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Economia Industrial de Empresas Farmacêuticas

Lia Hasenclever Beatriz Fialho Helena Klein Carla Zaire

Rio de Janeiro, 2010

Fialho Helena Klein Carla Zaire Rio de Janeiro, 2010 te exemplar está registrado para uso exclusivo
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© Lia Hasenclever, Beatriz Fialho, Helena Klein e Carla Zaire/E-papers Serviços Editoriais Ltda., 2010. Todos os direitos reservados a Lia Hasenclever, Beatriz Fialho, Helena Klein e Carla Zaire/E-papers Serviços Editoriais Ltda. É proibida a reprodução ou transmissão desta obra, ou parte dela, por qualquer meio, sem a prévia autorização dos editores. Impresso no Brasil.

ISBN 978-85-7650-269-2

Projeto gráfico, diagramação e capa Livia Krykhtine

Revisão

Helô Castro

Esta publicação encontra-se à venda no site da E-papers Serviços Editoriais. http://www.e-papers.com.br E-papers Serviços Editoriais Ltda. Rua Mariz e Barros, 72, sala 202 Praça da Bandeira – Rio de Janeiro CEP: 20.270-006 Rio de Janeiro – Brasil

CIP-Brasil. Catalogação na Fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livro, RJ

E22

Economia industrial de empresas farmacêuticas / Lia

Hasenclever

194p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-85-7650-262-3 1. Indústria farmacêutica. 2. Indústria farmacêutica - Brasil. I. Hasenclever, Lia.

[et al.]. - Rio de Janeiro: E-papers, 2010.

10-2417.

CDD: 338.476151 CDU: 338.45:661.13

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Agradecimentos

Contribuíram para a concepção inicial deste livro os professores do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carlos Frederico Leão Rocha e Maria Tereza Leopardi Mello, os farmacêuticos André Luís Almeida dos Reis e Maria Elisa Araújo Pessoa, bem como os alunos de graduação do curso de Economia Aline Vieira; Caroline Araújo Pessoa; Felipe Barbosa Ferreira; Pa- trícia Moura Ferreira; Pedro Humberto Bruno de Carvalho Jr.; Re- nata Moustapha Corrêa; Rodrigo Silva Lopes dos Santos. A todos os nossos agradecimentos. Agradecemos também ao monitor Gustav Damasceno e aos alunos de iniciação científica Thiago Cacicedo e Leonardo Salim Saker, todos alunos de graduação do curso de Economia, da UFRJ, pela preciosa colaboração na pesquisa e atualização dos dados. Finalmente, agradecemos o apoio financeiro da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Ja- neiro – Faperj, através do Programa “Apoio à Produção de Material Didático para Atividades de Ensino e/ou Pesquisa – 2009”, Edital nº 6/2009, sem o qual esta publicação não teria sido viabilizada.

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Sumário

11

Introdução

15

1. A organização industrial e o estudo das indústrias

15

1.1. Introdução

16

1.2. O modelo estrutura-conduta-desempenho (ECD)

23

1.3. Conceitos e evidências empíricas das barreiras à entrada e à saída

39

1.4. Medidas de concentração da atividade econômica

45

1.5. Desdobramentos e contribuições

51

2. Indústria farmacêutica internacional

51

2.1. Características da oferta

54

2.2. Características da demanda

57

2.3. Estrutura do mercado

66

2.4. Conduta

73

2.5. Desempenho

75

2.6. Políticas públicas: países desenvolvidos e países em desenvolvimento

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95

3. A indústria farmacêutica no Brasil

96

3.1. Características da oferta

100

3.2. Características da demanda

111

3.3. Estrutura de mercado

162

3.4. Conduta

164

3.5. Desempenho

167

3.6. Políticas públicas brasileiras

185

Bibliografia

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Lista de Figuras

19

Figura1. Modelo estrutura-conduta-desempenho

30

Figura 2. Escala eficiente mínima (EEM)

48

Figura 3. A abordagem estática tradicional do Modelo ECD:

análise de dois mercados hipotéticos

49

Figura 4. Relações mais complexas entre estrutura, conduta e desempenho

Lista de Gráficos

132

Gráfico 1. Preço médio dos medicamentos, 04/2000 a 04/2001

134

Gráfico 2. Média da relação entre o preço médio dos medicamentos de referência e genéricos, 05/2000 a 04/2001

141

Gráfico 3. Percentual de participação de medicamentos genéricos no mercado brasileiro

151

Gráfico 4. Setor farmacosmético brasileiro – cadeias x independentes, 1993-2000

152

Gráfico 5. Setor farmacosmético brasileiro – estabelecimentos e participação no faturamento, 1998-2000

153

Gráfico 6. Evolução por tipo de estabelecimento do setor farmacosmético, 1992-2000

153

Gráfico 7. Setor farmacosmético por tipo de estabelecimento,

1998-2000

154

Gráfico 8. Setor farmacosmético brasileiro por área – estabelecimentos e participação no faturamento, 1998-2000

155

Gráfico 9. Concentração do setor farmacosmético em termos de faturamento, 1997-2000

Lista de Quadros

63

Quadro 1. Formas de proteção patentária na indústria farmacêutica

68

Quadro 2. Etapas que envolvem P&D na criação e desenvolvimento de medicamentos

70

Quadro 3. Atividades de P&D de novos princípios ativos de empresas norte-americanas, 1999

77

Quadro 4. Regulação dos mercados farmacêuticos

78

Quadro 5. Funções essenciais do Estado nos mercados farmacêuticos

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79

Quadro 6. Sistemas de financiamento e distribuição de medicamentos

80

Quadro 7. Critérios para avaliar mecanismos de financiamento de medicamentos

81

Quadro 8. Esquemas de distribuição pública de medicamentos

84

Quadro 9. Controle de preços sobre os produtores e sobre os distribuidores

85

Quadro 10. Argumentos a favor e contra o monitoramento de preços

89

Quadro 11. Método de fixação de preços com total controle estatal nos países da América, 1994

90

Quadro 12. Método de fixação de preços com controle intermediário nos países da América, 1994

108

Quadro 13. A demanda pública por medicamentos, programa de assistência farmacêutica

145

Quadro 14. A distribuição de medicamentos no Brasil, 1998

147

Quadro 15. Perfil de alguns dos principais distribuidores, 1999

150

Quadro 16. Margens de comercialização de medicamentos no varejo brasileiro, 2001

157

Quadro 17. Perfil de algumas redes de farmácias e drogarias no Brasil, 1999

179

Quadro 18. Principais características dos subprogramas do Profarma

Lista de Tabelas

58

Tabela 1. Vendas de medicamentos no varejo, principais mercados do mundo, 1997-2008 (US$ milhões)

59

Tabela 2. Vendas globais, indústria farmacêutica (US$ bilhões)

59

Tabela 3. Maiores empresas da indústria farmacêutica mundial, faturamento, 2004 e 2008

61

Tabela 4. Participação nos gastos de P&D por doença e participação no mercado mundial, 1997

69

Tabela 5. Estrutura de custos de uma empresa farmacêutica que realiza P&D

70

Tabela 6. Maiores empresas da indústria farmacêutica mundial, vendas e gastos em P&D, 2007

71

Tabela 7. Gastos em P&D por etapa da pesquisa, companhias associadas à PhRMA, 2009 (US$ milhões)

72

Tabela 8. Principais parcerias de colaborações em P&D

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74

Tabela 9. Número de novos produtos lançados no mercado por países e por regiões, 1961-1990

97

Tabela 10. Faturamento líquido da indústria química brasileira, 1990-2008 (US$ bilhões)

98

Tabela 11. Importação de produtos químicos selecionados no Brasil, 1999

99

Tabela 12. Importação de fármacos humanos superior a US$ 10 milhões FOB, 1999

99

Tabela 13. Mercado brasileiro total em valor, 1996-1999

100

Tabela 14. Mercado brasileiro total em unidades, 1996-1999

101

Tabela 15. Distribuição dos serviços públicos e privados de atenção à saúde no Brasil, 1990

101

Tabela 16. Serviços de saúde no Brasil por faixa de renda, população coberta, 2003

102

Tabela 17. Consumo de medicamentos por faixa de renda, 1996

103

Tabela 18. O sistema privado de atenção à saúde no Brasil, 2007

104

Tabela 19. A automedicação no Brasil por principais grupos

terapêuticos

105

Tabela 20. A automedicação no Brasil por princípios ativos

107

Tabela 21. Principais gastos do Ministério da Saúde com medicamentos, 2002-2005 (R$)

110

Tabela 22. Óbitos por ocorrência e internações hospitalares segundo causa, CID-10, 1998

111

Tabela 23. Estrutura da indústria farmacêutica, 1996-2007

112

Tabela 24. Número de estabelecimentos da indústria farmacêutica por porte, 2000-2008

112

Tabela 25. Número de empregados na indústria farmacêutica por porte, 2000-2008

113

Tabela 26. Produção dos laboratórios públicos no Brasil, 1999

114

Tabela 27. Participação de mercado das duas maiores empresas por princípio ativo e origem de capital, 1999 (%)

115

Tabela 28. Brasil: P&D interno das empresas sobre receita líquida de vendas, 2001-2003 e 2003-2005 (%)

115

Tabela 29. Brasil: atividades inovativas sobre receita líquida de vendas, 2001-2003 e 2003-2005 (%)

116

Tabela 30. Medicamentos mais vendidos no Brasil nas farmácias

e

drogarias, 05/2000 a 05/2001 (US$ e %)

116

Tabela 31. Medicamentos mais vendidos no Brasil, nas farmácias

e drogarias, unidades, 05/2000 a 05/2001 (%)

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117

Tabela 32. As 10 maiores empresas farmacêuticas no Brasil,

2006

118

Tabela 33. Principais companhias da indústria farmacêutica, mercado ético, 10/1999 a 10/2000

118

Tabela 34. Principais companhias da indústria farmacêutica, mercado não ético, 10/1999 a 10/2000

119

Tabela 35. Participação dos 20 principais laboratórios no Brasil (venda às farmácias), 1979-1999

122

Tabela 36. Faixas de concentração e poder de monopólio dos mercados relevantes, 10/1999 a 10/2000

124

Tabela 37. Regressão mínimos quadrados ordinários – variável dependente: IHH

127

Tabela 38. Quantidade e crescimento das vendas de genéricos

130

Tabela 39. Evolução do IHH para os princípios ativos em que genéricos foram introduzidos, 04/2000 a 04/2001

131

Tabela 40. Regressão painel, por efeitos fixos e aleatórios

132

Tabela 41. Regressão painel, por efeitos fixos

136

Tabela 42. Evolução das quantidades vendidas de medicamentos por status do produto, 05/2000 a 04/2001

137

Tabela 43. Regressão painel com efeitos fixos

140

Tabela 44. Número de registros de medicamentos genéricos por empresa detentora

146

Tabela 45. Principais distribuidores de medicamentos no Brasil,

2001

164

Tabela 46. Preço médio por tempo de mercado no Brasil, 1996- 1999 (US$)

165

Tabela 47. Margens de rentabilidade da indústria farmacêutica* brasileira, 1988-2000 (US$ mil 1994)

166

Tabela 48. Importação da indústria farmacêutica brasileira, 10 principais países, 2000 e 2006 (US$ FOB)

167

Tabela 49. Exportação da indústria farmacêutica brasileira, 10 principais países, 2000 e 2006 (US$ FOB)

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Introdução

Todas as indústrias são diferentes do ponto de vista de sua organiza- ção e complexidade. Os agentes envolvidos na produção, distribui- ção e comercialização, os consumidores e os marcos regulatórios apresentam-se de maneira diferenciada respectivamente a cada setor e a cada país. Além disso, observa-se também que o funciona- mento dos setores é influenciado de maneira diferente pela relação entre dinâmica local e dinâmica internacional. A indústria farmacêutica tem como atividade principal a pro- dução de medicamentos para uso humano ou veterinário. Nosso interesse, entretanto, recai apenas nos produtos para uso humano, destinados ao tratamento de doenças ou outras indicações médicas pela sociedade. 1 O funcionamento desse setor, desse modo, está di- retamente relacionado tanto a questões no âmbito da saúde pública quanto a questões de política industrial e regulação. Além disso, é preciso observar o caráter internacional da dinâmica de competi- ção no setor devido ao elevado grau de internacionalização dessa indústria. Este livro tem por objetivo apresentar um diagnóstico da indústria farmacêutica brasileira sob a perspectiva da análise estrutura-conduta-desempenho. Foi concebido para instrumenta- ção e aprendizado dos alunos da área de Ciências Farmacêuticas. Essa instrumentação se refere ao estudo das indústrias e de seu desempenho, bem como ao entendimento do importante papel das políticas públicas no desempenho dessa indústria. O aprendizado se direciona, por sua vez, ao uso aplicado dos conceitos no diagnós- tico da indústria farmacêutica internacional e nacional. Este livro pode também ser utilizado como material de exemplo de aplicação

1. Doravante, estaremos nos referindo apenas ao segmento de produtos farmacêu- ticos para uso humano.

Introdução

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da economia industrial para alunos de economia, administração e engenharia de produção. Sua concepção foi iniciada a partir da cooperação realizada entre a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciên- cia e a Cultura (Unesco), a Fundação Universitária José Bonifácio (FUJB) e o Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), através do projeto número 914BRZ58, durante os anos de 2000 e 2001, e recebeu a contribuição de toda a equipe do projeto, mas principalmente de Beatriz Fialho, que, por essa

contribuição destacada, passa a ter co-autoria neste livro. O resul- tado foi a publicação Diagnóstico da Indústria Farmacêutica Brasileira. Esse texto tem sido utilizado, desde 2002, data de sua publicação original, como bibliografia básica da disciplina Economia e Adminis- tração de Empresas Farmacêuticas – disciplina do Instituto de Econo- mia ministrada como disciplina obrigatória para os alunos da área de Ciências Farmacêuticas da Faculdade de Farmácia da UFRJ.

O texto que ora apresentamos foi acrescido de mais um capí-

tulo, o Capítulo 1, e atualizado no que diz respeito às informações sobre a indústria farmacêutica 2 e aos estudos sobre o impacto da

introdução dos genéricos no mercado. O propósito do Capítulo 1

é acrescentar alguma noção sobre a disciplina Economia Industrial

e, ao mesmo tempo, explicitar o método utilizado para analisar as indústrias farmacêuticas internacional e nacional, objetos dos capí-

tulos 2 e 3, respectivamente.

O livro está estruturado em três capítulos. No primeiro, apre-

senta-se o modelo de análise a ser utilizado para o estudo da indús- tria farmacêutica. No segundo capítulo, caracteriza-se a indústria farmacêutica em geral no contexto internacional. No terceiro, o foco é a indústria farmacêutica brasileira. Os capítulos 2 e 3 estão subdivididos em seções relativas às características da oferta e da demanda, à estrutura da indústria, às principais condutas adotadas pelas empresas, ao desempenho dessa indústria e às principais polí-

ticas públicas tradicionalmente utilizadas para monitorar e garantir

o desempenho do setor.

2. Ainda que não tenha sido possível atualizar todos os dados, acredita-se que a dinâmica da indústria farmacêutica internacional e nacional tenha sido adequada- mente capturada, conforme os leitores poderão constatar ao longo da leitura.

12

Introdução

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A contribuição mais importante deste livro, além dos concei- tos sobre economia industrial e da revisão atualizada da literatu- ra sobre o setor, é apresentar, na Seção 3.3, as características da estrutura da indústria farmacêutica brasileira desde a produção de medicamentos até sua distribuição. Como será visto, a estrutura da produção é muito mais concentrada do que a estrutura de distribui- ção, sugerindo distintos papéis de regulação para o setor público. Utilizou-se para segmentar o mercado e analisar a sua estrutura de produção uma metodologia própria da legislação antitruste, aplicando-a às particularidades do setor farmacêutico. Trata-se da definição denominada mercado relevante, espaço de competição real entre as empresas, definição extremamente difícil de ser operacio- nalizada no mercado farmacêutico devido à falta de informação leiga sobre o grau de substitutibilidade dos produtos. Dessa forma, foi necessário agregar a contribuição de especialistas em farmácia. Destaca-se ainda a análise realizada sobre os impactos da introdu- ção dos medicamentos genéricos na estrutura da indústria farma- cêutica brasileira, localizada na Seção 3.3.1.1, e a sua atualização a partir de novos estudos, exemplo ideal para realizar uma análise da política regulatória do setor a partir da abordagem da disciplina Economia Industrial.

Introdução

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1. A organização industrial e o estudo das indústrias

1.1. Introdução

A disciplina economia industrial, posteriormente denominada de or-

ganização industrial, nasce basicamente de uma insatisfação com a explicação das teorias neoclássicas de equilíbrio parcial e geral sobre

a natureza e o funcionamento real das empresas, e os mecanismos

de coordenação de suas atividades, incluindo o funcionamento dos mercados. É um ramo da teoria microeconômica e seus autores fun- dadores foram os professores Edward Mason e Joe Bain por volta

dos anos 1940 e 1950. 3 A partir de observações empíricas, esses auto- res formularam a hipótese da existência de uma relação direta entre estrutura de mercado, conduta no mercado e desempenho. Essa hi- pótese também está presente nos modelos de competição e mono- pólio da teoria neoclássica, apesar de nunca ter sido explicitada. Seus autores questionaram principalmente a falta de realismo das teorias microeconômicas neoclássicas. A partir desses questio- namentos uma primeira corrente de pensamento se torna autônoma

e denomina-se, nos Estados Unidos, de organização industrial e, na

Europa, de economia industrial. Esta corrente, em seus primórdios, era essencialmente empírica. Estudava várias empresas e indústrias

para tentar explicar as causas dos comportamentos desviantes das predições feitas pelo modelo neoclássico tradicional. O seu foco é principalmente o estudo da estrutura das indús- trias. Entende-se por indústria ou mercado o conjunto de empre- sas produzindo bens e serviços substitutos 4 entre si e, portanto, em concorrência em um mercado. Por estrutura, entende-se não

3. Ver bibliografia para referência dos principais trabalhos desses autores.

4. Bens e serviços substitutos são aqueles que preenchem a mesma função de neces-

sidades de consumo.

1. A organização industrial e o estudo das indústrias

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somente as características morfológicas das indústrias (número e tamanho das empresas, grau de concentração da indústria, entre outras características), mas também os princípios de seu funciona- mento (tipo de concorrência que predomina, por exemplo). Progressivamente, os estudos foram se estruturando em torno de um arcabouço de análise empírica comum que procurava pre- ver como as atividades produtivas são trazidas em harmonia com a demanda por bens e serviços, através de alguns mecanismos orga- nizacionais, tais como o mercado, e como as variações e imperfei- ções no mecanismo organizativo afetavam o sucesso das indústrias em satisfazer o bem-estar econômico. 5 Nessa evolução, pode-se reconhecer a contribuição de vários outros autores na busca de conjuntos de atributos ou variáveis que influenciam o desempenho econômico e na construção de teorias, detalhando as ligações entre esses atributos e o desempenho de cada indústria. O modelo foi concebido por Edward E. Manson, da Universidade de Harvard, na década de 1930, e elaborado por diversos seguidores. Entre os mais relevantes estão Joe Bain e Fre- deric. M. Scherer. Este capítulo tem por objetivo expor o paradigma fundador da disciplina economia industrial, sublinhando as potencialidades intelectuais que ele abre para o estudo das empresas e indústrias, suas contribuições empíricas e os seus limites.

1.2. O modelo estrutura-conduta-desempenho (ECD) 6

Como já avançado na seção anterior, deve-se a Edward Mason os esforços mais importantes na direção de oferecer um método de análise geral das realidades econômicas industriais. Ele unificou as abordagens de observações históricas e de reflexões teóricas crí- ticas contemporâneas (Joan Robinson, Edward Chamberlein, e Piero Sraffa, por exemplo) e o apresentou como o quadro unifica-

5. Bem-estar econômico é uma situação na qual todos os agentes participantes das

trocas (compra e venda) ficam satisfeitos com os benefícios resultantes.

6. O Modelo ECD será apresentado aqui a partir da elaboração feita por Frederic

M. Scherer, em 1970, em seu livro Industrial Market Structure and Economic Performan- ce, atualmente em sua terceira edição revista e atualizada em conjunto com David

Ross, em 1990.

16

1. A organização industrial e o estudo das indústrias

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dor, capaz de permitir autonomia ao campo de economia industrial como uma disciplina independente. O autor elegeu quatro temas como foco de sua tarefa. Esses temas, abaixo explicitados, serão adotados como lemas importantes para o estudo de indústrias, em

geral, e, em particular, da indústria farmacêutica nos capítulos se- guintes deste livro. Em primeiro lugar, os conceitos da microeconomia são muito abstratos, difíceis de estimar, e, em especial, a concorrência pura e perfeita é concebida de maneira estática e sem considerar as decisões empresariais que emprestam dinamismo ao sistema eco- nômico. Em segundo lugar, é necessário que a metodologia seja capaz de misturar fatos empíricos e teoria para reconhecer os fa- tores determinantes, rejeitando abordagens puramente normativas

e preferir abordagens mais indutivas que levem em conta as reali-

dades históricas e institucionais. Em terceiro lugar é preciso repen- sar o conceito de mercado ligado a produtos homogêneos e não diferenciados, adotando-se o conceito de indústria definido por A. Marshall – conjunto de tamanho variável de produtores com produções heterogêneas – muito mais realista. Finalmente, deve- se adotar a hipótese que os comportamentos de uma empresa de uma dada atividade econômica são fortemente determinados pelas estruturas dominantes dessas atividades. Assim, pergunta-se inicialmente o que a sociedade deseja dos produtores de bens e serviços. A resposta, em geral, é um bom desempenho ou um desempenho capaz de propiciar bem-estar econômico. O problema, então, passa a ser como definir desempe- nho, já que ele pode ser entendido a partir de várias dimensões e, portanto, significar diferentes objetivos e metas, como os ilustrados

a seguir:

O quê, quanto e como produzir de forma eficiente, ou seja, sem desperdiçar recursos escassos e levando em conta qualita- tiva e quantitativamente a demanda do mercado? Como obter aumentos contínuos de produtividade através da incorporação de oportunidades científicas e tecnológicas em novos produtos, processos, matérias-primas, formas de orga- nização? Como favorecer o pleno emprego dos recursos, especialmente dos recursos humanos?

1. A organização industrial e o estudo das indústrias

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Como distribuir equitativamente a renda, impedindo o ganho

excessivo de produtores ou apropriação indevida do exceden-

te dos consumidores?

A obtenção desses objetivos é eivada de conflitos políticos e a

sua realização nunca poderá ser maximizada por cada produtor ou consumidor, mas deve-se buscar uma solução de maior satisfação possível de cada um desses objetivos, através da monitoração per- manente do desempenho de cada indústria. Apesar das dificuldades de mensuração do desempenho in- dustrial, dado que os indicadores refletem sempre apenas parte da

realidade, existem alguns indicadores clássicos na literatura econô- mica que podem ser utilizados: magnitude da margem preço-custo; taxas de mudança na relação entre produto/empregado; níveis de preço; distância entre custo atual e possível custo mínimo; variabi- lidade do emprego ao longo do ciclo de negócios; taxa de lança- mento de novos produtos.

A ideia básica do Modelo ECD consiste, portanto, em identi-

ficar que variáveis ou conjunto de atributos são capazes de explicar as diferenças de desempenho observadas a partir do monitoramento das indústrias pelos órgãos reguladores da concorrência. As condu- tas das empresas são diferenciadas e motivadas, principalmente, pelo tipo de estrutura de cada indústria. A estrutura da indústria, por sua vez, depende de certo número de condições ditas de base que são

de natureza bastante diversa: técnicas, institucionais e relevância da demanda. A Figura 1 ilustra esquematicamente o Modelo.

O desempenho em indústrias particulares ou mercados pressu-

põe-se como dependente da conduta ou estratégias empresariais dos vendedores (produtores) e dos compradores (consumidores) em as- suntos tais como política e prática de preços, cooperação explícita ou

tácita entre as empresas, estratégias de linhas de produtos e propa- ganda, esforços de pesquisa e desenvolvimento (P&D), investimento em plantas produtivas, táticas legais (como, por exemplo, enforcement dos direitos de patentes) e assim por diante. A conduta, por sua vez, depende da estrutura do mercado relevante, 7 caracterizada pelo nú-

7. O conceito de mercado relevante, desenvolvido mais adiante, identifica a ampli- tude ou escopo de produtores e compradores que concorrem para a produção de produtos substitutos e os consomem indiferentemente e, portanto, devem ser incluí- dos entre os atores relevantes na dinâmica competitiva de cada mercado relevante.

18

1. A organização industrial e o estudo das indústrias

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mero e tamanho dos produtores e compradores, o grau da diferen- ciação física ou subjetiva dos produtos e serviços, da presença ou ausência de barreiras à entrada de novas empresas, do formato das curvas de custo, do grau de integração vertical das empresas e da extensão de diversificação das empresas para outros mercados.

Figura1. Modelo estrutura-conduta-desempenho

Condições Básicas de Mercado Condições de Demanda Elasticidade-preço Substitutos Crescimento do Mercado
Condições Básicas de Mercado
Condições de Demanda
Elasticidade-preço
Substitutos
Crescimento do Mercado
Natureza do Produto
Métodos de Compra
Condições de Oferta
Tecnologia
Matérias-primas
Sindicalização
Durabilidade do Produto
Localização
Estrutura de Mercado
Número de Compradores e Vendedores
Diferenciação do Produto
Barreiras à Entrada e à Saída
Integração Vertical
Difersificação
Estrutura de Custos
Políticas Governamentais
Conduta
Estratégia de Preço
Estratégia de Produto
Propaganda
Estratégia de Pesquisa e Desenvolvimento
Estratégia de Licenciamento
Colusão
Fusões
Estratégias legais
Política Nacional de Medicamentos
Regulação: registro de produtos,
produção, comercialização e
fiscalização
Políticas de defesa da concorrência
Lei de patentes
Lei de genéricos
Controle de preços
Regulação de salários
Incentivos a investimentos
Políticas macroeconômicas
Desempenho
Eficiência Alocativa
Eficiência Produtiva
Taxa de Avanço Tecnológico
Qualidade e Serviço
Equidade
Legenda:

Fonte: Adaptado de Scherer, 1970.

Fluxo causal centralEquidade Legenda: Fonte: Adaptado de Scherer, 1970. Intervenção governamental Retroalimentação Finalmente, a

Intervenção governamentalFonte: Adaptado de Scherer, 1970. Fluxo causal central Retroalimentação Finalmente, a estrutura de mercado é

Retroalimentação1970. Fluxo causal central Intervenção governamental Finalmente, a estrutura de mercado é determinada por uma

Finalmente, a estrutura de mercado é determinada por uma série de condições básicas. Por exemplo, do lado da oferta, os fa- tores determinantes da estrutura são: a localização e a propriedade da matéria-prima, a natureza das tecnologias relevantes (processos contínuos ou em batelada; ou alta ou baixa elasticidade de substi- tuição dos insumos), o grau de sindicalização da força de trabalho, a durabilidade do produto, o padrão de entrega da produção (pron- ta entrega ou encomenda), relação entre preço e peso do produ- to. Do lado da demanda, devem-se incluir, entre outros fatores, as condições de elasticidade-preço da demanda, a disponibilidade de

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produtos substitutos, a taxa de crescimento e flutuação da demanda ao longo do tempo, os métodos de compra utilizados pelos com- pradores (a vista ou a crédito). Outras condições básicas dizem res- peito às leis vigentes e aos valores socioeconômicos predominantes da comunidade de negócios. Como sugerem as setas na Figura 1, que representam o fluxo causal central, esse inicia-se nas condições básicas de demanda e de oferta, seguindo para a estrutura do mercado, para as condutas ou estratégias empresariais e para o desempenho. Nessa sequência po- deria dizer-se que as condições estruturais representadas pelas con- dições básicas e estrutura do mercado são dadas, exógenas, ou não determinadas pelo modelo, o que lhe empresta um caráter estático. Porém, podem-se observar também importantes efeitos de retroalimentação ou de encadeamento representados pelas setas pontilhadas, prevendo-se efeitos sistêmicos de influência entre as variáveis. Por exemplo, um esforço intenso em P&D (conduta) pode alterar o paradigma tecnológico dominante na indústria (con- dição básica de oferta) e, portanto, suas condições de estrutura de custo e de diferenciação de produto (atributos da estrutura). Outro exemplo seria a política de preços (conduta) praticada por algumas empresas já estabelecidas na indústria, estimulando a entrada ou a saída de novas empresas e a saída de empresas estabelecidas. Des- sa forma, teria havido uma influência da conduta para a estrutura representada pela mudança no número de vendedores/produtores. A partir desses e de outros exemplos, pode-se pressupor que tanto as condições básicas de oferta e de demanda quanto a estrutura do mercado são determinadas endogenamente através do conjunto de relações do sistema e não fixadas por forças exógenas, como se discutirá na próxima seção.

O papel das políticas públicas

Se o mercado natural falha em organizar a indústria, conduzindo-a a um desempenho não eficiente, então, o governo precisa intervir. Sua intervenção pode se dirigir às variáveis da estrutura e/ou da conduta e/ou do desempenho, conforme indicam as setas de inter- venção governamental na Figura 1.

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O arsenal de instrumentos de política é bastante amplo. Cus-

tos, investimentos e preços podem ser influenciados por taxas ou subsídios. A estrutura de mercado pode ser influenciada pelo estabelecimento de tarifas de comércio, quotas de importação e ou- tras políticas voltadas para o comércio internacional ou atração de investimentos externos diretos. Outra forma de intervenção mais branda seria melhorar o provimento de informações tanto para consumidores quanto para produtores, reduzindo as assimetrias de

informação. 8 A regulação dos mercados é outra forma possível de intervenção determinando condições prévias de operação e circu- lação de bens e serviços ou controlando preços de sua entrada no mercado. As políticas antitrustes ou as políticas que incentivam a

concorrência são estratégias mais recentes e cada vez mais valoriza- das como guias de bom desempenho industrial e formas indiretas ou passivas de intervir no mercado. Em casos extremos, o governo também pode decidir por prover ele mesmo, através da produção pública, bens e serviços. Uma alternativa é criar empresas públicas com funções reguladoras de custos, preços e padrões de qualidade capazes de emular uma concorrência entre os rivais privados que elevem o desempenho geral da indústria.

A intensidade da intervenção praticada pelos governos va-

ria em sentido inverso ao funcionamento do mercado. Assim, em períodos onde o desempenho industrial se mostra pior, crescem as políticas intervencionistas. Há também diferenças importantes entre os países líderes na crença da capacidade de o mercado natu- ral organizar o desempenho industrial de forma eficiente. Os Esta- dos Unidos sempre foram crédulos dessa capacidade do mercado natural organizar o desempenho industrial, enquanto a Europa e o Japão foram bem mais céticos.

Regulação pública

A regulação pode ter um caráter genérico, quando é voltada para a economia como um todo, ou específico, quando voltada apenas para algumas indústrias. Um exemplo do primeiro tipo é o contro-

8. O conceito de assimetrias de informação indica que os agentes envolvidos em uma transação possuem diferentes níveis de informação, afetando o resultado final da transação, que não atinge o bem-estar econômico.

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le de preços generalizado para a economia e do segundo voltado apenas para a indústria farmacêutica. Entretanto, a justificativa econômica clássica utilizada desde os escritos de Adam Smith para o Estado regular a economia era garantir que as indústrias denominadas de bens e serviços públicos atendessem a todos os cidadãos de forma equitativa. Em geral, os setores industriais que se enquadram nessa classificação (eletricida- de, distribuição de gás, serviços telefônicos, estradas de ferro, dutos para transportar petróleo e gás natural) atuam através de grandes empresas, devido aos elevados custos fixos envolvidos nessas ati- vidades e a necessidade de diluí-los através de grandes escalas de produção. Em geral, portanto, uma única empresa ocupa o merca- do todo, formando o que se denomina o monopólio natural. Daí, a necessidade de regulação dos custos, preços e qualidade dos bens e serviços públicos. Na prática, há poucas empresas que se encaixam no que se denomina indústria de utilidade pública. Entretanto, várias outras indústrias são reguladas por outras razões. Outra justificativa clássica para a intervenção governamen- tal é a presença de assimetrias de informação ou de externalida- des. 9 O primeiro caso é característico de indústrias com tecnologias

e padrões de produção complexos bem como produtos com ca-

racterísticas tecnológicas fora do padrão do senso comum. Nesse caso, justifica-se a regulação porque nem sempre a indústria costu- ma fornecer as informações suficientes para o consumo desses pro- dutos, havendo necessidade de se arbitrar um padrão, através do estabelecimento de normas mínimas de produção e características do produto. O segundo caso é ilustrado classicamente com a polui- ção, fenômeno que afeta a todos e não somente os produtores que

a geraram. Ou seja, a decisão de produção de uma empresa gera

custos para a sociedade, sem que ela tenha decidido consumir mais poluição. Há que se arbitrar, através de taxas, quotas de emissão e outros instrumentos, multas para essas empresas poluentes. A regulação também pode se justificar para impedir que lucros extraordinários sejam apropriados por determinados grupos que não estão contribuindo para isso. Exemplos são mudanças con-

9. Conceito econômico que indica a presença de benefícios ou malefícios econômi- cos que são apropriados pelos agentes sem que eles tenham tomado a decisão que gerou esses resultados.

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junturais dos preços e abuso do poder de monopólio obtido por concessões do Estado (patentes e exploração exclusiva de recursos naturais). Outra hipótese considerada para a regulação é a existência de

interesses organizados para a obtenção de benefícios. Nesses casos,

o regulador deve estar muito atento para não ser “capturado” pelo

interesse dos regulados. Esses, em geral, têm mais conhecimento sobre os objetos de regulação do que os próprios reguladores e utilizam influências políticas para defenderem seus interesses de

forma sistemática. Enfim, a questão da regulação é extremamente complexa. Encontrar o ponto certo entre regular ou desregular é um desa-

fio permanente. Entretanto, não regular pode significar deixar que

o funcionamento do mercado natural, muitas vezes inadequado,

distorça os resultados desejados pela sociedade do desempenho

industrial.

Antitruste

Essa é uma forma específica de regulação também conhecida como ‘regulação do comércio’. As principais diferenças, em relação a outros tipos de regulação, são o caráter episódico da regulação antitruste e o escopo mais bem definido das intervenções. Entre as

principais intervenções estão: proibição de contratos, combinações

e conspirações para restringir o comércio; proibição de monopo-

lização; proibição de discriminação de preços; e, no nível multi- nacional, o Tratado de Roma, de 1957, contém uma política de competição explícita.

1.3. Conceitos e evidências empíricas das barreiras à entrada e à saída

O verdadeiro entendimento da racionalidade de intervenção

regulatória ou de políticas antitruste depende da compreensão

do funcionamento do Modelo ECD, ou seja, das relações entre

desempenho do mercado, estrutura e conduta das empresas. A compreensão dessas relações, por sua vez, é ilustrada por casos reais de estudos industriais. Muitas propostas e tipos de verificações

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empíricas foram conduzidos para enriquecer ou verificar a veraci- dade das determinações causais propostas pelo quadro teórico que se acabou de apresentar. Elas podem ser resumidas por dois tipos de estudos: estudos de caso e estudos econométricos. 10 Os estudos de caso realizados durante os anos 1950 foram devotados às atividades de base das indústrias de aço, petróleo e automóveis. Levavam-se em conta todos os aspectos qualitativos capazes de elucidar melhor a realidade industrial desses setores. Ainda que as informações quantitativas dos principais indicado- res de concentração, de rentabilidade e outros tenham fornecido informações fecundas sobre o funcionamento do mercado, elas não foram suficientes para permitirem generalizações sobre o seu fun- cionamento. Os estudos econométricos, por sua vez, foram conduzidos, so- bretudo nos anos 1960 e 70, e se dedicaram a encontrar ligações específicas significativas entre certas estruturas e diversas medidas de desempenho. As análises de regressão foram realizadas a partir de amostras de atividade e verificações de hipóteses simples, tais como: qual é a influência do grau de concentração das atividades sobre suas margens? Sobre sua produtividade? Do tamanho das empresas sobre o grau de inovação? Ou testando relações mais complexas, tais como: que papéis específicos exercem tais e tais va- riáveis características das estruturas das atividades sobre suas taxas de lucro? Qual é o impacto das despesas de publicidade? Várias observações devem contribuir para marcar os limites dessas abordagens metodológicas:

os argumentos teóricos utilizados para incluir este ou aquele aspecto estrutural da lista de variáveis explicativas eram fre- quentemente pobres e escolhidos sem referência a um modelo subjacente; às vezes, os métodos se perdiam nos problemas infindáveis da causalidade e da simultaneidade do conjunto de variáveis da estrutura, conduta e desempenho, sem se conseguir saber o que determina o que;

10. A econometria é um instrumento quantitativo que combina a teoria econômica e a estatística para investigar a relação causal entre as variáveis ou a sua significância para a verificação de um fenômeno.

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enfim, a maior parte das relações estaria caracterizada pelas condições históricas nas quais elas foram estabelecidas e difi- cilmente sobreviveriam a mudanças na economia ou ao estu- do de diferentes contextos institucionais. Em que pese toda a controvérsia gerada, é inegável que as condições de entrada e saída de uma indústria são determinantes importantes do poder de mercado das empresas estabelecidas e uma prova empírica relevante de que os mercados não funcionam como a teoria neoclássica prediz. Em outras palavras, a mobilidade dos capitais ou dos fatores de produção é, na teoria neoclássica, a condição fundamental para o funcionamento ideal de um mercado competitivo. Entretanto, as condições de entrada e saída, na realidade, se mostram muito rígidas e impedem a mobilidade dos capitais no mercado e, portanto, a livre concorrência entre as empresas. Toda vez que as empresas estabelecidas atraem novas empresas ao eleva-

rem seus preços acima dos custos marginais, diz-se que as barreiras à entrada são baixas. As condições de entrada e saída são respon- sáveis pela seleção das empresas que ficam e saem do mercado. Quanto maiores são as perspectivas de ganho em um mercado, maior é a atratividade de empresas para esse mercado. Inversa- mente, a apresentação constante de prejuízos por parte de empre- sas já estabelecidas torna-as candidatas a deixarem o mercado.

A seguir, estudaremos os padrões de entrada e saída observados

na prática e as principais fontes de barreiras à saída e à entrada.

Padrões de entrada e saída

As observações abaixo são extraídas do trabalho de Dunne et al. (1988), utilizando dados dos censos americanos dos anos de 1963, 1972, 1977 e 1982:

o movimento de entrada e saída de empresas observado

é fraco. Apenas 39% das empresas, em cada ano censitário

considerado, eram novas em relação ao censo anterior. As es- tatísticas de saída eram similares: apenas 31% das empresas estabelecidas deixavam o mercado; as estatísticas de entrada e saída apresentavam também in- terpretações errôneas. Tanto as empresas entrantes quanto as

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empresas que estavam deixando o mercado apresentavam um tamanho menor do que as empresas estabelecidas; as novas empresas entrantes têm altas taxas de falência; sua idade média de existência é de 5 a 10 anos; logo, a entrada bem-sucedida é menor do que o número de novas empresas entrantes pode indicar; e isto sugere que as mudanças ocorrem mais nas margens do que no centro da indústria; a desagregação das informações por setores industriais sugere um padrão muito distinto entre as várias indústrias; a correlação existente entre taxas médias de entrada e de saída é elevada: indústrias com altas taxas de barreiras à entrada costumam apresentar também altas taxas de barreiras à saída.

Entrada

Teoricamente, em uma indústria com livre entrada há estímulos para as empresas operarem sempre de forma eficiente. Novos pro- dutos e novas tecnologias também podem ser introduzidos atra- vés da entrada. É necessário considerar os fatores que impedem a entrada e os fatores que incentivam a entrada. Iniciemos com os fatores que impedem a entrada. Existem várias definições de barreiras à entrada na literatura de organização industrial. Entretanto, de forma literal, barreira à entrada é qualquer fator que previne a entrada instantânea; ora, mas como somente no longo prazo há entrada de novas empresas, essa não é uma definição operacional. As barreiras à entrada só podem ser percebidas considerando-se o longo prazo, porque no curto prazo até os mercados competitivos podem apresentar lucros positivos, sem induzir a entrada de novas empresas que para se instalarem levarão certo tempo. Vejamos algumas definições correntemente adotadas. A defini- ção de J. Bain pode ser enunciada da seguinte forma: condições de mercado que permitem as empresas estabelecidas fixarem preços acima dos custos marginais sem atrair a entrada de outras empresas podem ser consideradas barreiras à entrada. Outra explicação do mesmo autor: existem barreiras à entrada quando uma empresa

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entrante não é capaz de auferir lucros semelhantes às empresas estabelecidas antes da entrada ocorrer. Uma crítica à definição adotada por Bain foi feita por J. G. Stigler, que a redefiniu como o custo de produção que é incorrido pelas empresas entrantes, mas não é imputado às empresas estabe- lecidas. Uma distinção-chave entre as definições de Stigler e Bain é se as economias de escala são ou não fontes de barreiras à entrada. Bain achava que não somente podem ser, mas que muitas vezes se apresentaram como importantes barreiras à entrada. Já Stigler, não as considerava assim, enquanto as curvas de custo da entrante e da estabelecida fossem as mesmas. Já o autor C. C. Von Weizsacker contribuiu qualificando me- lhor a definição de Stigler: uma barreira à entrada existe se uma diferença de custo entre a empresa estabelecida e a entrante im- plica uma distorção no uso de recursos econômicos do ponto de vista social.

1.3.1. Barreiras à entrada

No decorrer do capítulo utilizaremos a definição de Bain. Esse au- tor considerava basicamente quatro fatores de barreiras à entrada estáticas:

economias de escala e de escopo; vantagens absolutas de custo; custo de requerimento de capital; diferenciação de produtos. Cada um desses fatores considerados será examinado separa- damente considerando os vários níveis em que eles podem ocorrer quando for pertinente.

Níveis e fontes de economias de escala e escopo

As economias de escala aparecem à medida que os custos de produ- ção (isto é, dos fatores fixos) se reduzem com o aumento do número de unidades produzidas. Elas podem existir no nível do produto, da fábrica e das fábricas subdivididas em várias unidades fabris. Nível de Produto – a especialização é uma importante fonte de economia de escala no nível de produto. Quanto mais espe- cializada é uma empresa, menores são os custos de produção.

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Exemplo de Adam Smith: redução do tempo de produção através da especialização e redução do set up das máquinas; poupanças semelhantes podem ser obtidas através da especia- lização associada à divisão do trabalho, através da melhoria pela repetição, caindo os tempos utilizados de trabalho e o custo de produção devido a esse fator.

Nível da Fábrica – aumento do tamanho das unidades processa- doras; é um tipo de economia de escala importante nas indús-

Nessas indústrias

os rendimentos à escala se apresentam crescentes, ou seja, é possível uma empresa aumentar sua capacidade de produção com um aumento menos que proporcional dos seus fatores de produção. Uma regra de bolso 11 nos indica que essa proporção é de dois para três, isto é, uma empresa pode dobrar a sua capacidade de produção com um aumento de seus custos de capital de 60%; outro tipo de economia de escala é a economia de custos indiretos (overhead), que pode resultar do aumento de unidades produzidas. Quanto maior o número de unidades produzidas, menor será o valor do custo indireto imputado a cada nova unidade produzida. Entre os principais custos indi- retos estão os custos com estoques, os custos de auditoria, os custos financeiros, os custos de marketing, pesquisa e desenvol- vimento, gerência de recursos humanos, força de vendas. Nível das Multiunidades Fabris – economias de escala são parti- cularmente relevantes em determinados tipos de indústria; in- dústrias que possuem custos de transportes elevados em rela- ção ao valor do produto, como a indústria de cimento, na qual há vantagens de se ter várias unidades fabris regionalizadas ao invés de uma única fábrica. Outro exemplo é o de empresas que produzem vários produtos. Nesse caso, interessa especiali- zar cada unidade fabril em um produto. Outro exemplo seria uma empresa com várias unidades fabris que podem ter o seu marketing feito em conjunto em nível nacional. As economias de escala são exauridas à medida que a escala da empresa aumenta. Chamamos a esse fenômeno de deseconomias de escala. Ele ocorre porque existem rendimentos decrescentes em

trias de processo (refino, química, cimento

).

11. Regra de bolso é uma expressão utilizada na literatura econômica para indicar que a informação não tem explicação teórica, mas foi obtida a partir da experiência.

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todos os tipos de ganhos de escala. Os rendimentos decrescentes surgem porque há fatores de produção fixos 12 na empresa que não podem ser ampliados no curto prazo, impedindo o ganho contínuo de economias de escala. Entretanto, no longo prazo não há fatores fixos e o mais razoável seria supor que os rendimentos são constan- tes a escala e não decrescentes. Os economistas forneceram pelo menos duas razões para explicar esse paradoxo e justificar a presença de rendimentos de- crescentes mesmo quando não há fatores fixos. Em primeiro lugar, mesmo no longo prazo alguns fatores são fixos, ou ao menos es- cassos, como, por exemplo, a habilidade gerencial e a qualidade de empreender. Estruturas organizacionais muito complexas são de difícil gestão e, em geral, implicam deseconomias de escala que acabam por anular as vantagens de escala. Foi por isto que histori- camente as empresas abandonaram suas estruturas funcionais para estruturas multidivisionais. Em segundo lugar, as deseconomias de escala estão associadas aos custos de transporte com fornecimento de insumos ou distribuição de produtos, o que é uma realidade inegável em algumas indústrias. A seguir, analisaremos de que maneira a presença de econo- mias de escala funciona como uma barreira à entrada. Suponha- mos, inicialmente, que o acesso ao mercado de capitais é livre, de forma que a empresa entrante possa obter capital financeiro sufi- ciente para financiar a entrada, enquanto ela for lucrativa, e que o acesso à tecnologia seja livre. Nesse contexto, as economias de escala atuarão como barrei- ras à entrada se existir espaço em uma determinada indústria para um pequeno número de empresas, com cada uma delas produzin- do um nível de produto suficiente para minimizar os custos médios. O nível mínimo de produto que deveria ser produzido, dada uma curva de custo médio de longo prazo, é q 1 para produzir no nível de custos mais baixo, conforme Figura 2. O número de empresas que irá existir nesse mercado dependerá da curva de demanda do mercado e do tamanho relativo das empresas.

12. Fatores fixos são aqueles que levam tempo para serem construídos. Exemplos são: o aumento de capacidade de produção de uma empresa que envolve obras civis e encomendas de máquinas e equipamentos.

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Figura 2. Escala eficiente mínima (EEM)

Figura 2. Escala eficiente mínima (EEM) Fonte: Elaboração própria. Assim, em mercados nos quais o nível
Figura 2. Escala eficiente mínima (EEM) Fonte: Elaboração própria. Assim, em mercados nos quais o nível
Figura 2. Escala eficiente mínima (EEM) Fonte: Elaboração própria. Assim, em mercados nos quais o nível
Figura 2. Escala eficiente mínima (EEM) Fonte: Elaboração própria. Assim, em mercados nos quais o nível
Figura 2. Escala eficiente mínima (EEM) Fonte: Elaboração própria. Assim, em mercados nos quais o nível

Fonte: Elaboração própria.

Assim, em mercados nos quais o nível de produto exigido para se alcançar a escala eficiente mínima é maior do que a demanda do mercado, ou melhor, se localiza após o posicionamento da curva de demanda, poucas empresas poderão atuar. Se essas empresas forem grandes, devido, por exemplo, a indivisibilidades tecnológi- cas, então o número de empresas se reduzirá ainda mais. Por outro lado, se o nível de produto para alcançar a escala eficiente mínima estiver aquém da demanda do mercado, muitas empresas poderão atuar nesse mercado. A chave para o entendimento das economias de escala como barreiras à entrada é reconhecer que as empresas estabelecidas já construíram fábricas suficientes para alcançarem escalas eficientes mínimas. Quando a escala eficiente mínima é grande em relação à demanda (ou seja, a demanda é inferior à escala eficiente mínima), as empresas entrantes potenciais têm que refletir sobre o efeito da entrada sobre o preço de mercado do produto. Elas precisam fazer conjecturas acerca do comportamento das empresas estabelecidas em relação aos preços dos produtos em reação à entrada. Bain assume que as empresas estabelecidas não reagirão com o aumento de produto após a entrada de novas empresas (hipótese de manutenção do nível de produto). Nesse contexto, a entrada de outra empresa à escala eficiente mínima poderá reduzir os preços abaixo dos custos médios, fazendo com que as empresas tenham prejuízo. Os prejuízos poderão ser ainda maiores se a escala eficien-

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te mínima representar uma grande parte do produto do mercado relevante e a empresa incorrer em uma desvantagem absoluta de custo, por estar operando a uma escala abaixo da escala eficiente mínima (escala subótima). Adicionalmente, se uma empresa tiver que incorrer em custos irrecuperáveis substanciais para entrar em uma indústria, a possibilidade de sustentação das perdas econômi- cas pode impedir a entrada de novas empresas.

Economias de escopo

Desenvolvimentos recentes em economia industrial indicam a im- portância das economias de escopo. Chandler (1990) a explica da seguinte forma: a maior parte das empresas produz mais de um produto, logo, deve haver uma razão para isto, ou seja, deve ser menos custoso produzir vários produtos do que apenas um produ- to. A isto denominamos de economias de escopo: há vantagens em produzir vários produtos conjuntamente ao invés de especializar uma empresa na produção de um único produto. Suponhamos que q 1 e q 2 representem as quantidades produzi- das de dois produtos. As economias de escopo estarão presentes se C(q 1 ,q 2 ) < C(q 1 ) + C(q 2 )

As principais fontes de economia de escopo são: a existên- cia de fatores fixos altamente especializados e fatores intangíveis também específicos a determinados negócios. A existência de um fator fixo, como, por exemplo, uma máquina especializada. Essa máquina, para ser eficiente, deverá produzir a um nível de produto compatível com o custo médio mínimo. Entretanto, se o mercado não comportar esse nível de produto, seria interessante ocupá-la com a produção de outro produto. Exemplos são: linha de trem usada para passageiros e para carga; escalas em voos; partilha de um insumo físico ou intangível (conhecimento dos pesquisadores ou dos engenheiros sobre a produção). O uso partilhado de ativos intangíveis reduz os custos porque reduz os custos de obtenção das informações, uma das fontes de custos de transação. 13

13. Custos de transação é uma expressão utilizada pela literatura econômica para indicar que existe um custo de transacionar, ou seja, de obter informações sobre o preço e a qualidade do bem, administrar a compra – incluindo a organização de contratos de compra –, e administrar as incertezas decorrentes, como, por exemplo, a não entrega do bem no prazo estipulado.

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Vantagem absoluta de custos

Supondo custos médios constantes, podemos dizer que as empre- sas estabelecidas possuem vantagens absolutas de custo quando elas apresentam custos médios de longo prazo inferiores ao das empresas entrantes para qualquer nível de produto. Os preços do mercado são compatíveis com os custos médios de longo prazo das empresas estabelecidas e não cobrem esses mesmos custos, no caso

das empresas entrantes, desestimulando, dessa forma, a entrada de novas empresas nesse mercado. Entre os principais responsáveis, citados por J. Bain, por esse diferencial de preços entre as empresas entrantes e as empresas estabelecidas estão:

controle de um insumo essencial; obtenção de fundos para investimento a menores taxas de juros; acesso a tecnologias de produção superiores, eventualmente protegidas por patentes; diferenças de localização: proximidade dos insumos ou do mer- cado final e a consequente redução dos custos de transporte; elevação dos preços dos recursos escassos, provocada pela pressão sobre sua demanda, tais como matérias-primas, talen-

to gerencial, ou pessoal de pesquisa.

Os desenvolvimentos teóricos recentes acrescentam a esses fa- tores apontados por J. Bain a seguinte questão: de que maneira as decisões estratégicas das empresas estabelecidas afetam a assime- tria de custos? As empresas podem, por exemplo, tentar prevenir a entrada fazendo contratos de fornecimento de longo prazo ou fazendo uso de sleeping patents. 14

A evidência empírica existente sobre as vantagens de custo

absolutas funcionando como uma barreira à entrada é escassa. A maior dificuldade está na ausência de informações públicas sobre os custos de uma empresa. A evidência empírica ampla só é encon- trada para as indústrias onde as patentes e os custos do capital não associados com as economias de escala têm importância, como, por exemplo, em indústrias nas quais os requerimentos de capi-

14. Patentes que são depositadas e concedidas, mas que não são utilizadas para lançar novos produtos no mercado, ficando apenas como uma garantia da empresa proprietária para impedir a entrada de novas empresas utilizando a mesma tecno- logia.

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tal de giro são elevados devido às diferenças observadas entre as receitas e as despesas decorrentes do processo produtivo. Outras evidências empíricas pontuais indicam o caso da propriedade da mina de níquel detida pela Alcoa, o controle da plantação de fumo pela American Tobacco Co. e a propriedade de patentes. No Brasil, a título de exemplos, podemos citar as vantagens absolutas de custo da Petrobras, pelo fato dela ter exclusividade de exploração de petróleo em campos com maiores potencialidades do que os campos ainda por explorar; e o caso da exclusividade de exploração da mina de sal-gema localizada em Aratu, Bahia.

Custos de capital

As vantagens de custo de capital poderiam estar incluídas entre as barreiras decorrentes das vantagens absolutas de custo, mas prefe- rimos separá-las, porque as anteriores não eram dependentes da escala de produção. As vantagens de custo de capital requerido aqui estão relacionadas com economias de escala. Iremos supor que quanto maior a escala eficiente mínima, maior será a quantidade de capital requerida. Quanto maiores os custos de capital associados com a entrada, menos as empresas en- trantes poderão se autofinanciar com poupança prévia, e maior a necessidade de que as empresas entrantes recorram ao mercado de empréstimo de fundos de longo prazo. Cabe uma importante ressalva: os custos de capital variam também conforme a reputação da empresa entrante. Por exemplo, se a empresa entrante for a Shell atuando na indústria de explora- ção de petróleo e querendo entrar na produção, por exemplo, de energia eólica, os custos que ela terá serão inferiores aos de uma empresa desconhecida. Logo, eles talvez não sejam uma barreira à entrada para a Shell, mas poderão representar uma fonte de barrei- ra à entrada para uma empresa desconhecida. Se as novas empresas têm que pagar taxas de juros mais altas pelos empréstimos do que as firmas estabelecidas para realizarem o mesmo investimento, então, elas se defrontarão com uma barrei- ra à entrada. E esse diferencial de custo será tanto maior quanto maior for a escala eficiente mínima e a necessidade de recorrer ao mercado de empréstimos.

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Entre as causas que levam as empresas entrantes a terem que pagar juros mais elevados estão: risco, custos de transação, imper- feições do mercado de fundos para empréstimos. Os fornecedores de crédito cobrarão uma taxa de risco mais alta das empresas en-

trantes pelo maior risco das empresas falirem, conforme a pesquisa de Dunne et al. (1988). Outra razão é a relação existente entre risco

e tamanho de empresa. Quanto menor é a empresa maior é o risco

de sua falência. Isto porque as grandes empresas são capazes de di- luir o seu risco nos vários mercados que elas atuam – diferenciação

e diversificação. Os custos de transação também têm uma relação com o tamanho da empresa. Os custos fixos de transação de um empréstimo estão relacionados com a ideia de emissão de novas fianças. As grandes empresas, como irão demandar um maior volume de crédito, pode-

rão ter os custos de transação unitários diluídos. Enquanto uma mes- ma pequena empresa terá seus custos de transação unitários maiores pelo fato de solicitar uma menor quantia de capital para crédito.

O poder de mercado em um mercado de empréstimos tam-

bém pode explicar os diferenciais de taxas de juros cobrados para pequenas e grandes empresas. Duas hipóteses deverão ser feitas para que possamos verificar essa afirmativa:

assumir que a concentração no mercado bancário local e re- gional é superior ao mercado nacional, principalmente devido

ao excesso de regulação existente;

assumir que as grandes empresas tenderão a tomar empresta- do no mercado nacional e internacional de empréstimos, en- quanto as pequenas empresas tenderão a tomar emprestado nos mercados locais. Dessa forma, os bancos locais e regionais utilizarão os seus po-

deres de mercado para cobrar maiores taxas de juros das pequenas empresas do que aquelas disponíveis para as grandes empresas nos mercados nacionais e internacionais.

A evidência empírica, disponível sobre a economia america-

na, examina os diferenciais de taxas de juros entre empresas de diferentes tamanhos, confirmando as relações teóricas acima dis- cutidas. Por exemplo, Frederic Scherer e outros colaboradores observaram que as empresas de 1 bilhão de dólares podiam tomar emprestado a uma taxa média de juros de 34% mais baixa do que

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empresas com ativos entre 200 milhões e 1 bilhão de dólares. Essas diferenças podem ser maiores quando trabalhamos somente com as taxas de juros médias cobradas de empréstimos de longo prazo, dado que o risco de falência das pequenas empresas é superior. Estudos sobre o mercado bancário corroboram a ideia de que os mercados regionais são mais concentrados do que os mercados nacionais ou internacionais, indicando que os juros devem ser mais elevados nos primeiros.

Diferenciação de produtos

Os consumidores veem os produtos como substitutos imperfeitos entre si por uma série de razões:

diferenças na qualidade; diferenças no desempenho; diferenças na reputação; diferenças por estarem associados a uma marca.

A diferenciação de produtos pode atuar como uma barreira à

entrada, pois permite ao produtor individual algum poder de mer- cado, porque cada empresa pode aumentar seus preços sem perder todos os seus consumidores. Entretanto, esse poder de mercado é limitado pela entrada de novas empresas. Se as taxas de lucro crescerem muito acima do normal e induzirem a entrada de no- vas empresas, então, os lucros se reduzirão, como pode ocorrer no mercado de competição imperfeita ou competição monopolística. Mesmo que as empresas entrantes não possam imitar perfeitamen- te os produtos das empresas estabelecidas, essas estão permanente- mente ameaçadas pela entrada de outras empresas. Entretanto, apesar de a teoria nos mostrar a quase impossibili-

dade de que as empresas que diferenciam produtos tenham poder de mercado, a evidência empírica nos mostra que isto sempre ocor- re. São exemplos os trabalhos de Bain e de autores mais recentes.

A diferenciação de produtos pode adquirir muitas formas:

propaganda; esforços de venda com representantes; oferecimento de contratos de serviço e garantias; mudanças no estilo; introdução de mudanças tecnológicas.

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Examinaremos pelo menos três maneiras pelas quais essas for- mas de diferenciação podem representar uma barreira à entrada, exemplificando com o caso da propaganda:

vantagem absoluta de custo – a maneira pela qual os gastos com propaganda podem ou não representar uma vantagem absoluta de custo depende de ser possível transportar os ga- nhos obtidos com propaganda realizados com gastos no pas- sado para um período seguinte; estamos nos referindo aqui ao período de entrada de novas empresas; ou seja, se uma empresa estabelecida realizou gastos de propaganda no perío- do anterior à entrada e ainda se beneficia dos ganhos desse gasto nesse período, então, as empresas entrantes terão que realizar gastos adicionais que a empresa estabelecida não terá que incorrer. Se os gastos passados não influenciam a deman- da corrente, então, ambas as empresas terão que realizar iguais montantes de gastos em propaganda. As razões pelas quais os gastos de propaganda poderiam ser carregados de um perío- do para outro seriam: a distribuição de amostras persuadiu o consumidor e o tornou fiel a sua marca; a doação de amostras está engatilhada com a venda, digamos, depois da recepção da décima amostra a compra é acionada. Se o gasto com propa- ganda tem mais efeitos duradouros do que o período para o qual ele foi feito, então, deve ser tratado como um investimen- to, isto é, um ativo que dará frutos por mais de um período de produção. Assim, quanto maior for o efeito do gasto passado em propaganda sobre a demanda corrente, mais as empresas entrantes terão uma desvantagem absoluta de custos. economias de escala – se as economias de escala na propagan- da forem importantes, então, elas também poderão representar uma barreira à entrada. As economias de escala em propagan- da existem por uma série de razões: existe um nível mínimo de propaganda abaixo do qual ela não tem efeito, por exem- plo, quando o consumidor necessitar ouvir a mesma mensa- gem uma série de vezes para se convencer da mensagem ou se a empresa tiver que comprar uma quantidade mínima de propaganda em algum canal de mídia; retornos crescentes também podem aparecer na propaganda se houver taxas de desconto para aqueles que utilizam uma determinada faixa de

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propaganda. Enfim, produtos para os quais a propaganda tem que ser repetida para ser efetiva e produtos que precisam ser anunciados nacionalmente são os maiores candidatos a exibi- rem economias de escala. efeitos sobre os custos de entrada de capital – é um efeito com- binado dos dois anteriores: se os gastos de ontem têm efei- tos sobre a demanda de hoje e se as economias de escala são importantes, então, além dos requerimentos de capital para o investimento inicial, a empresa entrante terá que incorrer em investimentos em propaganda. Além disso, o mercado de em- préstimo considera os investimentos em propaganda altamen- te arriscados por não resultarem em ativos tangíveis, cobrando taxas de juros mais elevadas como prêmio para o risco.

1.3.2. Incentivos à entrada

Uma quantidade muito menor de estudos empíricos foi realizada sobre incentivos à entrada. Esses trabalhos referem-se principal- mente aos incentivos devido ao crescimento do mercado e da ren- tabilidade esperada. Rentabilidade esperada – as empresas maximizadoras entrarão no mercado se o valor presente líquido dos lucros esperados, ajustados ao risco, é positivo. As decisões de entrada depen- dem, portanto, das receitas esperadas após a entrada, custos esperados de entrada e custos de operação pós-entrada. As empresas entrantes formam as suas expectativas para a to- mada de decisão sobre entrar ou não entrar baseadas em vários padrões ou modelos. O modelo mais simples é aquele em que as empresas entrantes formam suas expectativas baseadas na situação corrente dos mercados e nas taxas de lucro apresentadas por esses. Se os lucros correntes das empresas estabelecidas forem positivos, elas entrarão. Outros autores desenvolveram modelos mais complexos. In- cluíram no processo de formação de expectativas, não apenas os lucros correntes, mas a tendência dos últimos anos para verificar se houve uma tendência de lucros positivos. Uma tendência de lucros negativos poderia desestimular a entrada mesmo que os lucros cor- rentes fossem positivos.

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Outros autores incluem, ainda na explicação da formação de expectativas, não somente as considerações sobre os lucros corren- tes como também a reação das empresas rivais à entrada. Em geral, a hipótese apresentada é de que existe uma rela- ção positiva entre crescimento do mercado e entrada. As razões para que a relação seja positiva são: mais espaço para a entrada sem redução de preços, se as empresas estabelecidas mantiverem uma taxa estável de expansão da oferta; as empresas potenciais entrantes acham mais fácil conquistar novos consumidores do que tomá-los das empresas estabelecidas; novas firmas podem ser mais flexíveis e melhor se ajustarem à demanda do que as empresas es- tabelecidas.

1.3.3. Barreiras à saída

Qualquer custo em que uma empresa tem que incorrer para dei- xar uma indústria é uma barreira à saída. Um exemplo bastante comum são as multas contratuais cobradas pelo rompimento dos contratos. Na maior parte das vezes, as barreiras de saída estão associadas aos custos irrecuperáveis. Esses custos estão associados, em geral, a fatores fixos tangíveis e intangíveis e específicos à empresa ou ao produto. Exemplos incluem patentes combinadas com investimen- tos físicos e em especialização dos recursos humanos e investimen- tos em propaganda e marketing. Em mercados onde os custos de capital não puderem ser facil- mente repassados a terceiros devido a sua especificidade, as empre- sas estabelecidas estarão fadadas a permanecer em seus mercados ou perder todo ou quase todo o investimento inicial realizado. Um ótimo exemplo é a indústria ferroviária, na qual os trilhos utilizados não são vendáveis, fazendo com que as empresas ferroviárias per- maneçam no mercado mesmo com prejuízo. A redução ou a estagnação do mercado são importantes incen- tivos à saída e reduzem a importância das barreiras à saída, já que não há nenhuma razão para as empresas permanecerem no mer- cado. Empresas que realizam lucros negativos deixam a indústria e liberam recursos para serem aplicados em outros negócios. Tantos

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as barreiras quanto os incentivos à entrada afetam a taxa de saída de uma indústria.

Evidência empírica

Os principais resultados dos estudos realizados sobre a economia americana indicam, em resumo, que:

a evidência da relação entre baixa lucratividade e saída é mis-

ta, alguns encontram essa evidência outros não; indústrias com taxas de crescimento mais baixo apresentam

um maior número de saída de empresas do que indústrias com taxas mais altas; ativos duráveis tangíveis e específicos tais como investimentos

em fábricas atuam como barreiras à saída; ativos duráveis intangíveis e específicos podem impedir a saída.

Finalmente, mencionamos que existem fortes razões pelas quais

a

entrada e a saída estão relacionadas. Entre elas destacamos:

determinantes comuns existem; por exemplo, os custos irre- cuperáveis; existe interdependência entre as duas: a entrada de algumas empresas poderá expulsar outras; as barreiras à entrada atual- mente poderão representar barreiras à saída amanhã.

1.4. Medidas de concentração da atividade econômica

Concentração agregada

A estatística de concentração agregada mede o papel desempenha-

do pelas grandes empresas na economia como um todo. A crescente preocupação com o papel desempenhado pelas grandes empresas esteve relacionada com o abuso do poder eco- nômico que poderia ser exercido por elas. Por exemplo, influenciar

a legislação em seu favor e evitar o pagamento de impostos. Além

disso, poderia haver, segundo as autoridades econômicas, uma rela- ção entre concentração global e concentração do mercado. Apesar das empresas não dominarem individualmente os seus mercados, seriam capazes de fazê-lo conjuntamente. Ademais, as grandes em-

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presas são extremamente diversificadas e integradas verticalmente, o que aumenta o seu poder de mercado individual. Para se medir a concentração global, verifica-se a participação das maiores 50, 100 ou 200 empresas no total da atividade indus- trial utilizando-se várias medidas. Entre elas estão: valor agregado (receitas – insumos); emprego; salários; vendas; investimentos; pa- trimônio. O uso de cada uma dessas medidas tem prós e contras. Por exemplo, o uso do número de empregados reduzirá o papel repre- sentado pelas grandes empresas porque tendem a empregar relati- vamente menos pessoas do que as pequenas empresas. Já o uso da folha salarial irá superestimar o papel das grandes empresas, já que elas pagam maiores salários do que as pequenas empresas. O uso do valor agregado tende a ser a medida que traz menos distorções, entretanto, ele só está disponível, nos órgãos estatísticos, para a indústria de transformação.

Tendências na concentração global

No período que vai de 1947 até a metade dos anos 1960, observou-

se um aumento da participação das grandes empresas na atividade

industrial total, indicando um aumento do nível de concentração global medido pelo valor agregado. As principais explicações para esse resultado são: crescimento maior da demanda por produtos produzidos pelas grandes empresas, tais como automóveis, petró-

leo e equipamentos elétricos, setores dominados pelas grandes em- presas. Entre a segunda metade dos anos 1960 e o ano de 1992, porém, o grau de concentração se mostrou estável. Todavia, se a medida utilizada for patrimônio das empresas, para esse mesmo último período considerado, observa-se um cres- cimento do papel das grandes empresas na atividade econômica.

A principal razão para isto é que esse indicador inclui as operações

das empresas em outros países, atividade que se ampliou consi- deravelmente no pós-Segunda Guerra Mundial, com os Estados Unidos participando da reconstrução mundial. Outra razão é esse indicador considerar as atividades das empresas não só nas ativida- des industriais como também nas atividades de extração e de trans- porte. Contudo, todas essas razões mostram também que, apesar

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do agigantamento das grandes empresas e o consequente aumento da concentração global, esse processo não foi acompanhado por um aumento da concentração nos mercados de atuação de cada uma das grandes empresas consideradas. Considerando um contexto de evolução histórica, as grandes empresas permanecem as mesmas? Ou há mudanças? Vários es- tudos encontraram uma alta taxa de modificação. As principais causas se devem à atividade de fusões. Poucas grandes empresas entram em processo de falência. Outros autores fizeram estudos so- bre a taxa de sobrevivência das grandes empresas, mostrando que existia uma elevada relação positiva entre sobrevivência e tamanho inicial de operação das empresas.

Concentração em mercados individuais

O grau de concentração dos produtores em um determinado mer- cado é considerado um aspecto relevante da estrutura de mercado, por causa da sua relação hipotética com o poder de mercado, con- dutas e desempenhos industriais, previstas no Modelo ECD. Várias autoridades econômicas responsáveis pela defesa da concorrência têm em mente a estrutura de mercados específicos. Eles estarão mais preocupados com as atividades de fusão nos mer- cados concentrados do que nos mercados não concentrados e nos efeitos que essa fusão poderá representar de abusos do poder eco- nômico sobre a concorrência e sobre os consumidores.

Medidas estruturais de concentração

As medidas de concentração estruturais são assim denominadas porque estão referidas à estrutura dos mercados. Existem várias medidas possíveis. Nenhuma medida utilizada é perfeita. Sua utili- zação deverá ser sempre avaliada de acordo com os objetivos finais de análise e a disponibilidade de dados. A primeira medida de concentração dos produtores em um mercado específico é o número de empresas operando nesse mer- cado. A teoria econômica indica que, tudo o mais permanecen- do constante, quanto maior o número de empresas atuando em um mercado, maior a competição. Para as estruturas de mercado competitiva e monopólica, essa medida se apresenta razoável. En-

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tretanto, se a estrutura de mercado for oligopolista – existência de poucas empresas – pode ser necessário complementar a medida com o grau de participação no mercado de cada empresa. Isto porque dependendo da participação relativa no mercado de cada empresa poderá haver adoção de distintas condutas e resultados de desempenho diferentes. Duas medidas de concentração levam em conta, além do nú- mero de empresas, a distribuição de sua participação no merca- do. A primeira delas é a taxa de concentração (CR). A taxa de con- centração é a participação cumulativa das k maiores empresas no mercado, onde k pode adquirir os seguintes valores típicos: 4, 8 e 20. Dessa forma, o CR(k) é a soma das participações relativas das k maiores empresas em uma indústria, assim como o CR(4) é a soma da participação das quatro maiores empresas do mercado, por exemplo.

CR(k) =

k

S

i = 1

i

,

sendo S i a participação relativa de cada uma das k maiores empre- sas no mercado.

O indicador mais comum para se medir o CR de uma indústria

é o montante de vendas, mas também poderemos utilizar valor agre-

gado, número de empregos ou ativos patrimoniais das empresas.

A taxa de concentração ou CR tem um significado simples:

para indústrias competitivas seu valor está próximo de zero e para indústrias monopolistas está próximo de um. Sua mensuração é facilitada devido à disponibilidade de dados, pelo menos para os principais setores industriais, da participação relativa das maiores empresas. Entretanto, essa medida também tem limitações. Em primei- ro lugar, na medida em que ela considera apenas o somatório da participação relativa de algumas empresas, as maiores, se houver modificação na participação relativa das demais empresas não con- sideradas, a medida não captará essa mudança. Em segundo lugar, ela não indica adequadamente o grau de competição da indústria porque, dependendo do número de empresas consideradas, a taxa de concentração pode ser distinta.

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Além disso, a taxa de concentração não nos fornece informa-

ções sobre a distribuição das participações de mercado existentes entre as empresas consideradas ou a mudança que ocorreu entre as participações relativas em dois pontos do tempo. Por exemplo, não sabemos se entre as quatro maiores empresas que dominam 60% do mercado existe uma líder com 30% do mercado e outras três com 10% cada uma delas. Ou se a participação relativa de- las é equitativa, ou seja, de 15% para cada uma. A importância de sabermos essa distribuição é porque ela pode afetar a conduta e o desempenho dos mercados. Mercados com muitas empresas de tamanhos desiguais podem não ser competitivos, apesar do grande número de empresas nele presentes.

A segunda medida ou índice que leva em consideração tanto o

número de firmas quanto a participação relativa dessas no mercado, mas também a desigualdade dessa participação relativa, ausente na medida anterior, é o índice Herfindahl-Hirschman (IHH). O índice é composto da soma dos quadrados das participações relativas das n empresas atuando em uma indústria. Matematicamente,

IHH =

n

i = 1

(

S

i

)

2

⎥ ⎦

10.000

onde n é o número total de empresas atuando na indústria e S i a participação relativa de cada uma das n empresas do mercado. Os valores do IHH poderão variar entre 0 para indústrias per- feitamente competitivas e 10.000 para indústrias monopolistas.

A prática de análise antitruste americana, uma das mais anti-

gas e consagradas, propõe três faixas para balizar as análises preli- minares de processos de fusões, considerando os valores do índice após o anúncio de fusão de duas empresas:

0 IHH < 1000: não é preciso haver preocupação quanto à competição, caso a fusão seja autorizada; 1000 IHH 1800: é necessário preocupar-se com a com- petição se o aumento do índice for maior ou igual a 100 pontos com relação ao índice calculado antes da fusão; IHH > 1800: é necessário preocupar-se com a competição se o aumento do índice for maior ou igual a 50 pontos com rela- ção ao índice calculado antes da fusão.

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Definição do mercado relevante

Mais importante do que a discussão sobre qual medida de concen- tração a ser utilizada é a definição adotada de mercado relevante. Uma definição adequada do mercado relevante é aquela que inclui todas as empresas competidoras e exclui as que não o são. Para identificar as empresas que competem entre si é necessário considerar a substitutibilidade entre produtores e consumidores. Ela se apresenta para os consumidores quando duas empresas pro- duzem dois produtos que são utilizados para preencher a mesma

função ou que os consumidores são indiferentes quanto ao seu uso. Ela se apresenta para os produtores quando duas empresas utilizam

o mesmo processo produtivo para fazer distintos produtos, poden- do passar da produção de um produto para o outro e se tornarem

competidoras, sem custos de mudança. A inclusão de poucas empresas em uma definição do mercado torna-o muito restrito, levando a medidas de concentração exage- radas. O inverso faz com que a definição do mercado seja muito ampla e a medição do seu grau de concentração pode estar sendo subestimada. Por exemplo, na indústria farmacêutica, considerar como mercado relevante apenas as empresas atuando em uma úni- ca classe terapêutica pode ser uma definição de mercado relevante muito estreita que levará a estimativa de graus de concentração superestimados. Deveria se considerar, nesse caso, a existência de substitutibilidade entre os processos produtivos ou entre classes terapêuticas que preenchem as mesmas funções. Por outro lado, considerar todas as empresas atuando na indústria farmacêutica, como se houvesse perfeita substituição entre os diferentes proces- sos produtivos e entre as diferentes classes terapêuticas, seria tornar

a definição de mercado relevante muito ampla e a estimativa do grau de concentração subestimado.

A Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) no Brasil, assim como o Standard Industrial Classifications (SIC) nos Estados Unidos para propor a divisão das atividades econômicas em setores industriais específicos, tende a considerar com maior ênfase

a substitutibilidade entre os produtores (semelhança dos processos

produtivos) ao invés de considerar o grau de substituição entre os

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consumidores. Em geral, isto resulta em uma definição de mercado relevante que é muito ampla, incluindo empresas que não competem entre si, e uma estimativa do grau de concentração subestimada. Outra consideração importante na definição do mercado rele- vante é a consideração sobre a abrangência do espaço geográfico que se está definindo o mercado. Em alguns casos pode-se assumir que o mercado relevante exclui importações e exportações, sendo coincidente com o espaço nacional – mercado local. Em outros é preciso considerar as atividades de importação e exportação das empresas localizadas nesse espaço e em outros – nesse caso, o mer- cado relevante seria o regional. Se os bens estão sujeitos ou não à deterioração, se os custos de transporte representam ou não uma parcela significativa do preço das mercadorias, se as importações representam uma parcela sig- nificativa da demanda interna, se as exportações representam uma parcela significativa do mercado, entre outros, esses fatores deve- rão ser considerados na decisão de uso da definição de mercado local ou regional.

1.5. Desdobramentos e contribuições

Na verdade, as principais limitações da disciplina economia indus- trial nascem do seu não rompimento inicial com a teoria neoclássi- ca tradicional. Ela apenas estava fortemente motivada em confron- tar as predições da economia pura com as evidências empíricas de funcionamento corrente dos mercados. Desde Alfred Marshall, já se podia prever os seus desdobramentos modernos. De um lado, os fenômenos produtivos passaram a ser abordados a partir de uma ótica indutiva, dando um grande espaço às realidades institucio- nais. De outro lado, eles passaram a ser analisados a partir de uma ótica mais hipotética e dedutiva, inicialmente apoiada em uma perspectiva da microeconomia evolutiva (inspirada no paradigma da biologia) e, posteriormente, cada vez mais racionalizada. A se- gunda corrente hoje é a dominante. Uma discussão introduzida nos anos 1980 sobre as relações de causalidade do modelo podem resumir as contribuições e os

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possíveis desdobramentos. Imaginar o funcionamento do mode- lo supondo uma determinação endógena das condições básicas da demanda e da oferta permite que a análise da economia industrial possa englobar tanto a tradição estática quanto a tradição dinâmica de concorrência. De fato, pode-se perceber claramente que o conceito de con- corrência na análise econômica pode ter dois significados diferentes. Um primeiro que enfatiza a conduta dos vendedores/produtores e outro que enfatiza a estrutura do mercado. Além disso, enfatiza-se que esse conceito evoluiu ao longo do tempo. Adam Smith considerava a essência da competição a rivalida- de estabelecida de forma independente por cada vendedor/produ- tor para obter clientela para si em detrimento dos demais. Quanto mais vendedores, mais competitivo seria o mercado. A regulação do mercado se daria de forma automática (‘mão invisível’) através da atração de mais vendedores para o mercado que permitisse a realização de maiores taxas de lucro, as quais tenderiam a se re- duzir pela divisão dos ganhos com um número cada vez maior de produtores. Dessa forma, os preços cairiam ao nível dos custos (esforço necessário para produzir) garantindo uma remuneração justa e equilibrada no longo prazo. É importante ressaltar que esse movimento de redução das taxas de lucro ao nível dos custos no longo prazo não é incompatível com lucros extraordinários no cur- to prazo. Além disso, para que o mecanismo de alocação de inves- timentos via mercado funcionasse era preciso não haver barreiras à mobilidade perfeita dos fatores de produção. A teoria econômica neoclássica, ao introduzir o raciocínio da disciplina de cálculo para formalizar a teoria econômica, redefiniu o conceito de competição imaginado por Adam Smith. Um mer- cado é considerado perfeitamente competitivo quando o número de empresas vendedoras, vendendo um produto homogêneo, é tão grande e a parcela individual de cada uma delas tão pequena que nenhuma empresa é capaz de influenciar significativamente o preço dos produtos através da variação da quantidade produzida por ela. Em outras palavras, o preço é um dado para a empresa. Ele é determinado pelas forças de oferta e demanda globais no

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mercado e foge ao controle delas. Essa definição de competição, diferentemente da adotada por Adam Smith, não segue o senso co- mum: uma batalha através de preços e outras estratégias para con- quistar parcelas já ocupadas do mercado. Se o mercado é amplo o suficiente para não ser influenciado pelas decisões individuais dos produtores, então, pode haver competição sem rivalidade entre as empresas. Os produtores se restringem a decidir sobre a quantida- de a ser produzida. Assim, considerando uma visão de concorrência estática, que toma o mercado de competição perfeita, tal como hipotetizado pela teoria neoclássica, a análise das condutas ou das estratégias das empresas seria supérflua, dado que as informações fornecidas pela estrutura seriam suficientes para prever ou induzir o compor- tamento adequado das empresas. Assim, em um mercado de com- petição perfeita, as empresas não teriam condições individuais de influenciar a concorrência e se comportariam de acordo com os sinais emitidos pelo mercado de preços, ajustando seus custos para não ter prejuízo. Em um mercado do tipo oligopolizado, elas se comportariam de forma colusiva para determinar seus preços de formas a extrair o máximo de excedente. Essa é considerada uma visão estática da concorrência porque as empresas apenas reagem às estruturas dadas dos mercados, não rivalizando diretamente com as demais empresas. Essa é também a principal conclusão a que chega Joe Bain, que retomará a abordagem de Edward Mason, no início dos anos 1950, formalizando-a a partir de observações estatísticas sobre as relações causais entre ECD. O autor demonstrou que a taxa de lu- cro dos setores (indicador de desempenho) é estatisticamente cor- relacionada com o grau de concentração e com o nível de barreiras à entrada, afirmando existir uma relação indireta entre os desem- penhos e as estruturas de mercado. O autor marca de certa forma uma ruptura com a abordagem de Mason e um retorno à tradição neoclássica, conforme ilustra a Figura 3, ou seja, os desempenhos podem ser diretamente deduzidos das características das estruturas de cada mercado.

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Figura 3. A abordagem estática tradicional do Modelo ECD:

análise de dois mercados hipotéticos

Características estruturais

Concorrência

Oligopólio

Número de Firmas

Muitas firmas, cada uma com uma pequena porção do mercado

Poucas firmas com por- ções similares do mer- cado

Número de compradores

Muitos

Poucos

Natureza dos produtos

Homogênea

Diferenciada

Barreiras à entrada

Baixas

Substanciais

Desempenho

p=Cmg

P>Cmg

Fonte: Adaptado de Ferguson, 1988.

Em outra visão dinâmica da concorrência, ilustrada pela Figu- ra 4, mais condizente com a visão seminal de Mason, pressupõe- se que as empresas buscam permanentemente alterar as condições básicas de oferta e demanda e de estrutura do mercado, através de suas estratégias, a fim de obterem vantagens competitivas a seu favor. Os exemplos das estratégias de investimentos em P&D e de preço, apresentadas anteriormente, ilustram bem como as empresas são capazes de alterar, respectivamente, a condição básica de oferta e a estrutura da indústria. A evidência empírica, ao contrário do que supõe a visão estática de concorrência, tem mostrado condutas ou estratégias diferenciadas em ambos os tipos de estruturas. Tanto as pequenas empresas, atuando em mercados competitivos, podem introduzir inovações que provocam disrupturas em suas condições básicas de oferta, quanto grandes empresas, atuando em estruturas oligopolizadas, podem não se comportar colusivamente, abrindo guerras de preços desenfreadas ou adotando atitudes inovadoras relevantes para a acumulação do conhecimento. Essas evidências mostram que as estratégias empresariais devem ser objeto de estu- do e não apenas serem deduzidas das estruturas existentes, como pressupõe a visão tradicional de concorrência. E mais, as estraté- gias empresariais são responsáveis pelo dinamismo dos mercados. Portanto, o foco do estudo desloca-se para as possíveis interações entre a estratégia e a estrutura.

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Figura 4. Relações mais complexas entre estrutura, conduta e desempenho

   
 
 
 
   
   

Fonte: Ferguson (1988, p.11).

Alguns autores chegam a introduzir dois conceitos alternati- vos de barreiras à entrada, seguindo essa nova visão: estáticas e dinâmicas. As primeiras são decorrentes de condições estruturais das indústrias e dos mercados e as segundas resultam de estratégias deliberadas das empresas estabelecidas para deterem a entrada das empresas potenciais entrantes. Mais recentemente, o conceito de competição foi ampliado com a noção de ‘mercado contestável’. Em mercados onde a en- trada e a saída de empresas não são dificultadas, ainda que as con- dições de homogeneidade dos produtos e número de produtores não sejam compatíveis com as condições de concorrência perfeita, há potencial para a competição. Dessa forma, nasceu o conceito de ‘competição potencial’. Outras condições associadas ao modelo de competição perfei- ta, tais como conhecimento das condições de mercado presentes e futuras e divisibilidade contínua dos fatores e dos produtos, são menos importantes e a sua ausência é incapaz de invalidar o mode- lo de competição perfeita. Um último ponto muito importante a ser esclarecido é que o tamanho absoluto de cada empresa não importa, mas sim o seu ta- manho relativo no mercado em que está operando. Uma empresa pode ser pequena em termos absolutos, mas ter um elevado poder de monopólio e vice-versa.

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2. Indústria farmacêutica internacional

2.1. Características da oferta

No que se refere à matéria-prima, para o desenvolvimento e a pro- dução de medicamentos, as principais dimensões dizem respeito à sua natureza, localização e acesso. Em relação à natureza da matéria- prima distinguem-se:

os farmoquímicos, que se originam da síntese química de ma- teriais orgânicos; os fitoterápicos, produzidos exclusivamente a partir do isola- mento da substância medicamentosa encontrada em material botânico integral ou seu extrato (Academia Brasileira de Ciên- cias, 1998); e os biotecnológicos, produzidos a partir de substâncias enge- nheiradas através da biologia molecular.

A despeito dessa variedade em relação à natureza da matéria- prima, o foco deste diagnóstico recai sobre os primeiros, isto é, aqueles que se originam de farmoquímicos. A produção de matéria- prima para os medicamentos farmoquímicos é originária da indús- tria de química fina. O setor de química fina, segundo Bermudez (1995), abrange a elaboração de produtos químicos de maior valor agregado que os da indústria química de base e que são classificados como intermediários e especialidades. Os produtos intermediários servem como matéria-prima para a elaboração do produto final, contém o princípio ativo e são também chamados de fármacos. Os produtos da indústria farmacêutica podem também ser clas- sificados segundo outros três critérios principais – além do critério da origem da matéria-prima acima explicitado. Esses critérios estão associados às exigências regulatórias no que diz respeito à necessi- dade de prescrição, à legislação de propriedade industrial e à saúde pública e podem variar em cada país.

2. Indústria farmacêutica internacional

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O primeiro deles se refere à necessidade de receita médica para compra, ou seja, produtos que necessitam ser prescritos por um médico após um exame clínico no paciente. Segundo esse cri- tério, os produtos são em geral classificados como:

aqueles que precisam de receita médica para consumo, comu- mente denominados medicamentos éticos; aqueles que não precisam de receita e são de venda livre, co- mumente denominados medicamentos não éticos ou populares (utiliza-se às vezes a abreviação OTC emprestada do termo em inglês over the counter).

Um segundo critério separa os produtos comercializados que

estão protegidos por patentes 15 e aqueles cujas patentes já expiraram. Os primeiros são, em geral, comercializados através de um nome co- mercial ou marca. Os segundos, dependendo da legislação de cada país, podem ser comercializados sob a denominação genérica do princípio ativo (denominados apenas genéricos) e/ou por um nome comercial (genérico de marca). 16 Outro critério de classificação de medicamentos é o caráter de essencialidade desses produtos. Medicamentos essenciais, segundo

a OMS, são definidos como “de máxima importância, que são bási-

cos, indispensáveis e imprescindíveis para atender as necessidades

de saúde da população e que devem ser acessíveis em todo o mo-

mento, na dose apropriada, a todos os segmentos da sociedade e

a um preço que os indivíduos e a comunidade possam dispor ( )”

(WHO, 1999b). Finalmente os produtos farmacêuticos podem ser diferencia- dos em relação às características dos produtos, seja em relação à sua forma de apresentação (líquidos, injetáveis, comprimidos,

15. Nesse caso, encontra-se na literatura internacional outra distinção feita entre

o primeiro medicamento introduzido para tratar uma determinada enfermidade,

geralmente denominado medicamento inovador ou original, e o medicamento que apresenta mecanismos de atuação semelhantes ao original, mas com algumas dife- renças que o permitem ser patenteado e é introduzido no mercado após o inovador, geralmente denominado como “me too” (Congressional Budget Office, 1998).

16. Essa distinção segue a encontrada na literatura internacional, correspondendo

à denominação em inglês de branded product (medicamento protegido por patente e

comercializado sob um nome de marca), branded generics (medicamento cuja patente expirou, mas que é vendido sob um nome comercial) e generics (comercializado pela denominação genérica do princípio ativo).

52

2. Indústria farmacêutica internacional

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cápsulas, pó, pomadas), quanto ao grupo farmacológico e quanto à sua classificação terapêutica anatômica. Em relação à localização das plantas, observa-se um quadro heterogêneo em relação à produção de fármacos e medicamentos.

A indústria farmacêutica é fortemente internacionalizada. As maio-

res empresas atuam em escala mundial, estando presentes em prati- camente todos os mercados. No entanto, elas não realizam ativida- des produtivas em todos eles, e em alguns países não existem nem empresas nacionais. Observa-se uma concentração da produção de fármacos nos Estados Unidos das Américas (EUA) e na Europa, embora venha tendo destaque a produção na Índia e na China. No caso de medicamentos, observa-se a produção local nos principais mercados mundiais, indicando que a proximidade dos mercados

é um fator importante para a produção de medicamentos e não

parece ser para a produção de fármacos. Em relação ao ciclo de vida dos produtos, isto depende em grande parte do inter-relacionamento entre os condicionantes da deman- da, a estrutura do mercado e a conduta das empresas em relação à competição e ao esquema regulatório vigente. E, portanto, varia de país para país, podendo se observar um ciclo de vida dos produtos mais longo nos países menos desenvolvidos. Quanto ao volume de mão-de-obra usada e sua qualificação, essa indústria emprega uma parcela bem pequena do total empre- gado na indústria de transformação e exige altos níveis de qualifica- ção, resultando em alguns dos mais altos salários pagos da indústria

de transformação. A baixa capacidade de geração de empregos 17 é decorrente da baixa interferência manual no processo produtivo e a alta qualificação decorre dos altíssimos graus de pureza e qualida- de do produto que as regulamentações exigem. A indústria absor- ve somente profissionais capacitados, normalmente com formação técnica de nível médio ou superior. No que se refere à tecnologia empregada, a indústria farmacêutica

é classificada como uma indústria intensiva em tecnologia (science

based). Algumas das tecnologias utilizadas para produzir medica- mentos – tais como os analgésicos e antitérmicos, os anti-inflama- tórios, antibióticos, anti-infecciosos e vitaminas – datam, respecti- vamente, da segunda metade do século XIX e da primeira meta-

17. Estima-se apenas um emprego por elevação anual de US$ 300.000,00 das vendas.

2. Indústria farmacêutica internacional

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53

de do século XX. Entretanto, essas tecnologias têm apresentado

constantes mudanças a partir dos desenvolvimentos recentes nas áreas de farmacologia e na biotecnologia e nas técnicas de screening (American Chemical Society, 2000). O desenvolvimento da biotecnologia a partir de 1970 implicou

a mudança do paradigma tecnológico de busca de novos medica- mentos, passando de uma estratégia de, primeiramente, desenvolver uma substância (em geral, através da síntese química) e, posterior- mente, aplicá-la no corpo humano, para a síntese de proteínas que alterarão o metabolismo humano por si só. De fato, com o uso da biotecnologia, primeiro tenta-se mapear o organismo para identificar os genes que tem alguma função no corpo e descobrir as proteínas

a serem sintetizadas e as suas funções no organismo. A partir desse

reconhecimento, é possível atacar diretamente as doenças causadas por deficiências nessas proteínas e não apenas as suas consequências, como no paradigma anterior. Além disto, destaca-se o desenvolvi- mento de técnicas de screening que tornaram o processo de busca e seleção de novas moléculas mais rápido e eficaz através do uso de modelagem molecular auxiliada por tecnologias da computação. Novas oportunidades para o desenvolvimento de produtos fi- toterápicos também surgem a partir dos desenvolvimentos da bio- tecnologia. A caracterização das plantas e a identificação de seus princípios ativos permitem a produção de medicamentos a partir delas ou o uso das estruturas moleculares vegetais para modelos de pesquisa para a síntese química. Todas essas mudanças imprimem um alto dinamismo tecnológico a essa indústria.

2.2. Características da demanda

A compra de medicamentos depende de decisões por parte dos pacien-

tes que são determinadas pelos médicos ou outros profissionais de saúde. A necessidade da receita atua como um importante elemen-

to na relação entre as empresas farmacêuticas, a classe médica, os

consumidores e o governo. É o médico que, em geral, determina

o tratamento a ser aplicado ao paciente e a frequência de seu uso.

Essa influência sobre a demanda é mais intensa no que diz respeito

54

2. Indústria farmacêutica internacional

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aos produtos éticos. Além disso, Zucchi et al. (1998) apontam ou- tros fatores que influenciam a demanda em geral:

A percepção do paciente sobre a necessidade de recorrer à assistência médica; Fatores culturais, psicossociais e socioeconômicos que variam de acordo com gênero e grau de instrução, nível e distribuição de renda; As formas de financiamento (seguridade social, desembolso direto, ou copagamentos); Aspectos demográficos e o perfil epidemiológico; Existência de assimetrias de informação e de outras naturezas; Desenvolvimento tecnológico e difusão de melhores formas de tratamento das enfermidades.

Nos países desenvolvidos, embora com algumas distinções, observa-se uma melhor distribuição no que diz respeito ao acesso a medicamentos, bem como o estabelecimento de normas e regu- lamentações por parte dos governos. Já nos países em desenvolvi- mento encontra-se uma situação bastante diferente, onde a concen- tração de renda, as disparidades sociais e a reduzida cobertura de alguns programas públicos de assistência farmacêutica refletem um sistema de financiamento predominantemente privado de desem- bolso direto, restrito principalmente às camadas sociais com maior poder aquisitivo. Esses fatores influenciam sobremaneira dois outros aspectos bastante importantes em relação à demanda de medicamentos que dizem respeito à elasticidade-preço dos distintos segmentos e à pro- pensão à substituição de produtos. A demanda se apresenta altamente inelástica a preços, devido a um efeito substituição, em geral, muito reduzido, uma vez que o consumidor final não é o responsável pela escolha do medicamento, e sim o médico, que por sua vez não é o responsável pelo desembolso monetário na compra. Colabora ain- da para esse efeito o baixo grau de informação do paciente sobre como proceder alternativamente ao tratamento das doenças, em função da especialidade técnica envolvida no consumo de medi- camentos, a aversão ao risco por parte do médico que prescreve quanto às perdas de efetividade do medicamento, a rigidez imposta

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55

pela continuidade do tratamento, o sistema de financiamento de medicamentos e o grau de essencialidade do produto.

O determinante real do consumo de medicamentos é o nível de

renda e sua distribuição. Assim, quanto maior é o nível de renda e melhor a sua distribuição, maior é o consumo de medicamentos. Nos países desenvolvidos, os remédios mais prescritos são destinados ao combate de males no sistema nervoso, sistema cardiovascular e sis- tema respiratório, enfermidades que dominam as sociedades indus-

trializadas. Nos países em desenvolvimento, com nível de renda e distribuição inferiores aos dos países desenvolvidos, as doenças mais comuns são as parasitárias (malária, disenteria, lepra, tuberculose, entre outras). Embora seja possível observar, em alguns países em desenvolvimento com certo grau de industrialização, a crescente im- portância das doenças crônico-degenerativas e do sistema cardiovas- cular, elas são mais comuns nos países desenvolvidos.

A demanda da indústria apresenta, ainda, características sazo-

nais, sendo o consumo de medicamentos afetado pela saúde da po- pulação, que, por sua vez, é influenciada por epidemias e outros fatores relativos às condições de saúde (condições sanitárias, renda, educação, apenas para nomear alguns). Historicamente, a indústria farmacêutica vem apresentando um elevado potencial de crescimento, embora existam diferenças en- tre países. A disseminação do consumo de medicamentos, as mu- danças nos hábitos da sociedade, a emergência de novas doenças, como a Aids, e o retorno de algumas doenças, como a tuberculose, por um lado, e, por outro, o aumento da expectativa de vida mun- dial, são fatores que resultaram em um crescimento mais do que significativo nas vendas, fazendo com que as taxas de rentabilidade e crescimento do setor farmacêutico tenham sido sempre superio-

res às do setor manufatureiro como um todo (Câmara, 1993). A isso tudo se alia a introdução de novas tecnologias e o aprimoramento do conhecimento a respeito dos processos no nível celular e mole- cular das doenças. Em resumo, a indústria caracteriza-se pela complexidade insti- tucional, pela diversidade de segmentos e produtos, por assimetrias informacionais entre demanda e oferta, e alto grau de incerteza dos agentes quanto às ações e escolhas e um alto dinamismo tecnológi- co. Essas características têm fortes implicações sobre a estrutura do

56

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mercado e sobre as estratégias empresariais e não raro demandam

a forte presença fiscalizadora e regulamentadora do poder público, como será visto nas próximas seções.

2.3. Estrutura do mercado

No ano de 2008, o tamanho do mercado farmacêutico, nos principais mercados do mundo em termos de faturamento, era estimado em torno de US$ 438,8 bilhões (vendas no varejo), conforme a Tabela 1. É importante destacar que, entre os principais mercados mun- diais, a maior parte são países desenvolvidos, mas constam tam- bém países em desenvolvimento. As vendas globais da indústria farmacêutica mundial, como verificado na Tabela 2, atingiram US$ 773 bilhões em 2008, quase

o dobro do valor das vendas nos países selecionados como visto na

Tabela 1. Esse valor representou um crescimento de 4,8% sobre o valor do ano anterior. Observamos que, embora as vendas conti- nuem crescendo, esse crescimento tem experimentado um decrés- cimo significativo a partir de 2004. No mundo, estima-se que o número de produtores farmacêuticos situe-se por volta de 10 mil empresas, no entanto, as cem maiores companhias de grande porte são responsáveis por cerca de 90% dos produtos farmacêuticos para consumo humano (Bermudez, 1995 apud Gereffi, 1986). Essa elevada concentração no nível dos produtos não se apresenta no nível de participação no mercado por faturamento das 10 maiores empresas. De fato, dados mais recen- tes, apresentados na Tabela 3, apontam que as 10 maiores empresas respondem por 54,3% do mercado, no ano de 2004. Essa participação vem caindo e chega a 42,62% em 2008. A queda é explicada pela redução da participação relativa de cada empresa, sendo que ela é maior para as empresas melhor posicionadas. Por exemplo, a Pfizer, primeira colocada em ambos os anos considerados, perdeu cerca de três pontos percentuais no período e o Abbot Laboratories, pe- núltimo colocado, apenas cerca de um ponto percentual. A única novidade a registrar na lista das 10 maiores empresas é a saída do Eli Lilly and Company e a entrada da Bristol-Myers Squibb no último lugar da lista.

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57

ND

ND

438.800

16.000

208.700

114.600

225.200

12.500

3.200

8.600

66.700

24.400

17.200Itália

30.700

35.200

15.300

7.900

16.800

2008

da Inovação do IE-UFRJ, a partir de IMS (2000b, 2000c, 2000d, 2001a) para 1997-2000 e IMS Retail Drug

ND

ND

20.297

2007

14.440

102.199

27.599

29.534

218.538

204.098

2.528

9.318

6.396

12.788

16.963

403.972

56.542

15.315

8.451

Tabela 1. Vendas de medicamentos no varejo, principais mercados do mundo, 1997-2008 (US$ milhões)

ND

ND

18.747

35.630

11.629

13.719

105.536

15.666

8.096

8.366

27.668

2006

14.943

5.803

398.282

197.802

2.285

56.675

211.521

ND

ND

16.277

2.037

196.190

24.520

6.760

370.014

11.994

14.496

91.586

184.196

5.688

60.273

26.733

10.852

14.985

2005

7.481

ND

ND

347.497

57.627

25.097

13.289

10.049

86.724

5.284

2004

15.628

14.468

21.248

1.806

6.448

184.573

10.283

174.525

5.035

ND

ND

1.557

8.577

53.109

4.314

315.888

12.756

170.878

4.173

2003

6.202

11.932

162.302

18.432

75.655

22.725

12.981

8.761

ND

ND

147.380

10.409

6.099

1.139

14.744

60.018

154.476

7.096

11.113

10.832

46.892

17.482

3.312

2002

3.875

275.811

6.551

ND

ND

255.797

47.517

5.657

9.430

9.614

132.464

12.906

15.316

138.708

13.766

4.153

53.783

2.883

3.182

6.245

5.571

2001

ND

ND

ND

ND

13.480

5.290

50.920

2000

213.219

51.434

14.424

8.888

5.153

13.283

3.422

9.035

4.905

97.385

97.385

em 19/10/2009.

ND

ND

11.000

273.200

11.300

15.100

6.600

4.900

6.200

4.000

53.400

18.500

130.000

17.700

130.000

65.100

3.400

6.200

1999

Economia

ND

ND

ND

ND

3.557

52.427

10.310

17.130

15.470

38.764

5.284

182.416

1998

3.263

9.123

8.385

74.095

14.165

74.095

acesso

hospitais.

Grupo

ND

ND

8.427

3.437

46.887

236.847

1997

3.300

3.600

10.580

65.360

6.019

101.429

101.429

16.434

3.888

8.946

22.122

18.212

IMS Health,

a do

disponível.

Elaboração

vendas

Reino Unido

Nova Zelân-

países sele-

América do

Europa – 5

do

Alemanha

Austrália/

Argentina

América Latina – 3

Total dos

cionados

– Não

Espanha

Inclui

maiores

maiores

Canadá

México

1 Monitor

França

Japão¹

China

Norte

Brasil

Fonte:

Índia

EUA

dia

ND

58

2. Indústria farmacêutica internacional

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4.8%

2008

773

Fonte: IMS Health Market Prognosis (incluídos mercados auditados e não auditados pela IMS). Todos os valores correntes referentes a março de

Participação no

mercado (%)

100

2,69

4,19

4,99

5,99

4,49

2,64

5,04

4,06

42,62

3,62

4,92

6.6%

2007

715

Tabela 3. Maiores empresas da indústria farmacêutica mundial, faturamento, 2004 e 2008

6.8%

milhões)

308.757

19.140

19.466

30.336

36.506

32.516

648

2006

43.363

(US$

36.172

35.642

724.465

29.425

26.191

Faturamento

7.2%

605

2005

Tabela 2. Vendas globais, indústria farmacêutica (US$ bilhões)

Bristol-Myers Squibb

Abbott Laboratories

Hoffmann-La Roche

7.9%

560

2004

Johnson & Johnson

GlaxoSmithKline

Fonte: Elaboração do Grupo Economia da Inovação, baseado em IMS Health Market Prognosis.

Sanofi-Aventis

AstraZeneca

Companhia

Novartis

10.2%

499

2003

Merck

Pfizer

2008

Rk

10

7

9

4

6

8

3

2

5

1

9.2%

429

2002

no

mercado (%)

8,47

3,47

100

4,50

4,10

9,04

6,68

5,66

3,83

3,52

54,32

5,05

Participação

11.8%

393

2001

milhões)

28.247

21.427

19.380

19.680

559.000

22.939

47.348

50.516

37.318

25.163

303.633

(US$

31.615

11.5%

2000

362

Faturamento

14.5%

1999

334

Total mercado mundial

Eli Lilly and Company

Hoffmann – La Roche

Abbott Laboratories

Johnson & Johnson

Total 10 maiores

GlaxoSmithKline

anterior sobre o

Sanofi-Aventis

AstraZeneca

Total do Mercado Mundial

Companhia

Novartis

Crescimento

Merck

Pfizer

2004

2009.

ano

Rk

10

7

9

4

6

8

3

2

5

1

2. Indústria farmacêutica internacional

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59

O número de compradores na indústria está fortemente ligado aos esquemas de financiamento e de distribuição de medicamentos. Em alguns países, o fato de o sistema público de saúde fornecer os medicamentos ou praticar alguma forma de reembolso, ou de existirem organizações privadas que compartilham as despesas com medicamentos com seus segurados, mas que realizam a com- pra como um único grande comprador, dá origem a formação de grandes monopsônios. Essa é uma forte tendência, principalmente nos países mais desenvolvidos. Nos países menos desenvolvidos, predominam os sistemas de financiamento e distribuição privados, em que as despesas com medicamentos são por desembolso direto, existindo, dessa forma, um grupo bastante heterogêneo e com poder de barganha quase inexistente em relação aos produtores, exceto no caso em que os governos procuram intervir junto aos fabricantes. Em termos de segmentação do mercado, a indústria pode ser segmentada de diferentes maneiras, conforme apontado nas carac- terísticas de oferta (ver p.8). Via de regra, o segmento de medi- camentos éticos (vendidos sob prescrição) é aquele que apresenta maior faturamento nos principais mercados. Mas, a principal for- ma de segmentação é pelas classes terapêuticas. Observa-se, inclusive, certa concentração de esforços por parte das empresas líderes em algumas classes terapêuticas, princi- palmente naquelas de maior prevalência nos mercados dos países desenvolvidos, que têm maior atratividade. Em geral, as empre- sas farmacêuticas se especializam em pesquisas de determinadas classes terapêuticas, principalmente devido à variedade e comple- xidade de processos e conhecimento envolvidos, e o espectro va- riado de doenças. Isto pode ser bem observado a partir dos dados mundiais sobre a participação dos gastos em P&D por doença e o mercado mundial de medicamentos relacionados a cada grupo de doenças, conforme Tabela 4.

60

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Tabela 4. Participação nos gastos de P&D por doença e participação no mercado mundial, 1997

Doença (ATC)

Gastos P&D

Mercado

Industriais (%)

Mundial (%)

Órgãos Sensoriais

22,4%

22,2 %

Neoplasmas, Sistema Endócrino e Doenças do Metabolismo

22,3%

17,4%

Cardiovascular

16,5%

19,7%

Anti-infecciosos

14,9%

14,3%

Sistema Respiratório

6,4%

6,8%

Sistema Digestivo e Geniturinário

2,7%

16,3%

Fonte: PhRMA (1999).

Essa especialização conduz à formação de segmentos de mer- cados farmacêuticos em que se observa um grau relativamente alto de concentração em contraste com o baixo grau observado ao nível da indústria. Em relação ao segmento de medicamentos genéricos, esse se carac- terizava inicialmente por empresas de pequeno e médio porte, o que tem sido modificado com a entrada de grandes empresas no mercado com linhas próprias de genéricos ou por meio de aquisi- ções ou alianças (CBO, 1998). A atratividade desse mercado tem crescido devido à tendência dos governos para estimular a subs- tituição dos medicamentos de marca pelos genéricos, devido aos gastos crescentes com saúde no orçamento e o crescimento dos custos com medicamentos, o que tem afetado a estrutura da indús- tria com o segmento de genéricos. Em alguns países europeus e nos Estados Unidos, algumas das líderes mundiais do setor, através de suas divisões para genéricos, chegam a ficar entre os maiores fabricantes do segmento (CBO, 1998; EGA, 2000). O impacto dos genéricos sobre o setor farmacêutico tem se mostrado diferente entre os países, chegando a representar em mé- dia 2% a 3% do mercado em valor e entre 20% a 60% do mercado em volume, nos países europeus. As únicas exceções são apresen- tadas pela Irlanda, Inglaterra e Dinamarca, onde chegam a repre- sentar, respectivamente, 8%, 18% e 35% do mercado em valor. As razões para essas exceções parecem encontrar-se no marco regula- tório em relação a dispensação e reembolso pelo sistema público de saúde, no caso da Inglaterra e Dinamarca, e no caso da Irlanda,

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61

destaca-se também a característica da estrutura do setor farmacêu- tico, com forte peso do segmento de genéricos. Em relação às barreiras à entrada e à mobilidade estáticas, essas

surgem das características estruturais da indústria, tais como impor- tância das economias de escala e de escopo, vantagens absolutas de custos, requerimentos de custo de capital e vantagens de diferen- ciação de produtos. A indústria farmacêutica não produz em larga escala. Entretan- to, as economias de escala são importantes, na medida em que

o porte da empresa favoreça a capacidade de investimento em

pesquisa e lançamento de novos produtos e na divulgação desses

produtos, através da propaganda e marketing. Esses investimentos são sensíveis às economias de escala devido ao elevado custo fixo que representam decorrente da constituição de equipes de P&D

e marketing, bem como das elevadas despesas operacionais para

a sua manutenção, conforme será detalhado no item 1.4. As eco-

nomias de escopo, por sua vez, são bastante relevantes na indústria farmacêutica que é constituída principalmente de empresas mul- tiprodutos. Através das economias de escopo, as empresas farma- cêuticas compensam os ganhos que elas não podem obter a partir das economias de escala, limitadas pelo tamanho dos mercados de cada classe terapêutica, e procuram utilizar os mesmos equipa- mentos fixos para a produção de uma gama variada de produtos (unidades multipropósitos). As vantagens absolutas de custo na indústria farmacêutica estão principalmente relacionadas com os contratos de fornecimento de matérias-primas, com a disponibilidade de mão-de-obra qualifica- da e com o acesso às tecnologias. Na indústria farmacêutica, a patente é um meio de assegurar

que, apesar dos elevados custos de pesquisa e dos altos riscos en- volvidos, os produtores continuem investindo em novos medica- mentos. Elas conferem ao seu detentor a exclusividade de merca- do, por exemplo, sobre o(s) princípio(s) ativo(s) do medicamento em questão, propiciando um monopólio temporário sobre o me- dicamento e permitindo um ganho supranormal por um determi- nado período de tempo. As patentes são, portanto, um elemento fundamental para a apropriação dos benefícios futuros resultantes dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento que culminaram

62

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no desenvolvimento de um novo medicamento e criam vantagens absolutas de custos para as empresas que as detém. Naqueles países que garantem o direito de propriedade in- dustrial, as patentes têm, obrigatoriamente, validade de 20 anos, 18 sendo que, na maior parte desse tempo de validade – em torno de 10 a 12 anos –, o medicamento ainda encontra-se em fase pré- comercial, passando por testes clínicos de diferentes escalas (desde testes em escala laboratorial até testes de larga escala em humanos) até que sejam comprovadas sua qualidade, segurança, eficiência e eficácia para que possa ser comercializado. As diversas formas de proteção patentária previstas no sistema de patentes para a indús- tria farmacêutica são: patentes de produto, formulação farmacêuti- ca, processo, intermediário e segunda indicação (ver a definição de cada uma delas no Quadro 1 abaixo).

Quadro 1. Formas de proteção patentária na indústria farmacêutica

Proíbe qualquer possibilidade de produção do produto, mesmo que para outras utilizações comerciais. Pode ser obtida para uma única substância ou para famílias de substâncias quimicamente relacionadas.

Produto

Formulação

Protege formulações de uso final contendo determinado produto ou combinações de produtos. Além disso, pode ser usada para proteger um produto antigo mas, até a data, não conhecido como agente terapêutico; para proteger composições de produtos antigos cujo efeito sinérgico é novidade ou para proteger formu- lações precisas e consideradas mais ativas, depois de pesquisas farmacológicas prolongadas, o que, em geral, prolongará o tem- po de validade do produto cuja patente original já tenha expirado há vários anos.

Farmacêutica

Processo

Protege processos de obtenção de determinado produto. Podem ser usados para prolongar vantagens competitivas (custo de produção) de determinada empresa após a expiração da patente do produto.

Bem Interme-

Protege o uso de novos compostos úteis como intermediários para a obtenção de uma substância de uso farmacêutico.

diário

Segunda

Protege produtos já conhecidos por determinada ação terapêuti- ca, para os quais descobriu-se um novo uso.

Indicação

Fonte: Ciência Hoje, v.15, n. 89, abr. 1993.

Enfim, a barreira de custos tecnológicos é bastante presente na in- dústria farmacêutica, principalmente no segmento de produtos que se encontram protegidos por patentes, uma vez que no segmento de produtos genéricos a questão de escala é mais importante e a

18. Esse tempo de validade das patentes aplica-se a todos os países signatários do acordo Trips (Trade Related Aspects of Intellectual Property Rights), desde sua vigência em 2005.

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competição se dá via preços. É importante observar que os eleva- dos níveis de risco e incerteza das atividades inovativas no setor farmacêutico contribuem para a elevação das barreiras à entrada, uma vez que se encontra na literatura internacional a estimativa de que apenas de 3% a 5% dos princípios ativos candidatos a novos medicamentos que entram na fase I de testes pré-clínicos chegam a ser comercializados (Soltero et al., 2000). As barreiras à entrada decorrentes da estratégia de diferencia- ção das empresas farmacêuticas são fortemente influenciadas pelas atividades de P&D, visando à busca de patentes, mas também pelas atividades de marketing e de propaganda. A manutenção das vendas dos antigos produtos e, principalmente, o lançamento de novos, requer uma complexa e dispendiosa estrutura de marketing e gastos em propaganda. A lealdade à marca é uma característica histórica da indústria, o que permite lucros supranormais por um longo pe- ríodo de tempo. Mesmo depois de expirado o prazo de exclusivi- dade, concedido pela patente, os médicos continuam prescrevendo os mesmos remédios, que já conquistaram a sua confiança, e, por- tanto, não dão importância a produtos concorrentes mais baratos e mais novos. O médico continua a prescrever o nome da marca, e não o nome genérico do produto. As vantagens obtidas pelas empresas através dos investimen- tos em P&D e em propaganda e marketing não são eternas. As van- tagens das empresas valem para nichos temporários do mercado e devem ser permanentemente renovadas por meio de novos inves- timentos em P&D e marketing. Entretanto, observa-se que a escala mínima da empresa é relevante para a estratégia de diferenciação, porque permite às empresas inovadoras explorar as vantagens de P&D e distribuição com custos fixos mais bem distribuídos devido ao grande volume de produção. A diferenciação na indústria farmacêutica também pode ser exercida através das formas de apresentação dos medicamentos e das embalagens. Dentro da cadeia produtiva, as empresas produtoras de medi- camentos relacionam-se com o segmento de embalagens, com a indústria de equipamentos especializados e com o setor de tecnolo- gia da informação. Além dessas relações, a indústria farmacêutica necessita de uma boa rede de distribuição, uma vez que a sua pro-

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dução se concentra em determinadas regiões, tanto no nível nacio- nal quanto no internacional, e os mercados consumidores são mais pulverizados. Nesse sentido, a comercialização é feita via rede de distribuição própria ou distribuidores terceirizados que fazem com que os produtos cheguem às cadeias de farmácias, à rede varejis- ta, aos hospitais e às clínicas. Finalmente, as empresas produtoras de medicamentos se relacionam com os fornecedores de matérias- primas, a indústria produtora de fármacos. Em relação à integração vertical para trás e para frente na cadeia pro- dutiva, observa-se que, nos países mais desenvolvidos, as empresas estão integradas com a produção dos fármacos e, nos países em de- senvolvimento, a integração se dá através da importação de fármacos da matriz. Essa característica decorre da concentração da produção de fármacos nos Estados Unidos e na Europa, apontada acima. O conjunto de funções especializadas exercidas pelas empresas farma- cêuticas (pesquisa, produção, marketing e comercialização) também é distinto entre empresas líderes e seguidoras, principalmente no que diz respeito às atividades de P&D, como será visto adiante. Recentemente observa-se também uma tendência para a ter- ceirização das atividades de P&D. Devido à crescente utilização de técnicas computacionais e de biotecnologia, algumas empresas têm se especializado em algumas etapas do processo de pesquisa e de- senvolvimento, a saber, a busca e seleção de princípios ativos. Esse fenômeno, entretanto, tem sido caracterizado como fundamental- mente norte-americano. No que diz respeito à estrutura de custos, um estudo preparado para o governo norte-americano (OTA, 1993), a partir de informa- ções de seis empresas farmacêuticas, estimou que os gastos admi- nistrativos e com comercialização estivessem em torno de 33,6% das vendas totais. 19

19. Entretanto, existe muita controvérsia acerca da estrutura de custos do setor. Ainda segundo esse estudo (OTA, 1993), uma forma alternativa utilizada para calcular a estrutura de custos do setor é a comparação com as informações a respeito do segmen- to de medicamentos genéricos, que poderia ser considerado como um limite superior para o custo marginal de longo prazo envolvendo produção, distribuição e custos administrativos. Considerando-se o impacto da competição via preços no segmento de genéricos, os preços refletiriam os custos para permanecer no mercado, incluindo os custos de capital. Dessa forma, se poderia tomar a diferença entre o preço do gené- rico e do medicamento de marca como representativo do mark-up do medicamento de marca sobre os custos marginais (de produção, distribuição e operacional).

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Embora consideravelmente mais baixos, os gastos com marke- ting e P&D também podem ser encontrados no segmento de gené- ricos segundo OTA (1993), principalmente associados à imagem do laboratório produtor e à sua qualidade relacionada aos produtos e às boas práticas de manufatura. 20 Contribuem para a formação dos altos custos da indústria farmacêutica os gastos referentes aos rigorosos critérios de controle de qualidade sobre a estocagem e distribuição dos produtos, apresen- tando um alto risco de perdas referentes ao mau gerenciamento de estoques. Outros custos dizem respeito aos custos de treinamento e capacitação, uma das principais armas da indústria no processo inovativo. É importante ressaltar também a importância do co- nhecimento tácito que resulta do investimento em treinamento e capacitação. Esse conhecimento não é facilmente transferível por ter sido adquirido através da experiência em pesquisa, produção e distribuição dos produtos farmacêuticos e, portanto, é particular e específico a cada empresa, constituindo-se numa importante bar- reira à entrada. De modo sucinto, a indústria é mais bem descrita como um con- junto de oligopólios baseado em ciência, com multiprodutos diferen- ciados em segmentos, classes terapêuticas específicas (por sua vez, subdivididas em categorias específicas), frequência e posologia de uso, essencialidade, efetividade, necessidade de prescrição médica, composição química, princípio ativo, dosagem e embalagens, geran- do uma miríade de apresentações distintas ao consumidor final.

2.4. Conduta

As empresas farmacêuticas comportam-se de maneira diferenciada em cada país ou grupo de países, seja no tocante à estratégia de preços, nos esforços de propaganda e marketing, na definição das estratégias de localização da produção e das atividades de pesqui- sa e desenvolvimento e de patentes como estratégia de exclusão

20. Essa afirmação baseia-se em informações analisadas por OTA (1993) sobre da- dos contábeis de três empresas produtoras de genéricos. Essas empresas reportaram gastos com P&D e marketing em torno de 6% das vendas, para o ano de 1990.

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competitiva. Todas essas estratégias funcionam como barreiras à entrada e à mobilidade dinâmicas. A inovação, por exemplo, é uma forma de concorrência central na indústria farmacêutica, na medida em que traz significativas vantagens para o inovador de um medicamento, permitindo que ele usufrua os excelentes retor- nos financeiros sem que os lucros sejam apropriados por empresas potenciais entrantes. As descobertas de novos princípios ativos patenteáveis e a conquista das preferências dos consumidores, através de intenso

marketing e propaganda, são as principais estratégias de concorrên- cia adotadas pelas empresas farmacêuticas.

É importante salientar que a competição entre medicamen-

tos inovadores e medicamentos “me too” mostra-se cada vez mais acirrada. Estudo recente do governo norte-americano aponta que em 13 classes terapêuticas estudadas, os medicamentos inovadores passaram a sofrer competição por medicamentos “me too” após um ou dois anos a contar da data da introdução no mercado (CBO,

1998).

Uma vez expirada a patente, os produtos passam a ficar ex- postos à competição potencial dos produtos genéricos, que são medicamentos idênticos ao produto original (mesma composição

e mesmo efeito terapêutico), mas que são vendidos pela denomina- ção genérica do princípio ativo.

O desenvolvimento de novos produtos é essencial para as empresas

que competem em nível mundial, uma vez que a proteção paten- tária é uma importante barreira à entrada. O número de empre- sas que realizam pesquisa e desenvolvimento de novos produtos é cada vez menos expressivo, não só em virtude do processo de concentração industrial, como também do elevado risco dos inves- timentos de P&D e da complexidade do processo de inovação, que requer uma elevada capacidade de financiar essas atividades e uma alta gama de conhecimentos científicos e tecnológicos. Considerando a intensidade tecnológica do setor e a estreita relação entre as etapas de busca de novos medicamentos e comer- cialização, é possível afirmar, dessa forma, que a atividade de pes- quisa e desenvolvimento está presente em todas as etapas produtivas, conforme pode ser observado no Quadro 2 a seguir.

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Quadro 2. Etapas que envolvem P&D na criação e desenvolvimento de medicamentos

Etapas

Atividades

Objetos

Obtenção de maté- rias-primas

Seleção de substâncias novas com atividade terapêutica; Fabri- cação Industrial

Produtos de sínteses; Pro- dutos Naturais; Síntese; Extração; Fermentação

Pesquisa Farmaco- lógica (estudo de atividades)

Estudo preliminar: triagem (scre- ening); Estudo aprofundado do animal; Estudo farmacocinético e clínico do homem

Modo de ação; Toxidade; Farmacocinética; Meta- bolismo; Mecanismo de ação

Estudo da Forma Farmacêutica

Escolha da forma e condições de conservação: formulação; Fabricação industrial: estudo da biodisponibilidade

Controle Analítico

Controle físico-químico: estudo da estabilidade; Controle bio- lógico

Comercialização

Pesquisa de mercado (pesquisas médicas); Proteção industrial (marcas e patentes); Registro do produto administrativo; Cálculo de preço de revenda; Publicidade médica; Distribuição para farmá- cias (atacadistas e varejistas)

N. B. As diferentes etapas ficam mais ou menos interligadas no decorrer do tempo. Fonte: Adaptado de Aiache et al. (1998).

A diferenciação, extremamente importante do ponto de vista das estratégias das empresas, está calcada no investimento continua- do e de grande porte em atividades de P&D e têm como propósito incrementar o portfólio de produtos – novos medicamentos a se- rem lançados no mercado. Um dos principais estímulos à realiza- ção de atividades de P&D por parte das empresas farmacêuticas

é a obtenção de direitos de propriedade industrial sobre o novo

produto e a capacidade de arbitragem por parte do inovador sobre

o preço a ser cobrado no mercado. Esse preço é, em geral, elevado

para permitir a recuperação das despesas realizadas com P&D. A respeito dos custos envolvidos em P&D, a Tabela 5, a seguir, in- dica uma simulação de rateio dos custos indiretos — através do princí- pio contábil de contribuição sobre o custo total — de uma empresa far- macêutica que realiza P&D, a partir do estudo de Sarmiento (1995).

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Tabela 5. Estrutura de custos de uma empresa farmacêutica que realiza P&D

Estrutura de Custos

% das vendas

Produção e controle de qualidade

30

Pesquisa e desenvolvimento

15

Informação científica

15

Comercialização

7

Custos administrativos

7

Propaganda

5

Outros custos

6

Lucros antes dos impostos

15

Fonte: Sarmiento (1995).

Tomando-se as categorias da Tabela 5, ‘informação científica’ (distribuição de medicamentos e financiamento de congressos en- tre outros), ‘comercialização’ e ‘propaganda’ que podem ser consi- derados todos os gastos de propaganda e marketing, essas despesas montam a 27% sobre as vendas. Segundo o relatório PhRMA (2001), em 1970, esses gastos representavam cerca de 11,04% das vendas e, em 2001, cerca de 18,5%, mostrando um aumento relativo desses custos no total de gastos da indústria farmacêutica. Apesar dos altos custos tecnológicos, a indústria farmacêutica como um todo aumentou seus investimentos em P&D na década de 1980 o equivalente a 14%. A Tabela 6 indica a proporção do fatura- mento gasto em P&D no ano de 2007, nas 10 maiores companhias farmacêuticas mundiais. A média dos percentuais fica em 20,1%, confirmando a importância desses gastos.

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Tabela 6. Maiores empresas da indústria farmacêutica mundial, vendas e gastos em P&D, 2007

 

Faturamen-

Gasto P&D

Participação

P&D sobre

Ranking

Companhia

to (US$

(US$ mi-

no mercado

fatura-

 

milhões)

lhões)

(%)

mento (%)

1

Pfizer

44.400

8.100

6,6

18,2

2

GlaxoSmithKline

38.200

6.400

5,7

16,8

3

Sanofi-Aventis

36.900

6.500

5,5

17,6

4

Novartis

32.200

6.400

4,8

19,9

5

AstraZeneca

28.700

5.100

4,3

17,8

6

Johnson & Johnson

24.900

5.300

3,7

21,3

7

Merck

24.200

4.900

3,6

20,2

 

Hoffmann –

8

La Roche

20.300

6.700

3,0

33,0

9

Wyeth

18.600

3.100

2,8

16,7

10

Eli Lilly and Com- pany

17.600

3.500

2,6

19,9

 

Total dez maiores

286.000

56.000

42,5

-

 

Total mercado

673.043

 

100

 
 

-

-

 

mundial

Fonte: Adaptação do Grupo Economia da Inovação, baseado em Euro RSCG Life (s/d).

De acordo com Soltero et al. (2000), as fases de P&D, confor- me reportado pelas associadas da Pharmaceutical Research and Manu- facturers of America, em 1999, são em número de quatro. O Quadro 3 mostra o detalhamento dessas fases.

Quadro 3. Atividades de P&D de novos princípios ativos de empresas norte-americanas, 1999

 

Fase

Fase I

Fase II

Fase III

Pré-clínica

Número de

 

princípios

ativos pesqui-

25

10

3

2

sados para

introduzir um

 

no mercado

Tempo (anos)

1,6

1,5

1,5

2,5

Gastos por

US$ 288.000

US$ 890.000

US$ 7,7 mi- lhões

US$ 26,6

Princípio

Ativo

milhões

 

Transferência

 

Pré-formulação;

Formulação;

Formulação;

de Tecnologia;

Formulação;

Desenvolvimen-

Desenvolvimen-

Scale-up;

Estudos de

to de Processo;

to de Processo;

Validação de

Atividades

Toxicologia;

Testes Clínicos;

Testes Clínicos;

Processo;

Estudos Analí-

Estudos Analí-

Estudos Analí-

Testes Clínicos;

ticos;

ticos;

ticos;

Estudos Analí-

Estabilidade

Estabilidade

Estabilidade

ticos; Estabili-

 

dade

Fonte: Soltero et al. (2000).

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Com relação aos gastos em P&D das empresas associadas à PhRMA, estima-se que eles montem a US$ 47.903 milhões, em 2009, conforme a Tabela 7. Por etapa de pesquisa, a informação mais importante a reter dessa Tabela é que os custos de P&D são maiores na fase III, de desenvolvimento de produtos, seguida da etapa pré-clínica.

Tabela 7. Gastos em P&D por etapa da pesquisa, companhias associadas à PhRMA, 2009 (US$ milhões)

Etapa

Valor

Parcela (%)

Pré-clínica

13.087,4

27,20

Fase I

3.547,7

6,70

Fase II

6.251,0

13,10

Fase III

13.664,7

28,10

Aprovação

2.413,8

6,10

Fase IV

6.439,9

12,90

Não categorizados

2.498,6

6,00

Total P&D

47.903,1

100

Fonte: PhRMA, 2009.

A conduta das empresas em relação à linha de produtos produ- zidos, desenvolvidos e/ou comercializados, além de repousar sobre sua linha própria, tem sido de significativos aumentos dos acordos de co-promoção e licenciamento de medicamentos. Observa-se também que essa conduta está fortemente relacionada ao posicio- namento da empresa em relação ao mercado em que atua e se realiza produção localmente ou não. De acordo com estudo do Congressional Budget Office (1998), de todas as novas entidades químicas (NEQs) aprovadas para testes clínicos pelo FDA entre 1979-1986, 29% foram adquiridas por outra empresa, e essa pro- porção aumenta para 40% quando se considera a proporção de medicamentos aprovados para comercialização. Em relação à linha de produtos genéricos, observa-se que as gran- des empresas-líderes no mercado mundial têm apresentado estraté- gias diferenciadas. Mas, principalmente a partir do início da déca- da de 1990, algumas empresas-líderes como a Merck & Co., Pfizer, Novartis e Bristol Meyers Squibb têm criado divisões próprias para genéricos ou adquirido fabricantes já estabelecidos no mercado. Em alguns países, essas divisões situam-se entre as principais em- presas de medicamentos genéricos (EGA, 2000).

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Como respostas aos altos riscos das atividades de P&D em busca de complementaridade e sinergias que fortaleçam posições de mercado competitivas, as empresas têm realizado também pro- cessos de fusão e aquisição. No tocante às estratégias de fusão e aqui- sição para aproveitar economias de escopo e outras, observa-se que a dinâmica do movimento se dá em escala mundial. As mudanças tecnológicas, comentadas acima, são forte motivação para a realiza- ção de estratégias de fusão e aquisição. Algumas empresas quími- cas compraram empresas pequenas e concorrentes da indústria de medicamentos, permitindo obter economias de escopo em P&D e marketing, enquanto algumas grandes empresas farmacêuticas uniram-se com empresas de biotecnologia. Outras pressões, tais como a necessidade de reduzir tempo de introdução dos produtos no mercado e aumentar o número de novos medicamentos que representem efetivamente avanços terapêuticos introduzidos no mercado por ano também estimulam condutas cooperativas. O financiamento das novas empresas de biotecnologia e o desenvolvimento de novos produtos através de joint-ventures, em lugar do aumento do investimento em P&D em suas próprias empresas (Tabela 8), são exemplos importantes do aumento de condutas cooperativas entre as empresas.

Tabela 8. Principais parcerias de colaborações em P&D

Parcerias em P&D com :

País

Companhias de

Companhias químicas e de medicamentos (%)

biotecnologia (%)

Estados Unidos

50,0

38,5

Reino Unido

54,5

45,5

Alemanha

69,2

30,8

Suíça

73,3

26,3

Total

60,9

34,8

Fonte: Whittaker e Bower, 1994.

Já no que diz respeito à tendência a colusão e a práticas anticom- petitivas, observa-se um comportamento heterogêneo, mas é possí- vel observar esse tipo de prática, sendo o exemplo mais recente a questão do comportamento anticompetitivo para fixação de preços no segmento de produtos não éticos de vitaminas, que levou algu- mas empresas a pagar elevadas indenizações por esse motivo.

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No tocante aos preços, a tendência é estabelecer preços mais al- tos para os produtos inovadores. Lu e Comanor (1998) observaram a estratégia de preços em uma amostra de 148 NEQs de marca, introduzidas nos EUA entre 1978 e 1987, das quais 13 possuíam pelo menos um produto substituto próximo. Da amostra, 10% dos

novos produtos ofereciam avanço terapêutico, segundo os critérios do FDA; 37% avanço modesto; e 53% não apresentavam nenhum ganho relativo aos medicamentos já existentes. No caso do primei-

ro grupo – aqueles que ofereciam avanço terapêutico –, as empre-

sas tendiam a introduzir medicamentos a um preço 3,2 vezes maior do que o preço dos substitutos próximos, e, no caso do terceiro grupo, a um preço aproximadamente igual. Outra questão é a diferença de preços entre medicamentos com marca e genéricos. Essa diferença apresenta-se significativa em praticamente todos os países europeus e nos Estados Unidos, em razão da intensificação da competição, com destaque também para o aumento da participação dos genéricos no volume de pres- crições, principalmente em razão das políticas de incentivo à subs- tituição e prescrição, seja nos sistemas públicos de saúde dos países europeus, seja pelas empresas privadas de assistência médica e far- macêutica dos EUA.

2.5. Desempenho

O setor farmacêutico está entre os setores industriais mais dinâmicos,

observando-se não só um bom desempenho em termos de fatu- ramento, como também de margem de lucro, em comparação com outros segmentos. De 1960 a 2000, a mediana dos lucros como

proporção da receita das maiores empresas farmacêuticas listadas

na Fortune 500 situou-se bastante acima da mediana dos lucros de

toda a lista. Observa-se um desempenho bastante oscilatório, entre

8% e 11%, para as empresas farmacêuticas no período 1960-1985; entre 11% e 13% no período 1985-1990; e um crescimento de 11% em 1991 para cerca de 19% em 2000 (EGA, 2000). Além disso, destaca-se que as empresas que passaram por pro- cessos de fusão e aquisição, entre 1994 e 1998, apresentaram uma taxa de retorno anual para os shareholders de 5%, enquanto para

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aquelas empresas que não passaram por fusão e/ou aquisição a taxa anual de retorno situou-se entre 12% a.a (Rogers, 2000). Diversos fatores têm influenciado esse bom desempenho, mas variam de país para país. Não obstante, observa-se que o aumento dos gastos em medicamentos é diretamente proporcional ao au- mento da renda e que o avanço tecnológico também tem contribuí- do para o aumento dos gastos com medicamentos, pois os novos produtos, por serem protegidos por patentes nos principais merca- dos mundiais, apresentam maiores preços. Observando a Tabela 9, a seguir, verificamos a evolução do número de novos produtos lançados por países e regiões, ao longo de três décadas. O número de novos produtos lançados no mercado pode ser considerado um indicador da taxa de avanço tecnológico. Uma análise da Tabela 9 mostra que esse vem decrescendo em relação à década de 1960 na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, líde- res no número de novos produtos lançados no mercado. O Japão, terceiro colocado, apresentou um aumento no número de novos produtos lançados no mercado na década de 1980.

Tabela 9. Número de novos produtos lançados no mercado por países e por regiões, 1961-1990

Período

1961-70

1971-80

1981-90

Total

Estados Unidos

201

152

117

470

Europa Ocidental

509

375

243

1.127

Japão

80

75

126

281

Europa Oriental

49

58

10

117