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FILOSOFIA – Capítulo 11

Os gênios da filosofia alemã:


Hegel, Marx e Nietzsche
O SÉCULO DE OURO DA FILOSOFIA ALEMÃ 01
FRIEDRICH HEGEL 03
KARL MARX 07
FRIEDRICH NIETZSCHE 15
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO 20
EXERCÍCIOS PROPOSTOS 20
SEÇÃO ENEM 22
Os gênios da filosofia alemã:
Hegel, Marx e Nietzsche
A
O SÉCULO DE OURO DA No campo social, ocorreu a consolidação da burguesia
enquanto classe social que detinha o poder econômico
FILOSOFIA ALEMÃ e que galgava cada vez mais espaço no campo político.
Esse movimento de libertação da classe burguesa iniciou-se
com a Revolução Francesa, em 1789, e ocupou cada vez
O final do século XVIII e o início do século XIX constituíram
mais espaço na mente dos homens, que, com o intuito
o chamado século de ouro da filosofia alemã. Nesse período,
de se verem livres dos antigos entraves representados
verificou-se um florescimento de pensadores da mais
pelo poder monárquico, lutavam por direitos políticos,
alta qualidade, da mesma forma como ocorrido na Grécia pela formação e consolidação de um estado de direito
Antiga, com Sócrates, Platão e Aristóteles. O século de e pela separação definitiva entre Igreja e Estado.
ouro teve seu início com Kant, um dos mais importantes O próprio lema da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade
filósofos da História e o qual influenciou profundamente e Fraternidade – representava os ideais dos homens desse
o pensamento dos filósofos que vieram a seguir, sendo período de transformação: eles buscavam cada vez mais
estes chamados, inclusive, de críticos ou seguidores a garantia de seus direitos e a liberdade individual de crença,
de política e de pensamento.
de Kant.
Ainda no campo social, destacou-se a crescente luta
Nesse contexto, o mundo passava por inúmeras
da classe trabalhadora por seus direitos, almejando maior
transformações – sentidas na economia, ciência, política,
participação nas transformações pelas quais o mundo
arte, etc. – que foram de fundamental importância para estava passando. Enquanto os burgueses tinham cada vez
o desenvolvimento desse período. Em todos esses campos, mais seus interesses atendidos, os trabalhadores, até então
a Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra no final do utilizados como massa de manobra nas mãos da burguesia,
século XVIII e propagada por toda a Europa e pelos Estados encontraram-se desprovidos de privilégios e passaram, então,
Unidos, teve um papel de destaque, valorizando não somente a se organizar na luta por seus interesses, que priorizavam,
o conhecimento teórico produzido nas universidades, mas, sobretudo, a libertação da opressão. Nesse momento, deu-se
principalmente, o conhecimento prático, construído no “chão a formação das primeiras ligas operárias, dos sindicatos
e dos partidos operários, que lutavam em prol daqueles
da fábrica”, nos laboratórios e nas academias, propiciando
que, historicamente, haviam servido apenas aos interesses
uma nítida mudança no que se refere às relações de trabalho
da classe dominante.
e à valorização do homem.
No campo da política, ocorreu a consolidação de duas
doutrinas equidistantes: o liberalismo de Adam Smith
(1723-1790) e de David Ricardo (1772-1823) e o socialismo,
que se dividia em dois ramos: o socialismo utópico, que teve
como principais representantes Saint-Simon (1760-1825),
Charles Fourier (1772-1837), Louis Blanc (1811-1882)
e Robert Owen (1771-1858) e que defendia um mundo
mais justo a partir da “boa vontade” dos ricos e poderosos;
e o socialismo científico ou marxista, crítico ferrenho
do socialismo utópico e que via apenas na revolução o caminho
para as transformações necessárias no mundo capitalista.
William Notman

Os pensadores liberais, defendendo os interesses burgueses,


colocavam-se a favor da não intervenção do Estado
na economia, acreditando que esta deveria se reger pela
Mercado Bonsecours. O número crescente de consumidores lógica própria do mercado, através da livre-concorrência
representa o vigor da Revolução Industrial. manifestada na lei da oferta e da procura.

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Antonio Berni
As lutas por uma realidade mais justa levaram os trabalhadores

Félix Nadar
a formarem as ligas operárias, os sindicatos e os partidos
operários durante o século XIX.
Mikhail Aleksandrovitch Bakunin, teórico político russo, foi um dos
Os defensores do liberalismo acreditavam também
principais expoentes do anarquismo em meados do século XIX.
na divisão do trabalho como fator essencial para que
Nesse cenário de transformações políticas, sociais e econômicas
o sistema funcionasse, fazendo com que a produção
do século XIX, ocorreram diversos conflitos que marcaram
crescesse a partir da maior demanda, que, por sua
profundamente o mundo contemporâneo, que, a despeito
vez, levaria ao desenvolvimento de novas tecnologias
do avanço industrial e econômico das classes burgueses,
aplicadas à produção, o que traria como efeito o aumento
via-se, também, diante de um crescente empobrecimento do
da qualidade dos produtos e a redução dos preços.
proletariado, cada vez mais insatisfeito com sua condição. Nas
Além disso, para os liberalistas, o valor pago ao operário
cidades, ao mesmo tempo que cresciam os polos industriais,
por sua força de trabalho deveria ser suficiente para
evidenciava-se a pobreza dos trabalhadores.
possibilitar a subsistência dele e de sua família, a qual
se tornaria também consumidora, movimentando, então, Diante desse quadro, conflitos como as Revoluções de 1848
e A Primavera dos Povos tornaram-se inevitáveis. A luta contra
a roda da economia em um ciclo virtuoso de crescimento
os regimes autocráticos e contra as péssimas condições de vida,
e desenvolvimento.
devidas à crise econômica e à falta de representatividade
O socialismo questionou essa lógica liberalista de política das classes médias, concomitantemente ao crescente
desenvolvimento, afirmando que o sistema capitalista de sentimento de nacionalismo por parte das minorias da Europa
produção concretizava-se na exploração do trabalhador Central e Oriental, foi responsável pela eclosão de conflitos em
assalariado, o qual se alienava no processo produtivo, grande parte do continente europeu. Os conflitos de caráter
tornando-se somente mais um produto da economia nacionalista, liberal e democrático eram encabeçados pela
capitalista. Para os socialistas, esse sistema de exploração burguesia e pela nobreza, e os de caráter anticapitalista tinham
deveria ser desconstruído e, em seu lugar, deveria ser à frente as classes trabalhadora e camponesa.
implantado um sistema mais justo, no qual as relações
de trabalho não se dessem na exploração, mas sim na
participação de todos – burgueses e trabalhadores –,
que teriam garantidos os mesmos direitos jurídicos, sociais
e econômicos.

Além do liberalismo e do socialismo, outra doutrina


de destaque nesse contexto foi o anarquismo, que defendia
a supressão de toda forma de poder e de governo a fim
de alcançar uma liberdade geral. Dentre os principais
pensadores do anarquismo, destacam-se Pierre-Joseph
Proudhon (1809-1865), que defendia uma república
de pequenos proprietários, acabando com o Estado, e Mikhail
Horace Vernet

Bakunin (1814-1876), que acreditava que só por meio


da revolução o Estado poderia ser destruído, constituindo-se,
a partir disso, uma sociedade igualitária. Barricadas nas ruas de Paris durante a Revolução de junho de 1848.

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Nesse período, as ciências passaram por profundas Entusiasta da Revolução Francesa, Hegel assumiu,
e importantes descobertas. Nas Ciências da Natureza, mesmo que teoricamente, um espírito revolucionário que
Albert Einstein (1879-1955) desconstruiu o mundo se espalhou pelos meios intelectuais da Alemanha. Nessa
newtoniano com sua Teoria da Relatividade e Charles Darwin época, a Alemanha vivenciava momentos difíceis em relação
(1809-1882), com a Teoria da Evolução das Espécies, à economia, às estruturas sociais e aos valores, os quais
causou um verdadeiro furor no campo da Biologia. se viam esvaziados de sentido diante de tanta pobreza.
A Medicina também vivenciou momentos empolgantes Nesse contexto, muitos intelectuais alemães, entre eles
com os estudos genéticos de Gregor Mendel (1822-1884) Hegel, assumiram um posicionamento idealista, o que
e sua teoria da hereditariedade. Nas Ciências Humanas, lhes permitiria elaborar formas de compreender o mundo
foi de fundamental importância o desenvolvimento e o homem de maneira desvinculada da realidade, dando-lhes
da psicanálise de Sigmund Freud (1856-1939), que trouxe a oportunidade de se afastarem dos problemas enfrentados
à tona o inconsciente como o responsável pela maioria pela Alemanha no período, refugiando-se dentro de si
das ações humanas, o que levou ao questionamento sobre mesmos. O termo idealismo alemão refere-se a esse grupo.
a liberdade do homem e a possibilidade de autodeterminação. Hegel talvez seja um dos pensadores mais difíceis de ser
Como consequência das transformações ocorridas no mundo compreendido, devido à sua escrita exageradamente técnica
no final do século XVIII e início do século XIX, evidenciou-se e aos novos conceitos que elaborou, rompendo com os
uma reviravolta na maneira de os homens se relacionarem, entendimentos tradicionalmente vigentes, como os conceitos
se organizarem e mesmo de pensarem, o que trouxe claras de espírito, razão e pensamento.
e profundas consequências à Filosofia.
Na Filosofia, os principais pensadores desse período foram
considerados seguidores ou críticos de Kant, dividindo-se
em idealistas e realistas. Os idealistas compuseram o grupo
daqueles que acreditavam que a ideia, o pensamento,

FILOSOFIA
prevaleceria sobre as coisas do mundo, ou seja, que
o conhecimento sobre o mundo partiria da ideia que o homem
tem dele; logo, o sujeito pensante prevaleceria sobre
o objeto pensado, posição esta defendida pelos racionalistas,
com os quais esse grupo se identificava. Já os realistas, cujo
pensamento estava mais ligado aos empiristas, acreditavam
que o mundo natural é que prevaleceria sobre o sujeito

Jakob Schlesinger
pensante, e, assim, a realidade se impunha ao pensamento,
que tentaria simplesmente apreendê-la. Tal postura filosófica
é defendida pelo empirismo.
Hegel, principal representante do idealismo alemão, acreditava
O pensamento idealista difundiu-se principalmente com que a História é dinâmica e que a verdade acompanha a História.
o chamado idealismo alemão, do qual fazem parte os
Enquanto os pensadores anteriores, como Descartes, Locke,
principais pensadores desse período, destacando-se
Hume e Kant, para citar somente os modernos, dedicavam-
entre eles Fichte (1762-1814), Schelling (1775-1854)
se a pensar como seria possível encontrar um conhecimento
e, principalmente, Hegel (1770-1831), um dos maiores verdadeiro e eterno sobre o mundo, Hegel dedicou-se
expoentes dessa doutrina filosófica. a pensar uma forma histórica de conhecimento do mundo
e do homem. Para ele, se a História se transforma, estando
FRIEDRICH HEGEL o momento histórico em constante mudança, então a verdade
acompanha esse momento, estando também em constante
Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu na cidade de transformação. Não haveria, pois, um conhecimento
Stuttgart, Alemanha, em 1770. Cursou o ginásio em sua eterno e estável acerca do mundo e da moral, mas sim um
cidade natal e, em 1788, entrou para a Universidade de conhecimento que acompanharia o desenvolvimento histórico,
Tübingen, onde estudou Filosofia e Teologia com pretensões atendendo às exigências de cada época.
de se tornar pastor, o que não aconteceu. Trabalhou como
Com isso, Hegel não quer dizer que cada homem tem a
preceptor, editor de jornais, diretor de escola e professor sua verdade particular, sendo esta subjetiva, mas sim que
de Filosofia, tendo lecionado nas universidades de Iena, a verdade que serve para todos em um dado momento
Heidelberg e Berlim. se transforma coletivamente, de maneira que o momento
Sua vida acadêmica e sua produção filosófica foram atual e seu conhecimento devem ser um aprimoramento
admiráveis, destacando-se, dentre suas publicações mais do momento anterior. Consequentemente, a verdade
importantes, A fenomenologia do espírito (1806), A ciência do momento atual também deve ser diferente e melhor,
da lógica (1812), A filosofia da história (1818) e A filosofia acompanhando o desenvolvimento histórico das gerações.
do direito (1821). Em 1829, Hegel assumiu o cargo de reitor Ao propor essa nova forma de pensar, a intenção de Hegel
da Universidade de Berlim e, nessa época, ganhou fama era encontrar critérios que pudessem servir como base de
e prestígio. O filósofo morreu em 1831, vítima da cólera. compreensão da história em transformação.

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A História Ainda segundo Hegel, as constantes mudanças na História
são acompanhadas de uma progressiva melhora, ou seja,
ela encontra-se em um processo evolutivo e, à medida
Na História, o pensamento está subordinado aos dados da
que se transforma e evolui, as verdades se transformam
realidade, que mais tarde servem como guia e base para
os historiadores. Por outro lado, afirma-se que a Filosofia e evoluem junto com ela. Se hoje os negros são considerados,
produz suas idéias a partir da especulação, sem levar em pela lei brasileira, iguais aos brancos, devendo receber
conta os dados fornecidos. Se a Filosofia abordasse a História o mesmo tratamento, isso se deve ao progresso da História
com tais idéias, poder-se-ia sustentar que ela ameaçaria
e ao consequente progresso das ideias. Para Hegel, esse
a História como sua matéria-prima, não a deixando como é,
mas moldando-a conforme essas idéias, construindo-a, por
progresso é um sinal da maturação da humanidade,
assim dizer, a priori. Mas, como se supõe que a História que está constantemente progredindo dentro da História
compreenda os acontecimentos e ações apenas pelo que são rumo ao seu pleno desenvolvimento. Da mesma forma,
e foram e que, quanto mais factual, mais verdadeira ela é, a consciência acompanha esse desenvolvimento, e o homem
parece que o método da Filosofia estaria em contradição
se aprimora dentro dessa concepção de progresso. Hegel
com a função da História.
acreditava que chegaria um momento em que haveria o pleno
HEGEL, G. W. F. A razão na História – uma introdução geral
à Filosofia da História. Tradução de Beatriz Sidou. desenvolvimento e o autoconhecimento da humanidade, e é
São Paulo: Ed. Centauro, 2001. p. 52. para esse momento que a História e o homem caminham.

A História ocupa lugar central na filosofia hegeliana, que


defende que o contexto histórico é o ponto de partida do
O Espírito do mundo e a dialética
conhecimento. Para Hegel, a História constitui tudo aquilo Hegel afirma que a realidade histórica é espírito, o que
que é próprio de determinada época, o que é resultado dos significa que a História não é vista como algo estável
acontecimentos passados e da elaboração do pensamento, ou substancial, mas, ao contrário, é compreendida pelo
ou seja, tudo que os homens pensam em determinado filósofo como uma realidade que está em constante
momento é resultado do desenvolvimento histórico. Por isso, mutação, sendo, por isso, sujeito. Para Hegel, a realidade
o filósofo afirmou que a verdade não era eterna e única, mas não é algo em si mesma, mas é, antes de tudo, movimento
acompanhava esse desenvolvimento da História.
e processo evolutivo. Esse movimento da realidade, chamado
Como exemplo, pode-se citar a época da escravidão no pelo filósofo de movimento dialético, ou simplesmente
Brasil, na qual a ideia de que o negro era um ser inferior, de dialética, é definido como um processo constituído
que tinha uma natureza pior, sendo considerado inclusive
de tese (afirmação), antítese (negação) e síntese (negação
um animal e não um homem, era comum entre os brancos,
da negação).
o que, de certa forma, justificava o péssimo tratamento ao
qual os negros eram submetidos, trabalhando exaustivamente Segundo Hilton Japiassú e Danilo Marcondes:
para seu “dono” e sendo ainda castigados. Embora não aceita
atualmente, nessa época, tal ideia era tida como correta, [...] Em Hegel, a dialética é o movimento racional que nos
tornando-se, naquele contexto, uma verdade. Porém, com permite superar uma contradição. Não é um método, mas um
o passar do tempo e com as transformações da História, movimento conjunto do pensamento e do real: “Chamamos
essa ideia se alterou. O que era tido como verdade há de dialética o movimento racional superior em favor do qual
alguns séculos hoje é inconcebível. A verdade acompanhou esses termos, na aparência separados (o ser e o nada),
as mudanças da História, e, por isso, hoje podemos pensar passam espontaneamente uns nos outros em virtude mesmo
a mesma questão de forma diferente. daquilo que eles são, encontrando-se eliminada a hipótese
Pelo exemplo, percebe-se que as ideias de certo e errado, de sua separação”. Para pensarmos a História, diz Hegel,
de bom e mal, de justo e injusto, assim como as ideias importa-nos concebê-la como sucessão de momentos,
cada um deles formando uma totalidade, momento que
“científicas” sobre a natureza dos homens brancos e negros,
só se apresenta opondo-se ao momento que o precedeu:
alteraram-se, e essas mudanças de concepções só foram
ele o nega manifestando suas insuficiências e seu caráter
possíveis devido às mudanças da própria História. Logo,
parcial; e o supera na medida em que eleva a um estágio
não se pode dizer que a verdade antes de 1888 no Brasil,
superior, para resolvê-los, os problemas não-resolvidos.
período em que os negros eram escravizados e considerados
E na medida em que afirma uma propriedade comum do
inferiores, estava errada, pois isso significaria julgar fatos
pensamento e das coisas, a dialética pretende ser a chave do
passados com os olhos do presente, um anacronismo.
saber absoluto: do movimento do pensamento, poderemos
Para Hegel, sendo cada momento histórico diferente
deduzir o movimento do mundo: logo, o pensamento humano
do outro, em cada um deles a concepção de verdade pode conhecer a totalidade do mundo (caráter metafísico
é adequada ao seu contexto, uma vez que essa verdade da dialética).
está em consonância com os valores, os preceitos, as ideias
Dialética. In: JAPIASSÚ, Hilton ; MARCONDES, Danilo.
e vivências próprias de sua época. Por isso, a concepção
Dicionário básico de Filosofia. Rio de Janeiro:
hegeliana de História é que ela é dinâmica, estando em
Jorge Zahar, 1996.
constante mutabilidade.

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Segundo a filosofia hegeliana, é pelo processo dialético
que a História e, consequentemente, o pensamento
filosófico se transformam. Dessa forma, o desenvolvimento
histórico não acontece a partir do nada, mas sim no
processo dialético, que faz o novo nascer do antigo.
Veja o seguinte exemplo de processo dialético para
compreender melhor o desenvolvimento da História e das
verdades filosóficas.

Tese: Suponha que, há alguns anos, a concepção


de liberdade fosse a de uma total determinação,
ou seja, os pensadores que se dedicavam a pensar

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se o homem é livre ou não acreditavam que a liberdade
não existia e que todas as ações humanas eram
determinadas por causas internas, por exemplo,
Merleau-Ponty (1908-1961) foi um dos principais pensadores
a natureza ou os instintos.
do século XX. Sua tese era a de que “o homem nasce do mundo
e no mundo”.
Antítese: Em um segundo momento, os homens
passaram a criticar duramente essa teoria A síntese, portanto, é o resultado do confronto entre tese
do determinismo, defendendo a ideia, contrária e antítese, servindo como uma nova tese, a qual, por sua

FILOSOFIA
vez, terá outra antítese, que formará uma nova síntese
à anterior, de que o homem era totalmente dono
a partir do confronto da tese e da antítese anterior, e assim
de si, sendo livre e agindo de acordo com sua total
sucessivamente, em um processo contínuo e interminável.
autonomia, sem qualquer influência de fatores
Ainda utilizando o exemplo anterior, suponha que surgisse
internos. Enfim, os instintos não interfeririam nas uma nova ideia, em contraposição à ideia de Merleau-
ações humanas. Ponty, a qual afirmasse que a liberdade humana era
limitada somente por fatores internos de ordem natural,
Síntese: Do confronto entre determinismo absoluto
mas que o homem, consciente desses fatores, poderia
e autonomia absoluta, entre tese e antítese, surge decidir suas ações. Ocorreria, assim, um novo processo
nos homens a percepção de que nem uma ideia nem dialético, em que a tese (a síntese de Merleau-Ponty) seria
outra têm a verdade, mas que a liberdade é um misto contrariada por essa antítese, que, por consequência,
entre determinismo e autonomia, ou seja, a liberdade traria uma nova síntese.
existe, mas não é total. Hegel afirma, portanto, que a História acompanha esse
desenvolvimento dialético. Dessa forma, os acontecimentos
Uma boa forma de concretizar esse exemplo é aplicá-lo
e verdades atuais apresentam-se como antítese dos antigos,
às ideias de Hobbes, Picco Della Miràndola e Merleau-Ponty.
e, como consequência desse processo, surge uma nova
Enquanto Hobbes defendia que as ações humanas eram realidade e uma nova verdade, melhores que as anteriores
determinadas pela natureza má do homem (tese), Picco que um dia também foram contrariadas, em um processo
Della Miràndola defendia que o homem era absolutamente de aperfeiçoamento e de progresso constante.
livre, sem nenhuma lei que determinasse sua vida, sendo
Esse processo consiste no espírito do mundo, o qual,
ele mesmo o único responsável por se construir (antítese).
na filosofia hegeliana, não possui qualquer conotação
Da contradição entre essas duas ideias, ou seja, do religiosa ou sobrenatural. Hegel, ao definir esse espírito, diz:
confronto surgido a partir delas, tem-se uma terceira
posição, a de Merleau-Ponty, que defendia uma liberdade Mas o que é o espírito? É o único infinito imutavelmente
situada ou real, ou seja, para esse pensador, o homem homogêneo – a identidade pura – que, em sua segunda
era livre, mas sua liberdade efetivava-se dentro de fase, se separa de si mesmo e faz desse segundo aspecto
certos limites, que poderiam ser de ordem natural (como seu próprio oposto polar, ou seja, como existência por si
o homem não poder voar, por não ter asas) ou social e em si em contraste com o universal.

(como o homem não poder agir da maneira que melhor HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do espírito.
lhe convier, pois existem leis que limitam e direcionam Tradução de Paulo Meneses. 2. Ed.
São Paulo:Loyola, 2003. p. 36.
suas ações).

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Para Hegel, o espírito do mundo caminha rumo ao seu 1ª etapa – Espírito subjetivo: Nessa etapa,
completo desenvolvimento. Logo, a consciência estaria o conhecimento refere-se à razão subjetiva,
caminhando em direção ao abandono das ideias superficiais quando o espírito do mundo toma consciência de si
mesmo no homem, ou seja, refere-se ao indivíduo
do senso comum para atingir o conhecimento do absoluto.
e à consciência individual.
Ao atingi-lo, a consciência superaria o conhecimento do
2ª etapa – Espírito objetivo: Nesse momento,
limitado e finito e chegaria ao conhecimento do ilimitado
o espírito ou razão objetiva toma consciência do
e infinito, alcançando, enfim, a razão. Esta seria concretizada
homem enquanto ser social, inserido em uma
quando o conhecimento pudesse reunir a realidade objetiva coletividade – família, sociedade e Estado. Refere-se,
e o pensamento subjetivo, conciliando ser e pensamento portanto, às instituições e aos costumes construídos
em uma única coisa. historicamente pelos homens em sociedade.
3ª etapa – Espírito absoluto: Esse é o momento mais
Assim, pois, no saber o espírito encerra o movimento sublime da manifestação da razão, no qual o espírito
de formação, ao ser afetado o mesmo pela diferença torna-se consciente de si mesmo dentro da História.
sobreposta da consciência. O espírito conquistou o puro
Nessa etapa, o espírito toma consciência do Estado
e passa a se manifestar, então, nas artes, na religião
elemento de seu ser aí, o conceito. O conteúdo é, segundo
e na Filosofia enquanto consciência de si mesmo.
a liberdade de seu ser, o si mesmo que se aliena ou a unidade
A filosofia hegeliana considera que o Espírito está
imediata do saber de si mesmo. O puro movimento desta
a caminho do absoluto e da liberdade, num processo
alienação constitui, considerado como conteúdo, a necessidade
de renovação e progresso que levaria os homens a se
deste. O conteúdo diversificado é como que determinado
encontrarem e se identificarem com o Estado enquanto único
na relação, não em si, e sua inquietude consiste em superar-se capaz de garantir a felicidade.
a si mesmo ou na negação; é, portanto, a necessidade
ou a diversidade, o ser livre e igualmente o si mesmo; A importância do Estado
e, nesta forma da mesmidade, em que o ser aí é pensamento
Segundo a filosofia hegeliana, é a própria História e
imediato, o conteúdo é conceito. Uma vez que o espírito tenha
seu desenvolvimento que constituem o caminhar e o
alcançado o conceito, desenvolve o ser aí e o movimento desenvolvimento do espírito, o qual, por sua vez, manifesta-se
neste éter de sua vida, e é ciência. Nela, os momentos de seu em estágios até chegar à ideia do absoluto. Assim,
movimento não se apresentam já como determinadas figuras a consciência passa, primeiramente, pelo conhecimento
da consciência, senão como a diferença da consciência de si, reconhecendo-se em seguida nas instituições
retornada a si mesma, como conceitos determinados sociais e, somente em seu mais elevado grau, ela se torna
e como o movimento orgânico, fundado em si mesmo, conhecimento ou consciência do próprio Estado, entendido
por Hegel como a forma mais elevada de agrupamento
de tais conceitos.
humano, pois encerra em si os mais variados interesses,
HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do espírito.
que se submetem, em última instância, ao interesse coletivo.
Tradução de Paulo Meneses. 2. Ed.
São Paulo:Loyola, 2003. p. 14. O Estado seria, assim, o grande soberano, que agregaria
os diversos interesses dos homens individuais, pacificando-os
e criando uma unidade de entendimento e de ações que
Nesse trecho, Hegel apresenta seu conceito de sistema,
satisfaria a todos, que no Estado estariam seguros e felizes.
segundo o qual, por meio do desenvolvimento da razão rumo
O Estado objetivo é, portanto, o momento mais elevado do
ao pleno conhecimento, seria possível conhecer tudo o que
espírito, justificando assim a frase “O indivíduo só existe como
existe para ser conhecido, tanto no mundo material como
membro do Estado”. Fora dele, o homem não é nada, mas,
na realidade espiritual e moral, atingindo o total e perfeito dentro, o homem faz parte do todo, encontrando sentido para
conhecimento acerca de todas as coisas dentro da História: sua existência e tornando-se completamente livre.
“Toda consciência é consciência de seu tempo”.
O conceito hegeliano de liberdade padece de uma
contradição: afinal, como o homem pode ser livre quando
Segundo Hegel, o conhecimento humano, entendido não
pertence a um Estado soberano e a ele obedece? Para Hegel,
como conhecimento individual, mas sim coletivo, assume um
porém, tal obediência não significa uma submissão forçada
caráter dinâmico, o que significa que, tal como a História,
e penosa, mas sim a subordinação dos homens a um Estado
esse conhecimento é progressivo, aprimora-se, saindo do que é produtor de leis, as quais, para o filósofo, são a garantia
finito e limitado para alcançar o infinito e ilimitado. O filósofo de que o Estado sempre fará o melhor para seus partícipes.
define três momentos de manifestação do espírito, em que As leis criadas pelo Estado devem sempre garantir a vida,
o conhecimento acontece: a paz, a segurança e a liberdade de todos os homens.

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Para Hegel, a ideia de liberdade é intrínseca à ideia
de lei. Sendo o Estado, portanto, a manifestação mais
elevada e pura do espírito absoluto, da verdade, é nele que
se encontra a mais excelente vontade humana, a liberdade.
Uma das frases mais conhecidas de Hegel e que representa
sua concepção de História, de liberdade e de verdade é:
“O real é racional e o racional é real1”. Com essa afirmação,
o filósofo quer dizer que tudo o que é real segue uma lógica
própria de racionalidade superior do espírito, sendo que nada
acontece por acaso, existindo um claro sentido histórico
dentro do processo de desenvolvimento da humanidade.
As ideias de Hegel acerca do Estado serviram, inclusive,
como pretexto para o surgimento da ideia de Estados
totalitários no mundo contemporâneo. Afinal, uma vez
que o Estado está acima de todos os indivíduos e estes
só se encontram no Estado, sendo ele a manifestação
Karl Marx, cujas ideias se espalharam pelo mundo em uma
da vontade absoluta do espírito e da verdade, tudo aquilo
velocidade impressionante, exercendo grande influência ainda hoje.
que o Estado decidir deve ser considerado correto, devendo
todos os homens se submeter às suas decisões. Marx não foi estritamente um filósofo, no sentido
tradicional do termo, pois não buscou somente teorizar
sobre o mundo e os homens, mas, principalmente, pensar
a sociedade com fins práticos. Engajou-se em vários campos
do pensamento, tendo se ocupado também de História,
Ciência Política, Sociologia, Economia, Jornalismo, além de
ter sido ativista político e, sobretudo, um revolucionário.

FILOSOFIA
Marx ocupou diversos cargos em jornais e periódicos, sempre
de tendências políticas, tendo sido expulso de várias cidades em
consequência de suas ideias polêmicas. Em 1847, juntamente
com Engels e mais dezessete companheiros, fundou o Partido
Comunista na cidade de Bruxelas, Bélgica, publicando o programa
do partido no ano seguinte, o Manifesto do Partido Comunista.
A intenção era claramente organizar um movimento junto
ao proletariado visando à revolução desse grupo. Para tanto,
Marx ajudou na organização da Primeira Internacional,
As ideias de Hegel sobre a influência do Estado foram erroneamente convenção dos trabalhadores que tinha como objetivo organizar
usadas como justificativas para a criação dos Estados totalitários, a atividade revolucionária. Viveu seus últimos anos em
como ocorreu na Alemanha nazista durante o governo de Adolf Londres, cidade na qual levava uma vida miserável junto com
Hitler. Na imagem, o Führer discursa para o povo alemão. sua família, dependendo da ajuda de amigos para sobreviver.
Seus últimos anos de vida foram dedicados aos seus escritos
KARL MARX econômicos e filosóficos e seu falecimento aconteceu em 1883.
Karl Marx nasceu em Trier, Alemanha, em 1818, em uma As obras de Marx refletem a variedade de campos
família de origem judaica. Cursou Direito na Universidade de do conhecimento aos quais ele se dedicou. No campo da História,
Bonn e fez doutorado em Filosofia na Universidade de Berlim, Marx publicou, em 1852, o 18 Brumário de Luís Bonaparte.
tendo defendido a tese sobre a diferença entre as filosofias Sobre Economia, foram publicados os Manuscritos econômicos-
materialistas do pré-socrático Demócrito e de Epicuro. filosóficos (1844), a Crítica da economia política (1859)
Na Universidade de Berlim, conheceu os “hegelianos e O capital (1876), sua obra mais importante e considerada
de esquerda”, grupo do qual participou, sendo reconhecido uma das mais influentes da Modernidade. No campo da Filosofia,
como um de seus maiores representantes. Marx teve contato publicou A sagrada família (1845), na qual critica os hegelianos
com a filosofia dos socialistas utópicos Proudhon e Fourier, e sua filosofia idealista, A ideologia alemã (1845-1846)
e, em 1844, foi para Paris, onde conheceu seu companheiro e A miséria da Filosofia (1847), em que critica o socialismo
e colaborador Friedrich Engels2. utópico.
1
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Princípios da filosofia do direito.Tradução de Orlando Vitorino. São Paulo: Martins Fontes, 1997. p. 36.
2
Friedrich Engels (1820–1895) nasceu na Alemanha e estudou na Universidade de Berlim, onde se ligou aos “jovens hegelianos”, dedicando-se
a múltiplas atividades, que iam desde o jornalismo, a militância política e o trabalho filosófico até a administração da indústria de seu pai
em Manchester, Inglaterra. Engels foi não só colaborador teórico de Marx como também seu amigo mais íntimo, tendo-o ajudado, inclusive,
financeiramente. Em 1845, publicou com Marx A sagrada família, obra na qual eles rompem ao mesmo tempo com o idealismo hegeliano
e com o materialismo mecanicista. Torna-se por vezes difícil separar, nas principais teses do marxismo, quais as ideias de Marx e quais as de
Engels, já que escreveram quase sempre juntos desde que se conheceram em 1844. Considera-se, geralmente, que o materialismo dialético,
especialmente a dialética da natureza, é uma criação típica de Engels, sendo, no entanto, de grande importância e influência no desenvolvimento
da filosofia marxista. Além das obras que escreveu juntamente com Marx, podem-se citar as seguintes de sua autoria: A situação das classes
trabalhadoras na Inglaterra (1845), Socialismo atípico e socialismo científico (1860), Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã (1866).
Friedrich Engels. In: JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.

Pág 07
O monismo dialético É possível perceber com clareza a inversão radical que
ocorre entre essas duas posições filosóficas: enquanto
de Hegel vs. o materialismo Hegel acreditava que a ideia determinava o real (monismo
dialético de Feuerbach dialético), Feuerbach dizia que o real determinava a ideia
(materialismo dialético).
Para que a compreensão do conceito de materialismo
Marx, retomando o materialismo dialético de Feuerbach,
histórico dialético de Marx se torne mais clara, faz-se criou o conceito de materialismo histórico, afirmando que,
necessário compreender o conceito de monismo hegeliano além de a História, a realidade, determinar as ideias e a
e a crítica a esse conceito apresentada pelo filósofo consciência de um povo, ela também é construção humana,
alemão Ludwig Feuerbach (1804-1872), um dos principais e, dessa forma, pode ser transformada.
representantes da esquerda hegeliana juntamente com
Marx, embora este também teça críticas à filosofia Eis, pois, os fatos: indivíduos determinados que têm
de Feuerbach. uma atividade produtiva segundo um modo determinado
entram nas relações sociais e políticas determinadas. [...]
A produção das idéias, das representações e da consciência
está primeiro, direta e intimamente misturada à atividade
material e ao comércio natural dos homens; ela é linguagem
da vida real. [...] E se, em toda ideologia, os homens e suas
relações nos parecem postos de cabeça para baixo como
numa câmera escura, este fenômeno decorre de seu processo
de vida histórica, absolutamente como a inversão dos objetos
na retina decorre de seu processo de vida diretamente física.
Ao contrário da filosofia alemã, que desce do céu à terra, é
da terra ao céu que se sobe aqui. Dito de outro modo, não
partimos do que os homens dizem, imaginam, representam,
nem sequer do que são nas palavras, no pensamento, na
imaginação e na representação de outro, para chegar em
seguida aos homens em carne e osso; não, partimos dos
homens em sua atividade real; é a partir de seu processo
de vida real que representamos também o desenvolvimento
dos reflexos e dos ecos ideológicos desse processo vital.
MARX, Karl. Ideologia alemã. VV. AA. Os filósofos através
dos textos: de Platão a Sartre. Tradução de Constança
Terezinha M. César. São Paulo: Paulus, 1997. p. 253.

Para Marx, o homem é quem faz a História e, portanto,


August Weger

é ele quem cria os problemas sociais e instaura o abismo que


separa ricos e pobres, oprimindo estes e impondo-lhes uma vida
indigna e alienada. Logo, somente o homem pode modificar
Feuerbach elaborou o conceito de materialismo dialético que mais essa realidade e consertar as injustiças contra a humanidade.
tarde Marx utilizou formulando seu conceito de materialismo
histórico dialético. O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido,
serviu-me de fio condutor aos meus estudos pode ser
Hegel afirmava que a realidade, a História, era fruto do formulado em poucas palavras: na produção social da
desenvolvimento do espírito do mundo, o que significa que própria vida, os homens contraem relações determinadas,
a natureza era a concretização da ideia, ou seja, havia necessárias e independentes de sua vontade, relações de
produção estas que correspondem a uma etapa determinada
a predominância das ideias sobre a realidade, que somente
de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais.
progrediria pela ação da ideia. Nisto consiste o monismo A totalidade destas relações de produção forma a estrutura
dialético: o espírito, o absoluto, manifesta-se na História, econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta
determinando a realidade. uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem
formas sociais determinadas de consciência. O modo de
Feuerbach inovou e inverteu a lógica hegeliana, criando produção da vida material condiciona o processo em geral
o conceito de materialismo dialético. Para esse filósofo de vida social, político e espiritual. Não é a consciência dos
alemão, a ideia, o modo de pensar de um povo, é o resultado homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu
da História, o que significa que a concepção de mundo, ser social que determina sua consciência.

as ideias e os preconceitos que os homens trazem consigo MARX, Karl. Prefácio à crítica da economia política.
Tradução de Edgar Malagodi. v. 35. p. 135.
são resultados da realidade histórica concreta na qual eles
Coleção Os Pensadores.
estão inseridos.

Pág 08
O homem como protagonista da A crítica de Marx a Hegel e aos hegelianos diz respeito
História fundamentalmente a seu idealismo. A interpretação
hegeliana do processo histórico e da formação da consciência
Segundo o materialismo histórico de Marx, toda sociedade, restringe-se ao plano das idéias e representações, do saber
independentemente de seu tempo e espaço, é determinada e da cultura, não levando em conta as bases materiais da
por suas condições socioeconômicas e por sua forma de sociedade em que este saber e esta cultura são produzidos
organização dos modos de produção. Logo, os interesses e em que a consciência individual é formada. [...] O próprio
que regem toda e qualquer sociedade estão vinculados aos Marx diz que seu objetivo é “inverter o homem de Hegel”,
interesses materiais, que, em última instância, referem-se que tem os pés na terra e a cabeça nas nuvens, mostrando
à necessidade de sobrevivência do homem. que sua cabeça, isto é, suas idéias são determinadas pela
“terra”, ou seja, pelas condições materiais de sua vida.
A consciência, que é considerada livre e auto-determinada,
passa a ser vista como condicionada pelo trabalho.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da Filosofia:


dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1997. p. 228.

Desse modo, o homem, entendido não como ser individual,


mas como humanidade, é responsável pela construção da
realidade. Em contrapartida, seu modo de pensar é resultado
do contexto histórico em que está inserido, e, por isso,
as suas ideias e o seu modo de pensar são condicionados

FILOSOFIA
pela situação concreta de sua vida. Por essa razão, o único
empecilho à felicidade humana para Marx é tão-somente
sua condição real de vida, que lhe oprime impedindo
sua realização. Logo, para que os homens se realizem
ou alcancem a felicidade, basta que eles se dediquem
à promoção das mudanças socioeconômicas necessárias.

Tendo em vista tais ideias, é possível compreender uma


das citações mais importantes e conhecidas de Karl Marx:
“Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes
maneiras; o que importa [agora] é transformá-lo”4.
Nessa frase, fica claro o objetivo de Marx, compreender
o mundo por meio da Filosofia e de outras ciências e depois
Reprodução

transformá-lo por meio da revolução do proletariado.


Referindo-se à sua própria filosofia como “humanismo real”,
O triunfo do socialismo Marx compreendia que a preocupação maior do pensamento
deveria ser o homem, origem e fim da Filosofia, protagonista
É nesse aspecto que ganha importância a reflexão
e produtor da História. Marx não compreendia o homem
marxiana 3 sobre o trabalho, concebido como uma
como ser individual e particular, mas sim como pertencente
necessidade humana. Criticando Hegel, que afirmava que
a um contexto histórico e participante da sociedade.
a realidade era a manifestação do espírito absoluto, Marx
defendia que, pelo trabalho, o homem poderia modificar Segundo o filósofo, o desenvolvimento da História
a natureza e o mundo, sendo a realidade, portanto, fruto é marcado pelas forças de produção e pela distribuição
do trabalho humano diante de uma realidade natural de mercadorias. Desse modo, a evolução econômica
contingente. Uma vez que o mundo é resultado da natureza de um povo determina a evolução da sociedade, a qual
transformada a partir do trabalho, essa realidade deveria é dividida em classes distintas, que se organizam de acordo
se alterar quando as relações de produção e de trabalho com a distribuição de mercadorias, gerando a desigualdade
sofressem alterações. social. Essa desigualdade possibilita a exploração dos
trabalhadores – que só possuem a sua força de trabalho
3
É comum, no meio filosófico, evitar-se o termo “marxista” para para vender – por aqueles que detêm a posse da propriedade
se referir à filosofia e ao pensamento de Marx. Isso se deve ao privada dos meios de produção e buscam cada vez mais
caráter pejorativo que tal termo adquiriu. Por isso, faz-se, neste aumentar seus bens e riquezas.
material, a opção pelo termo “marxiano(a)”, que não carrega
uma visão pessimista ou pejorativa da filosofia de Karl Marx. 4
MARX, K. A ideologia alemã. São Paulo: Hucitec, 1979. p. 111

Pág 09
Infraestrutura e superestrutura
Marx define infraestrutura como o conjunto das condições
econômicas que moldam uma sociedade e superestrutura
como o conjunto de instituições, por exemplo, família, Estado,
cultura, etc. Essas instâncias exerceriam poder mútuo, uma
influenciando diretamente a outra. Pode-se pensar que,
se a superestrutura constitui as instituições e estas, por
sua vez, são formadas por pessoas e, consequentemente,
pela consciência, a superestrutura determina, então,
a infraestrutura, que consiste nas condições econômicas de
determinada sociedade. Por outro lado, a superestrutura
também é determinada pela infraestrutura, uma vez que
o modo de pensar de um povo, sua consciência, é resultado
Para Marx, a revolução do proletariado é única forma de esse das realidades socioeconômica e material.
grupo sair da condição de classe explorada.
Seguindo esse raciocínio, Marx chega à conclusão
Não é possível, para Marx, pensar em uma única sociedade que, melhorando-se a infraestrutura, melhoram-se
marcada pela propriedade privada que não tenha em sua as condições econômicas de um povo e, consequentemente,
essência a desigualdade e a opressão dos proprietários em a superestrutura, constituída de homens e de ideias,
relação aos despossuídos. Em decorrência dessa exploração, irá melhorar, já que ela é consequência da realidade material.
Da mesma forma, melhorando a superestrutura, melhora-se
o filósofo propõe uma sociedade na qual não haveria
também a infraestrutura, pois esta é resultado do trabalho
propriedade privada dos meios de produção, sendo que todas
humano, que é quem constrói a História. Nesse ciclo virtuoso,
as ferramentas, o maquinário, a terra e as matérias-primas
enfim, os homens poderiam construir um mundo melhor
pertenceriam a todos, excluindo-se, assim, a necessidade
e mais justo, eliminando as desigualdades e promovendo
e a possibilidade de exploração de alguns homens por outros.
a valorização do ser humano.

Nessa sociedade, a riqueza produzida pelos homens


seria dividida segundo as necessidades de cada pessoa,
As fases da sociedade
não havendo a avidez por bens, que serviriam ao homem As sociedades, enquanto frutos dos modos de produção,
e às suas necessidades e não o contrário, e, assim, sofreram influências desses mecanismos ao se dividirem em
os homens não seriam escravos dos bens materiais. classes sociais ao longo da História.

Marx apontou quatro fases da humanidade de acordo com


[...] Tornando supérflua a força muscular, a maquinaria a presença ou não da propriedade privada:
permite o emprego de trabalhadores sem força muscular
1ª – Fase primitiva: Nessa fase, não havia classes sociais,
ou com desenvolvimento físico incompleto, mas com
uma vez que não existia a propriedade privada dos
membros mais flexíveis. Por isso, a primeira preocupação
meios de produção. Tudo era de todos e todos os bens
do capitalista, ao empregar a maquinaria, foi a de utilizar
produzidos eram compartilhados. A lógica que pautava
o trabalho das mulheres e das crianças. [...] [Entretanto,]
a vida em sociedade era a de que o grupo era maior
a queda surpreendente e vertical no número de meninos
do que um único homem, e este só se reconheceria
[empregados nas fábricas] com menos de 13 anos [de idade],
enquanto participante do grupo.
que freqüentemente aparece nas estatísticas inglesas dos
últimos 20 anos, foi, em grande parte, segundo o depoimento 2ª – Fase escravista: Na sociedade escravista, havia
dos inspetores de fábrica, resultante de atestados médicos a polarização entre proprietário e não proprietário,
que aumentavam a idade das crianças para satisfazer a ânsia sendo que o primeiro detinha a posse dos meios de
de exploração do capitalista e a necessidade de traficância produção, inclusive da mão de obra, ou seja, do próprio
dos pais. escravo. Nessa fase, na qual já havia a presença da
MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. propriedade privada, trazendo, por consequência,
19. ed. Rio de Janeiro: Civilização a desigualdade e a exploração, não eram concedidos
Brasileira, 2002.Livro I, v. 1.
quaisquer direitos, até mesmo o de cidadania,
p. 451 e 454.
ao escravo.

Pág 10
3ª – Fase feudal: Na sociedade feudal, a interação
entre os homens dava-se na relação entre senhor
e servo. Embora o servo não fosse mais uma
propriedade, como o escravo na fase anterior,
ele se submetia ao trabalho forçado e alienado,
sendo obrigado, devido às circunstâncias
e à necessidade de sobrevivência, a se entregar ao
senhor, que era o proprietário.

4ª – Fase capitalista: Nessa fase, as relações entre os


homens também ocorriam através da exploração
d o s p r o p r i e t á r i o s s o b r e o s t ra b a l h a d o r e s .
Estes, desprovidos de posses, vendiam sua força de
trabalho em troca de um salário que, assim como nas
sociedades escravista e feudal, não servia à outra
finalidade se não à sobrevivência.

Verifica-se, assim, que todas as sociedades marcadas


pela presença da propriedade privada têm em sua gênese a
desigualdade social, a qual nasceu da divisão da sociedade

Viktor Deni
em classes sociais.

FILOSOFIA
Lênin varrendo o mundo do capitalismo.

A crítica marxiana ao capitalismo A essência do capitalismo é o acúmulo de capital e, para


que isso aconteça, não há limite moral, político ou mesmo
O capitalismo é um sistema econômico no qual os meios religioso que possa impedir os proprietários de se dedicarem
de produção (instrumentos de produção e matéria-prima) a esse acúmulo. Segundo Marx, a única maneira de atingir
e de distribuição são de propriedade privada, possuindo esse objetivo é por meio da exploração do trabalhador, que
por objetivo o aumento de capital. Nesse sistema, deve produzir cada vez mais, em um menor tempo e com
as decisões sobre oferta, demanda, preço, distribuição baixos salários, de forma que o produto saia mais barato
e investimentos não são tomadas pelo governo, e sim pelos e obtenha-se mais lucro com sua venda.

proprietários privados, que obtêm os lucros e investem


Pela exploração do mercado mundial a burguesia imprime
em empresas, pagando salário aos trabalhadores que
um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em
vendem sua força de trabalho. O capitalismo configura-se
todos os países. Para desespero dos reacionários, ela
como sistema dominante no mundo ocidental a partir da
retirou à indústria sua base nacional. As velhas indústrias
Revolução Industrial dos séculos XVII e XVIII, substituindo
nacionais foram destruídas e continuam a sê-lo diariamente.
definitivamente o sistema feudal. [...] Em lugar das antigas necessidades satisfeitas pelos
produtos nacionais, nascem novas necessidades, que
A palavra capital origina-se do latim capitale, derivado reclamam para sua satisfação os produtos das regiões mais
de capitalis (principal, primeiro), que, por sua vez, vem do longínquas e dos climas mais diversos. Em lugar do antigo
proto-indo-europeu kaput, que significa “cabeça”. O termo isolamento de regiões e nações que se bastavam a si
“capitalista” foi amplamente utilizado por pensadores do próprias, desenvolve-se um intercâmbio universal, uma
século XIX, como o poeta Samuel Taylor Coleridge, em universal interdependência das nações. E isso se refere
seu trabalho Table Talk (1823), o filósofo Pierre-Joseph tanto à produção material como à produção intelectual.
Proudhon, em seu livro O que é a propriedade? (1840), [...] Devido ao rápido aperfeiçoamento dos instrumentos

referindo-se aos proprietários de capital, o filósofo Benjamin de produção e ao constante progresso dos meios de
comunicação, a burguesia arrasta para a torrente da
Disraeli, em seu trabalho Sybil (1845) e mesmo por Karl
civilização mesmo as nações mais bárbaras.
Marx e Friedrich Engels, no Manifesto Comunista (1848),
referindo-se aos detentores de propriedade privada MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido
Comunista. São Paulo: Global, 1981. p. 24-25.
de capital.

Pág 11
Quando o trabalhador é obrigado a se submeter a esta
lógica de produção, ele se aliena, perdendo a sua essência Com o próprio funcionamento, o processo capitalista de
humana e tornando-se uma coisa. Os estudiosos Hilton
produção reproduz, portanto, a separação entre a força de
Japiassú e Danilo Marcondes apresentam, em seu Dicionário
trabalho e as condições de trabalho, perpetuando, assim,
básico de Filosofia5, quatro definições importantes para
o termo alienação6, no que concerne à Filosofia: as condições de exploração do trabalhador. Compele sempre
o trabalhador a vender sua força de trabalho para viver,
1. Estado do indivíduo que não mais se pertence, que não e capacita sempre o capitalista a comprá-la.
detém o controle de si mesmo ou que se vê privado de
MARX, Karl. O capital. Livro I. O processo de produção
seus direitos fundamentais, passando a ser considerado
do Capital [Vol. II]. Tradução de Reginaldo Sant’Anna.
uma coisa.
11. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1987. p. 672.
2. Em Hegel, ação de se tornar outrem, seja se considerando
como coisa, seja se tornando estrangeiro a si mesmo.
Marx divide a alienação do trabalhador em três tipos:
3. Situação econômica de dependência do proletário
relativamente ao capitalista, na qual o operário vende econômica, religiosa e filosófica.
sua força de trabalho como mercadoria, tornando-se Alienação econômica: pode ser constatada observando-se
escravo (Marx). Para Marx, a propriedade privada, a lógica capitalista que se faz presente ainda hoje,
com a divisão do trabalho que institui, pretende marcando indelevelmente as relações de trabalho.
permitir ao homem satisfazer suas necessidades; Atualmente, por exemplo, quando um trabalhador se
na realidade, ao separá-lo de seu trabalho e ao privá-lo aposenta devido a um problema de saúde, a aposentadoria
do produto de seu trabalho, ela o leva a perder a
consta como “por invalidez”, ou seja, por não poder mais
sua essência, projetando-a em outrem, em Deus.
produzir, esse indivíduo é considerado inválido. Vê-se,
A perda da essência humana atinge o conjunto do
assim, que o trabalhador tornou-se também mercadoria,
mundo humano. As alienações religiosas, políticas,
valendo somente um salário enquanto puder produzir.
etc. são geradas pela alienação econômica. De modo
particular, a alienação política é exercida pelo Estado, Alienação religiosa: nela o homem “entrega” sua vida
instrumento da classe dominante que submete os a um ser superior e onipotente na esperança de ser
trabalhadores a seus interesses. A alienação religiosa recompensado em uma vida após a morte. Assim, ele se
é aquela que impede o homem de reconhecer em si acostuma com a vida de exploração a que está submetido
mesmo sua humanidade, pois ele a projeta para fora e não luta por melhorias, acreditando que, afinal, se
de si, num ser que se define por tudo aquilo que Deus determinou que sua vida fosse assim, não há nada
o indivíduo não possui: Deus; ela revela e esconde que se possa fazer contra a vontade divina. A alienação
a essência do homem, transportando-a alhures, religiosa adestra o espírito do homem, fazendo-o aceitar
no mundo invertido da divindade (Feuerbach). as condições que lhe são impostas. Contra tal alienação,
4. Os termos “alienado” e “alienação” ingressam no Marx propõe a extinção da religião, uma vez que acredita
vocabulário filosófico graças a Hegel e a Marx. Se, em ser esta utilizada pela classe dominante como instrumento
Hegel, a alienação designa o fato de um ser, a cada etapa de dominação.
de seu devir, aparecer como outro distinto do que era antes,
Alienação filosófica: Para Marx, a Filosofia não pode
em Marx, ela significa a “despossessão”, seguida da idéia
se resumir à função de compreender o mundo apenas
de escravidão. Assim, quando dizemos hoje que o trabalho
de modo teórico e, nesse sentido, a metafísica e a busca
é um instrumento de alienação na economia capitalista,
estamos reconhecendo que o operário é despossuído do
da essência pela contemplação da realidade deveriam
fruto de seu trabalho.[...]
ceder lugar à luta de libertação das ideologias. A Filosofia
deve, portanto, sair de sua posição de espectadora do
Como o trabalhador participa apenas de parte do processo mundo e assumir a função de também transformá-lo.
produtivo, ele torna-se somente uma peça da engrenagem,
podendo ser substituído a qualquer momento, não sendo mais
essencial ao processo produtivo. Assim, ele vale apenas o salário A revolução do proletariado
referente a um trabalho não qualificado, já que não lhe é exigido
Uma das ideias mais interessantes de Marx diz respeito
um conhecimento da totalidade do processo de produção.
Por essa razão, ele não é capaz de se reconhecer no produto à situação histórica, a qual pode se alterar, marcada pela
que ajudou a produzir, perdendo, então, sua identidade injustiça e pela exploração dos trabalhadores. Em seu conceito
enquanto sujeito e tornando-se objeto (ou uma mercadoria) de materialismo histórico, Marx defendia que a realidade
dentro dessa engrenagem de processo produtivo desumano. construía as ideias, ou seja, a consciência era consequente
5
Alienação. In: JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. da realidade material dos homens. Porém, essa realidade era
Dicionário básico de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. também construção humana e, assim, para mudar as ideias,
6
Alienação, do lat. alienatio, alienare, significa transferir para a consciência de um povo, era necessário mudar, primeiramente,
outrem; alucinar, perturbar. sua realidade. Mas como seria possível essa mudança?

Pág 12
Marx critica o socialismo utópico, o qual, embora defenda
a necessidade de mudanças sociais, não aponta o caminho
para alcançá-las. Os socialistas utópicos acreditavam que
as transformações da sociedade capitalista aconteceriam
de forma gradual e pacífica, sendo que a própria burguesia,
ao se tornar consciente da exploração e da injustiça desse
sistema, ajudaria nessa transformação.

O socialismo pregado por Marx, conhecido como


socialismo científico, defendia uma ideia contrária
àquela proposta pelos socialistas utópicos. Para Marx,
as mudanças sociais só poderiam se efetivar com

César Lobo
a revolução do proletariado, que tomaria o poder com o uso
da força e transformaria, então, a realidade, instaurando Para Marx, a ideologia é uma forma de dominação em que
o socialismo. Este teria como objetivo a posterior o explorado não enxerga a verdade e cruza os braços,
implantação do comunismo, que se caracteriza por uma acreditando que sua situação não pode mudar.
sociedade sem classes, sem Estado e livre da opressão.
Segundo Hilton Japiassú e Danilo Marcondes:
Nessa sociedade não haveria a centralização do poder,
mas sim a participação democrática e coletiva de de todos
Ideologia (fr. idéologie)
os homens nos processos decisórios sobre os rumos da
sociedade e da economia. O socialismo seria, portanto, 1. Termo que se origina dos filósofos franceses do final
do século XVIII, conhecidos como “ideólogos” (Destutt
um caminho necessário de transição ao comunismo,
de Tracy, Cabanis, dentre outros), para os quais

FILOSOFIA
no qual a classe operária tomaria o poder e criaria
significava o estudo da origem e da formação das idéias.
as condições apropriadas para essa transição. Posteriormente, em um sentido mais amplo, passou
A revolução do proletariado seria gerada, inevitavelmente, a significar um conjunto de idéias, princípios e valores que
refletem uma determinada visão de mundo, orientando
pela contradição interna do capitalismo, que, por ser um
uma forma de ação, sobretudo uma prática política.
sistema que se baseia no acúmulo de lucro a partir da
Ex.: ideologia fascista, ideologia de esquerda,
exploração do trabalhador, traz consigo a semente de sua a ideologia dos românticos, etc.
própria destruição. Para Marx, a exploração capitalista
2. Marx e Engels utilizam o termo em A ideologia alemã
chegaria a tal ponto que o proletariado, como um animal (1845-1846), em um sentido crítico, para designar
acuado que em determinado momento ataca, não a concepção idealista de certos filósofos hegelianos
suportando mais sua condição miserável de vida, faria, (Feuerbach, Bauer, Stirner) que restringiam sua
então, a revolução sonhada por Marx. Nesse momento, análise ao plano das idéias, sem atingir, portanto,
livrando-se de toda e qualquer alienação e ideologia, a base material de onde elas se originam, isto é,
a classe trabalhadora tomaria consciência de sua condição as relações sociais e a estrutura econômica da sociedade.
A ideologia é assim um fenômeno da superestrutura,
e se organizaria para tomar o poder.
uma forma de pensamento opaco, que, por não revelar
as causas reais de certos valores, concepções e práticas
A ideologia sociais que são materiais (ou seja, econômicas),
contribui para sua aceitação e reprodução, representando
Um dos conceitos mais importantes da filosofia um “mundo invertido” e servindo aos interesses da
marxiana é o de ideologia, o qual difere notadamente classe dominante que aparecem como se fossem
do significado tradicionalmente atribuído a esse termo. interesses da sociedade como um todo. Nesse sentido,
Por ideologia, em seu sentido positivo, entende-se um a ideologia se opõe à ciência e ao pensamento crítico.
“A produção das idéias, das representações, da
conjunto de ideias que tem a capacidade de agregar
consciência é [...] diretamente entrelaçada com a
pessoas ao redor de uma mesma motivação. Por exemplo,
atividade material e com as relações dos homens [...]
os partidos políticos, as ONGs, as religiões e os Se na ideologia os homens e as suas relações aparecem
movimentos sociais são criados com base em ideologias de cabeça para baixo, como numa câmara escura, esse
próprias, sendo que aqueles que se identificam com tais fenômeno deriva-se do processo histórico de suas vidas
ideias se reúnem, movidos por seus interesses em comum. [...] Os pensamentos dominantes nada mais são do que
Porém, na filosofia de Marx, o conceito de ideologia tem a expressão ideológica das relações materiais dominantes
um sentido negativo. Para o filósofo, a ideologia consiste concebidas sob a forma de pensamentos, por conseguinte
as relações que fazem de uma classe a classe dominante,
em ideias que têm como objetivo mascarar a realidade
por conseguinte os pensamentos de sua dominação.”
para que a classe trabalhadora explorada não veja a
MARX; ENGELS. A ideologia alemã.
realidade dos fatos.

Pág 13
Marx acreditava que tinha alcançado a ciência das leis
3. O termo “ideologia” é amplamente utilizado, sobretudo
econômicas, as quais determinariam a inexorável superação
por influência do pensamento de Marx, na Filosofia e
do sistema capitalista que sucumbiria ao socialismo devido
nas Ciências Humanas e sociais em geral, significando
às suas contradições internas. Para o filósofo, chegaria
o processo de racionalização – um autêntico mecanismo
de defesa – dos interesses de uma classe ou grupo um momento em que a exploração dos trabalhadores
dominante. Tem por objetivo justificar o domínio seria tão extremada, que a sociedade se tornaria cada vez
exercido e manter coesa a sociedade, apresentando mais polarizada entre ricos e pobres, e estes, constituindo
o real como homogêneo, a sociedade como indivisa, a esmagadora maioria, em um dado momento tomariam
permitindo com isso evitar os conflitos e exercer consciência da exploração e fariam a revolução.
a dominação.
Nesse sentido, segundo a dialética marxiana, o capitalismo
Ideologia. In: JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário
seria um momento de transição necessário ao socialismo,
básico de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
pois ele criaria as condições de sua própria superação.
Para Marx, a ideologia é, portanto, um dos mecanismos Os marxistas encontraram nessa ideia a justificativa para
mais perversos de dominação, buscando manter a classe a cientificidade de suas teorias, que não seriam, assim,
trabalhadora adestrada sob os interesses capitalistas, uma opinião subjetiva, mas possuiriam o caráter de ciência
dominando a mente, as ideias e os pensamentos do homem. objetiva. Por isso, esses filósofos ignoravam com veemência
De certa forma, a ideologia anestesia a consciência humana, qualquer ideia que fosse contrária às suas ou qualquer
de forma que o trabalhador se acostume com sua situação de tipo de flexibilização do sistema. Eles afirmavam que
explorado e não perceba que, na verdade, ele não está nessa a História estava ao seu lado, em uma clara referência ao
situação por sua culpa, do mundo ou mesmo de Deus, mas futuro que traria a inevitável superação do capitalismo.
sim porque as condições de vida e a propriedade privada dos Por isso, os marxistas consideravam-se mais modernos
meios de produção criaram uma realidade nesses moldes. que os próprios modernistas.

Marx afirma, assim, que a vida material é produto das ações As ideias de Marx e sua crença em sua ciência tomaram de
humanas e não de uma ideia superior ou de uma consciência assalto o mundo inteiro. Inúmeros povos, empolgados com
metafísica, a qual teria determinado que a vida e as condições a certeza de mudança e indignados com a situação real de
materiais dos homens fossem da maneira como são. suas vidas, assumiram os ideais marxianos e lutaram para
A Filosofia teria, então, a função de libertar o homem implantar o sistema socialista em suas sociedades. Como
dessa falsa consciência de mundo, fazendo-o enxergar consequência, ocorreram as duas maiores revoluções de
as ideologias e combatê-las, construindo, assim, um todos os tempos: a da Rússia, em 1917, e a da China, que
mundo novo e diferente. Qualquer ideia que possa levar se iniciou em 1948-1949 e perdura até os dias atuais. Os anos
o homem a se acostumar com sua realidade, apaziguando que sucederam a Segunda Guerra mundial foram de especial
seu espírito de luta e sua capacidade de revoltar-se contra crescimento dos ideais de Marx, e em muitos países houve
as mazelas de sua condição de vida, pode ser considerada o crescimento dos movimentos socialistas, principalmente nas
uma ideologia. Retomando a ideia de alienação, inclusive nações mais pobres, como as da América Latina.
a religião nas mãos dos dominadores pode ser utilizada
como uma arma ideológica, apontando ao homem um O maior problema do socialismo, e que depõe contra a sua
caminho no qual ele aceitará sua condição de explorado doutrina, é que, em nenhum lugar onde ele foi implantado,
como se essa fosse a vontade de Deus. Por essa razão, as “leis científicas do desenvolvimento histórico”, as quais,
Marx afirma que a religião é o “ópio do povo”, pois teoricamente, seriam inevitáveis, produziram um mundo
entorpece a mente dos homens e não permite que eles realmente melhor. Ao contrário, o que se viu foi a deturpação
reconheçam a realidade e lutem para transformá-la. do poder e uma burocratização do Estado de tal forma que
o empobrecimento e a tirania imperaram nessas sociedades.
O socialismo científico A despeito das evidências históricas acerca da falha
Talvez o maior erro de Marx tenha sido acreditar que as do socialismo, as ideias de Marx em relação a um mundo
transformações pelas quais ele achava que a sociedade melhor e mais justo ainda chamam a atenção e atraem
passaria, até chegar a um mundo sem classes sociais, muitos homens, que se sentem inconformados com
ou seja, a um mundo comunista, fosse algo certo e inevitável. a exploração e com a injustiça própria do capitalismo.
Por isso, ele insistia na cientificidade de suas ideias. No entanto, tendo em vista que o sonho de Marx de um
Assim como na Física, em que, pelas Leis de Newton, era mundo melhor não se concretizou, pode-se compreender
possível prever qual seria o estado futuro de qualquer a ideia do cientista político Francis Fukuyama, que considera
sistema físico de objetos em movimento, em qualquer o homem capitalista como o último homem, ou seja, que
momento e com exatidão, bastando para isso possuir não existirá outro sistema político e econômico que possa
informações corretas sobre o estado atual desse sistema, substituir o capitalismo como queria Marx.

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FRIEDRICH NIETZSCHE Em seus últimos anos de vida, esteve sob os cuidados,
primeiramente, de sua mãe e, depois, de sua irmã, vindo
Friedrich Nietzsche nasceu na cidade de Röcken, a falecer em 25 de agosto de 1900, ao que tudo parece,
Alemanha, em 15 de outubro de 1844. Membro de uma vítima de sífilis terciária. Nessa época, seus livros, que ele
família de clérigos, era filho e neto de pastores luteranos. mandara publicar anos antes com seus próprios recursos,
A partir dos cinco anos de idade, com o falecimento de seu já faziam grande sucesso internacional.
pai, sua educação se deu em uma família composta apenas
por mulheres: sua mãe, uma irmã, duas tias e sua avó. Nietzsche escreveu suas obras em forma de aforismos
Na adolescência, dedicou-se ao estudo da Bíblia e de alguns e de fragmentos, trazendo em seu teor todo o refinamento
clássicos gregos e, já adulto, estudou Filologia na Universidade crítico e as polêmicas às quais o filósofo se dedicou durante
de Bonn e em Leipzig. Mostrou-se genial nos estudos, tendo sua lucidez. Em 1872, publicou O nascimento da tragédia,
se tornado professor titular de Filologia na Universidade seguida, em 1873 e 1876, pelas quatro Considerações
da Basiléia, na Suíça, em 1870, com apenas 24 anos de inatuais. A obra Humano, demasiado humano surgiu em
idade, o que, naquele tempo, era praticamente impossível. 1878, seguida de Aurora (1881) e A Gaia ciência (1882).
Embora nunca tivesse até então estudado formalmente Sua obra-prima, Assim falou Zaratustra, foi escrita em 1883.
Filosofia, Nietzsche aproximou-se dela ao ler a obra Nos anos de 1886 e 1887 publicou, respectivamente, Além do
O mundo como vontade e representação, de Schopenhauer, bem e do mal e A genealogia da moral. Em 1888, escreveu
que marcou definitivamente sua vida e seu pensamento.
O caso Wagner, O crepúsculo dos ídolos, O anticristo, Ecce
Ainda na Universidade de Bonn, Nietzsche estudou Filosofia
homo e Nietzsche versus Wagner. Sua última obra, Vontade
e Teologia, embora tenha se afastado do cristianismo por
de poder, não chegou a ser concluída.
influência de seus estudos e de alguns professores.

FILOSOFIA
Quando jovem, ainda discípulo de Schopenhauer, Nietzsche
tornou-se amigo íntimo e seguidor do compositor alemão
Richard Wagner, enxergando neste um precursor de suas
próprias ideias, segundo as quais a arte seria a única forma de
o homem suportar a dor de uma vida sem sentido. No entanto,
depois de certo tempo, o filósofo passou a tecer duras críticas
a Wagner, a ponto de chamá-lo de “uma doença”, devido
à sua decepção frente às escolhas de Wagner – notadamente
no que diz respeito à conversão do compositor ao cristianismo.

Nietzsche é considerado um dos maiores críticos da


cultura ocidental e dos valores morais, tendo sua crítica
sido de grande influência para a história da Filosofia.
A despeito de sua genialidade, no entanto, Nietzsche
ainda hoje é mal interpretado, sendo visto apenas como
“o filósofo da morte de Deus”, sem que suas ideias sejam
esclarecidas e compreendidas por aqueles que o criticam
Gustav Schultze

tão veementemente.

Para Nietzsche, a vida é sem sentido, irracional, cruel


Friedrich Nietzsche. Um dos filósofos mais polêmicos e mal e cega, concepção herdada de seu primeiro mestre
compreendidos da história. Schopenhauer, de quem Nietzsche tomou a ideia de que

Em 1878, Nietzsche licenciou-se da Universidade de a vida é, em si, destruição e dor, não podendo o homem

Basiléia por motivos de saúde e também por sua vontade encontrar refúgio para essa realidade em Deus, uma vez que
de se dedicar à Filosofia e não mais à Filologia, nunca mais este não existiria, não havendo nem sequer alma imortal.
tendo voltado ao magistério. Sua vida foi de solidão e de Essa vida sem sentido seria impelida simplesmente por uma
simplicidade, e, durante muito tempo, viveu errante nas força chamada de vontade. Ao contrário de Schopenhauer,
pensões entre França, Itália e Suíça, período em que se porém, que defendia que o melhor caminho para os homens
dedicou com mais afinco à escrita de suas obras. Em 3 de seria o isolamento do mundo, Nietzsche acreditava que o
janeiro de 1889, Nietzsche foi acometido de uma crise de homem deveria aproveitar ao máximo sua vida, usufruindo
loucura que durou 11 anos e da qual nunca se recuperou. tudo que o mundo pudesse lhe oferecer.

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O espírito dionisíaco e o espírito Para ele, colocar em segundo plano o impulso à vida,
ao prazer e à satisfação seria inferiorizar os elementos vitais
apolíneo da realidade. Nietzsche via nos heróis gregos os melhores
Segundo Nietzsche, a vida e o próprio homem são formados exemplos da harmonia entre as dimensões apolínea
por dois espíritos ou forças antagônicas: o espírito apolíneo e dionisíaca: ao enfrentarem seus medos e os próprios
e o espírito dionisíaco. O espírito apolíneo, representado pelo deuses, esses heróis demonstravam sua força de vida, sua
deus Apolo, constituiria a dimensão racional, o equilíbrio, tentativa de superação dos limites, sua busca pela afirmação
o comedimento, a medida. Já o espírito dionisíaco, da vida que deve ser construída a partir de sua vontade e não
considerado como o mais legítimo por Nietzsche, é da submissão passiva a um destino traçado e determinado.
representado pelo deus Dioniso, deus da embriaguês e da Com o predomínio do espírito apolíneo, o espírito dionisíaco,
música, consistindo na dimensão do prazer, da festa e do aquele que leva à “afirmação da vida”, foi progressivamente
drama. reprimido. Após Sócrates, toda a civilização ocidental, devido
à escolha do filósofo pela racionalidade absoluta, tendeu
Para Nietzsche, o período que antecedeu a filosofia
ao equilíbrio, à razão, ao controle da natureza por meio do
socrática conseguia equilibrar essas duas dimensões na
pensamento racional. O que não pertencesse ao campo da
vida do homem, possibilitando, então, uma vida saudável
racionalidade, aquilo que não fosse controlado pela razão,
e harmônica. Dentro de uma tradição mitológica, a tragédia,
deveria ser então disciplinado e reprimido. Na história da
a música e os rituais dionisíacos do Período Arcaico (que
Filosofia ocidental, observa-se que o pensamento apolíneo
antecedeu o Período Clássico, antes do nascimento da
venceu o dionisíaco.
Filosofia) cultivavam o equilíbrio e a harmonia. Porém,
com a filosofia socrática, essa união harmônica foi rompida Para Nietzsche, o surgimento do cristianismo no século I,
e, a partir de então, começando com a escolha de Sócrates, que bebia na fonte das filosofias socrática e platônica,
a quem Nietzsche chamava de “homem com uma visão só”, radicalizou ainda mais a depreciação do princípio do prazer
priorizou-se o espírito apolíneo, enfatizando-se aquilo que ao valorizar uma vida de sacrifícios e mortificações. Durante
era racional, lógico e científico. muito tempo na história cristã, difundiu-se a ideia de que
tudo aquilo que era material, carnal, e que pudesse trazer
prazer ao homem, deveria ser reprimido e submetido
à alma. Por isso, o cristão verdadeiro deveria se esforçar nos
sacrifícios, nas mortificações e nos jejuns, assumindo de bom
grado seus sofrimentos, pois só assim ele se libertaria do
império do corpo e poderia ser livre das tentações próprias
da vida terrena.
Dessa forma, a cultura cristã ocidental foi, para Nietzsche,
reacionária e decadente, determinando de tal forma a vida
do homem, que ele passou a viver a partir de uma “moral de
rebanho”, a qual aplacava a vontade do indivíduo e adestrava
sua alma. As características que permitiram ao homem
sair de seu estado animal – como a eliminação dos fracos
pelos mais fortes, dos incompetentes pelos competentes,
dos estúpidos pelos astutos – foram condenadas pela religião
cristã e consideradas moralmente erradas, o que criou nos
homens a sensação de culpa atrelada à ideia de pecado.
Marie-Lan Nguyen

Da mesma forma, os líderes naturais, portanto os inovadores,


ousados e destemidos, foram vistos como homens piores, que
não deveriam ser seguidos, já que eram pobres de coração.
Dioniso, deus do vinho, da festa e da música.

Desse modo, passou-se a considerar que somente A moral de escravos


a razão deveria guiar a vida humana, sendo que bom Nietzsche afirmava ter ocorrido uma inversão de valores
era aquilo que era racional, e tudo o que fosse contra após o surgimento da cultura cristã ocidental: aqueles
a racionalidade deveria ser adestrado, de forma a ocupar valores que deveriam ser cultivados nos espíritos dos
o lugar inferior na vida humana. Nietzsche dizia que, ao homens, como a coragem, passaram a ser considerados
priorizar a razão como única guia da vida moralmente correta, ruins, e os valores característicos dos homens mais fracos,
a civilização se afastava de sua mais bela e íntima natureza, da plebe, passaram a ser supervalorizados, sendo vistos
daquilo que constituía a verdadeira essência do homem. como aqueles que levariam ao céu.

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A “moral de escravos”, portanto, consistia nessa Em sua obra Genealogia da moral, Nietzsche buscou
inversão de valores, servindo como um instrumento compreender quais eram as bases morais que sustentavam
dos mais fracos para implantar na cultura seus valores a tradição cristã ocidental e que, portanto, determinavam
retrógrados, submetendo os fortes, os guerreiros, que, a vida do homem. Encontrando os fundamentos da “moral
a partir de então, deveriam se colocar abaixo desses valores. de rebanho”, ele dedicou-se a apontar suas fraquezas
Logo, com a verdade racional socrática e com a moral cristã, e inconstâncias, afirmando que esses valores pioravam
o homem ao reprimirem sua natureza. Para o filósofo,
essa “moral de escravos” entrou na cultura constituindo-se
os homens deveriam fugir dos valores e das crenças
rapidamente como a única verdadeira e como modelo correto
tradicionais, buscando o prazer natural.
a ser seguido por todos os homens.
Constituem-se, assim, dois objetivos da filosofia
Moralistas como Sócrates e Jesus defendiam um
nietzscheana. O primeiro era criticar os degradantes valores
conjunto de valores que protegeriam os piores e passivos,
tradicionais, que não faziam do homem um ser melhor, mas
considerando como mal tudo aquilo que não estivesse de sim o pioravam. O segundo era formular uma nova filosofia,
acordo com a ideia de igualdade e de humildade pregada de modo que o homem pudesse pensar e viver a partir de
por eles, afinal, segundo esses moralistas, era a justiça novos valores, os quais o levariam à libertação de toda
e não a força que deveria reinar entre os homens; eram ideologia e o tornariam melhor.
os mansos e não os arrojados que herdariam o reino dos
Por isso, segundo Nietzsche, a moral deveria ser anticristã,
céus. Para Nietzsche, tais valores colocavam todos os
uma vez que o cristianismo eliminava a vontade de poder,
homens, mesmo os melhores, no mesmo patamar que a
os desejos e tudo aquilo que era natural no homem. Para
massa medíocre da humanidade, sendo que as características
o cristianismo, o ser humano deveria negar a si mesmo para
típicas dos escravos passaram a ser exaltadas como virtudes, alcançar a salvação e, consequentemente, deveria negar os
e o que deveria ser cultivado era uma vida de serviço, prazeres mundanos, de forma a levar uma vida regrada por
de abnegação, de sofrimento e de autossacrifício. Mesmo

FILOSOFIA
mansidão, subordinação, sacrifícios e sofrimentos.
os indivíduos talentosos tiveram seu “eu” negado, em nome
Os princípios morais defendidos por Nietzsche baseiam-se
da moralidade.
exclusivamente na natureza mais pura e simples do homem,
Nietzsche afirmava que essa forma de vida, na qual o pior sendo que aqueles que não fossem capazes de compreender
era considerado melhor, na qual os defeitos e as fraquezas e viver a partir desses valores deveriam ser dominados.
humanas eram vistos como verdadeiras qualidades, Para o filósofo, somente alguns homens seriam capazes de
representava a pior decadência possível. Uma vez que tal alcançar esse estágio de desenvolvimento crítico e moral,
moral não foi dada por Deus, mas sim imposta pela ralé, devendo ser valorizados por sua coragem e superioridade.
pelos piores, é somente a eles que essas normas de conduta
serviriam, só a eles interessaria uma vida em que seus O eterno retorno
defeitos tornassem-se qualidades.
Com sua teoria sobre o eterno retorno, Nietzsche negou
qualquer dualismo da realidade, tal como propunham
A destruição dos valores Platão e o cristianismo, que afirmavam a existência de dois

tradicionais: fazendo filosofia mundos distintos, um perfeito e o outro imperfeito: o mundo


inteligível e sensível, para Platão, e o céu e a terra, para
com um martelo o cristianismo. Nietzsche chamava o cristianismo de
“platonismo para os ignorantes”, aproximando os princípios
De acordo com Nietzsche, a Filosofia deveria libertar
platônicos do pensamento cristão. Para o filósofo, não existia,
o homem, levando-o ao niilismo7 e à busca por valores que
absolutamente, outra realidade além da que era vivenciada,
não desprezassem a vida, mas sim a valorizassem. Para isso,
negando, assim, a ideia de outra dimensão ou estado que
era necessário fugir dos valores tradicionais e buscar uma estivesse além da realidade única, imutável e perfeita.
nova ordem de valores que reafirmassem aquilo que era mais Nietzsche também considerava que não havia uma verdade
natural e belo no homem, sua força vital. O prazer natural necessária e universal sobre as coisas do mundo e sobre o
deveria ser buscado por todos os homens, pois somente esse homem, existindo apenas modos diferentes de ver a realidade,
prazer poderia torná-los melhores e mais felizes. que, por sua vez, estava em constante transformação.

7
Niilismo do lat. nihil: nada
1. Doutrina filosófica que nega a existência do absoluto, quer como verdade, quer como valor ético.
2. Termo empregado por Nietzsche para designar o que considerou como o resultado da decadência europeia, a ruína dos valores tradicionais consagrados
na civilização ocidental do século XIX. Caracteriza-se pela descrença em um futuro ou destino glorioso da civilização, opondo-se, portanto, à ideia de
progresso, e, pela afirmação da “morte de Deus”, negando a crença em um absoluto fundamento metafísico de todos os valores éticos, estéticos e
sociais da tradição. O niilismo nietzschiano deve levar a novos valores que sejam “afirmativos da vida’’, da vontade humana, superando os princípios
metafísicos tradicionais e a “moral do rebanho” do cristianismo, situando-se “além do bem e do mal”.

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Segundo a ideia do eterno retorno, o homem deveria
A morte de Deus
compreender a vida como ela era, ou seja, como uma
sucessão interminável de fatos que se repetiam, sem Ao falar sobre a genealogia da moral, Nietzsche afirmou que os
novidades ou eventos extraordinários. Isso significa que valores cristãos eram os valores dos homens fracos, ressentidos
tudo o que o homem vivenciasse iria retornar em algum e vencidos, sendo que tais valores, que serviram como guias da
momento, o prazer e o desprazer, a alegria e o sofrimento, moral humana durante um tempo, deveriam ser substituídos
o riso e o choro. Para Nietzsche, as coisas se repetem por valores realmente humanos, valores que tivessem em sua
base tudo o que era nobre, forte e aristocrático.
e por isso não há nada de extraordinário na vida pelo qual
o homem queira viver, de forma a poder desfrutar sempre Ao anunciar a morte de Deus, Nietzsche não estava se
mais disso. Coloca-se, então, a seguinte pergunta: será referindo a Deus propriamente dito, à figura de Deus como
mesmo que a eternidade vale a pena, considerando-se que criador, mas sua crítica se destinava à cultura cristã ocidental
nada de novo irá acontecer além de vivências com nuances que havia se tornado obsoleta. Os valores cristãos que
variadas de uma mesma realidade? os homens afirmavam existir há muito não eram vivenciados
por eles mesmos, que, deixando, pouco a pouco, de vivenciar os
O reconhecimento desse retorno de todas as coisas, valores do cristianismo em seu dia a dia, acabaram tornando-os
de que não há nada de extraordinário na vida, constitui um obsoletos. Esse abandono dos valores é que, para Nietzsche,
verdadeiro teste para o homem. Por um lado, pode significar representa a morte de Deus. Assim, para Nietzsche,
a libertação do homem, que pode aceitar a realidade a civilização matou Deus quando eliminou todos os valores que
e se exaltar diante da novidade e da libertação dos valores serviam de fundamento à vida, perdendo então o referencial
tradicionais que até então o submetiam, e, por outro, pode de suas ações.
ser a sua destruição, uma vez que o homem pode não
Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou
reconhecer que a realidade é única, e se angustiar, pois
fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes
gostaria que existisse outra realidade extraordinária que dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais
desse sentido à sua vida ordinária. sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das
nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a
Em uma das passagens mais conhecidas de Nietzsche, ele água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que
se refere ao eterno retorno com a seguinte imagem: jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade
deste ato não será demasiada para nós? Não teremos de nos
tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos
E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua
dele? Nunca existiu ato mais grandioso, e, quem quer que
mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu
nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste ato,
a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma de uma história superior a toda a história até hoje!
vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nada de novo,
NIETZSCHE, Friedrich. Gaia Ciência.
cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 147.
o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida
há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência – Para Nietzsche, nada de transcendente deveria ser
e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, utilizado como guia das ações humanas. Somente os valores
e do mesmo modo este instante e eu próprio”. A eterna racionais e propriamente humanos deveriam ser vistos como
ampulheta da existência será sempre virada outra vez – legítimos e propriamente adequados para a vida.
e tu com ela, poeirinha da poeira – Não te lançarias ao chão e
rangeria os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse Nietzsche não quer provar que Deus não existe, como faziam
assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, os ateus. O que lhe interessa é mostrar como e por que surgiu
em que lhe responderias: “Tu és um Deus, e nunca ouvi nada e desapareceu a crença de que haveria um Deus. [...] é o
de mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, fato de que “a fé no Deus cristão deixou de ser plausível”;
é a evidência de que a fé em Deus, que servia de base à
assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse;
moral cristã, se encontra minada, de que desapareceu o
a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda
princípio em que o homem cristão fundou sua existência;
uma vez e ainda inúmeras vezes?” Pesaria como o mais pesado é o diagnóstico da ausência cada vez maior de Deus no
dos pesos sobre o teu agir! Ou então, como terias de ficar pensamento e nas práticas do Ocidente moderno; é a
de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada percepção por alguém dotado de uma capacidade de suspeita
mais do que essa última confirmação e chancela? penetrante, de um olhar sutil, do “maior acontecimento
recente”: a desvalorização dos valores divinos.
NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas.
Tradução de Rubens Rodrigues T. Filho. MACHADO, Roberto. Zaratustra, tragédia nietzschiana:
São Paulo: Nova Cultural, 1999. p. 193. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1997. p. 47.

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O super-homem A moral antinatural, ou seja, quase todas as morais que foram até
aqui ensinadas, honradas e pregadas, remete-se, de modo inverso,
A morte de Deus abre a possibilidade da superação da moral exatamente contra os instintos vitais. Ela é uma condenação ora
como o princípio de avaliação de toda a existência, exatamente secreta, ora tonitruante e insolente destes instintos. No que ela
como exige para esta superação a assunção de um novo diz “Deus observa os corações”, ela diz não aos desejos vitais mais
princípio de avaliação que surja a partir do aquiescimento baixos e mais elevados, tomando Deus como inimigo da vida.
sem restos desta morte e viabilize o aparecimento de uma O santo, junto ao qual Deus sente prazer, é um castrado ideal. A
nova postura diante do valor da finitude. vida chega ao fim, onde o “Reino de Deus” começa [...]
NIETZSCHE. Friedrich. Crepúsculo dos ídolos ou Como filosofar
CASANOVA, Marco Antônio. O instante extraordinário:
com o martelo. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000. p. 37.
vida, história e valor na obra de Friedrich Nietzsche.
Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003. p. 197.
Dizia Zaratustra: “Um novo orgulho ensinou-me o meu
Eu, e eu o ensino aos homens: não deveis mais esconder
Para Nietzsche, o homem que aceita a realidade como a cabeça na areia das coisas celestes, mas mantê-la
ela é, rompendo com os valores decadentes da moral cristã livremente: uma cabeça terrena, que cria ela própria sentido
ocidental, precisa criar uma nova ordem de valores que da terra”8 . A vontade de poder, portanto, está exatamente
o elevem e que possam servir como guia para uma nova na capacidade desse novo homem de criar uma nova ordem
vida, não mais de ressentimentos e medos, mas de libertação de valores, com fundamento em sua natureza, em seus
e desafios. Essa nova ordem de valores, portanto, seria fruto instintos, que são, por si, o melhor do homem, e não mais
da própria vontade de poder, sendo que cada pessoa deveria se curvar diante dos valores tradicionalmente aceitos. O novo
ter coragem de ser ela mesma, dizendo sim à vida e buscando sentido da terra consiste exatamente nessa coragem de
vivê-la intensamente, na plenitude de sua capacidade, romper com o velho e criar o novo. Para Nietzsche, “o mundo
enfrentando os desafios com espírito guerreiro e destemido. gira em torno dos inventores dos novos valores”9.

FILOSOFIA
Segundo Nietzsche, os antigos valores cristãos já não eram A vida mesma é, para mim, instinto de crescimento, de duração,
coerentes, não podendo mais ser utilizados como guia moral de acumulação de forças, de poder: onde falta a vontade de poder,
para a vida. Os novos valores deveriam reafirmar a vida há declínio. Meu argumento é que a todos os supremos valores da
humana, buscando o prazer e a realização e rompendo com humanidade falta essa vontade – que valores de declínio, valores
a lógica do sofrimento em vista de uma recompensa final, niilistas preponderam sob os nomes mais sagrados.
como prega o cristianismo. NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo: maldição ao cristianismo.
São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 13.

Para Nietzsche, o cristianismo representa “a guerra de morte


contra o tipo superior de homem”, a corrupção, a perversão As três metamorfoses do homem
dos instintos humanos, a religião contrária à natureza; [...]
Nietzsche afirma que a concepção cristã de Deus é uma das Em sua obra Assim falou Zaratustra, Nietzsche utilizou a
concepções mais corruptas a que jamais se chegou na Terra. [...] imagem da metamorfose para se referir às três fases que
O cristianismo é apenas o fenômeno mais poderoso de uma o homem deve passar para alcançar uma vida digna, o
aberração dos instintos do homem europeu na história do estado de super-homem. Diante da irracionalidade do mundo
espírito, aberração que se apresenta como invenção de e da imposição dos valores cristãos que tolhem a vontade
outro mundo ideal e, por conseguinte, como depreciação do e aprisionam a natureza e os instintos humanos, o homem
mundo terreno, real. deveria passar por um processo de libertação, tornando-se
FINK, Eugen. A filosofia de Nietzsche. 2. ed. dono de si mesmo e vivendo a partir de uma nova ordem
Lisboa: Editorial Presença, 1988. p. 146. de valores realmente humanos.
A respeito dessa metamorfose, Nietzsche afirmou: “Três
O que o homem deveria fazer, segundo Nietzsche, é aceitar transmutações vos cito do espírito: como o espírito se torna um
o eterno retorno, transformando-se em um novo homem, um camelo, e em leão o camelo, e em criança, por fim, o leão.”10 .
super-homem, longe das antigas amarras que o reprimam. A figura do camelo representaria, assim, o homem que traz
Os novos valores do super-homem, ou super-humano, em suas costas todo o peso da moral ocidental. O camelo,
deveriam ser o amor à terra, à realidade, à saúde, à vontade apesar de parecer um animal passivo, possui a força necessária
forte, à embriaguez dionisíaca e ao orgulho. Para Nietzsche, para, devagar, mas determinadamente, partir rumo ao deserto
são esses os valores que estão em consonância com a natureza para lá se tornar leão. Se, em um primeiro momento, o camelo
humana. Dessa forma, os seus instintos, sua natureza mais é aquele que suporta o peso da moral tradicional cristã, em
profunda e verdadeira, são representados dignamente por tais um segundo momento, ele, de alguma forma, enfrenta um
valores, afinal, “tudo o que é bom é instintivo”. processo de transição para romper com essa moral.

8
Nietzsche. In: REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga. 2. ed. 7 v. São Paulo: Loyola, 2001. p. 15.
9
Nietzsche. In: REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga. 2. ed. 7 v. São Paulo: Loyola, 2001. p. 15.
10
NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. Tradução de Rubens Rodrigues T. Filho. São Paulo: Nova Cultural, 1999. p. 185.

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Chegando ao deserto, o camelo se transforma em leão, A ideologia é o conjunto de representações e idéias,
animal forte e vigoroso que, por sua força e capacidade bem como de normas de conduta, por meio das quais
de luta, rompe com os valores que lhe eram impostos o indivíduo é levado a pensar, sentir e agir da maneira
e considerados até então como única e correta forma de que convém à classe que detém o poder. Essa consciência
vida. O leão luta para se tornar senhor de si mesmo, sem da realidade é uma falsa consciência, porque camufla
entraves e correntes morais que o impeçam de viver sua a divisão existente dentro da sociedade, apresentando-a
natureza íntima e instintiva. Dessa forma, o homem que se como una e harmônica, como se todos partilhassem dos
torna leão reconhece os valores que oprimiam a sua vida e mesmos objetivos e ideais .
luta para romper com esses valores previamente instituídos, ARANHA, Maria Lúcia; MARTINS, Maria Helena.
buscando o seu direito de criar novos valores. Temas de Filosofia. São Paulo: Ed. Moderna, 1998, p. 72.

A última metamorfose representa o estado da criança. REDIJA um texto estabelecendo uma relação entre
Somente nessa transformação, do leão em criança, a charge e a citação.
o homem é capaz de adquirir um olhar diferente e inocente
sobre o mundo. A criança traz em si a capacidade de viver 03. O super-homem é o sentido da terra. Eu vos conjuro,
pela natureza, de deixar vir à tona seu espírito dionisíaco, irmãos meus, a que permaneçais fiéis ao sentido da
de se deixar encantar pela vida e vivenciá-la de forma terra e não presteis fé aos que falam de esperanças
leve e natural. Nessa terceira fase, o homem, por ter um
supraterrenas.
olhar diferenciado sobre a sua existência, pode pensar
NIETZSCHE, F. Assim Falou Zaratustra. 7. ed.
a vida sem considerar princípios finalistas e / ou utilitários.
Tradução de Mário da Silva. Rio de Janeiro: Bertrand,1994. p.30.
Nesse estado, o homem rompe com a inércia e parte para
a construção de si mesmo, tendo como base uma nova Deus está morto! Deus permanece morto! E quem
ordem de valores que priorizam a vida e a natureza humana. o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar,
nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu,

EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu


exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos
01. Na história universal só se pode falar dos povos que limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará?
formam um Estado. É preciso saber que tal Estado é a Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados
realização da liberdade, isto é, da finalidade absoluta, que haveremos de inventar? A grandiosidade deste acto
ele existe por si mesmo; além disso, deve-se saber que não será demasiada para nós? Não teremos de nos
todo valor que o homem possui, toda realidade espiritual, tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas
ele só o tem mediante o Estado. dignos dele? Nunca existiu acto mais grandioso,
HEGEL. Filosofia da História. 2. ed. e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer
Brasília: Editora da UnB, 1998. p. 39-40. parte, mercê deste acto, de uma história superior
a toda a história até hoje!
A partir do trecho anterior e de seus conhecimentos sobre
o assunto, REDIJA um texto relacionando liberdade NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. Tradução de Paulo Cesar
de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p.147
e Estado, segundo Hegel.
REDIJA um texto relacionando os conceitos de
02. Observe a charge e a citação a seguir. super-homem e de morte de Deus segundo a filosofia
de Nietzsche.

EXERCÍCIOS PROPOSTOS
01. A razão traz esperança: a razão possui força para não
se destruir a si mesma em suas contradições internas;
ao contrário, supera cada uma delas e chega a uma síntese
harmoniosa de todos os momentos que constituíram
a sua história.
César Lobo

HEGEL. Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/53212934/A-


Crise-da-Razao. Acesso em: 08 jun. 2011

A partir do trecho anterior e de seus conhecimentos sobre o


NOVAES, Carlos Eduardo; LOBO, César. Cidadania para
principiantes. A história dos direitos humanos do homem. assunto, REDIJA um texto explicando o processo dialético
São Paulo: Ática, 2003. p. 203. para Hegel e sua importância para a construção da História.

Pág 20
02. Leia o fragmento a seguir: [...] Devido ao rápido aperfeiçoamento dos instrumentos
de produção e ao constante progresso dos meios de
A finalidade do espírito universal é encontrar-se, voltar-se
comunicação, a burguesia arrasta para a torrente da
para si mesmo e encarar-se como realidade. Porém,
civilização mesmo as nações mais bárbaras.
o que poderia ser questionado é se essa vitalidade dos
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido
indivíduos e dos povos, quando buscam os seus interesses
Comunista. São Paulo: Global, 1981. p. 24-25.
e os satisfazem, é também meio e instrumento de algo
mais sublime e abrangente – a respeito do que eles nada De acordo com o trecho anterior e com seus conhecimentos
sabem, e que realizam sem consciência. sobre o assunto, REDIJA um texto respondendo

HEGEL. Filosofia da História. Tradução de Maria Rodrigues.


à seguinte questão: a globalização iniciou-se na época
2. ed. Brasília: Editora da UnB, 1998. p. 45. de Marx?

IDENTIFIQUE e EXPLIQUE a tese defendida por Hegel 05. Leia os textos que seguem. O primeiro é de autoria
nesse trecho. do pensador alemão Karl Marx (1818-1883) e foi
publicado pela primeira vez em 1867. O segundo integra
03. Leia o seguinte texto e observe a figura.
um caderno especial sobre trabalho infantil, do jornal
A visão é macroscópica, uma vez que o que interessa Folha de S. Paulo, publicado em 1997.
é o grande organismo, como trabalham suas partes
[...] Tornando supérflua a força muscular, a maquinaria
no funcionamento do todo. Assim, o Estado representa permite o emprego de trabalhadores sem força muscular
a idéia; é a substância da qual os cidadãos não são senão ou com desenvolvimento físico incompleto, mas com
acidente; é quem confere os direitos aos indivíduos, mas não membros mais flexíveis. Por isso, a primeira preocupação
para eles, mas para chegar com mais segurança à realização do capitalista, ao empregar a maquinaria, foi a de
da sua ideia. As lutas entre os povos são procedimentos para utilizar o trabalho das mulheres e das crianças. [...]

FILOSOFIA
a realização da ideia suprema que é o Estado . [Entretanto,] a queda surpreendente e vertical no número
ANDRADE, Marcelo Lasperg de. Disponível em: de meninos [empregados nas fábricas] com menos de
http://200.142.144.130/revistas/direito/atual_marcelo.htm. 13 anos [de idade], que freqüentemente aparece nas
Acesso em 20 out. 2010. estatísticas inglesas dos últimos 20 anos, foi, em grande
parte, segundo o depoimento dos inspetores de fábrica,
resultante de atestados médicos que aumentavam
a idade das crianças para satisfazer a ânsia de exploração
do capitalista e a necessidade de traficância dos pais.
MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. 19. ed.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. Livro I, v. 1. p. 451
e 454.

A Constituição brasileira de 1988 proíbe qualquer tipo


de trabalho para menores de 14 anos. [...] Apesar
da proibição constitucional, não existe até hoje uma
punição criminal para quem desobedece à legislação.
O empregador que contrata menores de 14 anos está
sujeito apenas a multas. “As multas são, na maioria das
vezes, irrisórias, permanecendo na casa dos R$ 500”,
REDIJA um texto relacionando a figura à citação.
afirmou o Procurador do Trabalho Lélio Bentes Corrêa.
Além de não sofrer sanção penal, os empregadores muitas
04. Pela exploração do mercado mundial a burguesia imprime
vezes se livram das multas trabalhistas devido a uma
um caráter cosmopolita à produção e ao consumo
brecha da própria Constituição. O artigo 7º, inciso XXXIII,
em todos os países. Para desespero dos reacionários, proíbe “qualquer trabalho” a menores de 14 anos, mas
ela retirou à indústria sua base nacional. As velhas abre uma exceção – “salvo na condição de aprendiz”.
indústrias nacionais foram destruídas e continuam FOLHA DE S. PAULO, 1 maio 1997.
a sê-lo diariamente. [...] Em lugar das antigas necessidades Caderno Especial Infância Roubada – Trabalho Infantil.
satisfeitas pelos produtos nacionais, nascem novas
De acordo com os trechos anteriores e com seus
necessidades, que reclamam para sua satisfação os produtos
c o n h e c i m e n t o s s o b r e o a s s u n t o, R E D I J A u m
das regiões mais longínquas e dos climas mais diversos. texto explicando por que, para Marx, a política
Em lugar do antigo isolamento de regiões e nações que e, consequentemente, as leis não mudam com o passar
se bastavam a si próprias, desenvolve-se um intercâmbio do tempo. Leve em conta que já se passou mais de um
universal, uma universal interdependência das nações. E isso se século entre a morte de Marx e a publicação do artigo
refere tanto à produção material como à produção intelectual. na Folha de S. Paulo.

Pág 21
06. Nietzsche, o filósofo-artista, um poeta que só acreditava de todas estas coisas pesadíssimas; e à semelhança
numa filosofia que fosse expressão das vivências genuínas do camelo que corre carregado pelo deserto, assim ele
e pessoais, vendo na experiência estética uma espécie corre pelo seu deserto. No deserto mais solitário, porém,

de êxtase e redenção, é, por isso mesmo, um precursor se efetua a segunda transformação: o espírito torna-se

da crítica a um tipo de racionalidade meramente leão; quer conquistar a liberdade e ser senhor no seu
próprio deserto. Procura então o seu último senhor, quer
técnica, fria e planificadora. A despeito da profundidade
ser seu inimigo e de seus dias; quer lutar pela vitória
e da gravidade das questões com que se ocupa, sempre
com o grande dragão. [...] Meus irmãos, que falta faz
as tratou em estilo artístico, poeticamente sugestivo;
o leão no espírito? Não bastará a besta de carga que
só acreditava na autenticidade de um pensamento que
abdica e venera?
nos motivasse a “dançar”. Ele mesmo imagina sobre sua
porta a inscrição: Criar valores novos é coisa que o leão ainda não pode;
mas criar uma liberdade para a nova criação, isso pode-o
“Moro em minha própria casa
o poder do leão. Para criar a liberdade e um santo não,
Nada imitei de ninguém
mesmo perante o dever; para isso, meus irmãos, é preciso
E ainda ri de todo mestre
o leão. Conquistar o direito de criar novos valores é
Que não riu de si também.”
a mais terrível apropriação aos olhos de um espírito sólido
NIETZSCHE. Epígrafe de A Gaia ência. Obras incompletas. e respeitoso. Para ele isto é uma verdadeira rapina e coisa
São Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 187.
própria de um animal rapace.
REDIJA um texto explicando por que Nietzsche só [...] Dizei-me, porém, irmãos: que poderá a criança
acreditava na autenticidade de um pensamento que nos fazer que não haja podido fazer o leão? Para que será
motivasse a “dançar”. preciso que o altivo leão se mude em criança? A criança
é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um
brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento,
07. E sabeis... o que é pra mim o mundo?... Este mundo:
uma santa afirmação. Sim; para o jogo da criação, meus
uma monstruosidade de força, sem princípio, sem fim,
irmãos, é preciso uma santa afirmação: o espírito quer
uma firme, brônzea grandeza de força... uma economia
agora a sua vontade, o que perdeu o mundo quer alcançar
sem despesas e perdas, mas também sem acréscimos,
o seu mundo. [...]
ou rendimento,... mas antes como força ao mesmo tempo
NIETZSCHE, F. Assim Falou Zaratustra. 7. ed. Tradução
um e múltiplo,... eternamente mudando, eternamente de Mário da Silva. Rio de Janeiro: Bertrand,1994. p.26.
recorrentes... partindo do mais simples ao mais múltiplo,
REDIJA um texto explicando, a partir da metáfora
do quieto, mais rígido, mais frio, ao mais ardente,
anterior, a seguinte afirmação: “o espírito quer agora
mais selvagem, mais contraditório consigo mesmo,
a sua vontade”.
e depois outra vez... esse meu mundo dionisíaco do
eternamente-criar-a-si-próprio, do eternamente-destruir-
a-si-próprio, sem alvo, sem vontade... Esse mundo é SEÇÃO ENEM
a vontade de potência — e nada além disso! E também vós
próprios sois essa vontade de potência — e nada além disso! 01. O modo de produção da vida material condiciona
NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra. o processo em geral de vida social, político e espiritual.
São Paulo: Martin Claret, 2002. p. 96.
MARX, Karl. Para a crítica da economia política,
A partir da citação anterior e de seus conhecimentos sobre o Salário, preço e lucro. O rendimento e suas fontes.
São Paulo: Abril Cultural, “Os economistas”, 1982. p. 25-26.
assunto, REDIJA um texto explicando a seguinte afirmação:
“Esse mundo é a vontade de potência – e nada além disso!” De acordo com a citação de Marx, filósofo alemão
do século XIX, a realidade é resultado
08. Leia atentamente o texto retirado da obra Assim falava A) do trabalho humano nas fábricas e oficinas
Zaratustra, de Nietzsche: que produzem os bens necessários à vida.
[...] Há muitas coisas pesadas para o espírito, para B) das relações de trabalho entre patrões e empregados
o espírito forte e sólido, respeitável. A força deste espírito que seguem padrões da justiça distributiva.
está bradando por coisas pesadas, e das mais pesadas. C) das condições materiais de produção e de distribuição
Há o quer que seja pesado? — pergunta o espírito sólido. de bens a que um povo está submetido.
E ajoelha-se como camelo e quer que o carreguem bem. D) das decisões políticas tomadas pelos governantes,
Que há mais pesado, heróis — pergunta o espírito sólido que têm a função de governar o povo.
— a fim de eu o deitar sobre mim, para que a minha E) das determinações espirituais e divinas que traçam
força se recreie? [...] O espírito sólido sobrecarrega-se os destinos de todos os homens.

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GABARITO 03. A morte de Deus, segundo a filosofia nietzscheana,
não significa absolutamente que o Deus supremo
do cristianismo morreu. Apesar de ateu, Nietzsche
Fixação preocupou-se com a moral cristã ocidental, a qual

01. Para Hegel, só há liberdade dentro do Estado. impedia que o homem se desenvolvesse devido
a um conjunto de normas impostas pela religião. Essas
O Estado é a realização plena da ideia ou do
normas impediam o desenvolvimento da vontade de
espírito do mundo por meio do processo dialético,
poder e priorizavam, ao contrário, as características
sendo, então, a reunião de todas as consciências,
dos fracos, incompetentes e humildes, representando,
mas estando acima de todos os indivíduos.
segundo Nietzsche, a decadência do homem.
No terceiro momento de desenvolvimento do
Para que o homem pudesse se desenvolver por
espírito do mundo, todos os indivíduos tomariam completo, era necessário que ele superasse
consciência do todo, na figura do Estado. Assim, os valores morais tradicionais, revoltando-se contra
considerando-se que o Estado é a união de todos, eles, e construísse uma nova ordem de valores,
só nele poderia haver liberdade, uma vez que baseados em sua vontade de poder, isto é, em suas
a realização pessoal cederia lugar à realização características mais elementares, como a coragem,
e ao desenvolvimento do todo. Nesse sentido, o destemor e a ousadia. Dessa forma, quando

as ações do Estado não fazem distinção entre o homem alcançasse tal estágio de desenvolvimento
de suas potencialidades, ele chegaria ao estágio do
interesses individuais, atendendo, ao mesmo
super-homem, aquele que superou todas as limitações
tempo, aos interesses de todos os homens. Dessa
impostas pela cultura cristã ocidental e que, por isso,
forma, somente no Estado o homem poderia ser
pode se reconstruir de forma a não mais eliminar seu

FILOSOFIA
realmente livre e realizado.
orgulho, sua paixão, sua força vital.
02. Ideologia, na concepção marxiana, é um dos
instrumentos mais perversos utilizados pelos
Propostos
dominadores a fim de perpetuar a situação de
exploração dos dominados, que se sentem, então, 01. Segundo Hegel, o processo dialético é o
mecanismo de desenvolvimento do espírito
culpados pela situação em que se encontram.
do mundo na História, ou seja, a consciência
A ideologia anestesia a mente, não permitindo
coletiva, que faz surgir no contexto histórico suas
que os dominados vejam a realidade de fato, ou
próprias contradições, permite que a História
seja, eles não veem que a realidade não é fruto
se desenvolva em momentos melhores que os
de uma força sobrenatural ou da incompetência
anteriores, rumo ao pleno desenvolvimento.
e da acomodação deles mesmos, mas que é, na Esse processo acontece por meio da dialética
verdade, tal como se apresenta, uma construção (tese + antítese = síntese), que, em um primeiro
humana, podendo, por isso, ser modificada por momento, traz à tona as contradições ideológicas,
vontade dos próprios homens. É interessante para para, em seguida, como consequência dessa
os dominadores que os dominados permaneçam contradição, construir um novo pensamento. Ou
em estado de passividade, pois assim não seja, inicialmente, tem-se a tese, em seguida,

ocorrerão revoltas e lutas por melhorias. contra ela, surge uma antítese, e, pela contradição

Na figura da questão, verifica-se com clareza um das duas, tem-se a formação de uma síntese, que
será, por sua vez, a próxima tese.
exemplo tácito de ideologia. Enquanto alguns
indivíduos estão nas ruas, em uma situação de 02. A tese defendida por Hegel é a de que as ações

mendicância, outro passa de seu carro, lança humanas, mesmo inconscientemente, podem
representar a manifestação de algo que está acima
uma moeda e cita a Constituição, dizendo que
delas mesmas. A ideia sublime ou espírito do mundo
todos são iguais perante a lei. Trata-se de um
age de forma abstrata, no entanto, o percurso
pensamento ideológico, visto que a igualdade
da História, que pode à primeira vista parecer
não passa de uma ideia abstrata, já que não
irracional, tem intrinsecamente uma racionalidade
é verificável na realidade de todos os homens. Se
que o compõe. Dessa forma, o deslindar da História
os pobres, despossuídos e desvalidos acreditarem é o próprio desenvolvimento dessa consciência
nesta mentira, eles pensarão que de fato são que ultrapassa as individualidades e que muitas
iguais a todos, não enxergando, assim, que vezes não é compreensível no momento de sua
a realidade não corresponde a tal ideia. realização pelos homens.

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03. Segundo a filosofia hegeliana, o Estado é soberano 06. Ao se referir à dança, Nietzsche está dizendo
e está, portanto, acima de todos os indivíduos. que só é válido e legítimo um pensamento que
Ele é o grande organismo que submete todas as priorize o prazer, a alegria, a natureza do homem.
O contrário dessa dança seria a tristeza, a
partes aos seus interesses maiores e é nele que
fraqueza, a mansidão e a passividade de uma
se encontra o pleno desenvolvimento de uma
vida voltada ao sofrimento e à melancolia,
nação, pois dentro do Estado todos os homens
vida característica dos seres inferiores que
estão seguros e fora dele o indivíduo não é nada. não conseguiram romper com o estilo antigo e
O Estado constrói as leis em vista de todos os permanecem presos aos valores decadentes de
homens e de si mesmo, pois, em última instância, uma sociedade também em declínio. A dança
as leis são a garantia de sua própria permanência representa, assim, a libertação do homem das
de desenvolvimento e, para alcançar seus ideais amarras da moral de rebanho, libertação essa que
de desenvolvimento, tudo é possível e qualquer demonstra a força natural que levaria o homem ao
pleno desenvolvimento de suas potencialidades
caminho é válido. Na figura da questão, tem-se
e de sua força vital.
como exemplo o Estado nazista. O nazismo,
07. Na citação da questão, Nietzsche procura definir
assim como defendido por Hegel e por qualquer
a realidade humana a partir de uma nova
regime totalitário, acredita que os interesses do
concepção de homem e de mundo. Não mais
Estado estão acima dos próprios indivíduos. Estes o mundo do medo, da penitência, da mansidão,
são, ao mesmo tempo, constituintes e acessórios do sofrimento, na esperança de uma recompensa
dentro do Estado. final em outra vida. Nessa nova realidade,
o homem deve se desenvolver, deve se encontrar
04. A globalização, fenômeno mundial de intercâmbio
em suas próprias contradições, buscando ser
de mercadorias, capitais e informações, teve seu
coerente com a vontade de poder, a qual é a mais
auge de desenvolvimento e concretização com
profunda e fiel natureza humana e que quer se
a formação da chamada Nova Ordem Econômica desenvolver em suas múltiplas potencialidades
Mundial, que se deu a partir de 1989, com a queda que estão vinculadas à natureza e sua busca
do Muro de Berlim. Pode-se, porém, observar que pelo prazer, mas até então era impedida pela
as raízes da globalização já haviam sido lançadas moral ocidental que condenava, de alguma
há mais tempo. O contexto ao qual Marx se maneira, tudo o que era natural. Dessa forma, o
filósofo dizia que o mundo é construção humana
refere na citação aponta para a existência desse
e deve ser construído apenas de acordo com essa
mecanismo de desenvolvimento do capitalismo,
vontade de potência. O próprio homem é fruto
uma vez que se observa o caráter cosmopolita
de sua construção e, tal como o mundo, deve ser
da produção e do consumo. É incorreto dizer, no a personificação da vontade de poder.
entanto, que a globalização tenha se iniciado no 08. Segundo Nietzsche, o homem moderno precisa
século XIX, mas não deixa de ser correto afirmar passar por um processo de transformação,
que, em menor proporção, esse fenômeno o qual requer estágios diferentes que culminarão
já podia ser verificado nessa época, tendo na libertação do homem dos valores tradicionais,
encontrado, já nos fins do século XX, seu pleno ou seja, valores próprios dos espíritos fracos que
desenvolvimento. formam a chamada “moral de rebanho”. Para
alcançar esse estágio de libertação, é necessário
05. Segundo Marx, a política, único instrumento deixar de ser camelo, tornar-se leão e, enfim,
de transformação da sociedade, está nas mãos criança, ou seja, deixar de aceitar os valores
dos burgueses, e estes, por sua vez, não desejam passivamente, revoltar-se contra eles e reavaliar
mudanças que façam com que a situação de o mundo, enxergando-o como se fosse a primeira
exploração, a qual lhes traz benefícios, se altere. vez. É nesse último estágio que se justifica
Portanto, a situação observada no enunciado da a explicação de que “o espírito quer agora a sua
vontade”. Somente quando se estabelece esse
questão, em que há a perpetuação da exploração
terceiro estágio do desenvolvimento humano
do trabalho infantil, permanece ainda nos dias
é que se cria uma nova moral a partir do que
atuais, uma vez que, tanto no século XIX quanto
Nietzsche chama de vontade de poder, a qual
no tempo presente, tal situação é verificável consiste no pleno desenvolvimento da humanidade
na realidade e, pior, é legitimada por leis. Para em busca de sua perfeita realização que significa
Marx, a única maneira de alterar essa situação o estabelecimento de uma nova ordem de valores
seria através da revolução do proletariado, pois, fundamentada no espírito dionisíaco.
com ela, a política, instrumento de mudanças,
passaria às mãos do povo, que poderia modificar Seção Enem
a situação posta. 01. C

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