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HISTÓRIA DO DIREITO O estudo do direito

romano e as bases dos sistemas legais


contemporâneos
05/10/2010 por Alessandro Hirata

Tolhida das grades horárias da maioria das faculdades de direito no Brasil, a matéria de direito
romano no curso de graduação torna-se cada vez mais desconhecida ou mal entendida. Qual a
importância, entretanto, de se estudar nos dias de hoje, como se faz nas principais universidades
européias, o direito de uma civilização que atingiu o seu apogeu há cerca de dois mil anos?

É de conhecimento notório que o nosso direito privado, mais especificamente o direito civil, deriva
diretamente do direito romano. As estruturas jurídicas, a terminologia e diversas figuras jurídicas do
nosso Código Civil, assim como de grande parte dos códigos civis ocidentais, são originárias no
direito romano. Há artigos no Código Civil brasileiro e em outras codificações modernas que são
meras traduções de textos dos juristas romanos do Digesto.. O artigo 186 do Código Civil brasileiro,
por exemplo, que trata dos danos causados ilicitamente, gerando prejuízo a outrem, é claramente
uma evolução da chamada lex Aquilia, de 286 a.C. É o que até hoje chamamos de responsabilidade
aquiliana, um dos fundamentos mais basilares do direito. Do mesmo modo, o artigo 1253 do Código
Civil brasileiro, tratando do direito de propriedade sobre construções e plantações, nada mais é do
que a consagração do princípio "superfícies solo cedit" presente nas fontes romanas: tudo aquilo
que é construído (ou plantado) no solo passa a integrá-lo e, consequentemente, a pertencer ao
proprietário do terreno.

Vale lembrar que as instituições de direito privado contemporâneas são fruto do desenvolvimento da
ciência do direito, cujo início ocorre com o renascimento do estudo das fontes romanas, passa pela
obra dos glosadores e comentadores, e atinge seu momento de maior brilhantismo com os
pandectistas alemães, os grandes cultores do direito no século XIX. Desse modo, as grandes
codificações do século XIX, principalmente o BGB, Código Civil alemão, que influenciou
profundamente o Código Civil brasileiro de 1916 (e, consequentemente, também o nosso código
atual), não seriam possíveis sem o chamado direito romano comum, que tanto contribuiu para a
estrutura e os dispositivos legais.

Portanto, o conhecimento do direito romano foi e é até hoje de grande importância para o melhor
entendimento dessas codificações. Afinal, é do direito romano e de seu estudo que se extraem os
fundamentos para os códigos modernos. Não se pretende dizer, entretanto, que o conhecimento do
direito civil moderno só é possível para aqueles que dominam o direito romano. Por outro lado, o
direito romano contribui sobremaneira para o entendimento do direito civil moderno, esclarecendo
os pilares dos sistemas de direito privado, ou seja, facilita-se por meio do direito romano o acesso
aos conceitos civilísticos modernos.

Da mesma forma, o direito romano torna não apenas o entendimento do direito civil moderno mais
fácil, mas do direito como um todo. Isso é possível, uma vez que suas figuras jurídicas, suas
máximas e sua terminologia alcançaram e influenciaram os sistemas jurídicos de todo o mundo. O
chamado direito europeu, criado em resposta às necessidades geradas pelos avanços da União
Européia, é um notável exemplo da importância atual do direito romano. Não raramente as decisões
do Tribunal de Justiça da União Européia citam princípios e regras do chamado ius commune,
derivado do direito romano, vigente antes das grandes codificações. Ou seja, esses princípios
romanísticos são aplicados pelos tribunais como base e parte do direito europeu, sendo previstos no
Tratado de Roma de 1957, que instituiu a Comunidade Econômica Européia e a Comunidade
Europeia da Energia Atômica, como "princípios gerais comuns aos direitos dos Estados-Membros".

Além disso, não somente o direito privado moderno foi influenciado pelo direito romano. Vale
lembrar que grande parte dos nossos chamados direitos fundamentais já existiam no chamado ius
commune e derivam diretamente de fontes de direito antigo. Tais direitos e princípios ganharam
fôlego e reconhecimento na Revolução Francesa, inspiraram a luta pela independência e a fundação
dos Estados Unidos, movimentos estes que deram origem às Constituições do mundo ocidental.
Muitos dos valores e ideias centrais de nossas modernas Cartas Magnas já estavam presentes no
direito romano, incluvise os atuais conceitos de "direito" e "justiça".

Por fim, e ainda mais admirável, a importância do direito romano concentra-se no fantástico
desenvolvimento e refinamento atingidos principalmente no campo do direito civil. O que
chamamos hoje de direito romano representa um milênio de desenvolvimento do pensamento e dos
sistemas jurídicos, que atingiu o seu auge no direito clássico. Algumas das soluções jurídicas
romanas, especialmente de direito privado, provaram-se atemporais, sendo adotadas até hoje. Desde
o renascimento do direito romano na idade média, passando pelos glosadores, comentadores,
humanistas, pela Escola Histórica e pela pandectística, até os dias atuais, como uma ciência
histórica do direito romano, as antigas fontes romanas sempre nos revelaram e revelam inesperados
e fundamentais novos conhecimentos.