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DEONTOLOGIA E ÉTICA PROFISSIONAL

UFCD
3539 FORMADORA: VERA SILVA
E-MAIL: VERALMS80@HOTMAIL.COM
Deontologia e Ética profissional

ÍNDICE

Introdução ........................................................................................................... 2

Âmbito do manual.............................................................................................. 2

Objetivos .......................................................................................................... 2

Conteúdos programáticos ................................................................................... 2

Carga horária .................................................................................................... 3

1.Princípios fundamentais ...................................................................................... 4

1.1.Deontologia e ética profissional ..................................................................... 4

1.2.Actos lícitos e ilícitos .................................................................................... 13

1.3.Actos legítimos e ilegítimos .......................................................................... 15

1.4.Responsabilidade ........................................................................................ 16

1.5.Segredo profissional .................................................................................... 22

2.Direitos da pessoa humana ................................................................................ 25

2.1.Direitos da pessoa humana e da pessoa idosa em particular ........................... 25

2.2.A vida e a morte ......................................................................................... 37

2.3.O Agente em Geriatria e a morte .................................................................. 40

Bibliografia .......................................................................................................... 46

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Deontologia e Ética profissional

Introdução

Âmbito do manual

O presente manual foi concebido como instrumento de apoio à unidade de formação


de curta duração nº3539 – Deontologia e ética profissional, de acordo com o
Catálogo Nacional de Qualificações.

Objetivos

 Reconhecer e aplicar os princípios fundamentais da deontologia e ética


profissional, na função de acompanhamento de pessoas idosas.
 Reconhecer e respeitar os direitos da pessoa humana

Conteúdos programáticos

 Princípios fundamentais
o Deontologia e ética profissional
o Atos lícitos e ilícitos
o Atos legítimos e ilegítimos
o Responsabilidade
o Segredo profissional
 Direitos da pessoa humana
o Direitos da pessoa humana e da pessoa idosa em particular
o A vida e a morte
o O Agente em Geriatria e a morte

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Deontologia e Ética profissional

Carga horária

 25 horas

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Deontologia e Ética profissional

1.Princípios fundamentais

1.1.Deontologia e ética profissional

A palavra Ética deriva do termo Grego “ Ethos”, usado pela primeira vez por
Aristóteles.

É uma reflexão sobre os princípios que se baseiam na moral, ou seja é o modo de ser
e de atuar do homem, estabelece normas gerais de comportamento deixando a cada
indivíduo a responsabilidade pelos seus atos concretos.

A Ética é o campo do conhecimento que se debruça sobre o estudo dos valores e


virtudes do homem, propondo um conjunto de normas de conduta e de postura para
que a vida em sociedade se dê de forma ordenada e justa.

Assim, a ética, para além do estudo das vertentes filosóficas e conceituais da conduta
humana, tem forte componente de aplicação, traduzido na análise e compreensão dos
aspetos éticos de um problema pessoal ou social. Trata-se da deliberação sobre os
aspetos éticos com repercussão individual ou coletiva no quotidiano da humanidade.

Quando se fala de ética, fala-se de reflexão sobre os nossos atos, o nosso carácter,
personalidade. Quando aceitamos a ética, como sendo um conjunto de regras a
orientar o relacionamento humano no seio de uma determinada comunidade social,
podemos admitir a conceptualização de uma ética deontológica, uma ética voltada para
a orientação de uma atividade profissional.

A ética não envolve apenas um juízo de valor sobre o comportamento humano, mas
determina em si, uma escolha, uma direção, a obrigatoriedade de agir num
determinado sentido em sociedade.

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Deontologia e Ética profissional

A par desta ideia geral de ética é importante compreender a aplicação dos seus
princípios à regulamentação de uma profissão.

É extremamente importante saber diferenciar a Ética, da Moral e do Direito. Estas três


áreas de conhecimento distinguem-se, porém têm grandes vínculos e até mesmo
sobreposições.

Tanto a Moral como o Direito baseiam-se em regras que visam estabelecer uma certa
previsibilidade para as ações humanas. Ambas, porém, se diferenciam.

A Moral estabelece regras que são assumidas pela pessoa, como uma forma de
garantir o seu bem-viver. A Moral é independente das fronteiras geográficas e garante
uma identidade entre pessoas que nem sequer se conhecem, mas utilizam este mesmo
referencial moral comum.

O Direito busca estabelecer as regras de uma sociedade delimitada pelas fronteiras do


Estado. As leis têm uma base territorial, elas valem apenas para aquela área
geográfica onde uma determinada população ou os seus delegados vivem. O Direito
Civil, que é o referencial utilizado em Portugal, baseia-se na lei escrita

Alguns autores afirmam que o Direito é um subconjunto da Moral. Esta perspetiva


pode gerar a conclusão de que toda a lei é moralmente aceitável. Inúmeras situações
demonstram a existência de conflitos entre a Moral e o Direito.

A desobediência civil ocorre quando argumentos morais impedem que uma pessoa
acate uma determinada lei. Este é um exemplo de que a Moral e o Direito, apesar de
se referirem a uma mesma sociedade, podem ter perspetivas discordantes.

A Ética é o estudo geral do que é bom ou mau. Um dos objetivos da Ética é a busca de
justificativas para as regras propostas pela Moral e pelo Direito. Ela é diferente de

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Deontologia e Ética profissional

ambos - Moral e Direito - pois não estabelece regras. Esta reflexão sobre a ação
humana é que a caracteriza.

Deontologia é um termo que surge da junção de duas palavras gregas: “déon” e


“logos”. Para os gregos “déon” significa dever, enquanto “logos” se traduzia por
discurso ou tratado.

Então, deontologia seria o tratado do dever, ou o conjunto de deveres, princípios ou


normas adaptadas com um fim determinado (regular ou orientar determinado grupo de
indivíduos no âmbito de uma atividade laboral, para o exercício de uma profissão).

A par desta ideia de tratado, associado à regulamentação de uma profissão estava


implícita uma certa ética, aquilo a que posteriormente viria a ser entendido como a
ciência do comportamento moral dos homens em sociedade.

Devemos entender o conjunto de deveres exigidos aos profissionais, como uma ética
de obrigações para consigo próprio, com os outros e com a comunidade.

Parece evidente que todas as profissões implicam uma ética, pois todas se relacionam
direta ou indiretamente com os outros seres humanos. Cada profissão tem como
finalidade o bem comum e o interesse público, e tem uma dimensão social, de serviço
à comunidade, que se antecipa à dimensão individual (na forma de benefício particular
que se retira dela).

Em suma, a deontologia é um conjunto de comportamentos exigíveis aos profissionais,


muitas vezes não codificados em regulamentação jurídica. Ou seja, a deontologia é
uma ética profissional das obrigações práticas, baseada na livre ação da pessoa e no
seu carácter moral.

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Deontologia e Ética profissional

Um CÓDIGO DE ÉTICA pode ser definido como um documento escrito, formal que
enuncia diversos padrões morais tendo em vista orientar e inspirar os comportamentos
dos seus colaboradores.

Existem inúmeros códigos de deontologia, sendo esta codificação da responsabilidade


de associações ou ordens profissionais.

Regra geral, os códigos deontológicos têm por base as grandes declarações universais
e esforçam-se por traduzir o sentimento ético expresso nestas, adaptando-o, no
entanto, às particularidades de cada país e de cada grupo profissional. Para além
disso, estes códigos propõem sanções, segundo princípios e procedimentos explícitos,
para os infratores do mesmo.

Os colaboradores devem participar na elaboração do código. Não é necessário que


todos sejam ouvidos individualmente, mas que a todos seja concedida a oportunidade
de participarem se assim o desejarem.

Em matéria de implementação do código devem ter atenção:


 Deve ser colocado à disposição de todos os colaboradores
 A instituição deve facultar informação suficiente para que às pessoas não
restem dúvidas interpretativas
 Os líderes devam apoiar vigorosamente o código, cumprir as suas normas e
denotarem um comportamento exemplar
 Se fica instituída a obrigatoriedade dos colaboradores denunciarem as violações
ao código, então é necessário que sejam também instituídos mecanismos
protetores aos denunciantes – anonimato e confidencialidade e proteção de
eventuais retaliações
 A instituição deve garantir aos acusados o direito à privacidade, a justiça e o
respeito durante o processo disciplinar. O direito a ter voz e a possibilidade de
recursos da decisão são garantias fundamentais
 O tratamento dos membros deve ser imparcial

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Deontologia e Ética profissional

 A instituição deve monitorizar a aplicação do código, quer através de auditorias


éticas periódicas e de uma constante procura de feedback sobre o que está a
ocorrer nas várias unidades e níveis organizacionais.

Características inerentes ao Agente em Geriatria


O/a Agente em Geriatria é o/a profissional que, no respeito de imperativos de
segurança e deontologia profissional, garante o equilíbrio pessoal e institucional no
relacionamento interpessoal do dia-a-dia com as pessoas idosas e restante Equipa
Multidisciplinar e complementa o cuidado da pessoa idosa nas suas vertentes física,
mental e social.

Atividades Principais:
 Reconhecer o quadro conceptual básico que caracteriza o envelhecimento na
sociedade atual e diferentes contextos sociais.
 Cuidar e vigiar pessoas idosas, selecionando e realizando atividades de
animação/ ocupação com os mesmos, no seu próprio domicílio e em contexto
institucional.
 Zelar pelo bem-estar da pessoa idosa, pelo cumprimento das prescrições de
saúde e dos cuidados de alimentação e higiene no seu domicílio e em contexto
institucional.

Atividades Específicas:
 Preparar o serviço relativo aos cuidados a prestar, selecionando, organizando e
preparando os materiais, os produtos e os equipamentos a utilizar.
 Prestar apoio a Idosos, no domicílio ou em contexto institucional, relativamente
a cuidados básicos de higiene, de conforto e de saúde, de acordo com o seu
grau de dependência e as orientações da equipa técnica:
o Lavar o Idoso ou auxiliá-lo no banho e noutras lavagens pessoais;
o Mudar ou colaborar na mudança de roupa pessoal e substituir fraldas;

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o Zelar pela manutenção da higiene e conforto do Idoso, nomeadamente


cortando-lhe as unhas, fazendo-lhe a barba, arranjando-lhe o cabelo e
substituindo-lhe a roupa de cama;
o Providenciar para que as necessidades de eliminação urinária e
intestinal dos idosos são satisfeitas transportando e disponibilizando os
equipamentos adequados;
o Contribuir para a prevenção de úlceras de pressão, cuidando da pele e
assegurando um posicionamento adequado do Idoso;
o Assegurar que as necessidades de dormir e repousar são satisfeitas,
colaborando na criação das condições adequadas, nomeadamente na
adaptação dos horários e do ambiente;
o Auxiliar na toma dos medicamentos de acordo com as orientações e o
plano de medicação estabelecido para cada Idoso;
o Promover a mobilidade do Idoso e a adoção de posturas corretas, tendo
em vista a prevenção do sedentarismo e do imobilismo;
o Contribuir para a prevenção de acidentes no domicílio, na instituição e
no exterior, sugerindo a adoção de medidas de segurança e a melhoria
da organização dos espaços.

 Prestar apoio na alimentação dos Idosos, de acordo com as


orientações da equipa técnica:
o Colaborar na organização e na confeção das refeições, respeitando a
qualidade do armazenamento e a higiene dos alimentos e tendo em
conta as restrições dietéticas, as necessidades e as preferências do
Idoso e as orientações da equipa técnica;
o Efetuar a distribuição das refeições, acondicionando-as e transportando-
as, respeitando as regras e os procedimentos de higiene alimentar;
o Acompanhar e auxiliar a toma das refeições sempre que a situação de
dependência do Idoso o exija.

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Deontologia e Ética profissional

 Prestar cuidados de higiene e arrumação do meio envolvente e da


roupa dos Idosos:
o Efetuar a limpeza, desinfeção e arrumação do quarto, casa de banho,
cozinha e outros espaços, utilizando os utensílios, as máquinas e os
produtos de limpeza adequados;
o Cuidar da roupa dos Idosos, colaborando na sua limpeza e tratamento e
efetuando a sua arrumação.

 Colaborar na prevenção da monotonia, do isolamento e da solidão dos


Idosos, no domicílio e em contexto institucional, de acordo com as
orientações da equipa técnica:
o Estimular a manutenção do relacionamento com os outros, encorajando-
o a participar em atividades da vida diária e de lazer adequadas à
situação do Idoso;
o Preparar e desenvolver atividades de animação e entretenimento,
adequadas à situação do Idoso, nomeadamente, proporcionando-lhe
momentos de leitura, jogos e convívio;
o Acompanhar o Idoso nas suas deslocações em situações de vida diária,
de lazer e de saúde.

 Articular com a equipa técnica, transmitindo a informação pertinente


sobre os serviços prestados, referenciando, nomeadamente, situações
anómalas respeitantes aos Idosos.

Competências - Saberes

O (A) Agente em Geriatria deve ter noções de:


 Funcionamento e características das instituições e serviços de apoio ao Idoso.
 Processo de envelhecimento e caracterização psicossocial da velhice.
 Psicopatologia do Idoso.
 Nutrição e dietética.

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Deontologia e Ética profissional

 Primeiros socorros.
 Conhecimentos de: Língua portuguesa. Comunicação e relações interpessoais.
 Higiene pessoal e conforto do Idoso. Cuidados básicos de prevenção e saúde
do Idoso. Posicionamento e mobilidade. Segurança e prevenção de acidentes.
 Higiene e segurança alimentar. Higiene ambiental. Princípios e técnicas de
animação de Idosos.
 Normas de segurança, Higiene e saúde da atividade profissional. Ética e
deontologia da atividade profissional.

Saber-Fazer
 Caracterizar e reconhecer os aspetos psicossociais do processo de
envelhecimento e da velhice.
 Exprimir-se de forma a facilitar a comunicação com os Idosos e a equipa
técnica.
 Utilizar os procedimentos de organização e preparação dos materiais, produtos
e equipamentos que utiliza.
 Aplicar as técnicas e os procedimentos relativos aos cuidados de higiene
pessoal e de conforto dos Idosos.
 Adequar os cuidados de higiene e conforto às necessidades e características do
Idoso.
 Aplicar as técnicas e os procedimentos relativos aos cuidados básicos de saúde
do Idoso.
 Utilizar os procedimentos e as técnicas de primeiros socorros em situação de
acidente.
 Aplicar técnicas adequadas à manutenção da mobilidade do Idoso.
 Identificar situações de risco de acidente e as medidas de segurança
adequadas.
 Adequar as refeições às características e necessidades dos Idosos, tendo em
conta o equilíbrio alimentar e as indicações da equipa técnica.
 Aplicar os princípios e as regras de higiene alimentar na armazenagem e
conservação dos produtos e no serviço de refeições.

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Deontologia e Ética profissional

 Utilizar as técnicas respeitantes aos cuidados de higiene e arrumação do meio


envolvente do Idoso
 Utilizar as técnicas respeitantes aos cuidados de limpeza e tratamento de
roupa.
 Aplicar as técnicas de animação mais adequadas às necessidades e interesses
dos Idosos.
 Detetar sinais ou situações anómalas referentes às condições de higiene e
conforto do Idoso, bem como referentes a outras situações.
 Aplicar as normas de segurança, higiene e saúde relativas ao exercício da
atividade.

Saber-Ser
 Respeitar os princípios de ética e deontologia inerentes à profissão.
 Motivar os outros para a adoção de cuidados de higiene e conforto adequados.
 Respeitar a privacidade, a intimidade e a individualidade dos outros.
 Revelar equilíbrio emocional e afetivo na relação com os outros.
 Adaptar-se a diferentes situações e contextos familiares.
 Promover o bom relacionamento interpessoal.
 Tomar a iniciativa no sentido de encontrar soluções adequadas na resolução de
situações imprevistas.

O (A) Agente de Geriatria deve selecionar as intervenções gerais que satisfaçam todas
as pessoas idosas, assim como as intervenções específicas para que estas tenham uma
boa qualidade de vida. Todo o ser humano tem uma dimensão biopsicossocial, com
todas as suas necessidades que transformam cada um, numa pessoa única.

Nas relações humanas ou relacionamento interpessoal no quotidiano de trabalho nas


Instituições, são admitidos diferentes tipos de Utentes e são necessárias estratégicas
específicas para obter e garantir uma comunicação eficaz e eficiente.

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Deontologia e Ética profissional

Para além do respeito pelas regras da Instituição, não existem fórmulas ou receitas
definidas para o relacionamento entre pessoas, no entanto surgem algumas linhas
orientadoras.
 Respeito humano - é importante termos sempre em mente que o outro,
exatamente como nós, tem muitas qualidades e defeitos e que cada um de nós
possui sentimentos e que nos guiamos por escala de valores diferentes. Trate o
outro como ele gostaria de ser tratado.

Há quatro princípios éticos a ter em atenção:


 Respeito pela autonomia do doente (escolhas do doente);
 Não-maleficência (minimizar o mal);
 Beneficência (fazer o bem);
 Justiça (uso criterioso dos recursos disponíveis).

Estes quatro princípios éticos devem ser aplicados no âmbito: do respeito pela vida; da
aceitação da inevitabilidade da morte.

Na prática, daqui resultam três dicotomias que devem ser aplicadas de forma
equilibrada. Assim:
 Os benefícios potenciais do tratamento devem ser equilibrados relativamente
aos riscos e malefícios potenciais;
 A luta pela preservação da vida, mas quando os malefícios resultantes dos
tratamentos ultrapassarem os seus benefícios potenciais, devem esses
tratamentos ser suspensos e proporcionar-se conforto na morte;
 As necessidades individuais devem ser ponderadas relativamente às da
sociedade.

1.2.Actos lícitos e ilícitos

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Deontologia e Ética profissional

Noção de facto jurídico: É todo o ato humano ou acontecimento natural juridicamente


relevante. Esta relevância jurídica traduz-se principalmente, senão mesmo
necessariamente na produção de efeitos jurídicos.

A constituição de uma relação jurídica depende sempre de um evento, evento esse a


que o Direito reconhece relevância como fonte de eficácia jurídica. A delimitação de
facto jurídico é tarefa que cabe ao próprio Direito.

A criação de efeitos jurídicos cabe à norma jurídica. Daí que, os factos jurídicos
constituam a caracterização das situações que sob forma hipotética a norma faz
depender a produção de efeitos de Direito.

O critério de distinção entre atos lícitos e ilícitos é o de conformidade com a lei,


projetando-se esta distinção igualmente no regime dos efeitos jurídicos do ato, é uma
distinção privativa dos atos jurídicos.

A razão de ser desta delimitação reside na circunstância de a ilicitude envolver sempre


um elemento de natureza subjetiva que se manifesta num não acatamento, numa
rebeldia à Ordem Jurídica instituída.

Neste sentido, envolve sempre uma violação da norma jurídica, sendo nesse sentido a
atitude adotada pela lei a repressão, desencadeando assim um efeito tipo da violação
– a sanção. Os atos ilícitos, são contrários à Ordem Jurídica e por ela reprovados,
importam uma sanção para o seu autor (infrator de uma norma jurídica).

Os atos lícitos são conformes à Ordem Jurídica e por ela consentidos. Não podemos
dizer que o ato ilícito seja sempre inválido. Um ato ilícito pode ser válido, embora
produza os seus efeitos sempre acompanhado de sanções. Da mesma feita, a
invalidade não acarreta também a ilicitude do ato.

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Deontologia e Ética profissional

A distinção entre atos jurídicos simples ou não intencionais ou calculados, não põe em
causa o problema da intervenção da vontade, não obstante se atenda à relevância da
vontade no regime dos efeitos jurídicos do ato. Há certos atos jurídicos que bastam
com a vontade do agente, dirigida a uma conduta em si mesma.

Esta conduta, tem no entanto de ser querida pelo agente e necessita sempre de uma
ação humana – sendo esta apta e suficiente para que se produzam os efeitos previstos
na forma jurídica.

Os atos ilícitos envolvem sempre uma violação da norma jurídica, sendo nesse sentido
atitude adotada pela lei a repressão, desencadeando assim um efeito tipo da violação
– a sanção. São contrários à Ordem Jurídica e por ela reprovados, importam uma
sanção para o seu autor (infrator de uma norma jurídica).

Os atos lícitos são conformes à Ordem Jurídica e por ela consentidos. Não podemos
dizer que o ato ilícito seja sempre inválido.

Um ato ilícito pode ser válido, embora produza os seus efeitos sempre acompanhado
de sanções. Da mesma feita, a invalidade não acarreta também a ilicitude do ato.

Os atos jurídicos intencionais, podem distinguir-se entre determinados e


indeterminados. Há nestes atos jurídicos aquilo a que alguns autores chamam: a nota
finalista da conduta humana.

1.3.Actos legítimos e ilegítimos

Na modalidade dos atos jurídicos intencionais é possível distinguir-se a vontade


humana, sendo que esta é considerada para o direito, como a génese da
voluntariedade de determinar Direito – vontade expressa de uma certa ação. Noutros

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Deontologia e Ética profissional

casos para além dessa voluntariedade, atende-se também ao facto de o agente querer
expressar uma determinada conduta de pensamento.

A vontade funcional encontra-se sempre nos atos intencionais, não tendo no entanto
em todos eles a mesma extensão, processando-se a distinção nos termos seguintes.
Em certos atos jurídicos intencionais, a vontade, embora se refira aos efeitos do ato,
não estipula esses efeitos.

Os efeitos do ato indeterminado, não são fixos tão só pela norma jurídica, como
também pelo agente. Nem a norma nem o agente determinam os efeitos do ato em
termos absolutos. A norma confere uma certa liberdade ao agente na determinação
dos efeitos.

1.4.Responsabilidade

A responsabilidade traduz uma obrigação que o indivíduo tem em dar conta dos seus
atos e suportar as consequências dele. Um indivíduo responsável – é aquele que age
com conhecimento e liberdade suficiente para com os seus atos possam ser
considerados como dignos, devendo responder por eles, é ainda um indivíduo que
dentro de um grupo pode tomar decisões.

A relação entre o Profissional/ Utente resulta na forma como o Profissional deve cuidar
do Utente, com respeito, como uma pessoa que tem o direito de tomar as suas
decisões de ser autodeterminação e que merece a defesa ou a confidencialidade das
suas informações.

O trabalho com pessoas dependentes encerra uma incontornável dimensão humana


dado que os profissionais são pessoas que trabalham com pessoas, cada qual com as
suas próprias expectativas, desejos, vontades, etc.

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Deontologia e Ética profissional

O exercício da prestação de trabalho, independentemente da profissão, exige que a


mesma seja efetuada de forma responsável e atenta, imbuída de um espírito de
cooperação, altruísmo, autonomia, competência e profissionalismo.

A teoria sobre as relações humanas mostra que existem fatores sociais que envolvem
pessoas e estão ligados à produtividade.

A valorização da dimensão do relacionamento entre os vários intervenientes no Serviço


de Apoio Domiciliário afigura-se como um dos aspetos cruciais na qualidade dos
serviços prestados, uma vez que promove o desenvolvimento psicossocial global, mais
adequado e adaptado aos clientes que usufruem dos serviços.

O relacionamento que os colaboradores mantêm com o cliente e pessoa significativa


além de ser uma dimensão muito valorizada pelos mesmos, permite-lhes também o
desenvolvimento de sentimentos de segurança e confiança na organização prestadora
de serviços e contribui para uma maior adaptação ao contexto de mudança.

A parceria entre o cliente, pessoas significativas e colaboradores (internos, externos)


deve ser caracterizada por uma partilha ativa de informação, responsabilização e
implicação de todos os intervenientes em atividades/ações conjuntas, com a finalidade
de proporcionar um maior benefício ao cliente, assim como a melhoria contínua dos
serviços prestados.

A Direção deve prever estratégias de envolvimento do cliente e pessoas significativas


na gestão, como forma de desenvolver os serviços que presta na permanente
satisfação das necessidades e expectativas dos clientes, sempre numa ótica de
melhoria contínua.

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Deontologia e Ética profissional

Características inerentes ao agente de geriatria


A agente de deve selecionar as intervenções gerais que convenham a todas as pessoas
idosas, assim como as intervenções específicas para que estas tenham uma boa
qualidade de vida.

Relações humanas
 Deve tratar o idoso com respeito;
 Considerar o idoso como um ser humano, com todas as suas necessidades;
 Ter disponibilidade para o idoso;
 Ajudar o utente a desenvolver os seus recursos;
 Evitar julgar o idoso;
 Ser competente e profissional.

DEVERES da/do Ajudante de Geriatria:


 Exercer com competência, zelo e atividade o campo que lhe tiver confiado;
 Observar e fazer observar rigorosamente as leis e regulamentos, defendendo
todas as circunstâncias;
 Honrar os seus superiores na hierarquia administrativa, tratando-os em todas
circunstâncias com deferência e respeito;
 Guardar segredo profissional sobre todos os assuntos que por lei não estejam
expressamente autorizados a revelar;
 Desempenhar com pontualidade e assiduidade, o serviço que lhe estivar
confiado.

Cuidados a ter
A pessoa idosa, por mais limitada que esteja nas suas funções nunca voltou a ser
criança. Apesar da sua dependência tem, pela sua vivência de muitos anos, um saber
acumulado que deve ser aproveitado e valorizado.

O espaço em que vive deve ser essencialmente organizado e adaptado às suas


necessidades e preferências e não à das pessoas que a rodeiam e que dela cuidam.

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Deontologia e Ética profissional

Ao contactar-se com uma pessoa idosa, deve-se dirigir-se-lhe a palavra como a


qualquer adulto em tom “normal”, utilizando uma linguagem de adulto e tratando-o
pelo seu nome.

Ao ajudá-la nas diversas tarefas diárias como alimentação, higiene, vestuário, tem de
se ter em conta que o ritmo de movimentos diminuiu, assim como a sua agilidade. É
pois importante adaptar-se ao ritmo da pessoa idosa.

Deve-se tentar que seja ela a cuidar de si própria, como por exemplo: o abotoar das
roupas, colocar os alimentos no seu prato, etc.. Quanto mais uma pessoa se substitui à
pessoa idosa (para “não perder tanto tempo”) mais esta perde as suas capacidades de
mobilização, de pensar, de reagir, etc.. As suas crenças e costumes devem ser
respeitados.

Tem de se estar atento às suas limitações e funcionar com ele de uma forma
personalizada, por exemplo se o idoso ouve bem, não é necessário falar-lhe com voz
muito alta. Pode-se conversar, ou fazer-lhe pedidos como “dê o seu pé para se calçar”
em tom habitual.

No entanto, quando se nota que o raciocínio está mais lento, deve-se falar de forma
mais lenta para que ele apreenda e reaja fazendo (dando o pé neste caso) o que se
lhe pediu. Se tem dificuldades em caminhar, em vez de se puxar, é importante
acompanhar o seu ritmo de marcha.

As palavras-chave para toda a nossa conduta é RESPEITO, SOLIDARIEDADE,


ENCORAJAMENTO e AFETO.

Não podemos esquecer que a pessoa idosa vai passando por vários sentimentos de
impotência devido à incapacidade de desempenhar as suas atividades de vida diária,
de tristeza pelo isolamento social e falta de distração devido à imobilidade, de

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Deontologia e Ética profissional

cansaço devido às perturbações do sono, agitação motora dos membros, algumas


vezes de revolta pelas alterações da sua auto imagem.

Atitudes a evitar:

Entrar no quarto sem pedir licença


Se a pessoa idosa está sentada, ou deitada, com as cortinas fechadas num ambiente
de penumbra, tentar perceber o que se passa antes de querer modificar algo. Frases
como “então com um dia tão bonito de sol, aqui às escuras?” ao mesmo tempo que se
abre repentinamente as cortinas, é uma atitude que faz a pessoa idosa sentir-se
infantilizada e ainda mais deprimida.

Tratar a pessoa idosa como uma criança, falando-lhe em tom de voz diferente.
As expressões de afeto (carícias) devem ser feitas como se faz a um adulto e não a
uma criança. Frases como “ai que feio isto não se faz” etc.. demonstram uma atitude e
comportamento do “prestador de cuidados” completamente desajustada e inadequada
perante uma pessoa idosa.

Atitudes a ter em conta:


 Tratar a pessoa idosa pelo seu nome, perguntar mesmo como é que está
habituada e gosta de ser tratada.
 Para entrar em contacto com uma pessoa idosa o prestador de cuidados deve
tomar tempo para parar, para escutar e para falar. Deve dar provas que está ali
com ela, sem pressas aceitando-a como ela é.
 Se a prestadora de cuidados se apercebe que a sua mensagem não está a ser
atendida, deve utilizar todos os meios ao alcance (palavra, gestos, toque) até
estabelecer contacto com a pessoa idosa.
 Falar sempre a olhar para a pessoa idosa e perto dela, com informações curtas
(por exemplo falar a olhar para a televisão ou da porta do quarto, ou aos pés
da cama é incorreto)

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Deontologia e Ética profissional

 O toque é muito importante. É no entanto preciso saber tocar (por exemplo:


dar pancadinhas na cabeça a uma pessoa idosa que está na cadeira de rodas,
infantiliza-a). O toque deve ser utilizado com respeito, afeto pelo adulto (ainda
que idoso) que temos à nossa frente. Serve para chamar a atenção da pessoa
idosa estabelecer contacto, para a tranquilizar, etc..
 Criar um ambiente que estimule a pessoa idosa, a ajude a orientar-se e a
manter o contacto com a realidade, que lhe diminua ansiedades e angústias.
 A rede de suporte – é importante (no domicílio como numa instituição)
identificar (perguntando ao próprio ou a outros) e dinamizar os contactos da
pessoa idosa com os amigos, vizinhos e familiares. Esta deve ser uma
preocupação constante do prestador de cuidados, manter o mais possível a
pessoa idosa em contacto com outras pessoas, para evitar o isolamento.
 Se a pessoa idosa não fala ou articula poucas palavras deve-se:
o Falar lentamente articulando bem as palavras;
o Falar sempre de frente;
o Fazer cuidados de higiene à boca e colocar as próteses dentárias
(quando existem) para facilitar a articulação das palavras;
o Evitar que várias pessoas falem ao mesmo tempo. Situação que pode
causar um estado de confusão no idoso;
o Dar tempo suficiente para que ele responda e evitando mostrar sinais
de impaciência;
o Esperar sempre pela resposta antes de fazer outra pergunta;
o Quando for necessário repetir a pergunta, utilizar as mesmas palavras,
que devem ser as mais simples possíveis;
o Fazer um aceno para indicar que se compreendeu o que ele disse e dar
atenção às expressões da cara;
o Se não se compreendeu o que a pessoa idosa pediu, pedir-lhe para
repetir dizendo “estou a fazer o possível para compreender, mas não
consigo... Repita por favor”;
o Sorrir quando se relaciona com a pessoa idosa;
o Colocar-lhe a mão no ombro ou na mão dele quando fala;

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Deontologia e Ética profissional

o Deixar-se tocar pela pessoa idosa (o tocar deve fazer-se nos dois
sentidos).

É muito importante, desde o primeiro momento que se contacta com a pessoa idosa a
quem vamos prestar cuidados, estar atentos ao seu ESPAÇO PESSOAL.

Espaço pessoal é a área necessária entre os indivíduos e os outros, para que se sintam
confortáveis. O espaço pessoal é diferente de indivíduo para indivíduo, de cultura para
cultura. Respeitar-se o espaço pessoal de cada um é o alicerce mais importante no
estabelecimento de uma relação de ajuda.

Saber estar com a pessoa idosa é:


 Ajudá-la a viver melhor o presente sem se fixar no passado;
 Ajudá-la a reviver o passado sem querer esquecer-se do presente;
 Ajudá-la a manter-se viva, com o máximo de dignidade.

1.5.Segredo profissional

O sigilo profissional faz parte dos valores éticos que devem ser seguidos por todos os
profissionais.

O dever de sigilo obriga o funcionário a “guardar segredo profissional relativamente


aos factos de que tenha conhecimento em virtude de exercício das suas funções e que
não se destinem a ser do domínio público”.

Os fundamentos do sigilo profissional assentam no facto de haver informação e


conhecimentos pertencentes a um indivíduo de que os profissionais tomam
conhecimento durante o exercício da sua profissão.

22
Deontologia e Ética profissional

Um indivíduo tem direito a que todas as informações que lhe pertencem sejam
mantidas em segredo, em confidencialidade, assegurando assim os seus interesses.

A relação entre o Profissional/ Utente resulta na forma como o Profissional deve cuidar
do Utente, com respeito, como uma pessoa que tem o direito de tomar as suas
decisões de ser autodeterminação e que merece a defesa ou a confidencialidade das
suas informações.

A violação da confidencialidade é o desrespeito por uma determinada pessoa, é uma


irresponsabilidade do profissional, já que o seu papel é responsabilidade perante a
sociedade. Manter o sigilo profissional é ajudar o Utente a manter a sua própria
integridade moral.

Definido deste modo, o segredo profissional apresenta um conteúdo amplo, suscetível


de abranger não apenas o segredo profissional stricto sensu, como segredo das
pessoas, mas igualmente elementos relevantes compreendidos na exigência da
descrição profissional.

O privilégio do segredo é concedido pela lei, em que a violação do segredo profissional


é considerada um ato punível. No entanto, o sigilo não é sempre um absoluto, nem
mesmo prevalente em relação a outros bens e direitos fundamentais do Homem.

O profissional deverá sempre atuar no sentido de ao revelar a informação ter em conta


a ponderação de valores expostas ao risco, e que quebrar o segredo profissional é o
último recurso depois de ponderar todas as alternativas.

Quando quebrar o sigilo profissional? Quando existe o consentimento informado, pela


exigência do bem comum, pela exigência do bem de terceiro, se a revelação poupar
prejuízo à pessoa interessada no segredo ou se da não revelação do segredo decorrer
prejuízo grave para o respetivo depositário.

23
Deontologia e Ética profissional

Os profissionais que trabalham com idosos e/ou cidadãos dependentes devem ter
consciência da grande responsabilidade que recai sobre si, em virtude de, pelo seu
trabalho conhecerem vários aspetos da vida das pessoas.

É obrigação do profissional a salvaguarda do sigilo sobre os elementos que tenha


recolhido no exercício da sua atividade profissional, porém, se utilizar alguns desses
elementos deverá ter o cuidado de não identificar as pessoas visadas.

Tem ainda obrigação de, quando o sistema legal exigir a divulgação de dados, fornecer
apenas a informação relevante para o assunto em questão e, de outro modo, manter
confidencialidade.

O sigilo é referido à difusão oral ou escrita da informação.

24
Deontologia e Ética profissional

2.Direitos da pessoa humana

2.1.Direitos da pessoa humana e da pessoa idosa em particular

A Declaração Universal dos Direitos do Homem enuncia os direitos fundamentais, civis,


políticos e sociais de que devem gozar todos os seres humanos, sem discriminação de
raça, sexo, nacionalidade ou de qualquer outro tipo, qualquer que seja o país que
habite ou o regime nele instituído.

Esta declaração estipula que toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente
para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à
alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos
serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na
invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência
por circunstâncias independentes da sua vontade.

Estatuto dos Utentes (Base XIV – Lei de Bases da Saúde)

1 – Os utentes têm direito a:


a) Escolher, ao âmbito do sistema de saúde e na medida dos recursos
existentes e de acordo com as regras de organização, o serviço e agentes
prestadores;
b) Decidir receber ou recusar a prestação de cuidados que lhes e proposta,
salvo disposição especial da lei;
c) Ser tratados pelos meios adequados, humanamente e com prontidão,
correção técnica, privacidade e respeito;
d) Ter rigorosamente respeitada a confidencialidade sobre os dados pessoais
revelados;

25
Deontologia e Ética profissional

e) Ser informados sobre a sua situação, as alternativas possíveis de tratamento


e a evolução provável do seu estado;
f) Receber, se o desejarem, assistência religiosa;
g) Reclamar e fazer queixa sobre a forma como são tratados e, se for caso
disso. a receber indemnização por prejuízos sofridos;
h) Constituir entidades que os representem e defendam os seus interesses;
i) Constituir entidades que colaborem com o sistema de saúde, nomeadamente
sob a forma de associações para a promoção e defesa da saúde ou de grupos
de amigos de estabelecimentos de saúde.

2 – Os utentes devem:
a) Respeitar os direitos dos outros utentes;
b) Observar as regras sobre a organização e o funcionamento dos serviços e
estabelecimentos;
c) Colaborar com os profissionais de saúde em relação à sua própria situação
d) Utilizar os serviços de acordo com as regras estabelecidas
e) Pagar os encargos que derivem da prestação dos cuidados de saúde, quando
for caso disso.

3 – Relativamente a menores e incapazes, a lei deve prever as condições em que os


seus representantes legais podem exercer os direitos que lhes cabem, designadamente
o de recusarem a assistência, com observância dos princípios constitucionalmente
definidos.

Princípios das Nações Unidas para o Idoso - Resolução 46/91

INDEPENDÊNCIA
1. Ter acesso à alimentação, à água, à habitação, ao vestuário, à saúde, a
apoio familiar e comunitário.
2. Ter oportunidade de trabalhar ou ter acesso a outras formas de geração de
rendimentos.

26
Deontologia e Ética profissional

3. Poder determinar em que momento se deve afastar do mercado de trabalho.


4. Ter acesso à educação permanente e a programas de qualificação e
requalificação profissional.
5. Poder viver em ambientes seguros adaptáveis à sua preferência pessoal, que
sejam passíveis de mudanças.
6. Poder viver em sua casa pelo tempo que for viável.

PARTICIPAÇÃO
7. Permanecer integrado na sociedade, participar ativamente na formulação e
implementação de políticas que afetam diretamente o seu bem-estar e
transmitir aos mais jovens conhecimentos e habilidades.
8. Aproveitar as oportunidades para prestar serviços à comunidade,
trabalhando como voluntário, de acordo com seus interesses e capacidades.
9. Poder formar movimentos ou associações de idosos.

ASSISTÊNCIA
10. Beneficiar da assistência e proteção da família e da comunidade, de acordo
com os seus valores culturais.
11. Ter acesso à assistência médica para manter ou adquirir o bem-estar físico,
mental e emocional, prevenindo a incidência de doenças.
12. Ter acesso a meios apropriados de atenção institucional que lhe
proporcionem proteção, reabilitação, estimulação mental e desenvolvimento
social, num ambiente humano e seguro.
13. Ter acesso a serviços sociais e jurídicos que lhe assegurem melhores níveis
de autonomia, proteção e assistência
14. Desfrutar os direitos e liberdades fundamentais, quando residente em
instituições que lhe proporcionem os cuidados necessários, respeitando-o na
sua dignidade, crença e intimidade. Deve desfrutar ainda do direito de tomar
decisões quanto à assistência prestada pela instituição e à qualidade da sua
vida.

27
Deontologia e Ética profissional

AUTO-REALIZAÇÃO
15. Aproveitar as oportunidades para o total desenvolvimento das suas
potencialidades.
16. Ter acesso aos recursos educacionais, culturais, espirituais e de lazer da
sociedade.

DIGNIDADE
17. Poder viver com dignidade e segurança, sem ser objeto de exploração e
maus-tratos físicos e/ou mentais.
18. Ser tratado com justiça, independentemente da idade, sexo, raça, etnia,
deficiências, condições económicas ou outros fatores.

Direitos do moribundo:
1. Ser tratado até ao fim como um ser humano;
2. Conservar a esperança (num alivio, numa vida futura);
3. Ser tratado por pessoas competentes, capazes de manter a esperança;
4. Exprimir à sua maneira os sentimentos e as emoções quanto à morte;
5. Participar nas decisões quanto aos cuidados;
6. Receber cuidados médicos e de enfermagem quando necessários, mesmo
quando os objetivos de cura são modificados para objetivos de conforto;
7. Não morrer só;
8. Não sofrer;
9. Ter respostas francas às suas perguntas;
10. Não ser enganado;
11. Morrer em paz com dignidade;
12. Conservar a individualidade e não ser julgado por decisões e escolhas que
entrem em conflito com os valores ou crenças de outros;
13. Saber que após a morte o seu corpo será respeitado;
14. Receber os cuidados de pessoas sensíveis, competentes e capazes de
ajudar, que compreendem as suas necessidades e que o querem ajudar a
ultrapassar esta ultima fase da vida.

28
Deontologia e Ética profissional

Princípios de ética médica no cuidado a idosos

Respeito pela autonomia do doente


Os médicos e restantes profissionais de saúde atuam muitas vezes como se os doentes
tivessem a obrigação de aceitar o tratamento que lhes é recomendado. Contudo,
legalmente a pessoa não é obrigada a aceitar o tratamento médico, mesmo que essa
recusa possa apressar a sua morte.

O médico expõe-se a responsabilidades legais se impuser o tratamento a um doente, a


menos que este último esteja deprimido, sofra de perturbações mentais, seja demente
ou represente um perigo para as outras pessoas. Os médicos têm a obrigação de
discutirem com os seus doentes as escolhas e implicações do tratamento. Regra do
duplo efeito

A regra do duplo efeito estabelece que: Se as medidas tomadas para aliviar o


sofrimento físico ou mental provocarem a morte do doente, estas tornam-se moral e
legalmente aceitáveis desde que a intenção do médico seja aliviar e não matar o
doente.

Trata-se de uma regra universal, sem a qual a prática da medicina seria impossível. Ela
resulta fatalmente do facto de que todos os tratamentos (tanto médicos como
cirúrgicos) possuem um risco inerente. Muitas das controvérsias sobre a regra do duplo
efeito têm por base o tratamento dos doentes terminais e a administração de morfina
para aliviar a dor.

Isto dá a falsa impressão de que o uso de morfina nestas circunstâncias representa


uma estratégia de alto risco. No entanto, quando utilizada corretamente a morfina (e
as substâncias relacionadas) são drogas muito seguras, mais seguras do que, por
exemplo, os anti-inflamatórios não esteróides, que são largamente prescritos, na maior
impunidade.

29
Deontologia e Ética profissional

O uso de ambas as espécies de fármacos é justificado, com base em que os benefícios


do alívio da dor ultrapassam de longe os riscos de efeitos adversos. Na verdade, a
experiência clínica sugere que aqueles doentes cuja dor é aliviada vivem durante mais
tempo do que teriam vivido se continuassem a ser exauridos e desmoralizados pela dor
intensa e não remitente

Embora em circunstâncias extremas seja admissível que se assuma um risco maior, é


axiomático que as medidas eficazes que possuem um risco menos elevado sejam
normalmente as utilizadas.

Assim, numa situação extrema, embora possa ocasionalmente ser necessário (e


aceitável) tornar o doente inconsciente, continua a ser inaceitável (e desnecessário)
causar deliberadamente a sua morte.

As afirmações de que a regra do duplo efeito constitui uma hipocrisia e uma cortina de
fumo para encobrir a eutanásia, derivam: de não se compreender que a regra do duplo
efeito tem carácter universal; da falsa crença de que a morfina tem sempre, ou por
vezes, o efeito de encurtar a vida de um doente terminal.

Tratamento adequado
Os médicos não devem esquecer-se do facto de que todos os doentes acabarão por
morrer. Por isso, parte da arte médica consiste em decidir quando se deve permitir que
a morte ocorra, sem lhe antepor qualquer novo impedimento. Segundo a lei ou a ética
o médico não é obrigado a preservar a vida «a todo o custo».

As prioridades modificam-se, à medida que o doente se aproxima claramente da


morte. Não existe a obrigação de realizar tratamentos, se a sua utilização representar
um prolongamento do processo de morte. O médico não tem o dever, nem o direito,
de prescrever uma morte prolongada.

30
Deontologia e Ética profissional

Em geriatria, o objetivo principal do tratamento não reside em prolongar a vida, mas


sim em tornar a vida que resta tão autónoma e significativa quanto possível. A questão
não é tratar ou não tratar, mas sim determinar qual o tratamento mais apropriado em
função das perspetivas biológicas do doente e das sua circunstâncias pessoais e
sociais.

Um tratamento apropriado para um doente com uma doença aguda pode não ser
adequado para um idoso com doença crónica e, muito menos, para um moribundo.

As sondas nasogástricas, as perfusões intravenosas, os antibióticos, a ressuscitação


cardíaca e a respiração artificial são outras tantas medidas de manutenção geral
usadas em situações de doença aguda ou crónica, desde a crise inicial até à
recuperação da saúde.

A utilização destas medidas em doentes que estão irremediavelmente próximos da


morte é geralmente inadequada (e constitui, por isso, má prática) porque os malefícios
de tais tratamentos excedem os seus potenciais benefícios. Os cuidados médicos
constituem uma linha contínua, desde a cura completa, situada num dos extremos, até
ao alívio dos sintomas, situado no outro extremo.

Muitos tipos de tratamento preenchem todo o espectro, nomeadamente a radioterapia


e, em menor extensão, a quimioterapia e a cirurgia. É importante, por isso, não perder
de vista o objetivo terapêutico quando se emprega qualquer forma de tratamento.

Ao decidir qual é o tratamento adequado, os pontos a reter são os seguintes: as


perspetivas biológicas do doente; o objetivo terapêutico e os benefícios de cada
tratamento; os efeitos secundários do tratamento; a necessidade de não prescrever
uma morte prolongada.

Embora não se deva ignorar a probabilidade de ocorrer uma melhora ou a recuperação


imprevistas, existem muitas ocasiões em que é adequado «dar uma hipótese à morte».

31
Deontologia e Ética profissional

À medida que uma pessoa se torna terminalmente doente, ou gravemente


incapacitada, física ou mentalmente, como resultado da decadência senil, o interesse
pela hidratação e pela nutrição torna-se frequentemente muito reduzido.

Como o resultado natural da doença progressiva incurável e da senilidade avançada é


a morte, nestas circunstâncias é errado forçar o doente a aceitar alimentos ou líquidos.
O desinteresse ou a aversão do doente devem ser considerados como parte do
processo de extinção.

No entanto, tenhamos presente que a alimentação testemunha o acolhimento da


pessoa doente e a decisão de abstenção manifestaria uma atitude de rejeição.

Testamento de Vida
Os “testamentos de vida” (living wills) são declarações de vontade feitas por uma
pessoa, formulando recomendações para serem cumpridas quanto à assistência
médica que lhe será prestada na fase terminal da vida.

É evidente que não podem ser considerados como Testamentos, na aceção que
prevalece no direito português, em que estes têm como característica essencial a
constituição de disposições para valerem depois da morte, enquanto que os
“testamentos de vida” são feitos para valerem antes da morte. Constituem, pois, os
“testamentos de vida” simples declarações de vontade.

Também é evidente, no ordenamento jurídico português, ser nulo e de nenhum efeito


o pedido formulado no sentido de em caso de irrecuperabilidade face a uma doença
terminal, o médico provocar diretamente a morte do doente.

O que o declarante pode pedir, com legitimidade plena, é que, em fase terminal
irreversível, seja poupado a uma inútil exacerbação / obstinação terapêutica, por forma
a que o processo de morte decorra com respeito pela sua dignidade.

32
Deontologia e Ética profissional

Eutanásia
O termo eutanásia significa literalmente «boa morte», morte sem sofrimento. Em
linguagem comum, porém, a palavra é utilizada como sinónimo de «assassínio de
misericórdia». As definições úteis deste termo incluem: “Uma intervenção deliberada,
realizada com a intenção expressa de pôr termo à vida para aliviar o sofrimento
intratável”.

A eutanásia não é: permitir que a natureza siga o seu curso; suspender biologicamente
um tratamento inútil; suspender o tratamento quando os malefícios que este
representa ultrapassam os respetivos benefícios; utilizar morfina e outras substâncias
para aliviar a dor; utilizar sedativos para aliviar o sofrimento mental intratável de um
doente.

A controvérsia sobre a eutanásia no seio de algumas sociedades é geralmente


orientada segundo linhas pragmáticas, utilitaristas e lógicas porque a discussão a partir
de posições que se excluem mutuamente nunca pode conduzir ao consenso que cada
sociedade pretende alcançar.

O argumento fundamental a favor da eutanásia é o direito que a pessoa tem à


autonomia. O contra-argumento fundamental é o de que a autonomia não se torna
extensiva ao direito ao suicídio/eutanásia medicamente assistidos. Estes dois pontos de
vista «o homem como senhor» contra «o homem como servo» não são conciliáveis.

A discussão sobre a eutanásia assume geralmente que a morte significa esquecimento.


Contudo, muitas pessoas pensam de outro modo. Por outro lado, transformar a
«eternidade como destino» no argumento crucial contra a eutanásia é geralmente
improdutivo.

Os que se declaram a favor da eutanásia salientam muitas vezes que há um nível de


existência no qual a maioria das pessoas, ou mesmo todas, não desejariam estar vivas.

33
Deontologia e Ética profissional

Se estiverem conscientes, podem pedir veementemente que as ajudem a morrer,


afirmando que a vida para elas já não possui qualquer interesse ou finalidade.

Na realidade, um médico que nunca tenha sido tentado por um doente a matá-lo,
provavelmente tem uma experiência clínica muito reduzida, ou não é capaz de entrar
em empatia com os seus doentes; deixar um doente sofrer intoleravelmente não será
moralmente mais repreensível do que o médico que opta pela eutanásia.

Os pedidos de eutanásia não são invulgares. Deve notar-se que muitos dos que pedem
auxílio para morrer estão na realidade a pedir ajuda para viver. É da maior importância
ouvir o apelo à vida subjacente ao «lamento» do doente. É necessário, além disso,
identificar a motivação do pedido e dar-lhe a devida resposta.

As razões podem variar, mas incluem as seguintes:


 Dor intensa que não é possível aliviar ou outra complicação física;
 Receio de eventual dor intolerável futura ou de outra complicação física;
 Receio de ser mantido vivo à custa de máquinas e tubos, numa altura em que a
qualidade de vida é inaceitavelmente baixa;
 Uma perturbação de adaptação passageira, por exemplo, desespero transitório
ao descobrir que se sofre de uma doença fatal com limitada expectativa de
vida;
 Depressão (entenda-se perturbação depressiva e não só tristeza);
 Sentir que se representa um fardo para a família, os amigos ou a sociedade;
 Sentir que não se é desejado pela família, pelos amigos ou pelas pessoas em
geral;
 Sensação permanente de desespero que não pode ser explicada em termos de
qualquer das proposições anteriores, e que pode derivar de uma conceção da
vida que não admite a vida depois da morte.

À exceção deste cenário final, é geralmente possível adotar medidas corretivas


suficientes para conseguir a mudança de opinião do doente.

34
Deontologia e Ética profissional

Deve ser levado em conta, em qualquer discussão sobre a eutanásia, o facto de a


maioria dos profissionais de saúde se opor à eutanásia (e ao suicídio medicamente
assistido).

Parcialmente intuitiva, esta posição anti-eutanásia é sustentada por razões


pragmáticas, como por exemplo: Muitos pedidos têm origem no inadequado alívio dos
sintomas, mas muitos pacientes deixam de pedir a eutanásia quando os seus sintomas
são adequadamente aliviados.

Muitos pedidos estão relacionados com a sensação de inutilidade ou de se constituir


um fardo, mas os bons cuidados paliativos restauram a esperança dando ao paciente a
sensação de orientação e ligação com as outras pessoas e com o mundo em geral.

Muitos pedidos persistentes refletem muitas vezes uma perturbação depressiva, mas a
depressão necessita de tratamento específico. Muitos pacientes mudam
frequentemente de opinião, porque os pacientes passam por períodos transitórios de
desespero.

O prognóstico é muitas vezes incerto, porque muitos pacientes vivem durante mais
anos do que a princípio se tinha previsto. As restrições orçamentais são consideradas
por alguns como um incentivo para a legalização da eutanásia, mas a escolha da
eutanásia eliminará o incentivo para a melhoria dos cuidados paliativos.

Esperança
“Esperança é uma expectativa superior a zero de atingir um objetivo”. A esperança
tem de possuir um objetivo. O estabelecimento de objetivos realistas com o doente
constitui uma das formas de restaurar e manter a esperança.

35
Deontologia e Ética profissional

Pode começar-se por perguntar ao paciente, por exemplo: «Qual é o resultado que
espera desta consulta?» Pode ser necessário transformar um objetivo final
(provavelmente irrealista) numa série de «mini-objectivos» (mais realistas).

Assim, se um doente diz «Quero curar-me», ou se um paraplégico diz «Quero voltar a


andar», a resposta inicial poderia ser: “Compreendo o que está a dizer…mas isso,
parece-me, é o seu objetivo final. Penso que poderia ser útil se concordássemos numa
série de objetivos de mais curto prazo.

Ao atingi-los teremos todos, uma sensação de vitória. Parece-lhe bem?” O


estabelecimento de objetivos é parte integrante do cuidado aos idosos com doenças
crónicas, incluindo o cancro.

A esperança está também relacionada com outros aspetos da vida e dos


relacionamentos: sentir-se valorizado, ter relacionamentos significativos, sentir alívio
da dor e do mal-estar, logicamente aumentam a esperança. No entanto, dar a
conhecer uma verdade dolorosa não significa destruir a esperança.

A esperança na recuperação é substituída por uma esperança alternativa. Nos doentes


que se encontram próximo da morte, a esperança tende a focar-se: mais no «ser» do
que no conquistar; nas relações com os outros; na relação com Deus ou com um ente
superior.

É possível aumentar a esperança de uma pessoa que se encontra próxima da morte,


desde que os cuidados e o bem-estar que se lhe proporcionam sejam satisfatórios.
Quando pouco há já a esperar, continua a ser realista ter esperança: de não morrer
sozinho; de ter uma morte serena.

36
Deontologia e Ética profissional

2.2.A vida e a morte

A Morte pode ser definida como sendo o cessar irreversível de:


1. Do funcionamento de todas as células, tecidos e órgãos;
2. Do fluxo espontâneo de todos os fluídos, incluindo o ar (“último suspiro”) e o
sangue;
3. Do funcionamento do coração e pulmões;
4. Do funcionamento espontâneo de coração e pulmões;
5. Do funcionamento espontâneo de todo o cérebro, incluindo o tronco cerebral
(morte encefálica);
6. Do funcionamento completo das porções superiores do cérebro (neocórtex);
7. Do funcionamento quase completo do neocórtex;
8. Da capacidade corporal da consciência.

Podemos considerar a morte como a maior das crises que o homem enfrenta. Todos
nós enfrentamos crises, algumas superáveis outras não e embora estejam sempre
presentes há uma diferença que interfere na possibilidade de seu enfrentamento; na
terceira idade as perdas aceleram-se, sendo que o tempo para superá-las é menor.

Pode ocorrer, no entanto, o idoso sentir-se incapacitado ou frágil para enfrentá-las


instalando-se assim uma crise mais séria. Mesmo considerando que envelhecer e
adoecer não sejam sinónimos, não podemos ignorar que determinadas enfermidades
são mais frequentes em idosos.

Existem as doenças psicossomáticas e ainda as modificações orgânicas que não são


doenças, ou seja, rugas, cabelos brancos, pós-menopausa, postura encurvada, reflexos
mais lentos, tudo isto se reflete na autoestima. Todos os conflitos gerados por estas
situações, geram a preferência pela morte em detrimento da dor física ou psíquica.

37
Deontologia e Ética profissional

Como se não bastasse há ainda o preconceito contra o envelhecimento, o sentimento


de ser um fardo pesado a alguém. A sensação de perdas das pessoas que se ama, da
beleza, do vigor, da saúde, da utilidade gera a imagem do “espelho quebrado”.

A morte biológica significa o fim do organismo humano, mas o ser social só deixa de
existir a partir do momento em que uma série de cerimónias de despedida é realizada
e a sociedade reafirma a sua continuidade sem ele. Existe grande diferença entre
conceitos pensados como sinónimos. Envelhecimento, idoso e velhice distinguem-se
quanto aos seus aspetos.

O envelhecimento é o processo que ocorre durante o curso da vida, onde há


modificações biológicas, psicológicas e sociais. O ser humano modifica-se
somaticamente do nascimento até a morte. O idoso geralmente é especificado pelo
tempo cronológico, mas existem questões físicas, funcionais, mentais e de saúde que
podem influenciar.

O idoso é o resultado do processo de desenvolvimento, do seu curso de vida. Faz parte


de uma consciência coletiva. A velhice é a última fase do processo de envelhecimento.
É um conceito abstrato, sendo impossível delimitá-la em tempo ou em características.

Cada pessoa teme mais um certo aspeto da morte. Afirma-se que se deve considerar a
morte sob duas conceções:
1. A morte do outro: o medo do abandono, envolvendo a consciência da
ausência e da separação.
2. A própria morte. A consciência da própria finitude, a fantasia de como será o
fim e quando ocorrerá.

Ao pensar a sua morte, cada pessoa pode relacioná-la a um dos seguintes aspetos:
a) Medo de morrer: Quanto à própria morte, surge o medo do sofrimento e da
indignidade pessoal. Em relação à morte do outro é difícil ver o seu sofrimento

38
Deontologia e Ética profissional

e desintegração, o que origina sentimentos de impotência por não se poder


fazer nada.
b) Medo do que vem após a morte: Diante da própria morte existe a ameaça do
desconhecido, o medo de não ser e o medo básico da própria extinção. Em
relação ao outro, a extinção evoca a vulnerabilidade pela sensação de
abandono.

O que parece mais temido na morte depende da época de vida de cada um e das
circunstâncias do momento como, por exemplo: o perigo eminente devido a situações
externas de guerras, crimes, violência; perturbações internas que ameaçam o sujeito,
como medos e fobias, ou mesmo a morte de alguém.

Para alguns a morte amedronta, pois é vista como fim ou como perda da consciência
idêntica ao adormecer, desmaiar ou perder o controlo.

O medo da morte pode conter também o medo da solidão, da separação de quem se


ama, o medo do desconhecido, o medo do julgamento pelos atos terrenos, o medo
que possa ocorrer aos dependentes, o medo da interrupção dos planos e fracasso em
realizar os objetivos mais importantes da pessoa. São tantos os medos, que algum sem
dúvida faz parte da nossa vida.

Os fatores que mais influenciam, no sentido de conter o medo da morte, são: a


maturidade psicológica do indivíduo, a sua capacidade de enfrentamento, a orientação
e o envolvimento religiosos que possa ter e a sua própria idade.

A velhice traz consigo a perspetiva de morte. Mesmo com o aumento da esperança de


vida é sempre um período finito. Esta finitude passa a ser mais consciente com a
chegada da velhice. A perda de amigos, familiares e de pessoas de referência social
reforça esta característica.

39
Deontologia e Ética profissional

Quando existe uma doença grave, ou outra condição de saúde, incluindo aspetos
físicos, mentais e sociais que gera sofrimento, a morte passa a ser não só uma
probabilidade mas também uma alternativa.

2.3.O Agente em Geriatria e a morte

Sendo impossível evitar a morte, é no entanto possível tornar a vida da pessoa que
está a morrer o mais agradável e significativa. O moribundo tem o direito de viver
plenamente até ao fim.

Uma estrutura residencial para pessoas idosas terá certamente de lidar com a morte
de residentes e com o subsequente período de luto. O final da vida nunca deve ser
encarado como uma rotina, porque os cuidados que prestamos a alguém nos últimos
dias são tão importantes como os que recebeu ao longo da vida.

O final da vida é um momento em que o respeito pela privacidade e a dignidade é


indispensável. O residente deve estar num quarto próprio e rodeado dos seus
pertences e de familiares e amigos, a não ser que haja razões médicas muito fortes
que o impeçam, ou que o próprio não o deseje.

Os residentes devem poder pronunciar-se sobre os procedimentos a tomar na fase


final da sua vida e após a sua morte. As particularidades culturais, religiosas e pessoais
devem ser respeitadas. O envolvimento da família e amigos pode ajudar, mas só se o
próprio estiver de acordo.

Devemos zelar pela satisfação das necessidades físicas, emocionais e espirituais de


quem está a morrer, respeitando os seus desejos e proporcionando-lhe conforto e
bem-estar. Há que minimizar a dor: cuidados paliativos de qualidade contribuem para

40
Deontologia e Ética profissional

a qualidade de vida do residente nos seus últimos momentos. Existem especialistas


nesta área, que dão conselhos e assistência prática.

Após a morte, a estrutura residencial pode apoiar a família e/ou amigos do falecido -
se esta assim o desejar - nos procedimentos a tomar e informá-los sobre possíveis
fontes de apoio, serviços fúnebres e outros aspetos que venham a surgir.

Além do círculo íntimo, a morte de um membro da estrutura residencial tem impacto


sobre toda a comunidade. Cada pessoa tem a sua maneira de fazer o luto, e todos
devem ter oportunidade de escolher como fazê-lo, sendo ou não ajudados nesse
processo. Os residentes devem ter espaço e tempo para meditar e refletir e, caso
desejem, contactar com conselheiros religiosos ou espirituais.

Os colaboradores da estrutura residencial devem estar preparados e dispostos a falar


sobre a morte e o final da vida e sobre os residentes que tenham falecido
recentemente. Por vezes, também os colaboradores precisam de ajuda - sobretudo se
são mais novos e inexperientes.

O luto é um conflito permanente entre a busca de um passado ao qual não se pode


voltar - quando o ente querido estava vivo - e a necessidade de aprender a viver com
essa ausência permanente, mesmo contra os desejos mais íntimos. É um desafio difícil
e que requer esforços e energia nem sempre fáceis de reunir. Cada indivíduo tem,
como já dissemos, a sua forma de viver a perda de alguém querido. Daí que não haja
procedimentos universais.

Contudo, as estruturas residenciais devem ter políticas claras e procedimentos


estabelecidos para assegurar que os últimos dias de um residente são passados com
conforto e de forma digna, respeitando-se os seus desejos integralmente.

A institucionalização aumenta o seu sentimento de alienação e obriga-os a


abandonarem a outros o controlo da sua vida e da sua morte, o que fere a sua

41
Deontologia e Ética profissional

autoestima e desintegra a sua identidade. Tornam-se pessoas anónimas, idosos entre


outros idosos, e nada podem fazer contra isso. Deixam de ter qualquer poder e são
muitas vezes catalogados como pessoas confusas, dependentes e difíceis.

Acontece mesmo o seu nome ser esquecido e serem designados pelo nome da doença
ou pelo número do quarto. Nesses casos os idosos tem tendência a isolar-se
completamente, a tornarem-se exigentes, coléricos, etc. … As suas frustrações
encontram muitas vezes eco na atitude de quem as trata e que, em reação, não deseja
senão uma coisa, isolá-los cada vez mais.

Observa-se muitas vezes que os ajudantes de lar, tem tendência a empurrar uns para
os outros os cuidados ao moribundo, o que lhes permite não ver a morte e desmentir
formalmente a realidade para se protegerem contra a angustia.

O moribundo é muitas vezes tratado como alguém sem direitos nem opinião. São
muitas vezes isolados dos outros e as ajudantes de lar mantêm-se longe. Confiar a "
morte " a instituições não é apenas querer-se livrar dela, mas também condenar o
idoso a uma morte e a um isolamento precoce.

É evidentemente impossível, evitar a morte; é no entanto possível tornar a vida dos


idosos mais rica e mais agradável. Se as pessoas de idade não tiverem outra escolha
senão morrer numa instituição, é preciso então conseguir os meios necessários para
satisfazer as suas necessidades físicas e psicológicas e ajudar os seus familiares e
amigos.

Não é fácil falar e interagir com alguém que está a morrer. A principal barreira é a
dificuldade que temos em colocar-nos no seu lugar e saber o que sentem e pensam.

As pessoas que estão a morrer – ou que estão de luto pela morte de alguém querido -
atravessam vários estádios, à medida que se adaptam à situação. Entender os

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sentimentos das pessoas neste período traumático ajuda-nos a entender como


podemos apoiá-las.

A agente de geriatria deve conhecer as diferentes fases do processo (morte e luto) e


tornar-se sensível às diferentes manifestações próprias de cada uma das fases.

Estádio 1 - Negação
A pessoa que está a morrer recusa-se a aceitar que vai morrer. A primeira reação é,
muitas vezes, negar: “Não estou preparado para morrer”, ou pensar que houve algum
erro de avaliação. O isolamento surge quando os amigos e até a família começam a
evitar a pessoa, por não se sentirem à vontade com ela.

Para a pessoa que está de luto, o sentimento também é de negação. Existe um


entorpecimento ou atordoamento que é uma forma de proteção, já que evita
reconhecer a extensão do sofrimento e das suas consequências.

Estádio 2 - Raiva
A pessoa que está a morrer – ou que vê alguém querido morrer – sente em geral uma
enorme revolta. Pergunta-se “Porquê eu?” ou “Porquê ele/a?”. Considera-se, conforme
as crenças de cada um, que Deus, o destino ou o acaso foram injustos, já que outros
“mereciam mais” morrer. A pessoa pode desenvolver, com mais ou menos justiça, a
ideia de que os outros não se importam e que aproveitam a vida enquanto ele sofre.

Para quem perdeu alguém, o desejo de recuperar a pessoa amada leva a


comportamentos de busca incessante. A impossibilidade de essa busca ser bem-
sucedida agrava os sentimentos de revolta.

Há uma tendência para projetar essa revolta no meio envolvente: médicos,


enfermeiras, colaboradores da estrutura residencial, família, amigos, podem ser vítimas
de uma agressividade injustificada, que não devem alimentar, mas que devem
compreender no seu contexto.

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Estádio 3 - Depressão
A pessoa que está a morrer ou de luto sente-se muito triste e talvez mesmo deprimida.
É uma parte natural do processo. Lamentam-se as perdas que a situação provoca e os
sintomas inevitáveis e impossíveis de ignorar. Para quem está de luto, é agora
impossível negar a ausência permanente de quem morreu.

A depressão pode ser reativa, quando diz respeito a perdas passadas (o que se fez ou
não fez, o que se disse, o emprego, os hobbies, a mobilidade) ou preparatória, se se
refere a perdas que hão-de vir (acontecimentos futuros, a vida que ainda esperava
viver).

A depressão inclui raiva, tristeza e sentimentos de culpa, porque o conflito entre o


desejo de ter de volta a pessoa que se ama e a frustração de não o conseguir leva ao
desespero. A obsessão por essa tarefa utópica diminui ou anula as capacidades de
investir noutras atividades. O mundo fica como que fora de contexto e o indivíduo
sente-se desintegrado.

Estádio 4 - Aceitação
É uma fase que leva tempo a atingir, e à qual nem sempre chegam os que lutam até
ao fim. Basicamente, consiste em aceitar a finitude, quando o cansaço e a fraqueza
ultrapassam as capacidades de resistência.

Para o moribundo, é a perceção de que a morte é inevitável. Para o enlutado, é o


começo do regresso à vida normal. O sofrimento diminui gradualmente, mas ao
contrário do que o nome possa sugerir, a aceitação não é um estádio “feliz”, antes
desprovido de sentimentos.

O agente de Geriatria deve:


 Dar ao idoso esperanças e não falsas esperanças;
 Encoraja-lo a manter um certo controlo;

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 Ajudar a exprimir as suas emoções de desgosto;


 Ajudá-lo a encontrar um sentido para a sua vida e para a sua morte;
 Mostrar-se disponível e permitir ao idoso falar daquilo que vive;
 Estabelecer uma comunicação verdadeira e de ajuda;
 Estabelecer uma relação de empatia;
 Ajudar o idoso a conservar a autoestima;
 Dar provas de honestidade;
 Ajudar o idoso a manter as suas forças e a energia;
 Ficar junto do idoso, estar presente;
 Ajudar o idoso a manter o contacto com a realidade e a manter-se consciente o
mais tempo possível;
 Ajudar o idoso a satisfazer as suas necessidades sociais e reforçar os laços
familiares.

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Bibliografia

AA VV., Manual de boas práticas – um guia para o acolhimento residencial de pessoas


mais velhas, Instituto da Segurança Social, 2005

AA VV., Manual de processos-chave: Lar residencial, Programa Modelos de avaliação da


qualidade nas respostas sociais, Instituto da Segurança Social, 2010 (2ª edição)

Banks, Sarah, Ética prática para as profissões do trabalho social, Porto Editora, 2008

Sanches, Maria do Carmo, Pereira, Fátima, Apoio a Idosos em meio familiar: Manual do
formando, Ed. Equal/ Projeto Delfim, 2000

Webgrafia

 Catálogo Nacional de Qualificações


http://www.catalogo.anq.gov

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