You are on page 1of 68

Estratégia de estudo em:

História do Brasil I

Das unidades e questões auto-avaliativas:

Unidade 1
1. Em que sentido a formação do Estado Nacional português, anterior aos demais países
da Europa, foi importante para sua expansão ultramarina?
1. Portugal, no século 15, era um reino unificado, menos sujeito a levantes inter- nos, como
era o caso da França, da Inglaterra, da Itália e mesmo da Espanha. Desde a Revolução
de Ávis, entre os anos de 1383 e 1385, o poder político foi centralizado na figura do rei
português, e, ao redor dele, reagruparam-se setores importantes da sociedade, como, por
exemplo, a nobreza e os comerciantes, forjando a organização burocrática do Estado.
Portugal firmava-se, então, como um reino unificado e, portanto, capaz de colocar sua
população à serviço de uma empreitada como a exploração comercial marítima.
2. O desconhecido, o gosto pela aventura.
3. Outra característica fundamental para a expansão marítima invenção de três importantes
instrumentos: o quadrante, o astrolábio e a caravela. O quadrante e o astrolábio
possibilitavam que os navegantes soubessem da sua localização por meio de medições
utilizando a altura relativa aos astros, podendo, assim, além de se localizarem, gerar as
referências que melhorariam a qualidade das cartas cartográficas portuguesas, enquanto
a caravela, sendo uma embarcação mais versátil, permitiu que realizassem viagens mais
longas e mais rápidas.
4. Por fim, a quarta característica dos portugueses: a atração por ouro e especiarias. O
ouro era utilizado como moeda há muito tempo; além disso, ele adornava palácios,
igrejas e corpos, por isso, a compreensão da sua busca é bastante simples.
2. A partir da figura do árabe, podemos explicar como os fatores religiosos e econômicos
se juntaram para impulsionar a empresa marítima?
1. Os árabes, chamados de "inimigos inimicíssimos", ocupavam a Península Ibérica desde
o século 7o, sendo, também, denominados de infiéis, mouros, islamitas, sarracenos e
maometanos. Essas designações abrangiam todos aqueles que praticavam o islamismo, o
que incluía: [...] povos e pessoas de origem árabe e não árabe, asiáticos, africanos e
europeus, gente com diferentes costumes, línguas, formas de organização social e
estágios de desenvolvimento técnico (AMADO; FIGUEIREDO, 1999, p. 14).
2. Embora expulsos, ainda no século 12, durante a guerra de reconquista que levou à
formação de Portugal como primeiro Estado europeu moderno, pela prolongada

1 - 68
presença, exerceram grande influência na cultura portuguesa. Marcaram a arquitetura,
denominaram utensílios e técnicas, bem como introduziram e intensificaram novos
plantios, tais como: o limoeiro e a laranjeira.
3. Para Boxer (2002), um exemplo dessa influência era a associação das palavras “azeite” e
“azeitona”, de origem árabe, ao óleo e ao fruto provenientes da oliveira, árvore que
possuía nome latino, cujo cultivo fora desenvolvido sobremaneira pelos muçulmanos.
Sobretudo na região Sul, mais densamente ocupada, cunharam termos econômicos,
militares e administrativos, bem como batizaram diversas localidades. Um exemplo é a
denominação da região de Algarve, cuja origem é o árabe al-garb, que significa “oeste”,
“poente” ou “ocidente”.
4. Além da interferência cultural, também contribuíram para criar as condições necessárias
às grandes navegações. O aperfeiçoamento do astrolábio e o uso das tábuas astronômicas
foram, na interpretação de Jaime Cortesão (s.d), resultado da constante preocupação
árabe em determinar as posições geográficas para uso religioso ou para a determinação
do movimento dos astros.
3. As representações do descobrimento correspondem à concepção formulada a partir do
século 17. Isso ocorreu motivado por qual conjunto de fatores socioculturais?
1. A partir desse século, realizaram-se diversas representações que abordavam o tema do
descobrimento do território que se tornaria o país chamado Brasil, traçando o cenário e
as circunstâncias em que, supostamente, havia ocorrido. Vamos abordar algumas dessas
representações, que são amplamente discutidas e que aparecem, também, nos livros
didáticos. Os matizes de tais representações, contudo, levam-nos ao século 18, sendo a
partir desse século que começaremos o nosso estudo.
2. Foi no final do século 18, no ano de 1773, que foi disponibilizado para consulta aquele
que é considerado o mais importante documento a respeito do descobrimento do Brasil:
a carta ao rei D. Manoel, que teria sido redigida no primeiro dia de maio de 1500 pelo
escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral, Pero Vaz de Caminha. Sua publicação
parcial pelo historiador castelhano João Baptista Muñoz deu-se em 1790; no Brasil, foi o
padre Manuel Ayres do Casal que a publicou em 1817, porém, foram excluídos os
trechos que tratavam do tema da sexualidade. Foi somente em 1826 que esse documento
histórico foi publicado na íntegra pela Academia de Ciências de Lisboa, tendo sido,
ainda, traduzido para o alemão, francês e inglês. Ao território brasileiro, ficou reservada
a edição publicada pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1877 e
as edições posteriores de 1892 e 1900.
3. Conforme Morettin (2000) descreve, até o início do século 19, os mortos eram,
comumente, enterrados no interior das igrejas, com o intuito de que a alma do falecido
alcançasse, mais fácil e rapidamente, o reino dos céus, pressupondo a crença de que a
igreja fosse o "Portal do Paraíso". Todavia, tal tradição esbarrou em uma questão
sanitária. Segundo a tese defendida pelo médico Manuel Maurício Rebouças na Escola

2 - 68
de Medicina de Paris, os gases exalados pelos corpos em decomposição poderiam
prejudicar a saúde dos vivos. Desse modo, Rebouças propôs, em 1831, uma reforma
funerária como medida de saneamento público, de maneira que os cemitérios fossem
localizados distantes das cidades. Tal reforma foi realizada somente após uma epidemia,
ocorrida em 1855 e 1856. A partir de então, os mortos e os vivos não mais ocuparam o
mesmo espaço físico no mundo secular.
4. Tal mudança também sinalizou, conforme discutiu o autor, uma transformação no modo
como era encarada a Igreja, já que um dos pontos da tese de Rebouças era a utilização do
cemitério para educar civicamente os povos, na medida em que os túmulos permitiam,
em sua monumentalidade, celebrar a virtude cívica de determinados cidadãos. Portanto,
avalia Morettin (2010), a virtude cívica passou, a partir de então, a predominar sobre a
devoção religiosa. Foi também em 1856 que o professor, artista e jornalista Manoel de
Araújo Porto-alegre (1856) apontou a necessidade de se cultuarem civicamente os
mortos. De parte a parte, podemos considerar que a crescente divulgação da carta de
Caminha no século 19 coincidiu com um período em que cresceu a preocupação com a
construção de um referencial simbólico a ser perpetuado pela jovem nação.
4. Como a carta de Pero Vaz Caminha foi importante para a produção das
representações do descobrimento?
1. Desse modo, temos, na segunda metade do século 19, diversas representações e debates
de historiadores a respeito da história do Brasil pautados na carta de Caminha. Conforme
resume Morettin (2000, p. 139-140):
1. Em suma, o debate historiográfico da época havia levantado e discutido as principais
polêmicas por intermédio dos documentos, definindo também os mortos a serem
cultuados. Em relação a este último aspecto, no século XIX dispôs às gerações
futuras os locais sobre os quais deveriam erguer-se os panteões dedicados ao culto
cívico, no quadro de preocupações de Rebouças e Porto-Alegre. Estamos nos
referindo ao jazigo de Cabral, encontrado por Varnhagen no ano de 1839 na cidade
de Santarém, em Portugal.
2. Do ponto de vista da pintura, a obra de Victor Meirelles insere-se no debate,
acompanhada da interferência direta de Manuel e Araújo Porto-alegre. O pintor Victor
Meirelles de Lima estudou na Academia Imperial de Belas Artes em 1847, tendo Manuel
de Araújo Porto-alegre como um de seus professores. Desse modo, sua obra seria
orientada de perto por Porto-alegre, que mediou sua produção, tendo indicado o tema da
primeira missa realizada na presença dos índios e, ainda, sugerido a Meirelles que
tomasse a carta de Caminha como fonte de inspiração para a pintura. Conforme
descreveu Morettin (2000, p. 147-148):
1. O mesmo Porto-Alegre que em 1856 reclamava da ausência de imagens que
representassem nossa história e da falta de apego ao passado por parte das gerações
mais jovens, colaborou na construção de um dos mais importantes marcos

3 - 68
iconográficos da fundação do Brasil e da pintura de História do século XIX.
Seguindo um trajeto similar ao da historiografia, observamos nas artes plásticas do
período a elaboração e a eleição de um conjunto de referenciais para se entender o
nascimento do país. No caso da pintura, trata-se de escolher e selecionar imagens.
No entanto, e isto é fundamental, este processo ancora-se na História, como a
indicação da carta de Caminha parece ser suficiente para indicar. Neste sentido, o
processo de construção é duplo e com interfaces: da História nasce a Arte e da Arte
nasce a História.
3. O quadro foi concluído em 1861 e exibido no Salon de Paris. Um dos fatores
considerados a seu respeito é a reunião dos elementos que constituem a nação brasileira,
como o índio, o homem branco e a exuberância da natureza. Tais elementos – a mata e o
contato do homem branco com o índio – retratam a coesão da obra com a carta de
Caminha, contemplando seus relatos sobre o contato com o índio e todo o cenário
edênico que ele encontrara. Superada parte do estranhamento e estabelecido o contato
com os índios, conforme Caminha descreveu em sua carta, por ordem de Cabral, foi
realizada a primeira missa.

Unidade 2
5. Diante das vertentes teóricas apresentadas, qual é a sua opinião sobre o “sentido da
colonização”?
1. Essa pergunta não é simples de se responder e exige certo cuidado para que não
incorramos em reducionismos… É importante lembrar, também, que a História é uma
área do conhecimento acadêmico e que, enquanto tal, permite revisões constantes,
exigindo, portanto, do seu estudioso a devida predisposição para revisitar seus
conhecimentos regularmente, fazendo os devidos acréscimos e correções, na medida em
que os estudos históricos forem avançando.
2. Assim, é fundamental relacionar o modelo interpretativo proposto por Caio Prado Júnior,
sobretudo em sua obra Formação do Brasil Contemporâneo, que foi abordada por
diversos historiadores justamente no sentido do debate aqui proposto, tornando-se
fundamental para pensarmos a formação de nosso país, ou seja, a noção de um “sentido
da colonização”. Com essa perspectiva, a colônia foi tratada como uma sociedade cuja
composição e funcionamento foram determinados pelo comércio externo.
3. Em outras palavras, pensou-se que toda a organização interna da colônia tinha sido
definida diretamente pelo conjunto das relações comerciais entre a colônia e os países
europeus, tendo como medição direta a sua sujeição (da colônia) aos interesses da
metrópole (Coroa portuguesa). Portanto, sob esse ponto de vista, a análise leva-nos a
entender a formação da colônia como um empreendimento destinado a atender aos
interesses do capital comercial europeu, representado tanto pela metrópole quanto pelos
países com quem ela mantinha relações comerciais.
4. Prado Júnior, tiveram como escopo teórico os conceitos desenvolvidos por Karl Marx,

4 - 68
seguindo a vertente do Materialismo Histórico, porém, chegando a conclusões distintas,
conforme veremos mais detalhadamente a seguir.
5. Caio Prado Júnior tomou o termo “sentido” para falar da colônia do ponto de vista
econômico, relacionando o direcionamento dos produtos tropicais e dos metais preciosos
oriundos do Brasil para atender às demandas do mercado europeu. Tratou, então, do
“sentido” da produção colonial, voltada para o mercado externo. Tal dinâmica é que
teria, segundo ele, sido o esteio condutor do processo de colonização e de formação da
sociedade colonial.
6. Estudando a vida na colônia sob essa perspectiva, o autor identificou, a partir dos
resultados políticos e econômicos atribuídos ao Brasil que lhe foi contemporâneo
(primeiras décadas do século 20), os principais elementos que, para ele, constituíram a
vida material da colônia, a saber: grande lavoura, monocultura e trabalho escravo. Esses
elementos teriam sido definidores dos aspectos econômicos, sociais e geográficos da
sociedade colonial, alcançando a política e a economia brasileira no período recente. O
mercado interno da colônia, nesse “sentido”, é tomado por Prado Júnior como elemento
secundário, tendo permanecido subordinado aos elementos essenciais, os quais teriam
atribuído o suposto “sentido” do processo de colonização; este, por sua vez, estaria
totalmente voltado para as demandas do mercado europeu (TEIXEIRA, 2005).
7. Continuando, podemos entender, por meio das palavras de Prado Júnior, que,
inicialmente, nossa formação nacional não teve outra finalidade a não ser fornecer
matérias-primas para o mercado europeu. Ademais, o próprio europeu que aqui veio, o
português, estava com seu olhar “voltado para fora do país e sem atenção a
considerações que não fossem o interesse daquele comércio”. Desse modo, tomando o
ponto de vista de Prado Júnior, podemos considerar que a sociedade colonial que se
formava na América portuguesa se guiou por esta finalidade: atender às necessidades do
mercado europeu.
8. Portanto, é a produção escravista, voltada para atender ao mercado europeu, que teria
definido as necessidades do mercado interno. Desse modo, indo ao encontro dos
postulados de Prado Júnior, podemos concluir que a colônia estava totalmente
dependente e seguindo os desígnios do colonizador, sem obter condições para a sua
afirmação como uma sociedade autônoma (TEIXEIRA, 2005).
9. Neste momento, iremos destacar a importância da discussão existente em torno do
trabalho de Caio Prado Júnior, relacionando as críticas feitas a ele. Teixeira (2005, p. 2)
elucida que podemos tratar das discussões acerca do trabalho de Caio Prado Júnior sob
as seguintes linhas críticas:
1. a acusação, imputada ao modelo pradiano, de que a idéia de “sentido” seria
teleológica.
2. as críticas segundo as quais o escravismo (e não o capital comercial), que não é
elemento central na obra de Caio Prado (chegando mesmo, em Fernando Novais, a

5 - 68
ser visto como resultado do tráfico, ou seja, explicado pelo capital comercial),
deveria ser a categoria central no estudo da Colônia, pois seria seu traço definidor e
diferenciador.
3. O uso da categoria Modo de Produção para estudar o Brasil-Colônia, no bojo das
críticas de que o modelo pradiano seria circulacionista, ou seja, centrado na
circulação comercial, e não nas relações de produção, e por isto não seria rigoroso na
aplicação do materialismo histórico à realidade brasileira.
4. As críticas à excessiva ênfase dada à dependência e subordinação da economia e da
estrutura da sociedade colonial ao mercado externo. Embora esta crítica esteja ligada
às críticas teóricas anteriores, ela se desenvolveu não apenas no plano teórico, mas
principalmente baseada nos desenvolvimentos da pesquisa empírica a partir da
década de 70 (particularmente com a demografia histórica), que apontaram uma
complexidade na economia colonial que não podia ser explicada apenas pela idéia do
“sentido”.
10. Dito de outro modo, o autor explica-nos que Prado Júnior foi criticado:
1. em virtude de a ideia de “sentido”, segundo os críticos de seu trabalho, atribuir uma
linha arbitrária de continuidade, “forçando”, desse modo, a história para que ela se
tornasse compatível com um modelo explicativo previamente definido, ou seja, para
que incorresse numa forma de positivismo;
2. pela ausência de atenção qualificada e pormenorizada ao fenômeno do escravismo,
que, nesse caso, seria tomado como elemento principal de entendimento do Brasil
colonial;
3. pelo uso inadequado do conceito marxista de “modo de produção”, já que a análise
de Prado Júnior teve seu centro na relação comercial que era desenvolvida com a
sujeição do Brasil à metrópole Portugal, supostamente não partindo das chamadas
relações de produção e, portanto, do modo que ocorria a produção da vida material
na colônia (não aprofundava devidamente suas análises no dia a dia das relações de
trabalho no Brasil colonial);
4. pela própria premissa de que partiu para analisar e entender o processo de
colonização, que foi a relação comercial do Brasil colonial com o mercado europeu,
o que foi entendido por alguns teóricos como insuficiente para explicar o que
acontecia internamente na colônia do ponto de vista comercial.
11. Um importante autor que partiu da perspectiva pradiana e fez suas contribuições foi
Celso Furtado, que usou o referencial teórico keynesiano em vez do marxista e
aprofundou a discussão sobre a subordinação da colônia ao mercado europeu.
12. Analisando a economia agrário-exportadora, ele procura tratar de como a organização da
colônia, formulada com vistas ao mercado externo e assentada no trabalho escravo, foi
nociva para o desenvolvimento econômico brasileiro. Na obra Formação Econômica

6 - 68
do Brasil (1967), o autor propõe que a produção de gêneros agrícolas usando mão de
obra escrava e aproveitando-se da grande extensão territorial da colônia inibiu o
progresso técnico. O desenvolvimento do mercado interno ficou restrito devido não
apenas ao uso do trabalho escravo até o fim do século 19, como também à escassez de
circulação de moeda, que inibiu a formação de um mercado mais amplo e impediu a
geração de multiplicadores de renda.
13. Furtado analisou as flutuações da economia colonial, formulando que seu ritmo era
determinado pelas variações do mercado internacional, e a dependência do mercado
europeu proporcionava a seguinte oscilação de capitais: a alta de preço internacional dos
gêneros agrícolas de exportação resultava na expansão econômica da colônia em seu
mercado interno e para consumo, já que toda a mão de obra escrava disponível se
voltava ao atendimento da demanda internacional. Todavia, a queda do preço
internacional gerava o uso de parte da mão de obra escrava na produção de subsistência,
o que inibia a circulação de valores gerada pela venda de recursos destinados à
subsistência. Em outras palavras, o aumento da produção para o mercado externo em
virtude de a produção da colônia estar diretamente subordinada a este exigia um
mercado interno que atendesse às necessidades geradas pelo crescimento da produção.
Tal situação começaria a mudar apenas com o estabelecimento do trabalho assalariado,
transformando-se a partir da década de 1930, com o centro dinâmico da economia
tornando-se a indústria voltada para o mercado interno em substituição da agricultura
para a exportação. Furtado relacionou, ainda, uma concentração de renda no litoral e nas
regiões Sul e Sudeste, gerando grandes desigualdades sociais e regionais (TEIXEIRA,
2005).
14. Fernando Novais, cuja preocupação abarcou o “sentido da colonização”, tratado,
inicialmente, por Caio Prado Júnior. Em sua obra Portugal e Brasil na crise do antigo
sistema colonial (1979), orientando-se em bases do pensamento marxista, Novais
delineou o que chamou de “sentido profundo da colonização”, que situa a relação
existente tanto entre a colônia e Portugal quanto entre Portugal e a Europa, traçando o
caminho e o direcionamento ou a função da produção da colônia. Sendo Portugal
subordinado no cenário europeu, os seus ganhos com a colônia eram transferidos para a
Inglaterra; esta utilizou-se desses excedentes para impulsionar a Revolução Industrial do
século 18. Desse modo, podemos considerar que o autor sustenta o foco no mercado
externo como definidor fundamental da dinâmica do mercado interno brasileiro
(TEIXEIRA, 2005).
15. Assim, sob a perspectiva econômica, o próprio escravismo poderia ser explicado pela
acumulação primitiva de capital, ou seja, o tráfego de escravos teria sido interessante
para a Europa, na medida em que constituía um mecanismo comercial que gerava lucros,
o que explicaria o uso de trabalho escravo no Brasil colônia. Mais recentemente, Luiz
Felipe de Alencastro, professor de História do Brasil na Universidade de Paris-Sorbonne,
em seu livro O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul (2000), deu
novas contribuições ao debate. O autor defendeu a tese de que se formou um espaço

7 - 68
econômico e social no hemisfério Sul, mais especificamente entre a costa litorânea do
Brasil e a da África. Ele estabeleceu os caminhos percorridos pelo tráfego de escravos
negros, situando a África e o Brasil – incluído o percurso marítimo – e tratando das
relações que se forjaram. Nesse contexto, ia formando-se o próprio Brasil e
transformando-se o litoral da África e as regiões que ofereciam a mercadoria (escravos
negros) para o Brasil. Em outras palavras, o autor propôs que o escravismo, o tráfego de
negros africanos e a monocultura brasileira atendiam, conjuntamente, a um único
esforço colonizador de Portugal, estabelecido não só no continente americano, mas
também na África. Desse modo, o Brasil teria sido formado “fora do Brasil”. Dito de
outro modo, Alencastro reforça, por um lado, as teses anteriores quanto aos objetivos de
colonização estarem vinculados aos interesses comerciais externos ao Brasil, porém, ele
acredita que esses interesses não estavam voltados apenas para a Europa, mas também à
relação proporcionada pelo espaço atlântico, incluindo, portanto, a África.
16. Nas palavras de Alencastro (2000, p. 9): Sempre se pensou o Brasil fora do Brasil, mas
de maneira incompleta: o país aparece no prolongamento da Europa. Ora, a idéia exposta
neste livro é diferente e relativamente simples: a colonização portuguesa, fundada no
escravismo, deu lugar a um espaço econômico e social bipolar, englobando uma zona de
produção escravista situada no litoral da América do Sul e uma zona de reprodução de
escravos centrada em Angola. Desde o final do século XVI, surge um espaço a
territorial, um arquipélago lusófono composto dos enclaves da América portuguesa e das
feitorias de Angola. É daí que emerge o Brasil no século XVIII. Não se trata, ao longo
dos capítulos, de estudar de forma comparativa as colônias portuguesas no Atlântico. O
que se quer, ao contrário, é mostrar como essas duas partes unidas pelo oceano se
complementam num só sistema de exploração colonial cuja singularidade ainda marca
profundamente o Brasil contemporâneo. Concluindo, podemos dizer que o autor analisa
a colonização do Brasil e da África por Portugal como um conjunto, porém, em duas
partes específicas e com características próprias – diferentes entre si – que formavam o
conjunto dos interesses e dos esforços exploratórios do colonizador. Tais esforços, no
plural, foram forjados com o aprendizado acerca da colonização e do mercado, em que o
escravismo surgiu como delineador da sociedade e da política, assim como da economia.
Destarte, o autor defende que se forjavam interesses – especialmente comerciais – luso-
brasileiros nas áreas escravistas brasileiras e nos portos africanos. O tráfego de negros
tornou-se base da economia, que envolvia a colônia no Ocidente, interferindo no
comércio dos dois lados do Atlântico. América e África, todavia, não podem ser
devidamente analisadas uma sem a abordagem simultânea da outra.
6. De que maneira a formação do Quilombo de Palmares colocou em questão os valores
utilizados desde a Antiguidade Clássica em relação à escravidão
1. O pensamento do filósofo grego Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) a respeito da
organização da sociedade, da política e, inclusive, da escravidão foi usado como base
teórica para análise da sociedade do século 17. Todavia, Aristóteles sustentou que o
escravo existia como uma “ferramenta viva”, independentemente do conceito de raça.

8 - 68
Em outras palavras, o escravo era necessário, mas o critério para definir quem seria ou
não escravo não estava vinculado à sua cor de pele ou ao conceito de raça, conforme foi
estabelecido posteriormente. A distinção racial, contudo, seria inventada no século 18.
Somente no fim do século 19, com o surgimento da Sociologia e da Antropologia,
teríamos um estudo da sociedade e do seu funcionamento com bases teóricas mais
específicas. A partir de então, os estudos realizados mudaram profundamente,também, a
discussão histórica (CARVALHO; FUNARI, 2005).
2. Com isso, ao analisarmos o que ocorreu em Palmares, devemos levar em conta que a
ideia de escravidão não estava relacionada aos valores da atualidade. Todavia, ao
rebelarem-se, os escravos opunham-se à prática da escravidão; além disso, podemos
considerar que a revolta deles também denunciava e contradizia o conjunto de valores
milenar (remontando ao pensamento aristotélico) que a legitimava.
7. Quais eram e de que maneira estavam organizados os grupos sociais presentes na
lavoura açucareira
1. Pela estrutura socioeconômica da plantation açucareira, podemos afirmar que se tratava
de uma sociedade basicamente rural e estratificada, porque toda a vida social, política,
econômica e religiosa girava no campo, o que não quer dizer, entretanto, que não havia
cidades. Ao contrário, havia, mas eram poucas e frequentadas apenas nos períodos de
festas e de celebrações religiosas, especialmente no Natal e na Semana Santa.
2. Já o caráter de estratificação social justificava-se pelo fato de a sociedade açucareira
basear-se, principal e fundamentalmente, na escravidão. Dessa forma, destacavam-se,
como que em uma pirâmide social, dois grupos: os senhores de engenhos e os escravos.
Certamente, havia uma pequena camada intermediária, formada por pequenos
lavradores, feitores, padres e mestres de açúcar, como demonstra Mesgravis (in
FREITAS, 2003, p. 43):
3. A sociedade açucareira do Nordeste [...] tem em seu topo o senhor de engenho do qual
dependem econômica, social e politicamente os lavradores que moem suas canas no
engenho com diferentes graus de sujeição e de exploração econômica. Formam uma
espécie de classe média rural. Abaixo estão os lavradores arrendatários ou
independentes, produtores de suprimento alimentar para o engenho.
4. Sobre a função dos trabalhadores livres nas fazendas de açúcar, o livro História Geral da
Civilização Brasileira, organizado por Sérgio Buarque de Holanda, acrescenta que os
lavradores e os moradores formavam a base do poder político do senhor de engenho.
Essa mão de obra suplementar era, por vezes, encarregada dos trabalhos em que era
perigoso empregar escravos, entendidos, aqui, como mercadorias valiosas, ou quando
eles se mostravam ineficientes para a função.
5. O lavrador cultivava a terra em condições semelhantes às do arrendamento, porém, sem
garantias legais do uso da terra, vivendo, portanto, em situação precária. Podia ser
despedido a qualquer hora. Não era dono da terra, embora tivesse alguns escravos – uma

9 - 68
média de 6 a 10 – e algum gado. Levava as canas que plantava a moer no engenho do
senhor, recebendo parte do açúcar que produziam (HOLANDA, 1985, p. 141). Já o
morador vivia em condições mais miseráveis: [...] não era dono das terras, ocupava-se
somente por concessão do proprietário. Vivia na dependência de sua benevolência e sob
sua proteção exigente e paternal. Limitava-se a produzir para sobreviver. Vegetava à
margem da economia de exportação, ignorante, mal nutrido, alimentando-se de farinha e
de feijão (HOLANDA, 1985, p. 142).
6. No entanto, é bom destacar que as características principais da sociedade da plantation
açucareira dizem mais respeito à região Nordeste da América portuguesa. Embora a
sociedade colonial como um todo fosse assentada na escravidão, outras regiões da
colônia, em função da topografia e do tipo de exploração econômica empregada,
apresentaram caracteres distintos entre si.

Unidade 3
8. Como e a partir de quais referenciais os portugueses avaliaram o território descoberto
e a forma de viver dos índios?
1. Como vimos anteriormente, o início do processo de conquista e colonização da América
portuguesa deu-se no mesmo período em que a Europa era convulsionada pelas
Reformas Protestante e Católica. Dessa forma, os membros da Igreja Ccatólica que
chegaram ao Brasil colônia tinham em sua consciência a missão de que estavam em uma
cruzada pela propagação da fé romana. Ao lado desse ideal, os padres objetivavam
combater a religião dos protestantes e, em especial, um inimigo maior: o demônio.
2. Isso porque os emissários de Roma acreditavam que as paragens do Novo Mundo eram
domínios do Maligno. Essa constatação ficou ainda mais evidente quando os
portugueses ficaram chocados com o fato de que os índios praticavam a antropofagia. O
fato de comer carne humana, bestial para os europeus, não tinha outra causa a não ser a
presença perversa de Satanás.
3. De certa forma, os portugueses que vieram para o Novo Mundo tinham os pés na
América, mas os olhos voltados para a Europa. A mesma Europa para a qual esperavam
voltar logo que explorassem as riquezas do continente americano. Ademais,
especialmente para os padres da Companhia de Jesus, as paragens europeias eram terras
que estavam sob o sinal da cruz, ao contrário da América, que era o reino do demônio.
Este teria sido expulso pela Santa Cruz do continente europeu e veio estabelecer seus
domínios no Novo Mundo. O relato do Frei São Vicente de Salvador, reproduzido
anteriormente, é bastante explícito nesse sentido. Nesse aspecto em particular, os índios,
com seu modo peculiar de vida, o qual era distinto do europeu, foram rapidamente
identificados pelos jesuítas como contrários a Deus. Ademais, convém destacar que os
prelados da Companhia de Jesus foram os principais responsáveis, na América
portuguesa, pela animalização e demonização dos indígenas:
4. Animalização e demonização andaram de braços dados nesse discurso, que,

10 - 68
essencialmente jesuítico, espalhar-se-ia entre outros religiosos e leigos até bem avançado
o século XVIII. Nas dificuldades da catequese, no tardio descobrimento do trópico pelos
cristãos, na origem dos índios, em quase tudo se via o Demônio, o Inimigo, o “lobo
infernal”. O único mito edenizador genuinamente português concorria para demonizar os
índios: se fora verdade que o apóstolo Tomé deixara pegadas nas pedras e nos caminhos
do Brasil (e os jesuítas as rastrearam à farta), não restava dúvidas de que a luz divina
tocara o trópico sem que os índios deixassem de pecar (VAINFAS, 1989, p. 20).
5. Além disso, foi amplamente difundido pelos jesuítas que os índios não pronunciavam
palavras que tinham por iniciais as letras “F”, “L” e “R”, pois os nativos não tinham Fé
nem Lei nem, muito menos, Rei. Para alguns leigos, isso era sinal de que os indígenas
eram pobres inocentes e de que viviam em perfeito estado de anomia. Mas, para os
jesuítas, isso era uma evidência bastante clara e distinta de que os índios viviam no mais
completo estado de anarquia diabólica. Assim, "o inimigo estava em toda a parte"
(VAINFAS, 1989, p. 20).
9. Defina com suas palavras o que foi o sincretismo religioso e, em seguida, explique como
esse conceito foi utilizado pelos historiadores.
1. Conforme vimos, os colonos e os escravos que vieram para a colônia foram afastados de
seus ambientes sociais; foram, ainda, expostos a conflitos culturais, já que precisaram
redefinir o sentido de ser de cada um, de acordo com a função que desempenhassem no
grupo. Podemos considerar que a definição dessa função tomava como orientação a
forma de entender o mundo e o significado das coisas. Essa forma de entender era
definida, inicialmente, por cada uma das culturas de origem daqueles que para cá
vieram. Desse modo, o contato entre essas diversas matrizes culturais resultou,
naturalmente, em conflitos.
2. A religiosidade constituiu uma forma de resistência cultural, de resgate da própria
cultura de origem. Isso ocorreu, talvez, em virtude das dificuldades impostas aos
escravos e aos colonos, que ensejavam a necessidade de recorrer ao metafísico, às forças
ocultas que atuavam além das forças materiais, já que as últimas eram insuficientes para
auxiliá-los diante do cenário cruel que se mostrava. Nesse sentido, o sincretismo pode
ser considerado uma maneira de resolver essa situação de conflito cultural, ajustando o
indivíduo dentro do grupo social e promovendo a fusão de elementos culturais diversos.
3. O sincretismo foi discutido e questionado por vários autores, sobretudo no estudo das
religiões e da cultura, passando por diferentes entendimentos e chegando, recentemente,
a ser evitado e, até, rejeitado por muitos. Assim, para entendermos melhor a discussão
acerca da cultura e religiosidade coloniais, vamos tomar contato com essa discussão.
Com isso, pretendemos organizar nossos conhecimentos a respeito dos aspectos que
envolveram o tema, possibilitando a problematização e a elaboração do debate realizado
nos estudos históricos a respeito do Brasil colonial.
1. Conforme elucidou Waldemar Valente (1976, p. 11): O sincretismo se caracteriza

11 - 68
fundamentalmente por uma intermistura de elementos culturais. Uma íntima
interfusão, uma verdadeira simbiose, em alguns casos, entre os componentes das
culturas que se põem em contacto. Simbiose que dá em resultado uma fisionomia
cultural nova, na qual se associam e se combinam, em maior ou menor proporção, as
marcas características das culturas originárias.
4. Observe que o autor descreve o sincretismo como um processo que pode ser dividido em
"acomodação" e "assimilação". Inicialmente, ocorre uma mudança externa – na
vestimenta, por exemplo –, em que o sujeito se acomoda com a situação de conflito, mas
preserva a ligação com os valores de sua cultura original. No segundo momento, há um
processo profundo, em que a vontade se deixa levar pela necessidade de ordem
psicológica, culminando num ajustamento pelo qual o conflito era apaziguado. Desse
modo, as religiões africanas misturavam-se com o catolicismo, que era imposto ao negro
no Brasil. Conforme descreveu Valente (1976, p. 14):
1. Entretanto, a princípio, o que havia simplesmente era uma aparente correspondência,
conscientemente estabelecida, entre os santos do hagiológio cristão e as divindades
do panteão africano. Isto bastava para reduzir o conflito religioso, em grande parte
agravado pelo estado de escravidão. Só depois é que o sentimento sinistro, já uma
manifestação de ajustamento interior, se foi desenvolvendo ante o contacto cada vez
maior com o Cristianismo, o que proporcionou oportunidades capazes de despertar
novas experiências.
5. Conforme abordou Sergio F. Ferretti (2007, p. 2) em uma comunicação intitulada
Sincretismo e religião na festa do divino, o sincretismo não é um fenômeno
característico apenas do Brasil nem, tampouco, do período colonial. Ele é pertinente a
todas as religiões, na medida em que todas elas "são frutos de contatos culturais
múltiplos". Porém, apesar desses contatos múltiplos, cada uma delas reivindica a sua
autenticidade plena e, digamos, não sincrética, ou seja, "todas se julgam puras, perfeitas
e não se querem misturadas com outras que seriam impuras". Quando levamos a
discussão para as religiões afrodescendentes no Brasil, o autor explica que elas são
consideradas "sincréticas por excelência" por terem incorporado elementos de origem
tanto africana como católica e dos nativos deste território. Atualmente, discute-se,
inclusive, a sua relação com as religiões neopentecostais.
6. Ferretti (2007, p. 106) chama atenção para a pesquisadora dinamarquesa Anita Leopold
(2005), que, de acordo com ele, afirma que sincretismo é uma categoria controversa e
que os estudiosos de religião preferem não a usar. Ele lembra, ainda, que o pesquisador
holandês André Droogers (1989) destaca que "o sincretismo é descrito como mistura de
religiões e como avaliação de tal mistura, por isso muitos querem abolir este conceito".
Traçando o percurso de significação do conceito, Ferretti (2007, p. 107) afirma, ainda,
que, segundo Droogers (1989), na Antiguidade, “sincretismo” se referia à "junção de
forças opostas face ao inimigo comum" e passou a designar, a partir do século 18, a
"reconciliação ilegítima de pontos de vista teológicos opostos, ou heresia contra a

12 - 68
verdadeira religião".
7. Portanto, podemos considerar que, a partir do século 18, atribuir a denominação
"sincrética" a uma determinada manifestação religiosa significava não apenas destacar,
do ponto de vista negativo, uma mistura inadequada de elementos oriundos de diferentes
credos, como também uma ofensa ao sentido supostamente puro da religião cristã. Do
ponto de vista do colonialismo, também se discutiu uma espécie de evolução do
fetichismo afrodescendente para o catolicismo, passando pelo fenômeno do sincretismo.
8. O médico Raimundo Nina Rodrigues, nascido no Maranhão, foi pioneiro nos estudos
afro-brasileiros no Brasil, porém, como Ferretti (2007) esclareceu, ele não empregou a
categoria sincretismo, mesmo tendo conhecido-a em seu tempo. Para o autor: Nina
Rodrigues discorre sobre o tema, usando, entre outras, expressões como: fusão de
crenças, justaposição de exterioridades e idéias, associação, adaptação, equivalência de
divindades e, principal e significativamente, ilusão da catequese. Esta ilusão decorria,
para ele, da equivalência entre as divindades. Afirmava que os negros baianos, sem
renunciar aos orixás, tinham profunda devoção pelos santos (id.?, p. 182). Nas décadas
de 1930 e 1940, o médico e antropólogo alagoano Arthur Ramos substituiu a perspectiva
evolucionista e racista de Nina Rodrigues por idéias da teoria culturalista, então
dominante, sobretudo na Antropologia norte-americana, na qual se destacava o
africanista Meville J. Herskovits (FERRETTI, 2007, p. 107).
9. Assim, ele completa que a teoria culturalista das décadas de 1940 e 1950 tomava o
"sincretismo como um processo de mudança cultural decorrente da aculturação ou do
contacto entre culturas", constituindo uma espécie de "reinterpretação". Esse processo
teria como exemplo, principalmente, as religiões afro-brasileiras, porém, o interesse dos
autores culturalistas voltou-se mais às culturas consideradas “puras” e, posteriormente,
aos estudos culturalistas. Desse modo, cada vez mais, o sincretismo religioso foi deixado
de lado pelas novas pesquisas (FERRETTI, 2007, p. 108).
10. O francês Roger Bastide (1973) desenvolveu estudos que abordavam o sincretismo,
considerando-o mistura ou identificação entre as crenças, dedicando-se, mais
atentamente, à chamada preservação da pureza do candomblé baiano, em oposição à
mistura que analisava na macumba e na umbanda. Desse modo, o sincretismo pareceu de
menor interesse ao autor, pois ele o considerava uma fusão, ou mistura, entre diferentes
crenças, e sua principal preocupação estava voltada, justamente, à pureza, à não mistura
(FERRETTI, 2007).
11. Posteriormente, seguindo a linha de estudo desenvolvida por Roger Bastide entre as
décadas de 1950 e 1970, muitos estudiosos da cultura afro-brasileira passaram a rejeitar
o tema do sincretismo e a priorizar a “pureza africana”. Essa vertente de estudo da
suposta “pureza africana”, conforme salienta Ferretti (2007 p. 109), pode ser entendida
como: Tendência no campo afro-brasileiro a se supervalorizar certos grupos religiosos,
principalmente os nagôs, considerados como mais tradicionais, "puros" ou não
sincréticos, que seriam continuadores de tradições africanas e que acabaram sendo mais

13 - 68
pesquisados pelos antropólogos.
12. É importante levarmos em conta, ainda, as denominações de Reginaldo Prandi (1999),
que divide a história das religiões afro-brasileiras em:
1. período inicial de sincretização;
2. período de branqueamento, com a formação da umbanda (1920-1930);
3. período de africanização (1960-atual), tendo como fator fundamental a
transformação do candomblé em religião universal.
13. Desse modo, mais recentemente, podemos traçar que se tenta desfazer o sincretismo
entre as religiões de origem africana e o catolicismo, incluindo mesmo o aprendizado do
idioma ioruba, conforme propõe, segundo o autor, o movimento de africanização do
candomblé (FERRETTI, 2007). Ferretti (2007, p. 112) responde à questão do
sincretismo da seguinte maneira:
1. Consideramos o sincretismo, como elemento essencial de todas as formas de
religião, que está muito presente na religiosidade popular, nas procissões, nas
comemorações dos santos, nas diversas formas de pagamento de promessas, nas
festas populares em geral, como em diversos elementos da religião oficial, por
exemplo no Catolicismo. Constatamos que o sincretismo constitui uma das
características centrais das festas religiosas populares. […] O sincretismo nas
religiões afro-brasileiras não representa assim um disfarce de entidades africanas em
santos católicos, mas uma "reinvenção de significados" e uma "circularidade de
culturas".
2. Trata-se de uma estratégia de transculturação refletindo a sabedoria que os
fundadores também trouxeram da África e, eles e seus descendentes, ampliaram no
Brasil. Em decorrência do sincretismo, podemos dizer que as religiões afro-
brasileiras têm algo de africanas e de brasileiras sendo, porém diferentes das
matrizes que as geraram. Nesse sentido, divindades e santos eram invocados para
proteção das mais variadas situações da vida cotidiana. Muitos santos protetores
tornaram-se padroeiros de irmandades religiosas que expressavam um tipo particular
de sociabilidade no Brasil colônia.
10. De acordo com o que foi estudado nesta unidade, qual foi a importância das
irmandades para a formação da sociedade mineradora?
1. As irmandades religiosas foram agremiações formadas por leigos nas quais os membros
integrantes assumiam laços de solidariedade entre si. Seus membros assistiam uns aos
outros e amparavam as viúvas e os órfãos quando um participante (o irmão) falecia.
Nesse sentido, as irmandades religiosas devem ser entendidas como espaços próprios em
que os associados encontravam refúgio e alívio para os infortúnios das vidas terrena e
divina. O historiador Caio César Boschi10 (1986, p. 14) afirma que: [...] em síntese, as
irmandades funcionavam como agentes de solidariedade grupal, congregando,

14 - 68
simultaneamente, anseios comuns frente à religião e perplexidades frente à realidade
social. Entretanto, apesar do seu caráter associativista e coletivo, as irmandades
pautavam-se em um traço essencialmente individualista, como bem nos esclarece Boschi
(1986, p. 14):
2. Nessa medida, é curioso notar que as irmandades, enquanto entidades coletivas, traziam
em seu bojo acentuado individualismo, isto é, podiam ser entendidas também como
centro catalisador de individualidades atemorizadas pela morte e pela doença e ávidas
por um espaço político. Para essas associações convergiram todas as espécies de
sentimentos e aspirações. As relações comunitárias faziam-se na medida exata da
identificação entre os que delas participavam. Simultaneamente, integravam os
indivíduos e liberavam seus anseios de libertação, passando, assim, a ser também o canal
de manifestação de seus membros, o veículo de suas queixas, o palco de suas discussões.
Porém, a "solidariedade grupal" citada por Boschi (1986) não expressava,
necessariamente, uma igualdade social. Não podemos nos esquecer de que, na América
portuguesa, a sociedade colonial era desigual e assentada na escravidão. Portanto, na
medida em que a divisão do trabalho foi se tornando bem definida, e a sociedade, cada
vez mais estratificada, cada grupo social passou a constituir sua própria irmandade:
brancos, negros e mulatos associavam-se entre si e formavam suas confrarias religiosas.
3. Seguindo de perto essa afirmação, convém salientar que as ordens terceiras
congregavam os indivíduos pertencentes aos altos escalões da sociedade, e tais
agremiações religiosas caracterizavam-se por serem associações da elite local.
Obviamente, os critérios de admissão de seus membros eram mais rigorosos e seletivos;
assim:
1. Como forma de diferenciação de termos aqui empregados, ordem terceira é uma
associação leiga da qual seus membros vinculavam-se a uma ordem religiosa, cujas
regras são adaptadas para uma vida cristã dos seus membros no mundo. No entanto,
as regras das ordens terceiras deveriam ser aprovadas pela Santa Sé (BOSCHI, 1986,
p. 19).
4. É, portanto, importante que se saiba que: Ora, ser membro de uma ou mais ordem
terceira significava ter acesso ao interior da nata da sociedade e trânsito facilitado nela.
Significava status. Significava estar mais próximo do poder e ter a sua proteção. Por
isso, o número dessas associações rapidamente aumentou (BOSCHI, 1986, p. 20).
1. No que diz respeito às irmandades negras, podemos observar que elas constituíram
um espaço de convívio fora da rotina diária do trabalho. Negros tanto escravos
quanto livres eram associados. Dessa forma, os membros das irmandades negras
arrecadavam fundos para vários fins, como, por exemplo, para comprar cartas de
alforria para alguns de seus irmãos cativos como forma de inserção social em meio a
uma sociedade avassalada de cima a baixo pela escravidão.
5. Sobre as irmandades religiosas da América portuguesa, é interessante observar que a

15 - 68
região das minas foi palco de várias delas, embora a Coroa portuguesa tivesse imposto à
capitania das Minas Gerais, ainda no século 18, "uma política religiosa que se
caracterizou pela proibição da entrada e da fixação de ordens religiosas no novo
território" (BOSCHI, 1986, p. 1). Por essa razão, a capitania de Minas Gerais não
possuía conventos e mosteiros, sendo, portanto, as "irmandades constituídas por leigos
responsáveis pela contratação de religiosos para a prática de ofícios sacros, bem como
pela construção dos templos mineiros do século XVIII" (BOSCHI, 1986, p. 2). Nesse
sentido e de certa forma, na capitania do ouro, a Igreja católica assumiu uma posição e
uma função secundárias:
6. Nas Minas Gerais, ao se constituírem e se organizarem, extrapolando suas funções
espirituais, as irmandades tornaram-se responsáveis diretas pelas diretrizes da nova
ordem social que se instalava e, a exemplo dos templos e capelas que construíram, elas
espelharam o contexto social de que participavam. Nesse sentido, precederam ao Estado
e à própria Igreja, enquanto instituições. Quanto ao primeiro, quando a máquina
administrativa chegou, de há muito as irmandades floresciam. Quando as primeiras vilas
foram criadas por Antônio de Albuquerque, em 1711, a presença e a atuação delas já
eram incontestáveis. À época, Sabará possuía pelo menos três irmandades: a de Santa
Quitéria, a de Santo Antônio do Bom Retiro e a do Santíssimo Sacramento. Mariana e
Vila Rica [atual Ouro Preto], a de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (BOSCHI, 1986,
p. 23). Mas por que a capitania de Minas Gerais teve tantas irmandades leigas? Boschi
(1986, p. 22) aponta uma razão possível para essa indagação:
1. Simples aventureiro, sem eira nem beira, o objetivo do recém-chegado era o de
aproveitar-se das riquezas do Eldorado brasileiro e regressar a seu local de origem.
Porém, seu trabalho era incerto, dependendo mais do acaso do que de sua força física
ou mental ou de sua disponibilidade financeira. Sua vida, toda incerteza, ao lado do
instinto natural de se agrupar, levaram-no a associar-se a pessoas que padeciam dos
mesmos problemas, das mesmas mazelas. Desse modo, quando, aos domingos, o
adventício se dirigia ao arraial para participar dos ofícios religiosos,
simultaneamente ao exercício da fé cristã ele buscava encontrar um ponto de apoio,
um local de conforto diante da insegurança e da instabilidade de sua vida. Com isso,
as capelas tornavam-se não apenas palco de práticas religiosas, como também centro
de vida social. Por conseguinte, ao erigirem seus templos os indivíduos não tiveram
presentes apenas propósitos espirituais. E foi sob a sombra das capelas e com essa
perspectiva associacionista que os primeiros mineiros se aglutinaram para instituir
suas irmandades.
7. Nesse sentido, as irmandades podem ser percebidas como: [...] ao mesmo tempo força
auxiliar, complementar e substituta da Igreja [...] elas se propunham a facilitar a vida
social, desenvolvendo inúmeras tarefas que, pelo menos em princípio, seriam de alçada
do poder público (BOSCHI, 1986, p. 3). "Sob a sombra das capelas" não veio apenas o
aventureiro interessado em lavrar o ouro do leito dos rios, mas vieram, igualmente,
funcionários reais, militares, artífices, pedreiros, ferreiros, enfim, toda sorte de gente,

16 - 68
que procurava riquezas e, também, proteção divina para as suas atividades. Dessa forma,
a proliferação de irmandades deu-se paralelamente ao processo de urbanização dos
centros mineradores. Tanto é assim que algumas irmandades somente surgiram quando
determinadas classes sociais se assentaram definitivamente na capitania de Minas
Gerais.
8. Por outro lado, enquanto não se estratificou a sociedade mineira, praticamente
inexistiram irmandades sob a invocação de São Gonçalo e/ou São Gonçalo Garcia,
protetor dos homens pardos. O mesmo sucedeu com o surgimento das ordens terceiras,
instituídas basicamente por comerciantes, funcionários graduados, militares e
intelectuais, que também só se organizaram na centúria. Enquanto os músicos não se
constituíram como grupo atuante e com voz ativa no conjunto social, inexistiu uma
irmandade de Santa Cecília na capitania de Minas. [...] Nos momentos em que o
militarismo e a opressão repressiva foram mais efetivos, não foi por acaso que surgiram
irmandades do Senhor dos Passos. Quando se desenvolveu um surto artístico, não deve
causar estranheza o advento de irmandades de São José, protetor dos artífices. Se, num
primeiro momento, o que importava ao negro era encontrar consolo num santo ao qual
se transmitissem as lamúrias das pesadas jornadas de trabalho, determinando a
proliferação de irmandades de Nossa Senhora do Rosário, com o correr do século o
interesse voltou-se para Nossa Senhora das Mercês, cujo orago identificava-se com a
redenção dos cativos, a quem, inclusive oficialmente, se delegavam poderes de resgatar
cativos (BOSCHI, 1986, p. 24-25). Na medida em que a sociedade mineira ia
estratificando suas esferas sociais, cada irmandade procurava imprimir e distinguir a
importância dos seus membros em relação aos demais. Tanto que cada associação
religiosa buscava construir sua própria igreja, pretendendo que esta fosse mais bela e
suntuosa que as demais.
9. A força e o vigor dos centros urbanos passavam a ser auferidos pela riqueza e pela
expressividade de suas igrejas, o que resultava em um alto espírito de competição entre
os bairros e/ou entre os arraiais, ainda hoje um dos traços definidores da vida dos
aglomerados humanos da região das minas (BOSCHI, 1986, p. 33). Nesse intuito, os
irmãos membros das irmandades arrecadavam fundos para a construção de suas igrejas.
Prova disso são as belas igrejas barrocas das cidades históricas de Minas Gerais, que,
atualmente, fazem parte do patrimônio histórico e artístico nacional.

Unidade 4
11. Do ponto de vista comercial, quais são as diferenças mais marcantes que podemos
estabelecer entre a região Norte-nordeste e o Centro-sul da colônia?
1. a região Norte teve uma precária integração econômica com o restante da colônia,
destacando-se economicamente pelas chamadas "drogas do sertão", conforme assinala o
historiador Boris Fausto (1995, p. 91): no seu conjunto, a produção da região Norte
baseou-se nos produtos da floresta, as chamadas "drogas do sertão", como a baunilha, a
salsaparrilha e sobretudo o cacau nativo, colhido por índios e mestiços ao longo dos rios

17 - 68
e trazido até Belém. Além das denominadas "drogas do sertão", a região Norte, com uma
presença considerável de indígenas, converteu-se no principal foco das atividades
missionárias, entre elas, as dos jesuítas. Evidentemente, nessa região, o atrito entre os
padres da Companhia de Jesus e os colonos não foi diferente de outras localidades da
América portuguesa naquilo que diz respeito ao trato indígena. conforme alerta Fausto
(1995, p. 98), a descoberta de veios auríferos e diamantíferos acarretou mudanças não
apenas no Brasil colonial, mas também na própria metrópole, pois:
2. A exploração de metais preciosos teve importantes efeitos na metrópole e na colônia. Na
metrópole, a corrida do ouro provocou a primeira grande corrente imigratória para o
Brasil. Durante os primeiros sessenta anos do século XVIII, chegaram de Portugal e das
ilhas do Atlântico cerca de 600 mil pessoas, em média anual de 8 a 10 mil, gente da mais
variada condição, desde pequenos proprietários, padres, comerciantes, até prostitutas e
aventureiros. Apenas a presença de mulheres foi pouco significativa. Assim, os primeiros
veios auríferos foram descobertos pelos bandeirantes paulistas, os quais se
embrenhavam nos sertões na caça ao índio.
3. Fausto (1995, p. 96-97) esclarece que: Na verdade, os paulistas não constituíram uma
“raça especial”, mas um grupo de origem portuguesa ou mestiça que, por uma série de
condições geográficas, sociais e culturais, se distinguiram de outros grupos. Sua
coragem e arrojo, ou o fato de que tenham contribuído para a extensão territorial do
Brasil, estão fora de dúvida, mas o simples relato de suas façanhas mostra que eles não
tinham nada a ver com a imagem de heróis civilizadores. Do ponto de vista da
organização social, os paulistas construíram uma sociedade rústica, com menor distinção
entre brancos e mestiços, influenciada pela cultura indígena. Não devemos porém
confundir essa sociedade rústica com uma sociedade democrática, pois uma hierarquia
das melhores famílias e a dominação sobre os índios prevaleceram.
4. De modo geral, foi na busca e na apreensão do índio que os bandeirantes paulistas
encontraram o tão sonhado ouro. De certa forma, a exploração aurífera, cujo auge se deu
entre 1750 e 1770, deu origem a uma sociedade urbana com uma relativa mobilidade
social e menos aristocrática em relação à sociedade açucareira do Nordeste.
12. Quais foram, do ponto de vista econômico, as transformações provocadas pela
exploração do ouro na colônia?
1. Ao contrário da produção de açúcar, a exploração de ouro e diamantes não era uma
tarefa que dependia da inversão de vultosos capitais, visto que o ouro encontrado,
especialmente, no interior de Minas Gerais era o de aluvião, ou seja, pequenas pepitas
facilmente encontradas nos leitos dos rios. Além disso, não havia necessidade de mão de
obra especializada. Outra característica da sociedade mineradora em relação à açucareira
foi a presença mais acentuada da Coroa portuguesa. Afinal, era necessário fiscalizar, a
despeito do contrabando e da pirataria, a extração do ouro e dos diamantes. Arrecadar
impostos e organizar a sociedade das minas foram os dois objetivos básicos da
administração portuguesa, relacionados aliás entre si. Para isso, era necessário

18 - 68
estabelecer normas, transformar acampamentos de garimpeiros em núcleos urbanos,
criar um aparelho burocrático com diferentes funções. Em 1711, o governador de São
Paulo e Minas elevou os acampamentos de Ribeirão do Carmo, Ouro Preto e Sabará à
condição de vila. Depois, vieram Caeté, Pitangui, São João Del Rei e outros. Ribeirão do
Carmo foi a primeira vila a se transformar em cidade, recebendo o nome de Mariana em
1745 (FAUSTO, 1995, p. 101).
2. Nas capitanias onde era descoberto o ouro, era criada uma Intendência de Minas, cujo
intendente era um funcionário ligado diretamente ao poder metropolitano. Ao intendente,
cabia a tarefa de distribuir as lavras auríferas e de cobrar o quinto, ou seja, 20% da
produção de cada minerador, que era destinado à Coroa. Como forma de fiscalizar ainda
mais a produção e a circulação do ouro, por volta de 1690, foram criadas as Casas de
Fundição, pois o ouro, que, antes, circulava na forma de ouro em pó, deveria, com a
criação das Casas, circular em barras. Nesses locais, além de transformarem o ouro em
barra, já cobravam os 20% tributados pela Coroa.
3. Tal medida provocou bastante descontentamento entre os mineradores, especialmente
quando a produção aurífera começou a declinar em função da defasagem das técnicas
extrativas. O descontentamento para com os tributos e as autoridades régias foram
motivos para uma série de revoltas na região das minas. Por ora, resta destacar que a
mineração provocou grandes transformações na colônia. Além do aumento populacional,
outra transformação importante foi a mudança do eixo econômico.
4. O Nordeste açucareiro, gradativamente, começou a perder importância econômica para o
Sudeste minerador. Uma consequência desse fato foi a transferência, pela Coroa, da
capital da colônia de Salvador para o Rio de Janeiro. A despeito dessas e de outras
questões que podem ser feitas, não podemos esquecer que a riqueza proporcionada pela
mineração do ouro e dos diamantes acarretou uma efervescente vida cultural e
intelectual, embora alguns grupos não tenham participado efetivamente dela,
especialmente durante o período de declínio da atividade. a proibição das ordens
religiosas de entrarem na região das minas incentivou o surgimento de irmandades e
ordens terceiras, as quais patrocinaram a construção de luxuosas igrejas, ganhando
destaque nesse cenário o célebre artista Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como
Aleijadinho (FAUSTO, 1995), pela sua atuação como artista barroco.
5. O luxo das igrejas barrocas mineiras é uma prova evidente de uma riqueza que,
obviamente, não ficou nas cidades mineradoras e, muito menos, em Portugal. Isso graças
ao acordo comercial feito, em 1703, entre portugueses e ingleses. Pelo tratado conhecido
como de Methuen, em referência ao diplomata inglês John Methuen, que participou das
suas negociações, ou Tratado dos Panos e dos Vinhos, como era chamado pelos
portugueses, estes compravam tecidos dos ingleses, e os últimos, por sua vez, adquiriam
o vinho produzido em Portugal. Entretanto, a Inglaterra, que começava a ensaiar os
primeiros passos da Revolução Industrial, produzia tecidos em grande escala, enquanto
os portugueses não conseguiam vender na mesma proporção seus vinhos.

19 - 68
6. Desse modo, as finanças portuguesas ficaram desequilibradas. Para sanar o déficit
comercial com a Inglaterra, Portugal pagava a diferença de sua balança comercial em
ouro, o mesmo ouro extraído das capitanias de Goiás, de Mato Grosso e, principalmente,
de Minas Gerais.
7. Nesse aspecto, é interessante mencionar que o ouro extraído do interior da América
portuguesa percorria um circuito triangular, como salienta Fausto (1995, p. 99): O
desequilíbrio da balança comercial entre Portugal e Inglaterra foi, por muitos anos,
compensado pelo ouro vindo do Brasil. Os metais preciosos realizaram assim um
circuito triangular: uma parte ficou no Brasil, dando origem à relativa riqueza da região
das minas; outra parte seguiu para Portugal, onde foi consumida no longo reinado de D.
João V (1706-1750), em especial nos gastos da Corte e em obras como o gigantesco
Palácio-Convento de Mafra; a terceira parte, finalmente, de forma direta, via
contrabando, ou indireta, foi parar em mãos britânicas, acelerando a acumulação de
capitais na Inglaterra.
8. A ânsia por enriquecer de um dia para o outro desviou a atenção dos mineradores de um
aspecto fundamental, senão essencial: a produção de alimentos. Com isso, a carência de
víveres tornou-se reinante, e os preços subiram absurdamente. Só para ter uma ideia, "o
milho passou a valer 40 e mais oitavas, o feijão de 60 a 90 cada alqueire" (VAS-
CONCELOS, 1974, p. 179). A alta dos preços devia-se, sobretudo, à ação dos
atravessadores, na medida em que estes: [...] compravam gêneros alimentícios dos
tropeiros ou de agricultores para revendê-los mais tarde aos moradores das vilas e
redondezas. A forma de especulação era a mais comum, ou seja, esses agentes estocavam
as mercadorias para forçar a alta dos preços.
9. Além do mais, os atravessadores costumavam também, transportar produtos para outros
mercados, procurando melhores ofertas (MAGALHÃES, 1998, p. 34). Nesse sentido,
elevados os preços a níveis absurdos, as principais vítimas dos atravessadores eram os
miseráveis e a escravaria, que não tinham condições para comprar os mantimentos, "pois
a concentração de riquezas e a crescente estratificação social fizeram com que ela, a
fome, voltasse a atuar no seu círculo costumeiro: o da pobreza" (SOUZA, 1986, p. 26).
Além disso, deve-se levar em consideração a precariedade dos caminhos, que, em épo-
cas de chuva, ficavam praticamente intransitáveis, o que dificultava ainda mais o
abastecimento de víveres.
10. Desse modo, houve a necessidade de se criar um mercado abastecedor para a região das
minas. A agricultura de subsistência e as pecuárias bovina e muar foram essenciais para
o abastecimento de gêneros alimentícios, assim como a carne e o couro para a região
mineradora. No entanto, não queremos dizer que as atividades de abastecimento interno,
especialmente a pecuária, se fizeram única e exclusivamente em função da mineração, já
que, desde o início da colonização, os portugueses introduziram o gado nas novas terras.
11. Além disso, a pecuária foi muito importante para o desbravamento e a penetração do
colonizador pelo sertão. Isso porque, graças a um édito real, as criações de gado foram

20 - 68
proibidas, no Nordeste, de ficarem a menos de 100 léguas dos canaviais, pois as reses
invadiam e danificavam as lavouras de cana-de-açúcar.
12. Com a mineração e a necessidade cada vez maior de alimentos e produtos derivados do
gado bovino, a pecuária expandiu-se ainda mais pelo interior. Em especial na região do
atual estado do Rio Grande do Sul, a criação de gado desenvolveu-se favoravelmente
graças às extensas planícies que compõem a geografia da região. Ademais, a pecuária
era uma atividade que requeria pouca mão de obra. Em regra, os peões eram ex-
escravos, brancos pobres ou mamelucos que cuidavam e criavam o gado de um grande
proprietário, o qual destinava algumas cabeças para os vaqueiros como pagamento pelos
serviços prestados.
13. Que tipos de arranjos sociais foram estabelecidos na sociedade colonial? Lembre-se de
fazer menção aos negros escravos e alforriados.
1. Outra característica digna de menção da sociedade mineradora foi a presença bastante
elevada de negros e mulatos. Na segunda metade dos setecentos, sendo essa
denominação sinônima para o século 18, estimava-se, na capitania de Minas Gerais, uma
população de, aproximadamente, 320 mil habitantes, dos quais 52,2% eram negros,
25,7% eram mulatos, e os 22,1% restantes eram brancos (FAUSTO, 1995).
2. Tão grande percentual de negros e mulatos acarretou uma intensa miscigenação étnica
na região das minas. Ademais, é interessante observar que, na capitania de Minas Gerais,
a despeito da presença marcante da escravidão, havia um grande número de libertos, ou
seja, escravos que foram alforriados pelos seus senhores. Diante dessa constatação,
convém indagar: o que motivou tão grande número de alforrias? Quem aponta uma
resposta plausível para esse aspecto peculiar da sociedade mineradora é Fausto (1995, p.
105):
3. Ao longo dos anos, houve intensa mestiçagem de raças, cresceu a proporção de
mulheres, que em 1776 era de cerca de 38% do total, e ocorreu um fenômeno cuja
interpretação é um ponto de controvérsia entre os historiadores: o grande número de
alforrias, ou seja, de libertação dos escravos. Para se ter uma ideia da sua extensão,
enquanto nos anos 1735-1749 os libertos representavam menos de 1,4% da população de
descendência africana, em torno de 1786 passaram a ser 41,4% dessa população e 34%
do número total de habitantes da capitania. A hipótese mais provável para explicar a
magnitude dessas proporções, que superam por exemplo as da Bahia, é de que a
progressiva decadência da mineração tornou desnecessária ou impossível para muitos
proprietários a posse de escravos.
4. De certa forma, a criação de gado, bem como a agricultura de subsistência, no âmbito da
economia colonial, assumiu um caráter secundário, porém, altamente importante não
apenas para o abastecimento das principais atividades econômicas da colônia, mas
igualmente para a exploração e conquista do sertão. Além disso, a estrutura de poder que
se constituiu em função das atividades econômicas da pecuária e da agricultura de

21 - 68
subsistência não se basearam:
1. [...] propriamente na riqueza e nas estruturas de dependência econômica como na
sociedade açucareira. Está mais ligado ao número de seguidores e agregados leais
que formavam uma espécie de exército particular informal ou formalizado caso o
chefe tivesse patente militar de Ordenanças ou das Milícias. A mobilidade social
também era mais fácil dependendo da habilidade, coragem e inteligência do vaqueiro
que conseguia acumular um pecúlio e iniciar sua própria criação em terras alugadas
ou apossadas (MESGRAVIS in FREITAS, p. 53).
5. É interessante perceber que esse estado de coisas permitia o estabelecimento de diversos
arranjos sociais. Entre eles, podemos falar dos negros alforriados, ou seja, dos “pretos
forros”, que passaram a ocupar posições sociais distintas de sua situação anterior.
6. Há um caso específico, estudado por Gabriel Aladrén (2008), que indica a ascensão
econômica e social de um negro alforriado, Pedro Gonçalves, o qual se tornou agregado
nas terras de um Capitão em uma área rural próxima a Porto Alegre. A partir dessa
condição, o liberto, que era casado com uma forra, tornou-se proprietário de quatro
escravos, que empregava em sua propriedade tanto no serviço doméstico (duas escravas)
quanto na lavoura de subsistência (dois escravos), que era complementada pela criação
de gado em pequena escala. Para ajudar nas lides com os animais, havia, ainda, um peão
contratado. Ponderando acerca do tema, o autor (apud DORÉ; SANTOS, 2008, p. 451)
considera que um:
7. Aspecto interessante que pode ser analisado com base neste caso é a relação entre
hierarquia social, formas de agregação e o acesso à terra por parte de ex-escravos e dos
chamados "livres pobres". Do ponto de vista hierárquico, Pedro Gonçalves era supremo
mandatário em sua casa, com poder sobre seus escravos, agregados (o Peão Antonio foi
assim referido nos depoimentos) e sua mulher. Porém, ele também era um agregado nas
terras do Capitão Jozé Alexandre d"Oliveira, comandante do distrito do Caí.
8. Apesar de ser um ex-escravo, Pedro Gonçalves era respeitado pela vizinhança e
desfrutava de um status social condizente com sua situação econômica, de pequeno
senhor escravista. Tanto era assim que o peão Antonio cabra, que trabalhava com ele a
jornais havia quatro meses [...] o tratava com deferência e de forma respeitosa,
designando-o por "meu amo".
9. Tornou-se comum em diversas regiões do Brasil que ex-escravos se tornassem
proprietários de cativos. Aladrén (apud DORÉ; SANTOS, 2008, p. 449), indica que:
10. Maria Inês Côrtes de Oliveira, cuja pesquisa enfoca Salvador entre 1790 e 1850,
demonstrou que 77,65% dos libertos possuíam cativos. Ida Lewkowicz, estudando os
forros em Mariana, nas Minas Gerais entre 1730-1800 verificou que 79,3% possuíam
escravos. Sheila de Castro Faria observou que cerca de 80% dos testadores libertos no
Rio de Janeiro, ao longo do século XVIII, eram proprietários de escravos.
11. Muitos desses cativos podiam ser utilizados como escravos de ganho, ou seja, aqueles

22 - 68
que tinham permissão para prestar algum serviço ou para vender mercadorias, com a
obrigação de entregar a seus amos parte dos ganhos. Podiam, também, ser empregados
na agricultura, mais propriamente, na lavoura de subsistência. Há de se destacar que a
economia que se formou em torno da exploração do ouro provocou uma articulação
entre as diferentes e distantes regiões da colônia, haja vista que:
1. Gado e alimentos foram transportados da Bahia para Minas e um comércio se
estabeleceu em sentido inverso. Do Sul, vieram não apenas o gado mas as mulas, tão
necessárias ao carregamento de mercadorias. Sorocaba, com sua famosa feira,
transformou-se, no interior de São Paulo, na passagem obrigatória dos comboios de
animais, distribuídos principalmente em Minas (FAUSTO, 1995, p. 99).
12. Estudos realizados com base em inventários, em que a lista de pertences da pessoa
falecida pode demonstrar qual era a sua ocupação, tem indicado que, nos caminhos, nas
vias desse comércio, se estabeleciam famílias que lidavam tanto com a compra e venda
quanto com a prestação de serviços aos que, por eles, transitavam.
13. Luciane Cristina Scarato (apud DORÉ; SANTOS, 2008, p. 548), analisando inventários
post mortem da região do Caminho Novo, estrada que ligava o Rio de Janeiro às Minas
Gerais, considera que : [...] entre as suas atividades principais, estavam o cultivo de
roças e o comércio, além do fornecimento de mantimentos e pouso para os viandantes do
caminho, como demonstra a existência de ranchos para passageiros em suas terras.

Unidade 5
14. Como as ideias do Iluminismo influenciaram as elites coloniais brasileiras?
1. O conjunto de ideias fazia parte daquilo que ficou conhecido como Iluminismo, ou
Ilustração. Este, por sua vez, foi um movimento filosófico no qual seus adeptos
advogavam a ideia do progresso e o uso da razão como instrumento para superar
preconceitos e, consequentemente, para atingir a perfeição humana. Os principais
expoentes dessa corrente de pensamento foram Immanuel Kant, Jean-Jacques Rousseau,
Voltaire, entre outros. As principais ideias desse movimento encontram-se reunidas na
Enciclopédia.
2. De modo geral, no plano político, os iluministas pregavam o ideal de que o poder emana
do povo e não do poder absoluto dos reis, de forma que estes deveriam governar de
acordo com a vontade de seus governados e não pela vontade divina. Se o soberano
governava mal, o povo tinha o direito de se rebelar contra ele.
3. Assim, As concepções ilustradas deram origem no campo sociopolítico ao pensamento
liberal, em seus diferentes matizes. Um fundo comum às várias correntes do liberalismo
se encontra na noção de que a história humana tende ao progresso, ao aperfeiçoamento
do indivíduo e da sociedade, a partir de critérios propostos pela razão. A felicidade –
uma idéia nova no século XVIII – constitui o objetivo supremo de cada indivíduo, e a
maior felicidade do maior número de pessoas é o verdadeiro desígnio da sociedade. Esse

23 - 68
ideal deve ser alcançado através da liberdade individual, criando-se condições para o
amplo desenvolvimento das aptidões do indivíduo e para sua participação na vida
política (FAUSTO, 1995, p. 107). No plano econômico, o Iluminismo deu margem ao
pensamento liberal de que o Estado não deveria intervir na economia.
4. Desse modo, a concorrência e a iniciativa individual seriam harmonizadas por "uma mão
oculta", tal como preconizou o escocês Adam Smith na sua obra A Riqueza das Nações,
escrita em 1776. Consequentemente, a livre iniciativa pregada pelo liberalismo
econômico feria frontalmente o mercantilismo praticado pelas metrópoles, em especial
Portugal e Espanha, em suas colônias no Novo Mundo.
5. Assim, ao criticar o direito absoluto dos reis e o exclusivo colonial, o Iluminismo gestou
movimentos que abalaram as bases do Antigo Regime ao longo do século 18; entre eles,
podemos destacar a Revolução Francesa, a Revolução Industrial e a independência dos
Estados Unidos da América. Consequentemente, se o Antigo Regime entrava em crise, o
sistema colonial do qual fazia parte também entrava em colapso. É interessante ressaltar
que o pensamento iluminista não se desenvolveu em um conjunto único; em cada região,
suas ideias sofreram alterações e ganharam aplicações específicas.
15. Quais foram as medidas tomadas pelo marquês de Pombal para dinamizar a economia
da colônia?
1. representou um grande esforço no sentido de tornar mais eficaz a administração
portuguesa e introduzir modificações no relacionamento Metrópole-Colônia. A reforma
constituiu uma peculiar mistura do velho e do novo, explicável pelas características de
Portugal. Ela combinava o absolutismo ilustrado com a tentativa de uma aplicação
conseqüente das doutrinas mercantilistas (FAUSTO, 1995, p. 109-110). Desse modo, ao
misturar o velho e o novo ou, nas palavras do historiador Faoro (2001, p. 837), coser
“remendo de pano novo em vestido velho”, o marquês de Pombal criou, na América
portuguesa, duas companhias:
1. Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão (1755), que tinha por
finalidade desenvolver a região Norte.
2. Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba (1759), que tinha por finalidade
desenvolver a região Nordeste.
2. Ambas contavam com comércio exclusivo nas regiões citadas. No entanto, em função
desse monopólio, os setores comerciais locais ficaram prejudicados. Além dessas
companhias, Pombal instituiu, na região das minas, a derrama, ou seja, a cobrança
forçada do quinto do ouro caso este não completasse a quantia de 100 arrobas anuais
para a Coroa portuguesa. Com o intuito ainda de modernização da administração e das
finanças portuguesas, o marquês incentivou a criação de manufaturas em Portugal e, até
mesmo, no Brasil colônia (FAUSTO, 1995).
3. Todavia, a medida pombalina que mais repercutiu na América portuguesa foi a expulsão
dos jesuítas em 1759. Sob a alegação de que a Companhia de Jesus tinha autonomia e

24 - 68
interesses divergentes em relação ao Estado português, as terras e propriedades desta,
bem como de outras ordens religiosas foram confiscadas e leiloadas para nobres e ricos
comerciantes.
4. No entanto, apesar de tornar a administração mais centralizada e fortalecida com a
expulsão dos jesuítas das colônias portuguesas, há de se destacar que o ensino na
América portuguesa ficou verdadeiramente prejudicado com a sua saída. Vale ressaltar
que não havia faculdades e universidades no Brasil colônia no período em foco, de
forma que os colonos brasileiros que quisessem cursar o Ensino Superior deveriam ir
para Coimbra, mas, certamente, pouquíssimos tinham condições para isso.
5. Voltando a falar das medidas reformadoras de Pombal, devemos salientar que elas não
surtiram, em certos aspectos, o efeito desejado. Em termos econômicos, a colônia
brasileira, por exemplo, entrou em aguda depressão ao longo da segunda metade do
século 18. Entretanto, não podemos simplificar e, muito menos, desmerecer
demasiadamente as ações de Pombal, haja vista a sua importância tanto para a história
de Portugal quanto para a colônia brasileira.
16. No que se refere aos grupos sociais e aos resultados obtidos, quais são as principais
diferenças entre os movimentos de revolta de Minas Gerais e da Bahia?
1. De modo geral, a Inconfidência Mineira e a Conjuração dos Alfaiates destacaram-se das
demais revoltas coloniais por um motivo bastante particular. Tais levantes
caracterizaram-se como uma sedição, ou seja, seus partícipes não intencionavam
restabelecer ou manter a ordem, mas, antes, modificá-la.
2. A Inconfidência Mineira foi um movimento planejado pela elite de Minas Gerais. Há
quem diga que a trama de 1789 foi fruto de intelectuais idealistas que almejavam a
liberdade. Há outros que afirmam ter sido a Inconfidência uma oportunidade para a
solução das dívidas dos conspiradores mineiros, afinal, emancipando-se da Coroa
credora, não havia dívidas a pagar.
3. Polêmicas à parte, a Inconfidência Mineira foi uma tentativa dos notáveis da capitania de
Minas Gerais de emancipá-la juntamente com as capitanias de São Paulo e Rio de
Janeiro, e não do Brasil como um todo. Além do mais, no período em foco, não havia
propriamente um sentimento e, muito menos, uma ideia de nação brasileira. Ao
contrário, havia uma consciência regional mais do que nacional, e o levante mineiro é
uma prova bastante evidente disso.
4. Dentre os vários motivos que culminaram na Inconfidência Mineira, o principal foi a
derrama, a qual era bastante temida e odiada pela população de Minas Gerais. Com
efeito, ela nunca chegou a ser decretada, mas despertava profundos temores na região
das minas, especialmente nos altos escalões sociais em débito com a Coroa portuguesa.
5. Ao contrário da Inconfidência Mineira, o movimento sedicioso que teve lugar na cidade
de Salvador não contou, em sua grande maioria, com membros da elite baiana. Entre os
partícipes dos acontecimentos na capital baiana, havia mulatos, negros libertos, escravos,

25 - 68
soldados e um grande número de alfaiates, cuja participação acabou por denominar a
conspiração.
6. Outra diferença que podemos destacar entre a Conjuração dos Alfaiates e a
Inconfidência Mineira diz respeito à escravidão. Os baianos eram favoráveis à abolição
dos escravos, já os mineiros não tinham uma posição definida, isto é, alguns eram
favoráveis, outros não. Contudo, havia denominadores comuns entre baianos e mineiros.
Ambos se inspiravam nas ideias iluministas e na independência dos Estados Unidos da
América, bem como defendiam a república como forma de governo. No entanto, os
baianos tinham como grande fonte de inspiração a revolução que estava em curso na
França, a Revolução Francesa.
7. De acordo com Fausto (1995, p. 120): A inspiração dos rebeldes baianos veio
principalmente da Revolução Francesa. No curso do processo, foram apreendidas obras
filosóficas de autores como Voltaire e Condillac, que vários inconfidentes mineiros
também conheciam. Ao lado dessas obras, aparecem pequenos textos políticos, de
linguagem direta, definidores de posições. Esses textos atravessaram o Atlântico,
chegaram às estantes de livros de gente letrada da Colônia e acabaram por inspirar os
“pasquins sediciosos” e os panfletos nas ruas de Salvador, em agosto de 1798.
8. A exemplo da Inconfidência Mineira, a Conjuração dos Alfaiates também não obteve
êxito. Após a fixação de alguns panfletos nas portas das igrejas, as autoridades
portuguesas logo reagiram, prendendo alguns dos revoltosos. Nos interrogatórios que se
seguiram, outros partícipes foram denunciados e presos. De certa forma, a repressão ao
movimento baiano foi mais severa em relação ao mineiro, pois quatro dos principais
líderes foram enforcados e esquartejados. A violência aplicada pela Coroa portuguesa
aos revoltosos de Salvador explica-se, em grande medida, pela origem social destes.

Unidade 6
17. Quais eram as alternativas da Coroa portuguesa diante da situação política da Europa
com o Bloqueio Continental à Grã-Bretanha, imposto por Napoleão em 1806?
1. no início do século 19, a Europa era sacudida pelos ventos revolucionários da Revolução
Francesa e pelas armas e canhões dos exércitos de Napoleão Bonaparte. Pela força das
ideias e dos fuzis, vários reis em quase toda a Europa foram depostos pelas tropas
napoleônicas.
2. A esse respeito, Wilcken (2005, p. 18) pondera: Os efeitos da campanha napoleônica
foram muito além de apenas a Europa – houve um embate de impérios, uma luta pela
supremacia no comércio global, uma batalha em que Portugal, um pequeno Estado
europeu com vastas possessões imperiais, viu-se apanhado entre a Grã-Bretanha e a
França, as duas superpotências da época.
3. De fato, podemos considerar que a situação europeia não era favorável para o reino
português. Isso porque, na Península Ibérica, as tropas de Napoleão haviam destronado o

26 - 68
rei da Espanha e ameaçavam Portugal caso este não aderisse ao bloqueio continental
imposto por Napoleão Bonaparte como meio e forma de enfraquecer o poderio
econômico dos ingleses, uma vez que Napoleão fora derrotado na batalha naval de
Trafalgar, ficando impossibilitado de invadir a Inglaterra pelo canal da Mancha. Apesar
de tomar uma posição de neutralidade no cenário de guerra europeu, Portugal ocupava
uma posição-chave tanto para a Inglaterra quanto para a França, visto que:
4. O país situava-se na borda da Europa napoleônica, encurralado pela Espanha, aliada da
França. Seus portos marítimos tinham uma localização ideal para o comércio do
Atlântico, e a posição privilegiada de Lisboa como um porto de águas cálidas durante o
ano inteiro tornava-a particularmente vulnerável. A cidade servia de cabeça-de-ponte na
Europa para os britânicos e, para Napoleão, era a única brecha séria que restava em seu
“Sistema Continental”. Lisboa era também o eixo do império de Portugal, a câmara de
compensação do comércio brasileiro, do qual a Grã-Bretanha tirava enorme proveito, e
isso lhe dava uma aura de importância numa guerra que começava a se centrar no acesso
às rotas comerciais. A frota portuguesa, por pequena que fosse, seria um bônus a mais na
luta contínua de Napoleão para reconstruir sua Marinha (WILCKEN, 2005, p. 27).
5. No entanto, em função dos acordos econômicos, dentre eles, o tratado de Methuen
(1703), Portugal havia criado profundos laços de dependência com a Inglaterra. Nesse
sentido, por um lado, se o reino português cedesse às pressões francesas, os ingleses
poderiam bombardear o porto de Lisboa, evitando, assim, que ele fosse utilizado pelos
franceses. Por outro lado, se Portugal não aderisse ao bloqueio continental, fatalmente as
tropas francesas invadiriam o reino e destronariam a dinastia portuguesa.
6. Assim, Portugal vivia um difícil dilema. Afinal, o que fazer? Quais decisões deveriam
ser tomadas? Eram muitas as questões e pouquíssimas as respostas que, em muito,
ocuparam a mente e atormentaram os membros dos altos escalões da Coroa portuguesa,
especialmente do Conselho de Estado.
7. Conforme elucidou Ernesto Castro Leal (2008, p. 2): A vida europeia foi marcada por
acontecimentos relevantes decorrentes do Bloqueio Continental à Grã-Bretanha,
decretado pelo Imperador Napoleão, em Berlim, no dia 21 de Novembro de 1806, após a
derrota militar da Prússia. Na estratégia napoleônica de domínio europeu, colocou-se, a
partir de então, a rendição da potência que assegurava o domínio do atlântico, para o que
era necessária a neutralização dos países com costa europeia atlântica.
8. Era o caso de Portugal, que devia, nessa lógica geopolítica aceitar as condições do
Bloqueio, salvaguardando a sua paz, ou então sujeitar-se a um confronto militar. Pelo
acordo secreto de 22 de Outubro de 1807, o Governo português negociou com o
Governo inglês um plano de colaboração antinapoleônico, onde constava a partida de
Portugal da Família Real e da Corte para o Brasil, depois de ser ponderada a hipótese da
ilha da Madeira.
9. Que pesem as diferentes versões relacionadas, o dilema vivido pelo reino de Portugal

27 - 68
parece ter sido resolvido nos últimos instantes. Isso porque, quando Napoleão Bonaparte
desconfiou das intenções dos portugueses de aderirem ao bloqueio continental e decidiu
invadir Portugal, suas tropas, uma vez tendo chegado a Lisboa, apenas puderam assistir
aos navios que transportavam a família real portuguesa sob escolta da armada inglesa.
18. Descreva as consequências da vinda da Coroa portuguesa ao Brasil.
1. A chegada da família real ao Brasil trouxe uma série de mudanças na vida colonial.
Assim, uma das primeiras medidas adotadas pelo regente D. João, uma vez que a rainha
D. Maria I havia enlouquecido, foi decretar a abertura dos portos para as nações amigas.
Na verdade, a grande nação amiga beneficiada foi a Inglaterra, pois seus produtos
tinham uma taxa alfandegária menor em relação aos produtos dos demais países.
2. Por outro lado, o ato solene da abertura dos portos pôs fim a 300 anos de sistema
colonial. De fato, era realmente necessário abolir o sistema colonial com a abertura dos
portos, uma vez que era praticamente impossível realizar o comércio em Portugal em
virtude da sua ocupação pelas tropas francesas. Desse modo, para não ter seu comércio
paralisado e com perda de arrecadação de tributos, a Coroa portuguesa, na figura do
regente D. João, decidiu pela abertura dos portos, uma vez instalada no Brasil colônia.
Diante disso, podemos deduzir que o fim do sistema colonial na América portuguesa se
fez pelas circunstâncias históricas do período em questão.
3. Em paralelo à abertura dos portos, D. João suspendeu o édito real que proibia a
existência de indústrias na colônia. Porém,nessa medida teve um efeito menor, visto que
os produtos industrializados brasileiros eram de qualidade inferior e mais caros em
relação aos ingleses, que chegavam em maior quantidade e variedade nos portos do país.
Além disso, a Inglaterra literalmente assenhorou-se do controle do mercado colonial
brasileiro ao assinar, em fevereiro de 1810, com a Coroa portuguesa, o Tratado de
Navegação e Comércio. De acordo com esse tratado, os produtos ingleses exportados
para o Brasil eram taxados em apenas 15% do seu valor (FAUSTO, 1995).
4. Além dessas questões atinentes ao mercado colonial, D. João, depois de deslocar-se de
Salvador, primeira parada da comitiva real, procurou dotar a cidade do Rio de Janeiro,
capital da colônia, com toda uma infraestrutura digna de comportar uma Corte europeia
nos trópicos. Desse modo, foram construídos um teatro lírico, prédios e palácios para os
burocratas, bem como para os aristocratas da Corte. Isso sem falar no Jardim Botânico e
na vinda de missões científicas e artísticas compostas por naturalistas e viajantes
estrangeiros. Dentre esses naturalistas, artistas e viajantes, destacam-se: os bávaros Spix
e Martius, respectivamente, zoólogo e botânico; o naturalista e comerciante inglês John
Mawe; o naturalista francês Saint-Hilaire, o arquiteto francês Grandjean de Montigny; e
os pintores, também franceses, Taunay e Debret. Esses últimos fizeram parte da Missão
Artística francesa que veio ao Rio de Janeiro em março de 1816 (FAUSTO, 1995).
5. Todas as melhorias empreendidas pelo príncipe regente tinham por finalidade comportar
todo o aparato estatal português transplantado do outro lado do Atlântico. Entretanto, a

28 - 68
cidade carioca não tinha dependências suficientes para alojar as pessoas que vieram
juntamente com a família real. Desse modo, o príncipe regente baixou um decreto por
meio do qual autorizava o nobre da Corte a escolher uma casa que fosse do seu agrado.
Escolhida a casa, imediatamente, eram fixadas na porta da residência as iniciais P. R.
(príncipe regente), e o dono da casa e toda a sua família tinham de se mudar para outro
local.
6. A presença da Corte portuguesa no Brasil colônia provocou outra mudança digna de
menção. Com todo o aparato real e administrativo instalado no seu próprio território, o
Brasil, em 1815, deixou de ser colônia e passou à condição de Reino Unido com
Portugal e Algarves.
7. Conforme descreveu Martins (2009, p. 1): Afinal de contas, a “abertura dos portos” (em
28 de janeiro de 1808), ao acabar com o exclusivo comercial metropolitano, rompeu de
forma irreversível com um dos pilares fundamentais do sistema colonial e, juntamente
com os tratados de 1810, escancarou o Brasil ao predomínio econômico da Inglaterra.
8. A elevação do Brasil à condição de Reino Unido, em 1815, representou também uma
mudança de status tão crucial, que sua tentativa de reversão pelas Cortes portuguesas em
1821 e 1822 é considerada como uma das causas imediatas da independência. Na
verdade, esses fatos representaram rupturas e inversões tão drásticas na relação
metrópole – colônia, que muitos historiadores questionam o próprio significado do “grito
do Ipiranga”, argumentando que a emancipação do Brasil não ocorreu em 1822, “mas
em 1808 ou, pelo menos, em 1815”.
19. Em que condições ficaram o Rio de Janeiro e as demais regiões brasileiras com o
estabelecimento da estrutura de governo no país?
1. De fato, não foi apenas a cidade do Rio de Janeiro que mudou “de entreposto colonial
em capital do império”. Igual mudança também passou a colônia como um tudo,
especialmente, a atual região Sudeste. A presença da Corte portuguesa nessa região
fomentou a articulação de todo um mercado abastecedor para as despesas e os luxos da
Corte. Tal mercado fomentou igualmente a rearticulação de um grande fluxo
populacional, em que os atuais estados da região Sudeste, especialmente Minas Gerais,
destacam-se como os mais populosos da colônia.
2. No entanto, seria engano acreditar que todas essas séries de transformações provocadas
pela Corte portuguesa no Brasil se fizessem sem atritos. Se cidades e regiões próximas
ao Rio de Janeiro foram beneficiadas pela Corte portuguesa, outras regiões, como o
Nordeste, por exemplo, ressentiam-se do peso dos impostos e do privilegiamento de
portugueses no comércio, nos altos escalões do exército e na burocracia administrativa.
3. De modo geral, a presença da Corte portuguesa no Brasil significou a criação de mais
impostos não apenas para sustentar seus gastos e luxos, mas também para sustentar as
despesas militares da Coroa. Nesse aspecto, vale destacar que D. João enviou expedições
militares para invadir e ocupar, no Norte, a Guiana Francesa e, no Sul, a Banda Oriental,

29 - 68
atual Uruguai.
4. No entanto, apesar de estar no Brasil, a Corte não deixou de ser portuguesa e, muito
menos, de defender e privilegiar os interesses igualmente portugueses (FAUSTO, 1995).
Desse modo, como foi dito anteriormente, D. João reservou os cargos mais importantes
do comércio, do exército e da burocracia para os portugueses, provocando, com isso,
descontentamentos e ressentimentos entre os brasileiros. Além disso, tais
descontentamentos e ressentimentos tinham raízes regionais, especialmente no Nordeste.
Assim, de acordo com Fausto (1995, p. 128):
5. O sentimento imperante no nordeste era o de que, com a vinda da Família Real para o
Brasil, o domínio político da colônia passara de uma cidade estranha para outra
igualmente estranha, ou seja, de Lisboa para o Rio de Janeiro. A revolução que estourou
em Pernambuco em março de 1817 fundiu esse sentimento com vários
descontentamentos resultantes das condições econômicas e dos privilégios concedidos
aos portugueses. Ela abrangeu amplas camadas da população: militares, proprietários
rurais, juízes, artesãos, comerciantes e um grande número de sacerdotes, a ponto de ficar
conhecida como a “revolução dos padres”. Chama a atenção a presença de grandes
comerciantes brasileiros ligados ao comércio externo, os quais começavam a concorrer
com os portugueses, em uma área até então controlada, em grande medida, por estes.
6. Desse modo, o movimento que eclodiu em Pernambuco, em 1817, não se restringiu
somente àquela localidade e, muito menos, à capital Recife. A revolta rapidamente
espalhou-se por todo o sertão nordestino e contou com motivações e objetivos diversos
entre seus participantes. Isso porque, para a camada mais pobre da população, a
Revolução Pernambucana representava o meio para se obter não apenas a
independência, mas também a igualdade, ao menos de cima para baixo, na escala social.
Para os grandes proprietários e comerciantes, a revolução aparecia como uma
oportunidade para neutralizar a centralização imposta pela Coroa portuguesa e, em
paralelo, tomar para si as rédeas, se não do Brasil como um todo, ao menos da região
Nordeste (FAUSTO, 1995).
7. Apesar da divergência de interesses, havia um denominador comum para ambos: o
sentimento antilusitano. Dessa forma, os rebeldes tomaram o poder em Recife,
implantaram a república como forma de governo e proclamaram a igualdade de direitos,
bem como a tolerância religiosa. No entanto, a escravidão foi um ponto que permaneceu
intocado (FAUSTO, 1995).
8. Nesse aspecto, particularmente, vale destacar que a Revolução Pernambucana de 1817,
ao contrário da Inconfidência Mineira e da Conjuração dos Alfaiates, chegou a tomar o
poder e a implantar um programa de governo provisório, contudo, como um fato comum
aos três movimentos, havia a influência das ideias iluministas.
9. Entretanto, os revolucionários nordestinos permaneceram por pouco tempo no poder
devido ao despreparo e às divergências de interesses entre os líderes do movimento, que

30 - 68
não foi capaz de fazer frente ao ataque das tropas portuguesas vindas do Rio de Janeiro.
Desse modo, o movimento foi duramente reprimido, e os principais envolvidos foram
presos e executados. Embora reprimido o levante, o sertão nordestino continuou avesso à
autoridade do Rio de Janeiro. Isso tanto é verdade que, em 1824, a região novamente se
revoltaria com a Confederação do Equador.

31 - 68
História do Brasil II

Das unidades e questões auto-avaliativas:

Unidade 1
1. Qual a ligação que você reconhece entre a crise do Antigo Regime e o desenvolvimento
da economia capitalista?
1. A independência do Brasil está inserida em um contexto mais amplo de profundas
transformações mundiais, identificado como Crise do Antigo Regime. Ela integra um
conjunto expressivo de movimentos separatistas vitoriosos ocorridos na América, dos
quais foi um dos últimos. Outros países do continente, como a Argentina (1816), o Chile
(1818), o Paraguai (1811), a Venezuela (1811), a Colômbia (1819) e o Peru (1821), todos
ex-colônias da Espanha, conseguiram sua independência antes do Brasil.
2. Desde a segunda metade do século 18, o Antigo Regime foi alvo de duras críticas por
parte do pensamento iluminista. Todavia, ele se inseria na lógica de preservação do
regime monárquico,, sobrevivendo em meio à crítica e à sua crise – a tese de Reinhart
Koselleck (1999), em Crítica e crise. Logo em seguida, foi abalado pela Revolução
Francesa e, depois, pelas guerras napoleônicas.
3. Tais eventos deram um golpe mortal nas estruturas então vigentes e nos diferentes
planos: econômico, político, social e cultural. Eles constituem uma expressão do triunfo
das chamadas Revoluções Burguesas e do ideário liberal, os quais lançaram por terra
práticas econômicas vistas como arcaicas face ao avanço do capitalismo industrial e
colocaram em xeque determinadas formas de organização e representação política de
traços absolutistas, introduzindo novos atores políticos, que passaram a disputar o poder
com a nobreza – a burguesia e os trabalhadores –, produzindo transformações materiais e
culturais profundas, abarcadas sob a égide do conceito de modernidade.
4. Mais concretamente, a Revolução Industrial e a Revolução Francesa foram eventos
de larga repercussão em todo o mundo, não por acaso analisados juntos sob a rubrica de
dupla revolução por Eric Hobsbawm (1996). Conjuntamente, tais acontecimentos
levaram à formação do mundo contemporâneo, contexto em que ocorre a independência
do Brasil.
5. Um diagnóstico sobre essas transformações econômicas surge no pensamento
econômico produzido na época, sobretudo com Adam Smith e Jean-Baptiste Say. Com
as obras Riqueza das nações, de Adam Smith (1776), e O tratado de economia, de Jean-
Baptiste Say (1803), denunciava-se o caráter espoliativo do sistema colonial e ficava
explícita a desnecessária dominação metropolitana para o auferimento de vantagens
econômicas e comerciais.
6. O lucro e a riqueza surgiam da atividade econômica produtiva, tinham sua base no

32 - 68
trabalho e realizavam-se no circuito do comércio. Assim, a ênfase sobre a produção
fabril e industrial, bem como o desenvolvimento e controle do comércio em larga escala,
seriam responsáveis pela pujança econômica da Inglaterra.
7.
2. Que relação se pode traçar entre a independência brasileira e a atual situação do Brasil
na ordem mundial?
1.
3. Você acredita que a vinda da corte exerceu papel significativo para o processo de
emancipação política do Brasil?
1.
4. Qual(is) conceito(s) você considera imprenscindível(eis) para a compreensão das
questões abordadas nesta unidade?
1. Há, na historiografia brasileira, duas interpretações em relação à ruptura com Portugal:
uma de antagonismo e fissura entre metrópole e colônia e outra que vê esses dois
espaços como complementaridades, como âmbitos contíguos.
1. A primeira interpretação remete-se ao conceito de antigo sistema colonial, e coube a
Caio Prado Júnior (1976) estabelecer um verdadeiro paradigma na historiografia
brasileira a esse respeito: o Sentido da colonização. Sua interpretação parte do
materialismo histórico, e, em obra de 1942, ele integra a história brasileira à história
mundial, no contexto de formação do modo de produção capitalista, no qual a
colonização brasileira atenderia ao processo de acumulação primitiva de capital. O
ritmo do desempenho econômico no Brasil seria, aos olhos do autor, determinado
pela metrópole, lócus onde se daria a acumulação de capital. Trata-se de um sistema
em que a relação entre os dois polos, metrópole e colônia, é bastante rígida,
acentuando a dependência da colônia aos ritmos ditados na metrópole. Em outras
palavras, incorpora a discussão "cepalina" entre centro dinâmico e periferia
explorada.
2. Já a segunda interpretação entende metrópole e colônia como integrantes de um
mesmo universo sociocultural, como integrantes de um mesmo reino, aliás, de um
império: o império luso-brasileiro. No entanto, não deixa de valorizar as dinâmicas
econômicas engendradas no espaço da própria colônia, que, algumas vezes,
adquirem autonomia própria, pois a expansão das atividades econômicas na colônia
acaba formando um mercado interno considerável de abastecimento e de produtos
que se constitui graças à existência de excedentes e de capital que permanecem
no Brasil. Assim, juntamente com a crise ocasionada pelas revoluções na Europa, a
expansão econômica e os reclames de uma elite política no Brasil estimularam a
separação. Essa segunda interpretação, formulada pelos historiadores cariocas João
Fragoso e Manolo Florentino, refere-se ao império luso-brasileiro, em lugar de

33 - 68
antigo sistema colonial (FLORENTINO; FRAGOSO, 2001). Supera, também, a
visão ingênua de que o Brasil foi tão somente uma colônia de exploração, vendo na
independência um produto do ressentimento, uma reação, e não um projeto político
amadurecido. Esses historiadores revelam que as relações entre Brasil e Portugal não
eram tão rígidas, desmitificando a ideia de mercado interno restrito na colônia,
indicando a existência de autonomia nos ritmos econômicos vividos na colônia
(FRAGOSO, 1999). Afiançam, ainda, a contiguidade entre os espaços da colônia e
da metrópole, cujos vínculos foram sempre expressivos nos planos social, político e
cultural. Essa é a interpretação mais corrente na historiografia carioca, na qual se
destacam, sobretudo, Maria de Fátima Gouvea e João Fragoso.
2. De certo modo, os autores anteriormente citados salientam algo também percebido por
Luiz Felipe de Alencastro (1995) em relação ao comércio negreiro, no qual havia
intensa participação de brasileiros. Ao contrário de Fernando Novais (1979), que destaca
a externalidade da acumulação como um dos elementos mais importantes do antigo
sistema colonial, a historiografia carioca tem demonstrado que a acumulação também
se dava no espaço da colônia.
3. Esses historiadores sinalizam, ainda, vínculos consideráveis entre brasileiros e
portugueses, e não uma mera aversão ou rivalidade que culminaria em rompimento
absoluto. Não por acaso, brasileiros e portugueses uniram-se em prol da independência;
muitos portugueses optaram por se nacionalizar, e outros milhares imigraram para o
Brasil nos anos seguintes. Sérgio Buarque de Holanda (1995) também realça essa
relação de mútuas dependências, acentuando, também, a seu modo, tradições e vínculos
duradouros responsáveis por ritmos peculiares na trajetória brasileira, cuja marca de
origem lusa seria responsável pela herança colonial brasileira.
4. Assim, somente as dificuldades do reino explicariam a liberdade ou a possibilidade de
ruptura do pacto colonial ou, ainda, a emancipação da colônia. Só a debilidade de
Portugal, nessa lógica, explicaria a independência brasileira, descartando a
possibilidade de um fortalecimento da antiga colônia a tal ponto que pudesse desejar ter
vida política própria. Esse é outro ponto de significativa diferença entre a interpretação
da historiografia paulista e da historiografia carioca.
5. O que pretendemos mostrar aqui é que tanto a debilidade política em Portugal,
relacionada à crise do absolutismo monárquico e às guerras napoleônicas, quanto o
fortalecimento político-econômico no Brasil são igualmente fatores responsáveis pela
emancipação política. Também, que a independência foi um processo, e não um evento
isolado, porque se relaciona com esses fenômenos e se torna algo mais concreto com a
transferência da corte portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro. São eventos
relacionados, cujos desdobramentos significaram uma alteração radical nas práticas
sociopolíticas vivenciadas no território da colônia.
6. Processo de independência brasileira - A emancipação política compreende o espaço
de tempo que vai de 1808, com a chegada de D. João VI ao Brasil, a 1822, quando se dá

34 - 68
a separação de Portugal. De qualquer modo, em 1815, elevado à condição de Reino
Unido de Portugal, Brasil e Algarves, extinguiu-se o estatuto de colônia. Entretanto,
para alguns daqueles contemporâneos, a emancipação e a soberania brasileira só se
efetivam em 1831, quando o despotismo de D. Pedro I é derrotado pelos liberais
brasileiros e a geração exclusivamente coimbrã que ocupava o governo imperial é
derrotada por uma nova elite formada em território brasileiro, nas faculdades de
Olinda e de São Paulo. Aqui teria se completado a obra de emancipação da influência
portuguesa.
7. O regime adotado após a independência é indício seguro da preservação das tradições
luso-brasileiras, de um congraçamento entre aqueles que se engajaram na separação,
evitando a guerra civil generalizada. Para Maria de Lourdes Vianna Lyra (1994), a
emancipação não foi uma ruptura radical com a pátria-mãe. O que estava em questão
era, nas palavras de Sérgio Buarque de Holanda (1997), mais um desejo de autonomia
que uma questão nacional. Aqui passamos à segunda questão, sobre o caráter da
independência.
8. Para Nelson Werneck Sodré (2004), a independência brasileira foi uma revolução
passiva, pois significou a manutenção de um bloco histórico contrarrevolucionário,
formado pelas elites portuguesas e brasileiras atreladas ao poder, com a manutenção do
status quo: escravidão, latifúndio e dependência comercial externa. Ou seja, foi
conservadora. José Honório Rodrigues (1975) entende-a como reformista, visto serem
adequados alguns preceitos constitucionais e institucionais que se modificam com o
tempo, adequando-se às práticas político-sociais e aos costumes brasileiros, enfatizando
os imperativos do escravismo. Em outras palavras, para ele, a independência não foi nem
revolucionária nem totalmente contrarrevolucionária.
9. É preciso, contudo, distinguir a independência do processo de construção do Estado e da
nação. Embora relacionados, a emancipação deve ser vista como um processo que se
inicia em 1808, precipita-se em 1822, mas segue até 1831, como indicam Sérgio
Buarque de Holanda (1997) e Evaldo Cabral de Mello (2005). Para a construção do
Estado, objeto da unidade seguinte, veremos que são outras questões que se colocam, do
ponto de vista jurídico e institucional. Por fim, a construção da nação é um processo
mais lento, que prosseguiria ao longo de todo o século 19 e início do século 20.
10. A última questão, mais em desuso, acerca dos partidos em luta durante a independência
hoje reconhece a imprecisão de se utilizar rubricas como Partido Brasileiro ou Partido
Português para analisar o período.
11. A rigor, havia três grandes forças políticas disputando espaços na arena política: os
corcundas ou leais às diretrizes de Lisboa, que preconizavam a manutenção dos laços
entre Brasil e Portugal; os republicanos ou radicais, que reuniam brasileiros afeiçoados
ao princípio democrático e que desejavam uma ruptura e uma renovação das estruturas
vigentes, e os liberais, que paulatinamente aderiram à emancipação com a conservação
do princípio monárquico.

35 - 68
12. De qualquer modo, Maria de Lourdes Viana Lyra (1992) demonstrou que a separação
se deveu mais à incompetência das elites de ambos os lados do Atlântico em preservar a
monarquia do que a um desejo latente de criação de um novo Estado. Em relação às
ideologias, Fernando Novais (1979) havia demonstrado a existência de três discursos
naquela conjuntura: o reformista monárquico-constitucionalista, o revolucionári-
republicano e o revolucionário-popular haitiano, cujos líderes Toussaint-Louverture e
depois Dessalines derrotaram os colonizadores, resistiram à Inglaterra e derrubaram o
exército napoleônico. Esse último era repelido pelas elites brasileiras e portuguesas.
13. Kenneth Maxwell (in MOTA, 2000) acertadamente procura demonstrar que 1820, e não
1822, representa o momento decisivo da ruptura. As exigências das Cortes de Lisboa e o
movimento vintista, ou seja, a Revolução do Porto, ao pressionarem D. João VI a aceitar
uma constituição e ao aderir à nova ordem que se propugnava, fizeram que ele revidasse,
deixando o príncipe regente no Brasil, como um modo de garantir a sobrevivência da
monarquia, naquele momento, correndo risco em Portugal.
14. Caso D. João VI sobrevivesse, após sua morte, seu filho D. Pedro I poderia, novamente,
restaurar o império luso-brasileiro. Se não divergiam sobre a indivisibilidade do reino, as
cortes não encontraram consenso sobre onde deveria ficar sua sede. Eis o ponto fulcral
da questão, responsável pela ruptura. O grande problema em Portugal foi, contudo, a
deflagração da Revolução do Porto. Também conhecida como "vintismo", essa
revolução pretendia uma regeneração. Vivendo sob o marasmo econômico e a ocupação
militar britânica liderada por Beresford desde 1809, a burguesia comercial aliou-se à
parte da nobreza, exigindo a volta do rei, e implantou as Cortes de Lisboa para votar
uma constituição para Portugal.

5. Quais pontos você destacaria como importantes no texto?


1.
6. Quais tópicos você pensa que poderiam ser melhorados?
1.

Unidade 2
1. Por que a construção do Estado se deu antes e não foi acompanhada pela construção
da nação no Brasil durante o império?
1. Há um consenso na historiografia que entende a construção do Estado brasileiro como
balizada entre 1822 e 1850, ou seja, da independência às grandes reformas jurídicas e
institucionais que, com o gabinete conservador de 1848, firmaram uma base consolidada
para o governo imperial, as quais durariam, com pequenas alterações, até a proclamação
da república. Esse gabinete era liderado pela Trindade Saquarema, grupo

36 - 68
ultraconservador carioca formado pelo Visconde do Uruguai e de Itaboraí e por Eusébio
de Queiroz. Ele se formou em 1848 e foi dissolvido em 1852. Uma coisa, portanto, é a
construção do Estado – relacionada à administração, ao governo e à organização
institucional, cujo marco é 1850. Outra é a emergência do nacionalismo.
2. Já a formação da nação deve ser entendida como um processo de longa duração, visto o
amálgama de uma única identidade nacional para o extenso território brasileiro ter sido
uma difícil tarefa, cujo arremate teria sido obtido somente na Era Vargas, quando o rádio
e, posteriormente, a TV conseguiriam construir uma imagem mais ou menos conceitual
do Brasil e do brasileiro. Durante o século 19, é importante observar as matizes e os
revezes em torno da identidade nacional brasileira, sobretudo com a existência de
inúmeros movimentos de exceção, em que se questionou o pertencimento à pátria.
2. Qual é a relação entre a descentralização política e as províncias e o governo imperial
localizado no Rio de Janeiro?
1. Os conceitos fundamentais que norteiam as discussões travadas sobre a organização
política durante o império são o de centralização e o de descentralização, que analisam a
relação entre governo imperial, localizado no Rio de Janeiro, províncias e municípios.
Como veremos mais adiante, após a emancipação e a adoção da Constituição de 1824, as
estruturas do poder voltavam-se para a figura do imperador, por meio da adoção do
Poder Moderador, bem como mantinham vestígios de instituições conservadoras do
Antigo Regime, como o Senado e o Conselho de Estado vitalícios.
2. Entretanto, isso não impediu que existissem espaços ou períodos de maior
descentralização administrativa, sobretudo no período regencial. Alguns autores chegam
a falar em federalismo, como o faz Gabriela Nunes Ferreira (1999), em Centralização e
descentralização no império, um dos principais estudos sobre o tema.
3. Antes de tudo, é preciso considerar a construção do Estado imperial brasileiro, durante o
século 19, como um processo de ampliação da autoridade, da lei e da ordem da corte em
direção às províncias. Desde o início, colocava-se a centralização como o ponto de
partida. O governo imperial deveria concentrar sobre si o poder, submetendo as
províncias à sua autoridade.
4. A ampliação da capilaridade do poder é o principal traço da construção do Estado
brasileiro, que se apoiará nas lideranças municipais e provinciais para se firmar,
aproximando os indivíduos de maior expressão, integrando-os ao governo imperial. Em
contrapartida, não raro, proprietários e comerciantes buscaram aproximar-se desse
Estado, a fim de conferir-lhe o contorno e dar-lhe o tom.
5. Há, como se depreende, um pacto, uma adesão, na maioria das vezes tácita, algo
praticamente consensual em toda historiografia.
6. O medo do haitianismo, a ponderação, o senso arguto da realidade, o conservadorismo e
o pessimismo, aliado ao sentimento de insegurança, foram os motores que conduziram a
uma arregimentação desse grupo e à formação de um sentimento uniforme em relação ao

37 - 68
futuro do Brasil. O Estado construído atenderia a esses interesses mais prementes. Logo
de início, as representações regionais, localizadas no Senado, mas em larga medida no
Parlamento, perceberam que o governo de D. Pedro I e a Constituição de 1824
conferiam pouca autonomia ou pouca participação política às províncias. Tal fato
provocou a reação da elite imperial, tema desenvolvido pelo historiador José Murilo de
Carvalho.
7. A adesão quase incondicional à reação da elite, urdida em 1822, reconheceu, a partir de
1824, inclinações autoritárias do governo do primeiro imperador. A oposição organizou-
se face ao que se denominou despotismo de D. Pedro I.
8. Não bastasse isso, a essas reivindicações provinciais, somou-se o desgaste econômico e
político após o conflito na Cisplatina, iniciado em 1825, que culminou com a
independência da região que hoje é o Uruguai. As formas de recrutamento e a
insensibilidade política de D. Pedro I agravaram o desgaste de seu governo e, por fim,
levaram à sua abdicação em 7 de abril de 1831. Isso reforça a ideia da importância das
elites na vida política, desde a independência até a abdicação, como um protagonista dos
acontecimentos.
9. O surgimento do Brasil independente, portanto, nada teve de revolucionário. Tratou-se,
antes, da integração de boa parte da elite brasileira, motivada pela insegurança que uniu
setores das classes dominantes em torno da corte carioca, cujo apoio seria decisivo no
equacionamento dos conflitos locais e regionais.
10. A aliança do governo do Rio de Janeiro com a Inglaterra, principal potência da época,
não deixava margem para insurreições separatistas. Do mesmo modo, a rivalidade
existente nas províncias e localidades era explorada pelo governo imperial, que dava
apoio aos grupos mais fortes, integrando-os ao Estado. Assim, os opositores do novo
regime não tinham muito a quem recorrer. Ou aderiam ou colocariam em risco posses,
cabedal e influência.
11. Em todas essas leituras, existe uma dicotomização entre sociedade e Estado, entre
liberdade e autoridade, entre público e privado. Somente com a obra O minotauro
imperial, de Fernando Uricoechea (1978), que um novo esquema interpretativo passou a
conceber autonomias relativas e certa dialética na relação entre Estado e sociedade
(URICOECHEA, 1981). A singularidade de seu modelo reside no compromisso
existente entre o poder público e privado para a sustentação da ordem. Assim, em vez de
dicotomia, o autor reforça a existência de compromissos, de reciprocidade.
12. Seguindo esse mesmo raciocínio, com pequenas alterações, surgiram as duas obras que
se tornaram clássicas a respeito da formação do Estado brasileiro. Respectivamente, A
construção da ordem, de José Murilo de Carvalho (1980), e O tempo saquarema, de
Ilmar Rolhloff Mattos (1987). Para eles, o processo de construção culmina com as
grandes reformas de 1850, que consolidaram um Estado que permaneceu praticamente
inalterado até 1889. Desde o Primeiro Reinado, passando pelo conturbado período

38 - 68
regencial, esses autores demonstram que somente com a ascensão de D. Pedro II ao
trono, em 1840, foi possível dar ensejo a uma grande obra
13. de centralização do poder na corte e de afirmação da autoridade face aos interesses
provinciais.
14. É preciso ressaltar que a centralização do Primeiro Reinado foi alterada durante as
regências, sobretudo com o chamado Avanço Liberal, desencadeado a partir de 1834,
que provocou uma descentralização do poder, conferindo maior autonomia às
províncias. Tratava-se, mormente, de atender aos reclamos regionais para impedir a
separação de províncias que se encontravam em meio a convulsões políticas.
15. Esse foi, especialmente, o caso da Revolução Farroupilha, importante evento de caráter
republicano ocorrido na província de São Pedro do Sul (Rio Grande do Sul), entre 1835
e 1845, que resultou na declaração da independência da província e na proclamação da
República Rio-grandense, com capital em Piratini. O movimento estendeu-se até a costa
de Santa Catarina, onde foi proclamada a República Juliana, tendo como líderes Bento
Gonçalves, General Neto, Onofre Pires, Lucas de Oliveira, Vicente da Fontoura, Pedro
Boticário, Davi Canabarro, Vicente Ferrer de Almeida e José Mariano de Mattos. Sofreu
inspiração ideológica de italianos carbonários refugiados, como Tito Lívio Zambeccari e
Luigi Rossetti, além de Giuseppe Garibaldi.
16. No bojo das reformas de 1834, descentralizou-se o Poder Judiciário, conferindo-se poder
aos juízes de paz e à Fazenda, com a possibilidade de as províncias legislarem sobre os
impostos de entrada e a administração, sobretudo com a criação das Assembleias
Legislativas Provinciais. Igualmente, extinguiu-se o Conselho de Estado, visto não ser
necessário um conselho privativo para a figura do monarca.
17. Medida emergencial para salvar a ordem e manter unida uma elite nacional espalhada
em um vasto território, o Avanço Liberal não teve vida longa, bem como não conseguiu
aplacar as revoltas que pipocavam no território brasileiro, levando este ao Regresso
Conservador. A existência de resistências ou divergências face à direção política
emanada a partir do governo do Rio de Janeiro levou à explosão de diversas revoltas, das
quais as principais foram:
1. Balaiada: irrompeu no Maranhão e Piauí entre 1838 e 1841 e reuniu indígenas,
brasileiros e escravos.
2. Cabanagem: eclodiu no Grão-Pará entre 1835 e 1840, sendo um dos conflitos mais
sangrentos da história brasileira, com a participação de pequenos proprietários,
índios, escravos e homens livres pobres, estimando-se a morte de 30 mil pessoas
durante os combates.
3. Sabinada: eclodiu na Bahia entre o final de 1837 e o início de 1838, tendo caráter
eminentemente urbano, mas sem caráter separatista ou republicano, como se
pretendeu demonstrar.

39 - 68
18. É importante ressaltar que esteve em cheque, o tempo todo, a adesão ao governo
imperial, para evitar-se separatismos. Segundo José Murilo (1980), uma formação
uniforme e o aprendizado político integravam os membros da elite à burocracia imperial,
o que seria responsável pela manutenção da ordem, da propriedade e da autoridade do
governo.
19. Para Ilmar Mattos (1987), a construção do Estado imperial brasileiro deveu-se,
sobretudo, à direção imposta com o Regresso Conservador, que, em 1837, ainda no
período regencial, ao colocar Pedro de Araújo Lima como regente, trouxe para o
governo os representantes do Partido Conservador, também chamados "saquaremas",
que seriam responsáveis pela construção desse Estado, fornecendo não somente a
direção política, mas também a moral, ou seja, impondo seu projeto no plano político e
no plano social. Como se vê, sua análise toma dois conceitos fundamentais para a
compreensão do Estado: o de hegemonia, extraído de Antonio Gramsci (1990), e o de
experiência, de Edward P. Thompson (2001).
20. Recentemente, outra interpretação buscou relativizar essa hegemonia absoluta
saquarema à frente do Estado imperial brasileiro. Trata-se de O pacto imperial, de
Miriam Dolhnikoff (2005), em que a autora procura demonstrar a presença do ideário
liberal e dos liberais como também presentes na construção desse Estado, tomando como
centro de sua análise a demonstração de que uma de suas principais metas – a defesa do
federalismo, ou, em outras palavras, da autonomia provincial – foi mantida em
diferentes níveis, sobretudo no plano judiciário e no plano administrativo.
21. Tanto o Código do Processo Criminal de 1832 quanto a criação e permanência das
Assembleias Provinciais Legislativas, criadas pelo Ato Adicional de 1834, são
evidências disso, pois conferiam autonomia à província e foram mantidos mesmo após o
Regresso Conservador. As mudanças legais são importantes para se caracterizar o
período e compreender as relações políticas existentes, haja vista a legislação em torno
da participação política.
22. O livro de Miriam Dolhnikoff (2005), embora não analise, exatamente, o teor do
federalismo brasileiro, e ainda que aponte suas diferenças em relação ao modelo
americano, consegue demonstrar uma maneira diferente de se compreender o binômio
centralização/descentralização. Em outras palavras, contrariando a tese de Ilmar Mattos
(1987), ele indica que a reação monárquica centralizadora empreendida pelos
saquaremas esconde, em seu bojo, o princípio federativo. De fato, compreender a
manutenção da unidade territorial após a independência é um tema que sempre chamou a
atenção da historiografia. Dolhnikoff (2005) não percebe uma questão contraditória
nesse olhar de diferentes historiadores que indicam que:
1. [...] séculos de colonização haviam engendrado na América lusitana regiões distintas
e com fracos vínculos entre si, fossem políticos ou econômicos, cujas elites
demandavam autonomia para gerir seus interesses sem a interferência de governos a
elas externos, nem o de Lisboa, nem o do Rio de Janeiro (DOLHNIKOFF, 2005, p.

40 - 68
11). Havia, sim, vínculos efetivos entre diferentes regiões, laços de parentesco ou
comerciais, que uniam mineiros e paulistas, paulistas e gaúchos, baianos e
pernambucanos, paraenses e maranhenses etc.
23. Embora houvesse forças centrífugas em relação ao centro administrativo, seja em
Lisboa, seja no Rio de Janeiro, não é possível negar a existência de elementos de
agregação e integração. Isso significa que existiam elementos de fragmentação, como,
por exemplo, a distância em relação à corte ou a interesses específicos em certas
questões econômicas, ou, ainda, a experiência histórica de autonomia relativa, bem
como elementos de agregação, como o interesse em preservar o escravismo e a (grande)
propriedade.
24. Não se pode, contudo, esquecer que o Estado não é uma entidade com vida própria, mas,
sim, uma instituição formada por indivíduos. A dicotomia entre o público e o privado,
que muitas vezes aparece em certas abordagens, não existe na totalidade, como atestam
os trabalhos de Uricoechea (1978), Carvalho (1980) e Mattos (1987). A autora revela
que, à época da independência, coexistiram alguns projetos políticos para a nação:
republicano, monárquico, centralizado ou federativo. Sobrevaloriza o tema de seu estudo
ao dizer que:
1. [...] a solução republicano-federativa estava no centro do debate político, como um
dos caminhos possíveis para responder às demandas das elites empenhadas na
construção das novas nações a partir do passado colonial (DOLHNIKOFF, 2005, p.
12).
25. Dolhnikoff (2005) passa, então, a demonstrar que a historiografia brasileira não percebe
a permanência e a importância do princípio federativo na organização do Estado
imperial. Dolhnikoff (2005) vê duas abordagens para essa questão. Uma delas é
representada pela corrente de Sérgio Buarque de Holanda, Maria Odila Silva Dias e de
Ilmar Mattos, que atribuem uma vitória sobre as forças centrífugas herdadas do período
colonial com a centralização efetivada a partir de 1840, ou seja, a derrota do
federalismo, e outra por Evaldo Cabral de Mello (1994), para o qual a vitória da unidade
política teria ocorrido no processo de independência, que não conseguiu derrotar os
provincialismos, especialmente o pernambucano e o gaúcho.
26. O que talvez não tenha sido suficientemente esclarecido é que parte dessa elite política
brasileira não entendia o federalismo americano: nem os liberais, que se serviam deste
para defender liberdades demasiadas para os governos provinciais, nem os
conservadores, que implementavam alguns dos postulados de Hamilton sem fazer
menção disto, visto associarem o princípio federativo ao democrático e ser a democracia
um regime profundamente indesejável. Inúmeros preceitos que aparecem nos textos dos
federalistas eram muito utilizados pelos parlamentares brasileiros. Hamilton foi, diversas
vezes, citado no Parlamento, mas o termo federação era evitado, malvisto e, por que não
dizer, mal-compreendido, pois evocava o regime republicano.

41 - 68
27. Outro aspecto relevante trata da possibilidade de existir a autonomia provincial, e isso a
França deixa claro com a monarquia. Do mesmo modo que não houve centralização
absoluta na França monárquica, também não havia descentralização absoluta nos
Estados Unidos. Mesmo entre os americanos, o federalismo foi usado como forma de
concentrar o poder nas mãos do Estado, pressupondo a ênfase na intervenção política e
econômica em nome da nação. Isso certamente era do conhecimento da elite política
brasileira.
28. Um exercício fecundo que Dolhnikoff (2005) não faz seria analisar, sob o enfoque da
confederação, e não da federação, algumas das proposições realizadas pelos políticos
brasileiros. Os episódios em Pernambuco de 1817 são sugestivos a esse respeito, pois,
naqueles eventos, assumiram uma perspectiva separatista, confederada.
3. Que considerações você faria a respeito das tentativas ou ideias de separatismo durante
o século 19 no Brasil?
1. A aliança do governo do Rio de Janeiro com a Inglaterra, principal potência da época,
não deixava margem para insurreições separatistas. Do mesmo modo, a rivalidade
existente nas províncias e localidades era explorada pelo governo imperial, que dava
apoio aos grupos mais fortes, integrando-os ao Estado. Assim, os opositores do novo
regime não tinham muito a quem recorrer. Ou aderiam ou colocariam em risco posses,
cabedal e influência.
2. É preciso ressaltar que a centralização do Primeiro Reinado foi alterada durante as
regências, sobretudo com o chamado Avanço Liberal, desencadeado a partir de 1834,
que provocou uma descentralização do poder, conferindo maior autonomia às
províncias. Tratava-se, mormente, de atender aos reclamos regionais para impedir a
separação de províncias que se encontravam em meio a convulsões políticas.
3. Esse foi, especialmente, o caso da Revolução Farroupilha, importante evento de caráter
republicano ocorrido na província de São Pedro do Sul (Rio Grande do Sul), entre 1835
e 1845, que resultou na declaração da independência da província e na proclamação da
República Rio-grandense, com capital em Piratini. O movimento estendeu-se até a costa
de Santa Catarina, onde foi proclamada a República Juliana, tendo como líderes Bento
Gonçalves, General Neto, Onofre Pires, Lucas de Oliveira, Vicente da Fontoura, Pedro
Boticário, Davi Canabarro, Vicente Ferrer de Almeida e José Mariano de Mattos. Sofreu
inspiração ideológica de italianos carbonários refugiados, como Tito Lívio Zambeccari e
Luigi Rossetti, além de Giuseppe Garibaldi.
4. A existência de resistências ou divergências face à direção política emanada a partir do
governo do Rio de Janeiro levou à explosão de diversas revoltas, das quais as principais
foram:
1. Balaiada: irrompeu no Maranhão e Piauí entre 1838 e 1841 e reuniu indígenas,
brasileiros e escravos.
2. Cabanagem: eclodiu no Grão-Pará entre 1835 e 1840, sendo um dos conflitos mais
sangrentos da história brasileira, com a participação de pequenos proprietários,

42 - 68
índios, escravos e homens livres pobres, estimando-se a morte de 30 mil pessoas
durante os combates.
3. Sabinada: eclodiu na Bahia entre o final de 1837 e o início de 1838, tendo caráter
eminentemente urbano, mas sem caráter separatista ou republicano, como se
pretendeu demonstrar.
4. Quais conceitos você considera importantes para a compreensão das questões
abordadas nesta unidade?
1. O nome deste tópico também foi usado por István Jancsó e João Paulo Pimenta (2000)
para analisar o nacionalismo brasileiro no século 19. Em seu texto, eles trabalham com
dois conceitos fundamentais: identidade(s) política(s) e vocabulário político, dialogando
com Benedict Anderson (2008) e Eric Hobsbawm (1998), historiadores que se
debruçaram sobre a questão do nacionalismo e a constituição das identidades políticas na
Europa, bem como com Reinhart Koselleck (2006), ao tratar da formação de uma
consciência histórica nacional, da relação entre os projetos para o futuro ou da
experiência política vivida no Brasil no contexto da emancipação e ao retraçar a
semântica nas falas que expressavam o pensamento político e a compreensão das
identidades com base na análise dos conceitos de pátria, país e nação no Brasil
oitocentista.
2. Os autores mostram como os dois manifestos escritos na Inglaterra pelos deputados
brasileiros que fugiram de Lisboa temendo ser presos ou deportados revelam diferentes
expressões acerca de suas concepções de pátria, nação e país. Ou seja, naquele
momento, "Brasil" não identificava uma pátria comum. Baianos, paulistas ou
pernambucanos utilizavam o termo "pátria" para identificar sua terra natal, sua
província, seu local de nascimento. Assim, chamavam a Bahia, São Paulo ou
Pernambuco, respectivamente, de pátria. Ao referirem-se à nação, o conceito exprimia
sempre um pertencimento ao império luso-brasileiro. A nação era sempre o Reino de
Portugal, incluídas aí as províncias do Brasil; logo, o sentimento nacional expressava-se
sempre como luso-brasileiro, e somente a presença dos deputados brasileiros e a crise
nas Cortes de Lisboa colocariam esse sentimento de união em xeque.
3. Na verdade, outros autores conseguem dar maior visibilidade aos problemas vivenciados
nas Cortes de Lisboa, que foram muitos e bastante complexos. Alguns deputados
brasileiros aderiram às proposições feitas pelos reinóis; outros desejavam manter a união
sem abrir mão da manutenção do status adquirido com a presença da corte no Brasil;
outros, a alternância da capital entre o Brasil e Portugal; outros, a igualdade entre os
cidadãos, colocando a escravidão como um dos males que afligiam a América portu-
guesa; e outros, uma constituição ou, até mesmo, determinados artigos, específicos para
o Brasil.
4. É preciso refletir sobre o simplismo que, muitas vezes, expressa a questão da
independência brasileira. Acreditou-se, durante um bom tempo, tão somente numa

43 - 68
divergência entre os brasileiros e os portugueses. Estes tentavam recolonizar os
brasileiros, que resistiram a isso, provocando a ruptura. Como se vê, o processo não foi
tão simples assim. Segundo os autores, "não se deve tomar a declaração da vontade de
emancipação política como equivalente da constituição do Estado nacional brasileiro"
(JANCSÓ; PIMENTA, 2003, p. 133). Em outras palavras, o Estado brasileiro não surgiu
com a independência, tampouco a nação, menos ainda a pátria.
5. Benedict Anderson (2008) e Eric Hobsbawm (1998) deixam claro que, tanto na Europa
quanto no Brasil, a criação do Estado antecede à da nação. Aliás, somente depois de
instalado o Estado é que este toma para si a tarefa de construção da nação. Já a
construção de uma identidade política que vincule um determinado povo ao sentimento
de pertença a uma mesma terra, ou seja, à pátria, é feita somente em sua longa duração
como identidade imaginária.
6. No Brasil, a tarefa para a construção dessas identidades, no plano do governo, foi
implementada somente com a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em
1838. Esse órgão teve como tarefa construir uma história e uma geografia da nação
brasileira, e sua missão era estudar a formação do Brasil desde suas origens, no
descobrimento, bem como reforçar sua unidade e identidade. Não por acaso, foi criado
após a abdicação e em meio à crise regencial.
7. Duas matrizes interpretativas informam-nos sobre a emancipação política brasileira. A
primeira vincula-se à crise do antigo sistema colonial, e a segunda pode ser denominada
"arqueologia da nação". Enquanto a primeira se vincula à leitura externa da cri- se que
levou à independência, representada pelo modelo interpretativo de Caio Prado Júnior
(1986) e Fernando Novais (1979), a segunda enfatiza os matizes e a composição de
interesses internos e sua mobilização, ensejando a separação da antiga metrópole.
8. Atualmente, o primeiro paradigma tem sofrido reveses tanto por parte da obra de
Alexandre Valentim (2000) quanto por Fragoso e Florentino (1995). O segundo
paradigma procura associar o separatismo a um mito de origem da pátria, muitas vezes o
associando ao nativismo, embora esse conceito seja bastante problemático.
9. O princípio monárquico foi fundamental para a sedimentação de um sentimento de
nação, e a simpatia por D. Pedro II foi responsável por uma adesão praticamente
irrestrita. Mesmo nos movimentos incendiários da Cabanagem, os líderes do movimento
expressavam sua adesão ao futuro imperador, o que é mais um indício das simpatias
monárquicas.
10. A partir daí, a antiga identidade luso-americana tornava-se luso-brasileira e um elenco de
identidades políticas que coexistiam começava a autonomizar-se. A nação brasileira
podia agora ser pensada como uma comunidade política imaginável (ANDERSON,
1995). Tal processo não se deu de modo linear nem uniforme e contou com duas
iniciativas fundamentais emanadas da corte imperial, as quais contaram com viva adesão
da elite imperial.

44 - 68
11. O processo de construção de uma identidade para a nação brasileira teve dois marcos: a
criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Casa da Memória Nacional.
Também importante foi a construção do Colégio D. Pedro II no Rio de Janeiro, o qual
ficou encarregado de formar as elites da corte.
12. A questão, no entanto, não deveria se referir tão somente à construção das diferenças
para se impor uma identidade política brasileira, mas, sim, a em que essa identidade
política era semelhante à das demais nações. Seu fundamento cultural foi marcado pelo
idealismo romântico, o qual exigia um momento fundador do povo brasileiro, que vai ser
buscado nos índios, embora estes não integrassem a sociedade política. A civilização e as
luzes, trazidas pelos portugueses, não podiam, porém, ser negadas; é o que se vê em
romances como Iracema e O guarani. Aos negros, não era possível consentir importância
para as origens do Brasil, e esse será o desafio imposto aos letrados e aos membros do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
13. Os deputados nas cortes perceberam que era mais fácil fazer alianças com os demais
deputados brasileiros do que com os portugueses, evitando-se uma ruptura na ordem
social. As instruções levadas pelos paulistas demonstravam que "[...] o Brasil é um reino
bem como Portugal; ele é indivisível, e desgraçados daqueles que tentarem contra a sua
categoria e grandeza, desmembrando suas províncias para [aniquilá-lo]" (JANCSÓ;
PIMENTA, 2000, p. 170).
14. Os deputados constituintes brasileiros reforçaram suas alianças, independentemente de
sua região de origem, com vistas a manter o status adquirido pelo Brasil e, se possível,
obter a separação. Essas ideias ganharam força (havia jornais que sustentavam essa
mesma opinião) e terreno também no Brasil, mediante uma ação organizada e eficiente
junto ao príncipe regente, conseguindo sua adesão ao movimento.
15. Assim, o Brasil tornou-se pátria-mãe, deixando de ser reino-irmão de Portugal, em meio
a um mosaico de diferenças, no qual o processo de construção da nação, e mesmo do
Estado, seria conduzido após a emancipação. Para Jancsó e Pimenta (2000, p. 174), um
dos objetivos desse Estado era "[...] manter sob controle o inimigo interno".
5. Que pontos você destacaria no texto como fundamentais para a sua melhor compreensão?
6. Você identificou algum tópico nesta unidade que, em sua opinião, precisa ser aperfeiçoado?

Unidade 3
1. Qual é o conceito que permite a melhor compreensão da sociedade brasileira durante o
império? Ela era uma sociedade de classes?
1. Um dos debates mais característicos a esse respeito trata da caracterização dessa
sociedade. Seria ela estamental, como o deseja Raymundo Faoro (1956); feudal, como
indica Nestor Duarte (2009); estamental-escravista, como quer Florestan Fernandes

45 - 68
(2006); ou capitalista e de classes, como sinaliza Caio Prado Júnior (1982)? Esses
historiadores constituem momentos fundadores da reflexão em torno da sociedade
brasileira. Antes de tudo, é preciso dizer que, embora já integrado ao capitalismo, modo
de produção no qual são polarizadas duas situações de classe, proletários e capitalistas, a
presença do escravo surge como um complicador na aplicação do conceito de classes
para o Brasil Império. A separação entre capital e trabalho, com a presença do escravo,
não se realiza completamente.
2. Não podemos falar em sociedade de tipo feudal – termo inapropriado, visto não existir
o instituto da servidão no Brasil, que, aliás, já havia praticamente desaparecido do
mundo contemporâneo europeu. Portanto, ao que tudo indica, temos uma sociedade cuja
formação econômico-social revela uma especificidade na qual escravos convivem com
homens livres, e ambos têm sua condição social marcada pelo nascimento.
3. Embora fosse possível a mobilidade social, particularmente para os livres, ela era
bastante restrita para os escravos, de modo que há a predominância de um recorte de tipo
estamental. Assim, a principal marca dessa sociedade é sua polarização entre homens
livres e escravos. E ela é profundamente conservadora e autoritária, pois a condição
social era, em larga medida, legada pela condição de nascimento, tornando a
mobilidade social pequena e a participação política restrita pela renda.
4. É preciso lembrar que havia negros livres, assim como brancos, mulatos ou índios que
eram escravos. Evidentemente que a população escrava era composta, maciçamente,
por negros – boa parte vinda do continente africano. Mas devemos construir uma
imagem homogeneizadora para o escravismo. Aliás, há todo um empenho da
historiografia em desmitificar determinados estereótipos, buscando a subjetividade e as
particularidades da escravidão em diferentes regiões do Brasil.
2. Quais são as duas principais linhas historiográficas que conduzem os estudos sobre a
escravidão no Brasil? Indique um autor de cada uma delas.
1. Em linhas gerais, podemos dividir as interpretações sobre o escravismo em abordagens
marxistas ou não. Do ponto de vista cronológico, também entre os estudos realizados
antes e após das comemorações do centenário da abolição, em 1988.
2. Na historiografia brasileira, a análise do escravismo é tratada, sobretudo, a partir de duas
vertentes: a marxista e a da história nova. De fato, até meados dos anos 1980,
predominavam os estudos do tipo marxista sobre a escravidão brasileira, com destaque
para as obras de Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Jacob Gorender, Ciro
Flamarion Cardoso e Fernando Henrique Cardoso.
3. A partir dos anos 1980, surge uma predominância de abordagens inspiradas na Escola
dos Annales, que se distanciam do marxismo e passam a se interessar por estudos não
mais estruturais ou sistêmicos de caráter generalizante, dedicando-se à análise serial de
casos e, também, de recorte micro-histórico, além de introduzir temas que até então não
haviam sido estudados, como o casamento, a festa, os quilombolas etc.

46 - 68
4. Vale destacar a formulação original de Gilberto Freyre, que, na obra Casa-grande e
senzala, publicada em 1933, revelou que, além do uso da força e da violência sobre o
escravo, havia outras facetas de sua relação com os senhores e que era preciso analisar,
detidamente, os matizes da escravidão nos centros urbanos e no mundo rural.
5. Para alguns, ao falar desse abrandamento, Freyre (1933) estaria propondo o mito de
uma democracia racial, evidenciando que, ao contrário da escravidão norte-americana,
no Brasil, a miscigenação seria uma prova de que brancos e negros tinham melhor
convivência.
6. Já Maria Sylvia de Carvalho Franco (1986), em Homens livres na ordem
escravocrata, inovou ao mostrar como a violência seria uma das principais marcas do
sertão, um verdadeiro código das relações sociais que não se limitava à relação entre
livres e escravos, mas permeava todo o tecido social. Analisando homens livres pobres,
ela indicou que tanto na cidade quanto no mundo rural o uso da força era uma constante
no equacionamento ou na imposição de diferenças entre os indivíduos.
7. Freyre, Gorender, Amaral Lapa, Ciro Flamarion Cardoso, Fernando Henrique Cardoso,
Emília Viotti, Octavio Ianni, Barros de Castro, Florestan Fernandes e, mais
recentemente, João José Reis, Flávio Gomes, Stuart Schwartz, Douglas C. Libby e
Fragoso, entre outros, são expoentes no estudo do tema. A primeira vertente, com
exceção de Freyre, que inovou ao explorar temas como miscigenação, cultura e
hibridismos existentes, aproximou-se do marxismo e procurou compreender o
escravismo junto ao desenvolvimento geral da economia brasileira (SCHWARTZ, 2002).
A nova historiografia busca:
1. [...] compreender a organização da escravidão e seu funcionamento tanto como
forma de trabalho quanto como sistema social e cultural, para que seja possível
entender suas conseqüências teóricas e sistêmicas mais amplas para a compreensão
da história do Brasil e de seu lugar dentro do desenvolvimento da economia mundial
(SCHWARTZ, 2002, p. 29).
8. Um aspecto significativo é como pensar a escravidão no Brasil e perceber suas
especificidades, sua relação com as formações socioeconômicas, a existência ou não de
um modo de produção escravista-mercantil e a possibilidade da plantation. Em
seguida, compreender os espaços do trabalho escravo, a família e a cultura negra no
Brasil, da colônia ao império.
9. Nesse sentido, não se deve desprezar a presença dos homens livres, particularmente, os
pobres, que já apareciam na análise de Prado Jr. (1986), Candido (2003) e Franco
(1986). Para Emília Viotti Costa (2004), a escravidão é bem conhecida nas áreas de
cafeicultura e, nas outras, não. Pouco se estudou sobre as mulheres e o abolicionismo no
Brasil.
10. Em Da monarquia à república (2004), você terá uma rica análise sobre a escravidão
brasileira. Em relação ao tema, pode-se dizer que o tráfico de escravos era o negócio

47 - 68
mais rentável no Brasil desde o período colonial. Os interesses do tráfico, portanto, eram
bastante poderosos, e, desde cedo, os negócios da escravidão urdiram os interesses da
agricultura de exportação e os do Estado, criando-se uma estrutura em que o escravo era
peça-chave para a manutenção do regime e da economia.
11. Assim, só seria possível a expansão econômica e a plantação em novas áreas caso
houvesse mão de obra escrava. Esforços mais decisivos para substituir o braço do
escravo pelo do imigrante só se tornaram efetivos a partir de 1850. Todavia, sabe-se,
hoje, que a utilização da mão de obra escrava apresentava inúmeros inconvenientes que
praticamente a desaconselhavam, como a imobilização de capital investido, os riscos
envolvidos, a produtividade e suas restrições e, fundamentalmente, a necessidade de
reposição da força de trabalho com ou sem o aumento da produção.
12. Crivava-se, portanto, uma relação de dependência em larga medida, derivada do
processo de impedimento do acesso à terra aos homens livres pobres, migrantes ou
imigrantes estrangeiros. Aliada ao preconceito em relação ao trabalho físico, impôs-se a
utilização da mão de obra do negro africano.
13. Os escravos eram conhecidos como africanos (quando recém-chegados), crioulos
(quando nascidos no Brasil) e forros (quando libertos). Suas denominações associavam-
se, muitas vezes, às regiões de onde eram provenientes: Congo, Mina, Angola, Benguela,
Moçambique. No Brasil, como os índios, formavam as nações, embora isso fosse mais
comum nos centros urbanos, visto que, na grande lavoura, os fazendeiros preferiam
evitar a concentração de uma mesma nação para não correr riscos. Desde cedo, ingleses,
franceses e portugueses dedicaram-se ao tráfico. A eles, juntaram-se os traficantes
africanos, do reino do Daomé (atual Benin) e de Angola. Para o nordeste, especialmente
a Bahia, foram trazidos muitos jejes, hauçás e nagós, muitos deles prisioneiros de guerra
na África. Os primeiros vinham de Daomé, os segundos eram os islamizados, e os
últimos vinham da região de Oyo (Nigéria) e falavam a língua iorubá.
14.
3. Como você caracterizaria a família no império?
1. Por fim, outra marca daquela sociedade era a organização em torno de famílias regulares
extensas, formadas pelos pais, os filhos, a parentela próxima, os agregados e os escravos
(Figura 1). Via de regra, predominava o modelo patriarcal, encontrado em boa parte do
território brasileiro, embora não fosse raro também encontrar moradias lideradas por
mulheres ou domicílios sem núcleos familiares extensos – algo muito comum, por
exemplo, em Minas Gerais, São Paulo e no Rio de Janeiro
2. Os estudos sobre Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo revelam um número
expressivo de fogos (domicílios) que eram chefiados por mulheres. No meio urbano, era
bastante comum a existência de núcleos sem a presença da família extensa ou chefiados
apenas por um indivíduo.
3. O modelo de família, formada por pai, mãe, filhos, alguma parentela próxima – uma tia,

48 - 68
um avô, uma avó e, eventualmente, alguns primos –, coabitando uma mesma residência,
com a união sacramentada na Igreja católica, mais os agregados e os escravos, existia em
abundância, mas convivia com núcleos formados por uniões esporádicas. Também, havia
casas chefiadas apenas por um indivíduo, mulher ou homem, algum agregado e algum
escravo, além de casos de viúvas ou de mulheres que viviam sozinhas com parentela e
agregados. Esses últimos tipos de união eram mais comuns nos centros urbanos do que
no mundo rural.
4. Outro aspecto importante a se considerar é a existência de famílias escravas. A
historiografia sobre a escravidão tem descoberto inúmeros casos de casais vivendo
juntos, sendo alguns com a união sacramentada na Igreja, tendo filhos também
reconhecidos mediante o batismo. Embora se casassem menos na Igreja, também
formavam famílias. Há um enorme interesse em conhecer melhor esse aspecto da
escravidão no Brasil.
5. No plano dos discursos e da moral, a família tornou-se uma referência, com especial
atenção à procriação e à maternidade. A preocupação maior era garantir as uniões lícitas,
que assegurassem o nascimento de crianças saudáveis.
6. O discurso médico e o religioso iam nessa direção. Já a literatura sinaliza uma mudança
na defesa dos interesses familiares para a satisfação individual, valorizando o amor, e
não as convenções e as tradições familiares de escolha dos noivos, como critério de
escolha do cônjuge. De fato, sobretudo nas elites, eram comuns as uniões arranjadas
pelos pais.
7. As práticas de amamentação representavam um desvio do modelo europeu, sobretudo
nas famílias abastadas, em que era comum a existência da ama de leite, geralmente, uma
escrava. Eram bastante comuns nos jornais os anúncios de aluguéis de amas de leite.
8. Outro problema frequente era a alta mortalidade existente em torno do nascimento. As
condições de higiene, os maus hábitos alimentares e o alto número de partos realizados
por uma mesma mãe representavam uma situação de alto risco. Havia um verdadeiro
pavor do parto; por isso, ao lado das parteiras, seguiam assistentes encarregadas do
auxílio, as quais, mormente, rezavam ao pé da cama para um bom parto. Muitos cultos
se desenvolveram em relação ao parto, tais como os de Nossa Senhora do Bom Parto,
Nossa Senhora do Amparo, Nossa Senhora da Luz e Nossa Senhora da Glória.
9. A prática do dote também entrou em declínio. O único estudo sobre o tema, de Muriel
Nazzari (2001) a respeito de São Paulo, revela que essa antecipação da herança que era
concedida às filhas por ocasião do casamento foi caindo em desuso.
10. Com isso, a dependência da mulher ampliou-se em relação aos maridos, pois, antes,
joias, escravos e até terras eram legados às filhas. Agora, apenas os enxovais e algum
dinheiro eram mais frequentes. Em seguida, os noivos ficariam na dependência dos
presentes recebidos no casamento, e os pais encarregavam-se, somente, de custear a
festa das núpcias.

49 - 68
11. O registro do casamento era feito via Igreja, visto não haver casamento civil até 1916,
com a introdução do Código Civil, embora a Lei no 1.144, de 1861, reconhecesse os
efeitos de casamentos não católicos. Eram antecedidos pelos processos chamados
banhos matrimoniais, em que o padre ou clérigo investigava se os noivos não tinham
algum impedimento para as núpcias. Consanguinidade, religião professada e notícia de
casamento anterior constituíam, por exemplo, obstáculos para que a Igreja ratificasse a
união. A chegada de muitos imigrantes protestantes mudou o hábito de reconhecimento
exclusivo do casamento por parte da Igreja católica.
12. Com o tempo, saraus, bailes e festas religiosas tornaram-se ocasiões para que os jovens
se encontrassem e pudessem selecionar seus futuros cônjuges, deitando por chão as
uniões arranjadas, que, contudo, não deixaram de existir. A diferença em relação ao
período colonial é que cada vez mais se valorizava a virgindade feminina. Ante a falta de
mulheres, as dificuldades para encontrar uma esposa branca disponível no sertão
levavam a muitas uniões com mulheres até com filhos.
13. As residências brasileiras herdaram do período colonial um caráter de rusticidade e
simplicidade. Ficavam rentes à calçada, tinham janelas pequenas e geralmente
construídas em forma de "U", sendo que, no interior, havia um pequeno jardim e, nos
fundos, o quintal com a horta e as árvores frutíferas. Famílias mais abastadas construíam
casas de dois pavimentos, os ricos sobrados. Mas a casa era um refúgio; procurava-se
preservar a intimidade e resguardar as mulheres do convívio com a rua.
14. As casas eram feitas de pedra ou tijolos, com exceção em São Paulo e Minas Gerais,
onde era mais comum o uso da taipa. Internamente, era comum a existência de poucos
móveis, feitos em jacarandá. Na sala, uma mesa e poucas cadeiras, o mais comum eram
bancos ou tamboretes e um catre. Nos quartos, eram raras as camas até meados do
século 19, o mais comum eram as redes, esteiras improvisadas.
15. Também havia um baú e raramente um armário, em que eram acomodadas as roupas de
uso pessoal e, também, as de cama e banho. Dependendo da região, o mosquiteiro era
indispensável. Inexistiam banheiros; a higiene pessoal era feita em tinas, depois em
bacias, e as necessidades, em penicos ou em uma dependência pequenina afastada da
casa, que abrigava uma fossa. Na cozinha, apenas uma mesa com um ou outro banco,
panelas penduradas nas paredes e, no centro, o fogão a lenha.
4. Quais conceitos são importantes para a compreensão das questões abordadas nesta
unidade?
1. A polarização foi analisada por diferentes autores. A diferença reside no modo como
compreendem a relação entre homens livres e escravos. A rigor, alguns conceitos se
destacam, como violência, mandonismo e clientelismo. Entre os autores que
destacaram a violência como uma das principais marcas da sociedade brasileira,
podemos relacionar Florestan Fernandes (2006), José de Souza Martins (2004) e Maria
Sylvia de Carvalho Franco (1986). Para eles, as relações sociais não se fundavam

50 - 68
somente na racionalidade ou no respeito às normas de conduta legais ou morais. Elas
conviviam, frequentemente, com o uso da força e o exercício da violência, nas mais
diferentes esferas de convívio. Esses três historiadores preconizam o debate em torno do
tema no Brasil.
2. Na mesma direção, mas acentuando o caráter político no uso da força, que acabava por
conferir respeito e autoridade aos indivíduos mais poderosos e de maior cabedal, surge o
conceito de mandonismo, que, para Maria Isaura Pereira de Queiroz (1987), seria o
principal traço da vida política brasileira, desde o império ate a Primeira República.
3. Outro conceito significativo aplicado ao universo daquela sociedade é o de clientelismo.
Diferentes autores reconhecem sua importância, como José Murilo de Carvalho (2003),
Richard Graham (2003), Maria Sylvia de Carvalho Franco (1986) e Roberto Schwartz
(2004). Esse último, em seu célebre texto As idéias fora do lugar, indica que o ideário
liberal, quando foi transplantado para o Brasil, sofreu restrições em razão do regime
escravocrata, que impunha limites à liberdade possível, e das relações sociais de
dependência pessoal, em que indivíduos mais fracos e despossuídos se submetiam à
proteção e à autoridade daqueles mais fortes, gerando relações de compadrio e
compromisso. Formavam, por isso, clientelas.
4. A rigor, outra análise bastante conhecida, mas também muito criticada, é a de que o
brasileiro seria um homem cordial (HOLANDA in HOLANDA, 1995). Proposta por
Sérgio Buarque de Holanda, essa imagem que caracterizaria o homem brasileiro foi
duramente criticada. No amálgama das raças, na existência da tolerância e no convívio
com uma população variada e mestiça, o brasileiro seria um tipo social aberto, afável e
bom.
5. Em texto clássico, redigido em meados de 1970, intitulado O escravo na grande lavoura,
por Emília Viotti da Costa, que integrou um dos capítulos do quinto volume da História
geral da civilização brasileira, organizado por Holanda (1995), aponta-se que o
escravismo foi a fórmula encontrada para o desenvolvimento das atividades econômicas
nas colônias da América, integrada à grande lavoura. Em diferentes momentos, a autora
traça comparações em relação à escravidão no Brasil, nos Estados Unidos e na América
Central. Emília Viotti (2003) reforça a imagem da hegemonia dos interesses agrários
citando Bernardo P. de Vasconcelos, que reiterava uma vocação agrícola do Brasil. A
preservação do escravismo, segundo a autora, pode ser explicada pelas pressões dos
interesses internos, bem como dos internacionais, e pelas formas tradicionais de
exploração das terras – os interesses do tráfico.
6. É preciso salientar, entretanto, que o Estado brasileiro não esteve exclusivamente à
mercê de interesses da grande lavoura de exportação, uma vez que o comércio oferecia
mais lucros que a produção. Assim, os grandes comerciantes eram, também, figuras
decisivas na arena política. Não raro, proprietários de terras eram grandes comerciantes
ou firmavam alianças mercantis ou familiares com estes.

51 - 68
7. Outro ponto complexo trata das contradições entre a teoria e a realidade. Na verdade, a
moral e a ideologia existem para mascarar e obliterar os conflitos sociais. Embora, na
teoria, a escravidão fosse condenada por clérigos e mesmo por homens como Bonifácio
e outros, como cruel, desumana e contrária aos pressupostos do liberalismo, na prática,
era um negócio rentável, que sustentava os pilares da economia nacional. Era uma
instituição que não poderia ser mudada de um dia para o outro.
8. Outra marca importante daquela sociedade é a religiosidade. A forte presença do
catolicismo, desde o início da colonização, foi reforçada pela existência, no âmbito
administrativo, do padroado, criando uma simbiose e uma dependência do clero por
parte do Estado. Igualmente, a Igreja funcionava como um lócus de sociabilidade,
oferecendo condição civil e lazer, influenciando o calendário e moldando hábitos
populares. Mesmo a criação de povoados e seu reconhecimento podiam ser feitos pelos
bispados, sendo admitidos como freguesias, ou por meio de decreto imperial,
constituindo-se vilas.
5. Quais pontos você destacaria no texto como fundamentais para sua melhor compreensão?
1.
6. Haveria algum tema ou questão que você gostaria de conhecer sobre a sociedade brasileira
do século 19 e que não viu nesta unidade?

Unidade 4
1. O que você poderia afirmar sobre o dualismo característico das interpretações sobre a
cultura brasileira durante o século 19?
1. Atraso e modernidade – esse é o binômio que melhor expressa a realidade cultural
brasileira oitocentista. Talvez seja uma marca, uma compreensão e um obstáculo sempre
presente quando se fala da cultura brasileira até mesmo nos dias atuais. Quando
confrontamos a predominância da rusticidade da vida material com a riqueza das
práticas culturais, ganha enlevo esse caráter contraditório do Brasil, desde a colônia.
2. Em meio a uma sociedade cindida entre uma elite privilegiada (de abastados e uns
poucos letrados) e os demais segmentos sociais (homens livres pobres, índios e
escravos), o traço mais explicitado daquela realidade cultural se caracterizava pela
exaltação de valores aristocráticos e elitistas de consumo e produção cultural. Desse
modo, somente foram valorizadas como formas elevadas de cultura e de arte o que era
produzido e vivenciado em meio à elite, a qual, via de regra, se inspirava em padrões
europeus, procurando equiparar-se à civilização. Duas abordagens são comuns no debate
sobre a cultura: a marxista e a hermenêutica de Geertz (1993).
3. Não resta dúvida de que aqueles contemporâneos se apercebiam da existência de um
país arcaico, coexistindo com um Brasil moderno, que mostrava traços evidentes, mas
parcos de uma civilização que procurava, a todo custo, elidir uma imensa barbárie.
Tendo a Europa como referência, onde muitos brasileiros realizaram seus estudos, era

52 - 68
mais fácil reproduzi-la onde houvesse condições materiais e financeiras ao alcance.
Assim, na faixa litorânea e nas sedes de grandes propriedades, era possível encontrar
alguns espaços, cidades e casas em sintonia com a modernidade europeia, tanto material
quanto espiritualmente, mas, no sertão, era bem diferente.
4. Essa dualidade deu ensejo a uma interpretação sobre o pensamento e as ideias liberais no
Brasil como sendo ideias fora do lugar. Tal é a posição de Roberto Schwarz (1979), que
acredita que o escravismo e o clientelismo foram obstáculos para o livre trânsito do
liberalismo no Brasil, fazendo seus postulados, quando reproduzidos pela elite brasileira,
surgirem como postiços, como um verniz encarregado de alçá-los a uma realidade
fictícia.
5. Essa posição foi refutada veementemente por Franco (1979), que enfatizava que, mesmo
na Europa, o liberalismo convivia com falseamentos, com idiossincrasias, de modo que,
tanto lá como cá, o ideário liberal funcionava como uma ideologia, mascarando conflitos
sociais. Sérgio Buarque de Holanda (2000) tem uma visão interessante sobre esse
problema.
6. Para ele, as luzes no Brasil, introduzidas pela geração coimbrã (anterior à abdicação de
D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, em vez de incorporarem seu caráter progressista e
transformador, revestiram-se de uma mentalidade pragmática, elidindo uma dimensão
crítica e preferindo ajustá-las às convenções e à conservação. Não por acaso, é sempre
necessário repetir que o conservadorismo é uma das principais características da cultura
e da sociedade brasileira durante o século 19.
2. O que você destacaria da importância da Igreja, que era uma das instituições-chave
daquele contexto?
1. Pode-se afirmar com segurança que a Igreja foi, ao longo do império, um dos mais
importantes pilares da vida cultural. Ela era, sem dúvida, ao lado do Estado, uma das
instituições fundamentais de todo o século 19, havendo, entre eles, um vínculo que
preservava o clero sob a tutela do imperador e do governo imperial. Tal vínculo
remontava ao padroado, concedido pelo papa aos reis de Portugal e preservado no Brasil
por meio da Constituição do Império. Em seu Artigo 5o, ela pregava que "a Religião
Católica, Apostólica Romana é a religião do Império". As outras religiões eram
toleradas, desde que em culto particular e doméstico, sendo proibidas formas exteriores
de templo. E, no Artigo 95o, estipulava-se, ainda, que era preciso professar a religião
católica para o exercício de qualquer cargo eletivo. Para Abreu (in VAINFAS, 2000, p.
348):
1. A tutela imperial nos assuntos da Igreja foi ainda facilitada pela presença majoritária
de uma elite clerical regalista, formada, juntamente com a liderança política do novo
país, dentro do espírito das reformas pombalinas [...] os historiadores da Igreja
consideram que a direção regalista nos assuntos religiosos, na primeira metade do
século XIX, deu margem a uma religiosidade católica falsa ou superficial, dado o

53 - 68
predomínio de sacerdotes afastados dos assuntos espirituais que defendiam a
soberania do poder civil sobre os assuntos religiosos e a autonomia dos bispos em
relação ao papa. A rigor, surgiu um projeto de uma Igreja católica brasileira apartada
do Vaticano, o qual foi alimentado, entre outros, pelo regente Diogo Feijó, que via
com bons olhos o fim do celibato clerical.
3. Além das ferrovias, quais outras inovações tecnológicas importantes durante o
processo de modernização você pode localizar no período?
1. Naquela época, havia, no Brasil, uma sociabilidade nas ruas, não importando qual o tipo
de evento: oficial, religioso, político, carnavalesco – todas as comemorações eram feitas,
geralmente, nas praças das igrejas matrizes. Nessas ocasiões, misturavam-se as elites e o
povo, o sagrado e o profano, os homens livres e os escravos.
2. Esse universo contrastava com outro, mais austero e de uma sociabilidade que almejava
a civilização − palavra muito utilizada pelas elites para evidenciar a proximidade do
império com os países da Europa. Para Norbert Elias (2002), o termo, simbolizando
cortesia, urbanidade, refinamento, boas maneiras, era usado na França, desde meados do
século 18, no sentido de demarcar espaços sociais, separando a nobreza e a burguesia do
povo.
3. Civilização significava, ainda, o desenvolvimento das artes, da ciência, da tecnologia e
dos saberes em geral, bem como da indústria, palavra que apresentava vários
significados, tais como empreendedorismo, inteligência, capacidade, iniciativa
econômica, abrangendo desde a agricultura até o comércio. No Brasil, civilização passou
a simbolizar a obsessão pelo progresso, pelo avanço, que representava, sobretudo, a
superação do atraso, dos diferentes males e problemas que afetavam o país. A civilização
tornava-se uma meta a ser atingida, um ideal para a elite e para o governo imperial.
4. Esse ideal ampliou o abismo entre a pequena elite de abastados e a população brasileira
em geral. Esta deveria ser vigiada, tutelada, dirigida para o trabalho e para a manutenção
da moral e dos bons costumes. Com o discurso higienista do último quartel do século,
passou-se a perseguir a vadiagem, o esmolar, as barracas de diversão, os ajuntamentos, a
vida nos cortiços, os botequins e, também, as ruas, que começaram a ser vistas como
espaços de reprodução de doenças e toda sorte de males.
5. Manuais de bons costumes eram bastante apreciados e lidos no Brasil, mas foi preciso a
chegada da imprensa para que ganhassem maior circulação. Introduzida com a chegada
da família real, em 1808, a imprensa assumiu enorme importância na história brasileira.
O primeiro jornal publicado no país foi a Gazeta do Rio de Janeiro, que, em 1822,
passou a se chamar Diário do Governo. Durante e após a independência, houve uma
explosão da imprensa periódica no país, sendo lançados inúmeros jornais – boa parte
deles não tendo circulado mais do que alguns anos. Por exemplo, o Revérbero
Constitucional Fluminense, O Patriota, O Bem da Ordem, O Papagaio, O Espelho, A
Malagueta, Diário do Rio de Janeiro, Aurora Fluminense, Conciliador Nacional,

54 - 68
Sentinela da Liberdade, O Astro de Minas, Farol Republicano, Gazeta de Notícias,
Jornal das Senhoras, Jornal das Famílias etc.
6. A profusão da imprensa a partir do movimento de emancipação oferece um rico painel
para se conhecer o universo das ideias e da cultura no Brasil. Os jornais serviram como
importantes instrumentos de produção e circulação de ideias, fomentando a cultura
brasileira e servindo como poderosas armas de politização e de debate político.
4. Quais são os conceitos que você acredita serem importantes para a compreensão das
questões abordadas nesta unidade?
5. Quais pontos você destacaria no texto para a sua melhor compreensão?
1. Característico, portanto, será, cada vez mais, o abismo criado entre essa elite – a boa
sociedade, nas palavras de Ilmar Mattos (1987) – e o povo. Mattos enfatiza a distinção
visível entre estes três mundos: do governo, da casa e da rua. Embora os primeiros
tivessem suas interconexões, a ordem pública e a privada, as ruas constituíam a exceção,
a resistência à ordem, à legalidade e à civilização. Assim, havia o temor e a necessidade
de controle sobre a rua, sobre o povo. O governo via-se na missão de conduzi-lo,
evitando, contudo, reconhecer seus valores ou práticas, excluindo-o do mundo da
política, mas também do mundo da cultura.
2. Dos problemas enfrentados pela Igreja, três eram muito importantes: inicialmente, suas
relações com o Estado, depois, a conciliação com os princípios liberais e, por fim, a
relação com a sociedade. Além da permissividade existente, inclusive com padres
constituindo famílias e sendo aceitos pela população, o catolicismo brasileiro tinha um
forte caráter festivo; a presença da Igreja tornava-se mais visível em ocasiões de
celebração. A religiosidade brasileira era praticada por um povo muito devoto, afeiçoado
a irmandades e apreciador de festas e procissões.
3. Até 1828, a Mesa de Consciência e Ordens encarregava-se de acompanhar o provimento
dos cargos eclesiásticos, mas, após essa data, isso passou a ser função do Ministério da
Justiça e, em 1861, do Ministério do Império.
4. O Estado imperial, como podemos ver, controlava a Igreja, tratando os quadros
eclesiásticos como cargos do funcionalismo público, direcionando recursos para a
criação de novas dioceses e provendo seminários. A diretriz emanada por Pio IX era
categórica: a Igreja não deveria se submeter ao Estado, algo muito delicado no caso
brasileiro.
5. A expansão da formação nos seminários e o posterior envio de sacerdotes para estudar
no exterior provocaram mudanças no clero brasileiro. Em seguida, vieram as ordens
religiosas para auxiliar no Brasil, de modo que duas tendências do clero se tornaram
claras: a dos regalistas e liberais e a dos romanizados. Esses últimos defendiam a
instrução dos fiéis e criticavam o descaso do governo com a Igreja, o desprezo pela
educação católica e a introdução de novas religiões.

55 - 68
6. Há algum tema ou questão não abordado nesta unidade e que você gostaria de conhecer
sobre a cultura brasileira no século 19?

Unidade 5
1. Quais as semelhanças e diferenças entre os três partidos políticos que se formaram no
império?
2. Localize geograficamente os dois espaços nos quais se expandiu a cafeicultura durante
o século 19 no Brasil e os caracterize.
1. Já no plano econômico, o destaque é o café, que se torna a principal atividade econômica
brasileira, responsável por ganhos expressivos na balança comercial. Do Vale do
Paraíba, ele se ex-
2. pande para Minas Gerais, Espírito Santo e pelo oeste paulista, acabando por atrair o
braço escravo, que se encontrava ocioso nas províncias do norte, bem como o dos
imigrantes europeus, graças aos incentivos do governo imperial. Todavia, a cafeicultura
não era uma atividade econômica absoluta no período; ela conviveu com outras
atividades também importantes, tais como:
1. Pecuária: importantíssima no centro-oeste, em Minas Gerais e no nordeste.
2. Cana-de-açúcar: plantada especialmente no nordeste, mas também em São Paulo e
no Espírito Santo.
3. Algodão: cultivado especialmente no Maranhão e no Pará.
4. Tabaco: plantado no Recôncavo Baiano.
3. Além dessas atividades, havia a pré-indústria, realizada em todo o território brasileiro,
com a fabricação de roupas, telhas, barcos e engenhos. A característica fundamental da
política brasileira durante o império foi, sem dúvida, o conservadorismo ou a
imobilidade. Enquanto o beligerante governo de D. Pedro I foi o responsável pelo
conflito na Cisplatina e pela perseguição a inúmeros críticos de seu governo, D. Pedro II
governou de modo mais conciliador e menos conflituoso. Embora, no plano interno,
tenha enfrentado várias rebeliões, ele sempre optou pela anistia.
4. A primeira etapa da expansão cafeeira, ocorrida entre 1820 e 1850 no Vale do Paraíba,
teve como áreas mais expressivas as re giões de Vassouras e Valença, no Rio de Janeiro,
e Guaratinguetá e Areias, na província de São Paulo. Dali, alcançou o Espírito Santo e,
depois, a Zona da Mata, Minas Gerais. Mas foi no Vale do Paraíba, nas encostas das
serras atlânticas e do mar, que a cultura cafeeira encontrou clima e solo adequados.
5. O segundo momento da cafeicultura teve início em meados de 1850 e verificou-se no
chamado Oeste Paulista, na região de Campinas. Ali, os cafezais encontraram a terra
roxa (terra rossa – vermelha – como chamada pelos imigrantes italianos) e seguiram para

56 - 68
o Oeste Novo, sobretudo a partir de 1870, atingindo Ribeirão Preto. Com a extinção do
tráfico de escravos, essas regiões foram adotando lentamente o trabalho de imigrantes,
mas primeiro sob a forma de colônias de parceria, sem sucesso.
3. Descreva a adequação das ideias liberais em relação ao contexto oitocentista brasileiro.
1. Educados na tradição do liberalismo e das ideias políticas vigentes em seu tempo, os
políticos do império reproduziram esses conteúdos, acrescidos de alterações e
incorporações. Para construir o Estado brasileiro, tomaram algumas nações europeias
como modelo, especialmente a França e a Inglaterra, bem como, em solo americano, o
exemplo dos Estados Unidos. Nas manifestações do pensamento liberal brasileiro, havia
traços da ilustração ibérica, permanências da política pombalina e vestígios de um
pensamento social conservador e autoritário.
2. Observando o comportamento da elite política portuguesa, percebe-se, de maneira clara,
que os construtores do Estado brasileiro e seus principais agentes herdaram muitas de
suas práticas, tais como uma política autodefensiva e reformista, que valorizava a
integridade do império e mantinha monopólios e privilégios.
3. Esse liberalismo serviu para firmar o consenso necessário para a formação de uma elite
dirigente, ao mesmo tempo em que justificava a economia mercantil escravista,
ocultando contradições sociais internas, baseado na impessoalidade das leis e nos
princípios legais da constitucionalidade.
4. As semelhanças entre os projetos conservador e liberal parecem chamar mais atenção do
que suas diferenças. Os liberais, tal como os conservadores, preconizavam a defesa da
ordem, da propriedade, da civilização e de uma livre iniciativa, de certa maneira,
tutelada pelo Estado, e não tinham projetos muito diferentes para a sociedade. A
principal diferença entre ambos era a defesa da autonomia provincial, o federalismo e a
autonomia ao Legislativo, em especial do Parlamento, mas, vale lembrar, um dos pontos
decisivos da plataforma liberal consistia em sua crítica à dissolução da Câmara, que
poderia ser feita pelo imperador, embora ela tivesse raízes no revés sofrido pelo Partido
Liberal entre 1841 e 1842.
4. Defina os conceitos de conservadorismo ou autoritarismo que, ao lado do liberalismo,
foram marcantes para o período.

5. Aponte, no texto, os conceitos fundamentais para a compreensão da unidade.


6. Você gostaria de apontar algum aspecto no conteúdo desta unidade?

Unidade 6
1. Alguns aspectos inerentes à monarquia, bem como externos a ela, foram responsáveis
por sua crise e sua queda. Você seria capaz de reconhecê-los?

57 - 68
1. É comum encontrarmos como explicação para a queda da monarquia e a proclamação da
república no Brasil as famosas três questões: Religiosa, Abolicionista e Militar.
2. É inegável que esses três graves problemas desencadeados no último quartel do século
19 contribuíram para o fim do império, demonstrando seus limites e sua fragilidade.
Alguns autores costumam dizer que a escravidão, base do regime, uma vez finda,
colocou a elite escravocrata contra o próprio regime, visto não ter havido nenhuma
forma de compensação para a perda das peças – termo esse empregado, naquela época,
para referir-se aos escravos.
3. No entanto, existem dois outros fatores igualmente decisivos, que revelam, por sua vez,
a fragilidade da monarquia. Um deles é a famosa Reforma Eleitoral, ou Lei Saraiva, que
provocou discussões acaloradas no Parlamento e no Senado, dividindo a elite política, e
que, depois de aprovada, formou duas legislaturas, as quais apresentavam quantidade
expressiva de deputados da oposição que dificultavam a relação com os gabinetes
governistas. Essa lei fez que, novamente, se intensificasse o recurso à fraude para
garantir a eleição de parlamentos favoráveis aos gabinetes.
4. Outro fator, menos conhecido, diz respeito à sucessão dinástica. Em 1880, D. Pedro II
contava com 55 anos, idade avançada para a época, e, com o agravamento de seus
problemas de saúde, especialmente a diabetes, surgiu a preocupação com o futuro
herdeiro do trono: o Conde D Eu. Naquela altura, o monarca exercia grande influência
sobre o governo, a ponto de os contemporâneos insurgirem-se contra o poder pessoal do
imperador, que dissolvia câmaras e escolhia presidentes de província e senadores a seu
bel-prazer.
5. Outro aspecto importante foi a crise econômica posterior à Guerra do Paraguai, que
deixou os ânimos exaltados, inclusive favorecendo o ressurgimento do republicanismo.
É sintomático que, em 1870, tenha sido criado o Partido Republicano, ano em que se
encerrou o conflito e em que as atividades econômicas se encontravam abaladas.
6. O novo partido acolheu expressivas lideranças do Partido Liberal, que, de maneira
radical, exigiam não somente reformas profundas, como também a mudança do regime.
Eram muitos os problemas que acometiam o império desde o fim da guerra; o contexto
era de forte tensão e de enfrentamentos institucionais e de grupos.
7. Para Emília Viotti (1977), a monarquia aproximava-se do fim. Como você pode ver, é
difícil apontar qual dessas seria a causa principal que teria levado à derrocada do império
brasileiro. Não obstante, parece consensual observar que essa constelação de fatores
contribuiu para o fim da monarquia. Para Emília Viotti da Costa (1977), o império
brasileiro era um "fruto exótico e maduro", que teria acabado vítima de sua própria
inoperância – isto é, de suas próprias contradições internas.
8. De qualquer modo, havia, sim, um esgotamento do sistema monárquico, o qual o regime
foi incapaz de reformar ou modificar. O imobilismo burocrático, aliado a tradições
autoritárias, foi incapaz de incorporar inovações que pudessem prolongar a vida do

58 - 68
império. E justamente as transformações provocadas, sobretudo a abolição, minaram as
bases que sustentavam o regime: os grandes proprietários de terra.
9. Havia uma grande insatisfação com o futuro reinado do Conde D Eu, marido da
sucessora de D. Pedro II: a Princesa Isabel. Percebia-se, também, um desejo manifesto
em ampliar o voto, acabar com o Senado vitalício e obter a pluriemissão monetária, a
liberdade de culto e a aprovação do Código Civil, ações que não se concretizaram.
10. Tais ideias expressavam, sem dúvida, a ascensão política ou, pelo menos, o desejo de
participação de novas forças políticas, especialmente a dos fazendeiros paulistas, dos
jornalistas cariocas e dos militares que retornaram da Guerra do Paraguai com maior
prestígio e percebendo o peso que tinham no cenário político, embora fosse vetada sua
manifestação em assuntos políticos e tenha sido desencadeada uma perseguição a todos
os que criticavam o regime pelo Gabinete Ouro Preto.
2. Para alguns autores, foi a união entre os interesses militares e republicanos que decidiu
a sorte da monarquia. Como você poderia explicar essa aliança?
1. O republicanismo não é algo novo na história do Brasil. Esteve presente na
Inconfidência Mineira e na Revolução Pernambucana, de 1817. Os ímpetos
republicanos, contudo, foram extirpados após a independência, quando o princípio
monárquico serviu como elo para a adesão das elites em prol de um projeto nacional e
quando os republicanos foram perseguidos duramente por D. Pedro I.
2. É curioso observar o ressurgimento das ideias republicanas após 1870 no Brasil. Após a
abdicação de D. Pedro I, em 1831, em virtude da crise aguda de seu governo, marcado
por extrema impopularidade e rejeição por parte da elite política com raízes em solo
brasileiro, novamente, algumas vozes fizeram renascer o espírito republicano.
3. A crise do período regencial, motivando revoltas em várias províncias, levou à
aproximação entre liberais moderados e restauradores, a fim de conter o que chamavam
de jacobinismo. De qualquer modo, eles tiveram de negociar com lideranças que
exigiam maior descentralização administrativa, o que motivou a reforma da Constituição
de 1824, por meio do Ato Adicional; a maior autonomia para as províncias, com a
criação das assembleias provinciais; a extinção do Conselho de Estado; e a adoção de
eleições para a escolha de um regente único. Essas medidas fizeram que o período
ficasse conhecido como "Experiência Republicana" (1831-1840). Explicam-se pelo
temor à anarquia e ao possível e indesejável retorno de D. Pedro I, para evitar o
desmembramento de parte do território imperial. Também tiveram vida relativamente
curta: de 1834 a 1840.
4. Este ressurgiu apenas em 1868, mais exatamente em 1870, com a criação do Partido
Republicano, e reuniu opositores da política imperial vigente, insatisfeitos com a
postergação das reformas. Em São Paulo, destacou-se Luís Gama, por meio dos jornais
Diabo Coxo e, depois, Cabrião, juntando-se novos adeptos, como Américo Brasiliense,
Bernardino de Campos, Prudente de Morais e Campos Sales.

59 - 68
5. As relações entre governo e oficialato, contudo, não melhoraram, e a causa eram os
baixos salários oferecidos. Para John Schulz (1998), a melhor formação e a integração
desse jovem oficialato na Escola Militar da Praia Vermelha e, também, na Escola
Central, ou Escola Politécnica (Figura 2), aumentaram o espírito de corpo e a adesão a
um pensamento comum, que integrava po- sitivismo, evolucionismo, abolicionismo e
republicanismo, ideário que manifestava o desejo por determinadas mudanças.
6. Nos setores militares, passou-se a defender a abolição, a intervenção do Estado nos
negócios públicos, o incentivo à imigração, a construção de estradas de ferro e a
melhoria dos soldos. Após a Guerra do Paraguai, essas reivindicações se tornaram ainda
mais frequentes e vigorosas, ficando visíveis com a nomeação de civis para os
ministérios militares.
3. Qual peso teve, efetivamente, a Guerra do Paraguai para o desgaste da monarquia?
1. Percebia-se, igualmente, até meados de 1850, certa crise entre o baixo e o alto oficialato,
visto serem arregimentados nos moldes do Antigo Regime. Com a reforma feita por
Manoel Felizardo de Sousa e Melo, os estudos, o mérito e o tempo de serviço eram os
parâmetros adotados para promoção. Ainda, determinou-se o curso universitário para os
oficiais de engenharia, artilharia e Estado-Maior.
2. As relações entre governo e oficialato, contudo, não melhoraram, e a causa eram os
baixos salários oferecidos. Para John Schulz (1998), a melhor formação e a integração
desse jovem oficialato na Escola Militar da Praia Vermelha e, também, na Escola
Central, ou Escola Politécnica (Figura 2), aumentaram o espírito de corpo e a adesão a
um pensamento comum, que integrava po- sitivismo, evolucionismo, abolicionismo e
republicanismo, ideário que manifestava o desejo por determinadas mudanças.
3. Nos setores militares, passou-se a defender a abolição, a intervenção do Estado nos
negócios públicos, o incentivo à imigração, a construção de estradas de ferro e a
melhoria dos soldos. Após a Guerra do Paraguai, essas reivindicações se tornaram ainda
mais frequentes e vigorosas, ficando visíveis com a nomeação de civis para os
ministérios militares.
4. Para Holanda (1996, p. 176), a Questão Militar, envolvendo a crise entre militares e o
governo imperial entre 1884 e 1889, era "a expressão particular de uma crise de poder".
O primeiro episódio foi a prisão e a transferência para o Rio Grande do Sul do Tenente-
coronel Antônio de Sena Madureira, por ter participado de uma homenagem dos
abolicionistas ao jangadeiro Francisco do Nascimento, o "Dragão do Mar".
5. O segundo foi o caso de Cunha Matos, coronel que havia participado da Guerra do
Paraguai e que criticou atos e irregularidades cometidos pelo Capitão Pedro José de
Lima, membro do Partido Conservador, em 1886, em guarnições do Piauí. O debate foi
parar nos jornais, e Cunha Matos foi preso. O coronel ganhou o apoio do Visconde de
Pelotas, também general do Exército no conflito paraguaio, que criticou duramente o
desprezo do governo, especialmente do Barão de Cotegipe, pelos militares. A resposta

60 - 68
foi a proibição aos militares de discutirem ou publicarem suas ideias.
6. No Rio Grande do Sul, Sena Madureira desobedeceu à lei e publicou um artigo no jornal
A Federação, de Julio de Castilhos. O governo pediu punição ao oficial, mas o General
Deodoro da Fonseca, comandante de Armas no Rio Grande do Sul, negou-se a cumpri-
la. A partir daí, atos de descontentamento espalharam-se. No Rio de Janeiro, na Escola
Militar, ganharam a adesão de Benjamin Constant e de muitos jovens oficiais.
Pressionado novamente pelo governo, Deodoro da Fonseca respondeu que parlamentares
brasileiros não poderiam achacar a honra do Exército.
7. A partir de janeiro de 1887, vários atos foram realizados pelos militares na Escola
Militar e no Recreio Dramático do Rio, levando à aprovação de um documento que
pedia o fim da proibição dos pronunciamentos feitos por militares e quaisquer tipos de
represálias ou perseguições aos oficiais. A imprensa republicana passou a aproveitar-se
da crise, aproximando-se dos militares.
8. Em reunião com D. Pedro II, Deodoro da Fonseca conseguiu a revogação da proibição e
a queda do ministro Alfredo Chaves, dando por encerrada a Questão Militar, ao contrário
dos jovens oficiais, que viram nesse ato o quanto eram importantes para o governo,
conseguindo a destituição de um ministro. Esses oficiais criaram o Clube Militar e
escolheram Deodoro como seu primeiro presidente. Publicaram na imprensa que, desde
então, não mais se prestariam a caçar escravos fugidos para fazendeiros.
9. Essa atmosfera militar foi ingrediente decisivo para a queda da monarquia, evento
fortemente marcado pelas ideias positivistas, difundidas nas faculdades de Direito, mas,
sobretudo, nas Escolas Militares. Assim, os militares aderiram ao republicanismo,
principalmente ao positivismo, disseminado por Benjamin Constant, Miguel Lemos e
Teixeira Mendes, que fundaram, em 1876, a primeira Sociedade Positivista do Rio de
Janeiro, a qual contava, em 1881, com 155 membros. O grupo criticava o atraso
brasileiro, derivado, especialmente, da escravidão, e a inépcia do governo em promover
mudanças.
10. Com a insatisfação nos meios militares, foi fácil organizar um golpe, que, para Deodoro
da Fonseca, representaria apenas a deposição do Ministério, uma vez que era amigo do
imperador. Em nenhum momento, ele, escolhido como líder do movimento, intencionava
proclamar a república. O movimento estava organizado para o dia 17, um domingo, mas
foi deflagrado na madrugada do dia 15 de novembro, em virtude do boato de que
Deodoro e Floriano seriam presos. Assumindo ares de parada militar, o cerco à fortaleza
do Exército, com a participação de lideranças republicanas, tais como Aristides Lobo,
Quintino Bocaiúva, Rui Barbosa e Campos Sales, teve consequências enormes para a
história brasileira. O que parecia ser uma simples quartelada não encontrou o menor
esboço de reação por parte da monarquia. Hábil e rapidamente embarcada para o exílio,
a família imperial não contou com nenhum apoio em sua partida.
11. Nas palavras de Aristides Lobo (apud CARVALHO, 1987, p. 7), "ao que parecia ser uma

61 - 68
passeata ou um desfile militar, o povo assistiu bestializado". O imperador estava bastante
debilitado em 1889, pois seu estado de saúde não era bom. No governo, a instabilidade
reinava, e, na sociedade e na imprensa, alardeava-se, desde 1887, a anarquia, com a fuga
maciça de escravos.A partir de 1888, a impopularidade, mesmo com a abolição, ao invés
de diminuir, aumentava.
12. O centenário da Revolução Francesa alimentava, ainda mais, a imprensa republicana. A
debilidade do regime foi, sem dúvida, um dos fatores decisivos para sua queda, isso
porque a república não encontrava apelo senão numa reduzidíssima parte da elite
brasileira, localizada, especialmente, em grandes centros do sul do país.
4. Quais são os conceitos mais importantes para se compreender esta unidade?
5. Quais pontos você destacaria no texto como fundamentais para sua melhor compreensão?
6. Há algo no conteúdo ministrado que precisa ser aperfeiçoado? Para você, falta alguma
questão a ser abordada?

62 - 68
Historiografia e Teoria da História

Das unidades e questões auto-avaliativas:

Unidade 1
1. Quais são as principais diferenças constatadas nos conceitos de historiografia citados no
corpo do texto?
2. Quais são as diferenças pontuais encontradas nos conceitos de História de Heródoto,
Tucídides e Aristóteles?
3. Qual(ais) foi(ram) a(s) real(is) contribuição(ções) do grupo dos Annales?
4. Releia o conteúdo sobre a Nova História nos Cadernos de Referência de Conteúdos
Metodologia da História I e II, pesquise sobre o tema em livros e sites, e escreva um
texto que contenha as principais características desse grupo.
5. O que ficou sem uma compreensão mais apurada? Releia e tente sanar suas dúvidas.

Unidade 2
6. O que caracteriza o movimento historiográfico pós-moderno?
7. O que a Micro-história tem a nos oferecer? Quais suas principais contribuições?
8. Qual(ais) foi(ram) a(s) contribuição(ções) concreta(s) da Nova História Cultural?
9. Quais as contribuições dos autores Dominick LaCapra, Robert Darnton, Natalie Z.
Davis, Jacques Derrida e Carlo Ginzburg ao debate pós-moderno?
10. Do conteúdo estudado, o que você não compreendeu por completo? Releia, pesquise e
tente sanar suas dúvidas.

Unidade 3
11. O que você entendeu por História enquanto discurso?
12. O que são as práticas na concepção de Michel de Certeau?
13. Qual o papel que os meios midiáticos vêm desempenhando em nossa sociedade?
14. Que modelos de cultura e identidade são divulgados dia a dia?
15. Como Roger Chartier compreende a noção de representação?
16. O que De Certeau e Chartier possuem em comum em suas pesquisas?
17. Tomando como referência o conteúdo da unidade, como entender a verdade histórica?

63 - 68
Unidade 4
18. O que é arqueologia/genealogia para Michel Foucault? Esquematize seu raciocínio.
19. Você compreendeu o que é episteme para o filósofo? Elabore sua própria resposta em
um texto à parte. O exercício será frutuoso a você .
20. O que é descontinuidade para Foucault? Compreendeu o conceito?
21. Por que o estudioso faz uso do conceito de micropoderes e não de Poder?

Unidade 5
22. Você compreendeu o que foi exposto até agora sobre as questões em torno da narrativa?
Exercite fazendo um resumo.
23. Qual a relação entre narrativa e ficção proposta por Hyden White?
24. Lembra-se dos significados e funções dos tropos? Para aprimorar seu conhecimento,
pesquise o significado dos quatro tropos citados pelo autor: metáfora, metonímia,
sinédoque e ironia.
25. Qual a teoria defendida por Hayden White?

Unidade 6
26. Você finalizou a leitura e os estudos desta unidade. Compreendeu por completo o seu
conteúdo? Para averiguar seu grau de conhecimento e compreensão, elabore um quadro
com as características positivas e negativas da historiografia pós-moderna. Com a
confecção desse quadro, você poderá refletir sobre suas próprias posturas conceituais e
metodológicas.

História Regional

1. No que consiste o conceito de espaço vital, presente no pensamento de Friedrich Ratzel?


2. Qual a principal contribuição da Escola francesa para o estudo da relação do homem e da
natureza na qual está presente?
3. Pensando sobre a ideia de região na história, reflita sobre o significado da frase: não existe
uma objetividade do espaço subjacente à construção do discurso do historiador.
4. Qual a contribuição do economista Johann H. von Thunen à elaboração de uma ordem de
ocupação nos espaços urbano e rural?
5. Segundo o pensamento de Maria Yedda Linhares qual a diferença entre uma história da
agricultura e uma história agrária?

64 - 68
6. Reflita sobre a afirmação de que o século 20 foi o século da urbanização.
7. Como a micro-história pode ajudá-lo a realizar pesquisas em história regional?
8. Jacques Le Goff propôs novas posturas para o ofício do historiador na Nova História.
Pensando nisso, analise a sua prática a partir dos três desafios propostos por ele:
1. como trabalhar dentro de uma nova concepção de documento?
2. como trabalhar dentro de uma nova concepção de tempo?
3. como trabalhar com novos meios de comparar os fatos históricos?
9. O Conarq (Conselho Nacional de Arquivos) propõe que os documentos passem por três
etapas de uso e guarda, são eles documentos correntes, intermediários e permanentes.
Caracterize cada uma delas.
10. No Brasil, temos principalmente seis tipos de arquivos, cada um com sua função particular e
com seus documentos específicos. Relacione cada um dos arquivos e seus documentos
correspondentes.
11. Quais são as principais dificuldades em pesquisas com os arquivos privados?
12. Qual a importância das séries documentais para a interpretação do passado?

65 - 68
Organização e trabalho pedagógico na educação infantil

1. Das unidades e questões auto-avaliativas:


1. Unidade 1
1. Na Organização e Gestão da Escola quais ações são desenvolvidas no macro e no
micro espaços educacionais? Procure destacar as particularidades de cada um desses
espaços.
2. Faça um estudo comparando as diferentes modalidades de gestão escolar
apresentadas nesta unidade.
3. Para Libâneo (2008), em que se constitui a organização da escola?
4. Na perspectiva da concepção democrático-participativa, como se deve organizar a
gestão escolar possibilitando a integração entre a gestão escolar, a coordenação, o
corpo docente, os alunos e as famílias?
5. De acordo com a Constituição de 1988, quais as incumbências da educação pública?
6. Conforme o que estabelece a Política Nacional de Educação, como se organizam os
vários Sistemas de Ensino? Quem responde ao Sistema de Ensino?
2. Unidade 2
1. Qual a postura de um professor considerado como um intelectual culturalmente
orientado?
2. Como Moreira e Macedo (2000) caracterizam a atividade docente?
3. Como você entende a proposta da Escola Plural?
4. Como o professor vai perceber os aspectos repressivos infiltrados no currículo
oculto?
5. Como Zeichner (1993) define a postura do professor?
3. Unidade 3
1. Como elaborar os currículos e os programas escolares do 1o ao 9o ano do Ensino
Fundamental evitando-se a fragmentação do conhecimento escolar e, com isso,
garantir a continuidade de ensino dos conteúdos previstos na proposta pedagógica
independentemente das eventualidades que possam ocorrer com a falta de
professores efetivos?
2. Como reestruturar os espaços e os tempos escolares a partir da reforma de nove anos
para o Ensino Fundamental levando-se em conta a peculiaridade infantil?
3. O que você entendeu por Progressão Continuada?

66 - 68
4. Defina a fragmentação curricular.
4. Unidade 4
1. Como organizar o trabalho pedagógico para receber a criança de seis anos? Será que
as escolas estão preparadas para esse desafio?
2. Como as escolas estão organizando os tempos, os espaços e os currículos para
atender os alunos de seis anos no primeiro ano do Ensino Fundamental?
3. O que você entende por democracia na escola?
4. O que a equipe escolar precisa saber para se corresponder com as necessidades das
crianças, ao longo do 1o ciclo do Ensino Fundamental de Nove Anos?
5. Unidade 5
1. Como deve ser a adequação escolar para atender as crianças portadoras de
necessidades especiais e garantir a sua permanência na escola de nove anos?
2. “Como assegurar que a educação cumpra seu papel social diante da heterogeneidade
das populações infantis e das contradições da sociedade?” (KRAMER, 2007, p. 14).
3. Como a escola deve atender crianças e jovens advindos de diferentes culturas?
4. A realidade escolar pode favorecer um fator de enriquecimento, além de oportunizar
trocas e reciprocidades entre todos?
5. As interações culturais podem culminar num diálogo intra e entre culturas,
permitindo, conhecendo e valorizando o conhecimento de si e dos outros?
6. Uma escola que se destina a atender a todos os alunos reconhece que todos são
diferentes?
7. Você concorda com a homogeneização cultural? Por quê?
8. Como promover a formação continuada dos professores, gestores e agentes
escolares, para aprenderem a lidar com alunos com necessidades educacionais
especiais, num contexto de políticas ineficientes, tal como presenciamos no Brasil?
9. Assista ao filme Gaby – uma história verdadeira (Liv Ullmann, 110 minutos) e reflita
acerca da inclusão social e escolar da pessoa com necessidades educacionais
especiais.
6. Unidade 6
1. Como repensar o trabalho docente considerando a questão de gênero?
2. Por que a mulher foi designada para o magistério?
3. Com que justificativa a educação da mulher não foi equiparada à do homem?
4. O que você entende por profissionalização docente?

67 - 68
5. Como superar as barreiras históricas que se referem às questões de gênero?
6. O que os nossos estudos revelam sobre a feminização do magistério?

68 - 68