ensinando-os a m atar mais
habilm ente, a proteger a si próprios m atando outros. Não sei
se percebeis o que isso implica, pois por meio da hipnose po­
dem-se aprender m uitas coisas — um a nova língua, uma nova
m aneira de pensar, etc. Afinal de contas, hipnose é propaganda.
Sugere-se-vos, em cada dia de vossa vida, que deveis crer em
Deus, e credes em Deus. Ou, se vos dizem que não há Deus,
tam bém nisso credes. Credes em atm an, porque é uma idéia ge­
ralmente sancionada, transm itida, através dos séculos, pela tradi­
ção; e, tam bém , porque gostais de crer que em vós existe uma
certa coisa m uito superior, perm anente, divina, etc. Mas, isso é
apenas um conceito intelectual que em nada altera a vossa ma­
neira de vida. E, politicam ente, é tão óbvio o que está suce­
dendo neste país! Religiosa, política e interiorm ente somos o
resultado do que fo i e do que outros disseram . E quanto mais
hábil, quanto mais sagaz, quanto mais capaz a pessoa é de per­
suadir-vos psicologicamente, tanto mais facilm ente credes nela.
E tal é a vossa vida. Sois hinduísta, porque vos disseram que
o sois e as circunstâncias vos forçaram a sê-lo; ou sois m uçul­
mano, cristão, etc., pelas mesmas razões.
Nesse cam po o ente hum ano está vivendo, na A m érica, na
Rússia, onde quer que seja. E nós estam os perguntando se o
ente hum ano tem possibilidade de jogar fora tudo aquilo, para
efetuar uma m utação total, não intelectualm ente, porém real­
mente. Este, a meu ver, é o problem a que cada ente hum ano tem
de enfrentar. Porque podem os continuar por mais mil anos exa­
tam ente com o estam os, a guerrear-nos, a viver na mais profunda
aflição, a dar-nos este ou aquele título, a pertencer a tal ou
tal nacionalidade, tal ou tal religião — coisas tão pueris! E tudo
isso é o resultado da propaganda, propaganda do G ítâ, da Bí­
blia, do A lcorão ou das teorias de M arx e de Lenine. Entendeis?
Eis o que som os, sem nada de original, nada de verdadeiro: en­
tes hum anos de “segunda m ão” . Isso tam bém é um fato: é a
nossa vida. E, em meio a tudo isso, o sentim ento de um medo
profundo, renitente, que produz a violência, nos obriga a im a­
ginar meios de fuga. Já criam os um a verdadeira rede de vias
de fuga a esse medo invencível dos entes hum anos. Com o já
disse, a m aioria de nós está bem cônscia desse fato.
O ra bem, que se pode fazer no sentido de operar uma m u­
tação radical desse estado? E ntendeis esta pergunta? Q uando
acabarm os de falar, espero tenhais a bondade de fazer pergun­
tas, tal com o na última reunião.
Eis, pois, o nosso problem a: C om o posso eu, que sou re­
sultado do tem po, de um a infinita série de circunstâncias que
me têm com pelido a agir, a pensar, a sentir de um a m aneira
que tanto condicionou a m inha m ente — com o posso operar
um a revolução total? Estam os em pregando a palavra “ m ente”
num sentido que abrange o ente total — o ente físico, em ocio­
nal, nervoso, cerebral, etc. — a totalidade da consciência, que
constitui a m ente. E que possibilidade tem um ente hum ano de
operar, aí, um a revolução total? N ão sei se alguma vez vós
fizestes esta pergunta; talvez não. Podeis ser levado a m udar
um pouco aqui e ali, conform e vosso desejo de prazer e vosso
m edo à dor. P rincipalm ente quando a m udança dá prazer, quan­
do vos prom ete satisfação ou desejais a continuação de um
dado deleite ou prazer, tentais m udar um pouco. M as o que
estam os perguntando a nós mesmos é coisa m uito diferente.
C om o ente hum ano, tenho possibilidade de m udar com ­
pletam ente? — não: “ m udar para algum a coisa”, porque esse
“ algum a coisa” é uma fórm ula, um ideal adquirido de M arx,
de Lenine, ou p o r mim mesmo concebido. Com preendeis? A
m udança de o que é para o que deveria ser não é m udança ver­
dadeira, conform e explicam os da últim a vez; e nós somos enga­
nados por esse m ovimento. O que é é o fato, e o que deveria ser
não é o fato. Porque, no intervalo de tem po entre o que é
e o que deveria ser, apresentam -se influências várias, pressões
e tensões do am biente, e as coisas estão sem pre m udando. M as,
se form ulam os “ o que deveria ser” e procuram os m udar segun­
do essa fórm ula, essa m udança proporciona-nos uma certa sen­
sação. A simples sensação de m ovim ento para “ o que deveria
ser” confere à pessoa um a certa vitalidade. M as o que de fato
sucedeu, psicologicam ente, foi que a mente form ulou um padrão,
em conform idade com o qual irá viver, p ad rão esse “.projetado”
do passado. T rata-se, portanto, de m ovim ento do passado e, por
conseguinte, m ovim ento de uma coisa m orta; não é um m ovi­

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mento vivo, absolutam ente. Se observardes isso em vós mesmos,
percebereis claram ente o que estou dizendo.
Assim, que possibilidade tem um ente hum ano, vós e eu,
de tornar a m ente nova, vigorosa, inocente, viva? Nossa vida é
toda um “ processo” de desafio e reação; do contrário, a vida
será como um a coisa m orta; a m aioria de nós, a bem dizer, está
m orta. A vida, com efeito, é um processo de desafio, uma exi­
gência e um a “resposta” — não im porta se tal exigência, ou
desafio, é exterior ou interior. E enquanto a resposta não for
totalm ente adequada ao desafio, haverá atrito, batalha, tensão,
sofrim ento. Isto é bem óbvio. E nquanto eu não “ responder" to­
talm ente a qualquer problem a, terei de viver em conflito.
Com preendeis, senhor?
A vida atual exige (a m enos que queiram os viver muito
superficialm ente e, portanto, viver uma vida sem significação al­
gum a) que façam os uma revolução em nós mesmos. Cabe-nos,
pois, descobrir, por nós mesmos, se tal m utação é possível. Quer
dizer, é possível m orrerm os totalm ente para o passado, m orrer­
mos totalm ente para o que foi, para que nossa mente se renove
e revigore? P orque, com o dissemos outro dia, o pensam ento é
sem pre velho. Entendeis? O pensam ento é reação da memória.
Se não tivesseis m em ória serieis incapazes de pensar. E essa m e­
m ória é o resultado de experiência acum ulada. Q uer se trate
do acervo de experiência de vossa com unidade ou sociedade,
quer de vosso acervo individual — isso é sempre m em ória.
Assim, o todo da consciência, em bora o cham eis “superior”
ou “inferior” , é m em ória. Percebeis? E nesse cam po, que é a
consciência, não existe nada novo. Direis: “O ra, existe Deus,
que é totalm ente novo, existe o atm an que é sem pre novo" —
mas isso está ainda no cam po da consciência e, portanto, na
esfera do pensam ento. E o pensam ento é m em ória, não im porta
se vossa própria memória' ou m em ória acum ulada, de um milê­
nio de propaganda. Estais entendendo? O pensam ento jam ais
poderá prom over aquela revolução.
E, se aprofundais a questão, apresenta-se-vos o problem a:
Se o pensam ento não pode efetuar essa m utação, qual é então
a função do pensam ento? — Eu tenho de me servir do pensa­
m ento em m inhas ocupações; quando estamos fazendo coisas,

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cozinhando, lavando pratos, falando uma língua, como agora es­
tam os fazendo, o pensam ento tem. de existir. Se vos perguntam
onde morais, podeis responder im ediatam ente, porque estais bem
fam iliarizados com o lugar onde residis. Por conseguinte, há um
intervalo insignificante, quase nenhum intervalo, entre a pergunta
e a resposta. Isto é bem óbvio. E, se fazem os um a pergunta
mais profunda, será necessário um intervalo m aior entre a
pergunta e a resposta. Nesse interveio, ficais a olhar, a buscar,
a indagar, a esperar que alguém vos informe. T udo isso se passa
no cam po da consciência, ou seja na m em ória. E com essa m e­
mória é que esperam os efetuar a m utação. N ão é verdade? Essa
m em ória, de onde brota o pensam ento, será sem pre velha; por
conseguinte, não há nada novo no pensam ento. O pensam ento
poderá inventar coisas novas, idéias novas, novos alvos, novos
m étodos eleitorais, novas orientações na política, etc. — mas
tudo estará baseado na m em ória, no conhecim ento, na experiên­
cia, ou seja no passado. Assim, o pensam ento, por mais habili­
doso e sagaz, e por erudito que seja, jam ais operará a revo­
lução com pleta na mente. E essa revolução, essa m utação é
absolutam ente necessária, p ara que possam os viver uma vida
diferente. Assim, é possível m orrerm os p a ra o pensam ento? C om ­
preendeis o problem a? E m bora necessitemos do pensam ento e
dele possam os fazer uso eficaz, independente de quaisquer in­
clinações ou tendências pessoais, em bora possamos servir-nos
dele criteriosam ente, racionalm ente, com honestidade e sem auto-
mistificação, o pensam ento não tem nenhum a possibilidade de
criar o novo.
Daí surge o problem a: Que é a m orte? P ara a m aioria
de nós, a m orte é uma coisa vitanda, um a coisa tem erosa, que
devemos afastar para bem longe. Sabemos que existe a. m orte
— a m orte do organism o físico; mas pensam os tam bém na m orte
como o fim . Se credes na reencarnação, não estais enfrentando
o fato: estais evitando a questão. H á o desafio: “T u m orrerás” .
Não o eviteis; olhai-o, penetrai-o, descobri tudo o que nele
puderdes descobrir. Mas, para fazê-lo, não pode haver medo
de espécie alguma. O m edo é criado pelo pensam ento, como
deveis saber. Esse pensam ento se projeta no tem po: “ A m anhã
ou daqui a cinqüenta anos m orrerei” , ou “Serei feliz” , ou “ Irei

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para o céu” , ou qualquer outra coisa, e o pensam ento gera
medo. Já deveis ter notado isso, não? E esse medo vos impede
de olhar, de observar. É ele, por conseguinte, o observador, não
achais? O m edo é a entidade, o observador, o pensador, o “ex­
perim entador” , o centro dc onde olhais, pensais, agis. O medo
é o observador, o pensador que, com o observador, cria tempo
entre si próprio e a coisa observada.
Estais entendendo, senhores? A lgum a vez já olhastes para
uma árvore? Duvido m uito que o tenhais feito. Não temos ne­
nhum sentim ento da beleza. Vemos o céu, a flor, o reflexo do
sol na água, um pássaro a voar, um belo rosto, um lindo sorriso,
mas nada observam os. E quando observam os, há espaço entre
o observador e a coisa observada. Exato? H á espaço entre vós
e a árvore. Nesse espaço tendes vossos pensam entos acerca
da árvore, a imagem relativa à árvore. T endes tam bém vossas
idéias, vossas esperanças, vossos tem ores, e ainda a imagem re­
lativa a vós mesmos. Tendes a imagem de vós mesmos e de vos­
sos temores. Essas imagens estão observando a árvore. Por con­
seguinte, nunca observais a árvore. Mas, quando nenhum a
imagem tendes da árvore ou de vós mesmos, não existe então
distância algum a entre o observador e a coisa observada: o
observador é a coisa observada. V ede, por favor, se sc com ­
preender isso, esta com preensão, em si, será uma trem enda
revolução: a com preensão de que não existe observador sepa­
rado da coisa observada.
Considerem os a coisa num nível mais fam iliar para vós: Já
olhastes alguma vez vossa esposa ou vosso marido, ou vossos
filhos, ou vosso vizinho, ou vosso patrão, ou qualquer dos
vossos políticos? Duvido que o tenhais feito. Em todo o m undo,
os políticos estão causando males, porque estão interessados
no “ im ediato” . E a pessoa que só se ocupa com o “im edia­
to ” , está fom entando a confusão, a aflição, a guerra. Já olhas­
tes para aquelas pessoas (i.e. esposa, m arido, e tc .)? Se já
o fizestes, que se vê? A imagem que tendes da pessoa, a ima­
gem que tendes de vossos políticos, do Prim eiro M inistro, de
vosso Deus, de vossa esposa, de vosso filho. O que se vê é
essa imagem. Tal imagem foi criada pelas vossas relações, vos-
os temores, ou vossas esperanças. Os prazeres, sexuais e outros,

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que tivestes com vossa esposa, com vosso m arido, as contrarie­
dades, as adulações, os confortos e dem ais coisas que a vida
dom éstica proporciona (e essa é um a vida “ de m orte” ) cria­
ram um a imagem relativa a vossa esposa ou m arido. Com essa
imagem é que olhais. De m odo idêntico, vossa esposa ou m arido
têm um a imagem de vós. Assim, a relação entre vós e vossa
esposa ou m arido, entre vós e o político, é com efeito a rela­
ção existente entre tais imagens. Certo? Isto é um fato. Como
podem duas imagens produzidas pelo pensam ento, pelo prazer,
etc., possuir qualquer afeição ou amor?
Assim, a relação entre dois indivíduos que vivem intim a­
m ente ou m ui distanciados um do outro, é um a relação entre
imagens, símbolos, lem branças. E com o pode haver nisso, am or
verdadeiro? Com preendeis esta pergunta? Assim, nós nunca
olham os, nem para a vida, nem para a m orte. N unca olham os
p ara a vida. T em o-la olhado com o uma coisa feia, horrível, ou
como uma vida de constante batalh a — esta vida que levam os,
de luta e mais luta — luta financeira, luta em ocional, luta inte­
lectual etc. etc. A ceitâm o-la com o inevitável. E, tendo-a acei­
tado, inventamos um a teoria de que, talvez num a vida futura,
na próxim a vida, ou seja lá o que for, seremos recom pen­
sados. É dessa m aneira que vivemos; e cada religião, por este
m undo fora, inventou um a certa esperança: reencarnação, ressur­
reição, etc.; não entrarem os em porm enores a este respeito, p o r­
que a ocasião não é oportuna e porque não há mais tem po
para tal. Assim, para se com preender qualquer coisa, até m es­
m o vossa esposa, vosso m arido ou vossos políticos, deveis ob­
servar. E p ara se poder observar, não deve existir barreira ne­
nhum a entre o observador e a coisa observada. Certo? De con­
trário, não se pode ver nada. Se desejo com preender a vós,
çom o ente hum ano, preciso livrar-m e de todos os meus precon­
ceitos, m inhas im pressões, m inhas tendências, das pressões cir­
cunstantes, etc.; devo livrar-m e de tudo isso, totalm ente, para
então olhar. Com eço então a com preender a coisa, porque me
libertei do medo. E n q u an to existir observador e coisa observada,
pensador e coisa pensada, tem de haver m edo, incerteza, con­
fusão.
O bservar a m orte é observar a vida. Percebeis? Nós não
observamos o viver, nem somos capazes de observar a m orte.

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Q uando sabeis observar o viver, com todas as suas com plexi­
dades, com todos os seus tem ores, desesperos, agonias, dolorosa
aflição, solidão, tédio, quando sabeis o lhar o viver (independen­
tem ente de se dele gostais ou não gostais, se ele vos d á prazer
ou desprazer; trata-se sim plesm ente de o b serv ar), sereis então
capazes de observar a m orte. Porque então não haverá medo.
E ntão, m orrer é viver. Mas, nós não sabem os m orrer para tudo,
todos os dias, — p ara tudo o que aprendem os, p a ra todas as
coisas que acum ulam os, tais como caráter, etc. Em qualquer
coisa que existe continuam ente no tem po, não há nada novo.
Só quando há um fim, surge alguma coisa nova. M as, vede, nós
temos medo de pôr fim a tudo o que conhecemos. Já tentastes
algum a vez m orrer para qualquer dos vossos prazeres? Isto
já é suficiente. F indar, sem arrazoados, sem discussão (tal
como acontecerá quando a m orte chegar para vós, pois com a
m orte não se d iscu te). Do mesmo modo, se souberdes m orrer
para qualquer dos vossos prazeres — o mais insignificante ou
o m aior deles — sabereis então o que significa m orrer. Porque
a m orte é uma coisa m aravilhosa. M orte significa renovação, m u­
tação total na qual o pensam ento não tem interferência, porque
o pensam ento é o “ velho” . Mas, quando há morte, há uma
coisa totalm ente nova. Sabei, senhores, que quando a m ente está
vazia, está em silêncio, não está mais a tagarelar a respeito
disto ou daquilo. Q uando a mente está totalm ente vazia, e p o r­
tanto em silêncio, é capaz de renovar-se inteiram ente, indepen­
dentem ente de quaisquer pressões exteriores, de quaisquer cir­
cunstâncias; ela é então uma coisa lum inosa, incorruptível, e há
nela um a alegria que não é prazer.
Talvez desejeis agora fazer perguntas.
IN T E R R O G A N T E : Senhor, perm iti-m e repetir minha última
pergunta, da reunião passada. P ara onde vai a alma após a
m orte?
K R IS H N A M U R T I: Este senhor está repetindo a pergunta que
apresentou na últim a reunião. D eseja saber o que acontecerá
a sua alma quando ele m orrer. Com o sabeis que existe alma?
Vós o sabeis m esm o, ou trata-se de um a idéia que vos foi trans­
m itida pela tradição — tal com o na Rússia se transm ite a idéia
de que a alma não existe? C om preendeis, senhores? Estais rep e­

189
tindo um a pergunta acerca de um a coisa de que vos falaram .
Não descobristes por vós mesmos se a alm a existe. — Existe?
E que significa isso? Prim eiram ente, olhai bem isto, não com
vossos tem ores, com vossas esperanças; olhai, simplesmente! Que
se entende por “alm a”? U m a coisa perm anente, contínua, tran s­
cendente ao pensam ento, não criada pelo pensam ento. N ão é
isto? É o que em geral cham am os atm on, alm a, etc. — um a
coisa não com preendida na esfera do tem po e do pensam ento.
Mas, se o pensam ento pode pensá-la, ela está na esfera do
pensam ento e, por conseguinte, não é perm anente. Está certo,
senhores?
Não estou argum entando logicam ente; a lógica pode enga­
nar-nos m uito facilmente. Q uando se observa com muita aten­
ção, não se necessita da lógica; observa-se, sim plesm ente, e vêem-
se os fatos, um a um.
Não há nenhum a perm anência em nossa vida. Senhor, já
observastes que não há nada perm anente? M esm o o vosso go­
verno, os vossos m inistros, vossa p rópria pessoa, vossas idéias,
vossas ânsias — nada na vida é perm anente. M as o pensam ento,
o observador, diz: “ Existe uma certa coisa que é perm anente.
Necessito dessa perm anência, pois, do contrário, minha vida
é um m ovim ento sim significação” . É assim que se inventa a
teoria m arxista-leninista, inventa-se Deus, alma, etc.; cria-se uma
perm anência, porque há medo; é a m aneira intelectual de enga­
narm os a nós mesmos. N ão há, pois, nada de perm anente, nem
mesmo vossa casa, vossa fam ília, vossas relações. E descobrir
que nada é perm anente é um a das coisas mais im portantes. Só
então a vossa m ente está livre; podeis então olhar, podeis ver
o pôr do sol e en contrar nisso uma grande alegria.
Sabeis a diferença entre prazer e alegria? O prazer é um
resultado do pensam ento. Senti p razer vendo o ocaso, olhando
um rosto, etc. N o m om ento de olhar não h á prazer nem des­
prazer.* O bservo apenas o pôr do sol. .Um segundo após o p en­
sam ento entra em cena e diz “ Que belo espetáculo!” — e fica
a pensar mais e mais naquela beleza; daí advém o prazer. Se
observardes isso p o r vós mesmos, percebereis o fato. E xperi­
m entastes prazeres sensuais e neles pensais, e quanto mais pen­
sais tanto mais vos deleitais — e por aí além. Mas, a alegria

190
é um a coisa im ediata; e essa alegria, se nela pensarm os pode-se
converter em prazer.
A m aioria das pessoas tem e a m orte. P o r conseguinte, um
dos nossos problem as é este: C om o nos libertarm os totalm ente
do medo, e não da m orte? Porque a m orte deve ser um a coisa
tão extraordinária com o a vida. Q uando sabeis viver, a vida
é m aravilhosa. M as, como não sabem os viver, não sabemos
o que é a m orte. Tem em os o viver e tem os m edo de m orrer, e
por causa desse m edo inventam os tantas teorias. A questão,
pois é esta: Tem os possibilidade de nos libertarm os totalm ente
do medo? Isso significa que tem os de investigar o problem a
do pensar. Porque é o pensam ento que cria o m edo, e é o pen­
sam ento que cria o prazer. Pode-se observar o m edo em silêncio,
sem nenhum a im agem — observar o m edo e não a p alavra que
cria o medo? P orque a m orte é um a palavra, e essa palavra
é que cria o tem or. Portanto, não só tem os de ficar bem côns­
cios da palavra, mas tam bém cônscios de um a m orte que nos
pode suceder por doença, acidente, ou de m aneira natural, para
vermos o que há de fato e observarm os sem nenhum a imagem
de medo. Isso exige um a enorm e atenção, m as não concentração.
C oncentração é um ato im aturo, e qualquer menino, qualquer
pessoa é capaz de concentrar-se. E m vosso trabalho, estais con­
centrados. C oncentrar-se não é nada, é falta de m adureza. O que
se tem de fazer é ficar atento. E não se pode estar atento quando
existe o observador, com suas imagens, as próprias e as criadas
pelas circunstâncias, pelas tendências, inclinações, etc. E n q u an ­
to existirem tais imagens, das quais em ana o pensam ento, o
pensam ento haverá sem pre de criar medo.
IN T E R R O G A N T E : Com o se form am as em oções e qual a sua
função, no estado m ental a que vos referis?
K R IS H N A M U R T I: C om o nascem as emoções? M uito sim ples­
mente. Elas se tornam existentes por meio de estímulos, por
meio dos nervos. Se me espetais com um alfinete, dou um salto;
se me lisonjeais, sinto deleite; se me insultais, sinto desgosto.
P or meio dos sentidos nascem as em oções. E quase todos nós
somos acionados pela em oção cham ada “prazer” ; isto é bem
óbvio. Gostais de ser reconhecidos com o hinduístas. Com o tal,
pertenceis a um a com unidade, a um grupo, a uma tradição muito

191
antiga. G ostais de pertencer a esse grupo, com seu G itâ, seus
U panishads e venerandas tradições, acum uladas através dos sé­
culos. E o m uçulm ano gosta do seu grupo, etc. N ossas emoções
se tornam existentes p o r meio de estím ulos, por meio do am ­
biente, etc. Isso é bem óbvio.
Q ual a função das em oções na vida? E m oção é vida? Prazer
é am or? Se em oção é am or, este então é um a coisa que está
a alterar-se a toda hora. C erto? N ão sabeis de tudo isso?
IN T E R R O G A N T E : Senhor, só um m inuto. . .
K R IS H N A M U R T I: Senhor, ainda não acabei de responder
àquele cavalheiro. C om o disse outro dia, tão interessados esta­
mos em nossas próprias perguntas, que não dam os ouvidos a
nada m ais; deixam o-nos guiar por nossas em oções ou por idéias
intelectuais, destrutivas um as e outras. Se somos guiados pelas
emoções ou pelo intelecto, somos levados ao desespero, porque
as emoções e o intelecto não nos levam a parte alguma. M as,
percebei que o am or não é prazer, percebei que o am or não
é desejo.
Sabeis o que é o prazer, senhor? Q uando olhais um a coisa
ou quando tendes um sentim ento, dá-vos prazer pensar nesse
sentim ento, deter-vos nesse sentim ento, e desejais repetir esse
prazer indefinidam ente. Q uando um hom em é m uito ambicioso
ou pouco am bicioso, isso lhe dá prazer. Q uando busca poder,
posição, prestígio, em nom e da pátria, em nom e de um a idéia,
etc., isso lhe dá prazer. Esse hom em não tem am or e, por isso,
causa malefícios no m undo. C ausa a guerra, externa e interna.
Tem os, pois, de perceber que as em oções, os sentim entos,
o entusiasm o, o sentim ento de ser bom , etc., nada têm em
com um com a verdadeira afeição, a verdadeira com paixão. T odos
os sentim entos e emoções estão ligados ao pensam ento e, por
consegu in te/co n d u zem ao prazer e à dor. O am or não conhece
dor, nem sofrim ento, porque o am or não é p roduto do prazer
ou do desejo.
IN T E R R O G A N T E : Dissestes há pouco que n a observação to ­
tal não há observador, nem pensam ento, nem m edo, e que nessa
observação o observador é a coisa observada. Pergunto: Quem
é o observador que observa, no estado de observação total?

192
K R IS H N A M U R T I:. Vou explanar a pergunta; se eu não a repetir
corretam ente, peço-vos corrigir-m e.
O interrogante quer saber: Quem é o observador, quando
não há observador e coisa observada? — O orador disse que,
quando há atenção com pleta, total, não há observador nem
coisa observada. P ortanto, é preciso com preender o que ele
entende pela palavra “ atenção” . N ão há atenção quando há
qualquer espécie de luta, de esforço. Certo? Se me esforço para
prestar atenção, m inha energia se gasta nesse esforço. Assim,
o que preciso com preender, em prim eiro lugar, é o que significa
“ prestar atenção” . N ão há atenção quando de alguma m aneira
se tenta m oldar a atenção, restringi-la, forçá-la a tom ar uma
determ inada direção. E não há atenção quando o pensam ento
está funcionando de acordo com as inclinações, o prazer, o
desejo ou o tem peram ento da pessoa, ou é im pelido pelas cir­
cunstâncias; vale dizer, se há qualquer espécie de imagem, não
pode haver atenção.
Senhor, tudo isso significa “ m editação” — não a m editação
que alguns de vós praticais e que consiste em repetir “ Ram ,
R am ” , “ Sita” ou sei lá que nome. T al repetição de palavras
em bota a mente. E a mente que se em bota pode tornar-se muito
silenciosa, mas continua a ser um a mente em botada.
Assim, só há atenção quando não há imagem nenhum a,
quando não existe o tempo. O tem po é um processo de pensa­
m ento dentro do cam po da consciência, e a consciência é, toda
ela, resultado do tem po e do pensam ento; portanto, entre os li­
mites da consciência não é possível a atenção. T al atenção é
facílima. A tenção é percebim ento de cada ação, de cada senti­
mento, de cada pensam ento. Q uer dizer, a atenção se torna exis­
tente quando há auto-conhecim ento, não em conform idade com
uma certa filosofia, um certo psicólogo, etc., porém conheci­
m ento real de vós mesmos, tal com o sois, de vossos pensam en­
tos, de vossos gestos, da m aneira com o falais a vossa esposa,
a vosso m arido, a vosso p atrão ; simples conhecim ento de vos­
sas reações, sem condená-las, sem justificá-las, sem traduzi-las;
simples observação, pelo percebim ento em escolha. D aí procede
essa atenção extraordinária, na qual não existe imagem, nem
tem po, nem pensam ento. E nesse estado de atenção — que é

193
m editação — não há observador nem coisa observada. Senhor,
experim entai-o, fazei-o! N ão me pergunteis quem é o observa­
dor quando não h á observador e coisa observada. Fazei-o!
IN T E R R O G A N T E : S e n h o r. . .
K R IS H N A M U R T I: E sperai um pouco, só um m inuto. É bom
fazer perguntas, m as é necessário fazer a p ergunta correta. E n ­
tretanto, a pergunta correta exige um a m ente excelente, um a
m ente realm ente séria, deveras interessada, desejosa de descobrir
— e não um a m ente que faz um a pergunta trivial e nem sequer
presta atenção à resposta. A m aioria de n ó s . . .
IN T E R R O G A N T E : E u queria p erg u n tar. . .
K R IS H N A M U R T I: Senhor, aquele amigo fez um a pergunta:
Q uando não há observador, existe a coisa observada? E sta é
a prim eira coisa que se pergunta: Q u ando não h á observador
existe a coisa observada? Claro que existe, tal com o é e não
com o desejaríeis que fosse. O bservai, p o r exem plo, um a árvore:
observai-a! Se não tendes nenhum símbolo relativo a essa árvore
— sendo “ sím bolo” a imagem, o conhecim ento botânico, a
espécie, etc. — olhai-a sim plesm ente, com toda a vossa aten­
ção. O lhar com atenção significa olhar com os nervos, com o
corpo, os ouvidos, os olhos, o coração, com tudo o que tendes.
Significa, portanto, energia. Essa energia se dissipa quando ten­
des um a imagem relativa ao objeto. M as, se olhardes daquela
m aneira, vereis por vós mesmos que quando a m ente está com ­
pletam ente atenta, está vazia. E desse vazio, desse silêncio, p ro ­
vém a ação, m esm o quando se trata d a coisa mais corriqueira.
IN T E R R O G A N T E : O pensam ento e o m edo são im anentes a
todos os seres vivos, ou provêm de ou tra fonte?
K R IS H N A M U R T I: O m edo é im anente ao ser hum ano?
Senhor, que é o m edo? O m edo n ão pode existir p o r si,
mas só em relação com algum a coisa. E u tenho m edo de m inha
m ulher, de m eu patrão, tenho m edo da m orte, tenho m edo de
adoecer; o p a trã o pode me botar na rua, se tem força para
tanto — e os patrões, em geral, têm força, hoje em dia — e,
psicologicam ente, isso me infunde medo. O m edo, pois, está
em relação com a realidade — o perigo. E tam bém psicologica­
m ente, interiorm ente, há m edo em mim. Tem o adoecer, p o r­

194
que padeci dores e estas dores constituem um a lem brança. E sta
lem brança me diz que devo ter cuidado p ara não adoecer. Pos­
so tam bém ter m edo do escuro, etc. O m edo, pois, existe sem­
pre em relação com alguma coisa; não existe sozinho. T enho
possibilidade de alterar essa relação, mas se essa alteração se
basear no prazer e na dor, criará sem pre medo. Por conse­
guinte, não há nada im anente aos entes hum anos. Nós somos
o resultado do tem po, oriundos do animal, ainda vivo em nós.
IN T E R R O G A N T E : Com licença, senhor.
K R IS H N A M U R T I: Pois não, senhor.
IN T E R R O G A N T E : Q uanto à m utação total da m ente, como
irem os alcançar essa to ta l. . .
K R IS H N A M U R T I: Como? T ende a bondade de repetir.
IN T E R A R O G A N T E : Se adm itim os que a m utação total da
m ente é suficiente p ara resolverm os todos os nossos problem as,
como conseguirem os essa total m utação?
K R IS H N A M U R T I: T ende a bondade de me corrigir se eu não
repetir corretam ente a vossa pergunta. N osso amigo pergunta:
Se adm itim os a m utação com o um a necessidade, com o a con­
seguiremos? E stá certo, senhor?
Pois bem, p o r que adm iti-la, aceitá-la? Se vós a aceitais,
podeis tam bém rejeitá-la, não é verdade? Portanto, pergunto-
vos: Por que aceitar tais coisas? N ão percebeis, vós mesmos,
essa necessidade, quando observais toda a aflição em vós
existente e no m undo? N ão preferis m udar a aceitar qual­
quer idéia idiota que outrc vos apresente? Assim, não se trata
de aceitação, porém , em prim eiro lugar de uma questão de fato.
Podeis rejeitar o fato, alegando que o hom em não pode m udar,
que o hom em é estúpido há dez mil anos e será sem pre estú­
pido. M as, no m om ento em que observardes o que se está pas­
sando em vós m esm os e o extrem o desespero do hom em , do
qual deveis estar bem cônscios, nesse m om ento não deixareis
de inquirir, de fazer a pergunta correta: Pode o hom em m udar
totalm ente? C om preendeis o que quero dizer?
Ali está um senhor que já se levantou três vezes para fazer
um a pergunta. Senhor, podeis fazer vossa pergunta logo que
eu term inar esta resposta.
O interrogante perguntou: Com o conseguir a m utação? O ra,

195
quando se pergunta “com o” , deseja-se conhecer o m étodo. Não
é isso que desejais? “ C om o” im plica m étodo, sistema, m aneira.
C erto? “C om o” significa sem pre isso. N ão sei m atem ática e p e r­
gunto “Com o aprendê-la?” . E respondem -m e que há um a m a­
neira, um m étodo, um sistem a, uma fórm ula que devo seguir
para aprender m atem ática. Pois bem, escutai simplesmente a
palavra, senti a palavra. Existe um sistem a por meio do qual
podereis m udar? Se há algum sistema, nesse caso vos tornareis
escravo dele e daquilo que prom ete. Por conseguinte, não há
m utação. H á gente que diz que há um m étodç de m editar com
o qual se pode alcançar o Sublime; ora, há m étodo até na lou­
cura, mas loucura é sem pre loucura. Percebeis? Não se requer
m étodo nenhum , senhor, p a ra se alcançar a m utação. Só se
requer atenção, observação, a com eçar por vós mesmos, porque
vós mesmos sois o resultado de todo o esforço hum ano, de toda
a aflição hum ana, de todo o sofrim ento hum ano: sois o resul­
tado do passado — o passado da com unidade ou o passado da
raça. E se m eram ente perguntais “ com o” , estais interessado no
passado, no processo m ecânico do pensam ento. Portanto, não
há “com o” ; tendes de observar a vós mesmos, observar o que
dizeis, observar e conhecer o que pensais e os m otivos desse
pensar; observar vossa m aneira de tratar os outros, de com er,
de andar, de olhar p ara um a m ulher ou um hom em , de olhar
as estrelas ou a beleza do ocaso; observar, estar cônscio de
tudo isso, sem escolha. Em virtude dessa observação — se for­
des capazes de levá-la até ao fim — vereis que a m utação vem
sem o sentirdes.
IN T E R R O G A N T E : Senhor, há um dito de S an k arach ary a. . .
K R IS H N A M U R T I: A pergunta desse senhor é que, segundo um
dito de Sankaracharya, o m undo é ilusão. E vós que dizeis?
Pessoalm ente, não leio nenhum desses divros — S ankara­
charya, G itâ, U panishads — nenhum livro religioso, nenhum li­
vro filosófico ou psicológico. E se repetis o que diz Sanka­
racharya ou outro, eu vos digo: N ão lhes deis ouvidos. N ão si­
gais ninguém. N ão aceiteis nenhum a autoridade. P orque todos
podem estar errados, e geralm ente estão quando se lhes atribui
autoridade. Tecnologicam ente, a autoridade é necessária, para
aprenderm os a operar um a m áquina, um com putador, etc. M as,

196
se tendes algum a autoridade psicológica, isso significa m orte, es­
curidão. E ste país está cheio de autoridades dessa espécie —-
a autoridade d o chefe de fam ília, a autoridade do instrutor,
de Sankaracharya, d e Buda, etc. N o O cidente, a autoridade é o
Cristo, etc. E há os professores, os filósofos, os Sankaracharyas
que se queim am ou jejuam , os “santos” , etc. N ão sigais ninguém,
nem mesmo a este orador. Senhor, estou falando com toda a se­
riedade. N ão riais. Não sois capazes de ver p o r vós mesmos ou de
pensar por vós mesmos, de m aneira original; foi sem pre este o
veneno. Pensar p o r si mesmo significa revoltar-se. N ão sois ca­
pazes de revoltar-vos, tendes m edo de perder vosso em prego, de
que as coisas vos saiam erradas. E, assim, aceitais a tradição.
A tradição é sem pre m orta, e porque estais seguindo coisas m or­
tas, estais a m orrer.
O homem sensato, o homem realm ente honesto, sério, não
segue autoridade alguma.
IN T E R R O G A N T E : Senhor, uma pergunta. Explicastes o que é
atenção, m a s . . .
K R IS H N A M U R T I: V ou sim plificar a pergunta, senhor. O inter-
rogante indaga: Dissestes que no estado de atenção não h á me­
m ória; com o posso libertar-m e da m em ória? N ão é isto, se­
nhor?
Senhor, quando se conhece o mecanismo, a estrutura, o sig­
nificado de uma coisa, começa-se a com preendê-la. Pode-se, en­
tão, pô-la à margem.
Tenho de p arar, senhor. Já são dezenove horas. E sta é a
últim a pergunta.
Diz o interrogante que o ente hum ano leva uma pesada car­
ga de m em ória. Para com preenderdes essa m em ória, tendes pri­
m eiram ente de ver a sua estrutura, com o nasce ela, qual a sua
função, e tam bém onde ela não deve interferir. Sabeis como se
origina a m em ória, senhor? Conheceis o com eço da m em ória?
Vejo um belo rosto: há percepção, contato, desejo. Percebeis,
senhor? É este o processo, não? Vejo uma certa coisa — o
pôr do sol, um rosto, uma árvore: percepção visual; em seguida
há o contato: sensação; então entra em cena o pensam ento:
“ Isto me dá prazer, quero repeti-lo” . Certo?

197
Assim , o pensam ento, gerado pela sensação e o desejo, p ro ­
longa o prazer. O nde há prazer, há dor; a b atalh a está desenca­
deada. E , assim, a m em ória se vai adensando cada vez mais;
quanto mais antiga e tradicional, tan to mais pesada ela se torna.
E, então, p erguntais: “C om o libertar-m e da m em ória?” — N ão
podeis libertar-vos dela. O que podeis fazer é só observar m inu­
ciosam ente com o surge ela, com o se inicia. P a ra descobrirdes
com o se origina a m em ória, vossa m ente deve observar em silên­
cio. Percebeis? P a ra descobrirdes qualquer coisa, tendes de olhar;
e para poderdes olhar, deveis estar em silêncio. Se, quando olhais
vossa esposa, vosso m arido, vosso filho, tendes idéias ou im a­
gens relativas a esse filho, à esposa ou ao m arido, não estais
olhando em silêncio; vossa m ente está repleta dessas coisas e, por
conseguinte, não podeis olhar. Assim, para olhar, a vossa m ente
deve estar em silêncio, e a própria urgência de olhar to rn a a
m ente silenciosa. N ão tendes prim eiro um a m ente silenciosa e
depois olhais; ao contrário, a própria urgência de olhar o p ro ­
blema m undial, e p o r conseguinte o vosso problem a, torna a
m ente quieta, silenciosa. Esse próprio ato de olhar põe a m ente
em silêncio. Pode-se então observar a fonte de cada m ovim ento
da m em ória.

22 de dezem bro de 1966.

198
NOVA DELHI:
Da energia

n reio que esta é a última palestra, pelo menos deste ano.


N unca cessam os de acum ular idéias, am ontoar palavras, adqui­
rir conhecim entos e cultura. M as, agir parece-nos uma das coi­
sas mais difíceis do m undo: agir racional e saudavelm ente, sem
conflito algum ; agir com nossa m ente integral, isto é, não defor­
mada por condicionam ento, pelo am biente em que vivemos,
pelas tensões e pressões a que estão sujeitos os entes hum anos.
M uito mais fácil se nos afigura discutir idéias e teorias, do que
vivermos com plenitude os nossos dias, inteiram ente livres de
problem as, de perturbações, de aflições e de sofrim ento. Pa­
rece que uma das coisas mais difíceis da vida é vivermos com ple­
tam ente, integralm ente, e não fragm entariam ente: serm os entes
hum anos totais, quer em nosso trabalho, quer no lar, quer quan­
do estam os a passear num a floresta. Só a ação integral cria in­
teligência. A ção integral é inteligência. O ente hum ano vive, em
geral, fragm entariam ente, com o m em bro de uma família em opo­
sição ao resto do m undo, com o hom em religioso (se somos mes­
m o religiosos), com teorias e idéias próprias, crenças e dog­
mas separados. E cad a um está sem pre a lutar pela conquista
de posição, prestígio, renom e (não im porta se renom e de santi­
dade ou m u n d an o ). Estam os sem pre a lutar, a lutar. N unca há
um m om ento em que nossa m ente esteja com pletam ente vazia e,
por conseguinte, em silêncio. Já não somos originais. Somos,

199
com o temos dito e redito, produtos de nossos am bientes, das cir­
cunstâncias, da cultura, d a tradição em que vivemos. M as a m u­
tação requer sem pre uma grande abundância, de energia.
É m uito fácil discutir idéias, pois não exige m uita energia.
F orm u lar teorias, citar este ou aquele, nada disso exige m uita
energia, interesse, ardor. M as o operar em si próprio um a revo­
lução total, isso exige um a energia trem enda. £ , para possuir
essa energia, o homem já tentou uma porção de coisas: fez-se
monge, fechou-se às tentações do m undo, retirou-se, isolou-se
do m undo. Mas, interiorm ente, ele continuou torturado, interior­
m ente continuou a arder em desejos, continuou com suas idéias
e opiniões, próprias ou de outrem . Assim, exteriorm ente, o indi­
víduo pode retirar-se, porém interiorm ente h á sem pre conflito,
luta. E essa luta, naturalm ente, causa desperdício de energia.
M as, p ara m udarm os, é óbvio que necessitam os de trem enda
energia. A té para se deixar de fum ar — se se tem vontade de
fazê-lo — necessita-se de u m a certa energia. O observar porque
fumais, o processo desse hábito, etc., exige um a b oa dose de
energia. O abandonar o hábito de fum ar requer energia, tanto
q uanto o adquiri-lo. Talvez seja preciso mais energia para ab an ­
doná-lo.
Mas nós temos de com prender o processo de viver, que é
muito com plexo. Vivemos m uito superficialm ente; exteriorm en­
te, talvez sejam os capazes de levar um a vida bem simples, m as
interiorm ente somos entes hum anos m ui com plexos. Os motivos,
as am bições, os tem ores, a com petição, m edo e sofrim ento perp é­
tuos — tudo isso está em ação interiorm ente. O ra, p a ra se
efetuar um a transform ação radical desse estado, é óbvio que
se requer muita energia. Pois bem, é possível term os essa en er­
gia, sem conflito algum? P or que pensam os que a acum ulação
de energia se efetua m ediante esforço, isto é, pensam os que
quanto mais nos esforçam os, mais energia adquirim os. N ão é
exato?
Peço-vos, mais um a vez, não vos limiteis a ouvir palavras
ou idéias. E scutai com vosso coração e vossa m ente, sem p a r­
cialidade, sem oposição, sem contrapordes vossa opinião p es­
soal; escutai, tão-som ente! O orador está fazendo todo o tra­

200
balho, e só tendes de escutar. Q uando sabeis escptar, estais tra­
balhando com o orador. Mas, se vos lim itais a ouvir palavras,
a traduzir essas palavras em opiniões, e a essas opiniões opor
as vossas idéias, ou a com parar aquelas palavras com o que
foi dito pelo instrutores precedentes, etc. — nesse caso não
estais cooperando: estais desperdiçando energia. M as, vós ten­
des de escutar, assim como se escuta o canto m atutino de uma
ave, assim com o se escuta m úsica: sem rejeição, sem oposição,
porém com intensidade, com afeição, com júbilo. Porque só
quando escutam os com o coração e a mente, só quando escuta­
mos totalm ente, o escutar é um fim em si. Então, não tendes
necessidade de fazer nada. Porque então a sem ente se instalou
em vós, e essa sem ente, se tem vitalidade, frutificará. Mas,
se m eram ente vos opondes ao que ouvis dizer, porque sois sikh,
hinduísta, m uçulm ano ou sabe Deus que mais, ou se estais sendo
torturado por um dado problem a e desejais que esse problem a
seja resolvido, estais então escutando com um a m ente fragm en­
tada, estais escutando parcialm ente. Esse escutar parcial, essa
falta de atenção é a essência m esm a do desperdício de energia.
Ou se escuta totalm ente, ou é m elhor não escutar.
Tendes de prestar toda a atenção ao vosso sofrim eno e a
tudo o que ele im plica: solidão, falta de com panhia, frustração,
aflição, tédio infinito.
N ão podeis prestar inteira atenção ao vosso sofrim ento se
desejais que ele seja resolvido de uma certa m aneira, em confor­
m idade com um certo padrão; então, essa exigência de que ele
seja resolvido de determ inada m aneira é um desperdício de ener­
gia. M as, se ficardes simplesm ente escutando, com zelo, acom ­
panhando cada m ovim ento do pensam ento, observando-o atenta
e m inuciosam ente, vereis então, por vós mesmos, que o proble­
ma, antes tão form idável, se tornará insignificante. Porque essa
própria atenção é a energia que resolve o problem a.
Nesta tarde, se o permitis, vam os considerar com o se acum u­
la essa energia que é necessária para resolver os problem as hu­
manos. Tem os muitos problem as, e não um problem a apenas. E
cada problem a está relacionado com outro problem a. Se puder­
des resolver com pletam ente um só problem a, de qualquer espé­
cie que seja, vereis que sereis capaz de enfrentar outros pro­

201
blemas e de resolvê-los facilm ente. A falta de atenção é que
é nociva e não a atenção. E q u an d o sabeis que estais desatento,
isto é estar atento. Com preendeis? Saber que sou preguiçoso,
perceber que sou preguiçoso, já é estar ativo. M as, quando não
percebo que sou preguiçoso, quando não percebo que sou desa­
tento, com eçam as tribulações e as aflições inerentes ao p ro ­
blema. E scu tar o que estou dizendo, p o rq u an to estam os falando
de vossa vida, de vossa diária ansiedade, vossa diária aflição,
vosso diário conflito, os insultos que recebeis, etc. E para resol­
ver-se tudo isso, não parcial, porém totalm ente, requer-se m uita
energia.
V am os averiguar nesta tarde se podem os com unicar uns aos
outros essa energia. P ara a com unicação de qualquer coisa é ne­
cessário o contato. P ara estarm os em com unicação sobre qual­
quer problem a, tem os de estar em contato com a palavra e o
significado d a palavra; não devem os traduzir a palavra con­
form e os nossos desejos. E m outros term os, p a ra que h a ja com u­
nicação, am bas as partes devem achar-se num estado de aten­
ção. Se vos estou dizendo alguma coisa, deveis estar atentos,
deveis estar interessados, deveis escutar com zelo. M as, se não
estais atentos, se ficais m eram ente à espera de ser estim ulado ou
de que vos digam o que deveis fazer, torna-se im possível a co­
m unicação. N ão vamos dizer-vos o que deveis fazer. H á milê­
nios vos dizem o que deveis fazer. Vossos instrutores, vossos
gurus, vossos políticos, vossos livros, etc., vos têm ensinado
o que deveis fazer, o que deveis pensar; não vos têm ensinado
a pensar, porém o que p ensar. F o i assim que se estabeleceu esse
padrão, essa tradição. Estais esperando que vos digam o que
deveis fazer. M as, nós não estam os interessados num a banali­
dade dessas — “o que deveis fazer” ou “ o que não deveis fazer” .
Isso virá quando prestardes atenção. D escobri-lo-eis, então, por
vós m esm os, com vossa p ró p ria m ente e vosso próprio coração1.
V am os, pois, considerar com o se faz a acum ulação dessa
energia que não é gerada por m eio de estím ulo. T ende a bon­
dade de escutar atentam ente. A m aioria de nós depende de estí­
mulos. Tom a-se haxixe, ou L.S.D ., isto ou aquilo, como esti­
m ulante. H á várias form as de estim ulação, tanto externas como
internas. As externas, conhecem o-las bem e são bastante sim­
ples: um ritual, a recitação de um a frase, a leitura de uin livro,

202
um certo agente ou incentivante. Interiorm ente, recebem os esti­
m ulo por m eio do desejo, (por meio do prazer, por meio de um a
idéia. M as, estam o-nos referindo à energia que não depende de
estím ulo nenhum . Porque, no m om ento em que dependem os
de algum a coisa, já estam os desperdiçando energia. C om preen­
deis bem isto, senhores? T odos nós dependem os — e não p o ­
demos deixar de depender — de alim entos, de roupas e de m o­
radia. Isto é bem óbvio. N ão confundam os as duas coisas (1 ) .
Vós tendes necessidade de alim ento, tendes necessidade de ro u ­
pas, e tendes necessidade de teto. D ependem os do carteiro, do
leiteiro, da estrada de ferro, de nossa burocracia, etc. M as, tam ­
bém dependem os de outros interiorm ente. Interiorm ente nos ve­
mos em extrem a solidão. E, por causa do m edo que temos dessa
solidão, desse vazio, dependem os, interiorm ente, das pessoas, e
estas se tornam o estím ulo de que necessitam os. E, no m om ento
em que existe um estim ulante, seja psicológico, seja exterior, esse
estim ulante nos em bota a mente. Percebeis? Vós bebeis café, chá
ou álcool. Se continuardes a bebê-lo, necessitareis desse estim u­
lante em doses cada vez m aiores, a vossa m ente se tornará cada
vez mais em botada, em vez de sensível, vigilante, desperta. A s­
sim, quando se percebe que qualquer form a de estím ulo, externo
ou interno, produz inevitavelm ente um a espécie de indiferença e
em brutecim ento, quan d o se percebe isso com o um fato verda­
deiro, desaparece a necessidade d o estímulo. Nisso não há con­
flito; o conflito é que dissipa energia. Entendeis, senhores?
N ossa vida é conflito desde os dias escolares, quando com ­
petim os uns com os outros e nos esforçam os p a ra conquistar
notas m elhores no exam e, até os dias do colégio e da universi­
dade. E, mais tarde, quando se tem de arran jar em prego, há
conflito para se obter um em prego m elhor, com petição para se
alcançar um a certa posição, e, depois, p a ra m elhorar cada vez
mais essa posição. Do com eço ao fim, andam os em constante
conflito, a lutar e lu tar, tanto em ocional com o intelectualm ente.
Tal esforço, que, com o todo esforço, representa atrito, não torna
a m ente sutil e capaz de funcionar livrem ente. T odo esforço de­
form a a mente. E spero estejais percebendo bem isto.

(1 ) I. e., a dependência exterior e a dependência interior. (N . do T .)

203
Só quando cessa o esforço, tendes ilim itada energia interior,
tornando-se vossa m ente lím pida com o cristal e capaz de enfren­
tar e resolver qualquer problem a hum ano. Assim, para que essa
energia se torne existente, tem-se de com preender o esforço,
sem se perguntar ao o rador: “C om o posso viver sem esforço?”
T al pergunta seria verdadeiram ente absurda, porque, se eu fosse
tão desassisado que vos dissesse com o se pode viver sem es­
forço, trataríeis de seguir o m eu sistem a, mas, na p ró p ria obser­
vância do sistem a, estaríeis fazendo um esforço e, por conse­
guinte, destruindo justam ente aquilo que desejais. M as, se com ­
preenderdes a natureza e a estrutura do esforço, possuireis então
a energia necessária p ara enfrentar o problem a, ou para fazer
m uito mais proficientem ente o que tendes de fazer. C om preen­
deis, senhores?
Socialm ente, o m undo está dividido: uns no alto, outros
no meio, e outros em baixo. N ão é verdade? Os do alto têm
todo o prestígio, posição, riqueza, detêm o poder e desejam con­
servá-lo. É o que está acontecendo neste país: um partido polí­
tico tem o poder, a posição, o prestígio, etc., e quer conser­
var tudo isso; e, para conservá-lo, tem de fazer um esforço tre­
mendo. Os do meio querem chegar ao alto e de lá expulsar os
que lá estão. Isso se cham a “revolução” . Os do meio se tornam
os do alto e aferram -se ao poder até que, novam ente, vêm os
de baixo e os expulsam . É um pad rão que se repete contin
mente. E , na sociedade, o hom em am biciona prestígio e posi­
ção, por m eio da função. C erto? Fazeis um a enorm e distinção
entre o Prim eiro M inistro e o cozinheiro. N ão só exterior­
mente, mas tam bém psicologicam ente, interiorm ente, a posição
tem m uito mais im portância do que a função. Isso porque com a
função identificastes a posição. C onseqüentem ente, atribuindo-
-se à posição exagerada im portância — com o se está fazendo em
todo o m undo — a função se torna cada vez menos eficiente.
Porque, então, o indivíduo não está atento à função; está
com os olhos na posição. Certo? E , assim, o conflito entre a
função e a posição — a luta para alcançar posição por meio
da função — se torna a finalidade d a existência. Isto e
acontecendo realm ente. A ssim , estam os constantem ente a aum en­
tar o conflito. O m esm o estão fazendo os “santos” ; só que

204
o fazem a seu m odo, porque querem ganhar o céu, quebrando
recordes de jejum , deixando-se queim ar, etc. P ara eles a posição
tem desm edida im portância, e não aquilo que eles realm ente
são. Com o são fúteis e desassisados os entes hum anos!
Assim, tem os de operar um a m udança na nossa m ente
superficial. É m uito superficial a m ente da m aioria de nós —
a do “ santo”, a do Prim eiro M inistro, a de outro qualquer. E a
m ente está perenem ente em penhada em, tornar-se coisa diferente.
Estais-m e seguindo? Mas, no m om ento em que prestardes atenção
à vossa m ente superficial, no m om ento em que percebertes que
sois estreito, lim itado, fútil, vereis que, nesse estado de atenção,
já não sois fútil. U m a vez com preendido este princípio — com ­
preendido, e não repetido, citado — torna-se sem im portância
o que está dizendo este orador. O orador é com pletam ente sem
im portância. O im portante é que escuteis, que vejais se é verda­
deiro o que estais ouvindo e trateis de pô-lo em p rática com
todo o vosso coração e vossa mente.
Como disse, necessitam os de energia, e essa energia se
desperdiça quando há conflito. Peço-vos escuteis m uito atenta­
m ente o que se vai dizer a seguir. O conflito co ntinuará exis­
tente enquanto andardes em busca do prazer. A m aioria de nós
deseja prazer. É para isto que vivemos: para term os prazer
sexual, satisfazerm os nossos diferentes apetites, fruirm os o prazer
derivado da posição, do prestígio, da capacidade, da erudição.
O prazer é fabricado pelo pensam ento. Isto é bem simples, não?
O pensam ento cria o prazer. Penso num a certa coisa que me
proporcionou prazer; e quanto mais penso nessa coisa, mais for­
taleço aquele prazer. É m uito fácil ver com o nasce o prazer. E
enquanto a m ente andar em busca do prazer, haverá sem pre o
m edo de não consegui-lo. E enquanto houver medo, haverá
esforço p ara fugir a esse m edo, p a ra dissolvê-lo de alguma
m aneirá. Tal esforço é desperdício de energia. Percebeis? T e­
mos de ver a estrutura, o significado do prazer, temos de com ­
preendê-lo — mas não intelectualm ente.
M uito se abusa da palavra “com preensão” . Dizemos que
com preendem os intelectualm ente, e isso é puro disparate. N ão
se com preende nad a intelectualm ente. O que realm ente quereis
dizer quando afirm ais: “ C om preendo intelectualm ente” , é isto:

205
“C om prendo as palavras que estais usando e com preendo o sig­
nificado dessas palavras, m as não com preendo a essência da
coisa” . Só se pode com preender to talm ente um a coisa, escutando
em silêncio e de m aneira com pleta. Entendeis? Isto se d á com
todos nós. C om preendem os integralm ente u m a coisa quando es­
tam os quietos. Do silêncio vem a com preensão, e não do nosso
tagarelar.
Tendes, pois, de com preender a natureza do prazer, sua
estrutura, com o ele com eça a existir, im previstam ente, lentam en­
te, insensivelmente. V edes um belo pôr-do-sol, um lindo rosto,
ou tendes um a certa experiência, sexual ou de outra natureza,
e desejais sua repetição. A repetição é um “ processo” de p en­
sar nessa experiência. E quanto mais a repetis, tanto mais m e­
cânica se torna a repetição. Podeis ir todas as tardes assistir
ao pôr-do-sol, mas nunca o vereis porque dele quereis extrair
prazer. N ão estais olhando o ocaso. D esejais o prazer que ele
vos deu h á dois dias. Assim, enquanto houver qualquer exigên­
cia de prazer, haverá inevitavelm ente conflito. M as não esta­
mos falando em abolição do prazer à m aneira puritana. Pelo
contrário, se com preenderdes a estrutura integral do prazer, en­
contrareis im ensa alegria na vida. A alegria é m uito diferente
do prazer. N ão se pode pensar na alegria, m as pode-se pensar
no prazer. Já o notastes?
Tem os, pois, de com preender, não só o esforço, m as tam ­
bém o significado e o valor do prazer, em vez de suprim i-lo,
com o tentam fazer os monges em seus m osteiros, e tam bém os
sanyasis, que têm tanto m edo de olhar p ara um a m ulher, porque
para eles o prazer é erro, é pecado. C om isso destruiriam a
vitalidade da com preensão. Tendo-o declarado um a coisa m á,
nunca exam inaram a estrutura do prazer. C um pre-nos, pois,
com preender não só o esforço, mas ainda o prazer, porque no
prazer existe o m edo e, por conseguinte, a dor. Entendeis? O nde
há busca de prazer, há m edo; e o m edo cria a dor. Se desejais
continuar a “viver com o prazer, o m edo e a d o r” , continuais,
mas procurai conhecer todas as conseqüências; não vos deixeis
sim plesm ente cair na arm adilha. Porém , se aplicardes a esta
questão to d a a atenção, vereis que se pode olhar o pôr-do-sol
sem se perm itir a introm issão do prazer, quer dizer, do pensa­

206
m ento, do desejo de repetição. Por conseguinte, se olhardes,
sem pensam ento, o poente, um rosto, qualquer coisa — um
pássaro, a beleza do rio, um a extensão d ’água coruscando ao
sol — encontrareis uma alegria extraordinária; conseqüente­
m ente, não haverá nem dor, nem m edo, e todo esforço estará
acabado.
Fazem os tam bém esforço quando querem os “ vir a ser”
alguma coisa. O estudante que quer passar nos exames quer
“ vir a ser” , e isso lhe custa esforço. (E sta ocasião não é p ró ­
pria para falarm os a respeito da educação, e isso foi apenas
um a alusão ao assu n to ). Interiorm ente, desejam os ser alguma
coisa. N ão sei se já notastes com o, dentro em vós mesmos, an­
siais por ser alguém, ser fam oso, grande sabedor. Sabeis quan­
tas coisas imaginamos. Por que procedem os assim? Por que de­
sejamos ser pessoas im portantes? Por que desejam os ser heróis,
com o outros o foram ? A m aioria de nós o deseja: por quê?
Repito que é preciso com preender isso. Porque, interior­
mente, somos entes hum anos vazios, superficiais, presum idos,
insignificantes. Já deveis ter visto algum a vez um cavalo em
disparada, com um homem às costas; o cavalo é m uito mais
útil, mais belo, todo pujança e alegria. E seu dono é apenas
um hom enzinho inexpressivo, de m ente lim itada, m edrosa. É o
que somos. Q uerem os ter m uita im portância, exteriorm ente, en­
quanto interiorm ente estam os inteiram ente vazios — em bora
repletos de lem branças, de conhecim entos — tudo do passado,
cinzas frias de vivências ou experiências pretéritas. E porque
estam os vazios, tem em os esse vazio e andam os perpetuam ente
em penhados em “ vir a sér algum a coisa” . M as, se dispensardes
total atenção ao vosso vazio, vereis que sois capaz de trans-
cendê-lo. E , então, não haverá m ais esforço para ser alguma
coisa. Sabereis então o que significa viver sem exigência algu­
ma. Esse viver ilum inará a si próprio.
Com o vimos, desperdiçam os energia pelo esforço constan­
te e de toda espécie — interiorm ente, é claro. Em geral somos
indolentes, preguiçosos e nos esforçam os por não ser pregui­
çosos. A lgum as pessoas disciplinam -se para levantar-se todos os
dias a uma certa hora, pontualm ente, o que lhes custa um es­
forço enorm e, pois são visceralm ente preguiçosas. Entendeis?

207
C oncentradas, que estão, em “vir a ser” — i.e. deixaram de
ser preguiçosas — nunca investigam a estrutura, o significado
da preguiça.
P or que sente preguiça um a pessoa? Provavelm ente por
falta de alim entação adequada, por excesso de trabalho, ou
po r ter andado dem ais, falado dem ais, feito um a porção de
coisas. Assim, naturalm ente, de m anhã, à hora de levantar-se,
o corpo está cheio de preguiça. Q uando não passais inteligen­
tem ente o vosso dia, no dia im ediato o corpo se acha fatigado.
E n ad a adianta disciplinar esse corpo. M as se, ao contrário,
estiverdes atento no m om ento em que estais falando, ou quan­
do estais trabalhando no escritório — se ficardes atentos, ainda
que apenas cinco m inutos, tanto basta. Q uando estais a com er,
prestai atenção a esse ato: não deveis com er apressadam ente,
nem em panturrar-vos de com ida. Vereis que, então, o vosso
corpo se torna, por si m esm o, inteligente. N ão tendes de for-
çá-lo a ser inteligente; ele próprio se torn a inteligente, e essa
inteligência o faz erguer-se ou não erguer-se do leito. D esco­
brireis então que se pode passar a vida freqüentando um es­
critório, etc., livre d aquela batalha constante, porque a energia
não foi desperdiçada e está sendo usada a todas as horas. Isso
é m editação.
E stais entendendo? M editação não é aquela coisa que se
pratica p o r este m undo afora: repetição de palavras, adoção
de posturas, respirando-se de um a certa m aneira e repetindo,
vezes sobre vezes, um certo sloka ou m antram . Isso, é natural,
entorpece a m ente; e, com o nesse estado de torpor, de em­
botam ento, a m ente se torna silenciosa, pensais ter alcançado
o silêncio. Essa espécie de m editação é apenas auto-hipnose.
N ão é m editação. É a m aneira mais destrutiva de m editar. M as,
há um a m editação que vos exige atenção — atenção ao que
dizeis a vossa esposa, a vosso m arido, a vosso patrão, a vossos
filhos; atenção a vossa m aneira de falar aos em pregados (se
os te n d e s): prestar atenção, mas sem vos concentrardes. P o r­
que a concentração é um a coisa horrível. Q ualquer escolar é
capaz de concentrar-se, porque é obrigado a fazê-lo. E pensais
que, obrigando-vos a concentrar-vos, tereis um pouco de paz.
N ão tereis isso que cham ais “p a z de espírito” ; tereis um “frag­

208
m ento de m ente” e isso não é “ paz de espírito” . C oncentração
é exclusão. Q uando desejais concentrar-vos num a coisa, estais
excluindo, resistindo, afastando as coisas que não desejais. Já
se estais atento, podeis olhar cada pensam ento, cada m ovim en­
to; não há então isso que se cham a “ distração” e, conseqüen­
tem ente, podeis m editar. A m editação é então um a coisa m aravi­
lhosa, porque traz claridade. M editação é claridade. M editação,
pois, é silêncio, e esse silêncio é o processo disciplinador, na
vida; não precisais de disciplinar-vos, a fim de terdes silêncio.
M as, quando estais atento a cada palavra, a cada gesto, a tudo
o que dizeis e sentis, e a vossos “ m otivos” , sem corrigi-los,
daí procede o silêncio e, desse silêncio, a disciplina. E ntão,
não há esforço algum; há um m ovim ento com pletam ente inde­
pendente do tem po. O ente hum ano é então feliz, não fom enta
a inimizade, não causa infelicidade.
IN T E R R O G A N T E : Quem deve governar, o filósofo ou
o político?
K R 1SH N A M U R T I: E spero que nem um nem outro. Não
riais, pois não podeis apreender o alcance de um a asserção se
vos rides tão prontam ente. P o r que deve alguém governar o
m undo? T an to o filósofo com o o político causaram um a pavo­
rosa desordem . P or que devem eles governar-vos? P o r que de­
sejais ser governado por alguém? P o r que não vos governais
a vós mesmo? A final que somos nós — m acacos? P o r que é
preciso que alguém nos diga o que devem os fazer? Sabeis o
que está para vir: os com putadores irão tom ar o lugar dos
filósofos e dos políticos. A era destes está a findar, espero eu.
Os com putadores, que são totalm ente impessoais, irão m ostrar-
vos o que cum pre fazer. D isseram -m e que, d u ran te a guerra
coreana, foram eles que decidiram sobre se convinha ou não
atacar a C hina; a decisão não foi dos generais, porém dos com ­
putadores. “C onhecendo” a força de cada facção, decidiram :
Não ataqueis! Os com putadores são incorruptíveis, m as os filó­
sofos e os políticos podem ser e m uitas vezes são corrom pidos.
Por conseguinte, o im portante não é saberdes se o m undo deve
ser governado por eles (os filósofos e político s), porém , sim,
se sois capaz de governar-vos. Assim, não necessitareis de go­
vernos. Disponde-vos a isto: G overnar a vós mesmo. E sta é

209
uma das coisas mais difíceis, porque, para poderdes governar-
-vos, tendes de conhecer-vos, em vez de inventardes que sois
aím an, isto ou aquilo. T endes de conhecer-vos, tendes de olhar-
-vos assim com o olhais o vosso rosto num espelho, sem nada
deform ar. T endes de observar-vos: vossa m aneira de andar, de
falar, de pensar — tudo. E ntão, em virtude dessa atenção, des­
sa observação, sabereis com o agir. Por conseguinte, sabereis
governar a vós mesmo e sabereis governar. C om o deveis saber,
segundo um a das teorias do com unism o, dever-se-ia acabar com
qualquer espécie de governo; mas, “ lá” , isso nunca acontecerá,
porque os com unistas querem a repetição continuada de um
certo padrão, de uma certa ideologia, e os que estão, no alto
não soltarão das mãos o poder. Assim, o hom em sensato, aque­
le que tem a verdadeira hum ildade, afeição, am or, não precisa
de ninguém para guiá-lo ou governá-lo.
IN T E R R O G A N T E : Senhor, desejo fazer duas perguntas: É pos­
sível com unicar a alegria, e é possível term os essa alegria?
K R ÍSH N A M U R T 1: É possível com unicar a alegria, e é possí­
vel term os essa alegria? Podem os ter alegria e com unicá-la a
outros?
Antes de mais nada, p a ra se com preender o que é alegria,
precisa-se com preender o que é prazer. J á falei há pouco a esse
respeito. Q uando tendes alegria, porque desejais com unicá-la?
Para que fim? Para m ostrar que a temos, expressam o-la num
livro ou num quadro. Sim, senhor, temos tanta preocupação
em “ com unicar” quando nada temos para com unicar! Ao ho­
mem que está todo entranhado de um a coisa, pouco im porta
“com unicá-la” ou “ não com unicá-la” .
1N T E R R O G A N T E : T enho duas perguntas, uma sobre o am or,
a outra sobre a m editação. Peço-vos, senhor, explicar o que é
aquele am or de que tendes falado? E sta é a pergunta relativa
ao am or. A outra é acerca da m editação. A m editação, con­
form e a definistes hoje, é atenção com pleta. O que é que se
deve rejeitar ou a c e ita r. . .
K R IS H N A M U R T I: Senhor, sede breve.
1N T E R R O G A N T E : D eixai-m e term inar, senhor. Se é essencial
o vosso conceito d a m editação, p o r que em pregais palavras já
usadas por tantos outros?

210
K R IS H N A M U R T I: M uito bem, senhor.
Pede-m e o interrogante que defina o que é o am or. Sugere
tam bém o não em prego da palavra ‘‘m editação”, porque é um a
palavra “carreg ad a” dem ais. Pois bem, digam os “ atenção” .
Mas eu não penso que as palavras têm tanta im portância,
desde que conheçam os o seu significado. Se se retirar o peso,
a “carga” que foi posta na palavra “ m editação” , pode-se então
em pregar tanto a palavra “ m editação” com o a palavra “aten­
ção ” . E, tam bém , nós não dam os definições. Um dicionário vos
d ará definições m uito boas de “ m editação” , “ atenção” , “am or” .
É isto o que nos interessa — definir, ter um a fórm ula do am or,
para depois irm os co m parar essa fórm ula com o que disse San-
kara, Buda, fulano e beltrano. E, no fim, ficareis sabendo o
que é am or, tereis então am or? Pode-se saber, dialeticam ente
ou por meio de explicações, o que é o am or? Senhor, com o se
pode conhecer o am or? D ecerto, não podem os conhecê-lo por
meio de nenhum conceito. A té aqui tem os repetido, nesta p a ­
lestra, que não nos interessam conceitos. Os conceitos são m e­
ros produtos do pensam ento, são pensam entos reunidos em con­
ceitos, fórm ulas. O hom em que vive segundo fórm ulas é um
ente hum ano m orto. É isso que está sucedendo neste país. T en­
des fórm ulas às dúzias — de Sankara, de B uda e sabe Deus
de quem mais — e, em que ficastes? P ortanto, não querem os
falar sobre conceitos. Dissemos que o am or não é prazer, o amor
não é desejo, o am or não é ciúm e, o am or não é posse ou
domínio. Se fordes capaz de elim inar essas coisas, descobrireis
o que é o am or. Elim inando-as — corretam ente e não à força
— descobrireis por vós m esm os o que é benevolência, o que
é afabilidade, o que é delicadeza. E , então, talvez venhais a
conhecer aquela flor peregrina a que o hom em tão ardentem en­
te aspira.
IN T E R R O G A N T E : Falastes outro dia sobre o problem a das
relações. E m frente de duas pessoas de idéias diferentes, que
am bas sustentam serem corretas, se temos de transigir com es­
sas, pessoas, não existe um problem a de relação com elas?
K R IS H N A M U R T I: Se se tem de transigir com um a pessoa que
“pensa que tem razão ” , pergunta o interrogante que espécie de

211
relação devemos ter com essa pessoa. O ra, todo aquele que sus­
tenta que tem sem pre razão é evidentem ente um neurótico. E
qual deve ser a vossa relação com um a pessoa desequilibrada
que diz “ Eu tenho razão em tudo”?
Senhor, criastes logo um problem a, sem terdes exam inado
a questão relativa aos que dizem “T enho razão ” . O ra, senhor,
a verdade é um a coisa totalm ente diferente do “ter razão” . A
verdade é impessoal, não tem ligação com nenhum a religião,
nenhum grupo, nenhum indivíduo; não pode ser achada em ne­
nhum a igreja, em nenhum a religião organizada. O “ certo” e
o “ errad o ” são produtos do pensam ento. Se se não com preende
todo o m ecanismo do pensam ento, nenhum sentido tem nos su­
jeitarm os a quem se considera “com razão” — como aqueles
que estão prontos a lançar-se ao fogo por causa de nada; esses
hom ens acham que têm “toda a razão” e irão causar devasta­
ções e desgraças. Isso naturalm ente nada tem que ver com a
V erdade. Ser livre significa ser sem m edo e, portanto, capaz
de investigar, olhar, observar.
IN T E R R O G A N T E : N ão é necessário um certo esforço para
se estar atento?
K R IS H N A M U R T I: Não se tem de fazer um esforço consciente
para se estar atento? Não é necessário um certo esforço para
prestarm os atenção ao que estam os fazendo? (1)
Em prim eiro lugar, quase todos nós som os educados para
fazer coisas que detestam os. A m aioria terá de freqüentar um
escritório durante os próxim os quarenta anos, e ninguém gosta
disso. É horrível estar-se perpetuam ente condenado a saltar da
cam a todas as m anhãs e correr p a ra o escritório; uma “corrida
de rato s” em que se é obrigado a tom ar parte. Assim, que fa­
zer? Vede: Um a certa pessoa me diz: “N ão faças esforço p o r­
que todo esforço é vão” . Essa pessoa me explica a natureza
do esforço e penso ter apreendido o seu significado. Chega a
m anhã seguinte e tenho de fazer um a coisa de que não gosto.
Que farei? Ou me conform o e trato de fazer a coisa da melhor
m aneira possível, ou me liberto dessa rotina. M as não posso
libertar-m e, porque sou um homem casado, com filhos e res-

(1 ) K . está apenas repetindo a pergunta. (N . do T .)

212
ponsabilidades; portanto, não há escapar. E por que não posso
escapar, que acontece? Sinto-me envelhecido, tenho com paixão
de mim m esmo, com paro-m e com outro que tem um emprego
m elhor, passo o tem po a resm ungar. T enho um a pern a doente
que nenhum m édico consegue curar; ei-la! — O u digo que p re­
ciso conform ar-m e, deixar de queixar-m e. O ra, a m aneira de
me conform ar exige atenção. Se m e conform o p o rque com pre­
endo inteiram ente a situação, ela deixa de ser um problem a p a ­
ra mim. M as, se sinto ressentim ento, se sou incapaz de resol­
vê-la ou se desejo resolvê-la de m aneira vantajosa, nesse caso
crio um a m ultiplicidade de problem as, p o r meio da autocom -
paixão, da com paração, da am bição, em várias form as. M as,
se me torno bem cônscio de tudo, sou então capaz de suportar
a situação e de transcendê-la.
1N T E R R O G A N T E : Senhor, só desejo fazer-vos um a simples
pergunta: Q ue lugar com pete ao altruísm o, na definição da vida
hum ana.
K R ISH N A M U R T 1: Q ue lugar tem o altruísm o na vida? E n ten ­
deis por altruísm o “ ausência de egoísm o”?
1N T E R R O G A N T E : Sim, senhor.
K R ISH N A M U R T 1: A usência de egoísmo na prática de trab a­
lhos sociais, não é isso, senhor? Q ue lugar tem essa ausência
de egoísmo na vida — não é isso o que quereis saber?
1N T E R R O G A N T E : Sim, senhor.
K R 1SH N A M U R T I: Que pensais vós? Por que mo perguntais?
Se isso se torna um ideal, isto é, que devo ser isento de egoísmo
para socorrer a outrem — isso já não é “ser isento de egoísm o” .
Q uando re n u n c ia is. . . m elhor, quando prestais serviços sociais,
trata-se de um a fuga a vós mesmos. Com preendeis? P orque vos
achais num lastim ável estado de frustração (dele podeis não
estar cônscio), saís a praticar obras sociais, a ajudar o povo.
M as isso irá acarretar males, porque to d a reform a exige novas
reform as. A revolução total nunca exige reform as. São esses
“ santos” que bem conhecem os, com suas coisinhas sem im por­
tância, suas resoluções e planos — são eles os verdadeiros m al­
feitores. Já quando h á total com preensão do processo d a vida,
daí, dessa com preensão, vem a m utação. T al com preensão está

213
m uito acima de todas essas falas de altruísm o, assistência so­
cial, etc.
IN T E R R O G A N T E : Em toda parte, patrões e em pregados
acham -se em conflito — tanto nas repartições do governo co­
mo nos em preendim entos públicos e particulares. Todos estão
subm etidos a um terrível conflito.
K R IS H N A M U R T I: A s discórdias entre em pregadores e em pre­
gados. as divergências que os vêm separando, tornam cada vez
piores as relações entre uns e outros.
IN T E R R O G A N T E : E existe conflito entre eles. Não há pos­
sibilidade de um m útuo entendim ento? I
K R IS H N A M U R T I: Senhor, o nacionalism o (n ão me com pete
falar sobre tais assuntos) às vezes tem êxito, às vezes não tem.
Isso tem sido dem onstrado em todas as partes do m undo. E x­
periências realizaram -se na Rússia, na C hina e em diferentes
partes dos estados sob ditadura totalitária, onde não há greves,
onde o E stado é o p atrão; e diz-se que a diferença entre o
Estado (que é a parte dirigente, com posta dos “de cim a”, dos
graudões) e a plebe, é a m esm a diferença existente entre em ­
pregadores e em pregados, havendo uma batalha constante entre
am bas as partes. A m esm a coisa acontece entre os capitalistas,
só que, entre eles, o trabalhador pode adquirir ações de sua
com panhia e nela ingressar.
O ra, que se depreende de tudo isso? H á trabalho que tem
de ser feito. O trabalho vai ser executado, em escala cada vez
maior, pela autom ação. G randes estabelecim entos fabris pode­
rão ser operados por um a meia dúzia de pessoas. Isso está a vir,
e o trabalho (i.e. a classe dos trab alh ad o res) terá muito pouco
que fazer; vós e eu ficarem os inativos, terem os lazeres. E temos
aqui o problem as das relações entre hom ens desocupados, sem
função nenhum a. As relações se tornam conflito quando há p o ­
sição e não há função. Isto é simples. Q uando o em pregador
busca posição, etc., tudo na vida se torna conflito. Assim, o
nosso problem a não é este que somos incapazes de atender a
problem as no âm bito do “ im ediato” , porém , sim — como já
disse antes, nestas palestras — que tem os de considerá-lo (o
problem a) no processo total do tempo. O homem vai ter lazer

214
em abundância, e que irá fazer? Este é que é o problem a real,
que tendes de enfrentar, ao considerar as relações de em pre­
gador e em pregado. Os nossos lazeres, decerto, serão explora­
dos pelos organizadores de entretenim entos — a televisão, o
rádio, o futebol, ou o sacerdote, o líder fanático, o partido po­
lítico, etc. A falta de ocupação se torna, (pois, um problem a im­
portantíssim o. Ides ficar inteiram ente entregues a entretenim en­
tos, sem pre a ser entretidos, ou ides ingressar num m undo di­
ferente, onde vos tornareis autênticos entes hum anos, que não
precisam de ser entretidos com espetáculos e pom pas? E nten­
deis? H averá então relações corretas entre em pregador e em­
pregado. A té lá, terem os sem pre conflito.
Por hoje, já basta, senhor. A qui está um a pergunta. D ese­
jais que eu responda a ela, agora, que já são quase dezenove
horas?
Este interrogante diz que tem acanham ento em fazer a
pergunta oralm ente e que por isso a fez por escrito. E i-la: “T e­
nho fortes tendências sexuais. E ducação, cultura, m úsica, lite­
ratura, só p uderam m odificá-las ligeiram ente, m as, essencial­
mente, elas têm raízes muito profundas. Isso me faz sofrer
muito. Que devo fazer?” Está clara a pergunta?
Diz o interrogante que a música, a arte, a literatura, etc.,
só m odificaram ligeiram ente o problem a central, ou seja o im­
pulso, a com pulsão, as exigências do sexo. Eis um problem a
com plicadíssim o, com o todos os dem ais problem as que estão
infernando este m undo. C om preendeis? Este problem a existe em
todo o m undo. Por quê? Parece que de repente os entes h u ­
m anos descobriram que o sexo é um a coisa m aravilhosa, e que­
rem fruí-lo a pleno, e dele fizeram um problem a trem endo. Por
quê? Exam inem os a questão. N ão vou dizer-vos o que deveis
fazer. Dizê-lo seria com pleta falta de m aturidade, um a infan­
tilidade, e vos induziria a ser tam bém im aturos, pueris. P ortan­
to, exam inem os a questão. Para fazê-lo, deveis estar livre, pois
só assim podeis olhar. Com preendeis? N ão podeis ter precon­
ceitos: o sexo é pecado, o sexo deve ser controlado, etc. etc.
Para olhar, deveis estar livre de vossos preconceitos e opiniões,
não só em relação a este assunto, m as em relação a tudo o
mais na vida, cm relação aos políticos, aos cientistas, aos vossos

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jornais, aos vossos livros sagrados. Para observar e aprender,
necessita-se de liberdade.
O ra bem ; p o r que se tornou o sexo um problem a? Estais-
-me escutando, senhor? Estais esperando que eu vô-lo expli­
que? Por que se tornou ele um problem a p a ra vós? Vede, em
prim eiro lugar, que, intelectualm ente, estais funcionando dentro
de um padrão. Intelectualm ente, traçastes um a linha, um limite
e, dentro dessa lim itação, estais funcionando. D entro dessa lim i­
tação h á m uito pouco espaço, não é verdade? N ão ousais ques­
tionar os vossos líderes políticos ou religiosos. Intelectualm ente,
não duvidais, não dizeis: “ Q ue significa isso que estais afir­
m ando?” — m as os aceitastes (esses líderes) com o autoridades;
funcionais, intelectualm ente, dentro dessa estrutura. Por conse­
guinte, que sucedeu? Bloqueastes a vós mesmos. Intelectualm en­
te, vos isolastes, vos segregastes, não ousais pensar livremente

— o que não significa que haja livre pensam ento. Intelectual­
m ente, estais paralisados. V ede o que está acontecendo pelo
m undo. A qui, neste país, a arte, a música, a literatura, estão
em franco declínio, porque aceitastes a tradição e só sois capazes
de repetir e repetir. P ortanto, intelectualm ente, vos fizestes p e­
quenos, estreitos. N ão tendes nenhum a possibilidade de “descar­
ga” ( release) (1). Com a palav ra “descarga” não quero dizer
“descarga m ediante preenchim ento” , porém , sim: pensar clara­
m ente; não ter m edo de dizer o que desejais dizer, ainda que
a sociedade vos am eace, vos m ande para a prisão ou para a
fogueira; defender o que pensais. M as, nada disso fazeis.
O bservastes, senhor, certas pessoas, certos santos, Sanka-
racharya e aqueles hom ens do Purjab que estão queim ando a
si próprios p o r causa de trivialidades? E n tretan to, não houve
um a só pessoa neste país que se queixasse quando havia guerra
entre o Paquistão e vós, em bora professásseis o pacifismo, em ­
bora professásseis a não violência; nunca protestastes e vos quei­
m astes ou sequer jejuastes.
Intelectualm ente, estais m ortos. Isto é um fato. Podeis exer­
cer uma certa função, após terdes aprendido um a nova técnica,
tornar-vos um excelente adm inistrador, adm irável engenheiro;

(1 ) Heleases liberation, discharge, delivery (libertação, descarga, livram ento).


(D ic. “Webster Collegiate") (N . do T.)

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mas isso não significa estar ativo — é m era repetição. Inte­
lectualm ente, detivestes o m ovim ento de vossa mente. E em o­
cionalm ente — que está acontecendo? Não sois sensível às ár­
vores, à pobreza, à sordidez, à miséria, não notais, sequer, es­
sas coisas. N ão sois sensível à beleza, não parais p a ra olhar
as estrelas, tocar num a folha, olhar um a criança de ventre tú ­
mido. Sois incapazes de olhar, de sentir, de chorar, ficastes en­
durecidos. E ste é um fato que se observa em todo o m undo,
não apenas aqui. E , quando sentis algum a em oção, vos tornais
sentim ental, vos tornais devoto de um certo quadro ou estátua,
correis para o tem plo se tendes dor de cabeça, vos desfazeis de
vossas jóias. E , fisicam ente, olhai-vos, vede o que de vós mes­
mos fizestes. Pelos excessos, no com er e outros prazeres, pela
falta de exercício, um a pessoa se torna flácida, balofa. Q uando
detendes o m ovim ento da mente, quando o sufocais, destruís,
e interiorm ente vos endureceis, vos tornais insensíveis, desres­
peitosos, descaridosos, que sucede? Só vos resta um a coisa: o
sexo; nada mais. E dele abusais, em bora os vossos santos te­
nham dito: “N ão olheis para um a m ulher; ela é vossa irm ã,
vossa m ãe, etc.” Seguis brincando com o sexo até ele se tornar
um problem a terrível. V ede isso p o r vós mesmos. F areis então
alguma coisa, e o sexo deixará de ser um problem a. E, tam ­
bém, deveis ter notado que no m om ento do ato sexual h á com ­
pleta ausência de “vós m esm os” — do E U — e desejais a re­
petição desse estado em que a m ente está livre de suas tribu­
lações e problem as, em que ficais totalm ente inconsciente de
“ vós m esm os” . Eis o que o sexo vos dá p o r um m om ento; e,
passado esse m om ento, eis-vos de volta, com vossas tribulações.
Assim, quando detendes o m ovim ento d a vida, quando su­
focais a afeição, a bondade, a consideração, o gosto pela n a­
tureza, pelas árvores, pelas flores, o pensar claro; quando tudo
isso vos falta, resta-vos um a única coisa — com o ao cam po­
nês que m ora num a aldeia. Q ue tem ele? N ão tem a beleza,
nada tem senão trabalho e um sol perene que lhe to sta o corpo
c consom e a alma.- Q ue lhe resta? O sexo; por isso ele gera
filhos às dúzias. É seu único prazer — e até este lhe quereis
negar com vossos livros sagrados e o exem plo de vossos sa-
nyasis — hom ens superficiais e vazios, fugitivos da vida.

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Senhor, renunciar ao m undo é com preender o m undo, e,
não, fugir dele. P ara o com preenderdes, tendes de olhar, tendes
de ver m uito claram ente. Q uando vedes com clareza, amais. Vós
não tendes am or no coração, ainda que discurseis sobre o amor.
N ão havendo am or no vosso coração, só vos sobra uma coisa
— o prazer; e esse p razer é o sexo, que, conseqüentem ente, se
torna um problem a form idável. P ara poderdes resolver esse pro­
blema, tendes de com preendê-lo. C om preendendo-o, começareis
a libertar a vossa m ente. N ão tenhais m edo, pois sois entes
hum anos e não um rebanho, que vai para onde é tocado. Com
essa liberdade, todas as coisas se revestem de beleza e nada se
converte em problem a.

25 de dezem bro de 1966.