Sie sind auf Seite 1von 2

A PRESERVAÇÃO CULTURAL E O DESENVOLVIMENTO HUMANO

por Manoel Vieira Gomes Júnior1

Em todo o mundo, a preservação do patrimônio cultural é tarefa complexa.


Ainda assim, o assunto é, em muitos países, tratado como fator de
desenvolvimento humano de primeira importância, para além do
desenvolvimento econômico.
Na Itália, nascedouro das principais técnicas de restauro ocidentais, a forma
clássica trata o bem protegido com o mínimo de intervenções possível. O
restauro resulta de um processo minucioso e científico, onde se retira do
monumento apenas aquilo que lhe é espúrio e restaura-se somente quando
houver documentos que comprovem o seu aspecto original. Ou seja, o restauro
“termina onde começa a hipótese” (Carta de Veneza, 1964).
Em Roma, a Fontana di Trevi, uma das mais famosas fontes do mundo -
revelada ao mundo no filme “La dolce vita”, de Federico Fellini - está sendo
restaurada. A obra, orientada e fiscalizada pelo órgão de patrimônio histórico e
artístico da capital italiana, está avaliada em mais de US$ 3,8 milhões. É a
maior obra de restauro e conservação já executada na fonte, sendo a primeira
de outras restaurações que serão patrocinadas pela grife italiana Fendi, no
programa intitulado “Fendi for Fountains”.
No Japão, a cada vinte anos as peças deterioradas de seus monumentos são
substituídas por novas, num processo de conservação muito próprio onde são
reproduzidas seguindo rigorosamente os mesmos estilos e as mesmas formas
das existentes. Para os japoneses, o mais importante não é a matéria, mas,
sim, o saber-fazer. Daí ter o Japão, ainda nos anos 1950, incentivado pessoas
e grupos detentores de saberes e fazeres – o ‘homem memória’ – através da
primeira legislação de preservação do patrimônio cultural do país.
Esse processo de preservação é parte do costume religioso primitivo do povo
asiático, onde a própria comunidade encarrega-se da conservação do que eles
consideram monumento. Essa forma de preservação, onde o patrimônio é
periodicamente reconstruído, onde são a forma e a função que garantem a
importância do bem cultural, difere da forma clássica ocidental, onde as peças
são tratadas de modo a permanecerem no seu local de origem e onde as
‘manchas do tempo’ são compreendidas como parte do monumento. O modo
ocidental em relação às políticas de preservação no mundo, muito cunhadas na
forma de preservação eurocêntrica, foi um dos principais assuntos debatidos
na Conferência de Nara (1994), que debateu e ampliou o conceito de
autenticidade estabelecido na Carta de Atenas, modificando o entendimento do
que é patrimônio cultural e considerando seus interesses no mundo
contemporâneo.

1
Arquiteto e Urbanista pela UFF e Mestre pela UFRRJ. Arquiteto no MAC de Niterói (2001- 2006) e, pelo
IPHAN, Chefe de Escritório em Cabo Frio, Conselheiro de Patrimônio de Campos dos Goytacazes e
Coordenador do PAC das Cidades Históricas (2006- 2010). Em 2011, funda o escritório A REDE de
Arquitetura e em 2016 é agraciado com o Prêmio do IAB pelo projeto do CRAB-SEBRAE. Foi Diretor Geral
do INEPAC e Presidiu o Conselho de Tombamento (2015/2017). É responsável pelo A REDE e Conselheiro
do CAU-RJ.
O modo ocidental demanda, na maior parte das vezes, um montante elevado
de recurso, se comparado ao modo asiático. O restauro ocidental e
eurocêntrico exige uma ciência cada vez mais rebuscada, contando com
materiais mais modernos, no intuito de minimizar os danos causados pela sua
exposição e pelo tempo.
Japão e Itália são países de culturas antigas e exemplos onde a sociedade
civil, ainda que de diferentes formas, assume um papel fundamental na
preservação do patrimônio cultural.
No Brasil, que segue a forma eurocêntrica de preservação, os investimentos no
patrimônio cultural são ainda bastante restritos às ações do governo. São raros
os exemplos onde a iniciativa privada assume, como principal patrocinador, a
recuperação de dado bem cultural. A política para o patrimônio cultural onde o
detentor do saber-fazer seja colocado como protagonista do processo de
preservação ainda é algo incipiente. São necessárias novas visões
empreendedoras na gestão do patrimônio para que os bens culturais recebam
os recursos necessários a sua preservação e para que se ampliem os
benefícios da economia da cultura para o desenvolvimento humano.