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Ética Geral e

Cidadania
Material Teórico
Aristóteles e a Ética da Virtude

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Dr. Américo Soares da Silva

Revisão Textual:
Profa. Esp. Kelciane da Rocha Campos
Aristóteles e a Ética da Virtude

·· Aristóteles e a Ética da Virtude

Inserção no pensamento ético de Aristóteles.


A noção de Felicidade.
A noção de Virtude.
A ética como resultado de uma ação racional.
A noção de Justiça aplicada a casos particulares.

Nesta unidade, o tema abordado será: Aristóteles e a Ética da Virtude.


O mundo grego antigo foi extremamente fértil para a Filosofia. Dentre os vários
desenvolvimentos no período, pode ser destacada a obra de Aristóteles. Para atender a
demanda dessa unidade, nos concentraremos na parte do pensamento do velho mestre que
trata da ética.
Para um bom aproveitamento e desenvolvimento de seus estudos, é necessário começar
com o acesso ao Material Didático. É lá que você poderá encontrar o Texto Teórico, cujo
conteúdo corresponde à base das atividades desta unidade. Leia-o com bastante atenção.
Você pode verificar se houve uma boa compreensão do tema ao responder as questões da
Atividade de Sistematização. São questões sobre os principais aspectos abordados no texto.
O aprofundamento da discussão será obtido através dos Materiais Complementares, da
Apresentação Narrada e da Videoaula.
Por fim, realize a Atividade de Aprofundamento da unidade; lá você encontrará dicas para
aprimorar ainda mais seus conhecimentos sobre o tema Aristóteles e a Ética da Virtude.

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Unidade: Aristóteles e a Ética da Virtude

Contextualização

Leitura e reflexão:

“[...] parece ser confirmado tanto por indivíduos na sua vida particular
como pelos próprios legisladores, os quais punem e castigam os que
cometeram atos perversos, a não ser que tenham sido forçados a isso ou
agido em resultado de uma ignorância pela qual eles próprios não fossem
responsáveis (...). E sucede até que um homem seja punido pela sua
própria ignorância quando o julgam responsável por ela, como no caso
das penas dobradas para os ébrios; pois o princípio motor está no próprio
indivíduo, visto que ele tinha o poder de não se embriagar, e o fato de
se haver embriagado foi causa da sua ignorância [...]” (ARISTÓTELES,
1984, Ética a Nicômaco, livro III, p. 88.)

Pense a respeito:
··Como é tratada a questão da responsabilidade já na época de Aristóteles?
··Há no mundo atual uma abordagem idêntica com relação às ideias de responsabilidade
e punição?

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Aristóteles e a Ética da Virtude

Por volta do ano de 384 a.C., nascia em Estagira o filho de um médico da corte do rei da
Macedônia. Mais tarde, o apreço pelo entendimento da natureza levaria o então jovem estagirita
a buscar uma sabedoria que ia além dos conhecimentos médicos paternos. Essa busca levaria
o jovem, que atendia pelo nome de Aristóteles, a terras atenienses. Lá, tem contato com um dos
gigantes da filosofia grega, Platão, que se tornaria seu mestre. Estava começando o caminho
que levaria Aristóteles a gravar seu nome na história do pensamento ocidental.

A obra de Aristóteles aborda diferentes campos do


pensamento filosófico, tais como a Lógica, a Política,
a Metafísica, entre outros. Para o que propomos nesta
unidade, daremos ênfase à Ética.
A obra aristotélica sobre a qual nos debruçaremos é a
Ética a Nicômaco. Nessa obra, podemos encontrar alguns
componentes do pensamento ético do estagirita que
ainda estão presentes nas discussões contemporâneas
sobre o tema.
Questões filosóficas, como: “qual o sentido da
vida?”, “existe uma melhor maneira de se viver?”,
“qual a forma de agir corretamente?” são algumas
das diversas questões filosóficas que remontam à
antiga sabedoria grega. Como era de se esperar de um
pensador do período, Aristóteles também se debruçou
sobre essas questões.

Fonte: Thinkstock/Getty Images

Ponderando sobre a maneira como viviam seus contemporâneos, Aristóteles identificou três
grupos principais:
a) aqueles que vivem apenas para o prazer;
b) aqueles que vivem para a política;
c) aqueles que levam uma vida contemplativa.
Os que vivem apenas em busca do prazer o mestre estagirita identifica como aqueles que
levam uma forma de vida vulgar, “uma vida bestial”.
Já o grupo que se dedica à política pode acabar sendo vítima de uma busca superficial: a
da honra. Apesar de ser a honra “a finalidade da vida política”, ela sempre dependerá “mais
de quem a confere que de quem a recebe, enquanto o bem nos parece ser algo próprio de um
homem e que dificilmente lhe poderia ser arrebatado” (conf. ARISTÓTELES, 1984, Ética a
Nicômaco, livro I, p.52).

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Unidade: Aristóteles e a Ética da Virtude

Mas, é o último grupo, por se dedicar à contemplação, à sabedoria e ao entendimento,


que pode alcançar uma felicidade duradoura, algo que vá além dos prazeres efêmeros e da
inconstância da honra.
Sim, você, está entendendo corretamente. Para o pensamento aristotélico, a busca pela
felicidade é parte fundamental da reflexão sobre Ética.

Diálogo com o Autor

“[...] o conceito que preeminentemente fazemos da felicidade. É ela procurada sempre por si mesma e
nunca com vistas em outra coisa, ao passo que à honra, ao prazer, à razão e a todas as virtudes nós de
fato escolhemos por si mesmos (pois, ainda que nada resultasse daí, continuaríamos a escolher cada um
deles); mas também os escolhemos no interesse da felicidade, pensando que a posse deles nos tornará
felizes. A felicidade, todavia, ninguém a escolhe tendo em vista algum destes, nem, em geral, qualquer
coisa que não ela própria.” (ARISTÓTELES, 1984, Ética a Nicômaco, livro I, p. 55).

O entendimento da ideia de felicidade em Aristóteles passa também pelo entendimento da


ideia de virtude.
Mas, como acontece com diversos autores da filosofia, seus conceitos estão articulados de
modo que estes se interpenetram. Apesar de tentar nos focarmos apenas na ética, para não
perder de vista os objetivos da unidade, precisaremos que você nos acompanhe numa pequena
digressão metafísica. Não perca a paciência, pois o resultado é compensador!
O sábio de Estagira, em suas reflexões, fez uma distinção, para explicar o movimento presente
na natureza (aqui no sentido mais amplo, que inclui também o transformar), entre potência e ato.
A potência descreveria o vir a ser, a possibilidade, tudo aquilo que ainda não é, porém pode
ser, pode se tornar. O exemplo mais simples disso: pegue uma semente de maçã na palma da
sua mão. Essa pequenina semente carrega consigo a potência para se tornar uma grande árvore
repleta de frutas com outras sementes como aquela. De certa maneira, a macieira está na sua
mão, mas está em potência, como uma possibilidade a ser realizada. Ainda não está em ato. O
ato é a potência realizada. No caso da semente, a árvore corresponde à atualização, a realização
da potência que já existia na semente.

Fonte: istock/Getty Images

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Assim, a relação potência/ato serve para descrever quando algo atinge sua finalidade. A
realização da finalidade encontra-se na realização do potencial.
Ao abordar a ideia de virtude, o pensador estagirita recorre a um raciocínio análogo. Trata-se
de entender a função que uma coisa possa ter – a realização de uma finalidade. A virtude está
na excelência com que essa função é executada. Tomando um exemplo da natureza: qual a
função do olho? Resposta: enxergar. E enxergar muito bem seria um olho virtuoso.
É esse ponto que requer nossa atenção, e que retoma a reflexão sobre a ética. A virtude não
é um conceito que se aplicaria somente às coisas presentes no mundo biológico – para usarmos
termos contemporâneos –, não se trataria apenas da realização plena das potências presentes
nesse aspecto do mundo. Mas, em harmonia com o mundo natural, nossas ações no plano moral
também se direcionariam pela realização de sua própria finalidade. Ao buscar uma conduta
virtuosa, o homem estaria buscando realizar nada mais nada menos do que sua própria função.

Diálogo com o Autor

“[...] afirmamos ser a função do homem uma certa espécie de vida, e esta vida uma atividade ou ações
da alma que implicam um princípio racional [...] o bem do homem nos aparece como uma atividade
da alma em consonância com a virtude, e, se há mais de uma virtude, com a melhor e mais completa.”
(ARISTÓTELES, 1984, Ética a Nicômaco, livro I, p. 56.)

Partindo-se do pensamento aristotélico, é importante frisar que um único dia de calor não
constitui o verão. As vicissitudes de uma vida contemplativa, pelo menos no sentido da ética
aristotélica, não podem ser encontradas em uma contemplação meramente passiva dos fatos
da vida. Em outras palavras, seria de pouca ou de nenhuma ajuda se ficássemos presos aos
conceitos abstratos sobre o que é a felicidade caso não fizéssemos nada para colocar isso em
prática. O homem é feliz se vive bem e age bem. Para Aristóteles, a felicidade está ligada a “boa
vida e boa ação” (conf. ARISTÓTELES, 1984, Ética a Nicômaco, livro I). Como resultado, o
pensador estagirita não hesitou em identificar felicidade com virtude.
Também é um aspecto importante nessa correlação felicidade/virtude uma melhor aproximação
daquilo que o autor sugere como boa ação ou ação virtuosa. A felicidade não deve ser percebida
apenas como um estado de ânimo, pois, se assim o fosse, poderia ser considerado feliz aquele que
se dedica firmemente aos prazeres mais imediatos ou, ainda, também seria muito feliz aquele que
outrora fora coberto de honrarias. Pois bem, se viver a vida nas festas (“baladas” como diríamos
hoje) ou depender da fama (ser popular de alguma maneira, como ter muitos “seguidores” em
redes sociais) não são para o critério aristotélico indicador de felicidade, então como alcançá-la?
O sábio de Estagira formulou uma classificação dos tipos de conhecimento. Os teoréticos
compreendem as coisas da natureza sobre as quais não temos nenhum controle ou poder
de deliberação (escolha); por exemplo, a mudança das estações. Você pode até gostar mais
da primavera, mas não é de sua escolha que ela pudesse durar por tempo indeterminado.
Por outro lado, as ciências práticas (práxis) são aquelas cujos acontecimentos dependem
diretamente da deliberação do agente. Nesse rol, podem ser relacionadas tanto a política
como a ética, por exemplo.

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Unidade: Aristóteles e a Ética da Virtude

Agir ou não de maneira virtuosa dependerá da deliberação de quem age. Para o filósofo
estagirita, a ética trata das ações que dependem da escolha de quem age.
Contudo, não basta a ação por si mesma, numa espécie de voluntarismo, até porque um
animal age e reage a estímulos, ataca a presa ou foge do predador, e isso pode ser avaliado
como a realização de uma das funções daquele determinado animal; pode-se quiçá falar deste ou
daquele animal como um exímio predador. Porém, no caso do homem, está presente o “princípio
racional”, e este deve ser o guia para as suas ações na busca pela felicidade: “[...] A vida virtuosa
é agir em conformidade com a razão, que conhece o bem, o deseja e guia nossa vontade até ele.
A vida virtuosa é aquela em que a vontade se deixa guiar pela razão.” (CHAUÍ, 2003, p. 313.)
Você certamente está percebendo os diferentes ingredientes presentes nessa receita de
pensamento: 1) a ética trata das ações que dependem de nossas escolhas; 2) a finalidade dessas
escolhas está em buscar a felicidade; 3) como o homem é um ser dotado de racionalidade, o
que diferencia nossas escolhas das ações dos animais, por exemplo, é o fato dessas escolhas
poderem ser guiadas pela razão.
Então, poderíamos concluir que está tudo devidamente no lugar e que as pessoas são felizes,
e que isso é uma decorrência própria da natureza humana!
Bom, isso seria uma conclusão apressada. O entendimento filosófico requer certo cuidado
nos detalhes.
Se agir em busca da felicidade depende de nossa escolha, então isso significa – por mais
incrível que possa parecer – que podemos muito bem escolher o caminho que leva para
longe da felicidade!
Exatamente por sermos a causa de nossas ações – pelo menos daquelas sobre as quais
podemos deliberar –, há um componente de indeterminação. Podemos escolher em uma direção
ou em outra, podemos nos omitir ou tomar a iniciativa de determinada atitude. Em todos esses
cenários, não há decorrência automática, que nos conduza a uma ação mais apropriada.
Quando se trata da ética, Aristóteles reconhece que não há como aplicar uma precisão extrema,
mas ele não se furta de pensar um parâmetro que possa conduzir a um melhor resultado.
Como já vimos, algumas formas de se levar a vida não trazem felicidade duradoura, ou
por dependerem de coisas efêmeras ou por dependerem de terceiros. Para o sábio estagirita, a
felicidade também está articulada com a ideia de autossuficiência, pois sendo própria ao homem,
dependeria unicamente dele mesmo (não de terceiros) e seria duradoura (não algo passageiro).
Assim, os ingredientes começam a se misturar, as escolhas boas ou ruins podem nos aproximar
ou nos afastar da felicidade. Essa forma de realização, que podemos alcançar potencialmente,
não está dada e, portanto, deve ser buscada, construída mediante a racionalidade de nossas
ações. É na prática, na forma do meu agir em relação às outras pessoas, que posso ser avaliado
como sendo justo ou injusto, bom ou mau.
Uma passagem de Aristóteles que exemplifica bem o espírito de sua ética é quando afirma que:
“é possível errar de muitos modos, mas só há um modo de acertar” (conf. ARISTÓTELES, 1984,
Ética a Nicômaco, livro II). Vamos imaginar um exercício para disparar uma flecha no centro do
alvo determinado. A área de acerto (o centro) é muito menor do que todo o restante do alvo. O
ponto de acerto pode ser um só, mas os lugares do alvo que são considerados erros são inúmeros.

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Em nossa conduta em relação ao outro
deve prevalecer o uso da razão. Contudo,
o pensamento aristotélico refina um pouco
mais a questão, oferecendo o “guia” para
a ação boa e virtuosa. Não se trata de
algo completamente preciso – Aristóteles
reconhecera a dificuldade de uma maior
precisão nesses casos – mas, sem dúvida,
é um parâmetro bastante interessante: o
meio-termo.
No entendimento do estagirita, as coisas
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no mundo parecem funcionar melhor
quando estão em harmonia. Essa harmonia é expressa pelo equilíbrio. O excesso pode ser tão
prejudicial quando a ausência. Alguém que come de maneira descontrolada, muito mais do que
parece ser o necessário para saciar a sua fome, pode passar mal, ter fortes dores de estômago – e
como ensinam os nutricionistas, nossos contemporâneos, isso pode acarretar problemas de saúde
a longo prazo. Por outro lado, alimentar-se de forma insuficiente também é um risco para a saúde
– a curto e a longo prazo. Entretanto, alimentar-se numa proporção que não é tão grande quanto
o excesso e nem tão pequena quanto a ausência, na maioria dos casos, aponta para uma melhoria
nas condições de saúde. O que dizer dos exercícios físicos ou da ingestão de remédios?
Alguns casos estão ligados a forças sobre as quais não podemos deliberar. Não posso,
conscientemente, escolher que o remédio aplicado errado ou em dosagem alterada tenha o
efeito desejado na dosagem correta que fora indicada pelo médico. Porém, como nos lembra o
pensador de Estagira, podemos aplicar esse critério em nossas ações cotidianas, podemos levar
esse parâmetro para o mundo moral.

Diálogo com o Autor

“A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consistente numa mediania,
isto é, a mediania relativa a nós, a qual é determinada por um princípio racional próprio do homem
dotado de sabedoria prática. E é um meio-termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta;
pois que, enquanto os vícios ou vão muito longe ou ficam aquém do que é conveniente no tocante
às ações e paixões, a virtude encontra e escolhe o meio-termo.” (ARISTÓTELES, 1984, Ética a
Nicômaco, livro II, p. 73.)

Aristóteles dedica algumas páginas da sua Ética para analisar diferentes tipos de conduta a
partir do princípio do meio-termo. Por exemplo, no Livro II da Ética a Nicômaco, ele faz uma
digressão – entre outras – de como a coragem é uma virtude posicionada entre o excesso da
temeridade (aquele que não se importa se vive ou morre) e a ausência da covardia.

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Unidade: Aristóteles e a Ética da Virtude

Imaginemos o que se espera da conduta de um exército em batalha que diante de um inimigo


em número muito maior, ataca impetuosamente, sem temer a própria morte. Isso até pode
parecer bastante destemido, mas do ponto de vista mais racional, uma atitude impensada nessa
direção poderia levar o pequeno exército a ser massacrado pelo invasor em maior número, o
que provavelmente facilitaria a conquista do reino por parte do invasor. Outra linha de ação
seria a do não enfrentamento: diante do inimigo em maior número e melhor equipado, o
pequeno exército se rende enfraquecido, pois já não conta com uma parte de suas forças que
foram capturadas. Mais uma vez, o reino é derrotado por seus invasores. Mas e se o pequeno
exército faz um “recuo estratégico”, posicionando-se em uma localidade em que ele sabe que
receberá reforços, aumentando seu número de equipamentos e provisões? Dessa forma a força
invasora teria que se confrontar com um adversário que agora está em situação de igualdade.
Isso certamente poderia mudar os resultados da guerra.
Para a ética aristotélica, o uso da razão como guia para as ações aumenta as chances
das mesmas obterem um melhor resultado do ponto de vista dos fins. Se a ação possui uma
finalidade, a mais virtuosa será a ação que atingir essa finalidade.
O exército que tem como finalidade defender o reino não contribuirá para isso se expuser de
maneira impensada e for massacrado pelo inimigo, tampouco os que se recusarem a combater
diante de uma primeira adversidade são capazes de cumprir seu papel de defensores. Já os que
mantiverem a disposição de combater e procurarem fazer isso de forma inteligente colocam
a razão acima do medo ou da raiva imprudente e podem melhor executar o seu papel de
combater os invasores.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado à maneira como guardamos ou gastamos nossos
recursos financeiros, na maneira como lidamos com amigos ou com colegas de trabalho, enfim
nas diferentes faces de nossas relações conosco mesmo e com as pessoas.
Diferentes autores, ao comentar a teoria aristotélica do “justo-meio”, como também é
conhecida a ética aristotélica, fazem um quadro resumido como exemplificação. Para fins
didáticos, adaptamos algumas características. Segue abaixo:

Vício por Excesso Virtude Vício por Ausência


Temerário Corajoso Covarde
Esbanjador Generoso Avarento
Precipitado Proativo Omisso

Muito mais do que apenas decorarmos longas listas de palavras sobre o que é virtude, ausência
ou excesso, a ética de Aristóteles é um convite à prática, não apenas no sentido do agir, mas
também no sentido de um aperfeiçoar-se, no sentido do exercitar. É o exercício da racionalidade
na deliberação de nossas ações que ajudará na construção de disposições de caráter cada vez
mais virtuosas. O meio-termo na moral sempre será um meio-termo relativo a nós mesmos.
Então, quando e como vamos saber se atingimos o meio ou se nossas ações estão em
desequilíbrio, pendendo ou para o excesso ou para a ausência?
A solução aristotélica aponta para se forçar a buscar a direção contrária aos extremos, pois
ali reside o erro. Quanto ao acerto “no centro do alvo”, apenas a prática acumulada poderá nos
fornecer a destreza, ou melhor, a astúcia necessária.
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Além da relação entre ética e felicidade e da teoria do meio-termo, merece nossa atenção as
considerações que Aristóteles faz acerca da justiça.
Naquilo que se refere à Justiça no seu sentido mais amplo, Aristóteles aponta diferentes
sentidos que podem aparecer na sociedade, às vezes variando conforme as circunstâncias.
Por exemplo, o que dizer do ganancioso? A ganância pode ser sempre reprovada? Em dias
atuais não se considera certa dose de ambição como algo positivo? Aqueles que almejam um
maior crescimento profissional ou empreender abrindo o próprio negócio costumam receber
menções elogiosas na sociedade. Mais uma vez, o sábio de Estagira nos oferece uma opção.

Diálogo com o Autor

“[...] o homem sem lei, assim como o ganancioso e ímprobo são considerados injustos, de forma que
tanto o respeitador da lei como o honesto são evidentemente justos. O justo é, portanto, respeitador
da lei, e o probo e o injusto é o homem sem lei e ímprobo.” (ARISTÓTELES, 1984, Ética a
Nicômaco, livro V, p. 121.)

De um ponto de vista mais geral, estar em conformidade com a lei aponta para a direção da
justiça. Aproveitando o ensejo, tanto da ideia de “conformidade legal” como do lado “prático”
da ética, Aristóteles faz uma reflexão não apenas sobre a justiça em geral, mas também sobre a
justiça em particular.

O mestre de Estagira divide a justiça particular em:


a) justiça particular distributiva; b) justiça particular
corretiva. Sendo que neste último caso encontramos
situações particulares voluntárias e involuntárias.
A justiça particular distributiva se dá na relação entre
o indivíduo e o Estado, a forma como o Estado (ou
o governo da cidade) distribui honrarias, benefícios ou
ônus, e que pode ser avaliada como justa ou injusta.
Com o parâmetro aristotélico, a mediana, ou seja,
o meio-termo, nesses casos se busca a justa medida,
nessa relação entre o indivíduo e o Estado. Isso pode
ser condensado na fórmula: Tratar os iguais de forma
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igual e os diferentes de forma diferente.
Vamos imaginar alguns cenários, que mesmo contemporâneos ilustram bem o raciocínio
de Aristóteles.
O governo de um município cobra impostos anuais sobre a posse de um terreno de um
dos seus cidadãos. O valor – pela regra divulgada – é proporcional ao tamanho do terreno e
à localização do mesmo (em determinadas áreas da cidade o valor do tributo pode ser mais

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Unidade: Aristóteles e a Ética da Virtude

alto ou mais baixo). Agora vamos imaginar que o cidadão em questão tem um vizinho cujo
terreno é exatamente do mesmo tamanho. Quando o governo do município envia a cobrança
dos tributos (ônus) – com a finalidade de posteriormente distribuir benefícios (serviços públicos)
–, os vizinhos percebem que recebem contas de valores muito diferentes. Para um deles está
sendo cobrado (sem nenhuma justificativa) o dobro do valor do outro. Seguindo o critério da
justiça particular distributiva, o governo – que estaria encarregado de distribuir a cobrança dos
impostos – fez uma distribuição desigual em uma situação de igualdade e, portanto, injusta.
Outra situação análoga que também serve como exemplo: imaginemos agora que a cobrança
de impostos vai ser aplicada a dois cidadãos que desta vez não são vizinhos. Um dele possui
um terreno em uma área considerada nobre na cidade (lugar em que os serviços públicos e a
localização em relação à economia da cidade são extremamente favoráveis). Em contrapartida,
o outro cidadão possui um terreno exatamente do mesmo tamanho, mas em uma localidade
menos valorizada da cidade (carente de serviços públicos básicos e com muitas dificuldade
de acesso). Outra vez chega a cobrança de impostos e agora o valor é igual para situações
diferentes. O valor cobrado já seria considerado alto para o terreno mais valorizado. Para o terreno
mais afastado (uma situação diferente), o valor igual pode ser considerado completamente
desproporcional! Tudo isso porque se tratou situações diferentes de forma igual, desprezando a
diferença e, portanto, a “medida justa” para a situação. Para qualquer variação desses tipos de
cenário, o critério aristotélico é sempre estabelecer o equilíbrio, a mediana.
A outra modalidade de justiça particular é a corretiva. Esse conceito corresponde às situações
em que a questão do justo ou do injusto envolve um ou mais cidadãos nas suas relações com
outros cidadãos. A função do magistrado está em mediar essas relações e quando necessário,
pela autoridade que representa, exigir que seja restaurado o equilíbrio. Por isso, são casos de
justiça particular corretiva. Em situações que envolvem empréstimos, locações, compra e venda
etc., os agentes envolvidos por interesses próprios firmam acordos voluntariamente. Na locação
de um imóvel, por exemplo, se após o acordo firmado (contrato) o agente que alugou o imóvel
deixa de pagar o combinado, a situação entrou em desequilíbrio, pois aquele que alugou continua
com o imóvel de sua posse em uso pelo outro agente e não está mais recebendo por isso – como
havia sido combinado anteriormente. Dependendo do impasse, o magistrado pode exigir que
o imóvel seja devolvido ao proprietário e que o prejuízo lhe seja ressarcido (reparado), ou seja,
recupera-se a situação de equilíbrio anterior.
Em outras situações, como quando um indivíduo comete um ato que prejudica outra
pessoa, como em casos de crimes, roubo, agressão, homicídio, etc., Aristóteles entende que
se deve avaliar o ocorrido considerando que parte dos envolvidos na relação foi envolvido de
maneira involuntária. A vítima de um ato de agressão, roubo, conspiração, etc. não buscou essa
relação livremente, cabendo à justiça, na medida do possível, reparar a situação (providenciar
a devolução do que foi roubado), ou quando não for possível, contra efetuar o ocorrido. Não
se pode “desagredir” ou ressuscitar a vítima de um homicídio, mas é esperado dos legisladores
que criem sanções tão duras que o possível benefício que o crime poderia resultar seja diluído,
de maneira a dissuadir que ocorra esse tipo de conduta.
Enfim, para a ética aristotélica, seja na busca pela felicidade, nas práticas cotidianas, ou
mesmo na aplicação da justiça, sempre encontraremos à frente o uso da razão, e com ela a
procura pelo meio-termo, pelo ponto de equilíbrio.

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Material Complementar

Estudante:
A bibliografia complementar irá ajudá-lo(a) no aprofundamento dos seus estudos.
Sugerimos iniciar sua pesquisa de aprofundamento a partir dos “manuais mais gerias” e
depois dedicar sua leitura aos textos específicos dos autores estudados na unidade. Indicamos
também a leitura de algumas obras de história da filosofia, mas especificamente no período
grego, como uma maneira de compreender melhor a “atmosfera intelectual” do período.
Importante também, estudante, é recorrer a um vocabulário filosófico. Essa abordagem
facilita o movimento de investigação partindo dos textos mais introdutórios em direção aos
mais complexos, o que permitirá ampliar a discussão principal da unidade, que envolve o
pensamento de Aristóteles em torno da questão da Ética.

Bibliografia

ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. Tradução de Leonell Vallandro e Gerd Bornheim


da versão inglesa de W.D. Ross. São Paulo, SP: Editor Victor Civita, 1984 (Coleção os
Pensadores).

BITTAR, Eduardo C.B.; ALMEIDA, Guilherme Assis. Curso de Filosofia do Direito. 10ª
edição. – São Paulo, SP: Editora Atlas, 2012.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 13ª edição. – São Paulo, SP: Editora Ática, 2003.

MAC INTYRE, Alasdair. Depois da Virtude. Trad. Jussara Simões. – Bauru, SP – Edusc, 2001

REALE, Giovani, ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. 7ª


edição – São Paulo, SP: Paulus, 2002.

SEVERINO, Antônio Joaquim. Filosofia. – São Paulo,SP: Cortez Editora, 2002.

SCIACCA, Michele Federico. História da Filosofia. Trad. Luís Washington Vita. – São
Paulo,SP: Mestre Jou, 1962.

VAZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. Trad. João Dell’ Ana. – Rio de Janeiro, RJ: Civilização
Brasileira, 1975.

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Unidade: Aristóteles e a Ética da Virtude

Referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonell Vallandro e Gerd Bornheim da


versão inglesa de W.D. Ross. São Paulo, SP: Editor Victor Civita, 1984 (Coleção os Pensadores).

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 13ª edição. – São Paulo, SP: Editora Ática, 2003.

BITTAR, Eduardo C.B.; ALMEIDA, Guilherme Assis. Curso de Filosofia do Direito. 10ª
edição. – São Paulo, SP: Editora Atlas, 2012.

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Anotações

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