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ESCUTA EMPÁTICA E TRANSFORMAÇÃO DAS RELAÇÕES

13 de dezembro de 2017

Viver a maternagem à luz da Comunicação Não-Violenta é um desafio diário – que


acolho com amor e persistência. E neste caminho, a escuta empática é algo que apoia
muito a manter um lugar de presença e conexão com os filhos (e consigo mesma).
A escuta profunda é um caminho para a empatia. É incrível como alguns minutos com
esta qualidade de escuta são capazes de transformar a maneira como nos
enxergamos uns aos outros e criar mais espaço de entendimento nas relações.
“Ouvir somente com os ouvidos é uma coisa. Ouvir com o intelecto é outra. Mas
ouvir com a alma não se limita a um único sentido – o ouvido ou a mente, por
exemplo. Portanto, ele exige o esvaziamento de todos os sentidos. E, quando os
sentidos estão vazios, então todo o ser escuta. Ocorre uma compreensão direta do
que está ali mesmo diante de você que não pode nunca ser ouvida com os ouvidos ou
compreendida com a mente.”
(Chuang Tzu)

Outro dia, Gael não quis comer nada de lanche.


Eu fiz uma granola com frutas e yogurte pra mim, na expectativa de que ele comesse
junto – às vezes funciona.
Nada.
De jeito nenhum.
Normalmente respeito e não insisto e mais tarde ele pede pra comer e eu dou. Mas
resolvi insistir – sinal evidente de desconexão, que não percebi. Então comecei a
brincar de ‘”abre-a-boca-fecha-os-olhos”. Ele, perspicaz, não abria. Fechei os meus,
saboreando uma colherada. Finalmente ele entrou na brincadeira. Mas quando pus a
colher na boca dele, Nossa Senhora das Mães Cansadas! Cuspiu, chorou, pediu
mamá.
Então entendi: aquilo foi uma violência. Fui contra a autonomia e a liberdade de
escolha dele. Ele tinha dito que não queria, eu fingi que não ouvi. Não por ser uma
monstra, mas por não estar verdadeiramente conectada com ele, por ainda ter
introjetada em algum lugar do meu subconsciente a ideia de que criança “tem que”
comer, por ainda não ter me libertado de tantos padrões incutidos na infância e
reproduzidos inconscientemente ainda hoje. Sim, porque tudo isso vem à tona em
momentos de desconexão.
Lembrei do quanto fizeram esse tipo de coisa comigo quando eu era criança – eu, a
mais nova de cinco filhos, de um casal já totalmente desconectado e sem recursos
emocionais para fazer além do básico. Olhei meu filho chorando em meu colo. Chorei
junto, por mim, por ele, por todas as mães que repetem padrões familiares sem
perceber e se culpam depois pelas ações impulsivas. Dei mamá, pedi perdão. Mamou
longuamente, soluçando. Soltou, foi brincar, ainda amuado.
Geralmente depois de uma crise de choro, ele mesmo diz “estou mais calmo” – fruto,
creio eu, de nossa persistência em nomear os sentimentos. Mas, desta vez, não.
Perguntei, disse que não, sem me olhar. Começamos a brincar com alguns bichinhos.
Passei a conversar com ele através de um coelhinho, despertando um sorriso.
– Oi, Gael. Tudo bem?
– Não, Gael tá tiste.
– Triste. Hum, parece que você está com mágoa…
– É. Gael não queria comer. Mamãe põe a colher na boca do Gael.
– Você está assim porque você queria escolher o momento de comer, quando tivesse
mais fome?
– Sim. Gael não tava com fome.
– Você não estava com fome, né? Então não queria comer, né?
– É.
-E a mamãe conversou com você sobre isso?
– Sim.
– Mamãe disse que sente muito?
– Sim.
– Você quer um abraço dela?
– Não.
Coração apertado.
Pego a girafinha.
– Oi, Gael. Como você está?
– Tiste.
E explicou novamente o ocorrido ao outro bichinho.
– Puxa, você deve estar bem chateado mesmo. É importante entender quando você
não está com fome, né?
– Sim.
– E você gostaria que a mamãe respeitasse as suas escolhas…
– É.
Quando cultivo a empatia, colho os frutos de amor e gratidão.
–…
– Sabe, a mamãe sente muito por isso. Ela te disse que vai cuidar para ficar mais
atenta ao que você precisa?
– Sim.
–…
–…
– Como você está, Gael?
– Mais calmo.
– Você quer dizer algo pra mamãe?
Levanta os olhinhos, até então cabisbaixos, me olha nos olhos:
– Te amo, mamãe.

Meus olhos se enchem de lágrimas. De alegria, de alívio, de amor pela força que
surge na vulnerabilidade. Ficamos um tempo abraçados, coração no coração.
O poder da escuta empática é imenso. Quando estou aberta e curiosa para
compreender meu filho do lugar em que ele está, sem colocar minhas próprias ideias,
conceitos e opiniões à frente do que realmente importa – a relação – algo mágico
acontece.
Empatia é nosso estado natural. É preciso resgatar este estado. Nós, mães, temos
uma vantagem neste quesito em relação aos homens. Estácientificamente
comprovado que as áreas do cérebro ligadas à empatia, ao apego e ao afeto são
otimizadas na gravidez e ao longo dos dois primeiros anos após o parto. Há uma
redução na massa cinzenta de certas áreas cerebrais para que haja um
fortalecimentos das sinapses (interconexões entre neurônios) que realmentem
importam para a conexão mamãe-bebê e para toda a relação de maternagem. Então,
estas áreas do cérebro responsáveis pela interação social e pela nossa percepção dos
sentimentos dos outros se tornam mais especializadas. Um truque da natureza para
fazer a gente cuidar das crias para que sobrevivam. E uma grande oportunidade de
cultivar estas conexões neurais para que se fortaleçam cada vez mais e para que a
empatia se expanda para outros seres, não só nossos filhos.
A escuta empática parece, ao mesmo tempo, um movimento em direção ao outro e
para dentro de mim mesma: uma observação do que acontece dentro de mim
enquanto estou ouvindo profundamente outro ser humano – independentemente das
palavras usadas por ele. Ao ouvir empaticamente alguém, algo encontra ressonância
em mim. Eu “percebo” o que o outro está sentindo – talvez pelos tais dos neurônios-
espelhos. Mesmo que não haja palavras ou que ainda não exista domínio da
linguagem. Eu estico os ouvidos para acessar o que meu filho pretende dizer, por
exemplo, com o vocabulário que ele tem do alto de seus dois anos e meio. E confiro
se aquilo que chega em mim é o que pulsa nele. Esta qualidade de atenção e a
intenção sincera de me conectar a ele, cria um espaço de interação que nos revela o
que compartilhamos – aquilo que realmente importa para nós, nossas reais
necessidades como seres humanos.
Conexão e presença antes de tudo. Isso é o que nos cuida e nos nutre. Ali, ouvindo
meu filho, acolhendo-o, compreendendo-o e reparando o que precisava ser reparado,
acolhi também a criança que fui e que teve tantas necessidades tantas vezes
desprezadas. A cura da relação com o outro é a cura da relação consigo mesma. Por
isso, faço o que faço: pela transformação das relações, por mães mais conscientes,
por crianças mais respeitadas, por mulheres mais fortalecidas