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Anais do V Congresso da ANPTECRE

“Religião, Direitos Humanos e Laicidade”


ISSN:2175-9685

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GT0310

ESPIRITUALIDADES MILENARISTAS EM EXPRESSÕES RELIGIOSAS


E POLÍTICAS NO BRASIL CONTEMPORÂNEO
Osiel Lourenço de Carvalho
Mestre em Teologia
Universidade Metodista de São Paulo
osiel_carvalho@yahoo.com.br
Bolsista CAPES

GT 3- ESPIRITUALIDADES CONTEMPORÂNEAS, PLURALIDADE RELIGIOSA E DIÁLOGO

Resumo: O milenarismo é a crença de que num futuro próximo Deus intervirá de maneira
sobrenatural na história e implantará uma nova ordem mundial de paz e justiça. Há elementos
da referida crença em textos do Antigo e Novo Testamento; em expressões religiosas no
cristianismo primitivo e em escritos dos Pais da Igreja como Irineu, Tertuliano e Santo
Agostinho. Ao longo da história, diversos grupos sócio-religiosos adotaram espiritualidades ou
mentalidades milenaristas. No que diz respeito ao milenarismo no período medieval, Ernst
Bloch em Müntzer, Teólogo da Revolução (1973) discutiu as proximidades entre movimentos
messiânico-milenaristas e utopias. Bloch faz uma análise da revolta dos camponeses durante o
período da Reforma. Em terras brasileiras os ameríndios tupi-guarani também possuíam sua
própria espiritualidade milenarista; profetas destas tribos percorriam aldeias e diziam que eram
a reencarnação de heróis tribais e, que um novo tempo, uma nova era seria implantada em
breve. No final do século XIX, Antônio Conselheiro, líder do movimento sócio-religioso de
Canudos almejava a construção de uma comunidade onde todos seria iguais; uma “Nova
Canaã”, a “Terra Prometida”. Também encontramos espiritualidades milenaristas no movimento
sócio-religioso do Contestado, onde os sertanejos, liderados por monges anunciavam a
chegada da Nova Jerusalém. Na história recente do Brasil temos os grupos pentecostais que
também adotam espiritualidades milenaristas. Para Roger Bastide o milenarismo deve ser
entendido como “estratégia de busca de uma nova identidade e dignidade”. O Objetivo da
comunicação é descrever as espiritualidades milenaristas de grupos sócio-religiosos e suas
relações com dimensões político-sociais no Brasil contemporâneo. Há grupos sócio-religiosos
que adotam espiritualidades milenaristas como forma de protesto social. Enquanto outros
grupos adotam espiritualidades milenaristas como receio da perda de valores identitários.

Palavras- Chave: Espiritualidades milenaristas; movimentos religiosos; política.

Anais do Congresso ANPTECRE, v. 05, 2015, p. GT0303


A crença milenarista diz respeito ao fim de um tipo de sociedade imperfeita e o
começo de outra plenamente justa e perfeita. Entendemos por milenarismo como a
crença no retorno ao paraíso perdido; lugar esse onde a igualdade, a felicidade e a
justiça original serão restaurados. Para os diversos grupos que adotam mentalidades
milenaristas a vinda para essa “terra sem males” pode acontecer tanto por intervenção
divina como por práticas de ação política. Sendo assim, as crenças milenaristas podem
se secularizar e assumir outras formas na modernidade. Um exemplo disso seria
pensar a política como instrumento de redenção e de graça social com o fim de se
chegar ao modelo de uma sociedade plenamente justa e feliz. Um dos autores que
discutiu os processos de secularização e laicização do milenarismo foi Jean Delumeau
(DELUMENAU, 1995, 251-286). O milenarismo nem sempre está associado a grupos
que, em razão da crença na volta de um messias, entrariam num estado de alienação
política e social. Há, ao longo na história, diversos grupos messiânicos-milenaristas
vinculados a movimentos revolucionários e de protesto social. Posteriormente faremos
menção de alguns desses grupos.

Pedro de Oliveira (OLIVEIRA,1985, p. 241) emprega o termo “movimentos


sóciorreligiosos de protesto social” a determinados grupos que se inspiram em crenças
milenaristas para expressarem algum tipo de descontentamento popular. Para Roger
Bastide (BASTIDE, 2006, p. 179) o milenarismo está relacionado a práticas de
resistência de grupos oprimidos e dominados os quais criam uma nova identidade
social a fim de restaurar sua dignidade. Portanto, milenarismo não deixa de ser um
posicionamento político. Além disso, há “determinadas crenças que são posições
políticas, mas não tem coragem de dizer seu nome” (ZIZEK, 2012, p. 12). Sendo
assim, acreditamos que crenças milenaritas podem e caracterizar protesto e crítica
popular, tendo em vista que há uma relação direta entre grupos subalternos e crenças
milenaristas.

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No que diz respeito ao milenarismo no período medieval, Ernst Bloch 1 em
Müntzer, Teólogo da Revolução (1973) discute as proximidades entre movimentos
messiânico-milenaristas e utopias. Bloch faz uma análise da revolta dos camponeses
durante o período da Reforma; Müntzer2 foi um dos líderes das agitações que
reivindicavam uma reforma não apenas religiosa, mas também social. Se juntaram aos
camponeses um grupo de proletários das cidades e também mineiros que se sentiam
explorados. Apesar de Müntzer não faz referência direta ao milenarismo, Bloch parece
ter visto proximidades entre a revolta dos camponeses e os anseios pelo paraíso
perdido

No tocante à guerra dos camponeses, à campanha contra as


imagens e ao espiritualismo, é preciso considerar, ao lado dos
elementos econômicos, o elemento originário essencial do conflito:
o sonho mais antigo, a irrupção da história herética, o êxtase do
andar ereto e a vontade rebelde, séria, impaciente, que anseia
encontrar o paraíso. Inclinações, sonhos (...) alimentam-se de
fontes que não são as da necessidade mais visível: mesmo assim
elas não são pura ideologia; não desaparecem, dão colorido a
amplas etapas do caminho, nascem de um ponto original da alma
que produz valores, continuam a arder mesmo depois de
catástrofes empíricas, mostrando a todas as épocas [que] o
quiliasmo da guerra dos camponeses permanentemente presente
(BLOCH, 1973, p.215).

Em nossa pesquisa, analisamos quatro mentalidades milenaristas: mentalidade


milenarista de crítica social; mentalidade milenarista como ideia de progresso;

1
Ernst Bloch (1885-1977) foi um filósofo marxista alemão tendo como a utopia um de seus principais campos de
estudo. Exerceu influência no pensamento de intelectuais como Theodor W. Adorno, Jürgen Moltmann, Johann
Mertz e Gustavo Gutierrez.
2
Müntzer, nascido entre 1485 e 1490, havia encontrado Lutero, na ordem dos agostinianos. Mestre em Teologia, foi
profundamente marcado pela mística medieval, da qual conservou porém mais a linguagem que o espírito. O
enriquecimento rápido dos chefes de empresa e a pobreza dos mineiros criaram fortes tensões socias. Müntzer foi
enfluenciado foi influenciado em Zwickau, na Saxõnia, pelo tecelão Nicolau Storch e seus amigos “profetas de
Zwickau”. Eles rejeitavam todo o clero, desvalorizavam os sacramentos, rebatizavam os adultos, fundamentavam sua
fé não apenas sobre a Escritura mas também sobre a revelação, sempre atual do Espírito entre os membros de sua
comunidade ( DELUMEAU, 1995, p. 119).

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mentalidade milenarista de descontentamento popular; e mentalidade milenarista
relacionada com o receio de perda de valores identitários. Essas mentalidades são
flutuantes, não fixas, de modo que o grupo sócioreligioso pode apresentar mais de uma
em determinado momento histórico.

A mentalidade milenarista de crítica social é adotada por indivíduos e grupos


sócioreligiosos que fazem uma crítica direta a sociedades e aos sistemas opressivos.
Em geral, esse o grupo tem caráter revolucionário com recusa total ou parcial do mundo
presente. Anseiam que a sociedade seja remodelada com novos valores para cotidiano;
querem uma sociedade alternativa com maneiras novas de organizar o universo
simbólico (CAMPOS, 2012. p 53). Um exemplo dessa mentalidade milenarista
encontramos na revolução camponesa liderada por Thomas Müntzer no período da
Reforma Protestante. Tanto Friedrich Engels (1975) como Ernst Bloch (1982)
escreveram que Müntzer prefigurou a revolução socialista que viria nos séculos
posteriores. Slavoj Zizek3 usa a narrativa escatológica dos quatro cavaleiros do
apocalipse4 para fazer sua crítica ao capitalismo que, segundo ele conduz o mundo ao
Armagedon econômico.

O sistema capitalista global aproxima-se de um ponto zero


apocalíptico. Seus quatro cavaleiros do Apocalipse são a crise
ecológica, as consequências da revolução biogenética, os
desequilíbrios do próprio sistema (problemas da propriedade
intelectual, a luta vindoura por matéria-prima, comida e água) e o
crescimento explosivo de divisões e exclusões sociais) (ZIZEK,
2010, p. 180).

A mentalidade milenarista como ideia de progresso incide nos projetos


econômicos e socias que supostamente conduzirão a humanidade à felicidade terrestre
coletiva. Ao longo do século XVIII, a vinculação entre progresso e felicidade foi um
pensamento recorrente. Há uma visão otimista quanto ao futuro. Na Grã-Bretanha,

3
Slavoj Žižek (1949 - ) filósofo e psicanalista esloveno.
4
O texto de Apocalipse 6 fala de quatro cavaleiros: branco, vermelho, preto e amarelo. Eles surgem na terra e são
incubidos de causar destruição.

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Joseph Mede5 foi um dos primeiros a relacionar o milênio com a idade de ouro que viria
com o progresso. Em sua visão otimista do futuro também questionava a ideia de um
pecado original, pois a humanidade caminhava para um estado de perfeição e
felicidade. Sendo assim, Mede foi um dos primeiros a lançar as bases do pós-
milenarismo na modernidade. Joseph Priestley6 viu na Revolução Francesa uma
espécie de cataclisma, de tremor que antecedia a chegada do milênio quando diz que
“assim, qualquer que tenha sido o começo desde mundo, o fim será glorioso e
paradisíaco, ultrapassando tudo o que nossas imaginações podem agora conceber”
(DELEMEAU apud PRIESTLEY, 1997, p. 280).

A mentalidade milenarista de descontentamento popular está presente em


grupos de resistência, que almejam criar uma nova identidade social. A dimensão
religiosa é em maior grau, de modo que o grupo não se considera revolucionário ou não
dispõe dos meios necessários para se fazer a revolução. Enquanto grupo explorado e
oprimido anseiam por justiça e, quase sempre se congregam ao lado de líderes
carismáticos ou profetas. Em geral, esperam que os sistemas que perpetuam a
opressão serão destruídos pelo elemento do sobrenatural. A intervenção divina e não
os processos revolucionários ou progresso que garantiram a instauração da idade de
ouro. Antônio Vicente Mendes Maciel7, o Antônio Conselheiro foi a principal liderança
da revolta camponesa de Canudos8.

Outro conflito de caráter milenarista no Brasil foi a revolta do Contestado, que é


também o maior conflito campesino no século XX em terras brasileiras. Milhares de
pessoas morreram nos confrontos com os militares; o referido conflito aconteceu no
planalto catarinense e paranaense entre 1912 a 1916. Nessa região, havia muitos
monges peregrinos os quais difundiam a religiosidade popular. Dentre eles, havia um

5
Mede nasceu em 1586. Era egiptólogo e hebraísta. Foi autor do livro “Chave do Apocalipse”
6
Joseph Priestley nasceu em 1733. Foi teólogo, filósofo naturalista e político britânico.
7
O messias brasileiro mais conhecido e estudado foi Antônio Conselheiro, cuja família se celebrizara em lutas
frequentes no interior do Brasil, a luta entre Maciéis e Araújos, no Ceará. O interior do Nordeste era então percorrido
por missionários itinerantes que iam de lugarejo em lugarejo evangelizando, acompanhados por uma turba de
penitentes e romeiro; Antônio Conselheiro foi a princípio um romeiro, sendo provável que tenha então atravessado o
Ceará, em direção à Bahia. Vivia de esmolas, aceitando somente o necessário para o sustento de cada dia (Queiroz,
1965, p. 203).
8
O conflito armado em Canudos aconteceu de 1896 a 1897.

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chamado José Maria. Este, na segunda metade do século XIX teria profetizado a vinda
de gafanhotos de aço que comeriam toda a madeira e dragões que soltariam fogo pelas
ventas. João Maria pregava mensagens apocalípticas, pois segundo ele o fim do
mundo estava próximo. A destruição deste mundo seria “precedida de muitos castigos
de Deus, como pragas de gafanhotos e de cobras, uma epidemia de chagas e uma
escuridão que duraria três dias” (QUEIROZ, 1977, p. 61).

A mentalidade milenarista como receio da perda de valores identitários. Está


muito presente em grupos evangélicos conservadores. Um exemplo disso foi o que
ocorreu a partir da década de 60 nos Estados Unidos. As mudanças sociais ocorridas
nessa década, relacionadas com a revolução sexual, defesa dos direitos civis de
homossexuais, negros e mulheres foi interpretado com um claro sinal da decadência da
civilização humana e, por conseguinte da volta de Cristo à terra. Essas mudanças
sociais fez com que várias igrejas se unissem aos movimentos conservadores, pois
segundo eles era preciso salvar a sociedade norte -americana da ruína. Na cultura
religiosa evangélica e pentecostal a mentalidade milenarista como receio da perda de
valores identitários também foi assumida. Para citar um exemplo, em março de 2015 a
Rede Globo de Televisão colocou no ar novela Babilônia. Após o beijo de duas
mulheres a reação dos evangélicos foi imediata, principalmente em redes sociais e, se
via com frequência postagens como “Jesus está voltando”. O pastor e deputado federal
Marco Feliciano fez crítica ao beijo em sua em sua página oficial no Facebook e, usou
para isso textos bíblicos, todos eles apocalípticos

Alguns jornalistas entraram em contato comigo para saber o que


achei da nova novela Babilônia e de um beijo lésbico que
apareceu na primeira cena. Respondi assim: Não assisto novela, e
já que o nome é Babilônia, deixo a Bíblia falar por mim: Apocalipse
18:2 - E clamou fortemente com grande voz, dizendo: Caiu, caiu a
grande babilônia, e se tornou morada de demônios, e covil de todo
espírito imundo, e esconderijo de toda ave imunda e odiável.
Apocalipse 18:3 - Porque todas as nações beberam do vinho da
ira da sua prostituição, e os reis da terra se prostituíram com ela; e

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os mercadores da terra se enriqueceram com a abundância de
suas delícias. Apocalipse 18:4 - E ouvi outra voz do céu, que dizia:
Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus
pecados, e para que não incorras nas suas pragas. Apocalipse
18:5 - Porque já os seus pecados se acumularam até ao céu, e
Deus se lembrou das iniqüidades dela.
(facebook.com//marcofeliciano. Acesso em 28/03/2015)

Nessa mentalidade é mais evidente o dualismo, a luta entre o bem e o mal, Deus
e o diabo. Para os conservadores essas dimensões do mal devem ser combatidas,
sobretudo no espaço público da política.

Conclusão

As crenças milenaristas estão quase sempre relacionadas com grupos


subalternos, embora elas também estejam presentes, mesmo que de forma
secularizada, nos ideais de progresso. Tanto Engels como Bloch estabeleceram
relações entre milenarismo e utopias políticas, e viram na guerra dos camponeses
alemães uma das gêneses das doutrinas socialistas. Seja na crença num reino de mil
anos literal ou num período de tempo indeterminado, os grupos que adotam
mentalidades milenaristas anseiam por um mundo de paz, igualdade e justiça.
Entretanto, as crenças milenaristas podem ser apropriadas por grupos políticos como
fundamento de práticas políticas conservadoras no espaço público.

Referências

BASTIDE, Roger. O sagrado selvagem e outros ensaios. São Paulo: Companhia das
Letras, 2006.

BLOCH, Ernst. Müntzer, Teólogo da Revolução. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,


1973.

CAMPOS, Leonildo. Reações católicas e protestantes ao movimento sociorreligioso de


inspiração messiânico-milenarista de Canudos. In: LEMOS, Fernanda (org) Movimentos
messiânicos-milenaristas. Paraíba: Editora Universitária da UFPB, 2012.

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DELUMEAU, Jean. Mil anos de felicidade: uma história do paraíso. São Paulo:
Companhia das Letras, 1997.

DESROCHE, Henri. Dicionário de messianismos e milenarismos. São Bernado do


Campo: UMESP, 2000.

HINKELAMMERT, Franz. A maldição que pesa sobre a lei: as raízes do pensamento


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MONIZ, Edmundo. Canudos: a guerra social. Rio de Janeiro: Elo Editora, 1987.

MÜNSTER, Arno. Utopia, messianismo e apocalipse nas primeiras obras de Ernest


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QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O messianismo no Brasil e no mundo. São Paulo:
Dominus Editora, 1965.

QUEIROZ, Maurício Vinhas de. Messianismo e Conflito social: a guerra do Contestado.


São Paulo: Ática, 1977.

ZIZEK, Slajov. Vivendo no fim dos tempos. São Paulo: Boitempo, 2012.

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