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O MUNDO RURAL NOS LIVROS DIDÁTICOS DE HISTÓRIA NO BRASIL:


UMA ANÁLISE DOS CONTEÚDOS REFERENTES AO PERÍODO 1930-19451

Matheus Silveira Guimarães (Graduando do curso de História/UFPB)


Aline Fábia Guerra de Moraes (Graduanda do curso de História/UFPB)
José Inaldo Chaves Jr. (Graduando do curso de História/UFPB)

I – INTRODUÇÃO

Números do IBGE revelam uma tendência de alta substancial da população rural


entre as décadas de 1940 e 1970. Neste período, esta população passou de 28.356.133 para
41.054.053 habitantes, um crescimento da ordem de 70%. Assim, até não menos que a
década de 1960, o Brasil era majoritariamente rural; a esta época, o campo correspondia a
55% do total de nossa população. Apenas nos anos 1970, a zona urbana conseguiu,
finalmente, ultrapassar a rural em número de habitantes2. Em termos econômicos, até 1970,
o café continuou sendo o principal produto da pauta de exportações brasileira, gerando
divisas para impulsionar o avanço da industrialização nas cidades. Ainda hoje, a
agricultura é parte considerável de nossa economia, especialmente no comércio exterior3.
Não obstante, para além das estatísticas populacionais e econômicas, estamos
falando de agentes históricos, sujeitos partícipes do processo social brasileiro. O último
recenseamento, realizado pelo IBGE em 2000, apontou que o total de habitantes no campo
era de 31.845.211 indivíduos, número bastante significativo. Todavia, é marcante nos
discursos historiográficos sobre o pós-1930, refletidos especialmente na produção didática,
a presença de um “Brasil urbano” que, de repente, teria deixado para traz seus laços com o
mundo rural.
O período entre as décadas de 1930 e 1960 é considerado o mais importante na
história da industrialização brasileira, quando esta se tornou meta do próprio Estado. Neste
momento, dois grandes projetos de industrialização tomaram a cena, o do Estado-Novo,
sob o regime autoritário de Getúlio Vargas (1937-45), e o plano juscelinista de
desenvolvimento nacional com participação do capital estrangeiro (1956-1961). Embora
distintos, ambos os projetos comungavam do desejo nacionalista de modernizar o Brasil
por vias da industrialização. “Modernizar”, neste sentido, significava superar o modelo
agrário-exportador4.
Nos anos 1930 e 1940, as expectativas em forjar um Brasil diferente daquele
tradicionalmente rural, vinculado a imagens de atraso e arcaísmo, teriam ajudado a compor
uma determinada produção historiográfica que “esqueceu” o campo, desconsiderando seus
agentes históricos ou colocando-os em posições desprestigiadas. Isto é verificado,
especialmente, nos livros didáticos de história. O Brasil rural, não apenas aquele do

1
Este trabalho está inserido nas atividades do projeto PROLICEN Ensino de História e o lugar do Brasil
rural no livro didático, financiado pela Universidade Federal da Paraíba e coordenado pelo Professor Dr.
Damião de Lima (PPGH/UFPB).
2
Contudo, não poderíamos negligenciar o crescimento constante da população urbana entre 1940-1970. Na
verdade, a população brasileira seguiu uma tendência de alta durante praticamente todo o século XX, com
destaque para a emergência das camadas médias urbanas que tiveram crescimento superior aquele verificado
no campo. Isto, porém, não suplanta o fato de que o mundo rural ainda representava mais da metade da
população até os anos 1960. Ver http://www.ibge.gov.br (acesso em 3/5/2010, às 20h55).
3
Ver http://www.ipea.gov.br (acesso em 22/5/2010, às 10h11) e GREMAUD et al, 2009.
4
Para não sermos simplistas, cabe lembrar que as expectativas por um Brasil “moderno” e industrial não
eram expressões apenas do Estado, mas de grande parte da sociedade brasileira desde o início do século XX.
2

modelo agrário-exportador e da exploração em regimes extremos, mas o do camponês, de


seu cotidiano, sua cultura, formas de luta e sobrevivência, este sempre existiu, sua história,
porém, não tem sido contada. Este trabalho, inserido num contexto de revisitação e
confecção de novos significados sobre o campo, pretende analisar a construção destas
imagens depreciativas do mundo rural no Brasil entre as décadas de 1930 e 1940,
nomeadamente a presença destas representações nos livros didáticos de história mais
recentes.
De início, discutiremos o contexto de crise em que se desencadeou a chamada
“Revolução de 1930”, marco inaugural da dita “fase urbano-industrial” do Brasil. Logo
após, faremos um percurso, verticalizando a discussão, sobre o projeto de desenvolvimento
estado-novista (1937-45). Como um Estado de ideologia nacionalista encarou o desafio da
modernização? Por fim, analisaremos, em associação, as imagens do Brasil “arcaico” e
rural produzidas por intelectuais nos anos 30 e suas influências nos atuais livros didáticos
de história. Como estes significados historiográficos sobre o campo, produzidos a mais de
setenta anos, foram re-apropriados pela escrita da história escolar recente? Ainda que não
haja uma relação tácita entre tais discursos, indiscutivelmente uma cultura histórica 5 de
negligência e/ou desmerecimento do mundo rural vem sendo (re)produzida desde aos anos
1930.

II – CONTEXTO HISTÓRICO – A CRISE E A “REVOLUÇÃO”

O início da década de 1930, no Brasil, foi marcado por um período de crise que já
tinha desdobramentos desde os anos 20. Assume-se nos anos 30 um projeto modernizador
que tentou criar um Brasil urbano e industrializado, entretanto, é apenas em 1937 que tal
processo foi consolidado, através do golpe do Estado Novo com suas medidas
modernizantes, industriais e, sobretudo, nacionalistas. Contudo, para melhor entendermos
tal momento de crise que desembocou nesse projeto urbanizador, devemos voltar à década
anterior e compreender quais as condições que permitiram as modificações ocorridas nos
anos 1930. Enfocaremos três eixos principais que servirão de base para o entendimento da
crise e das mudanças por ela propiciada: a sociedade, a economia e a política.
É interessante, a princípio, caracterizar a crise como sendo um “período de
insatisfação”. “A crise pode ser caracterizada como um período de crescente insatisfação,
descontentamento e tomada de consciência de que a continuidade do status quo não mais
satisfaz ou é tida como inviável” (BRUM, 1999, p. 169). Deste modo, podemos começar
afirmando que a sociedade dos anos 20 não estava mais satisfeita com suas estruturas,
ainda coloniais, que tinha as oligarquias rurais, os latifúndios e a economia agrário-
exportadora como base.
No âmbito social, as mudanças aconteciam a partir da formação de novas classes,
a exemplo das camadas médias e de uma pequena burguesia, além do proletariado. Estas
novas classes passaram a reivindicar maior participação na política do país, a qual era
dominada por oligarquias rurais, e, assim, criaram um primeiro ponto de insatisfação que
foi determinante posteriormente.

5
Utilizamos a definição do Professor Elio Chaves Flores que entende “[...] por cultura histórica os
enraizamentos do pensar historicamente que estão aquém e além do campo da historiografia e do cânone
historiográfico. Trata-se da inserção entre a história científica, habilitada no mundo dos profissionais como
historiografia, dado que se trata de um saber profissionalmente adquirido, e a história sem historiadores, feita,
apropriada e difundida por uma plêiade de intelectuais, ativistas, editores, cineastas, documentaristas,
produtores culturais, memorialistas e a artistas que disponibilizam um saber histórico difuso através de
suportes impressos, audiovisuais e orais” (FLORES, 2007, p. 95).
3

Do ponto de vista econômico, podemos destacar a representatividade que teve a


crise do café, na qual o produto foi abalado, primeiramente, pela malograda política de
valorização de seu preço e, posteriormente, pela crise internacional de 1929 que abateu os
cafeicultores brasileiros. A partir deste abalo, visto que o café era o principal produto de
exportação do país, pleiteou-se a fundação de uma nova dinâmica econômica, a industrial.
No eixo político, as insatisfações se davam com a contestação do sistema vigente.
A velha burguesia cafeeira dominava a política e até então esta condição não havia se
alterado. Boris Fausto afirma “A um tempo dominante e dependente, a burguesia cafeeira
impôs no país, durante os três primeiros decênios do século, sua hegemonia social e
política” (MOTA, 2001, p. 230).
De modo geral, podemos afirmar que a crise do café abriu espaço para que se
percebessem mais facilmente as insatisfações crescentes. Como dito, estavam nascendo
novas camadas sociais, representantes de novos interesses, impossíveis de serem satisfeitos
na estrutura vigente. A política, antes voltada aos anseios rurais, passa a ser dividida com o
mundo urbano em ascensão. Diante de tais insatisfações, surgira um movimento que
contestação: a Aliança Liberal. Todavia tal movimento não pretendeu transformar de fato a
estrutura política vigente, pois era composto essencialmente por oligarquias que se
contrapunham a hegemonia cafeeira.

Frente de oposições estaduais, a Aliança não é um partido político,


não exprime interesses industriais, mas as reivindicações de vários
grupos desvinculados da economia cafeeira; assume timidamente
essas reivindicações econômicas e faz da reforma política o centro
do seu programa (MOTA, 2001, p.234-235).

As oligarquias que constituíram a Aliança eram as de Minas Gerais, Rio Grande


do Sul e Paraíba e tinham no nome do gaúcho Getúlio Vargas o candidato a presidência da
República, contando com o apoio das classes médias e dos tenentes. As fraudes, muito
freqüentes no período, ocorreram novamente nas eleições de 1929. Derrotado nas urnas, o
grupo da Aliança Liberal, com apoio de alguns militares, conseguiu se mobilizar e tomar o
poder em 1930. Com a vulnerabilidade do poder central, não houve muita dificuldade dos
manifestantes conquistarem as principais cidades, em um movimento conhecidíssimo da
historiografia brasileira, a “Revolução de 1930”6.
Foi a partir deste movimento que o Estado brasileiro, de fato, iniciou seu projeto
urbano e modernizador, tendo a industrialização como base. Foi neste momento também
que aflorou o sentimento nacionalista, um nacionalismo novo que atraiu jovens e
intelectuais dispostos a tentar explicar e conhecer melhor o país. Contudo, apenas em 1937
o projeto urbano e industrial do Brasil começou a se concretizar, criando grande
divergência entre o campo e a cidade.

III – ESTADO NOVO, NACIONALISMO E MODERNIZAÇÃO (1937-45)

O presente é sempre uma síntese dos passados orientando-se a partir de uma


representação particular do tempo histórico. Nenhuma ruptura se processa apenas com a

6
O termo “Revolução” para designar o movimento de 1930 tem sido cada vez mais problematizado e
relativizado nas interpretações recentes sobre evento. Para uma análise da chamada “Revolução de 1930”, ver
MOTA, 2001. p. 227-255.
4

negação pura e simples daquilo que era, porém afirma-se numa complexa articulação entre
mudança e continuidade. Estas duas categorias temporais são, assim, imprescindíveis ao
conhecimento histórico, entendido como o conhecimento das durações humanas7. Avaliar
os impactos da chamada Era Vargas, especialmente sua face autoritária – o Estado Novo
(1937-45) – é fundamentalmente agrupar e relacionar as categorias de mudança e
continuidade numa conjuntura complexa de transformações materiais e mentais na
sociedade brasileira.
O pós-1930 é costumeiramente lembrado como um divisor de águas na história do
Brasil. Expressões como “Revolução”, “processo de industrialização”, “desarticulação do
modelo agrário-exportador”, ou as dicotomias “arcaico X moderno”, “urbano X
industrial”, são freqüentes nos manuais didáticos, desde os remotos aos mais recentes.
Com o advento do Estado Novo, o processo de industrialização e modernização do país
teria tomado assento como plano montado e conduzido pelo próprio Estado brasileiro que,
logo mais, suplantaria o velho modelo agrário-exportador herdado dos tempos coloniais.
Entretanto, às vezes temos a impressão que o Brasil rural, juntamente com seus atores e
lutas sociais, simplesmente desapareceu da história nos anos seguintes a 1930,
especialmente quando observados os discursos forjados à época, ou a posteriori, sobre a
estratégia nacionalista de desenvolvimento urbano-industrial do Estado Novo. Claro que
não poderíamos negar que um intenso processo de urbanização e modernização tenha se
iniciado no país por essa época, contudo, ressaltamos que são necessárias ponderações
diante de visões simplórias que estabelecem para o pós-1930 uma ruptura abrupta com o
passado agrário do país, seus sujeitos históricos e interesses em jogo.
Na verdade, concepções que associavam o futuro do desenvolvimento nacional ao
modelo urbano-industrial eram uma máxima entre os anos 1920-30, quando as crises do
liberalismo econômico e da liberal-democracia foram o esteio para a emergência no
cenário internacional de inúmeras doutrinas que defendiam a intervenção e regulação
estatal não apenas sobre as esferas produtivas, mas sobre a própria sociedade. O contexto
de descrença da ordem liberal, especialmente após a I Guerra Mundial, foi um campo fértil
para movimentos de caráter nacionalista que apelavam para a história cultural de cada
povo. No Brasil, desde os anos 1920, a intelectualidade preocupava-se em encontrar as
causas dos males da nação. Esta preocupação em entender o país e seus problemas inseria-
se numa conjuntura internacional em que temas como as massas, a cultura popular e o
desenvolvimento nacional estavam em na ordem do dia.
O movimento de 1930, por seu turno, abriu caminho para o debate entre diversos
projetos políticos, embora não possuísse uma plataforma ideológica unívoca. Assim, surgiu
uma diversidade de diagnósticos para o Brasil do pós-1930, muitos dos quais, elaborados
pelas elites políticas e intelectuais, revelavam inspiração do fascismo italiano, embora
guardassem diversas especificidades. Na verdade, o Estado Novo não produziu nenhuma
doutrina oficial. Quase sempre os longos discursos de Getúlio Vargas eram apropriados
por intelectuais do regime e transformados em máximas para a condução da nação
(OLIVEIRA et al, 1982, p. 31). A despeito da ausência de uma doutrina oficial propriamente
dita, é marcante no pensamento de ideólogos do regime, como Candido Mota Filho, a
presença de percepções claramente nacionalistas e autoritárias. Associado a crítica ferrenha
do liberalismo, concebe-se um Estado forte – um Estado novo – como uma entidade
orgânica e funcional. Trata-se de uma nova teoria política do Estado compreendido como
órgão complexo dentro de uma determinada hierarquia (OLIVEIRA et al, 1982). Esta
7
Conforme José Carlos Reis (2007), mudança diz respeito a processo, modernização, progresso, revolução,
independência e autonomia, enquanto que continuidade representa estrutura, permanência, tradição,
conservadorismo, resistência.
5

percepção sobre o Estado e sua função social balizou a execução do projeto de


desenvolvimento estado-novista.
Os ideólogos deste autoritarismo estatal – homens da estirpe de Oliveira Viana e
Francisco Campos – imaginaram uma sociedade cujo arcabouço político fosse a afirmação
da nacionalidade brasileira identificada umbilicalmente com o Estado. Não obstante, para o
avanço de seu programa, o Estado Novo teve que enfrentar desafios como a sobrevivência
de diversas práticas regionalistas e sectárias8. No plano administrativo, combateu, a partir
da nacionalização da política em diferentes frentes, com o monopólio das decisões pelo
poder central e a expansão dos poderes legislativos do Executivo Federal. Segundo Eli
Diniz, a alta burocracia estatal tornou-se o claustro da formulação das políticas públicas
(PANDOLFI, 1999, p. 27-28). Todavia, esta centralização não se deu de modo harmônico
ou sem conflitos, foram muitos os embates para definir uma espécie de “federalismo
autoritário”. Uma das grandes armas utilizadas fora, sem dúvida, a conformação das
mentalidades por meio do intenso bombardeamento ideológico por diversos canais, como a
propaganda estano-novista, as indústrias culturais e a educação, esta última amplamente
reformulada pelo Estado Novo.
Em 1931, fora criado o Ministério da Educação e Saúde Pública, órgão que
ganharia destaque especial nos anos de ditadura varguista. A partir de 1934, assumiu a
pasta o prestigiado ministro Gustavo Capanema, que logo tratou de agregar em torno de si
intelectuais ilustres como Mario de Andrade, Manuel Bandeira e Anísio Teixeira. Foi o
ministro de modernistas, músicos e poetas. Para Helena Bomeny, “[...] a educação talvez
seja uma das mais fiéis traduções daquilo que o Estado Novo pretendeu no Brasil”
(PANDOLFI, 1999, p. 139). O ministério Capanema promoveu verdadeiro inquérito sobre
a educação brasileira, cujo resultado fora o primeiro Plano Nacional de Educação,
aprovado em 1937, ano do golpe. Suas ações versaram sobre a reforma do ensino superior,
acabando com a antiga tradição de faculdades esparsas. Esperava-se que a universidade
fosse articulada para a educação das elites que dirigiam o país; na concepção estado-
novista, as classes dirigentes precisavam ser regeneradas, substituindo seu tradicional
patrimonialismo pelo reino da técnica e da ciência.
O ensino secundário também sofreu mudanças a partir da junção da antiga matriz
humanística com o novo ensino profissionalizante, visando à qualificação do operariado
para a indústria nascente. Todavia, ressaltamos que o operariado representava ainda
parcela diminuta da população, composta em sua maioria pelo campesinato excluído. Na
educação, os anseios pela criação de um novo homem se expressaram nas palavras do
ministro Gustavo Capanema: “O Ministério da Educação e Saúde se destina a preparar, a
compor, a afeiçoar o homem do Brasil. Ele é verdadeiramente o Ministério do Homem”9.
Por sua vez, a propaganda do Estado Novo explorou imagens de um Brasil
moderno porque industrial. Ao falar para as multidões, Vargas definia o tipo de trabalhador
convidado a integrar-se ao novo acordo social. Este trabalhador era o operário urbano. A
ele se destinavam as leis trabalhistas e a atenção do Estado corporativo (GOMES, 2005, p.
211-233). Todavia, tratava-se de uma parcela diminuta da população do país. A música, a
arquitetura, as artes – expressões de um Brasil moderno e urbano, porém ainda inexistente.
O sonho era a industrialização, encarada como a única via para o desenvolvimento
nacional, por ele arriscou-se tudo, inclusive o passado, o presente e o futuro de milhares de
pessoas.

8
Desde as dissidências de oligarquias regionais até a ação de imigrantes que insistiam em manter suas
tradições, especialmente o uso do idioma de origem.
9
Carta do ministro Gustavo Capanema ao presidente Getúlio Vargas, 14-6-1937. Arquivo Gustavo
Capanema, FGV/CPDOC.
6

IV – A HISTORIOGRAFIA DOS ANOS 30 E A ESCRITA DA HISTÓRIA ESCOLAR

Todas as medidas até aqui discutidas apontaram para o Brasil uma nova realidade,
dando início a um grande processo de mudança no país. Ventos novos sopravam na
república brasileira. O governo Vargas apresentava – como dito anteriormente – um novo
projeto de nação: desenvolvida, moderna, independente das potências externas, auto-
suficiente. Houve, em tal período, grande valorização do país e do ser brasileiro, tentando-
se criar uma nova identidade. Neste aspecto, era necessário identificar como se deu a
formação e quais eram as raízes da nação brasileira. O Brasil, até então, era um país
extremamente dependente e sem muita coesão interna, havendo várias oligarquias
regionais e cada uma lutando por seus interesses particulares, no qual as oligarquias de São
Paulo e Minas Gerais, por sua força, sempre se sobressaíam.

Do ponto de vista econômico, a integração regional era frágil no


Império e permaneceu frágil na República. A constituição de um
mercado nacional integrado tinha como obstáculo principal, além
de razões de ordem geográfica como a extensão do país, a
predominância do setor agrário, cujas atividades estavam voltadas
para o mercado externo (MOTA, 2001, p.232).

Por que os brasileiros se encontravam naquela situação e quais os caminhos a


serem seguidos para o desenvolvimento10? Ao tentar responder essa questão, surgiram
vários ensaios de interpretação do Brasil. Formou-se uma cultura histórica de valorização
do novo em detrimento do velho. Este seria condenado e a ele deveriam ser reservadas
apenas as prateleiras do passado.
As décadas de 1930 e 1940 foram marcadas pela efervescência intelectual.
Pensadores importantes pensavam e repensavam as representações sobre o Brasil,
influenciados pelas caracterizações econômicas, políticas e sociais que assumia o país.
Autores, mais tarde considerados clássicos da historiografia brasileira como Sergio
Buarque de Holanda e Caio Prado Junior, começavam a escrever intensamente (em
quantidade e qualidade) sobre o passado brasileiro, na lógica da compreensão do presente
pelo passado e identificação dos caminhos futuros11. As primeiras e, talvez, principais
obras de tais autores, versaram sobre o passado agrário-exportador do Brasil, responsável
pelo atraso do país.
S. B. Holanda, por exemplo, afirma terem os portugueses implantado “uma
civilização de raízes rurais” (HOLANDA, 1995, p. 73), nas quais se desenvolveu o Brasil.
As cidades, até o fim do século XIX, apresentavam-se num plano secundário em relação ao
campo. Fora neste que se formara o patriarcalismo e as grandes oligarquias rurais, alvos de
grandes críticas no período12. Estes comporiam a “herança rural” deixada ao Brasil, já que
10
“Desenvolvimento” que naquele período era sinônimo de industrialização.
11
Numa lógica da história como Magistra Vitae (Mestra da vida). Isto fica evidente na observação de Caio
Prado Junior ao explicar a importância de estudar o período que ele propõe, pois “constitui uma chave, e
chave preciosa e insubstituível para se acompanhar e interpretar o processo histórico posterior e a resultante
dele que é o Brasil de hoje” (PRADO JUNIOR, 2000, p. 1)
12
Ao criticar o paternalismo patriarcal, S. B. Holanda afirma que “esse rígido paternalismo é tudo quanto se
poderia esperar de mais oposto, não já às idéias da França revolucionária, esse ópios políticos (sic), como
lhes chamou acrimoniosamente o mesmo Silva Lisboa, mas aos próprios princípios que guiaram os homens
de Estado norte-americanos na fundação e constituição de sua grande República” (HOLANDA, 1995, p. 85).
Nesta citação fica evidente a concepção moderna do pensador, tendo como modelo de Estado moderno e
desenvolvido os Estados Unidos e a França, fazendo o Brasil oposição a eles.
7

por muito tempo, tais relações patriarcais e oligárquicas dominaram tanto no campo como
nas cidades. Segundo o autor, após a abolição, iniciou-se incipiente desenvolvimento das
cidades, com “especuladores sem raízes rurais”, criando “dois mundos distintos que se
hostilizavam com rancor crescente, duas mentalidades que se opunham como ao racional
se opõe o tradicional, ao abstrato se opõe o corpóreo e o sensível, o citadino e cosmopolita
ao regional e paroquial” (HOLANDA, 1995, p. 78).
Caio Prado Junior, por sua vez, apresenta uma visão também negativa sobre o
passado brasileiro, talvez de maneira mais intensa. O “sentido da colonização” do Brasil
seria responsável pela sua vocação agrícola-exportadora, escravocrata e latifundiária.13
Desta forma, tinha se fundado um Brasil dependente de sua produção agrária ligada às
relações econômicas externas, o que explicaria sua situação de atraso. O autor pensa no
ideal de soberania nacional, do desenvolvimento da nação que se daria com o completo
desligamento das relações coloniais. “Numa palavra, não completamos ainda hoje a nossa
evolução da economia colonial para a nacional” (PRADO JUNIOR, 2000, p.3). Isto só
seria possível, uma de suas formas, com a industrialização, trazendo autonomia ao país.
Esta historiografia de crítica ao passado rural se fundou nos anos 1930 e se
consolidou, tornado-se muito presente nos livros didáticos de História do Brasil. São obras
“obrigatórias” nas referências dos livros didáticos. Neste momento do presente trabalho,
analisaremos algumas produções didáticas, buscando observar quais as representações
constantes sobre o mundo rural nos conteúdos referentes ao período entre 1930-1945.
O primeiro livro discutido será o de Joana Neves e Elza Nadai14, História do
Brasil, livro em sua 20 a Edição, o que mostra seu alcance e êxito. O livro está dividido
cronologicamente, estando reservado um capítulo especial à Era Vargas (A Segunda
República e o Estado Novo: a Era Vargas). As autoras dividem o período em três fases: a
fase revolucionária (1930-1934); a fase constitucional (1934- 1937); e o período do Estado
Novo (1937-1945).
Do período destacado, Nadai e Neves tentam apresentar um panorama geral em
seus aspectos sociais, culturais, econômicos e políticos, tendo este mais ênfase. O que
chama mais atenção, todavia, é a parte introdutória do capítulo, na qual as autoras
descrevem rapidamente as características da Era Vargas e resumem o período da seguinte
forma: “Em outras palavras, pode-se falar em superação de um Brasil arcaico (sic) por um
Brasil moderno (sic)”15. (NADAI; NEVES, 1997, p. 320). Mais adiante, ao discutirem os
aspectos culturais, as autoras destacam a música, principalmente o samba, as expressões
literárias do período, marcadas pelo regionalismo, o cinema etc., acabam por excluírem o
campo afirmando que “Todas essas modificações atingiam as cidades, pois o campo ainda
estava mergulhado em outras épocas” (NADAI; NEVES, 1997, p. 325). Porém, nestes dois
momentos, Nadai e Neves abrem margens para interpretações que percebam certa
inferioridade do campo em relação à cidade. Ao lado desta última afirmação, apresenta-se
a figura do Jeca Tatu visto como “um homem do campo que era preguiçoso devido aos
vermes” (NADAI; NEVES, 1997, p. 325), ou seja, ambas acabam por reproduzirem um
discurso negativo do camponês, chegando até a desqualificá-lo. Ao discorrerem sobre “as
diretrizes econômicas”, as autoras apontam o Período Vargas como
13
Segundo Prado Junior, “Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos
constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde ouro e diamantes; depois,
algodão, e em seguida café, para o comércio europeu. Nada mais que isto” (PRADO JUNIOR, 2000, p. 20).
Ou seja, se o Brasil se fundou nessa estrutura e era um país, até então, atrasado, era necessário mudá-la.
14
Professoras da Universidade Federal da Paraíba e da Universidade de São Paulo, respectivamente, entre as
décadas de 1970 e 1980.
15
Neste momento elas deixam transparecer uma concepção etapista da história.
8

Um marco fundamental na transição da economia agrário-


exportadora, que tinha no mercado externo seu pólo dinâmico, para
uma economia de base industrial, que tinha perspectivas de
substituir em função do seu mercado interno (NADAI; NEVES,
1997, p. 331).

Assim, neste momento, elas são menos enfáticas ao descrever o processo de


transição como superação, como se depois de 1930 não houvesse mais campo. Ressalte-se,
no período anterior abordado no livro (A Primeira República: do apogeu à crise), as
autoras destacam um espaço considerável só para discutir questões relacionadas à
agricultura, citando todos os principais produtos do Brasil, além de discutir o início da
industrialização, muito incipiente na década de 1920. Mas o que podemos observar,
contudo, é que, com exceção da última citação feita, as autoras abordam o período Vargas
(1930-1945) como o período que industrializou, urbanizou e modernizou o país, excluindo
o campo das discussões e, quando o apresentando, excluindo-o do processo histórico e, até
mesmo, depreciando-o.
Toda História, de José Jobson de A. Arruda e Nelson Piletti16, é um livro
dedicado não só à História do Brasil, mas à chamada História Geral. Deste modo, os temas
acabam sendo quase sempre abordados de forma resumida e limitada, o que é muito
comum nos livros didáticos. Ao discutirem a Primeira República, os autores destacam,
evidentemente, o poder das oligarquias. Destacando a existência de um país rural, os
autores citam os principais produtos do país, em geral de origem agrícola. Segundo eles,
“Entre o fim do século XIX e o início do século XX, a exportação de matérias-primas e de
gêneros tropicais continuou sendo a principal marca da economia brasileira” (ARRUDA;
PILETTI, 2004, p. 321). Pouco adiante, os autores destacam o crescimento industrial do
Brasil, reflexo, dentre outros motivos, da Primeira Guerra Mundial, criando novas classes
como o proletariado e a classe média.
Após a crise dos anos 1920 e a eclosão do movimento de 1930, os autores citam
pouco o mundo rural. Citam alguns movimentos do período de 1930, como a revolta
constituinte de 32 e o levante comunista de 1935. Ao abordarem o Estado Novo, Arruda e
Piletti falam da diminuição da importância do café e da tentativa de diversificação da
produção, como o incentivo à laranja, abacaxi etc, todavia, isto é feito de maneira forma
muito breve, dedicando apenas algumas linhas.
Por fim, citamos A escrita da História (2005), de Flávio de Campos e Renan
Garcia Miranda17. Trata-se de uma produção bastante recente, constando, inclusive, na lista
de indicados pelo PNLEM do Ministério da Educação no triênio 2009-2011. O livro
apresenta formatação gráfica inovadora, mas sua abordagem, especialmente no que diz
respeito aos conteúdos do Brasil pós-1930, é tão tradicional quanto aquela apresentada em
outras obras. A tendência de desconsideração de uma história do campo pós-1930 está
presente, sobretudo pelas oposições entre o rural e o urbano e as dicotomias entre o arcaico
e moderno para caracterizar as relações entre dois “Brasis”, antes e depois de 1920-30.
Entretanto, os autores fazem rápida menção à manutenção das estruturas de exploração no
campo para o período em questão, especialmente ao relatarem as alterações processadas no
mundo do trabalho nas cidades, que não atingiram, igualmente, os camponeses (CAMPOS;
MIRANDA, 2005, p. 489).

16
Ambos, professores da Universidade de São Paulo.
17
Flávio de Campos é professor da Universidade de São Paulo e Renan Garcia Miranda é professor das redes
pública e privada de Ensino Médio em São Paulo.
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Mantêm-se a hegemonia de certa história dos fatos políticos da nação que, a partir
do marco da Revolução de outubro de 1930, dirigiram-se marcadamente para a
industrialização e urbanização do país. Não é mencionada a recepção do projeto estado-
novista no mundo rural, como por exemplo, o impacto das leis trabalhistas e da propaganda
entre os camponeses excluídos. A história narrada ainda é a história do Brasil urbano em
que o campo é inserido subordinadamente. Esta tendência é ainda mais acentuada nos
demais livros analisados, escritos nos anos 1990 e início de 2000. Vale ressaltar que o
presente trabalho se insere num projeto em fase inicial e que os apontamentos feitos até
aqui têm o intuito de suscitar discussões sobre a temática.

V – CONSIDERAÇÕES FINAIS

Num contexto em que o mundo rural é revisitado em seus significados, são


inúmeros os problemas desencadeados por discursos que negligenciam seu papel na
história. A não-identificação dos sujeitos do campo com sua própria cultura e trajetórias de
luta diminui as possibilidades de resistência às condições de exploração e exclusão. Do
mesmo modo que, a negligência da história destes sujeitos, além negar o direito a um
“passado”, assegura a não-problematização e o encobrimento da histórica injustiça e
violência social presentes no campo brasileiro. Os esquecimentos, omissões e preconceitos
sofridos pelos sujeitos do mundo rural apenas favorecem os setores sociais responsáveis
pela manutenção das estruturas de dominação no campo.
Ressaltamos, entretanto, que algumas das obras didáticas analisadas e seus
respectivos autores estavam inseridos num determinado lugar social18 em que estas
questões ainda não estavam em pauta com intensidade, pelo menos não nas universidades.
Não obstante, atualmente torna-se cada vez mais premente a necessidade de políticas
públicas voltadas para o mundo rural, ganhando destaque a reivindicações por uma
educação do campo e pela efetivação da reforma agrária19, bandeiras fundamentais das
lutas por justiça e emancipação social neste espaço. No conhecimento histórico, sobretudo
com a criação, em 2004, do primeiro Curso de História para os movimentos sociais do
campo (PEC/MSC/UFPB), acena-se para a feitura de novas histórias dos sujeitos inseridos
neste universo, reconhecendo-os e valorizando-os, não mais subordinadamente, porém
sobrelevando suas especificidades e sentidos. Este trânsito tende a ser muito positivo, em
especial por que indica para a produção de novos materiais didáticos comprometidos com
uma educação no e do campo. “No campo” por que as pessoas tem direito de serem
educadas no lugar onde vivem; e “do campo” por que elas, igualmente, tem o direito ao
acesso a uma educação pensada a partir de seu lugar social (ARROYO; CALDART;
MOLINA, 2004, p. 149-150).

REFERÊNCIAS

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do passado: historiografia e ensino de história. Rio de Janeiro: FGV, 2007
ARROYO, Miguel G.; CALDART, Roseli S.; MOLINA, Mônica C. (orgs). Por uma
educação do campo. Petrópolis: Vozes, 2004.

18
“Lugar social” aplicado aqui no sentido dado por Michel de Certeau (2008).
19
Lutas empreendidas desde o processo de redemocratização na década de 1980, após décadas de supressão
pelo regime militar (1964-1985).
10

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