Sie sind auf Seite 1von 41
A Imigração no Brasil: Comentários sobre a Contribuição das Ciências Sociais G iralda Seyferth Estudiosos
A Imigração no Brasil: Comentários sobre a Contribuição das Ciências Sociais
G iralda Seyferth
Estudiosos de diferentes campos do co­
nhecimento abordaram o tema da imigração
no Brasil a partir da segunda metade do sécu­
lo XIX, quando as estatísticas de entradas de
estrangeiros se tornaram significativas no
cômputo geral da população. Os primeiros
trabalhos tinham relação direta com os pro­
blemas relativos às políticas imigratórias e fo­
ram produzidos por diplomatas, políticos,
funcionários dos ministérios responsáveis pe­
las práticas de colonização estrangeira, pessoas
ligadas a sociedades de imigração interessadas
no aliciamento de imigrantes para localização
em projetos coloniais ou contratados para
trabalhar em grandes propriedades etc.1Além
desses, existem textos escritos por brasileiros e
estrangeiros, mais preocupados em sugerir
procedimentos considerados úteis para atrair
imigrantes europeus para o Brasil, propondo,
às vezes, mudanças na legislação im igratória e
de colonização.2A imigração também aparece
como tema relevante nas publicações associa­
das a grandes eventos internacionais —caso
das Exposições Universais de Filadélfia
(1876) e Paris (1889),3 e existem muitas refe­
rências a colônias e imigrantes em meio urba­
no nas narrativas de viajantes.4
A historiografia sobre a imigração é nu­
merosa e diversificada, principalmente se for
considerada a produção local sobre as inúm e­
ras colônias que se desenvolveram no sul do
país desde 1824. Da mesma forma, textos
descritivos voltados para o cotidiano dos co­
lonos e para as peculiaridades culturais de
cada grupo têm sido publicados desde o sécu­
lo XIX; e, provavelmente incentivados pelo
atual discurso multiculturalista, proliferaram
nas últimas duas décadas, especialmente no
Rio Grande do Sul, ajudando numa nova
configuração das identidades étnicas.
Essas poucas observações gerais mos­
tram que a im igração, por suas m últiplas fa­
cetas, é um tema interdisciplinar - difícil,
portanto, dar conta da sua totalidade. Não
pretendo considerar a significativa produção
historiográfica e de disciplinas, como a geo­
grafia, a demografia, entre outras, que tem
interesse no fenômeno migratório, nem tam ­
pouco os estudos que tratam da migração
internacional de brasileiros nas
duas últim as
décadas. O presente trabalho focaliza, par­
cialm ente, a contribuição das ciências so­
ciais, em particular da antropologia, aos es­
tudos imigratórios no Brasil, procurando
exam inar o embasamento teórico, os m éto­
dos de análise e as temáticas recorrentes des­
de as prim eiras publicações de caráter socio­
lógico surgidas no século XX, até alguns
trabalhos mais recentes selecionados na am ­
pla produção sobre o assunto publicada nos
últimos vinte anos.
Os dois livros de Emílio W illem s, pu­
blicados na década de 1940, tiveram grande
repercussão, inclusive nos meios nacionalis- -
tas, e contribuíram para consolidar a tradi­
ção analítica fundam entada nas teorias da
BIB, São Paulo, n° 57, Io semestre de 2004, pp. 7-47.
assimilação e da aculturação. Antes dele, al­ gumas figuras notáveis do pensamento so­ cial brasileiro
assimilação e da aculturação. Antes dele, al­
gumas figuras notáveis do pensamento so­
cial brasileiro falaram sobre a imigração de
um ponto de vista nacionalista, quase sem­
pre de forma pontual, ou voltados para o
“problema” da assimilação dos alienígenas.
São bem conhecidas as opiniões de autores
como Silvio Romero, Alfredo Ellis Junior,
Oliveira V ianna, ou mesmo Gilberto Freyre,
entre outros, sobre a presença do imigrante
na vida brasileira: as “influências” são bem-
vindas, desde que não ameacem a formação
nacional de base lusitana. Não assumiram
um a posição contrária à imigração, mas tra­
taram do assunto baseados em um a noção
restrita de assimilação, visualizada como pro­
cesso de abrasileiram ento. Por essa razão,
Romero (1902, 1906) teceu críticas ao siste­
râmetros a diferenciação racial e a idéia de
m eltingpot referida à m estiçagem. Com base
em estatísticas duvidosas sobre casamentos
interétnicos, criou índices de “fusibilidade”
para determ inar dois tipos de m eltingpot - o
da região sul e o paulista: o primeiro com
poucos elementos latinos e o segundo com
preponderância latina em virtude da im igra­
ção portuguesa, espanhola e italiana. (Vian­
na, 1932, II parte). Parte dos dados utiliza­
dos por O liveira V ianna vêm de um texto de
Alfredo Ellis Junior (1933 [1928]), que re­
tomou várias vezes a questão dos casamentos
interétnicos, especialmente no livro Popula­
çõesp aulistas, de 1934. Isso mostra o sentido
assumido pela expressão m elting pot, apesar
do criticismo em torno dela expressado por
m a de
colonização im plem entado pelo
Esta­
autores norte-americanos de grande influên­
cia no Brasil - caso de Fairchild - que traba­
lharam com o conceito de assimilação.
do na região sul porque, segundo seus ter­
mos, deixou principalm ente os alemães e os
O ideário
assim ilacionista, mais do que
o conceito sociológico de assimilação, teve
descendentes física e culturalm ente isolados
no território nacional. O uso cotidiano de
outro idiom a era, no início do século passa­
do, o principal indicador do “enquistamento
étnico”, visto como ameaça aos ideais brasi­
leiros da nação. O próprio W illem s, sempre
repercussão na política im igratória e, no Es­
tado Novo, influenciou os
rumos da cam pa­
nha de nacionalização. Os textos publicados
na Revista de Im igração e Colonização duran­
te a cam panha de nacionalização remetem
sistematicamente aos imperativos culturais e
cauteloso na sua
crítica ao nacionalism o bra­
sileiro, ironizou as metáforas de referencial
biológico ou quím ico empregadas como si­
nônimos de assimilação no Brasil: os im i­
grantes deviam ser “absorvidos”, “digeridos”,
“diluídos” (W illem s, 1951, p. 209); ou, con­
forme Romero (1906), integrados à socieda­
de brasileira num processo então imaginado
não só de um ponto de vista cultural e so­
cial, mas também racial, pois presumia o
“caldeam ento” ou “fusão” com os nacionais
(no sentido do branqueamento fenotípico
da população). Esse pressuposto está visível
num texto de Oliveira Vianna publicado no
início da década de 1930, em que analisou a
assimilação dos imigrantes tendo como pa­
raciais do abrasileiram ento:5 a assimilação
dos alienígenas transformada peremptoria­
m ente num a “questão nacional”. Assim,
mesmo um autor assumidamente pluralista,
como Gilberto Freyre, condenou o germa­
nismo no sul em nome da unidade nacional,
num texto quase panfletário em que admite
algumas diferenças no modo de ser brasilei­
ro (com prim azia para os regionalismos)
desde que impere apenas um a língua nacio­
nal (a portuguesa).6
As análises sobre a imigração alemã em­
preendidas por W illem s, de certa forma, cons­
tituem um ponto de partida: sem os compro­
missos do nacionalismo, realizou uma ampla
pesquisa bibliográfica, à qual acrescentou sua
vivência junto à população teuto-brasileira do Vale do Itajaí (SC), para produzir uma obra ancorada
vivência junto à população teuto-brasileira do
Vale do Itajaí (SC), para produzir uma obra
ancorada na literatura teórica sobre assimila­
ção e aculturação oriunda da sociologia e da
antropologia cultural norte-americana. Não
deu maior atenção ao modismo da assimila­
ção definida a partir da idéia de americani-
zação, aqui convertida em abrasileiramento, e
tampouco utilizou-se da noção de m elting
pot, adotada com certo entusiasmo pelos
ideadores da campanha de nacionalização do
Estado Novo.
Os escritos de Robert E. Park sobre assi­
milação, inclusive o verbete para a Encyclope-
d ia o f the social sciences (1930/1937), foram
usados no Brasil, apesar de o autor exprimir
sua dificuldade para encontrar uma defini­
ção cabível para a análise sociológica desse fe­
nômeno, também visível no primeiro livro
de W illem s (Assim ilação e populações m argi­
nais no B rasil, de 1940), em que os im igran­
tes alemães e seus descendentes são chama­
dos “população m arginal”, portadora de uma
“cultura m arginal”, enfrentando um proces­
so de mudança social que deve culm inar com
xassem de existir como unidades sociocultu-
rais distintas. Essa forma de associação talvez
explique por que ele preferiu utilizar o con­
ceito de aculturação em 1946, quando prati­
camente reescreveu o livro de 1940, m anten­
do a estrutura analítica e a ênfase na questão
da marginalidade cultural. Fixou-se, então,
em três pressupostos teóricos intercambiá-
veis: assimilação, acomodação e aculturação.
O processo de assimilação “consiste no apro­
veitamento de atitudes novas emocionalmen­
te associadas a valores culturais novos com
que o im igrante vai estabelecendo contatos”.
O estudo abrange, pois, reajustamentos da
personalidade ante as novas atitudes em
combinação com novos valores, e conflitos
de lealdade no confronto com duas culturas
distintas. “A coexistência, na personalidade,
de normas de comportamento incompatíveis
produz o estado de ?narginalidade cu ltu ral’
(W illem s, 1946, pp. 17-19). Baseia-se, pois,
em teorias construídas na interface com a
psicologia social por Thomas e Znaniecki
(1974), autores de um amplo estudo sobre a
imigração polonesa nos Estados Unidos, cuja
a
assimilação. A m arginalidade, no caso, ca­
prim eira edição é de 1918, e
por Stonequist,
racteriza-se pela ambivalência das atitudes
individuais em relação às duas culturas em
contato (a germânica e a brasileira). Pelo me­
nos um a década antes, Park já alertava para o
caráter insidioso do conceito, dado que está
nele suposta um a integração igualitária do
im igrante à sociedade/cultura nacional. A si-
autor de
The m argin al m an,
livro publicado
em 1935 e bastante citado por autores brasi­
leiros. Na verdade W illems considera a assimi­
lação uma espécie de processo de reajustamen­
to coletivo a um a sociedade culturalmente
noním ia com americanização, claramente
vinculada à imigração/ foi equacionada por
H
enry P. Fairchild em 1913 - num a obra
que serviu de parâmetro analítico para a
construção da noção de abrasileiramento e
seu corolário do m elting pot, por aqui meta-
forizado na conversão em crisol de raças. De
acordo com W illem s (1951), os estudiosos
brasileiros negavam a presença de minorias
no território nacional, preferindo, como em
outros países latino-americanos, que elas dei­
diferente, im plicando em mudanças de per­
sonalidade; portanto, o objeto do analista é o
comportamento. Assim, define “acomoda­
ção” apenas como uma dimensão da assimila­
ção, para abordar os ajustamentos adquiridos
que se transmitem socialmente, conforme de­
finição original de Park
e
Burguess (W illem s,
1946, p. 33). Emprega o conceito de acultu­
ração conforme a padronização sugerida por
Redfield, Linton e Herskovits (1936) - “os
fenômenos resultantes do contato direto e
contínuo entre grupos de indivíduos repre­
sentantes de culturas diversas, e as subse-
9
qüentes mudanças nas configurações cultu­ rais de um ou de ambos os grupos” - ,
qüentes mudanças nas configurações cultu­
rais de um ou de ambos os grupos” - , por­
tanto trata-se de conceito com plem entar ao
de assimilação ou uma de suas dimensões
mais objetivas porque relacionada aos valores
culturais (W illem s, 1946, p. 37). Assim, in­
troduziu o modelo antropológico de estudo
da m udança cultural a partir do contato in-
terétnico, aplicado metodologicamente para
tes tradições culturais, abordados através dos
conceitos de “m arginalidade” e “am bivalên­
cia de atitudes”. O conceito de minoria na­
cional desaparece, sendo privilegiado o de
grupo marginal, que “consiste de emigrantes
ou seus descendentes que vieram com a in­
tenção de radicar-se no país” (Idem, p. 175).10
Ao optar por “grupo m arginal”, W illem s
estava atento ao princípio da transitoriedade,
entender o fenômeno da absorção dos
im i­
isto é,
àquela situação interm ediária no con­
grantes no contexto do Estado-nação. Não
aceitou inteiramente o postulado assimila-
cionista de Park e dos autores brasileiros
identificados com Fairchild:8o processo inte-
grativo é bilateral, embora devam prevalecer
os padrões do grupo dom inante, isto é, a so­
ciedade nacional.
Nessa perspectiva, W illem s rejeita a
idéia de m elting pot na forma em que foi
apropriada no Brasil, argum entando que o
contato entre grupos diversos não envolve,
necessariamente, caldeamento. Contrariou,
de modo sutil, os pressupostos do naciona­
lismo, ao dizer que são processos de m udan­
ça sociocultural que não abrangem elemen­
tos biológicos. Sugeriu um a abordagem
processual afirmando que ambos os concei­
tos (assimilação e aculturação) supõem con­
tatos heterogêneos entre grupos distintos e,
nesse caso, o fenômeno a ser analisado é o da
tínuo do processo de assimilação dos im i­
grantes, na qual a comunidade étnica serve
como uma espécie de refugio, um insulamen-
to cultural que priva as populações de ascen­
dência germânica da oportunidade de partici­
pação num meio social mais amplo.
A questão da m arginalidade é central no
trabalho de Thomas e Znaniecki, mas eles
deram atenção especial à organização dos
grupos primários, principalmente à família, e
a temas como o casamento, ambiente social,
vida econômica e religiosa, etc., e a m udança
social desde a Polônia - portanto, a im igra­
ção de camponeses poloneses para um a gran­
de cidade norte-americana (Chicago) é ana­
lisada em suas várias dimensões, inclusive a
formação de um a “comunidade polonesa-
americana”. De certa forma, os textos de
W illem s têm algum a aproximação metodo­
lógica com essa perspectiva processual e de
m udança num dado sistema social. Desde o
livro de 1940, distingue assimilação (“fusão
ênfase nos diferentes aspectos da organização
social dos imigrantes e suas mudanças desde
cultural e, como tal, afiliação espiritual e
afetiva”) de adaptação (mesológica) e amal-
gamação ou fusão (que designam “processos
o país de origem. No entanto, apesar de en­
fatizar a relevância dos reajustamentos da
personalidade, ele não trabalhou com traje­
biológicos paralelos ou subseqüentes à assi­
tórias individuais — um assunto
central no
m ilação”) precedidas pela aproximação e
acomodação (W illems, 1940, pp. 15-16).
De fato, o autor estabeleceu vastos parâme­
tros para o estudo da m udança sociocultural
envolvendo imigração, inspirado menos na
tese assimilacionista e m uito mais na obra de
Thom as e Znaniecki,9 dada a ênfase nos con­
flitos resultantes do confronto entre diferen­
trabalho de Thomas e Znaniecki, que dedi­
caram a parte IV do seu estudo à edição co­
mentada de um a life record (isto é, a história
de vida de um imigrante) —, nem com a
questão da delinqüência juvenil (algo mar­
cante num a grande cidade como Chicago e
provavelmente pouco significativa no âmbi-
10
co da imigração alemã no Brasil). Por outro lado, realizou a pesquisa em plena vigência
co da imigração alemã no Brasil). Por outro
lado, realizou a pesquisa em plena vigência
da campanha de nacionalização, que interfe­
riu com certa violência na vida cotidiana da
população teuto-brasileira com intenções as-
similacionistas, mas só indiretam ente se refe­
riu a esse período de conflito, no prefácio do
livro sobre a aculturação, ao dizer que “o cli­
ma político dos últimos anos não foi nada
propício à realização de pesquisas dessa natu­
reza” (W illem s, 1946, p. 10). Apesar da dis-
tintividade cultural teuto-brasileira que mo­
tivou a intervenção do Estado (que também
atingiu outros grupos de im igrantes), afas-
tou-se da noção de colônia etnicamente dife­
renciada empregada por Thomas e Znaniec-
ki, insistindo no seu caráter transitório.11
Isso mostra a dificuldade de pensar so­
bre a pluralidade étnica e cultural, mesmo
diante de um processo imigratório de longa
duração, iniciado em 1824, e do reconheci­
mento da especificidade teuto-brasileira. Al­
guns pontos interessantes emergem do mo­
delo teórico empregado por W illem s. Em
primeiro lugar, assimilação e aculturação
destacam-se como essencialidades, supondo
sua irremediabilidade ou, no m ínim o, sua
inevitabilidade, dada a supremacia da socie­
dade nacional. Em segundo lugar, a noção de
ção de traços culturais distintos e relativa­
mente autônomos (Willems, 1940, p. 330).
Está suposta aí a idéia de comunal idade
cultural, delim itando pertencim entos e ex-
clusões num contexto nacional específico -
lim ites socioculturais obstando o processo
de assimilação. Os dados apresentados por
W illem s remetem o leitor para os processos
de m udança sociocultural caracterizados
pela aculturação, mas igualm ente para as di­
ferenças que distinguem os teuto-brasileiros,
especialmente nas chamadas “regiões de co­
lonização alem ã”. Entre essas diferenças, deu
certo destaque ao “linguajar” dos descen­
dentes, portanto, à comunicação num a lín­
gua própria, distinta do Hochdeutsch (alto
alem ão), às especificidades da organização
fam iliar e doméstica (apesar da existência de
casamentos interétnicos, um indicador pri­
vilegiado da assimilação) e dos processos de
trabalho, à distintividade religiosa (que não
m arginalidade como coisa provisória aponta
para um a concepção hegem ônica do Estado-
nação e certamente deu margem à apropria­
ção do texto de 1940 pelos formuladores de
políticas públicas de nacionalização de ádve-
nas. Em terceiro lugar, a noção de grupo
m arginal deixou em plano secundário os fe­
nômenos culturais que o próprio W illem s
considerou obstáculos à assimilação, confor­
me assinala de forma um tanto am bígua na
conclusão do livro de 1940:
pode ser reduzida ao protestantismo), ao sis­
tem a educacional vigente até 1937 (no caso
dos protestantes considerado uma tendência
a transformar grupos marginais em minorias
étnicas), ao embate entrz ju s soli e ju s sangui­
nis (que levou os colonos a conciliar o étni­
co com o nacional); destacou, ainda, a im ­
portância da germ anidade (Deutschtum ) e
seu uso pelas lideranças políticas e com uni­
tárias teuto-brasileiras.
Diante das imponderabilidades simbó­
licas da idéia de Deutschtum e sua relevância
na construção de um a identidade coletiva
articulada ao processo im igratório — que
apontam para o conceito de grupo étnico
elaborado por Weber (1991, pp. 267-277),
segundo o qual os pertencimentos são aqui­
lo que seus membros acreditam que devem
ser,12 e as
diferenças culturais marcam e qua­
O insulamento cultural dos núcleos (colo­
niais) tornava simplesmente impossível a as­
similação, facilitando, no entanto, a forma­
lificam o grupo mas não são, necessariamen­
te, sua causa - e mesmo falando nas “perdas
que o patrimônio cultural dos imigrantes
11
alemães sofreu no Brasil”,13W illem s chegou à expressão “cultura híbrida” como indicador da cultura
alemães sofreu no Brasil”,13W illem s chegou
à expressão “cultura híbrida” como indicador
da cultura m arginal teuto-brasileira e suas
variações. Utilizando um grande volume de
referências bibliográficas relativas à coloni­
zação alem ã em diversos estados brasileiros,
dim ensionou a aculturação em seus vários
aspectos, mas também encontrou os indica­
dores da diferença cultural demarcadora da
etnicidade. E sua definição é bastante coe­
rente, apesar do uso do conceito de acultu­
ração, num a apropriação que denota mais a
perm utabilidade de culturas (mesmo supon­
do o predomínio de um a delas) do que o
conceito de assimilação:
m anha e a própria especificidade da “cultura
híbrida”. Referências a essa clivagem interna
nas “colônias alemãs” aparecem em outros
trabalhos que analisaram o contato interétni-
co na perspectiva da assimilação, caso do li­
vro de Ursula Albersheim (1962), antropólo­
ga que realizou um estudo de comunidade
num a área do Vale do Itajaí colonizada pela
Sociedade Colonizadora Hanseática no início
do século XX. Alemão novo é um a categoria
indicativa da distintividade cultural teuto-
brasileira, presente também nas obras literá­
rias (romances e contos) (escritos em alemão
por gente das colônias, que enfatizaram o
Se o conflito de lealdades fez do imigrante
alemão, temporária ou definitivamente, um
indivíduo marginal, o mesmo já não se pode
afirmar do teuto-brasileiro que aprendeu,
nas suas próprias comunidades, a reagir, de
uma determinada maneira, às diversas in­
fluências culturais de que se acha rodeado. E
um dos característicos mais importantes da
cultura teuto-brasileira que ela desenvolveu
padrões suficientemente integradospara dirigir
as reações individuais. 0 indivíduo encontra
as definições da sua situação na cultura de seu
grupo e essas definições lhe foram incutidas
desde a prim eira infância (Willems, 1946, p.
265, grifos do autor).
A “situação m arginal”, portanto, é pró­
pria da prim eira geração, os alemães, im i­
grantes, enquanto a população teuto-brasi­
leira (os descendentes, já em processo de
aculturação) tem um a cultura híbrida. Está
implícito no texto o reconhecimento da “dis­
conflito produzido pela convivência com os
novos imigrantes.
A mesma perspectiva de distanciamento
cultural aparece no estudo de Thales de Aze­
vedo sobre a imigração italiana no Rio Gran­
de do sul, publicado em 1975, sobretudo
quando expõe os “dilemas da aculturação”
diante dos princípios da ita lia n itá e dos dis­
cursos em defesa da herança cultural que
procuram uma com patibilidade com a leal­
dade à pátria adotiva - um a idéia que ga­
nhou alento à m edida que a identidade e a
integridade da “subcultura italian a” são
ameaçadas de alteração pelo contato com os
brasileiros (Azevedo, 1982, p. 260).
“Subcultura italiana”, “cultura híbrida
teuto-brasileira” expressam as clivagens pró­
prias das sociedades culturalm ente plurais,
quando está em jogo a construção do Estado-
nação, e não são necessariamente incompatí­
veis com a proposição teórica da aculturação,
conforme demonstram os dois autores. Am ­
bos dão certa im portância ao uso
continuado
da língua materna dos imigrantes - ainda que
tância cultural” em relação aos brasileiros e
aos imigrantes recém-chegados — supostos
patrícios que, não obstante, eram estranhos.
W
illem s,
num julgamento de valor acerca das
variações dialetais, desqualifique o “linguajar”
E
mencionada a categoria de identificação
Neudeutscher (alemão novo) para caracterizar
o
distanciamento cultural em relação à Ale­
anômalo teuto-brasileiro —e destacam as di­
ferenças culturais produzidas no contexto que
Azevedo (Idem, p. 244) denominou “comple­
xo sócio-cultural e econômico-político da so-
12
ciedade colonial” (um espaço compartilhado por diversos grupos imigrados, cada um cio­ so da sua
ciedade colonial” (um espaço compartilhado
por diversos grupos imigrados, cada um cio­
so da sua cultura nacional).
Tais diferenças comportam as caracterís­
ticas socioculturais arroladas por W illem s ao
longo dos seus trabalhos, consideradas empe­
aculturação, cuja influência pode ser obser­
vada na obra de autores brasileiros ainda na
cilhos à assimilação, e condenadas pelo princí­
pio da nacionalidade vigente no Brasil que ele­
geu o português como única língua vernácula
e a formação histórica herdada do colonizador
português como a base cultural da nação, jun­
tamente com a mestiçagem. O conflito foi
inevitável, pois o recrudescimento do nacio­
nalismo, durante o Estado Novo, coincidiu
com um momento de afirmação das etnicida-
des alemã e italiana, em parte devido à pres­
são nacionalista que, desde o início da Repú­
blica, exigia a assimilação de imigrantes e
descendentes. Isso provocou um contra-dis-
curso anti-assimilacionista que partiu das li­
deranças comunitárias e políticas, em parte
porque aquilo que W illem s chamou de “insu-
lamento” estava acabando - os brasileiros, afi­
nal, chegaram às regiões de colonização e,
com eles, uma intensificação do contato e, no
sentido inverso, a mobilidade social ascen­
dente e a mobilidade geográfica aproximaram
os descendentes de imigrantes da sociedade
nacional. De certa forma, W illem s e Azevedo
mencionam esse duplo movimento, mas não
fizeram qualquer referência aos procedimen­
tos forçados de assimilação que ocorreram
entre 1937 e 1945.
A partir de materiais de arquivo e de
uma bibliografia muito heterogênea e de sua
década de 1940. E o caso da síntese realiza­
da por Arthur Ramos na sua Introdução à
antropologia brasileira (1947). Ao tratar dos
“contatos raciais e culturais”, m enciona a
mesma bibliografia sobre assimilação e acul­
turação: além do próprio
W illem s, estão ci­
tados Park, Fairchild, Stonequist, Thom as e
Znaniecki, Redfield, Linton e Herskovits -
aparentemente, um a indicação de que a
orientação teórica é a mesma. No entanto,
esse não é o caso, pois parte substantiva do
texto é dedicada à caracterização racial dos
diferentes grupos negros, indígenas e im i­
grantes identificados no território nacional,
e à miscigenação (portanto, o tem a do “cal-
deamento” tem mais relevância do que os
problemas de aculturação).
A partir de uma vasta literatura produ­
zida pela antropologia física e referida a ti­
pologias raciais, Ramos traça um perfil do
tipo físico de cada grupo (no caso dos im i­
grantes) nacional — um equívoco
bastante
comum na vigência acadêmica do conceito
de
raça.
Na parte sobre im igração,
a não ser
no caso dos portugueses, que têm um espa­
ço bem m aior no texto pelo seu papel de co­
lonizadores, trata
de cada grupo de im igran­
tes separadam ente, dedicando-se, primeiro,
à classificação como “tipo” biológico, reme­
tendo, às vezes, ao paleolítico e seus fósseis,14
e depois à classificação lingüística e à descri­
vivência, como im igrante, no
Vale do Itajaí,
onde atuou como professor na década de
1930, W illem s elaborou um amplo painel
sobre a imigração alemã, procurando dados
e exemplos nas áreas coloniais povoadas por
esse grupo. Praticam ente introduziu um
modelo analítico baseado nos conceitos so­
ciológicos norte-americanos de assimilação e
ção de alguns traços culturais característicos
para, finalmente, apresentar dados, inclusive
estatísticos, acerca da sua presença no Brasil.15
Na parte intitulada “As culturas européias”
foram incluídos os japoneses, argumentando
que constituem um grupo “europeizado”, em
processo de aculturação (Ramos, 1947, vol.
2, p. 557). Na últim a parte do segundo vo­
lum e —“Os contatos raciais e culturais” - a
mestiçagem é o principal assunto, com am ­
pla digressão sobre as opiniões de diferentes
13
pensadores sociais e cientistas, para mostrar que o cruzamento interracial não produz de­ generescência. H
pensadores sociais e cientistas, para mostrar
que o cruzamento interracial não produz de­
generescência. H á, pois, um amplo espaço
dos im igrantes ao novo am biente, com as
conseqüentes transformações nos hábitos
alim entares, habitação, vestuário, métodos de
para
os debates acerca do “problem a racial”
(que em W illem s e nos teóricos norte-am e­
ricanos da aculturação é residual), um tema
ainda presente nos meios políticos e acadê­
micos brasileiros na década de 1940, inclu­
sive na discussão da política im igratória
(Seyferth, 2002).16 Segundo Ramos (1947,
vol. 2, p. 532) devem-se distinguir nos fenô­
menos da assimilação e da aculturação (con­
ceitos às vezes apresentados em separado, às
cultivo etc. As relações interétnicas estão sub­
jacentes a essas discussões, e a palavra etnia
aparece, às vezes, como sucedânea de naciona­
lidade. O ensaio
de W ilson M artins, publica­
vezes como complementares) os seguintes
aspectos: “adaptação e aclim ação, isto é, o
ajustamento ao meio geográfico e clim ático;
a amalgamação ou assimilação biológica; a
assimilação social ou assimilação propria­
mente dita; a assimilação cultural ou acultu­
do em 1955 e reeditado em 1989, é um bom
exemplo desse entendimento mais amplo -
social, biológico e ambiental - da mudança
cultural. Pode-se dizer que ele inverte a propo­
sição assimilacionista, pois seu modelo analíti­
co de aculturação procura demonstrar a in­
fluência dos imigrantes e suas respectivas
culturas na formação do Paraná, dando a esse
estado da federação uma brasilidade específi­
ca, de certa forma confrontada com a formu­
lação regionalista de Gilberto Freyre.
A leitura do últim o parágrafo do livro é
ração”. Entretanto, no capítulo dedicado a
esses assuntos no contexto da im igração —
considerado pelo autor um trabalho “intro­
dutório” - a adaptação mesológica (ou acli­
mação nas regiões tropicais e subtropicais) e
os indicadores de miscigenação obtidos na
obra de O liveira V ianna e Alfredo Ellis Ju ­
nior ocupam muito mais o analista do que
os indicadores socioculturais de integração à
sociedade brasileira. Seguindo certos pressu­
postos comuns do nacionalismo assimilacio-
nista, Arthur Ramos julga os grupos latinos
mais assimiláveis, embora alerte para as
“ideologias políticas”, que impõem novos
obstáculos à “tarefa assim iladora e acultura-
tiva” dos italianos.17
Na década de 1950, diversos autores es­
tudaram a imigração como fenômeno de
aculturação, na sua dimensão sociológica.
a m elhor m aneira de
entender os
argum en­
tos de M artins:
Assim é o Paraná, território que, do ponto
de vista sociológico, acrescentou ao Brasil
uma nova dimensão, a de uma civilização
original construída com pedaços de todas as
outras. Sem escravidão, sem negro, sem por­
tuguês e sem índio, dir-se-ia que a sua defi­
nição humana não é brasileira [
]
sua histó­
M as, em alguns casos, persistiu a temática da
miscigenação percebida como um dos indi­
cadores da assimilação, à qual se acrescentou
a influência do meio físico, ou seja, aquilo
que W illem s (1946) chamou de “aculturação
ergológica”, ou “aclim ação” - a adaptação
ria é a de uma construção modesta e sólida e
tão profundamente brasileira que pôde, sem
alardes, impor o predomínio de uma idéia
nacional a tantas culturas antagônicas. E que
pôde sobretudo, numa experiência magnífi­
ca, harmonizá-las entre si, num exemplo de
fraternidade humana a que não ascendeu a
própria Europa, de onde eles provieram. As­
sim é o Paraná. Terra que substituiu o sem­
pre estéril heroísmo dos guerreiros pelo hu­
milde e produtivo heroísmo do trabalho
cotidiano e que agora, entre perturbado e fe­
liz, se descobre a si mesma e começa, enfim,
a se compreender (Martins, 1989, p. 446).
14
Essa síntese final supõe um a idéia de harm onia étnica produzida por uma m
Essa síntese final supõe um a idéia de
harm onia étnica produzida por uma m istu­
ra de migrações (interna e intencional), ape­
lando para um relato de Saint H ilaire, que
fala de “homens realm ente brancos” habi­
tando os Campos Gerais (isto é, o Paraná)
cionais, como naturais, traços e complexos
que, na realidade, não o são. Ou por outra,
quejá o são, desde que, segundo nota feliz de
Emílio Willems, nesta altura do processo
miscigenador as designações alemão, italiano,
polonês, etc., referem-se à etnia e não à nacio­
nalidade: realmente, quase todos são, juridi­
em 1820
(Idem , p. 126).
Nesse mosaico ét­
camente, brasileiros de várias gerações [
].
O
nico, não existem negros e índios e os mes­
tiços são poucos - um mito de formação do
povo que discrepa do senso comum nacio­
nal. M artins mostra a relevância num érica e
a variedade de etnias européias que se esta­
“brasileiro” como o “estrangeiro” são diferen­
tes, aqui, do “brasileiro” tradicional e do “es­
trangeiro”, tal como existe em seu país de ori­
gem (Martins, 1989, p. 124).
beleceram no Paraná, estado onde a coloni­
zação teve m aior impulso no século XX, e
que também recebeu grandes contingentes
de descendentes de imigrantes alemães, ita­
lianos e poloneses do Rio Grande do Sul e
Santa C atarina, trazidos por empresas colo-
nizadoras. Por isso, o modelo analítico con­
Nessa passagem, como em todo o livro,
está im plícita a concepção de um Brasil ét­
nico e culturalm ente plural, que se contra­
põe a uma idéia homogênea de formação
nacional - posição que não se coaduna com
os princípios da formação nacional, o que
explica o diálogo com Gilberto Freyre desde
siste em descrever a paisagem (natural e hu­
m ana), apresentar dados históricos sobre o
povoamento e a colonização, sopesando suces­
sos e eventuais fracassos,18 e assinalar a con­
tribuição de cada grupo de im igrantes à for­
mação sociocultural do Paraná.
a introdução. Ali confessa que o livro se deve
à influência dos estudos de Freyre sobre o
O “Brasil diferente”, assinalado no título
do livro, tem relação com o sentido da acul­
turação observada no Paraná, envolvendo,
principalmente, um processo miscigenador e
trocas culturais entre diferentes etnias euro­
péias. A parte a suposta irrelevância da escra­
vidão, e dos negros e mestiços e indígenas no
cômputo geral da população, para configurar
um Paraná “branco” diante do “vulto da in­
fluência estrangeira” {Idem, p. 125), o alenta­
do estudo do processo de assimilação tem
fundamento sociológico, embasado na noção
de etnia, e leva em conta a pluralidade cultu­
ral (no que se aproxima de W illem s) como
forma legítim a de ser brasileiro:
nordeste, lugar dos vastos domínios da “cul­
tura luso-tropical” {Idem, p. 5). Influência
metodológica pois, como Freyre, M artins é
um ensaísta e os fundamentos do seu traba­
lho procedem de uma ampla bibliografia usa­
da criteriosamente. Por outro lado, temas
destacados e tratados com maior profundida­
de para diferenciar o Paraná dos imigrantes
são próprios do universo freyriano - paisa­
gem, figuras humanas, casa, comida, vestuá­
rio, fam ília etc. No conjunto de textos in­
cluídos no volume Região e tradição (1941) e,
de um modo geral, na sua obra, Freyre tam ­
bém fala de diferentes brasilidades: para ele,
a região é unívoca, a nação é plural. Cons­
trói um a noção de
pluralismo cultural, po­
[
]
uma segunda ou terceira geração, que nas­
ce
e cresce num meio já fortemente colorido
de
influências estrangeiras, receberá como na­
rém subordinada à idéia de assimilação e a
uma gradação de tradições mais ou menos
legítim as nos lim ites fixados pela formação
nacional herdada dos tempos coloniais19 -
transformando o nordeste no lugar onde a
tradição de longa duração está em equilíbrio
15
(isto é, contém proporcionalm ente elem en­ tos portugueses, negros e indígenas). Por­ tanto, é
(isto é, contém proporcionalm ente elem en­
tos portugueses, negros e indígenas). Por­
tanto, é sob esse aspecto da diversidade étni­
ca e das suas implicações sobre a identidade
nacional que M artins diverge de Freyre: para
ele, a nacionalidade é uma noção jurídica
que não se confunde com etnia, termo que
aplica aos grupos de imigrantes. Daí, o Para­
me assinalado desde W illem s (Idem, p.
21).
A
isso junta-se a am pla discussão sobre
gru­
pos minoritários após a Segunda Guerra
M
undial, estim ulada no âmbito acadêmico
pelo trabalho de W irth (1945), que deu des­
taque à questão do pluralism o. A palavra et-
ná,
em
com seu am algam a de etnias e culturas
processo m útuo de aculturação, e a assi­
m
ilação em face do meio (físico, cultural,
social) brasileiro, é tão brasileiro quanto o
nordeste de Freyre.
As considerações de natureza naciona­
lista em butida no texto não comprometem
o
esforço de síntese empreendido por W il­
son M artins
e sua interpretação, do ponto
de vista aculturativo, sobre a influência das
culturas estrangeiras na configuração social
do Paraná e sua integração com o processo
de colonização do Brasil m eridional.
Esse modo de destacar o pluralism o ét­
nico e cultural nas abordagens baseadas no
conceito de aculturação teve algum a conti­
nuidade na década seguinte, embora con­
centrados em grupos específicos, sendo raros
os trabalhos que abordaram a imigração em
geral, ou que dedicaram maior espaço à em i­
gração. O principal motivo dessa m udança é
nicidade (um neologismo) começou a ser
usada por cientistas sociais no início da dé­
cada de 1960, exatam ente para criticar as
teorias da assimilação que presum iram o de­
saparecimento dos grupos étnicos no con­
texto do Estado-nação moderno.20
No Brasil, o pluralismo cultural aparece
como fenômeno politicamente correto, sobre­
tudo em trabalhos de autores que realizaram
pesquisas sobre a imigração sob os auspícios
da Unesco, não obstante seu comprometi­
mento com as teses da assimilação cultural.21
Nesse caso, o
pluralism o é aceitável na for­
ma de relações equilibradas, conforme assi­
nalou Diegues Junior (1964, pp. 364-365),
a
partir de Gilberto Freyre, para referir-se à
preservação de valores culturais trazidos pelo
im
igrante no “processo transculturativo”.
O estudo de Diegues Junior (1964) é
um a das poucas tentativas de abordagem do
fenômeno imigratório em seus aspectos mais
gerais, embora centrado na temática desen-
volvimentista da urbanização e da industria­
a dificuldade de lidar com os processos de
lização. D ividiu a imigração em
três períodos
formação das etnicidades, inclusive em con­
textos im igratórios, que abalaram as convic­
ções acerca da eficácia analítica do conceito
de assimilação diante da problem ática dos
sistemas interétnicos. Arthur Ramos (1947)
já havia alertado para os equívocos da idéia
de m eltingpot como sinônim o para assim ila­
ção, e W illem s (1946) recorreu à noção de
cultura híbrida para dar conta das especifici-
dades teuto-brasileiras. Por outro lado, acul­
turação é um conceito menos abrangente do
que o de assimilação, mais flexível, envol­
vendo as mudanças das configurações cultu­
rais em todos os grupos envolvidos, confor­
históricos - dois no Império, 1808-1850 e
1850-1888, e um na República, 1888-1950
—, portanto os marcos divisórios são a extin­
ção do tráfico de africanos e a Abolição, sen­
do o últim o o de m aior significação estatís­
tica. Inicialm ente, faz um a descrição geral
do movimento
im igratório, com base em da­
dos numéricos, incluindo os recenseamentos,
fala rapidamente das experiências de coloni­
zação, da imigração urbana, da contribuição
demográfica e das mudanças socioculturais.
De fato, o objetivo maior desse estudo é
analisar o papel dos im igrantes no processo
de urbanização e industrialização do Brasil.
16
Ali não faltam menções ao pioneirismo nas áreas de colonização e ao desenvolvimento concomitante da
Ali não faltam menções ao pioneirismo nas
áreas de colonização e ao desenvolvimento
concomitante da indústria e das cidades;
aceita a tese de senso comum nos trabalhos
mais laudatórios produzidos pela historiogra­
fia local que atribui a industrialização à ex­
pressividade do trabalho artesanal, supondo,
como tendência geral, que os ofícios dos arte­
sãos e dos artífices se desenvolveram “para a
constituição de um parque industrial mais
mação nacional) e consignado na legislação.
Aproxima-se, portanto, de uma concepção
mais nacionalista de assimilação dos estrangei­
ros, ressaltando as diferentes “contribuições”,
mas, igualm ente, o am algam a racial (“em rit­
mo lento ainda”), embora constate a diferen­
ciação cultural sobretudo no sul do país. De
fato, a cultura brasileira plural só é aceitável
por esse autor “dentro da sua base lusitana”
{Idem, p. 371), preferencialmente na forma
largo” (Idem , p. 210). Essa explicação para a
formação industrial é verdadeira apenas em
parte (e tem a ver com as informações de
de m eltingpot. Apesar dessa limitação
meto­
dológica, ainda vigente no pensamento so­
W illem s
sobre a variedade profissional dos
emigrados e com os dados acerca da abun­
dância de pequenas empresas familiares de
base artesanal em áreas de colonização); tra­
balhos posteriores mostraram que a base fi­
nanceira que perm itiu o desenvolvimento
industrial no sul veio do comércio e m uito
poucos artesãos viram suas oficinas atingir
um patam ar industrial (cf. Roche, 1969;
Seyferth, 1974).
A abordagem, que privilegiou a forma­
ção urbana (inclusive das capitais) e o desen­
volvimento econômico, apresentando pon­
tualm ente a “contribuição” dos imigrantes,
tem como complemento um a análise sobre
assimilação cultural, e um capítulo final so­
bre pluralismo étnico e cultural. São ques­
tões intercambiáveis, na m edida em que
“nem o im igrante é inteiramente absorvido
pela cultura nacional, nem mantém íntegras
suas características culturais próprias” (Die-
gues Junior, 1964, p. 278). D aí falar em pro­
cial brasileiro naquela época, Diegues Junior
faz um a contribuição de síntese bastante sig­
nificativa para o entendimento do fenômeno
imigratório no Brasil.
Os estudos de aculturação e assimilação
foram comuns nas décadas de 1950, 1960 e
1970, com perspectivas teórico-metodológi-
cas muito próximas às de W illem s, procuran­
do abordar o tema da integração sociocultu­
ral dos imigrantes e seus descendentes na
sociedade brasileira, eventualmente destacan­
do diferenças geracionais. Isso tem a ver com
a análise empreendida por Thomas e Zna-
niecki —trabalho ainda citado nesse período
- que destacou os conflitos entre a primeira
geração de imigrantes, que procura salvaguar­
dar seus valores, língua materna e tradições
nacionais, e a segunda geração, que é sociali­
zada no novo país, e tende a se afastar dessa
tradição. A transformação dos valores e das
atitudes individuais e suas conseqüências no
âmbito dos grupos primários - especialmen­
te a fam ília
—, assim como as perspectivas de
cesso de assimilação cultural “mais pluralista”
e, sobretudo, variado, pois ele se dá mais ra­
pidamente em áreas urbanas (como São Pau­
lo ou Rio de Janeiro) e é mais lento nas áreas
mobilidade social que favorecem a acultura­
ção e a assimilação, e as situações de conflito
cultural envolvendo tanto as diferentes gera­
ções de imigrantes como a sociedade abran­
rurais, onde os grupos ficaram isolados. No fi­
nal, inspirado principalmente em Gilberto
Freyre, afirma a receptividade e a solidarieda­
de na convivência dos brasileiros com os im i­
grantes, produto da herança lusitana (e da for­
gente, são assuntos comuns a vários autores,
quase obrigatórios na medida em que a pers­
pectiva culturalista abre espaço, também,
para o estudo da mudança social e dos pro­
cessos de absorção numa estrutura pluralista.
17
W illem s e Diegues Junior já haviam in­ troduzido a questão da ascensão social
W illem s e Diegues Junior já haviam in­
troduzido a questão da ascensão social como
motivadora da aculturação ou da assim ila­
ção. Ela vai aparecer, de forma preponderan­
te, em diversos trabalhos articulados à pers­
pectiva acim a mencionada, seja no contexto
de obras mais abrangentes, seja em artigos
sobre temas específicos. Entre eles podem
ser destacados artigos do próprio W illem s
(1944, 1948, 1951); de Egon Schaden
(1956, 1957, 1973), que procurou compa­
rar a aculturação de japoneses e alemães,
tendo em vista m udanças de status social e a
forma diferenciada de conflito interétnico;
de Ruth C. L. Cardoso (1959), que abordou
as associações juvenis de nisseis (a segunda
geração de im igrantes japoneses) em São
Paulo, destacando seu papel integrativo, sua
im portância no contexto da m obilidade
so­
cial ascendente e sua atuação ante as m udan­
ças impostas pela aculturação; o livro de Ur-
sula Albersheim (1962), que possui um
capítulo sobre a assimilação dos teuto-brasi-
leiros num a com unidade localizada no Vale
do Itajaí, no qual são delineados indicadores
de identidade e relações conflituosas com os
que atualm ente denominamos relações inte-
rétnicas e que na época eram analisadas na
perspectiva de assimilação, aculturação, ab­
sorção, aclimação, fixação, ou qualquer ou­
tro termo denorativo das transformações so­
ciais e culturais produzidas pelo contato de
imigrantes e descendentes com a sociedade
nacional.
A mudança de orientação teórica é mais
perceptível nas abordagens influenciadas
pela obra de S. N. Eisenstadt (1954), que
deu m aior importância à socialização e à
transformação dos valores dos grupos prim á­
rios, mas observou que os processos de ab­
sorção dos imigrantes, ou a evolução de uma
nova estrutura institucional, não são sufi­
cientes para obliterar as distinções grupais,
desenvolvendo-se uma estrutura pluralista
em que emergem identidades separadas.
Nesse caso, chama a atenção para a coexis­
tência dessa situação plural com a dinâm ica
da m udança social, com possibilidades inte-
grativas e desintegrativas, característica do
brasileiros; os livros de Altiva P. Balhana
(1958), sobre a imigração italiana em C uri­
tiba, e de Yukio Fuji e T. Lynn Sm ith
(1959), sobre os japoneses no Brasil, inteira­
mente dedicados à tem ática assimilacionista
em suas diferentes dimensões.
Essas são apenas algumas indicações da
bibliografia mais am pla que aborda a im igra­
ção em seus m últiplos aspectos - o processo
migratório desde o país de origem, a história
da imigração no Brasil, a estrutura socioeco-
nôm ica e a mobilidade social de grupos ur­
banos e rurais, aculturação etc. Um bom
exemplo dessa m ultiplicidade de abordagens
é a coletânea organizada por Hiroshi Saito e
processo de absorção. Abrem-se, pois, para o
im igrante papéis universais da sociedade re­
ceptora, mas também papéis especiais asso­
ciados às particularidades do seu grupo, com
possibilidades de conservar características es­
truturais distintas
(cf. Idem , cap. I).
No Brasil, os trabalhos mais nitidam en­
te influenciados por Eisenstadt são os de
Francisca I. S. Vieira (1973), resultado de
um a pesquisa sobre a imigração japonesa em
M arília (SP), e de Fienrique Rattner (1977),
sobre a com unidade judaica de São Paulo.22
V ieira realizou sua pesquisa entre 1964 e
1966 na região da A lta Paulista, área classifi­
cada como frente de expansão no início do
século XX,
onde foram inseridos im igrantes
Takashi M ayeam a (1973), que reúne
artigos
já publicados de dezessete autores que trata­
ram da imigração japonesa, voltados para o
japoneses. Produziu, como diz no prefácio,
um trabalho monográfico preliminar, basea­
do no conceito de absorção utilizado por Ei­
senstadt, “onde os im igrantes são analisados
como grupo e focaliza-se em especial a insti­
18
tucionalização do comportamento dos im i­ grantes e seus descendentes’ (Vieira, 1973, p. 15). Isso
tucionalização do comportamento dos im i­
grantes e seus descendentes’ (Vieira, 1973,
p. 15). Isso im plicou na análise da transfor­
mação dos grupos básicos (ou primários) e
da extensão de sua participação nas princi­
pais esferas da sociedade mais ampla. Assim,
categorias geracionais e regionais, a distinção
envolvendo indivíduos de diferentes etapas
do processo imigratório, mas também aborda
as transformações ocorridas principalmente
na organização familiar (com ênfase nos casa­
mentos interétnicos),24 no sentido
de desven­
a parte do livro referente às condições histó­
ricas da imigração japonesa (inclusive suas
dimensões demográfica e política) e às carac­
terísticas da inserção na frente de expansão
do estado de São Paulo é muito breve, con­
centrando-se a análise no “grupo étnico ja­
ponês da cidade de M arília”.
O subtítulo da parte substantiva do livro
é, pois, indicativo da reorientação produzida
nos estudos de sistemas interétnicos na déca­
da de 1970, na qual se destacam (entre m ui­
tos outros) os trabalhos de Fredrik Barth e
Abner Cohen publicados em 1969 e, no Bra­
sil, um conjunto de ensaios de Roberto Car­
doso de Oliveira (1976)23—em afinidade com
a coletânea organizada por Barth em que a
identidade étnica, o grupo étnico e o proces­
so de articulação étnica são considerados as
“dimensões mais estratégicas do fenômeno
das relações interétnicas” (Idem, pp. XI-XII).
Embora articulada à definição de Eisenstadt
para absorção (m udança social com possibili­
dades integrativas e desintegrativas), Vieira
(1973, pp. 73-74) focaliza a natureza e a
composição do “grupo étnico japonês em
M arília” para chegar ao processo de institu­
cionalização do comportamento de imigran­
tes e descendentes. Destaca a categoria unívo­
ca de identificação — japoneses — e sua
oposição em relação aos brasileiros, partindo
de um a definição de “grupo étnico” muito
próxima à de Barth (1969). Associando as
duas perspectivas de forma complementar,
Vieira analisa o grupo identificado de forma
mais geral por uma única designação - japo­
nês - ,
as características culturais de distintivi-
dade, as diferenciações internas baseadas em
dar os mecanismos de absorção. Como em
outros trabalhos sobre a imigração japonesa,
Vieira também estuda as associações, mos­
trando seu papel na manutenção da identida­
de étnica (operando como “agências étnicas
formalizadas”), mas funcionando, igualm en­
te, como canais de comunicação com a socie­
dade brasileira. Nesse sentido, aponta, rapi­
damente, para a emergência de lideranças
étnicas - políticas e econômicas - após a Se­
gunda Guerra M undial e sua aproximação
com os brasileiros, numa abordagem seme­
lhante às de W illem s e outros que considera­
ram as aspirações relativas à ascensão social
um dos elementos determinantes do processo
de assimilação ou absorção.25
A mobilidade social ainda é assunto des­
tacado no trabalho de Rattner (1977) sobre
os judeus em São Paulo, mais fortemente ins­
pirado na obra de Eisenstadt (1954), cujo re-
ferêncial empírico são os imigrantes judeus
em Israel. Na prática, o modelo analítico ado­
tado é o mesmo desde W illem s: entre as
“condições da assimilação” destaca a urbani­
zação, a industrialização, a inserção no siste­
ma de ensino brasileiro —que abrem espaço
para mudanças na posição social (“busca de
status”); e o conflito geracional - , a segunda
geração, nascida no Brasil, mais integrada à
sociedade receptora, mostrando um compor­
tamento “ambivalente” em relação à religião e
à cultura judaica. A palavra “ambivalência”,
tal como em W illem s, serve para explicar a
persistência de papéis e valores relacionados à
pertinência étnica, concomitante com a assi­
milação. Rattner destaca a importância do
pluralismo cultural que permite a participa­
19
ção do im igrante na sociedade receptora sem renúncia aos papéis próprios do grupo étnico.
ção do im igrante na sociedade receptora sem
renúncia aos papéis próprios do grupo étnico.
Por isso, enfrenta o problema da identidade
judaica, junto com a noção de ambivalência,
na sua dupla definição - interna à comunida­
de e baseada na pertinência religiosa, na “edu­
cação judaica” no lar, na freqüência à sinago­
ga, clubes e associações, escolas e entidades
assistenciais exclusivas etc.; e externa, segun­
do a qual (a partir de Sartre) judeu é aquele
que os outros consideram um judeu. Por ou­
tro lado, apresenta, no mesmo contexto co­
m unitário, os indícios de um ethos geral de
aculturação e integração: a não observância,
principalmente a partir da segunda geração,
de todos os ritos religiosos, a quase ausência
do uso do iidiche e do hebraico, casamentos
mistos, pouca identificação ideológica com o
sionismo. De certa forma, Rattner discute a
primazia da religião para dizer que a identida­
de é pouco centrada na religião e configura-se
muito mais na convivência nos espaços co­
munitários, num a certa concentração no es­
paço urbano (referência ao “bairro judaico”) e
no comportamento diário no relacionamento
com os membros da comunidade. Persistem,
pois, os pressupostos comportamentais da
ambivalência, segundo os quais as condutas
individuais e coletivas estão divididas entre a
integração à sociedade brasileira e o pertenci-
mento ao grupo étnico. A relevância da iden­
tidade judaica deixa em segundo plano as no­
ções de m arginalidade e homem marginal
(citadas no texto)26para observar o fenômeno
que denominou
O comprometimento com a idéia de
aculturação ou absorção leva o autor a pen­
sar esse fenômeno de formação de um a
identidade cultural unívoca - a de judeu
brasileiro —, discutida na forma de paradoxo
ou am bivalência, para reportar-se, afinal, aos
ditam es socioeconômicos que impõem pa­
drões de conduta compatíveis com a inser­
ção na sociedade brasileira. Todavia, conclui
que os judeus paulistanos, por seu estilo de
vida, aspirações e formação, estão integrados
à sociedade onde vivem, mas não são assim i­
lados, mantendo
um a identidade separada.
Os problemas relativos às identidades ét­
nicas assinalados por Vieira e Rattner estão
presentes nos estudos de maior abrangência
temporal, relativos à colonização desde o sé­
culo XIX, que deram algum a atenção aos
problemas de aculturação e assimilação. A
monografia antropológica de Thales de Aze­
vedo (1982 [1975]) sobre a colonização ita­
liana no Rio Grande do Sul é um bom exem­
plo.27 Baseado em pesquisa documental e
bibliográfica, e em entrevistas, Azevedo dá al­
gum a atenção à política imigratória brasileira,
] [
processo de amalgamação de diferentes
correntes imigratórias, à medida que a se­
gunda geração, nascida e educada no País
], [
mistura-se com seus pares, sfardim com
achquenazim , filhos de judeus da Alemanha
com os de origem egípicia ou rumena, geral­
mente da mesma forma e com as mesmas as­
pirações (Rattner, 1977, p. 165).
aos fatores determinantes da emigração na
Itália, assim como à travessia até a inserção
num a colônia; procurou analisar o ajusta­
mento do im igrante camponês no contexto
colonial, sua adaptação ao meio, seu relacio­
namento com a sociedade nacional e os pro­
cessos de aculturação, abrangendo “cem anos
de regime colonial” (Idem, p. 273). Nesse
tipo de abordagem, voltado para a coloniza­
ção, a figura predominante é o colono, ha­
vendo pouca ou nenhuma menção à mobili­
dade espacial e à imigração em áreas urbanas,
inclusive nas principais cidades que se desen­
volveram a partir de núcleos coloniais.
Na priorização temática de Azevedo, a
emigração (suas causas, inclusive as formas de
aliciamento na Itália) é tratada superficial­
mente, dando maior atenção à expressão esta­
20
tística da imigração italiana no Brasil e às condições de recepção e do sistema colonial
tística da imigração italiana no Brasil e às
condições de recepção e do sistema colonial
no Rio Grande do Sul, passando pelas vicissi­
tudes dos colonos desde o porto de embarque
até as regiões coloniais. Entre outros docu­
mentos, as cartas de imigrantes a seus fam ilia­
res e amigos serviram para reconstituir a tra­
vessia, contando um a história de privações e
sofrimentos - navios superlotados, falta de
comida, doenças, mortalidade, longas cami­
nhadas com o agravante da desorganização
dos serviços de recepção e encaminhamento
até os núcleos coloniais - e de decepção no
enfrentamento da realidade. De fato, tais
condições da emigração mostram fatos co­
muns a outras situações coloniais no sul do
Brasil. As práticas de colonização, e suas con­
seqüências sociais e econômicas, foram obje­
to das sínteses realizadas por W aibel (1958) -
que estabeleceu os princípios da colonização
européia no sul, dando atenção à “paisagem
cultural” criada pelos colonos e aos sistemas
de exploração agrícola - e por Roche (1969) -
que tratou da colonização alemã no Rio
Grande do Sul e suas características sociocul-
turais, chamando a atenção para as formas de
exploração agrícola e sua evolução, para a
mobilidade espacial dos colonos, que deno­
voamento subordinados aos comerciantes,
quase sempre também imigrantes, que mo­
nopolizaram a compra e a venda da produção
colonial. Hoje, são categorias analíticas sub­
sumidas na abrangência semântica da noção
de “agricultura familiar”.
Azevedo realizou um a análise antropoló­
gica do “regime de colonização” (distribuição
espacial dos colonos, formas de cultivo, orga­
nização do trabalho familiar, surgimento de
associações recreativas e beneficentes, indica­
dores do sucesso do colono italiano, detalhes
sobre a transmissão do patrimônio e da vida
religiosa etc.), chamando a atenção para al­
guns aspectos da organização social, específi­
cos da imigração italiana. Considero sua
principal contribuição a relevância atribuída
à capela como unidade básica de organização
da sociedade rural formada em cada traves­
são ou linha colonial, desde os tempos pio­
neiros da colonização. E mostra seu papel na
conformação das relações de vizinhança, so­
ciabilidade, solidariedade e aglutinação da
vida social, demarcadoras de uma “consciên­
cia de com unidade” (Azevedo,
1982, p.
196). Albersheim (1962) também referiu-se
à essa forma de organização entre os alemães
m inou “enxamagem”, e para o desenvolvi­
do Alto Vale do Itajaí: ali não existe a socie­
dade da capela estudada por Thales de Aze­
mento da indústria em diversos centros urba­
nos surgidos nas zonas coloniais a partir da
acumulação de capitais por comerciantes de
produtos coloniais e do artesanato. A forma­
ção de um tipo de campesinato no contexto
de povoamento próprio das regiões coloniais,
vedo, mas surgiu o mesmo sentido com uni­
tário entre habitantes de uma mesma linha
colonial, com seus princípios de solidarieda­
de e sociabilidade que podem ou não se rela­
cionar a um espaço religioso (capela).28
Na parte final do livro, Azevedo aborda
e sua mudança social em face da industriali­
a aculturação dos italianos e, principalm en­
zação, foi objeto de um trabalho realizado por
te, suas dificuldades diante da ita lian itá.
m im no Vale do Itajaí (Seyferth, 1974). Afi­
Não há um delineam ento teórico
da acultu­
nal, é de camponeses que os autores acima ci­
tados, inclusive Azevedo, estão falando: colô­
nia e colono são termos que identificam um
pequeno produtor camponês que possui os
meios de produção (inclusive a posse ou a
propriedade da terra), desde o início do po­
ração, talvez porque o objeto de estudo é a
colonização, o universo rural produzido pela
imigração italiana na região serrana do Rio
Grande do Sul. D aí a aproximação com os
trabalhos de W illem s e Roche, ambos estu­
diosos da
colonização
alem ã e, como Azeve­
21
do, aludiram à formação de culturas ou sub- culturas de raiz camponesa, diferenciadas no contexto
do, aludiram à formação de culturas ou sub-
culturas de raiz camponesa, diferenciadas no
contexto brasileiro. Trata-se de m ostrar
como os im igrantes conservaram seus costu­
mes e tradições e como estas foram m odifi­
cadas na adaptação ao novo am biente e no
contato com a sociedade nacional. Na sope-
sagem desses elem entos, aparentem ente
contraditórios, evidenciam-se, antes, a
im ­
portância da consciência de grupo e os sig­
nificados, inclusive identitários, das diferen­
ças culturais. Ao referir-se aos “dilem as da
aculturação”, Azevedo (1982, cap. V) procu­
rou mostrar o “caráter de defesa da herança
cultural” da
ita lia n itá , com patibilizada com
a lealdade à pátria adotiva, e o papel das li­
deranças comunitárias, inclusive dos padres
católicos, e das associações culturais e recrea­
tivas, na sua configuração e preservação.
Pode-se dizer que não deu m uita im portân­
cia aos “problemas” de assimilação (embora
relevasse essa perspectiva) e demonstrou que
A longo prazo e como expressão de uma
consciência coletiva inclinada a consolidar
um modo global de vida, a luta pela identida­
de étnica própria em face da sociedade nacio­
nal vem a ter uma função determinante na
preservação de todo o complexo “colonial”
numa continuidade estrutural que perdura
por um
século [
]
(Idem , pp.
244-245).
Aí está a contribuição mais efetiva do au­
tor: a partir de observações precisas sobre o
mundo rural do colono italiano no Rio Gran­
de do Sul —que remetem a uma identidade
cultural própria no confronto com os brasi­
leiros —, assinala a persistência do sistema co­
lonial em suas m últiplas distintividades desde
sua implantação, no último quartel do século
XIX, até o momento da escrita da monogra­
fia, ajustado às mudanças “geradas na sua
própria constituição intrínseca com a urbani­
sim, apesar de mencionar a identidade étnica,
não utiliza esse conceito; e, na demonstração
conclusiva, afirma que as características da or­
ganização social e das instituições, bem como
as expectativas éticas da cultura de origem,
próprias da colônia italiana, impedem sua de­
sintegração e absorção no processo de acultu­
ração e assimilação.
A inserção de imigrantes italianos no
meio rural brasileiro é objeto de outro traba­
lho antropológico im portante, publicado
por João Batista Borges Pereira (1974). Tem
proximidade metodológica e teórica com a
monografia de Thales de Azevedo: ambos
trabalharam com a teoria da aculturação,
analisando os processos de m udança socio­
cultural produzidos pelo contato interétnico,
dando continuidade à tradição iniciada por
W illem s em 1940; por outro lado, não des­
cuidaram da dimensão social decorrente da
situação colonial, pois os imigrantes italianos
estão englobados na categoria colono, tema
que, sob muitos aspectos, remete à uma con­
dição camponesa.29 O estudo de Borges Pe­
reira tem um interesse adicional porque
aborda a imigração italiana do pós-guerra
(colonos que chegaram ao Brasil na década
de 1960), quando a maioria das pesquisas de
historiadores e cientistas sociais estavam vol­
tadas para o período da grande imigração.
Não concentrou-se, simplesmente, na carac­
terização sociocultural do grupo estudado;
por meio de entrevistas, histórias de vida, ob­
servação participante, e do trabalho realizado
junto aos estudantes (solicitação de composi­
ções sobre o próprio grupo, os brasileiros, a
Itália e o Brasil) analisou as persistências, as
mudanças da cultura e a visão de mundo
desses
imigrantes num a situação
de contato
com a sociedade/cultura brasileira, sem com­
promisso com a noção de grupo étnico -
zação e a industrialização” {Idem, p. 273). As­
conceito nem sempre útil para a compreen­
são de contextos imigratórios e, no seu for­
mato tradicional, criticado na antropologia
desde a década de I960 (cf. Barth, 1969).
22
Os livros de Azevedo, Borges Pereira, Viei­ ra e Rarrner e a coletânea sobre a
Os livros de Azevedo, Borges Pereira, Viei­
ra e Rarrner e a coletânea sobre a imigração ja­
ponesa organizada por Saito e M ayema aqui
destacados mostram que, na década de 1970,
ainda predominavam os conceitos de acultu­
ração e absorção (uma variante para assimila­
ção) nos debates sobre a imigração no âm bi­
to das ciências sociais. M as é falacioso
considerar esta abordagem teórica imprópria
em face dos criticismos advindos dos concei­
tos de identidade e etnicidade que reconfigu­
raram
ou multiétnicos. Aculturação e etnicidade
não são fenômenos m utuam ente excluden-
tes, e o próprio W illem s, mais de cinqüenta
anos atrás, percebeu a relevância da distinti-
vidade cultural teuto-brasileira e sua signifi­
cação identitária, que subordinou ao concei­
to de cultura híbrida. Torna-se necessário
lem brar que esses pesquisadores estavam
mais interessados nos processos de mudança
social e cultural que conduzem à integração
do im igrante no país de acolhida, e menos
preocupados com a pluralidade cultural e ét­
nica do Estado-nação im igrantista e assimila-
cionista. Não ignoram a diferença cultural
(contemplada na teoria da aculturação, que
fala em m udança nas configurações culturais
dos grupos em contato) e, de certa forma,
demonstraram que o seguimento da acultu­
ração (ou absorção) é concomitante, e às ve­
zes até concorrente, ao processo de constru­
ção de identidades culturais separadas.30
Dois aspectos im portantes para a com­
preensão mais abrangente da imigração são
tratados superficialm ente na m aioria dos
trabalhos mencionados: a emigração e a per­
sistência dos laços com o país de origem. O
interesse m aior pela inserção dos estrangei­
ros na sociedade brasileira restringe o fenô­
meno da emigração a um conjunto de moti­
vações (quase sempre econômicas) para
migrar. A ligação com o Estado de origem e
a reemigração são, talvez, fatos irrelevantes
as análises de contextos m ulticulturais
para os estudos que focalizam as correntes
im igratórias anteriores à Segunda Guerra
M undial, embora a presença de agências e
representantes dos países de emigração seja
um a constante no Brasil desde o século XIX.
Nesse sentido, o livro de Constantino
Ianni, publicado em 1963, é uma exceção.
Aborda, numa perspectiva crítica, os interesses
envolvidos na emigração de cidadãos italianos
para as Américas (e, mais especificamente,
para o Brasil), estando, pois, na contramão da
corrente principal que se interessa pela imigra­
ção. Trata da política emigratória do Estado
italiano, renunciando a um a perspectiva aca­
dêmica31 para, num a atitude engajada, escre­
ver um livro-denúncia, fundamentado em
pesquisas documentais, estatísticas e junto a
emigrantes, repatriados, agentes do estado
etc., realizadas na década de 1950. Ianni par­
te de uma pergunta aparentemente óbvia:
por que os italianos continuam emigrando
mesmo passada a “emigração da fome” (Ian­
ni, 1972, p. 13). A resposta vai ser procura­
da na política emigratória italiana e nos inte­
resses das elites políticas e econômicas. Fora
do contexto usual da pobreza, do desempre­
go, da concentração fundiária e outros fato­
res que motivam a emigração, Ianni refere-se
a uma política do Estado voltado para a ex-
patriação de cidadãos, reveladora da m ultidi-
recionalidade do fenômeno migratório que
movim enta a economia italiana.
A análise de Ianni suscita muitas ques­
tões, mas quero destacar, especialmente, qua­
tro pontos. Em primeiro lugar, vai além dos
determinantes da ordem econômica para res­
saltar o fato de a emigração ser um instrumen­
to político na vida interna e nas relações inter­
nacionais da Itália. Mostra que certas políticas
do Estado também produzem emigrantes, ha­
vendo interesse em mantê-los ligados ao país
natal - como se formassem “colônias” no es­
trangeiro incluindo até mesmo os descenden­
tes de imigrantes. Isso conduz ao segundo
23
ponto: a quem interessa a emigração? Aí en­ tram em cena as elites políticas e
ponto: a quem interessa a emigração? Aí en­
tram em cena as elites políticas e econômicas,
o próprio Estado, a igreja, o sistema financei­
ro, a parentela dos emigrados. Segundo Ianni,
os principais beneficiados são as empresas de
navegação (cuja propaganda chega ate ao
meio rural mais remoto), os intermediários
que atuam nos municípios recrutando emi­
grantes, os favorecidos pelas remessas de di­
nheiro (especialmente parentes dos expatria­
dos e entidades as mais diversas, sobretudo
religiosas), os bancos, muitos vezes com inte­
resses entrelaçados aos das empresas de nave­
gação, que lucram com as remessas em di­
nheiro, e o próprio Estado, beneficiário da
entrada de capitais que financiam o tesouro,
as obras públicas e a própria expansão indus­
trial, considerando, ainda, que as remessas ali­
mentam o comércio interno e o intercâmbio
com o exterior, e o próprio fundo de poupan­
ça nacional. Essas considerações são reforçadas
pelos indicadores estatísticos: entre 1869 e
1962 cerca de 24 milhões de italianos emigra­
ram, mas nem todos ficaram no estrangeiro
de pessoas desencadeado pela emigração
mexe com toda a sociedade de origem, quan­
do é mais comum pensar nas mudanças que
a imigração acarreta nas sociedades de acolhi­
da. Por isso, apesar da sua obviedade, não
custa lembrar dessa dupla dimensão do fenô­
meno da imigração que, conforme assinalou
Sayad (1998, p. 16), é um “fato social total”.
N um a justaposição
nação, im igração, Sayad
dos termos Estado,
(Idem , p. 265) mos­
tra que a “ordem da m igração”, com seu du­
plo componente, a emigração e a imigração,
está ligada a “duas ordens nacionais” relacio­
nadas entre si. A parte a questão fundam en­
tal posta pela dupla
condição do im igrante
(.Idem , p. 93) .32
A terceira questão está contida no títu­
lo do livro —Homens sem p az —, que remete
ao peso emocional de ser em igrante ou à
“consciência da paz perdida” em face dos
duplos pertencimentos, sendo mencionados
os distúrbios emocionais, os conflitos cultu­
rais, a desintegração da fam ília (quando ape­
nas os homens em igram ), os suicídios, a in­
digência (ou rebaixam ento da condição
social); ou, então, os problemas do repatria­
mento quando a emigração produz poucos
ricos e m uitos malogrados que retornam
com auxílio consular. De fato, o retorno ra­
ras vezes foi objeto de reflexão por parte dos
estudiosos da imigração, apesar dos signifi­
cativos índices de repatriados e reemigrados
em todas as épocas.
Finalmente, a forma de apresentação dos
dados permite perceber como o movimento
(e sua relação com a nação de origem e com
aquela onde se fixou) e suas implicações, a
observação de Sayad, apesar de axiomática,
evidencia não só os paradoxos dessa identi­
dade, mas também permite refletir acerca
dos m últiplos interesses envolvendo as polí­
ticas m igratórias nos dois extremos do con­
tínuo. Sob esse aspecto, destaca-se a pesqui­
sa, mais recente, de C élia Sakurai, que
abordou a imigração japonesa no Brasil por
meio da noção de “imigração tutelada”.
Destacou a forma de aceitação dos japoneses
no Brasil, que se concretizou no período an­
terior à Segunda Guerra M undial, via sua
inserção na agricultura, que perm itiu uma
identificação positiva do im igrante, apesar
das diferenças culturais e das restrições de
natureza racial expressadas por um a parte da
elite nacional, caracterizada na contribuição
ao desenvolvimento da policultura (portan­
to, o “sucesso” ajudou a construir um a im a­
gem mais aceitável, superando em parte, os
distanciam entos). Considerou
essa im igra­
ção “tutelada” porque desde o início, em
1908, esteve am parada pela orientação, aju­
da e gerência de representantes do governo
japonês, e se estruturou “sobre um a cadeia
de relações m ontada a partir do topo da es­
trutura estatal japonesa até chegar aos im i­
grantes no Brasil” (Sakurai, 1999, p. 202).
24
Considero essa abordagem tem ática im ­ portante porque aprofunda o estudo de cer­ tas
Considero essa abordagem tem ática im ­
portante porque aprofunda o estudo de cer­
tas particularidades de um processo im igra­
tório que esteve no centro do debate
nacionalista da prim eira metade do século
XX, percebido quase sempre de modo nega­
tivo, dadas as concepções raciais e eugenistas
envolvidas no ideário da formação do povo
brasileiro. De certa forma, os trabalhos de
Sakurai (1999, 2000) revelam como os dita­
mes práticos e pragmáticos das políticas im i­
gratórias passam por cim a das ideologias na­
cionalistas e mesmo dos ideais racistas. A
despeito da restrição inicial- à imigração asiá­
tica consignada pelo decreto 528, de 1890, e
devido à explícita preferência pelos im igran­
tes europeus, o governo brasileiro revogou
esse dispositivo em 1907, no momento ini­
cial de retração dos fluxos europeus, em vir­
tude dos interesses dos cafeicultores paulistas
e dos programas de colonização e, igualm en­
te, para estabelecer relações comerciais mais
duradouras com o extremo oriente. E nesse
contexto de interesses que a autora apresenta
dados que configuram um a imigração dirigi­
da, subsidiada e estim ulada nos dois pólos do
contínuo migratório — Brasil e Japão. Do
lado brasileiro, a perspectiva de moderniza­
ção é a principal motivação; no Japão, o cres­
cimento demográfico pressionou a emigra­
ção, estimulada por empresas privadas e
estatais, que produziram assentamentos de
famílias japonesas no Brasil.
Ianni e Sakurai dimensionaram de modo
mais sistemático o Estado emigrantista e sua
atuação no curso dos processos migratórios,
um tema que está mais em evidência no atual
mundo globalizado, onde emergem Estados-
nação transnacionais, mantenedores de polí­
ticas identitárias que ultrapassam as fronteiras
internacionais.33 Essa não é um a característica
exclusiva da pós-modernidade, pois políticas
de construção de identidades e de m anuten­
ção de certos laços prim ordiais existiram
também em contextos imigratórios anterio­
res à Segunda Guerra M undial, sempre asso­
ciados aos interesses dos Estados emigrantis-
tas ou de instituições e empresas particulares,
conforme assinalaram Azevedo (1982) e Sa­
kurai (2000).34
A ampla visibilidade do fenômeno m i­
gratório em âm bito global e os índices signi­
ficativos da emigração de brasileiros desde a
década de 1980 aum entaram o interesse aca­
dêmico pela im igração no Brasil. Imigração
e im igrantes, do século XIX até o presente,
são objetos de pesquisa de historiadores, an­
tropólogos, sociólogos, demógrafos, geógra­
fos — cada disciplina com suas prioridades
temáticas. No campo das ciências sociais,
em particular da antropologia, a pluralidade
étnica e a conseqüente formação de identi­
dades culturalm ente demarcadas são temas
recorrentes que praticamente substituíram o
modelo analítico baseado nos conceitos de
aculturação e assimilação.
No seu artigo sobre os problemas de for­
mação de novos Estados pós-coloniais, Geertz
(1963) chamou a atenção para as dificuldades
de ajustar sentimentos primordiais próprios
das situações de pluralidade étnica e cultural a
sentimentos civis e nacionais. Não utiliza o ter­
mo “grupo étnico”, mas está implícita na sua
argumentação a noção de povos diferenciados,
com identidades fundadas em pertencimentos
primordiais, derivados de princípios como pa­
rentesco, raça, cultura, religião etc. —algo pró­
ximo da concepção de etnia - , dificultando a
emergência da percepção (política) de cidada­
nia. Na mesma época, Glazer e Moynihan
(1963) abordaram as relações interétnicas em
Nova York procurando mostrar que, mesmo
passados quase quarenta anos desde a imigra­
ção em massa de europeus, o padrão étnico
produzido por ela persiste, e atribuem essa per­
sistência a uma tendência central no ethos nor-
te-americano, que estrutura os imigrantes e
25
seus descendentes, assim como porto-rique­ nhos e negros (os dois outros grupos estuda­ dos) em
seus descendentes, assim como porto-rique­
nhos e negros (os dois outros grupos estuda­
dos) em grupos de diferentes status e caracterís­
ticas. Não descartam a assimilação e reafirmam
o poder assimilacionista da sociedade e cultura
norte-americanas, mas consideram m eltingpot
apenas uma idéia antiga que não se realizou na
prática.35 Para eles, os grupos étnicos são for­
mas de vida social em permanente renovação e
transformação e são também motivados por
interesses comuns, e a palavra etnicidade (um
neologismo recém-dicionarizado) aparece para
designar o caráter ou a qualidade do grupo ét­
nico. O conceito foi aplicado a grupos de im i­
grantes e descendentes, e as virtudes teóricas da
etnicidade seriam reafirmadas por ambos, so­
bretudo na sua dimensão política no contexto
do Estado de bem-estar social, tendo em vista
sua relevância como categoria social e sua visi­
bilidade mundial (Glazer e M oynihan, 1975).
Diante das virtualidades da noção de grupo ét­
nico na antropologia, Barth (1969) problema-
tizou-a, introduzindo a questão da identidade
(étnica) apropriada como aspecto da organiza­
ção social. Nesse caso, o ponto fundamental na
análise proposta diz respeito à fronteira étnica
culturalmente demarcada e socialmente cons­
truída na interação com os outros. Para ele, a
identidade não é imutável, mas socialmente
definida na ação recíproca que marca as rela­
ções interétnicas.
Os debates posteriores ora reificam, ora
criticam esses posicionamentos mas, de um
modo geral, a persistência e a relevância dos
fenômenos abarcados pelas noções de etnici­
dade e grupo étnico, sua am plitude em píri­
ca na forma de diferenças culturais e sua
ubiqüidade, deixaram em segundo plano as
problemáticas de integração e absorção con­
tidas no modelo analítico de assimilação e
aculturação. Essas novas reflexões teóricas
repercutiram no Brasil e foram discutidas,
inicialm ente, por Cardoso de O liveira
(1976) e, de modo mais incipiente, estão
presentes em alguns trabalhos sobre a im i­
gração, como os de V ieira (1973), Azevedo
(1982) e Rartner (1977).
A pesquisa sobre a imigração alemã que
realizei
no
Vale
do Itajaí (SC ), e que resultou
na tese de doutorado defendida em 1976 na
Universidade de São Paulo (depois publica­
da em 1981), seguiu essa orientação teórica
para tratar da formação da identidade teuto-
brasileira num contexto de colonização que
o nacionalismo brasileiro, especialmente du­
rante a cam panha de nacionalização do Es­
tado Novo, considerou problemático por
causa das diferenças culturais e do uso coti­
diano de um a língua estrangeira. O trabalho
focaliza o desenvolvimento da noção de co­
m unidade étnica ( Volksgemeinschaft) e de
identidade teuto-brasileira e sua transforma­
ção ao longo do tempo, a influência do na­
cionalismo alemão na sua configuração, os
conflitos produzidos no confronto com o na­
cionalismo brasileiro e no contato com a po­
pulação nacional, especialmente durante o
Estado Novo, quando houve intervenção
m ilitar que atingiu as instituições com unitá­
rias e restringiu as liberdades individuais. A
pesquisa baseou-se em entrevistas, na histo­
riografia local, nos materiais de arquivo, re­
lativos às instituições com unitárias e associa­
ções, e na imprensa e literatura em língua
alemã, principais veículos de divulgação da
ideologia germanista. Tratando de concep­
ções conflitantes de identidade étnica e na­
cional, a análise das categorias de identifica­
ção e os períodos de m aior conflito tiveram
espaço privilegiado num texto que procurou
mostrar por que e como os critérios de per-
tencim ento à “com unidade étnica” (no
sen­
tido dado por Weber, 1991) persistiram
mesmo depois de décadas sem entradas sig­
nificativas de novos im igrantes e no curso
do processo de aculturação assinalado por
W illem s (1946).36
26
A dissertação de mestrado de M aria H e­ lena Beozzo de Lima, defendida no
A dissertação de mestrado de M aria H e­
lena Beozzo de Lima, defendida no PPGAS
do Museu N acional em 1973 (não publica­
da), foi um dos primeiros trabalhos a dedi­
car maior atenção à formação da identidade
étnica em contexto migratório. Trata-se de
um estudo de base etnográfica realizado na
Casa do M inho, Rio de Janeiro - “casa re­
problema da transnacionalidade que modifi­
ca a identidade nacional —são temas estuda­
dos por Bela Feldman-Bianco (2001, 2002),
que também orientou duas dissertações de
mestrado sobre a imigração portuguesa no
Brasil voltadas para a questão da identidade.
gional portuguesa” que concentra
im igran­
tes naturais do norte de Portugal (oriundos
do meio rural) e seus descendentes. Lima
analisa a inserção deles na sociedade brasilei­
ra, as representações sobre a ascensão social, a
elaboração da identidade de “português do
Brasil” e suas manifestações num contexto as­
sociativo onde é celebrada a diferença cultu­
ral. Nesse sentido, aponta para o caráter sim ­
bólico da idéia de “com unidade de origem”
atribuída à casa regional, e sua im portância
identitária que passa pela afirmação da supe­
rioridade de padrões e valores lusitanos em
relação aos da sociedade brasileira —daí a ex­
pressão “missão herdada” (num certo senti­
do, percebida como a continuidade civiliza-
tória do passado colonial), que compõe o
título da dissertação. Na conclusão mencio­
na uma questão não discutida no texto: a
possível ligação entre a ideologia étnica dos
“portugueses” da Casa do M inho e os inte­
resses (no plano das relações internacionais)
de Portugal.
Aí está um indicativo importante do pa­
pel do Estado-nação português na configura­
ção identitária dos imigrantes, um processo
que se tornou mais evidente com o fim do re­
Douglas M ansur da Silva (2000) tratou da
configuração político-identitária de um gru­
po de exilados anti-salazaristas estabelecidos
na cidade de São Paulo e ligados ao jornal
Portugal Democrático, no período entre 1956
e 1975; Eduardo Caetano da Silva (2003)
analisou a dinâmica da identidade e a etnici-
dade traduzida pela expressão portugalidade,
no contexto associativo de portugueses e des­
cendentes em São Paulo. As implicações polí­
ticas e o jogo de poder envolvendo reconfigu­
rações da identidade (cultural) são a principal
contribuição desses trabalhos sobre a im igra­
ção portuguesa.
A relevância tem ática da etnicidade e
seus aportes identitários vinculados à dife­
renciação cultural podem ser observados em
diversos trabalhos publicados nos últim os
vinte anos. Algum as pesquisas foram realiza­
das junto a grupos que receberam pouca
atenção, talvez por causa da sua pequena vi­
sibilidade nas estatísticas im igratórias. E o
caso da im igração judaica dirigida para áreas
de colonização no sul do país, um tipo de lo­
calização aceito por ser uma imposição da
política im igratória do Estado brasileiro,
vinculada a projetos coloniais, mesmo dian­
te de refugiados de origem urbana.37A expe­
gime salazarista e a independência das colô­
nias africanas em meados da década de 1970.
A redefinição do papel do Estado-nação pós-
colonial e a emergência de políticas de identi­
dade para incluir os portugueses da diáspora,
assim como as reconfigurações das semelhan­
ças e das diferenças entre Portugal e Brasil, na
conjuntura da globalização (com implicações
nas representações identitárias) - enfim, o
riência de inserção rural de um grupo de re­
fugiados judeus oriundos da Alem anha
nazista foi estudada por Ethel W. Kosminsky
(1985), a partir de um a pesquisa realizada
em Rolândia, no norte do Paraná. Seus resul­
tados mostram, sem paradoxos aparentes
pois trata-se de pessoas que estavam integra­
das na comunidade nacional alemã antes do
nazismo convertê-las em indesejáveis, uma
configuração identitária vinculada à cultura
27
alemã. M ais do que isso, à alta cultura, Kul- tur, com o enunciado da
alemã. M ais do que isso, à alta cultura, Kul-
tur, com o enunciado da educação literária e
artística, e que se agrega aos princípios mais
gerais da identidade judaica.
Outro bom exemplo dessa forma de
análise tem ática é o trabalho
de Alcides Fer­
nando Gussi (1997) sobre a construção e a
reconstrução
de um a identidade “am erica­
na” por parte dos descendentes de famílias
confederadas que vieram para o interior de
São Paulo (Santa Bárbara
do Oeste e Am eri­
cana) no século XIX. O autor realizou um
bom trabalho etnográfico (inclusive dos
eventos realizados num cemitério onde estão
sepultados os antepassados), reconstruiu al­
gumas trajetórias familiares e sua associação
com a etnicidade e analisou um conjunto de
dados relativos à fam ília, participação políti­
ca, vida econômica, ascensão social etc.,
numa interface entre história e antropologia
também presente em outros estudos que tra­
tam da questão da identidade na longa du­
ração, especialmente no caso dos fluxos im i­
gratórios que remontam ao século XIX.
Antes da versão publicada, os dois traba­
lhos citados foram apresentados como disser­
tações de mestrado; fazem parte de um gran­
de número de teses e dissertações defendidas
nos dois últimos decênios, cujo objeto é a
imigração no Brasil. As limitações de um ar­
tigo impedem um a avaliação precisa dessa
produção acadêmica, em grande parte ainda
inédita. Entre os trabalhos publicados, que
abordaram, no todo ou em parte, a temática
das relações interétnicas e da formação da
identidade podem ser citados os de Arlene
Renk (1997), Marcelo A. Ennes (2001) e
Regina W eber (2002). Renk faz um a análise
antropológica do confronto interétnico entre
ervateiros caboclos e colonos italianos oriun­
dos do Rio Grande do Sul e assentados no
oeste de Santa Catarina, a partir da década
de 1920, por empresas de colonização. No
processo de ocupação do território, os erva­
teiros foram expropriados, ficando à margem
das colônias e dedicados à atividade extrativa
controlada por empresários de “origem” ita­
liana. Na interface história-antropologia, Re­
gina Weber estudou os trabalhadores fabris
de Ijuí, uma “colônia mista” de imigrantes
europeus situada no Rio Grande do Sul, no
período inicial da industrialização (décadas
de 1930/1940). Analisa a cultura operária
desses im igrantes e descendentes (entre os
quais predominam os alemães), sua partici­
pação nos sindicatos, na política local, e as
relações interétnicas nas quais as fronteiras
culturalm ente demarcadas e
socialm ente
acionadas separam a população “de origem”
(européia) dos “brasileiros”. Ennes analisou a
presença japonesa num a cidade do interior
paulista a partir das relações sociais entre ja­
poneses e não japoneses com um enfoque
teórico um pouco diverso, pois apresenta a
noção de “identidade inacabada” para repen­
sar a dinâm ica da “construção e desconstru-
ção de identidades étnico-culturais” (Ennes,
2001, p. 16). Influenciado pela sociologia de
Pierre Bourdieu, especialmente a noção de
habitus, faz uma breve história da presença ja­
ponesa em Pereira Barreto para depois abor­
dar as relações sociais, a inserção de nipo-bra-
sileiros na estrutura social e o processo de
trocas simbólicas e práticas usadas na cons­
trução da identidade. O trabalho está basea­
do em algumas fontes documentais e, princi­
palmente, em relatos orais de pessoas cujas
trajetórias instruem a análise.
Esses autores podem, eventualmente,
buscar fundamentos teóricos diversos, mas
têm procedimentos metodológicos comuns,
além do fato de abordar, no todo ou em par­
te, a problemática interétnica. Pesquisaram
grupos que entraram no Brasil antes da Se­
gunda Guerra M undial, quase sempre de in­
serção rural e associados ao desenvolvimento
urbano posterior à imigração - fenômeno
comum no processo de ocupação territorial
28
no sul do país. Ao recorrer à história do pro­ cesso im igratório, inclusive para
no sul do país. Ao recorrer à história do pro­
cesso im igratório, inclusive para explicitar as
persistências e as mudanças nas formulações
das identidades e a m obilidade social, preci­
saram buscar dados em arquivos e usar técni­
cas próprias da história oral, que apelam ao
conceito de m em ória e são diversas da histó­
ria de vida antropológica e da noção de tra­
os trabalhos de Oswaldo Truzzi (1992, 1997)
e Roberto Griin (1992) dedicados, respecti­
vamente, aos sírios e libaneses e aos armênios
em São Paulo. Além de tratarem das identida­
des e dos contornos culturais dessas “colônias”,
jetória individual. M as têm a
peculiaridade
de não fazer, propriamente, história da im i­
gração, pois o interesse maior é o tempo pre­
sente, a não ser no caso estudado por Weber
(2002). Daí, o principal fundamento meto­
dológico é a entrevista e, por meio dela, a
mem ória e as representações, inclusive sobre
o passado. Um bom exemplo dessa utilização
da entrevista é a tese de M aria Catarina C.
Zanini (2002) —um estudo minucioso sobre
a construção e a reconstrução da identidade
italiana na região de Santa M aria (RS) que se
apóia nas memórias dos descendentes acerca
da “italianidade” e oferece um panorama
dessa etnicidade vista do presente.
Os exemplos dados mostram a predomi­
nância temática dos processos de formação de
identidades étnicas ou culturais e sua relevân­
cia no âmbito das relações sociais num a socie­
dade plural. Não é assunto exclusivo, e sua
assim como das mudanças que se produziram
desde os inícios dos fluxos imigratórios, os au­
tores abordaram a questão crucial da m obili­
dade social e seu papel integrativo interno e
também na sociedade brasileira. Truzzi (1992)
analisou o papel do comércio e da formação
universitária de profissionais liberais no pro­
cesso de ascensão social que facilitou a inte­
gração social de famílias mais abonadas - su­
cesso econômico que, em parte, ajudou a
superar os estereótipos e os preconceitos vin­
culados pelos brasileiros à atribuição genérica
da categoria “turco” aos oriundos do Oriente
Médio. Essa abordagem foi ampliada no ou­
tro trabalho (Truzzi, 1997) que, além de mos­
trar a diferenciação interna da colônia, apre­
senta uma análise da emergência de lideranças
e sua inserção política, um tema pouco usual
importância está relacionada aos particularis-
mos culturais produzidos pela imigração, es­
tranhos à formação de um Estado-nação ao
mesmo tempo imigrantista e assimilacionista.
Além disso, articula-se com a noção de etnia
presente na idéia de colônia, com fronteiras
culturais buscadas nas tradições nacionais de
cada grupo. O termo colônia não exprime
pertencimento étnico apenas entre im igran­
tes de inserção rural localizados em áreas de
colonização, mas também aparece entre im i­
grante e descendentes estabelecidos nas gran­
des cidades, que até agora receberam pouca
atenção —sobretudo os grupos com menor
visibilidade estatística - excetuando a cidade
de São Paulo. Sob esse aspecto, destacam-se
assim como o capítulo dedicado à compara­
ção com a imigração sírio-libanesa nos Esta­
dos Unidos. Grün (1992) deteve-se no que
chamou de “especialização funcional” (ativi­
dades concentradas no segmento de calçados
da economia) e na relação entre atividade eco­
nômica (empresas familiares) e os condicio­
nantes culturais de uma identidade armênia.
Grün retomou o tema da identidade ar­
mênia num texto comparativo que mostra
particularidades da constituição da com uni­
dade judaica no Brasil, evidenciando o papel
dos intelectuais judeus na estruturação de
uma identidade comum, apropriada de for­
ma individual e coletiva. O texto está incluí­
do num a coletânea organizada por Bila Sorj
(1997), dedicada aos temas do judaísm o, da
identidade judaica e da integração dos judeus
na sociedade nacional. Dentro dessa perspec­
tiva temática, a coletânea apresenta textos de
Bernardo Sorj, que procura analisar a dinâ-
29
m ica da integração dos judeus tendo em vis­ ta o impacto lim itado do
m ica da integração dos judeus tendo em vis­
ta o impacto lim itado do anti-semitismo na
sociedade brasileira; de Eva A. Blay, que
aborda trajetórias de migração de famílias de
judeus do norte da África para a Amazônia,
apontando para processos concomitantes de
integração social e preservação das institui­
ções comunitárias (demarcadoras de uma
identidade específica); a questão da identida­
de também está presente no trabalho de Bila
Sorj sobre casamentos mistos e conversão ao
judaísm o moderno no Brasil a partir de um
estudo sobre a Federação Israelita do Rio de
oferece dados gerais sobre os diversos grupos
imigrados, procurando ressaltar a contribui­
ção de cada um deles à cultura e à economia
brasileira. Autores que trataram de grupos es­
pecíficos utilizaram o mesmo formato analí­
tico, caso de Franco Cenni (1975), que estu­
dou a emigração italiana para vários estados
brasileiros, fixando-se mais substantivamente
nas particularidades culturais, sobretudo dos
que se dirigiram para São Paulo, e a contri­
buição italiana para a alta cultura (literatura,
arquitetura, teatro, pintura etc.). Algumas
obras coletivas também possuem esse perfil,
Janeiro, um a
instituição representativa da co­
e reúnem textos apresentados em simpósios
m
unidade judaica. Trabalhos como esses
mostram que a formação e a persistência de
identidades culturalm ente diferenciadas em
sociedades plurais - particularm ente na pós-
modernidade, que transformou o multicul-
turalismo em fenômeno politicam ente corre­
to (apesar dos discursos de exclusão que
marcam a m aioria
dos nacionalismos) - não
são incompatíveis com a integração nas so­
ciedades nacionais.
Estes e os outros trabalhos citados que
deram im portância à questão das identida­
des apontam para a dinâm ica social do fenô­
meno chamado etnicidade, que é contin­
gente, variável ou, conforme observação de
Sm ith (1986, p. 32), contém um paradoxo,
uma vez que é, a um só tempo, mutável
ou seminários por pesquisadores de diferen­
tes disciplinas, alguns de caráter mais socio­
lógico e outros descritivos, ou etnográficos,
abordando um ou mais aspectos da vida co­
tidiana, das diferenças culturais, da coloniza­
ção, da vida religiosa, da história de certas
colônias etc. E o caso de várias publicações
relacionadas às imigrações alemã e italiana,
principalm ente no Rio Grande do Sul, entre
as quais podem ser citadas: os Colóquios de
Estudos Teuto-brasileiros (o primeiro deles
publicado em 1963); a coletânea sobre colo­
nização alem ã organizada por M üller (1980)
com resultados do III Simpósio da Imigração
e Colonização Alemã no Rio Grande do Sul;
a coletânea também organizada por
M üller
(1994), que contém
artigos sobre os
im pac­
e persistente e seus símbolos são construídos e
reconstruídos no curso da história. Por ou­
tro lado, a complexidade das formas de inte­
gração social e a ininterrupta reconstrução
das diferenças culturais deixam em evidên­
tos da cam panha de nacionalização do Esta­
do Novo apresentados no X Simpósio de
História da Imigração e Colonização Ale­
mãs; os três volumes organizados por Luiz A.
De Boni (1987, 1990, 1996) sobre a “pre­
cia as lim itações dos modelos de assimilação
sença italiana no Brasil” - os dois primeiros
e aculturação, fato que não dim inui a rele­
contendo artigos
apresentados
vância dos estudos sobre a imigração realiza­
pósios realizados em São Paulo
em dois sim ­
e V itória com
dos com essa orientação teórica.
patrocínio da Fondazione Giovanni Agnelli;
As múltiplas questões suscitadas pelo fe­
nômeno im igratório trazem dificuldades
e os A nais do I e II Fórum de Estudos Italo-
brasileiros publicados em 1979, com o título
para as análises
de m aior abrangência, como
Im igração ita lian a: estudos.™ A am plitude te­
a
realizada por Diégues Junior (1964), que
m
ática da imigração e da colonização inclui,
30
tam bém, estudos monográficos, voltados para um único núcleo, combinando dados históricos (quase sempre obtidos
tam bém, estudos monográficos, voltados
para um único núcleo, combinando dados
históricos (quase sempre obtidos em arqui­
Brasil. Além da riqueza descritiva, também
presente em artigos que compõem as coletâ­
neas citadas e outras relativas a datas come­
vos locais) e resultados de trabalho de campo
baseados em entrevistas com descendentes,
referidos a imigrantes que chegaram antes da
Segunda Guerra M undial. Tratam, principal­
mente, da formação da com unidade, até o
presente, embora não sejam, necessariamen­
te, “estudos de com unidade” no sentido que
esse termo tem na antropologia.39 O livro de
Chiyoko M ita (1999) é um exemplo dessa
orientação metodológica: estuda o estabele­
morativas, destacam-se trabalhos de estilo et­
nográfico, extremamente minuciosos, que
contém dados sobre a vida cotidiana, hábitos
e costumes associados à colonização - no pas­
sado e no presente - , resultados de meticulo­
sas pesquisas realizadas em diversas regiões
coloniais. São textos despreocupados com re­
ferências teóricas que, além do valor etnográ­
fico e do conhecimento empírico que propor­
cionam, são importantes fontes secundárias,
cimento de um a colônia
(agrícola) de im i­
úteis
para outros pesquisadores. Seria por de­
grantes japoneses em Bastos (SP) pela Bratac,
mais
exaustivo dar conta de toda essa produ­
um a empresa colonizadora japonesa, dando
ção,
mas devo destacar, especialmente, os nu­
atenção maior ao modelo de colonização ali
im plantado, à
organização econômica e so­
cial e à crise produzida durante a guerra (e à
reorganização da colônia após 1945). O utra
vertente de análise privilegia a abordagem da
colonização a partir das teorias do campesi­
nato. E o caso da m inha pesquisa sobre a co­
lonização alem ã no rio Itajaí-m irim (Sey-
ferth, 1974), e do trabalho realizado por
Arlene Renk (1997), que focaliza um meio
rural na região oeste de Santa Catarina, onde
os principais atores sociais são colonos de
origem italiana e caboclos. Os mesmos atores
são objeto da pesquisa de Neusa M .S. Bloe-
mer (2000), desenvolvida nos campos de La­
ges (SC), num a área em que parte da popu­
lação camponesa (composta principalm ente
de italianos e caboclos) está ameaçada de
deslocamento em virtude da implantação de
projetos hidrelétricos. Dada a relevância da si­
tuação interétnica produzida pela colonização,
Renk e Bloemer também analisam a questão
das identidades, na sua dupla dimensão cam­
ponesa e étnica.
Ainda dentro de uma perspectiva meto­
dológica vinculada à antropologia inscrevem-
se numerosos trabalhos sobre a diferenciação
cultural produzida pela imigração no sul do
merosos resultados das etnografias de Rovílio
Costa e Arlindo I. Battistel sobre a imigração
italiana no Rio Grande do Sul, e de Teimo
Lauro M uller sobre as “colônias alemãs”.40
Até aqui, observou-se a infinidade te­
m
ática da produção sociológica e antropoló­
gica
relacionada à imigração no Brasil, espe­
cialm
ente aquela que rem onta ao século
XIX
e prim eira metade do século XX. C on­
tudo, alguns assuntos ainda não foram sufi­
cientem ente estudados por antropólogos e
sociólogos: a imigração pós-Segunda Guerra
M
undial, particularm ente, a imigração lati­
no-americana, mais recente - que também é
imigração urbana; a imigração espanhola e
portuguesa (cuja im portância
numérica é
considerável) e os fluxos de pequena rele­
vância estatística; a imigração que ocorreu,
historicam ente, fora das regiões sul e sudes­
te; as políticas im igratórias, em geral m en­
cionadas pontualm ente em alguns traba­
lhos. Entre os estudos já publicados sobre os
fluxos mais recentes, além do já citado texto
de Borges Pereira (1974), voltado para um
grupo italiano localizado no interior de São
Paulo, destaca-se a dissertação de mestrado
de Sidney Antônio da Silva, que estuda um
grupo de imigrantes bolivianos que traba-
31
lham no ramo da costura na cidade de São Paulo, publicada em 1997. N um
lham no ramo da costura na cidade de São
Paulo, publicada em 1997. N um trabalho
etnograficamente bem construído, analisa
trajetórias, estratégias de sobrevivência, os
problemas decorrentes da clandestinidade
(externalizados na categoria “indocum enta­
do”), os campos cultural e religioso recriados
em São Paulo e sua significação identitária,
se, porém, o trabalho sobre os imigrantes es­
panhóis da Galícia (galegos) estabelecidos na
Bahia (imigração iniciada na década de 1880)
realizado por Jefferson Bacelar (1994) - mos­
trando seu papel no pequeno comércio em
Salvador, a discriminação por serem estran­
geiros e as dificuldades de integração, e a
m anutenção de um a identidade galega ape­
a perm anência e a m udança de valores em
face das expectativas de m obilidade social.
Existem alguns trabalhos sobre grupos
menos significativos em termos estatísticos.
Hack (1959), por exemplo, realizou sua pes­
quisa em seis colônias holandesas localizadas
no sul e em São Paulo, privilegiando diferen­
tes aspectos da sua inserção econômica e so­
cial, as formas de assentamento, sua consti­
tuição como pequenos produtores familiares.
Trata-se de um antropólogo trabalhando na
interface com a geografia, disciplina que tem
um a contribuição importante para os estu­
dos da colonização estrangeira no Brasil.41
sar da assimilação.
Finalmente, um a últim a referência à na­
tureza interdisciplinar da imigração, eviden­
ciada principalm ente em coletâneas que reú­
nem trabalhos de pesquisadores de diferentes
áreas do conhecimento. Duas publicações
recentes sobre políticas im igratórias, que
contêm textos apresentados em seminários,
são exemplares, oferecendo um a perspectiva
histórica e comparativa. A prim eira é resul­
tado do Seminário sobre M igrações Interna­
cionais (contribuição para políticas) convo­
cado pela CN PD (Castro, 2001) e faz um
balanço geral envolvendo experiências inter­
M enonitas, húngaros, ucranianos, suábios
do Danúbio, entre outros grupos menos co­
nhecidos que formaram colônias, principal­
mente no Paraná (a últim a fronteira da colo­
nização do sul), receberam algum a atenção
de historiadores e geógrafos, mas permane­
cem ignorados pelas ciências sociais.
Nesse universo menos evidente da im i­
gração, Thaddeus Blanchette (2001) reali­
zou um a pesquisa sobre norte-americanos e
nacionais, as políticas im igratórias no Brasil
em perspectiva histórica, as questões relati­
vas à exclusão, aos direitos hum anos, ao
mercado de trabalho para estrangeiros, aos
novos im igrantes (como os africanos e os
hispano-am ericanos), aos brasileiros no
ex­
terior etc. A segunda contém textos apresen­
tados no Seminário Internacional “Políticas
M igratórias”, realizado no Idesp (Sales e Sal-
les, 2002), focalizando tendências e políti­
cas, passadas e presentes, da migração inter­
indivíduos de outras nacionalidades de lín­
gua inglesa que vivem e trabalham na cida­
de do Rio de Janeiro, aos quais nem sempre
nacional na Am érica Latina.
Nos dois casos,
a questão das políticas foi discutida por pes­
é atribuída uma identidade de imigrante,
mas que de algum a forma se consideram ex­
patriados - um a discussão que aponta para
novas questões que surgem na esteira da glo­
balização e da m obilidade geográfica.
O norte e o nordeste do Brasil também
receberam im igrantes em diversas épocas; fi­
guram , eventualm ente, em historiografias,
mas a literatura sobre eles é escassa. Destaca-
quisadores da área acadêm ica com represen­
tantes de organizações governamentais e da
sociedade civil.
A imigração na América Latina também
é matéria do volume organizado por Boris
Fausto (1999), que reúne trabalhos de histo­
riadores, sociólogos e antropólogos sobre o
tema da imigração em massa (historicamen­
te localizada entre 1880 e o início da década
de 1930) - apontando para as possibilidades
32
comparativas em âmbito interdisciplinar. Além das historiografias da imigração em di­ ferentes países da América
comparativas em âmbito interdisciplinar.
Além das historiografias da imigração em di­
ferentes países da América Latina, vários tra­
balhos abordam as trajetórias de grupos espe­
cíficos, discernindo a dinâm ica de
construção das identidades culturais e a in­
serção na sociedade nacional. Por outro lado,
no conjunto de trabalhos produzidos pelo
Grupo de Estudos M igratórios do Idesp (que
compõem a série Imigração publicada pela
Editora Sumaré) destacam-se alguns temas
pouco comuns: num volume coletivo (Faus­
to et a l., 1995), Boris Fausto,
O swaldoTruz-
conflitos decorrentes dessa situação. Essa no­
ção de totalidade está presente desde o traba­
lho de Thomas e Znaniecki, segundo o qual
os processos de m udança envolvendo a em i­
gração de poloneses para um a cidade dos Es­
tados Unidos só podem ser entendidos a par­
tir da compreensão da sociedade nacional de
origem e dos problemas resultantes da inte­
gração de camponeses num a outra sociedade
nacional (urbana) - numa abordagem multi-
disciplinar que procurou unificar metodolo­
gias da psicologia social e da sociologia. As
teorias de assimilação e aculturação seguiram
zi, Roberto Griin e C élia Sakurai estudam
diferentes aspectos da participação política
de descendentes de imigrantes de várias et­
nias estabelecidas em São Paulo; Sakurai
caminho semelhante, dando maior atenção
às mudanças sociais e culturais e a seus aspec­
tos integrativos no sentido da absorção dos
(1993) utiliza o romanceiro da imigração ja­
ponesa como fonte documental para o estu­
do de trajetórias, da fam ília, da identidade e
imigrantes na nova sociedade, sobretudo a
partir da segunda geração. Elas tiveram in­
fluência preponderante na maioria dos estu­
outras facetas do
processo im igratório (pro­
cedimento que aparece também na crítica li­
terária, mas com metodologia e teoria dis­
tintas); Salles (1997) traça o perfil e a
inserção de médicos italianos em São Paulo,
objetivando uma análise da experiência so-
cioprofissional desse grupo; e Araújo (2000)
analisa a formação da etnicidade italiana em
São Paulo a partir da vinculação a um a asso­
dos sobre a imigração no Brasil, realizados
por cientistas sociais, até o início da década
de 1970 - particularmente após a publicação
do
primeiro livro de Emílio W illem s. Os tra­
balhos mais recentes que usaram o modelo
de aculturação, publicados na década de
1970, já indicam m udança de orientação ao
ciação esportiva42 (o clube de futebol Pales­
tra Itália).
Estas breves observações sobre uma par­
te da produção acadêmica dedicada à im igra­
ção no Brasil, necessariamente lim itadas,
apontam para as múltiplas possibilidades de
pensar os fenômenos migratórios. As princi­
pais formulações teóricas surgidas na prim ei­
ra metade do século passado procuraram dar
conta da totalidade que abrange a emigração
e a imigração em suas múltiplas dimensões -
coletiva e social, individual e comportamen-
tal - , dando maior ênfase aos processos de
inserção dos estrangeiros (e seus descenden­
tes) na sociedade nacional receptora e aos
abordar questões relativas à diferenciação
cultural e à identidade étnica, aliás, percebi­
das desde que W illem s apelou para a noção
de “cultura híbrida”. De fato, nessas aborda­
gens perde-se um pouco a contradição fun­
dam ental produzida pela imigração em mas­
sa de diferentes nacionalidades no âmbito do
Estado-nação assimilacionista: a pluralidade
cultural opõe-se aos pressupostos de hom o­
geneidade do princípio de nacionalidade,
ainda que este faça algumas concessões às in­
fluências estranhas à formação nacional.
W illem s usou a noção de “cultura híbrida”
para referir-se aos antagonism os étnicos
abarcados pela idéia de
“m arginalidade” - o
hibridismo supõe uma combinação de ele­
33
mentos tomados de duas ou mais culturas, im plícita no próprio conceito de acultura­ ção.
mentos tomados de duas ou mais culturas,
im plícita no próprio conceito de acultura­
ção. Na verdade, o processo imigratório asso­
ciado à ocupação territorial, particularmente
no sul do país, produziu um a pluralidade
cultural vinculada à colonização, da qual
com partilharam diferentes nacionalidades
européias, e a adjetivação utilizada por W il-
lems é um a solução para falar dos elementos
constitutivos da cultura teuto-brasileira.
Enfim, os que trabalharam com esses
conceitos perceberam que eles não davam
conta de aspectos importantes da imigração,
sobretudo os que apontavam para a confor­
mação das diferenças sociais e culturais, refle­
tidas na construção de identidades singulares.
Trata-se, fundamentalmente, do estado pro­
visório que define a imigração e da situação
duradoura, de fato, que o caracteriza, confor­
me observação de Sayad, que conduz à con­
tradição constitutiva da condição do imigran­
te: ser ignorada como provisória e não se
confessar como definitiva (Sayad, 1998, p.
45). Por isso mesmo, a etnicidade tornou-se
objeto tão evidente nas análises mais recentes,
mesmo aquelas que enfocam a imigração em
massa, situada na longa duração. M as não é
um tema exclusivo, pois a construção das
identidades só pode ser compreendida por
seus referentes sociais e culturais e pela alteri-
dade configurada por fronteiras intergrupais.
Há, também, uma continuidade temática em
relação aos primeiros trabalhos e esta diz res­
peito às questões de integração, inserção eco­
nômica e mobilidade social, e da conforma­
ção das especificidades culturais e sociais. Nos
estudos antropológicos sobre etnias ou gru­
pos específicos prevaleceu, igualmente, a aná­
lise etnográfica.
A complementaridade entre emigração
e imigração, por outro lado, chama a aten­
ção para a im portância do ponto de partida
do im igrante - parte da totalidade acim a re­
ferida e quase sempre tangenciado. Isto é
particularm ente im portante porque os laços
com a sociedade de origem permanecem, às
vezes por
m uitas gerações, e existe, igual­
mente, a interferência dos Estados-nação
que produzem emigrantes - situação presen­
te nos contextos da imigração em massa e,
sobretudo, evidenciada hoje pelo transna-
cionalismo e pela intensidade das reconfigu­
rações de identidade na globalização.
Por fim, deve ser lembrado que, além de
um a certa continuidade temática e metodo­
lógica, os objetos privilegiados ainda são a
imigração associada à ocupação territorial
(isto é, à colonização) e os fluxos anteriores
à Segunda Guerra M undial. Já existem estu­
dos sobre a inserção urbana, inclusive de
imigrantes que chegaram nas duas últimas
décadas; mas os deslocamentos internos (in­
clusive no contexto da grande im igração),
que conduziram contingentes significativos
de imigrantes e descendentes assentados em
colônias para centros urbanos, não recebe­
ram maior atenção dos pesquisadores. Tema
interdisciplinar, fenômeno que interfere na
sociedade inteira, a im igração é, por sua na­
tureza, m ultifária, dificultando sua apreen­
são como totalidade pretendida por alguns
postulados teóricos.
Notas
1.
Um a das publicações mais antigas é a M em ória do representante diplom ático do Brasil
em Berlim, o Visconde de Abrantes, datada de 1846 -
um período
de am pla
discussão
sobre subsídios e formas de acesso à terra no regime de colonização estrangeira (Abran-
34
tes, 1941). M erecem destaque, entre outros, a M em ória escrita por A. C.
tes, 1941). M erecem destaque, entre outros, a M em ória escrita por A. C. Tavares Bastos
em 1867 (Bastos, 1976), o livro do político fluminense Augusto de Carvalho (1874), o
relatório apresentado ao M inistério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas pelo C on­
selheiro João Cardoso de Menezes e Souza (1875), o livro de Domingos Jaguaribe (1878)
e, no início do século XX, o trabalho organizado por Joaquim da Silva Rocha, da Dire­
toria do Serviço de Povoamento, para o M inistério da Agricultura,
publicado em 1918.
Indústria e Comércio,
2. Os textos mais polêmicos estão relacionados com a imigração alemã. Ver, por exemplo, Blu­
menau (1850, 1851); Doerfifel (1865); Ferraz (1859); Jannasch (1905), Decker (1926).
3. Nos dois eventos, as partes sobre imigração são de autoria de M attoso M aia (Filadélfia) e
Eduardo da Silva Prado (Paris) [ver Brasil, 1876; Nery, 1889].
4. Ver, por exemplo, Seidler (1951), Tschudi (1866-1869), Canstatt (1877), Ribeyrolles
(s/d), Avé-Lallement (1953), Bertarelli (1914).
5. Sobre a discussão do “abrasileiram ento” no contexto da cam panha de nacionalização, ver
Seyferth (1997, 1999).
6. Freyre discute a imigração, de forma residual, em outros trabalhos, mas é no opúsculo in­
titulado “Um a cultura ameaçada: a luso-brasileira” que ele se posiciona contra as distin­
ções étnicas, sobretudo o “enquistam ento” germânico nas regiões coloniais do Rio Gran­
de do Sul e Santa Catarina (Freyre, 1940).
7. Park chamou de assimilação os “processos pelos quais povos de diversas origens raciais e
diferentes heranças culturais, ocupando um território
com um , adquirem uma solidarie­
dade cultural suficiente para sustentar um a existência nacional” (1937, p. 281). M as ao
considerar a diferenciação racial um obstáculo a esse processo, o conceito de assimilação
ficou restrito aos estudos sobre a integração dos im igrantes europeus à sociedade norte-
americana, e a própria idéia de americanização deu destaque à rapidez com que se adap­
tam ao modo de vida próprio do país de acolhida.
8. A assimilação, segundo Fairchild (1933), supõe um processo de desnacionalização do im i­
grante, que precede a adoção da nacionalidade e dos valores do país de acolhida —o que
explica sua utilização por autores brasileiros que ajudaram a form ular a cam panha de na­
cionalização na década de 1930.
9. O estudo sobre os poloneses não se baseou no conceito de assimilação. A parte as noções
de atitudes e valores oriundas da psicologia social, que marcam essa obra (e tem relação
com o desenvolvimento/transformação da personalidade), ela foi definida como um es­
tudo de m udança social no curso de um processo m igratório, por meio da tem ática da
desorganização e reorganização social (cf. Thom as e Znaniecki, 1974).
10. Segundo W illem s, o conceito de m inoria nacional é incompatível com a idéia de assim i­
lação porque ela “tem a sua vida social e cultural consolidada e definida, seja por um pro­
cesso de estancamento de m arginalidade, seja pela segregação ou insulam ento cultural
completo” (1940, p. 175).
35
11. A definição da “colônia polonesa-americana” aponta para um sistema social caracterizado por instituições
11.
A
definição da “colônia polonesa-americana” aponta para um sistema social caracterizado
por instituições recreativas, escolares e de ajuda m útua, e
por
um a organização econôm i­
ca, religiosa e moral específicas (cf. Thom as e Znaniecki, 1974, pp. 1.510-1.574).
12.
O enunciado da germ anidade contém os pressupostos da prim ordialidade destacados por
W
eber —crença na mesma origem ou raça e sentimentos de vida em comum. Geertz
(1963) também assinalou o papel da cultura na definição dos pertencimentos prim or­
diais, pois laços de sangue, língua, cultura, raça etc. são vistos pelos atores sociais como
naturais, inefáveis, obrigatórios. Geertz procurou mostrar como isso dificultava a forma­
ção de novos Estados nacionais; W illem s afirmou que a am bivalência produzida pelo con­
tato entre grupos culturais distintos dificultava o processo de aculturação.
13.
W
illem s (1946, cap. IV). A expressão usada é “desnivelamento cultural”, em parte asso­
ciado à m obilidade espacial dos colonos e aos padrões da agricultura extensiva praticada
no contexto da colonização estrangeira e sua conseqüente ligação com a “cultura cabo­
cla”. Alguns anos depois, esse pressuposto de retrocesso (econômico/cultural), chamado
“caboclização”, seria referendado pelo geógrafo Leo W aibel (1958) e por autores brasilei­
ros como W ilson M artins (1989).
14.
No capítulo sobre o “grupo alemão”, por exemplo, retrocede ao Pleistoceno para falar dos
homens de H eidelberg e N eanderthal, até chegar às invasões nórdicas (no final da A nti­
güidade) e aos “tipos” modernos que estariam representados na Alem anha - as “raças” al­
pina, dinária, nórdica etc. E um a forma de mostrar a variedade tipológica, sem fazer hie­
rarquizações, no contexto dos “brancos” (nesse caso, não é a cor da pele o indicador
preponderante) (Ramos, 1947, vol. 2, pp. 182-190).
15.
A
análise realizada por Arthur Ramos define-se nos preceitos de um a antropologia geral
que, além da cultura, inclui o estudo lingüístico e morfológico dos diversos grupos hu­
manos e os contatos raciais e culturais e suas conseqüências, entre elas a miscigenação e a
aculturação.
16.
Ver, por exemplo, o já citado livro de O liveira V ianna (1932) e o trabalho de Arthur Hehl
Neiva (1944) apresentado ao Conselho de Imigração e Colonização. Ambos trataram a
imigração como “questão racial”.
17.
O mesmo referencial aparece quando, seguindo os textos de W illem s, Ramos tece obser­
vação sobre a assimilação entre os alemães. “Ideologia política” e “propaganda organiza­
da” (Ramos, 1947, vol. 2, pp. 551, 555), respectivamente para italianos e alemães, são
alusões indiretas à presença facista e nazista no Brasil.
18.
O despreparo para o trabalho agrícola (característica dos imigrantes oriundos de áreas ur­
banas ou que tinham outra profissão), a precariedade dos assentamentos (um problema
existente desde os primórdios da colonização), a má localização (por falta de infra-estrutu­
ra
—estradas, mercados etc.), a insistência em formar colônias mistas (com “nativos”, para
atender a nacionalização) são consideradas causas do fracasso de alguns empreendimentos.
Há uma concordância com Leo W aibel (1958), geógrafo que apresentou a unidade étnica
como condição do sucesso de um a colônia (cf. M artins, 1989, pp. 114-124). M artins re­
36
fere-se também aos “aspectos deploráveis” da influência nativa sobre o estrangeiro, com­ partilhando com W
fere-se também aos “aspectos deploráveis” da influência nativa sobre o estrangeiro, com­
partilhando com W aibel e W illem s a idéia do desnivelamento cultural e “acaboclamento”
de muitos colonos (Idem , p. 191), mas externaliza m uito mais o pressuposto da inferiori­
dade cultural dos caboclos, usando a palavra nativo como sinônimo de brasileiro.
19. Esse posicionamento de Freyre recusa a diferenciação étnica para fixar-se nas possíveis
contribuições culturais da imigração que não põem em risco a brasilidade equilibrada,
nem a hegem onia da
língua nacional (cf. Freyre, 1940, 1941).
20. um a análise crítica em relação aos conceitos de m eltingpot e de assimilação, Glazer e
N
M
oyniham (1963) usaram etnicidade como indicador para im portantes grupos sociais,
num estudo sobre os “grupos étnicos de Nova York”.
21. E, praticam ente, palavra-chave para aculturação, supondo influências culturais mútuas,
mas sempre com predom inância da cultura nacional. Arthur Hehl Neiva e M anuel Die-
gues Junior participaram da Conferência sobre Assimilação Cultural dos Imigrantes, rea­
lizada com patrocínio da Unesco em Havana, Cuba, 1956 (cf. Neiva e Diegues Junior,
1956). Diegues Junior também produziu um relatório sobre esse assunto para a Unesco,
juntam ente
Este
últim o
com Fernando Bastos de Avila, destinado a organizações governamentais.
autor tam bém publicou um livro sobre im igração no Brasil (Ávila, 1956).
22. Essa influência, porém, não é única: os trabalhos clássicos de Thom as e Znaniecki, W irth
e W illem s estão presentes no estudo realizado por Vieira; e a tese de Stonequist sobre m ar­
ginalidade foi utilizada por Rattner.
23. O ensaio em que Cardoso de O liveira apresenta o posicionamento de Barth acerca de
grupo étnico e identidade étnica foi publicado anteriorm ente na Revista A m érica Indíge­
na, XXXI (4), 1971.
24. A ênfase na fam ília, ou nos “grupos prim ários”, está
em conformidade com a m aioria dos
estudos dessa natureza, desde Thomas e Znaniecki. As estatísticas sobre casamentos com
pessoas
que não pertencem à
“com unidade” ou “colônia” (termos com um ente emprega­
dos para configurar as fronteiras da etnia) são consideradas um dos indicadores do pro­
cesso de absorção, embora o estudo de V ieira (1973, cap. VII) aponte para conflitos re­
lacionados aos “casamentos mistos”.
25. Sobre a vinculação entre assimilação e mobilidade social, ver a coletânea organizada por
Saito e M aeyam a (1973).
26. A base teórica vem de Stonequist, Eisenstadt e outros autores que discutiram a “m argina­
lidade sociocultural” como decorrência da posição do indivíduo im igrante de prim eira ou
segunda geração entre duas culturas e de suas implicações na desorganização da persona­
lidade (ver Rattner, 1977, pp. 96-109).
27. Até a década de 1970, alguns estudos sobre im igração e colonização alemã no sul do Bra­
sil, inclusive de geógrafos, deram algum espaço para os “problemas de aculturação e assi­
milação” (ver Leo W aibel, 1958; Ursula Albersheim, 1962; Jean Roche, 1969).
37
28. Esta organização tem relação com a distribuição dos lotes coloniais, demarcados em li­ nhas
28.
Esta organização tem relação com a distribuição dos lotes coloniais, demarcados em li­
nhas e travessões perpendiculares a elas, em geral acompanhando os cursos d’água. Cape­
la
e pequenas casas de comércio surgiram nas confluências, tornando-se lugares de encon­
tro dos seus povoadores (ver Roche, 1969; Seyferth, 1990).
29.
A
migração é um fenômeno social m ultidirecional, característico do campesinato, e não
está lim itada a um movimento rural-urbano, como demonstraram Kearney (1996) e Sa-
yad (1998).
30.
Essa percepção é particularm ente enfatizada quando entra em cena a segunda geração
(brasileiros segundo o ju s solí) e os conflitos decorrentes da integração na sociedade bra­
sileira (cf. Vieira, 1973; Rattner, 1977).
31.
Diz Ianni:
“Renunciamos deliberadam ente à possibilidade de escrever um
livro acadêm i­
co [
].
O autor não é neutro: sente-se identificado com os emigrantes e seus interesses.
Isso talvez baste para explicar o caráter polêmico deste trabalho” (1972, p. 10). O olhar
jornalístico do autor, porém, não torna menos efetiva sua acurada análise sociológica.
32.
Essa questão é m encionada porque o movimento de retorno é tão significativo do fenô­
meno migratório quanto o de saída; e deve ser considerada também a emigração tempo­
rária (que também injeta recursos com o retorno dos expatriados). Ianni usa a categoria
“expatriado” para referir-se ao em igrante tendo em vista a idéia de “emigração forçada” ou
coação associada às políticas e aos constrangimentos que induzem as saídas.
33.
Fenômeno associado ao capitalism o global, o Estado-nação transnacional deu prerrogati­
va a um novo nacionalismo prim ordialista, enfatizando o “direito” dos im igrantes e dos
descendentes à identidade nacional. As implicações de ordem política, econômica e social
decorrentes da apropriação dessa identidade transnacional tem sido analisadas por diver­
sos autores (ver, especialmente, Schiller, Basch e Szanton-Blanc, 1992; Schiller e Fouron,
2000; Feldman-Bianco, 2002).
34.
Foram várias as formas de intervenção junto às comunidades de im igrantes no Brasil que
contribuíram para as construção de identidades diferenciadas: a propaganda nacionalista
por meios escritos ou não, as atuações consulares e de representações de associações ou
organizações de apoio aos emigrantes, suporte financeiro e material didático para as esco­
las com unitárias, incentivando o aprendizado
da “língua materna” etc., além da notória
presença política de representantes do nazismo e do facismo que ajudou (mas não foi cau­
sa
exclusiva) a desenvolver a cam panha de nacionalização (cf. Seyferth,
1999).
35.
O
livro de 1963 é um a resposta às teorias da assimilação na versão de m eltingpot com seu
suposto igualitarism o contido na noção de “am ericanização”. Para Glazer e M oynihan, o
“am ericano” em abstrato não existe; existem negros, judeus, italianos, irlandeses etc., e o
old stock (os W ASP - anglo-saxões brancos e protestantes).
36.
A
questão da identidade étnica teuto-brasileira foi retomada em trabalhos posteriores, al­
guns deles comparativos (ver, por exemplo, Seyferth, 1990, 1999).
37.
A
articulação legal entre colonização e imigração persistiu até depois da Segunda Guerra
M
undial: os preferidos eram aqueles que tinham como destino um núcleo colonial, o que
38
explica a inserção rural de refugiados e outros imigrantes de origem urbana. Houve o as­
explica a inserção rural de refugiados e outros imigrantes de origem urbana. Houve o as­
sentamento de judeus em colônias no Rio Grande do Sul, com posterior deslocamento
para cidades maiores. A experiência de localização de judeus no meio rural, no contexto
de uma proposta filosemita de integração na modernidade patrocinada pela Jewish Colo-
nization Association, foi analisada num artigo de Bila Sorj, que aponta para os problemas
de adaptação ao regime de colonização (ver Sorj, 1997).
38. Os livros citados são apenas um a pequena amostra de um amplo universo de publicações
de editoras do Rio Grande do Sul, voltadas para a im igração, surgidas nas três últim as dé­
cadas. A coletânea organizada por De Boni (1990), por exemplo, é o volume de n° 100
da Coleção Imigração Italiana publicada pela Editora da Escola Superior de Teologia São
Lourenço de Brindes, de Porto Alegre. Além desta, outras editoras, sobretudo ligadas a
universidades (como a Universidade de Caxias do Sul, a Unisinos - São Leopoldo - e a
Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul - Ijuí), têm publi­
cado resultados de pesquisas, principalm ente na área de história, mas também das áreas
de sociologia e antropologia, assim como textos produzidos por imigrantes, voltados para
a im igração e a colonização no sul.
39. Um bom exemplo de estudo de com unidade, realizado em área de colonização alemã, é
o já citado trabalho de Ursula Albersheim (1962).
40. Ver, por exemplo, Costa e Battistel (1982, 1983a/b), Battistel e Costa (2000), M üller
(1981). O grande painel sobre a vida dos colonos italianos, em três volumes, de Costa e
Battistel (1982, 1983a, 1983b), é completado por um quarto volume no qual Júlio Po-
senato estuda a arquitetura das colônias (Posenato, 1983). A im portância da atuação de
Rovílio Costa, como pesquisador e editor, pode ser avaliada pelo volume em sua hom e­
nagem organizado por Antônio Suliani (2001), intitulado Etnias & carism a: são quase
cem artigos (mais de mil páginas), boa parte dos quais relacionados à imigração.
41. Grande parte das pesquisas sobre a colonização e a im igração no sul do Brasil, realizadas
por antropólogos e sociólogos, foram influenciadas pelos trabalhos de dois geógrafos -
W
aibel (1958) e Roche (1969).
42. uitos autores que estudaram a im igração japonesa fazem referências ao papel aglutina-
M
dor das associações (cf. Cardoso, 1959; Vieira, 1973), mas são raros os estudos de maior
abrangência sobre o tema. A revista publicada pelo Centro de Estudos Migratórios/SP de­
dicou um número às associações (ver Travessia, 34, maio-ago. 1999); na sua dissertação
de mestrado, M arina M ichahelles, trabalhando na interface história/antropologia, fez um
estudo sobre a identidade teuto-brasileira a partir da Sociedade G erm ania do Rio de Ja­
neiro - a mais antiga associação étnica no Brasil, fundada em 1821 (M ichahelles, 2003).
Bibliografia
ABRANTES, Visconde de. (1941), “M em ória sobre os meios de promover a colonização”. Re­
vista de Im igração e Colonização, ano II (2/3).
39
ALBERSHEIM , Ursula. (1962), Uma com unidade teuto-brasileira (Jarim ). Rio de Janeiro, Centro Brasileiro
ALBERSHEIM , Ursula.
(1962),
Uma com unidade teuto-brasileira (Jarim ). Rio de Janeiro,
Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais/MEC.
ARAUJO , José Renato de C. (2000), Im igração efutebol: o caso Palestra Itália. São Paulo, Su-
maré/Fapesp.
AVÉ-LALLEMENT, Roberto. (1953), Viagem pelo sul do B rasil no ano de 1858. Rio de Janei­
ro, Instituto N acional do Livro.
AZEVEDO, Thaies de. (1982), Italianos egaúchos. Rio de Janeiro/Brasília, Ed. Catedra/Fun-
dação Nacional Pro-Memória.
ÁVILA, F. Bastos de. (1956), ^im m igration au Brésil. Rio de Janeiro, Agir.
BACELAR, Jefferson. (1994), Galegos no paraíso racial. Salvador, Ianamá/CEAO/CED.
BALHANA, Altiva P. (1958), San ta Felicidade, um processo de assim ilação. Curitiba, Tip. João
Haupt.
BARTH, Fredrik. (1969), “Introduction”, in F. Barth (ed.), Ethnic groups an d boundaries, Ber-
gen/Londres, Universitetsforlaget/George Allen & Unwin.
BASTOS, A. C. Tavares. (1976), Os males do presente e as esperanças do futuro. São Paulo/Bra­
sília, Cia. Editora Nacional/INL.
BATTISTEL, Arlindo I. & CO STA, Rovilio. (2000), D uas Itálias. Porto Alegre, EST.
BERTARELLI, Ernesto.
Nazionale.
(1914), II Brasile m eridionale: ricordi e impressione.
Roma, Tip. Ed.
BLAN CHETTE, Thaddeus G. (2001),
Gringos. Dissertação de mestrado,
Rio de Janeiro,
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/Museu Nacional/UFRJ.
BLOEM ER, Neusa M . S. (2000), B rava gente b rasileira:
m igrantes italianos e caboclos nos Cam­
pos de Lages. Florianópolis, Cidade Futura.
BORGES PEREIRA, João Batista. (1974), Italianos no mundo ru ral p au lista. São Paulo, Pio-
neira/IEB-USP.
BLUM ENAU, H erm ann. (1850), Südbrasilien in seinen Beziehungen zu deutscher Auswande­
rung und kolonisation. Rudolstadt, G. Froebel.
.(1851). Leitende Anweisungen fü r Auswanderer nach der Provinz S. C atharina in
Südbrasilien. Rudolstadt, G. Froebel.
BRASIL. (1876), L’empire du B résil à IExposition Universelle de 1 8 7 6 à P hiladelphia. Rio de
Janeiro, Imperial Instituto Artístico.
CANSTATT, Oscar. (1877), B rasil: L and und Leute. Berlin, Ernst Siegfried und Sohn.
CARD O SO , Ruth C. L. (1959), “O papel das associações juvenis na aculturação dos japone­
ses”. Revista de Antropologia, VII (1-2).
CARD O SO DE OLIVEIRA, Roberto. (1976). Identidade, etnia e estrutura social. São Paulo,
Pioneira.
40
CASTRO , M an ' G. (coord.). Brasília, CN PD. (2001), M igrações internacionais: contribuições
CASTRO , M an ' G. (coord.).
Brasília, CN PD.
(2001), M igrações internacionais: contribuições p ara políticas.
CENNI, Franco. (1975), Italiatios no B rasil. São Paulo, Martins/Edusp.
CO H EN , Abner. (1969), Custom an d politics in urban A frica. London, Routledge
e K. Paul.
CO LÓ Q U IO DE ESTUD O S TEUTO-BRASILEIROS (I). (1963). Porto Alegre,
Estudos Sociais da UFRGS.
Centro de
CO STA, Rovílio & BATTISTEL, Arlindo I. (1982), Assim vivem os italianos. Porto Alegre,
EST/Educs, vol. 1.
(1983a). Assim vivem os italianos. Porto Alegre, EST/Educs, vol. 2.
(1983b). Assim vivem os italianos. Porto Alegre, EST/ Educs, vol. 3.
DE
BONI,
Luiz
A.
(org.).
(1987),
A presença
ita lian a
no B rasil.
Porto
Alegre/Torino,
EST/Fondazione Agnelli, vol. 1.
(1990), A presença ita lian a no B rasil. Porto Alegre/Torino, EST/Fondazione Ag­
nelli, vol. 2.
(1996),
A presença ita lia n a no
B rasil.
Porto Alegre/Torino, EST/Fondazione Ag­
nelli, vol. 3.
DECKER, Siegfried. (1926), Praktischer Ratgeber fü r den Kolonisten in B rasilien. São Paulo,
Edanee.
DIEGUES JU N IO R , M anuel. (1964), Im igração, urbanização, industrialização. Rio de Janei­
ro, Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais/MEC.
DOERFFEL, Ottokar. (1865), Der Südbrasilianische Landw irth. Ein Leitfaden fü r A nsiedler in
B rasiliens Südlichen Provinzen Rio Grande do S u l und Santa C atharina. Dona Fran-
cisca, s/ed.
EISENSTADT,
S. N. (1954), The absoiption o f im m igrants. Londres, Routledge and Kegan
Paul.
ELLIS JU N IO R , Alfredo. (1933). Pedras lascadas. 2
ed. São Paulo, Piratininga.
(1934), Populações p aulistas. São Paulo,
Cia. Ed. Nacional.
ENNES, M arcelo A. (2001), A construção de um a identidade inacabada: nipo-brasileiros no in ­
terior do Estado de São Paulo. São Paulo, Editora da Unesp.
FAIRCHILD, H enry P. (1933), Im m igration. Nova York, M acm illan.
FAUSTO,
Boris
(org.). (1999), Fazer a Am erica. São Paulo, Edusp.
FAUSTO,
Boris
et al. (1995). Im igração e p o lítica em São Paulo. São Paulo, Sumaré/Fapesp.
FELDMAN-BIANCO, Bela. (2001). “Brazilians in Portugal, Portuguese in Brazil: constructions
of sameness and diference”. Identities. Global Studies in Culture an d Power, 8 (4).
41
(2002), “Entre a ‘fortaleza da Europa e os laços afetivos da 'irm andade’ luso-bra- sileira:
(2002), “Entre a ‘fortaleza da Europa e os laços afetivos da 'irm andade’ luso-bra-
sileira: um dram a fam iliar em um só ato”, in C ristiana Bastos; M . Vale de A lm ei­
da e Bela Feldman-Bianco (orgs.), Trânsitos coloniais: diálogos críticos luso-brasilei-
ros, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais.
FERRAZ, Luiz P. do Couto. (1859), D ie deutschen Ackerbau Kolonien in Santa C atharina.
H amburgo, G. W. Niemeyer.
FREYRE, Gilberto. (1940), Uma cultura am eaçada: a luso-brasileira. Recife, Diário
da M anhã.
(1941), Região e tradição. Rio de Janeiro, José O lym pio.
FUJI, Yukio & SM IT H , T. Lynn. (1959), The acculturation o fthe Japanese im m igrants in B ra­
z il. Gainsville, University of Florida Press.
GEERTZ,
Clifford. (1963), “The integrative revolution”, in C. Geertz (ed.), O ld societies an d
new states, Nova York, The Free Press.
GLAZER, N athan & M O YNIH AN, Daniel P. (1963), Beyond the m elting pot. Boston, The
M IT Press.
(1975), “Introduction”,
city: theory an d experience,
in N athan Glazer e D aniel P.
M oynihan (eds.), E thni­
Cam bridge, M ass., H arvard University Press.
GRÜN, Roberto. (1992), Negócios efam ílias: armênios em São Paulo. São Paulo, Sumaré/Fapesp.
G USSI,
Alcides F. (1997), Os norte-am ericanos (confederados) do B rasil: identidades no contex­
to transnacional. Cam pinas, CM U/U nicam p.
HACK,
H. (1959), Dutch groups settlem ent in B razil. Am sterdam , Royal Tropical Institute.
IANNI, Constantino. (1972), Homens sem p az: os conflitos e os bastidores da emigração ita lia ­
na. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira.
JAGUARIBE, Domingos J. N. (1878), Reflexões sobre a colonização no Brasil. São Paulo, Garraux.
JA N N A SCH , Robert. (1905), L and und Leute von Rio Grande do Sul. Berlim,
aus dem Export.
Sonderabdruck
KEARNEY, M ichael. (1996), Reconceptualizing the peasantry: anthropology in a glo b alperspec­
tive. Boulder, Westwiew.
KOSMINSKY,
Ethel V.
(1985), Rolândia, a terra prom etida: judeus refugiados do nazismo no
norte do P araná. São Paulo, FFLCH-USP/Centro de Estudos Judaicos.
LIMA, M aria H elena Beozzo de. (1973), A missão herdada: um estudo sobre a inserção do im i­
grante português. Dissertação de mestrado, Rio de Janeiro, PPGAS, M useu N acio­
nal, UFRJ.
M
ARTIN S, W ilson. (1989), Um B rasil diferente: ensaio sobre fenômenos de aculturação no Pa­
raná. 2 ed. São Paulo, T. A. Queiroz.
42
M ICH AH ELLES, M arina. (2003), A “colonia alem ã”do Rio de Jan eiro
M ICH AH ELLES, M arina. (2003), A “colonia alem ã”do Rio de Jan eiro : a Sociedade G erm ania
e a construção de um a identidade teuto-brasileira. Dissertação de mestrado, N iterói,
PPGH-UFE
M ITA, Chiyoko. (1999), Bastos: um a com unidade étnica Japonesa no B rasil. São Paulo, Hum a-
nitas/FFLCH-USP.
M ÜLLER, Teimo Lauro (org.). (1980), Im igração e colonização alem ã (Anais do III Simpósio
de Im igração e Colonização alem ã no Rio Grande do Sul). Porto Alegre, EST.
(1981). Colônia alem ã: histórias e memórias. Porto Alegre, EST.
(org.). (1994), N acionalização e im igração alem ã. São Leopoldo, Unisinos.
NEIVA, Arthur Hehl. (1944), “O problema imigratório brasileiro”. Revista de Im igração e Co­
lonização, V (3).
NEIVA, Arthur Hehl & DIEGUES JU N IO R , M anuel.
(1956), “The cultural assim ilation of
im m igrants in Brazil”, in W. D. Borrie (eds.),
The
cultu ral integration o f im m i-
grants: a survey based upon the papers an d procedings o f the Unesco conference held in
H avana, a p ril 1956. Paris, Unesco.
NERY, F. J. de Santana. (1889), Le B résil en 1889. Com ité Franco-brésilienne de l’Exposion
Universelle de Paris. Paris, Delagrave.
PARK, Robert E. (1937), “Assim ilation, social”. Encyclopaedia o f the Social Sciences, Nova
York, M acm illan, vol. 2.
POSENATO, Júlio. (1983), A rquitetura da im igração ita lian a no Rio Grande do Sul. Porto
Alegre, EST/Educs.
RAM O S, Arthur. (1947), Introdução a antropologia brasileira. Rio de Janeiro, Casa do
dante do Brasil.
Estu­
RATTNER, H enrique. (1977),
Paulo, Ática.
Tradição e m udança: a com unidade ju d aica de São Paulo). São
REDFIELD, R .; LIN TO N , R.
& HERSKO VITS, M . J. (1936), “O utline for the study of
acculturation”. Am erican Anthropologist, 38.
RENK, Arlene. (1997), A lu ta da erva: um ofício étnico no oeste catarinense. Chapecó, Grifos.
RIBEIROLLES, Charles, (s/d.), B rasil pitoresco. São Paulo, Livraria M artins.
RO CH E, Jean. (1969), A colonização alem ã e o Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Globo.
RO M ERO, Silvio. (1902), O elemento português no B rasil. Lisboa, Typografia da Cia. Edito­
ra Nacional.
(1906), O allem anism o no sul do B rasil: seus perigos e meios de os conjurar. Rio de
Janeiro, Heitor Ribeiro.
43
SAITO, Hiroshi & MAEYAMA, Takashi (orgs.). (1973), Assim ilação e integração dosjapone­ ses no B
SAITO, Hiroshi & MAEYAMA, Takashi (orgs.). (1973), Assim ilação e integração dosjapone­
ses no
B rasil. Petrópolis/São
Paulo, Vozes/Edusp.
SAKURAI, Célia. (1993), Romanceiro da im igração japonesa. São Paulo, Sumaré/Fapesp.
(1999), “Imigração japonesa para o Brasil: um exemplo de imigração tutelada”,
in Boris Fausto (org.), Fazer a A m érica, São Paulo, Edusp.
(2000), Im igração tutelada: osjaponeses no B rasil. Tese de doutorado, Cam pinas,
IFCH/Unicamp.
SALLES, M aria do Rosário R.
lo, Sumaré/Fapesp.
(1997), M édicos italian o s em São Paulo
(18 9 0-1 9 30 ). São Pau­
SALES, Teresa & SALLES, M aria do Rosário R. (orgs.). (2002), Políticas m igratórias: A m éri­
ca L atin a, B rasil e brasileiros no exterior. São Carlos, Edufscar/Sumaré.
SAYAD, Abdelm alek. (1998), A im igração ou os paradoxos da alteridade. São Paulo, Edusp.
SCH AD EN , Egon. (1956), “Aculturação de alemães e japoneses no Brasil”. Revista de Antro­
pologia, IV (1).
(1957), “Problemas de aculturação no Brasil”. A nais da II Reunião B rasileira de
Antropologia. Bahia.
(1973), “O estudo socioantropológico da aculturação dos alemães no Brasil”. Re­
vista do Arquivo M unicipal, 36 (185), São Paulo.
SCHILLER, N ina Glick; BASCH, Linda & SZANTO N-BLANC, C ristina (eds.). (1992),
Towards a transnacional perspective on m igration: race, class, ethnicity an d nationa­
lism reconsidered. Nova York, New York Academ y o f Sciences.
SCH ILLER, N ina Glick & FO U RO N , Georges. (2000), “Laços de sangue: os fundamentos
raciais de Estado-nação transnacional”, in Bela Feldman-Bianco e Graça Capinha
(orgs.), Identidades: estudos de cultura epoder, São Paulo, Hucitec.
SEIDLER, Cari. (1951), Dez anos no B rasil. São Paulo, M artins.
SEYFERTH, Giralda. (1974), A im igração alem ã no Vale do Itajaí-m irim . Porto Alegre, M o-
vimento/SAB.
(1981), N acionalism o e identidade étnica. Florianópolis, Fundação Catarinense
de Cultura.
(1990), Imigração e cultura no B rasil. Brasília, Editora da Universidade de Brasília.
. (1997), “A assimilação dos
im igrantes como questão nacional”. M ana. Estudos de
Antropologia Social, 3(1).
(1999), “Os im igrantes e
a cam panha de nacionalização do Estado Novo”, in
Pandolfi, D ulce (org.), Repensando o Estado Novo, Rio de Janeiro, Editora da Fun­
dação Getúlio Vargas.
44
(2002), “Colonização, im igração e a questão racial no Brasil”. Revista USP, 53. SILVA, Douglas
(2002), “Colonização, im igração e a questão racial no Brasil”. Revista USP, 53.
SILVA, Douglas M ansur da. (2000), A ética da resistência: os exilados antisalazaristas do “Por­
tu gal D em ocrático” (19 5 6-1 9 75 ). Dissertação de mestrado, Cam pinas, Unicamp,
IFCH , Antropologia Social.
SILVA, Eduardo Caetano da. (2003), Visões da diaspora portuguesa: dinâm icas iden titárias e d i­
lem as políticos entre os portugueses e luso descendentes de São Paulo. Dissertação de
mestrado, Cam pinas, Unicamp, IFCH , Antropologia Social.
SILVA, Sidney A. (1997), Costurando sonhos: trajetória de um grupo de im igrantes bolivianos em
São Paulo. São Paulo, Paulinas.
SM IT H , Anthony D. (1986), The ethnic origins
o f nations. Oxford, Blackwell.
SO RJ, Bila (org). (1997), Identidades ju d aicas tio B rasil contemporâneo. Rio de Janeiro, Imago.
STO NEQUIST, E. V. (1937), The m argin al m an. Nova York, Scribner.
SULIANI, Antonio (org.). (2001), E tnias e carism a:p o lian téia em homenagem a Rovílio Costa.
Porto Alegre, EDIPUCRS.
T H O M A S, W illiam
I. & ZNANIECKI, Florian. (1974),
The polish peasant in Europe an d
A m erica. Nova York, O ctagon
Books.
TRUZZI, Oswaldo. (1992), De mascates a doutores: sírios e libaneses em São Paulo. São Paulo,
Sumaré/Fapesp.
(1997), Patrícios: sírios e libaneses em São Paulo. São Paulo, Hucitec.
T SC H U D I, Johann J. von.
(1866-1869), Reisen durch Südam erika. Leipzig, Brockhaus.
VIANNA, F. J. de Oliveira. (1932), Raça e assim ilação. São Paulo, Cia. Editora Nacional.
VIEIRA, Francisca I. S. (1973), O japonês na frente de expansão p au lista. São Paulo, Pionei-
ra/Edusp.
WAIBEL, Leo. (1958), Capítulos de geografia tropical e do B rasil. Rio de Janeiro, IBGE.
W
EBER, M ax. (1991), Economia e sociedade. Brasília, Editora da Universidade de Brasília,
vol.
1.
W
EBER, Regina. (2002), Os operários e a colm éia: trabalho e etnicidade no sul do B rasil. Ijuí
(RS), Unijuí.
W
ILLEM S, Emílio. (1940), Assim ilação epopulações m arginais no B rasil. São Paulo, Cia. Edi­
tora Nacional.
(1944), “Acculturation and the horse complex am ong germ an-brasilians”. Ame­
rican Anthropologist, 46 (2).
(1946).
A aculturação dos alem ães no
B rasil. São Paulo, Cia. Editora Nacional.
(1948), “Aspectos da aculturação dos japoneses no estado de São Paulo”. Boletim
82, FFCL-USP.
45
(1951). “Im m igrants and their assim ilation in Brazil”, in T. L. Sm ith
(1951). “Im m igrants and their assim ilation in Brazil”, in T. L. Sm ith e A. M ar-
chant (eds.), B razil p o rtrait o fh a lf a continent, Nova York, Drvden Press.
W IR T H , Louis. (1945), “The problem o f m inority groups”, in R. Linton (ed.), The science o f
m an in the w orld crisis, Nova York, Colum bia University Press.
ZANINI, M aria C atarina C. (2002), Italian id ad e no B rasil m eridional: a construção da identi­
dade étnica na região de Santa M aria —RS. Tese de doutorado, São Paulo, Progra­
m a de Pós-Graduação em Antropologia Social, USP.
• Artigo recebido em outubro/2003
• aprovado em agoto/2004
Resumo
A Im igração no B rasil: Comentários sobre a Contribuição das Ciências Sociais
Estudiosos de diferentes campos do conhecimento abordaram o tema da imigração no Brasil
a
partir da segunda metade do século XIX, quando as estatísticas de entradas de estrangeiros
se
tornaram significativas no cômputo geral da população. A imigração, por seus m últiplos as­
pectos, é um tema interdisciplinar, sendo difícil dar conta da sua totalidade. O presente tra­
balho focaliza, parcialm ente, a contribuição das ciências sociais, em particular da antropolo­
gia, aos estudos sobre a im igração no Brasil, procurando exam inar o embasamento teórico, os
métodos de análise e as temáticas recorrentes desde as primeiras publicações de caráter socio­
lógico, surgidas no século XX, até alguns trabalhos mais recentes selecionados na am pla pro­
dução sobre o assunto publicada nos últim os vintes anos.
Palavras-chave: Estudos migratórios (Brasil); Teoria da migração; M udança cultural; Assimi­
lação; Etnicidade.
Abstract
Im m igration in B razil: Comments on the Contribution o f the Social Sciences
Scholars from m any different fields of knowledge began studying the theme of im m igration
in Brazil beginning in the second h alf of the nineteenth century, when the num ber of foreig­
ners entering into the country started becom ing a significant portion of the population. Im­
m igration, considering its m ultiple aspects, is very m uch an interdisciplinary field, and it is
difficult to embrace the theme in its entireness. The present paper is a partial review of the
contribution of the social sciences - of anthropology, in particular - to the
study of im m igra­
tion in Brazil. It seeks to examine the theoretical basis, methods o f analysis, and recurring the-
46
mes in this area, beginning with the first sociological publications of the twentieth century and
mes in this area, beginning with the first sociological publications of the twentieth century
and concluding with recent works, presenting a selection of the vast production undertaken
in the last twenty years.
Keywords: Migration studies (Brazil); Migration theory; Cultural change; Assimilation; Eth­
nicity.
Résumé
L'immigration au Brésil: Commentaires à propos de la Contribution des Sciences Sociales
Des chercheurs de différents domaines ont abordé le sujet de l’immigration au Brésil à partir
de la seconde moitié du XIXesiècle, quand les statistiques d’entrée d’étrangers sont devenues
significatives dans le comptage général de la population. L’immigration est, par ses multiples
aspects, un sujet interdisciplinaire, et il est difficile de la considérer dans sa totalité. Ce travail
aborde, partiellement, la contribution des sciences sociales - et, en particulier, de l’anthropo­
logie - aux études à propos de l’immigration au Brésil. Il examine son fondement théorique,
les méthodes d’analyse et les thèmes récurrents depuis les premières publications sociologi­
ques, apparues au XXe siècle, jusqu’à certains travaux plus récents, sélectionnés parmi les di­
vers ouvrages publiés sur le sujet au cours de ces derniers vingt ans.
Mots-clés: Etudes migratoires (Brésil); Théorie de la migration;
milation; Ethnies.
Changement culturel; Assi­
47