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Módulo XI - Prescrição

Objetivos

Ao final do Módulo XI, o aluno deverá ser capaz de conhecer a abrangência do


instituto da prescrição no âmbito do regime administrativo disciplinar.

Introdução

De imediato, antes de adentrar na análise do tema, assevera-se que, no regime


administrativo disciplinar, o instituto da prescrição acarreta a extinção da
punibilidade. Ou seja, se refere à aplicação da pena, que é matéria da
autoridade julgadora, não devendo, a princípio, ser objeto de análise da
comissão. Todavia, se na defesa o acusado provocar a discussão do assunto,
a comissão pode abordá-lo no relatório apenas de forma condicional,
reservando a decisão à autoridade julgadora. Ainda, convém à comissão alertar
a autoridade acerca da possibilidade de ocorrência da prescrição em data
futura próxima.

Por outro lado, por ser de ordem pública, a prescrição, uma vez configurada,
deve ser declarada pela autoridade julgadora mesmo que o acusado não a
alegue.

Lei nº 8.112, de 11/12/90 -Art. 112. A prescrição é de ordem pública, não


podendo ser relevada pela administração.
“No Direito Administrativo, a prescrição é de ordem pública -art. 112 da Lei nº
8.112/90 e, como tal, deve ser conhecida e declarada pelo julgador,
independentemente de provocação da parte interessada, não podendo ser
relevada pela administração.” Francisco Xavier da Silva Guimarães, “Regime
Disciplinar do Servidor Público Civil da União”, pg. 186, Editora Forense, 2ª
edição, 2006.
A AGU, por meio da Nota Decor/CGU/AGU nº 73/2009-MCL, aprovada pelo
Despacho-CGU/AGU nº 1.938/2009, do Consultor-Geral da União, entendeu
que, como o processo disciplinar tem como objetivo esclarecer os fatos, buscar
a verdade material ou real, e não punir, ainda que a análise quanto ao
cabimento do processo disciplinar ocorra após o vencimento do prazo de
prescrição e, portanto, já extinta a punibilidade, a Administração poderá decidir
pela instauração e apuração das supostas irregularidades:

Nota Decor/CGU/AGU nº 163/2008-PCN: [...] 31. Face ao exposto, conclui-se


que a prescrição da pretensão punitiva da Administração Pública Federal não
constitui causa prejudicial à instauração de Processo Administrativo
Disciplinar para fins de apurar infração funcional imputada a servidor público.
32. Em que pese não haver obrigatoriedade de instauração de PAD, a
autoridade não se encontra isenta de apurar os fatos imputados ao servidor a
fim de que seja constatada a sua existência, autoria e o elemento subjetivo
da conduta ilícita, o que poderá se dar por meio de mera sindicância,
assegurando-se o contraditório e ampla defesa quando houver registro nos
assentamentos funcionais do servidor a respeito da extinção da punibilidade
pela prescrição (art. 170, da Lei nº 8.112/90).
33. Caso a infração seja capitulada como crime, deverão os autos ser
remetidos para o Ministério Público, a fim de que adote as providências
cabíveis (art. 172, da Lei nº 8.112/90). Constatado dano ao erário ou a
terceiros, os autos deverão ser encaminhados ao órgão responsável para o
ajuizamento da competente ação ordinária, face à imprescritibilidade da ação
de responsabilização do servidor público (art. 37, § 5º, da Constituição
Federal e art. 122, da Leinº 8.112/90).

Ocorre que o art. 52 da Lei nº 9.784/1999, segundo o qual “O órgão


competente poderá declarar extinto o processo quando exaurida sua finalidade
ou o objeto da decisão se tornar impossível, inútil ou prejudicado por fato
superveniente”, dispõe que a Administração pode deixar de exercer seu direito
de agir e não instaurar um processo disciplinar cuja punibilidade se encontra
prescrita. Nesse caso, recomenda-se que fundamente sua decisão nos
princípios da legalidade, da oficialidade, da busca da verdade material, da
eficiência e do interesse público.

Em relação a não instauração em razão da prescrição para a aplicação de


penas expulsivas, a decisão da autoridade poderá encontrar respaldo legal no
art. 52 da Lei nº 9.784/1999 e no Enunciado nº04, de 04/05/2011, da Comissão
de Coordenação de Correição, abaixo transcrito:

Enunciado CGU/CCC nº 4, de 04/05/11: Prescrição. Instauração. A


Administração Pública pode, motivadamente, deixar de deflagrar
procedimento disciplinar, caso verifique a ocorrência de prescrição antes da
sua instauração, devendo ponderar a utilidade e a importância de se decidir
pela instauração em cada caso.

Entretanto, diante de períodos de tempo inferiores e, ou de indícios de


cometimento de irregularidades menos graves, para as quais é cabível a
aplicação das penalidades de advertência ou suspensão, recomenda-se
instaurar o processo disciplinar no caso de prescrição dessas penalidades,
tendo em vista que a apuração dos fatos poderá resultar no descobrimento de
outros ilícitos mais graves e que, a princípio, não foram identificados. Além
disso, esse ilícito poderá ter repercussão criminal, caso em que a prescrição
deverá ser computada de acordo comas regras estabelecidas na lei penal, ou
repercussão civil.

Unidade 1 - Termo Inicial da Contagem do Prazo Prescricional

No regime administrativo disciplinar, a prescrição visa a punir inércia da


administração que, sabendo de suposto ilícito, não diligencia na exigida
apuração, embora já tivesse elementos para fazê-lo. Assim, em primeiro
momento, pode-se dizer que a prescrição decorre da aferição do tempo
transcorrido entre a ciência de suposto ilícito, por parte da administração, até a
instauração de processo administrativo disciplinar.

Resulta de expressa determinação legal (art. 142, § 1º da Lei nº 8.112, de


11/12/90) que esse cômputo da prescrição não se inicia da data do
cometimento do fato supostamente irregular, mas sim da data em que ele se
tornou conhecido. A prescrição não pune a administração por inércia ao tempo
em que ela não tinha condições de promover a apuração, por ainda não saber
do fato.

Lei nº 8.112, de 11/12/90, Art. 142, § 1º

A Configuração do Conhecimento do Fato

Todavia, a Lei não foi clara ao estabelecer de quem se requer o conhecimento


do fato para dar início à prescrição: se de qualquer servidor, se de qualquer
autoridade ou se apenas da autoridade competente para instaurar o processo.

Primeiramente, se aduz que o instituto da prescrição é voltado à administração,


ao ente legalmente detentor do poder-dever de apurar e, se for o caso, de
punir, no objetivo impessoal de restabelecer a sua própria ordem interna,
institucionalmente. O fato de, na prática, a administração ser conduzida por
pessoas não se confunde com a impessoalidade com que se trata a
indisponibilidade do interesse público. Essa introdução leva afastar a tese de
que se configura o tal “conhecimento” exigido no § 1º do art. 142 da Lei nº
8.112, de 11/12/90, quando qualquer servidor tem ciência de suposta
irregularidade. A leitura que se dá ao citado dispositivo legal é de que se exige
o conhecimento por parte da administração, ou seja, por parte de quem a
exerce, de quem administra, de quem, enfim, tem cargo ou função de
confiança. Ao servidor sem poder decisório de conduzir a administração, cabe
o dever de representar, conforme art. 116, VI e XII do citado Estatuto.

Resta, portanto, definir qual é a autoridade que representa a administração


para o fim de que aqui se cuida. A primeira abordagem, meramente conceitual
e teórica, seria de que qualquer detentor de cargo em comissão ou função de
confiança, em última análise, ainda que em diferentes graus, representa a
administração. Daí, ter-se-ia configurado o conhecimento por parte da
administração no momento em que qualquer autoridade, inserida na via
hierárquica do órgão, desde o chefe imediato do representado até o dirigente
máximo, mesmo que sem competência estatutária correcional, tivesse
conhecimento de suposta irregularidade.

Embora não desça à minúcia (e nem poderia mesmo fazê-lo, diante da


diversidade e das peculiaridades do conjunto de órgãos que integram a
administração pública federal), a Lei nº 8.112, de 11/12/90, em seu art. 143 e
também no parágrafo único de seu art. 116, aponta no sentido inespecífico e
genérico de que a competência disciplinar reside em via hierárquica. Ou seja,
para a Lei, a princípio, a autoridade em sentido lato é responsável pela
promoção da imediata apuração. Extrai-se portanto, teleologicamente, que o
instituto da prescrição repercute na via hierárquica, pois é de uma autoridade
hierarquicamente superior ao representado que se espera a diligência no
sentido de deflagrar a apuração, recaindo sobre ela o ônus de cuidar da
prescrição diante de sua inércia.

Percebe-se que a fria leitura da Lei não afasta a imprecisão do tema. Assim,
cabe trazer à tona a manifestação exarada pela Advocacia-Geral da União no
Parecer-AGU nº GQ-55. Antes, porém, é de se dizer que, na verdade, sobre
matéria de prescrição, tal Parecer aborda a questão da normatização aplicável
à contagem do prazo prescricional por infração cometida ainda sob a vigência
da Lei nº 1.711, de 28/11/52, antes da edição da Lei nº 8.112, de 11/12/90, mas
apurada já depois da entrada em vigor desse atual Estatuto. Ou seja, para este
assunto, o cerne da discussão do referido Parecer era identificar qual a norma
aplicável àquele caso específico de transição, não sendo o seu foco interpretar
o § 1º do art. 142 da Lei nº 8.112, de 11/12/90. Não obstante, após o
esclarecimento que se intencionava, neste Parecer, vinculante para toda a
administração pública federal, vez que foi aprovado pelo Presidente da
República e publicado oficialmente, o órgão de assessoramento manifestou
entendimento, bastante restritivo, de que o termo inicial da prescrição somente
se configura com o conhecimento de suposta irregularidade especificamente
pela autoridade competente para instaurar o feito disciplinar.

Parecer-AGU nº GQ-55, vinculante: “19. A inércia da administração somente


é suscetível de se configurar em tendo conhecimento da falta disciplinar a
autoridade administrativa competente para instaurar o processo.”

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Tomando-se em conjunto a interpretação sistemática da Lei nº 8.112, de


11/12/90, e a leitura vinculante do citado Parecer-AGU, tem-se, de imediato,
que não é o conhecimento de qualquer autoridade inserida na via hierárquica
entre o representado e o dirigente máximo do órgão ou unidade que configura
o termo inicial da prescrição. Ao contrário, embora limitado à via hierárquica
(pois assim determina a Lei), este momento tem configuração restrita,
concentrado nas mãos especificamente do superior que detém a competência
de instaurar o processo administrativo disciplinar (pois assim, em complemento
à Lei, interpreta o Parecer-AGU).

Advirta-se, todavia, que, para se considerar o fato conhecido pela autoridade


competente, não se exige o requinte de se ter a ciência pessoal desta
autoridade. A protocolização do documento noticiador da suposta
irregularidade ou a sua recepção no gabinete da autoridade, sob presunção de
bom funcionamento da máquina pública, respeitadas as peculiaridades de cada
caso em concreto, pode fazer com que se assuma conhecido o fato pela
autoridade, desde que essa protocolização seja feita especificamente no
protocolo da unidade ou órgão em que se exerça a competência disciplinar e
que o documento contenha mínimos elementos que permitam qualificá-lo como
uma representação ou denúncia válida.

Vale ainda abordar o momento em que se configura tal conhecimento em três


situações específicas. Na primeira, se a notícia de suposta irregularidade
advém de trabalho de investigação preliminar ou auditoria, de índole
inquisitorial, seja disciplinar ou patrimonial, o seu relatório equivale a uma
representação, configurando-se o conhecimento do fato no recebimento deste
relatório na unidade da autoridade competente.

Na segunda situação específica, quando a comissão, no curso de sua


apuração, tem conhecimento de um novo fato que não guarda conexão com o
fato original que provocou sua designação, este novo fato será objeto de
representação diretamente apresentada à autoridade instauradora. Nessa
hipótese, a data em que esta autoridade receber a nova peça será considerada
como o termo inicial do prazo prescricional a ser verificado até a publicação da
portaria de instauração do segundo feito disciplinar. Se este novo fato for
conexo com o fato original, a ser incluído na apuração já em curso, configura-
se o início do seu prazo prescricional específico na data do seu conhecimento
por parte do colegiado, sem nova interrupção, computando-se a partir da data
desse conhecimento o prazo em que se deveria ter a decisão definitiva
(cinqüenta, oitenta, 140 dias) adicionado ao prazo prescricional da pena (180
dias, dois anos ou cinco anos); ou seja, nesse caso, pode-se cogitar de haver
diferentes prazos prescricionais para fatos apurados dentro do mesmo
processo.
E, por fim, no caso de notícia veiculada em mídia de expressão, circulação ou
divulgação nacional, presume-se o seu conhecimento por todos (em que se
inclui a autoridade) na data de sua divulgação. Advirta-se, no entanto, que
divulgação de notícia de suposta irregularidade em meios de comunicação de
pequeno alcance ou de circulação geograficamente limitada não goza da
presunção de ostensivo conhecimento, podendo não ser considerada marco
inicial da prescrição.

“Notícias sobre corrupção e improbidade política e administrativa, caindo assim


no domínio do conhecimento comum da comunidade nacional, e às vezes
internacional, chegando a configurar o conceito jurídico de fato notório, não
deixam margem para que as autoridades administrativas das repartições
referentes justifiquem as suas omissões com alegação de que desconheciam
tais denúncias. Já que o notório é público e conhecido de todos, pode-se inferir
que tais matérias, uma vez veiculadas por jornais, revistas, rádio, televisão e
outros meios de comunicação social, podem legitimar o início do prazo da
prescrição disciplinar.” José Armando da Costa, “Controle Judicial do Ato
Disciplinar”, pgs. 125 e 126, Editora Brasília Jurídica, 1ª edição, 2002.

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Por outro lado, o início do prazo decorre do efetivo conhecimento do suposto


ilícito por parte da autoridade competente, o que não se confunde com o mero
conhecimento da existência de documento em que se encontra
consubstanciado o ilícito, mas sem saber que o documento carrega uma
ilicitude. O recebimento de um documento fraudulento não permite,
necessariamente, que se confunda com o conhecimento da fraude. Ou seja,
não se inicia o prazo prescricional com o mero encaminhamento de documento
que contenha fraude, presumindo-se o conhecimento desta. A presunção do
conhecimento da fraude é incompatível com o texto legal e com a finalidade
das normas informadoras do instituto da prescrição da punibilidade disciplinar.

Assim, a partir da data em que o fato se torna conhecido, nos moldes acima
descritos, computam-se os prazos respectivos de cada pena até a instauração
do processo administrativo disciplinar.

Lei nº 8.112, de 11/12/90, art. 142, § 2º e 3º

Estes prazos referem-se às penas julgadas cabíveis pela autoridade julgadora,


não se atrelando ao prazo prescricional da pena referente à conclusão da
comissão, vez que podem ser diferentes.

Para o caso específico do abandono de cargo, ver anteriormente.

Por fim, releva destacar que, uma vez prescrita a aplicação de penas
expulsivas, seja pelo inciso I, seja pelo § 2º, ambos do art. 142 da Lei nº 8.112,
de 11/12/90, antes da instauração do processo administrativo disciplinar, a
administração não mais deteria direito de agir para responsabilizar o servidor,
restando prejudicada a finalidade do processo, e se poderia buscar amparo no
art. 52 da Lei nº 9.784, de 29/01/99, para não se recomendar a instauração,
sem prejuízo da possível apuração de quem deu causa à prescrição.

Lei nº 9.784, de 29/01/99 - Art. 52. O órgão competente poderá declarar


extinto o processo quando exaurida sua finalidade ou o objeto da decisão se
tornar impossível, inútil ou prejudicado por fato superveniente.

Termo Inicial da Contagem do Prazo Prescricional em Razão da


Competência da Controladoria-Geral da União

Determinados órgãos da Controladoria-Geral da União, a começar por seu


dirigente

máximo, o Ministro de Estado do Controle e da Transparência, em razão do


que dispõe o art. 20, § 5º, da Lei n° 10.683, de 28/05/03, combinado com o art.
4°, VIII, do Decreto n° 5.480, de 30/06/06, têm competência para instauração
de processos administrativos disciplinares, visando a apurar responsabilidades
por ilícitos praticados no âmbito da administração pública federal.

Portanto, sem prejuízo da competência genérica para instauração,


competência essa vinculada ao poder hierárquico e prevista no art. 143 da Lei
n° 8.112, de 11/12/90, existe a competência da Controladoria-Geral da União
para a instauração de sindicância e de processo administrativo disciplinar.

Por conta dessa coexistência e pela impossibilidade de termos dois prazos de


prescrição para apenas um fato ilícito, vale consignar que se deve considerar o
marco inicial da fluência do prazo prescricional a data em que o fato se tornou
conhecido pela primeira dessas duas entidades competentes, seja ela a
autoridade competente pela via hierárquica, seja ela a Controladoria-Geral da
União, por um de seus órgãos componentes do Sistema de Correição do Poder
Executivo Federal.
Unidade 2 - Interrupção da Contagem do Prazo Prescricional e Retomada da
Contagem

Na hipótese de se ter instaurado validamente o processo ainda no curso do


prazo prescricional, tem-se que esta instauração interrompe a contagem,
desprezando-se todo o tempo que já havia transcorrido (“zerando” a contagem
e mantendo-a assim por um determinado período).

Lei nº 8.112, de 11/12/90 - Art. 142.


§ 3º A abertura de sindicância ou a instauração de processo disciplinar
interrompe a prescrição, até a decisão final proferida por autoridade
competente.

Todavia, no caso de ocorrerem prorrogações ou designação de novas


comissões, bem como instauração de PAD em decorrência de sindicância
contraditória (disciplinar), a administração não mais é beneficiada com nova
contagem do prazo, pois a interrupção somente se dá uma única vez.

Formulação-Dasp nº 279. Prescrição


A redesignação da comissão de inquérito, ou a designação de outra, para
prosseguir na apuração dos mesmos fatos não interrompe, de novo, o curso
da prescrição.

Destaque-se que a Lei nº 8.112, de 11/12/90, determina que a instauração de


sindicância ou PAD interrompe a prescrição; entende-se que o legislador se
referiu à sindicância contraditória (ou acusatória), prevista nos arts. 143 e 145
da Lei, ao amparo da interpretação sistemática da própria Lei (que se referiu
apenas a essa espécie de sindicância); caso se instaure sindicância
investigativa inquisitorial, auditoria ou qualquer outro tipo de procedimento de
investigação prévia, disciplinar ou patrimonial, não contraditório, não se
configura a interrupção do prazo prescricional, mesmo que se faça com a
formalidade de haver uma portaria de instauração ou de designação.

STJ, Recurso Ordinário e Agravo Regimental

Vale como demarcador da interrupção do prazo prescricional apenas a


instauração válida de sindicância ou PAD. Uma vez declarada nula esta
instauração, juridicamente, é como se ela nunca tivesse existido.

STJ, Mandado de Segurança nº 8.192: “Ementa: 6. Havendo anulação da


sindicância, porque sua declaração determina a exclusão do mundo jurídico
do ato viciado, o prazo prescricional da pretensão punitiva volta a ser
contado da ciência, pela Administração, da prática do suposto ilícito
administrativo.”

O fato de a administração ter instaurado validamente o processo administrativo


disciplinar de forma tempestiva afasta apenas a primeira forma de se aferir a
prescrição. Mesmo instaurado o feito disciplinar, ainda pode ocorrer prescrição,
seja no curso da apuração, seja no julgamento, até a aplicação da pena, em
razão da demora por parte da administração em fazê-lo. Portanto, na verdade,
como se vê, há dois momentos de se aferir o prazo prescricional. No primeiro,
a administração perde seu poder/dever de punir o infrator por, sabendo do
cometimento de suposta irregularidade, não providenciar a tempo a exigida
apuração. No segundo, após a instauração da apuração, a administração pode
vir a perder seu poder/dever de punir se não diligenciar para uma célere e
eficiente apuração, deixando transcorrer longo prazo com o processo em curso,
o que, por si só, traz repercussões à vida funcional do servidor.

Com a abertura de sindicância ou de PAD, a parte final do § 3º do art. 142 da


Lei nº 8.112, de 11/12/90, determina a interrupção da prescrição, “até a decisão
final proferida por autoridade competente”. Como se verá, esta expressão
requer detida análise e interpretação, pois não se cogita de que bastaria à
administração determinar a tempestiva instauração e, a partir daí, poder dispor
de todo o tempo que lhe conviesse para chegar a uma decisão final. Como se
verá adiante, a Advocacia-Geral da União e a jurisprudência cuidaram de
corretamente interpretar aquela expressão.

Antes de se prosseguir, reiterem-se os prazos que a Lei nº 8.112, de


11/12/90, no parágrafo único do art. 145, no art. 152 e no § 7º do art. 133,
respectivamente, considerou factível para se ter decisão final tempestiva em
cada rito, somando-se o prazo de julgamento do art. 167 ou do § 4º do art.
133:
* sindicância: 30 + 30 + 20 = 80 dias;
* PAD: 60 + 60 + 20 = 140 dias;
* e rito sumário: 30 + 15 + 5 = 50 dias.

Unidade 3 - Termo Final da Interrupção e Prescrição no Curso da


Apuração (Depois de Instaurar)

O Estatuto prossegue, reportando-se, no art. 142, § 3º, à hipótese esperada de


a conclusão do processo ocorrer tempestivamente. Neste caso, aquela
interrupção se mantém até o limite máximo da manifestação da decisão final,
ou seja, até a lavratura desse ato de julgamento, por parte da autoridade
competente (o que, na hipótese aqui tratada, se daria em menos de oitenta,
140 ou cinqüenta dias, dependendo do rito).

Mas pode ocorrer de a conclusão do processo extrapolar o prazo legal. Neste


caso, a expressão “até a decisão final proferida por autoridade competente” é
interpretada como o prazo original (ou inicial ou previsto) que a Lei estabelece
para que seja concluída a apuração em cada rito.
Ou seja, a interrupção se mantém até a data do julgamento, se este é
tempestivo, ou até o prazo legal do rito, se o julgamento é intempestivo. A partir
desses pontos, cessa a interrupção.

Parecer-AGU nº GQ-144

A recomendação acima assumiu caráter normativo quando o Parecer-AGU nº


GQ-144 foi citado e sua tese ratificada pela Advocacia-Geral da União no
Parecer-AGU nº GQ-159, vinculante:

“9. Assim sendo, torna-se apropriado realçar os fundamentos da juridicidade da


orientação supra (...). É ilação indutiva do raciocínio de que o término dos
prazos de averiguação da falta, incluído o dilatório, e de julgamento, destarte,
carecendo o processo de ´decisão final´, cessa a interrupção do transcurso do
período prescricional, reiniciando a contagem de novo prazo, por inteiro.”

Este também é o entendimento jurisprudencial e doutrinário:

STF, Mandado de Segurança nº 22.728

A partir daí, como a interrupção havia “zerado” a contagem ocorrida desde o


conhecimento do fato até a instauração, reinicia-se por inteiro a contagem do
prazo prescricional (de 180 dias para advertência, ou de dois anos para
suspensão ou de cinco anos para pena capital), não mais se interrompendo,
independente de prorrogações e designação de novas comissões e de
instauração de processo administrativo disciplinar em decorrência de
sindicância.
Lei nº 8.112, de 11/12/90 - Art. 142.
§ 4º Interrompido o curso da prescrição, o prazo começará a correr a partir
do dia em que cessar a interrupção.

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Convém que o presidente comunique à autoridade instauradora a ocorrência


de suspensão dos trabalhos da comissão, destacando-se que, com exceção de
ordem judicial, razões tais como licença médica do acusado, falta de recursos
financeiros para diárias e deslocamentos, aguardo de laudos periciais ou
técnicos, dentre outros, não têm o condão de suspender o prazo prescricional.

Na hipótese de o julgamento ser tempestivo, ou seja, de se ter concluída a


apuração e a autoridade já ter julgado dentro do prazo legal, a administração
tem a seu dispor todo o prazo prescricional da pena julgada para as
providências finais, entre o julgamento e aplicação da pena. No segundo caso,
em que o julgamento é intempestivo, a administração tem a seu dispor todo o
prazo prescricional da pena cabível para concluir a apuração, julgar e aplicar a
pena. Nesse segundo caso, então, na prática, a comissão pode ter para si os
seguintes prazos, para que não incida a prescrição, extinguindo a punibilidade
(somando-se o limite máximo dos ritos processuais e o prazo prescricional
relativo à pena aplicada):
* em caso de advertência, a portaria de punição deve ser publicada: § em
260 (80 + 180) dias da instauração da sindicância;
§ ou em 320 (140 + 180) dias da instauração do PAD em rito ordinário;
§ ou em 230 (50 + 180) dias da instauração do PAD em rito sumário (embora
excepcional, existe essa possibilidade);
* em caso de suspensão de até trinta dias, a portaria de punição deve ser
publicada: § em dois anos e oitenta dias da instauração da sindicância;
§ ou em dois anos e 140 dias da instauração do PAD em rito ordinário;
§ ou em dois anos e cinqüenta dias da instauração do PAD em rito sumário
(embora excepcional, existe essa possibilidade);
* em caso de suspensão superior a trinta dias, a portaria de punição deve ser
publicada: § em dois anos e oitenta dias da instauração da sindicância
posteriormente convertida em PAD (não há nova interrupção e não se conta
com a franquia de 140 dias do PAD);
§ ou em dois anos e 140 dias da instauração do PAD ordinário;
§ ou em dois anos e cinqüenta dias da instauração do PAD em rito sumário
(embora excepcional, existe essa possibilidade);
* em caso de pena capital, a portaria de punição deve ser publicada: § em
cinco anos e oitenta dias da instauração da sindicância posteriormente
convertida em PAD (não há nova interrupção e não se conta com a franquia
de 140 dias do PAD);
§ ou em cinco anos e 140 dias da instauração do PAD em rito ordinário;
§ ou em cinco anos e cinqüenta dias da instauração do PAD em rito sumário;
§ ou, em caso de pena capital, decorrente de abandono de cargo, como há
possibilidade de também se configurar crime de abandono de função: caso
tenha havido denúncia criminal ou instauração de ação penal, a portaria de
punição deve ser publicada em dois anos e cinqüenta dias da instauração do
PAD em rito sumário, pois prevalece o prazo prescricional definido no CP, de
dois anos.

Na forma de tabela, sintetizam-se os seguintes prazos prescricionais a serem


computados entre a data da publicação da portaria de instauração do rito e a
data de publicação da portaria punitiva:
Em PAD
Em PAD
Penalidade Em sindicância sob rito
sob rito sumário
ordinário

50 + 180 = 230
80 + 180 = 260 140 + 180 = dias
Advertência
dias 320 dias
(excepcional)

Suspensão 2 anos e 50 dias


2 anos e 140
2 anos e 80 dias
dias
de até 30 dias (excepcional)

Suspensão
2 anos e 80 dias 2 anos e 50 dias
2 anos e 140
de 31 a 90 dias
(excepcional) (excepcional)
dias

5 anos e 80 dias
Penas 5 anos e 140
5 anos e 50 dias
expulsivas dias
(excepcional)

Em abordagem bem simples, é como se a Lei concedesse à administração


uma “franquia”, um período que, a critério do legislador, é o esperado e o
suficiente para se concluir o apuratório disciplinar, dentro do qual não se cogita
de cobrar da administração, por meio da prescrição, a sua inércia ou demora.
Após o esgotamento desse período franqueado, inicia-se, contra a
administração, a contagem do prazo prescricional. Daí, em reforço a outros
motivos de ordem prática, tem-se mais uma razão para não se recomendar a
instauração de sindicância com base na Lei nº 8.112, de 11/12/90: o menor
prazo prescricional, pois, nela, a “franquia” após a interrupção é de apenas
oitenta dias, enquanto que no PAD é de 140 dias. Diante de situação fática que
impõe apuração disciplinar, devendo-se seguir para ambos o mesmo rito
contraditório, recomendando-se a designação também de um trio processante,
e ainda se tendo menor prazo prescricional, não resta justificativa para
instaurar sindicância.