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Reforma Política no Brasil_01_272.

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Programa das Nações Unidas
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS para o Desenvolvimento

Reitor: Ronaldo Tadêu Pena


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Leonardo Avritzer
Fátima Anastasia
Organizadores

Belo Horizonte
Editora UFMG
2006

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© 2006, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento | © 2006, Editora UFMG
Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização escrita do Editor.

R322 Reforma política no Brasil / Leonardo Avritzer, Fátima Anastasia


(organizadores). – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.
271 p. ; il. –

Inclui referências.
ISBN: 85-7041-536-2

1. Brasil – Política e Governo. 2. Brasil – História. I. Avritzer, Leonardo.


II. Anastasia, Fátima.
CDD: 981
CDU: 981
Elaborada pela Central de Controle de Qualidade da Catalogação da Biblioteca Universitária da UFMG

Coordenação Técnica: Francisco Gaetani (PNUD)


Editoração de textos: Ana Maria de Moraes
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Voto Obrigatório

Cícero Araújo

O voto obrigatório é aquele em que a


participação eleitoral não é deixada ao arbí-
trio do eleitor, mas determinada por lei, que
assim prevê sanções no caso de não-cum-
primento. Seu oposto é o voto facultativo.
Desde sua introdução em países euro-
peus, no final do século 19 — a regra é ado-
tada no Brasil desde 1934 —, o voto
obrigatório é objeto de aceso debate, que
incide sobre o próprio caráter da participa-
ção política num regime democrático. O pre-
sente verbete dará um panorama desse
debate.
As razões a favor ou contra o voto obriga-
tório podem ser classificadas em dois tipos:
I) razões de princípio, que levam em conta o
significado e o estatuto mesmo do ato de
votar; e II) razões prudenciais, que conside-
ram os efeitos benéficos ou danosos da
obrigatoriedade (ou não) da participação.
I) Os críticos costumam argumentar que,
se o voto é um direito, por definição ele não
poderia ser obrigatório. Das duas, uma: ou
possuímos um direito, caso em que está em
nosso poder exercê-lo ou não; ou somos
compelidos por lei a fazer algo, e então isso
é de fato uma obrigação, não um direito.
Porém, grande parte dos defensores do voto
obrigatório concebem que o voto é um direi-
to do cidadão, o que seria uma contradição
patente.
Há duas respostas distintas a essa obje-
ção conceitual. Pode-se simplesmente dei-
xar de lado a idéia de que o voto é um direito,
para passar a vê-lo como um dever do cida-
dão, passível da compulsão da lei. Nesse
caso, faz-se necessária uma linha de argu-
mento para explicar por que não seria um
direito. Mas há ainda outro tipo de resposta:
pensar num sentido de “direito” compatível
com a simultânea idéia de obrigação. O voto

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seria, por exemplo, assemelhado ao direito Atribuir a alguém um título de eleitor,


à educação, no qual se faz necessário dis- portanto, não é o mesmo que atribuir-lhe um
tinguir “o acesso a” algo, de seu desfrute título de propriedade, mas antes oficiar-lhe
efetivo. Todo cidadão tem direito de acesso a obrigação de fazer jus à confiança nele
à educação — no sentido de que pode exi- depositada, que é também um reconheci-
gi-la do Estado —, mas, uma vez obtido, mento de sua capacidade para contribuir com
não está ao arbítrio do favorecido exercê-lo uma atividade necessariamente concertada.
ou não. Tanto que, nos países em que a Mais do que da educação, poder-se-ia ar-
educação é declarada um direito, ela é tam- gumentar, o voto se aproximaria de ativida-
bém obrigatória para os seus beneficiários. des como o serviço militar: de um tipo de
Em outras palavras, um direito e um dever serviço que, ou se realiza coletiva e coopera-
legal ao mesmo tempo. tivamente, ou perde sua eficácia. Como não
Mas seria mesmo adequado aproximar se trata de tutela, não seria contraditório fa-
o voto à educação? A compulsoriedade da lar aqui de uma mesma pessoa ter um direi-
educação está relacionada à tutela que o to de acesso que, sendo algo distinto de
Estado reivindica sobre sua população mais um título de propriedade, é complementado
jovem. Na verdade, o Estado obriga os pais por um dever de exercício. Quanto à trans-
a exercerem sua função de tutores dos fi- formação desse dever numa obrigação le-
lhos; em caso de falha paterna nessa tare- gal, esta poderia ser justificada como uma
fa, o Estado se encarrega de cumpri-la forma de evitar que uma parte dos cidadãos
diretamente. A tutela, porém, é dirigida a jogue nas costas dos demais um serviço
pessoas que ainda não atingiram a maiori- público. Seria, em suma, um modo de deses-
dade, isto é, a plena autonomia e responsa- timular aquilo que os cientistas políticos cos-
bilidade por seus atos. Mas essa idéia não tumam chamar de “efeito do carona”.
se aplica ao voto, que justamente pressu- Contudo, há um problema que esse ar-
põe a autonomia, não a tutela. Não se con- gumento parece não levar em consideração:
cede o voto a quem precisa de tutor. E isso a qualidade do voto. Num regime democrá-
nos remete ao cerne do problema de conce- tico, o voto define a qualidade de suas deci-
ber o voto como uma obrigação legal. sões, especialmente no que diz respeito à
John Stuart Mill, num célebre ensaio so- escolha dos representantes da comunida-
bre o governo representativo, propôs que, de. Nesse sentido, querer que todos partici-
em vez de pensá-lo como um direito indivi- pem de uma eleição implica supor que o
dual — que pode ser exercido ou não, ou voto de cada participante faz diferença, e,
mesmo transferido, ao arbítrio de seu pos- portanto, que cada voto expressa uma deci-
suidor —, o voto deveria ser considerado o são independente. É por isso que a quanti-
resultado de um ato público de confiança dade de votos não deve servir de substituto
(trust), que lançaria a seu receptor certas res- para a sua qualidade. Note-se que, sob essa
ponsabilidades, a começar o próprio ato de perspectiva, o direito de sufrágio é incom-
votar. patível com a obrigação legal, mas não é
O exercício de qualquer função política, seja preciso que o seja com o dever cívico, con-
como um eleitor ou como um representan- tanto que pensado em termos morais, e, não,
te, é um poder sobre os outros. Aqueles que jurídicos. O cidadão tem o direito (legalmente
dizem que o sufrágio não é um ato de confi- garantido) e também o dever (moral) de vo-
ança, mas um direito, dificilmente aceitarão tar, mas de votar com sua consciência. Esse
as conclusões a que sua doutrina conduz. Se é o significado crucial de uma eleição “livre”
é um direito, se pertence ao eleitor em seu e daí que tenha de ser formulada em termos
próprio benefício, com que base poderíamos
de um direito: a livre consciência do eleitor,
culpá-lo por vendê-lo, ou por usá-lo para re-
sua espontaneidade, digamos assim, define
comendar a si próprio a quem seja de seu
a qualidade de seu voto. Mas é exatamente
interesse agradar?

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isso que o instituto da obrigatoriedade pare- contudo, esses grupos acabam reforçando
ce desprezar. E, ao induzir o voto leviano e sua marginalização social, pelas razões ex-
alienado, a regra provoca a ampliação de postas acima. O voto obrigatório seria então
práticas clientelísticas na relação candida- uma política de Estado que, mesmo não eli-
to-eleitor, cada lado vendo nela uma oportu- minando a desigualdade política derivada da
nidade de troca de favores. estrutura social, pelo menos a atenuaria. E
II) As ponderações de princípio, no en- isso já compensaria as desvantagens da
tanto, não esclarecem toda a questão. Mes- própria compulsoriedade. De fato, a série
mo que argumentos dessa ordem venham histórica de eleições nos Estados Unidos,
a nos fazer pender na direção do voto facul- onde o voto é facultativo, revela uma menor
tativo, seria imprudente desconsiderar os proporção de comparecimento eleitoral da
efeitos, reais ou possíveis, de sua institui- população negra em relação à branca. No
ção numa sociedade com tais ou quais Brasil, uma pesquisa de opinião recente in-
características. Se desprezamos esse as- dica que as faixas de menor escolaridade
pecto, uma medida, em tese, bem-inten- compareceriam menos do que as de maior
cionada pode revelar-se perversa na prática. escolaridade, se lhes fosse dada a opção
Ou, ainda que correta conceitualmente, a de- de não votar. O caso dos Estados Unidos,
pender da estrutura social sobre a qual se especialmente, é um alerta para o perigo de
ergue, acabe produzindo efeitos danosos que que a defesa do voto facultativo se torne um
superem muito os benéficos. É esse o pon- álibi para justificar o descompromisso deli-
to em que se fixam certos defensores do berado para com as camadas mais preteri-
voto obrigatório. das da sociedade.
Tomemos, por exemplo, os efeitos da Quanto aos efeitos da abstenção sobre
participação/abstenção eleitoral sobre a as decisões de governo, em especial as
representação política. Há quase um con- políticas públicas, os dados empíricos não
senso entre os cientistas políticos de que a são claros. Mesmo com informações incon-
maior ou menor extensão e variedade dessa clusivas, há quem pondere, tendo em con-
participação tem seus reflexos no compor- ta, por exemplo, a história do desempenho
tamento dos representantes. Quanto mais de Estados como o brasileiro para diminuir
um determinado grupo social é alijado do as desigualdades sociais — mesmo em
voto, menor a chance de encontrar agências tempos de democracia, mas com voto obri-
políticas dispostas a fazer ecoar suas quei- gatório —, que o impacto de um compareci-
xas ou defender seus interesses. Já o sim- mento eleitoral amplo e variado é nulo ou
ples fato de um representante saber que irrelevante. Os porta-vozes dessa opinião até
essa participação existe, altera seu modo sugerem que, no fundo, os grupos margina-
de proceder na arena pública. De modo que lizados têm um motivo bem razoável para
uma participação eleitoral diferenciada de se abster ou desejar se abster: a percep-
grupos sociais causa efeitos distintos na atu- ção, geralmente confirmada, de que seu voto
ação dos governantes. Quem participa me- faz pouca diferença. Não votar seria, portan-
nos recebe menos atenção. to, um sinal de protesto.
É isso que parece ocorrer quando o voto Mas se é um protesto contra as práticas
torna-se facultativo. Grupos marginalizados da representação política, por que não votar
da sociedade — marcados desfavoravel- em branco ou nulo, em vez de se abster?
mente pela escolaridade, pela distribuição Essa pergunta remete à relação entre o com-
de renda ou pelo preconceito racial — ten- parecimento eleitoral e o grau de compromisso
dem a participar menos das eleições. Seu dos cidadãos com a sustentação de um re-
próprio alijamento social os torna mais des- gime democrático. Será que esse compro-
crentes das instituições políticas, logo, me- misso deve depender exclusivamente do
nos estimulados a votar. Não votando, desempenho satisfatório dos representantes?

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Suas falhas, ainda que graves, deveriam le- Referências


var à rejeição do próprio regime político?
Após uma experiência recente e dolorosa de BENEVIDES, M. V.; VANUCCHI, P. ; KERCHE, F. (Org.). 2003. Reforma
política e cidadania. São Paulo: Fundação Perseu Abramo.
ditadura militar, essa é uma questão inquie-
DAHL, R. 1989. Democracy and its critics. New Haven: Yale University
tante para muitos brasileiros sinceramente
Press.
preocupados em preservar do esvaziamento
ELKINS, Z. 2000. Quem iria votar? Conhecendo as conseqüências do voto
uma democracia frágil e ainda em constru- obrigatório no Brasil. Opinião Pública, VI(1): 109-136.
ção. É certo que a rejeição da representação HERRMANN DE OLIVEIRA, L. H. 1999. Voto obrigatório e eqüidade: um
política corrente não implica a condenação estudo de caso. São Paulo em Perspectiva, 13(4): 144-152.

do regime democrático em si, diferença que KAHN, T. 1992. O voto obrigatório. Dissertação (Mestrado) – FFLCH-USP,
São Paulo. Mimeografado.
poderia ser muito bem marcada pelo com-
FIGUEIREDO, M. 1990. O voto obrigatório (comportamento do eleitor bra-
parecimento com voto nulo ou em branco. sileiro). Textos Idesp, n. 36. São Paulo: Idesp.
Porém, boa parte do eleitorado potencial não
LIPSET, M. (Org.). 1995. The Encyclopedia of Democracy. Londres:
a percebe, o que acaba facilitando o cami- Routledge.
nho da abstenção. PORTO, W. C. 2000. Dicionário do voto. Brasília: Editora da UnB.
O voto obrigatório, por sua vez, não pare- STUART MILL, J. 1980. Considerações sobre o governo representativo.
ce ser capaz de corrigir essa deficiência, na Brasília: Editora da UnB.

medida em que seja fator de participação


pouco refletida. Retornamos então ao ponto
crucial: a quantidade não substitui a quali-
dade. O compromisso com o regime não é
função de números expressivos de compa-
recimento que se possam apresentar no fi-
nal de um pleito — como faziam os governos
socialistas autoritários do Leste Europeu —,
mas do engajamento consciente e delibera-
do na sua sustentação.
Assim, desde que os efeitos da partici-
pação/abstenção são bastante incertos, tanto
os defensores quanto os críticos do voto
obrigatório não teriam motivos para se en-
trincheirar tão rigidamente em suas posi-
ções. Já as visões de princípio, embora muito
importantes para iluminar o caminho da dis-
cussão, não deveriam permanecer imunes
às conseqüências práticas da adoção de
uma norma institucional, que certamente
variam de acordo com o contexto, social ou
histórico, por mais inconclusivas que sejam
as pesquisas empíricas sobre como elas
variam. No fim das contas, ambos os lados
têm de reconhecer que a definição instituci-
onal do caráter do voto não substitui a ne-
cessidade de esclarecer a cidadania, através
dos partidos, dos meios de comunicação e
do próprio sistema educacional, a respeito
do que está em jogo nesse gesto aparente-
mente simples, mas tão emblemático da
disposição cívica das nações democráticas.

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