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ÁLVARO DE CAMPOS

PARA SABER...

Álvaro de Campos

Almada Negreiros, Álvaro de Campos, pormenor do mural da


Faculdade de Letras de Lisboa (1958).

Na apresentação que Pessoa faz de Campos a Casais Monteiro, na


célebre carta de 13-1-1935, pode perceber-se que Campos é o
retrato melhorado, física e moralmente, do seu criador: mais
novo dois anos (depois de certa idade faz sempre jeito...), dois
centímetros mais alto (1,75 m, precisa Pessoa — o que lhe favorece a
silhueta), e, como ele, «entre branco e moreno, tipo vagamente de
judeu português», cabelos lisos, risco ao lado e com tendência para se
curvar. Seguramente para honrar os seus antepassados judeus, de
Tavira, Pessoa aí fez nascer Álvaro de Campos, a 15-10-1890. A
«casa antiga da quinta velha» é frequentemente evocada nos seus
poemas, sempre com a pungente saudade do «Paraíso perdido» da
sua infância burguesa» e do seu «horizonte de quintal e praia» e das
«tias velhas» e do seu eterno chá, durante os longos serões em que
se jogava a feijões nos «jogos de mesa», com a presença também de
uma avó que bordava a missangas.
Já através da célebre carta a Casais Monteiro tínhamos sido
informados de que, depois de fazer o liceu em Lisboa, Álvaro tinha ido
para a Escócia fazer Engenharia, primeiro mecânica, depois naval (o
que o predispunha melhor não a exercer uma profissão, a que nunca
parece se ter verdadeiramente aplicado, mas a escrever não só
a «Ode marítima», sua futura glória, mas também as outras mais
pequenas odes da primeira fase, todas ou quase todas com cenário
de barco e de mar).
Como Pessoa, Campos apresenta-se como um corpo-alma
errante, até dentro de si próprio, sem poiso, sem lar. Dir-se-ia que
Campos funcionou como seu abcesso de fixação e que, quando
exclamou: «Cá está ela! Tenho a loucura exatamente na cabeça!»,
estava a localizar o seu mal para dele se livrar. Campos encarnou,
da mesma forma, outras doenças de Pessoa: a abulia e a
insónia.
Campos teve, pois, esse papel: o de catarticamente viver os seus
males e deles, assim, o libertar. Purgou-o do seu medo da loucura, da
homossexualidade (assumindo-se como tal), da morte (instalando-se
na gare, à espera do «comboio definitivo» e indo ao seu encontro em
poemas como «Partida» e «Ode mortal»), e «cozeu» as suas
bebedeiras, impedindo-o de se mostrar bêbedo em público.
Campos é, de facto, Pessoa bem mais intenso, mais interessante,
com maior relevo, com mais picante. Quando Pessoa concebe
Campos como uma abertura à Europa e um desafio não só ao
escandaloso Futurismo então em voga mas também a Walt Whitman,
enviou Caeiro para o Ribatejo apascentar as suas ovelhas-
pensamentos e encarregou o Engenheiro de assumir todas as
provocações da Modernidade, «ardendo com ter toda a Europa no
cérebro», como proclama na Saudação a Walt Whitman.

ÁLVARO DE CAMPOS
PARA SABER...
Um futuro saudosista?

Giacomo Balla, A luz da rua (1909).

Pessoa teve intensa participação no modernismo português. Seu


amigo Sá-Carneiro enviava-lhe notícias das vanguardas parisienses e,
estimulado por esse diálogo epistolar, o poeta concebeu vários
movimentos literários originais: o «Paulismo», o «Intersecionismo», o
«Sensacionismo». Em 1915, os dois poetas criaram e animaram a
revista Orpheu, na qual o modernismo português esboçou seus
primeiros passos.
O futurismo português foi apenas um episódio da renovação
artística no País. Iniciou-se com uma «sessão futurista» no Teatro
República de Lisboa, no dia 14-5-1917, e findou com a publicação da
revista Portugal futurista, que teve um único número, em novembro
do mesmo ano, logo apreendido pela polícia. As propostas futuristas já
eram conhecidas em Portugal desde 1909, quando o jornal Diário dos
Açores publicou o primeiro manifesto de Marinetti. E em 1916, outro
jornal, O Heraldo de Faro, publicava uma «página futurista».
É por delegação a Álvaro de Campos, cosmopolita e novidadeiro,
que ele parece aderir ao Futurismo. Mas o próprio Campos não é um
fiel seguidor de Marinetti. Um rápido exame do Ultimatum é
suficiente para que concluamos que este, de futurista, só tem a cara
tipográfica.
O futurismo marinettiano era, antes de tudo, uma recusa radical do
passado: «Para os moribundos, para os inválidos e para os prisioneiros
ainda vai. É talvez um bálsamo para suas feridas o admirável passado,
desde que o seu futuro é interditado… Mas nós não o queremos, nós,
os jovens, os fortes e os vivos futuristas!» (Primeiro Manifesto).
Campos, diferentemente, recusa um presente a seu ver falido, em
nome de um passado que foi melhor e cuja grandeza cumpre
recuperar: «Onde estão os antigos, as forças, os homens, os guias, os
guardas?» É o «agora», cujas misérias ele enumera, que o enoja e
sufoca; é a falta de grandes homens e de grandes projetos que ele
denuncia.
Enquanto a contribuição de Almada ao Futurismo é vasta e
consistente, a produção futurista de Campos reduz-se a algumas
poucas peças: os poemas Ode triunfal e Ode
marítima (1914); Saudação a Walt Whitman (1915); o Ultimatum,
publicado na revista. Por certas características, esses poemas podem
ser considerados futuristas: o elogio da vida moderna, da multidão, da
velocidade, da eletricidade e da máquina, o uso de recursos
tipográficos variados e de onomatopeias. No entanto, eles são
tributários de propostas anteriores ao Futurismo (como a poesia de
Whitman), de projetos pessoais de Pessoa (como o Sensacionismo), e
apresentam traços melancólicos e disfóricos pouco futuristas.

LEYLA PERRONE-MOISÉS, «Futurismo saudosista», in Fernando Cabral Martins


(coord.), Dicionário de Fernando Pessoa e do modernismo português, Lisboa,
Caminho, 2008 (com adaptações)

Lisbon revisited (1923)


Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!


A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!


Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem
conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.


Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?


Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer cousa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que haveremos de ir juntos?

Não me peguem no braço!


Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou só sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...


E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Compreensão • Interpretação
1. O sujeito poético inicia o poema com uma atitude de recusa e
negação.
1.1 Identifique os aspetos do mundo que o eu recusa e
explique porque o faz.
2. Identifique o tom usado pelo eu poético e interprete a escolha
desse tom.
3. Divida o poema em partes lógicas e resuma numa frase o que é
dito em cada uma delas.
4. Considere o verso «Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-
lo.» (v. 14).
4.1 Explicite a importância da referência à loucura na defesa da
perspetiva do sujeito poético.
5. Interprete a interrogação «Queriam-me casado, fútil, quotidiano e
tributável?» (v. 17).
6. Interprete o significado do título do poema à luz do que é dito na
penúltima estrofe do poema.
7. Explicite o sentido da última estrofe, relacionando-a com a
globalidade do poema.
Gramática
1. Identifique a função sintática dos seguintes constituintes
transcritos do poema: Ficha 6
a) «que não quero nada» (v. 2)
b) «Das ciências» (v. 9)
c) «na» (em guardem-na, v. 12)
d) «Se eu fosse outra pessoa» (v. 19)
e) «azul» (v. 28)
f) «Ó mágoa revisitada» (v. 32)

Poema em linha reta


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem
pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo


Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!


Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,


Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Compreensão • Interpretação
1. Tendo em conta os versos 1 e 2, aponte o tipo de imagem que os
conhecidos do sujeito poético procuram transmitir.
2. Indique o motivo por que, na descrição do eu,
a) é repetida a expressão «tantas vezes».
b) são utilizados os advérbios «irrespondivelmente» (v. 4) e
«indesculpavelmente» (v. 5).
3. Identifique o recurso estilístico presente no verso «Que tenho
enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas» (v. 8) e
explicite o seu valor expressivo. Ficha 20
4. Aponte a razão por que, nos versos 12 e 13, é feita referência às
criadas de hotel e aos moços de fretes.
5. Explicite o significado dos versos: «Quem me dera ouvir de
alguém a voz humana / Que confessasse não um pecado, mas uma
infâmia; / Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!» (vv.
22 a 24).
6. Relacione o título com o conteúdo do texto.