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ROQUE DE BARROS LARAIA

Índios do Brasil
revisitados

Índios do Brasil, de Julio


Cezar Melatti, São Paulo,
Edusp, 2007, 304 p.

ROQUE DE BARROS
LARAIA é professor titular
da Universidade Católica de
Goiás e professor emérito
da UnB.

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Em 1970, Julio Cezar Melatti resol- não pelo seu exotismo, mas com a preo-
veu escrever um livro sobre os índios bra- cupação de demonstrar que todos eles
sileiros que fosse acessível para a maior têm a sua razão de ser.
parte da população brasileira,justamente Nessas últimas quase quatro
aquela que não tinha acesso aos poucos décadas, muitas pessoas leram o livro,
trabalhos científicos publicados até en- que teve oito edições no Brasil e uma
tão. Ciente de que esse público compar- no México. O número de antropólogos
tilhava uma constelação de estereótipos brasileiros, que na época não chegava
negativos, herdados dos colonizadores a uma centena, ultrapassou a casa dos
europeus e repetidos incansavelmente mil. A população brasileira praticamente
por uma legião de“bugreiros”modernos, dobrou e o mesmo aconteceu com a po-
interessados na espoliação dos territórios pulação indígena.Sociedades indígenas,
indígenas, Melatti procurou mostrar em então desconhecidas, foram contatadas;
seu texto que os índios não eram aqueles outras, que eram consideradas extintas,
seres imprevidentes e indolentes,incapa- foram reencontradas; mas, por outro
zes de contribuir para o desenvolvimento lado, cresceu o número daqueles que
econômico da nação, nem mesmo seres acreditam nos velhos preconceitos. Uma
puros,isentos de maldades,pobres crian- parte considerável da mídia continua
ças necessitadas de proteção. acreditando que “ser índio” é um grau
Tive o privilégio de escrever a de ignorância e não o pertencimento a
“orelha” da primeira edição de Índios uma sociedade e uma cultura diferentes
do Brasil (Editora Coordenada, Brasília, das nossas. Continuam ignorando que
1970), afirmando que esse era o primeiro a diversidade cultural é uma forma de
livro, de grande alcance popular, que riqueza e que o Brasil possui cerca de
devolvia aos índios a sua condição de ser 220 povos indígenas, falantes de 180
humano, que, “como tal, ama ou odeia, línguas. Alguns acreditam nisso porque
tem momentos de coragem e instantes não dispõem das informações corretas.
de terror, luta obstinadamente pela sua Outros insistem em não acreditar nos
sobrevivência ou se deixa envolver por direitos dos índios por outras razões. Por
um marasmo de apatia, tem amigos e tudo isso, é bastante oportuna uma nova
inimigos, e constantemente pensa sobre edição de Índios do Brasil.
a sua própria natureza”. Melatti descreve Essa, porém, não é apenas uma
e analisa os usos e costumes dos índios nova reedição. Melatti levou em consi-

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deração o fato de que o tempo passou: a etnicidade, baseada tanto nos trabalhos de
ditadura se foi; uma nova Constituição foi Frederick Barth (1969), como nos de Ro-
promulgada, em 1988, resguardando os berto Cardoso de Oliveira (1976). O terceiro
direitos das populações indígenas – a partir capítulo (também resultante do segundo an-
de então, foram demarcadas mais terras terior), “A População Indígena Brasileira”,
indígenas do que nos 70 anos anteriores. exigiu um maior esforço de atualização. As
A integração dos índios, como era preco- estimativas sobre o número de indígenas
nizada nas políticas públicas anteriores, existentes antes de Cabral mereceram, em
deixou de ser o objetivo central da ação 1970, apenas um parágrafo. Na versão
do Estado. Foi assegurado o direito dos atual, Melatti apresenta tanto os trabalhos
índios de continuar com as suas línguas e de Julian Steward, publicados na década de
culturas, não deixando, no entanto, de ser 50, quanto os de William Denevam (1976),
cidadãos brasileiros. que fez uma estimativa da população da re-
Por tudo isso, o livro foi modificado: gião amazônica, como a de John Hemming
cerca de cem novas páginas foram acrescen- (1978), cujos cálculos referem-se a todo o
tadas. Cento e quarenta novas referências país, citando também as críticas de John
bibliográficas foram incluídas, refletindo Monteiro (1994) aos trabalhos anteriores.
o grande desenvolvimento das pesquisas No que se refere à população atual, é bas-
etnológicas. Isso sem contar com uma tante interessante o mapa da página 53 (não
apresentação gráfica primorosa e uma nova existente na versão anterior), que localiza
capa, na qual, como um ícone já consagrado, os etnôninos indígenas com quatro tipos de
surge em forma reduzida a ilustração do letras, cujos tamanhos indicam as faixas de
njamalu, segundo um desenho de um índio população a que cada grupo pertence. Por
meinaku, colhido pela saudosa etnóloga outro lado, suprime a relação de etnôninos
Heloisa Fénelon Costa. apresentada na página 14 da versão anterior,
As principais modificações ocorreram que informava a existência de 136 povos
no início e no fim do livro. Os três primeiros indígenas. Deixou para o leitor a tarefa de
capítulos da versão original foram trans- contar no mapa da página 53. Acreditamos
formados em cinco. Do sexto ao décimo que esse foi um excesso de prudência por
sétimo capítulo repete-se a estrutura ante- parte do autor, pois a própria Funai tem uma
rior, mantendo-se os mesmos títulos. No dificuldade na definição exata do número
final, um novo capítulo foi acrescentado: atual, que se supõe ser próximo de 220.
“O Índio e a Cidadania”. Não deixa, porém, de ser interessante o
No primeiro capítulo, o autor sabiamente dado apresentado que indica que os nove
preferiu substituir a velha discussão sobre povos com maiores populações representam
a origem do homem americano por uma 50% do total.
descrição de um Brasil pré-histórico, pouco O terceiro capítulo da versão anterior,
conhecido do grande público. Demonstra, “A Diversidade Indígena”, foi também
então, a existência de registros da presença dividido: “As Línguas Indígenas” e “Diver-
humana desde o fim do período Pleistoce- sidades de Culturas e Situações”. O novo
no. Descrição essa que se tornou possível capítulo “As Línguas Indígenas” foi bas-
graças ao desenvolvimento da pesquisa tante atualizado. Os seis mapas referentes à
arqueológica no Brasil, ocorrida nos últimos localização dos troncos lingüísticos foram
trinta anos. aperfeiçoados pela inclusão de novas lín-
O segundo capítulo original foi divi- guas ou por uma mais precisa definição dos
dido. Com a ampliação da primeira parte territórios lingüísticos, como, por exemplo,
do mesmo, surgiu o novo capítulo com o o caso do tronco tupi, que agora inclui uma
título de “Identidades Indígenas”, no qual grande parte do litoral sul, em função de
se tornou mais clara a discussão sobre os um processo de expansão de grupos mbiá-
critérios de identificação. Isso foi possível guarani. Quanto à estimativa do número de
devido a uma maior precisão do conceito de línguas faladas, Melatti opta por 150, um

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número modesto em relação às 180 línguas tanto, algumas atualizações e acréscimos.
divulgadas oficialmente pela Funai. Nota- Faremos referência apenas a uns poucos
se aqui a mesma dificuldade de precisar o exemplos.
número de povos indígenas. Os argumentos No capítulo 11, “A Vida Política”, Me-
apresentados por Melatti, porém, são consis- latti introduziu a discussão sobre o papel da
tentes. Muitas vezes, povos com etnônimos mulher indígena, apresentando exemplos
diferentes são contados como falantes de xavantes, xinguanos e krahós. O fato de ter
igual número de línguas, quando de fato constatado que a participação feminina é mui-
falam uma só. Além de continuar existindo to pequena nas sociedades indígenas, como
o registro de várias línguas que, de fato, não também acontece em algumas sociedades
são mais faladas, substituídas que foram pela complexas, não significa que as mulheres
língua geral amazônica ou pelo português. não dispõem de algum tipo de poder.
Não resta dúvida de que o texto atual do
capítulo ficou muito mais inteligível para “O que parece ocorrer nas comunidades
o leitor leigo do que o anterior. indígenas é que o poder não se ostenta por
O quinto capítulo, “Diversidades de intermédio das instituições políticas. Mas
Culturas e Situações”, é praticamente novo. sem dúvida ao expressar suas opiniões no
Na versão original, em apenas duas páginas, âmbito doméstico, comentando-as com seus
o autor apresentou as onze áreas culturais parentes masculinos acabam por fazê-las
elaboradas por Eduardo Galvão em 1950. chegar ao debate público feito pelos ho-
Meio século depois, graças às numerosas mens” (p. 64).
pesquisas etnológicas realizadas e a um
melhor conhecimento da distribuição geo- No capítulo 13, que trata das crenças e
gráfica dos grupos indígenas, Melatti pôde dos mitos, ampliou a parte referente aos xa-
fazer uma reformulação das áreas culturais mãs, utilizando-se de dados de J. C. Crocker
de Galvão. Em sua classificação definiu (1985) para uma descrição mais completa
quatorze áreas, eliminando grande parte do das atividades xamanísticas bororos.
vazio existente na parte central do mapa de Preencheu uma lacuna importante do
Galvão. Optou por definir as áreas como capítulo sobre artes quando acrescentou um
etnográficas e não mais culturais. A sua item sobre máscaras indígenas, utilizando-
justificativa foi a necessidade de se de informações de Nimuendaju (1946 e
1952), Goldman (1968), Wagley (1977),
“[…] dar um maior peso à articulação Erikson (1987), Lima Filho (1994), Barcelos
social do que à similaridade cultural, pois Neto (2004) e dele próprio (1992).
acreditamos que, assim, englobaríamos Finalmente, foi importante a adição de
numa mesma área àquelas sociedades que um novo capítulo, “O Índio e a Cidada-
mantêm entre si intercâmbios, amistosos ou nia”, no qual deixa claro que os índios são
hostis, pois nem sempre as que se parecem cidadãos brasileiros que podem votar e ser
se conhecem. Por exemplo, os índios conhe- votados, esclarecendo àqueles que ainda
cidos como canelas (ramcocamecrás) têm pensam que ser índio é ser um cidadão
uma longa história tanto de choques como de segunda classe. Para isso, menciona o
de convívio amistoso com seus vizinhos mandato de deputado federal de Mário Ju-
guajajaras, do mesmo estado do Maranhão; runa e informa que nas eleições municipais
no entanto, são mais semelhantes cultu- de 2000 foram eleitos oitenta índios (um
ralmente aos bororos, que vivem a mais prefeito, seis vice-prefeitos e os demais
de mil quilômetros de distância, em Mato vereadores) distribuídos por dezesseis
Grosso” (p. 79). estados, entre eles Minas Gerais, Paraná e
Rio Grande do Sul.
Do capítulo sexto ao décimo sétimo É nesse último capítulo que discute a
mantêm-se os mesmos títulos e estrutura importância da Constituição de 1988 em
da edição original. Apresentam, no en- defesa dos direitos indígenas, principalmen-

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te no que se refere à posse de seus territó- nossa sociedade. E, sobretudo, é um
rios. Acredito que teria sido interessante a texto recomendável para os educadores
inclusão do artigo constitucional que trata das nossas novas gerações.
do assunto. A “orelha” que escrevi, há 38 anos, foi
Portanto, reafirmo, é importante reimpressa na edição atual. Gostaria de
essa nova reedição do livro em pauta, acrescentar nesta resenha que Julio Cezar
porque, apesar dos avanços alcança- Melatti, além de ser professor de antropo-
dos, ainda persiste uma constelação de logia da Universidade de Brasília, é agora
preconceitos sobre os índios. É ele um professor emérito da mesma universidade
livro obrigatório para quem pretende e membro efetivo da Academia Brasileira
entender um segmento significativo da de Ciências.

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