Sie sind auf Seite 1von 14

30fo.

2
Rodrigo Patto Sá Motta c:J08
ORGANIZAÇÃO Joo9

Culturas Políticas na História:


Novos Estudos

k.Y0úJY Ij
U.F.M.G.• BIBLIOTECA UNIVERSITÁRIA

11111111"""fllllllIlllllllllll'
18279091:1
~1
NÃo DANIFIQUE ESTA ETIQUETA

ARC(VMSNTVM
Belo Horizonte
2009
,
APRESENTAÇÃO ~ I
'I"
"i,"

COmRaquel Pereira, no capítulo 9, o foco retoma para a cultura co- CAPÍTULO 1


, ,~

munista, em estudo que privilegia a atuação do PCB em Belo Horizonte, no


contexto pós-Segunda Guerra. O texto analisa as estratégias de mobilização
do Partido Comunista para ocupar espaços físicos na cidade, em que se ex- Desafios e possibilidades na apropriação de
pressaram traços da cultura política dos comunistas. A atuação do Partido
criou espaços de entretenimento que se tornaram também cenários da luta
cultura política pela historiografia
política. A estrutura ramificada do PCB, com células e comitês instalados U,:tJ.U' 'P r, o Q0Y'C .~ d~L.-
em diversos pontos da cidade, produziu relação diferenciada com o espaço .r::/ eol~
urbano, permitindo a identificação de uma cartografia política da atuação <:;JJJ I 1[\('"\ t.~i)' "
'f.. .
)"\J( I.
\
(i.~.J' q/' l
('I, ,
do Partido em Belo Horizonte.
No último texto da coletânea, Rosângela Assunção se inspira nas dis- 'C,J.-C \ I lf"'\ l C'V j ,(,( Rodrigo Patto Sá Motta
.,.
cussões teóricas em torno da categoria cultura política para compreender \ (.\ 0.0_ ":,) :: Fj, I ~., ,., I "

o comportamento dos policiais do DOPS mineiro. O trabalho sinaliza para


a correlação existente entre a instância política e a dimensão cultural, em
que questões como valores, crenças, atitudes, linguagem e imaginário são Este texto é baseado em reflexões acumuladas nos últimos dez anos,
essenciais para compreender as ações políticas. Considerando o imaginá- beneficiadas por cursos ministrados na pós-graduação em História na
rio como um dos elementos constituidores da cultura política, Rosângela UFMG que suscitaram questões e debates estimulantes. Um dos objetivos,
Assunção analisa o imaginário anticomunista dos policiais do DOPS/ ao escrevê-Ia, é precisamente oferecer aos estudantes uma porta de entrada
MG entre as décadas de 1930 e 1960, que, além de ter contribuído para a esse universo conceitual, por vezes espinhoso.
formação de identidade policial própria, conferiu sentido e legitimou as O interesse por cultura política começou por volta de 1995, quando
ações repressivas contra os "inimigos subversivos". buscava estabelecer um quadro conceitual para estrutura r minha tese de
~ ~C o G
?
.
(\
doutorado. Vinha de pesquisas sobre história política em vertente mais
"clássica" e desejava renovar horizontes, sob influência das novas correntes
o ')j Rodrigo Patto Sá Motta historiográficas. Publiquei, em 1996, um texto contendo as primeiras refle-
l
,00
~
~ xões sobre o tema, lançando mão da literatura que pude encontrar. O texto
,) -t
'~ . , T,·~ .f. (Motta, 1996)1 hoje me parece ingênuo, mas então havia poucos trabalhos
,.. -.:~ ('L~C'.uJ,-::c lA)C\. ) ~W' , fI: I
'~ 2 '\
) -o (p,)':'/l I' ,lC
í
sobre cultura política na historiografia, sobretudo no Brasil, de modo que
não havia bases sólidas para apoio. Desconhecia que, pelos menos desde
'
.....•. ro.l~-':'
1,1tQ.. ( (.0 )1'"' L r 'f'l 1992, um grupo de historiadores franceses estava empenhado na apro-
.•.;,
"
'"

j~ ~'?\ Y ) priação do conceito. Autores como Serge Berstein e Jean-François Sirinelli


ç:-J ,
) 1 -O vinham fazendo uso da categoria para estudar a história política francesa,
c\
.J
o« -c
v.q..,lÁ.(( 01 D \! ~ C I 'v , '~r/~\
. - em textos que são hoje bastante conhecidos e que servem de base para a
)
()~ rI
l0''- ') maioria das reflexões dos historiadores brasileiros engajados no debate.
c G '[o A força de atração exercida por cultura política em anos recentes
c)'-" 1..1(''1
,.) J. ' deve-se, principalmente, à hegemonia do paradigma culturalista. Em outros
'~", ~ '(.;'
. (.J
~
r momentos a política, a economia ou fatores sociológicos assumiram o papel
2) ()':;.J
~ n ~"> ';.: ..J>
a? ~
"'~? ..'I ...v
W
1 Contribuições significativas ao debate teórico sobre cultura política têm sido publi-
1(3 .> ...J ~, :3
2 (í' &" C)
cadas por historiadores e cientistas sociais brasileiros: Gomes (2005); Dutra (2001);
Kuschnir e Carneiro (1999); Krischke (1997); e Rennó (1998).
!li

de explicação última para os processos históricos, mas hoje a cultura ocupa possibilidades instigantes de alargar nossos horizontes ele conhecimento e
esse lugar. Nos dias atuais é muito influente a percepção de que a cultura compreensão. Por isso, a exposição se centrará na discussão dos aspectos
determina o desenrolar dos acontecimentos, da mesma forma como décadas problemáticos elo uso de cultura política, mas também nas potencialidades
atrás se pensava que a economia ou os interesses sociais ofereciam a chave que ele oferece. Antes, porém, serão necessárias breves referências às
para compreender a dinâmica da história. Em se tratando do paradigrna origens do conceito, para situar a discussão e esclarecer a maneira como
culturalista, o mais preciso não é falar em dinâmica, ou movimento da ele será apropriado neste texto.
história, e sim em permanências e mudanças lentas. Como tudo tem sido
explicado pela influência dos fatores culturais, a política não poderia ser
***
exceção, daí o caráter sedutor de cultura política, que permite uma abor-
dagem culturalista dos fenômenos relacionados às disputas pelo poder.
O número de interessados por cultura política aumentou muito nos
A categoria cultura política foi construída no século XX, mas seus
últimos anos e transbordou os estreitos limites do universo acadêmico. O
formuladores retiraram inspiração de autores que escreveram em períodos
conceito tem sido cada vez mais utilizado pela mídia e, num sinal da força
anteriores. Um deles foi Alexis de Tocqueville, no livro A Democracia na
crescente de seu apelo, tem sido mobilizado até por políticos profissionais
América, de 1835. Nesse trabalho, hoje um clássico, o pensador francês
e organizações sociais. Daí outra motivação para escrever este texto: a
desenvolveu a idéia de que a força da organização política dos norte-ame-
percepção de que cultura política corre o risco de banalização, graças ao
ricanos derivava não somente das instituições, mas tinha relação com os
uso generalizado. Tornou-se conceito da moda. Há muitos incentivos ao r~:.
hábitos e costumes daquele povo, o que ele chamou "hábitos do coração"
usá-Io, sobretudo o desejo de mostrar-se atualizado, mas nem sempre há
(Formisano, 2001:393-426). Tal insight seria aproveitado e desenvolvido
preocupação com rigor e clareza na sua utilização. Muitas vezes, a categoria
por cientistas sociais do século XX, responsáveis por elaborar o argumen-
tem servido apenas de rótulo novo para conteúdo antigo, como estratégia
to de que o funcionamento dos sistemas políticos dependeria de fatores
para alcançar melhor inserção no mercado acadêmico ou na mídia. As-
culturais. Valeria a pena, também, na busca por precursores, investigar a
sim, a expressão é mobilizada - e quase sempre sem a preocupação de
eventual contribuição da historiografia e filosofia alemãs do século XIX,
definir seu significado - em situações em que o mais adequado seria usar
que desenvolveram o conceito Kuluu. Como entendiam que cada povo
termos como idéias políticas, discursos políticos ou hábitos políticos. Em
tinha sua própria Kultur e que alguns eram culturalmente superiores,
outros casos, igualmente inapropriadamente, fala-se em cultura política de
seria razoável supor que esse pensamento implicasse a existência de uma
épocas, às vezes até de períodos de tempo mais precisos, como décadas
cultura política correlata. Mas para verificar tal hipótese seria necessário
(a cultura política da década de 1920 ...").
empreender outras pesquisas, fugindo ao escopo deste trabalho.
Não se trata de almejar, arrogantemente, o papel de censor dos con-
Em seus usos iniciais, o conceito implicava certa hierarquização,
ceitos ou guardião da pureza dos significados. A preocupação tem base
a compreensão de que alguns povos possuem cultura política, são mais
na convicção de que para haver inteligibilidade na discussão acadêmica
avançados, enquanto outros ainda não a têm, ou apenas em forma inferior
são necessários clareza e algum rigor no uso de conceitos e categorias.
e incompleta. No último caso, pairava o suposto de que nos casos de au-
Se cada um usar os conceitos corno bem lhe aprouver, os debates toma- ,(
sência era necessário desenvolver a cultura política, inculcá-Ia nos povos
rão feições babélicas, com cada interlocutor usando linguagem diferente
e sociedades ignaros. Encontramos o uso da expressão cultura política no
e ninguém se entendendo. Os conceitos são quase sempre polissêrnicos,
Brasil antes de ter se tornado conceito das ciências sociais, provavelmente
sobretudo nas ciências humanas e sociais, portanto é normal admitir a 1:( ~.. na acepção apresentada há pouco. Parece-me ser este o sentido do termo
existência de mais de um significado aceitável para a mesma expressão.
'~-~i
. cultura política que figurava no título da conhecida revista do Estado
Entretanto, há concepções mais consistentes e precisas, enquanto existem
Nov02: constituir. uma cultura política para uma nação considerada em
usos inadequados e/ou confusos.
Em que pese a sugestão de cautela no uso do conceito, não há dú-
vida que cultura política envolve um campo conceitual muito fértil, com 2 Cultura Política circulou entre 1941 e 1945. CL Gomes (1996).

14 15
DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA APROPRIAÇÃO DE CULTUHA POLÍTICA PELA HISTORIOGRAFIA RODRIGO PATIO sÁ MOTIA

estágio infantil, incapaz de auto-governo. Desejava-se, talvez, forjar uma entendiam que a compreensão das ações políticas demandava enfoque
cultura política para um povo inculto, cultivá-Ia. Curiosamente, após o capaz de entender a influência de valores, sentimentos e tradições. Criaram
fim do Estado Novo e o fechamento da revista Cultura Política, o Partido uma complexa tipologia para enquadrar as diferentes formas de cultura
Comunista apropriou-se do termo ao adotá-lo como subtítulo de sua mais política, culminando num esquema que as resumia a três tipos básicos:
importante publicação teórica: Problemas - Revista Mensal de Cultura Polí- cultura política paroquial, cultura política da sujeição e cultura política
tica, que circulou entre 1947 e meados dos anos de 1950. Provavelmente, participativa. A última, naturalmente, correspondia ao estágio superior
os intelectuais do PCB usaram o termo para expressar a intenção de atuar e à meta a ser alcançada pelos povos em atraso na corrida para a demo-
na formação e disseminação de valores políticos comunistas. cracia, e quando em combinação com estruturas políticas democráticas
'I.
O conceito cultura política ganhou estatuto acadêmico e as primeiras dava origem à cultura cívica.
reflexões sistemáticas nos anos de 1950 e 1960, em meio ao debate das O esquema teórico proposto pela dupla não era tão simplório como
ciências sociais norte-americanas. A motivação dos autores a discutir o muitas vezes se pensa, pois eles apontavam a complexidade do fenômeno"
tema era compreender melhor a origem dos sistemas políticos democráti- e a presença de situações híbridas, sociedades em que vigoravam simulta-
cos, partindo da percepção da insuficiência dos paradigmas iluministas s. neamente dois ou mesmo os três tipos de cultura politica. Exatamente por
que viam o homem como ator político racional. Questionando a fragili- isso, propuseram o termo sub-cultura política, para enquadrar casos em
dade das explicações tradicionais, alguns cientistas sociais começaram a que mais de uma cultura política convivia no mesmo espaço. Não é possível
formular a hipótese de que democracias estáveis demandavam cidadãos alongar-me na explicação do modelo de Almond e Verba, mas importa enfa-
com valores e atitudes políticas internalizadas, ou seja, a presença de uma tizar que cultura política é pensada em termos de espaço nacional (alemão,
cultura política. italiano, inglês, etc.), com óbvias implicações etnocêntricas. Desde então
Outro motivador para tais estudos era a preocupação de fortalecer o se iniciou um debate acirrado nas ciências sociais, ainda inconcluso, sobre
campo "democrático" num contexto de disputa com o bloco socialista, o o real potencial explicativo de cultura política, que tem gerado contendas
que levou à criação de modelos de desenvolvimento aplicáveis em escala ir~~ aguerridas entre entusiastas e céticos (Formisano, 2001).
global, sob influência das teorias de modernização em voga nos Estados Como foi comum ao longo do século XX, os historiadores se apro-
Unidos no período pós-Segunda Guerra. Ponto de partida: a concepção priaram de mais essa construção teórica das ciências sociais. Dado que
:~~',
de que as sociedades ocidentais, sobretudo os EUA, eram democracias cultura política teve seu primeiro desenvolvimento acadêmico nos Estados
sólidas e estáveis, ficando implícita a superioridade de seu modelo em vista Unidos, não é de espantar que historiadores desse país estivessem entre os
das outras opções disponíveis. Como decorrência, tais democracias eram primeiros a fazer uso da categoria. Um dos pioneiros foi Bernard Bailyn,
exemplos a serem seguidos pelos povos ainda não bafejados pela sorte ou em seu livro As origens ideológicas da Revolução Americana, publicado
virtude, tratando-se de encontrar explicações para a origem das diferenças originalmente em 1967, que em referência ligeira menciona a influência de
e elaborar roteiros seguros para que todos chegassem lá. uma cultura política anglo-americana sobre os colonos que se rebelaram
Nesse campo, ficaram célebres os trabalhos de Gabriel Almond e e construíram a nova nação."
Sidney Verba, principalmente no livro The Civic Culture.3 Influenciados
pelas pesquisas da antropologia, mas principalmente da psicologia," eles 5 Tampouco achavam que se tratava de questão simples a exportação do modelo de-
mocrático para as regiões periféricas ao mundo ocidental. Recomendavam aos países
em atraso investir na modernização industrial e no desenvolvimento da educação,
3 O título completo é The Civic Culture. Political attitudes and democracy in five na- pois tais processos ajudariam na formação da cultura cívica. Porém, advertiam, não
tions (1963). havia como garantir resultados positivos, pois a verdadeira cultura política demo-
~.
".i
,.
4A def nição que usam para cultura enfatiza a dimensão psicológica: "Aqui devemos crática demandaria tempo para ter consolidados seus valores básicos (pluralismo,
salientar que empregamos o conceito de cultura de acordo em apenas um de seus tolerância, moderação, confiança nas instituições entre outros).
0,1:'
muitos significados: o de orientação psicológicafrente aos objetos sociais" (Rere we can 6Segundo Bailyn (2003:143), a convicção dos revolucionários de que estavam frente
only stress that we employ the concept of culture in only one of its many meanings: :~. a uma conspiração para destruir a liberdade tinha raizes "laboriosamente fincadas
that.of psychological orieruation. touiard social objects) (Almond e Verba, 1963:13). na cultura política anglo-norte-americana".

I
DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA APROPRIAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HISTORIOGRAFlA RODRIGO PATTO SÁ MUITA

Entretanto, em que pese a existência de casos como o de Bailyn, e fora de moda, Rémond e seu grupo desejavam ocupar lugar proeminente
durante o período de implantação de cultura política nas ciências sociais na hora do "retorno". Nada mais justo.
o grosso da corporação dos historiadores demonstrou pouco interesse pela A coletânea Por uma História Política, publicada originalmente em
categoria. Na fase compreendida entre os anos 1950 e 1970, a historiografia 1988, é referência importante para compreender os caminhos trilhados
mais dinâmica estava pouco interessada em estudar os fenômenos políti- pela "nova" história política, e também para situar os estudos de cultura
cos. Nessa época exerciam maior força de atração pesquisas privilegiando política nesse processo. O propósito do livro, para além da já mencionada
processos econômicos e sociais, e as possibilidades de renovar a história intenção de marcar posição, era mapear os novos estudos que vinham
política a partir do uso do novo conceito foram pouco aproveitadas. sendo feitos na área, mostrando as possibilidades disponíveis aos inte-
O conceito passou a ser efetivamente apropriado pelos historiadores, ressados. Há textos sobre eleições, partidos, intelectuais, mídia, guerra,
sobretudo os franceses, a partir do chamado (talvez mal chamado) retorno biografia, entre outros, em que se enfatiza o uso de fontes e abordagens
dato) política(o), nos anos 1980 e 1990. A idéia de retorno da política pode inovadoras. Porém, e significativamente, entre os textos do livro não há
ser mistificadora, pois diz respeito mais à historiografia francesa que à de um capítulo para cultura política. O conceito não está ausente do trabalho,
outros países. Porém, dada a grande influência dos franceses sobre a his- mas aparece apenas em referências breves, principalmente na introdução
tória praticada no Brasil, a ênfase nas tendências historiográficas daquele e na conclusão do livro, ambas escritas por Rémond.H Ele prenuncia que
país é justificada. O fato é que estudos dedicados a fenômenos históricos cultura política, conceito novo, tendia a ocupar lugar de destaque em
de natureza política têm se avolumado, e cultura política muitas vezes tem futuros trabalhos, e apresenta uma definição da categoria mais próxima
ocupado papel-chave na renovação das abordagens. No período recente, de modelos tradicionais, associando-a à configuração nacional ("ethos de
aliás, notam-se movimentos convergentes de várias disciplinas, cada vez uma nação", "gênio de um povo'')."
mais interessadas pelos encontros e influências mútuas entre cultura e Alguns historiadores do grupo seguiram por essa senda e desenvolve-
política. Além da própria história política: história das idéias, história do ram o conceito, mas o fizeram a partir de diversa apropriação de cultura
livro e da leitura, história cultural, antropologia' e ciência política, para política. É certo que esses autores tiveram como ponto de partida a con-
ficar apenas em alguns exemplos. I~ tribuição norte-americana,'? mas ao contrário dos cientistas sociais dos
Como já foi dito, na historiografia francesa aparecem no início dos EUA - muito influenciados pela sociologia e a psicologia - o grupo francês
anos 1990 algumas reflexões que lançam mão de cultura política, princi- tem sua maior fonte de inspiração na antropologia, de cujo conceito de
pal mente trabalhos de S. Berstein e J.F. Sirinelli. É importante mencionar
que esses historiadores são externos ao movimento dos A nnalles , que lli;
tradicionalmente foi pouco receptivo à história política. Berstein e Sirinelli 8 No capítulo que escreveu para a coletânea, dedicado aos partidos políticos, Serge
t.
pertencem a grupo que se desenvolveu à margem da influência dominante Berstein também menciona, rapidamente, cultura política. Porém, em postura con-
trastante com o posterior investimento e importância que conferiria ao conceito, aqui
dos Annalles sobre a historiografia francesa, trabalhando em instituições
Berstein entende cultura política como fenômeno integrante da ideologia.
como a Fondation Nationale des Sciences Politiques (e o Instituto de Estudos
9 Eis as passagens do texto, na íntegra: "Enfim, a noção de cultura política, que
Políticos de Paris) e sob a liderança informal de René Rémoncl. Rémoncl,
está prestes a ocupar, na reflexão e explicação dos fenômenos políticos, um lugar
por sinal, organizou uma coletânea que é verdadeiro manifesto do retorno proporcional ao vazio que ela acaba de preencher, implica continuidade na lon-
da política, Por uma História Política (Rémond, 1996), tendo entre seus guíssima duração"; e "O que se chama às vezes de cultura política, e que resume a
colaboradores justamente Sirinelli e Berstein. Um dos propósitos desse singularidade do comportamento de um povo, não é um elemento entre outros cla
livro, é factível conjecturar, era marcar posição num momento em que a paisagem política; é um poderoso revelador cio ethos de uma nação e cio gênio de
história política voltava a posição de destaque na historiografia francesa. um povo" (Rémond, 1996:35e 450).
Praticantes da história política numa fase em que ela estava desprestigiada 10 Vale a pena investigar melhor os meios de 'transmissão que permitiram essa

apropriação. Uma dessas vias pode ter sido o livro da historiadora norte-americana
Lynn Hunt, de 1984, notável estudo sobre a Revolução Francesa e que encontrou
7 Para um balanço sobre as maneiras como a Antropologia tem pesquisado a política, boa acolhida na França. Uma das categorias de análise utilizadas por Hunt foi
inclusive a cultura política, ver Kuschnir (2007). exatamente cultura política.

18 19
'r ;'
'1:;,',:.
DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA APROPRIAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HISTORlOGRAFIA RODRlGO PATIO sÁ MOTIA

cultura se apropriaram. Eles formularam outra forma de conceber cultura ~j


:E~ a existência de referências políticas coletivas, aceitas sem contestação por
política, tomando por base duas críticas principais ao modelo original todos ou mesmo pela maioria.
norte-americano: primeiro, rejeitaram suas implicações etnocêntricas, Na conclusão de um de seus trabalhos mais recentes, a coletânea
pois ficava implícita na teorização de Almond e Verba a superioridade Cultures polítíques en France, Berstein adotou posição mais nuançada sobre
da cultura política cívica (ou democrática), considerada etapa superior e o tema, partindo da constatação de que a exceção francesa já não existiria
referência a ser seguida pelos povos ainda presos a formas "atrasadas" de mais (Berstein,1999:396). A França estaria vendo o fim da característica
organização política; segundo, entendiam ser inadequada a perspectiva que a distinguia dos outros países centrais: o fato de ser dividida e con-
nacional, tida como excessivamente generalista ao atribuir a todo um povo flagrada por culturas políticas rivais. Nos albores do século XXI, o país
as características de uma mesma cultura politica.'! caminharia para um quadro de virtual consenso básico em torno dos
Ao contrário, os historiadores franceses preferem enfatizar as diferen- valores liberal-democráticos, de modo que deixava de ser exceção e se
ças existentes dentro de um mesmo espaço nacional, a partir de um olhar aproximava do modelo de cultura política dos outros países desenvolvidos.
que privilegia a "pluralidade das culturas políticas" (Ber~tein,1988:354). Nesse texto, Berstein deixa entrever uma oposição menos rígidaem rela-
Assim, ao invés de procurar por uma cultura política específica de cada ção à conceituação ao estilo norte-americano; ao falar num processo de
povo, ou tentar enquadrar as diversas experiências nacionais na tipologia aproximação entre as culturas políticas na direção de consensos nacionais,
de Almond e Verba (cultura paroquial, cultura da sujeição ou cultura e ao chamá-Ias de sub-culturas, implicitamente está sendo admitida a
participativa), os trabalhos inspirados em Berstein e Sirinelli buscam existência de uma cultura política nacional. Penso que não há razão para
identificar as diferentes culturas políticas que integram e disputam um opor os dois modos de aplicar o conceito, quer dizer, a versão no singular
mesmo espaço nacional. Dessa forma, privilegia-se o estudo das culturas (cultura política nacional) e a versão no plural (culturas políticas disputando
políticas comunista, socialista, liberal, conservadora (tradicionalista), re- e tentando ocupar o mesmo espaço). A discussão será retomada adiante,
publicana, entre outras, que Berstein chama de famílias políticas. Aliás, mas por ora diria que as duas maneiras são válidas e, mais ainda, em
não fica clara a distinção estabelecida por esse autor entre cultura polí- alguns casos chegam a ser complementares.
tica e família política, que parecem representar o mesmo fenômeno. Não Partindo do que já foi dito até aqui, é possível, além de necessário,
obstante enfatize a necessidade de tratar as culturas políticas sempre no construir uma conceituação para cultura política. A proposição é polêmi-
plural, Berstein admite, em determinados contextos, a predominância de ca e, inevitavelmente, não vai agradar a todos os interessados, mas vale
algumas delas, como a cultura republicana na França dos anos iniciais a pena correr o risco na tentativa de aprofundar o debate. Uma definição
do século XX. adequada pará cultura política, evidentemente influenciada pelos autores já
O investimento que tais autores têm feito nessa vertente "pluralista" mencionados, poderia ser: conjunto de valores, tradições, práticas e repre-
do conceito guarda estreitas relações com a história política francesa. Esse sentações políticas partilhado por determinado grupo humano, que expressa
país foi marcado por grandes controvérsias e momentos de polarização ,1It,
uma identidade coletiva e fornece leituras comuns do passado, assim como
lii
aguda, opondo, por exemplo, em diferentes momentos, monarquia uersus fornece inspiração para projetos políticos direcionados ao futuro.
república, e socialismo versus liberalismo. Num quadro de disputas acir- Importa realçar que a categoria representações está sendo entendida
radas, em que não há consensos políticos básicos e os grupos se engalfi- no sentido de "re-apresentar uma presença (sensorial, perceptiva) ou fazer
nham em torno de projetos mutuamente excludentes, fica difícil imaginar presente alguma coisa ausente, isto é, re-apresentar como presente algo que
não é diretamente dado aos sentidos" (Falcon, 2000:46)Y Dessa maneira,
com base em enfoque de sentido amplo, representações configuram um
11 Esse argumento crítico não é inteiramente justo, pois, como vimos, Almond e conjunto que inclui ideologia, linguagem, memória, imaginário e iconogra-
Verba entendiam que em muitos países prevalecia uma mescla entre as 3 culturas fia, e mobilizam, portanto, mitos, símbolos, discursos, vocabulários e uma
politicas. Creio que, nesse ponto, a crítica de Berstein visa a um tema secundário,
deixando de atacar o ponto principal: o esquematismo da tríade proposta peta
dupla de cientistas sociais norte-americanos, que pretende resumir toda a gama do 12 Na maneira como a categoria representações é apropriada aqui, contemplam-se
fenômeno das culturas políticas a apenas três formas essenciais. tanto questões referentes à cognição quanto à imaginação.

20 21
DESAFIOS E POSSIB!UDADES NA APROPRlAÇÃO DE CULTURA POLíTICA PELA HISTORlOGRAFlA RODRIGO PATTO sÁ MOTTA

rica cultura visual (cartazes, emblemas, caricaturas, cinema, fotografia, demonstram maior rigidez e dificuldade para se reciclar correm sério
bandeiras, etc.). risco de esclerosar-se e perder densidade social, como tem acontecido em
O trabalho com tal tipo de conceituação traz uma série de questões e alguns casos (Berstein,1999:394-395).
implicações, e sugere algumas reflexões que passo a abordar de maneira
• Restringir os estudos de cultura política ao tema das representações
mais pormenorizada:
pode empobrecer a compreensão do fenômeno, pois as ações e práticas por
• As variadas formas de manifestação das culturas políticas podem ser elas ensejadas, e que também atuam na sua constituição, são igualmente
mais bem observadas em dimensão comparativa. É colocando em contraste importantes. De fato, o vasto patrimônio que conforma as culturas políticas
culturas políticas diversas que melhor visualizamos suas características depende, para sua formação, das ações de seus inspiradores originais e
e peculiaridades, que ficam mais visíveis quando comparadas com o di- dos aderentes posteriores. Para a construção dos grandes mitos históricos
ferente, o outro. Assim, por exemplo, a tendência de um grupo a resolver que fazem parte das culturas, com seus heróis e mártires, bem como o
de maneira conciliatória e pragmática seus conflitos é mais bem compre- desenrolar dos eventos-chave a eles relacionados, foi importante a ação
endida quando se observa o comportamento diverso de outros diante de política de determinadas personagens. Por outro lado, a reprodução no
situações semelhantes, em que não são possíveis soluções negociadas, e as tempo das culturas políticas demanda a realização de práticas reiterativas,
disputas são resolvidas à base do confronto. Porém, admitir a importância como a repetição de rituais e cerimônias, e a participação em eventos e
do comparativismo não implica aceitar o olhar que hierarquiza as culturas manifestações que servem para selar o compromisso dos aderentes, con-
políticas e tenta enquadrá-Ias em chave evolucionista. firmando o sentido de pertencimento a um grupo.
Na acepção usada aqui, cultura política só pode existir na duração, Mas não se deve opor práticas e representações, como se houvesse
como fenômeno estruturado e reproduzido ao longo do tempo. Se formos entre as duas dimensões uma. clara linha de determinação. O melhor é
usar a tipologia de Fernand Braudel, para configurar uma cultura política considerar a existência de relações de mútua determinação, ou uma espécie
seria preciso pelo menos a média duração, não obstante alguns casos pos- de "via de mão-dupla". As ações influenciam as representações, que nelas
sam ser classificados como de longa duração (a exemplo de republicanismo, " se inspiram e buscam forma, e também garantem sua reprodução através
'- I.i.
liberalismo e socialismo). Parece inadequado usar cultura política tendo de práticas rituais. Porém, as representações, ou os diferentes modos como
r..\.
como referência situações efêrneras, passageiras, pois se perde a força do os grupos figuram o mundo, são determinantes para suas escolhas e ações,
\,..
rJ conceito, que reside exatamente em revelar como certos comportamentos pois os homens agem a partir de apreensões da realidade. Como sabemos,
_<...' C n
políticos são influenciados por elementos arraigados na cultura de um elas são inevitavelmente incompletas e imperfeitas; no entanto, algumas
%<i:_ ~~ f7l •
grupo. O valor explicativo do conceito reside em mostrar como as ações
políticas podem ser determinadas por crenças, mitos, ou pela força da
implicam distorção maior da realidade, devido a interesse, paixão política
ou sentimentos como o medo. Influenciados por tais representações, os
tradição. Por isso, não há lugar para o efêrnero. homens orientam suas ações, e às vezes agem movidos por paixões que
O . cegam.
=i (~,- • As diferentes culturas políticas não devem ser encaradas como reali-
,'I-< ~ dades estanques, como se estivessem encerradas em si mesmas e imunes
C • É importante considerar, seguindo sugestiva análise de Serge Berstein
~ ~ S: ao contato com as outras, concorrent~s na dispu~a .pelo espaço púb~co. e (desenvolvendo argumento original de Almond e Verba), a existência de
Q Iv C pelo controle do Estado. Embora sejam adversanas, e com freqüência vetores sociais responsáveis pela reprodução das culturas políticas, como
~ () ( . ,;possuam características antitéticas, às vezes elas se deixam influenciar por família, instituições educacionais, corporações militares, partidos e sin-
ç (',~alores defendidos pelas concorrentes, sobretudo quando eles encontram dicatos. Nada mais natural, quando lidamos com categoria que pressupõe
a
9
t
p.. ~grande aceitação social. De maneira semelhante, as culturas políticas
gl
f; ..••não são infensas à ação do tempo. Embora mantendo as características
que as escolhas políticas dos indivíduos são determinadas por filiação a
grupos e/ou a tradições. A essa lista vale agregar outros vetares de sociali-
2>
d ('. '::básicas que lhes garantem a identidade, elas podem adaptar-se às mu- zação, como as Igrejas, e também adicionar a importância dos veículos de
tU C Ó danças experimentadas pelas sociedades ao longo do tempo, que tornam disseminação impressos, como periódicos e livros. Nos casos de famílias
" ,,_.~..,.....".determinados temas obsoletos e trazem à tona novos problemas. As que e Igrejas, estamos diante de algo que envolve a ligação dos indivíduos a
.•....• /~ {\-

y)~ ."'1 \Úv -vd Ci .. , ( 1', .r/c Q,0Y\.'JptC l('Ly li


L_'-;j V l.x
~22·(' , 'O XJ >< /V'rC: 23
J -'" I
rL1JilCH/UFMG - BIBLIOTECA
DESAflOS E POSSIBILIDADES NA APROPRIAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HlSTORlOGRAFIA RODRJGO PAITO sÁ MOITA
,~V
'~1,::

grupos sociais mais abrangentes, que interferem em sua formação para 1" tes em função do pertencimento comum. Significativamente, as maiores
-:t.
além da dimensão política. A adesão política, nesses casos, decorre, ao ~1 .
objeções ao modelo no singular podem ser usadas em sentido contrário.
menos em parte, da identificação aos valores defendidos pelo grupo, de Quando parte dos historiadores franceses critica a suposta existência de
modo que a escolha política pode revelar, na verdade, a fidelidade aos uma cultura política comum a seu país, o seu melhor argumento é que a
pais ou à religião. Os impressos são veículo fundamental na divulgação e França caracterizou-se por disputas e conflitos agudos, que impediram o
disseminação dos valores das diferentes culturas políticas, e são usados estabelecimento de consensos coletivos. A política francesa, argumentam,
propositadamente com tal fim. Nos textos dos livros e jornais, e também seria polarizada demais para permitir o surgimento de cultura política na-
nas suas imagens visuais, desfilam heróis (e, tão importantes quanto es- cional. Ora, essa análise, que parece correta, pode ser usada para tentar
0~ evidenciar uma cultura política tipicamente francesa, cujo traço maior,
ses, os desprezíveis inimigos), mitos, símbolos e os valores morais do
grupo, e nessas publicações muitas pessoas encontraram motivação para J.~ em contraste com outros países, seria a presença de sub-culturas fortes,
identificar-se e aderir. 1 belicosas e resistentes a qualquer compromisso mútuo.
Quanto aos partidos, é importante esclarecer uma confusão freqüente, • Estudos de cultura política possuem forte convergência com as pesquisas
pois é tentador resumir as culturas políticas às formações partidárias. As dedicadas às diversas formas de manifestação das representações políti-
culturas políticas são construções que transcendem as instituições partidá- ~
li ~
cas" (imaginário, iconografia, mitologias, etc.), devido à comum motivação
rias. É verdade, muitas vezes elas dão origem à organização de partidos,
nelas inspirados e motivados a tentar colocar em prática os respectivos
.
~
II
1:
~

de compreender os impactos gerados pelos encontros entre cultura e po-
lítica. No entanto, nem toda história cultural do político implica o uso da
~~
projetos políticos. Porém, há pessoas que se identificam com determinada f categoria cultura política. O fato de Marc Bloch ter mostrado a importância
2"
cultura política mas não com os ,Partidos nela inspirados, considerando-os r~ da crença nos poderes taumatúrgicos dos monarcas na Europa medieval
indignos ou infiéis à tradição. E comum ver culturas políticas dando ori- não significa, necessariamente, que se deva falar na existência de uma

"
,!
gem a diversas formações partidárias, às vezes concorrentes na luta pelo
papel de principal representante do grupo, e algumas mal se adaptam ao
formato partidário, como o peronismo, por exemplo.
r-
~

,~,
~
cultura política medieval. É comum, entre os partidos políticos, o uso de
símbolos e outras manifestações de linguagem visual em suas campanhas,
para comunicar mensagens aos eleitores; mas isso não implica sempre a
~ filiação a alguma cultura política. Portanto, para os que se aventuram no
• O conceito pode ser aplicado a espaços sociais diferenciados, servindo
il para designar desde coletividades reunidas à volta de projetos específicos campo da história cultural do político é preciso atenção para não confundir,
',j de ordenamento da sociedade (liberalismo, socialismo, etc.), até grupos por exemplo, imaginário político com cultura política.
nacionais ou mesmo regionais. Por isso a opção de alguns autores em pensá- • Deve-se tomar cuidado para evitar outro tipo de confusão possível quan- ,
Ias sempre em formato plural, dividindo o mesmo espaço social, enquanto do se trabalha nesse terreno: cultura política não é sinônimo de política
i
1
outros enfatizam a cultura política singular de cada grupo nacional. Há cultural, que pode ser definida como o conjunto de ações de determinado I',
a opção, também, de manter cultura política para designar a coletividade Estado ou agente político direcionadas à cultura. Aqui há um ponto de i
nacional e usar-se sub-cultura para os diferentes grupos em disputa no convergência também, porque algumas culturas políticas servem de inspi-
interior do espaço nacional, tanto os ligados às grandes tradições (libera- I
ração para autoridades estatais criarem suas políticas culturais, a exemplo 'I
:1
lismo, socialismo, etc.) quanto, no caso de alguns países, aqueles identi- do que ocorreu na União Soviética com o realismo socialista. Mas em que
'i
ficados com discursos regionais. Penso que não é fundamental discutir a
l pese a existência desses "pontos de encontro", política cultural e cultura
adequação ou não do termo sub-cultura. Mais importante é perceber que
não há incompatibilidade entre os dois modos de conceber cultura políti-
•t~ política são coisas distintas.
:1
1
1'1
11
~ !ii; ~
ca, no singular e no plural, o modo pluralista e a perspectiva nacional. É ~ ~
ih
possível admitir a existência de padrões culturais coletivos a um povo, uma 13 Obviamente, há outro sentido possível para representação política, que não está
cultura política brasileira, por exemplo, ao mesmo tempo convivendo com sendo considerado aqui. Trata-se de representação que significa delegação, como no
rt~:,[ culturas ou sub-culturas que disputam esse espaço nacional, e que podem, mecanismo eleitoral por meio do qual os cidadãos escolhem pessoas para representá-
j
~'~i~·t
"..ii;j apesar de suas divergências, carregar algumas características semelhan- Ias no parlamento.
J~~~';!
11·,
~.'. ,. ,I
i(t~
ti" '.~
24 2S I
~H
DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA APROPRJAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HlSTORJOGRAFIA RODRIGO PATTO sÁ MOTTA

• Questão de fundamental importância são as relações polêmicas existentes risco é semelhante ao enfrentado pelos trabalhos sobre a cultura política
entre os estudos de cultura política e a tradição marxista. Trata-se de uma de determinado povo ou nação: a mesma tendência a um olhar genera-
relação em que há algumas áreas de convergência, mas também muitos lizante, que tende a desconsiderar as peculiaridades internas ao grupo
pontos de tensão e eventuais choques. O tema é complexo e demanda mais estudado.
reflexões, e não fugirei ao risco de oferecer contribuição ao debate. Estudos que enfatizam o potencial agrega dor das representações
Os estudos que colocam ênfase no fator cultural desenvolveram-se num podem oferecer mais consistência, pois não supõem coincidência entre
quadro de declínio da influência do paradigma marxista, que tradicional- classe e política. As culturas políticas mais sólidas, como comunismo,
mente colocava a cultura em posição secundária, dependente das estruturas republicanisrno ou fascismo, para ficar em apenas alguns exemplos, cru-
econômico-sociais. O marxismo tradicional reconhecia a existência e a zam as diferentes classes sociais e atraem pessoas de origens diversas. É
importância da cultura e da ideologia, mas, na prática, elas eram subme- verdade que algumas delas, notadamente as de esquerda, fazem apelos
tidas aos ditames da estrutura classista da sociedade, ocupando um lugar dirigidos a grupos específicos, como os operários ou os trabalhadores. E,
na "superestrutura". O "marxismo", na verdade, é constituído por uma na história de partidos de esquerda encontram-se, de fato, casos de forte
pluralidade de leituras e apropriações dos textos do fundador, algumas mais identificação entre grupo social e projeto político. Mas há momentos em que
e outras menos fiéis. Porém, independentemente de serem ou não leituras as organizações de esquerda fazem chamados mais amplos, dirigindo-se
corretas do pensamento de Marx, o fato é que as versões deterministas às mulheres, aos jovens e mesmo aos pequenos proprietários e, às vezes,
deram o tom dominante ao marxismo durante muito tempo. Nos anos de à vasta e indefinida categoria povo, de modo que as culturas políticas de
1960, o marxismo oficial perdeu credibilidade nos meios acadêmicos, e esquerda atraem aderentes da mais diversa origem social. Naturalmente,
alguns intelectuais de filiação marxista passaram a questionar os modelos é possível combinar as duas possibilidades e estudar as relações entre
economicistas. Essa é uma das razões para a descoberta dos trabalhos de grupos sociais específicos P. determinadas culturas políticas, e, de novo,
Antonio Crarnsci, cujas reflexões ofereceram compreensão mais sofisticada o melhor exemplo seriam os laços entre trabalhadores e esquerda. Mas é
sobre o papel da cultura. Outros autores marxistas deram contribuição i preciso cautela para evitar os excessos generalizantes, pois há grupos de
significativa aos estudos sobre a cultura, como Edward Thompson e Ray- trabalhadores mais propensos a se deixar sensibilizar por apelos da direi-
mond Williams, com trabalhos renovadores e questionadores dos cânones ta. Por outro lado, deve ser considerada a pluralidade da esquerda, que,
do marxismo tradicional. 14 embora possua uma série de valores comuns (igualdade, universalismo,
Pode ser atribuída à influência marxista a existência de uma ver- laicismo), é fragmentada em grupos com culturas próprias, disputando
tente peculiar de apropriação do conceito cultura política, que associa o entre si os corações e as mentes dos trabalhadores.
fenômeno à estrutura de classes. Daí a existência de estudos dedicados Outro ponto fundamental para discutir as relações entre marxismo e as
à cultura política operária, ou à cultura política popular, por exemplo. pesquisas sobre cultura política é a categoria ideologia. Conceito central na
Nesses estudos, cultura política assume lugar de proeminência, porém, tradição marxista, ideologia ocupou lugar proeminente na superestrutura
em alguns casos permanece, embora nem sempre explicitado, o suposto imaginada pelo filósofo alemão. O conceito tem duas acepções principais.
de que ela é determinada pelo fator sócio-econômico. Assim, espera-se No primeiro caso, ideologia significa falsa consciência e implica o mas-
encontrar entre o mesmo grupo social valores políticos comuns, ou seja, caramento da realidade. Trata-se do processo através do qual a classe
uma cultura política compartilhada, fruto de vivência social e interesses dominante constrói uma falsa representação da realidade, com que esca-
coletivos. O problema com esse tipo de abordagem é que ele pode levar a moteia a sua dominação e garante a obediência dos grupos dominados. Na
uma generalização abusiva, ao atribuir a todo um grupo social, à classe segunda acepção, ideologia significa um conjunto de idéias que dá forma
trabalhadora por exemplo, comportamentos e valores políticos idênticos. O a determinados projetos políticos e impele à luta pela conquista do poder,
e aí teríamos a ideologia fascista, a liberal, a socialista, etc.
Utilizando o conceito na segunda acepção apontada, ideologia não
H No caso de E. Thompson, principalmente em Aformação da classe operária inglesa
apenas é compatível com cultura política, como enriquece a nossa com-
(1987) e Costumes em comum (1998); quanto a R. Williams, O campo e a cidade na
preensão do fenômeno. Pode-se dizer que muitas das culturas políticas
história e na literatura (1989) e Marxismo e literaura (1979).

26 27
,p"

.. I
'1""
":'1"
" 'r

DESAFros E POSSIBILIDADES NA APROPRlAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HISTORJOGRAFIA RODRrGO PATTO SÁ MOTTA

consistentes possuem ideologia, entendida como um sistema de idéias que As possibilidades abertas pelo enfoque nas culturas políticas são
constitui o seu cerne. Mas é importante não resumir uma coisa à outra, amplas e férteis, e apenas recentemente começaram a ser exploradas pela
e perceber que a cultura política transcende e vai além da ideologia, ao historiografia brasileira. Estudos inspirados por esse campo conceitual
mobilizar sentimentos (paixões, esperanças, medos), valores (moral, hon- permitem uma compreensão mais rica e sofisticada do comportamento
ra, solidariedade), representações (mitos, heróis) e ao evocar a fidelidade político, indo além da tradicional ênfase no interesse e na adesão a idéias
a tradições (família, nação, líderes). Toda a força da categoria cultura como fatores motivadores. Sem a intenção de opor à escolha racional um
política reside na percepção de que parte das pessoas adere menos pela paradigma culturalista, os estudos dedicados às culturas políticas revelam
concordância com as idéias e mais por identificar-se com os valores e as outras dimensões explicativas para os fenômenos políticos, como a força
tradições representadas pelo grupo. ':~ dos sentimentos (paixões, medo), a fidelidade a tradições (família, religião)
1\1
Já ideologia no sentido de falsa consciência é mais difícil de ser r e a adesão a valores (moral, honra, patriotismo).
combinada com a fundamentação teórica de cultura política. Primeiro, A partir desse enfoque é grande o elenco de pesquisas a serem realiza-
porque pode levar à pressuposição da existência de verdade única, que :~~:i::" das, tanto em abordagens restritas ao Brasil, quanto incorporando olhares
a ciência seria capaz de desvendar." Se existe uma falsa consciência, é IM!.1. comparativos. Há desde caminhos mais tranqüilos a serem percorridos,
porque há uma verdadeira; se a realidade é ocultada pela ideologia, ela em que a presença de cultura política seria mais fácil de demonstrar, a
também pode ser revelada." Segundo, em tal acepção ideologia enfatiza
ilF
;!:'j outras opções mais arriscadas, em que trilhas precisam ser abertas e os
a manipulação, o logro, enquanto cultura política implica a suposição que resultados são incertos. Podem ser estudadas, tomando como inspiração
pessoas aderem a certas representações da realidade capazes de ofere- ~.j a matriz "pluralista", as culturas comunista, conservadora, republicana e
cer compreensão do mundo, ao mesmo tempo fornecendo identidades à liberal, por exemplo. Nos dois últimos casos, tais pesquisas ajudariam a
t:
que se filiar. Entendida como falsa consciência, ideologia pode excluir a demonstrar as peculiaridades a distinguir republicanismo de liberalismo,
possibilidade - a meu juízo, a maneira mais fértil de encarar a questão ,:; que com muita freqüência passam despercebidas. No caso do Brasil há
- de que culturas políticas, armadas com representações fragmentárias experiências políticas singulares, que vale a pena abordar pelo prisma de
e distorcidas, mas ainda assim filiadas ao real, concorram entre si para cultura política. A tradição trabalhista, por exemplo, configuraria uma cul-
a conquista de aderentes em meio aos diversos grupos sociais. Mas, vale tura política? Na contramão da perspectiva que enfatiza o caráter populista
a pena ressaltar, isso não significa negar a ocorrência de manipulação e do trabalhismo, estudos com enfoque na cultura política ajudam a avançar
logro em outras instâncias do jogo político. esse debate." Outro caso interessante é o do Partido dos Trabalhadores,
cuja peculiar militância política inspirou o uso da expressão petismo. Teria
o PT originado uma cultura política própria? Seja qual for a resposta, seria
~li·~;
*** }, necessário perceber a influência sobre o petismo de culturas de esquerda
precedentes, como a socialista e a comunista.
Como já foi dito, o enfoque pluralista não é incompatível com o uso de
cultura política no singular, aplicada a grupos nacionais. Alguns estudos
tentaram caracterizar a cultura política brasileira com base no suporte teó-
15 É importante ressalvar que existem intérpretes do marxismo mais sofisticados, rico-metodológico da ciência política (Carvalho, ,2000). Seriam bem-vindas
que questionam as versões simplificadoras de ideologia e propõem análises mais mais incursões de historiadores nesse terreno. Um tema que poderia ser
complexas das relações entre mistificação e realidade. Entre os seguidores atuais explorado é o da conciliação, para muitos traço marcante da cultura brasileira
de Marx há tanto os que negam validade ao conceito de ideologia entendida como de maneira geral, não dizendo respeito apenas à política. Nesse sentido, as
; falseamento quanto os que mantêm a convicção sobre o caráter ilusório de certas
representações ideológicas, mas admitindo que em outros casos elas têm correspon-
dência com o reaL Sobre esse debate conferir Eagleton (1997). 17 Angela de Castro Gomes (2005:33-41) foi pioneira na abertura dessa trilha de
16 Esta afirmação não implica a aceitação dos pressupostos relativistas. Voltarei à investigação sobre o trabalhisrno. Para uma perspectiva diferente, que defende o
discussão sobre representação e verdade adiante. uso da categoria populismo, ver Fortes (2007:63-83).

28 ')0
DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA APROPRIAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HISTORIOGRAFIA RODRIGO PATTO SÁ MOTTA

análises de Roberto DaMatta são particularmente interessantes, ao defender e Argentina, por exemplo, os resultados instigam à reflexão. No primeiro
que a lógica relacional é marca central da cultura brasileira, calcada na re- caso, chama a atenção a maneira como o embate escravidão X abolição foi
cusa a definições rígidas e no horror aos conflitos, que são evitados em favor resolvido nos dois países: com a guerra civil, nos EUA, de maneira lenta e
de ações gradativas, moderadoras, conciliadoras e integrativas (DaMatta, negociada, no Brasil. Com a Argentina há várias possibilidades de compa-
1997). Antes dele, Gilberto Freyre já havia feito referências ligeiras ao tema ração, mas podemos enfatizar o período de 1930 a 1970, em que os dois
da conciliação, elogiando a capacidade de contemporização dos brasileiros países viram-se às voltas com situação semelhante: conflitos entre esquerda
no episódio do 15 de novembro de 1889, a seu ver uma manifestação mais e direita, fragilidade das instituições e partidos, intervenções militares e
de sabedoria do que de apatia (Freyre, 1959:9), reveladora da capacidade períodos ditatoriais. Em que pesem as semelhanças, na Argentina houve
de evitar conflitos em busca de mudanças com estabilidade. José Honório pouco espaço para compromisso entre os grupos rivais: expurgos dramáticos
Rodrigues também abordou a questão, mas com perspectiva mais critica e no serviço público, matanças maciças de parte a parte e golpes sanguinários.
menos otimista, vendo na conciliação essencialmente um estratagema das No Brasil houve repressão e expurgos, bem o sabemos, mas os regimes
elites para excluir o povo e tentar convencê-lo de que é pacífico e ordeiro por autoritários temperaram perseguição com cooplação, violência extralegal
natureza. A existência de episódios de intensa violência política e estranhos com o uso de mecanismos legais. Essa é uma das principais razões porque
ao modelo conciliatório, como a Balaiada ou Canudos, que trouxeram à a transição política no Brasil foi mais suave e menos dramática para os
arena pública a presença de grupos populares, seria evidência dos limites militares envolvidos com a repressão, enquanto na Argentina vários chefes
à disposição dos grupos dominantes em transigir e negociar. Embora pro- foram julgados e condenados. Ressalve-se que não se está dizendo que as
cure denunciar o logro implicado na conciliação, Rodrigues não nega sua nossas ditaduras são melhores do que as deles, menos ainda negando a
presença marcante na história hrasileira.!" existência de violência política no Brasil, o que seria uma tolice.
A força da tradição conciliatória no Brasil talvez seja uma razão para Uma digressão: a conciliação à brasileira traz mais vantagens ou
o comtismo ter encontrado tantos adeptos no país. A divisa "ordem e desvantagens? Considerando o saldo positivo, é mais fácil passar de um
progresso" é síntese perfeita do espírito conciliador, que entre nós se ma- regime à outro, com menos violência e ódio, menores traumas a admi-
terializou em arranjos políticos de perfil modernizante-conservador. De nistrar; portanto, há terreno mais fácil para abrir caminho à mudança.
fato, encontramos a manifestação de tendências conciliatórias em vários Porém, olhando pelo outro prisma, alguns problemas tendem a não ser
momentos e episódios de nossa história, entre eles: o próprio surgimen- resolvidos, e sim postergados para um futuro indefinido. No que tange ao
to do país independente, em que o processo foi liderado pelo Príncipe período ditatorial, o melhor é perdoar, e com isso evitar novos traumas
português, evitando rupturas bruscas; o modo como foi implantada a (pense-se nos levantes dos caras-pintadas na Argentina, em resposta às
República em 1889, em que as lideranças políticas do velho e do novo punições aos militares pelo governo Alfonsín), ou punir culpados e com isso
sistema acomodaram-se com poucos choques; o Estado Novo e a estraté- desestruturar os grupos que tomaram parte na repressão? Qual o melhor
gia getulista de integração de tendências aparentemente opostas, que fez caminho para superar o autoritarismo e consolidar a democracia?
escola; os resultados da crise de 1964, que, em vez da guerra civil, gerou Evidentemente, a presença de tradição conciliadora não basta para
"guerra de saliva"; a transição pós-autoritária, em que a anistia significou caracterizar uma cultura política. No caso brasileiro há outros temas a
realmente esquecimento e perdão; a ascensão de Lula e do PT ao poder, explorar, como os laços frágeis entre povo e cidadania, discussão já clás-
viabilizada por aliança reunindo forças de esquerda e direita. sica no pensamento político.'? Seria o caso de restringir a explicação à
O recurso à conciliação, à busca de soluções de compromisso que evitem ação nefasta das elites, responsáveis por fechar aos setores subalternos os
o caminho de rupturas radicais fica mais visível quando o olhar é compa- espaços de participação política, ou não haveria um pouco de auto-exclusão
rativo. Colocando em contraste o Brasil com países como Estados Unidos

19 Ressalte-se: concordar com tal linha de análise não implica a aceitação de teses

18No prefácio à segunda edição do livro, Rodrigues (1982) atenua um pouco seu racistas ou idéias sobre uma espécie de incapacidade inata dos brasileiros, nem exclui
argumento, ao dizer que os brasileiros são efetivamente menos cruentos que outros a possibilidade de perceber a existência de outras formas de participação na vida
povos. coletiva, para além da institucionalidade política tradicional (Carvalho, 2000).

30 31
I'
111!!,1
I'
i]1

I"
I,'
Í!"
DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA APROPRIAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HISTORlOGRAFIA RODRlGO PATTO sÁ MOITA
,iT
11:,
!!!
~jl~,
i!i!!
i'li
!;[.
"
também? Outra questão a merecer reflexões: a modesta participação po- do povo, composto não mais por súditos, mas por cidadãos com direito
;:'
pular na política institucional tem sido pontuada por explosões de fúria e a participar dos negócios públicos. Abrem-se, assim, as condições para ','I
momentos de mobilização. Além dos episódios do século XIX já referidos, que projetos, idéias, valores e representações políticas ganhem forma e I~"
I'
podem ser lembrados: a Revolta da Vacina, as inúmeras quebras de bon- constituam culturas políticas, a disputar a atenção de indivíduos e grupos d,:
'"I'.,
des e ônibus no decorrer do século XX,20 a reação popular ao suicídio de sociais na cena pública. A categoria supõe que as pessoas tomam parte :rr
Getúlio Vargas em 1954, a mobilização popular de 1962-64, em que se movidas por fatores culturais, mas está presente também o elemento da 'I
11,

;
viram saques ao comércio em algumas cidades, a campanha popular pelas adesão, da escolha.
I>, , Diretas-já em 1984, ou os caras-pintadas em 1992. Se o argumento estiver Não obstante, alguns autores têm utilizado cultura política para períodos
correto, é preciso tentar explicar por que o padrão de fraca atuação política históricos anteriores, como a Roma antiga (Flower, 2006) por exemplo, mas
i' é pontilhado de ocasionais picos participativos. E, sobretudo, compreender !'t:~ invariavelmente sem explicitar o modo como estão se apropriando do con-
li!

"H
"

por que tais momentos são tão intensos como fugazes. ,~:'" ceito. Em alguns casos, trata-se de análises sobre representações políticas
'I
" I
i:
Para finalizar a discussão sobre as possibilidades nos estudos de cultu- .:r' (linguagens, iconografia) que não implicam, necessariamente, a existência
ra política, é interessante mencionar que pesquisas sobre culturas regionais de cultura política. Pode-se afirmar que são estudos de história cultural do
podem abrir um bom filão de análise. Alguns autores têm defendido a político, mas nem sempre há a presença de culturas políticas. Seja como
existência de uma cultura política carioca (Motta, 1999), por exemplo, e i.i; for, cabe aos pesquisadores de tais temas e períodos investir na discussão
~.:.
.~'
vale a pena tentar aplicar o conceito a outras regiões, como Minas Gerais, teórica, para construir bases mais sólidas para o uso do conceito."
São Paulo ou Rio Grande do Sul. É debate polêmico, não há dúvida, mas Na lista dos riscos que o trabalho com cultura política traz, destaque-se
pode trazer conclusões interessantes. Na pior hipótese, mesmo não se con- ,~I';
,t·:
a possibilidade de exagerar uma linha de interpretação conservadora da
a '
figurando a existência efetiva de culturas políticas regionais, será possível história. Se a política é presa à tradição e arraigada à cultura, podemos
compreender melhor as representações políticas construídas pelas elites ser tentados a enxergar uma história imóvel, na qual nada muda e tudo é
i': desses estados, e sua maior ou menor capacidade de persuadir as pessoas eterna repetição. Naturalmente, estamos na presença de uma distorção,
a identificarem-se e a agirem de acordo com tais construções. tanto mais problemática para o historiador porque tal tipo de leitura, no
limite, abole a própria história.
Outro problema é a possibilidade de incorrermos numa espécie de
*** reducionismo culturalista, que tem duas implicações. Primeiro: a ten-
; ~. dência a absolutizar a determinação cultural dos fenômenos políticos,
"
'I
desprezando outros fatores como o interesse e a escolha individual. A
i A última parte deste texto é dedicada a discutir os riscos que o trabalho abordagem cultural é valiosa por mostrar que os indivíduos agem movi-
ii'.
!!1:
i com a categoria cultura política implica, bem como os desafios ainda a
! dos por outras influências além do interesse e do cálculo racional, mas, ill!
enfrentar para dar solidez ao seu aparato teórico-metodológico. se ela for encarada de maneira absoluta, pode empobrecer, ao invés de }II,
i Um dos desafios é investir nas discussões sobre' como aplicar o con- enriquecer, nosso conhecimento. Um exemplo, retirado das experiências
! ceito a períodos da história anteriores ao mundo contemporâneo. Alguns do autor na coleta de testemunhos orais. Um casal de comunistas, do tipo
I
dos principais autores a teorizarern sobre o tema tiveram em mente a que aderiu dos pés à cabeça à cultura comunista, teve três filhos. Dois I
história contemporânea quando definiram cultura política, ou seja, o ~. ," deles tornaram-se também comunistas, mas apenas um manteve-se fiel até
mundo europeu (e sua área de influência) a partir do século XVIII. E ':. à morte, e a identificação com os pais foi fator determinante na escolha.
!ii a razão é que nessa fase há transformações na dinâmica política, com a
f~'{',"
entronização do conceito de que o Estado deve corresponder aos desejos
~:!
•..•.. 21 Creio que a ancoragem mais segura para viabilizar a aplicação de cultura política
a períodos recuados não será encontrada nas concepções de Berstein, mas numa
20Roberto DaMatta propõe uma interpretação interessante para os "quebra-quebras", tentativa de adaptar a tipologia de Almond e Verba, principalmente por meio dos
em Carnavais, malandros e heróis (1981). conceitos de cultura paroquial e cultura da sujeição.

'I 32 33 l
DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA APROPRIAÇÃO DE CULTURA POLÍTICA PELA HISTORJOGRAFIA RODRIGO PATIO sÁ MOTIA

Porém, o terceiro não aderiu ao comunismo, embora tivesse relações com A aplicação da categoria cultura política ao Brasil merece reflexões
os pais tão boas quanto os irmãos ... cuidadosas, em vista dos argumentos sobre a suposta fragilidade dos laços
Segunda observação sobre o reducionismo culturalista: há estudos entre os brasileiros e a política. A seguir tal linha de pensamento, ela im-
que enfoc.am as representações como uma espécie de fenômeno etéreo, plicaria a existência de culturas políticas frágeis no país, pouco enraizadas
pairando acima e fora da dinâmica social. Tal tendência está relacionada e com adesão superficial. A não ser na vertente eurocêntrica do conceito,
a certo modo de encarar os laços entre representações e realidade, eivada para a qual, então, o Brasil não teria cultura política, seria politicamente
de relativismo radical. Nessa vertente, o real só existe enquanto represen- "inculto", essa constatação não tira a legitimidade da aplicação da categoria
tação, e como todas as representações são igualmente incapazes de revelar à história do nosso país. Como disse antes, esse pode ser um traço da cul-
a verdade todas são válidas. Por isso, estudar as representações basta tura: política brasileira: frágil cidadania, pouco envolvimento da população
para alguns autores, sem preocupar-se em distinguir as mais próximas da com a coisa pública. De qualquer forma, é um dado a ser considerado
realidade ou as mais fantasiosas (às vezes pura falsificação), tampouco em em futuras pesquisas, para que se possa dimensionar adequadamente as
pesquisar os impactos que produzem na realidade. Essa discussão remete formas de manifestação de cultura política no Brasil.
a uma polêmica que não é possível aprofundar aqui, e que na verdade Outro desafio para os historiadores interessados é a necessidade de
persegue a teoria do conhecimento desde suas origens, sem solução visível: investir mais na discussão sobre metodologias de pesquisa. Na historiogra-
a questão ela realidade e da verdade, se é possível representar ou não o fia recente, os trabalhos sobre cultura política têm privilegiado o uso ele
mundo. Mas o relativismo radical deve ser evitado, pois leva à conclusão fontes qualitativas. Mas a utilização de dados quantitativos pode trazer bons
de que qualquer representação é aceitável, pois todas são parciais. Não é resultados, sobretudo se combinados com boas análises qualitativas.ê" Por
verdade: algumas são mais distorcidas, às vezes falsas, enquanto outras exemplo, fontes quantitativas podem servir para testar hipóteses correntes
produzem versões mais próximas da realidade. 22 sobre comportamentos políticos supostamente calcados na tradição. As-
Evitando tanto o relativismo quanto o cientificismo ingênuo, a ma- sim, a famosa moderação dos mineiros poderia ser verificada a partir elos
neira mais fértil de encarar as relações entre realidade e representações resultados eleitorais para disputas majoritárias, arquivados nos tribunais
é reconhecer a interdependência das duas esferas, perceber os laços in- eleitorais. Poderiam ser avaliados e contrastados os resultados obtidos por
trincados que as atam de maneira forte. As representações estão calcadas candidatos afinados com discursos (e imagens) políticos moderados ou
na realidade, estão em diálogo com o mundo social, a vida concreta, e ao radicais, em comparação com a situação em outros estados da federação.
mesmo tempo interferem no seu desenrolar. No campo político, há inúmeros Também poderia ser averiguada a fidelidade de determinadas regiões a
exemplos para ilustrar situações em que representações imprimem rumo certos valores políticos, testando, através de séries eleitorais históricas, se
à realidade. Vejamos um deles: o temor ao c.omunismo, freqüentemente as imagens da baixada santista ou do Recife como bastiões "vermelhos"
desproporcional à força efetiva dos revolucionários, abrindo caminho a nos anos 1940-1960, por exemplo, correspondem à realidade eleitoral.
golpes de Estado e a regimes autoritários. Em suma, as culturas políticas Mais uma possibilidade: usar os resultados das pesquisas de opinião
resultam da imbricação entre práticas e representações, e o olhar sensível realizadas pelo menos desde os anos de 1950 na tentativa de encontrar
a apenas uma das esferas é empobrece dor. padrões estáveis de comportamento e valores políticos.
Enfim, há muitos desafios, problemas e polêmicas envolvidos nas pes-
quisas sobre o fenômeno da cultura política, mas as possibilidades que se
descortinam à nossa frente são bastante instigantes, fazendo com que os
22 "As fontes não são nem janelas escancaradas, como acreditam os positivistas, riscos implicados no trabalho com esse campo conceitual valham a pena.
nem muros que obstruem a visão, como pensam os cépticos: no máximo poderíamos
compará-Ias a espelhos deformantes. A análise da distorção específica de qualquer
fonte implica já um elemento construtivo. Mas a construção [...) não é incompatível
com a prova: a projeção do desejo, sem o qual não há pesquisa, não é incompatível 23Nesse terreno pode-se tirar bom proveito das pesquisas e dos métodos desenvolvidos
com os desmentidos infligidos pelo princípio de realidade. O conhecimento (mesmo por cientistas políticos. Um trabalho muito interessante foi realizado por Putnam
o conhecimento histórico) é possível" (Ginzburg, 2002:44-45). (1996) para estudar a cultura política italiana.

34 35
li
,'
llESAFlOS E POSSIBILIDADES NA APROPRIAÇÃO DE CULTURA POLfTlCA PELA HISTORlOGRAFlA RODRIGO PATTO sÁ MOTTA
1
:.
. "

ii!
(org.) Culturas políticas: ensaios de história cultural, história política e !il!
Referências bibliográficas H'I
ensino de história. Rio de Janeiro: Mauad, 2005. jõ'
11
i'
GOMES, Angela de Castro. História e historiadores: política cultural do Estado "
ALMOND, Gabriel & VERBA, Sidney. The Civic Culture: Poluical auuudes and Novo. Rio de Janeiro: FGV, 1996.
democracy infioe nations. Princeton: Princeton University Press, 1963.
HUNT, Lynn. Política, cultura e classe na Revolução Francesa. São Paulo:
BAILYN, Bernard. As origens ideológicas da Revolução Americana. Bauru: Companhia das Letras, 2007
Edusc, 2003. KRISCHKE, Paulo. Cultura política e escolha racional na América Latina:
BERSTEIN, Serge. A cultura política. In RIOUX & SIRINELLI (org.). Para interfaces nos estudos da democratização. ElE, Rio de Janeiro, n.43,
uma história cultural. Lisboa: Estampa, 1988. 1997, pp.103-126.
BERSTEIN, Serge (org.). Les cultures politiques en France. Paris: Éditions du KUSCHNIR, Karina & CARNEIRO, Leando Piquet. As dimensões subjetivas
Seuil, 1999. da política: cultura polítíca e antropologia da política. Estudos Históricos, [l,
i
Il,i
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania na encruzilhada. In BIGNOTTO, Rio de Janeiro, v01.13, n.24, pp.227-250.
Ijm:
Newton (org.). Pensar a República. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000, KUSCHNIR, Karina. Antropologia da política. Rio de Janeiro: Jorge Zabar,
pp.l05-130. 2007.
!'
DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis. 3 ed. Rio de Janeir: MOTTA, Marly, Frente e verso da política carioca: o lacerdismo e o chaguismo.
"
Zahar, 1981. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v01.13, n024, 1999. I:
I
DAMATTA, Roberto. A casa & a rua. 5 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. MOTTA, Rodrigo Patto Sá, O conceito de cultura política. Anais do X Encontro~ - li,
-DUTRA;
-j...• Eliana de Freitas. História e culturas políticas: definições, usos, gene- Regional da ANPUH-MG. Mariana, 1996, pp. 83-9l. II
I' alogias. Varia Historia. Belo Horizonte, UFMG, n.28, 2001, pp.13-28. PUTNAM, Robert. Comunidade e democracia: a experiência da Itália moderna.
jj.
EAGLETON, Terry. Ideologia. Uma introdução. São Paulo: Editora da Unesp: Rio de Janeiro: FGV, 1996. !III,
i:' Boitempo, 1997.
[' RENNÓ, Lúcio. Teoria da cultura política: vícios e virtudes. ElE, Rio de
;
FALCON. Francisco. História e representação. In CARDOSO, Ciro F. & Janeiro, n.45, 1998, pp.71-92.
l\IALERBA, J. Representações: contribuição a u.m debate transdisciplinar. RODRIGUES, José Honório. Conciliação e reforma no Brasil. 2 ed. Rio de
r- Campinas: Papirus, 2000. Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
[,i
FLOWER, Harriet. The art of.forgetting. Disgrace and oblivion in Roman political THOMPSON, E. Aformação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz
i: li
liI,' culiure. Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 2006. e Terra, 1987. ,,,li
:1;" FORMISANO, Ronald. The concept of political culture. Journal of Interdis- THOMPSON, E. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras,
li: ciplinary History, v01.31, 11.3, 2001, pp.393-426. 1998.
rI::
,. FORTES, Alexandre. O Estado Novo e os trabalhadores: a construção de
"
WILLIAMS, R O campo e a cidade na história e na literatura. São Paulo:
I:j
,I. um corporativismo latino-americano. Locus, Juiz de Fora, UFJF, v.13, Companhia das Letras, 1989. '
D::
ri, n.2, 2007, pp.63-83. WILLIAMS, R Marxismo e literaura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
i':'
FREYRE, Gilberto. Ordem e progresso. 1° Tomo. Rio de Janeiro: José Olyrn-
l~~'
111:'
pio, 1959. ,
l~~. li,
~\~: GINZBURG, Carlo. Relações de força. História, retórica, prova. São Paulo:
li:: Companbia das Letras, 2002.
r:' GOMES, Angela de Castro. História, historiografia e cultura política no Brasil:
!;;
algumas reflexões. In SOIHET, R; BICALHO, M.F.; GOUVÊA, M.F.
;,j<!
c
I:~
:.
;0:",

~l
\: 36 37 1,