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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE DIREITO DO LARGO DE SÃO FRANCISCO

LUCAS BRANDÃO BORGES CAIADO

INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO PARA A CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS


ADVOCATÍCIOS PELA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA - PERSPECTIVAS ATUAIS

São Paulo

2015
LUCAS BRANDÃO BORGES CAIADO

N.º USP - 6470076

INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO PARA A CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS


ADVOCATÍCIOS PELA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA - PERSPECTIVAS ATUAIS

Tese de Láurea apresentada à Faculdade de


Direito da Universidade de São Paulo para
conclusão de Curso de Graduação

Departamento de Direito do Estado – Área


de Concentração de Direito Administrativo

Orientador:

Prof. Titular Dr. Fernando Dias Menezes de Almeida

SÃO PAULO

2015
À minha querida Mãe:

Início, meio e fim de qualquer


dedicatória possível.
AGRADECIMENTOS

Não há como pensar em um primeiro agradecimento que não contemple minha


família. Obrigado por acreditarem nos meus sonhos, por vezes até mais que eu mesmo,
e incentivarem, sempre e por todos os meios, que eu os realizasse, mesmo que isso
possa ter custado, em mais de uma ocasião, a não realização de seus próprios.

Agradeço aos Doutores Arilson Mendonça Borges e Marcos Jordão Teixeira do


Amaral Filho, meus mentores em quase todo o período da graduação, por todas as lições
a mim oferecidas – profissionais e de vida.

Agradeço, ainda, ao meu nobre e mais que gentil orientador, Professor


Fernando Dias Menezes de Almeida. Confidencio que desde que li o primeiro parágrafo
da obra “Contrato Administrativo” me sinto orientado diretamente pelo senhor, tal
sensação apenas se reforçou a cada aula que tive a honra de assistir.

Meu carinhoso agradecimento à Vanessa Magario, que se dispôs a revisar


cuidadosamente este trabalho, ainda que às custa de preciosas horas de sono.

Por fim, meu sincero agradecimento a todos aqueles que, apesar de não
nomeados individualmente, passaram em algum momento pela minha vida e ajudaram a
construir e definir o que sou, quem hoje me tornei.
RESUMO

A Administração Pública, direta e indireta, pode se utilizar de escritórios de advocacia e


advogados autônomos para a execução de serviços, comuns ou especializados,
necessários à gestão da coisa pública. A depender da prestação a ser realizada pelo
particular, a contratação pode ser efetivada mediante a realização de prévia licitação,
nos moldes da Lei N.º 8.666/93, ou pode ser resultado de processo de inexigibilidade de
licitação, desde que comprovados o preenchimento dos requisitos legais de objeto
singular e notória especialização do prestador. Em razão do expressivo número de
contratações realizadas por via direta, sem prévia licitação, para prestação de serviços
jurídicos especializados, vêm crescendo a contestação judicial destes atos,
principalmente em razão da atuação do Ministério Público e a constante propositura de
Ações Civis Públicas. Há pouco consenso jurisprudencial em relação ao tema e os casos
mais antigos já chegaram tanto ao Superior Tribunal de Justiça quando ao Supremo
Tribunal Federal, com o reconhecimento, neste último, de existência de Repercussão
Geral. Do mesmo modo, há dissenso doutrinário envolvendo importantes aspectos
relativos à própria forma como advogados e Poder Público contratante devem se
relacionar. Foi realizada ampla pesquisa jurisprudencial e doutrinária, sendo os
resultados utilizados como embasamento para as opiniões apresentadas.

Palavras Chave: Inexigibilidade; Licitação, Serviços; Advocatícios; Jurídicos;


Contratação Direta; Objeto Singular; Notória Especialização.
Nome: Lucas Brandão Borges Caiado

Título: Inexigibilidade de Licitação para a Contratação de Serviços Advocatícios pela


Administração Pública – Perspectivas Atuais

Tese de Láurea apresentada à Faculdade de


Direito da Universidade de São Paulo para
conclusão de Curso de Graduação

Departamento de Direito do Estado – Área


de Concentração de Direito Administrativo

Aprovado em: 25.11.2015

Orientador: Fernando Dias Menezes de Almeida Julgamento: 10,00 (dez)

Membro: Vitor Rhein Schirato Julgamento: 10,00 (dez)

Nota Final: 10,00 (dez)


SUMÁRIO

I. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
1. O Estado e os Particulares 8
2. Licitação no Brasil: breve introdução 10
3. Questões atuais 11

II. ANÁLISE DO ENQUADRAMENO LEGAL


4. Constituição Federal e Lei de Licitações e Contratos Administrativos 13
5. Introdução à questão da contratação direta 15
6. Serviços jurídicos especializados comuns 18

III. CONTRATAÇÃO DE ADVOGADOS OU ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA POR MEIO


DE LICITAÇÃO
7. Os serviços jurídicos 19
8. Necessário contrapeso doutrinário 20
9. De volta à natureza dos serviços jurídicos 22
10. A realidade do mercado 23
11. Resposta à questão da singularidade 26

IV. CONTRATAÇÃO DIRETA DE ADVOGADOS OU ESCRITÓRIOS DE ADVOCACIA


12. Elementos práticos 28
13. Premissas necessárias 31
14. De volta à Lei 32
15. Objeto singular 33
16. Notória especialização 36
17. A questão da confiança 38

V. A POSIÇÃO DOS TRIBUNAIS


18. Elementos iniciais e metodologia de pesquisa 41
19. Tribunais de Justiça Estaduais 42
20. Superior Tribunal de Justiça 45
21. Supremo Tribunal Federal 46

V. CONCLUSÃO 48

REFERÊNCIAS 50

ANEXOS
Anexo I – Lista de Julgados Analisados – Tribunais de Justiça Estaduais 52
Anexo II – Lista de Julgados Analisados – Superior Tribunal de Justiça 120
Anexo III – Lista de Julgados Analisados – Supremo Tribunal Federal 145
I. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

1. O Estado e os Particulares

Se observarmos, ainda que de forma superficial e com baixa rigidez conceitual,


os diversos formatos por meio dos quais a ideia de Governo se manifestou ao longo dos
séculos, chegaremos à natural conclusão de que, em maior ou menor escala, as
Administrações nunca foram autossuficientes a ponto de abrirem mão de se relacionar
com particulares para obter o fornecimento de bens e serviços.

Que se tome, a título de exemplo, a bebida mais presente no imaginário


popular durante todo o Império Romano: o vinho. Certo é que o Senado Romano
consumia, durante suas festividades, grandes doses da bebida do deus Baco. Não é
difícil imaginar, nesse contexto, que os ilustres políticos de então exigissem produtos de
alta qualidade, elaborados pelas melhores vinícolas da região, as quais, provavelmente,
pertenciam a famílias abastadas, com longínqua tradição e expertise 1 na produção da
bebida.

Para saciar os anseios dos representantes do povo, os agentes de Roma


deveriam adquirir, destes melhores produtores, a bebida desejada. O critério de escolha
do fornecedor, então, era o simples desejo daquele que comandava a máquina pública,
sem qualquer necessidade de justificativa, perante o povo, em relação ao gasto
realizado.

De modo não diverso, não parece crível que Roma produzisse, por mão
própria, os gêneros alimentares distribuídos à população quando da execução das
atividades que ficaram historicamente conhecidas como Política do Pão e Circo 2. Antes,

1
É como se vê na obra de LUCIUS JUNIUS MODERATUS COLUMELLA, consagrado escritor romano que
produziu a monumental obra “De Re Rustica” sobre a Agronomia. Disponibilizado em seu original, em
Latim, e versão traduzida para o inglês, pela Universidade de Chicago, nos Estado Unidos. Disponível em:
<http://penelope.uchicago.edu/Thayer/L/Roman/Texts/Isidore/17*.html#5.17>, acesso em 07.08.2015
2
Os investimentos realizados pelo Governo romano eram expressivos, relata a obra An Introduction to
the History of Western Europe, de 1902, de JAMES HARVEY ROBINSON, professor da Universidade de
Columbia, para quem: “It kept the unruly poorer classes quiet in the towns by furnishing them with
bread, and sometimes with wine, meat, and clothes. It provided amusement for them by expensive
entertainments, such as races and gladiatorial combats. In a word, the Roman government was not only
wonderfully organized, so that it penetrated to the utmost confines of its territory, but it attempted to
guard and regulate almost every interest in life.” (p. 10).
8
deveria a Administração se valer de particulares que, de alguma forma, provavelmente
por laços políticos e de amizade, eram selecionados para tal fim.

A necessidade de aquisição de bens e serviços por parte dos Governantes não


se alterou ao longo dos tempos; crê-se, no entanto, talvez por impulso de momentos de
dificuldade econômica, que os mecanismos foram, de pouco em pouco, se sofisticando.
O que conhecemos hoje por Licitação parece remontar, conforme ensina Hely Lopes
Meirelles 3, uma interessante prática medieval por meio da qual, para a execução de
determinada obra ou aquisição de bens, os representantes do estado afixavam
informativos descrevendo o objeto desejado e marcando data e horário para que os
particulares interessados comparecessem. O evento, conhecido como “Vela e Pregão”,
era marcado pelo acendimento de uma vela que, enquanto ardia, marcava o tempo para
que os particulares realizassem lances contendo seu preço para a execução ou
fornecimento do objeto; ao apagar da chama, ou consumo integral da vela, aquele que
tivesse ofertado o menor valor seria o vencedor contratado.

Tais experiências contribuíram para a formulação, ainda que de forma não


uniforme, de procedimentos e regras para assegurar que a Administração Pública
obtivesse, quando da contratação com particulares, a melhor proposta. A partir da
Revolução Francesa e da submissão dos Governantes à Lei, marco inaugural do Direito
Administrativo 4, tais procedimentos passaram a receber maior atenção, vez que
representam o mecanismo por meio do qual o Poder Público direcionaria parte de seus
recursos – por via direta, recursos a ele transferidos pelos contribuintes – a particulares
fornecedores de bens e serviços.

E ainda: “It required a great deal of money to support the luxurious court of the emperors and their
innumerable officials and servants, and to supply "bread and circuses" for the populace of the towns.” (p.
13). Disponível em <http://www.gutenberg.org/files/26042/26042-h/26042-h.htm>, acesso em
07.08.2015.
3
MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. São Paulo: Malheiros, 2013, p. 291.
4
Nesse sentido, ninguém melhor do que ODETE MEDAUAR em seu livro: O Direito Administrativo em
Evolução. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003.
9
2. Licitação no Brasil: breve introdução

No Brasil, a primeira tentativa de se estabelecer um regramento geral que


disciplinasse os mecanismos de seleção de particulares para contratar com o Estado foi
por meio da instituição do Decreto N.º 2.926, de 14 de maio de 1862 5. É interessante
notar que alguns valores hoje consagrados, inclusive por disposição constitucional,
como a Publicidade 6, Igualdade 7 e Vantajosidade 8, já tomavam forma no período
Imperial.

Foi, no entanto, a Constituição Federal de 1988 que, ao elencar, em seu artigo


37 9, os Princípios norteadores da Administração Pública, elevou a Licitação ao posto de
procedimento de observância obrigatória para a contratação de obras, serviços, compras
e alienações e estabeleceu, em seu artigo 22 10, inciso XXVII, a competência privativa
da União para sua regulamentação, o que ocorreu cinco anos depois com a promulgação
da Lei N.º 8.666, de 21 de Junho de 1993.

5
Disponível em < http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-2926-14-maio-1862-
555553-publicacaooriginal-74857-pe.html>, acesso em 09.08.2015.
6
Decreto N.º 2.926/1862 – Art. 1º: Logo que o Governo resolva mandar fazer por contracto qualquer
fornecimento, construccão ou concertos de obras cujas despezas corrão por conta do Ministerio da
Agricultura, Commercio e Obras Publicas, o Presidente da junta, perante a qual tiver de proceder-se á
arrematação, fará publicar annuncios, convidando concurrentes, e fixará, segundo a importancia da
mesma arrematação, o prazo de quinze dias a seis mezes para a apresentação das propostas.
7
Decreto N.º 2.926/1862 – Art. 2º Terminada a inscripção de que trata o artigo antecedente, os
concurrentes, em acto successivo tiraráõ á sorte o numero que deve designar o lugar em que serão
collocados para fazerem suas propostas: concluido o sorteio, o Presidente da junta convidará pela
ordem fixada pela sorte a cada concurrente á apresentar de viva voz, e de modo a ser distinctamente
ouvido por todos a sua proposta. (...)
8
Decreto N.º 2.926/1862 – Art. 7º Finda a praça, a junta, perante a qual houver tido lugar a
arrematação, examinará todas as propostas e documentos dos concurrentes, a fim de dar seu parecer
sobre ellas, indicando a que julgar mais vantajosa. De tudo se lavrará uma acta, na qual será exarada por
extenso a proposta de cada concurrente.
9
Constituição Federal da Republica Federativa do Brasil, 1988 - Art. 37. A administração pública direta e
indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá
aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao
seguinte:
XXI - ressalvados os casos especificados na legislação, as obras, serviços, compras e alienações serão
contratados mediante processo de licitação pública que assegure igualdade de condições a todos os
concorrentes, com cláusulas que estabeleçam obrigações de pagamento, mantidas as condições efetivas
da proposta, nos termos da lei, o qual somente permitirá as exigências de qualificação técnica e
econômica indispensáveis à garantia do cumprimento das obrigações.
10
Constituição Federal da Republica Federativa do Brasil, 1988 - art. 22. Compete privativamente à
União legislar sobre:
XXVII – normas gerais de licitação e contratação, em todas as modalidades, para as administrações
públicas diretas, autárquicas e fundacionais da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, obedecido
o disposto no art. 37, XXI, e para as empresas públicas e sociedades de economia mista, nos termos do
art. 173, § 1°, III
10
Assim, foi instituída sistemática por meio da qual, quisesse o Poder Público
contratar com particulares, deveria observar, como regra, o dever de licitar. Entretanto,
a própria Constituição Federal, naquele mesmo artigo 37, inciso XXI, ressalva a
possibilidade de existirem casos, a serem especificados por Lei, nos quais, para a
seleção de possíveis candidatos a contratantes, não prescindiria instauração de prévio
procedimento licitatório.

A Lei de Licitações e Contratos Administrativos se prestou, então, a disciplinar


hipóteses em que, observadas certas circunstâncias - por considerar que o dever de
licitar seria, em alguns casos, inexigível e, em outros, dispensável - estaria o
Administrador autorizado a realizar contratações diretas.

3. Questões atuais

É justamente neste ponto que se insere a temática trazida pelo presente


trabalho. Conforme será oportunamente esmiuçado, a leitura combinada dos artigos 25,
inciso I, e 13, incisos II e V, todos da mencionada Lei, sugere que no rol de hipóteses de
contratação direta por inexigibilidade de licitação se encontrariam aquelas cujo objeto é
a prestação de serviços jurídicos especializados para a defesa dos interesses da
Administração Pública.

Longe de resolver a questão, a previsão legal traz consigo elementos que dão
margem a maiores e mais complexas discussões, como o é, por exemplo, a definição de
que os serviços deverão ter natureza singular ou, ainda, que as empresas ou
profissionais contratados deverão preencher o requisito de notória especialização. Estas
discussões, por sua vez, não estão confinadas à Academia e, em verdade, se traduzem
em embates judiciais ferrenhos.

Conforme foi possível averiguar por meio de ampla pesquisa, envolvendo


todos os Tribunais de Justiça estaduais, Superior Tribunal de Justiça e Supremo
Tribunal Federal, cujo resultado será presentemente aplicado, inúmeras são as ações
espalhadas por todo o país que, patrocinadas pelo Ministério Público, visam a contestar

11
os contratos celebrados em regime de contratação direta que têm por objeto a prestação
de serviços jurídicos.

A temática se mostra bastante rica e está intimamente relacionada aos pilares


que sustentam o Direito Administrativo brasileiro. O embate entre as linhas teóricas que
sustentam casa posição, levado à via judicial pela propositura de ações, apenas contribui
para tornar o tema ainda mais instigante e merecedor de atenções.

Ademais, a repercussão prática do resultado que se obtém a partir da discussão


proposta é de todo relevante e de vital importância, na medida em que resvala em um
dado concreto, do mundo do ser, qual seja a efetiva e plural existência de contratações
diretas de advogados e escritórios de advocacia por diversas esferas do poder público
federal, estadual e municipal para a defesa de seus interesses.

A análise dos diversos casos encontrados permitiu concluir que a matéria é


composta por nuances e especificidades, incluindo variações regionais e ideológicas de
entendimento que a afastam da possibilidade de um tratamento binomial de sim ou não,
os quais, a partir da justaposição e comparação entre as diversas fontes exploradas,
serão objeto de oportuna e detalhada reflexão.

Propomos, para tanto, o oferecimento, nos próximos capítulos, tanto de um


amplo panorama acerca do atual debate, quanto de um aprofundamento analítico em
relação à regência legal e aos principais argumentos levantados.

Por fim, ainda que ausente qualquer pretensão de esgotamento do tema, não
nos furtaremos, durante o curso do trabalho, de contestar premissas, desconstruir
raciocínios, adotar posições, indicar possíveis caminhos a serem trilhados e,
oportunamente, traçar prognósticos acerca dos eventos futuros atinentes ao tema.

12
II. ANÁLISE DO ENQUADRAMENO LEGAL

4. Constituição Federal e Lei de Licitações e Contratos Administrativos

A Lei Federal de Licitações e Contratos Administrativos, promulgada em 1993,


se propôs a regulamentar o mandamento constitucional que instituiu a obrigatoriedade
de realização de prévia Licitação para a celebração de contratos entre o Estado e
particulares. Mais especificamente, no que toca a contratação de serviços jurídicos
especializados, o quadro normativo foi insculpido como hipótese expressa de
contratação direta pela via da inexigibilidade.

Cabe pontuar, neste momento, ainda que brevemente, a necessária


diferenciação entre as duas modalidades de contratação direta previstas na Lei N.º
8.666/93: dispensa (artigo 24) e inexigibilidade (artigo 25).

Nos casos de dispensa, taxativamente previstos, estamos diante de hipóteses


em que não haveria, em condições regulares, qualquer impedimento à realização de
procedimento licitatório para a contratação de determinado objeto; contudo, em razão de
circunstâncias específicas, entende a Lei que valores outros mereçam ser privilegiados
(tais como urgência, segurança nacional, etc.) em detrimento da obrigatoriedade do
certame. Dito de outro modo, seria, do ponto de vista econômico, possível realizar a
licitação, mas não é necessário fazê-lo.

Nos casos de inexigibilidade, a ausência do dever de licitar decorre não de


incursão legal no universo da livre concorrência, mas sim da constatação fática e
econômica de que há inviabilidade de competição em relação à execução de
determinado objeto por particulares. Equivale a dizer que, ainda que quisesse o Estado
realizar licitação, não disporia o mercado de formas para, objetivamente, satisfazer tal
desejo; por via direta de consequência, a contratação, se realizada, deverá ser
necessariamente direta.

Nesse sentido, ensina Marçal Justen Filho 11:

11
JUSTEN FILHO, Marçal. Curso de Direito Administrativo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p.
528.
13
“A inexigibilidade deriva da natureza das coisas, enquanto a dispensa é
produto da vontade legislativa. Esse é o motivo pelo qual as hipóteses de
inexigibilidade indicadas em lei são meramente exemplificativas, enquanto
as de dispensa são exaustivas. É que somente a dispensa de licitação é
criada por lei – logo, a ausência de previsão legislativa impede o
reconhecimento de dispensa de licitação. As hipóteses de inexigibilidade
dependem das circunstâncias, impondo-se sua adoção independentemente
da vontade do legislador.”

Certo que a presente discussão se baseia na possibilidade de enquadramento


das contratações à segunda hipótese, voltemos à análise do texto legal. Que se tome,
então, o quanto dispõe o artigo 25 da Lei de Licitações e Contratos Administrativos:

Art. 25.

É inexigível a licitação quando houver inviabilidade de competição,


em especial:

(...)

II - para a contratação de serviços técnicos enumerados no art. 13


desta Lei, de natureza singular, com profissionais ou empresas de
notória especialização, vedada a inexigibilidade para serviços de
publicidade e divulgação;

(...)

§ 1o Considera-se de notória especialização o profissional ou empresa


cujo conceito no campo de sua especialidade, decorrente de
desempenho anterior, estudos, experiências, publicações, organização,
aparelhamento, equipe técnica, ou de outros requisitos relacionados
com suas atividades, permita inferir que o seu trabalho é essencial e
indiscutivelmente o mais adequado à plena satisfação do objeto do
contrato.

14
Por sua vez, diz o mencionado artigo 13 do mencionado diploma:

Art. 13.

Para os fins desta Lei, consideram-se serviços técnicos profissionais


especializados os trabalhos relativos a:

(...)

II - pareceres, (...);

(...)

V - patrocínio ou defesa de causas judiciais ou administrativas;

Parece não restar qualquer dúvida, neste primeiro momento, sem que se entre
no mérito da obrigatoriedade ou não de prévia licitação em cada caso, que é lícito ao
Poder Público a contratação de serviços técnicos profissionais especializados relativos à
prestação de serviços jurídicos. Dito de outro modo: o Estado pode se valer de
advogados ou escritórios de advocacia para suprir, em alguma medida, a demanda por
serviços jurídicos.

5. Introdução à questão da contratação direta

Um segundo movimento consiste em se reconhecer que, cumpridos os


requisitos impostos pelo artigo 25, caso o Poder Público deseje se valer de profissionais
ou de empresa de notória especialização para a prestação de objeto de natureza singular,
restará aberta a via da contratação direta por inexigibilidade de licitação. Noutros
termos, o ordenamento brasileiro é expresso em dizer que diante da constatação fática
de que: se (i) há necessidade pública de realização de serviços técnicos especializados
de natureza singular no ramo jurídico, e (ii) se há profissionais ou escritórios de
advocacia detentores, em seu campo de especialidade, de notória especialização, então,
15
como consequência, (iii) caso o Estado deseje se valer de particulares para a execução
de tal objeto, a contratação se dará por via direta, uma vez que a natural inviabilidade de
competição afasta, por não ser exigível nestes casos, a realização de licitação.

Chegamos então à inicial conclusão, decorrente de simples leitura do texto


legal, de que não só pode o Poder Público, caso deseje, se utilizar de advogados e
escritórios de advocacia para a execução de serviços jurídicos como também que,
reconhecido que tais prestações envolvem elementos técnicos que denotem natureza
singular e que há profissionais aptos a realizá-las que sejam detentores de notória
especialização, tal contratação se daria pela via direta da inexigibilidade de licitação.

Importante ressaltar, a construção anterior não quer dizer, sob pena de


demasiado reducionismo, que (i) só poderá o Estado contratar serviços jurídicos
particulares se estes tiverem natureza singular, (ii) só poderá o estado contratar
profissionais ou escritórios de advocacia que detenham notória especialização ou, ainda,
(iii) que todas as eventuais contratações pressuporão inviabilidade fática de competição
e serão realizadas sem prévio procedimento licitatório. Estamos diante de situações
distintas, merecedoras de algumas considerações.

A forma como a Administração Pública, em suas mais diversas manifestações,


se configura para atender as demandas que lhe são institucionalmente impostas, é dada
pela conjunção de elementos técnicos e políticos que exprimem uma visão de estado
corroborada democraticamente pelo voto popular. Em termos menos abstratos, cabe ao
gestor público, frente às demandas cotidianas do órgão ou ente sob sua
responsabilidade, decidir de qual forma estas serão supridas.

Se imaginarmos que este virtual gestor se encontra diante da necessidade de


prestação de determinados serviços jurídicos (independentemente, neste momento, de
sua natureza), é afeita ao campo de sua discricionariedade, no limite da Lei, a decisão de
executá-los por mão própria – mediante o provimento de cargos ou empregos públicos -
ou por meio de terceiros não insertos na máquina estatal.

Não se está a dizer aqui que há total liberdade nesta conformação do aparato
pessoal de que dispõe o Estado. A questão da contratação de advogados ou escritórios
de advocacia por gestores públicos, contraposta à execução interna, é tema, por si só,
16
bastante tormentoso, motivador de discussões apaixonadas e merecedor de análise
própria, que infelizmente extrapola os limites ora propostos 12 13.

Entretanto, reconhecidas as necessidades, caso nosso gestor se convença que


melhor atende ao interesse público a execução daqueles afazeres jurídicos por terceiro
contratado, não por pessoal interno, aí sim entra a indagação de sua natureza: se tarefas
cotidianas ou de natureza singular. Isso porque, aí está a distinção inicial que, em
momento futuro, abrirá, no caso concreto, a possibilidade de se percorrer via já
identificada no texto legal: a contratação direta.

6. Serviços jurídicos especializados comuns

Após tal raciocínio, poderíamos ignorar a hipótese em que o Estado se


depararia com a necessidade de execução de tarefas jurídicas cotidianas e saltarmos
diretamente para análise mais profunda dos elementos que envolvem as contratações

12
Importante, no entanto, ressalvar a sólida opinião de MARÇAL JUSTEN FILHO, para quem: “É
necessário ressaltar que a opção preferencial da Administração Pública deve ser a execução direta dos
serviços advocatícios. É relevante a manutenção de quadro próprio de advogados, que desempenhe
atuação permanente e contínua, em favor da Administração Pública.
“A Atuação profissional da advocacia exige não apenas o domínio do conhecimento técnico-jurídico e
uma espécie de sensibilidade acerca dos eventos futuros. Demanda o conhecimento das praxes
administrativas e o domínio quanto aos fatos passados. É extremamente problemático obter atuação
satisfatória de um advogado que não conhece o passado da instituição e desconhece a origem dos
problemas enfrentados. A terceirização dos serviços advocatícios representa um grande risco para a
atuação eficiente da Administração Pública.
“Portanto, e como regra, a melhor solução é a manutenção de advogados contratados
permanentemente, sob vínculo trabalhista ou estatutário (conforme o caso).” (em: Comentários à Lei de
Licitações e Contratos Administrativos, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p. 505/506).
13
E, ainda que não necessariamente aderindo à posição do autor, CELSO ANTÔNIO BANDEIRA DE
MELLO: “Se o serviço pretendido for banal, corriqueiro, singelo, e, por isto, irrelevante que seja prestado
por “A” ou por “B”, não haveria razão alguma para postergar-se o instituto da licitação. Pois é claro que
a singularidade só terá ressonância para o tema na medida em que seja necessária, isto é, em que por
força dela caiba espera melhor satisfação do interesse administrativo a ser provido.
“Veja-se: o patrocínio de uma causa em juízo está arrolado entre os serviços técnico-especializados
previstos no art. 13. Entretanto, para mover simples execuções fiscais a Administração não terá
necessidade alguma de contratar – e diretamente- um profissional de notória especialização. Seria um
absurdo se fizesse.” (em: Curso de Direito Administrativo, São Paulo: Malheiros, 2014, p. 564.)
17
fundadas em inexigibilidade de licitação. Trilhar este caminho nos permitiria evitar
discussão atual e bastante espinhosa, mas que é de todo relevante para nosso tema.

Como já adiantado anteriormente, ressalvamos que dizer que o Poder Público


possa contratar advogados ou escritórios de advocacia, preenchidos os requisitos, de
modo direto, sem prévia licitação, difere bastante de dizer que o Poder Público só possa
contratar advogados ou escritórios de advocacia nas hipóteses em que o faça
diretamente, por inexigibilidade de licitação.

A contraposição de tais afirmações, mais que discussão doutrinária, gera


bastantes faíscas no campo prático, uma vez que, por detrás de cada uma delas, há
afirmações relevantes acerca da própria natureza dos serviços advocatícios, bem como
dos limites éticos de seu exercício.

Nos dedicaremos, então, no próximo capítulo, a responder a seguinte pergunta:


pode o Estado, caso deseje contratar advogados ou escritórios de advocacia, fazê-lo por
meio de licitação?

18
III. CONTRATAÇÃO DE ADVOGADOS OU ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA
POR MEIO DE LICITAÇÃO

7. Os serviços jurídicos

Por meio da análise anterior, concluímos ser lícito ao Estado, caso deseje se
valer de serviços advocatícios singulares prestados por terceiros, contratá-los
diretamente, nos termos do artigo 25 da Lei N.º 8.666/93. Isso posto, coloca-se a
questão: há algum serviço, prestado por advogados, que não seja, em sua essência,
singular?

A resposta a essa indagação, pretensamente simples, enceta, necessariamente,


uma de duas consequências: se, por um lado, reconhecermos que existam afazeres
exclusivos dos profissionais da advocacia que, ainda que privativos destes, não denotem
qualquer singularidade, não há como se afastar a possibilidade de contratação precedida
de licitação, como ocorre com serviços outros disponíveis no mercado; se, por outro
lado, entendermos que a marca da singularidade é indissociável na própria natureza do
exercício da advocacia, então, em todos os casos, as contratações se darão por via direta.

Tal bifurcação decorre da estreita relação, promovida pelo texto legal, entre
singularidade e inviabilidade de competição. Se dado serviço tem índole singular, de
modo que apenas possa ser executado, no nível de satisfação exigido pelo Estado, por
profissionais detentores de notória especialização, então não há como se pretender
realizar certame licitatório entre os possíveis prestadores, uma vez que tais caracteres
representam um aspecto subjetivo, impossível de se aferir por critérios objetivos de
julgamento previamente estipulados.

Voltemos aos serviços advocatícios: seriam estes invariavelmente singulares, a


ponto, inclusive, de afastar a viabilidade de competição entre advogados e escritórios de
advocacia?

19
8. Necessário contrapeso doutrinário

Em artigo intitulado “A Singularidade da Advocacia e as Ameaças às


Prerrogativas Profissionais” 14, de autoria do professor Floriano de Azevedo Marques
Neto, a temática é esmiuçada de forma bastante precisa: para ele, há clara
incompatibilidade entre o dever de licitar e a contratação de advogados. Justamente por
esta linha argumentativa traçada pelo autor sintetizar, com maestria, posicionamentos
consagrados, bem como para que possamos nos aprofundar na discussão, merece
transcrição:

“Na contratação de advogado, a licitação será inexigível porque a


advocacia não se exerce dissociada da pessoa do advogado, da
relação de confiança que se estabelece entre constituinte e
constituído. Neste sentido, impecável a decisão do então Ministro
Carlos Velloso mostrando a incompatibilidade entre a confiança
inerente à advocacia e a impessoalidade do processo licitatório (ver
HC 72830/RO). Não é por outra razão que o Código de Ética da
Advocacia (art. 15) obriga que o mandato seja outorgado
individualmente aos advogados, mesmo quando reunidos em
sociedade. Tal nexo de confiança é indissociável da pessoa do
advogado, o que torna o resultado da advocacia um objeto
subjetivamente singularizado.

“Sendo o objeto singular, ele é impassível de comparação, de cotejo.


E sendo assim, não se põe viável a competição (salvo se ela se
travestir de mero simulacro, de pantomima, de simulação). E a
competição entre advogados é impossível por vários motivos.”

Nota-se, então, que, segundo o raciocínio exposto, seria impossível conceber-


se, por via lícita, a existência de efetiva competição, haja vista que o objeto perseguido
(prestação de serviços advocatícios) é impassível de comparação objetiva, por ser este

14
MARQUES, Floriano de Azevedo. A singularidade da advocacia e as ameaças às prerrogativas
profissionais. Artigo publicado na data 13/03/2008 no sítio eletrônico da Sociedade Brasileira de Direito
Público – SBDP. Disponível em: http://www.sbdp.org.br/artigos_ver.php?idConteudo=69, acesso em
15.09.2015
20
singular em razão de necessário nexo de confiança entre o contratante e a pessoa do
advogado (ou daqueles que compõem o escritório de advocacia). Tal inviabilidade de
competição decorreria, ainda, de três razões 15, assim sintetizadas:

i) Há inviabilidade de aferição de vantajosidade de eventuais


propostas, uma vez que os aspectos relevantes dos serviços prestados
estão marcados por uma pessoalidade impossível de objetificação;

ii) O Código de Ética e Disciplina da Ordem dos Advogados do Brasil


veda, em artigo 5º, qual procedimento de mercantilização da
profissão, tal qual seria uma disputa baseada no menor preço; e

iii) É impossível se comparar objetos dotados de singularidade,


especialmente antes de sua contratação e execução (em outros termos,
como cada objeto é singular, a efetiva comparação dependeria, se
possível fosse, de sua prévia execução).

A análise realizada no mencionado trabalho, mais do que uma bela e merecida


defesa da nobre profissão exercida pelos advogados, é precisa em relação à abordagem
técnica da Lei de Licitações e Contratos Administrativos, bem como ao necessário
cotejamento com a regulamentação que recai sobre o exercício da advocacia.

15
MARQUES, Floriano de Azevedo. A singularidade da advocacia e as ameaças às prerrogativas
profissionais. Artigo publicado na data 13/03/2008 no sítio eletrônico da Sociedade Brasileira de Direito
Público – sbdp. Disponível em: <http://www.sbdp.org.br/artigos_ver.php?idConteudo=69>, p. 5/6,
acesso em 02.09.2015: “Primeiro, porque serviços de advocacia não permitem aferir, objetivamente, a
vantajosidade entre propostas. A uma porque o aspecto subjetivo, vimos, é predominante. A duas,
porque os critérios de julgamento serão impregnados de características prenhes de pessoalidade como a
segurança do profissional, a honorabilidade deste, o respeito granjeado no meio, a reputação, seu poder
de convencimento, enfim, um plexo de características relevantíssimas na escolha do advogado, mas de
objetivação impossível num edital (interditando o julgamento objetivo referido no art. 3º da lei de
licitações).
“Depois, porque é antípoda à profissão a disputa baseada no menor preço. Diz expressamente o Código
de Ética (art. 5º) que “o exercício da advocacia é incompatível com qualquer procedimento de
mercantilização”. Não existe nada mais mercantil do que a disputa, numa licitação, pelo contrato
mediante oferta do menor valor de honorários.
“Terceiro, não há competição porque não se pode comparar objetos dotados de singularidade.
Mormente não se pode comparar tais objetos a priori, antes da contratação (como sói ser na licitação).
Como julgar objetivamente qual é o melhor parecer entre vários antes do mesmo estar pronto? Como
julgar a proposta mais vantajosa para patrocínio numa causa sem que a defesa esteja concluída? Como
decidir pela melhor sustentação oral antes da peroração? A inviabilidade, repito, está no fato de que a
decisão de quem contratar se baseará na confiança depositada no profissional em virtude, dizeres da lei,
do conceito do profissional no seu campo decorrente de desempenho anterior (art. 25, §1º).”

21
De fato, se aceitarmos a premissa de que estamos diante de objeto singular, do
qual a execução depende de conhecimentos e práticas específicas, se torna impossível
uma aferição de vantajosidade com base em critérios objetivos previamente
estabelecidos. Aqui, a questão da confiança é primordial: as credenciais acumuladas
(artigo 25, §1º) por dado profissional ou conjunto de profissionais revelam sua
capacidade de, ao menos em tese, executar de forma satisfatória a necessidade
identificada pela Administração Pública, o que justifica, por si só, sua contratação. Em
outros termos, por se tratar de critério de julgamento subjetivo (impassível de aferição
objetiva), a decisão de contratação se baseia, fundamentalmente, no elo de confiança
existente entre a Administração e o Advogado.

9. De volta à natureza dos serviços jurídicos

Mas que se repita a questão inicialmente posta: há algum serviço, prestado por
advogados, que não seja, em sua essência, singular? É justamente neste ponto que
permitimo-nos, aceitando as perigosas consequências, discordar do nobre Professor
acima citado. Se a premissa maior na qual se baseia a argumentação traçada é a de que a
singularidade de objeto está em todos os serviços executados privativamente por
advogados (e daí decorreria a inviabilidade de competição), entendemos haver uma
discrepância entre a formulação do silogismo e o real contexto fático no qual estão
insertos os Advogados e Escritórios de Advocacia.

Em tempo e antes de prosseguirmos, importante reafirmar: não queremos dizer


que a linha argumentativa é falha ou os argumentos são inválidos, apenas acreditamos
que esta não reflete a integralidade do conjunto que engloba todas as formas de
prestação de serviços advocatícios. É dizer: para aqueles casos nos quais há objeto
singular, passível de execução unicamente por profissionais detentores de notória
especialização, reforçamos o coro que defende a inviabilidade de competição e a
consequente contratação por via direta, sem necessidade de realização de prévia
licitação.

O contexto fático que identifica a singularidade de objeto para todo e qualquer


prestação atribuível privativamente a advogados pressupõe, nestes casos, a constância
22
do exercício da profissão de forma qual artesanal: parte de um imaginário no qual o
advogado se debruça longamente sobre cada caso que lhe é atribuído, buscando sempre,
mediante o emprego de toda experiência acumulada, as melhores técnicas e caminhos a
serem individualmente escolhidos para cada situação.

Tal imagem, em que pese a tentação, não decorre ou mesmo se mistura com o
tamanho das bancas de advogados. Ainda que pareça mais fácil identificar nosso
suposto advogado como integrante de escritórios menores, ou mesmo como um
profissional único, não queremos dizer que há uma relação causal entre número de
profissionais e filosofia de trabalho. O foco que ora se procura dar é justamente na
forma de execução dos serviços advocatícios.

Pois bem, o reconhecimento de singularidade de objeto em todos estes serviços


perpassaria, necessariamente, pela constatação de que tais são realizados,
invariavelmente, pelo emprego de técnicas e conhecimentos próprios de profissionais
detentores de notória especialização, adequando-os a cada caso concreto que é
apresentado.

Se assim fosse, haveria, de fato, preponderância do elemento da confiança,


bem como da impossibilidade objetiva de competição entre escritórios e advogados, de
modo que só poderia a Administração Pública contratá-los de forma direta.

10. A realidade do mercado

Ocorre, no entanto, independentemente da valoração que se dê a esta


constatação, que não é este o quadro fático que melhor reflete a realidade dos serviços
advocatícios disponíveis no mercado brasileiro.

De fato, nosso país conta, felizmente, com grande número de profissionais


extremamente qualificados que oferecem seus préstimos para a solução de problemas
jurídicos de alta complexidade, dedicando-se à análise pormenorizada de todos os
elementos que circunscrevem determinada situação que lhes é apresentada.

23
Nestes casos, é relevante a percepção de que, ainda que a tais profissionais
sejam atribuídos, concomitantemente, diversos afazeres, o tratamento dado a cada um
deles será individualizados. Dito de outro modo, cada caso apresentado tem relevância e
resultados próprios, independentes do conjunto de serviços tomado em sua
integralidade.

Há, por outro lado, e aqui não há qualquer juízo de valor envolvido,
profissionais e escritórios que se dedicam à solução de casos, geralmente fundados em
situações fáticas similares, que são mais relevantes se tomados em conjunto do que
individualmente. Por via de consequência, o desfecho obtido em cada caso perde
importância em relação à média do conjunto.

Exemplo mais emblemático dessa forma de prestação de serviços encontra-se


no que é comumente denominado “contencioso de massa”. Diante da necessidade de
resposta a um sem número de causas fundadas em contextos fáticos muito parecidos, os
escritórios se organizam para oferecer um serviço que se ajuste, de forma econômica e
eficiente, aos objetivos do contratante.

Não é raro que os contratos firmados para tal fim prevejam patamar mínimo de
êxito em relação ao total das ações ajuizadas, bem como remuneração variável em
função desde índice de sucesso. Fica bastante claro, desta forma, que para o contratante
pouco importa se o advogado será vitorioso em uma ou outra ação particular; o objetivo
é atingir uma média de resultados positivos.

Chama atenção a dinâmica e eficiência encontradas nas bancas que se dedicam


à execução de tais serviços massificados: elementos que inicialmente seriam estranhos
ao mundo da advocacia especializada, marcado pela já invocada imagem de um artesão
jurídico, se tornam o principal ferramental e caminho do sucesso para estes outros
advogados. É interessante notar trechos da descrição realizada pelo periódico digital
Consultor Jurídico 16 ao tratar daquele que é considerado o “maior escritório de
advocacia do país” 17:

16
O cuidado na seleção das fontes que auxiliam a elaboração do presente trabalho não pode
desconsiderar a importância do meio digital para a produção de conteúdo jurídico relevante e de
qualidade. O site Consultor Jurídico (www.conjur.com.br) se destaca, nesse sentido, pelo cuidado
editorial de suas publicações, bem como pelo meticuloso filtro por meio do qual seleciona seus
24
“A entrada da empresa no centro de Bauru, no interior de São Paulo,
dá para um salão de 2000 metros quadrados e pé-direito alto, como
num galpão. Ali, enfileiram-se gôndolas parecidas com aquelas de
supermercado, cada uma com dezenas de estações de trabalho, onde
os mais de 400 funcionários, lado a lado, não tiram os olhos da tela
dos computadores. Esses profissionais têm metas a cumprir: precisam
atender determinado número de fregueses antes de encerrar o
expediente. Entre os termos mais comuns no dia a dia estão workflow,
checklist, gestão de equipe, controle de qualidade, mensuração de
resultados. Só quando o visitante dá alguns passos para trás pode
perceber, na placa prateada no hall do elevador, que não está em um
centro de operações de telemarketing ou algo do gênero. "J. Bueno e
Mandaliti - Sociedade de Advogados", lê-se. Trata-se do maior
escritório de advocacia do país em número de advogados.

“É também — certamente — a sociedade de advogados mais


inusitada em atividade no Brasil hoje em dia. Basta olhar o tal galpão
bauruense para perceber que o JBM, como é conhecido, assemelha-se
mais a uma linha de produção fabril do que ao acarpetado,
engravatado e afetado mundo dos grandes escritórios de advocacia
do eixo Rio-São Paulo. O principal motivo para isso é sua área de
atuação. O JBM é o primeiro escritório do país especializado naquilo
que os advogados chamam de "contencioso de massa". Isso quer dizer
que seus advogados cuidam das dezenas de milhares de pequenas
causas de que são alvo as grandes empresas — principalmente ações
trabalhistas e de direito do consumidor. Para organizar a enxurrada
de processos que seus departamentos jurídicos têm de encarar, as
empresas contratam escritórios de advocacia — que, para dar conta
do trabalho, se organizam como verdadeiras salsicharias do direito.
Só o JBM administra mais de 230 000 processos. (...)

colunistas e colaboradores, dentre os quais destacamos, para além do próprio professor Floriano de
Azevedo Marques Neto, nomes de peso como: Maria Sylvia Zanella Di Pietro, José Levi Mello do Amaral
Júnior, Carlos Horbach, Gilberto Bercovici, José Fernando Simão, Paulo Lôbo, Fernando Facury Scaff,
Maurício Conti, Pierpaolo Bottini, Heleno Torres, Otavio Luiz Rodrigues Junior, Lenio Luiz Streck, Aury
Lopes Jr., dentro outros.
17
Artigo Publicado em 19.04.2011, disponível em < http://www.conjur.com.br/2011-abr-19/maior-
escritorio-pais-537-advogados-faturamento-110-milhoes>, acesso em 12.09.2015.
25
É eloquente a semelhança entre a rotina e processo produtivo do escritório de
advocacia retratado (ao qual se assemelham tantos outros existentes) e aquele existente
em eficientes empresas fornecedoras de bens e serviços quaisquer. E isso não quer
dizer, vale pontuar, que estas bancas atuam à margem da regulamentação profissional
exercida pela Ordem dos Advogados do Brasil; sua existência e forma de atuação
decorrem, antes, da conformação das relações sociais e econômicas existentes no país.
Arriscaríamos dizer que, não fosse tal processo de produção massificado, dificilmente
seria possível aos contratantes, dentro de uma lógica de viabilidade econômica, se
defender (ou atacar) em juízo em todas as ações em que figuram como parte.

11. Resposta à questão da singularidade

Assim, diante da constatação fática, advinda do mundo do ser, de que há


demanda por serviços jurídicos que dispensam o tratamento individualizado das
diversas situações que são colocadas diante dos advogados ou escritórios de advocacia,
persistiria a afirmação de que os afazeres performados privativamente por advogados
são dotados, por sua própria natureza e em qualquer caso, de singularidade subjetiva
que justifique sua contratação direta pelo Poder Público?

Não nos parece ser o caso. Se observarmos, de uma perspectiva panorâmica, o


infindável rol de serviços comumente atribuídos a advogados e escritórios de advocacia,
bem como as diversas formas de executá-los, não parece sustentável defender que toda
esta atividade profissional esteja encoberta por um único manto que resguarde, em cada
um dos casos, sua singularidade.

Ainda poderia se argumentar, em direção oposta, que a marca da singularidade


persistiria, uma vez que não seria possível afastar a importante questão da confiança no
profissional escolhido. Neste mesmo sentido, poderia ser dito que, no exemplo trazido,
de grandes escritórios que atuam de forma massificada, a confiança seria depositada no
sócio administrador, aquele advogado responsável por gerenciar toda a atividade
realizada.

26
Certamente o argumento parece, em um primeiro momento, coerente, mas
acaba por esbarrar na constatação de que, uma vez reconhecido que a dinâmica de
atuação destas bancas se equipara à de grandes empresas prestadoras de serviços outros,
a confiança depositada na atividade exercida pelo sócio administrador decorre não de
seu saber jurídico, singularmente apreciável, mas de sua capacidade gerencial de
conformatar o processo produtivo do escritório. Caso aceitássemos tal raciocínio, o
argumento da confiança seria extensível a qualquer setor de serviços: bastaria o
estabelecimento de laços de confiança com gestor da empresa, pois que este se
esparramaria por todos seus funcionários, para que o Poder Público pudesse invocar a
marca da singularidade e se valer de suposta contratação direta.

De modo não diverso, cairia por terra suposta alegação de que mesmo que a
atividade jurídica seja realizada de forma massificada não haveria formas de, por meio
de critérios objetivos de julgamento, aferir-se a vantajosidade nas propostas formuladas
por licitantes em um certame competitivo. Isso porque, conforme retratado no exemplo,
não importa o resultado individual obtido em uma ou outra situação, mas a performance
média obtida por um advogado ou escritório de advocacia em determinado contexto.
Assim, diante da apropriação pelo mundo dos serviços jurídicos, em circunstâncias
específicas, de caracteres próprios da dinâmica de mercado, não há como não se
arrastar, igualmente, formas objetivas de mensuração de resultados, as quais podem ser
transpostas para um edital de licitação.

Também não se desconhecesse, neste mesmo tema, a dificuldade de se realizar


tal apuração de resultados em um ramo de serviços tradicionalmente vinculado 18 às
obrigações de meio, não de resultado. Entretanto, uma vez mais a realidade dos serviços
advocatícios demonstra que, na prática, muitos contratos têm cláusula que escalona a
remuneração percebida em função do nível de êxito médio do conjunto de atribuições

18
Nesse sentido, SERGIO CAVALIERI FILHO, em seu Programa de Responsabilidade Civil, São Paulo:
Atlas, 2014, p. 467: “A doutrina sempre entendeu, em nível nacional e estrangeiro, que a
responsabilidade do advogado é de regra contratual e que as obrigações decorrentes do contrato são de
meio e não de resultado.
“Entende-se por obrigação de resultado aquela em que o profissional assume a obrigação de conseguir
um resultado certo e determinado, sem o que haverá inadimplemento. Difere da obrigação de meio
porque nesta o profissional apenas se obriga a colocar sua atividade técnica, habilidade, diligência e
prudência no sentido de atingir um resultado, sem, contudo, se vincular a obtê-lo. Enquanto o conteúdo
da obrigação de resultado é o resultado em si mesmo, o conteúdo da obrigação de meio é a atividade do
devedor.”
27
destinadas àquele advogado ou escritório de advocacia. Ademais, o próprio Código de
Ética e Disciplina da OAB prevê, mutatis mutandi, a possibilidade de adoção de
cláusula quota litis em seu artigo 38 19, sendo que a previsão fica ainda mais clara no
texto aprovado, em 17.08.2015, pelo Conselho Federal da entidade para substituir o
atual diploma, que define, em seu artigo 49 20, a mencionada cláusula como
proporcionadora de honorários acrescidos em função do êxito obtido na causa.

Assim, não são estranhos ao nosso ordenamento mecanismos que permitem,


em alguns casos, a mensuração objetiva da qualidade (ou, em termos quantitativos, a
experiência) de serviços jurídicos prestados em contexto no qual está ausente a marca
da singularidade.

12. Elementos práticos

Superadas as barreiras da questão da confiança e de aferição de vantajosidade,


não parecem restar maiores dúvidas de que se por um lado o exercício da advocacia
pode ser marcado por préstimos muito específicos, cuja própria natureza denota
intrínseca singularidade na forma de execução; há, por outro, afazeres que dispensam tal
relação umbilical.

Não surpreende, então, a constatação de que no dia a dia da Administração


Pública surja, igualmente, necessidade de execução de atividades privativas de
advogados que possam denotar, ou não, a marca da singularidade. Se estiver diante
deste segundo caso, no qual não se fala em necessidade de notória especialização, e o
Administrador houver por bem executá-lo por meio da contratação de terceiros, há
plena incidência do dever de licitar consubstanciado no artigo 37, inciso XXI, da
Constituição Federal.

19
Art. 38. Na hipótese da adoção de cláusula quota litis, os honorários devem ser necessariamente
representados por pecúnia e, quando acrescidos dos de honorários da sucumbência, não podem ser
superiores às vantagens advindas em favor do constituinte ou do cliente.
20
Art. 49. O pacto de quota litis, assim entendido o que proporcione ao advogado honorários acrescidos
em função do êxito obtido na causa, somente será admissível se os referidos ganhos corresponderem a
valores pecuniários.
28
Em verdade, os casos de contratação de advogados e escritórios de advocacia
pelo Poder Público mediante realização de prévia licitação são a regra, não exceção.
Mesmo o Conselho Federal da OAB, ao editar a SÚMULA N.º 04/2012/COP 21, fez
expressa ressalva à questão da exigência de singularidade do objeto e notória
especialização, diferenciando os tipos de serviços prestados por advogados:

“ADVOGADO. CONTRATAÇÃO. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA.


INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO. Atendidos os requisitos do inciso II do
art. 25 da Lei nº 8.666/93, é inexigível procedimento licitatório para
contratação de serviços advocatícios pela Administração Pública, dada a
singularidade da atividade, a notória especialização e a inviabilização
objetiva de competição, sendo inaplicável à espécie o disposto no art. 89 (in
totum) do referido diploma legal.”

Para melhor exemplificar as conclusões a que chegamos, ratificando a


pertinência da realidade dos serviços jurídicos no território nacional para a melhor
análise da temática da contratação de advogados e escritórios de advocacia pelo poder
público, é interessante nos debruçarmos, ainda que rapidamente, sobre um caso prático
atual.

O Banco do Brasil S.A., sociedade de economia mista, integrante da


Administração Indireta da União, deflagrou a maior licitação para a contratação de
serviços jurídicos dos últimos tempos. Por meio do Edital N.º 2013/16655(7421) 22, o
Banco pretende transferir a escritórios de advocacia o patrocínio de, aproximadamente
230.000 (duzentos e trinta mil) processos comuns, espalhados por todo o território
nacional, ao custo anual de estimados R$ 193.000.000,00 (cento e noventa e três
milhões de reais).

21
Súmula originada do julgamento da Proposição n. 49.0000.2012.003933-6/COP, editada na Sessão
Ordinária realizada no dia 17 de setembro de 2012 e publicada no Diário Oficial da União em
23.10.2012.
22
Disponível em <http://www.bb.com.br/docs/pub/siteEsp/dilog/dwn/edCred13.16655.pdf>, acesso
em 15.09.2015.
29
O mencionado edital prevê, em seus anexos, critérios bastante específicos e
objetivos acerca da qualificação técnica das sociedades de advogados, bem como os
requisitos de pontuação para fins de colocação 23 (atuação em ações similares, número
de advogados, etc.). Prevê, ainda, remuneração fixa, por ato praticado, e variável, com
base em índices apurados em função da efetividade dos serviços prestados 24.

A existência de licitação tão expressiva apenas reforça o quadro fático


anteriormente delineado: há, dentre o amplo rol de serviços acometidos privativamente
a advogados, alguns que pressupõem prestação individualizada, cuidadosa, que denota
singularidade de objeto, e outros, não menos relevantes, mas que dependem de
execução menos artesanal. Para estes casos, não é razoável que se afaste a regra geral da
Lei de Licitações.

Em termos mais simples – e retomando os questionamentos inicialmente


propostos – não nos parece que a atividade da advocacia, em que pese sua honrosa e
destacável posição e prestígio, tenha contornos tão únicos que revele, em todo e
qualquer caso, marca de singularidade a ponto de, por sua própria natureza, afastar a
viabilidade de competição entre os escritórios e profissionais que a exercem.
Consequência natural desta afirmação é a licitude de realização de certames, pela
Administração Pública, para a contração de serviços jurídicos simples, que não denotem
singularidade 25.

Estabelecidas estas bases e reconhecido que a contratação precedida de


licitação é a regra, mesmo no caso dos serviços técnicos especializados descritos no
artigo 13, incisos III e V (respectivamente: pareceres e patrocínio ou defesa de causas
judiciais ou administrativas), passamos então, no capítulo seguinte, à análise da
exceção: a contratação de advogados ou escritórios de advocacia dotados de notória
especialização, para a execução de serviços de natureza singular.

23
Edital N.º 2013/16655(7421), anexo VI, Item 8.
24
Edital N.º 2013/16655(7421), anexo II.
25
MARÇAL JUSTEN FILHO, traduzindo o entendimento majoritário, pontua: “Havendo a necessidade de
contratação de advogado autônomo, cabe verificar se a licitação será obrigatória ou se caberá promover
a contratação direta por inviabilidade de competição. Por força do inc. II do art. 25, a contratação direta
somente é admitida quando se configurar a existência de um serviço advocatício de natureza singular.
Se o objeto da contratação não apresentar natureza singular, será obrigatório o procedimento
licitatório.” (em: Comentários à Lei de Licitações e Contratos Administrativos, São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2014, p. 506)
30
IV. CONTRATAÇÃO DIRETA DE ADVOGADOS OU ESCRITÓRIOS DE
ADVOCACIA

13. Premissas necessárias

Constatamos, de um lado, a possibilidade de contratação de serviços jurídicos


mediante realização de procedimento licitatório e, de outro, hipóteses nas quais é
igualmente possível a contratação direta de advogados e escritórios de advocacia, de
modo a não restarem dúvidas de que, em alguma medida, pode se valer a Administração
Pública de profissionais do ramo da advocacia para o exercício de atividades e afazeres
demandados.

Mas se é assim, como podemos explicar, especialmente no que toca às


contratações diretas, efetuadas sem prévia licitação, o expressivo número de ações
judiciais, geralmente intentadas pelo Ministério Público, questionando tais contratos
firmados entre o Poder Público e prestadores autônomos?

A resposta, crê-se, está na inexistência de um parâmetro único apto a definir,


para todo caso concreto, o preenchimento ou não dos elementos objetivo e subjetivo que
circundam a temática da contratação direta de serviços técnicos especializados:
singularidade do objeto e notória especialização do prestador.

Tal percepção não é em vão; decorre, antes, da própria disciplina legal que
institui a constatação de inviabilidade de competição como credencial de acesso inicial à
hipótese de contratação direta por inexigibilidade de licitação. Ora, o conceito de
inviabilidade de competição não é uma abstração legal, mas sim uma transposição de
uma apuração fática, decorrente da realidade do mercado, para dentro da sistemática
normativa proposta pela Lei de Licitações e Contratos Administrativos.

Sendo nossa realidade pródiga em exemplos nos quais os fatos apontam para
efetiva inviabilidade de competição, quaisquer sejam os motivos invocados, a
constatação de inexigibilidade de licitação seria, para cada um destes casos,
consequência lógica do raciocínio. Isso porque, conforme bem ensina Marçal Justen

31
Filho, podemos entender a inviabilidade de competição como gênero que comporta
diversas modalidades 26.

14. De volta à Lei

As proposições anteriores significam tanto que a inviabilidade de competição é


pressuposto à contratação direta serviços jurídicos, quanto que é impossível o
estabelecimento de rol taxativo de casos nos quais tal circunstância fática está presente.
A consequência desta conclusão é a necessária imersão no texto legal para tentarmos
compreender, a partir dos elementos fornecidos pelo legislador, qual seria o núcleo
semântico da autorização legal à contratação direta fundada em inexigibilidade de
licitação por reconhecimento de inviabilidade de competição.

Para elidir quaisquer dúvidas, retomemos o raciocínio normativo:

i) a Lei de Licitações e Contratos Administrativos prevê a


possibilidade da Administração Pública se valer de prestadores
de serviços para execução de atividades inerentes à gestão da res
publica;

ii) o artigo 13 prevê um rol de serviços técnicos profissionais


considerados especializados;

iii) se, além de especializado, determinado serviço técnico


(constante do rol do artigo 13) possuir natureza singular, a ser
realizado somente por quem detenha notória especialização, a
ponto de inviabilizar a competição, a contratação se dará por via
direta, sem necessidade de realização de prévia licitação.

Importante notar, aqui, que os requisitos são cumulativos. Não basta que o
serviço técnico seja apenas especializado, é necessária também a marca da singularidade
e execução por profissional detentor de notória especialização 27.

26
JUSTEN FILHO, Marçal. Comentários à Lei de Licitações e Contratos Administrativos, São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2014, item 1.2 dos Comentários ao artigo 25, p. 483)
32
Ao tratar da temática da inexigibilidade de licitação, principalmente nos casos
encobertos pelo inciso II do artigo 25, a doutrina administrativista 28 29
tradicionalmente
divide a análise entre os aspectos objetivo e subjetivo: o primeiro suportaria a
averiguação de singularidade, enquanto o segundo se prestaria a aferir a notória
especialização.

Crê-se, no entanto, que a divisão tradicional tenha se tornado, ao longo dos


anos, insuficiente para traduzir a real complexidade por detrás da matéria. Propomos,
para análise dos requisitos legais, ainda que se assuma possível divisão didática entre
objeto singular e notória especialização, a superação da antiga dicotomia entre aspectos
objetivo e subjetivo.

15. Objeto singular

Tradicionalmente, a doutrina define como singular aquela prestação que


pressuponha interferência, como requisito de satisfatório atendimento da necessidade
administrativa, um componente criativo de seu autor, envolvendo o estilo, o traço, a
engenhosidade, a especial habilidade, a contribuição intelectual, artística, ou a argúcia
de que o executa 30.

Alguns autores sofisticam ainda mais a definição ao condicionarem sua


compreensão ao atendimento concomitante do requisito da notória especialização do

27
Sobre o tema, MARIA SYLVIA ZANELLA DI PIETRO, para quem: “A contratação de serviços técnicos
números no artigo 13, de natureza singular, com profissionais ou empresas de notória especialização
(...); não é para qualquer tipo de contrato que se aplica essa modalidade: é apenas para os contratos de
prestação de serviços, desde que observados os três requisitos, ou seja, o de tratar-se de um daqueles
enumerados no artigo 13, o de ser de natureza singular, e o de ser contratado com profissional
notoriamente especializado.” (...)
“Quanto à menção, no dispositivo, à natureza singular do serviço, é evidente que a lei quis acrescentar
um requisito, para deixar claro que não basta tratar-se de um dos serviços previstos no artigo 13; é
necessário que a complexidade, a relevância, os interesses públicos em jogo tornem o serviço singular,
de modo a exigir a contratação com profissional notoriamente especializado.” (grifos no original) (em:
Direito Administrativo, São Paulo: Atlas, 2014, p. 408/409).
28
BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo, São Paulo: Malheiros, 2014, p.
564/565.
29
MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. São Paulo: Malheiros, 2013, p. 311/312.
30
BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo, São Paulo: Malheiros, 2014, p.
564.
33
prestador. É como bem pontua, uma vez mais, o Professor Floriano de Azevedo
Marques 31:

“Durante muito tempo a doutrina (me incluo) propugnou pela


separação do juízo de inexigibilidade em dois momentos: um primeiro
que constata a singularidade do objeto (suas características
intrínsecas afastadoras do dever de licitar) e um segundo,
subseqüente, no qual, já afastada a licitação, exigia-se que o futuro
contratado fosse detentor de especialidade e notoriedade. Creio ser
necessário rever este entendimento. Na verdade as duas dimensões
(objetiva e subjetiva) são faces da mesma moeda. O que determina a
inviabilidade de competição é o fato de que o objeto é de natureza
singular exatamente porque ele há de ser executado por um
profissional que, nos termos da lei, detenha um “conceito no campo
de sua especialidade, decorrente de desempenho anterior, estudos,
experiências, publicações, organização, aparelhamento, equipe
técnica, ou de outros requisitos relacionados com suas atividades,
permita inferir que o seu trabalho é essencial e indiscutivelmente o
mais adequado à plena satisfação do objeto do contrato.”. Vale dizer,
então, que o objeto é singular porque ele demanda a execução por
notório especialista, e ele demanda este profissional exatamente
porque é singular.”

No mesmo sentido, Eros Roberto Grau 32:

“Serviços singulares, assim, são aqueles que apresentam, a


conformá-los, características, de qualidade, próprias de seu

31
MARQUES, Floriano de Azevedo. A singularidade da advocacia e as ameaças às prerrogativas
profissionais. Artigo publicado na data 13/03/2008 no sítio eletrônico da Sociedade Brasileira de Direito
Público – SBDP. Disponível em: http://www.sbdp.org.br/artigos_ver.php?idConteudo=69, acesso em
15.09.2015
32
GRAU, Eros Roberto. Inexigibilidade de licitação: serviços técnico-profissionais especializados -
notória especialização, Revista de Direito Público, v. 25, n. 99, p. 72, jul./set. 1991
34
prestador. Singulares são porque apenas podem ser prestados, de
certa maneira e com determinado grau de confiabilidade, por um
determinado profissional ou empresa. Por isso mesmo é que a
singularidade do serviço está contida no bojo da notória
especialização.

As lições trazidas permitem que expandamos, para além do que propõe a


doutrina tradicional, a própria concepção de objeto singular. Notadamente, dado objeto
só é visto como singular pois, em determinado contexto, é possível destacá-lo daqueles
outros ditos comuns.

Dito de outro modo, a singularidade não é um valor em si, metafísico, que


perdura no tempo e espaço; ela é, antes, uma construção que apenas faz sentido no
espaço social no qual foi concebida.

Que se tome, o clássico exemplo das aulas de direito administrativo: um


projeto arquitetônico executado por Oscar Niemeyer. Não parece haver qualquer
sombra de dúvidas, por mais remota que seja, de que estamos diante de um objeto
singular, a ser executado por profissional detentor da mais notória reputação.

Se, no entanto, pudéssemos, ainda que suposição, tirar o projeto que


encomendamos ao grande arquiteto e inseri-lo em uma sociedade e tempo diversos da
nossa, em que nos valores estéticos modernos não façam sentido, ainda assim
estaremos, sob este novo ponto de vista, diante de um objeto singular? A resposta
parece negativa.

O exemplo forçado, por mais teratológico que seja, nos abre as portas para um
interessante raciocínio: se reconhecemos que um objeto dito singular pode perder tal
marca de singularidade se for retirado no contexto no qual está inserido, então a via
inversa não parece proibida: se estivermos diante de um objeto, uma prestação comum,
não singular para aquele contexto no qual está inserta, e eventualmente o imaginarmos
em outra realidade, talvez este adquira, em seu novo habitat, aspecto singular.

35
Isso significa, em outros termos, que julgamentos apriorísticos acerca da
singularidade ou não de determinado objeto são, geralmente, perigosos, especialmente
se considerado que, em matéria de compras públicas, está-se sempre sujeito a intensa
produção normativa que, eventualmente, pode não captar contextos fáticos distintos.

Trazendo um pouco de concreção à lógica proposta, se a contratação de


serviços jurídicos singulares pressupõe o descolamento entre o interesse estatal a ser
atendido e o padrão de normalidade comumente verificado, então não é irrelevante
mensuração do que é, em cada caso concreto, este padrão. Só a partir daí teremos reais
condições de saber se, para determinado gestor público, se uma prestação é comum ou
singular.

Em termos mais simples, se existem prestações tão complexas e alheias ao dia-


a-dia do cidadão (ou profissional do direito) médio a ponto de serem quase que
universalmente singulares, há também, por outro lado, objetos que são igualmente
singulares justamente por estarem insertos em uma realidade diversa, com contornos e
caracteres próprios. A compreensão dessa diferenciação, ainda que atividade
pretensamente simples, parece crucial para que se enxergue o sistema de compras
públicas – não só o caso específico contratação direta de advogados – sob um viés mais
democrático.

16. Notória especialização

Uma vez reconhecido que determinada prestação é, em um contexto específico,


singular, resta ainda a definição de quem será seu executor. Aliás, importante pontuar
que a inexigibilidade de licitar não decorre da notória especialização, vez que este
caractere constitui critério de seleção do profissional que se pretenda contratar.

É bem verdade que alguns objetos singulares estão intrinsicamente ligados a


seus respectivos prestadores, como exemplo anterior do projeto arquitetônico elaborado
pelo Niemeyer, mas estes casos são bem mais raros. Geralmente, ainda que se esteja
diante de um objeto singular, haverá mais de um prestador apto a realizá-lo a contento
da Administração. Tal coexistência, no entanto, não significa viabilidade de competição.

36
Isso porque, se deseja a Administração, dentro do permissivo legal, se valer dos
préstimos de profissionais já consagrados em sua área de atuação, detentores de notória
especialização, então nada mais justo que esta se portar como outro cliente qualquer e
não esperar qualquer tipo de privilégios anacrônicos. Nesse sentido, bem esclarece
Marçal Justen Filho 33:

“Por outro lado, os profissionais de grande êxito e qualificação


superior não colocam seus serviços no mercado. Não se dispõem a
competir num certame aberto, mesmo pelos efeitos derivados de uma
eventual derrota. Serviços assim especializados conduzem a uma
situação de privilégio para o prestador, que assume posição de
aguardar a procura por sua contratação antes do que de participar
em processos coletivos de disputa por um contrato.”

E, importa mencionar, não há mal algum em se admitir que a Administração


queira se utilizar de determinados e notórios profissionais para a execução de alguma
atividade, desde que haja relação de congruência e razoabilidade entre os meios
utilizados e os fins perseguidos. Neste contexto surge a ressalva trazida pelo § 1º do
Artigo 25 da Lei de Licitações 34. Sobre o tema, uma vez mais Marçal Justen Filho:

“O § 1º refere-se à necessidade de que a atuação do particular seja


considerada como indiscutivelmente a mais adequada à plena
satisfação do objeto do contrato. Essa fórmula verbal é algo
exagerada e tem de ser interpretada em termos, permeada pelo
princípio da razoabilidade.

33
JUSTEN FILHO, Marçal. Comentários à Lei de Licitações e Contratos Administrativos, São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2014, item 7.4 dos Comentários ao artigo 25, p. 500)
34
Art. 25 (...);
§ 1º Considera-se de notória especialização o profissional ou empresa cujo conceito no campo de sua
especialidade, decorrente de desempenho anterior, estudos, experiências, publicações, organização,
aparelhamento, equipe técnica, ou de outros requisitos relacionados com suas atividades, permita
inferir que seu trabalho é essencial e indiscutivelmente o mais adequado à plena satisfação do objeto do
contrato.
37
“Em primeiro lugar, é impossível formular um juízo de tamanha
certeza e convicção. Na maior parte dos casos, a Administração terá
diante de si diversos profissionais em situação equivalente. Serão
pessoas de elevada qualificação, todas merecedoras de confiança
acerca de suas condições de execução satisfatória do contrato. A
Administração escolherá uma delas, tendo em vista algum fator.
Nunca será possível afirmar que a contratação do sujeito “A”
representa escolha indiscutivelmente mais adequada do que a do
sujeito “B”. Aliás, se a Administração escolhesse “B” ficaria na
mesma dúvida. Portanto deve interpretar-se a Lei no sentido de que a
Administração não pode contratar alguém se essa opção não se
revelar adequada e satisfatória. Será válida contratação direta
quando não puder afirmar que outra escolha teria seria mais
adequada. Existir outra alternativa tão adequada quanto àquela
adotada pela Administração não é fator que afaste a validade da
escolha. “

É precisamente aqui que aparece o elemento que, em relação às discussões


envolvendo contratações de advogados e escritórios de advocacia, tem se mostrado
tanto em voga: a questão da confiança.

17. A questão da confiança

Afastando-nos de um posicionamento extremado, seja no que tange (i) à


necessidade do elemento objetivo na caracterização da singularidade (não parece
razoável sustentar-se a existência de um serviço que, sendo técnico, isto é, sendo
passível de execução a partir da conjugação de procedimentos catalogados pelo
conhecimento científico, seja também absolutamente inédito, único, sob pena de uma
contradição em termos), seja quanto (ii) ao elemento subjetivo (não há serviço
intelectual que não comporte, no seu modo de execução e na adoção de soluções para o
enfrentamento de um dado problema, uma modulação pelo sujeito que o realiza,
tornando-o, no limite, único), não nos parece impossível a conciliação de ambos os

38
aspectos da questão na delimitação da natureza singular de um dado serviço. É como
defende Rubens Naves 35:

“Em suma, a singularidade corporifica-se tendo em vista a


viabilidade de o serviço, prestado por determinado profissional,
satisfazer as peculiaridades do interesse público, envolvido no
caso particular. Deve-se verificar se esse interesse público é
peculiar, tendo em vista o valor econômico ou o bem jurídico
em questão, ou se a tutela revela-se complexa, demandando
serviços especializados. A especialidade do interesse público
justifica a seleção com base em uma avaliação complexa,
abrangendo critérios de natureza subjetiva. A Administração
deverá apurar quais são os profissionais mais habilitados a
atendê-la e, entre esses, optar por aquele cuja aptidão (para
obter a melhor solução possível) mais lhe inspire confiança.”

De modo não diverso, Eros Roberto Grau 36 pontua:

“(...) Impõem-se à Administração - isto é, ao agente público


destinatário dessa atribuição - o dever de inferir qual o
profissional ou empresa cujo trabalho é, essencial e
indiscutivelmente, o mais adequado àquele objeto. Note-se que
embora o texto normativo use o tempo verbal presente (‘é,
essencial e indiscutivelmente, o mais adequado à plena
satisfação do objeto do contrato’), aqui há prognóstico, que não
se funda senão no requisito da confiança. Há intensa margem
de discricionariedade aqui, ainda que o agente público, no

35
NAVES, Rubens. Advocacia em Defesa do Estado, São Paulo: Método, 2008, págs. 177/180.
36
GRAU, Eros Roberto. Licitação e Contrato Administrativo - Estudos sobre a Interpretação da Lei, São
Paulo: Malheiros, 1995, pág. 77.
39
cumprimento daquele dever de inferir, deva considerar
atributos de notória especialização do contratado ou
contratada.”

Chegamos, então, ao núcleo do fundamento subjetivo contido no § 1º do artigo


25 da Lei N.º 8.666/93, presentemente recepcionado pelo Supremo Tribunal Federal,
por meio do qual se autoriza a Administração a proceder à contratação direta de serviços
técnicos especializados prestados por advogados e escritórios de advocacia detentores
de notória especialização, qual seja, a impossibilidade de afastar-se o elemento de
confiança para a formulação da sustentação jurídica das concretas decisões por meio das
quais a Administração programa e implementa dada política pública.

Dito de outro modo: se cabe ao Administrador Público decidir, entre


alternativas oferecidas pelo ordenamento jurídico, a concreta manifestação do interesse
público a ser perseguido mediante a execução de uma específica política, então, não
haveria razão de se vedar a assessoria e consultoria jurídica acolhida sob o signo da
confiança.

40
V. A POSIÇÃO DOS TRIBUNAIS

18. Elementos iniciais e metodologia de pesquisa

Por todo o curso do presente trabalho, até este momento, não invocamos,
intencionalmente, decisões do Poder Judiciário brasileiro que versam a questão da
inexigibilidade de licitação para contratação de serviços jurídicos pela Administração
Pública. Isso porque acreditamos, em parte devido à grande litigiosidade que envolve o
tema, que a análise da casuística judicial merece capítulo próprio.

Importante ressaltar, no entanto, que as opiniões e raciocínios expostos até


então, ainda que cronologicamente anteriores à apresentação do resultado da pesquisa
de jurisprudência, guardam estrita pertinência com as conclusões extraídas das
comparações entre as diversas decisões analisadas.

Adiantamos, sem maiores delongas, que não há, em todo território nacional,
qualquer consenso jurisprudencial identificável. A única constante identificada é a
importância dada pelos magistrados à análise, caso a caso e sem qualquer rigidez de
critérios, da existência, ou não, na contratação analisada, mas marcas de singularidade
do objeto e notória especialização do prestador.

A pesquisa de julgados foi realizada nos Tribunais de Justiça de todos os


Estados da federação, além do Distrito Federal. Buscamos ainda decisões existentes no
Superior Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal. Em todos os casos, salvo
quando o mecanismo de busca impusesse alguma restrição, seguimos o mesmo padrão
de busca, consistente em permutar, em grupos de 4, as seguintes chaves (sempre ligados
pelo conectivo “E”):

escritório / advocacia escritório / advocacia


escritório / jurídico escritório / jurídico
inexigibilidade / escritório / advogados escritório / advogados
contratação / direta
licitação serviços / advocatícios serviços / advocatícios
serviços / jurídicos serviços / jurídicos
sociedade / advogados sociedade / advogados

41
Com isso, cremos ter conseguido atingir, de modo bastante satisfatório, os
objetivos de pesquisa propostos, possibilitando o contato com generoso espaço amostral
de julgados. Ao todo, foram compilados, dentre Justiças estaduais, STJ e STF, mais de
120 julgados envolvendo matéria trada no presente trabalho.

Importante a ressalva: foram objeto de busca apenas os processos nos quais já


há decisão, ao menos, de Segunda Instância. Isso porque os sistemas de unificação de
jurisprudência em todo o país geralmente não incluem as decisões de Primeira Instância,
ainda que estas tenham transitado em julgado. Igualmente, não há mecanismos de busca
hábeis a identificar, por matéria, os processos ainda em trâmite; assim, estes não
puderam entrar em nossa pesquisa.

19. Tribunais de Justiça Estaduais

De todo modo, a ampla busca realizada por meio dos portais eletrônicos nos
Tribunais de Justiça estaduais e do Distrito Federal possibilitou a constatação fática de
que a problemática da contratação direta de advogados e escritórios de advocacia pelo
poder público é tema de grande litigiosidade.

Apesar disso, nos surpreendeu a circunstância de que em quatro estados (Acre,


Amapá, Amazonas e Roraima) não foi encontrado nenhum julgado que guardasse
pertinência com o tema.

Por outro lado, impressiona o número de resultados encontrados no Sudeste,


especialmente em Minas Gerais e São Paulo. A constatação, entretanto, não é por acaso:
as contratações contestadas são, quase que em regra, realizadas por Prefeituras ou
Câmaras de Vereadores e justamente estes dois estados detém o maior número de
municípios em seu território, respectivamente 856 e 645 entes 37. Nestes casos, o número
de ocorrências foi tão expressivo – foram identificados mais de 200 julgados em cada
um -, que tivemos de selecionar, para viabilizar o estudo, 10 casos de cada estado.

37
Dados extraídos do estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE:
“Evolução político-administrativa, segundo as Grandes Regiões e as Unidades da Federação –
1940/2010 Anuário Estatístico do Brasil”, 2012, p. 22, disponível em <
http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/20/aeb_2012.pdf>, acesso em 29.09.2015.
42
A lista completa dos Acórdãos, com o detalhamento do órgão julgador, partes
envolvidas e ementa, pode ser vista no “Anexo I – Lista de Julgados Analisados –
Tribunais Estaduais”, peça integrante do presente trabalho. Sem prejuízo,
disponibilizaremos, em nuvem digital, a íntegra de todos os julgados utilizados no
presente trabalho, sistematizados entre (i) Tribunais de Justiça Estaduais, Superior
Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal 38.

Da análise dos casos estudados, ainda que, conforme adiantado, não se possa
concluir pela existência de tratamento unificado, foi possível extrair-se algumas
conclusões, que destacamos a seguir:

i) As ações mais antigas, impulsionadas a partir da promulgação


da Lei Federal de Improbidade Administrativa – N.º 8.429, de
2.06.1992, tiveram como visada a condenação dos gestores
públicos que contrataram serviços jurídicos sem prévia
realização de licitação. Apenas posteriormente se passou a
incluir os advogados e escritórios contratados no polo passivo
das Ações Populares e Ações Civis Públicas;

ii) As ações questionam, via de regra, contratações realizadas


por Municípios. Tal situação parece decorrer da circunstância de
não haver obrigatoriedade geral de existência de Procuradoria
Municipal (tal qual há para União 39 e Estados 40), e mesmo
quando há, estas não são dotadas de estrutura para atender todas

38
Endereço para acesso aos Julgados utilizados por meio do sistema Dropbox:
<https://www.dropbox.com/sh/g3wh4t7povdosc6/AADLpnoYizwDxz3fWmI6jKRHa?dl=0>
39
Constituição Federal da Republica Federativa do Brasil, 1988 - Art. 131: A Advocacia-Geral da União é
a instituição que, diretamente ou através de órgão vinculado, representa a União, judicial e
extrajudicialmente, cabendo-lhe, nos termos da lei complementar que dispuser sobre sua organização e
funcionamento, as atividades de consultoria e assessoramento jurídico do Poder Executivo.
§ 1º A Advocacia-Geral da União tem por chefe o Advogado-Geral da União, de livre nomeação pelo
Presidente da República dentre cidadãos maiores de trinta e cinco anos, de notável saber jurídico e
reputação ilibada.
§ 2º O ingresso nas classes iniciais das carreiras da instituição de que trata este artigo far-se-á mediante
concurso público de provas e títulos.
§ 3º Na execução da dívida ativa de natureza tributária, a representação da União cabe à Procuradoria-
Geral da Fazenda Nacional, observado o disposto em lei.
40
Constituição Federal da Republica Federativa do Brasil, 1988 - Art. 132. Os Procuradores dos Estados e
do Distrito Federal, organizados em carreira, na qual o ingresso dependerá de concurso público de
provas e títulos, com a participação da Ordem dos Advogados do Brasil em todas as suas fases,
exercerão a representação judicial e a consultoria jurídica das respectivas unidades federadas.
43
as demandas que surgem (em verdade, a existência de órgãos
nesses moldes é privilégio de poucas cidades), o que leva à
contratação de advogados e escritórios autônomos;

iii) As ações costumavam ser posteriores à execução dos


contratos. Entretanto, nos casos mais atuais, nota-se a
multiplicação de medidas cautelares e pedidos de antecipação de
tutela para a suspensão de contratos e pagamentos;

iv) As decisões, ainda que geralmente centralizem a discussão


da inexigibilidade na verificação do preenchimento dos
requisitos de objeto singular e notória especialização do
prestador, não o fazem de forma uniforme. São expressivas
discrepâncias de análise encontradas entre dois tribunais e, mais
grave, entre diferentes órgãos de um mesmo tribunal 41;

v) Ainda em relação à análise do preenchimento dos requisitos


legais, alguns julgados vêm trilhando um caminho de vanguarda
ao disporem, como defendido anteriormente, que mesmo a
questão da singularidade do objeto é um aspecto subjetivo, a
depender da realidade concreta no qual está inserto determinado
gestor público. O esbarramento em limites fáticos à atuação
Administrativa pode ensejar o reconhecimento de objeto
singular em situações que, se imaginadas fora de contexto, seria
impensável 42.

41
Que se tome como exemplo o caso da contratação de profissionais para atuar perante os Tribunais de
Contas, julgado em diversas oportunidades pelo E. Tribunal de Justiça de São Paulo: enquanto alguns
julgadores entendem que tal atuação é objeto singular (Agravo de Instrumento N.º 2112951-
15.2014.8.26.0000, 3ª Câmara de Direito Público), a ser desempenhado por advogado detentor de
notória especialização contratado diretamente, outros entendem ser serviço comum, que não enseja
inexigibilidade de licitação (Agravo de Instrumento N.º 2170133-56.2014.8.26.0000, 6ª Câmara de
Direito Público).
42
Nesse sentido, merece destaque o julgamento proferido pelo E. Tribunal de Justiça do Mato Grosso
que, ao se debruçar sobre a realidade vivida pelo Município de Tangará da Serra, concluiu, vencido o
voto do Desembargador Relator, que: “A contratação de escritório advocatício com inexigibilidade de
licitação para a promoção de defesa do município em feitos perante o judiciário - diante da aproximação
da prescrição dos créditos tributários - não constitui ato de improbidade administrativa, especialmente
44
20. Superior Tribunal de Justiça

Durante a pesquisa por julgados no Superior Tribunal de Justiça, buscamos nos


organizar de forma cronológica para tentar averiguar se haveria alguma evolução linear
em relação ao tratamento dado à matéria. Após estabelecimento dessa linha do tempo,
que foi mantida na apresentação dos julgados no “Anexo II – Lista de Julgados
Analisados – Superior Tribunal de Justiça”, não é possível se identificar um padrão
decisório.

Alguns elementos, contudo, não passam despercebidos. É possível notar que


inicialmente, quando os primeiros casos chegaram ao STF, os Ministros se utilizavam
do argumento de que não se podia analisar, em cada caso concreto, os elementos
relativos à singularidade do objeto e notória especialização, em decorrência da vedação
à nova apreciação de matéria fático-probatória, obstada pela Súmula 7 43.

Aos poucos os Ministros passaram a, ainda que de maneira comedida, traçar


considerações acerca do mérito envolvido nos casos que versavam contratações diretas
de advogados pelo Poder Público. Nesse sentido, houve grande evolução no Recurso
Especial Nº 1.192.332 – RS 44, em que o Min. Relator, Napoleão Nunes Maia Filho,
parecia inaugurar um novo capítulo em relação ao entendimento restrito até então dado
pelo STJ.

Isso porque, em consonância com corrente frequentemente ventilada no


Supremo Tribunal Federal, a questão da confiança foi utilizada como argumentação
válida para justificação dos caracteres especiais atribuídos aos serviços advocatícios.

Entretanto, a posição defendida não se irradiou a ponto de nortear uma


alteração de paradigma. A leitura das decisões mais recentes nos revela um tratamento
bastante restritivo às hipóteses nas quais o STJ viria a corroborar eventual contratação
fundada em inexigibilidade.

se a estrutura jurídica da municipalidade é reduzida e sabidamente incapaz de dar vazão à tarefa.”


(Autos da Apelação N.º 0101887-69.2008.8.11.0000, 1ª Câmara Cível).
43
A Pretensão de Simples Reexame De Prova Não Enseja Recurso Especial, publicada no Diário de Justiça
em 03.07.1990, Pg. 06478.
44
Ver Anexo II – Lista de Julgados Analisados – Superior Tribunal de Justiça, item 9.
45
Em termos gerais, e sem pretensão de propor qualquer espécie de jurimetria no
que tange aos julgados encontrados no Superior Tribunal de Justiça, não nos parece
seguro afirmar que haja prevalência, em todo o tribunal ou mesmo dentro das turmas, de
uma única tese que tenha o condão de unificar as futuras decisões.

21. Supremo Tribunal Federal

Considerando apenas as decisões colegiadas, o Supremo Tribunal Federal já foi


instado a se manifestar em seis oportunidades, ainda que de forma acessória, acerca da
questão das contratações diretas de advogados e escritórios de advocacia pela
Administração Pública. É como se pode observar, também em ordem cronológica,
Anexo III – Lista de Julgados Analisados – Supremo Tribunal Federal, que
complemente o presente trabalho.

Talvez por sempre estarem sobre a mesa valores muito caros ao ordenamento
nacional, consagrados na Carta Constitucional, em quase todas estas oportunidades, a
questão da singularidade do objeto e da notória especialização foi recebida pelos
Ministros com muito mais abrangência.

Assim, ainda que não venhamos a realizar, no presente momento, análise


minuciosa dos fundamentos invocados em cada um dos seis casos já decididos, não é
difícil identificar que a questão da confiança, apresentada anteriormente, representa fio
condutor dos raciocínios exibidos 45.

Importa considerar, neste momento, que acerca do tema da possibilidade de


contratação direta, foi reconhecida, em julgamento de relatoria do Ministro Dias

45
Nesse sentido, que se veja as posições defendidas pelos Ministros Eros Grau (AÇÃO PENAL 348-5
SANTA CATARINA, item 3 do anexo III), para quem “Dai que a realização de procedimento licitatório
para a contratação de tais serviços - procedimento regido, entre outros, pelo principio do julgamento
objetivo - é incompatível com a atribuição de exercício de subjetividade que o direito positivo confere à
Administração para a escolha do "trabalho essencial e indiscutivelmente mais adequado à plena
satisfação do objeto do contrato" (cf. o § 1° do art. 25 da Lei 8.666/93). O que a norma extraída do texto
legal exige é a notória especialização, associada ao elemento subjetivo confiança”, e Sepúlveda Pertence
(HABEAS CORPUS 86.1.98-9 PARANÁ, anexo III, item 4), para quem “A presença dos requisitos de notória
especialização e confiança, ao lado do relevo do trabalho a ser contratado, que encontram respaldo da
inequívoca prova documental trazida, permite concluir, no caso, pela inexigibilidade da licitação para a
contratação dos serviços de advocacia.”
46
Toffoli 46, a existência de repercussão geral, o que por certo acarreta natural elevação da
discussão. O debate ganhará importante capítulo quando o julgamento do Recurso
Extraordinário N.º 656.558/SP, que, alias, já foi pautado ao Pleno do STF por mais de
uma oportunidade neste ano.

Crê-se, no entanto, que ainda que a decisão a ser construída pelo STF, seja qual
for, ajude a oferecer contornos mais concretos às peculiaridades que envolvem o tema,
não parece seguro dizer que a questão terá um ponto final.

Isso porque, conforme já defendido anteriormente, a inexigibilidade de


licitação decorrente de inviabilidade de competição no mercado é um dado do mundo
do ser, uma constatação extranormativa, que se apresenta das mais variadas formas. Em
outros termos, eventual contexto fático que embase um raciocínio traçado hoje pode não
mais subsistir daqui a algum tempo, alterando, por via direta de consequência, as
conclusões que daí se extraia.

46
Ver AI 791811 RG / SP - SÃO PAULO, Anexo III, item 5.
47
V. CONCLUSÃO

Buscamos, durante todo o curso do presente trabalho, meios para que o tema
proposto fosse compreendido inclusive por quem não vive no mundo jurídico. Agora,
ao final, penso compreender ainda menos do que julgava fazê-lo ao começo.

Isso, no entanto, parece positivo.

A extensa e cansativa busca e leitura dos julgados, em especial nos tribunais


estaduais, revelou a importância da proximidade entre o julgador e a realidade dos fatos,
uma vez que só assim é possível compreender o quão interessante e amplo pode ser
conceito de objeto singular. Constatamos que alguns desembargadores possuem tato
para identificar, nos casos concretos, as sérias dificuldades organizacionais por que
passam inúmeros municípios brasileiros e, com isso, ampliar o escopo do que seria,
naquela precisa situação, uma anormalidade apta a abrir a via da contratação direta por
inexigibilidade de licitação.

Infelizmente, por outro lado, principalmente quando nos debruçamos sobre as


decisões do Superior Tribunal de Justiça, é possível observar o quão prejudicial pode
ser o distanciamento, muitas vezes imposto pela própria sistemática recursal, entre os
fatos (e as provas com eles vindas) e o direito.

Estudar as contratações públicas, principalmente para a prestação de serviços


que guardam relação direta com o dia-a-dia da Administração, como é o caso da
advocacia, significa ter a oportunidade de entender um pouco mais acerca de como
funciona – ou não funciona – o Estado brasileiro.

Um os objetivos inciais do presente trabalho era a realização de análise


completa da tramitação e julgamento do Recurso Extraordinário N.º 656.558/SP, em
curso no Supremo Tribunal Federal. Infelizmente o julgamento foi adiado em três
oportunidades, o que reduziu a relevância do processo em específico para os fins do
trabalho. De todo modo, as análises e conclusões alcançadas oferecem um suporte para
que se olhe de forma mais madura para o julgamento que ocorrerá no Supremo.

A constatação de que os casos de inexigibilidade de licitação fundados em


objeto singular e notória especialização são tão variados quanto são as realidades locais
48
brasileiras parece apontar para a conclusão de que dificilmente haverá uma solução
única para a questão, o que, em última análise, é salutar.

Por fim, interessante observar como a questão da confiança vem ganhando


cada vez mais fôlego. Ainda que decorrente de interpretação de um trecho do artigo 25
da Lei de Licitações sobre o qual os tribunais e a doutrina não costumavam se debruçar,
esta argumentação tem se transformado da principal tese defesa das contratações
acionadas judicialmente. Arriscaríamos, em um ponto final, reforçar o prognóstico
anteriormente trazido de que será esse o fio condutor do entendimento a ser dado pelo
Supremo Tribunal Federal em breve.

49
REFERÊNCIAS

Banco do Brasil. Edital N.º 2013/16655(7421). Disponível em


<http://www.bb.com.br/docs/pub/siteEsp/dilog/dwn/edCred13.16655.pdf>, acesso em
15.09.2015.

BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo. 31ª Ed.


São Paulo: Malheiros, 2014.

BANDEIRA DE MELLO, Oswaldo Aranha. Princípios Gerais do Direito


Administrativo. 3ª Ed, 2ª Tr.. São Paulo: Malheiros, 2010.

CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de Responsabilidade Civil, São Paulo: Atlas,


2014

COLUMELLA, Lucius Junius Moderatus. De Re Rustica. Disponível em:


<http://penelope.uchicago.edu/Thayer/L/Roman/Texts/Isidore/17*.html#5.17>, acesso
em 07.08.2015.

DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo, São Paulo: Atlas, 2014

GRAU, Eros Roberto. Inexigibilidade de licitação: serviços técnico-profissionais


especializados - notória especialização, Revista de Direito Público, v. 25, n. 99, p. 72,
jul./set. 1991

________________. Licitação e Contrato Administrativo - Estudos sobre a


Interpretação da Lei, São Paulo: Malheiros, 1995.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE: Evolução político-


administrativa, segundo as Grandes Regiões e as Unidades da Federação –
1940/2010 Anuário Estatístico do Brasil, 2012. Disponível em
<http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/20/aeb_2012.pdf>, acesso em
29.09.2015.

JUSTEN FILHO, Marçal. Comentários à Lei de Licitações e Contratos


Administrativos. 16ª Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014.

50
_________________. Curso de Direito Administrativo. 10ª Ed. São Paulo: Revista
dos Tribunais, 2014.

MARQUES NETO, Floriano de Azevedo. A singularidade da advocacia e as


ameaças às prerrogativas profissionais. Artigo publicado na data 13/03/2008 no sítio
eletrônico da Sociedade Brasileira de Direito Público – SBDP. Link para o artigo:
http://www.sbdp.org.br/artigos_ver.php?idConteudo=69

MEDAUAR ,Odete. O Direito Administrativo em Evolução. São Paulo: Revista dos


Tribunais, 2003.

___________. Direito Administrativo Moderno. 17ª Ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2013.

MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 39ª Ed. São Paulo:
Malheiros, 2013.

MENEZES DE ALMEIDA, Fernando Dias. Contrato Administrativo. 1ª Ed. São


Paulo: Quartier Latin. 2012

NAVES, Rubens. Advocacia em Defesa do Estado, São Paulo: Método, 2008.

Ordem dos Advogados do Brasil. Súmula originada do julgamento da Proposição n.


49.0000.2012.003933-6/COP, editada na Sessão Ordinária realizada no dia 17 de
setembro de 2012 e publicada no Diário Oficial da União em 23.10.2012.

ROBINSON, James Harvey. An Introduction to the History of Western Europe, 1902.


Disponível em <http://www.gutenberg.org/files/26042/26042-h/26042-h.htm>, acesso
em 07.08.2015.

SUNDFELD, Carlos Ari. Direito Administrativo para Céticos. 1ª Ed. São Paulo:
Malheiros, 2012.

_________________.Pareceres. 1ª Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013.

51
Anexo I – Lista de Julgados Analisados – Tribunais de Justiça
Estaduais

1) Tribunal de Justiça do Acre

i) Nenhum julgado encontrado

2) Tribunal de Justiça de Alagoas

i) Agravo de Instrumento N.º 0005860-34.2012.8.02.0000

(Ação de Responsabilidade Civil por Ato de Improbidade Administrativa de N.º


0000338-22.2010.8.02.0024)

Órgão julgador: 1ª Câmara Cível

Ementa:

DIREITO ADMINISTRATIVO. AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE


RESPONSABILIDADE CIVIL POR ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA.
INSURGÊNCIA DO AGRAVANTE EM FACE DA DECISÃO DE PISO QUE
RECEBEU A DENÚNCIA DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA EM SEU
DESFAVOR. CONTRATAÇÃO DO ESCRITÓRIO JURÍDICO RECORRENTE.
PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS ESPECIALIZADOS DE ADVOCACIA E
CONSULTORIA JURÍDICA DE NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO TÉCNICA.
HIPÓTESE LEGAL QUE AUTORIZA TAL CONTRATAÇÃO SEM A
EXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO. EXEGESE DO ART. 25, INCISO II, C/C ART.
13, INCISO V, AMBOS DA LEI N.º 8.666/93. IMPRESCINDIBILIDADE DE
COMPROVAÇÃO DO ELEMENTO SUBJETIVO DO AGENTE PARA A
CARACTERIZAÇÃO DO ATO DE IMPROBIDADE POR OFENSA A PRINCÍPIOS
DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. DOCUMENTOS CARREADOS AOS AUTOS
QUE COMPROVAM A EFETIVA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS EM FAVOR DO
MUNICÍPIO DE NOVO LINO, NA FORMA PREVISTA NO CONTRATO. DIREITO
DO AGRAVANTE À PERCEPÇÃO DA DEVIDA CONTRAPRESTAÇÃO.
INEXISTÊNCIA DE ENRIQUECIMENTO ILÍCITO. AUSÊNCIA DE ELEMENTOS
SUFICIENTES QUE AUTORIZEM A IMPUTAÇÃO DE ATO DE IMPROBIDADE

52
ADMINISTRATIVA AO RECORRENTE. DECISÃO REFORMADA. RECURSO
CONHECIDO E PROVIDO. DECISÃO UNÂNIME.

3) Tribunal de Justiça do Amapá

i) Nenhum julgado encontrado

4) Tribunal de Justiça do Amazonas

i) Nenhum julgado encontrado

5) Tribunal de Justiça da Bahia

i) 0002790-30.2009.8.05.0000

(Ação Penal)

Órgão julgador: 2ª Câmara Criminal

Ementa:

AÇÃO PENAL ORIGINÁRIA INSTAURADA EM FACE DE PREFEITO


MUNICIPAL. CRIMES LICITATÓRIOS E DE RESPONSABILIDADE. ART. 89 DA
LEI 8666/93 E ART. 1º, II, DO DL 201/67. INEXIGÊNCIA DE LICITAÇÃO FORA
DAS HIPÓTESES LEGAIS. FRACIONAMENTO DE DESPESA PARA BURLAR A
MODALIDADE LICITATÓRIA. PRELIMINAR DE INCOMPETÊNCIA DO
ÓRGÃO FRACIONÁRIO PARA JULGAR O PREFEITO MUNICIPAL. NÃO
ACOLHIMENTO. AUTORIA E MATERIALIDADE DOS DELITOS
DEVIDAMENTE COMPROVADAS. ART. 89 DA LEI 8.666/93. INEXISTÊNCIA
53
DE DEMONSTRAÇÃO DA NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO. CRIME FORMAL.
DESNECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DE PREJUÍZO. DELITO QUE SE
PERFAZ INDEPENDENTEMENTE DE RESULTADO NATURALÍSTICO. DOLO
ESPECÍFICO. DESNECESSIDADE. CONDENAÇÃO. DOSAGEM DA PENA.
CRIME DO ART. 89 DA LEI 8666/93 PRATICADO EM CONTINUIDADE
DELITIVA. AUMENTO DA PENA BASE NO PATAMAR DE 1/4. CRIME DO ART.
1º, II, DO DL 201/67 TAMBÉM PRATICADO EM CONTINUIDADE DELITIVA.
AUMENTO NO PATAMAR DE 2/3. OCORRÊNCIA DA PRESCRIÇÃO
RETROATIVA PELA PENA EM CONCRETO DOS CRIMES DO ART. 1º, II DO DL
201/67. ARTIGO 109, INCISO V, C.C. ARTIGO 110, §§ 1º E 2º, AMBOS DO
CÓDIGO PENAL. DECLARAÇÃO DE EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE, NOS
TERMOS DO ARTIGO 107, INCISO IV, DA NORMA PENAL. SUBSTITUIÇÃO
DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE FIXADA AO CRIME DO ART. 89 DA
LEI 8666/93 POR DUAS RESTRITIVAS DE DIREITOS. INABILITAÇÃO PARA O
EXERCÍCIO DA FUNÇÃO PÚBLICA.

(...)

A contratação embasada na inexigibilidade de licitação por notória especialização (art.


25, II, da Lei de Licitação) requer: formalização de processo para demonstrar a
singularidade do serviço técnico a ser executado; e, ainda, que o trabalho do contratado
seja essencial e indiscutivelmente o mais adequado à plena satisfação do objeto do
contrato.

A notória especialização das empresas contratadas, capaz de afastar a necessidade de


licitação, não ficou demonstrada nos presentes autos, devendo o acusado ser condenado
pelo crime do art. 89 da Lei 8666/93.

6) Tribunal de Justiça do Ceará

i) 0003089-60.2000.8.06.0043

(Execução de Título Extrajudicial)

Órgão julgador: 6ª Câmara Cível

Ementa:

EMENTA: EMBARGOS À EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL CONTRA


A FAZENDA PÚBLICA. PRELIMINAR. INTEMPESTIVIDADE. REJEIÇÃO.
VÍCIO DE REPRESENTAÇÃO. INOCORRÊNCIA. CONTRATO DE PRESTAÇÃO
DE SERVIÇOS SEM ATENDER O DISPOSTO NA LEI 8.666/93. CONTRATO
NULO. SENTENÇA MANTIDA.RETROATIVA PELA PENA EM CONCRETO DOS

54
CRIMES DO ART. 1º, II DO DL 201/67. ARTIGO 109, INCISO V, C.C. ARTIGO
110, §§ 1º E 2º, AMBOS DO CÓDIGO PENAL. DECLARAÇÃO DE EXTINÇÃO DA
PUNIBILIDADE, NOS TERMOS DO ARTIGO 107, INCISO IV, DA NORMA
PENAL. SUBSTITUIÇÃO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE FIXADA AO
CRIME DO ART. 89 DA LEI 8666/93 POR DUAS RESTRITIVAS DE DIREITOS.
INABILITAÇÃO PARA O EXERCÍCIO DA FUNÇÃO PÚBLICA.

(...)

3. O contrato anexado à exordial da execução às fls. 04, 04, verso, não expressa que
decorreu de processo de inexigibilidade. É sabido que a contratação de advogado sem
licitação somente se justifica quando em razão da alta complexidade do serviço a ser
executado impõe-se a escolha de profissional de alto nível e de notória especialização.
Não preenche os requisitos definidos na Lei n. 8.666/93 (arts. 25, II, § 2º, e 13) a
contratação de escritório de advocacia para ajuizar e acompanhar ações trabalhistas.

7) Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios

i) 2000.01.5.002215-0

(Ação Popular)

Órgão julgador: 3ª Câmara Cível

Ementa:

DIREITO ADMINISTRATIVO. AÇÃO POPULAR. APELAÇÃO CÍVEL.


EMBARGOS INFRINGENTES. CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE
ADVOCACIA. CAUSA TRABALHISTA. DISPENSA DE LICITAÇÃO.
REQUISITOS (NATUREZA SINGULAR DO SERVIÇO, SERVIÇO TÉCNICO
ESPECIALIZADO, E NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO DO PROFISSIONAL
CONTRATADO). PRESENÇA. CONDUTA DIVERSA DO ADMINISTRADOR.
INEXIGIBILIDADE. PREJUÍZO AO ERÁRIO. AUSÊNCIA. VIÉS POLÍTICO NO
MANEJO DESSA DEMANDA. AUSÊNCIA DE COPROVAÇÃO DA MÁ-FÉ.
INVIABILIDADE DE CONDENAÇÃO. PREVALÊNCIA DO VOTO
MINORITÁRIO.

1. Do administrador que, premido pelo tempo, procede à contratação direta de escritório


de advocacia não se pode exigir conduta diversa, pois, ou obedecia aos procedimentos
licitatórios – e perdia a oportunidade de defesa nas ações trabalhistas, ante a fluência
inexorável dos respectivos prazos processuais –, ou contratava diretamente o escritório
de maior especialização para a defesa de tais ações.

55
2. Se o administrador tem em mira a defesa de causas trabalhistas específicas, porque
essas podem levar à bancarrota a empresa administrada, e são exíguas as bancas com
credenciais técnicas para desenvolver esse mister, então se encontram aí satisfeitos os
seguintes requisitos: natureza singular do serviço a ser desenvolvido, serviço técnico a
exigir especialização e notória especialização que deve deter o executor de tais serviços.

8) Tribunal de Justiça do Espírito Santo

i) 0902446-69.2011.8.08.0000

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 1ª Câmara Cível

Ementa:

AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO CIVIL PÚBLICA - IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA - CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA SEM
LICITAÇÃO - LIMINAR - INDISPONIBILIDADE DE BENS - IMPROBIDADE
APARENTE - PERIGO DA DEMORA - RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO.

1. "É possível a determinação de indisponibilidade e seqüestro de bens, para fins de


assegurar o ressarcimento ao Erário, antes do recebimento da petição inicial da Ação de
Improbidade. Precedentes do STJ" (REsp 1113467/MT, Rel. Min. HERMAN
BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 09/03/2010, DJe 27/04/2011).

2. Cuidando-se de contratação de escritório de advocacia, quando os serviços jurídicos


de que necessita o ente público são importantes, mas não apresentam singularidades,
porque afetos à ramo do direito bastante disseminado entre os profissionais da área, e
quando não demonstrada a notoriedade dos advogados que compõem o escritório de
advocacia contratado, decorre ilegal a contratação de que tenha prescindido da
respectiva e necessária licitação. Precedentes do C. STJ.

3. Hipótese em que, em cognição sumária, não é possível afirmar que a sociedade de


advogados contratada sem licitação pelo agravante apresenta singularidade apta a
justificar a inexigibilidade da licitação, o que denota, num primeiro momento, indícios
de que houve contratação irregular, o que afirma a fumaça do bom direito para fins de
decretação da indisponibilidade de bens do agente a quem foi imputada conduta
ímproba.

4. À falta dos documentos juntados nos autos de origem, com a petição inicial,
considerados pelo MM. Juiz de Direito de Primeiro Grau também na aferição do
requisito perigo da demora, não há como afastá-lo em juízo de cognição não exauriente.

56
9) Tribunal de Justiça de Goiás

i) 375832-68.2009.8.09.0116

(Ação Civil Pública por ato de improbidade administrativa)

Órgão julgador: 3ª Câmara Cível

Ementa:

APELAÇÃO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DIRETA DE SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS
PELA CÂMARA MUNICIPAL. SENTENÇA OMISSA COM RELAÇÃO À
CONDUTA DOS DEMAIS RÉUS. INOCUIDADE DA ANULAÇÃO. AUSÊNCIA
DE PREJUÍZO. CONDENAÇÃO POR FUNDAMENTOS DIVERSOS.
INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO. EXISTÊNCIA DE CARGO VAGO DE
PROCURADOR-GERAL. INFRINGÊNCIA AOS PRINCÍPIOS REGENTES DA
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA (ART. 11, CAPUT, LEI FEDERAL N.º 8.429/1992).
DOLO GENÉRICO EVIDENCIADO. DANO MANIFESTO. DOSIMETRIA DAS
PENAS.

(...)

II – Consoante posicionamento do Supremo Tribunal Federal, considerando que a


licitação tem por escopo obter a proposta mais vantajosa para a Administração através
de julgamento objetivo, estimulando a competição entre os concorrentes, inexigível o
procedimento para a contratação de serviços de advocacia, porquanto incompatíveis as
atividades do advogado com a mercantilização, consoante disposto no art. 5º da Lei
federal n.º 8.906/1994, a par de constituir infração disciplinar (art. 34, IV do mesmo
diploma), além de patente a inviabilidade de se proceder à julgamento objetivo acerca
de proposições apresentadas pelos licitantes em eventual certame.

III – Todavia, o fato de se apresentar inexigível a licitação não retira do ato de


contratação direta de serviços advocatícios pelo ente público, verificadas as
circunstâncias que permeiam o caso concreto, a possibilidade de que dele emane

57
improbidade, a exemplo de vulneração aos princípios basilares da Administração
protegidos pela Constituição Federal (art. 37, caput) e pela Lei de Improbidade
Administrativa (art. 11, caput).

IV – Constatado que a conduta do agente, a um só tempo, violou os princípios da


legalidade, por desconsiderar a lei (n.º 773/2008) que criou o cargo de Procurador-Geral
da Câmara Municipal, quando demonstrada a necessidade do serviço com a contratação
direta de profissionais da advocacia para desempenho das mesmas funções; da
moralidade, por impor ao erário despesa de maior monta causando inequívoco dano; e
da impessoalidade, por resolver pela contratação em detrimento do provimento do

cargo público, manifesto o atuar ímprobo a merecer reprimenda.

ii) 44200-47.2015.8.09.0000

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 6ª Câmara Cível

Ementa:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. CONTRATAÇÃO DE


ESCRITÓRIOS DE ADVOCACIA E DE CONTABILIDADE SEM LICITAÇÃO.
INEXIGIBILIDADE DO PROCEDIMENTO LICITATÓRIO. LIMINAR
CONCEDIDA. SUSPENSÃO IMEDIATA DA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS.
REQUISITOS NÃO CONFIGURADOS. PERIGO DE DANO INVERSO.

Restando ausentes os requisitos necessários para o deferimento da liminar nos autos da


ação civil pública, não se mostra razoável permitir que a Municipalidade fique exposta a
ações com significativa repercussão sobre suas políticas públicas e seu orçamento, sem
que disponha de defesa especializada, contratada, a princípio, em cumprimento aos
requisitos legais.

iii) 75197 -13.2015.8.09.0000

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 4ª Câmara Cível

Ementa:

58
AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO CIVIL
PÚBLICA. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. INEXISTÊNCIA DE VIOLAÇÃO
AO ART. 471 DO CPC. LIMINAR. INOCORRÊNCIA DE COISA JULGADA.
JULGAMENTO DA AÇÃO PENAL.

(...)

2- Mantém-se a liminar concedida em ação civil pública, suspendendo os efeitos do


contrato de serviço jurídico quando, à princípio, não restar demonstrada a natureza
singular do serviço prestado (art. 25, II, da Lei 8.666/1993).

iv) 14506-65.2011.8.09.0164

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 4ª Câmara Cível

Ementa:

DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA


POR ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DE
SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS SEM CONCURSO OU LICITAÇÃO. ATO
ÍMPROBO. ARTS. 10, INC. VIII, E 11, CAPUT, DA LEI 8.429/92. DANO IN RE
IPSA. ELEMENTO SUBJETIVO PRESENTE. RESSARCIMENTO DO DANO.
INDENIZAÇÃO PELOS SERVIÇOS PRESTADOS.

I- A contratação de advogados pelos Municípios não viola a regra do concurso público,


pois, de acordo com a CF/88, apenas para a União, Estados e Distrito Federal existe a
previsão de órgão para a representação de seus interesses.

II- A contratação com o Poder Público impõe, em regra, o prévio procedimento


licitatório, somente dispensável ou inexigível, nos casos previstos em lei, ex vi do art.
37, inciso XXI, da CF/88. III- O mero enquadramento do serviço contratado no rol do
art. 13 da Lei n. 8.666/93 não autoriza a inexigibilidade, sendo imprescindível a
comprovação da notória especialização do profissional e singularidade do objeto, a
tornar totalmente inviável a competição.

IV- A dispensa de licitação para a contratação de serviços advocatícios sem a presença


dos requisitos autorizadores é conduta que se enquadra nos arts. 10, VIII, e 11, caput,
ambos da Lei de Improbidade Administrativa, pois, a um só tempo, causa dano in re
ipsa, por impedir a contratação da melhor proposta, como viola os princípios da
administração pública que exigem a licitação para a contratação com o Poder Público.

V- Está presente o dolo genérico na conduta dos requeridos que, deliberadamente,


desrespeitaram as normas constitucionais e legais acerca da obrigatoriedade da licitação,
em total desarmonia com as regras do campo do direito público, cujo desconhecimento
lhes era inescusável.

59
10) Tribunal de Justiça do Maranhão

i) 0000017-39.2003.8.10.0111

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 4ª Câmara Cível

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA. AUSÊNCIA DE LICITAÇÃO EM CONTRATAÇÃO DE
SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS. ATO ÍMPROBO. CONFIGURAÇÃO. ATENTADO
AO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE. SANÇÕES DO ART. 12 DA LEI DE
IMPROBIDADE. CUMULAÇÃO DE PENAS. DESNECESSIDADE. DOSIMETRIA
QUE SE IMPÕE.

I. A inexigibilidade de licitação é procedimento administrativo formal que deve ser


precedido de processo com estrita observância aos princípios básicos que norteiam a
Administração Pública.

II. Amolda-se ao ato de improbidade administrativa, tipificado no art. 11, da Lei nº


8.429/92, a contratação de serviços técnicos sem prévio procedimento licitatório,
mormente quando não formalizado processo para justificar a inexigibilidade da licitação
– violando o art. 26 da Lei de Licitação, bem assim atentando contra o princípio da
legalidade, que rege a Administração Pública. Precedente do STJ.

ii) 0019580-95.2002.8.10.0000

(Ação Popular)

Órgão julgador: 3ª Câmara Cível

Ementa:

CONSTITUCIONAL. ADMINISTRATIVO. AÇÃO POPULAR. CONTRATO


ADMINISTRATIVO. PRESTAÇÕES DE SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS.
LICITAÇÃO. INEXIGIBILIDADE (ART. 37, XXI, CF; ART. 25, II C/C ART. 13, IV
AMBOS DA LEI N° 8.666/93). ADVOGADO ASSOCIADO A ESCRITÓRIO DA

60
PROCURADORA GERAL DO ESTADO. ALEGADA OFENSA AO PRINCÍPIO
MORALIDADE ADMINISTRATIVA. AUSÊNCIA DE PROVAS. CONDENAÇÃO
EM CUSTAS PROCESSUAIS E ÔNUS DA SUCUMBÊNCIA. AUSÊNCIA DE
COMPROVAÇÃO DE MÁ-FÉ. ISENÇÃO.

I – A hipótese de contratação de profissionais com notória especialidade (art.25, II c/c


art. 13, IV ambos da lei n° 8.666/93) configura exceção ao princípio constitucional da
obrigatoriedade de processo licitatório imposta à Administração Pública (art. 37, XXI,
CF).

II – O ônus da prova incumbe ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito (art.
333, I, CPC).

iii) 0008381-81.2011.8.10.0058

(Ação Penal)

Órgão julgador: 2ª Câmara Criminal

Ementa:

PENAL E PROCESSUAL PENAL. APELAÇÃO CRIMINAL. CRIME DE


DISPENSA OU INEXIGIBILIDADE INDEVIDA DE LICITAÇÃO. FALTA DE
JUSTA CAUSA. SUPOSTA AUSÊNCIA DE PRONUNCIAMENTO DEFINITIVO
DO TCE/MA SOBRE A PRESTAÇÃO DE CONTAS DO RÉU (MATERIALIDADE
DELITIVA). INOCORRÊNCIA. ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DE DOLO
ESPECÍFICO AFASTADA. INTENÇÃO DE CAUSAR DANO AO ERÁRIO
EXTRAÍDA DAS CIRCUNSTÂNCIAS FÁTICAS DA CONTRATAÇÃO ILÍCITA.
CONTRATAÇÕES CONSIDERADAS IRREGULARES PELO TCE/MA, COMO
CLASSIFICAÇÃO INDEVIDA DE DESPESA, QUE NÃO CONFIGURAM O
CRIME TIPIFICADO NO ART. 89, DA LEI Nº 8.666/93. DOSIMETRIA DA PENA.
VALORAÇÃO INIDÔNEA DA CULPABILIDADE E ANTECEDENTES.
REDIMENSIONAMENTO DA PENA DE MULTA. APELO CONHECIDO E
PARCIALMENTE PROVIDO.

1. Constatado que o Tribunal de Contas do Estado do Maranhão reprovou,


definitivamente, a prestação de contas do réu, referente ao exercício financeiro de 2008,
quando ele presidia a Câmara de Vereadores de São José de Ribamar, fica afastada a
alegação de ausência de justa causa para a ação penal por ausência de materialidade
delitiva. Mesmo eventual pendência de tal julgamento técnico, em tese, não obstaria a
regularidade da persecução criminal, diante da independência das instâncias de
responsabilização no Direito.

61
2. A lesão ao erário, como elemento subjetivo específico para a tipificação do crime
previsto no art. 89, da Lei nº 8.666/93, é extraída das circunstâncias fáticas da
contratação, na medida em que a dispensa indevida da licitação implica ausência de
concorrência e a consequente prática de preços mais elevados, o que, certamente, onera
o tesouro público.

3.Tendo em vista que o TCE/MA, ao julgar as contas do réu, considerou as contratações


de serviços advocatícios, assessoria administrativa e de motoristas, como classificação
indevida da natureza da despesa, não caracterizando o crime tipificado no art. 89, da Lei
nº 8.666/93, de rigor o redimensionamento da pena de multa, que, a teor do art. 99, § 1º,
da citada Lei, considera o valor total de contratações feitas à margem do processo
licitatório.

11) Tribunal de Justiça do Mato Grosso

i) 0002842-51.2007.8.11.0025

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 3ª Câmara Cível

Ementa:

AÇÃO CIVIL PÚBLICA - APELAÇÃO – SENTENÇA ABSOLUTÓRIA DE


IMPROBIDADE – INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO - ESCRITORIO DE
ADVOCACIA - AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DE NOTORIEDADE E
SINGULARIDADE DO SERVIÇO - INEXISTÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DE
ADEQUAÇÃO DO VALOR PAGO AO PREÇO DE MERCADO - RECURSO
PARCIALMENTE PROVIDO.

1. O acervo probatório encartado nos autos resta nítido que a situação em comento não
justifica a inexigibilidade de licitação caracterizando clara ofensa aos princípios da
administração pública e danos ao erário.

2. Não havendo qualquer comprovação acerca de notória especialização dos advogados


bem como o serviço de consultoria não se justifica a inexigibilidadede licitação.

3. Diante da falta da demonstração da natureza singular ao objeto contratado, não se


considera como tal aquele serviço que pode ser executado por numerosos profissionais
ou empresas.

4. "(...) Este Tribunal entende que, se os serviços foram prestados, não há que se falar
em devolução, sob pena de enriquecimento ilícito do Estado. (REsp 1238466/SP, Rel.

62
Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em
06/09/2011, DJe 14/09/2011)

ii) 0101887-69.2008.8.11.0000

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 1ª Câmara Cível

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO CIVIL PÚBLICA - CONTRATO DE HONORÁRIOS


ADVOCATÍCIOS - DEFESA DO INTERESSE MUNICIPALIDADE - PRELIMINAR
DE CERCEAMENTO DIREITO DEFESA - AUSÊNCIA OITIVA TESTEMUNHAS -
INOCORRÊNCIA - MÉRITO - CONTRATAÇÃO DE PROFISSIONAL SEM
LICITAÇÃO PARA O AJUIZAMENTO DE EXECUÇÕES FISCAIS DO
MUNICÍPIO - RISCO E AVIZINHAMENTO DE PRESCRIÇÃO -
IRREGULARIDADE ALEGADA - FALTA DOS REQUISITOS DE
INEXIGIBILIDADE - IMPROBIDADE NÃO CARACTERIZADA - AUSÊNCIA DE
LESÃO AO ERÁRIO OU ENRIQUECIMENTO ILÍCITO - AÇÃO JULGADA
IMPROCEDENTE - RECURSO PROVIDO.

Não estando caracterizado o cerceamento de defesa, pela ausência de inquirição de


testemunhas, deve ser rejeitada preliminar que pleiteia a anulação da sentença. A
contratação de escritório advocatício com inexigibilidade de licitação para a promoção
de defesa do município em feitos perante o judiciário - diante da aproximação da
prescrição dos créditos tributários - não constitui ato de improbidade administrativa,
especialmente se a estrutura jurídica da municipalidade é reduzida e sabidamente
incapaz de dar vazão à tarefa.

Para caracterização da ilicitude ou imoralidade administrativa capaz de configurar o ato


de improbidade é necessário que haja lesão ao erário ou enriquecimento ilícito do
agente.

A lei de improbidade não pune o administrador desastrado ou inábil, mas sim o


desonesto e que age com nítida e comprovada má-fé, em deslealdade com a
administração pública.

iii) 0002270-73.2005.8.11.0055

(Ação Penal)

63
Órgão julgador: 1ª Câmara Criminal

Ementa:

RECURSO DE APELAÇÃO CRIMINAL – SENTENÇA CONDENATÓRIA –


CRIME DE RESPONSABILIDADE DE PREFEITO MUNICIPAL – ART. 1º, II, DO
DECRETO-LEI Nº 201/67 – RECURSO DEFENSIVO – PRELIMINAR
MINISTERIAL – INTEMPESTIVIDADE DO APELO – EMBARGOS DE
DECLARAÇÃO OPOSTOS INTEMPESTIVAMENTE – GREVE DO PODER
JUDICIÁRIO DE ONDE O TRANSCURSO DE PRAZOS LEGAIS ESTAVAM
SUSPENSOS – PRELIMINAR REJEITADA – PRELIMINAR DEFENSIVA –
NULIDADE DA SENTENÇA – SOBRESTAMENTO DA AÇÃO PENAL ATÉ
JULGAMENTO DA AÇÃO CÍVEL – SENTENÇA CONDENATÓRIA PROLATADA
ANTES DO JULGAMENTO DA EXCEÇÃO DE INCOMPETÊNCIA –
ILEGITIMIDADE PASSIVA DO SEGUNDO APELANTE – REJEITADAS –
PREJUDICIAIS DE MÉRITO – RECONHECIMENTO DA PRESCRIÇÃO DA
PRETENSÃO PUNITIVA – PRESCRIÇÃO DA AÇÃO DE IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA – AFASTADAS – MÉRITO – ABSOLVIÇÃO –
MATERIALIDADE E AUTORIA COMPROVADAS – CONTEXTO PROBATÓRIO
FIRME – CONDENAÇÃO MANTIDA – RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO
– READEQUAÇÃO DE OFÍCIO DA PENA IMPOSTA – AUSÊNCIA DE
FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA.

(...)

Comete Crime de Responsabilidade de Prefeito Municipal, o prefeito municipal que,


sob o argumento de inexigibilidadede procedimento licitatório, previsto nos art. 25, II, e
13, III, ambos da Lei 8.666/93, contrata escritório de advocacia sob tal modalidade de
contratação, quando esse não preenche os requisitos legais.

Embora demonstrada à irregularidade na dispensa da licitação, a magistrada considerou


que a conduta do artigo 89 da Lei de Licitação (Dispensar ou inexigir licitação) foi o
meio necessário para praticar o crime do Decreto Lei n. 201/67, pelo que aplicou o
princípio da consunção.

iv) 0080522-17.2012.8.11.0000

(Ação Penal)

Órgão julgador: Turma de Câmaras Criminais Reunidas

Ementa:

AÇÃO PENAL PÚBLICA ORIGINÁRIA – DISPENSAR OU INEXIGIR


LICITAÇÃO FORA DAS HIPÓTESES PREVISTAS EM LEI, OU DEIXAR DE
OBSERVARAS FORMALIDADES PERTINENTES À DISPENSA OU À
64
INEXIGIBILIDADE, EM CONCURSO MATERIAL – ELEMENTOS
PROBATÓRIOS ACERCA DA MATERIALIDADE E INDÍCIOS SUFICIENTES DE
AUTORIA – DOCUMENTOS EVIDENCIADORES DE UM SUPOSTO ESQUEMA
ARQUITETADO PELO ACUSADO COM A FINALIDADE DE BENEFICIAR-SE
DOS SERVIÇOS DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA
CONTRATADODIRETAMENTE PELO MUNICÍPIO QUANDO UM DE SEUS
SÓCIOS PATROCINAVA A DEFESA PESSOAL DO DENUNCIADO EM AÇÕES
DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA EM CAUSAS COM INTERESSES
CONFLITANTES COM O MUNICÍPIO – SUPOSTA AFRONTA AOS PRINCÍPIOS
DA MORALIDADE E DA IMPESSOALIDADE – RECEBIMENTO DA DENÚNCIA
– PEÇA INAUGURAL QUE PREENCHE TODOS OS REQUISITOS PREVISTOS
NO ART. 41 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL – RECEBIMENTO DA
DENÚNCIA.

Diante da plausibilidade dos fatos narrados na exordial de acusação, descrevendo um


esquema arquitetado, em tese, pelo acusado, na contratação direta de escritório de
advocacia, sem observar os requisitos legais, visando beneficiar-se dos serviços
contratados pelo Município quando um de seus sócios patrocinava a defesa pessoal do
acusado em ações de improbidade administrativa, torna-se imperativo o recebimento da
denúncia pela suposta prática do delito previsto no art. 89, caput, da Lei n. 8.666/93
(dispensar ou inexigir licitação fora das hipóteses previstas em lei, ou deixar de observar
as formalidades pertinentes à dispensa ou à inexigibilidade), c/c art. 69 do Código Penal
(concurso material), porquanto, na qualidade de Chefe do Executivo municipal, o
acusado foi o responsável pela contratação do escritório de advocacia para prestação dos
serviços.

12) Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul

i) 0001625-17.2006.8.12.0045

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 2ª Câmara Cível

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL – AÇÃO CIVIL PÚBLICA – IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA – ART. 10 E 11 DA LEI N. 8.429/92 – NECESSIDADE DE
CULPA OU DO AGENTE PÚBLICO – DISPENSA DE LICITAÇÃO –
ASSESSORIA JURÍDICA - ATOS ÍMPROBOS NÃO DEMONSTRADOS –
RECURSO PROVIDO.

65
ii) 0010860-36.2012.8.12.0000

(Ação Rescisória em Ação Popular)

Órgão julgador: Órgão Especial

Ementa:

AÇÃO RESCISÓRIA – AÇÃO POPULAR – APELAÇÃO CÍVEL – EMBARGOS


INFRINGENTES – VIOLAÇÃO LITERAL A DISPOSIÇÃO DE LEI (ART. 485, V) –
ERRO DE FATO QUE FOI DECISIVO PARA O JULGAMENTO DA CAUSA (ART.
485, IX) – CONTRATAÇÃO DE ADVOGADO, COM DISPENSA DE LICITAÇÃO,
POR NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO E SINGULARIDADE DOS SERVIÇOS, PARA
PATROCINAR AÇÕES DE EMPRESA PÚBLICA (AGROSUL) DESTINADA A
RECUPERAR PREJUÍZOS CAUSADOS POR AGENTES PÚBLICOS EM
CONLUIO COM EMPREITEIRAS E POLÍTICOS INFLUENTES, TENDO POR
OBJETO A CONSTRUÇÃO DE 17 (DEZESSETE) ARMAZÉNS GRANELEIROS
NO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL – PREÇO RAZOÁVEL ANTE A
MAGNITUDE DOS SERVIÇOS PRESTADOS E A GALOPANTE INFLAÇÃO NO
PERÍODO ANTECEDENTE AO PLANO REAL – INEXISTÊNCIA DE
LESIVIDADE AO PATRIMÔNIO PÚBLICO – INEXISTÊNCIA DE PROVA DE
LESIVIDADE MORAL (PRINCÍPIO DA MORALIDADE ADMINISTRATIVA) –
JULGAMENTO COM BASE EM FATO INEXISTENTE – PROCEDÊNCIA DO
PEDIDO RESCISÓRIO PARA RESTABELECER O ACÓRDÃO QUE REFORMOU
A SENTENÇA DE PRIMEIRO GRAU QUE HAVIA JULGADO PROCEDENTE
AÇÃO POPULAR.

I Inexistindo lesividade ao patrimônio público e não havendo provas da lesividade


moral na contratação de advogado, com dispensa de licitação, por notória especialização
e singularidade, até porque “é impossível aferir, mediante processo licitatório, o
trabalho intelectual do advogado, pois trata-se de prestação de serviços de natureza
personalíssima e singular, mostrando-se patente a inviabilidade da competição” (STJ:
REsp 1.192.332-RS, j.12.11.2013. DJe 19.12.2013), caracteriza-se a violação literal a
disposição de lei no tocante ao art. 1º da Lei federal n. 4.717/65, ao art. 5º, LXXII, da
Constituição Federal, e ao art. 25, II, da Lei federal n. 8.666/93.

iii) 0023834-08.2012.8.12.0000

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 4ª Câmara Cível

66
Ementa:

AGRAVO DE INSTRUMENTO – AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA – CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS –
INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO – RECONHECIMENTO – SINGULARIDADE
DOS SERVIÇOS E NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO COMPROVADAS DE PLANO –
ATO DE IMPROBIDADE INEXISTENTE – RECURSO PROVIDO.

A contratação de serviços de advogado por inexigibilidade de licitação é admissível


(artigos. 25, II e 13, V, da Lei 8.666/93). Desde que comprovado, de plano, o
preenchimento dos requisitos legais (singularidade dos serviços e notória
especialização), não há se falar em ato de improbidade, podendo a ação civil pública ser
rejeitada, liminarmente, nos termos do que dispõe o art. 17, §8º, da Lei de Improbidade
Administrativa (incluído pela Medida Provisória n. 2.225-45, de 2001), para evitar uma
lide temerária.

iv) 0550093-66.1999.8.12.0055

(Ação Popular)

Órgão julgador: 1ª Câmara Cível

Ementa:

AÇÃO POPULAR. CONTRATAÇÃO DIRETA. INEXIGIBILIDADE DE


LICITAÇÃO. SERVIÇOS DE ADVOCACIA. PREJUÍZO AO ERÁRIO. RECURSO
NÃO PROVIDO.

A contratação de escritório de advocacia quando ausente a singularidade do objeto


contratado e a notória especialização do prestador configura patente ilegalidade.

v) 0025228-50.2012.8.12.0000

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 4ª Câmara Cível

Ementa:

AGRAVO DE INSTRUMENTO EM AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA – PRELIMINARES DE INÉPCIA DA INICIAL E DE
CARÊNCIA DA AÇÃO – CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS –
67
INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO – RECONHECIMENTO – RECURSO
PROVIDO.

Se a petição inicial tem causa de pedir e pedido, em obediência aos princípios da


congruência e coerência, não deve ser indeferida por inépcia.

A contratação de serviços de advogado por inexigibilidade de licitação está


expressamente prevista na Lei 8.666/93, arts. 25, II e 13, V. (AgRg no AREsp
27704/RO, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA,
julgado em 15/12/2011, DJe 08/02/2012)

Se não vislumbrados vestígios suficientes para o processamento da ação, nos termos


preconizados no § 8º, do art. 17 da Lei de Improbidade Administrativa (incluído pela
Medida Provisória n. 2.22545, de 2001), a evitar uma lide temerária, é imperiosa a
rejeição da inicial da demanda que visa a apuração de ato de improbidade
administrativa, para o qual a lei exige a instrução mínima com documentos ou
justificação que contenham indícios suficientes da existência do ato de improbidade ou
com razões fundamentadas da impossibilidade de apresentação de qualquer dessas
provas, observada a legislação vigente (§ 6º, do art. 17 da Lei n. 8.429/92, incluído pela
Medida Provisória n. 2.22545, de 2001).

vi) 0011752-81.2008.8.12.0000

(Ação Penal)

Órgão julgador: Seção Criminal

Ementa:

FEITO NÃO ESPECIFICADO – PENAL E PROCESSO PENAL – DENÚNCIA –


INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO – NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO
COMPROVADA – PREFEITO MUNICIPAL E SERVIDORES MUNICIPAIS –
AUSÊNCIA DE DOLO E DE AJUSTE – MERO CUMPRIMENTO DE FUNÇÕES –
DOLO ESPECÍFICO NÃO EVIDENCIADO – REJEIÇÃO.

Havendo documentos que atestam a notória especialização e a singularidade dos


serviços prestados pelos advogados contratados, evidencia-se, de plano, a ausência de
dolo específico.

A participação dos servidores públicos municipais – procurador jurídico e grupo


executivo de licitação – na análise de procedimento que declara a inexigibilidade de
licitação, especialmente quando aprovada pelo Tribunal de Contas, não implica em
conluio com o objetivo de agir indevidamente contra as regras da Lei n.º 8.666/93.

Feito Não Especificado a que se julga improcedente, ante a manifesta ausência de dolo
específico dos acusados em declarar a inexigibilidade de procedimento licitatório.

68
13) Tribunal de Justiça de Minas Gerais

i) 0599568-07.2014.8.13.0000

(Ação Popular)

Órgão julgador: 3ª Câmara Cível

Ementa:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO POPULAR. LEGITIMIDADE AD


CAUSAM. CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA.
INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO.

Nos termos do art. 5.º, inciso LXXIII, da Constituição Federal, e do art. 1.º da Lei n.º
4.717/65, qualquer cidadão é parte legítima para propor a ação popular, bastando
comprovar tal condição mediante a apresentação do título de eleitor, na forma do §3.º
do art. 1.º da Lei de Ação Popular.

A Lei não condiciona a inexigibilidade somente à notória especialização do prestador. É


necessário, também, o requisito da singularidade do serviço contratado

A elaboração de pareceres, projetos de Lei e peças judiciais não é um serviço de


natureza singular, que não possa ser exercido por outros advogados produzindo os
mesmos resultados, mesmo que seja inconteste a qualificação da profissional contratada
pelo agravante.

ii) 0870814-79.2014.8.13.0000

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 1ª Câmara Cível

Ementa:

PROCESSO CIVIL – AÇÃO CIVIL PÚBLICA – IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA – REJEIÇÃO LIMINAR DA AÇÃO – POSSIBILIDADE –
INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO – CONTRATAÇÃO DE SERVIÇO DE
ADVOCACIA.

69
- Deve ser rejeitada, liminarmente, a ação civil pública quando os elementos de
convicção submetidos à apreciação do julgador demonstram, de plano, a inexistência de
ato de improbidade administrativa.

- A dispensa de licitação que abrange a contratação de serviço de advocacia para


prestação de serviços com conteúdo e importância diferenciados é lícita, haja vista
quando existe a notória especialização e a Administração necessita dispor de margem
discricionária para, fundado na confiança ínsita ao contrato de mandato, eleger a
sociedade profissional que melhor lhe aprouver.

iii) 0003775-28.2014.8.13.0476

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 8ª Câmara Cível

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL – AÇÃO CIVIL PÚBLICA – IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA – REJEIÇÃO – CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE
ADVOCACIA – NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO – INEXIGIBILIDADE DE
LICITAÇÃO – POSSIBILIDADE – PESQUISA DE PREÇO – AUSÊNCIA –
JUSTIFICAÇÃO – HONORÁRIOS – MINISTÉRIO PÚBLICO – ISENÇÃO –
SENTENÇA PARCIALMENTE REFORMADA – RECURNO PROVIDO EM PARTE

1. O autor deve instruir a petição inicial com indícios suficientes da existência do ato
ímprobo ou justificar a impossibilidade de fazê-lo, sob pena de rejeição liminar,
igualmente admissível nas hipóteses de, após notificado o réu, o magistrado se
convencer da inexistência do ato, da improcedência da ação ou da inadequação da via
eleita.

2. Considerando-se os elementos coligidos aos autos, agiu por bem o magistrado em


rejeitar a ação civil pública de improbidade administrativa, fundada, unicamente, na
alegação genérica de que o valor contratado estaria fora do mercado, por não ter sido
apresentado “pesquisa de preço’’, valendo asseverar era ônus do autor instruir a inicial
com as provas de que o valor contratado seria desproporcional.

70
iii) 0394321-45.2009.8.13.0019

(Ação de Improbidade Administrativa)

Órgão julgador: 3ª Câmara Cível

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA.


CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA. DISPENSA DE
LICITAÇÃO. AUSÊNCIA DE SINGULARIDADE DO SERVIÇO.
RESPONSABILIDADE DO ADVOGADO PARECERISTA. COMPROVAÇÃO.

O art. 3º da Lei de Improbidade Administrativa não deixa dúvidas acerca da


legitimidade passiva do sócio de empresa contratada pelo Poder Público, sem licitação,
já que responde todo aquele que “induza ou concorra para a prática do ato de
improbidade ou dele se beneficie sob qualquer forma direta ou indireta”.

A prestação de serviços de consultoria e assessoria jurídica em questões administrativas


e constitucionais, elaboração de pareceres e peças judiciais não é um serviço de natureza
singular, que não possa ser exercido por outros advogados produzindo os mesmos
resultados e que justifique a dispensa da licitação, mesmo que houvesse sido
comprovada a especialização do profissional contratado.

É possível o consultor jurídico ser responsabilizado em ação de improbidade


administrativa quando o ato ímprobo se deu com fundamento em seu parecer. Todavia,
por se tratar de uma peça apenas opinativa que não vincula ou determina a realização do
ato, tal responsabilização ocorre apenas em situações excepcionais, quando
demonstrado que tal peça foi elaborada dolosamente apenas como um instrumento
destinado a dar aparência de legalidade ao ato ímprobo.

iv) 0072900-64.2004.8.13.0143

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 2ª Câmara Cível

Ementa:

EMBARGOS INFRINGENTES – AÇÃO CIVIL PÚBLICA –IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA – CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS –
DEFESA DO PREFEITO POR CRIME FUNCIONAL – INEXIGIBILIDADE DE
LICITAÇÃO – ESPECIALIZAÇÃO E SINGULARIDADE DO SERVIÇO –
CARACTERIZAÇÃO – AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO A PRINCÍPIOS DA
LEGALIDADE, MORALIDADE E IMPESSOALIDADE – EMBARGOS
INFRINGENTES REJEITADOS.
71
- A ação civil pública, por ato de improbidade administrativa, é meio usual para se
atacar judicialmente as ações ou omissões administrativas que causem prejuízo ao
erário, enriquecimento ilícito ou que atentem contra os princípios da administração
pública, nos termos da Lei n. 8.429/92.

- É possível a contratação de serviços advocatícios pelo Município para defesa do


Prefeito em processo de crime funcional, pois não se trata de defesa interesse particular
da pessoa do Prefeito.

v) 0026038-22.2013.8.13.0498

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 3ª Câmara Cível

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL- DIREITO ADMINISTRATIVO-INEXIGIBILIDADE DE


LICITAÇÃO- ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA- SINGULARIDADE DOS
SERVIÇOS PRESTADOS- FATO VERIFICADO- RECURSO NÃO PROVIDO.

É possível a contratação de serviços advocatícios sem a realização de licitação, desde


que preenchidos os requisitos previstos no art. 25, II§1º da Lei 8.666/93. Demonstradas
a notória especialização e singularidade dos serviços prestados, correta a sentença que
concluiu pela inexigibilidade do procedimento licitatório. Recurso não provido.

vi) 0002188-73.2012.8.13.0012

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 7ª Câmara Cível

Ementa:

PRELIMINAR DE OFÍCIO. REEXAME NECESSÁRIO. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO


CIVIL PÚBLICA. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. CONTRATO DE
PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE ADVOCACIA. AUSÊNCIA DE LICITAÇÃO.
INEXIGIBILIDADE AFASTADA. ART. 11, INCISO I, DA LEI N. 8.429/1992.
CONFIGURAÇÃO. RESPONSABILIDADE DOS ENVOLVIDOS. SANÇÕES. ART.
12, INCISO III, DA LEI N. 8.429/1992. PROPORCIONALIDADE. SENTENÇA
REFORMADA.

72
I. Por analogia ao artigo 19, caput, primeira parte, da Lei da Ação Popular, é de se
proceder ao reexame necessário da sentença proferida na Ação Civil Pública que julgou
improcedentes os pedidos formulados pelo Ministério Público Estadual.

II. Configura ato de improbidade administrativa, previsto no artigo 11, inciso I, da


Lei nº 8.429, de 1992, a ausência de licitação regular para contratação de serviços de
advocacia, sem a demonstração da singularidade do objeto contratado, ainda que
inexista prova de enriquecimento ilícito, ou de prejuízo ao erário.

III. Os agentes públicos que, de algum modo, viabilizam as aquisições de serviços,


sem licitação, e o particular que pactua, irregularmente, com o Poder Público, devem ser
responsabilizados pela prática de ato de improbidade administrativa. Submetem-se, em
consequência, às sanções cominadas no artigo 12, inciso III, da Lei n. 8.429, de 1992,
observando-se, na fixação destas, as particularidades do caso, em respeito ao princípio
da proporcionalidade.

vii) 1393262-88.2008.8.13.0035

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 1ª Câmara Cível

Ementa:

EMENTA: CONSTITUCIONAL. ADMINISTRATIVO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA.


IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. HIPÓTESE DE INEXIGIBILIDADE DE
LICITAÇÃO. CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS DE ADVOCACIA
ESPECIALIZADOS. NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO. SINGULARIDADE DO
SERVIÇO. CARACTERIZAÇÃO. PROVAS ROBUSTAS. IMPROCEDÊNCIA DO
PEDIDO. SENTENÇA MANTIDA.

- Confirma-se a sentença que julgou improcedente a ação civil pública quando os


elementos de convicção submetidos à apreciação do julgador demonstram a inexistência
de ato de improbidade administrativa.

- A dispensa de licitação que abrange a contratação de escritório de advocacia para


atuação em determinado ramo complexo, com sérios reflexos para o Município é lícita,
haja vista quando existe a notória especialização e o ente público necessita dispor de
margem discricionária para, fundado na confiança ínsita ao contrato de mandato, eleger
o profissional que melhor lhe aprouver.

viii) 0909309-95.2014.8.13.0000
73
(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 2ª Câmara Cível

Ementa:

AGRAVO DE INSTRUMENTO – AÇÃO CIVIL PÚBLICA - IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA - SERVIÇO DE ADVOCACIA- PRELIMINARES –
REJEITADAS - INEXIGIBILIIDADE DE LICITAÇÃO - AUSÊNCIA DE
NECESSIDADE E SINGULARIDADE DO SERVIÇO – RECURSO DESPROVIDO.
1- A regra geral é a aplicação da Lei de Improbidade Administrativa aos agentes
públicos, somente afastando sua incidência quando o agente público for agente político
com prerrogativa de foro prevista na Constituição Federal para julgamento de crimes de
responsabilidade.

2- Conforme art. 543-B, § 1º, no caso dos recursos extraordinários, caberá ao Tribunal
de origem selecionar um ou mais recursos representativos da controvérsia e encaminhá-
los ao Supremo Tribunal Federal, sobrestando os demais até o pronunciamento
definitivo da Corte.

3- O Magistrado tem o poder de ordenar as medidas provisórias que julgue necessárias à


garantia do direito quando houver fundado receio que uma das partes cause lesão grave
e de difícil reparação ao direito da outra.

4- É possível a contratação de serviços advocatícios sem a realização de licitação, desde


que preenchidos os requisitos previstos no art. 25, II, §1º, da Lei 8.666/93. 5- As ações
civis públicas, baseadas em improbidade administrativa, claramente infundadas devem
ser previamente afastadas, bastando para o seu recebimento a presença de meros
indícios.

ix) 0031476-70.2011.8.13.0701

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 4ª Câmara Cível

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL – AÇÃO CIVIL PÚBLICA – ATO DE IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA – LEI 8.429/92 - VEREADOR – CONTRATAÇÃO DE
ADVOGADO E DE TÉCNICO EM CONTABILIDADE SEM A REALIZAÇÃO DE
PROCEDIMENTO LICITATÓRIO – INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO NÃO
CONFIGURADA - INFRINGÊNCIA AOS PRINCÍPIOS ADMINISTRATIVOS –
OCORRÊNCIA – DANO AO ERÁRIO – NÃO CONFIGURADO – DANO
PRESUMIDO E DANO CONCRETO - APLICAÇÃO DE SANÇÃO – ART. 12, III
DA LEI 8.429/92.
74
- Conforme preceitua a Lei 8.429/92, que deu efetividade ao disposto no §4º do artigo
37, da Constituição Federal, há três espécies de atos de improbidade administrativa: os
que importam enriquecimento ilícito do administrador, dispostos no art. 9º; os que
causam prejuízo ao erário público, previstos no art. 10; e aqueles que atentam contra os
princípios da Administração Pública, conforme disposição do art. 11.

- A inexigibilidade de licitação deve preencher alguns requisitos, como a inviabilidade


de competição, a singularidade do serviço e a notória especialização do contratado, de
forma a impedir que os contratos realizados pelo setor público sejam eivados pelo
desvio de finalidade.

- Ainda que a responsabilização do gestor público decorra de violação a princípios


administrativos, não poderá ser condenado a ressarcir o erário se não houver prova
concreta da lesão ao patrimônio público.

- Nos termos da Lei nº 8.429/92, o magistrado deve aplicar as sanções legais em


adequação aos princípios constitucionais da individualização da pena, da
proporcionalidade e da dignidade da pessoa humana, sem, contudo, retirar das sanções o
seu caráter punitivo e pedagógico.

x) 0001706-32.2012.8.13.0043

(Ação Penal)

Órgão julgador: 3ª Câmara Criminal

Ementa:

PENAL. APELAÇÃO CRIMINAL – CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS DE


ADVOCACIA. DISPENSA DE LICITAÇÃO. EXPRESSA PREVISÃO LEGAL.
POSSIBILIDADE – NOTÓRIA ESPECIALIDADE. CONCEITO VARIÁVEL.
DEMONSTRAÇÃO – ENTENDIMENTO CONSOLIDADO NESTE EG. TRIBUNAL
– RECURSO A QUE SE NEGA PROVIMENTO.

I – É lícita a contratação de serviços especializados de Advocacia, com dispensa de


licitação, conforme permissão contida na Lei de Licitações.

II – O conceito de “notória especialização” prescinde de padronização e deve ser


auferido não só no grau intelectual e profissional dos contratados, mas, igualmente, nas
peculiaridades do ente contratante.

75
14) Tribunal de Justiça do Pará

i) 0010440-77.1998.8.14.0301

(Ação Popular)

Órgão julgador: 1ª Câmara Cível Isolada

Ementa:

REEXAME e APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO POPULAR. IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA. a discussão cinge-se a legalidade da contratação do Dr. Mario
Augusto como Assessor da Presidência da PRODEPA e ao mesmo tempo como
advogado da PRODEPA.

1. A APELAÇÃO interposta por MARIO AUGUSTO VIEIRA DE OLIVEIRA em 06


de fevereiro de 2002. INTEMPESTIVA. Sentença publicada no Diário de Justiça de 26
de novembro de 2001, expirando o prazo em dobro em 27 de dezembro de 2001, não se
prorrogando para o dia 06 de fevereiro de 2002, como entendeu o apelante.

2. APELAÇÃO interposta por PRODEPA – PROCESSAMENTO DE DADOS DO


ESTADO DO PARÁ e ANTONIO MORAIS DA SILVEIRA. AÇÃO POPULAR
proposta em 13.08.98 por JOÃO JORGE HAGE NETO em razão de que a PRODEPA –
PROCESSAMENTO DE DADOS DO ESTADO DO PARÁ através de seu Presidente
contratou MARIO AUGUSTO VIEIRA DE OLIVEIRA para exercer a função
comissionada de Assessor da Presidência II, com salário de aproximadamente R$
3.800,00 (tres mil e oitocentos reais), o mesmo em total disfunção atuou e atuava
também como advogado da empresa PRODEPA, porque na função de Assessor da
Presidência não estavam incluídos poderes jurídicos para emitir pareceres e
representação em juízo ou fora dele. O contratado era sócio de escritório de advocacia
Malcher e Oliveira Advogados Associados S/C, de onde foram emitidos três recibos de
pagamento de honorários, configurando-se favorecimento ilícito. A atuação como
defensor e assessor contratado evidencia a improbidade administrativa, contrariando o
princípio da moralidade e legalidade no trato com o interesse público.

(...)

A cada fato que deu origem ao pagamento de honorários advocatícios corresponde uma
petição assinada pelo requerido Mario Augusto na qualidade de advogado da
PRODEPA e o pagamento dos serviços por ele prestados comprovados por recibos
emitidos Malcher e Oliveira Advogados Associados S/C.

A contratação realizada sem licitação: para que esteja revestido de legalidade é


imprescindível que a hipótese esteja enquadrada nos artigos 17, 24 ou, 25 da lei
76
8.666/93, que autorizam a dispensa do procedimento licitatório. Para que a contratação
do escritório de advocacia fosse regular a administração deveria cumprir o estabelecido
no artigo 25 combinado com o artigo 13 da Lei 8.666/93, mas não o fez assim a
contratação esta eivada de vício de forma. Correta a devolução dos valores recebidos a
título de honorários advocatícios com os acréscimos legais.

Bens do apelante liberados da indisponibilidade.

15) Tribunal de Justiça da Paraíba

i) 091.2004 000 177-7/001

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 2ª Câmara Cível Isolada

Ementa:

EMENTA. APELAÇÃO CÍVEL Ação Civil Pública Câmara Municipal Contratações


de serviços advocatícios e contábeis sem procedimento licitatório. Impossibilidade
Exigências previstas no artigo 37, inciso XXI da Constituição Federal e artigo 2' da Lei
d 8 666/93. Ausência de pressupostos autorizadores da sua inexigibilidade, previstos no
art 25 da Lei n' 8 666/93. Natureza dos serviços não marcada pela singularidade ou
notória especialização. Manutenção das penalidades. Apelo desprovido

- "As obras, serviços, inclusive de publicidade, compras, alienações, concessões,


permissões e locações da Administração Pública, quando contratadas com terceiros,
serão necessariamente precedidas de licitação, ressalvadas as hipóteses previstas nesta
Lei", consoante inteligência do art 2, da Lei n 8 666/93

- Nos termos do art3, da Lei ri 8 666/93, "a licitação destina-se 'a garantir a observância
do princípio constitucional da isonomia e a selecionar a proposta mais vantajosa para a
Administração e será processada e julgada em estrita conformidade com os principias
básicos da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da igualdade, da publicidade,
da probidade administrativa, da vinculação ao instrumento convocatório, do julgamento
objetivo e dos que lhes são correlatos"

- Para caracterizar a excepcionando& capaz de justificar a contratação de serviços


técnicos sem licitação, necessária a concorrência de 04 requisitos, quais sejam a) a
inviabilidade de competição, b) a previsão do serviço no art 13, c) a singularidade do
serviço (singularidade objetiva) e d) a notória especialização (singularidade subjetiva).

77
ii) 200 2004 064 452-4/001

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 2ª Câmara Cível

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL AÇÃO CIVIL PÚBLICA — INEXIGIBILIDADE DE


LICITAÇÃO NA CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO PARA A PRESTAÇÃO DE
SERVIÇOS ADVOCATICIOS — NECESSIDADE DE DEMONSTRAÇÃO DA
SINGULARIDADE DOS SERVIÇOS ADVOCATICIOS E A NOTÓRIA
ESPECIALIZAÇÃO DOS ADVOGADOS — REQUISITOS NÃO COMPROVADOS
— NULIDADE DO CONTRATO MANTIDA — CONTRATO — PERDA DA
VIGÊNCIA E EFICÁCIA ANTERIOR À PROLAÇÃO DA SENTENÇA -
CONTRATO FIRMADO COM OUTRA FIRMA - NOVO NEGÓCIO JURÍDICO —
PERDA DO OBJETO NÃO VERIFICADA - III IRREPARABILIDADE DE DANOS
DIANTE DA EFETIVA PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS — IMPOSSIBILIDADE DE
RESTAURAÇÃO DO STATUS QUO ANTE E VEDAÇÃO AO ENRIQUECIMENTO
SEM CAUSA POR PARTE DA ADMINISTRAÇÃO PUBLICA — SERVIÇOS
PRESTADOS – DESPROVIMENTO

- A contratação de advogados ou de escritório de advocacia pela Administração Publica


pode ser feita diretamente com arrimo na inexigibilidade de licitação, nos termos do art
25, II da Lei n 8 666/93, desde que, com indicação de fatos devidamente comprovados,
sejam objetivamente demonstradas a singularidade dos serviços advocatícios e a notória
especialização dos advogados Faltando apenas um esses requisitos, necessária se faz a
realização de licitação, sob pena de nulidade do contrato eivado de manifesta
ilegalidade.

- A confiança é um elemento subjetivo incompatível com o procedimento licitatório


regido pelo princípio do julgamento objetivo, mas não é suficiente para caracterizar a
singularidade do serviço advocatício.

iii) 200.2004.060.951-9 / 003

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 4ª Câmara Cível

Ementa:

CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO - APELAÇÃO — LICITAÇÃO —


OBRIGATORIEDADE - INEXIGIBILIDADE - EXCEPCIONALIDADE —
78
SOCIEDADE DE ADVOGADOS — NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO —
COMPROVAÇÃO - SINGULARIDADE DO OBJETO — INOBSERVÂNCIA —
CONTRATAÇÃO GENÉRICA — SERVIÇO DE FORMA CONTINUADA —
NULIDADE DO CONTRATO — PREJUÍZOS — AUSÊNCIA — HONORÁRIOS
ADVOCATÍCIOS — CARÁTER ALIMENTAR - PROVIMENTO PARCIAL.

- A nossa Carta Política de 1988 incluiu, dentre os princípios básicos e orientadores da


Administração Pública, o princípio da moralidade e da impessoalidade, que tem como
significado a necessidade do administrador observar os preceitos éticos em sua atuação
dentro da Administração, vedando, ainda, o tratamento desigual de administrados em
semelhante situação.

- Na inexigibilidade da licitação, o certame queda-se impossível por impedimento


relativo ao bem que se deseja adquirir, à pessoa que se quer contratar ou com quem se
quer contratar. Torna-se inviável a contenda, tendo em vista que um dos competidores
reúne qualidades exclusivas, tolhendo os demais pretensos participantes.

- Para contratação de sociedade de serviços técnicos sem licitação, há necessidade de


observar três condições: a enumeração do serviço no art. 13 da Lei n° 8.666/93;
natureza singular do • serviço e a notória especialização do profissional.

- A contratação de sociedade de advogados para prestação de serviços de assessoria e


consultoria jurídica, sem exclusividade de partes, é serviço genérico, portanto, deve ser
precedido de licitação.

iv) 200.2004.030641-3/001.

(Ação de Improbidade Administrativa)

Órgão julgador: 4ª Câmara Cível

Ementa:

APELAÇÕES CÍVEIS. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO


DIRETA DE ADVOGADO (INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO).
SINGULARIDADE E EXCEPCIONALIDADE DO TRABALHO NÃO
EVIDENCIADOS. VIOLAÇÃO A PRINCÍPIO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
(ART. 11 DA LEI N° 8.429/92). PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DEMONSTRADO.
PREJUÍZO INEXISTENTE. MAJORAÇÃO DA MULTA CIVIL.
DESCONHECIMENTO DO PRIMEIRO E SEGUNDO APELOS E PROVIMENTO
PARCIAL DO TERCEIRO RECURSO (ART. 557, CAPUT E § 1° -A DO CPC).

1. A jurisprudência do STJ reconhece como ato de improbidade a contratação direta de


advogado (inexigibilidade de licitação) para a prática de atos gerais do foro, por não
haver singularidade ou excepcionalidade do trabalho que inviabilizem a competição,
nos termos do art. 13 e art. 25 da lei n°8.666/93
79
2. Tratando-se de conduta que ofenda a princípio da Administração Pública (art. 11 da
lei 8.429/92), mas não implique em enriquecimento ilícito da parte ou prejuízo ao
erário, a multa civil atende à proporcionalidade e razoabilidade de que deve se revestir a
sentença de improbidade. Precedente.

v) 200.2004.062924-4/002

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 3ª Câmara Cível

Ementa:

AÇÃO CIVIL PÚBLICA. CONTRATO. ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA.


INEXIGIBILIDADE. LEI DE LICITAÇÃO. REQUISITOS. INDEMONSTRADOS.
SENTENÇA. NULIDADE. VALOR. HONORÁRIOS. CONTRAPRESTAÇÃO.
REALIZAÇÃO. DEVOLUÇÃO. DESCABIMENTO. VOLUME DE SERVIÇOS
COMPATÍVEL. REMUNERAÇÃO. RAZOÁVEL. PREÇO DE MERCADO. APELO.
PROVIMENTO DOS RECURSOS.

— A declaração judicial de nulidade de contrato administrativo de prestação de serviços


advocatícios, por não se enquadrar na hipótese de inexigibilidade prevista na legislação
de regência, qualificado de ilícito, cujo preço de honorários pactuado estaria abaixo da
tabela fixada pela OAB, considerando o volume maior de serviços prestados, como está
demonstrado nos autos, e sem impugnação, é considerado indevido o ressarcimento dos
valores percebidos, sob pena de enriquecimento sem causa em favor da Administração
Pública.

vi) 0002067-85.2009.815.0241

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 4ª Câmara Cível

Ementa:

REMESSA OFICIAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA. IMPROCEDÊNCIA. LICITAÇÃO. CONTRATAÇÃO DE
SERVIÇOS TÉCNICOS DE ADVOCACIA E CONTADORIA. INEXIGIBILIDADE.
ART. 25, lI, DA LEI Nº 8.666/93. INEXISTÊNCIA DE DANO AO ERÁRIO.
80
VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. ART. lI,
CAPUT, DA LEI Nº 8.429/92. DESCABIMENTO; DOLO AUSENTE. ATO DE
IMPROBIDADE. NÃO CONFIGURAÇÃO. MANUTENÇÃO DA SENTENÇA.
DESPROVIMENTO DA REMESSA

vii) 2004.0103 .88-8

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 2ª Câmara Cível

Ementa:

ADMINISTRATIVO. Ação civil publica. Contrato de prestação de serviço técnico na


área de licitações, celebrado com advogado. Licitação. Ausência do requisito da
especialização profissional. Contrato desconstituído. Ação procedente.

A exceção à obrigatoriedade de licitação, no caso de contratação de serviços técnicos


profissionais especializados, tem em mira tão-somente os serviços em que se exigem do
executor, além de sua habilitação técnica e profissional, conhecimentos profundos e alta
técnica, em sua área de • atuação. Essa regra não se aplica quando o serviço não
apresenta as características da especialidade e singularidade, exigidas para o caso de
inexigibilidade.

viii) 0001954-34.2009.815.0241

(Ação de Improbidade Administrativa)

Órgão julgador: 4ª Câmara Cível

Ementa:

IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO.


CONTRATAÇÃO DE ASSESSORIA JURÍDICA E CONTÁBIL. SINGULARIDADE
NÃO DEMONSTRADA. INFRAÇÃO À LEI 8.666/93. DISPENSA DE LICITAÇÃO.
PRAZO QUE CONTRATAÇÃO VAI ALÉM DO ANOTADO POR LEI (180 DIAS).
ART. 10, VIII. AUSÊNCIA DE PROVA DE PREJUÍZO AO ERÁRIO.
NECESSIDADE. IMPROBIDADE NÃO CONFIGURADA. INFRAÇÃO AOS
PRINCÍPIOS DA ADMINISTRAÇÃO. ART. 11. DOLO GENÉRICO NÃO
DEMONSTRADO. DESPROVIMENTO DO RECURSO.

81
“Nas contratações da Administração Pública, a regra é a realização de prévia licitação.
Os casos de dispensa e inexigibilidade são exceções e exigem justificativa
fundamentada do gestor público. Art. 333 do CPC não violado.”

ix) 200.2004.024392-1/001

(Habeas Corpus)

Órgão julgador: Câmara Criminal

Ementa:

HABEAS CORPUS. CONTRATO ADMINISTRATIVO - CELEBRAÇÃO SOB O


CRITÉRIO DE INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO - DENÚNCIA -
RECEBIMENTO - PRETENDIDO O TRANCAMENTO DA AÇÃO • PENAL.
ALEGADA A ATIPICIDADE DA CONDUTA. SINGULARIDADE DO SERVIÇO
INVIABILIDADE DE COMPETIÇÃO. REGULARIDADE CONVALIDADA PELO
TRIBUNAL DE CONTAS - INEXISTÊNCIA DE CRIME - AUSÊNCIA DE JUSTA
CAUSA. CONCESSÃO DA ORDEM - TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL.

- Se os autos ressaltam, de maneira cristalina, a regularidade da inexigibilidade de


licitação na contratação dos serviços advocatícios em questão, inclusive, com respaldo
do Tribunal de Contas deste Estado e da Secretaria de Controle da Despesa Pública, que
não identificaram qualquer ilicitude administrativa e contábil, não se justifica a ação
penal movida contra o paciente por não haver prime, nem mesmo em tese. –

Sendo atípica a conduta imputada ao paciente, resta imperioso determinar o trancamento


da ação penal, ante a flagrante ausência de justa causa.

x) 200.2005.038110-8 / 001

(Habeas Corpus)

Órgão julgador: Câmara Criminal

Ementa:

HABEAS CORPUS — DENÚNCIA — CONTRATAÇÃO DE ADVOGADO —


INEXIGÊNCIA DE CERTAME LICITATÓRIO — CORRUPÇÃO PASSIVA —

82
DELITOS INDEMONSTRADOS — TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL —
ORDEM CONCEDIDA.

A contratação de advogado de notória especialização para prestar assessoria jurídica ao


ente público prescinde de licitação, a teor dos arts. 13, III e V, e 25, § 1°, da Lei n. .
8.666/93, até porque não há critérios objetivos que permitam discriminar este ou aquele
advogado, delegando-se ao gestor da coisa pública, à luz do seu poder discricionário, o
direito de escolha sobre o profissional de sua confiança.

Por outro lado, firmada a denúncia em vaga suspeita, e, assim, não demonstrada
qualquer vinculação entre o contrato de prestação de serviços advocatícios formalizado
com o ente público estadual e o exercício da função pública do agente, inexiste,
também, o delito de corrupção passiva.

16) Tribunal de Justiça do Paraná

i) 1.094.296-0

(Ação Popular)

Órgão julgador: 4ª Câmara Cível

Ementa:

REEXAME NECESSÁRIO ­ AÇÃO POPULAR ­ CONTRATAÇÃO SEM


LICITAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA PARA ELABORAÇÃO DE
EDITAL DE CONCORRÊNCIA PÚBLICA, OBJETIVANDO A CONCESSÃO DOS
SERVIÇOS DE TRANSPORTE COLETIVO NO MUNICÍPIO DE UNIÃO DA
VITÓRIA ­ INSURGÊNCIA DO REQUERENTE QUANTO À LEGALIDADE DO
PROCEDIMENTO - SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO ­
INCENSURABILIDADE DA POSTURA A QUO - HIPÓTESE DOS AUTOS SE
ENQUADRA NO CONCEITO DE INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO ­ ARTIGO
25, II DA LEI Nº 8.666/93 ­ NECESSIDADE DE CONTRATAR ESCRITÓRIO COM
NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO EM DIREITO ADMINISTRATIVO, O QUAL
INCLUSIVE ELABOROU O OBJETO LICITADO SEM QUALQUER
REMUNERAÇÃO PELO SERVIÇO PRESTADO ­ SENTENÇA MANTIDA EM
SEDE DE REEXAME NECESSÁRIO.

83
ii) 1.186.970-8

(Ação de Improbidade Administrativa)

Órgão julgador: 5ª Câmara Cível

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO ADMINISTRATIVO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA.


IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO
ADVOCATÍCIO COM DISPENSA DE LICITAÇÃO. AUSÊNCIA DAS
CONDIÇÕES NECESSÁRIAS PARA A CONTRATAÇÃO DIRETA.
ILEGALIDADE. VIOLAÇÃO DO ARTIGO 25, INCISO II E ART. 13 DA LEI Nº
8.666/1993. SINGULARIDADE DO OBJETO E NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO
NÃO DEMONSTRADOS. CONFIGURAÇÃO DE IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA. CONDUTA TIPIFICADA NO ARTIGO 11 DA LEI Nº
8.429/1992. VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS QUE REGEM A ADMINISTRAÇÃO
PÚBLICA. RESSARCIMENTO DO VALOR CONTRATO ILEGAL.
IMPOSSIBILIDADE. SERVIÇOS QUE JÁ FORAM PRESTADOS. VEDAÇÃO DO
ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA. RECURSO DE APELAÇÃO PARCIALMENTE
PROVIDO.

- Ação Rescisória não é matéria completamente distante do quotidiano da prática


advocatícia, ausente portanto a natureza singular do objeto contratado. - Não se mostra
razoável a conclusão de que o escritório do apelado seria o único capaz de desempenhar
tal serviço a contento.

iii) 785.287-5

(Ação Popular)

Órgão julgador: 4ª Câmara Cível

Ementa:

DIREITO ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÕES CÍVEIS E


RECURSO ADESIVO. AÇÃO POPULAR. CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS
ADVOCATÍCIOS SEM LICITAÇÃO. PRELIMINAR DE DESERÇÃO, ARGUIDA
EM CONTRARRAZÕES, AFASTADA. PREJUDICIAL DE NULIDADADE DA
SENTENÇA REJEITADA. VALOR CONTRATADO. MENÇÃO APROXIMADA
DO MONTANTE ATUALIZADO PELA SENTENÇA QUE NÃO CARACTERIZA
NULIDADE POR OFENSA AO DEVIDO PROCESSO LEGAL, AO
CONTRADITÓRIO E À AMPLA DEFESA. OFENSA AO ARTIGO. 93, IX DA
CONSTITUIÇÃO FEDERAL INOCORRENTE. JULGAMENTO POR PRESUNÇÃO
NÃO CONFIGURADO. MÉRITO. CONTRATAÇÃO ILEGAL. INEXIGIBILIDADE
DE LICITAÇÃO. CASOS EXCEPCIONAIS. QUATRO QUEIXAS-CRIME E DUAS
AÇÕES DE INDENIZAÇÃO. AUSÊNCIA DE SINGULARIDADE. RECURSO
ADESIVO. SERVIÇOS EFETIVAMENTE PRESTADOS. DIREITO AO
RECEBIMENTO DE PARTE DOS VALORES ACORDADOS, SOB PENA DE

84
ENRIQUECIMENTO ILÍCITO. APELOS DESPROVIDOS. RECURSO ADESIVO
DESPROVIDO.

iv) 462.971-8

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 5ª Câmara Cível

Ementa:

AÇÃO CIVIL PÚBLICA - IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA –


CONTRATAÇÃO DE ADVOGADO – INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO –
AUTORIZAÇÃO LEGAL – SINGULARIDADE DOS SERVIÇOS – NOTÓRIA
ESPECIALIZAÇÃO – INOCORRÊNCIA DE MÁCULA E MÁ-FÉ – IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA NÃO CARACTERIZADA – APELO NÃO PROVIDO.

Por conta de expressa autorização legislativa, é inexigível a licitação quando singular o


objeto da contratação, e notória a especialização do contratado.

A natureza prolixa das matérias, envolvendo ramos diversos da ciência, induz


reconhecer a singularidade dos serviços; quanto à notória especialização, decorre muito
mais da experiência prática reconhecida, do que possam atestar os títulos acadêmicos.

A contratação de advogado, em tais hipóteses, envolve serviços de natureza


personalíssima o que, de per si, autoriza concluir inexigível a licitação, excetuadas as
hipóteses de administração de questões singelas ou recorrentes no meio judiciário,
inocorrentes no caso.

Caracterizada a hipótese de inexigibilidade da licitação, não há improbidade


administrativa no ato de contratação.

v) 471.810-9

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 5ª Câmara Cível

Ementa:

85
APELAÇÕES CÍVEIS. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. ATOS DE IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS DE ADVOCACIA POR
PARTE DO MUNICÍPIO SEM LICITAÇÃO. FUNDAMENTO PELA
INEXIGIBILIDADE DO CERTAME EM FACE DA INVIABILIDADE DE
COMPETIÇÃO, SINGULARIDADE DOS SERVICOS A SEREM PRESTADOS E
NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO DO ADVOGADO CONTRATADO. DEMANDAS
QUE ENVOLVIAM REVISÃO DE CONTRATOS DE ANTECIPAÇÃO DE
RECEITAS ORÇAMENTÁRIAS. PUBLICAÇÃO EXTEMPORÂNEA DO
EXTRATO DO CONTRATO CELEBRADO ENTRE O PROFISSIONAL E A
ADMINISTRAÇÃO. PAGAMENTO DE PARTE DOS HONORÁRIOS REALIZADO
ANTES DA EMISSÃO DE EMPENHO. SENTENÇA PELA IMPROCEDÊNCIA DA
DEMANDA, SEM CONDENAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO EM VERBAS
SUCUMBENCIAIS.

vi) 572.592-2

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 4ª Câmara Cível

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA PARA
PRESTAÇÃO DE SERVIÇO COM DISPENSA DE LICITAÇÃO. NÃO
COMPROVAÇÃO DA NATUREZA SINGULAR DO SERVIÇO. SERVIÇO QUE
NÃO EXIGIA NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO. AUSÊNCIA DE JUSTIFICATIVA
DE INEXIGIBILIDADE OU DISPENSA DO PROCEDIMENTO.
DESNECESSIDADE DE TERCEIRIZAÇÃO DO SERVIÇO. OBJETO DO
CONTRATO PERTINENTE À ATIVIDADE PRÓPRIA E PROSAICA DOS
SERVIÇOS JURÍDICOS INTERNOS DO EXECUTIVO. ILEGALIDADE DO ATO
PRATICADO PELO EX- PREFEITO. DEVER DE RESSARCIR O ERÁRIO E
NECESSIDADE DE REPRIMIR O ILÍCITO. DESVIO DE FINALIDADE LESIVO
AO PATRIMÔNIO. IMPOSIÇÃO DE RESSARCIMENTO E MULTA
CONFIRMADA. RECURSO CONHECIDO E NÃO PROVIDO.

vii) 1201070- 1

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 4ª Câmara Cível

86
Ementa:

DIREITO ADMINISTRATIVO. CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS


POR MEIO DE PROCEDIMENTO DE INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO.
VIOLAÇÃO À LEI DE LICITAÇÕES (LEI Nº 8.666/93, ART. 25).

a) Destaca-se que para caracterizar a situação prevista no artigo 25, inciso II, da Lei nº
8.666/1993 é necessário que haja inviabilidade de competição, bem como a
comprovação da natureza singular do serviço técnico e a notória especialização do
profissional.

b) A contratação de Advogado por procedimento de inexigibilidade de licitação, quando


ausente a demonstração de inviabilidade de competição, a singularidade do objeto
contratado e a notória especialização do prestador, configura violação do artigo 25,
inciso II, da Lei nº 8.666/1993.

c) No caso, não se verifica a existência de apenas um profissional que atendesse a


necessidade da Administração, logo inexistente, o requisito de inviabilidade de
competição, nem mesmo se verifica a singularidade do objeto na medida em que o
objeto da contratação diz respeito à matéria ordinariamente demandada na
administração pública, eis que se refere à defesa do ente municipal em Ação Civil
Pública ajuizada em que se discute a nulidade ou não de Concurso Público.

d) Ademais, do exame dos documentos juntados aos autos, verifica-se que os Réus não
lograram demonstrar a notória especialização do Advogado contratado, que sequer
possui o grau de especialista em qualquer ramo do Direito.

e) Portanto, ausentes a demonstração de inviabilidade da competição, bem como da


singularidade do serviço e a notória especialização, condições estas necessárias para a
inexigibilidade de licitação (artigo 25, inciso II, da Lei nº 8.666/1993), resta
configurada, de modo consciente, a ilegalidade das contratações celebradas.

17) Tribunal de Justiça de Pernambuco

i) 0010093-91.2011.8.17.0000

(Ação de Improbidade Administrativa)

Órgão julgador: 2ª Câmara de Direito Público

Ementa:

87
AGRAVO DE INSTRUMENTO. PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO.
IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA.

1. O só fato de o Tribunal de Contas ter julgado improcedente denúncia formulada com


base nos mesmos fatos objeto da presente ação não implica, necessariamente, na
inexistência de ato de improbidade imputável ao ora agravante, embora essa
circunstância constitua elemento relevante a ser devidamente sopesado nesta esfera
judicial, à vista das razões de fato e de direito ali esposadas para se concluir pela
inexistência de irregularidade (visto que, como cediço, a atividade jurisdicional atua de
modo independente da instãncia administrativa). Precedentes.

2. Por outro lado, uma vez transitada em julgado decisão proferida na esfera penal, as
condutas apontadas como ímprobas e subsumidas ao tipo penal encartado no art. 89 da
Lei de Licitações não mais podem ser qualificadas de antijurídicas nesta esfera civil. 3.
Assim, a ação de improbidade em lume não tem condições de ser processada em relação
às condutas tipificadas no art. 10, VIII, da LIA ("frustrar a licitude de processo
licitatório ou dispensá-lo indevidamente).

4. Todavia, a inicial reporta condutas outras que, mesmo reconhecida a legitimidade da


inexigibilidade de licitação para a contratação de serviços jurídicos, são passíveis, em
tese, de enquadramento nos incisos I e XII do art. 1 O da LIA.

5. Nessa perspectiva, anota-se que, no campo das ilegalidades alegadamente praticadas


pelo escritório contratado no âmbito do procedimento administrativo de constituição
dos créditos tributários atinentes a ISS/ leasing, não se visualizou conduta diretamente
imputada (ou imputável) ao ora agravante, na qualidade de então Prefeito, razão pela
qual a esse título não se tem base indiciária miníma a legitimar o processamento de ação
de improbidade (sob pena de admitir-se processo por uma sabidamente inexistente
responsabilidade objetiva).

6. Destarte, no que tange à remuneração dos serviços contratados, tem-se que o modelo
contratual adotado, conjugado aos termos do Decreto Municipal no 122, de 20.12.2007,
admitia o levantamento de honorários com base em decisões judiciais precárias.

7. Desse modo, os profissionais contratados poderiam ser remunerados definitivamente


por um "êxito" apenas transitório (como terminou por ocorrer com os mesmos
advogados contratados, atuando para Municípios outros). 8. Uma relevante
circunstância fática, porém, conduz a afastar, de plano, a presença na espécie dos
elementos volitivos pressupostos à improbidade, quais sejam o dolo (pelo menos
genérico) e a culpa (no caso dos tipos encartados no art. 10 da LIA).

9. Trata-se do fato de que, na época, dezenas de Municípios pemambucanos realizaram


contratos similares com o mesmo escritório de advocacia, o que ensejou a propositura
de centenas de execuções fiscais municipais para de cobrança de ISS/ leasing a
instituições financeiras, execuções essas derivadas de procedimentos administrativos
inexistentes ou eivados de nulidades gritantes (valendo citar, a titulo meramente
exemplificativo, pelo menos 45 outros Municípios que celebraram contratos similares,
com os mesmos advogados).

88
10. Essa circunstância de os gestores municipais terem atuado em onda atenua eventual
negligência para com tais contratações, no que tange à cláusula de remuneração.

11. No caso de Caruaru, vale acrescer que o contrato assinado pelo ora agravante não
chegou a gerar nenhuma transferência provisória de recursos para os cofres municipais,
nem tampouco nenhum pagamento para os advogados contratados.

12. Objetivamente, portanto, o contrato em tela não causou prejuízos aos cofres
públicos nem propiciou o enriquecimento ilícito de terceiros, de modo que a ação de
improbidade é de ser também liminarmente recusada em relação às condutas em tese
passíveis de enquadramento no art. 10, caput, incisos I e XII, da Lei de Improbidade
Administrativa. 13. Agravo de Instrumento provido, em ordem a extinguir a Ação de
Improbidade NPU 0002609-7 4.2010.8.17 .0480, em relação ao ora agravante Antônio
Geraldo Rodrigues da Silva.

ii) 0010204-75.2011.8.17.0000

(Ação de Improbidade Administrativa)

Órgão julgador: 8ª Câmara Cível

Ementa:

PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. AGRAVO DE INSTRUMENTO.


AÇÃO DE IMPROBIDADE. CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE
ADVOCACIA. INADEQUAÇÃO DE CONDUTA TÍPICA. PRECEDENTES DO STJ.
RECURSO PROVIDO. AÇÃO TRANCADA EM RELAÇÃO AO AGRAVANTE.

1. A Lei no 8.429/92 cuida dos atos de improbidade administrativa praticados por


agente público, servidor ou não, contra o Poder Público nas três esferas de Governo.

2. Para que se configure o ato de disciplinado pela norma de regência são necessárias a
concretização de três elementos, quais sejam, sujeitos ativo e passivo e, ainda,
ocorrência de ato que importe em enriquecimento ilícito, em prejuízo ao Erário Público
e, por fim, de improbidade que atentam contra os princípios da Administração Pública,
o que não se observa materializado no caso concreto, a justificar a admissão do processo
pioneiro.

3. Registrou-se, ainda, que em se tratando de contratos em que se levou em


consideração a confiança e ainda a natureza dos serviços a serem prestados, justifica-se
a inexigibilidade de licitação, nos termos dos art. 25, II, c/ c art. 13, V, ambos da Lei n°
8.666/93, na linha dos precedentes do STJ citados. 4. Agravo instrumental provido
para, em efeito expansivo, trancar a ação de origem em relação ao agravante.

89
iii) 0004401-63.2010.8.17.0480

(Ação de Improbidade Administrativa)

Órgão julgador: 2ª Câmara de Direito Público

Ementa:

EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL EM AÇÃO DE IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DE ADVOGADO MEDIANTE
PROCEDIMENTO DE INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO. INOCORRÊNCIA DE
ATOS DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. IMPROCEDÊNCIA DA
DEMANDA. APELO DESPROVIDO. DECISÃO UNÂNIME.

1. De proêmio, reafirmou-se o entendimento no sentido do descabimento do reexame


necessário em face de sentença de improcedência proferida em sede de ação por ato de
improbidade administrativa.

2. No plano de fundo, tem-se que o Ministério Público Estadual atribui aos demandados
a prática de condutas supostamente ímprobas, decorrentes da contratação do escritório
Washington Amorim Advocacia S/C, mediante procedimento de inexigibilidade de
licitação, muito embora não tenham sido demonstrados os requisitos legais para tanto,
isto a atrair a incidência da Lei Federal nº 8.429/92 (Lei de Improbidade Administrativa
- LIA).

3. Sucede que, na espécie, não há que se cogitar de improbidade administrativa, em


nenhuma das três grandes vertentes estabelecidas na LIA, seja porque não houve
enriquecimento ilícito dos agentes envolvidos, seja porque inocorrente o propalado
prejuízo ao erário, seja, enfim, porque não foram afrontados os princípios regentes da
administração pública.

4. Com efeito, a contratação em comento encontra respaldo em expressa previsão legal


(arts. 13, V, e 25, II, da Lei de Licitações) e destina-se ao patrocínio de causa judicial
com objeto singular, a ser desempenhado exclusivamente pelo advogado contratado
(posto que vedada a subcontratação, isto a revelar a confiança intuitu personae nele
depositada), que goza de notória especialização, ante a demonstração de experiências
positivas junto a outros Municípios.

iv) 0023172-40.2011.8.17.0000

(Ação de Improbidade Administrativa)

90
Órgão julgador: 8ª Câmara Cível

Ementa:

EMENTA: ADMINISTRATIVO. AGRAVO REGIMENTAL. AÇÃO DE


IMPROBIDADE. CONTRATAÇÃO DE ESCRI ÓRIO DE ADVOCACIA COM
DISPENSA DE LICITAÇÃO. APA NTE ADEQUAÇÃO À NORMA DE REGÊNCIA.
PRETENSÃO REST TIVA CONTRATUAL E LEGAL AFASTADAS.
INDEFERIMENTO RA TI ICADO. INTEGRATIVO IMPROVIDO.

1. Não obstante tenha se operado o processo de contratação do escritório agravado por


inexigibilidade de licitação em março de 2006, e a prestação de serviços ocorra desde
fevereiro e 2005, antes mesmo do trânsito em julgado da ação que cobra verbas
excepcionais em benefício do município de origem, consta dos autos proposta de pré-
contrato administrativo de serviços advocatícios, assinado pelas partes interessadas e
datado de fevereiro de 2005, por meio da qual o escritório oferece à municipalidade a
prestação de serviço especializado para a obtenção judicial dos créditos relativos aos
royalties de idos em face da ANP.

2. Com a aceitação deste pré-contrato, sem ônus para o município, o escritório agravado
se responsabilizou pela rescisão do contrato de serviços advocatícios com outro
escritório, desistindo de ação em curso, devidamente homologada pela elaboração e
minuta de legislação municipal disciplinando a disponibilização e créditos de ICMS em
garantia do pagamento de royalties pela ANP pela interposição na Justiça Federal da
competente Ação Declaratória de nulidade de Ato Jurídico, com pedido de Concessão
de Tutela Antecipada (para compensação financeira) e pela busca de prolação de
decisão favorável ao Município, liminar ou de mérito, concedendo a antecipação dos
efeitos da tutela para determinar a manutenção dos critérios de distribuição dos royalties
devidos pelo resultado da exploração de petróleo ou gás natural, sustando, assim, a
eficácia dos atos praticados pela ANP, sob condição "ad exitum" da celebração de
contrato de prestação de serviços de advocacia, com o repasse de vinte por cento sobre o
total d s parcelas repassadas pela ANP em decorrência da prestação jurisdicional obtida
até o trânsito em julgado da sentença ou acórdão definitivo. . Não se visualizou na
cognição inicial qualquer irregularidade no pagamento dos valores levados a efeito pela
municipalidade ao escritório agravado, seja porque tais repasses somente passaram a
ocorrer com a formalização da contratação, por meio de processo de inexigibilidade de
licitação, seja porque a quantia repassada está em conformidade com o contrato
celebrado, representando uma contraprestação pelo serviço realizado e, além disso, o
valor relativo ao repasse dos royalties foi utilizado apenas como parâmetro para a
fixação da contraprestação pelos serviços advocatícios realizados, a qual não deverá s
ressarcida no caso de insucesso na retro mencionada ação.

4. Reconhece-se também não merece prosperar o argumento de que o pagamento


relativo aos honorários somente deveria ocorrer após o trânsito em julgado da sentença,
em razão de o pré-contrato ter se baseado em pacto ad exitum, isto porque a contratação
e o recebimento da verba honor ria condicionaram-se ao cumprimento dos itens
dispostos anteriormente, os quais, conforme demonstrado na vasta documentação deste
recurso, foram devidamente cumpridos, sendo assim devida a contraprestação pactuada.
5. Anotou-se que em momento algum o prefeito e o escritório agravados dispuseram
que o pagamento dos honorários estariam condicionados ao êxito, com o trânsito em
91
julgado da ação proposta contra a NP, pois, desta forma, o município estaria
enriquecendo ilicitamente, tendo em vista a efetiva prestação do serviço pactuado,
atualmente com êxito em duas instâncias.

6. Restou assente que a inexigibilidade da licitação, nos termos do art. 25, II, da Lei n°
8.666/93, pressupõe a presença concomitante dos seguintes requisitos: a) serviço
técnico listado no art. 1 , da Lei n° 8.666/93; b) profissional (pessoa física) ou empresa
de n tória especialização; e c) natureza singular do serviço a ser prestado, requisitos
presentes no caso concreto, pois o art. 13, V, da Lei n° 8.666/93, prevê como serviço
singular o patrocínio ou defesa de causas judiciais ou administrativas, e no contrato
preliminar restou demonstrada a notória especialização do escritório nas causas relativas
à obtenção judicial dos royalties devidos ao município pela ANP, com a indicação de
desempenho anterior satisfatório e, por fim, observa-se a indispensabilidade da
prestação serviço ante a necessária propositura de nova ação, devidamente
fundamentada, para a obtenção dos valores pretendidos. improvimento do agravo
regimental, não se considerando malferidos os arts. 62 e 63, § 2°, III, da Lei n°
4.320/64; 10, I, II e XI, e 16, § 2°, da Lei n° 8.429/92; 25 e 26 da Lei n° 8.666/93, e 1°,
e 1°, § 4o , VI, da LC n° 105/2001.

18) Tribunal de Justiça do Piauí

i) 2012.0001.002199-6

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 3ª Câmara Especializada Cível

Ementa:

Agravo de Instrumento. Pedido de assistência da Ordem dos Advogados do Brasil,


Indeferido. Liminar na Ação Civil Pública por ato de improbidade. Bloqueio de bens e
valores. Contratação direta de serviços advocatícios pelo Município. Inexigibilidade de
licitação. Especialidade do contratado e singularidade do serviço a ser prestado.
Requisitos que devem ser aferidos em cognição exauriente. Fumaça do bom direito
inexistente. Recurso conhecido e provido.

1. Inicialmente, afasto o pedido de assistência da Ordem dos Advogados do Brasil, pois


inexiste potencialidade da decisão repercutir sobre sua esfera jurídica, não havendo que
se falar em interesse jurídico a que alude o CPC, no art. 50, tampouco interesse
institucional.

92
2. No caso específico dos autos, a decisão impugnada ao decretar a indisponibilidade
dos bens dos agravantes, restou por confundir o património destes com o da sociedade
de advogados, desconsiderando, assim, a personalidade jurídica da mesma e atribuindo
responsabilidade diretamente aos agravantes pelos supostos danos causados ao erário, o
que não pode prevalecer.

3. Acrescente-se que, não há qualquer indício de que a empresa, se eventualmente


condenada, não poderá suportar com os encargos que lhe serão atribuídos, além do que
o fato dos agravantes serem sócios do escritório de advocacia contratado pelo Município
de Paulistana não tem o condão de transferir a responsabilidade pelos atos de
improbidade supostamente praticados pela sociedade de advogados.

4. Num cotejo das provas apresentadas na inicial da ação de improbidade com as


juntadas no presente recurso, verifica-se a necessidade de análise judicial mais
aprofundada do contrato de prestação de serviços firmado entre a sociedade de
advogados e o Município de Paulistana, pois qualquer conclusão sobre a legalidade

ou não da inexigibilidade de licitação nesta via levará à supressão de instância e,


consequentemente, ao desprestígio das garantias constitucionais do contraditório e da
ampla defesa.

5. O alcance cautelar do património do agente público apontado como ímprobo não se


dissocia da resolução do mérito, razão pela qual o interesse público primário e difuso de
combate à improbidade administrativa não pode afastar as garantias constitucionais do
devido processo legal e do contraditório.

6. A conduta tipificada pelo Ministério Público na ação civil pública exige uma prévia
análise, ao menos superficial, da presença cumulativa dos requisitos insertos no inciso li
e §1° do art. 25 da Lei n° 8.666/93, quais sejam, a especialidade do contratado e a
singularidade do serviço a ser prestado.

7. A fumaça do bom direito inexiste, pois numa análise preliminar do contrato firmado
não há como concluir que a pessoa jurídica, da qual integram os sócios recorrentes, está
sendo gerida de maneira fraudulenta por eles, sem outras provas que robusteçam a
presença ou não da conduta tipificada como ímproba pelo órgão ministerial.

8. Agravo de Instrumento conhecido e, no mérito, parcialmente provido para determinar


o desbloqueio dos bens da parte agravante.

ii) 2012.0001.002331-2

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 3ª Câmara Especializada Cível

Ementa:

93
Agravo de Instrumento. Pedido de assistência da Ordem dos Advogados do Brasil,
Indeferido. Liminar na Ação Civil Pública por ato de improbidade. Bloqueio de bens e
valores. Contratação direta de serviços advocatícios pelo Município. Inexigibilidade de
licitação. Especialidade do contratado e singularidade do serviço a ser prestado.
Requisitos que devem ser aferidos em cognição exauriente. Fumaça do bom direito
inexistente. Recurso conhecido e provido.

1. Inicialmente, afasto o pedido de assistência da Ordem dos Advogados do Brasil, pois


inexiste potencialidade da decisão repercutir sobre sua esfera jurídica, não havendo que
se falar em interesse jurídico a que alude o CPC, no art. 50, tampouco interesse
institucional.

2. No caso específico dos autos, a decisão impugnada ao decretar a indisponibilidade


dos bens dos agravantes, restou por confundir o património destes com o da sociedade
de advogados, desconsiderando, assim, a personalidade jurídica da mesma e atribuindo
responsabilidade diretamente aos agravantes pelos supostos danos causados ao erário, o
que não pode prevalecer.

3. Acrescente-se que, não há qualquer indício de que a empresa, se eventualmente


condenada, não poderá suportar com os encargos que lhe serão atribuídos, além do que
o fato dos agravantes serem sócios do escritório de advocacia contratado pelo Município
de Paulistana não tem o condão de transferir a responsabilidade pelos atos de
improbidade supostamente praticados pela sociedade de advogados.

4. Num cotejo das provas apresentadas na inicial da ação de improbidade com as


juntadas no presente recurso, verifica-se a necessidade de análise judicial mais
aprofundada do contrato de prestação de serviços firmado entre a sociedade de
advogados e o Município de Paulistana, pois qualquer conclusão sobre a legalidade

ou não da inexigibilidade de licitação nesta via levará à supressão de instância e,


consequentemente, ao desprestígio das garantias constitucionais do contraditório e da
ampla defesa.

5. O alcance cautelar do património do agente público apontado como ímprobo não se


dissocia da resolução do mérito, razão pela qual o interesse público primário e difuso de
combate à improbidade administrativa não pode afastar as garantias constitucionais do
devido processo legal e do contraditório.

6. A conduta tipificada pelo Ministério Público na ação civil pública exige uma prévia
análise, ao menos superficial, da presença cumulativa dos requisitos insertos no inciso li
e §1° do art. 25 da Lei n° 8.666/93, quais sejam, a especialidade do contratado e a
singularidade do serviço a ser prestado.

7. A fumaça do bom direito inexiste, pois numa análise preliminar do contrato firmado
não há como concluir que a pessoa jurídica, da qual integram os sócios recorrentes, está
sendo gerida de maneira fraudulenta por eles, sem outras provas que robusteçam a
presença ou não da conduta tipificada como ímproba pelo órgão ministerial.

8. Agravo de Instrumento conhecido e, no mérito, parcialmente provido para determinar


o desbloqueio dos bens da parte agravante e indeferir assistência da OAB.
94
iii) 2012.0001.002331-2

(Ação Cautelar Inominada)

Órgão julgador: 1ª Câmara Especializada Cível

Ementa:

ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO CAUTELAR INOMINADA.


CONTRATAÇÃO DE ADVOGADO SEM LICITAÇAO. DECISAO AGRAVADA
DETERMINANDO A SUSPENSÃO DE PAGAMENTOS REALIZADOS PELO
MUNICÍPIO E BLOQUEIO DE VALORES JÁ EMPENHADO E QUE SE
DESTINAM A MESMA FINALIDADE. POSSIBILIDADE E INEXIGIBILIDADE.
AUSÊNCIA DE PROVA NOTORIA ESPECIALIZAÇAO E DA SINGULARIDADE
DO SERVIÇO PRESTADO. PARTICULARIDADES DO CASO CONCRETO QUE
AFASTAM A SIMILITUDE FATICA JURÍDICA. DECISÃO MANTIDA. AGRAVO
IMPROVIDO À UNANIMIDADE.

19) Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro

i) 0008230-76.2009.8.19.0045

(Ação Popular)

Órgão julgador: 18ª Câmara Cível

Ementa:

AGRAVO INTERNO. Decisão do relator que negou seguimento ao recurso de apelação


interposto pelo ora agravante, mantendo a sentença recorrida por seus próprios
fundamentos. Ação Popular. Fundada na existência de indícios de irregularidade no
processo de contratação direta - pautada em alegação de inexigibilidade de licitação - de
empresa para prestação de serviços técnicos profissionais especializados em assessoria e
consultoria visando a obtenção, o aumento ou a recuperação dos royalties devidos pelas
sociedades concessionárias em razão das atividades de exploração e produção de
petróleo e gás natural. Ação cujo objeto é idêntico àquele discutido nos processos nºs
0009038-47.2010.8.19.0045 e 0009045-39.2010.8.19.0045, ambos já julgados por esta

95
relatoria, com confirmação da decisão pelo Colegiado da 18ª Câmara Cível. Matéria que
- definição das zonas que dão direito ao ente público a receber royalties - revela singular
complexidade, não tendo restado demonstrado cabalmente que o próprio corpo jurídico
do Município de Resende tivesse condições de realizar o trabalho que foi contratado
com a Petrobonus, nem de que seria exigível a licitação, dada a singularidade do
serviço. Especialização que não é comumente encontrada em escritórios de advocacia
em geral e tampouco em Procuradorias de Municípios de pequeno porte. Fatores que
tornam correta a dispensa da licitação pela notória especialização da contratada,
afastando a alegação de prática de ato de improbidade administrativa. Contratação
precedida de parecer do Procurador Geral do Município, que noticia que os serviços
compreenderiam o planejamento e avaliação do potencial de recuperação, mediante
levantamento in loco no Município, a apresentação de requerimento administrativo
junto à Agência Nacional de Petróleo e o acompanhamento do respectivo processo
administrativo. Remuneração condicionada ao resultado e à proporcionalidade do
benefício auferido, circunstância hábil a afastar eventual prejuízo ao erário público.
Documentação acostada aos autos que comprova que os serviços profissionais em
questão são de natureza eminentemente técnica especializada, restando enquadrados no
art. 13, incisos I (estatutos técnicos), II (pareceres, perícias e avaliações em geral), III
(assessorias ou consultorias) e V (patrocínio ou defesa de causas administrativas), da
Lei nº 8.666/93. Decisão de segundo grau que analisou correta e adequadamente a
matéria. RECURSO A QUE SE NEGA PROVIMENTO.

ii) 0416320-09.2010.8.19.0001

(Ação de Improbidade Adminsitrativa)

Órgão julgador: 3ª Câmara Cível

Ementa:

Apelação Cível. Ação de improbidade administrativa manejada pelo Ministério Público


em face dos ora apelantes, por supostas ilegalidades na contratação de advogado pela
edilidade para patrocinar a defesa, em Juízo, de ex-Prefeito da cidade do Rio de Janeiro
em ações populares e ações civis públicas. Preliminares de violação à ampla defesa,
nulidade da sentença, ilegitimidade passiva e incompetência absoluta do Juízo de
primeira instância rejeitadas. Alegação de questão Prejudicial de inconstitucionalidade.
Município do Rio de Janeiro que ofertou apelação alegando, como um dos principais
pontos, o interesse na verificação da compatibilidade do alegado Decreto com a ordem
constitucional, uma vez que a decisão traz reflexos diretos para a municipalidade que se
utiliza dos mandamentos do ato normativo para contratar advogados para a defesa de
seus servidores e autoridades que figuram como réus em processos judiciais. Sentença
que, por sua vez, expressamente consigna ser o Decreto Municipal 20.430/01
flagrantemente inconstitucional, pois, extravasou os limites consignados no artigo 84,
IV da CRFB/88, não regulamentando a fiel execução de uma Lei. Entendeu-se que a Lei
Estadual n. 4.832/2006 não poderia servir de base para a edição do Decreto, a uma
porque os contratos foram firmados em 2004, anteriormente à edição da Lei, e, a duas,
96
pois a referida Lei se refere a autoridades estaduais e não municipais (ex-prefeito).
Possibilidade das Câmaras isoladas reconhecerem a constitucionalidade de atos do
Poder Público. Inexistência de violação ao artigo 97 da CF e Súmula Vinculante n. 10
do C. STF. Como se sabe, o controle de compatibilidade vertical entre a Constituição e
as normas infraconstitucionais se faz por intermédio de dois caminhos, o do controle
concentrado de constitucionalidade, da competência do STF ou dos Tribunais de Justiça
dos Estados, conforme art. 102, I “a” e 125, § 2º da CRFB/88, a depender da natureza
da norma de parâmetro, e ainda o controle difuso, que se concretiza por via incidental,
da competência de todos os órgãos jurisdicionais do País. Assim, não há que se falar em
impossibilidade do Juízo de primeira instância pronunciar-se sobre a questão, até
porque, muitas vezes, o suporte normativo utilizado pelo administrador pode estar
maculado pelo vício da inconstitucionalidade e acaba por ensejar a prática e atos de
improbidade administrativa, questão apreciável nos limites subjetivos da causa,
incidenter tantum. Embora em segundo grau de Jurisdição, a questão não possa ser
apreciada por órgão fracionário do Tribunal de Justiça, na hipótese a causa pode ser
decidida sem a discussão quanto a compatibilidade, até mesmo porque inexiste vestígios
de que o Decreto Municipal tenha extrapolado de forma autônoma no ordenamento
jurídico, pois, a legislação inerente ao tema (Lei 8666/93), norma geral, permite que em
casos determinados nos artigos 17, 24 e 25 seja a licitação afastada. Mérito. As ações
foram patrocinadas por atos praticados pelo prefeito como agente público, sem
envolvimento de interesse pessoal. Os serviços foram efetivamente e exitosamente
prestados, o pagamento foi feito pelo município nos exatos limites da contratação e o
advogado recebeu o que lhe era devido e deu quitação atuando em 27 processos O
prefeito à época agiu de acordo com a lei, amparado na opinião técnica da Procuradoria
do Município e de acordo com a opinião de grandes administrativistas, entre os quais se
destaca o eminente Ministro LUIS ROBERTO BARROSO. Ademais, "a contratação de
serviços de advogado por inexigibilidade de licitação está expressamente prevista na Lei
8.666/93, art. 25, II c/c o art. 13, V" (REsp 1285378/MG, ReI. Ministro CASTRO
MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em 13.03.2012, DJe 28.03.2012), além de que
os honorários fixados em todos os contratos celebrados entre a Prefeitura e o advogado ,
foi nos termos do disposto no art. 334 do Código de Processo Civil, fato notório e,
portanto, que não depende de prova, nunca ultrapassaram o limite a que alude o art. 24,
XI, da Lei 8.666/93. Ressalte-se que a natureza singular dos serviços advocatícios, a
inviabilidade de competição e a notória especialização do profissional, justificam a
dispensa de licitação, o que no caso dos presentes autos são perfeitamente verificáveis
os elementos destacados. Alegado grau de parentesco entre o ex-Prefeito e o Advogado
que não teve qualquer influência na contratação dos serviços. Verifica-se, ainda, que nas
contratações efetuadas estava sempre em jogo o interesse público e não um interesse
puramente particular do prefeito, ou seja, versavam sobre questões de grande relevância
para a municipalidade e em todos os processos administrativos referentes aos contratos
foi registrada a necessidade daquela contratação, tendo o agente público em questão se
comprometido a ressarcir o Erário, integralmente, caso o ato administrativo viesse a ser
julgado ilícito. É tudo o que exige a Lei 8.666/93 para a dispensa de licitação na
contração de serviços advocatícios. Por sua vez, o valor estipulado para cada um dos
serviços advocatícios fixados entre as partes (R$ 8.000,00) é, sem dúvida, baixo, em se
considerando a complexidade de cada uma das causas e a evidente qualificação do
profissional contratado. Quanto a condenação das herdeiras do Advogado à perda dos
direitos políticos, à penalidade de vedação para contratar com o Poder Público ou
receber incentivos fiscais e ao pagamento de multa, também não prospera, uma vez que
as irregularidades aventadas não foram praticadas por elas, bem como que a
97
responsabilidade do herdeiro por ato ímprobo do autor da herança, quando existir, está
limitada ao ressarcimento ao erário de dano por ele causado, nos termos do art. 8º da Lei
nº 8.429/92. Nenhuma lesão o pai das herdeiras causou ao patrimônio publico, nem
enriqueceu ilicitamente e nem passou valores “pseudo” indevidos as suas sucessoras.
Poder Público Municipal que pode contratar escritório de advocacia para a defesa de
servidores e autoridades, pois o Procurador do Estado e do Município não podem
defender estes servidores, uma vez que devem ser fiéis ao interesse público. Inexistência
de atos ímprobos a serem reconhecidos no caso, o que conduz, necessariamente, à
improcedência dos pedidos formulados pelo Ministério Público. Rejeição das
preliminares e provimento dos apelos.

20) Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte

i) 2010.015650-4

(Ação de Improbidade Administrativa)

Órgão julgador: 3ª Câmara Cível

Ementa:

DIREITO ADMINISTRATIVO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA.
DISPENSA DE LICITAÇÃO. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO À LEI 8.666/93, ARTS.
13 E 25. NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO DOS PROFISSIONAIS CONTRATADOS.
CONTRATAÇÃO QUE EXIGE CONFIANÇA. CRITÉRIO SUBJETIVO.
EXECUÇÃO DOS SERVIÇOS CONTRATADOS. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO AO
ERÁRIO. SENTENÇA REFORMADA. APELO CONHECIDO E PROVIDO EM
DISSONÂNCIA COM O PARECER MINISTERIAL. PRECEDENTES.

* A contratação de serviços de advogado por inexigibilidade de licitação está


expressamente prevista na Lei 8.666/93, arts. 25, II e 13, V. (REsp 726.175/SP, Rel.
Ministro Castro Meira, Segunda Turma, julgado em 22/02/2011, DJe 15/03/2011)

ii) 2011.001221-2

(Ação Civil Pública)

98
Órgão julgador: 2ª Câmara Cível

Ementa:

DIREITO CONSTITUCIONAL. ADMINISTRATIVO. PROCESSUAL CIVIL.


APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA SEM
PROCEDIMENTO LICITATÓRIO. INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO.
ARTIGOS 13, INCISO V, E 25, II, AMBOS DA LEI Nº 8.666/93. REQUISITOS DA
NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO DOS PROFISSIONAIS CONTRATADOS E
SINGULARIDADE DO OBJETO DEVIDAMENTE ATENDIDOS. CONTRATAÇÃO
REGULAR. SERVIÇOS EFETIVAMENTE PRESTADOS. NÃO CONFIGURAÇÃO
DO DOLO. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS DA ADMINISTRAÇÃO
PÚBLICA. REFORMA DA SENTENÇA. CONHECIMENTO E PROVIMENTO DO
APELO.)

21) Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul

i) 0133030­05.2015.8.21.7000

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 2ª Câmara Cível

Ementa:

IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. PREFEITO. SOCIEDADE DE


ADVOGADOS. CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE ADVOCACIA.
LICITAÇÃO. INEXIGIBILIDADE. NULIDADE. PARECER.

1. Inexistindo singularidade do objeto e notória especialização do profissional ou


escritório de advocacia contratado para prestar serviços de advocacia de forma genérica,
é ilegal a contratação sem licitação por alegada inexigibilidade. Jurisprudência do STJ.
É nula, portanto, a contratação sem licitação de sociedade de advogados para execução
de serviços que não ostentam singularidade porque genéricos e ordinários. Tendo sido
prestados os serviços, não procede o pedido de restituição do preço pago.

2. Não pratica ato de improbidade administrativa o Prefeito que celebra, ao arrepio da


Lei nº 8.666/93, contrato de prestação de serviços de advocacia sem licitação precedido
de parecer da Procuradoria Geral do Município pela legalidade da contratação por se

99
tratar de hipótese de inexigibilidade de licitação. Hipótese em que a inicial não imputa
ao então Procurador Geral a prática de ilegalidade.

ii) 033068298.2013.8.21.7000

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 3ª Câmara Cível

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. MUNICÍPIO DE


PALMARES DO SUL. CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS DE ADVOCACIA SEM
ANTERIOR LICITAÇÃO. ARTIGOS 13, V, E 25, I, PARÁGRAFO 1º, DA LEI Nº
8.666/93. AUSÊNCIA DE ATO ÍMPROBO.

Caso em que o Prefeito Municipal contratou serviços de advocacia, por orientação da


assessoria jurídica do Município, para o ajuizamento de demanda que exige
conhecimentos específicos que não compõem o dia-a-dia da assessoria jurídica
municipal. Contraprestação pelos serviços prevista de forma razoável, porquanto
firmado contrato de risco. Ausência de dolo ou má-fé dos demandados.

iii) 050010607.2014.8.21.7000

(Ação de Arbitramento de Honorários)

Órgão julgador: 2ª Câmara Cível

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL. LICITAÇÃO E CONTRATOS ADMINISTRATIVOS. AÇÃO


DE ARBITRAMENTO DE HONORÁRIOS. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE
ADVOCACIA. CONTRATAÇÃO SEM LICITAÇÃO. HIPÓTESE DE
INEXIGIBILIDADE. NÃO CONFIGURAÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVAS DA
SINGULARIDADE DO SERVIÇO OU DA NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO.
NULIDADE DO CONTRATO. DEVER DE INDENIZAR. INOCORRÊNCIA.
CULPA CONCORRENTE DO CONTRATADO.

1. Para que seja inexigível a licitação, impõe-se a prova da singularidade dos serviços,
bem como da notória especialização dos contratados. Hipótese em que não vieram aos
autos provas capazes de amparar as alegações da parte autora.

100
2. O contrato nulo não gera efeitos, nos termos do art. 59 da Lei n. 8.666/93. Culpa
concorrente dos contratados suficientemente demonstrada, de modo a afastar o dever de
indenizar. Precedente do STJ.

iv) 052573092.2013.8.21.7000

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 2ª Câmara Cível

Ementa:

DIREITO ADMINISTRATIVO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. FUNDAÇÃO HOSPITAL


CENTENÁRIO. PESSOA JURÍDICA DE DIREITO PÚBLICO. CONTRATAÇÃO DE
ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA. AUSÊNCIA DE LICITAÇÃO. DISPENSA
AUTORIZADA EM FACE DA NECESSIDADE DE SERVIÇOS COM NOTÓRIA
ESPECIALIZAÇÃO. HONORÁRIOS AVENÇADOS EM 20%. PATAMAR QUE
NÃO EXCEDE OS DITAMES LEGAIS E OS PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE
E PROPORCIONALIDADE.

1. Não há falar em ocorrência de prescrição, pois o prazo prescricional de ação civil


pública em que se busca anulação de contrato administrativo tem como termo inicial o
término do contrato. O contrato em questão, assinado em 1999 (fls. 73/78) e ratificado
em 2010 (fls. 85/86), produzia seus efeitos quando da propositura da ação civil pública,
tanto que o Ministério Público postulou, em sede liminar, pela suspensão destes.

2. Hipótese em que a ausência de procedimento licitatório justificasse tendo em vista


que, consoante dispõe o artigo 25, inciso II, combinado com o artigo 13, inciso V,
ambos da Lei nº 8.666/93, a licitação é inexigível quando se visa à contratação de
serviço de advocacia com notória especialização.

3. Na espécie, além da especialidade do serviço que adiante será tratada, também


restava evidenciada a urgência da contratação do escritório de advocacia demandado,
eis que havia premente necessidade de busca pela via judicial em face da iminente
prescrição de parte da pretensão do nosocômio.

4. No que tange aos honorários advocatícios contratados, o arguido prejuízo ao ente


público absolutamente não resta demonstrado na espécie, bastando ver que o contrato
firmado entre as partes tinha natureza de risco, restando acordado que os honorários
advocatícios seriam condicionados ao êxito das causas propostas. Ademais, verificasse
que os percentuais avençados a título de honorários contratuais (entre 10% e 20% sobre
os valores recuperados ou compensados e sobre o que deixasse a Fundação de pagar)
não desbordam do usualmente adotado em pactos de mesma natureza, sendo evidente a
vantagem obtida pelo Hospital Centenário com o patrocínio das ações pelo escritório
demandado

101
v) 70044654739

(Ação Penal)

Órgão julgador: 4ª Câmara Criminal

Ementa:

AÇÃO PENAL. RECEBIMENTO DE DENÚNCIA. PREFEITO MUNICIPAL.


CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA. inexigibilidade de licitação.
CONTRATAÇÃO DE EMPRESA ESPECIALIZADA EM GESTÃO PÚBLICA.
NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO. INSTRUÇÃO CRIMINAL.

a. É inexigível licitação para contratação de determinado escritório de advocacia, pois o


agente público pode contratar causídico de sua confiança. Inteligência do art. 25, inciso
II, c/c art. 13, inciso V, da Lei nº 8.666/93. Denúncia rejeitada.

b. A notória especialização de empresa especializada em gestão pública, capaz de


afastar a necessidade de licitação, é questão a ser dirimida durante a instrução criminal.
Denúncia recebida.

22) Tribunal de Justiça de Rondônia

i) 0008854-74.2012.8.22.0001

(Ação Civil Pública)

Relator:Des. Renato Martins Mimessi

Relatório:

Trata-se de Reexame Necessário da decisão prolatada pelo Juízo da 2ª Vara da Fazenda


Pública da Comarca da Capital, nos autos da ação civil pública de improbidade
administrativa proposta pelo Ministério Público em face de Antônio Calmon Ciríaco e
Moacir Caetano de Santana, imputando-lhes a prática de conduta improba na
contratação direta e sem licitação de serviços de advogado. Consta da inicial que, foram
averiguadas irregularidades na contratação sem licitação, do advogado Antônio Calmo

102
Ciríaco, apuradas quando este impetrou mandado de segurança objetivando o
recebimento da quantia de R$ 400.000,00 (quatrocentos mil reais) a título de honorários
advocatícios por serviços prestados a Companhia de Desenvolvimento Rural de
Rondônia – CDHUR, na liquidação de débitos fiscais em favor da CAGERO e
CEPRORD, por meio da dação em pagamento de imóveis invadidos de sua posse. No
procedimento administrativo, foi notificado o requerido Moacir Caetano de Santana
para prestar depoimento, e este informou que o requerido Antônio foi contratado em
decorrência do “trânsito” que possuía com o prefeito e seus assessores.

Segundo o Órgão Ministerial, a contratação não obedeceu aos procedimentos licitatórios


habituais, havendo injustificada escusa, pois não restou comprovada o caráter
emergencial e não foram observadas as regras de licitação. Notificados, o Estado de
Rondônia passou a integrar a lide e os requeridos apresentaram suas defesas prévias,
requerendo a rejeição da inicial. Recebida a inicial, vieram as contestações. Pelo MM.
Juiz a quo foi julgado improcedente o pedido formulado na inicial, por entender que não
restou configurada a existência de conduta adequada à qualificação de improbidade, na
regra da Lei n. 8.429/92 em relação aos requeridos. Ante a ausência de recurso
voluntário, os autos subiram a este Tribunal por força do reexame necessário.

Pelo D. Procurador de Justiça Ivo Scherer, em seu parecer manifestou pela confirmação
da sentença, haja vista a contratação direta do advogado ter se dado de forma singular,
levando em conta a especialidade e experiência profissional. É o relatório.

Dispositivo:

Ante a firme e pacífica jurisprudência pátria sobre o tema, bem como nos termos da
Súmula 253 do STJ, em que “o art. 557 do CPC, alcança o reexame necessário”,
confirmo integralmente a sentença ora reexaminada.

23) Tribunal de Justiça de Roraima

i) Nenhum julgado encontrado

103
24) Tribunal de Justiça de Santa Catarina

i) 2008.046244-8

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 1ª Câmara de Direito Público

Ementa:

IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DIRETA DE


ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA SEM PROCEDIMENTO PRÉVIO DE DISPENSA
OU INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO.

INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO PARA A CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS


TÉCNICOS. LEI N. 8.666/93, ART. 25, II, C/C ART. 13, V. SINGULARIDADE DO
SERVIÇO E NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO NÃO DEMONSTRADOS.

"A singularidade é relevante e um serviço deve ser havido como singular quando nele
tem que interferir, como requisito satisfatório ao atendimento da atividade
administrativa, um componente criativo de seu autor, envolvendo o estilo, o traço, a

engenhosidade, a especial habilidade, a contribuição intelectual, artística, ou a argúcia


de quem o executa, atributos estes que são precisamente os que a administração reputa
convenientes, e necessita para a satisfação do interesse público em causa". (Celso
Antônio Bandeira de Mello)

DISPENSA DE LICITAÇÃO POR SE TRATAR DE CONTATO COM VALOR


INFERIOR AO LIMITE PREVISTO NO ART. 24, II, DA LEI N. 8.666/93 (R$
8.000,00). IRRELEVÂNCIA. DISPENSA OU INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO.
NECESSIDADE DE PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO PRÉVIO.

"A inexigibilidade de licitação é procedimento administrativo formal que deve ser


precedido de processo com estrita observância aos princípios básicos que norteiam a
Administração Pública.

"A contratação embasada na inexigibilidade de licitação por notória especialização (art.


25, II, da Lei de Licitação) requer: formalização de processo para demonstrar a
singularidade do serviço técnico a ser executado; e, ainda, que o trabalho do contratado
seja essencial e indiscutivelmente o mais adequado à plena satisfação do objeto do
contrato. (Resp n. 1038736/MG, rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, j. 4-5-
2010)

CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA PELO MUNICÍPIO PARA


DEFESA DO PREFEITO EM AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA. INADMISSIBILIDADE.

104
Encontra-se sedimentada a orientação jurisprudencial do STJ "no sentido de que
'quando se tratar da defesa de um ato pessoal do agente político, voltado contra o órgão
público, não se pode admitir que, por conta do órgão público, corram as despesas com a
contratação de advogado' (AgRg no REsp 681.571/GO, Rel. Min. Eliana Calmon,
Segunda Turma, DJU 29.6.2006)". (AgRg no REsp n. 777337/RS, rel. Min. Mauro
Campbell Marques, Segunda Turma, j. 2-2-2010)

ii) 2008.054972-6

(Ação Popular)

Órgão julgador: 4ª Câmara de Direito Público

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO POPULAR. SOCIEDADE DE ECONOMIA MISTA.


CONTRATAÇÃO DE ADVOGADO PRIVADO PARA ELABORAÇÃO DE
PARECER JURÍDICO EM PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO INSTAURADO
PELO TRIBUNAL DE CONTAS. SERVIÇO TÉCNICO ESPECIALIZADO, MAS
NÃO SINGULAR. INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO. ART. 25, INCISO II, E §
1º, DA LEI N. 8.666, DE 21.6.1993. OFENSA À MORALIDADE PÚBLICA. ART. 5º,
INCISO LXXIII, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. CONTRATAÇÃO ILÍCITA,
COM PREJUÍZO AO ERÁRIO PÚBLICO. ATO NULO. DEVER DE
RECOMPOSIÇÃO DO PATRIMÔNIO PÚBLICO QUE ATINGE TODOS
QUANTOS SUBSCREVERAM O CONTRATO ANULADO, INCLUSIVE O
BENEFICIÁRIO DIRETO COM O PAGAMENTO REALIZADO.
IMPOSSIBILIDADE DE SE RESGUARDAR, EM FAVOR DO ADVOGADO
CONTRATADO ILICITAMENTE, O PAGAMENTO DE VALOR QUE GUARDA
CARACTERÍSTICAS DE VERBA ALIMENTAR. IMPOSSIBILIDADE, SOB PENA
DE TORNAR VAZIA O PROPÓSITO DO LEGISLADOR CONSTITUCIONAL,
QUE É DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO PÚBLICO. EVENTUAL DIREITO
QUE POSSA SER BUSCADO EM AÇÃO PRÓPRIA NUNCA ATINGIRÁ A
SOCIEDADE DE ECONOMIA MISTA QUE TEVE O PATRIMÔNIO VIOLADO.
ART. 22 DO ESTATUTO DA ADVOCACIA E DA ORDEM DOS ADVOGADOS
DO BRASIL E ART. 594 DO CÓDIGO CIVIL DE 2002 QUE NÃO FORAM
VIOLADOS. RECURSOS DESPROVIDOS.

1. Não se justifica a inexigibilidade de licitação para a contratação de advogado


estranho aos quadros da sociedade de economia mista e residente em outra unidade da
federação, para o fim de emitir parecer jurídico em procedimento administrativo
instaurado pelo Tribunal de Contas do Estado, exceto se demonstrado o monopólio do
conhecimento necessário à prolação do parecer reclamado, a hipótese que os autos não
reproduzem.

iii) 2011.039948-2

105
(Ação Popular)

Órgão julgador: 2ª Câmara de Direito Público

Ementa:

APELAÇÃO E REEXAME NECESSÁRIO. AÇÃO POPULAR. CONTRATAÇÃO,


POR MUNICÍPIO, DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA, COM INEXIGIBILIDADE
DE LICITAÇÃO, PARA RECUPERAR RECEITAS SONEGADAS DO ISS EM
OPERAÇÕES DE LEASING. PRESENÇA DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS
PARA A PACTUAÇÃO. AUSÊNCIA DE ILEGALIDADE, DE IMORALIDADE E
DE LESIVIDADE AO ERÁRIO. POSSIBILIDADE DE EXTINÇÃO DO FEITO, SEM
INSTRUÇÃO PROCESSUAL, DADA A INEXISTÊNCIA DOS REQUISITOS PARA
A PROPOSITURA DA ACTIO POPULARIS. SENTENÇA MANTIDA. RECURSO E
REMESSA DESPROVIDOS.

iv) 2013.007384-5

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 2ª Câmara de Direito Público

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL E REEXAME NECESSÁRIO. IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA. ENQUADRAMENTO DA CONDUTA NO ARTS. 10, VIII, E
11, AMBOS DA LEI N. 8.429/92. INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO COM
FUNDAMENTO NOS ARTS. 13, V E 25, II, TODOS DA LEI N. 8.666/93.
CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS PARA PATROCÍNIO E
DEFESA DE CAUSAS JUDICIAIS. POSSIBILIDADE, ANTE A SINGULARIDADE
DO SERVIÇO E COMPROVAÇÃO DE NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO E
REPUTAÇÃO DO CONTRATADO. AUSÊNCIA DE ILEGALIDADE DO ATO OU
DE LESIVIDADE AO PATRIMÔNIO PÚBLICO. INEXISTÊNCIA DE PROVA
ACERCA DA CONDUTA DOLOSA QUE JUSTIFIQUE O ENQUADRAMENTO
LEGAL NA PRÁTICA DE AFRONTA AOS PRINCÍPIOS DA ADMINISTRAÇÃO
PÚBLICA.

1. "O advogado é selecionado em virtude de sua habilidade pessoal, de sua reputação,


do seu desempenho anterior e de outras características que se configuram como
subjetivas em duas acepções. Primeiramente, são subjetivas porque têm relação com a
pessoa do profissional. São características atinentes à personalidade e à figura do sujeito
a ser contratado. Mas são subjetivas também no sentido de que sua avaliação não
comporta um julgamento aritimético, preciso e exato. Refletem um juízo de ponderação
e conveniência promovido pelo interessado em contratar um advogado" (JUSTEN
FILHO, Marçal. Comentários à Lei de Licitações e Contratos Administrativos. 15 ed.
São Paulo: Dialética, 2012, p. 433).
106
v) 2014.034650-7

(Ação de Cobrança de Honorários Advocatícios)

Órgão julgador: 3ª Câmara de Direito Público

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL. CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA POR


MUNICÍPIO PARA PROPOSITURA DE AÇÃO COM A FINALIDADE DE FAZER
CESSAR AS RETENÇÕES DAS PARCELAS DO ICMS PERTENCENTE AO
MUNICÍPIO A TÍTULO DE PRODEC (PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO
DA EMPRESA CATARINENSE), BEM COMO A RESTITUIÇÃO DAS PARCELAS
RETIDAS INDEVIDAMENTE. IMPROCEDÊNCIA DA AÇÃO DE COBRANÇA
DOS HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS NA ORIGEM EM RAZÃO DA AUSÊNCIA
DE LICITAÇÃO. RECURSO DO AUTOR. PRESENÇA DOS REQUISITOS
NECESSÁRIOS À INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO. NOTÓRIA
ESPECIALIZAÇÃO PROFISSIONAL. CAUSÍDICO GRADUADO EM ECONOMIA
E CONSULTOR JURÍDICO DA ÁREA TRIBUTÁRIA E FINANCEIRA, ALÉM DE
TER SIDO SECRETÁRIO ADJUNTO DA FAZENDA E MEMBRO DO CONSELHO
DELIBERATIVO DO PRODEC, O QUE DÁ NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO NO
TEMA ESPECÍFICO. SINGULARIDADE DO SERVIÇO. EXISTÊNCIA NESTA
CORTE DE JUSTIÇA DE APENAS DUAS AÇÕES ENVOLVENDO O TEMA
PRODEC NA ÉPOCA DA ASSINATURA DO CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE
SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. DEVER DE
CUMPRIMENTO DO CONTRATO ENTABULADO. SERVIÇOS PRESTADOS NA
FORMA CONTRATADA. ÊXITO NAS AÇÕES PROPOSTAS.

vi) 2012.011017-1

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 3ª Câmara de Direito Público

Ementa:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE


IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE
ADVOCACIA SEM PROCEDIMENTO LICITATÓRIO. SITUAÇÃO PREVISTA
ENTRE AS HIPÓTESES LEGAIS DE INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO (LEI N.
107
8.666/1993, ART. 25, II, E § 1º). AUSÊNCIA DE SUBSÍDIOS FÁTICOS OU
JURÍDICOS A LEGITIMAR O SEGUIMENTO DA AÇÃO CIVIL PÚBLICA.
CASSAÇÃO DA DECISÃO QUE RECEBEU A PETIÇÃO INICIAL. EXTINÇÃO
DA AÇÃO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO (ART. 17, § 8º E 11, DA LEI N.
8.429/92 C/C ART. 267, VI, DO CPC). RECURSO PROVIDO.

"No intuito de se evitar uma lide temerária, a petição inicial da ação civil pública por
improbidade administrativa deve ser rejeitada quando o julgador, por decisão
fundamentada, com base nas alegações do autor, na resposta dos réus e na
documentação acostada por ambos, estiver convencido da inexistência do ato de
improbidade, da improcedência da ação ou da inadequação da via eleita (§ 8º do art. 17
da Lei n. 8.429/92)" (Apelação Cível n. 2006.037286-8, da comarca de Xanxerê, relator
Des. Jaime Ramos, julgada em 16-4-2009).

vi) 2007.049567-1

(Ação Penal)

Órgão julgador: 1ª Câmara Criminal

Ementa:

PROCESSO CRIME. AÇÃO PENAL ORIGINÁRIA (CF, ART. 29, X) QUE APURA
DENÚNCIA OFERECIDA CONTRA PREFEITO E ADVOGADO CONTRATADO
PELO MUNICÍPIO. INEXIGIR LICITAÇÃO FORA DAS HIPÓTESES PREVISTAS
EM LEI (LEI 8.666/1993, CAPUT E PARÁGRAFO PRIMEIRO). CONTINÊNCIA
POR CUMULAÇÃO SUBJETIVA (CPP, ART. 78, III, C/C VERBETE 704 DA
SÚMULA DO STF) EM RELAÇÃO AO CORRÉU QUE NÃO DETÉM
PRERROGATIVA DE FORO. DERROGAÇÃO DO ART. 1º, XI, DO DECRETO-LEI
201/1967. ACUSADO SÉRGIO FERREIRA DE AGUIAR. MATERIALIDADE E
AUTORIA COMPROVADAS POR PROVA DOCUMENTAL E TESTEMUNHAL.
DOLO ESPECÍFICO CONFIGURADO PELA UTILIZAÇÃO DE SUBTERFÚGIO
PARA BURLAR OS CRITÉRIOS DE PROVIMENTO DE CARGO EM COMISSÃO.
ACUSADO CELSO CORREIA ZIMATH. MATERIALIDADE E AUTORIA
DEMONSTRADAS POR PROVA TESTEMUNHAL E DOCUMENTAL. DOLO
ESPECÍFICO CARACTERIZADO PELA CONCORRÊNCIA À INFRAÇÃO PENAL
E POSTERIOR CONTRATAÇÃO. AÇÃO PENAL JULGADA PROCEDENTE.

- O agente que, na função de Prefeito Municipal, deixa de realizar licitação fora das
hipóteses previstas em lei para contratar serviços advocatícios, tendo em vista que o
advogado contatado está impedido de exercer cargo de provimento em comissão, vago
no Município, a fim de burlar tal obstáculo, pratica o crime previsto no art. 89, caput, da
Lei 8.666/1993. O advogado que concorreu para a consumação da ilegalidade,
beneficiando-se da inexigibilidade, comete o delito disposto no parágrafo único do
artigo 89 da Lei de Licitações. - Ação penal julgada procedente.

108
25) Tribunal de Justiça de São Paulo

i) 0000342-62.2001.8.26.0588

(Ação Civil Pública e Ação Popular)

Órgão julgador: 7ª Câmara de Direito Público

Ementa:

APELAÇÕES CÍVEIS E RECURSO ADESIVO AÇÃO POPULAR E AÇÃO CIVIL


IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA QUE GEROU PREJUÍZO AO ERÁRIO
PAGAMENTO DE VALOR PARA ADVOGADOS, QUANDO HAVIA
PROCURADOR JURÍDICO NO QUADRO DE FUNCIONÁRIOS DO MUNICÍPIO
CAPACITADO PARA O SERVIÇO SENTENÇA QUE JULGOU PROCEDENTES
AS AÇÕES CONDENANDO OS CAUSÍDICOS OU SEUS SUCESSORES, A
RESTITUIR AOS COFRES PÚBLICOS AS IMPORTÂNCIAS QUE RECEBERAM
ATUALIZADAS MONETARIAMENTE E CONDENANDO O EX-PREFEITO A
RESTITUIR AOS COFRES PÚBLICOS SOLIDARIAMENTE COM OS CO-RÉUS A
IMPORTÂNCIA DE R$ 70.000,00, ATUALIZADA MONETARIAMENTE E A
SUSPENSÃO DE SEUS DIREITOS POLÍTICOS POR CINCO ANOS BEM COMO
MULTA CIVIL DE 20 VEZES O ULTIMO SALARIO RECEBIDO, TAMBÉM
CORRIGIDO MONETARIAMENTE - AGRAVO RETIDO DOS SUCESSORES DE
JOSE CARLOS MAGALHÃES TEIXEIRA ALEGANDO ILEGITIMIDADE
PASSIVA, FALTA DE INTERESSE DE AGIR E INCOMPATIBILIDADE LOGICA
DO PEDIDO RECURSO ADESIVO DE CLAUDIO SOARES, QUE SERÁ
DESPROVIDO POIS OS HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS FORAM FIXADOS
DENTRO DOS PRINCÍPIOS DE RAZOABILIDADE E PROPORCIONALIDADE -
SENTENÇA QUE SERÁ MANTIDA E RATIFICADA NOS TERMOS DO ART. 252
DESTA COLENDA CORTE DE JUSTIÇA.

ii) 0000661-98.2009.8.26.0604

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 5ª Câmara de Direito Público

Ementa:

109
AÇÃO CIVIL PÚBLICA - RECURSO DE APELAÇÃO – PEDIDO DE NULIDADE
DE CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS TÉCNICOS DE ADVOCACIA E
RECONHECIMENTO DA PRÁTICA DE ATOS DE IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA.

Alegação de inexigibilidade irregular de licitação e de prejuízo ao erário. Preliminares


afastadas. Escritório contratado que possui área de atuação diferenciada. Necessidade da
contratação pela alta complexidade do serviço a ser executado. Inexistência de indício
de superfaturamento. Reforma da r. sentença. Ação improcedente. Recursos dos
apelantes providos

iii) 0002175-27.2007.8.26.0420

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 1ª Câmara de Direito Público

Ementa:

APELAÇÃO E REEXAME NECESSÁRIO - AÇÃO CIVIL PÚBLICA


IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE
SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS AUSÊNCIA DE LESÃO AO ERÁRIO - NOTÓRIA
ESPECIALIDADE - IMPROBIDADE NÃO CONFIGURADA LICITAÇÃO -
INEXIGIBILIDADE - LEI Nº 8.429/92 E LEI Nº 8.666/93 - MÁ-FÉ, DOLO OU
DESONESTIDADE DO AGENTE PÚBLICO NÃO CONFIGURADOS ÔNUS
PROBATÓRIO DO AUTOR - SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA MANTIDA
RECURSOS DESPROVIDOS.

Sem comprovação (cujo ônus é do autor), do ato ímprobo, que inclui o dolo, má-fé ou
desonestidade, na contratação de serviços de advocacia sem licitação, por notória
especialização, a ser examinada segundo as circunstancias fáticas do negócio, não pode
haver condenação por improbidade administrativa.

iv) 0002792-54.2004.8.26.0270

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 11ª Câmara de Direito Público

Ementa:

AÇÃO CIVIL PÚBLICA Improbidade Administrativa Contratação direta pelo


Município de escritório para serviços de advocacia Inexigibilidade de licitação Não
comprovada a alegada notória especialização Licitação direcionada Ofensa aos
110
princípios da legalidade, moralidade, impessoalidade, isonomia e eficiência Dano ao
Erário Precedentes do C. STJ Sentença de parcial procedência reformada Recurso do
autor provido A contratação direta de escritório, sem comprovação da alegada notória
especialização, demonstra a inobservância dos princípios informadores da
Administração Pública, legalidade, moralidade, impessoalidade, isonomia e eficiência e
gera a ocorrência do fato ilegal, passível de punição.

v) 0003543-68.2009.8.26.0075

(Ação Popular)

Órgão julgador: 6ª Câmara de Direito Público

Ementa:

Apelação Cível Ação Popular visando à anulação de contrato firmado entre o Município
de Bertioga e o escritório de advocacia, ora apelante, e ao consequente ressarcimento do
valor contratado e pago ao erário municipal Contratação que se deu de forma direta,
sem licitação, nos termos do art. 13, inc. V c/c art. 25, inc. II, da Lei nº 8.666/93 -
Sentença de procedência - Recursos de ambos os requeridos Desprovimento de rigor.
Não houve comprovação de que os serviços de advocacia fossem singulares e
especialíssimos a ponto de autorizarem a contratação direta, por meio de inexigibilidade
de licitação nos termos do art. 25, inc. II, da Lei nº 8.666/93 Ausência de comprovação
de notório saber jurídico a diferenciar o escritório contratado dos demais existentes no
mercado Município que conta com quadro de Procuradores Municipais, tendo pago
duas vezes pelo mesmo serviço, o que enseja o ressarcimento aos cofres públicos
municipais do valor contratado e pago, devidamente corrigido - Conduta dos requeridos
que constituíram flagrante desobediência aos preceitos constitucionais e ofensa à
moralidade administrativa, impessoalidade, razoabilidade e legalidade - Patente a
lesividade e ilegalidade da contratação direta e, portanto, de rigor a manutenção da r.
Sentença.

vi) 0005869-10.2011.8.26.0405

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 11ª Câmara de Direito Público

Ementa:

111
RECURSO VOLUNTÁRIO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO
PAULO - Ação Civil Pública - Contratação de escritório de advocacia de notória
especialização - Licitação inexigível - Inteligência do artigo 25, inciso II, da Lei nº
8.666/93 - Singularidade do objeto consistente na prestação de consultoria ou
representação judicial da Fundação Instituto Tecnológico de Osasco – FITO, em causas
de alta complexidade em Direito Público, exigindo-se para tanto a alta qualificação e
experiência dos profissionais que representam a contratada, tudo demonstrado através
de documentos que foram anexados aos autos, como currículos, histórico de atuações e
artigos publicados em obras jurídicas – Valor da contratação de R$ 140.000,00 (cento e
quarenta mil reais) em 2004 - Ausência de prova de outro prisma quanto a não
realização dos serviços a contento tampouco que o fora por valor absurdo - Ausência de
prova de dano ao erário - Precedentes deste Egrégio Tribunal de Justiça de São Paulo e
do E. Superior Tribunal de Justiça - Sentença que julgou improcedente a ação, mantida
– Recurso voluntário do Ministério Público do Estado de São Paulo, improvido.

vii) 0009890-61.2012.8.26.0189

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 6ª Câmara de Direito Público

Ementa:

APELAÇÃO AÇÃO CIVIL PÚBLICA - IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA


Irregularidade na manutenção de contrato firmado com escritório de advocacia
particular - Reconhecimento de ato ímprobo Município que passou a contar com corpo
jurídico próprio Não comprovação de que os serviços contratados eram singulares e
especialíssimos, nem mesmo que a demanda era extraordinária Situação excepcional
não caracterizada Desobediência aos preceitos constitucionais, em especial ao princípio
da eficiência, e prejuízo ao erário público caracterizado Precedentes C. STJ e C. TJSP
Outrossim, constatação de que a prorrogação se deu fora das hipóteses previstas no §1º,
do art. 57, da Lei n.º 8.666/93 Flagrante ilegalidade Fato que autoriza o controle pelo
Poder Judiciário sem afrontar o princípio tripartite - Sentença que julgou improcedente a
pretensão ministerial Reforma que se impõe Recurso provido.

viii) 0013144-18.2005.8.26.0438

(Ação Ordinária)

Órgão julgador: 3ª Câmara de Direito Público

Ementa:
112
APELAÇÃO AÇÃO DE NULIDADE DE CONTRATO CUMULADA COM
DEVOLUÇÃO DE QUANTIA PAGA CONTRATO CELEBRADO ENTRE O
CONSÓRCIO INTERMUNICIPAL DE SAÚDE E ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA
SEM LICITAÇÃO ADMISSIBILIDADE - SERVIÇO SINGULAR E DE NOTÓRIA
ESPECIALIZAÇÃO EM DIREITO TRIBUTÁRIO - INEXIGIBILIDADE DE
LICITAÇÃO - PREVISÃO LEGAL - SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA
MANTIDA. RECURSO DESPROVIDO.

ix) 0109145-85.2007.8.26.0053

(Ação Ordinária)

Órgão julgador: 10ª Câmara de Direito Público

Ementa:

LICITAÇÃO. DISPENSA. SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS EM MATÉRIA


TRIBUTÁRIA E MERCADO DE CAPITAIS. LF Nº 8.666/93, ART. 13 E 25.
NULIDADE. DEVOLUÇÃO DOS VALORES DESPENDIDOS COM A
CONTRATAÇÃO.

1. Licitação. Dispensa. Serviços técnicos especializados. Serviços técnicos


especializados. As obras, serviços, compras e alienações serão contratadas mediante
prévia licitação pública, nos termos do art. 37, inciso XXI da Constituição Federal. A
dispensa de licitação é uma exceção e deve ser vista com rigor. Todo serviço exige
alguma técnica e qualquer empresa ou profissional que se dedique a um ramo de
atividade pode, de algum modo, ser tido como 'especializado'; mas isso não basta para
dispensar a licitação. 'Serviços técnicos especializados' são serviços que exigem técnica
anormal, singular, em que o grau de especialização exige sua execução por determinado
modo que inviabilize a competição: a natureza 'singular' mencionada na lei.

2. Licitação. Dispensa. Notória especialização. Considera-se de notória especialização o


profissional ou empresa cujo conceito no campo de sua especialidade permita inferir sua
melhor adequação à execução do objeto do contrato. Não basta a especialização, pois
boa parte dos profissionais e empresas acaba por especializar-se em alguma atividade.
Tal especialidade há de ser notória em seu meio, configurando um 'plus' em relação aos
demais profissionais do mercado, e há de ser necessária ao objeto do contrato.

4. Serviços de advocacia. Contratação direta. Os dois contratos que visavam serviços na


área tributária foram firmados em 1996 e 1999, quando a jurisprudência hesitava em
exigir ou não a licitação de serviços de advocacia; foram aprovados pelo Tribunal de
Contas, foram prestados a contento por valor sensivelmente inferior ao contratado; não
há alegação, indício ou prova de desvio na contratação, sobrepreço ou pessoalidade. Os
contratos firmados em 2004 e 2005 visavam à assessoria jurídica na abertura do capital
da empresa no Brasil e fora dele, serviço complexo e especializado a exigir o
conhecimento do mercado nacional e internacional; embora não o único, é conhecida a
113
especialização do contratado nessa área. Como nos contratos anteriores, não há
alegação, prova ou indício de pessoalidade ou dano à empresa. Não há razão para a
anulação dos contratos ou para devolução dos valores pagos, que a jurisprudência tem
evitado se os serviços foram prestados.

5. Advocacia. Licitação. A jurisprudência vê com mais rigor, hoje, a contratação de


serviços pela administração direta ou indireta; exige quando menos a licitação
simplificada mencionada por Marçal Justen Filho, de modo a dar mais transparência ao
contrato e assegurar a economicidade e a impessoalidade na contratação. É por isso que
esta decisão não cria precedente nem justifica o descuido nas contratações posteriores.
Improcedência. Recurso do Ministério Público desprovido.

x) 0609465-44.2008.8.26.0053

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 1ª Câmara de Direito Público

Ementa:

Ação Civil Pública Improbidade administrativa Licitação Contratação de escritório de


advocacia Dispensa de licitação Alegada notória singularidade e especialização
Inocorrência - Nulidade A condição de especialização não comporta objetivo contratual
que expressa abrangência de assistência jurídica geral, em todas as áreas do direito
Sentença de procedência mantida – Recursos improvidos.

26) Tribunal de Justiça de Sergipe

i) 2011204075

(Ação Anulatória)

Órgão julgador: 1ª Câmara Cível

Ementa:

114
APELAÇÕES CÍVEIS AÇÃO ANULATÓRIA DE CONTRATO ADMINISTRATIVO
COM PEDIDO DE ANTECIPAÇÃO DE TUTELA CONTRATO Nº 10/2005, DE 22
DE JUNHO DE 2005 OBJETO SOLUÇÃO CORPORATIVA INTEGRADA DE
COMUNICAÇÃO DE DADOS E VOZ, FIXA E MÓVEL PARA TODAS AS
UNIDADES DOS ÓRGÃOS E ENTIDADES DO GOVERNO DE SERGIPE
CONTRATAÇÃO DIRETA JUSTIFICATIVA DE INEXIGIBILIDADE
SINGULARIDADE DO OBJETO PRETENDIDO PELA ADMINISTRAÇÃO
INVIABILIDADE DE COMPETIÇÃO SERVIÇO QUE NA ÉPOCA SÓ ERA
PRESTADO PELAS CONTRATADAS/REQUERIDAS INTELIGÊNCIA DO
ARTIGO 25, DA LEI 8.666/1993 REFORMA DA SENTENÇA IMPROCEDÊNCIA
DOS PLEITOS AUTORAIS APELAÇÕES DO ESTADO DE SERGIPE, TELEMAR
NORTE LESTE S/A, TNL PCS S/A CONHECIDAS E PROVIDAS RECURSO
ADESIVO MANEJADO PELA VIVO TELERGIPE CELULAR S/A PREJUDICADO.

ii) 2012202303

(Ação Popular)

Órgão julgador: 2ª Câmara Cível

Ementa:

Apelação Cível. Direito Constitucional. Ação Popular destinada a anular Contratos


Administrativos travados entre o Banco do Nordeste e Escritórios de Advocacia.
Procedência que se Impõe, sob o risco de vilipêndio aos Princípios Constitucionais do
Concurso Público e da Moralidade Administrativa. Nomeação de Candidatos.
Impossibilidade, ante a imprestabilidade desta ferramenta processual. Recursos
Conhecidos e Improvidos. Por maioria.

iii) 201200222817

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 2ª Câmara Cível

Ementa:

AÇÃO CIVIL PÚBLICA – IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA –


CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS TÉCNICOS E ADVOCATÍCIOS –
INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO – ALEGADA NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO
115
– INOCORRÊNCIA – NATUREZA SINGULAR– INEXISTENTE – VULNERAÇÃO
AOS ARTS. 13, V e 25, II DA LEI 8.666/93 E AO ART.11, CAPUT DA LEI
Nº8.429/92 – NÃO COMPROVAÇÃO DE PREJUÍZO AO ERÁRIO – EXCLUSÃO
DAS PENAS DE RESSARCIMENTO INTEGRAL DO DANO E PERDA DOS BENS
OU VALORES ACRESCIDOS ILICITAMENTE AO PATRIMÔNIO.
INTELIGÊNCIA DO PARÁGRAFO ÚNICO DO ART.12 DA LIA SENTENÇA
REFORMADA EM PARTE APELO CONHECIDO E PROVIDO PARCIALMENTE –
DECISÃO UNÂNIME.

Os serviços descritos no art.13, V da Lei nº8.666/93, para que sejam contratados sem
licitação, devem ter natureza singular e prestados por profissional com notória
especialização.

Se os serviços técnicos e jurídicos contratados não apresentam singularidade, porque


afetos à diversas áreas do direito bastante disseminadas entre os profissionais da área, e
do qual não se exige nenhum notório conhecimento, decorre ilegal contratação que
tenha prescindido da respectiva licitação e incide em ato de improbidade por ofensa a
princípios administrativos sujeitando-se aos apenamentos aplicados proporcionalmente.

Ainda que irregular a contratação, não havendo prova de dano ao erário, não há que se
falar em ressarcimento ou enriquecimento ilícito do agente público.

Para a configuração do ato de improbidade descrito no artigo 11 da Lei nº 8.429/92,


segundo entendimento pacificado atualmente pelo STJ, quando o ato ímprobo ofende os
princípios da Administração Pública, para que o mesmo reste configurado, é mister a
comprovação da existência de conduta dolosa por parte do agente, não se exigindo,
neste caso, que o dolo seja específico.

iv) 201300220445

(Ação Improbidade Administrativa)

Órgão julgador: 1ª Câmara Cível

Ementa:

APELAÇÃO CÍVEL ADMINISTRATIVO – IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA –


CONTRATAÇÃO DIRETA DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA –
INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO PARA DEFESA DE CAUSAS JUDICIAIS –
ART. 25 C/C 13 DA LEI Nº 8666/93 – REQUISITOS DE LEI OBSERVADOS –
IMPOSSIBILIDADE DE COMPETIÇÃO EM RAZÃO DO CARÁTER SUBJETIVO
DA CONFIANÇA DO PRESTADOR DO SERVIÇO – NOTÓRIA
ESPECIALIZAÇÃO DA EMPRESA CONTRATADA – VALOR PACTUADO
RAZOÁVEL REFORMA DA SENTENÇA – JULGAMENTO IMPROCEDENTE DO
PEDIDO INICIAL – ARTIGO 269, I DO CPC – APELO CONHECIDO E PROVIDO
– MAIORIA.
116
v) 2012218601

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 1ª Câmara Cível

Ementa:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. CONTRATAÇÃO


DIRETA PARA DEFESA DE CAUSAS JUDICIAIS. INEXIGIBILIDADE DE
LICITAÇÃO. PREENCHIMENTO DOS REQUISITOS DO ART 13 C/C ART. 25, II,
DA LEI 8666/93. IMPOSSIBILIDADE DE COMPETIÇÃO ANTE O CARÁTER
SUBJETIVO DA CONFIANÇA DO PRESTADOR DE SERVIÇO. NOTÓRIA
ESPECIALIZAÇÃOVALOR RAZOÁVEL PACTUADO. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO
AO ERÁRIO. INEXISTÊNCIA DE ATO IMPROBORECURSO
PROVIDO.DECISÃO POR MAIORIA.

vi) 2013221112

(Ação Popular)

Órgão julgador: 1ª Câmara Cível

Ementa:

AGRAVO DE INSTRUMENTO AÇÃO POPULAR CONTRATO DE PRESTAÇÃO


DE SERVIÇOS DE CONSULTORIA E ASSESSORIA JURÍDICA DECISÃO QUE
DETERMINOU A SUSPENSÃO DO CONTRATO IRRESIGNAÇÃO ALEGAÇÃO
DE QUE FORA CORRETO TODO O PROCEDIMENTO DE INEXIGIBILIDADE
DA LICITAÇÃO DESCABIMENTO NECESSIDADE DE DEMONSTRAR OS
ELEMENTOS SUFICIENTES PARA BEM CARACTERIZAR A INVIABILIDADE
DA COMPETIÇÃO AUSÊNCIA DE CARACTERES DA NOTÓRIA
ESPECIALIZAÇÃO DECISÃO JUDICIAL LIMINAR QUE IMPÕE SUA
PRESERVAÇÃO RECURSO CONHECIDO E IMPROVIDO.

117
26) Tribunal de Justiça do Tocantins

i) 500781 27 2011 – 827 0000

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 2ª Câmara Cível

Ementa:

PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA. RECONHECIMENTO DO INTERESSE PÚBLICO NOS
TERMOS DO ART. 555, DO CPC. INAPLICABILIDADE. PRELIMINAR
SUPERADA. CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS. DISPENSA
IRREGULAR DE LICITAÇÃO. CONFIGURAÇÃO. DANO AO ERÁRIO
CARACTERIZADO. RESSARCIMENTO. NECESSIDADE. RECURSO
PARCIALMENTE PROVIDO.

- Superada a preliminar argüida pelo MP, posto não vislumbrar a presença dos
requisitos essenciais previstos em lei para reconhecer o interesse público, de acordo
com a previsão legal do art. 555, do CPC. - Restou caracterizada a irregularidade na
inexigibilidade da licitação, em decorrência da não comprovação da inviabilidade de
competição por profissionais de notória especialização, cuja notoriedade seja
manifestamente essencial e indiscutível na adequação ao pleno cumprimento do objeto
do contrato, bem como pela ausência de singularidade nos serviços prestados. -
Comprovada a ilegalidade do ato que configura a prática da improbidade administrativa
pelo ordenador de despesas, em razão da dispensa irregular de licitação, torna-se nulo o
ato administrativo, estando este sujeito às penalidades legais pertinentes.

- Dessa forma, imperioso o ressarcimento ao erário, multa civil e suspensão dos direitos
políticos, bem como proibição de contratação com o Poder Público.

- Recurso a que se dá parcial provimento para reformar a sentença recorrida, impondo


condenação a VALTENIS LINO DA SILVA, que na qualidade de Prefeito do
Município praticou o ato de improbidade administrativa em análise.

ii) 5001281-93.2011.827.0000

(Ação Civil Pública)

Órgão julgador: 2ª Câmara Cível

Ementa:

118
APELAÇÃO CIVIL – AÇÃO CIVIL PÚBLICA - CONTRATAÇÃO DE
ADVOGADOS SEM LICITAÇÃO – INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO -
SINGULARIDADE DO SERVIÇO E NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO – NÃO
COMPROVAÇÃO DE ENRIQUECIMENTO ILÍCITO E REJUÍZO AO ERÁRIO -
AUSÊNCIA DO ELEMENTO SUBJETIVO CULPA OU DOLO - ATO DE
IMPROBIDADE NÃO EVIDENCIADO – NECESSIDADE DE FORMALIZAÇÃO
DO PROCESSO – SINGULARIDADE DO SERVIÇO PRESTADO – MATÉRIA
NOVA – SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA – RECURSO IMPROVIDO --
UNANIMIDADE.

1 – Não se pode enquadrar toda e qualquer falta administrativa na figura da


improbidade, avessa esta a eventuais faltas de caráter secundário, envolvendo rotinas
administrativas que, mesmo na hipótese de terem sido contrariadas, de modo algum
teriam sido de forma dolosa, requisito subjetivo reclamado pelo art. 11 da Lei de
Improbidade.

2 - Inexistindo, nos autos, prova de conduta com intuito de desonestidade, nem dano
para o erário, a hipótese é de improcedência da ação. 3 - Ademais, há que se anotar a
circunstância específica da contratação e prestação de serviços advocatícios, que se
baseiam na confiança e não só na aplicação técnica dos conhecimentos, mas decorrente
do mandato/outorga de poderes de representação em juízo, entre as partes, conforme o
Código Civil. Não se trata, pois, de mero contrato de prestação de serviços no sentido
genérico. Conforme a melhor doutrina, não é obrigatório que apenas uma empresa seja
de notória especialização. A lei não impõe qualquer restrição em tal sentido.

4 - As sanções da Lei 8.429/92 só podem ser aplicadas em casos de comprovado dolo,


má-fé ou desonestidade do agente público, capaz de caracterizar a improbidade
administrativa; caso contrário, não ocorrerá o ilícito previsto na lei.

5 - Em relação a suposta necessidade de formalização do processo para demonstrar a


singularidade do serviço técnico prestado, resta preclusa tal argumento, uma vez que a
matéria é nova, aventada apenas em segundo grau de jurisdição, o que é vedado, pois
configurada hipótese de supressão de instância.

6 – Recurso conhecido e improvido. Decisão Unânime.

119
Anexo II – Lista de Julgados Analisados – Superior Tribunal de
Justiça

(Julgados ordenados cronologicamente: do mais antigo até o mais recente)

1) HABEAS CORPUS Nº 37.102 – PR

i) Relator: MINISTRO GILSON DIPP, QUINTA TURMA

ii) Julgado em 2.12.2004

iii) Ementa:

CRIMINAL. HC. CRIMES PREVISTOS NA LEI DE LICITAÇÕES.


CONTRATAÇÃO DE ADVOGADOS PELO MUNICÍPIO. INEXIGIBILIDADE DE
LICITAÇÃO. NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO. INEDITISMO DOS SERVIÇOS.
INVIABILIDADE DE COMPETIÇÃO. DILAÇÃO PROBATÓRIA.
IMPROPRIEDADE DA VIA ELEITA. INVESTIGAÇÃO. MINISTÉRIO PÚBLICO.
LEGITIMIDADE. SÚMULA 234/STJ. PRESCRIÇÃO. INOCORRÊNCIA. ORDEM
DENEGADA.

I - Hipótese em que os pacientes teriam firmado contrato de prestação de serviços


advocatícios com a Prefeitura Municipal, sem que a mesma procedesse à instauração de
certame licitatório.

II - Tem-se a impropriedade do writ para a averiguação da notória especialização dos


advogados ou do ineditismo do serviço acordado, a justificarem a contratação direta
pela Administração Pública, sem licitação, diante da necessidade de dilação do conjunto
fático-probatório, inviável na via eleita. Precedentes.

III - Afasta-se a idéia da exclusividade da polícia judiciária para proceder às


investigações de infrações penais, uma vez que o Ministério Público tem competência
para tanto, e essa atuação não o impede dar início à ação penal correspondente. Súmula
234/STJ.

IV - Tem-se como não configurada a prescrição, se entre a data do fato e o recebimento


da denúncia não transcorreu o lapso temporal necessário para tanto.

V - Ordem denegada.

120
2) HABEAS CORPUS Nº 59.874 - MS

i) Relatora: MINISTRA JANE SILVA, QUINTA TURMA

ii) Julgado em 25.09.2005

iii) Ementa:

HABEAS CORPUS – DISPENSA ILEGAL DE LICITAÇÃO – CONTRATAÇÃO DE


SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS PARA A DEFESA DE INTERESSES DA
MUNICIPALIDADE EM JUÍZO – AUSÊNCIA DE ATO LICITATÓRIO – FALTA
DE JUSTA CAUSA PARA A PROMOÇÃO DA AÇÃO PENAL – INEXISTÊNCIA –
TRANCAMENTO – IMPOSSIBILIDADE – INDÍCIOS DE AUTORIA E DA
EXISTÊNCIA DO CRIME – AUSÊNCIA DE DOLO – ESTREITA VIA DO WRIT –
INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO – SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS –
NECESSIDADE DE REVOLVIMENTO DO CONJUNTO FÁTICO-PROBATÓRIO –
ORDEM DENEGADA.

I. Impossível o trancamento da ação penal instaurada contra o paciente quando há, nos
autos, indícios mínimos da existência do crime e de sua autoria.

II. A ausência de dolo na conduta do paciente e a caracterização dos serviços


advocatícios contratados como de notória especialização dependem do revolvimento do
conjunto fático-probatório da ação penal principal, sendo inviável por meio dos estreitos
limites do presente remédio constitucional.

III. Ordem denegada.

121
3) RECURSO ESPECIAL Nº 861.566 - GO

i) Relator: MINISTRO LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA

ii) Julgado em 25.13.2008

iii) Ementa:

PROCESSUAL CIVIL. ADMINISTRATIVO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA.


LEGITIMIDADE ATIVA DO MINISTÉRIO PÚBLICO. ART. 129, III, DA
CONSTITUIÇÃO FEDERAL. EX-PREFEITO. ATO DE IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DE ADVOGADO. INEXIGIBILIDADE DE
LICITAÇÃO. COGNIÇÃO DE MATÉRIA FÁTICA. SÚMULA 07/STJ. AUSÊNCIA
DE DANO AO ERÁRIO. APLICAÇÃO DAS PENALIDADES. PRINCÍPIO DA
PROPORCIONALIDADE.

1. O Ministério Público está legitimado à propositura da ação civil pública em defesa de


qualquer interesse difuso ou coletivo, abarcando nessa previsão o resguardo do
patrimônio público, com supedâneo no art. 1.º, inciso IV, da Lei n.º 7.347/85, máxime
diante do comando do art. 129, inciso III, da Carta Maior, que prevê a ação civil
pública, agora de forma categórica, como instrumento de proteção do patrimônio
público e social (Precedentes: REsp n.º 686.993/SP, Rel. Min. Eliana Calmon, DJU de
25/05/2006; REsp n.º 815.332/MG, Rel. Min. Francisco Falcão, DJU de 08/05/2006; e
REsp n.º 631.408/GO, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJU de 30/05/2005)

2. É de sabença o caráter sancionador da Lei 8.429/92 aplicável a s agentes públicos


que, por ação ou omissão, violem os deveres de honestidade, imparcialidade, legalidade,
lealdade às instituições e notadamente: a) importem em enriquecimento ilícito (art. 9º);
b) causem prejuízo ao erário público (art. 10); c) atentem contra os princípios da
Administração Pública (art. 11) compreendida nesse tópico a lesão à moralidade
administrativa.

3. A exegese das regras insertas no art. 11 da Lei 8.429/92, considerada a gravidade das
sanções e restrições impostas ao agente público, deve se realizada cum granu salis,
máxime porque uma interpretação ampliativa poderá acoimar de ímprobas condutas
meramente irregulares, suscetíveis de correção administrativa, posto ausente a má-fé do
administrador público, preservada a moralidade administrativa e, a fortiori, ir além de
que o legislador pretendeu.

4. A má-fé, consoante cediço, é premissa do ato ilegal e ímprobo e a ilegalidade só


adquire o status de improbidade quando a conduta antijurídica fere os princípios
constitucionais da Administração Pública coadjuvados pela má-intenção do
administrador.

5. À luz de abalizada doutrina: "A probidade administrativa é uma forma de moralidade


administrativa que mereceu consideração especial da Constituição, que pune o ímprobo
122
com a suspensão de direitos políticos (art. 37, §4º). A probidade administrativa consiste
no dever de o "funcionário servir a Administração com honestidade, procedendo no
exercício das suas funções, sem aproveitar os poderes ou facilidades delas decorrentes
em proveito pessoal ou de outrem a quem queira favorecer". O desrespeito a esse dever
é que caracteriza a improbidade administrativa. Cuida-se de uma imoralidade
administrativa qualificada. A improbidade administrativa é uma imoralidade qualificada
pelo dano ao erário e correspondente vantagem ao ímprobo ou a outrem(...)." in José
Afonso da Silva, Curso de Direito Constitucional Positivo, 24ª ed., São Paulo,
Malheiros Editores, 2005, p-669.

6. A Ação Civil Pública foi julgada parcialmente procedente para declarar a nulidade
dos contratos de prestação de serviços de assessoria e consultoria jurídica celebrados
pelos réus, condenando a co-ré, ora recorrente, à restituição aos cofres municipais de
todos os valores recebidos a título de remuneração, deixando, contudo, de reconhecer a
prática de ato de improbidade administrativa imputada ao ex-prefeito, ao fundamento de
inexistência de provas nos autos aptas a autorizar a aludida condenação, consoante se
infere da sentença proferida às fls. 1107/1142.

7. O Tribunal local, revisitando os fatos que nortearam o ato acoimado de improbidade,


qual seja, contratação de profissional para a prestação de serviços de assessoria jurídica
ao Município, sem prévio certame licitatório, mediante a celebração de quatro contratos,
manteve a anulação dos mencionados contratos e a sanção imposta à contratada de
ressarcimento dos valores recebidos, reduzindo-os ao percentual de 40%, consoante se
infere do voto condutor, verbis:

"Outrossim, operando a anulação por força do critério legalidade do ato


administrativo, seus efeitos são ex tunc, suprimindo os já produzidos pela atuação
ilegal da autoridade, com o que se preservam direitos e situações jurídicas, cortando,
no nascedouro, o ato impugnado.

Infere-se, que se a sentença condenou a apelante ao ressarcimento de todos os valores


pagos em decorrência da nulidade dos contratos, alçando fundamento na violação do
princípio da legalidade, conforme já mencionado.

Neste ponto entendo que o decisum merece ser reformado, como bem manifestou o
Ministério Público do segundo grau, "mesmo não constando do pedido de reforma
imediato, entretanto devendo ser considerado como mediato, diante da busca por parte
da apelante da total reforma do julgado."

Atentando-se às provas dos autos não vislumbro que os serviços advocatícios não
tenham sido prestados pela apelante à municipalidade. Portanto, fez jus a receber os
honorários. Do contrário, anti-jurídica seria a pretensão do ente público, de se
beneficiar de determinado serviço, sem a devida contraprestação. Dessarte,
considerando que a sentença singular deixou ressalvado o direito da recorrente em
ajuizar ação de Indenização a fim de receber os valores relativos aos serviços
efetivamente prestados e observando os princípios da proporcionalidade e
razoabilidade, reduzo o valor da condenação da apelante, devendo a mesma devolver
ao erário de São Francisco de Goiás 40% (quarenta por cento) dos valores recebidos
em virtude dos contratos sub judice.(...)" (fls. 1233/1239)

123
8. O exame acerca da nulidade da contratação para a prestação de serviços de assessoria
jurídica, em face da ausência de prova de notória especialização ensejadora da
inexigibilidade de licitação, in casu, enseja análise de matéria fático-probatória,
interditada em sede de recurso especial, ante a ratio essendi da Súmula 07/STJ.

9. A lei de improbidade administrativa prescreve no capítulo das penas que na sua


fixação o “juiz levará em conta a extensão do dano causado, assim como o proveito
patrimonial obtido pelo agente.” (Parágrafo único do artigo 12 da lei nº 8.429/92).

10. In casu, a ausência de dano ao patrimônio público e de enriquecimento ilícito da


contratada, tendo em vista a efetiva prestação de serviços, reconhecidos pelo Tribunal
local à luz do contexto fático delineado nos autos, revelam a desproporcionalidade da
sanção econômica imposta à parte, ora recorrente, a uma: porque, nada obstante o
pedido fosse de ressarcimento ao erário, ao agente público não foi imposta nenhuma
penalidade, ante a ausência de provas acerca da prática de ato improbo; a duas: porque a
manutenção da condenação na hipótese in foco, em que os serviços efetivamente foram
prestados, enseja enriquecimento injusto do Município. Precedentes do STJ: REsp
717375/PR, DJ 08.05.2006 e REsp 514820/SP, DJ 06.06.2005.

11. Recurso especial parcialmente provido para afastar a condenação imposta à parte,
ora recorrente.

124
4) AgRg no RECURSO ESPECIAL Nº 1.055.031 - RJ

i) Relator: MINISTRO FRANCISCO FALCÃO, PRIMEIRA TURMA

ii) Julgado em 02.10.2008

iii) Ementa:

AÇÃO CIVIL PÚBLICA. CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA.


INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO. DECISÃO AGRAVADA. SÚMULA 7/STJ.
SÚMULA Nº 126/STJ. AGRAVO REGIMENTAL. FUNDAMENTO NÃO-
INFIRMADO. SÚMULA Nº 182/STJ.

I - Trata-se de recurso especial interposto contra o acórdão que declarou nulo o contrato
avençado entre escritório de advocacia e sociedade de economia mista, ante a ausência
de licitação. Com a nulidade, o Tribunal a quo determinou a devolução das quantias
recebidas pela banca, além do ônus da sucumbência.

II - No recurso especial foi alegado que a hipótese era de inexigibilidade de licitação


ante a inviabilidade de competição. Sustentou ainda que não houve prejuízo para a
Administração haja vista que os serviços advocatícios foram prestados.

III - Na decisão agravada observou-se que o Tribunal a quo teria decidido a questão
fulcrado nos artigos 37 e 175, da CF, não tendo o recorrente interposto recurso
extraordinário, aplicando-se a súmula 126/STJ. Decidiu-se também que a questão
tratada implicaria no reexame do conjunto probatório, atividade vedada pelo óbice da
súmula 7/STJ. Verificou-se que o dissidio apresentado não apontava o artigo sobre o
qual teria havido dissidência interpretativa, o que atraia o comando da súmula 284/STF
e, finalmente, observou-se a falta de prequestionamento dos temas insertos no art. 13 da
Lei 7.347/1985.

IV - Nos presentes agravos regimentais os recorrentes não infirmam a incidência da


súmula 284/STF, fundamento que por si só determina a inviabilidade do recurso
especial. Incide na espécie a súmula 182/STJ.

V - Mesmo que afastado tal empeço, este Superior Tribunal de Justiça já decidiu que a
análise acerca da inexigibilidade de licitação atrai o óbice da súmula 7/STJ.
Precedentes: REsp nº 785.540/SP, Rel. Min. LUIZ FUX, DJ de 03.03.2008, REsp nº
764.956/SP, Rel. Min. FRANCISCO FALCÃO, DJ de 07.05.2008 e REsp nº
729.686/SP, Rel. Min. DENISE ARRUDA, DJe de 01.07.2008.

VI - Ainda a título de obter dictum sobre o prequestionamento do dispositivo legal


utilizado pelo recorrente para questionar a devolução dos valores, deve-se gizar que o
acórdão recorrido em nenhum momento ventilou o assunto, impedindo a análise do
tema por este STJ.

VII - Agravos regimentais não-conhecidos.

125
5) RECURSO ESPECIAL Nº 448.442 - MS

i) Relator: MINISTRO HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA

ii) Julgado em 23.02.2010

iii) Ementa:

PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. OFENSA AO ART. 535 DO CPC


NÃO CONFIGURADA. AÇÃO POPULAR. CONTRATAÇÃO DE ADVOGADO
SEM LICITAÇÃO. NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO. SÚMULA 7/STJ.
DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL NÃO DEMONSTRADA.

1. O acórdão recorrido manteve a sentença que julgou procedente o pedido deduzido em


Ação Popular para anular o contrato de prestação de serviços advocatícios sem prévia
licitação.

2. A solução integral da controvérsia, com fundamento suficiente, não caracteriza


ofensa ao art. 535 do CPC.

3. Diante da lesividade decorrente da contratação ilegal, é patente o cabimento da Ação


Popular.

4. A notória especialização jurídica, para legitimar a inexigibilidade de procedimento


licitatório, é aquela de caráter absolutamente extraordinário e incontestável – que fala
por si. É posição excepcional, que põe o profissional no ápice de sua carreira e do
reconhecimento, espontâneo, no mundo do Direito, mesmo que regional, seja pela longa
e profunda dedicação a um tema, seja pela publicação de obras e exercício da atividade
docente em instituições de prestígio.

5. A especialidade do serviço técnico está associada à singularidade que veio a ser


expressamente mencionada na Lei 8.666/1993. Ou seja, envolve serviço específico que
reclame conhecimento peculiar do seu executor e ausência de outros profissionais
capacitados no mercado, daí decorrendo a inviabilidade da competição.

6. O Tribunal de origem, com base nas provas colacionadas aos autos, asseverou a
ausência de notória especialização do recorrente para o objeto contratado (assessoria
para fins de arrecadação de ISS), tendo ressaltado que o trabalho efetivamente prestado
não exigia conhecimentos técnicos especializados e poderia ter sido executado pelos
servidores concursados do ente municipal. Nesse contexto, inexiste violação dos arts. 12
e 23 do Decreto 2.300/1986, vigente à época dos fatos.

7. Ademais, a análise da alegação de que foram atendidos os requisitos para a


contratação sem licitação demandaria, na hipótese dos autos, reexame dos elementos
fático-probatórios do acórdão recorrido, o que esbarra no óbice da Súmula 7/STJ.

126
8. Quanto à pretensão de que seja afastada a condenação ao ressarcimento do valor
pago, friso que o art. 49 do Decreto-Lei 2.300/1986 e o art. 49 da Lei 8.666/1993,
mencionados no Memorial, não foram suscitados nas razões recursais. Com relação ao
art. 22 da Lei 8.906/1994 (Estatuto da OAB), além de carecer de prequestionamento,
não assegura o pagamento de honorários advocatícios convencionados por meio de
contratação ilegal.

9. O fato de ter sido prestado o serviço não afasta o prejuízo, sobretudo porque a
ausência de licitação obsta a concorrência e, com isso, a escolha da proposta mais
favorável. Seria inócua a declaração da nulidade do contrato sem o necessário
ressarcimento do valor indevidamente pago.

10. Além disso, considerando a premissa fática do acórdão recorrido, é evidente que o
dispensável valor gasto com a ilegal contratação acarretou prejuízo ao Erário, que deve
ser ressarcido. A leitura do voto-condutor não permite verificar a boa-fé do contratado,
estando consignado que "o trabalho desenvolvido pelo advogado contratado mais se
aproxima de exercício de fiscalização e de cobrança, o que poderia e deveria ser
realizado por servidor concursado do Município".

11. Ad argumentandum , de acordo com o art. 59 da Lei 8.666/1993, a declaração de


nulidade de contrato acarreta a desconstituição dos seus efeitos jurídicos. A ressalva ao
direito à indenização pelos serviços prestados somente se aplica quando demonstrada a
inequívoca boa-fé do contratado. Precedentes do STJ.

12. A divergência jurisprudencial deve ser comprovada, cabendo a quem recorre


demonstrar as circunstâncias que identificam ou assemelham os casos confrontados,
com indicação da similitude fática e jurídica entre eles. Indispensável a transcrição de
trechos do relatório e do voto dos acórdãos recorrido e paradigma, realizando-se o
cotejo analítico entre ambos, com o intuito de bem caracterizar a interpretação legal
divergente. O desrespeito a esses requisitos legais e regimentais (art. 541, parágrafo
único, do CPC e art. 255 do RI/STJ) impede o conhecimento do Recurso Especial, com
base na alínea "c" do inciso III do art. 105 da Constituição Federal. 13. Recurso
Especial parcialmente conhecido e, nessa parte, não provido.

127
6) AgRg no AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 1.253.420 - SP

i) Relator: MINISTRO HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA

ii) Julgado em 06.04.2010

iii) Ementa:

PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. ORDEM DOS ADVOGADOS DO


BRASIL – OAB. ASSISTÊNCIA. INTERVENÇÃO NEGADA. FUNDAMENTO
INATACADO. SÚMULA 283/STF. MÉRITO DO APELO PREJUDICADO.

1. Em Ação de Improbidade Administrativa cujo objeto é a contratação ilegal de


serviços advocatícios, o Tribunal de origem manteve a condenação dos réus e indeferiu
o ingresso da OAB como assistente por entender que, a) não versando a demanda sobre
prerrogativas de causídicos, inexiste repercussão na esfera jurídica da entidade; e b) o
alegado interesse em defender o direito à contratação de serviços advocatícios sem
licitação não guarda pertinência com a hipótese dos autos, fundada na desnecessidade
da contratação realizada.

2. Ao prover o Ag 1.254.513/SP e o Ag 1.246.159/SP, determinei a subida do Recurso


Especial dos réus, para melhor análise.

3. A OAB, em suas razões, aponta ofensa ao art. 49 da Lei 8.906/1994 com base no
argumento de haver interesse jurídico em intervir como assistente dos réus para
demonstrar a licitude da inexigibilidade de licitação para contratação de seus inscritos,
considerando que os orienta, de modo geral, a avençar desse modo.

4. Se a demanda não trata das prerrogativas dos advogados, nem das "disposições ou
fins" do Estatuto da Advocacia (art, 49, caput, da Lei 8.906/1994), descabe a
intervenção da OAB em Ação de Improbidade Administrativa, como em qualquer outra.

5. Ocorre que, ao rechaçar o pedido de assistência, o Tribunal a quo asseverou que não
cuidam os autos de mera inexigibilidade do procedimento licitatório, e sim de
contratação desnecessária, porque os serviços contratados poderiam ter sido prestados
por servidores municipais.

6. Com efeito, o instituto da inexigibilidade da licitação diz respeito a situações em que


cabe contratação, mas em que é inviável a competição ante a especialidade do serviço e
a notória especialização do contratado. Tal não se confunde com a contratação
prescindível e ilegal de quem quer que seja, o que vai além da inviabilidade afirmada
pela agravante.

7. Nas razões do Recurso Especial, a OAB limitou-se a manifestar o interesse em


defender que a inexigibilidade de licitação para contratação de advogados é legal e
ética. Não sustentou, contudo, interesse em assistir aos advogados contratados
desnecessariamente pelo Poder Público, a par da distinção feita pelo tribunal local.

128
8. A ausência de combate específico ao fundamento do acórdão recorrido obsta o
conhecimento do apelo, conforme inteligência da Súmula 283/STF.

9. Os argumentos lançados no Memorial são inábeis a afastar a conclusão de que a tese


lançada nas razões recursais firma-se em premissa diversa do acórdão recorrido, não
combatido devidamente naquela oportunidade.

10. Levando-se em conta que a agravante não logrou ingressar no feito, fica prejudicada
sua insurgência quanto à questão de fundo.

11. Agravo Regimental não provido.

129
7) RECURSO ESPECIAL Nº 1.238.466 - SP

i) Relator: MINISTRO MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA

ii) Julgado em 06.09.2011

iii) Ementa:

PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. OFENSA AO ART. 535 DO CPC.


INOCORRÊNCIA. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DE
ADVOGADO SEM LICITAÇÃO. DEVOLUÇÃO DOS VALORES RECEBIDOS.
INVIABILIDADE.

1. Trata-se de ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público do Estado de São
Paulo por suposto ato de improbidade - dispensa de licitação de contrato entre
Administração municipal e o recorrido para prestação de serviços advocatícios.
Pleiteou-se, na dita ação, a nulidade da dispensa de licitação, a condenação dos réus à
reparação do dano causado ao erário, a restituição das importâncias pagas, a perda da
função pública dos réus, o pagamento de multa civil, e a proibição de contratar com o
Poder Público.

2. A sentença de mérito deu parcial procedência à ação de improbidade. E o acórdão


recorrido deu parcial provimento ao recurso dos réus para declarar ser incabível a
devolução dos valores percebidos pelo advogado durante o período do contrato em que
os serviços foram prestados. Além do mais, o Tribunal entendeu que, por não ter havido
dano patrimonial, seria inviável o pagamento da multa, que é fixada em proporção ao
dano.

3. Recorre o Ministério Público da decisão da Corte de origem que excluiu algumas das
penalidades imputadas ao agente ímprobo.

4. Inicialmente, é de se destacar que os órgãos julgadores não estão obrigados a


examinar, mesmo com fins de prequestionamento, todas as teses levantadas pelo
jurisdicionado durante um processo judicial, bastando que as decisões proferidas
estejam devida e coerentemente fundamentadas, em obediência ao que determina o art.
93, inc. IX, da Lei Maior. Isso não caracteriza ofensa aos arts. 458, e 535, do CPC.
Precedentes.

5. Quanto ao mérito, a questão cinge-se na contratação de advogado e contador por


Câmara Municipal sem licitação, com fundamento no art. 25 da Lei n. 8.666/93 – que
refere-se à inexigibilidade de licitação.

6. Conforme depreende-se do artigo citado acima, a contratação sem licitação, por


inexigibilidade, deve estar vinculada à notória especialização do prestador de serviço,
de forma a evidenciar que o seu trabalho é o mais adequado para a satisfação do objeto
contratado e, sendo assim, inviável a competição entre outros profissionais.

7. No entanto, apesar do caso tratado nos autos não ser hipótese de dispensa de
130
licitação, o pedido do recorrente de que o advogado efetue a devolução dos valores
recebidos não pode prosperar. Este Tribunal entende que, se os serviços foram
prestados, não há que se falar em devolução, sob pena de enriquecimento ilícito do
Estado.

8. A interposição do recurso especial pela alínea c do permissivo constitucional também


exige que o recorrente cumpra o disposto nos arts. 541, parágrafo único, do CPC, e 255,
§ 1º, a, e § 2º, do RISTJ, o que não ocorre na espécie.

9. Recurso especial parcialmente conhecido e, nesta parte, não provido.

131
8) RECURSO ESPECIAL Nº 1.200.379 - MG

i) Relator: MINISTRO BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA TURMA

ii) Julgado em 15.10.2013

iii) Ementa:

ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO CIVIL


PÚBLICA. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DE
ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA SEM A INSTAURAÇÃO DE PROCEDIMENTO
DE INEXIGIBILIDADE. ART. 11 DA LEI N. 8.429/1992. ACÓRDÃO RECORRIDO
QUE CONSIGNA A AUSÊNCIA DE PREJUÍZO AO ERÁRIO. INADEQUAÇÃO
DA PENA DE RESSARCIMENTO.

1. Recurso especial no qual se discute a possibilidade de aplicação da pena de


ressarcimento em razão do reconhecimento da prática de ato ímprobo, consistente na
não realização do procedimento de inexigibilidade de licitação para a contratação de
escritório de advocacia.

2. Conforme entendimento jurisprudencial do STJ, a existência de prejuízo é condição


para se determinar o ressarcimento ao erário. Nesse sentido, dentre outros: Esp
1214605/SP, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, DJe 13/06/2013; REsp
1038777/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, DJe 16/03/2011.

3. Recurso especial não provido.

132
9) RECURSO ESPECIAL Nº 1.192.332 - RS

i) Relator: MINISTRO NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA

ii) Julgado em 12.11.2013

iii) Ementa:

ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS COM
DISPENSA DE LICITAÇÃO. ART. 17 DA LIA. ART. 295, V DO CPC. ART. 178 DO
CC/16. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS 282 E 356 DO STF.
ARTS. 13 E 25 DA LEI 8.666/93. REQUISITOS DA INEXIGIBILIDADE DE
LICITAÇÃO. SINGULARIDADE DO SERVIÇO. INVIABILIDADE DE
COMPETIÇÃO. NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO. DISCRICIONARIEDADE DO
ADMINISTRADOR NA ESCOLHA DO MELHOR PROFISSIONAL, DESDE QUE
PRESENTE O INTERESSE PÚBLICO E INOCORRENTE O DESVIO DE PODER,
AFILHADISMO OU COMPADRIO. RECURSO ESPECIAL PROVIDO.

1. Quanto à alegada violação ao 17, §§ 7o., 8o., 9o. e 10 da Lei 8.429/92, art. 295, V do
CPC e art. 178, § 9o., V, b do CC/16, constata-se que tal matéria não restou debatida no
acórdão recorrido, carecendo de prequestionamento, requisito indispensável ao acesso
às instâncias excepcionais. Aplicáveis, assim, as Súmulas 282 e 356 do STF.

2. Em que pese a natureza de ordem pública das questões suscitadas, a Corte Especial
deste Tribunal já firmou entendimento de que até mesmo as matérias de ordem pública
devem estar prequestionadas. Precedentes: AgRg nos EREsp 1.253.389/SP, Rel. Min.
HUMBERTO MARTINS, DJe 02/05/2013; AgRg nos EAg 1.330.346/RJ, Rel. Min.
ELIANA CALMON, DJe 20/02/2013; AgRg nos EREsp 947.231/SC, Rel. Min. JOÃO
OTÁVIO DE NORONHA, DJe 10/05/2012.

3. Depreende-se, da leitura dos arts. 13 e 25 da Lei 8.666/93 que, para a contratação dos
serviços técnicos enumerados no art. 13, com inexigibilidade de licitação,
imprescindível a presença dos requisitos de natureza singular do serviço prestado,
inviabilidade de competição e notória especialização.

4. É impossível aferir, mediante processo licitatório, o trabalho intelectual do


Advogado, pois trata-se de prestação de serviços de natureza personalíssima e singular,
mostrando-se patente a inviabilidade de competição.

5. A singularidade dos serviços prestados pelo Advogado consiste em seus


conhecimentos individuais, estando ligada à sua capacitação profissional, sendo, dessa
forma, inviável escolher o melhor profissional, para prestar serviço de natureza

133
intelectual, por meio de licitação, pois tal mensuração não se funda em critérios
objetivos (como o menor preço).

6. Diante da natureza intelectual e singular dos serviços de assessoria jurídica, fincados,


principalmente, na relação de confiança, é lícito ao administrador, desde que movido
pelo interesse público, utilizar da discricionariedade, que lhe foi conferida pela lei, para
a escolha do melhor profissional.

7. Recurso Especial a que se dá provimento para julgar improcedentes os pedidos da


inicial, em razão da inexistência de improbidade administrativa.

134
10) RECURSO ESPECIAL Nº 1.416.313 - MT

i) Relator: MINISTRO NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA

ii) Julgado em 26.11.2013

iii) Ementa:

ADMINISTRATIVO. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DE


SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS COM DISPENSA DE LICITAÇÃO. RECEBIMENTO
DE VALOR NÃO PREVISTO NO CONTRATO. ART. 3o. DA LEI 8.666/93.
SÚMULA 284 DO STF. ART. 10, CAPUT DA LEI 8.429/92. AUSÊNCIA DE
DEMONSTRAÇÃO DO DOLO EM CAUSAR PREJUÍZO AO ERÁRIO. MERA
IRREGULARIDADE FORMAL. AQUISIÇÃO DE MATERIAIS DE INFORMÁTICA
SEM LICITAÇÃO. FRACIONAMENTO INDEVIDO. ART. 23 E 24 DA LEI
8.666/93. INEXISTÊNCIA DA VIOLAÇÃO APONTADA. RECURSO ESPECIAL
DE TARCÍSIO CARDOSO TONHA PARCIALMENTE CONHECIDO E, NESTA
EXTENSÃO, PROVIDO. RECURSO ESPECIAL DE JOÃO CARLOS SANTINI
DESPROVIDO.

1. Quanto à alegada violação ao art. 3o. da Lei 8.666/93, sob o argumento de que se
trataria de caso de inexigibilidade de licitação e que a proposta apresentada à
Administração pelo recorrente TARCÍSIO CARDOSO TONHÁ foi no valor de R$
35.000,00, incide a Súmula 284 do STF, consoante a qual é inadmissível o Recurso
Raro quando a deficiência da fundamentação não permitir a exata compreensão da
controvérsia. Os argumentos expendidos pelo recorrente não guardam relação com o
dispositivo federal tido por violado, uma vez que o art. 3o. da Lei 8.666/93 não trata de
inexigibilidade de licitação.

2. No que tange à alínea c, em relação à alegada divergência jurisprudencial acerca da


necessidade de presença do elemento subjetivo doloso para caracterização do ato de
improbidade, bem como à apontada ofensa ao art. 10 da Lei 8.429/92, sob o argumento
de ausência de demonstração de dolo e prejuízo ao erário, pois teria ocorrido equívoco
na elaboração do contrato pela Câmara Municipal de Água Boa/MT em confronto com
a proposta elaborada pelo recorrente, no valor de R$ 35.000,00, necessário distinguir
ilegalidade de improbidade.

3. A ilegalidade e a improbidade não são - em absoluto, situações ou conceitos


intercambiáveis, não sendo juridicamente aceitável tomar-se uma pela outra (ou vice-
versa), eis que cada uma delas tem a sua peculiar conformação estrita: a improbidade é,
dest'arte, uma ilegalidade qualificada pelo intuito malsão do agente, atuando sob
impulsos eivados de desonestidade, malícia, dolo ou culpa grave.
135
4. No caso em comento, o fato de a prestação dos serviços ter sido iniciada antes da
formalização do contrato, por si só, não caracteriza ato de improbidade administrativa,
mas mera irregularidade. Não há evidências de que o Advogado, ora recorrente, tenha se
apropriado indevidamente de tal valor (R$ 4.000,00); pelo contrário, depreende-se dos
autos que esse montante foi recebido como contraprestação pelos serviços efetivamente
prestados.

5. Merece, portanto, ser considerada a tese de ter-lhe sido entregue fração do pagamento
para início dos trabalhos, antes da elaboração do contrato de prestação de serviços
advocatícios. A ausência de formalização desse pagamento no contrato elaborado não
faz presumir o dolo de causar prejuízo ao erário ou de enriquecer ilicitamente, tratando-
se, na verdade, de mera irregularidade ou vício de forma.

6. Quanto à aquisição de equipamentos eletrônicos sem procedimento licitatório,


constata-se que em menos de 120 dias, foram gastos um total de R$ 23.715,00 com
materiais da mesma espécie (equipamentos de informática), não se mostrando a
justificativa de ausência de recursos suficientes para compra conjunta apta a autorizar a
dispensa de licitação, por ausência de respaldo legal.

7. Recurso Especial de Tarcísio Cardoso Tonhá conhecido parcialmente, e nesta


extensão, provido tão somente para reconhecer a inexistência de dolo e,
consequentemente, do próprio ato ímprobo, em relação ao contrato de prestação de
serviços advocatícios. Negado provimento ao Recurso Especial de João Carlos Santini.

136
11) RECURSO ESPECIAL Nº 1.377.703 - GO

i) Relatora: MINISTRA ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA

i.i) R.P/Acórdão : MINISTRO HERMAN BENJAMIN

ii) Julgado em 03.12.2013

iii) Ementa:

PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA. CONTRATAÇÃO DE ADVOGADO. INEXIGIBILIDADE DE
LICITAÇÃO. SERVIÇO SINGULAR PRESTADO POR PROFISSIONAIS DE
NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO.

HISTÓRICO

1. O Ministério Público do Estado de Goiás ajuizou Ação Civil Pública por ato de
Improbidade Administrativa questionando a contratação de escritórios de advocacia sem
a realização de procedimento licitatório, por meio de três contratos, cada um prorrogado
duas vezes, com a sociedade "Carneiro Nogueira Advogados Associados" e com a
sociedade "Luiz Silveira Advocacia Empresarial".

2. Afirma o Ministério Público que a referida contratação configura improbidade


administrativa, por ofensa aos princípios da legalidade e da moralidade , uma vez que
inexistente qualquer singularidade a justificar a dispensa de licitação. Em memorial
apresentado pelo Estado de Goiás, consta que o contratado Luiz Silveira Advocacia
Empresarial S/C já ajuizou Execução dos honorários para pleitear o pagamento de R$
54.000.000,00 (cinquenta e quatro milhões de reais).

3. A eminente Relatora não conheceu do Recurso Especial por entender que os


elementos contidos na r. sentença e no v. acórdão hostilizado: a) não evidenciam a
presença de dolo, mesmo na modalidade genérica, e b) desautorizam "concluir pela falta
de singularidade do objeto e de notória especialização dos contratados, sendo inviável o
reexame dos elementos fático-probatórios dos autos, nos termos da Súmula 7/STJ".

CONHECIMENTO DO RECURSO ESPECIAL

4. Consta expressamente no acórdão hostilizado que as contratações feitas com duas


diferentes sociedades de advogados tiveram os seguintes objetos: a) "a contratação se
deu para prestação de serviço jurídico preciso, qual seja, 'prestações de serviços
jurídicos na defesa dos direitos da CELG, como propositura de defesas administrativas
perante o Instituto Nacional de Seguro Social - INSS, com argumentação jurídica, fática
e juntada de documentos comprovatórios, objetivando a inexigibilidade dos débitos
137
relativos a solidariedade consubstanciada na Lei n. 8.212/91' "; e b) "o referido contrato
tem como objeto a prestação de Serviços de Advocacia, para o patrocínio ou defesa de
causas judiciais ou administrativas, nas áreas tributárias, comercial e institucional
regulatória (...) que se fizessem necessárias para que fossem reconhecidos judicialmente
ou administrativamente os direitos da CONTRATANTE de efetuar recuperação, através
da compensação, repetição de indébito ou qualquer outro meio, em direito permitido, do
que foi pago indevidamente ou em valores maiores do que o devido, ou ainda, propor
ações e/ou procedimentos necessários para que fossem evitados pagamentos indevidos".

5. A decisão do órgão colegiado delineou expressamente o objeto do serviço contratado,


razão pela qual, conforme será abaixo demonstrado, a solução da presente lide toma por
base a valoração jurídica do Tribunal a quo, de modo que, com a devida vênia, não há
necessidade de rediscutir fatos ou provas.

CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS TÉCNICOS (JURÍDICOS) E INEXIGIBILIDADE


DE LICITAÇÃO

6. De acordo com o disposto nos arts. 13 e 25 da Lei 8.666/1993, a regra é que o


patrocínio ou a defesa de causas judiciais ou administrativas, que caracterizam serviço
técnico profissional especializado, devem ser contratados mediante concurso, com
estipulação prévia do prêmio ou remuneração. Em caráter excepcional, verificável
quando a atividade for de natureza singular e o profissional ou empresa possuir notória
especialização, não será exigida a licitação.

7. Como a inexigibilidade é medida de exceção, deve ser interpretada restritivamente.

AUSÊNCIA DE SINGULARIDADE DO SERVIÇO CONTRATADO

8. Na hipótese dos autos, o Tribunal de origem julgou improcedente o pedido com base
na seguinte premissa, estritamente jurídica: nas causas de grande repercussão
econômica, a simples instauração de processo administrativo em que seja apurada a
especialização do profissional contratado é suficiente para justificar a inexigibilidade da
licitação.

9. A violação da legislação federal decorre da diminuta (para não dizer inexistente)


importância atribuída ao critério verdadeiramente essencial que deve ser utilizado para
justificar a inexigibilidade da licitação, isto é, a comprovacão da singularidade do
serviço a ser contratado.

10. Ora, todo e qualquer ramo do Direito, por razões didáticas, é especializado. Nos
termos abstratos definidos no acórdão recorrido, qualquer escritório profissional com
atuação no Direito Civil ou no Direito Internacional, por exemplo, poderia ser
considerado especializado. 11. Deveria o órgão julgador, por exemplo, indicar: a) em
que medida a discussão quanto à responsabilidade tributária solidária, no Direito
Previdenciário, possui disciplina complexa e específica; e b) a singularidade no modo
de prestação de seus serviços – apta a, concretamente, justificar com razoabilidade de
que modo seria inviável a competição com outros profissionais igualmente
especializados.

138
12. É justamente nesse ponto que se torna mais flagrante a infringência à legislação
federal, pois o acórdão hostilizado não traz qualquer característica que evidencie a
singularidade no serviço prestado pelas sociedades de advogados contratadas, ou seja, o
que as diferencia de outros profissionais a ponto de justificar efetivamente a
inexigibilidade do concurso.

13. Correto, portanto, o Parquet ao afirmar que "Há serviços que são considerados
técnicos, mas constituem atividades comuns, corriqueiras, sem complexidade, ainda que
concernentes à determinada área de interesse. Assim, nem todo serviço jurídico é
necessariamente singular para efeito de inexigibilidade de licitação". Friso uma vez
mais: não há singularidade na contratação de escritório de advocacia com a finalidade
de ajuizar Ação de Repetição de Indébito Tributário, apresentar defesa judicial ou
administrativa destinada a excluir a cobrança de tributos, ou, ainda, prestar de forma
generalizada assessoria jurídica.

14. É pouco crível que, na própria capital do Estado de Goiás, inexistam outros
escritórios igualmente especializados na atuação acima referida.

15. O STJ possui entendimento de que viola o disposto no art. 25 da Lei 8.666/1993 a
contratação de advogado quando não caracterizada a singularidade na prestação do
serviço e a inviabilidade da competição. Precedentes: REsp 1.210.756/MG, Rel.
Ministro Mauro Campbell Marques, DJe 14/12/2010; REsp 436.869/SP, Rel. Ministro
João Otávio de Noronha, DJ 01/02/2006, p. 477.

ILEGALIDADE DE CLÁUSULA CONTRATUAL DE REMUNERAÇÃO

16. Merece destaque, ainda, a informação de que os contratos contêm cláusulas que
preveem a remuneração estipulada em percentual sobre os tributos cuja cobrança a
contratante Celg consiga anular ou, em outras bases, cuja restituição seja reconhecida
judicialmente (disposições que verdadeiramente transformam o escritório em sócio do
Erário).

17. A licitude dessa modalidade específica de remuneração requer valoração individual,


pois somente a ponderação das circunstâncias de cada caso é que poderá evidenciar a
afronta aos princípios da Administração. 18. Relembre-se que, conforme Memorial do
Estado de Goiás, o contratado Luiz Silveira Advocacia Empresarial S/C já ajuizou
Execução dos honorários para pleitear o pagamento de R$ 54.000.000,00 (cinquenta e
quatro milhões de reais). O elevadíssimo valor em cobrança – não estou aqui a discutir
se os serviços foram ou não prestados –, acrescido das ponderações acima, somente
corrobora o quão prejudicial para a Administração Pública foi a contratação dos
serviços sem a observância à instauração do procedimento licitatório.

ART. 11 DA LEI DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA

19. A conduta dos recorridos — de contratar diretamente serviços técnicos sem


demonstrar a singularidade do objeto contratado e a notória especialização, e com
cláusula de remuneração abusiva — fere o dever do administrador de agir na estrita
legalidade e moralidade que norteiam a Administração Pública, amoldando-se ao ato de
improbidade administrativa tipificado no art. 11 da Lei de Improbidade.

139
20. É desnecessário perquirir acerca da comprovação de enriquecimento ilícito do
administrador público ou da caracterização de prejuízo ao Erário. O dolo está
configurado pela manifesta vontade de realizar conduta contrária ao dever de legalidade,
corroborada pelos sucessivos aditamentos contratuais, pois é inequívoca a
obrigatoriedade de formalização de processo para justificar a contratação de serviços
pela Administração Pública sem o procedimento licitatório (hipóteses de dispensa ou
inexigibilidade de licitação).

21. Este Tribunal Superior já decidiu, por diversas ocasiões, ser absolutamente
prescindível a constatação de dano efetivo ao patrimônio público, na sua acepção física,
ou enriquecimento ilícito de quem se beneficia do ato questionado, quando a tipificação
do ato considerado ímprobo recair sobre a cláusula geral do caput do artigo 11 da Lei
8.429/92.

22. Verificada a prática do ato de improbidade administrativa previsto no art. 11 da Lei


8.429/1992, consubstanciado na infringência aos princípios da legalidade e da
moralidade , cabe aos julgadores impor as sanções descritas na mesma Lei, sob pena de
tornar impunes tais condutas e estimular práticas ímprobas na Administração Pública.

DISCIPLINA CONSTITUCIONAL

23. De acordo com o exposto, a contratação de escritórios profissionais de advocacia


sem a demonstração concreta das hipóteses de inexigibilidade de licitação
(singularidade do serviço e notória especialização do prestador), acrescida da inserção
de cláusulas que transformam o prestador de serviço em sócio do Estado, negam
aplicação ao art. 37, caput, e inciso XXI, da CF/1988.

DISPOSITIVO DO VOTO-VISTA

24. Com as homenagens devidas à eminente Relatora, sempre brilhante, conheço e dou
provimento ao Recurso Especial para reconhecer a violação dos arts. 13 e 25 da Lei
8.666/1993 e do art. 11 da Lei 8.429/1992 e enquadrar a conduta dos recorridos em ato
de improbidade por ofensa do dever de legalidade e atentado aos princípios da
Administração Pública. Determino o retorno dos autos ao egrégio Tribunal de origem
para que sejam fixadas as penas, assim como as verbas de sucumbência.

140
12) AgRg no RECURSO ESPECIAL Nº 1.363.879 – SC

i) Relator: MINISTRO HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA

ii) Julgado em 26.08.2014

iii) Ementa:

PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.


AUSÊNCIA DE LICITAÇÃO. NULIDADE. CONTRATANTE QUE DEU CAUSA À
INVALIDAÇÃO DO INSTRUMENTO. DEVER DE INDENIZAR AFASTADO.
JULGAMENTO EXTRA PETITA . NÃO OCORRÊNCIA. CULPA CONCORRENTE
DO ESCRITÓRIO PARA A NULIDADE DO CONTRATO. REVISÃO. MATÉRIA
FÁTICO-PROBATÓRIA. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 7/STJ. ALÍNEA "C". NÃO
DEMONSTRAÇÃO DA DIVERGÊNCIA.

1. Hipótese em que o acórdão recorrido consignou que "Com efeito, apesar da presente
ação ser denominada de 'ação de arbitramento de honorários', restando necessária para a
elucidação da controvérsia, a verificação do efetivo direito à verba, sendo aquela
baseada nesta contenda, não há falar em julgamento extra petita" e "Dessa forma,
analisando-se a contratação do demandante Cláudio Golgo Advogados Associados S/C,
verifica-se que os serviços de levantamento e cobrança de ISS prestados não se
enquadram dentre aqueles considerados singulares, nem mesmo a sociedade contratada
se trata de empresa com notória especialização, para se justificar uma inexigibilidade de
licitação, pois a própria Procuradoria do Município e outros tantos profissionais
poderiam prestar os mesmos serviços, o que demonstra a ilegalidade da contratação
realizada, bem como a necessidade do reconhecimento judicial de sua nulidade".

2. O Tribunal a quo constatou que não houve julgamento extra petita e que a recorrente
concorreu para a nulidade do contrato administrativo.

3. Não há como o STJ modificar as conclusões obtidas pelo Tribunal de origem sem
incursionar no suporte fático-probatório dos autos. Evidencia-se, assim, que a pretensão
esbarra no óbice da Súmula 7/STJ.

4. Quanto à levantada contrariedade ao art. 22 da Lei 8906/94 e ao art. 59 da Lei


8666/93, o acórdão recorrido harmoniza-se com a orientação pacífica do STJ de Que
não há o dever de indenizar por parte da Administração nos casos de ocorrência de má-
fé ou de ter o contratado concorrido para a nulidade.

5. In casu, o acórdão recorrido analisou a controvérsia a partir da perspectiva de que o


escritório de advocacia contribuiu para a nulidade do contrato, enquanto os arestos
paradigmáticos tratavam de situações em que ficou configurada a boa-fé do contratante,
hipótese afastada nos presentes autos. Dessume-se, diante disso, que não há similitude
fática entre ambos.

6. A divergência jurisprudencial deve ser comprovada, cabendo a quem recorre


demonstrar as circunstâncias que identificam ou assemelham os casos confrontados,
141
com indicação da similitude fática e jurídica entre eles. Indispensável a transcrição de
trechos do relatório e do voto dos acórdãos recorrido e paradigma, realizando-se o
cotejo analítico entre ambos, com o intuito de bem caracterizar a interpretação legal
divergente. O desrespeito a esses requisitos legais e regimentais (art. 541, parágrafo
único, do CPC e art. 255 do RI/STJ) impede o conhecimento do Recurso Especial, com
base na alínea "c" do inciso III do art. 105 da Constituição Federal.

7. Agravo Regimental não provido.

13) AgRg no RECURSO ESPECIAL Nº 1.281.089 - MG

142
i) Relator: MINISTRO NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA

ii) Julgado em 16.06.2015

iii) Ementa:

ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL EM


RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE IMPROBIDADE. RECEBIMENTO DA PETIÇÃO
INICIAL. CONTRATAÇÃO DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA.
INEXIGIBILIDADE DE LICITAÇÃO. HIPÓTESE NÃO CONFIGURADA.
VIABILIDADE DE COMPETIÇÃO. INDÍCIOS DA PRÁTICA DE ATO ÍMPROBO.
REVOLVIMENTO DE FATOS E PROVAS. SÚMULA 7 DESTA CORTE. AGRAVO
REGIMENTAL PROVIDO. RECURSO ESPECIAL NÃO CONHECIDO.

1. O não recebimento da presente ação revela-se prematuro, ante os fatos delineados


pelo Tribunal de origem, porquanto rever a presença de indícios de prática de ato de
improbidade administrativa a justificar o recebimento da ação, demandaria o
revolvimento de fatos e provas, acarretando a incidência do óbice da Súmula 7 desta
Corte.

2. Agravo regimental provido. Recurso especial não conhecido.

143
14) AgRg no RECURSO ESPECIAL Nº 1.466.157 - MG

i) Relator: MINISTRO MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA

ii) Julgado em 18.06.2015

iii) Ementa:

PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. AGRAVO REGIMENTAL NO


RECURSO ESPECIAL. AÇÃO CIVIL DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA.
RECEBIMENTO DA PETIÇÃO INICIAL. FUNDAMENTOS AUTÔNOMOS NÃO
IMPUGNADOS. SÚMULA 283/STF. PRESENÇA DE INDÍCIOS DE ATO DE
IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA EXPRESSAMENTE RECONHECIDOS PELO
TRIBUNAL DE ORIGEM. REEXAME DE MATÉRIA FÁTICO PROBATÓRIA.
INADEQUAÇÃO. SÚMULA 7/STJ. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO.

1. O Tribunal de origem, ao analisar a controvérsia, consignou (fls. 654/655): a) "(...)


verifica-se nos autos que o ora agravado ajuizou Ação Civil Púbica por ato de
improbidade administrativa, argumentando que os agora agravantes e interessados
celebraram contrato de prestação de serviços advocatícios sem licitação, por
inexigibilidade, mas sem respaldo legal para tanto"; b) "Vale ressaltar que, diante do
conjunto probatório acostado aos autos, não há como se falar, de plano, da inexistência
de conduta ímproba por parte dos agravantes e interessados, o que justifica o
recebimento e o processamento da ação para que seja oportunizado às partes o direito â
ampla defesa e ao contraditório".

2. Entretanto, apesar das alegações do recorrente, não houve impugnação dos referidos
fundamentos, os quais devem ser considerados aptos, por si só, para manter o julgado
impugnado, o que atrai a incidência da Súmula 283/STF.

3. Outrossim, a conclusão alcançada pelo Tribunal a quo deve ser mantida em todos os
seus termos, pois existindo indícios de cometimento de atos enquadrados na Lei de
Improbidade Administrativa, a petição inicial deve ser recebida, fundamentadamente,
pois, na fase inicial prevista no art. 17, §§ 7º, 8º e 9º, da Lei 8.429/92, vale o princípio
do in dubio pro societate , a fim de possibilitar o maior resguardo do interesse público.
Além disso, deve ser considerada prematura a extinção do processo com julgamento de
mérito, tendo em vista que nesta fase da demanda, a relação jurídica sequer foi formada,
não havendo, portanto, elementos suficientes para um juízo conclusivo acerca da
demanda.

4. Assim, foi com base no conjunto fático e probatório constante dos autos que o
Tribunal a quo reconheceu a presença de indícios de prática de ato de improbidade aptos
a autorizar o prosseguimento da ação civil. A reversão do entendimento exposto no
acórdão exige, necessariamente, o reexame de matéria fático-probatória, o que é vedado
em sede de recurso especial, nos termos da Súmula 7/STJ.

144
Anexo III – Lista de Julgados Analisados – Supremo Tribunal Federal

(Julgados ordenados cronologicamente: do mais antigo até o mais recente)

1) RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS-CORPUS 72830-8 RONDÔNIA

i) Relator: CARLOS VELLOSO

ii) Julgado em 24.10.1995

iii) Ementa:

EMENTA: PENAL. PROCESSUAL PENAL. AÇÃO PENAL: TRANCAMENTO.


ADVOGADO: CONTRATAÇÃO: DISPENSA DE LICITAÇÃO.

I. - Contratação de advogado para defesa de interesses do Estado nos Tribunais


Superiores: dispensa de licitação, tendo em vista a natureza do trabalho a ser prestado.
Inocorrencia, no caso, de dolo de apropriação do patrimônio público.

II. - Concessão de "habeas corpus" de oficio para o fim de ser trancada a ação penal.

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2) RECURSO EXTRAORDINÁRIO 466.705-3 SÃO PAULO

i) Relator: MIN. SEPÚLVEDA PERTENCE

ii) Julgado em 14.03.2006

iii) Ementa:

I. Administração Pública; inexigibilidade de licitação para contratação de serviços de


advocacia com sociedade profissional de notória especialização (L. 8.666/93, art. 25, II
e §1 a): o acórdão recorrido se cingiu ao exame da singularidade dos serviços
contratados, que, à luz de normas infraconstitucionais e da avaliação das. provas,
entendeu provada: alegada violação do art. 37, caput e I, da Constituição Federal que, se
ocorresse, seria reflexa ou indireta, que não enseja reexame no recurso extraordinário:
incidência da Súmula 279 e, mutatis mutandis, do princípio da Súmula 636.

II. Recurso extraordinário: descabimento: falta de prequestionamento do tema do art.


22, XXVII da Constituição federal, de resto, impertinente à decisão da causa, findada
em lei federal.

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3) AÇÃO PENAL 348-5 SANTA CATARINA

i) Relator: MIN. EROS GRAU

ii) Julgado em 15.12.2006

iii) Ementa:

AÇÂO PENAL PÚBLICA. CONTRATAÇAO EMERGENCIAL DE ADVOGADOS


FACE AO CAOS ADMINISTRATIVO HERDADO DA ADMINISTRAÇÃO
MUNICIPAL SUCEDIDA. LICITAÇÃO. ART. 37, XXI DA CONSTITUIÇÃO DO
BRASIL. DISPENSA DE LICITAÇÃO NÃO CONFIGURADA. INEXIGIBILIDADE
DE LICITAÇÃO CARACTERIZADA PELA NOTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO DOS
PROFISSIONAIS CONTRATADOS, COMPROVADA NOS AUTOS, 1\LIADA À
CONFIANÇA DA ADMINISTRAÇÃO POR ELES DESFRUTADA. PREVISÃO
LEGAL.

A hipótese dos autos não é de dispensa de licitação, eis que não caracterizado o
requisito da emergência. Caracterização de situação na qual hã inviabilidade de
competição e, logo, inexigibilidade de licitação.

2. "Serviços técnicos profissionais especializados" são serviços que a Administração


deve contratar sem licitação, escolhendo o contratado de acordo, em última instância,
com o grau de confiança que ela própria, Administração, deposite na especialização
desse contratado. Nesses casos, o requisito da confiança da Administração em quem
deseje contratar é subjetivo. Dai que a realização de procedimento licitatório para a
contratação de tais serviços - procedimento regido, entre outros, pelo principio do
julgamento objetivo - é incompatível com a atribuição de exercício de subjetividade que
o direito positivo confere à Administração para a escolha do "trabalho essencial e
indiscutivelmente mais adequado à plena satisfação do objeto do contrato" (cf. o § 1° do
art. 25 da Lei 8.666/93). O que a norma extraída do texto legal exige é a notória
especialização, associada ao elemento subjetivo confiança.

Há, no caso concreto, requisitos suficientes para o seu enquadramento em situação na


qual não incide o dever de licitar, ou seja, de inexigibilidade de licitação: os
profissionais contratados possuem notória especialização, comprovada nos autos, além
de desfrutarem da confiança da Administração.

Ação Penal que se julga improcedente.

147
4) HABEAS CORPUS 86.1.98-9 PARANÁ

i) Relator: MIN. SEPÚLVEDA PERTENCE

ii) Julgado em 17.03.2007

iii) Ementa:

I . Habeas corpus: prescrição: ocorrência no caso, tão-somente quanto ao primeiro dos


aditamentos à denúncia (L. 8.666/93, art. 92), ocorrido em 28.9.93.

II . Alegação de nulidade da decisão que recebeu a denúncia no Tribunal. de Justiça do


Paraná: questão que não cabe ser analisada originariamente no Supremo Tribunal.
Federal em relação à qual., de resto, a instrução do pedido é deficiente.

III. Habeas corpus: crimes previstos nos artigos 89 e 92 da L. 8. 666/93: falta de justa
causa para a ação penal., dada a inexigibilidade, no caso, de licitação para a contratação
de serviços de advocacia.

1. A presença dos requisitos de notória especialização e confiança, ao lado do relevo do


trabalho a ser contratado, que encontram respaldo da inequívoca prova documental
trazida, permite concluir, no caso, pela inexigibilidade da licitação para a contratação
dos serviços de advocacia.

2. Extrema dificuldade, de outro lado, da licitação de serviços de advocacia, dada a


incompatibilidade com as limitações éticas e legais que da profissão (L. 8.906/94, art.
34, IV; e Código de Ética e Disciplina da OAB/1995, art. 7°).

148
5) AI 791811 RG / SP - SÃO PAULO

i) Relator: Min. DIAS TOFFOLI

ii) Julgado em 16.09.2010

iii) Ementa:

EMENTA DIREITO CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. AÇÃO CIVIL


PÚBLICA. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. DISCUSSÃO SOBRE A
POSSIBILIDADE DE CONTRATAÇÃO DE DETERMINADOS SERVIÇOS, COM
DISPENSA DE LICITAÇÃO. CONSEQUÊNCIAS. PRESENÇA DE REPERCUSSÃO
GERAL.

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6) INQUÉRITO 3.074 SANTA CATARINA

i) Relator: MIN. ROBERTO BARROSO

ii) Julgado em 26.08.2014

iii) Ementa:

EMENTA: IMPUTAÇÃO DE CRIME DE INEXIGÊNCIA INDEVIDA DE


LICITAÇÃO. SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS. REJEIÇÃO DA DENÚNCIA POR
FALTA DE JUSTA CAUSA.

A contratação direta de escritório de advocacia, sem licitação, deve observar os


seguintes parâmetros: a) existência de procedimento administrativo formal; b) notória
especialização profissional; c) natureza singular do serviço; d) demonstração da
inadequação da prestação do serviço pelos integrantes do Poder Público; e) cobrança de
preço compatível com o praticado pelo mercado.

Incontroversa a especialidade do escritório de advocacia, deve ser considerado singular


o serviço de retomada de concessão de saneamento básico do Município de Joinville,
diante das circunstâncias do caso concreto. Atendimento dos demais pressupostos para a
contratação direta.

Denúncia rejeitada por falta de justa causa.

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