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O MOVIMENTO ZEITGEIST

Uma Nova Forma de Pensar

movimentozeitgeist.com.br
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facebook.com/mzbrasil
Edição Brasileira
O Movimento Zeitgeist: Uma Nova Forma de Pensar
1ª edição, Fevereiro, 2015

Creative Commons
Atribuição – Uso Não Comercial – Compartilhamento
pela mesma Licença 4.0 Internacional
(CC BY-NC-SA 4.0)

O conteúdo presente neste livro pode ser reproduzido para fins


não lucrativos sendo expressamente proibida sua venda em
qualquer circunstância. Quaisquer outras intenções requerem aprovação
direta pelo TZM Global através do contato:
media@thezeitgeistmovement.com

Esta é uma obra sem fins lucrativos.


Qualquer custo pago para sua aquisição deve se remeter
apenas ao custo de produção, sem lucros embutidos no
valor final. Qualquer tipo de exploração financeira
deste trabalho não será tolerada.

Agradecimentos:
A tradução desta obra é fruto da contribuição voluntária de
membros do Time Linguístico do Movimento Zeitgeist Brasil.

Traduzido ao português por:


Bruna Sahão Graciela Kunrath Lima
Carina Albrecht Gustavo Canto
Cassiano dos Santos José Roberto Sousa
Claudio Estevam Próspero Juliano Guimaraes Hofliger
Fabio Queiroz Michael Marques
Fernando Santucci Rodrigo Solera

Agradecemos a atenção e esperamos que apreciem esta obra com a


mesma atenção e carinho que tivemos no trabalho de tradução!

Cordialmente,
Time linguístico do Movimento Zeitgeist Brasil
Créditos originais
The Zeitgeist Movement: Realizing a New train of thought
1ª edição, Janeiro, 2014

Agradecimentos:
O material reproduzido aqui é fruto de muitas formas de
contribuição, especificamente os trabalhos do Time de Palestras
do Movimento Zeitgeist.

À parte da lista de agradecimentos (abaixo), gostariamos de agradecer


também à diversas pessoas que contribuiram enormemente com notí-
cias, fontes, dicas, pesquisas e outras informações relevantes.

Compilado e Editado por


Ben McLeish
Matt Berkowitz
Peter Joseph

Agradecimentos à:
Andrés Delgado Gilbert Ismail
Bakari Pace James Phillips
Brandon Kristy Jason Lord
Brandy Hume Jen Wilding
Douglas Mallette Miguel Oliveira
Eva Omori Sharleen Bazeghi
Federico Pistono Tom Williams

ISBN-13:
978-1495303197

ISBN-10:
1495303195
Sumário

Prefácio 1
Notas e Referências 5

Parte I: Introdução

Cap. 1 Visão Geral 7


Notas e Referências 15

Cap. 2 A Visão Científica do Mundo 19


Notas e Referências 26

Cap. 3 Buscando Soluções 29


Notas e Referências 33

Cap. 4 Lógica vs Psicologia 35


Notas e Referências 41

Cap. 5 A Questão da Unidade Humana 45


Notas e Referências 51

Cap. 6 O Argumento Final: A Natureza Humana 53


Notas e Referências 59

Parte II: Patologia Social

Cap. 7 Definindo Saúde Pública 63


Notas e Referências 77

Cap. 8 História da Economia 83


Notas e Referências 112

Cap. 9 Eficiência de Mercado vs. Eficiência Técnica 121


Notas e Referências 140

Cap. 10 Distúrbio do Sistema de Valores 147


Notas e Referências 167

Cap. 11 Classismo Estrutural, o Estado e a Guerra 175


Notas e Referências 194
Parte III: Uma Nova Forma de Pensar
Cap. 12 Introdução ao Pensamento Sustentável 205
Notas e Referências 211

Cap. 13 Tendências Pós-Escassez, Capacidade e Eficiência 215


Notas e Referências 273

Cap. 14 Fatores Econômicos Reais 295


Notas e Referências 314

Cap. 15 O Governo Industrial 319


Notas e Referências 347

Cap. 16 Estilo de vida, Liberdade e o Fator Humano 349


Notas e Referências 362

Parte IV: O Movimento Zeitgeist

Cap. 17 Desestabilização Social e Transição 363


Notas e Referências 389

Cap. 18 Tornando-se o Movimento Zeitgeist 395


Notas e Referências 403
Prefácio

“O resultado de qualquer pesquisa séria só pode ser o de


fazer surgir duas perguntas onde antes havia apenas uma.”
- Thorstein Veblen -

Origem do nome:
“O Movimento Zeitgeist” (MZ) é o atual identificador do movimento social de-
scrito nos ensaios a seguir. O nome não tem nenhuma relação histórica significati-
va com qualquer especificidade cultural e não deve ser confundido/associado com
qualquer outra coisa previamente conhecida com um título similar. Na verdade, o
título é explicitamente baseado no significado semântico dos termos em si. O termo
“Zeitgeist” é definido como o “clima intelectual, moral e cultural geral de uma épo-
ca.” O termo “Movimento” implica simplesmente em um “movimento” ou mudança.
Por isso, o Movimento Zeitgeist (MZ) é uma organização que luta por mudanças no
clima intelectual, moral e cultural dominante da época.

Estrutura do Documento:
O texto a seguir foi preparado para ser o mais conciso e abrangente possível.
Trata-se de uma série de ensaios ordenados por assunto de maneira a embasar um
contexto mais amplo. Enquanto cada ensaio foi concebido para ser avaliado em
seu próprio mérito, o verdadeiro contexto consiste na forma como cada questão
trabalha para sustentar uma linha de pensamento mais ampla, no que diz respeito à
organização mais eficiente da sociedade humana. Aqueles que lerem estes ensaios
de forma linear notarão que existe uma boa quantidade de sobreposição de certas
ideias. Isso é proposital, pois tal repetição e ênfase é considerada útil, já que alguns
dos conceitos soarão muito estranhos para aqueles sem qualquer exposição prévia
aos mesmos.

Além disso, uma vez que só será possível manter a compreensão de cada assunto
e suas inter-relações através de uma grande exposição de detalhes, um grande esforço
foi feito para referenciar pesquisas de terceiros ao longo de cada ensaio, através de
notas de rodapé e anexos, permitindo ao leitor um acompanhamento para um estudo
mais aprofundado, conforme surgir o interesse.

1
O Organismo do Conhecimento:
Como acontece com qualquer pesquisa que é apresentada, estamos lidando com
compostos de dados gerados em série. A observação, sua avaliação, documentação
e integração com outros conhecimentos, existentes ou pendentes, é a maneira pela
qual todas as ideias notáveis surgem. É importante compreender esta continuidade no
que diz respeito à maneira como pensamos sobre o que acreditamos e o porquê dessa
crença, pois o mérito da informação está sempre separado da pessoa ou instituição
que a comunica ou representa. A informação só pode ser avaliada corretamente quan-
to à sua prova ou falta dela por meio de um processo sistemático de comparação com
outra evidência física verificável.

Da mesma forma, essa continuidade também implica que não pode haver uma
“Origem” empírica das ideias. Do ponto de vista epistemológico, o conhecimento é
gerado, processado e expandido principalmente através da comunicação entre nossa
espécie. O indivíduo, com suas propensões e experiências de vida inerentemente dif-
erentes, atua como um filtro personalizado de processamento pelo qual uma determi-
nada ideia pode ser transformada. Coletivamente, nós, indivíduos, estamos abrangi-
dos naquilo que poderia ser chamado de uma “Mente de Grupo”, que é o processador
social de ordem maior pelo qual os esforços individuais idealmente se unem. O mét-
odo tradicional de transferência de dados através da literatura, da partilha de livros
de geração para geração, tem sido um caminho notável desta interação da Mente de
Grupo, por exemplo1.

Issac Newton talvez tenha declarado melhor essa realidade com sua frase: “Se vi
mais longe do que os outros, foi por estar de pé sobre os ombros de gigantes”2. Essa
noção é trazida aqui a fim de focar o leitor na consideração crítica dos dados - e não
em uma suposta “fonte” - já que, na verdade, empiricamente falando, não existe tal
coisa. O reconhecimento de uma fonte só se faz relevante diante dos padrões cul-
turais, temporais e tradicionais, como nos créditos literários de um livro-texto para
referenciar uma futura pesquisa. Não há declaração mais errada do que esta: “Esta é
a minha ideia.” Tais noções são subprodutos de uma cultura material que tem sido re-
forçada através da busca de recompensas materiais, usualmente através do dinheiro,
em troca da ilusão de “propriedade” das suas criações. Muitas vezes, uma associação
com o ego se sobressai quando um indivíduo reivindica prestígio sobre seu “crédito”
por uma ideia ou invenção.

No entanto, isso não significa excluir a gratidão e o respeito por aquelas pessoas
ou instituições que demonstraram dedicação e perseverança em relação à expansão do
conhecimento em si, nem mesmo significa diminuir a importância necessária daque-
les que alcançaram um “status” de especialista, de “expert” em um campo particular.
As contribuições de pesquisadores, pensadores e engenheiros brilhantes, como R.
Buckminster Fuller, Jacque Fresco, Jeremy Rifkin, Ray Kurzweil, Robert Sapolsky,

2
Thorstein Veblen, Richard Wilkinson, James Gilligan, Carl Sagan, Nicola Tesla,
Stephen Hawking e muitos, muitos outros pesquisadores, do passado e do presente,
serão referenciadas e terão suas fontes indicadas neste texto, servindo como parte de
um mosaico maior que você está prestes ler. Expressamos uma enorme gratidão em
relação a todas as mentes dedicadas que estão trabalhando para contribuir com um
mundo em aperfeiçoamento. No entanto, mais uma vez, quando se trata do nível de
compreensão, a informação em si não tem origem, lealdade, preço, ego e nem viés.
Ela simplesmente se manifesta, auto-corrige e desenvolve, como um organismo em
si mesmo, através da nossa “Mente de Grupo” coletiva, para a qual todos nós somos,
invariavelmente, um veículo componente.

Entendido isso, “O Movimento Zeitgeist” não reivindica a criação de qualquer


ideia que promove e é melhor classificado como uma instituição de ativismo/ensino
que trabalha para amplificar um contexto onde as descobertas científicas existentes/
emergentes possam adequar-se como um imperativo social.

Sites e Recursos:
Os 10 sites a seguir estão oficialmente relacionados com operações globais do
Movimento Zeitgeist:
- Site Principal do Movimento: http://www.thezeitgeistmovement.com
Este é o site principal e centro de ações / eventos / atualizações relacionados ao MZ.

- Central de Capítulos Globais: http://www.tzmchapters.net/


Este é o principal centro mundial de informações dos Capítulos e materiais. Ele inclui
mapas, um kit de ferramentas para os Capítulos e muito mais.

- Blog Global: http://blog.thezeitgeistmovement.com/


Este é o blog oficial que permite o envio de ensaios no estilo editorial.

- Fórum Global: http://www.thezeitgeistmovementforum.org/


Este é o nosso fórum oficial para os membros discutirem projetos e trocarem ideias
por todo o mundo.

- Projeto Mídia Zeitgeist: http://zeitgeistmediaproject.com/


A página do Projeto Mídia hospeda e disponibiliza links para várias produções de
áudio / vídeo / literária dos membros do MZ. Usuários doam seus trabalhos em post-
agens, que são frequentemente utilizados como um kit de ferramentas para flyers em
gráfico, apresentações de vídeo, animações em logotipos e etc.

- ZeitNews: http://www.zeitnews.org/
ZeitNews é um serviço de notícias que contém artigos relacionados com avanços
socialmente relevantes em Ciência e Tecnologia.

3
- Zeitgeist-Day (“Zday”) Global: http://zdayglobal.org/
Este site se torna ativo anualmente para facilitar o nosso Evento Global “Zday”, que
ocorre em março de cada ano.

- Festival de Mídia Zeitgeist : http://zeitgeistmediafestival.org/


Este site se torna ativo anualmente para facilitar o nosso “Festival de Mídia Zeit-
geist”, que ocorre todo ano em Agosto.

- Global Redesign Institute: http://www.globalredesigninstitute.org/


O Global Redesign Institute é um projeto de interface gráfica virtual baseado num
grupo de estudos e de resolução de problemas (“Think Tank”) que utiliza modelos de
mapas/dados para expressar mudanças técnicas em várias regiões, de acordo com a
linha de pensamento do MZ .

- MZ Rede Social: http://tzmnetwork.com/


MZ social é um site interligado que conecta muitas redes sociais on-line populares,
criando um ponto de conexão mais central para a comunicação através de vários
meios.

Redes Sociais Gerais:


TZM/MZ Global no Twitter: http://twitter.com/tzmglobal

TZM/MZ Global no Facebook: http://www.facebook.com/tzmglobal

TZM/MZ Global no Youtube: http://www.youtube.com/user/TZMOfficialChannel

4
Notas e Referências: Prefácio

[1] Em sua obra “Cosmos”, Carl Sagan, referindo-se à destruição da


Biblioteca de Alexandria, célebre como a maior e mais significativa bib-
lioteca do mundo antigo, afirma: “Foi como se a civilização inteira tivesse
se submetido a uma cirurgia cerebral auto aplicada, e a maioria de suas
memórias, descobertas e paixões foram extinguidas irreversivelmente.”
Cosmos, Carl Sagan, Ballantine Books, New York, 1980, Chapter XIII,
p279.

[2] The Correspondence of Isaac Newton, Volume 1, editado por HW


Turnbull, 1959, P416

5
6
Capítulo 1

Visão Geral

“Nem as grandes estruturas políticas e financeiras de poder do mundo,


nem os profissionais cegados pela especialização, nem a população em
geral percebem que (...) agora é altamente viável cuidar de todos na Terra
em um “padrão de vida maior que qualquer outro já conhecido”. Isso já
não deve ser mais você ou eu. O egoísmo é desnecessário e, doravante,
não mais se justifica através da sobrevivência. A guerra está obsoleta.” 4
- R. Buckminster Fuller -

Sobre
Fundado em 2008, o Movimento Zeitgeist (MZ) é um grupo de defesa de Sustent-
abilidade, que opera através de uma rede de Capítulos Regionais, Equipes de Projeto,
eventos públicos, comunicações pela imprensa e operações de caridade.

O ativismo do MZ é explicitamente baseado em métodos não-violentos de co-


municação com o foco principal em educar o público sobre as verdadeiras fontes de
muitos problemas pessoais, sociais e ecológicos comuns hoje em dia, aliado ao vasto
potencial de resolução de problemas e melhoria da humanidade que a ciência e a
tecnologia têm alcançado - mas que ainda não é aplicado devido a barreiras inerentes
ao sistema social atual.

Embora o termo “ativismo” seja correto pelo significado exato do termo, o


trabalho de sensibilização do MZ não deve ser interpretado como o tradicional
“protesto de ativistas”, tais como vemos historicamente. Em vez disso, o MZ se
expressa através de projetos educacionais e racionais direcionados, os quais não
trabalham para impor, ditar ou convencer cegamente - mas para pôr em ação uma
linha de pensamento que é, logicamente, auto-concretizável quando as consider-
ações causais da “sustentabilidade”4 e “saúde pública”5 são referenciadas a partir
de uma perspectiva científica.

No entanto, a busca do MZ é ainda muito semelhante a dos Movimentos dos Di-


reitos Civis do passado, onde notamos a opressão realmente desnecessária, inerente
à nossa ordem social atual, que estrutural e sociologicamente restringe o potencial e

7
bem-estar humanos da grande maioria da população mundial, sem mencionar que
sufoca outras melhorias em detrimento de seus próprios métodos já consagrados.

Por exemplo, o modelo social atual, ao mesmo tempo que perpetua enormes
níveis de ineficiência econômica generalizada corrosiva, como será visto em ensaios
posteriores, também intrinsecamente beneficia um grupo econômico ou “classe” de
pessoas em detrimento de outro, perpetuando privações relativas e desigualdades
tecnicamente desnecessárias. Isso poderia ser chamado de “fanatismo econômico”,
dadas as suas consequências, e não é menos insidioso do que a discriminação baseada
em gênero, etnia, religião ou credo.

No entanto, este “fanatismo” inerente é realmente apenas uma parte de um quadro


maior, que poderia ser chamado de “violência estrutural”6, iluminando um amplo es-
pectro de sofrimento, desumanidade e privação “incorporados” que são simplesmente
aceitos hoje como “normalidade” pela maioria mal informada. Este contexto de “vi-
olência” se estende muito além e mais profundamente do que muitos consideram. O
escopo de como nosso sistema socioeconômico desnecessariamente deprecia a nossa
saúde pública e inibe nosso progresso hoje só pode ser reconhecido claramente quan-
do tomamos uma perspectiva “técnica” ou “científica” imparcial dos assuntos sociais,
superando as nossas afinidades tradicionais, muitas vezes limitantes.

A natureza relativa da nossa consciência cai frequentemente como vítima dos


pressupostos de “normalidade” onde, digamos, a privação e a pobreza crescentes de
mais de 3 bilhões de pessoas7 são vistas como um estado social “natural” inalterável
por aqueles que não estão cientes da quantidade de comida de fato produzida no mun-
do, qual sua destinação e o seu desperdício ou quais são as possibilidades técnicas,
eficientes e abundantes, de produção alimentícia dos dias atuais.

Esta “violência” invisível se estende aos Memes culturais8, onde as tradições soci-
ais e sua psicologia podem, sem intenção maliciosa direta, resultar em consequências
prejudiciais a um ser humano. Por exemplo, há culturas religiosas no mundo que op-
tam por evitar qualquer forma de tratamento médico convencional.9 Enquanto muitos
poderão argumentar os parâmetros morais ou éticos do que significaria para tal cul-
tura a morte de uma criança em decorrência de uma doença comum, que poderia ter
sido tratada se as ferramentas científicas modernas fossem autorizadas, nós, por nossa
vez, pelo menos concordaríamos que a morte dessa criança, na verdade, foi causada
não pela doença em si mesma, mas pela condição social que não permitiu o correto
emprego da solução.

Como um exemplo mais abrangente, uma grande quantidade de estudos sociais


já foi feita sobre o tema “Desigualdade Social” e seus efeitos sobre a saúde pública.
Como será discutido mais em ensaios posteriores, existe uma vasta gama de prob-

8
lemas de saúde física e mental que parecem ter nascido dessa condição, incluindo
tendências para violência física, doenças cardíacas, depressão, deficiência educacio-
nal e muitas, muitas outras manifestações - com consequências verdadeiramente so-
ciais, que afetam a todos nós.10

O ponto essencial aqui é que quando damos um passo para trás e consideramos
entendimentos recentes de causalidade, que claramente têm produzido efeitos preju-
diciais sobre a condição humana, mas seguem intocáveis desnecessariamente devido
a tradições pré-existentes estabelecidas pela cultura, nós fatalmente somos levados ao
contexto de “direitos civis” e, portanto, sustentabilidade social.

Este novo Movimento de Direitos Civis trata da partilha do conhecimento hu-


mano e da nossa capacidade técnica não só para a resolução dos problemas, mas
também para facilitar um sistema social estruturado cientificamente, que, na verdade,
otimizaria o nosso potencial e bem-estar. Qualquer subtração criaria um desequilíbrio
e uma instabilidade social, já que negligenciar tais questões seria simplesmente uma
forma oculta de opressão.

Então, voltando ao contexto geral, o MZ trabalha não só para a conscien-


tização de tais problemas e suas verdadeiras raízes sistêmicas - daí uma lógica de
resolução -, mas também para expressar o nosso potencial, além das soluções di-
retas dos problemas, em melhorar muito a condição humana em geral, resolvendo
problemas que, de fato, ainda não foram sequer cogitados.11

O ponto de partida é dado pela integração da própria natureza do raciocínio científ-


ico, onde o estabelecimento de uma linha de pensamento empírico tem precedência
sobre todo o resto. Uma linha de pensamento pela qual a organização social como um
todo pode encontrar um contexto mais preciso de sustentabilidade, em uma escala
nunca antes vista, através de um reconhecimento (e aplicação) do Método Científico.

Foco
As amplas ações do MZ poderiam ser resumidas como Diagnosticar, Educar e Criar.

Diagnosticar
Diagnóstico é “a identificação da natureza e da causa de alguma coisa”. Para
diagnosticar corretamente a condição causal dos vastos problemas sociais e ambi-
entais que temos hoje não basta queixar-se deles ou criticar as ações de pessoas ou
instituições particulares. Um verdadeiro Diagnóstico deve buscar a causa raiz de um
problema e trabalhar neste nível para buscar a sua resolução.

O problema central hoje é que muitas vezes há o que poderia ser chamado de um
“quadro de referência truncado”, onde a falta de visão e o erro diagnóstico de uma
determinada consequência persistem. Por exemplo, a solução tradicional atual para a

9
reforma do comportamento humano pela prática de muitos dos chamados “crimes”
é frequentemente o encarceramento punitivo. No entanto, em princípio, isso não diz
nada sobre a motivação mais profunda do “criminoso” e porque sua psicologia o
levou a tais atos.

Nesse nível, a resolução torna-se mais complexa, pois o crime é consequência de


uma somatória de fatores físicos e culturais que se intensificam ao longo do tempo.12
Isto não é diferente de quando uma pessoa morre de câncer, uma vez que não é real-
mente o câncer que a mata em sentido literal, visto que o próprio câncer é o produto
de outras forças.

Educar
Como um movimento educacional que opera sob a suposição de que o conheci-
mento é a ferramenta/arma mais poderosa que temos para criar uma mudança social
duradoura e relevante na comunidade global, não há nada mais importante do que
a qualidade da formação pessoal de cada um, e a sua capacidade de comunicar tais
ideias de forma eficaz e construtiva para as outras pessoas.

O MZ não trata de seguir um texto rígido de ideias estáticas. Tais associações


restritas e limitadas são típicas de cultos religiosos e políticos, e não do reconheci-
mento da emergência que ressalta a natureza “anti-establishment”13 do MZ. O MZ
não impõe nada neste sentido. Pelo contrário, o MZ trabalha para criar uma linha de
pensamento aberta sem fim, que deve ser entendida e percebida por cada indivíduo,
na esperança de inspirar sua capacidade independente de entender a sua relevância
em seus próprios termos, em seu próprio ritmo.

Além disso, a educação não é apenas um imperativo para aqueles não familiariza-
dos com a Linha de Pensamento e Conjunto de Aplicações14 relacionada ao MZ, mas
também para aqueles que já o apoiam. Assim como não existe uma “utopia”, não há
um estado final de compreensão.

Criar
Embora certamente relacionado à necessidade de ajustar os valores humanos at-
ravés da educação, para que as pessoas do mundo entendam e vejam a necessidade de
tais mudanças sociais, o MZ também trabalha para considerar detalhadamente como
um novo sistema social, com base na Eficiência Econômica Ótima15, iria aparecer e
operar, dada a nossa situação atual de capacidade técnica.

Exemplos desse trabalho são programas como o Global Institute Redesign16, um


grupo digital de estudo e resolução de problemas (um “think tank”), que tenta demon-
strar como o cerne da infra-estrutura social poderia se desdobrar, baseado em nosso
estado tecnológico atual, combinando essa capacidade técnica com a linha de pensa-

10
mento científico, a fim de calcular a infra-estrutura técnica o mais eficiente possível
para qualquer região do mundo.

Vale a pena ressaltar que o MZ defende uma abordagem de “governança” que


tem pouca semelhança com a forma de governança atual ou com as anteriores, a qual
se origina de uma interligação multi-disciplinar de vários métodos comprovados de
otimização máxima, unificados por uma abordagem contra-balanceada de “Siste-
mas” que é projetada para ser tão “adaptável” quanto possível às melhorias emergen-
tes ao longo do tempo.17

Como será discutido mais tarde, a única referência possível que poderia ser
considerada “mais completa” num dado momento é a que leva em conta a maior
observação interativa (Sistema) tangivelmente relevante. Essa é a natureza da sin-
ergia de causa e efeito que ressalta a base técnica de uma economia verdadeira-
mente sustentável.

Economia Baseada em Recursos e Lei Natural


Hoje, existem vários termos, em diferentes círculos, que expressam a base lógi-
ca geral de um Sistema Social mais cientificamente orientado, incluindo os títulos
“Economia Baseada em Recursos” ou “Economia da Lei Natural.” Enquanto esses
títulos trazem referenciais históricos e um tanto arbitrários, o título “Economia Ba-
seada em Recursos e Lei Natural” (EBRLN) será utilizado aqui como o definidor do
conceito, uma vez que possui uma base semântica mais concreta.18

A Economia Baseada em Recursos e Lei Natural deve ser definida como: “Um
sistema sócio-econômico adaptável derivado ativamente das referências físicas dire-
tas relacionadas às leis científicas que regem a natureza”.

No geral, estabelece-se que através do uso de pesquisas socialmente direcionadas


e conhecimentos testados em Ciência e Tecnologia, somos capazes de desenvolver
abordagens sociais que poderiam ser profundamente mais eficazes no atendimento
às necessidades da população humana. Estamos agora em condições de aumentar
drasticamente a saúde pública, melhor preservar o habitat, além de estrategicamente
reduzir ou eliminar muitos problemas sociais comuns hoje, que são, infelizmente,
considerados inalteráveis por muitos devido à sua persistência cultural.

Desde o surgimento do reconhecimento científico, este raciocínio genérico não


encerra nenhuma novidade e vários indivíduos e organizações notáveis do passado
e do presente têm feito alusão a tal re-orientação científica da sociedade de uma
forma ou outra. Alguns exemplos notáveis são a Tecnocracia Inc., R. Buckminster
Fuller, Thorstein Veblen, Jacque Fresco, Carl Sagan, HG Wells, Instituto Singular-
ity e muitos outros.

11
Linha de Pensamento
Da mesma forma, muitas dessas figuras ou grupos também têm trabalhado para
criar aplicações tecnológicas temporalmente avançadas, trabalhando para aplicar as
possibilidades atuais nessa linha de pensamento, a fim de permitir ganhos de eficiên-
cias e de resolução de problemas, tais como “Sistemas de Cidade” de Jacque Fresco19
ou a Casa Dymaxion de R. Buckminster Fuller.20

No entanto, apesar da importância desta engenharia aplicada ser óbvia, é funda-


mental lembrar que todas as aplicações tecnológicas específicas somente provocarão
uma transição quando a evolução dos conhecimentos científicos e suas aplicações
tecnológicas emergentes forem levados em consideração. Isso faz que, com o tempo,
todas as aplicações atuais de tecnologia tornem-se obsoletas.

Assim, o que nos resta é apenas a linha de pensamento em relação aos princípios
científicos de causa e efeito. O MZ é fiel a esta linha de pensamento, e não a figuras,
instituições ou avanços tecnológicos contemporâneos. Ao invés de seguir uma pessoa
ou projeto, o MZ segue o conceito científico de compreensão e, portanto, atua de
maneira descentralizada, holográfica e tendo essa linha de pensamento como base ou
influência para a ação.

Da Superstição à Ciência
Um fato interessante a ser mencionado é o quanto a evolução do entendimento hu-
mano sobre si mesmo e seu habitat, afasta as ideias e perspectivas mais antigas que deix-
am de ser aceitas devido à introdução constante de novas descobertas e informações.

Uma palavra chave digna de definição é superstição, que, em muitas circunstân-


cias, pode ser definida como uma categoria de crenças que em algum momento foi
sustentada por experiências e percepções, mas não pode mais ser aceita como ver-
dade devido às novas e conflitantes descobertas.

Por exemplo, mesmo que hoje o pensamento religioso tradicional possa parecer
cada vez mais inadmissível a um número de pessoas maior do que nunca no Ociden-
te, fato atribuído ao rápido crescimento da informação e acesso à mesma,21 as raízes
do pensamento religioso podem ser atribuídas a períodos em que os seres humanos
conseguiam justificar a validade e precisão de tais crenças, dada a limitada com-
preensão que tinham do seu ambiente nesses tempos primórdios.

Este padrão é evidente em todas as áreas do conhecimento, inclusive no meio


“acadêmico” moderno. Mesmo as conclusões classificadas como “científicas” que,
com a introdução de novas informações e novos testes, muitas vezes, não podem
mais ser consideradas válidas,22 ainda são comumente defendidas meramente devido
à sua inclusão em tradições culturais.

12
Tais “instituições estabelecidas”, como podem ser chamadas, muitas vezes
desejam se preservar por razões de ego, poder, renda ou meramente pelo conforto
psicológico. Este problema é, em muitos aspectos, o núcleo da nossa paralisia
social.23 Dessa forma, é importante reconhecer este padrão de transição e per-
ceber o quão crítica é a vulnerabilidade quando se trata de sistemas de crenças.
Sem falar no fenômeno das “instituições estabelecidas”, que são culturalmente
programadas para buscar a auto-preservação em vez de evoluir e mudar, o que
pode ser muito perigoso.

Da Tradição à Emergência
O confronto das nossas tradições culturais com a crescente base de dados de con-
hecimento emergente é o que define o “zeitgeist” da forma que conhecemos. Sendo
que, uma análise da história mostra uma lenta dissolução das tradições culturais su-
persticiosas e antigos conceitos sobre a realidade, à medida que as novas referências
científicas de causa e efeito são consideradas.

Isto é o que o Movimento Zeitgeist representa em seu mais amplo contexto filosóf-
ico: Um movimento do próprio zeitgeist cultural em novos, verificáveis e otimizados
conceitos e suas aplicações.

Apesar de observarmos amplas mudanças e evolução em diferentes áreas do con-


hecimento e da prática humana, como por exemplo nossa vasta tecnologia material,
nosso sistema social ainda é consideravelmente atrasado. Persuasão política, Econo-
mia de Mercado, Trabalho Assalariado, Desigualdade, Estados-Nação, Legislações
e muitas outras bases de nossa sociedade continuam sendo amplamente aceitas na
cultura atual, por sua simples persistência ao longo do tempo como sendo a evidência
de seu valor e permanência empírica.

É neste contexto que a atuação do MZ se faz mais importante: Mudar o sistema


social. Atualmente já existem muitas possibilidades de resolução de problemas técni-
cos para o desenvolvimento pessoal e social que continuam a passar despercebidas ou
mal interpretadas.24 O fim da guerra, da pobreza, a criação de uma abundância mate-
rial para suprir as necessidades humanas nunca vista na história , a extinção da crim-
inalidade da forma como a conhecemos, o empoderamento da verdadeira liberdade
pessoal através da remoção de trabalho inútil, monótono, e a resolução de muitas
ameaças ambientais, incluindo as doenças, são algumas das possibilidades quando
levamos em consideração a nossa realidade técnica.

No entanto, essas possibilidades além de não serem reconhecidas, acabam sendo


literalmente restringidas pela ordem social vigente, impedindo a execução de tais
soluções. Dessa forma, eficiência e prosperidade ficam em oposição direta aos própri-
os mecanismos de nosso sistema social25.

13
Portanto, enquanto o sistema social tradicional e seus valores não forem desa-
fiados e atualizados de acordo com o conhecimento atual, enquanto a maioria da
população humana não compreender a linha de pensamento tecnicamente necessária
para apoiar a sustentabilidade e saúde pública, como consequência do rigor da inves-
tigação científica e sua validação, até que grande parte da bagagem de falsas premis-
sas, superstição, lealdades divididas e outros obstáculos culturais socialmente insus-
tentáveis e geradores de conflitos sejam superados - todas as possibilidades que temos
em mãos para melhoria de vida e soluções de problemas permanecerão adormecidas.

A verdadeira revolução é a revolução de valores. Muitos valores humanos bem


como a forma de operação da sociedade ainda correspondem a valores que datam de
séculos atrás. Se queremos progredir e resolver os problemas enfrentados de forma
efetiva, bem como reverter o que pode ser chamado de um declínio acelerado da
nossa civilização, é preciso mudar a forma de pensar sobre nós mesmos e sobre o
mundo em que vivemos.

A tarefa central do Movimento Zeitgeist é trabalhar para trazer essa mudança de


valores à tona, bem como promover a unificação da família humana, uma vez que
todos nós compartilhamos o mesmo planeta e todos nós estamos conectados pelas
mesmas leis de ordem natural, conforme já provado através de métodos científicos.

Este entendimento comum se estende muito além do que muitos têm entendido
no passado. A simbiose da espécie humana e a relação sinérgica com o nosso lugar
no mundo confirma que não somos entidades isoladas, sob qualquer aspecto, e que o
novo despertar social deve apresentar um modelo social de trabalho derivado desta
lógica inerente, se esperamos sobreviver e prosperar em longo prazo. Podemos nos
alinhar ou podemos sofrer. Só depende de nós.

14
Notas e Referências: Capítulo 1

[3] Critical Path, R. Buckminster Fuller, St. Martin Press, 1981, Introdução,
xxv

[4] O termo “Sustentabilidade”, geralmente definido “como a capacidade


de ser sustentado, suportado, mantido, ou confirmado” (http://dictionary.
reference.com/browse/sustainability) é muitas vezes hoje comumente
referenciado/ entendido dentro de um contexto de Ciências Ambientais.
O contexto do MZ estende mais longe, no entanto, incluindo a noção de
Sustentabilidade Cultural ou Comportamental que considera o mérito
de sistemas de crenças em geral e suas consequências causais menos
óbvias.

[5] O termo “saúde pública”, geralmente definido como “a ciência e a


prática de proteger e melhorar a saúde de uma comunidade, através de
medicina preventiva, educação em saúde, controle de doenças trans-
missíveis, aplicação de medidas sanitárias e monitoramento de perigos
ambientais”(http://dictionary.reference.com/browse/public+health?s=t) é
usado neste texto como base de medida para considerar o bem-estar
físico, psicológico e sociológico das pessoas das sociedades ao longo
do tempo. Isto é para ser considerado o barômetro final do sucesso ou
falha de um sistema social aplicado.

[6] O termo “violência estrutural” é comumente atribuído a Johan Gal-


tung, introduzido no artigo “Violência, Paz e Investigação para a Paz”
(Violence, Peace, and Peace Research; Journal of Peace Research, vol.
6, No. 3, 1969, pp 167 -191). Trata-se de uma forma de violência onde al-
guma estrutura social ou instituição social prejudica as pessoas, impedin-
do-as de satisfazer as suas necessidades básicas. O termo foi expandido
por outros pesquisadores, como o psiquiatra criminal Dr. James Gilligan,
que faz a seguinte distinção entre violência “comportamental” e “estru-
tural”: “Os efeitos letais da violência estrutural operam continuamente, ao
invés de esporadicamente, enquanto os homicídios, suicídios... guerras
e outras formas de violência comportamental ocorrem um de cada vez. “
(James Gilligan, Violence, GP Putnam, 1996, p192)

[7] http://www.globalissues.org/article/26/poverty-facts-and-stats (Origem:


Indicadores de Desenvolvimento do Banco Mundial, 2008)

[8] Meme: an idea, behavior, style, or usage that spreads from person
to person within a culture (http://www.merriam-webster.com/dictionary/
meme)

[9] http://uk.lifestyle.yahoo.com/religious-parents-causing-suffer-
ing-sick-kids-says-report-115021612.html

[10] Leitura recomendada: The Spirit Level de Richard Wilkinson e Kate


Pickett, Pinguim, março de 2009

15
[11] Mais informações sobre este assunto serão apresentadas em uma
sequência denominada “Buscando Soluções”.

[12] A relação entre o comportamento humano (neste contexto, compor-


tamento de uma natureza socialmente ofensiva, conforme determinado
pelas leis da sociedade) e a influência do ambiente na vida/educação de
uma pessoa está agora fora de debate. Um termo relacionado a tomar
nota é a natureza “Bio-Psico-Social” do organismo humano.

[13] O termo “Anti-Estabelecimento” (anti-establishment) é geralmente


usado num contexto implicando oposição a um grupo existente, esta-
belecido. Utilizado aqui, o contexto é mais literal naquele que o próprio
MZ trabalha para não “institucionalizar” a si mesmo como uma entidade
rígida, mas sim ser entendida como mais um gesto, um símbolo de uma
nova forma de pensamento ou visão do mundo que simplesmente não
tem limites.

[14] Os termos “Linha de Pensamento” e “Conjunto de Aplicação” serão


usados frequentemente neste texto uma vez que estão interligados. Por
favor consulte a Lista de Vocabulário, Apêndice A, para esclarecimentos.

[15] Por favor consulte a Lista de Vocabulário - Apêndice A para esclarec-


imento do termo. Mais será discutido na Parte III.

[16] http://www.globalredesigninstitute.org

[17] Ver Parte III para saber mais sobre o assunto “Governo”.

[18] O termo “Economia Baseada em Recursos” pode ser interpretado


literalmente como “uma economia baseada em recursos”. Isso, histori-
camente, tem acarretado em uma confusão na qual as pessoas podem
argumentar que todas as “economias”, por definição, são “baseadas”
em “recursos”. O termo também tem uma forte associação com a orga-
nização denominada Projeto Vênus, que afirma ter originado o termo e a
ideia, buscando ao mesmo tempo registrar o termo como marca (http://
tdr.uspto.gov/search.action?sn=77829193). O Termo “Lei Natural / Econo-
mia Baseada em Recursos” é considerado mais completo aqui, não só
para evitar tal confusão associativa possível, mas também por causa da
precisão mais semântica do termo em si, LNEBR (NLRBE), uma vez que
este faz referência mais claramente aos Sistema e Processos de Leis
Físicas Naturais, em vez de apenas aos recursos planetários.

[19] Jacque Fresco, “The Best That Money Can’t Buy” (O Melhor que o
Dinheiro Não Pode Comprar), Global Cybervisions de 2002, Capítulo 15

[20] http://en.wikipedia.org/wiki/Dymaxion_house

[21] A relação inversa de acúmulo de alfabetização/conhecimento para


crença supersticiosa é clara. De acordo com a “United Nations’ Arab
Human Development Reports”, menos de 2% dos árabes têm acesso à

16
Internet. Os árabes representam 5% da população do mundo e ainda
assim produzem apenas 1% dos livros do mundo, a maioria deles reli-
giosos. Segundo o pesquisador Sam Harris: “Espanha traduz mais livros
para o espanhol a cada ano do que todo o mundo árabe traduziu para o
árabe desde o século IX.” É evidente supor que o crescimento da religião
islâmica em Nações árabes é garantido por uma relativa falta de infor-
mações para essas sociedades.

[22] Um Prêmio Nobel para o que é conhecido como “Lobotomia” foi


atribuído ao neurologista Português Egas Moniz em 1949. Hoje, a loboto-
mia é considerada um procedimento bárbaro e ineficaz. (http://www.npr.
org/templates/story/story.php?storyId=4794007)

[23] O apoio financeiro indispensável à perpetuação de um determinado


negócio, “lucrativo” ou mesmo os chamados “sem fins lucrativos”, es-
tabelece uma dissonância entre o produto ou serviço vendido de uma
empresa e a real necessidade ou viabilidade que o produto ou serviço
tem ao longo do tempo. Na verdade, a obsolescência de um determinado
produto/serviço, que implica muitas vezes na obsolescência do empresa
produtora ou corporação, parece inevitável à medida que novos avanços
técnicos surgem. A consequência é uma perpétua asfixia de novas
ideias/invenções que poderiam perturbar ou substituir as “Instituições
Estabelecidas” ou pré-existentes, resultando em uma perda de receita.
Um breve olhar sobre a situação das possibilidades tecnológicas de hoje,
considerando-se, ao mesmo tempo, a questão do porquê dessas melho-
rias não serem imediatamente aplicadas, traz luz à natureza paralisante
das instituições que demandam renda.

[24] “ZeitNews”, um site de ciência e tecnologia relacionado ao MZ, é


recomendado. www.zeitnews.org ou www.zeitnews.de

[25] Ver Parte II, para mais informações sobre este assunto.

17
18
Capítulo 2

A Visão Científica do Mundo

“Quase todos os grandes erros sistemáticos que iludiram os homens por


milhares de anos se basearam na experiência prática. Horóscopos, encantam-
entos, oráculos, magia, feitiçaria, curandeirismo e médicos empíricos antes da
medicina moderna, todos foram fortemente estabelecidos aos olhos do público
através dos séculos devido a seus supostos êxitos práticos. O método científico
foi concebido precisamente com o fim de elucidar a natureza das coisas sob
condições cuidadosamente controladas e por critérios mais rigorosos do que
aqueles presentes nas situações criadas por problemas práticos.” 26
- Michael Polanyi -

De um modo geral, a evolução do conhecimento humano pode ser vista como


um movimento a partir de observações superficiais, processadas pelos nossos limit-
ados cinco sentidos físicos, “intuitivamente” filtradas pelo enquadramento educativo
e valores daquele tempo - para um método de medição objetiva e métodos de análise
auto-promotores que trabalham para chegar a (ou calcular) conclusões através de
teste e reteste das provas, buscando validação por meio do valor de referência da
causalidade científica - uma causalidade que aparece para compor as características
físicas da chamada “Natureza” em si.

As “Leis Naturais” do nosso mundo existem quer nós escolhamos reconhecê-las


ou não. Estas regras inerentes ao nosso universo estavam presentes antes que os seres
humanos desenvolvessem uma compreensão para reconhecê-las, e por mais que pos-
samos debater a respeito da exata precisão da nossa interpretação dessas leis, no atual
estágio de nossa evolução intelectual, há evidência suficientemente consolidada para
mostrar que estamos, de fato, conectados por forças estáticas que têm uma lógica iner-
ente, mensurável e determinante.

Os vastos desenvolvimentos e a integridade preditiva encontrados na matemáti-


ca, física, biologia e outras disciplinas científicas provam que nós, como espécie,
estamos lentamente compreendendo os processos da natureza e o aumento da nossa
capacidade inventiva em simular, acentuar ou reprimir tais processos naturais, confir-
mam o nosso progresso na compreensão da natureza. O mundo ao nosso redor hoje,
abundante em material tecnológico e invenções que alteram a vida, é um testemunho
da integridade do Processo Científico e do que este é capaz.

19
Ao contrário de tradições históricas, onde existe uma certa estagnação em relação
ao que as pessoas acreditam, como ainda é comum em dogmas religiosos, esse recon-
hecimento da “Lei Natural” inclui características que desafiam profundamente a as-
sumida estabilidade de crenças que muitos consideram sagradas. Como será expandi-
do mais tarde neste ensaio no contexto de “Emergência”, o fato é que, simplesmente,
não pode existir uma conclusão intelectual única ou estática sobre a nossa percepção
e conhecimento, exceto, paradoxalmente, quanto ao padrão subjacente de incerteza
dessas mudanças e adaptações em si mesmas.

Isso é parte do que poderia ser chamado de uma visão científica do mundo. Uma
coisa é isolar técnicas de avaliação científica para interesses específicos, como a lógi-
ca que usamos para avaliar e testar a integridade estrutural de um projeto de con-
strução de uma casa, e outra, é quando a integridade universal desse tipo de raciocí-
nio está enraizada permitindo que relações de causa e efeito e métodos de validação
sejam aplicados a todos os aspectos de nossas vidas.

Albert Einstein disse uma vez: “Quanto mais a evolução espiritual da humanidade
avança, mais certo me parece que o caminho para a religiosidade genuína não passa
pelo medo da vida, pelo medo da morte e por uma fé cega, mas sim por uma luta em
busca de conhecimento racional”.27

Enquanto cínicos da Ciência muitas vezes trabalham para reduzir a sua inte-
gridade para outra forma de “fé religiosa”, rebaixando sua precisão como “fria”
ou “sem espiritualidade”, ou mesmo destacando as consequências da tecnologia
aplicada ao mal, como a criação da Bomba Atômica (que, na realidade, é uma indi-
cação da distorção dos valores humanos, ao invés dos da engenharia), não se pode
ignorar o poder incrível que essa abordagem (científica) proporcionou à raça huma-
na com a compreensão e aproveitamento da realidade. Nenhuma outra “ideologia”
chega perto de combinar os benefícios preditivos e utilitários que este método de
raciocínio tem proporcionado.

No entanto, isso não quer dizer que a negação cultural ativa desta relevância não
está ainda difundida no mundo de hoje. Por exemplo, quando se trata de Crença Teís-
ta, muitas vezes há uma tendência de divisão que deseja elevar o ser humano acima
de tais “meras mecânicas” da realidade física. A suposição implícita aqui é que, geral-
mente, os seres humanos são mais “especiais” por alguma razão e, talvez, existam
forças, como uma intervenção de “Deus”, que podem substituir as Leis Naturais à
vontade, tornando-as menos importantes do que, por exemplo, a obediência contínua
à vontade de Deus, etc.

Infelizmente, ainda existe uma grande vaidade humana na cultura que assume,
sem evidência comprovada, que os seres humanos estão separados de todos os outros

20
fenômenos e que nos considerarmos conectados ou até mesmo um produto de forças
naturais e científicas seria o mesmo que rebaixar a vida humana.

Ao mesmo tempo, há também uma tendência para o que alguns chamam de


pensamento “Metamágico”28, que poderia ser considerado um tipo de transtorno
de personalidade esquizofrênica, onde a fantasia e a ilusão leve ajudam a reforçar
falsas suposições de causalidade no mundo, nunca aproveitando o rigor do Método
Científico29. A Ciência requer testes e repetidas replicações de um resultado para que
este seja validado, e muitas crenças de pessoas aparentemente “normais” atualmente
situam-se fora deste requisito. Além das religiões tradicionais, o conceito de “Nova
Era”30 também é comumente associado a este tipo de pensamento supersticioso. Em-
bora seja extremamente importante que nós, como sociedade, estejamos conscientes
da incerteza de nossas conclusões em geral, e que, portanto, devemos manter uma
mente aberta, criativa, para todas as postulações, a validação dessas postulações só
pode vir através de uma consistência mensurável, não de pensamento positivo ou
fascinação esotérica.

Tais ideias e pressupostos invalidados representam um quadro de referência que


muitas vezes é assegurado por “Fé”31, não Razão, e é difícil discutir o mérito da Fé
com qualquer um, uma vez que as regras de Fé, por sua natureza, recusam argumen-
tos. Isto é parte do dilema em que a sociedade humana vive hoje: Nós simplesmente
acreditamos que estamos sendo tradicionalmente ensinados pela nossa cultura ou nós
questionamos e testamos essas crenças frente a realidade física ao nosso redor para
ver se elas são verdadeiras?

A Ciência está claramente preocupada com o amanhã e não possui nada de


sagrado, sempre pronta para corrigir falsas conclusões já estabelecidas quando
uma nova informação surge. Aceitar uma incerteza tão inerentemente - ainda que
seja uma abordagem extremamente viável e produtiva para a visão de mundo do
dia-a-dia - requer uma sensibilidade muito diferente - uma que incorpora a vul-
nerabilidade, não a certeza.

Nas palavras do professor Frank L. H. Wolfs (Departamento de Física e Astrono-


mia da Universidade de Rochester, NY), cuja “Introdução ao Método Científico” é
reproduzida no Apêndice B deste texto para a referência: “Costuma-se dizer que na
ciência as teorias nunca podem ser provadas, apenas refutadas. Há sempre a possibi-
lidade de que uma nova observação ou uma nova experiência entre em conflito com
uma teoria de longa data”.32

Emergência
O coração do método científico é o ceticismo e a vulnerabilidade. A ciência
está interessada na maior aproximação da verdade que se pode encontrar, e se há

21
algo que a ciência reconhece explicitamente, é que praticamente tudo o que sabe-
mos será revisto posteriormente assim que uma nova informação surgir.

Do mesmo modo, o que poderia parecer absurdo, impossível ou mesmo “super-


sticioso” em um primeiro momento, pode se provar ser um útil e viável entendimento
para o futuro, uma vez validada a sua integridade. Isso implica em uma Emergência
de Pensamento - uma Emergência da “Verdade”, se você preferir. Uma análise rápida
da História demonstra constante mudança de comportamentos e práticas baseada em
conhecimento constantemente atualizado, e este humilde reconhecimento é essencial
para o progresso humano.

Simbiose
Um segundo ponto extremamente característico da Visão Científica do Mundo,
que vale a pena ser citado, diz respeito à natureza Simbiótica das coisas que con-
hecemos. Descartado em grande parte por muitos, hoje, como “senso comum”, essa
compreensão detém profundas revelações sobre a maneira como pensamos sobre nós
mesmos, nossas crenças e nossa conduta.

O termo “Simbiótico” é normalmente utilizado no contexto de relações interde-


pendentes entre espécies biológicas.33 No entanto, o nosso contexto do vocábulo é
mais amplo, referente à relação de interdependência de tudo. Enquanto antigamente,
visões intuitivas dos fenômenos naturais poderiam ter considerado, por exemplo, a
manifestação de uma árvore como uma entidade independente, aparentemente au-
to-suficiente em sua ilusão de separação, a verdade é que a vida da Árvore é total-
mente dependente de um “fluxo” de forças aparentemente “externas” para que ocorra
sua própria manifestação e existência.34

A água, luz solar, nutrientes e outros atributos interativos “externos” necessários


para permitir o desenvolvimento de uma “Árvore” são exemplos de uma relação
simbiótica. Entretanto, o âmbito dessa simbiose tornou-se muito mais revelador
do que já conhecíamos no passado e parece que quanto mais aprendemos sobre a
dinâmica do nosso universo, mais imutável sua interdependência.

O conceito que melhor incorpora essa noção é o de um “Sistema”.35 O termo


“Árvore” é realmente uma referência a um Sistema conhecido. A “Raiz”, “Tron-
co”, “Ramos”, “Folhas” e outros atributos dessa Árvore poderiam ser chamados de
“Subsistemas”. Contudo, a “Árvore” em si também é um subsistema, pode-se dizer,
talvez, da “Floresta”, que, por sua vez, é um subsistema de outro mais abrangente,
encerrando fenômenos maiores, como os de um “Ecossistema”. Tal distinção pode
parecer trivial para muitos, mas o fato é que a grande falha da cultura humana
tem sido a de não respeitar plenamente o âmbito do “Sistema Terra” e como cada
sub-sistema desempenha um papel relevante.

22
O termo “Sistemas Categóricos”36 poderia ser usado aqui para descrever todos
os sistemas, aparentemente pequenos ou grandes, pois tais distinções linguísticas
são arbitrárias. Esses sistemas conhecidos e as palavras usadas para referenciá-los
são simplesmente conveniências humanas para a comunicação. O fato é que parece
haver um único sistema possível, organizado pela Lei da Natureza, o qual pode ser
legitimamente referenciado uma vez que todos os sistemas que hoje percebemos e
classificamos só podem ser subsistemas. Não podemos simplesmente encontrar um
sistema verdadeiramente fechado em qualquer lugar. Mesmo o “Sistema Terra”, que
intuitivamente parece autônomo, com a Terra flutuando no vazio do espaço, é total-
mente dependente do Sol, da Lua e provavelmente de muitos e muitos outros fatores
simbióticos que nós sequer podemos, até agora, entender ou definir.

Em outras palavras, quando consideramos as interações que conectam esses


“Sistemas Categóricos”, encontramos uma conexão que é geral e, em um nível social,
compreendida esta interação entre os sistemas, provavelmente chegamos à base da
perspectiva mais viável para a verdadeira sustentabilidade humana37. O ser humano,
como a árvore ou a Terra, parece ser, mais uma vez, intuitivamente auto-suficiente.
No entanto, por exemplo, sem oxigênio para respirar, não sobreviveremos. Isto sig-
nifica que o sistema humano requer interação com um sistema atmosférico e, conse-
quentemente, com um sistema de produção de oxigênio. E uma vez que o processo
de fotossíntese fornece a maior parte do oxigênio atmosférico que respiramos, é de
nosso interesse estar ciente sobre o que afeta esse sistema particular, trabalhando para
harmonizar nossas práticas sociais com ele.

Quando testemunhamos, por exemplo, a poluição dos oceanos ou o rápido des-


matamento da Terra, muitas vezes esquecemos o quão importante tais fenômenos
realmente são para a integridade do sistema humano. Na verdade, há tantos exemplos
de perturbações ambientais perpetuadas hoje pela nossa espécie, devido a uma con-
sciência fragmentária da cadeia simbiótica de causa e efeito que une todos os sistemas
categóricos conhecidos, que uma enorme coleção de dados poderiam ser dedicados a
esta crise. A falha em reconhecer essa “Simbiose” é um problema fundamental e uma
vez que este Princípio de Sistemas Interativos38 for totalmente compreendido, muitas
de nossas mais singelas práticas, atualmente, provavelmente parecerão ignorantes e
perigosas no futuro.

Crenças Sustentáveis
Isto nos leva para o nível de Pensamento e Compreensão propriamente ditos.
Como observado antes, o sistema de linguagem que usamos isola e organiza os el-
ementos do nosso mundo para uma compreensão geral. A própria linguagem é um
sistema baseado em distinções por categorias que associamos à nossa realidade per-
cebida. No entanto, por mais necessário tal modo de identificação e organização seja
para a mente humana, ele também implica uma falsa divisão.

23
Dado esse fundamento, é fácil especular sobre como temos crescido tão acos-
tumados a pensar e agir de maneira intrinsecamente divisiva e por que a história da
sociedade humana tem sido uma história de desequilíbrio e conflito.39 É nesse nível
que tais Sistemas Físicos que discutimos ganham relevância frente aos Sistemas de
Crença/Pensamento.40

Enquanto a ideia de “sustentabilidade” pode ser tipicamente associada com os


processos técnicos, eco-teorias e engenharia moderna, muitas vezes esquecemos que
nossos valores e crenças precedem todas essas ideias e aplicações. Portanto, a ver-
dadeira sustentabilidade significa que precisamos de crenças e valores sustentáveis e
essa conscientização só pode vir de um reconhecimento válido das leis da natureza,
às quais estamos ligados.

Podemos medir a integridade de um Sistema de Crença? Sim. Podemos medi-la


pela forma como os seus princípios se alinham com a Causalidade Científica, com
base no feedback resultante. Se fôssemos comparar os resultados dos diferentes siste-
mas de crenças que buscam um fim comum,41 poderíamos medir o quão bem essas
perspectivas alcançam seu fim e, dessa forma, qualificar e classificar esses sistemas
uns em relação aos outros.

Como será explorado em detalhes mais adiante, a comparação central de sistemas


de crenças neste ensaio é entre a “Economia de Mercado Monetário” e a já mencio-
nada “Lei Natural/Economia Baseada em Recursos”. No centro desses sistemas está
essencialmente uma crença conflitante sobre causalidade e possibilidade, e o leitor é
aqui desafiado a fazer julgamentos objetivos sobre a forma como cada perspectiva
realmente cumpre metas humanas de fim comum.

Tendo isso em consideração e no contexto deste trabalho, especificamente nos


pontos sobre Emergência & Simbiose, poderia generalizar-se que qualquer Siste-
ma de Crença que (a) não tem incorporada em si a concessão para que o próprio
sistema de crença possa ser inteiramente alterado, ou até mesmo tornado comple-
tamente obsoleto pela assimilação de novas informações, é um sistema de crença
insustentável; e (b) qualquer sistema de crença que permite isolamento e divisão,
apoiando a integridade de um segmento ou grupo em detrimento de outro, é um
sistema de crença insustentável.

Sociologicamente, ter uma Visão Científica do Mundo significa estar disposto e


capaz de se adaptar, tanto como um indivíduo como uma civilização, quando novas
percepções e abordagens surgirem que melhor resolvam os problemas e promo-
vam prosperidade. Essa visão de mundo provavelmente marca a maior mudança da
história na compreensão humana. Cada conveniência moderna de que desfrutamos
é resultado desse método, quer seja reconhecido ou não como a lógica inerente,

24
auto-geradora e mecanicista, que é estabelecida para ser universalmente aplicável a
todos os fenômenos conhecidos.

Enquanto muitas pessoas no mundo ainda atribuem a causalidade aos deuses,


demônios, espíritos e outras visões não mensuráveis baseadas na “fé”, uma nova era
de razão parece estar no horizonte, onde o conhecimento científico emergente sobre
nós mesmos e nosso habitat está desafiando o tradicional e estabelecido enquadra-
mento que herdamos dos nossos ancestrais menos informados.

Já não é a orientação “técnica”42 da ciência rebaixada a meros dispositivos e


ferramentas - a verdadeira mensagem dessa Visão do Mundo é a filosofia pela qual
devemos orientar as nossas vidas, valores e instituições sociais.

Como será discutido em outros ensaios relacionados com este texto, o Sistema
Social, sua Premissa Econômica ao longo de sua estrutura Legal & Política, tornou-se
em grande parte uma condição de “fé” na forma que está agora perpetuada. O Siste-
ma Monetário da economia, por exemplo, argumenta-se ser baseado em pouco mais
do que um conjunto de premissas agora ultrapassadas e cada vez mais ineficientes,
não diferente de como os primeiros seres humanos falsamente assumiram que o
mundo era plano, demônios causavam doenças, ou que as constelações no céu eram
construções fixadas, estáticas, bidimensionais, semelhantes a tapeçarias. Há enormes
paralelos que podem ser estabelecidos entre a fé religiosa tradicional e as instituições
culturais estabelecidas que assumimos serem válidas e “normais” atualmente.

Assim como a Igreja na Idade Média detinha o poder absoluto na Europa, pro-
movendo lealdades e rituais que hoje a maioria consideraria absurdos ou até mesmo
insanos, as gerações vindouras provavelmente olharão para trás, para as práticas esta-
belecidas em nosso tempo atual, e pensarão exatamente da mesma forma.

* Consulte o Apêndice B, que explica o Método Científico.

25
Notas e Referências: Capítulo 2

[26] http://www.todayinsci.com/QuotationsCategories/SCat/Scientific-
Method-Quotations.htm

[27] Citado em: “All the Questions You Ever Wanted to Ask American
Atheists”, por Madalyn Murray O’Hair, Amer Atheist Press, 1986

[28] Stanford University Behavioral Biology Professor, Dr. Robert


Sapolsky é provavelmente mais notável com seu uso do termo “MetaM-
agical”. Seu trabalho é recomendado: http://benatlas.com/2009/12/rob-
ert-sapolsky-on-metamagical-schizotypal-thinking/

[29] Ver o Apêndice B para uma introdução ao Método Científico

[30] O termo Nova Era é geralmente definido como “um amplo movimento
caracterizado por abordagens alternativas para a cultura ocidental tradi-
cional, com um interesse na espiritualidade, misticismo ...”

[31] Carl Sagan era famoso principalmente por corroborar com a


definição de Fé como “Crença sem Evidência”.

[32] http://teacher.nsrl.rochester.edu/phy_labs/appendixe/appendixe.html

[33] http://dictionary.reference.com/browse/symbiotic

[34] O Termo “Externo” neste contexto é enquadrado como relação a um


objeto percebido. O ponto de maior abrangência aqui é que não existe
tal coisa como “externo” ou “interno” no contexto de sistemas de ordem
maior.

[35] O “Sistema” é definido como: “um conjunto de coisas que trabalham


juntas como partes de um mecanismo ou de uma rede de interconexão.”
É interessante notar-se que, frente a importância deste conceito como a
relevância do “Sistema” ou “Teoria dos Sistemas”, será um tema repetitivo
com respeito ao quadro de referência que realmente suporta verdadeira
sustentabilidade humana em nosso habitat.

[36] Este Termo é uma variação sobre a noção mais comum de “Pensa-
mento Categórico”, que está fazendo uma reflexão através da atribuição
de pessoas ou coisas para as categorias e, em seguida, utilizando as
categorias como se representassem algo no mundo real.

[37] Para ser expandida em maiores detalhes na Parte 3 deste texto.

[38] Ver Anexo A, Lista de Vocabulário

[39] A Revolução Neolítica é um marcador notável para uma mudança


dramática nas funções sociais e relações humanas, à medida que a

26
civilização passou de forrageamento e caça - vivendo em subserviência
a processos naturais - a uma profunda capacidade de controlar a agri-
cultura para alimentação e de criar ferramentas/máquinas para facilitar o
trabalho humano. Poderia ser argumentado que a sociedade humana não
foi madura o suficiente para lidar com essa habilidade, e a perpetuação
do medo e da escassez levou à acumulação, privatização, agrupamentos
em nações e outras tendências de divisão para a auto-preservação de
grupo em vários níveis.

[40] Para maior clareza filosófica, poderia ser argumentado que todos
os resultados das percepções humanas são projetados - até mesmo as
próprias leis da natureza. No entanto, isto não altera a eficácia que foi
observada com respeito ao imenso controle e compreensão que temos
através do método da ciência.

[41] A noção de “fim comum” ou “terreno comum” será repetida neste


texto e é uma crítica consciente a média das necessidades, intenções e
consequências do ser humano. A premissa central da defesa do MZ é
que os seres humanos são mais parecidos do que diferentes conforme
compartilhamos as mesmas necessidades básicas quantificáveis e
reações. Em muitos aspectos este é o atributo unificador que poderia
compreender o que é chamado de “Natureza Humana” e, como será
mais descrito em ensaios posteriores, os seres humanos, de fato, têm
partilhado reações previsíveis e comuns às influências positivas e neg-
ativas, tanto psicológicas quanto fisiológicas. Portanto, a inteligente
organização humana de uma sociedade é obrigada a levar isso em conta
diretamente para o bem da saúde pública - algo que o atual sistema do
mercado monetário não faz.

[42] Como será prolífico neste texto, o termo “Técnico”, enquanto prati-
camente sinônimo de “Científico”, é empregado para melhor expressar a
natureza causal de todos os fenômenos existentes - incluindo até mesmo
o comportamento humano e a própria psicologia/sociologia. A premissa
central de defesa do MZ é que a resolução de problemas e a manifes-
tação do potencial é uma avaliação “técnica” e esta abordagem, a ser
aplicada a todos os atributos sociais, está no centro do novo modelo
social defendido.

27
28
Capítulo 3

A Visão Científica do Mundo

“Um novo tipo de pensamento é essencial para que a humanidade


possa sobreviver e se mover em direção à níveis mais elevados.” 43
- Albert Einstein -

Uma consideração central inerente à perspectiva do MZ sobre a mudança social


para melhor diz respeito ao conceito de “Progresso” em. Parece haver dois ângulos
básicos a serem considerados quando se trata de progresso pessoal ou social: Mani-
festação Potencial e Resolução de Problemas.

Potencial e Resolução
Manifestação Potencial é simplesmente a melhoria de uma condição que não foi
considerada antes de estar num estado problemático. Um exemplo seria a capacidade
de aperfeiçoar o desempenho atlético humano em um campo particular através de
fortalecimento, dieta e refino de técnicas específicas e outros meios que simplesmente
não eram conhecidos antes.

Resolução de Problemas, por outro lado, é a superação de uma questão que tem
atualmente consequências prejudiciais reconhecidas e/ou limitações para um deter-
minado assunto. Um exemplo genérico seria a descoberta da cura para uma doença
debilitante existente, de modo que essa doença não cause mais danos.

No entanto, em uma visão ampla, há uma sobreposição clara entre essas duas
noções quando a natureza do desenvolvimento do conhecimento é levada em conta.
Por exemplo, um “aperfeiçoamento” de uma determinada condição, uma prática que
então torna-se normal e comum em uma cultura, pode também, potencialmente, ser
parte de um “problema” no mesmo contexto, o qual requer resolução caso novas
informações a respeito de sua ineficiência sejam encontradas ou novos avanços a
tornem obsoleta por comparação.

Por exemplo, o transporte aéreo, que é relativamente novo na sociedade, expandiu


enormemente a eficiência do transporte a partir de sua aplicação. No entanto, até que
ponto o transporte aéreo moderno será visto mais como um “problema”, devido à
sua ineficiência inerente, em comparação com outro método44. Portanto, a eficiência

29
é relativa neste sentido, já que apenas quando há uma expansão do conhecimento a
abordagem que era considerada “melhor” se torna “inferior”.

Este ponto aparentemente abstrato é criado para comunicar o simples fato de que
cada prática que consideramos normal hoje em dia tem incorporada em si uma inefi-
ciência inevitável, a qual, mediante novos desenvolvimentos em ciência e tecnologia,
provavelmente vai produzir um “problema” em algum momento no futuro quando
for comparada a potenciais emergentes mais novos. Essa é a natureza da mudança, e
se os padrões científicos da história refletem alguma coisa, é que o conhecimento e
suas aplicações continuam a evoluir e melhorar, de um modo geral.

Então, de volta para as questões aparentemente distintas da Manifestação Po-


tencial e Resolução de Problemas, pode-se deduzir daí que todas as resoluções de
problemas também são atos de manifestação potencial e vice-versa.

Isto também significa que as ferramentas reais utilizadas pela sociedade para uma
determinada finalidade são sempre transitórias. Não importa se é o meio de trans-
porte, as práticas médicas, produção de energia, o sistema social, etc45. Todas essas
práticas são manifestações/resoluções em relação à necessidade e à eficiência hu-
manas, com base no estado transitório de entendimento que nós temos / tínhamos no
momento da sua criação/evolução.

Proposta Raiz e Causa Raiz


Portanto, quando se trata de pensar em qualquer ato de invenção ou de resolução
de problemas, temos de chegar o mais perto da Proposta Raiz (Manifesto) ou a Causa
Raiz (Problema) possível, respectivamente, para fazer uma avaliação mais precisa
para a ação. Assim como as ferramentas e técnicas de uso potencial são tão viáveis
como a compreensão do seu propósito fundamental, ações para a resolução de prob-
lemas são apenas tão boas quanto o entendimento da causa raiz do mesmo. Isso pode
parecer óbvio, mas esse conceito não está presente em muitas áreas do pensamento
no mundo de hoje, especialmente quando se trata de sociedade. Ao invés de perseguir
esse foco, a maioria das decisões sociais são baseadas em torno de costumes tradicio-
nais que têm limitações inerentes.

Um exemplo simples disso é o método atual de encarceramento humano para o


que se denomina “comportamento criminoso”. Para muitos, a solução para as for-
mas “ofensivas” do comportamento humano é simplesmente remover os indivíduos
da sociedade e “puni-los”. Isto é baseado em uma série de premissas que datam de
milênios atrás.46

No entanto, a ciência do entendimento do comportamento humano mudou muito


ao longo do tempo no que se diz respeito à causalidade. Hoje é de conhecimento

30
comum nas ciências sociais que a maioria dos atos “criminosos” provavelmente não
ocorreriam se certas condições ambientais básicas, de apoio, fossem definidas para
o ser humano47. Colocar as pessoas em prisões não está efetivamente resolvendo
nada relacionado à causa do problema. Na verdade, é apenas um paliativo, se assim
podemos dizer, que reprime temporariamente alguns efeitos do problema maior.48

Outro exemplo, embora aparentemente diferente do anterior, mas igualmente


“técnico”, é a maneira pela qual a maioria pensa sobre soluções para problemas
domésticos comuns, como acidentes de trânsito. Qual é a solução para uma situação
em que um motorista comete um erro e casualmente muda de pista, apenas para atin-
gir o veículo próximo a ele, causando um acidente? Deveria haver um enorme muro
entre eles? Deveria haver um melhor treinamento? Deveria a pessoa simplesmente ter
sua carteira de motorista revogada, de modo que não possa dirigir de novo? É aqui,
mais uma vez, onde a noção de “causa raiz” é muitas vezes perdida nas molduras
estreitas de referências comumente entendidas pela cultura como soluções.

A causa raiz do acidente pode ser apenas parcialmente a questão da integridade do


condutor, a questão mais importante é a falta de integridade da tecnologia / infra-es-
trutura que está sendo utilizada. Por quê? - Porque a falibilidade humana é historica-
mente reconhecida e imutável49. Então, assim como os primeiros veículos não tinham
“Airbags” para passageiros e motoristas, algo que é comum hoje e reduz grande quan-
tidade de lesões que existiram no passado50, a mesma lógica deveria ser aplicada ao
sistema de interação própria do veículo, tendo em conta as novas possibilidades técni-
cas para o aumento da segurança, para compensar o erro humano inevitável.

Assim como o Airbag foi desenvolvido anos atrás à medida que a evolução do
conhecimento se desenrolava, hoje existe tecnologia que permite que veículos au-
tomatizados, sem motoristas, possam detectar não apenas cada elemento da rua
necessário para operar com precisão, como podem detectar uns aos outros, tornando
as colisões quase impossíveis.51 Este é o estado atual de uma “solução” como quando
consideramos a causa raiz e a finalidade raiz, em geral.

No entanto, por mais avançada que a solução possa parecer, especialmente tendo
em conta os cerca de 1,2 milhões de pessoas que morrem desnecessariamente em
acidentes de automóvel a cada ano,52 este exercício de pensamento ainda pode ser
incompleto se continuarmos a alargar o contexto em relação aos objetivos.

Possivelmente há outras ineficiências que se relacionam com a infra-estrutura de


transporte e, além disso necessitam serem levadas em conta e superadas. Talvez, por
exemplo, o uso de veículos individuais, independentemente da sua segurança, tem
outros problemas inerentes que só podem ser logicamente resolvidos pela remoção
do próprio automóvel. Talvez em uma cidade com uma população móvel em ex-

31
pansão tal veículo de transporte independente se torna desnecessariamente complica-
do, lento e geralmente ineficiente.53

A solução mais viável nesta circunstância pode ser a necessidade de um siste-


ma de transporte unificado e integrado em massa, que possa aumentar a velocidade,
reduzir o consumo de energia, a utilização de recursos, a poluição e muitas outras
questões relacionadas com o efeito que o uso de automóveis em tal condição, então,
passa a fazer parte do “problema” emergente.

Se o objetivo de uma sociedade é fazer a coisa “correta” e, portanto, sustentável,


reduzindo as ameaças para os seres humanos e os habitats, e sempre aumentando a
eficiência - uma lógica dinâmica auto-geradora se desenvolve com relação a nossas
possibilidades técnicas e abordagens de design.

A Nossa Realidade Técnica


Claro que a aplicação deste tipo de solução de problemas está longe de ser limita-
da a esses exemplos físicos. É a “política” a resposta para nossos infortúnios sociais?
Será que ela direciona para causas raízes pelo seu próprio “design”? Seria o dinheiro
e o sistema de mercado o método mais otimizado para o progresso sustentável, a res-
olução de problemas e a manifestação do potencial econômico? O que o nosso estado
moderno da ciência e da tecnologia têm para contribuir no campo da compreensão de
causa e efeito no nível da sociedade?

Como outros ensaios indicarão mais tarde em grande detalhe, esses entendimentos
criam uma linha de pensamento natural e clara com relação a quão melhor o nosso
mundo poderia ser se nós simplesmente seguíssemos a lógica criada através do Método
Científico de pensamento para cumprir o nosso objetivo comum de sustentabilidade
humana. Os 1 bilhão de pessoas que passam fome no planeta não estão fazendo isso por
causa de alguma imutável consequência natural da nossa realidade física. Há abundân-
cia de comida para todos.54 É o sistema social, que tem a sua própria lógica desatual-
izada e artificial, que perpetua essa atrocidade social, juntamente com inúmeras outras.

É importante salientar que o MZ não está preocupado com a promoção de “re-


mendos” como seu objetivo final, que, é triste dizer, é o que a grande maioria das
instituições de ativistas do planeta estão fazendo atualmente.55 Queremos promover
a maior ordem, maior eficiência do conjunto de soluções disponíveis em um determi-
nado momento, alinhados com os processos naturais, para melhorar a vida de todos,
ao mesmo tempo garantindo a integridade do nosso habitat. Queremos que todos
compreendam essa “linha de pensamento” de forma clara e desenvolvam uma iden-
tificação de valor com a mesma.

Não há uma solução única - somente o raciocínio empírico da Lei Natural é que
alcança as soluções e finalidades.

32
Notas e Referências: Capítulo 3

[43] Em “Atomic Education Urged by Einstein”, New York Times, 25 de


maio de 1946

[44] Um exemplo moderno notável é a nova tecnologia de transporte, tal


como transporte “Maglev”, que usa menos energia e move-se substan-
cialmente mais rápido do que as companhias aéreas comerciais http://
www.et3.com/
[45] Novamente, esta realidade está incorporada pelo termo “conjunto de
aplicativos” ao longo deste texto.

[46] Sugestão de leitura: “Violence: Our Deadly Epidemic and Its Causes”
(Violência: Nossa Epidemia Mortal e suas Causas), Dr. James Gilligan,
1996

[47] O estudo ‘Merva-Fowles “, realizado na Universidade de Utah na


década de 1990, descobriu conexões poderosas entre desemprego e
crime. Eles basearam sua pesquisa em 30 grandes áreas metropolitanas,
com uma população total de mais de 80 milhões. Eles descobriram que
um aumento de 1% na taxa de desemprego resultou em: aumento de
6,7% no número de homicídios, um aumento de 3,4% nos crimes vio-
lentos, um aumento de 2,4% em crimes contra a propriedade. Durante o
período de 1990 a 1992, isso se traduziu em: 1.459 homicídios adicionais;
62.607 crimes violentos adicionais; 223.500 crimes contra a propriedade
adicionais. [Merva & Fowles, Effects of Diminished Economic Opportuni-
ties on Social Stress, Economic Policy Institute, 1992]

[48] Ver Anexo G, palestra de Ben McLeish : “Out of the Box: Prisons”
(Fora da Caixa: Prisões)

[49] http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/pmc1117770/

[50] Um estudo de 1996 da NHTSA encontrou o benefício de redução de


mortalidade para todos os motoristas numa estimativa de 11% quando
eram utilizados “air bags”. http://www.nhtsa.gov/cars/rules/regrev/evalu-
ate/808470.html

[51] [52] http://www.car-accidents.com/pages/stats.html

[53] Uma lenta mudança geral, mesmo na sociedade comercial moderna,


de “propriedade” para “acesso” está começando a ganhar apoio. http://
gigaom.com/2011/11/10/airbnb-roadmap-2011/

[54] As principais organizações internacionais afirmaram estatisticamente


que há comida suficiente para todos e que a fome não é causada por fal-
ta de recursos. [http://www.wfp.org/hunger/causes]. Em combinação com
melhorias de eficiência que serão abordadas mais na Parte 3, a absoluta
abundância global de alimentos da mais alta qualidade de nutrientes

33
também é possível hoje.

[55] Esse comentário não é para humilhar qualquer instituição social


bem-intencionada a trabalhar para ajudar dentro dos limites do método
sócio-econômico atual. No entanto, como será descrito mais na Parte 2,
o modelo social atual inerentemente restringe a uma vasta quantidade de
possível prosperidade / resolução de problemas, devido à sua própria
concepção e instituições, portanto, ativistas e instituições sociais que
evitem essa realidade só podem estar trabalhando para ajudar a “remen-
dar” problemas, não corrigi-los, já que eles se originam do próprio siste-
ma social. Um exemplo comum é o de organizações de caridade que
desejam fornecer alimento aos pobres. Essas organizações não estão
geralmente abordando por que essas pessoas são pobres para começar
e, portanto, não estão realmente trabalhando para resolver a raiz do(s)
problema(s).

34
Capítulo 4

Lógica vs Psicologia

“Nós não agimos corretamente porque temos virtude ou excelência,


mas provavelmente temos estas porque agimos corretamente.”56
- Aristóteles -

Uma consequência poderosa, mas muitas vezes despercebida, da nossa vulnera-


bilidade ambiental em adaptar-se à cultura existente, é que a nossa própria identidade
e personalidade está, muitas vezes, ligada às instituições, práticas, tendências e, por-
tanto, aos valores sob os quais nascemos e existimos. Esta adaptação psicológica e
a inevitável familiaridade criam uma zona de conforto que, ao longo do tempo, pode
ser dolorosa de interromper, independentemente de quão bem fundamentados sejam
os dados que afirmam o contrário do que acreditamos.

Na verdade, a maior parte das objeções ao Movimento Zeitgeist encontradas


atualmente, em específico os pontos que dizem respeito às soluções e, portanto,
às mudanças, parecem guiadas por estreitas molduras de referência e de um viés
emocional, mais do que por uma avaliação intelectual. Reações comuns deste
tipo são muitas vezes proposições únicas, as quais, ao invés de abordarem criti-
camente as verdadeiras premissas articuladas em um argumento, servem para
rejeitá-lo completamente através de associações aleatórias.

A mais comum classificação desses argumentos são “projeções”57, e torna-se


claro muitas vezes que esses adversários estão na verdade mais preocupados em
defender sua identidade psicológica do que em considerar objetivamente uma nova
perspectiva.58

Bloqueio Mental (Mind Lock)


Em uma obra clássica dos autores Cohen e Nagel, intitulada “An Introduction to
Logic and the Scientific Method” [Uma introdução à Lógica e ao Método Científico],
este ponto é abordado de forma pertinente no que diz respeito ao processo de aval-
iação lógica e sua independência da psicologia humana.

“O peso da evidência não é por si só um evento temporal, mas uma relação de


implicação entre determinadas classes ou tipos de proposições... Claro, o pensamento
é necessário para apreender tais implicações... no entanto, ele não faz da Física um
ramo da Psicologia. A percepção de que a lógica não pode ser restrita a fenômenos

35
psicológicos nos ajudará a distinguir entre a nossa ciência e a nossa retórica - con-
cebendo esta última como a arte da persuasão ou de discutir de modo a produzir a
sensação de certeza. Nossas disposições emocionais dificultam a nossa aceitação de
certas proposições, não importa o quão forte seja a evidência em seu favor. E uma vez
que todas as provas dependem da aceitação de certas proposições como verdadeiras,
nenhuma proposição pode ser comprovada como verdadeira a quem está suficiente-
mente determinado a não acreditar.”59

O termo “Bloqueio Mental” (Mind Lock) foi cunhado por alguns filósofos60 no
que diz respeito a este fenômeno, definindo-o como “a condição em que a perspecti-
va de alguém torna-se auto-referente, formando um circuito fechado de raciocínio”.
Pressupostos aparentemente empíricos moldam e protegem a visão de mundo de
um indivíduo e qualquer coisa contrária vinda de fora pode ser “bloqueada”, muitas
vezes mesmo inconscientemente. Esta reação pode ser comparada ao reflexo físico
comum de proteger-se de um objeto estranho em movimento em direção a si - só que
nessa circunstância o “reflexo” é defender suas crenças, e não seu corpo.

Embora frases como “pensar fora da caixa” possam ser uma retórica comum hoje
em dia na comunidade ativista, raramente os fundamentos da nossa maneira de pen-
sar e da integridade de nossas instituições mais estabelecidas são desafiados. Eles são,
na maioria das vezes, considerados “fatos óbvios” e assumidos como inalteráveis.

Por exemplo, nas assim chamadas democracias do mundo, um “Presidente”, ou


equivalente, é um ponto de foco comum em relação à qualidade do governo de um
país. Uma grande quantidade de atenção é gasta em tal figura, suas perspectivas e
ações. No entanto, raramente alguém se pergunta: “Para começar, por que temos um
Presidente?” “Como se justifica o seu poder enquanto figura institucional como uma
forma otimizada de governança social?” “Não é uma contradição alegar que uma
sociedade é democrática quando o público não pode realmente opinar e interferir nas
ações do presidente, uma vez que ele ou ela é eleito?”

Tais questões são raramente consideradas já que as pessoas tendem, mais uma
vez, a se adaptar à sua cultura, sem objeção, assumindo que é “do jeito que é”. Tais
orientações estáticas são quase universalmente resultado da tradição cultural e, como
Cohen e Nagel apontam, é muito difícil comunicar uma ideia nova e desafiadora para
aqueles que estão “suficientemente determinados a não acreditar nela.”

Tais pressupostos tradicionais, tidos como empíricos, são provavelmente uma fonte
enraizada de retardo pessoal e social no mundo de hoje. Esse fenômeno, juntamente
com um sistema educacional que reforça constantemente tais noções estabelecidas por
meio de suas instituições de “academia”, sela ainda mais esta inibição cultural e agrava
o obstáculo a uma mudança relevante.61

36
Embora o alcance dessa tendência seja amplo no que diz respeito ao debate, há
aqui duas falácias argumentativas comuns, dignas de nota, pois surgem constante-
mente quando da relação com as Aplicações e Linha de Raciocínio promovidas pelo
MZ. Em termos técnicos, essas táticas compreendem o que poderia ser chamado de
“Guerra de Valores”62, que é conduzida, conscientemente ou não, por aqueles que
têm interesses emocionais/materiais próprios em manter as coisas do modo como
estão, opondo-se à mudança.

A falácia “Prima Facie”


A primeira é a associação “Prima Facie”. Esta significa simplesmente “sob primeira
impressão”, “antes de investigação”63. E é de longe o tipo mais comum de objeção.

Um clássico estudo de caso é a acusação comum de que as observações e soluções


apresentadas pelo MZ são simplesmente um “Comunismo Marxista” requentado.

Exploremos isso brevemente como um exemplo. Referenciando “O Mani-


festo Comunista”64, Marx e Engels apresentam várias observações com relação
à evolução da sociedade, especificamente a “luta de classes”, as relações estru-
turais inerentes ao “capital”, juntamente com uma lógica geral de como a ordem
social transitará através de “revolução” para um sistema, em parte, sem estado,
sem classes, enquanto, ao mesmo tempo, observando uma série de mudanças
sociais diretas, como a “Centralização dos meios de comunicação e transporte
nas mãos do Estado”, a “Responsabilidade igualitária de todos para o trabalho” e
outras particularidades. Marx cria papéis no esquema que ele sugere como uma
batalha em curso entre a “Burguesia e Proletários”, expressando desprezo pela
exploração inerente, que ele diz ser essencialmente enraizada na ideia de “pro-
priedade privada”. No entanto, a meta acumulada em geral é a busca de uma
“sociedade sem Estado e sem classes”.

Superficialmente, reformas propostas por soluções promovidas pelo MZ podem


parecer espelhar atributos do “Marxismo”, se se ignorasse completamente o raciocí-
nio subjacente. A ideia de uma “sociedade sem classes”, “sem propriedade universal”
e a redefinição completa do que seja o “Estado” pode, superficialmente, mostrar con-
fluência entre os simples gestos em si, especialmente uma vez que a Academia Oci-
dental comumente promove uma “dualidade” entre “Comunismo” e “Capitalismo”,
usando dos pontos característicos já mencionados como as diferenças fundamentais.
No entanto, a Linha de Raciocínio para apoiar essas conclusões aparentemente sem-
elhantes é bastante diferente.

As referências defendidas pelo MZ para a tomada de decisão não são uma Filo-
sofia Moral65 que, quando examinadas em sua raiz, são essencialmente o que foi a
manifestação filosófica Marxista.

37
O MZ não está interessado nas noções poéticas, subjetivas e arbitrárias de “uma
sociedade justa”, de “liberdade garantida”, “paz mundial”, ou em “fazer um mundo
melhor”, simplesmente por parecer “certo”, “humano” ou “bom”. Sem uma Estrutura
Técnica que tenha um referente físico direto a tais termos, tal relativismo moral tem
pouco ou nenhum propósito a longo prazo.

Em vez disso, o MZ está interessado em aplicação científica, orientada à sustent-


abilidade social, física e cultural.66

Como será expresso em maior detalhe em capítulos posteriores, o Método da


Ciência não se restringe a sua aplicação no “mundo físico”67 e, portanto, o sistema
social, a infra-estrutura, a relevância educacional e até mesmo o entendimento do
comportamento humano, todos existem dentro dos limites da causalidade científica.
Por sua vez, há um sistema de retroalimentação (feedback) natural integrado à reali-
dade física, que se expressa de forma muito clara em termos do que “funciona” e do
que “não funciona” ao longo do tempo68, guiando nossa adaptação consciente.

O marxismo não é baseado nessa visão de mundo “calculada”, mesmo que pos-
sam haver algumas características inerentes de base científica. Por exemplo, a noção
marxista de uma “sociedade sem classes” servia para superar a “desumanidade”, orig-
inada do capitalismo, que era imposta sobre a classe trabalhadora ou “proletariado”.

A linha de pensamento do MZ, por outro lado, tem por fontes avanços em estudos
humanos. Acredita-se, por exemplo, que a estratificação social, que é inerente ao
modelo capitalista de mercado, é realmente uma forma de violência indireta contra a
grande maioria, tida como resultante de uma psicologia evolutiva que nós, seres hu-
manos, naturalmente possuímos69. Isso gera uma forma desnecessária de sofrimento
humano, em muitos níveis, o que é desestabilizador e, por consequência, tecnica-
mente insustentável.

Outro exemplo é o interesse do MZ na remoção de Propriedade Universal70 e a


criação de um sistema de “acesso compartilhado”. Isso é muitas vezes rapidamente
condenado à ideia marxista da “abolição da propriedade privada”. No entanto, de
modo geral, a lógica marxista relaciona a existência da propriedade privada para a
perpetuação do “burguês” e sua exploração contínua do “proletariado”. Ele afirma,
no Manifesto, “A característica distintiva do comunismo não é a abolição da proprie-
dade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa.”

A lógica defendida pelo MZ, por outro lado, refere-se ao fato de que a prática da
posse universal e individual de mercadorias é ambientalmente ineficiente, um des-
perdício e, por fim, insustentável como prática universal. Isso apoia um sistema de
comportamento restritivo e uma grande quantidade de privação desnecessária e, por

38
consequência, o crime torna-se comum em sociedades com uma distribuição desigual
de recursos.

De qualquer forma, tais alegações “prima facie” são muito comuns e muito mais
poderia ser comentado. No entanto, não é o escopo desta seção discutir todas as
supostas conexões entre marxismo e a linha de pensamento defendida pelo MZ.71

A Falácia do “Espantalho”
A segunda falácia argumentativa tem a ver com a deturpação de uma posição, delib-
erada ou projetada, comumente referida como a falácia do “Espantalho”72. Quando se
trata do MZ, isso geralmente tem a ver com interpretações forçadas, as quais não pos-
suem evidência significativa para serem consideradas relevantes ao ponto em questão.

Por exemplo, ao discutir a organização de um novo sistema social, as pessoas


costumam projetar os seus valores e as preocupações atuais para o novo modelo, sem
considerar ainda a grande mudança de contexto que provavelmente anularia essas
preocupações imediatamente.

Uma dessas projeções do espantalho seria a de que em uma sociedade onde as


produções de materiais fossem baseadas em aplicação tecnológica direta, e não num
sistema de troca que exige trabalho humano remunerado, as pessoas não teriam nen-
hum incentivo monetário para fazer qualquer coisa e, portanto, o modelo seria um
fracasso, já que nada seria levado a diante.

Esse tipo de argumento é sem validade testável com relação às ciências humanas
e é realmente uma suposição intuitiva proveniente do clima cultural atual, onde o
sistema econômico coage todos os seres humanos a papéis de trabalho de sobrevivên-
cia (receita/lucro), muitas vezes independentemente de interesse pessoal ou utilidade
social, gerando uma distorção psicológica com relação ao que cria motivação.

Nas palavras de Margaret Mead: “Se você olhar atentamente, verá que quase tudo
o que realmente importa para nós, tudo o que encarna o nosso mais profundo com-
promisso com a maneira como a vida humana deve ser vivida e cuidada, depende de
alguma forma de voluntariado.”73

Em uma pesquisa da opinião pública de 1992, mais de 50% dos adultos norte-amer-
icanos (94 milhões de norte-americanos) se voluntariaram para causas sociais, a uma
média de 4,2 horas por semana, num total de 20,5 bilhões de horas por ano.74

Também foi descoberto em estudos que empregos mundanos e repetitivos se


prestam mais a recompensas tradicionais, como dinheiro, ao passo que o dinheiro
não parece motivar a inovação e criatividade.75 Em capítulos posteriores, a ideia de

39
Mecanização aplicada ao trabalho mundano para libertar o ser humano será discutida,
indicando como o sistema de trabalho por renda é desatualizado e restritivo, não só para
o potencial industrial e a eficiência, mas também para o potencial humano em geral.

Outro exemplo comum da falácia do espantalho é a afirmação de que, se a tran-


sição para um novo sistema social for posta em prática, a propriedade dos outros
deve ser vigorosamente confiscada por um “poder de decisão” e a violência seria o
resultado. Isto, mais uma vez, é uma projeção/medo sem validação, imposta sobre a
lógica defendida pelo MZ.

O MZ enxerga a materialização de um novo modelo sócio-econômico acontecen-


do com o consenso necessário da população. O seu próprio entendimento, juntamente
com as “pressões biossociais” que ocorrem enquanto o sistema atual piora, são a base
de influência. A lógica não suporta a disposição “ditatorial”, porque essa abordagem,
além de ser desumana, não iria funcionar. Para que esse sistema funcione, ele precisa
ser aceito sem coerção estatal ativa. Portanto, é uma questão de investigação, edu-
cação e ampla aceitação pessoal pela comunidade. Na verdade, as próprias particu-
laridades da interação social e estilo de vida realmente exigem uma grande aceitação
dos mecanismos e valores do sistema.

Da mesma forma, e último exemplo aqui do “Espantalho”, é a confusão sobre como


a transição para um novo sistema poderia acontecer. Na verdade, muitos tendem a ig-
norar as propostas do MZ apenas por essa questão, simplesmente porque não entendem
como isso pode acontecer. Este argumento, em princípio, é o mesmo raciocínio do
exemplo de um homem doente que está buscando tratamento para a sua doença, mas
que não sabe onde pode obter tal tratamento, quando esse estaria disponível, ou qual
é o tratamento. Será que sua falta de saber como e quando conseguir o tratamento de
fato interrompe a sua necessidade de busca pelo mesmo? Não - não se ele quiser ser
saudável. Dado o péssimo estado das coisas neste planeta, a humanidade também deve
continuar buscando, e um caminho inevitavelmente aparecerá.76

Os argumentos “Prima facie” e do “Espantalho” são a base da grande maioria das


objeções encontradas com respeito ao MZ e no Apêndice D - “Objeções Comuns” -
mais exemplos podem ser encontrados para referência.

Finalmente, vale a pena reiterar que a batalha entre Lógica e Psicologia é real-
mente um conflito central na arena da mudança social. Não existe nenhum contexto
mais pessoal e sensível do que a forma como organizamos a nossa vida em sociedade,
e um importante objetivo do MZ, em muitos aspectos, é encontrar técnicas que pos-
sam educar o público quanto ao mérito desta linha de pensamento lógica e mecanicis-
ta, superando a bagagem de confortos psicológicos desatualizados que não possuem
nenhum valor progressista viável no mundo moderno.

40
Notas e Referências: Capítulo 4

[56] Will Durant, A História da Filosofia: A Vida e Opiniões dos maiores


filósofos do Mundo, 1926

[57] Sigmund Freud foi o primeiro a tornar famosa a ideia de Projeção Psi-
cológica, definida como “um mecanismo de defesa psicológico em que
a pessoa inconscientemente nega seus próprios atributos, pensamen-
tos e emoções, que são atribuídos ao mundo exterior, geralmente para
outras pessoas.” No entanto, o uso do termo é mais geral, nesse contex-
to, refletindo a simples noção de assumir a compreensão de uma ideia
baseada em uma relação falsa ou superficial de entendimentos anteriores
- geralmente em uma postura defensiva que rejeite sua validade.

[58] O termo “Patologia Cognitiva” é um conceito sugerido deste fenôme-


no. Uma característica comum é o “raciocínio circular”, onde a crença é
justificada meramente ao se re-referenciar a própria crença. Por exemplo,
ao questionar um teísta porque ele acredita em Deus, uma resposta co-
mum pode ser “Fé”. Perguntar por que ele tem “fé” muitas vezes resulta
em uma resposta como “porque Deus recompensa aqueles que têm fé”.
A orientação de causalidade é incompleta e auto-referente.

[59] Logic and The Scientific Method, Cohen e Nagel, Harcourt, 1934, p.
19

[60] Sugestão de leitura: The Cancer Stage of Capitalism, John McMurtry,


Pluto Press, 1999, capítulo 1

[61] A crítica sobre “Academia” não deve ser confundida com a sua
definição padrão, ou seja, uma “comunidade de estudantes e docentes
envolvidos no ensino superior e de pesquisa.” O contexto aqui é a nature-
za de inibição das “escolas” de pensamento que muitas vezes evoluem
para criar um ego em si mesmo, onde dados conflitantes são ignorados
ou mesmo desmentidos. Além disso, há um risco comum a este modo de
pensamento onde a “teoria” e “tradição” sobrepõem, com muita frequên-
cia, a “experiência” e “experimento”, perpetuando conclusões falsas.

[62] Sugestão de leitura: Value Wars: The Global Market Versus the Life
Economy: Moral Philosophy and Humanity, John McMurtry, Pluto Press,
2002

[63] http://dictionary.reference.com/browse/prima+facie

[64] Escrito por Karl Marx e Friedrich Engels em 1848, este texto é
amplamente considerado como a expressão ideológica definitiva do
comunismo marxista. O “comunismo” é considerado a aplicação práti-
ca do “marxismo”. Texto online: http://www.marxists.org/archive/marx/
works/1848/communist-manifesto/index.htm

41
[65] Definido como “o ramo da filosofia que trata do argumento sobre o
conteúdo da moralidade e da discussão meta-ética sobre a natureza do
julgamento moral, linguagem, raciocínio e valor.” [http://www.thefreedictio-
nary.com/moral+philosophy]

[66] O argumento de que a ciência não é uma filosofia é certamente ab-


erto à semântica e interpretação, mas o ponto que está sendo feito aqui
é que as noções de “certo e errado” e outras distinções “éticas” comuns
na filosofia assumem uma ótica diferente no contexto científico, pois têm
mais a ver com a utilidade e equilíbrio do que meros conceitos de “moral-
idade”, como é classicamente definido. Do ponto de vista da ciência, o
comportamento humano é mais alinhado com a causalidade inerente de-
scoberta no mundo natural, validada por meio de testes, construção de
inferência lógica e associações para justificar as ações humanas como
“apropriadas” para uma determinada finalidade. Novamente, isso é sem-
pre ambíguo em certo nível e, provavelmente, o contexto mais preciso da
filosofia em relação à ciência é o de um precursor da validação durante a
investigação e experimentação.

[67] O termo “mundo físico” é muitas vezes usado para diferenciar entre
os processos “mentais” da mente humana ou fenômenos do tipo soci-
ológicos, e o ambiente físico que existe fora dos processos cognitivos da
percepção humana. Na realidade não há nada fora do “mundo físico”,
como o conhecemos, já que não se encontra nenhum exemplo concreto
onde as relações causais são simplesmente anuladas.

[68] Retroalimentação (Feedback) do Meio Ambiente poderia ser enten-


dida como o “mecanismo de correção” da natureza no que se refere a
decisões humanas. Um exemplo simples seria a produção industrial de
produtos químicos que produzem retroações negativas quando liberados
no meio ambiente, mostrando a incompatibilidade com as necessidades
ambientais de suporte à vida - como foi o caso dos CFC’s e seu efeito
sobre a Redução da Camada de Ozônio.

[69] Sugestão de leitura: The Spirit Level, Kate Pickett; Richard Wilkinson,
Bloomsbury Press, 2011.

[70] Este conceito será explorado mais na Parte 3, mas vale a pena notar
que o tipo de “acesso” habilitado pelo sistema social sugerido (LNEBR)
não exclui relações jurídicas para garantir o uso dos bens. A ideia de
reduzir o atual sistema de propriedade para um de “acesso protegido”,
onde, por exemplo, uma câmera obtida a partir de um centro de dis-
tribuição garante o aspecto lícito do seu aluguel para essa pessoa, não
deve ser confundido com a noção capitalista de propriedade, que é uma
distinção universal e uma grande fonte de ineficiência industrial e dese-
quilíbrio.

[71] Veja o Apêndice D, Objeções Comuns.

[72] Provavelmente a melhor descrição disso é imaginar uma luta em

42
que um dos adversários constrói um homem feito de palha, ataca-o,
em seguida, proclama vitória. Ao mesmo tempo, o verdadeiro oponente
continua intocado.

[73] “Have you noticed...”, Vital Speeches of the Day, Robert Krikorian,
1985, p. 301.

[74] Giving and Volunteering in the United States: Findings from a National
Survey, Hodgkinson & Weitzman, 1992, p. 2.

[75] Sugestões de leitura: Drive: The Surprising Truth About What Moti-
vates Us, Daniel Pink, Riverhead, 2011.

[76] Mais informações sobre o tema da Transição na Parte IV.

43
44
Capítulo 5

A Questão da Unidade Humana

O meu país é o mundo, e a minha religião é fazer o bem.” 77


- Thomas Paine -

Uma conclusão fundamental que ressoa da lógica defendida pelo MZ é que a


sociedade humana precisa unificar suas operações econômicas e trabalhar para se
alinhar com a dinâmica natural do mundo físico, como uma única espécie compartil-
hando um único habitat, se quisermos resolver os problemas, aumentar a segurança,
aumentar a eficiência e prosperar. As divisões econômicas mundiais que vemos hoje
não são apenas uma fonte clara de conflito, desestabilização e exploração, a própria
forma de conduta e interação em si também é extremamente ineficiente em um senti-
do econômico puro, limitando gravemente o nosso potencial social.78

Enquanto Estado-nação, a estrutura baseada em competição é de fácil justifica-


tiva como uma consequência natural da nossa evolução cultural, dada a escassez
inerente de recursos historicamente e a longa história da guerra em geral. Tam-
bém é natural considerar que a sociedade humana pode muito bem encontrar um
propósito em afastar-se desses modos de operação se percebermos que é de fato
vantajoso para todos nós como um grupo.

Como será discutido aqui, os malefícios e as ineficiências do modelo atual -


quando comparado com os possíveis benefícios e soluções - são simplesmente in-
aceitáveis, ​​e as possibilidades de eficiência e abundância, extrapoladas dentro do
novo sistema sócio-econômico defendido pelo MZ, repousam, em parte, em um
esforço coletivo da população humana em prol do trabalho em conjunto e com-
partilhamento de recursos de forma inteligente, e não na restrição e luta como se
espera do design social atual.

Além disso, as hoje emergentes pressões sociais e riscos ao redor da guerra tec-
nológica, poluição, desestabilização ambiental e outros problemas não mostram ape-
nas uma gravitação lógica em direção a uma verdadeira organização global - eles
mostram uma necessidade racional - e a mentalidade xenófoba e mafiosa natural do
Estado-nação atual, muitas vezes sob o rótulo de “patriotismo”, é uma fonte de deses-
tabilização grave e de desumanidade generalizada, sem mencionar, mais uma vez, a
perda substancial de eficiência técnica.

45
Falsas Divisões
Como observado nos capítulos anteriores, a base central da nossa sobrevivência e
qualidade de vida, como indivíduos e como espécie, no planeta Terra, gira em torno
da nossa compreensão da Lei Natural e de como ela se relaciona com o nosso método
de economia. Esta premissa é uma compreensão referencial simples, onde as leis
físicas da natureza são consideradas no contexto da eficiência econômica, tanto nos
níveis humanos e de habitat.

É lógico que qualquer espécie dependente do habitat em que vive deve alinhar
suas condutas com a ordem natural inerente ao mesmo, da melhor forma que a atu-
al compreensão permita. Qualquer outra inclinação é irracional e, por definição, só
poderá trazer problemas.

Entendendo que o planeta Terra é um “Sistema” simbiótico/sinérgico com recur-


sos disponíveis sem nenhum viés nacionalista, associado a uma inerente ordem caus-
al científica subjacente, que em muitos aspectos serve como um “guia” lógico para
a espécie humana se alinhar, permitindo uma maior eficácia social, descobrimos que
nosso contexto mais amplo, como uma sociedade global, transcende praticamente
todas as noções de divisão tradicional/cultural, o que inclui não prestar nenhuma
lealdade a um país, empresa ou até mesmo tradição “política”.

Se por “economia” entendemos o aumento da eficiência no atendimento às neces-


sidades da população humana, que, ao mesmo tempo, trabalha por uma maior sus-
tentabilidade e prosperidade, então nossas operações econômicas devem levar isso
em conta e se alinhar com o mais amplo e relevante “sistema” natural que pudermos
entender. A partir desta perspectiva, as entidades do Estado-nação são claramente fal-
sas. São divisões arbitrárias, perpetuadas pela tradição cultural, que não são lógicas
nem possuem eficiência técnica.

Valores
A organização geral da sociedade de hoje é baseada em uma competição humana
em muitos níveis: os estados-nação competem entre si por recursos físicos/econômi-
cos; as entidades do mercado corporativo competem por lucro/participação de merca-
do, e os trabalhadores comuns competem por ocupações que proporcionem salários e,
portanto, sobrevivência pessoal.

Sob a superfície desta ética social competitiva está um desrespeito psicológico


básico ao bem-estar alheio e ao habitat. A própria natureza da competição pres-
supõe levar vantagem sobre os outros por um ganho pessoal e, logo, a divisão e ex-
ploração (de seres humanos e meio ambiente) são atributos fundamentais da ordem
social vigente. Praticamente todas as ditas “corrupções”, definidas como “crime”
no mundo contemporâneo, são baseadas na mesma mentalidade que orienta o “pro-

46
gresso” do mundo através do valor competitivo.

Não é à toa, de fato, dado este quadro e sua crescente miopia, que várias outras di-
visões sociais, superficiais e nocivas, ainda são perpetradas - tais como raça, religião, cre-
do, classe ou preconceito xenófobo. Essa antiga bagagem de divisão trazida dos estágios
de medo da nossa evolução cultural, simplesmente, não tem sentido dentro da realidade
física. E agora serve apenas para impedir o progresso, a segurança e a sustentabilidade.

Hoje, como será descrito em capítulos posteriores, os possíveis métodos produtores


de abundância e eficiência - que poderiam remover a maior parte das privações hu-
manas, aumentar muito o padrão médio de vida, aperfeiçoar a saúde pública e melhorar
a sustentabilidade ecológica - são deixados de lado devido às tradições sociais antigas
que hoje vigoram, incluindo o conceito de Estado-nação. O fato é que existe tecnica-
mente apenas uma raça - a Raça Humana79; há apenas um único habitat básico - a Terra;
e existe apenas uma maneira funcional de pensamento operacional - Científica.

Origens e Influência
Vamos considerar rapidamente as origens do modelo divisório/competitivo. Sem
entrar em muitos detalhes, está claro que a evolução da sociedade humana incluiu
uma história de conflitos, escassez e desequilíbrio. Embora existam debates sobre a
natureza da sociedade durante o período de tempo que antecede a Revolução Neolíti-
ca80, a terra desde essa altura tem sido um campo de batalha onde foram tomadas
inúmeras vidas por causa da concorrência, seja material ou ideológica.81

Este reconhecido padrão é, de fato, tão difundido que muitos, hoje, atribuem a
propensão para o conflito e dominação a uma característica implacável de nossa na-
tureza humana, concluindo que o ser humano é simplesmente incapaz de operar em
um sistema social que não seja baseado neste quadro competitivo, e que qualquer
esforço nesse sentido criará uma vulnerabilidade a ser explorada por um poder após
o outro, expressando esse aparente traço dominante/competitivo.82

Enquanto o assunto “natureza humana” em si não é o foco direto deste capítu-


lo83, que seja contextualmente especificado que a suposição de “abuso de poder
prático” tem sido uma grande parte da defesa do modelo divisório/competitivo,
usando uma visão geral da história como base para sua validade. No entanto, as
condições detalhadas desses períodos históricos e a conhecida flexibilidade do
ser humano são muitas vezes desconsideradas nessas avaliações.84

Os padrões históricos de conflitos ao longo da história não podem ser levados em


conta isoladamente. Uma referência detalhada a essas condições e circunstâncias se faz
necessária. Na verdade, é possível dizer que a propensão à dominação e conflito, que
é, visivelmente, uma possível reação de quase todos os seres humanos, haja vista nossa

47
necessidade de preservação e sobrevivência85, seja provocada pela influência social
mais do que seja ela a fonte de tal reação. Quando nos perguntamos como o exército na-
zista foi capaz de justificar moralmente suas ações na Segunda Guerra Mundial, muitas
vezes esquecemos a enorme campanha de propaganda promovida por aquele regime,
que trabalhou para explorar essa vulnerabilidade essencialmente biológica.86

O Verdadeiro “Interesse pessoal”


A noção de “interesse pessoal” é claramente inerente ao desejo comum do ser
humano de sobreviver. Isso é bastante óbvio e é fácil ver como, historicamente, a
necessidade bruta de sobrevivência pessoal, que muitas vezes se estende à família e,
em seguida, à “tribo” (comunidade local), configuraram o cenário para o complexo e
divisório paradigma que existe hoje. Do ponto de vista histórico, deveria ser esperado
que grandes teorias econômicas seriam baseadas na noção de competição e desigual-
dade, como na obra de Adam Smith. Considerado o pai do livre mercado, ele tornou
popular a suposição de que se todos tivessem a ética de cuidar apenas de si, o mundo
progrediria como uma comunidade87.

Esta noção de “Mão Invisível” de progresso humano decorrente do estreito au-


to-interesse pessoal pode ter sido uma filosofia viável há muitos anos atrás, quando a
simplicidade da própria sociedade era baseada na ideia de todos como sendo produ-
tores88. No entanto, a natureza da sociedade mudou muito ao longo do tempo com o
aumento da população, estruturas com propósitos inteiramente diferentes, e a tecno-
logia avançando exponencialmente. Os riscos associados a este tipo de pensamento
estão agora a revelar-se mais perigosos do que benéficos, e a definição de “interesse
pessoal” está tomando um contexto maior do que nunca.

Não é do seu interesse pessoal proteger e cultivar o habitat que o sustenta? Não é
do seu interesse pessoal cuidar da sociedade como um todo, provendo a seus mem-
bros, para que as consequências da privação, tais como o “crime”, sejam reduzidas
tanto quanto possível para garantir a sua segurança? Será que não é interesse pessoal
considerar as consequências das guerras imperialistas que podem produzir ódio xe-
nofóbico/nacionalista feroz de um lado do planeta, apenas para, digamos, uma ma-
la-bomba explodir atrás de você em um restaurante como um ato desesperado de
“retribuição” e vingança?

Não é interesse pessoal garantir a todas as crianças das sociedades - não apenas as suas
- que tenham a melhor criação e educação para que o seu futuro e o futuro de seus filhos
possam existir em um mundo responsável, educado, e cada vez mais produtivo? Não é
do seu interesse pessoal certificar-se de que a indústria esteja tão organizada, otimizada e
cientificamente acurada quanto possível, de modo que não produzamos tecnologia barata,
inferior, que possa talvez causar um problema social, no futuro, se falhar?
O ponto fundamental é que as coisas mudaram no mundo de hoje e seu “interesse

48
pessoal” agora é apenas tão bom quanto o seu “interesse social”. Ser competitivo e
viver pra si mesmo, passar por cima dos outros, só tem uma consequência negativa
no longo prazo, pois isso é não reconhecer o extenso sistema no qual estamos todos
integrados. Uma usina de energia nuclear barata feita no Japão pode não significar
muito para as pessoas nos Estados Unidos. No entanto, se essa planta tiver uma fal-
ha técnica em grande escala, a precipitação e a poluição podem chegar até os lares
americanos, provando que você nunca está seguro no longo prazo, a menos que tenha
uma consciência global.

Finalmente, apenas uma visão consciente da terra-humanidade pode garantir um


verdadeiro “interesse pessoal” a alguém no mundo moderno de hoje e, portanto, ga-
rantir, em muitos aspectos, o nosso valor adaptativo social89. A própria ideia de querer
apoiar “seu país” e ignorar, ou até mesmo apreciar, o fracasso dos outros, é um estado
de desestabilização das coisas.

Guerras
Os dias de guerra prática há muito acabaram. Novas tecnologias no horizonte têm
a capacidade de criar armas que farão a bomba atômica parecer uma catapulta roma-
na, em seu poder destrutivo.90 Séculos atrás, os danos da guerra poderiam pelo menos
se restringir às partes beligerantes envolvidas. Hoje, o mundo inteiro está ameaçado.
Existem hoje mais de 23 mil armas nucleares, que poderiam acabar com a população
humana muitas vezes.91

De muitas maneiras, a nossa própria maturidade social está sendo questionada


neste momento. Paus e pedras como armas podiam suportar uma grande quantidade
de distorção humana e más intenções. No entanto, em um mundo de armas nano-tec-
nológicas que poderiam ser construídas em um pequeno laboratório e com enorme
poder destrutivo, o nosso “interesse pessoal” humano precisa assumir o controle, e a
instituição da guerra precisa ser sistematicamente interrompida. A fim de fazer isso,
as nações devem unificar-se tecnicamente e partilhar os seus recursos e ideias, e não
acumulá-los para o auto-aperfeiçoamento competitivo, que é a norma hoje.

Instituições como as Nações Unidas tornaram-se fracassos completos a este res-


peito, porque, naturalmente, tornam-se ferramentas de construção imperiais, devido
à natureza subjacente das divisões em países e à dominância sócio-econômica do
sistema baseado em propriedade / dinheiro / competição. Reunir “líderes” globais em
uma mesa para discutir os seus problemas simplesmente não é suficiente - a própria
estrutura precisa mudar para dar suporte a um tipo diferente de interação entre es-
ses “grupos” regionais, de forma que a perpétua “ameaça” inerente entre os esta-
dos-nação seja removida.

Para finalizar, não há, empiricamente, propriedade de recursos ou ideias. Assim

49
como todas as ideias são desenvolvidas em série pela cultura através da “mente de
grupo”, os recursos do planeta são igualmente transientes em suas funções e defini-
dos cientificamente de acordo com seus possíveis propósitos. A Terra é um sistema
único, juntamente com as leis da natureza que a governam. Ou a sociedade humana
reconhece e começa a agir sobre essa lógica inerente, ou sofreremos no longo prazo.

50
Notas e Referências: Capítulo 5

[77] Rights of Man, Thomas Paine, 1791, p. 162

[78] Um exemplo disso seria o viés econômico patriótico que muitas vez-
es influencia as ações da indústria regional. Na realidade física, tecnica-
mente existe apenas uma economia quando se trabalha com os recursos
do planeta Terra e as Leis Naturais. A ideia de “Produzido nos EUA”, por
exemplo, gera uma ineficiência técnica imediata, pois a produção ade-
quada de mercadorias é um assunto mundial em todos os níveis, inclu-
sive o usufruto do conhecimento do mundo. Restringir intencionalmente o
trabalho e a utilização/aquisição de materiais somente apenas dentro dos
limites das fronteiras de um determinado país é economicamente con-
traproducente no verdadeiro sentido da palavra “economia”.

[79] No campo da genética humana, “Eva mitocondrial” refere-se ao an-


cestral matrilinear comum mais recente (MRCA - do inglês, Most Recent
Common Ancestor) dos humanos modernos. Em outras palavras, ela
era a mulher mais recente de que todos os seres humanos vivos hoje
descendem, do lado materno. Somos uma família.” Além disso, desco-
briu-se que todas as características de diferença de raça (características
faciais, cor da pele) estão ligadas às condições ambientais em que esses
sub-grupos de seres humanos viveram e evoluíram. Portanto, isto é uma
falsa distinção como um meio para discriminação superficial.

[80] Às vezes também chamada de Revolução Agrícola, que foi a pri-


meira revolução historicamente verificável do mundo na agricultura. Foi
a transição em larga escala de muitas culturas humanas de um estilo de
vida de caça e coleta para um de agricultura e colonização que suportou
uma população cada vez maior e é a base para os padrões da socie-
dade moderna de hoje.

[81] Somente no século 20, estatísticos afirmam que o número de mortes


humanas da guerra varia entre 180 e 220 milhões, com alguns contrarian-
do esses números, alegando evidências que colocam esses números 3
vezes maiores em muitos casos regionais: [http://www.sciencedaily.com/
releases/2008/06/080619194142.htm ]

[82] Um texto clássico que empregava esse medo básico era de Hayek,
“O Caminho da Servidão”. Neste trabalho de Hayek o conceito de “Na-
tureza Humana” tinha uma implicação muito clara, justificada fundamen-
talmente pelas tendências históricas do totalitarismo, o qual ele sugeria
estar relacionado às economias colaborativas e planejadas.

[83] Ver o capítulo: O Argumento Final: A Natureza Humana.


[84] Foi comprovado que o Debate Natureza/Criação é uma falsa du-
alidade nos campos de estudo da psicologia comportamental biológi-
ca-evolucionária. A realidade é a de uma interação contínua, com o peso
da relevância variando de caso a caso. No entanto, o que é relevante
aqui é o estudo do “gradiente de comportamento” do ser humano e
exatamente quão adaptáveis e flexíveis somos. Sugestões de leitura: Why
Zebras Don’t Get Ulcers, Robert Sapolsky, W. H. Freeman, 1998.

51
[85] Comumente denominada: “A resposta de luta ou fuga” (ou a res-
posta ao estresse agudo) e foi descrita pela primeira vez pelo fisiologista
americano Walter Bradford Cannon.

[86] “Porque, naturalmente, as pessoas não querem guerra. Por que um


pobre coitado em uma fazenda vai querer arriscar a sua vida em uma
guerra quando o seu maior ganho é conseguir voltar inteiro para sua
fazenda? Naturalmente, as pessoas comuns não querem guerra, nem
na Rússia, nem na Inglaterra, nem mesmo na Alemanha. Isso é com-
preensível. Mas, afinal de contas, são os líderes do país que determinam
a política e é sempre uma simples questão de arrastar o povo, seja isso
uma democracia, ditadura fascista, parlamento ou ditadura comunista.
Com voz ou sem voz, o povo sempre pode ficar à disposição dos líde-
res. Isso é fácil. Tudo que você tem a fazer é dizer-lhes que estão sendo
atacados e denunciar os pacifistas por falta de patriotismo e expor o país
ao perigo. Isso funciona da mesma forma em qualquer país “, Hermann
Göring [um dos principais membros do Partido Nazista; Em uma entrev-
ista com Gilbert na cela prisional de Göring durante o Tribunal de Crimes
de Guerra de Nuremberg (18 de abril de 1946)].

[87] “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro


que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos
próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio,
e nunca falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles
podem obter.“ - Adam Smith, A Riqueza das Nações, Uma Investigação
Sobre a Natureza, Vol. 1

[88] Em 1917, o sociólogo Thorstein Veblen escreveu esta observação


perspicaz com relação às mudanças na sociedade e como elas refletem
a premissa original da economia de mercado.”As teorias padrão da ciên-
cia econômica assumiram os direitos de propriedade e contrato como
premissas axiomáticas e termos finais de análise; e suas teorias são
geralmente desenhadas de tal forma a se encaixarem às circunstâncias
da indústria artesanal e do pequeno comércio... Essas teorias... parecem
convincentes, em geral, quando aplicadas à situação econômica daquela
época... É quando essas teorias padrões são aplicadas à situação atual,
que superou as condições de produção artesanal, que elas parecem
inoperantes e aberrantes.” [Uma Investigação Sobre A Natureza Da Paz
E Os Termos Da Sua Perpetuação] Ele também antecipou a ascensão
da “classe de investimento”, na forma das atuais instituições financeiras
não-produtoras, tais como bancos e mercado de ações, que se tornaram
mais lucrativas do que a própria produção de bens de verdade.

[89] Valor adaptativo é um termo biológico geralmente definido como


“A probabilidade de que a descendência de um indivíduo que possui
uma característica específica não vai perecer.” Neste contexto, estamos
ligando as ações humanas, socialmente, com a ideia de sobrevivência da
espécie.

[90] Ref: http://crnano.typepad.com/crnblog/2005/05/applications_fo.html

[91] Ref: http://www.articlesbase.com/politics-articles/nuclear-weapons-


20-facts-they-dont-want-you-to-think-about-3363230.html

52
Capítulo 6

O Argumento Final:
A Natureza Humana

“O homem adquire, ao nascer, através da hereditariedade, uma


constituição biológica, que devemos considerar fixa e inalterável,
incluindo os impulsos naturais característicos da espécie humana.
Além disso, durante a vida, ele recebe uma constituição cultural
fornecida pela sociedade através da comunicação e de muitos outros
tipos de influências. É esta constituição cultural que, com o passar
do tempo, é sujeita à mudança e determina em larga escala a
relação entre o indivíduo e a sociedade.”92
- Albert Einstein -

A “Linha de Pensamento” e o “Conjunto de Aplicações”93, apresentados em materi-


ais do MZ, são técnicos por natureza, expressando o interesse na aplicação do método e
do mérito da Causalidade Científica em prol do sistema social como um todo.

Os benefícios desta abordagem não devem apenas ser levados em conta por seu
próprio mérito, mas também devem ser considerados em contraste com os métodos
tradicionais em voga e suas consequências. Assim será possível perceber por com-
paração que os atuais métodos da sociedade não estão somente grosseiramente ultra-
passados e ineficientes - estão cada vez mais perigosos e desumanos -, tornando ainda
mais importante a necessidade de mudanças sociais em larga escala. Não se trata de
“Utopia” - mas sim de melhorias verdadeiramente práticas.

A base geral do conceito de Mercado Monetário (capitalista, de livre mercado)


tem fundamentalmente a ver com os pressupostos relativos ao comportamento huma-
no, aos valores tradicionais e a uma visão intuitiva da história - e não a um raciocínio
emergente, a medidas reais de saúde pública, à capacidade técnica ou à responsabili-
dade ecológica. É uma abordagem não-técnica e filosófica que simplesmente assume
que as decisões humanas feitas por meio de sua lógica interna e de seu sistema de
incentivos irão produzir um resultado responsável, sustentável e humano, impulsio-
nadas pela noção ilusória de “liberdade de escolha” que, em uma perspectiva de fun-
cionalidade social, parece equivalente a uma anarquia organizacional.94

É por isso que o modelo de uma economia monetária de mercado é muitas vezes

53
considerado naturalmente religioso nos materiais do MZ, pois seu mecanismo caus-
al é baseado em suposições praticamente supersticiosas sobre a condição humana,
havendo pouca correlação com os entendimentos científicos emergentes sobre nós
mesmos e sobre a rígida relação simbiótica/sinérgica entre o nosso habitat e as leis
naturais que o regem.

Ao apresentar a Linha de Pensamento orientada a soluções do MZ aos que não o


conhecem, é quase sempre apenas uma questão de tempo até que ao menos a premissa
científica básica possa ser compreendida e aceita nos seus conceitos. Por exemplo, o
fato isolado sobre a nossa realidade técnica de termos os recursos e métodos industriais
necessários para facilmente alimentar todos no planeta Terra de forma que ninguém
passe fome,95 raramente encontra objeção. Se hoje você perguntar a qualquer pessoa
se ela gostaria de ver o fim da fome de mais de 1 bilhão de pessoas no planeta,96 ela
provavelmente concordaria pela óptica daquilo que é “moralmente correto”.

No entanto, no momento em que a lógica retrata as reformas sociais e econômicas


em grande escala que são necessárias para fornecer um suporte real a esse 1 bilhão
de pessoas, muitos mostram desprezo e rejeição ao assunto. Além dessas temporar-
iamente inflexíveis associações “de valores” - quando as pessoas essencialmente se
recusam a mudar qualquer coisa a que se acostumaram em suas vidas, mesmo que a
mudança resulte claramente em um melhor resultado a longo prazo - há um argumen-
to tão comum que merece uma discussão preliminar.

É o argumento da “Natureza Humana”. Este argumento pode também ser con-


siderado como a única objeção restante, se desconsiderarmos os quase arbitrários
estilos de vida e práticas culturais que as pessoas temem abandonar devido às suas
identidades e comodidades.

Seriam os seres humanos compatíveis com um sistema socioeconômico científico


e verdadeiramente sustentável ou estaríamos condenados ao mundo que temos hoje
por conta de nossa genética?

Tudo é Técnico
A razão de um novo sistema social baseado diretamente em uma visão científica,
que compreenda e maximize tecnicamente a sustentabilidade e a prosperidade, não
pode ser superada por uma outra abordagem, por mais corajosa que tal afirmação pos-
sa parecer. Por quê? Porque simplesmente não há outra abordagem quando a lógica
natural e unificada do Método Científico é aceita como o mecanismo fundamental de
causalidade física e inter-relações.

Por exemplo, uma grande variação de superfície (ornamental) pode constar no


projeto de um avião, mas a mecânica que permite o voo está vinculada às leis da

54
física e, logo, o design físico geral do avião também estará, a fim de alinhá-lo a essas
mesmas leis e funções.

Construir uma máquina para realizar algum trabalho com o objetivo de otimizar
o desempenho, segurança e eficiência não é uma questão de opinião, assim como
não importa quantos enfeites coloquemos em nossas casas, a estrutura física da con-
strução deve estar de acordo com as rígidas leis da física e as dinâmicas naturais do
habitat, de modo a conferir segurança e resistência e, portanto, haverá uma mínima
variação no sentido técnico.

A organização da sociedade humana não pode ser diferente se o objetivo é a integ-


ridade e otimização. Portanto, pensar na natureza funcional de uma sociedade é pen-
sar em um esquema mecanicista. Assim como projetaríamos um avião para funcionar
da melhor maneira tecnicamente possível, também deveríamos projetar o sistema
social, que é igualmente técnico em seu funcionamento.

Infelizmente, nunca na história foi dada uma verdadeira chance a essa perspectiva
e hoje o nosso mundo ainda caminha de forma incongruente, tendo como principal
incentivo o lucro pessoal e a vantagem imediata, no lugar de métodos industriais
estratégicos, alinhamento ecológico, estabilidade social, preocupação com a saúde
pública e sustentabilidade geracional.

Tudo isso está sendo dito novamente pois o argumento da Natureza Huma-
na mantido contra essa abordagem é realmente o único argumento aparentemente
técnico que pode defender o antiquado sistema que temos hoje; é realmente o único
argumento que resta quando as pessoas interessadas em manter esse sistema per-
cebem que não há nada mais que elas possam argumentar logicamente e que seja
viável, dada a irracionalidade inerente a qualquer outra objeção ao sistema social
baseado na lei natural.

Irracionalmente Limitado?
Resumindo, este desafio pode ser posto em uma pergunta: “Seria a espécie huma-
na capaz de se adaptar e prosperar em um sistema tecnicamente planejado e organi-
zado, onde nossos valores e práticas sejam alinhados com as leis conhecidas da na-
tureza, ou estaríamos limitados por nossos genes, biologia e psicologia evolucionista,
podendo apenas operar da forma como conhecemos hoje?”

Enquanto atualmente muitos argumentam sobre as especificidades do Debate Na-


tureza vs Criação - do Behaviorismo de “tábula rasa”97 ao determinismo genético98
- tornou-se claro, no mínimo, que a nossa biologia, nossa psicologia e nossa condição
sociológica estão inexoravelmente ligadas ao ambiente em que vivemos, tanto do
ponto de vista da adaptação evolutiva geracional (Evolução Biológica), como dos

55
preconceitos e valores de curto prazo que absorvemos do nosso meio ambiente
(Evolução Cultural).

Então, antes de entrar em detalhes sobre este assunto, vale a pena notar que a
nossa própria definição de ser humano, na visão de longo e curto prazo, é baseada
em um processo de adaptação às condições existentes, incluindo os próprios genes.99
Isso não quer dizer que é preciso ignorar a relevância genética, mas que é preciso
destacar o processo do qual fazemos parte, uma vez que a relação gene-ambiente só
pode ser considerada como uma interação contínua, com as consequências em grande
parte resultando das condições ambientais a curto e longo prazo. Se este não fosse
o caso, não haveria dúvidas em admitir que a espécie humana provavelmente teria
desaparecido há muito tempo devido a uma falha em se adaptar.

Além disso, embora esteja claro que nós, seres humanos, ainda mantemos reações
“inatas” e previsíveis de sobrevivência pessoal,100 também temos a capacidade de
evoluir os nossos comportamentos através do pensamento, consciência e educação,101
o que nos permite, de fato, controlar e superar essas reações e impulsos primitivos,
se as condições necessárias forem mantidas e reforçadas. Esta é uma distinção muito
importante e é, de muitas maneiras, o que separa a variedade dos seres humanos dos
outros primatas.102
Uma observação rápida sobre a diversidade histórica da conduta humana ao longo
do tempo, em contraposição ao ritmo relativamente lento de maiores mudanças es-
truturais em nossos cérebros e DNA103 nos últimos dois mil anos, mostra que a nossa
capacidade de adaptação (via pensamento / educação) é enorme ao nível cultural.

Parece que somos capazes de nos comportarmos de muitas maneiras possíveis,


e que uma “natureza humana” fixa, ou um conjunto universal e inalterável de traços
comportamentais e de reações comuns a todos os seres humanos, sem exceção, não
pode ser considerada válida. Em vez disso, parece haver um espectro de possíveis
comportamentos e reações previsíveis, todos mais ou menos dependentes do tipo de
desenvolvimento, educação, estímulos e condições que tivemos.

A esse respeito, não há como enfatizar suficientemente o imperativo social, pois a


influência do meio ambiente é um fator enorme a condicionar não só nossas preferên-
cias de tomada de decisão em curto e em longo prazo, como também a interação
ambiental global com a nossa biologia, a qual também tem efeitos poderosos sobre o
bem-estar pessoal e, consequentemente, em muitos aspectos da saúde pública.

Verificou-se que as condições ambientais, incluindo fatores como dieta nutricio-


nal,104 segurança emocional,105 associação social106 e todas as formas de estresse
podem influenciar o ser humano de muito mais maneiras do que antes se pensava.
Esse processo começa no útero, nos períodos de adaptação pós-natal e no “apren-

56
dizado planejado” da infância,107 e continua ao longo da vida em todos os aspectos
fisiológicos e psicológicos.

Por exemplo, embora haja evidências de que a depressão, um distúrbio psicológi-


co, possa contar com uma predisposição genética, é o ambiente que realmente a
provoca ou não108. Novamente, não se procura aqui minimizar a influência da bi-
ologia sobre nossas personalidades, mas de mostrar a importância crítica em com-
preender essas realidades e adaptar o nosso sistema social e as macro influências,
permitindo o resultado mais positivo possível.

Mudando As Condições
A ideia de mudar influências/pressões da sociedade para fazer aflorar o melhor da
condição humana ao invés do pior, é o cerne do imperativo social do MZ, e essa ideia
é infelizmente ignorada em considerações sociais da cultura de hoje. Existem evidên-
cias enormes que indicam que a influência do meio ambiente é o que essencialmente
cria nossos valores e preconceitos e, embora as influências genéticas/fisiológicas pos-
sam determinar tendências e acentuações para certos comportamentos, a influência
mais ativa em relação à nossa variabilidade é a experiência de vida e a condição do
ser humano, sendo portanto a forma de interação entre o “interno” (fisiológico) e
“externo” (ambiental).

Em última instância, a questão mais relevante é o estresse. Nossos genes, biologia


e psicologia evolutiva podem ter alguns problemas, mas não são nada em compara-
ção com a desordem ambiental que criamos em nossa cultura. A enormidade de um
estresse atualmente desnecessário no mundo de hoje - dívida incerteza de trabalho,
aumento de riscos de saúde, tanto em nível mental como fisiológico - e muitas outras
questões criaram um clima de mal-estar que tem tornado as pessoas cada vez mais
doentes e perturbadas.

No entanto, o escopo dessa visão não é apenas tratar das várias pressões temporais
que podem desencadear esta ou aquela propensão específica - é sobre tratar de todos
os valores educacionais, religiosos/filosóficos, políticos, sociais e ideais perpetuados
e reforçados por essas pressões. Se fôssemos confrontados com uma opção de adap-
tar a nossa sociedade de uma forma que possa comprovadamente melhorar a saúde
pública, nós simplesmente não o faríamos? Pensar que os seres humanos em uma
sociedade são simplesmente incompatíveis com métodos que possam aumentar seu
padrão de vida e de saúde é extremamente improvável.

Concluindo esta seção, afirmemos que a “Natureza Humana” é um dos temas


mais complexos se levarmos em conta suas minúcias. No entanto, a ampla consciên-
cia sobre uma provável melhoria da saúde pública básica por meio de redução do
estresse, aumento da qualidade nutricional e estabilização da sociedade, trabalhando

57
em direção à abundância e simplicidade ao invés de conflitos e complexidade, não é
suscetível a muitos debates.

Sabemos atualmente de algumas verdades sobre a condição humana que nos


fornecem evidências suficientes de que não só geramos respostas e hábitos pobres a
partir da influência da atual ordem socioeconômica, como também desrespeitamos
muito o nosso habitat, o que gera não só uma ausência de sustentabilidade no sen-
tido ecológico, mas também no sentido cultural. Pensar que os seres humanos sim-
plesmente são incompatíveis com essas resoluções, mesmo que signifique mudar
muito o nosso mundo, põe em cheque a longa história de adaptação que provamos
ser capazes de traçar.

58
Notas e Referências: Capítulo 6

[92] “Por que socialismo?” http://monthlyreview.org/2009/05/01/why-so-


cialism

[93] Estes termos estão detalhados na Lista de Vocabulário - Apêndice


A. A “Linha de Pensamento” tem a ver com o raciocínio subjacente que
leva às conclusões defendidas pelo MZ - enquanto o “Conjunto de Apli-
cações” é simplesmente o estado atual da tecnologia. A diferença entre
os dois é que o primeiro é quase empírico, enquanto o segundo é tran-
sitório já que as ferramentas tecnológicas estão sempre em mutação.

[94] Muito pode ser dito sobre o assunto de organização econômica e


mecanismos de produção industrial, e muito mais será descrito na Parte
3. No entanto, é necessário afirmar aqui que o “mecanismo de preços”,
que é o catalisador fundamental do desdobramento do desenvolvimento
econômico, é inerentemente anárquico devido à falta de relações sistêmi-
cas eficientes nas práticas macro-industriais. Produção, distribuição e
alocação de recursos não são de forma alguma “estratégicos” no sentido
físico e técnico - a única estratégia utilizada, definida como “eficiência” na
economia de mercado, tem a ver com o lucro e perda / custo do trabalho
/ despesa. Apenas parâmetros monetários que não possuem nenhuma
vinculação com a eficiência física.

[95] Isto foi confirmado pela Organização das Nações Unidas para a
Agricultura e a Alimentação e pelo Programa Alimentar Mundial. Este site
é recomendado para referência: http://overpopulationisamyth.com/food-
theres-lots-it#header-1

[96] http://www.news-medical.net/news/20090623/102-billion-starving-
people-worldwide-UN-says.aspx

[97] A noção de “tábula rasa” tornou-se popular por Thomas Hobbes,


mas pode ser encontrada nos escritos de Aristóteles. Esta é a ideia de
que, em suma, os indivíduos nascem sem orientação mental inata e que
tudo é aprendido. Atualmente, esse conceito tem sido bastante refutado
devida à comprovada “aprendizagem programada” e “psicologia evo-
lutiva” inerentes aos seres humanos; entretanto, essa ideia ainda tem
persistido.

[98] A visão de que os seres humanos são substancialmente mais afeta-


dos pelos genes e pela Biologia do que pelo condicionamento ambiental,
no que diz respeito ao comportamento humano, ainda é um debate acal-
orado, sem mencionar a frequente reação intuitiva de muitos em relação a
certos padrões humanos. A frase “É apenas a natureza humana” é muitas
vezes expressa pelo leigo. Autores como Steven Pinker são notáveis por
​​
promoverem o domínio da psicologia evolutiva sobre o condicionamento
ambiental.

59
[99] Uma “adaptação”, em biologia, é um traço com um papel funcional
atual na história de vida de um organismo, que é mantido e desenvolvido
por meio da ‘seleção natural’. Em suma, isso ocorre devido a pressões
sobre o organismo em um meio ambiente. Da mesma forma, “Epigenéti-
ca” é um novo campo e estuda as mudanças hereditárias na expressão
gênica ou no fenótipo celular causadas por mecanismos outros além das
alterações na sequência de DNA. Em suma, é uma adaptação de curto
prazo a nível de “expressão” gênica, que também é influenciada pelo
meio ambiente. E no que se refere a cultura, isso é mais fácil de entender.
Por exemplo, o idioma que você fala é uma adaptação ao grupo cultural
existente, assim como a religião que você pode ter aprendido e, por-
tanto, muitos dos valores que você possui são um resultado direto das
condições culturais das quais você faz parte.

[100] O conceito de uma “Reação Instintiva” pode ser aqui aplicado. No


entanto, a diferenciação do que é ou não instintivo tornou-se cada vez
mais ambígua no estudo do comportamento humano. Ainda assim, está
fundamentalmente claro que existem padrões muito específicos em co-
mum na espécie humana, especialmente no contexto de sobrevivência e
influência do estresse. Diante do perigo, reações biológicas e endócrinas
muito comuns ocorrem quase que universalmente, e muitas vezes geram
tendências comportamentais também previsíveis em todas as outras
espécies.

[101] O termo “plasticidade comportamental” pode ser aqui aplicado


como uma extensão de “neuroplasticidade”, que se refere a mudanças
ativas nas vias neurais e nas sinapses. Assim como o cérebro era con-
siderado um órgão estático, o comportamento humano - expressão
da atividade cerebral - claramente também sofre mudanças. Por mais
complexos que assuntos como o “livre-arbítrio” e os processos de de-
cisão sejam para as ciências psicológicas, a natureza da mente humana
demonstra, claramente, adaptabilidade e vulnerabilidade às condições
externas. Ao contrário de nossos ancestrais primatas, nosso neocórtex
avançado* parece ser um centro de pensamento consciente e, nas pala-
vras do Dr. Robert Sapolsky, neurocientista da Universidade de Stanford:
“Em um certo nível, a natureza de nossa natureza não será particular-
mente limitada por nossa natureza “[no filme Zeitgeist: Moving Forward,
de 2011].

[102] * Mais informações sobre o neocórtex, uma área avançada do cére-


bro humano atribuída à consciência podem ser encontradas aqui: http://
www.nature.com/nrn/journal/v10/n10/abs/nrn2719.html

[103] Taxas de mutações no DNA variam de espécie para espécie e


têm sido historicamente muito difíceis de se estimar. Hoje, com Sequen-
ciamento Direto, é possível isolar as mudanças exatas. Em um estudo
realizado em 2009, os DNAs de dois parentes masculinos distantes
- separados por treze gerações - cujo ancestral comum viveu há 200
anos atrás, foram sequenciados, encontrando apenas 12 diferenças
entre todas as “letras” de DNA analisadas. “Os dois cromossomos Y

60
ainda eram idênticos em 10.149.073 das 10.149.085 letras examinadas.
Das 12 diferenças... apenas quatro eram verdadeiras mutações ocorri-
das naturalmente através das gerações. “[http://www.sciencedaily.com/
releases/2009/08/090827123210.htm] Em relação ao genoma humano,
estima-se que pode passar por apenas algumas centenas de mudanças
ao longo de dezenas de milhares de anos.

[104] Um exemplo clássico é a “Fome do Inverno Holandês”. Um estudo


de rastreamento de pessoas que sofreram desnutrição grave enquanto
fetos durante a Segunda Guerra Mundial, constatou que em sua vida
adulta sofriam de várias síndromes metabólicas e problemas de metab-
olismo devido à “programação” que ocorreu durante esse período no
útero. Ref: Famine and Human development: The Dutch hunger winter of
1944-1945. New York, NY, EUA: Oxford University Press.

[105] Dr. Gabor Maté em sua obra “In the Realm of Hungry Ghosts”
(North Atlantic Books, 2012) apresenta uma enorme quantidade de
pesquisas a respeito de como a “perda emocional” que ocorre em idades
jovens afeta o comportamento na vida adulta, mais especificamente a
propensão para os vícios.

[106] A relevância da natureza da interação social é mais profunda do


que se pensava. A correlação entre os diversos fatores macro-sociais
e problemas de saúde pública, tais como expectativa de vida, trans-
torno mental, obesidade, doenças cardíacas, violência e muitas outras
questões sociológicas, foram bem resumidas no livro The Spirit Level,
escrito por Richard Wilkinson e Kate Pickett, Penguin, março 2009.

[107] Um estudo singular de prematuros em incubadoras descobriu que,


quando os estimulavam durante esse tempo (ou mostrava-se “afeto”
através do simples toque) a sua saúde fisiológica, em longo prazo, era
bastante melhorada em comparação com os que não eram tocados. Ref:
Tactile/kinesthetic stimulation effects on preterm neonates, Pediatrics.
1986

[108] Ref: The Structure of Genetic and Environmental Risk Factors for
Common Psychiatric and Substance Use Disorders in Men and Women,
Arch Gen Psychiatry. 2003; 60

61
62
Capítulo 7

Definindo Saúde Pública

“Somos todos responsáveis ​​por todos.”109


- Dostoyevsky -

Visão Geral
Qual é a verdadeira medida de sucesso para uma sociedade? O que é que nos faz
felizes, saudáveis, estáveis e equilibrados com o mundo ao nosso redor? Não seria o
nosso sucesso simplesmente a nossa habilidade de entendermos e nos adaptarmos às
realidades do nosso mundo para conseguirmos os melhores resultados possíveis em
qualquer circunstância? E se descobríssemos que a própria natureza do nosso sistema
social estaria, na verdade, reduzindo a nossa qualidade de vida em longo prazo?

Como será discutido neste ensaio, as estruturas, valores e práticas sociais contem-
porâneas se desviaram, ou são em grande parte alheias ao verdadeiro significado de
saúde de uma sociedade. Ao que nossas instituições sociais dão prioridade ou des-
consideram, aliado às metas e motivações associadas ao “sucesso” pessoal, as quais
são, muitas vezes, claramente “dissociadas” do que avanço e suporte à vida realmente
significam110, é um assunto pouco considerado no mundo de hoje. Na verdade, a
maioria das medidas de “prosperidade” e “integridade” da condição humana são hoje
equiparadas a meros padrões econômicos básicos, como o PIB, IPP ou índices de em-
prego. Infelizmente, essas medidas não dizem praticamente nada sobre o verdadeiro
bem estar e prosperidade do ser humano.111

O termo Saúde Pública é uma classificação médica, essencialmente definido


como: “A abordagem à medicina que se preocupa com a saúde da comunidade como
um todo.”112 Embora muitas vezes utilizada especificamente em referência a doenças
transmissíveis e suas condições sociais mais amplas, o contexto aqui vai se estender
para todos os aspectos de nossas vidas, incluindo não só a saúde fisiológica, mas
também a saúde mental. Se o valor de um sistema social é medido pela saúde de seus
cidadãos ao longo do tempo, avaliar e comparar as condições e consequências através
de análises simples de tendências e levantamentos deve dar dicas sobre o que pode
ser mudado ou melhorado em nível social.

O contexto central aqui é como a própria condição social - o sistema socioeco-


nômico - está afetando a saúde humana como um todo. Nas palavras do médico Ru-

63
dolph Virchow: “A medicina é uma ciência social e a política nada mais é do que me-
dicina em grande escala.”113 Virchow reconheceu que qualquer problema de saúde
pública está invariavelmente relacionado à sociedade como um todo. Suas estruturas,
características e valores predominantes têm uma profunda influência sobre a saúde e
o comportamento de uma sociedade, e argumentos acerca do mérito de novas ideias
sociais inevitavelmente devem ser conduzidos a partir de uma avaliação racional da
qualidade das mesmas mediante comparações.

Uma vez que cada componente da Saúde Pública tem suas próprias característi-
cas e causalidade, é possível considerar abordagens alternativas para a resolução ou
melhoria de um determinado problema, que podem não estar sendo praticadas atual-
mente, mas que claramente deveriam estar. A base da Linha de Pensamento aqui ex-
pressa passa por uma análise dos atuais componentes de Saúde Pública para entender
o que está acontecendo ao longo do tempo e nas diferentes circunstâncias, juntamente
com uma avaliação caso a caso dos problemas e uma consideração inferencial do que
se poderia “consertar” ou “melhorar” na maior escala possível.

É convicção no MZ que o modelo social existente é uma causa de “patologia social”,


e que ele perpetua um desequilíbrio que está, desnecessariamente, gerando distúrbios
fisiológicos e psicológicos em toda a população, sem mencionar a limitação sistêmica
do potencial humano e de resolução de problemas. Claro que esse contexto, natural-
mente, também se estende à saúde ambiental, ou seja, ao estado atual do planeta, já que
os problemas / pressões / alívios ecológicos sempre têm um efeito sobre a nossa saúde
pública em longo prazo. No entanto, esse não é o foco deste ensaio.

Esta análise irá separar a questão da Saúde Pública em duas categorias gerais - fi-
siológicas e psicológicas114 - com cada categoria dividida em temas que representam
problemas dominantes em um percentual relevante da população em geral.

Que fique bem entendido que efeitos fisiológicos e psicológicos raramente, ou


nunca, têm causas singulares. Há uma relação “bio-psico-social”115 entre pratica-
mente todos os fenômenos humanos, ilustrando, mais uma vez, a simbiose multi-
nível característica do ser humano. Em outras palavras, enquanto o problema sob
análise pode ser considerado em geral “fisiológico”, a sua causa oculta pode muito
bem ser em parte “psicológica” ou “sociológica”, e vice-versa.

O Fator Econômico
Como se observa, a principal tese deste ensaio é mostrar quão profundamente o
nosso sistema socioeconômico mundial afeta a saúde pública, com foco mais espe-
cífico no poder da pobreza, estresse e desigualdade. Se você olhar rapidamente para
as principais causas de morte em nível mundial, como elencadas pela Organização
Mundial da Saúde116, diferenças claras baseadas no nível econômico de uma região,

64
como o fato de que o câncer é mais comum em sociedades de alta renda, enquanto
doenças diarreicas são mais comuns em sociedades de baixa renda, dão uma visão
de como o amplo contexto da posição socioeconômica pode afetar a saúde pública.

Mahatma Gandhi uma vez disse: “A pobreza é a pior forma de violência”.117


Seu contexto se relacionava com as mortes desnecessárias causadas pela pobreza, no
sentido das limitações mais amplas que as severas restrições financeiras têm sobre a
saúde. Esta ideia foi mais tarde englobada em um termo chamado Violência Estru-
tural118, definida pelo Dr. James Gilligan como “... as taxas aumentadas de morte e
invalidez sofridas por aqueles que ocupam os degraus inferiores da sociedade.” Ele
diferencia Violência Estrutural de Violência Comportamental, sendo que na primeira
o causador “opera continuamente, em vez de esporadicamente”.119

Favor notar que o termo “Violência” neste contexto não se limita à classi-
ficação usual de danos físicos, tais como combate pessoal ou abuso físico. O
contexto se estende para incluir a opressão social, muitas vezes invisível, que,
através das características da cadeia de motivações inerentes ao nosso sistema
social, leva ao dano desnecessário de pessoas, tanto físico, psicológico ou ambos.
Exemplos disso podem variar do óbvio ao complexo na corrente de causa e efeito.

Um simples exemplo “macro” seria o predomínio de doenças diarreicas nas so-


ciedades atingidas pela pobreza. Sozinhas, essas doenças matam cerca de 1,5 milhão
de crianças a cada ano.120 Essas doenças são completamente evitáveis e tratáveis,
e enquanto a própria infecção é transmitida através de ingestão de água ou alimen-
tos contaminados, ou de pessoa para pessoa como resultado da falta de higiene, sua
própria prevenção e raridade em países de primeiro mundo, em comparação, mostra
que a causa real já não é a doença em si, mas a condição de pobreza que lhe permite se
espalhe sem restrições. No entanto, as causas não cessam aí, de modo que precisamos
nos perguntar “o que está causando a pobreza?”

Um exemplo “micro” mais abstrato seriam os problemas de desenvolvimento hu-


mano quando de pressões adversas nas estruturas familiares ou comunitárias. Imag-
ine uma mãe solteira que, devido à necessidade financeira para criar seu filho, deve
trabalhar para conseguir uma grande renda a fim de fazer face às despesas, o que
limita a sua presença com a criança. As pressões não apenas reduzem o apoio e ori-
entação necessários para o desenvolvimento da criança, mas também desenvolvem
tendências para a depressão e ansiedade, devido ao estresse contínuo de dívidas, con-
tas e afins; e os abusos nascidos da frustração começam a surgir na família. Isso, en-
tão, cria grave dano emocional121 na criança e o desenvolvimento de estados mentais
neuróticos e insalubres surgem, como a propensão para a dependência de drogas.122
Anos mais tarde, ainda sofrendo com a dor sentida naqueles períodos iniciais, a cri-
ança, agora adulta, morre em uma overdose de heroína. Pergunta: o que causou a

65
overdose? A heroína? A influência da mãe? Ou a circunstância econômica que a mãe
se encontrava que não permitiu o equilíbrio e o devido cuidado de seu filho?123

Claramente, não há utopia para a condição humana, e achar que podemos ajus-
tar o sistema socioeconômico para acabar com todos esses e outros macro e micro
problemas estruturais, 100% do tempo, é um absurdo.124 No entanto, o que é possível
é uma melhoria drástica de tais questões de saúde pública, mudando a natureza da
condição socioeconômica da forma mais estratégica possível. Ao prosseguirmos com
a análise caso a caso dos principais transtornos mentais e físicos do mundo, notamos
que a verdadeira necessidade para a melhoria da saúde pública repousa, quase que
inteiramente, nesta premissa socioeconômica de causalidade125.

Segundo Gernot Kohler e Norman Alcock em seu trabalho de 1976, ‘An Empiri-
cal Table of Structural Violence’, dramáticas 18 milhões de mortes estavam previstas
para ocorrer a cada ano devido à violência estrutural126, e esse estudo foi realizado
há mais de 30 anos. Desde então, a diferença global entre ricos e pobres mais do que
duplicou, o que sugere que o número de mortes hoje seja muito maior. De fato, a
violência estrutural é o assassino mais mortal do planeta. O gráfico a seguir mostra
as taxas de morte de um grupo demográfico específico, revelando a mais ampla cor-
relação entre baixa renda e aumento da mortalidade.

GD Smith, JD Neaton, D. Wentworth, R. e J. Stamler Stamler, “Diferenciais


socioeconômicos em risco de mortalidade entre os homens selecionados
para o Teste de Risco de Múltiplo Fator de Intervenção: I. Homens Brancos,
American Journal of Public Health (1996) 86 (4): 486-96.

66
Saúde Fisiológica
Hoje, os principais problemas fisiológicos da população humana incluem grandes
epidemias causadoras de mortalidade, tais como o câncer, doenças cardíacas, der-
rame, etc. Problemas relativamente menores, que não só reduzem a qualidade de
vida, mas também frequentemente precedem essas doenças mais graves, incluem
pressão alta, obesidade e outras questões que, embora menos críticas em comparação,
ainda são uma parte do processo que pode levar a doenças graves e à morte ao longo
do tempo127. Novamente, é importante lembrar que a causa dessas doenças “físicas”
não são estritamente “físicas” no sentido estrito da palavra, pois estudos modernos
demonstram que o estresse psicossocial128 possui relações profundas com problemas
fisiológicos aparentemente desconexos.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, as causas de morte mais comuns em


países com renda baixa, média e alta são doenças cardíacas, infecções no trato respi-
ratório inferior, derrame e câncer.129 Embora cada uma dessas doenças (e muitas
outras) possa estar relacionada às causas que serão apresentadas, para simplificar,
focaremos nas doenças cardíacas.

Estudo de Caso: Doença Cardíaca


Embora o tratamento das doenças cardíacas tenha levado, recentemente, a um
leve declínio global no número de ataques cardíacos e óbitos,130 o diagnóstico de
doenças cardíacas não diminuiu, e alguns estudos regionais mostram que ele está
em ascensão,131 ou em um ritmo de aumento substancial132. A Doença Coronária
Cardíaca ainda é considerada, globalmente, pela OMS como “a principal causa de
morte”133 e verificou-se que, embora existam fatores genéticos em jogo, 90% das
pessoas que morrem “têm fatores de risco influenciados pelo estilo de vida” e, em
geral, a doença é considerada amplamente evitável se ajustes no estilo de vida são
feitos.

Resumindo, relações já estabelecidas com dietas ricas em gordura, tabagismo,


álcool, obesidade, colesterol alto, diabetes e outros fatores de risco nos permitem
estender a causa da doença cardíaca, e quando rastreamos as influências, a influência
mais profunda e ampla encontrada não tem a ver só com a renda absoluta, mas com
o status socioeconômico relativo.

A OMS deixou claro em escala global que, geralmente, níveis socioeconômicos


mais baixos geram mais doenças do coração e, naturalmente, mais fatores de risco
que conduzem a elas.135 Isto, por um lado, traça uma relação direta entre a situação
econômica e a ocorrência de doenças. Não há nenhuma evidência mostrando que
as diferenças genéticas entre grupos regionais possam ser responsáveis ​​por essas
variações, e é óbvio que o baixo poder de compra leva as pessoas a estilos de vida
que incluem muitos desses fatores de risco.

67
Um estudo de 2009 no American Journal of Epidemiology chamado “Life-
Course Socioeconomic Position and Incidence of Coronary Heart Disease” desco-
briu que quanto mais tempo uma pessoa permanece em situação de pobreza, maior
a sua probabilidade de desenvolver doenças cardíacas136. Pessoas que estiveram
em desvantagem econômica ao longo da vida demonstraram mais propensidade
ao fumo, obesidade, má alimentação e assim por diante. Em um estudo anterior,
realizado pelo epidemiologista Dr. Ralph R. Frerichs, com enfoque específico na
divisão socioeconômica da cidade de Los Angeles, Califórnia, descobriu-se que a
taxa de morte por doença cardíaca foi 40% maior para os homens pobres do que
para os mais ricos.137

Dado que a nossa tese original considera um elo entre o próprio sistema social
e a prevalência de doenças e seus fatores de risco associados, é preciso considerar a
relação direta entre estresse e poder de compra.

Começando com o último, que é mais simples, é óbvio que hábitos de saúde
ruins ocorrem em ambientes de baixa renda devido à falta de recursos finan-
ceiros para uma melhor nutrição,138 atenção médica139 e educação.140 Muitos
dos alimentos com alto teor de gordura e alto fator de risco de sódio, por ex-
emplo, que levam a doenças cardíacas, também são os alimentos mais baratos
encontrados nas lojas.

Vale notar que o nosso modelo socioeconômico produz bens com base na ca-
pacidade de compra da demografia alvo. A decisão de produzir bens alimentícios de
baixa qualidade é tomada com base no lucro, e, como a grande maioria do planeta é
relativamente pobre, não é nenhuma surpresa que, a fim de atender a esse mercado, a
qualidade deva ser reduzida para permitir vendas competitivas. Em outras palavras,
há um mercado para cada classe social, e, naturalmente, quanto mais baixa a classe,
menor a qualidade.

Essa realidade é um exemplo de uma ligação direta entre o sistema social e a


causa de doenças. Enquanto educar as pessoas pobres sobre a diferença de qualidade
nos produtos alimentares poderia ajudá-las a tomar melhores decisões em relação à
alimentação, as restrições financeiras inerentes à sua condição poderiam facilmente
tornar essa decisão difícil, se não impossível, pois, mais uma vez, esses produtos são
em média mais caros.

Numa época em que a produção de alimentos e a nutrição humana são um


fenômeno científico bem entendido quanto ao que funciona ou não - o que é
saudável, geralmente, e o que não é - temos que questionar por que a abundância
de alimentos deliberadamente insalubres e de métodos industriais prejudiciais
ainda existem. O motivo é que a saúde humana não é o objetivo da produção

68
industrial de alimentos e nunca foi, devido ao interesse exclusivo na geração de
lucros. Mais informações sobre o transtorno de incentivo inerente à economia de
mercado monetário serão fornecidas em ensaios posteriores.

O Fator Estresse
Agora vamos analisar o papel do estresse. O estresse tem mais efeitos sobre a
doença cardíaca do que se pensava, e isso não tem a ver somente com o fato es-
tatístico de que as pessoas de baixa renda tem uma tendência a lidar melhor com
seus problemas por meio de hábitos como o fumo e a bebida, manifestando pressão
arterial elevada e, consequentemente, ignorando a sua saúde e bem-estar por causa
da luta constante por renda e sobrevivência. Embora esses fatores sejam evidentes,
e, novamente, encontram-se amarrados a uma estratificação inevitável encontrada
na Economia de Mercado Monetário,141 a forma mais prejudicial de estresse vem
sob a forma de estresse psicossocial, ou seja, o estresse relativo à interação psi-
cológica com o ambiente social.

O professor Michael Marmot, do Departamento de Epidemiologia e Saúde Pública


da Universidade de Londres, dirigiu dois estudos importantes relacionando status social
à saúde142. Usando o sistema de Serviço Civil Britânico como grupo experimental, eles
descobriram que o gradiente de qualidade de saúde nas sociedades industrializadas não
é simplesmente uma questão de falta de saúde para os desavantajados e boa saúde para
todos os outros. Eles descobriram que havia também uma distribuição social da doença.
Na medida que se passava do topo da escala socioeconômica para a parte inferior, os
tipos de doenças que as pessoas teriam, em média, mudaria.

Por exemplo, aqueles mais baixos na escala hierárquica tiveram um aumento da


mortalidade baseada em doenças cardíacas quatro vezes maior em comparação com
aqueles em níveis mais privilegiados. Mesmo em um país com planos de saúde univer-
salizados, quanto pior a situação financeira e a posição hierárquica de uma pessoa, pior
será, em média, a sua saúde. A razão é essencialmente psicológica, pois verificou-se
que quanto mais estratificada é a sociedade, pior é a saúde pública, em geral, especifi-
camente para as classes mais baixas.143

Esse padrão tem sido confirmado por muitos estudos ao longo dos anos, inclu-
indo uma profunda compilação de pesquisas organizada por Richard Wilkinson
e Kate Pickett. Em seu trabalho, “The Spirit Level - Why Equality is Better for
Everyone”, eles usam como fonte centenas de estudos epidemiológicos sobre o
assunto, descrevendo como sociedades mais desiguais perpetuam uma vasta gama
de problemas de saúde pública, tanto fisiológicos quanto psicológicos.

Deixando de lado as doenças cardíacas, sabemos agora que alguns tipos de cânc-
er, doenças pulmonares crônicas, doenças gastrointestinais, dores nas costas, obe-

69
sidade, pressão alta, baixa expectativa de vida e muitos outros problemas também
estão ligados ao nível socioeconômico de modo geral, não tendo ele como apenas
um fator de risco singular.144 Há um “gradiente social”, que pode ser assim chama-
do, dos níveis de saúde ao longo da sociedade, e a posição onde nos encontramos
em relação a outras pessoas tem um poderoso efeito psicossocial - aqueles acima
de nós têm, em média, uma saúde melhor, enquanto os abaixo de nós têm níveis
piores de saúde145.

Uma comparação estatística entre a saúde pública de países com altos níveis de
desigualdade de renda (como os Estados Unidos) e os com níveis mais baixos do mes-
mo índice (como o Japão) revela essas verdades de forma muito óbvia.146

No entanto, tais doenças geralmente consideradas “físicas” são apenas uma


parte da crise na saúde pública gerada pela desigualdade que, por sua vez, é ape-
nas mais uma consequência da estratificação direta e imutável, inerente ao nosso
sistema social global.

Saúde Psicológica
Talvez a implicação mais profunda em saúde pública seja o resultado da
desigualdade social na nossa saúde mental ou psicológica. Isso se estende às
reações e tendências comportamentais, tais como atos de violência ou abuso,
juntamente com problemas emocionais como depressão, ansiedade e distúrbios
de personalidade em geral.

Uma avaliação geral da tendência de depressão e ansiedade nos países


desenvolvidos, países que muitos, intuitivamente, pensariam possuir mais
alegria e conforto devido à riqueza material disponível, revela uma realidade
muito diferente. [147, 148] Um estudo britânico que examina a depressão entre
pessoas na faixa dos 20 anos descobriu que ela era duas vezes mais comum em
1970 do que em 1958.149 Um estudo americano com cerca de 63.700 estudantes
universitários descobriu que o número de jovens adultos que apresentam níveis
mais elevados de ansiedade é cinco vezes maior do que no final de 1930.150 Um
estudo de 2011 apresentado na Associação Americana de Psicologia mostrou
que a doença mental é mais comum entre os estudantes universitários do que
era há uma década.151

O psicólogo Jean Twenge, da Universidade de San Diego, localizou 269 estudos


relacionados que mediram a ansiedade nos Estados Unidos entre 1952 e 1993, e a
avaliação conjunta mostra uma tendência dramaticamente clara do aumento na ansie-
dade ao longo deste período, concluindo, por exemplo, que ao final de 1980, a criança
mediana americana estava mais ansiosa do que os pacientes psiquiátricos infantis da
década de 1950.152

70
Um relatório do NCHS (Centro Nacional de Estudos Estatísticos em Saúde dos
EUA) de 2011 revela que a taxa de uso de antidepressivos nos EUA, entre os adoles-
centes e adultos (pessoas com idades entre 12 e mais velhos), aumentou quase 400%
entre 1988-1994 e 2005-2008. Os antidepressivos foram o terceiro medicamento mais
prescrito pelos norteamericanos de 2005 a 2008.153

Enquanto um componente genético da depressão pode ser considerado relevante,


a taxa das tendências aponta claramente uma causa ambiental como força motriz. Nas
palavras de Richard Wilkinson:

“Embora as pessoas com doença mental tenham, por vezes, alterações nos níveis de
certas substâncias químicas do cérebro, ninguém tem demonstrado que essas alterações
são a causa da depressão, no lugar de serem causadas pela depressão...embora certa
vulnerabilidade genética possa estar na base de algumas doenças mentais, isso, por si
só, não explica os enormes aumentos de doenças nas últimas décadas - nossos genes
não podem mudar tão rápido.”154

Parece que o nosso status social relativo tem um efeito profundo em nosso bem-es-
tar mental e essa tendência também pode ser encontrada no que poderia ser declarado
como a psicologia evolutiva dos primatas semelhantes. Um estudo de 2002 realizado
com macacos do gênero Macaca descobriu que aqueles que eram subordinados, ou
inferiores, em uma determinada hierarquia social, tinham menos atividade de dopamina
que os que eram dominantes, e que essa relação mudava quando os grupos se arran-
javam diferentemente. Em outras palavras, a biologia tinha pouco a ver - somente o
arranjo social foi responsável por reduzir ou elevar os níveis de dopamina. Também foi
descoberto que o macaco hierarquicamente inferior usaria mais cocaína para compen-
sar. Isso é revelador, pois os baixos níveis de dopamina em primatas (incluindo os seres
humanos) possuem uma correlação direta com a depressão.155

Esse padrão tornou-se muito claro e, enquanto fatores diretos de estresse como a
segurança no emprego, dívidas e outros fatores econômicos, em grande parte iner-
entes ao sistema social, desempenham um papel importante,156 a relevância do status
socioeconômico propriamente dito ainda se faz preponderante.

O gráfico da página seguinte é uma comparação global da Saúde Mental e do Uso


de Drogas por país157. Ele inclui nove países que abastecem os dados das pesquisas
da OMS, incluindo transtornos de ansiedade, transtornos do humor, transtornos im-
pulsivos, vícios e outros. Pode-se ver claramente que os Estados Unidos, que também
tem o mais alto nível de desigualdade, tem um enorme nível de distúrbios na saúde
mental e com as drogas, em comparação com os países menos estratificados, tendo a
Itália como o que apresenta os menores índices dos referidos distúrbios.

71
Comparação global da Saúde Mental e do Uso de Drogas por país

Mesmo o status social ditado pelas relações de castas, em países como a Índia,
pode ter um efeito profundo sobre a confiança e o comportamento. “Um estudo
realizado em 2004 (gráfico ao lado) comparou a capacidade de resolução de prob-
lemas de 321 meninos indianos de alta casta contra 321 de baixa casta. Os resultados
demonstraram que, quando a casta não era anunciada publicamente antes de começar
a resolução de problemas, ambos grupos atingiam resultados semelhantes. Na segun-
da rodada, depois de anunciadas as castas de cada grupo, o grupo da casta inferior
obtinha um resultado muito pior, e o da superior, um muito melhor, produzindo dados
bem divergentes em relação à primeira rodada.”158 As pessoas são muito influencia-
das pela percepção do seu status pela sociedade e, muitas vezes, quando acreditamos
ser vistos como inferiores, agimos como tal.

Em conclusão a esta subseção sobre o fenômeno psicossocial da desigualdade,


que mostra uma relação clara com o bem-estar psicológico, é importante rapidamente
destacarmos a vasta gama de problemas relacionados. Embora estudos mais apro-
fundados de tais questões possam ser encontrados no Reading List (Anexo C) deste
texto, as obras de Sapolsky, Gilligan, Maté e Wilkinson são altamente recomendadas
- que seja constatado aqui que, geralmente, quando se trata de Educação, Capital So-
cial (confiança), Obesidade, Expectativa de Vida, Gravidez Precoce, Prisão e Castigo,
Mobilidade Social, Oportunidade, e mesmo Inovação - países com menos desigual-

72
dade de renda estão mais bem colocados do que aqueles com maior desigualdade.
Dito de outra forma, são sociedades mais saudáveis.

Estudo de capacidade de resolução de problemas realizado na Índia, 2004.

Estudo de Caso: Violência Comportamental


Associada às questões sobre a desigualdade social relacionadas acima, há uma
que merece um olhar mais profundo - Violência Comportamental. O psicológo crim-
inal Dr. James Gilligan, ex-chefe do Centro de Estudos da Violência da Escola de
Medicina de Harvard, escreveu um tratado definitivo sobre o assunto em sua obra
“Violence: Our Deadly Epidemic and its Causes” (Violência: Nossa epidemia mortal
e suas causas - tradução livre). Dr. Gilligan deixa muito claro que as formas extremas
de violência não são induzidas de forma aleatória ou geneticamente, mas são reações
bastante complexas que se originam de experiências estressantes, tanto em curto
quanto em longo prazo.

Por exemplo, o abuso infantil, tanto físico quanto emocional, aliado a níveis cada
vez mais intensos de estresse individual, tem uma correlação direta com atos pre-
meditados e impulsivos de violência. E enquanto os homens possuem uma propensão
estatisticamente maior para a violência, devido, em grande parte, às características
endocrinológicas que, embora não causem reações de violência, podem aumentá-las
sob a influência do estresse,159 o ponto em comum, aqui, é a influência do meio am-
biente e da cultura.

73
Não se pode negar a relação dos hormônios ou até mesmo de possíveis propensões
genéticas160, mas mostrar que a origem desse comportamento claramente não é a nos-
sa biologia, mas a condição sob a qual um ser humano vive e as experiências que
enfrenta. Outras hipóteses populares de causas, como o “instinto”, também são muito
abstratas e vagas para sustentar qualquer validade operacional.161

“Eu estou sugerindo que a única maneira de explicar as causas da violência, para
que possamos aprender a evitá-la, é aproximar a violência de um problema de saúde
pública e medicina preventiva, e de pensar na violência como um sintoma de uma pa-
tologia que ameaça a vida, e que, como todas as formas de doenças, tem uma etiologia
ou causa, um patógeno.” -Dr. James Gilligan162

No diagnóstico do Dr. Gilligan, ele deixa muito claro que a maior causa de
comportamento violento é a desigualdade social, destacando as consequências
da vergonha e humilhação, características emocionais daqueles que se envolvem
em violência.163 Thomas Scheff, professor emérito de sociologia na Califórnia
afirmou que “a vergonha era a emoção social”.164 Vergonha e humilhação podem
ser equiparados com os sentimentos de estupidez, inadequação, vergonha, loucu-
ra, sentir-se exposto, insegurança, etc. - na sua origem, tudo é, em grande parte,
social ou comparativo.

Não é necessário dizer que, em uma sociedade global, não só com crescente dis-
paridade de renda, mas, inevitavelmente, disparidade de “auto-estima” - uma vez
que o status é apresentado como diretamente relacionado ao “sucesso” em nossos
empregos, tamanho de contas bancárias e assim por diante - não é nenhum mistério
que os sentimentos de inferioridade, vergonha e humilhação sejam parte importante
da cultura dos dias atuais. A consequência desses sentimentos tem implicações
muito graves para a saúde pública, como observado anteriormente, incluindo a ep-
idemia de violência comportamental que vemos hoje nas suas formas variadas e
complexas. Terrorismo, tiroteios em escolas e igrejas, e outros atos extremos que
simplesmente não existiam antes, revelam uma evolução na própria violência. Dr.
Gilligan conclui: “Se quisermos evitar a violência, então, a nossa agenda deve ser
a reforma política e econômica”.165

O diagrama ao lado mostra as taxas de homicídio entre as nações ricas, com


diferentes níveis de desigualdade social. Os Estados Unidos, provavelmente o maior
defensor “anti-socialista” com as menores proteções estruturais (como a falta de as-
sistência médica universalizada), que ao mesmo tempo insiste na ética psicológica de
que a “independência” e “competição” são os valores mais importantes - apresenta
um nível enorme de violência. Enquanto que os debates, na paisagem política amer-
icana, sobre a epidemia (de violência) ainda giram em torno do controle de armas, o
que obviamente nada tem a ver com a causalidade.

74
Taxas de homicídio entre as nações ricas.

Em Conclusão
Este ensaio tentou passar uma visão concisa das relações causais fundamentais
em saúde humana, nos níveis psicológico e fisiológico. Seu cerne é a forma como a
condição socioeconômica, em geral, melhora ou piora a saúde pública como um todo,
aludindo às condições ideais que possam melhorar a felicidade, reduzir as doenças e
aliviar problemas epidêmicos de comportamento, como a violência.

Embora seja muito claro como as relações econômicas diretas reduzem a saúde e
o bem-estar humano na forma de privação absoluta, como a incapacidade para obter
alimentos de qualidade, restrições de tempo em função do trabalho, as quais, por sua
vez, reduzem o apoio emocional e de desenvolvimento às crianças, e a perda na qual-
idade da educação devido a problemas de financiamento regionais, aliado a distúrbios
específicos como o fato de que a maioria dos casamentos termina devido a problemas
financeiros,166 a questão da privação relativa tem sido um foco maior por ser também
causa das mais absolutas privações.

Colocada no contexto estrutural e socioeconômico, essa realidade desafia


firmemente o ethos (sistema de crenças) de que concorrência, classes e outras
noções “capitalistas” de incentivo e progresso são motores do progresso social
e da saúde. Quanto mais aprendemos sobre esse fenômeno, mais forte se torna o

75
argumento de que a natureza do nosso sistema socioeconômico está aquém do seu
foco e intenção. O progresso e o sucesso humano não são claramente definidos
pelo fluxo constante de bens de mercado, dispositivos e criação de materiais para
compra. Saúde Pública e bem-estar são baseados em como nos relacionamos uns
com os outros e com o meio ambiente como um todo.

O resultado é uma forma oculta de violência contra a população e, portanto, a


crise de saúde pública que vemos é realmente uma questão de direitos civis e hu-
manos. Quando claramente vemos genocídios no mundo, nos opomos fortemente
em bases puramente morais. Mas e se existisse um genocídio constante, invisível,
mas muito real - perpetuado não por uma pessoa ou grupo específico, mas por um
distúrbio psicológico nascido do estresse gerado pelo método tradicional de interação
humana e de ordenamento econômico, um que foi inventado e codificado?

Como será discutido nos ensaios seguintes, meros ajustes no atual sistema so-
cioeconômico não são suficientes, em longo prazo, para resolver esses problemas
de forma substancial. Os princípios mais fundamentais do nosso modelo atual estão
vinculados às orientações hierárquicas econômicas e competitivas, e trabalhar ver-
dadeiramente para remover esses atributos e suas consequências exige transformar
completamente todo o sistema social.

76
Notas e Referências: Capítulo 7

[109] Parafraseado, de Irmãos Karamazov, Fyodor Dostoyevsky, 1880, p.


316

[110] A questão aqui diz respeito à forma como a sociedade moderna


recompensa e reforça certos comportamentos em detrimento de outros.
Por exemplo, no mundo ocidental, mais recompensas financeiras chegam
a instituições financeiras não produtoras do que a verdadeiramente pro-
dutoras de bens e serviços. Isso tem gerado um problema de incentivo
que também inclui o desrespeito ambiental e o desprezo à saúde pública
em geral. Como será aludido mais adiante neste texto, a psicologia da
economia de mercado, na verdade, se opõe à sustentação da vida.

[111] Nos últimos anos, outras tentativas foram feitas para quantificar “fe-
licidade” e o bem-estar, como a Felicidade Interna Bruta (FIB) Indicador
que faz mensuras através de pesquisas periódicas http://www.grossna-
tionalhappiness.com/

[112] Definição de Saúde Pública: http://www.medterms.com/script/main/


art.asp?articlekey=5120

[113] “A Evolução da Medicina Social” (The Evolution of Social Medicine),


Rudolph Virchow: Rosen G., do Manual de Sociologia Médica, Pren-
tice-Hall, 1972

[114] Fenômenos sociológicos serão agrupados aqui na categoria


Psicológica por uma questão de simplicidade, pois o resultado de uma
condição sociológica são os estados psicológicos dos indivíduos agrega-
dos.

[115] Bio-psico-social significa a interação de uma influência biológica,


psicológica e sociológica sobre uma determinada consequência. Por ex-
emplo, a obesidade, superficialmente, refere-se a comer. Se uma pessoa
come demais, ela ganha peso. No entanto, há boas evidências (como
será apresentado mais adiante neste ensaio), atualmente, que mostram
como a psicologia de uma pessoa pode ser levada a almejar o conforto
de consumir devido a fatores externos - como uma história emocional de
privação ou má adaptação corporal onde maus hábitos são formados e
esperados. Essas últimas noções que influenciam a própria psicologia
são um resultado da condição sociológica.

[116] Fonte: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs310/en/index.


html

[117] Citado em “Uma paz justa através de Transformação: Fundações


culturais, econômicas e políticas para a mudança” (tradução livre), a
Associação Internacional da Paz, 1988 (A Just Peace through Transfor-
mation: Cultural, Economic, and Political Foundations for Change, Interna-

77
tional Peace Association, 1988).

[118] Referência sugerida: An Empirical Table of Structural Violence,


Gernot Kohler e Norman Alcock, 1976 http://jpr.sagepub.com/con-
tent/13/4/343.extract

[119] Violence, James Gilligan, Grosset / Putnam, New York, 1992, p. 192

[120] Fonte: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs330/en/index.


html

[121] O termo perda emocional relaciona-se com um trauma emocional


grave vivido, principalmente na infância, com efeitos persistentes. Nas
palavras do Dr. Gabor Maté “O maior dano causado pela negligência,
trauma ou perda emocional não é a dor imediata que infligem, mas as
distorções de longo prazo que eles induzem na forma como a criança
em desenvolvimento continuará a interpretar o mundo e sua própria
situação.” “In the Realm of Hungry Ghosts”, North Atlantic Books, 2012, p.
512

[122] Como observado antes, o trabalho de Gabor Maté sobre o tema da


dependência resultante da perda emocional na infância e sentimentos de
inseugrança é altamente recomendado. “In the Realm of Hungry Ghosts”,
North Atlantic Books, 2012

[123] Recomenda-se o trabalho “Mental Illness and the Economy”


(Doença Mental e a Economia, tradução livre), por MH Brenner. Resu-
mo: “Ao correlacionar extensos dados econômicos e institucionais do
Estado de Nova York no período 1841-1967, Harvey Brenner conclui que
as instabilidades da economia nacional são a fonte mais importante de
flutuações nas admissões hospitalares por doença mental ou nas taxas
de admissão destas.”

[124] Ver “Fator Humanidade” na Lista de Vocabulário, Apêndice A

[125] Um estudo de referência no mesmo contexto básico é O Efeito de


Fatores de Risco Conhecidos Sobre o Excesso de Mortalidade entre
Adultos Negros nos Estados Unidos, Journal of the American Medical As-
sociation, 263 (6) :845-850, 1990. Esse estudo epidemiológico constatou
que dois terços das mortes afroamericanas, no contexto do estudo, só
poderiam ser explicadas devido ao baixo status socioeconomico e suas
consequências diretas / indiretas.

[126] “An Empirical Table of Structural Violence” (“Uma tabela empírica


da Violência Estrutural”, tradução livre), Gernot Kohler e Norman Alcock,
1976

[127] Referência: http://thetimes-tribune.com/lifestyles-people/as-obesity-


rates-rise-chief-heart-surgeon-sees-more-high-risk-patients-in-operating-
room-1.1379223

78
[128] Definição de Psicossocial: Envolve aspectos de comportamento
social e psicológico; Interrelacionamento http://medical-dictionary.thefree-
dictionary.com/psychosocial

[129] As dez principais causas de morte, OMS http://www.who.int/media-


centre/factsheets/fs310/en/index.html

[130] Tendências dos EUA para doenças cardíacas, câncer e derrame,


PRB http://www.prb.org/Articles/2002/USTrendsinHeartDiseaseCancer-
andStroke.aspx

[131] A doença cardíaca irá subir 25% até 2020


http://www.belfasttelegraph.co.uk/news/local-national/northern-ireland/
heart-disease-to-rise-25-by-2020-16177410.html

[132] Novas estatísticas europeias sobre doença cardíaca e AVC [http://


www.sciencedaily.com/releases/2012/09/120929140236.htm]

[133] O Atlas de Doenças do Coração e Derrame, OMS e CDC, Parte


3, Carga Global de Doença Coronária (The Atlas of Heart Disease and
Stroke, WHO & CDC, Part 3, Global Burden of Coronary Heart Disease)
[134] Ibid.

[135] Ibid., Capítulo 11, status socioeconômico

[136] “Curso de vida, posição socieconômica e incidência de doença


cardíaca coronariana”, tradução livre (Life-Course Socioeconomic Po-
sition and Incidence of Coronary Heart Disease), American Journal of
Epidemiology, 1 de abril de 2009. http://aje.oxfordjournals.org/content/
early/2009/01/29/aje.kwn403

[137] Doença Cardíaca ligada à Pobreza (Heart Disease Tied to Poverty),


New York Times, 1985 http://www.nytimes.com/1985/02/24/us/heart-dis-
ease-tied-to-poverty.html

[138] Citação do estudo “Americanos de baixa renda podem pagar uma


dieta saudável?”, tradução livre (“Can Low-Income Americans Afford a
Healthy Diet?”) “Muitos profissionais de nutrição acreditam que todos
os americanos, independentemente da renda, tenham acesso a uma
alimentação nutritiva de grãos integrais, carnes magras, legumes e frutas
frescas. Na realidade, os preços dos alimentos representam uma barreira
significativa para muitos consumidores que estão tentando equilibrar uma
boa alimentação com preços acessíveis.” http://www.ncbi.nlm.nih.gov/
pmc/articles/PMC2847733/

[139] Referência: Os custos médicos empurram milhões de pessoas para


a pobreza em todo o mundo, OMS (Medical costs push millions of people
into poverty across the globe, WHO)
http://www.who.int/mediacentre/news/releases/2005/pr65/en/index.html

79
[140] Referência: “Estudos afirmam que discrepâncias na educação entre
ricos e pobres aumenta” (Education Gap Grows Between Rich and Poor,
Studies Say), New York Times 2012
[ http://www.nytimes.com/2012/02/10/education/education-gap-grows-be-
tween-rich-and-poor-studies-show.html?pagewanted=all ]

[141] Estratificação de classes é uma parte imutável do modelo socio-


econômico atual, devido tanto ao sistema de incentivos que distribui
renda desproporcionalmente, quanto ao favorecimento estratégico das
camadas superiores da hierarquia - como em 2007, os executivos chef-
es das maiores 365 empresas norte-americanas receberam bem mais
de 500 vezes o salário do trabalhador médio. Isso pode ser combinado
com práticas de política monetária macroeconômica que estruturalmente
recompensam os ricos e punem os pobres através do sistema de juros.
(Os ricos recebem renda através de juros sem aplicarem investimentos,
enquanto os pobres, com falta de capital de investimento, tomam em-
préstimos para a maior parte das suas grandes compras, pagando juros.
Abstraindo, os pobres são obrigados a dar seu dinheiro aos ricos por
meio desse mecanismo.)

[142] Whitehall Study I & II, http://www.ucl.ac.uk/whitehallII/ Veja também:


Epidemiologia da situação socioeconômica e saúde (Epidemiology of
socioeconomic status and health), M. Marmot http://www.ncbi.nlm.nih.
gov/pubmed/10681885

[143] Ibid.

[144] Um qualificador aqui é que esse fenômeno se relaciona mais ainda


às sociedades relativamente ricas, de modo geral, do que a sociedades
mais atingidas pela pobreza.

[145] Referência: “Determinantes Sociais da Saúde: Os fatos sólidos”,


tradução livre (Social Determinants of Health: The Solid Facts), RG Wilkin-
son & M. Marmot, Organização Mundial da Saúde, 2006

[146] Um PDF com um resumo dos gráficos de linha de regressão extraí-


dos da obra de R. Wilkinson e Pickett K. pode ser encontrado aqui para
referência:
https://tantor-site-assets.s3.amazonaws.com/bonus-content/B0505_Spir-
itLevel/B0505_SpiritLevel_PDF_1.pdf

[147] Referência: “O aumento dramático de ansiedade e depressão em


crianças e adolescentes”, tradução livre (The Dramatic Rise of Anxiety
and Depression in Children and Adolescents), Peter Gray, 2012

[148] Transtornos de Ansiedade estão em ascensão (Anxiety Disor-


ders Are Sharply on the Rise), Timi Gustafson RD [http://timigustafson.
com/2011/anxiety-disorders-are-sharply-on-the-rise/]

80
[149] Tendências temporais em saúde mental infantil e adolescente
(Time Trends in child and adolescent mental health), Maughan, Collishaw,
Goodman & Pickles, Journal of Child Psychology e Psiquiatria, 2004

[150] Buscando a fonte dos Transtornos de Ansiedade ( Sourcing the


Anxiety Disorders Association of America), Association of America, este
artigo é um somatório de recomendar:
http://www.msnbc.msn.com/id/39335628/ns/health-mental_health/t/why-
are-anxiety-disorders-among-women-rise/#.UI9PRoUpzZg

[151] A depressão em ascensão nos estudantes universitários (De-


pression On The Rise In College Students), NPR, 2011 [http://www.npr.
org/2011/01/17/132934543/depression-on-the-rise-in-college-students]

[152] A idade da ansiedade? A era da ansiedade? Mudanças nas es-


tatísticas de nascimento em relação à ansiedade e neuroses (The age
of anxiety? Birth cohort change in anxiety and neuroticism), JM Twenge,
Journal of Personality and Social Psychology, 2007

[153] Uso de antidepressivos em pessoas acima de 12 anos (Antidepres-


sant Use in Persons Aged 12 and Over) : Estados Unidos, 2005-2008,
Laura A. Pratt, NCHS Out 2011 [http://www.cdc.gov/nchs/data/databriefs/
db76.htm]

[154] The Spirit Level por Richard Wilkinson e Kate Pickett, Penguin,
março de 2009, p. 65

[155] “Dominância social em macacos: os receptores D2 da dopamina e


auto-administração de cocaína”, tradução livre (Social dominance in mon-
keys: dopamine D2 receptors and cocaine self-administration), Morgan &
Grant, Nature Neuroscience, 2002 5 (2): 169-74

[156] As taxas de suicídio explodem na esteira da recessão econômi-


ca (Suicide rates rocket in wake of economic downturn recession), Nina
Lakhani, The Independent, 15 de agosto de 2012

[157] Gráfico de The Spirit Level por Richard Wilkinson e Kate Pickett,
Penguin, março de 2009, p. 67

[158] Sistemas de crenças e desigualdades duráveis (Belief Systems and


Durable Inequalities), Policy Research Working Paper, Waskington DC:
Banco Mundial, 2004 | Gráfico de The Spirit Level por Richard Wilkinson e
Kate Pickett, Penguin, março de 2009, p. 113-114

[159] O hormônio testosterona tem sido comumente “culpado” pela


agressão masculina. No entanto, verificou-se que as diferenças inter-in-
dividuais dos níveis de testosterona não resultam em diferenças de
proporções entre os níveis de comportamento agressivo, quando foram
realizados ensaios com a população em geral. Verificou-se que, ao invés
da testosterona causar níveis crescentes de agressão, ocorre essencial-

81
mente o contrário. Veja “O problema com a testosterona”, tradução livre
(The Trouble with testosterone), Robert M. Sapolsky, Simon & Schuster,
1997 p. 147-159

[160] Ver: “Violência - Um coquetel nocivo de genes e o ambiente”,


tradução livre (Violence—A noxious cocktail of genes and the environ-
ment), Mariya Moosajee, JR Soc Med. 2003 Maio, 96 (5): 211-214 | Notas
de um estudo realizado na Nova Zelândia, onde uma aparente ligação
genética encontrada para o comportamento violento só se manifestaria
se ocorresse uma grande quantidade de abuso na infância para desen-
cadear a expressão da propensão genética. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/
pmc/articles/PMC539471/

[161] “Violência”, tradução livre (Violence), James Gilligan, Grosset/Put-


nam, New York, 1992, p. 210-213

[162] Ibid, p. 92

[163] Ibid, capítulo 5

[164] “Vergonha e conformidade: o sistema de defesa emocional”,


tradução livre (Shame and conformity: the defense-emotion system), TJ
Scheff, American Sociological Review, 1988, 53:395-406

[165] “Violência”, tradução livre (Violence), James Gilligan, Grosset/Put-


nam, New York, 1992, p. 236

[166] “Brigas por dinheiro predizem taxas de divórcio” (Money Fights


Predict Divorce Rates), Catherine Rampell http://economix.blogs.nytimes.
com/2009/12/07/money-fights-predict-divorce-rates/

82
Capítulo 8

História da Economia

“É um sistoma da nossa condição que nenhuma escola, disciplina


ou teoria de análise social tenha se baseado em requisitos da vida...
Ao invés disso, certas construções sociais são invariavelmente ad-
otadas como o corpo de referência definitivo - conjuntos de ideias,
o estado, o mercado, uma classe, desenvolvimento tecnológico, ou
algum outro fator que não as próprias bases da vida.” [167]
- John McMurtry -

Visão global
A Economia é provavelmente a característica social mais crítica, relevante e in-
fluente que existe. Praticamente todos os aspectos de nossas vidas, geralmente sem
reconhecimento consciente, têm uma relação com o desenvolvimento histórico e atu-
al disposição do pensamento econômico, em um nível ou outro, moldando nossas in-
stituições sociais, crenças e valores fundamentais mais básicos. Na verdade, a própria
essência de como nós, como sociedade, pensamos sobre a nossa relação um com o
outro e com o habitat que nos sustenta é, em grande parte, resultado direto das teorias
e práticas econômicas que nós perpetuamos.

Uma análise profunda das filosofias históricas, religiosas e morais, do desenvolvi-


mento governamental, dos partidos políticos, dos estatutos legais e outros contratos
sociais e crenças que compõem determinado sistema social e sua respectiva cultura
revela o profundo impacto que pressupostos econômicos têm e continuam a ter na
formação do “Zeitgeist” de uma época.

Encontrar-se-ão raízes da origem ou da perpetuação de muitas filosofias econômi-


cas, geralmente aceitas em um nível ou outro, em situações de divisão e exploração,
como escravatura, divisão de classes, xenofobia, racismo, sexismo, subjugação, ain-
da comuns à história cultural humana. A história é bastante clara no que diz respeito à
forma como a condição social é preparada pelas premissas econômicas prevalecentes
de um determinado período, e essa ampla consideração sociológica, infelizmente,
não recebe muita importância no mundo de hoje quando se pensa sobre por que o
mundo está do jeito que está e por que pensamos da forma que pensamos.

83
A título preliminar, um ponto que irá ressurgir mais adiante neste ensaio, tem
havido uma dualidade normalmente observada na maior parte do pensamen-
to econômico moderno, onde o “Livre-Mercado Capitalista”, ou seja, as ações
“livres” de produtores independentes, trabalhadores e comerciantes, que trabalham
em conjunto para comprar, vender e empregar,168 devem ser contrastadas com o
“Estado”, ou seja, um sistema unificado de poderes delegados que tem a capaci-
dade de definir a política legal e mandatos econômicos que podem inibir as ações
do “Livre-Mercado” por meio de intervenções. A maioria dos debates econômicos
hoje gira em torno dessa dualidade, em um nível ou outro, com os interesses “lais-
sez-faire” - os que desejam ter uma economia de mercado completamente não regu-
lamentada - constantemente em guerra com a “política” - os que pensam que algum
tipo de controle governamental centralizado e decisões baseadas no planejamento
econômico e político sejam melhores.

O Movimento Zeitgeist não toma nenhum desses lados, mesmo que muitos ou-
vintes das propostas do MZ tenham uma reação instintiva de assumir a última asso-
ciação (estatismo)169. Tal como acontece com muitos sistemas de crença tradicionais,
defesas e perspectivas polarizadas são comuns, e pensar que não há outro quadro
possível de referência no que diz respeito à forma como um sistema econômico pode
ser desenvolvido e administrado, é fechar-se dogmaticamente a muitas considerações
relevantes e emergentes.

A breve abordagem a seguir é sobre o desenvolvimento “Histórico” da economia.


Será traçada a história geral do pensamento econômico a partir do século XVII em
diante, com destaque para as influências fundamentais que deram origem ao moderno
sistema “Capitalista de Livre-Mercado”. No entanto, como será mais expandido na
Parte III, uma perspectiva diferente também será aludida. Vamos chamá-la de visão
“Mecanicista”. A perspectiva mecanicista dos fatores econômicos tem um olhar difer-
ente sobre as causas, as realidades científicas da existência humana e o nosso habitat, e
constrói um modelo de teoria econômica a partir do ponto de vista da razão estratégica
- e não da tradição histórica.

O ponto principal é que o pensamento econômico moderno não é realmente


moderno, e que a grande maioria das suposições ainda consideradas como “defini-
das”, tais como “propriedade”, “dinheiro”, “classismo”, as teorias de “valor”, “cap-
ital” e outros conceitos que perpassam praticamente todos os argumentos históri-
cos contextualmente relevantes, estão realmente desatualizados em suas premissas
subjacentes. O rápido desenvolvimento das ciências industriais, informacionais e
humanas, que passaram praticamente ignoradas pela tradição econômica estabele-
cida, estão inserindo reconsiderações críticas e novas relações que simplesmente
não existem nos modelos tradicionais.170

84
A respeito das sempre mutantes “escolas” de pensamento que trouxeram o de-
bate econômico para onde está hoje, a tradicional evolução acadêmica, muitas vezes
estereotipada, da teoria (e prática) econômica estabelecida parece ter desenvolvido
um quadro de auto-referência.171 Em outras palavras, as considerações econômicas
mais comuns, discutidas e aceitas hoje, as que são mais propagadas nas prestigiadas
escolas acadêmicas e conferências governamentais, derivam sua importância do sim-
ples fato de terem sido consideradas importantes por muito tempo. Metaforicamente
falando, é algo semelhante a visualizar o motor de um automóvel e assumir que a
estrutura dos componentes do motor é imutável, e que apenas a variação entre os
componentes existentes é possível, em oposição à ideia radical de redesenhar toda
a estrutura do motor a partir do zero, talvez com base em novas tecnologias e infor-
mações que atendam às mesmas finalidades de forma mais eficiente e com mais êxito.

O pensamento e a prática econômicos “modernos” são um motor antigo com


gerações de “especialistas” eminentes tentando administrar antigas peças constitu-
intes, recusando-se a aceitar a possibilidade de que todo o motor esteja desatualizado
e, talvez, cada vez mais prejudicial. Eles continuam a publicar argumentos, teorias
e equações que reforçam a falsa importância do motor antigo (antigo “sistema de
referência”), ignorando novos adventos da ciência e da tecnologia que contradizem
seu tradicionalismo. Não é diferente da longa história de outras ideias “estabeleci-
das”, tão abjetas quanto a escravidão humana, em que a sociedade em geral realmente
não questionava suas práticas, e considerava tais estruturas estabelecidas, impostas e
codificadas, como “naturais” à condição humana.172

Temas subjacentes
Tomada como perspectiva histórica, a Europa da Idade Média173 é, em geral, um
ponto de partida ideológico aceitável, uma vez que as ideias mais centrais característi-
cas do capitalismo moderno, que mais tarde se espalharam pelo mundo, parecem ter se
estabelecido durante este período.174 É a partir do século 17 que encontramos a maior
parte dos filósofos influentes, altamente conceituados nos atuais livros de história tradi-
cionais de economia. Enquanto os historiadores descobriram que os gestos básicos
da “propriedade” e o ato de “troca por lucro” remetem ao segundo milênio a.C.175, a
fundação do seu núcleo de desenvolvimento e institucionalização parece repousar em
torno do fim do período feudal
​​ e início do período mercantilista.

Ao invés de discutir as várias diferenças entre os sistemas socioeconômicos que


precederam o Capitalismo moderno, é mais interessante notar as semelhanças gerais.
Nesse contexto mais amplo, o sistema Capitalista parece ser uma evolução evidente
das suposições históricas mais profundamente enraizadas acerca da natureza humana
e suas relações sociais.176

Primeiramente, é observado ao longo dessa evolução que a divisão de classes

85
tem sido reconhecida e utilizada em diferentes graus. As pessoas têm sido geral-
mente divididas em dois grupos.177 Aquelas que produzem por uma recompen-
sa mínima e aquelas que ganham a partir dessa produção. Da antiga escravidão
egípcia,178 ao agricultor camponês labutando pela subsistência para o seu senhor
no feudalismo medieval,179 até a opressão codificada dos mercadores através dos
monopólios estatais no Mercantilismo,180 o tema da desigualdade tem sido muito
claro e consistente.

Uma segunda característica comum a essas filosofias socioeconômicas ocidentais


dominantes é o desrespeito básico (ou talvez ignorância) às relações críticas entre a
espécie humana e seu habitat. Por mais que possamos encontrar algumas exceções
nas tribos indígenas, como as sociedades nativoamericanas pré-coloniais,181 o pensa-
mento econômico ocidental passa longe de tais considerações, exceção feita aos mais
recentes e crescentes problemas ecológicos que têm forçado respostas governamen-
tais e alavancado um interesse geral em uma “reforma”.182

A terceira e última ampla característica a ser observada é a ausência generalizada


de reconhecimento social pelo bem-estar das pessoas ao nível das necessidades hu-
manas e, consequentemente, pela saúde pública. Os avanços nas ciências humanas,
que ocorreram em grande parte após as doutrinas fundamentais do pensamento
econômico serem tradicionalmente codificadas, descobriram que os desejos humanos
e as necessidades humanas183 ​​não se equivalem e que a privação desse último pode
criar muitas consequências negativas não só para o indivíduo, mas para a sociedade.
Comportamento antissocial, “criminoso” e violento, por exemplo, encontra-se base-
ado nas várias formas de privação social enraizadas na tradição socioeconômica.184
De forma mais geral, o sistema ignora tais consequências sociais inerentes, relegando
esses resultados a meras “externalidades”, na maioria dos casos.

Essa realidade foi ainda mais agravada no século 18, onde a premissa “Social-
mente Darwinista”185 de “trabalho-por-recompensa” reduziu cada vez mais o ser hu-
mano a um objeto a ser definido e qualificado pela sua contribuição ao sistema de tra-
balho. Se a pessoa média é incapaz de obter trabalho ou de se envolver com sucesso
na economia de mercado, não há nenhuma garantia real à sua própria sobrevivência
ou bem-estar, com exceção da “interferência” do “Estado” na forma de auxílio. Nos
dias de hoje, essa realidade se tornou bem controversa, pois o rótulo de “socialismo”
tem sido uma reação instintiva sempre que a política governamental tenta fornecer
ajuda direta para os cidadãos sem o uso do mecanismo de vendas e/ou do mercado
de trabalho.

A Aurora do Capitalismo de Livre Mercado


O feudalismo medieval (vigente do século IX ao XVI) foi o sistema socioeco-
nômico dominante que, essencialmente, precedeu o “capitalismo de livre mercado”

86
na Europa Ocidental, tendo o que mais tarde viria a ser chamado de “mercantilismo”,
como fase de transição.

O feudalismo se baseava em um sistema de obrigações e serviços mútuos, as-


cendentes e descendentes na hierarquia social, com todo o sistema social depen-
dente essencialmente da agricultura. A sociedade medieval era majoritariamente
agrária e a hierarquia social se baseava, principalmente, nos laços das pessoas com
a terra. As instituições econômicas básicas eram as “Guildas”, e se alguém quisesse
produzir ou vender um produto ou serviço, geralmente se juntaria a uma guilda.
Muito pode ser detalhado sobre esse extenso período da história e, como a maior
parte da história, está sujeito a várias interpretações e debates. No entanto, como
foco deste ensaio, apenas apresentaremos uma visão geral da transição econômica
para o capitalismo de “livre mercado”.186

Com a melhora da tecnologia agrícola e dos transportes, ocorreu uma expansão


do comércio e, por volta do século XIII, com, por exemplo, o advento da carroça de
quatro rodas, aumentou rapidamente o alcance das interações entre os mercados. Da
mesma forma, houve um aumento na especialização do trabalho, das concentrações
urbanas e também um crescimento populacional.187 Essas mudanças, juntamente
com o resultante aumento do poder dos “mercadores-capitalistas”, como poderiam
ser chamados, lentamente enfraqueceu os laços tradicionais e habituais que mantin-
ham a estrutura social feudal coesa.

Com o tempo, cidades mais complexas começaram a surgir, as quais foram bem
sucedidas na obtenção de independência dos senhores feudais, e sistemas cada vez
mais complexos de troca, crédito e lei foram surgindo, muitos dos quais espelhavam
aspectos básicos do capitalismo moderno. No sistema Feudal comum, o produtor
manual, geralmente, também era o vendedor para o comprador final. No entanto,
com a contínua evolução do mercado em torno desses novos centros urbanos, o ar-
tesão começou a vender, com um desconto em grandes quantidades de produtos, para
comerciantes não-produtores que revenderiam em mercados distantes por “lucro” -
outra característica que se tornaria comum no Capitalismo de Mercado.

Por volta do século XVI, a indústria artesanal comum ao Feudalismo se trans-


formou em um reflexo bruto do que conhecemos hoje, com a terceirização de mão
de obra, a propriedade singular sobre a produção, e com muitos se encontrando cada
vez mais na posição de “empregados” (“classe trabalhadora”) em vez de produtores.
Eventualmente, a lógica em torno do lucro monetário começou a ser, sistematica-
mente, o núcleo decisivo das ações e as verdadeiras sementes do capitalismo de mer-
cado criaram raízes.188

O mercantilismo, que essencialmente dominou a política econômica da Euro-

87
pa Ocidental entre o século XVI e o fim do século XVIII,189 foi caracterizado por
monopólios comerciais, conduzidos pelo Estado de modo a garantir uma “balança
comercial” positiva,190 juntamente com muitos outros extensivos regulamentos sobre
a produção, salários e comércio emergendo ao longo do tempo, aumentando ainda
mais o poder do Estado. O conluio entre essas indústrias emergentes e o Estado era
comum e muitas guerras ocorreram devido a essas práticas, uma vez que se baseava
em restrições ao comércio entre as nações, que muitas vezes tinha o efeito de uma
guerra econômica.191

Adam Smith, que será discutido mais adiante neste ensaio, escreveu uma ex-
tensa crítica ao mercantilismo em seu clássico texto de 1776, Uma Investigação
sobre a Natureza e Causas da Riqueza das Nações.192 A partir dessa obra é que
nasce, teoricamente, a ideologia do capitalismo de “livre mercado”, rejeitando
aquilo que é frequentemente chamado de capitalismo “Estatal”, em termos mod-
ernos, em que o Estado “interfere” na “liberdade” do mercado - uma característi-
ca central do Mercantilismo.193

Hoje, o “Capitalismo”, em seu conceito específico, é definido culturalmente sob o


contexto teórico de “Livre Mercado” e não capitalismo “Estatal”, embora muito seja
discutido a respeito de qual dos dois tipos de sistema realmente temos hoje, entre
outras variações do termo. Na realidade, não existem sistemas baseados puramente
no “Livre Mercado” ou no “Estado”, mas uma fusão complexa entre os dois. Mais
uma vez, como foi observado no início deste ensaio, a grande maioria dos debates e
a responsabilização pelos desdobramentos econômicos, frequentemente, giram em
torno dessas ideias polarizadas.194

Definindo Capitalismo
O capitalismo195 como conhecido atualmente, não só em sua teoria econômica,
mas com seus poderosos efeitos políticos e sociais, surgiu na sua forma, como já
observado, muito lentamente ao longo de um período de vários séculos. Deve ser dito
de antemão que não há acordo completo entre os historiadores/teóricos da economia
a respeito de quais realmente são as características essenciais do capitalismo. No
entanto, reduziremos, aqui, a sua caracterização histórica (que alguns provavelmente
acharão discutível) a quatro fatores básicos.

1) Produção e Distribuição Baseadas no Mercado: A produção de mercadorias


é baseada em inter-relações e dependências bastante complexas que não envolvem
diretamente interações pessoais entre produtores e consumidores. Oferta e demanda
são mediadas pelo sistema de “Mercado”.

2) Propriedade Privada dos Meios de Produção: Isto significa que a sociedade ga-
rante a particulares o direito de ditar como as matérias-primas, ferramentas, máquinas

88
e edifícios necessários à produção podem ser usados.

3) Dissociação da Propriedade e do Trabalho: Em suma, uma divisão de classes


constante é inerente, onde no nível superior, “capitalistas”,196 por definição histórica,
possuem os meios de produção, mesmo que não tenham a obrigação de contribuir
para a própria produção. Tudo produzido pelos trabalhadores, que só possuem seu
próprio trabalho, é de propriedade do capitalista, de acordo com a lei.

4) Incentivo da Auto-Maximização assumido: interesses individualistas, compet-


itivos e aquisitivos são necessários para o bom funcionamento do capitalismo já que
uma pressão constante em consumir e expandir é necessária para evitar recessões,
depressões e outros efeitos negativos. De muitas maneiras, essa é a visão comporta-
mental “racional” instituída, em que se todos os seres humanos agirem de uma certa
forma, o sistema funcionaria sem inibição.197

Locke: Evolução da “Propriedade”


Uma profunda corrente filosófica do sistema capitalista é a noção de “propriedade”.
O filósofo inglês John Locke (1632-1704) é uma figura essencial. Baseando-se também
na obra mais influente de Adam Smith, Riqueza das Nações, Locke não apenas define
sua ideia geral, como também apresenta uma contradição sutil, porém, poderosa.

No capítulo V, intitulado “Propriedade”, na obra Segundo Tratado Sobre o Gov-


erno, de Locke, publicada em 1689, é apresentado um argumento sobre a natureza da
propriedade e sua apropriação.

Ele afirma: “Podemos dizer que o trabalho de seu corpo e a obra produzida por
suas mãos são propriedade sua. Sempre que ele tira um objeto do estado em que foi
fornecido pela natureza, mistura nisso o seu trabalho e a isso acrescenta algo que lhe
pertence; dessa forma o torna sua propriedade.”198 Essa declaração (sinalizando apo-
io ao que viria mais tarde ser associado com a “Teoria de Valor-Trabalho”), propõe
a lógica de que desde que o trabalho é “propriedade” do trabalhador (uma vez que
ele é dono de si mesmo), toda a energia expendida pelo seu trabalho transfere para o
produto obtido o valor de propriedade.

Sua postura filosófica é derivada essencialmente de uma perspectiva cristã, em que


afirma: “Deus deu o mundo a todos os homens; mas já que o deu em benefício deles
e para servi-los em suas conveniências da vida, Ele não pode ter tido em mente que o
mundo permaneceria sempre comum e não cultivado.”199
Diante dessa declaração da natureza “comum” da terra e dos seus frutos a toda
a humanidade, antes do seu “cultivo” e apropriação, ele também deriva que os pro-
prietários são obrigados a não deteriorar nada (“Deus não criou nada para que os
homens desperdiçassem ou destruíssem.”200) e devem deixar o suficiente para os out-

89
ros (“Essa apropriação de um pedaço de terra não era feita em detrimento de nenhum
outro homem, pois havia suficiente [e em boa qualidade] para todos...” 201).

Esses valores, de forma simplista, parecem ser, em geral, socialmente justi-


ficáveis. Ele deixa claro, até este ponto, que o contexto de propriedade é relevante
apenas na medida das necessidades do proprietário e dentro de sua capacidade de
cultivar ou produzir.202

No entanto, na Seção 36, é revelada uma realidade singular, cujas implicações


Locke provavelmente não previu e que, de muitas maneiras, anularia todos os ar-
gumentos anteriores em defesa da propriedade privada. Ele afirma: “A ‘coisa’ que
bloqueia isso é a invenção do dinheiro, e o acordo tácito entre os homens de o atribuir
valor; isso tornou possível, com o consenso dos homens, acumular mais posses e ter
direito sobre elas.”203

Consequentemente, a sua premissa original, aqui resumida, de que: “Qualquer


um pode, através do seu trabalho, vir a possuir o quanto puder usar em seu benefício
sem deteriorá-lo; qualquer quantia além disso é mais do que lhe compete e pertence
aos outros”204 se torna de difícil entendimento, pois o dinheiro não apenas permite
“[os homens] a ter mais posses”, implicitamente esvaziando a ideia de que “qualquer
quantia além disso é mais do que lhe compete e pertence aos outros”, mas também
implica que o dinheiro pode comprar trabalho, o que invalida a ideia de que “[nesse
caso, o comprador] mistura nisso o seu trabalho e a isso acrescenta algo que lhe per-
tence; dessa forma o torna sua propriedade.”205

Finalmente, a condição “Deus não criou nada para que os homens desperdiçassem
ou destruíssem”206 é anulada por uma nova associação de que o dinheiro, sendo ouro
ou prata, na época, simplesmente não se deteriora. “Assim foi estabelecido o uso do
dinheiro - alguma coisa duradoura que o homem podia guardar sem que se deteri-
orasse e que, por consentimento mútuo, os homens utilizariam na troca por coisas
necessárias à vida, realmente úteis, mas perecíveis.”207
É aqui onde se encontra, pelo menos no discurso literário, a verdadeira semente da
justificação da propriedade capitalista, onde o uso do dinheiro, tratado em si como uma
mercadoria abstrata (na verdade, uma assumida personificação do “trabalho”), permitiu
o nascimento de uma evolução no pensamento e na prática, que cada vez mais alterou
o foco da produção relevante (o “cultivo” de Locke) para uma simples mecânica de
propriedade e de busca por lucro.208

Adam Smith
Adam Smith (1723-1790) é frequentemente citado como um dos filósofos
econômicos mais influentes da história moderna. Sua obra, mesmo que naturalmente
baseada em escritos filosóficos de outros antes dele, é muitas vezes considerada um

90
ponto de partida para o pensamento econômico no contexto do capitalismo moderno.
Atingindo a maturidade no início da Revolução Industrial,209 Smith viveu em uma
época em que as características inerentes ao “modo de produção” capitalista estavam
se tornando cada vez mais evidentes, haja vista a introdução de fábricas e mercados
concentrados e centralizados.

Como se sabe, em 1776, Smith publicou sua obra hoje mundialmente famosa
Uma Investigação sobre a Natureza e Causas da Riqueza das Nações. Entre outras
observações relevantes, ele parece ser o primeiro a reconhecer as três principais cat-
egorias de renda da época - (a) lucros, (b) arrendamentos e (c) salários - e como eles
se relacionam com as principais classes sociais do período - (a) capitalistas, (b) donos
de terras e (c) trabalhadores. É interessante notar que o papel dos donos de terras/
arrendamentos, raramente discutido hoje nos tratados econômicos modernos, foi um
ponto de foco comum na época, pois os sistemas pré-industriais, ainda em grande
parte agrários, destacavam os donos de terras (que mais tarde, nas atuais teorias de
mercado, seriam dissolvidos em sua classificação como simples proprietários).

A contribuição mais notável de Smith para a filosofia capitalista foi a sua noção de
que, apesar de os indivíduos poderem agir de forma mesquinha, egoísta, em seu próprio
benefício ou do grupo, ou classe, a que pertencem, e mesmo que o conflito, tanto in-
dividual ou de classe, pareça ser o resultado dessas ações, há o que ele convencionou
chamar de uma “mão invisível”, que garantiria um resultado social positivo a partir
dessas intenções individuais, egoístas e não-sociais. Esse conceito foi apresentado em
suas obras A Teoria dos Sentimentos Morais210 e A Riqueza das Nações.

Nessa última, ele afirma: “Portanto, já que cada indivíduo procura, na medida
do possível, empregar seu capital em fomentar a atividade nacional e dirigir de tal
maneira essa atividade para que seu produto tenha o máximo valor possível, cada
indivíduo necessariamente se esforça por aumentar ao máximo possível a renda an-
ual da sociedade. Na realidade, geralmente, ele não tenciona promover o interesse
público, nem sabe até que ponto o está promovendo. Ao preferir fomentar a atividade
do país e não de outros países, ele tem em vista apenas sua própria segurança; e ori-
entando sua atividade de tal maneira que sua produção possa ser de valor maior, visa
apenas seu próprio ganho e, nesse, como em muitos outros casos, é levado como que
por uma mão invisível a promover um objetivo que não fazia parte de suas intenções.
Aliás, nem sempre é pior para a sociedade que esse objetivo não faça parte das in-
tenções do indivíduo. Ao perseguir seu próprio interesse, o indivíduo muitas vezes
promove o interesse da sociedade muito mais eficazmente do que quando tenciona
realmente promovê-lo.”211

Esse ideal quase religioso teve um efeito poderoso na era pós-Smith, dando
uma justificativa muito social para o comportamento, por natureza, anti-social e au-

91
to-maximizante, comum à psicologia Capitalista. Essa filosofia básica estava para
se desenvolver, em parte, como a fundação da economia “Neoclássica”212, ao final
do século XIX.

Smith, sabendo muito bem dos conflitos de classe inerentes ao capitalismo, passa
a discutir a natureza de como alguns homens ganham “... superioridade sobre a maior
parte de seus irmãos”,213 reforçando o que passou a ser considerado por outros teóri-
cos como uma “lei da natureza” sobre o poder humano e a subjugação. Sua visão de
propriedade estava em harmonia com John Locke, elaborando sobre a forma como
a própria sociedade se manifesta em torno dela. Ele afirmou: “O governo civil, na
medida em que é instituído para garantir a propriedade, de fato o é para a defesa dos
ricos contra os pobres, ou daqueles que têm alguma propriedade contra os que não
têm propriedade alguma.”214

Propriedade, como instituição, também requer um meio que justifique seu respec-
tivo valor. Com esse fim, várias “Teorias de Valor” foram e continuam sendo postu-
ladas. Frequentemente baseada na Política de Aristóteles, a contribuição de Smith
ainda é amplamente citada como uma influência fundamental. Na realidade, Smith
se baseia na premissa de produção/propriedade de Locke, chamada de “mistura de
trabalho”, e, a partir daí, estende-a, criando a “Teoria do Valor-Trabalho”.

Ele afirma: “O trabalho foi o primeiro preço a ser pago por todas as coisas, a
moeda de troca original. Não foi por ouro ou por prata, mas pelo trabalho, que toda
a riqueza do mundo foi originalmente comprada, e seu valor, para aqueles que o
possuem, e que querem trocá-lo por algumas novas produções, é precisamente igual
à quantidade de trabalho que pode capacitá-los a comprar ou comandar”.215 Muitos
capítulos do Livro I de A Riqueza das Nações trabalham para explicar a natureza de
preços/valores de acordo com suas categorias de renda/classe de “salários”, “arren-
damentos” e “lucros”. No entanto, nota-se que sua lógica é bastante circular, espe-
cialmente quando se percebe que as atribuições de preços se originam simplesmente
de outras atribuições, em uma cadeia sem um ponto de partida real, a não ser a fraca
distinção de trabalho empregado, que não tem, é claro, nenhuma qualificação mon-
etária estática ou intrínseca. Esse problema de ambiguidade em ambas as teorias de
valor dominantes, a de “trabalho” e a de “utilidade”, comuns à teoria de mercado
Capitalista, será abordado em detalhes mais adiante neste ensaio.

Em geral, a teoria econômica de Smith apoiou o Capitalismo “Laissez-faire” (de


livre mercado) como o mais alto modo de operação socioeconômico, afirmando que:
era um “sistema de liberdade natural” e “Todo homem, contanto que ele não viole as
leis da justiça, é deixado perfeitamente livre para perseguir seus próprios interesses,
seu próprio caminho, e trazer tanto a sua indústria quanto seu capital para a concor-
rência com os de qualquer outro homem, ou grupo de homens”.216 Esse conceito,

92
como será discutido mais tarde no ensaio “Distúrbio do Sistema de Valor”, é uma
suposição bastante ingênua sobre o comportamento humano e, de fato, uma con-
tradição.

Malthus e Ricardo
Thomas Malthus (1766-1834) e David Ricardo (1772-1823) foram dois conhe-
cidos teóricos, pioneiros na economia política do início do século XIX. Eles eram
“rivais amigáveis” em algumas perspectivas, mas, a partir de uma visão histórica
ampla, compartilhavam praticamente o mesmo ponto de vista, intimamente ligado
ao de Adam Smith.

O final da Revolução Industrial na Europa e América foi um período de extenso


conflito entre trabalhadores e proprietários capitalistas. Inúmeras revoltas e greves,
em resposta às condições de trabalho aberrantes e abusivas, não só para os homens,
mas também para mulheres e crianças, eram habituais. Isso rapidamente deu origem
ao que, atualmente, chamamos de Sindicatos, e uma batalha generalizada entre “tra-
balhadores e proprietários” tem continuado desde então. Para enfatizar a extensão
dessa guerra de classe, na Inglaterra, o “Combination Act”, de 1799, impôs, basica-
mente, a proibição de qualquer associação de trabalhadores de existir, impedindo que
exercessem influência ou inibissem os interesses de seus empregadores.217

O historiador Paul Mantoux, escrevendo sobre este período, comentou acerca de


“o poder absoluto e sem controle do capitalista. Durante esse período, a idade hero-
ica de grandes empreendimentos, isso era reconhecido, admitido e até mesmo proc-
lamado com franqueza brutal. Era assunto do próprio empregador, ele fazia como
escolhera e não considerava necessária qualquer outra justificativa de sua conduta.
Ele devia salários a seus empregados e, uma vez pagos, os homens não teriam mais
nenhuma reivindicação para com ele”.218 Foi no meio disso tudo que Malthus e Ri-
cardo contextualizaram seus pontos de vista econômicos e sociais.

Começando com Malthus, sua obra clássica Um Ensaio sobre o Princípio de Pop-
ulação orienta-se essencialmente em torno de dois pressupostos. O primeiro é que
a estrutura de classes de proprietários abastados e trabalhadores pobres inevitavel-
mente iria reemergir, não importando quais reformas fossem tentadas.219 Ele consid-
erou isso uma lei da natureza. A segunda ideia, em parte corolária da primeira, era
simplesmente que a pobreza e o sofrimento e, portanto, as divisões econômicas, eram
consequências inevitáveis da
​​ lei natural.220

Sua tese sobre a população repousa na simples premissa de que a “População,


quando não controlada, aumenta em uma progressão geométrica. A subsistência au-
menta apenas em uma progressão aritmética”.221 Portanto, se o padrão de vida de
todos na sociedade for aumentado, a grande maioria iria responder aumentando a

93
quantidade de filhos. Logo, a população seria muito em breve empurrada de volta
para a pobreza através da “população” ultrapassando a “subsistência”. Era somente
por meio da “restrição moral”222, uma qualidade social que ele alega pertencer aos
membros da classe alta, que esse problema seria contornado pelo comportamento.
Evidentemente, a diferença entre os ricos e os pobres era o grande caráter moral dos
primeiros e a mesquinhez dos últimos.223

Mais uma vez, como observado antes neste ensaio, a condição cultural teve muita
influência nas premissas do pensamento que orientaram as operações econômicas até
os dias atuais. Enquanto muitos podem, atualmente, descartar Malthus e essas ide-
ias claramente ultrapassadas, suas sementes criaram raízes profundas nas doutrinas
econômicas, valores e relações de classe ocorridas durante e depois de seu tempo.
Na verdade, variações de sua teoria populacional ainda são comumente citadas, por
aqueles com uma mentalidade mais “conservadora”, em relação a países economica-
mente menos desenvolvidos.

Malthus, juntamente com Locke e Smith, também manifestou convicções pro-


fundamente cristãs em suas referências, tanto as diretamente extraídas das escrituras,
quanto as baseadas em sua interpretação pessoal. Malthus molda sua “restrição mor-
al” com a implicação de que um verdadeiro cristão denunciaria, de forma justa, tais
vícios de base e que, também, aceitaria a miséria, inevitável e necessária, de modo a
manter os limites populacionais dentro dos limites de subsistência.

Da mesma forma, assim como há, atualmente, um grande debate legislativo a re-
speito da noção e uso do “bem-estar” ou programas de “auxílio estatal” em benefício
dos pobres,224 Malthus, naturalmente, era um grande defensor da abolição do que foi
chamado de “Leis Pobres”, assim como foi David Ricardo.

Passando para Ricardo, ele aceitou essencialmente as teorias e conclusões de Mal-


thus sobre a natureza e as causas da pobreza da população, mas não concordou com cer-
tas teorias econômicas, tais como alguns elementos das Teorias de Valor e de Subcon-
sumo de Malthus, e certos pressupostos de classe. Como a maioria dos detalhes desses
desacordos são supérfluos para essa discussão mais ampla (e também indiscutivelmente
ultrapassados), as contribuições mais notáveis ​​de Ricardo para o pensamento econômi-
co serão nosso ponto de foco.

Em 1821, Ricardo terminou a 3ª edição da sua influente obra Princípios da Econo-


mia Política e Tributação. No prefácio, ele expõe seu interesse: “O produto da terra...
tudo o que é derivado de sua superfície pela aplicação conjunta de trabalho, ma-
quinário e capital é dividido entre três classes da comunidade, ou seja, o proprietário
do terreno, o proprietário do estoque de capital, e os trabalhadores da indústria que
cultivam a terra. Determinar as leis que regulam essa distribuição é o principal prob-

94
lema em Economia Política”.225

Por mais que permanecesse crítico de certos aspectos da “Teoria do Valor-Tra-


balho” de Adam Smith, ele ainda apoiou a distinção fundamental, afirmando: “Pos-
suindo utilidade, as mercadorias derivam seu valor de troca a partir de duas fontes:
de sua escassez e da quantidade de trabalho necessária para obtê-las.”226 Em comum
com Smith, ele explica: “Se a quantidade de trabalho empregado nas mercadorias
regula seu valor de troca, cada aumento da quantidade de trabalho deve aumentar o
valor da respectiva mercadoria, assim como toda diminuição deve baixá-lo.”227

Consequentemente, a visão de Ricardo sobre a sociedade e as divisões de classe


do seu tempo a partir da perspectiva laboral foi, logicamente, a de que se opunham os
interesses dos trabalhadores e dos capitalistas. “Se os salários devem aumentar”, ele
frequentemente afirmou, “então... os lucros vão necessariamente cair”.228 No entanto,
embora essa desarmonia aluda a um interesse subjacente de cada classe em trabalhar
para obter vantagem uma sobre a outra, muitas vezes resultando em desequilíbrio
sistêmico, em grande parte devido ao poder dos proprietários capitalistas de con-
trolar o trabalho (e definir políticas), aliado ao advento da mecanização (aplicação
das máquinas), que reduziu sistematicamente a necessidade de trabalho humano em
setores aplicados, ele alude à convicção de que a teoria do “Capitalismo”, se aplicada
corretamente, deve sempre criar o pleno emprego em longo prazo.

Sobre a questão específica da aplicação das máquinas substituindo o trabalho hu-


mano em benefício do fabricante, afirma: “O fabricante ... que ... possa recorrer a uma
máquina que deve ... [reduzir os custos] de produção de sua mercadoria, desfrutaria
de vantagens peculiares se pudesse continuar a cobrar o mesmo preço em seus bens;
mas... seria obrigado a baixar o preço de suas mercadorias, ou o capital fluiria para o
seu comércio até que seus lucros retornassem ao nível geral. Assim, então, o público é
beneficiado pelas máquinas.”229

Entretanto, assim como em outros aspectos de seus escritos, é notória a con-


tradição. Ainda que mantendo a ideia básica de que o público em geral se beneficiaria
pela introdução de máquinas em substituição ao trabalho, sob o pressuposto de que
os preços de mercado cairiam ordenadamente, e de que os demitidos seriam sempre
realocados naturalmente, na terceira edição de sua obra Princípios, Ricardo inicia o
capítulo 31 afirmando: “Desde que tornei minha atenção para questões de economia
política, tenho sido da opinião de que ... a aplicação de máquinas em qualquer ramo
de produção, por ter o efeito de economizar trabalho, seria boa no geral ... [mas] a
substituição de trabalho humano por maquinário é frequentemente muito prejudicial
para os interesses da classe de trabalhadores”.230

Ele mais tarde requalificaria o argumento, afirmando “Espero que as declarações

95
que fiz não levem à conclusão de que as máquinas não devem ser incentivadas. Para
elucidar o princípio, estive supondo que, de repente, máquinas melhores são desco-
bertas e logo amplamente utilizadas; mas a verdade é que essas descobertas são grad-
uais, e antes operam em determinar a aplicação do capital guardado e acumulado, que
desviando o capital de qualquer aplicação”.231

Sua refutação à questão de os seres humanos serem substituídos por máqui-


nas, mais tarde chamada “desemprego tecnológico”, também encontraria con-
cordância em muitos outros economistas que o seguiram, incluindo John May-
nard Keynes (1883-1946), que, alinhado com a suposição geral de “ajuste” de
Ricardo, chegou a afirmar: “Estamos sendo afligidos por uma nova doença que
alguns leitores podem ainda não ter ouvido o nome, mas ouvirão muito nos próxi-
mos anos - o desemprego tecnológico. Quer dizer desemprego devido à descober-
ta de meios de economia da aplicação do trabalho, superando a nossa capacidade
de encontrar novas aplicações para o mesmo. Mas isso é apenas uma fase tem-
porária de desajuste. Em longo prazo, tudo isso significa que a humanidade está
solucionando seu problema econômico”.232

O assunto é trazido aqui como um destaque, porque ele será revisto na Parte III
deste texto, junto a um contexto de aplicação tecnológica aparentemente não com-
preendido ou ignorado pelos principais teóricos da economia da história moderna,
que, mais uma vez, estão muitas vezes presos em uma estreita margem de referência.

Como uma consideração final sobre Ricardo, também o creditam por sua con-
tribuição ao “livre-comércio” internacional, especificamente em sua Teoria da Van-
tagem Comparativa e a perpetuação do etos básico sobre a “mão invisível” de Adam
Smith. Ricardo afirma: “Sob um sistema de comércio perfeitamente livre, cada país
naturalmente dedica seu capital e trabalho à aplicação mais benéfica para cada um.
Essa busca de vantagem individual é admiravelmente ligada ao bem universal do
todo. Ao estimular a indústria, recompensar a engenhosidade e utilizar mais efica-
zmente as capacidades conferidas pela natureza, o trabalho é distribuído da forma
mais efetiva e econômica: ao passo que, através do aumento da produção em massa,
o benefício geral é difundido, e une-se, por um laço recíproco de interesses e relações,
a sociedade universal das nações do mundo civilizado”.233

Teorias de Valor e Comportamento


Até este ponto, as grandes contribuições de quatro grandes figuras históricas e
as características centrais, inevitavelmente inerentes à filosofia capitalista, foram
brevemente discutidas. Perceber-se-á que, por baixo dessas visões, repousam hipó-
teses sobre o comportamento humano e relacionamentos sociais (de classe) e uma
lógica de mercado “metafísica”, onde tudo dará certo se determinados valores e
uma postura “egoísta” forem assumidos pelos participantes do jogo de mercado,

96
concomitante a pouca “restrição” ao próprio mercado.

Como uma nota singela, em nenhum lugar nos escritos desses pensadores ou na
grande maioria das obras produzidas pelos teóricos posteriores em favor do Capital-
ismo de “livre mercado”, a real estrutura e processos de produção e de distribuição
são discutidos. Há uma desvinculação explícita entre “Indústria” e “Negócios”, o
primeiro relacionando-se ao processo técnico/científico do verdadeiro desdobra-
mento econômico, e o último apenas referindo-se às dinâmicas codificadas do mer-
cado e à busca de lucro. Como será discutido mais adiante, um problema central,
inerente ao modo de produção capitalista, é como os avanços na “abordagem indus-
trial”, que podem permitir um aumento da resolução de problemas e promoção de
prosperidade, foram bloqueados pelos dogmas aparentemente imutáveis ​​da “abor-
dagem de negócios” tradicional. Esta última tem regido as ações da primeira, em
detrimento do seu potencial.

Esse tipo de desvinculação ou corte no sistema de referência é também encon-


trado em outras áreas de atuação, tais como nas teorias laborais, de valor e de com-
portamento humano, dominantes que, inevitavelmente, atuam como justificantes da
instituição do Capitalismo. Como observado antes, a “Teoria do Valor-Trabalho”,
que se tornou popular por suas implicações a partir de Locke, Smith e Ricardo, é
uma proposta generalizada afirmando que o valor de uma mercadoria está relaciona-
do com o trabalho necessário para produzir ou obter essa mercadoria. Tão aceitável
quanto essa ideia seja, a partir de um ponto de vista intuitivo, existem vários níveis
de ambiguidade em sua quantificação. Muitas objeções históricas têm resistido, por
exemplo, como os diferentes tipos de trabalho, contando com diferentes habilidades
e salários, não poderiam ser apropriadamente combinados, ou como equacionar os
recursos naturais e o próprio capital de investimento.

O crescimento dos “Bens de Capital”234, no século XX, como a automação das


máquinas de trabalho, também apresenta desafios para o conceito bastante simplifi-
cado de trabalho derivado das Teorias Laborais, já que, depois de um certo ponto, o
valor do trabalho inerente às máquinas de produção, que hoje já funcionam para a
produção de mais máquinas, com menor aplicação do esforço humano ao longo do
tempo, apresenta, nesse contexto, uma transferência cada vez mais diluída de valor.
Tem sido proposto por alguns economistas contemporâneos, com base nos rápidos
avanços nos campos da informação e ciências tecnológicas, que o uso da automação
industrial, aliado à “inteligência artificial”, poderia muito bem remover quase intei-
ramente os seres humanos da “força de trabalho” tradicional. De repente, Capital se
tornaria Trabalho, por assim dizer.235

Essa ambiguidade se estende também para as teorias de valor concorrentes pos-


tuladas pelos economistas, incluindo principalmente a chamada Teoria do Valor-Ut-

97
ilidade. Enquanto a Teoria do Valor-Trabalho assume, basicamente, a perspectiva do
trabalho ou produção, a Teoria do Valor-Utilidade toma o que poderíamos chamar de
“perspectiva de mercado”: o valor não é derivado do trabalho, mas do propósito (ou
utilidade) de seu uso (valor de uso) pelo consumidor, conforme por ele percebido.

O economista francês Jean-Baptiste Say (1737-1832) destaca-se em relação à Teo-


ria do Valor-Utilidade. Como um discípulo auto-proclamado de Adam Smith, ele dis-
cordava de Smith sobre a questão do valor, afirmando: “Depois de ter mostrado ... a
melhoria que a ciência da economia política deve ao Dr. Smith, não será inútil indicar,
talvez... alguns dos pontos em que ele errou... Somente ao trabalho do homem ele atribui
o poder de produzir valores. Esse é um erro.”236

Passa, então, a explicar como o “valor de troca” (preço) de qualquer bem ou


serviço depende inteiramente do seu “valor de uso” (utilidade). Ele afirma: “O valor
que a humanidade atribui aos objetos origina-se do uso que pode fazer deles...[À] ap-
tidão inerente ou capacidade de certas coisas em satisfazer as diversas necessidades
da humanidade, darei o nome utilidade... A utilidade das coisas é o trabalho-base do
seu valor, e seu valor constitui riqueza... Embora o preço seja a medida de valor das
coisas, e o seu valor a medida de sua utilidade, seria absurdo concluir que, ao elevar o
preço à força, a utilidade poderia ser aumentada. Valor de troca, ou preço, é um índice
da utilidade reconhecida de certa coisa.237

A Teoria do Valor-Utilidade é diferente da Teoria do Valor-Trabalho, não só pela


forma como deriva o valor, mas também na implicação de um tipo de racionalização
subjetiva nas decisões humanas no mercado. O Utilitarismo238, que se tornou pro-
fundamente característico dos pressupostos microeconômicos apresentados pelos
economistas Neoclássicos contemporâneos, é muitas vezes modelado em fórmulas
matemáticas complexas, em um esforço para explicar como os seres humanos “max-
imizam sua utilidade” no mercado, especificamente pela ideia de aumentar a felici-
dade e reduzir o sofrimento.

Por baixo dessas ideias sobre o comportamento humano, como acontece com
a maioria das teorias econômicas, estão, mais uma vez, valores e suposições tradi-
cionalizadas. O economista Nassau Senior (1790-1864) apoiou um tópico popular
e hoje recorrente de que os desejos humanos são infinitos: “O que nós queremos
afirmar é que nenhuma pessoa sente que todas suas vontades estão adequadamente
supridas: que cada pessoa tem alguns desejos insatisfeitos das quais ele acredita que
uma riqueza adicional iria gratificar.”239 Tais declarações sobre a natureza humana
são constantes nestes tratados, com noções de ganância, medo e outros mecanismos
de reflexos hedonistas que assumem, entre outras coisas, que a aquisição material, de
riqueza e ganho são inerentes à felicidade.

98
Hoje, a perspectiva microeconômica dominante e amplamente aceita é a de que
todo o comportamento humano é redutível a tentativas estratégicas racionais para
maximizar os lucros ou ganhos e evitar a dor ou perda. Argumentos utilitaristas sem-
pre expansivos dessa natureza continuam a ser utilizados para justificar moralmente
o competitivo Capitalismo de “Livre Mercado”. Um exemplo disso é a noção de
“voluntarismo” e a sugestão de que todos os atos no mercado nunca são coagidos
e, portanto, todos são livres para tomar suas próprias decisões para o seu ganho ou
perda. Essa ideia é extremamente comum hoje em dia, como se tais “trocas livres”
existissem num vazio, sem outras pressões sinergéticas; como se as pressões pela
sobrevivência, em um sistema com claras tendências para uma luta de classes e es-
cassez estratégica, não gerasse uma coerção inerente, forçando os trabalhadores a se
submeterem à exploração capitalista.240

No geral, o modelo Utilitarista (hedonista e competitivo, e “eternamente insat-


isfeito”) da natureza humana é provavelmente a defesa mais popular atualmente do
sistema capitalista. Trata-se, em muitos aspectos, tanto de uma teoria psicológica
de como as pessoas se comportam, quanto de uma teoria ética sobre como elas
devem se comportar, apoiando indiscutivelmente uma lógica retroativa que, muitas
vezes, coloca a teoria de mercado à frente da realidade do comportamento humano,
sujeitando a última à primeira.

Na realidade, quando a perspectiva utilitarista é totalmente considerada, dois


graves problemas surgem. Primeiro, é praticamente impossível encontrar previsib-
ilidade em tais fronteiras do “prazer e dor” após um certo grau no nível social. Não
há meios empíricos de comparar a intensidade do sentido de prazer de um indivíduo
com o de outra pessoa, além da suposição básica de querer mais “ganhos” do que
“perdas”. Enquanto a Teoria do Valor-Utilidade pode ser lógica de um ponto de
vista generalizado, puramente abstrato, sem quantificação, o funcionamento de tais
dinâmicas emocionais é, na realidade, suscetível à severa variação.

Toda a experiência de vida de uma pessoa, em relação a outra, pode encontrar


alguns pontos muito básicos em comum, no que diz respeito ao condicionamen-
to pessoal de resposta ao prazer e dor, mas raramente uma concordância paralela
será encontrada nos detalhes. Desde que os prazeres individuais são considerados
o último critério “moral” no utilitarismo, não há nenhuma maneira de fazer tais
julgamentos entre os prazeres de dois indivíduos. O economista Jeremy Bentham,
muitas vezes considerado o pai do utilitarismo, na verdade reconheceu isso de pas-
sagem, escrevendo: “Preconceito à parte, o jogo de push-pin é de igual valor com
as artes e as ciências da música e da poesia. Se o jogo de push-pin fornecer mais
prazer, é mais valioso do que qualquer um”.241

O segundo problema é a natureza míope da suposta reação emocional. Os seres

99
humanos têm expressado historicamente o interesse racional de sofrer no presente, a
fim de ganhar (ou esperar ganhar) no futuro. Altruísmo, que passou por amplo debate
filosófico, poderia muito bem estar enraizado em formas de “prazer” obtido pelo ato
(doloroso) altruísta em benefício de outros. Como será discutido mais tarde, a prem-
issa de dor e prazer apresentada por tais argumentos, reforçada por uma reação im-
pulsiva por ganho, tornou-se um padrão socialmente recompensado. Isso tem gerado
uma mentalidade onde ganho a curto prazo é procurado e, frequentemente, às custas
de sofrimento a longo prazo, na verdade.

No entanto, abstratamente, o utilitarismo também oferece um tipo bizarro de


equalizador, uma vez que isso pode ser identificado sob a perspectiva de “troca
mútua” e, portanto, uma maneira de sempre se ver o capitalismo como um sistema de
harmonia social, e não, de guerra. Voltando à Teoria do Valor-Trabalho versus a Teo-
ria do Valor-Utilidade, a primeira mostra claramente o conflito em como a Teoria do
Trabalho leva em conta a relação custo-benefício procurado pelo capitalista às custas
de salários para os trabalhadores. A Teoria da Utilidade, por outro lado, remove com-
pletamente essas ideias e afirma que todos estão buscando a mesma coisa e, portanto,
deixando a estrutura de lado, todo mundo é igual. Em outras palavras, todas as trocas
se tornam mutuamente benéficas para todos em uma lógica estreita e absurdamente
abstrata e generalizada. Todas as ações humanas são reduzidas a esse sistema de “tro-
cas” e, portanto, todas as diferenças políticas ou sociais teoricamente desaparecem.

A Insurreição “Socialista”
O Socialismo, como o Capitalismo, não tem uma definição aceita universal-
mente no discurso público em geral, mas é frequentemente definido, em termos
técnicos, como “um sistema econômico caracterizado pela propriedade social dos
meios de produção e pela gestão cooperativa da economia”.242 A raiz do pensamen-
to socialista parece remontar ao século XVIII na Europa, em uma história com-
plexa de “reformadores” desafiando o sistema Capitalista emergente. Graco Babeuf
(1760-1797) é um teórico notável dessa área com a sua “Conspiração dos Iguais”,
que tentou derrubar o governo francês. Ele afirmou: “A sociedade deve ser feita
para operar de tal maneira que elimine de uma vez por todas o desejo de um homem
em se tornar mais rico, ou mais sábio, ou mais poderoso que os outros.”243 O an-
arco-socialista francês Pierre Joseph Proudhon (1809-1865) é famoso por declarar
que “Propriedade é Furto” na sua obra O que é a Propriedade? Uma Investigação
sobre o Princípio do Direito e do Governo.

Até o início do século XIX, as ideias socialistas foram se expandindo rap-


idamente, geralmente como resposta aos notados problemas morais e éticos
inerentes ao capitalismo, como a desigualdade de classes e a exploração. A lista
de pensadores influentes é vasta e complexa, portanto, apenas três indivíduos
serão discutidos aqui, observando as suas contribuições mais relevantes: William

100
Thompson, Karl Marx e Thorstein Veblen.

William Thompson (1775-1833) teve uma influência poderosa sobre o pensamen-


to socialista. Ele era a favor da ideia de “Cooperativas”, que ficou famosa com Robert
Owen, como um tipo de alternativa ao modelo de negócio capitalista e, filosofica-
mente, tomou uma perspectiva utilitarista ao lidar com o comportamento humano.
Ele foi muito influenciado por Bentham, mas seu uso/interpretação do utilitarismo
era bastante diferente. Por exemplo, ele acreditava que se todos os membros da so-
ciedade fossem tratados da mesma forma, ao invés de entrarem numa luta de classes
e exploração, eles teriam capacidades iguais para experimentar a felicidade.244

Ele argumentou extensivamente em favor de uma espécie de socialismo de “Mer-


cado”, onde o igualitarismo e a equidade prevalecesse, em seu famoso An Inquiry
into the Principles of the Distribution of Wealth Most Conducive to Human Happi-
ness. Ele deixou claro que o capitalismo era um sistema de exploração e insegurança,
afirmando: “A tendência no arranjo existente das coisas em relação à riqueza é para
que uns poucos enriqueçam em detrimento da massa dos produtores, para fazer com
que a miséria dos pobres seja mais desesperadora”.245 No entanto, ele passou a recon-
hecer que mesmo que tal híbrido do capitalismo e socialismo surgisse, a premissa
oculta da competição ainda seria um problema sério. Ele escreveu longamente sobre
os problemas inerentes à natureza da concorrência do mercado, destacando cinco
questões que têm sido a retórica comum do pensamento Socialista desde então:

O primeiro problema foi que cada “trabalhador, artesão e comerciante [viu]


um concorrente, um rival em todos os outros ... [e cada um viu] uma segunda
competição, uma segunda rivalidade entre ... [sua profissão] e o público.”246 Ele
passou a afirmar que seria “do interesse de todos os médicos que as doenças
deveriam existissem e prevalecessem, ou seu comércio seria reduzido em dez
ou cem vezes”.247

O segundo problema foi a inerente opressão às mulheres e a distorção da família,


observando que a divisão do trabalho e a ética do egoísmo competitivo garantiram
ainda mais o penoso trabalho das mulheres no lar e a desigualdade de gênero.248

O terceiro problema associado com a competição era a inerente instabilidade gerada


na própria economia, afirmando: “O terceiro mal aqui imputado ao próprio princípio
da competição individual é que isso deve, ocasionalmente, levar a meios não rentáveis
ou imprudentes de esforço pessoal... cada indivíduo deve julgar por si mesmo a proba-
bilidade de sucesso na ocupação que ele assume. E quais são os seus meios de julgar?
Cada um, fazendo bem em sua vocação, está interessado em esconder o seu ganho
com medo de que a concorrência o reduza. Qual indivíduo pode julgar se o mercado,
frequentemente a uma grande distância, às vezes em outro hemisfério do globo, está

101
abastecido ou próximo de o ser, com o item do qual está propenso a fabricar?...E caso
um erro de julgamento... o leve a uma produção desnecessária, e, portanto, inútil, qual
é a consequência? Um simples erro de julgamento...pode acabar em grave dificuldade,
se não em ruína. Casos desse tipo parecem ser inevitáveis sob o regime de competição
individual em sua melhor performance”.249

O quarto problema observado é como a natureza egoísta do mercado competitivo


não garante segurança em torno de condições essenciais de suporte à vida, tais como
segurança na velhice, em caso de doenças e de acidentes.250

O quinto problema indicado por Thompson em relação à concorrência de


mercado foi que ela retardou o avanço do conhecimento. “A ocultação aos con-
correntes, portanto, daquilo que é novo ou excelente, deve acompanhar a com-
petição individual ... porque o interesse próprio, mais forte, está em oposição
ao princípio da benevolência”.251

Karl Marx (1818-1883), ao lado de muitos outros, foi influenciado pelo tra-
balho de Thompson e é provavelmente um dos mais conhecidos filósofos econômi-
cos hoje. Com seu nome frequentemente associado de forma depreciativa aos
perigos das atitudes do Comunismo Soviético, ou “totalitarismo”, Marx também
é provavelmente o mais incompreendido de todos os economistas popularizados.
Embora mais famoso na mente do público geral por apresentar tratados sobre ide-
ias Socialistas-Comunistas, Marx, na verdade, passou a maior parte de seu tempo
com o assunto Capitalismo e suas operações. Sua contribuição para o compreensão
do capitalismo é mais ampla do que muitos imaginam, pois, hoje, muitos termos
e jargões econômicos comumente usados em conversas sobre o capitalismo, na
verdade, encontram raiz nos tratados literários de Marx. Sua perspectiva era, em
grande parte, histórica, e contava com conhecimentos bem detalhados sobre a
evolução do pensamento econômico. Devido ao tamanho imenso de seu trabalho,
apenas algumas questões influentes serão abordadas aqui.

Uma questão a ser destacada é a sua consciência de como a “troca”, uma carac-
terística capitalista, tornou-se a base primordial das relações sociais. Ele declarou em
sua obra Grundrisse: “De fato, na medida em que a mercadoria ou o trabalho é con-
cebido apenas como valor de troca, e a relação em que os vários produtos são postos
em contato um com o outro é concebida como a troca desses valores de troca ... então
as pessoas... são simples e exclusivamente concebidas como trocadores. Enquanto
o aspecto formal é levado em conta, não há absolutamente nenhuma distinção entre
eles ...Como sujeitos de troca, sua relação é, portanto, a de igualdade “.252

“Embora um indivíduo ‘A’ sinta necessidade do produto de um indivíduo ‘B’, ele


não se apropria disto pela força ou vice versa, pelo contrário, reconhecem-se reciproca-

102
mente como proprietários...Um não se apropria do que é do outro à força. Cada um se
despoja de sua propriedade de forma voluntária.”253

Mais uma vez, como antes observado em relação ao tema recorrente das relações
humanas e os pressupostos de classe (ou negações), Marx enfatizou o que poderia ser
chamado de três ilusões principais: a ilusão de liberdade, de igualdade e de harmonia
social, reduzidas a uma associação extremamente limitada em torno da ideia de “tro-
ca mutuamente benéfica”, que seria o único relacionamento econômico real pelo qual
toda a sociedade deve ser avaliada.

“É no caráter da relação monetária - na medida em que é desenvolvida em sua


pureza até este ponto, e sem considerar as relações de produção mais bem desen-
volvidas - que todas as contradições inerentes à sociedade burguesa parecem dissolv-
er-se nessa mesma relação concebida de forma simples; e a democracia burguesa,
mais ainda do que os economistas burgueses, se refugia nesse aspecto ... a fim de
construir desculpas para as relações econômicas existentes.254

Em seu trabalho Capital: Crítica da Economia Política, Marx analisa extensiv-


amente muitos fatores do sistema capitalista, ou seja, a natureza dos commodities,
a dinâmica entre Valor, Valor de Uso, Valor de Troca, Teoria do Trabalho e Utili-
dade, juntamente com uma investigação profunda sobre o que “Capital” significa,
como o sistema evoluiu e, finalmente, a natureza das funções dentro do modelo.
Um tema importante a notar é o seu ponto de vista sobre “Valor Excedente”, que,
em demonstração da “Teoria do Valor-Trabalho” de Ricardo, é o valor apropriado
pelo Capitalista sob a forma de lucro, que é o excesso de valor (custo) inerente ao
próprio trabalho/produção.

Ele afirmou em relação a dispensar a origem desse “Excedente” na troca:


“Distorçamos como queira, o fato permanece inalterado. Se equivalentes são tro-
cados, não há valor excedente, e se não-equivalentes são trocados, ainda assim
não há valor excedente. A circulação, ou troca de mercadorias (commodities),
não gera valor algum”.255

Em seguida, ele argumenta sucintamente sobre a diferença entre “trabalho” e


“força de trabalho”, essa última consistindo tanto em “medida de valor” como em
“instrumento de troca”, em que um trabalhador só é recompensado para atender suas
necessidades de subsistência, representadas em seu salário, enquanto que tudo o que
ultrapassar esse valor é um “excedente”, teoricamente, traduzido por “lucro”, feito
pelo capitalista, que, em sendo somados, apresentam-se no mercado de troca através
da “etiqueta de preço”.256 Esse ponto, que se estende ao contexto e dinâmica inerentes
à circulação e aplicação de diferentes formas de capital (capital ainda definido como
um meio de produção, mas, nesse caso, principalmente na sua forma monetária),

103
remete à conclusão de que a exploração dos trabalhadores era inerente à criação de
“excedente” ou “lucro”. Em outras palavras, como implicação, essa foi uma forma de
desigualdade básica incorporada ao sistema Capitalista, e enquanto um pequeno gru-
po de “donos” controlarem o valor excedente criado pela classe trabalhadora, sempre
haverá ricos e pobres, riqueza e pobreza.

Marx amplia ainda mais essa ideia fazendo uma reavaliação da “propriedade”,
que era, nessa circunstância, essencialmente a base legal do próprio “capital”,
permitindo a explícita expropriação coerciva do “trabalho excedente” (a parte do
trabalho que gera excedente), quando declara: “No início, os direitos de proprie-
dade nos pareceram ser baseados no próprio trabalho do homem. Pelo menos, tal
suposição era necessária uma vez que apenas proprietários de commodities com
direitos iguais poderiam se equiparar, e o único meio pelo qual um homem poderia
tornar-se proprietário de mercadorias alheias era através alienação (desvinculação)
de suas próprias commodities; e estas poderiam ser substituídas apenas pelo tra-
balho. Agora, no entanto, a propriedade passou a ser o direito, por parte do capi-
talista, de se apropriar do trabalho não remunerado (trabalho excedente) de outras
pessoas ou do seu produto, e a ser a impossibilidade, por parte do trabalhador, de
se apropriar do seu próprio produto. A separação feita entre propriedade e trabalho
tornou-se a consequência necessária de uma lei que aparentemente teve origem
com a identidade de ambos.”257

Marx desenvolve esses tipos de argumentos extensivamente em seus escritos,


incluindo a ideia de que o trabalho da classe trabalhadora não pode ser “voluntário”
nesse sistema - apenas coercivo - uma vez que a decisão final de aplicar o trabalho em
troca de salário estava nas mãos do capitalista. Ele afirmou: “O trabalhador, portanto,
apenas se sente separado de seu trabalho, e em seu trabalho, separado de si mesmo.
Ele está em casa quando não está trabalhando, e quando está trabalhando, não está
em casa. Portanto, seu trabalho não é voluntário, mas coercivo; é trabalho forçado.
Portanto, não é a satisfação de uma necessidade; é apenas um meio de satisfazer ne-
cessidades externas às verdadeiras necessidades.”258

Por fim, foi essa exploração e desumanização complexa, degradante e multifac-


etada do trabalhador médio que o incomodava tanto e que o levou à reforma. Ele até
inventou uma frase - “A Lei da Miséria Crescente” - para descrever como a felicidade
da população trabalhadora em geral era inversa à acumulação de riqueza da classe
capitalista. No fim das contas, Marx estava convencido de que as pressões inerentes
ao sistema levariam a classe trabalhadora a se revoltar contra a classe capitalista,
permitindo um novo modo “Socialista” de produção, onde, em parte, a classe tra-
balhadora operaria em seu próprio benefício.

Thorstein Veblen (1857-1929) será o último auto-proclamado “Socialista” cujas

104
ideias influentes sobre o desenvolvimento e falhas do capitalismo serão exploradas
aqui. Como Marx, ele tem a vantagem do tempo no que diz respeito à digestão da
história econômica. Veblen ensinou economia em várias universidades durante sua
vida, produzindo literatura prolificamente sobre várias questões sociais.

Veblen era muito crítico das presunções econômicas neoclássicas, especifica-


mente a respeito das ideias utilitaristas aplicadas à “Natureza Humana”, observan-
do a ideia de que todo o comportamento econômico humano seria reduzido a uma
interação hedonista de auto-preservação e maximização absurdamente simplista.259
Ele assumiu o que poderíamos chamar de uma visão “evolutiva” da história hu-
mana, em que a mudança é definida pelas instituições sociais que assumiram o
controle ou que foram superadas. Afirmou, no que diz respeito ao atual estado do
tempo (o qual ele considerou “materialista”):

“Como qualquer cultura humana esta civilização materialista é um arranjo de


instituições - tecido institucional e desenvolvimento institucional...O desenvolvi-
mento da cultura é uma sequência cumulativa de adaptação, e as formas e meios
desse desenvolvimento se dão nas respostas habituais da natureza humana às exigên-
cias que variam rapidamente, cumulativamente, mas com certa consistência nessas
variações cumulativas sucessivas que se seguem - incontinenti, porque toda nova
mudança cria uma nova situação que induz uma nova variação na resposta habitual;
cumulativamente, porque cada nova situação é uma variação do que aconteceu antes
dela e incorpora como fatores causais tudo o que foi realizado antes; consistente-
mente, porque os traços subjacentes da natureza humana (propensões, aptidões, e out-
ros) por força dos quais as respostas ocorrem, e no terreno sobre o qual a adaptação
tem efeito, permanecerão inalterados.”260

Veblen desafiou o fundamento básico do modo de produção capitalista, ques-


tionando muitos dos fatores que haviam sido essencialmente “dados” ou tornados
empíricos pelos séculos de debate econômico. As instituições agora enraizadas de
“Salários”, “Rendas”, “Propriedade”, “Juros”, “Trabalho” foram perturbadas em sua
suposta simplicidade por uma visão de que nenhuma delas poderia ser tida como in-
telectualmente viável, fora da associação puramente categórica com limites extremos
de aplicação. Ele brincou sobre como “um bando de ilhéus Aleútes revirando de-
stroços e surfando com ancinhos e encantamentos mágicos para capturar mariscos
são considerados, do ponto da realidade taxonômica, envolvidos em uma façanha de
equilíbrio hedonista em renda, salários e juros. E não é nada mais do que isso”.261

Ele viu a produção e a própria indústria como um processo social em que as linhas
estavam acentuadamente turvas, pois envolvia invariavelmente a partilha de con-
hecimentos (usufruto) e habilidades. De muitas maneiras, via essas características
categóricas do Capitalismo serem inerentes ao Capitalismo em si, e não, represen-

105
tativas da realidade física, mas apenas um grande artifício. Descobriu que a teoria
Neoclássica dominante existiu, em parte, para ocultar a luta de classes e a hostilidade,
inerentes e fundamentais, para proteger ainda mais os interesses dos que ele chamou
de “Interesses Excusos” ou “Proprietários Ausentes” (Capitalistas)262.

Rejeitou a ideia de que a “propriedade privada” era um “direito natural”, como foi
assumido por Locke, Smith e outros, muitas vezes fazendo piadas sobre o absurdo do
pensamento que leva os “Proprietários Ausentes” a reivindicar a “posse” de merca-
dorias produzidas, na realidade, pelo trabalho do “trabalhador comum”, destacando o
absurdo do princípio antigo de que a partir do trabalho advém a propriedade.263 Foi
mais longe para expressar o inerente caráter social da produção e como a verdadeira
natureza da habilidade e da acumulação de conhecimento anulavam completamente
a suposição de direitos de propriedade em si mesma, quando afirmou:

“Esta teoria dos direitos naturais de propriedade torna o esforço criativo de


um indivíduo isolado, auto-suficiente, a base da propriedade que lhe cabe. Ao faz-
er isso ignora o fato de que não existe um indivíduo isolado, auto-suficiente... A
produção tem lugar apenas na sociedade - somente através da cooperação de uma
comunidade industrial. Essa comunidade industrial pode ser grande ou pequena
... mas sempre conta com um grupo grande o suficiente para conter e transmitir
as tradições, as ferramentas, o conhecimento técnico e as aplicações sem os quais
não se pode haver organização industrial ou qualquer relação econômica dos in-
divíduos uns com os outros ou com seu ambiente... Não há produção sem conhec-
imento técnico, logo, não há nenhuma acumulação ou riqueza a serem possuídas,
isoladamente ou de outra maneira. E não há nenhum conhecimento técnico fora de
uma comunidade industrial. Como não há produção individual nem produtividade
individual, a preconcepção dos direitos naturais ... reduz-se ao absurdo, mesmo sob
a lógica de suas próprias premissas.”264

Tal como aconteceu com Marx, ele não viu outra maneira de distinguir as duas
principais classes da sociedade do que as separando entre aquelas que trabalham
e aquelas que exploram esse trabalho265, tendo a parte lucrativa do capitalismo
(o “Negócio”) completamente separada da produção em si ( “Indústria”). Ele
faz uma distinção clara entre Empresas e Indústria e refere-se à primeira como
funcionando como um veículo de “sabotagem” para a indústria. Ele viu uma
completa contradição entre a intenção ética da comunidade em geral em produzir
eficientemente e com bons serviços, e as leis de propriedade privada, que tinham
o poder de dirigir a indústria para a causa apenas do lucro, reduzindo sua eficiên-
cia e intenção. O termo “sabotagem”, nesse contexto, foi definido por Veblen
como a “retirada consciente de eficiência”.266

Ele afirma: “A planta industrial está cada vez mais operando de forma ociosa

106
ou parcialmente ociosa, operando com sua capacidade produtiva de maneira cada
vez mais reduzida. Trabalhadores estão sendo demitidos... E enquanto essas pessoas
estão em grande necessidade de todos os tipos de bens e serviços que essas plantas
ociosas e operários ociosos estão aptos a produzir. Mas, por razões de conveniência
empresarial é impossível deixar essas plantas ociosas e operários ociosos trabalharem
- ou seja, por não haver lucro suficiente para os homens de negócios, ou em outras
palavras, por não haver renda suficiente para os interesses escusos”.267

Além disso, Veblen, ao contrário da grande maioria das pessoas nos dias atuais
que condenam os atos de “corrupção” por razões éticas, não viu nenhum dos prob-
lemas de abuso e exploração como uma questão de “moralidade” ou “ética”. Viu os
problemas como inerentes - construídos sobre a natureza do próprio Capitalismo. Ele
afirma: “Não é que esses capitães dos Grandes Negócios cujo dever é administrar
esta sabotagem mínima salutar na produção sejam maus. Não é que eles pretendam
encurtar a vida humana ou aumentar o desconforto humano, maquinando um aumen-
to de privação entre seus semelhantes... A questão não é saber se esse tráfego com
privações é humano, mas se é uma boa gestão empresarial”.268

No que diz respeito à natureza do governo, a visão de Veblen foi muito clara: o
governo, pela sua própria construção política, existia para proteger as estruturas de
ordem social e de classes existentes, reforçando as leis de propriedade privada e, por
extensão, reforçando a desproporcional classe dominante (no poder). “A legislação,
vigilância policial, a administração da justiça, os militares e o serviço diplomático,
todos estão principalmente preocupados com as relações de negócios, interesses pe-
cuniários, e eles têm uma preocupação pouco mais que casual com outros interesses
humanos”,269, afirmou.

A ideia de democracia também estava profundamente violada pelo poder Cap-


italista, em sua opinião, quando afirmou que “o governo constitucional é um gov-
erno de negócios”.270 Veblen, enquanto consciente do fenômeno do “lobbying” e
da “compra” de políticos, comumente visto hoje como uma forma de “corrupção”,
não via isso como a verdadeira natureza do problema. Em vez disso, o controle do
governo por negócios não era uma anomalia - era simplesmente o que o governo
tinha manifestado ser desde seu design.271 Por sua própria natureza, como um meio
institucionalizado de controle social, o Governo sempre protegeria os “ricos” contra
os “pobres”. Uma vez que os “pobres” sempre ultrapassam enormemente em quanti-
dade ​​os “ricos”, uma estrutura legal rígida favorecendo os ricos (interesses dos pro-
prietários) teve que existir para manter a separação de classes e intactos os benefício
dos interesses capitalistas.272

Da mesma forma, também reconheceu como o governo do Estado Capitalista


necessitava fortemente manter os valores sociais alinhados com os seus interess-

107
es - o que Veblen chamou de “Cultura Pecuniária”. Portanto, os hábitos predatóri-
os, egoístas e competitivos típicos do “sucesso” na guerra social subjacente iner-
ente ao sistema Capitalista, naturalmente reforçam aqueles valores. Ser generoso
e vulnerável é de pouca utilidade para o “sucesso” nesse contexto, pois o cruel e
estrategicamente competitivo são ícones da recompensa social.273

Em uma avaliação ampla, Veblen buscou analisar criticamente a estrutura


central e os valores do modelo capitalista de livre mercado, trazendo algo que
pode ser indicado como conclusões profundamente avançadas sociologicamente,
no que diz respeito às contradições internas, ineficiência técnica e distúrbios de
valor desse modelo. Seu trabalho é muito indicado para revisão por todos aqueles
interessados ​​na história do pensamento econômico, especificamente para os céti-
cos em relação à premissa do capitalismo de livre mercado.

Em Conclusão: O capitalismo como “Patologia Social”


A história do pensamento econômico é, em muitos aspectos, a história das
relações sociais humanas, com um modelo em que certas suposições ganham de-
staque a ponto de serem consideradas sagradas e imutáveis após um tempo. Esse
elemento tradicionalista, originado a partir de sistemas de valores e crenças de
períodos anteriores, tem sido um tema principal nesta breve revisão da história
econômica. O ponto central sendo que os atributos tidos como “óbvios” para as teo-
rias dominantes da economia de hoje não são, de fato, baseados em uma base física
direta, como seria necessário para encontrar validação através do método científico,
mas sim, baseados na mera perpetuação de um quadro ideológico estabelecido,
cuja evolução para uma auto-referência intrincada à sua lógica interna justifica sua
própria existência e suas próprias normas.

Hoje em dia, não é o que dá corpo à ideologia capitalista em seus detalhes o


mais problemático, mas sim, o que ela omite, por extensão. Assim como religiões
primitivas viram o mundo como sendo plano e tiveram que ajustar sua retórica,
uma vez que foi comprovado ser redondo, pela ciência, a tradição da economia de
mercado é confrontada com desafios similares. Considerando a simplicidade das
abordagens agrárias e, por fim, primitivas para a produção industrial, houve pouca
conscientização ou uma necessária preocupação com as possíveis consequências
negativas ao longo do tempo, não só em nível do habitat (ecológico), mas também
em nível humano (saúde pública).

Da mesma forma, o sistema de mercado, com suas suposições muito antigas acer-
ca das possibilidades, também ignora (ou até mesmo confronta) os avanços poder-
osos na ciência e tecnologia, que expressam capacidade para resolver problemas e
criar uma elevada prosperidade. De fato, como será explorado no ensaio “Eficiência
de Mercado vs. Eficiência Técnica”, tais ações progressistas e de um reconhecimento

108
da harmonia em relação ao habitat e ao bem-estar humano revelam que Capitalismo
de “Livre Mercado”, literalmente, não faculta essas soluções, já que em sua própria
mecânica padrão dispensa ou funciona contra tais possibilidades.

De um modo geral, a resolução de problemas e, consequentemente, o aumento


da eficiência é, em muitos aspectos, um anátema para a operação do mercado. A
solução dos problemas em geral significa o fim da capacidade de obter renda a partir
da “manutenção” desses problemas. Melhor eficiência quase sempre significa uma
redução na necessidade de trabalho e de energia e, ao mesmo tempo em que isso
possa parecer positivo em relação à verdadeira eficiência do planeta, também, muitas
vezes, significa uma perda em postos de trabalho e redução da circulação monetária
devido a sua aplicação.274

É aqui onde o modelo capitalista começa a tomar o papel de um agente social


patogênico, e não apenas no que diz respeito ao que ignora, inviabiliza ou evita
devido a sua própria estrutura, mas também em relação ao que reforça e perpetua.
Se voltarmos à declaração de Locke sobre como a natureza do dinheiro, com o
consentimento tácito da comunidade, era essencialmente a de servir a comunidade
em si mesma, é fácil notar como esse simples “meio de troca” evoluiu até sua forma
sociológica atual, em que toda a base do mercado funciona, na verdade, não com
a intenção de criar e ajudar a sobrevivência, saúde e prosperidade humanas, mas,
agora, apenas para facilitar o ato de lucrar e o lucro, somente. Adam Smith nunca
teria previsto que, nos dias de hoje, os campos mais lucrativos e compensatórios
não seriam a produção de bens para a melhoria ou suporte da vida, mas sim, o ato
de movimentar o dinheiro - daí o “trabalho” das instituições financeiras como os
bancos, “Wall Street” e as empresas de investimento - empresas que literalmente
criam nada, no entanto, possuem imensa riqueza e influência.

Hoje, a única real Teoria de Valor vigente é a que poderia ser chamada de “Sequên-
cia Monetária de Valor”.275 O dinheiro tem assumido vida própria no que diz respeito
à reforçada psicologia de sua circulação. Não possui nenhum propósito definido dire-
tamente, apenas o de gerar mais dinheiro a partir de menos dinheiro (investimento).
Esse fenômeno de “dinheiro gerando dinheiro” não só criou um distúrbio no sistema
de valor, em que esse interesse em ganho monetário supera tudo o mais, tornando
secundárias e “externas” ao foco da economia as questões ambientais e de saúde
pública verdadeiramente relevantes, mas sua propensão constante em “multiplicar”
e “expandir” possui, realmente, um aspecto canceroso - essa ideia de “crescimento”
necessário, ao invés de um estado de equilíbrio estacionário - e continua o seu efeito
patológico em diferentes níveis.

Muito poderia ser dito sobre o sistema de dívida276 e sobre como praticamente
todos os países do planeta Terra estão agora em dívida com eles mesmos, na medi-

109
da em que nós, a “espécie humana”, na verdade não temos dinheiro suficiente em
circulação para nos pagar de volta o que tomamos emprestado do nada. A necessi-
dade de mais e mais “crédito” para abastecer o “mercado” é constante hoje devido
a esse desequilíbrio, o que significa que, como no câncer, estamos lidando com a
intenção de expansão e consumo infinitos. Isso simplesmente não funciona em um
planeta finito.

Além disso, o etos competitivo, orientado pela escassez inerente ao nosso mod-
elo, continua a perpetuar a luta de classes sectarista que mantém em guerra consigo
mesmo não só o mundo, através do imperialismo e do protecionismo, mas também
a população geral. Hoje, muitos andam por aí com medo uns dos outros, já que a
exploração e o abuso é o etos dominante recompensado. Todos os seres humanos se
adaptaram a essa cultura em que vemos uns aos outros, desnecessariamente, como
ameaças a nossa própria sobrevivência, em contextos “econômicos” cada vez mais
abstratos. Por exemplo, quando duas pessoas chegam a uma entrevista de emprego
em busca de sustento, não estão interessadas ​​no bem-estar uma da outra, já que
apenas uma sairá empregada. Na verdade, a capacidade empática é uma pressão
negativa nesse sistema de vantagem, e é completamente não recompensada pelo
mecanismo financeiro.

Da mesma forma, o pressuposto de que poderia existir “justiça” em um ambiente


tão competitivo, especialmente quando a natureza do “ganhar” e do “perder” significa
uma perda no suporte à vida ou à sobrevivência, é uma ideia profundamente ingênua.
Os estatutos legais existentes que servem para impedir as leis de monopólio e “cor-
rupção” financeira existem porque não há, literalmente, qualquer garantia possível
contra a chamada “corrupção” nesse modelo. Como sugerido neste ensaio por Smith
e Veblen, o “Estado” é, na realidade, uma manifestação da premissa econômica, e
não o contrário. O uso do poder do Estado para legislar, para garantir a segurança e a
prosperidade de uma classe sobre outra, não é uma distorção do sistema capitalista, é
uma característica fundamental da ética competitiva do livre-mercado.

Muitos dos libertários, Laissez-faire, da Escola Austríaca, de Chicago e outras ram-


ificações neoclássicas, constantemente tendem a falar sobre como “a Interferência do
Estado” é o problema hoje, como ter políticas de importação / exportação protecionistas
ou o favorecimento de certas indústrias pelo Estado. Supõe-se que de alguma forma o
mercado pode ser “livre” para operar sem a manifestação de monopólio ou das “cor-
rupções” inerentes ao que hoje consideramos “capitalismo de compadrio”, apesar de
toda a base da estratégia ser competitiva ou, em termos mais diretos, “em guerra”. Mais
uma vez, assumir que o Estado não seria usado como uma ferramenta para a vantagem
diferencial - uma ferramenta para o negócio - é um absurdo.277

Afinal, esses valores aberta e desnecessariamente egoístas têm estado na raiz do

110
conflito humano desde a sua origem e, como observado, a noção histórica de con-
flito humano, no nível de classe, é vista pela maioria como “óbvia”, “natural” ou
“imutável”. No modelo social existente, extraído de uma referência orientada ineren-
temente pela escassez, xenofobia e racismo, não há tal coisa como a paz ou equilíbrio.
Simplesmente não é possível no modelo Capitalista. Da mesma forma, a ilusão de
igualdade entre as pessoas, nas sociedades ditas “democráticas”, também persiste, as-
sumindo que de alguma forma a igualdade política pode se manifestar fora da explíci-
ta desigualdade econômica inerente a este modo de produção e de relações humanas.

No início deste ensaio, a distinção entre a visão “Histórica” e a “Mecanicista” da


lógica econômica foi mencionada de passagem. A importância da perspectiva “Meca-
nicista” (científica), que será explorada em ensaios posteriores, é crítica no que tange
a compreensão de quão profundamente desatualizada e falha a economia de mercado
realmente é. Quando tomamos as leis da natureza conhecidas, tanto nos níveis hu-
manos e de habitat, e começamos a calcular quais as nossas opções e possibilidades,
tecnicamente, sem a bagagem de tais pressupostos históricos, uma linha de pensa-
mento muito diferente emerge. Na opinião do MZ, esta é a nova visão de mundo pela
qual a humanidade precisa se alinhar a fim de resolver seus atuais e crescentes prob-
lemas sociológicos e ecológicos, além de abrir a porta para enormes possibilidades
para a prosperidade futura.

111
Notas e Referências: Capítulo 8

[167] The Cancer Stage of Capitalism, John McMurtry, Pluto Press, 1999,
p.viii

[168] Uma definição menos generalizada do “Livre-Mercado” é a se-


guinte: “Um sistema econômico em que os preços e salários são deter-
minados pela livre concorrência entre as empresas, sem regulamentação
do governo ou medo de monopólios” [http://dictionary.reference.com/
browse/free+market]

[169] Como será descrito em ensaios posteriores, muitas vezes a falsa


categorização do MZ de ser “Estatista” está enraizada na sua oposição
geral aos Princípios de Mercado, o que este acredita ser insustentável
e, muitas vezes contraproducente. Estatismo, que pode assumir várias
formas, tais como Comunista, Fascista ou Socialista, defende uma “au-
toridade central” para decidir como o processo econômico/político deve
se desdobrar, com pouca ou nenhuma influência relevante ocorrendo
através da população em geral. O MZ apoia um processo de tomada de
decisão aberta, sob a imposição de leis básicas de sustentabilidade e
eficiência, comprovadas cientificamente .

[170] A noção de “Externalidade”, qual será observada mais adiante


neste ensaio, é um exemplo disto. A maioria dos custos ambientais e
sociais, sistêmicos para a abordagem de Mercado, juntamente com dis-
cutível perda de eficiência e, consequentemente, prosperidade, são dis-
pensados da equação teórica do Mercado, entre muitas outras questões
relevantes.

[171] O filósofo econômico John McMurtry afirmou de forma geral sobre


esta questão: “Esta tendência prevalece dos Racionalistas Continen-
tais em diante. Leibniz, Spinoza, Descartes, Berkeley, Kant e Hegel, por
exemplo, mais ou menos inteiramente pressupunham o regime social da
sua época e suas formas constituintes como, de alguma forma, a ex-
pressão da Mente divina, que eles vêem apenas como seu dever racional
de aceitar ou de justificar. “ The Cancer Stage of Capitalism, Pluto Press,
1999, p.7

[172] Aristóteles (384 aC-322 aC), enquanto creditado com vasta con-
tribuição científica, lógica e filosófica, também era a favor da escravidão,
justificando a realidade com o que poderia ser alegado como viés, não
razão. Ele declarou: “Mas será que existe alguém assim destinado pela
natureza para ser um escravo, e para quem tal condição é conveniente
e correta, ou melhor, não é toda a escravidão uma violação da natureza?
Não há dificuldade em responder a esta questão, no terreno da razão e
da verdade. Por que alguns devem governar e outros serem governados
é algo, não só necessário, mas apropriado, a partir da hora de seu na-
scimento, alguns estão marcados para a sujeição, outros para governar”.
Política, Livro I, Capítulos III a VII

112
[173] O termo “Idade Média” geralmente refere-se ao período da história
européia que durou do século V ao século XV.

[174] Para um estudo detalhado do sistema econômico e da sociedade


medieval, o trabalho seguinte é sugerido: The Agrarian Life of the Mid-
dle Ages, JH Chapman e Eileen E. Powers, eds., 2d ed, The Cambridge
Economic History of Europe, vol. 1 London, Cambridge University Press,
1966

[175] Macroeconomics from the beginning: The General Theory, Ancient


Markets, and the Rate of Interest, David Warburton Paris, Recherches et
Publications, 2003 p.49

[176] A “Emergente” consideração do desenvolvimento econômico


parece ser um conceito relativamente novo, introduzido mais popular-
mente por Thorstein Veblen no início do século 20. Sugestão de leitura
sobre o assunto de evolução econômica: The Evolution of Institutional
Economics: Agency, Structure and Darwinism in American Institutional-
ism, Geoffrey M. Hodgson, Londres, Routledge, 2004

[177] A distinção de “classes” em categorias específicas é sem significa-


do exato, historicamente. O ponto aqui é a presença permanente de uma
classe claramente dominante, seja a nobreza antiga, por exemplo, ou a
oligarquia financeira moderna.

[178] Sugestão de leitura, The Historical Encyclopedia of World Slavery,


Junius P. Rodriguez, Vol I, Seção E

[179] Sugestões de leitura: Mediaeval Feudalism, Carl Stephenson, Cor-


nell University Press, 1956

[180] A History of Economic Theory and Method, Robert B. Ekelund, Rob-


ert F. Hebert, New York: McGraw-Hill, 1975

[181] Sugestões de leitura: Defending Mother Earth: Native American Per-


spectives on Environmental Justice, Jace Weaver, Orbis Books, 1996

[182] Para listar os problemas ecológicos agora enfrentados pela a


humanidade, da desestabilização climática, à poluição, ao esgotamento
de recursos, a perda de biodiversidade e outras invariáveis ameaças à
saúde pública, seria muito extenso para detalhes aqui. Na visão do MZ,
estas questões são em grande parte resultado da premissa Capitalista e
suas abordagens e valores aceitos.

[183] Os
​​ padrões de consumo da sociedade moderna têm mostrado
uma natureza arbitrária com relação ao “Querer Humano”, assim como a
poderosa mudança de valores que ocorreu no início do século 20 com a
aplicação de publicidade ocidental moderna. “Necessidades Humanas”,
no entanto, são necessidades básicas, em grande parte compartilhadas
por todos os seres humanos, que mantêm a saúde física e psicológica.

113
[184] Ver o ensaio prévio “Definindo Saúde Pública”.

[185] “Darwinismo Social” é uma ideologia muito geral que procura


aplicar conceitos biológicos do darwinismo ou de “sobrevivência do mais
apto” para sociologia e política. O termo foi popularizado nos Estados
Unidos em 1944 pelo historiador Richard Hofstadter. A intuição deste
conceito, no entanto, aparece muito tempo antes da época de Darwin no
pensamento filosófico.

[186] Sugestões de leitura: Mediaeval Feudalism, Carl Stephenson, Cor-


nell University Press, 1956

[187] Sugestões de leitura: The Economy of Early Renaissance Europe,


Harry A. Miskimin, Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 1969, p.20

[188] Sugestões de leitura: A Evolução do Capitalismo, Maurice H. Dobb,


Guanabara, 1987, capítulo 4

[189] Enciclopédia de Economia, David R. Henderson e João C. das


Neves, Principia, 2001 “mercantilismo”

[190] Um balanço positivo do comércio também é conhecido como um


“superávit comercial” e consiste em exportar mais do que é importado
em valor monetário. Este ato por parte do Estado hoje é muitas vezes
chamado de “protecionismo”.

[191] The Growth of Economic Thought, Henry William Spiegel, Duke Uni-
versity Press, 3 Ed, 1991, pp.93-118.

[192] A Riqueza das Nações, Adam Smith, 1776, Livro IV: Dos Sistemas
de Economia Política

[193] Murray Rothbard, economista de destaque da moderna “Escola


Austríaca”, resumiu a perspectiva e crítica “Estatista”: “O mercantilismo,
que atingiu seu auge na Europa dos séculos XVII e XVIII, foi um siste-
ma de estatismo que empregava falácia econômica para construir uma
estrutura de poder imperial do Estado, bem como subsídio especial e
privilégio monopolista para indivíduos ou grupos favorecidos pelo Estado.
Assim, o mercantilismo assegurava que as exportações deveriam ser
incentivadas pelo governo e as importações desencorajadas”. [Mercantil-
ism: A Lesson for Our Times?, Murray Rothbard, Freeman, 1963]

[194] Como será discutido no ensaio “Desordem do Sistema de Valores”,


esta é uma falsa dualidade e é discutível em relação aos problemas sub-
jacentes comumente atribuídos ao debate polarizado.

[195] A partir de agora, neste ensaio, usaremos o termo “Capitalismo”


em sua forma cultural mais comum, implicando o contexto teórico do
“Livre-Mercado”.

114
[196] Enquanto um “Capitalista” pode ser considerado uma pessoa a
favor desta abordagem para a economia, uma definição mais precisa de-
nota “uma pessoa que tem capital, especialmente capital extenso, inves-
tido em negócios de empresas.” [http://dictionary.reference.com/browse/
capitalist]. Em outras palavras, esta é uma pessoa que possui ou investe
capital para um retorno ou lucro, mas mesmo assim não tem a obrigação
de contribuir para a produção efetiva ou trabalho de qualquer natureza.

[197] Um corolário disso são as várias “Escolhas Racionais” e “Teorias da


Utilidade”, comuns à teoria microeconômica do Livre-Mercado, que tenta
quantificar as ações humanas em torno de vários modelos comportamen-
tais. Mais sobre isso nos próximos ensaios.

[198] Segundo Tratado sobre o Governo Civil, John Locke, Capítulo V,


Seção 27, 1689

[199] Ibid., Capítulo V, Seção 34

[200] Ibid., Capítulo V, Seção 31, 1689

[201] Ibid., Capítulo V, Seção 33, 1689

[202] Locke declara: “A natureza fez bem ao estabelecer limites à pro-


priedade privada através de limites para o quanto os homens podem
trabalhar e limites para o quanto eles precisam. O trabalho de nenhum
homem poderia domar ou apropriar-se de toda a terra; o prazer de
nenhum homem poderia consumir mais do que uma pequena parte, de
modo que era impossível para qualquer homem, desta forma, infringir
o direito do outro, ou adquirir uma propriedade em detrimento de seu
vizinho ... “ [Segundo Tratado sobre o Governo Civil, John Locke, Capítulo
V, Seção 36, 1689]

[203] Ibid., Capítulo V, Seção 36, 1689

[204] Ibid., Capítulo V, Seção 31, 1689

[205] Ibid., Capítulo V, Seção 27, 1689

[206] Ibid., Capítulo V, Seção 31, 1689

[207] Ibid., Capítulo V, Seção 47, 1689

[208] A Bolsa de Valores e o poder crescente dos investimentos e pode-


res financeiros ao redor do mundo no século 21 refletem bem esta con-
sequência. Parece que o simples ato de posse e comércio via dinheiro
por si só, sem a necessidade do cultivo de produtos e serviços humanos,
tornou-se o setor mais lucrativo no mundo de hoje.

[209] A Revolução Industrial ocorreu, de acordo com vários historiadores,

115
a partir de cerca de 1760 a algo entre 1820 e 1840, inicialmente na Euro-
pa. Foi essencialmente a transição/aplicação de processos de fabricação
novos, de base tecnológica.

[210] “Os ricos só selecionam do ¨bolo¨ o que é mais precioso e


agradável. Eles consomem pouco mais que os pobres, e apesar de seu
egoísmo natural e rapacidade, embora busquem apenas sua própria
conveniência, embora o único fim que se propõe a partir do trabalho de
todos os milhares que eles empregam seja a satisfação de seu próprio
desejos vãos e insaciáveis, eles dividem com os pobres o produto de
todas suas melhorias. Eles são movidos por uma mão invisível a fazer
quase a mesma distribuição das necessidades de vida, o que teria sido
feito, fosse terra dividida em partes iguais entre todos os seus habitantes,
e, assim, sem querer, sem saber, avançar o interesse da sociedade e
dispor meios para a multiplicação da espécie”. [A Teoria dos Sentimentos
Morais, par. IV.I.10, 1790]

[211] A Riqueza das Nações, Adam Smith, 1776, par. IV.2.9.

[212] Não existe uma definição estática de “Economia Neoclássica”. No


entanto, um resumo geral, culturalmente comum, inclui o amplo interesse
nos mercados não regulamentados, “livres”, focando na determinação
dos preços, produtos e distribuição de renda em mercados através de
oferta e demanda, muitas vezes mediada através de uma hipotética max-
imização de utilidade por indivíduos com restrição orçamentária e dos
lucros das empresas com restrições de custo.

[213] Ibid., par. V.1.2

[214] Ibid.

[215] Ibid.

[216] Ibid., par. IV.9.51

[217] Este poder dos interesses Capitalistas de se envolver e, em mui-


tos aspectos, tornar-se o governo, para servir a sua própria vantagem
competitiva também será discutido no ensaio posterior: “Desordem do
Sistema de Valores”

[218] A Revolução Industrial, no Século XVIII, Paul Mantoux, trad. Sonia


Rangel, São Paulo, Hucitec/Unesp.

[219] Ele afirma: “Nenhum possível sacrifício dos ricos, particularmente


em dinheiro, poderia, por qualquer tempo, prevenir a recorrência de an-
gústia entre os membros inferiores da sociedade, quem quer que fossem
eles” [Ensaio sobre o Princípio da População, Thomas Malthus, 1798,
Capítulo 5]

[220] Ele afirma: “Aparentou-se, que a partir das leis inevitáveis ​​da nossa

116
natureza alguns seres humanos devam sofrer pela miséria. Estas são as
pessoas infelizes que, na grande loteria da vida, têm tirado um bilhete em
branco “. [Ensaio sobre o Princípio da População, Thomas Malthus, 1798,
capítulo 10]

[221] Um Ensaio sobre o Princípio da População, Thomas Malthus, 1798,


Capítulo 1

[222] De sua 2ª edição do Ensaio sobre o Princípio da População, 1836,


Principles of Political Economy, vol. 1, p.14. Nova York, Augustus M. Kel-
ley, 1964.

[223] É de nenhuma valia que a Teoria Populacional Malthusiana é, na


realidade, bastante imprecisa em relação aos fatores relacionados ao
crescimento populacional, baseado no conhecimento estatístico atual.
Além do efeito que a tecnologia tem desempenhado na expansão da
capacidade de produção e eficiência, de forma exponencial, particular-
mente no que diz respeito à produção de alimentos, a generalização de
que os padrões de vida mais elevados aumentam a população proporcio-
nalmente não é suportado por comparação regional. Países pobres, es-
tatisticamente, hoje têm uma taxa de reprodução maior do que os países
ricos. A questão parece ser um fenômeno cultural, religioso e educacion-
al, não uma “lei da natureza” rígida como Malthus concluiu.

[224] Ref.: Abolição da Previdência: Uma Ideia se Torna uma Causa


(Abolishment of Welfare: An Idea Becomes a Cause) [http://www.nytimes.
com/1994/04/22/us/abolishment-of-welfare-an-idea-becomes-a-cause.
html ]

[225] Os Princípios de Economia Política e Tributação, David Ricardo,


1821.

[226] Ibid., p.5

[227] Ibid., p.7

[228] Ibid., p.64

[229] Ibid., p.53

[230] Ibid., p.263-264

[231] Ibid., p.267

[232] A partir do ensaio: Possibilidades econômicas para os nossos ne-


tos, John Maynard Keynes, 193.
[233] Os Princípios de Economia Política e Tributação, David Ricardo,
1821, Dent Edition, 1962, p.81

[234] “Bens de Capital” são geralmente definidas como: Quaisquer ativos

117
tangíveis que uma organização utiliza para produzir bens ou serviços,
tais como edifícios de escritórios, equipamentos e máquinas. Os bens de
consumo são o resultado final deste processo de produção. [http://www.
investopedia.com/terms/c/capitalgoods.asp#axzz2Gxg1RmR6]

[235] Sugestões de leitura: O Fim dos Empregos: O Contínuo Crescimen-


to do Desemprego em Todo Mundo, Jeremy Rifkin, M Books, 1996.

[236] Tratado de Economia Política, Jean-Baptiste Say, 1821.

[237] Ibid., p.62

[238] Jeremy Bentham, um defensor notável do “Utilitarismo Clássico”,


declarou: “A natureza colocou a humanidade sob o governo de dois
mestres soberanos, dor e prazer. São só eles que devem apontar o que
devemos fazer ... Pelo princípio da utilidade entende-se, o princípio que
aprova ou desaprova qualquer ação, de acordo com a tendência que
esta pareça ter para aumentar ou diminuir a felicidade da parte cujo
interesse está em questão: ou, o que é a mesma coisa em outras pala-
vras, promover ou se opor a essa felicidade. Eu digo que de toda ação
que seja, e, portanto, não só de cada ação de um indivíduo em particular,
mas de todas as medidas do governo. “ [Uma Introdução aos Princípios
da Moral e Legislação, Jeremy Bentham, 1789, Abril Cultural, 1979]

[239] An Outline of the Science of Political Economy, Nassau Senior,


1836, Londres, Allen and U., 1938, p.27

[240] Mais informações sobre esta questão serão discutidas no ensaio


“Classicismo Estrutural”.

[241] Rationale of Reward, Jeremy Bentham Livro 3, Capítulo 1

[242] http://www.britannica.com/EBchecked/topic/551569/socialism

[243] The Defense of Gracchus Babeuf before the High Court of


Vendôme, University of Massachusetts Press, 1967, p.57

[244] An Inquiry into the Principles of the Distribution of Wealth Most Con-
ducive to Human Happiness, William Thompson, London, William S. Orr,
1850, p.17

[245] Ibid., p.xxix

[246] Ibid., p.259

[247] Ibid.

[248] Ibid., pp.260-261

[249] Ibid., pp.261-263

118
[250] Ibid., p.263

[251] Ibid., p.267


[252] Grundrisse, de Karl Marx, tr. Martin Nicolaus, Separata Vintage
Books, New York, 1973 p.241

[253] Ibid., p.243

[254] Ibid., p.240-241

[255] Capital, Karl Marx, Foreign Languages reprint, Moscou, 1961, vol. 3,
p.163

[256] Ibid., p.176

[257] Ibid., vol. 1, pp. 583-84

[258] Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, Karl Marx, Moscou,


Progress, 1959, p. 69

[259] “Why Economics Is Not an Evolutionary Science,” Place of Science


in Modern Civilization and Other Essays, Thorstein Veblen, pp.73-74.

[260] “The Limitations of Marginal Utility,” The Place of Science in Modern


Civilization and Other Essays, Thorstein Veblen, New York, Russell and
Russell, 1961, p.241-242

[261] “Professor Clark’s Economics”, Place of Science in Modern Civiliza-


tion, Thorstein Veblen, p.193

[262] Absentee Ownership and Business Enterprise in Recent Times,


Thorstein Veblen, Augustus M. Kelley, New York, 1964, p.407

[263] “The Beginnings of Ownership”, Essays in Our Changing Order,


Thorstein Veblen, p.32.

[264] “The Beginnings of Ownership”, Essays in Our Changing Order,


Thorstein Veblen, pp.33-34

[265] “The Instinct of Workmanship and the Irksomeness of Labor”, Es-


says in Our Changing Order, Thorstein Veblen, pp. 188-190

[266] The Engineers and the Price System, Thorstein Veblen, New York,
Augustus M. Kelley, 1965, p.1

[267] Ibid., p.12

[268] Absentee Ownership and Business Enterprise in Recent Times,


Thorstein Veblen, New York, Augustus M. Kelley, 1964, pp.220-221

119
[269] The Theory of Business Enterprise, Thorstein Veblen, New York,
Augustus M. Kelley, 1965, p.269

[270] Ibid., p.285

[271] Ibid., p.286-287

[272] Ibid., p.404-405

[273] A Teoria da Classe Ociosa, Thorstein Veblen, New York, Augustus


M. Kelley, 1965, pp.229-230

[274] Um exemplo simples disso é a quantidade de financiamento e


emprego que foi gerada a partir do tratamento contra o câncer. Se a
cura para o câncer realmente surgisse, resultar-se-ia na redução destas
enormes instituições médicas. Isto significa que a resolução de prob-
lemas podem resultar na perda de subsistência para muitos dos que tra-
balharam para atender esses problemas. Isto é criar um reforço perverso
para manter as coisas do mesmo jeito - evitar mudanças de forma geral.

[275] Esta frase foi apresentada por John McMurtry em sua obra The
Cancer Stage of Capitalism, Pluto Press, 1999

[276] A criação de dinheiro pela dívida, juntamente com a sua multipli-


cação através do sistema de empréstimos de Reserva Fracionada, uma
prática quase universal dos bancos centrais do mundo, continua a bus-
car o crescimento infinito por seus próprios mecanismos.

[277] É importante ressaltar que “Disciplina de Mercado”, ou a natureza


corretiva do mercado, pela qual todos negócios devem ser suscetíveis,
hoje só se aplica às classes mais baixas. Como observado historica-
mente pela retórica “Grande Demais Para Quebrar” e recentes (~ 2008)
salvamentos bancários no valor de mais de 20 trilhões de dólares, os
setores ricos são protegidos pelo gesto do tão chamado “Socialismo”, e
não Capitalismo.

120
Capítulo 9

Eficiência de Mercado
vs. Eficiência Técnica

“O aspecto sinergético da indústria, realizando cada vez mais tra-


balho com cada vez menos investimento de tempo e de energia por cada
unidade de desempenho... nunca foi formalmente contabilizado como um
ganho capital da sociedade sedentária. A eficácia sinérgica de um proces-
so industrial mundialmente integrado é inerentemente muito maior do
que o confinado efeito sinérgico de sistemas soberanos operando separa-
damente. Logo, só uma renúncia mundial das soberanias pode permitir a
fundação de um alicerce de alto padrão para toda humanidade.”276
- R. Buckminster Fuller -

Visão geral
O desenvolvimento científico, mesmo evoluindo paralelamente ao desenvolvi-
mento econômico tradicional ao longo dos últimos 400 anos ou mais, tem ainda sido
largamente ignorado e visto como uma “externalidade” pela teoria econômica. O
resultado tem sido uma “separação” entre a estrutura socioeconômica e a estrutura de
suporte à vida a qual estamos todos ligados, e da qual todos nós dependemos. Hoje,
na maioria dos casos, além de certos pressupostos técnicos com relação a como um
sistema não baseado na dinâmica do mercado e no “mecanismo de preços”277 poderia
funcionar, o argumento mais comum de apoio ao capitalismo de mercado é que ele é
um sistema de “independência” ou “liberdade”.

A extensão dessa veracidade depende muito da interpretação, mesmo que tais ter-
mos genéricos sejam onipresentes na retórica dos defensores do modelo.278 Parece que
tais noções são, em verdade, reações às tentativas anteriores de sistemas sociais alterna-
tivos que geraram problemas de poder como o “totalitarismo”.279 Assim, desde então,
com base nesse medo, qualquer modelo concebido fora da estrutura capitalista é muitas
vezes impulsivamente relegado à suposta tendência histórica rumo à “tirania” - e, em
seguida, descartado.

Seja como for, este gesto subjacente de “liberdade”, seja qual for sua implicação
subjetiva, gerou uma neurose ou confusão sobre o que significa para uma espécie
como a nossa sobreviver e prosperar no habitat - um habitat claramente regido por

121
leis naturais. O que descobrimos é que, no âmbito do nosso relacionamento com o
habitat, simplesmente não somos livres, e ter uma orientação predominante de va-
lores de uma suposta liberdade, a qual é então aplicada no modo como deveríamos
operar nossa economia global, tornou-se cada vez mais perigoso para a sustentabili-
dade humana no planeta terra.280

Deixando a dificuldade das relações sociais de lado, os seres humanos, inde-


pendentemente de seus costumes sociais tradicionais, estão estritamente vinculados
pelas leis naturais que regem a terra, e desviar-se desse alinhamento é o que, in-
variavelmente, inibe a nossa sustentabilidade, prosperidade e saúde pública. Deveria
ser lembrado que os pressupostos fundamentais de nosso sistema socioeconômico
atual desenvolveram-se durante períodos de consciência científica substancialmente
menores tanto sobre nosso habitat quanto nós mesmos.281 Muitas das consequências
negativas, hoje comuns nas sociedades modernas, simplesmente não existiam no pas-
sado, e é esse presente choque de sistemas que está desestabilizando ainda mais e de
muitas maneiras o nosso mundo.

Será aqui argumentado que a integridade de qualquer modelo econômico é, na


verdade, melhor mensurada pelo quão bem alinhado ele está com as conhecidas leis
que regem a natureza. Este conceito de lei natural não é apresentado aqui como algo
esotérico ou metafísico, mas como fundamentalmente observável. Embora seja ver-
dade que as leis da natureza são, ao longo do tempo, constantemente refinadas e
alteradas em nosso entendimento, certas realidades causais mantiveram-se, e man-
têm-se, definitivamente verdadeiras.

Não há dúvida de que o organismo humano tem necessidades específicas de so-


brevivência, como a de nutrição, água e ar. Não há dúvida em relação a quais proces-
sos ecológicos fundamentais asseguram a estabilidade ambiental do nosso habitat e
que devem permanecer sem perturbação em suas relações simbióticas-sinérgicas.282

Também não há discussão de que a psique humana, por mais complexa que seja,
apresenta, em média, reações básicas previsíveis a estressores ambientais, e, logo,
como reações de violência, depressão, abuso e outras questões comportamentais neg-
ativas possam daí resultar.283

Essa perspectiva científica, causal ou técnica das relações econômicas reduz to-
dos os fatores relevantes a um quadro de referência e a uma linha de pensamento
relacionados à nossa compreensão atual do mundo físico e suas dinâmicas tangíveis
naturais. Essa lógica considera a ciência do estudo humano, logo, mais uma vez, a
natureza em comum das necessidades humanas e da saúde pública, e combina estas
com as regras comprovadas do nosso habitat, com o qual estamos, sinérgica e simbi-
oticamente, conectados. Conjuntamente, um modelo racional de operação econômica

122
partindo “do zero” pode ser generalizado com pouquíssima necessidade dos séculos
de estabelecimento da teoria econômica tradicional.284

Isso não quer dizer que esses argumentos históricos não possuem valor no que
diz respeito à compreensão da evolução cultural, mas sim que, se uma visão de
mundo verdadeiramente científica é assumida em relação ao que “funciona” ou
“não funciona” na estratégia de eficiência que é exigida pelo jogo de xadrez da
sobrevivência humana, há pouca necessidade de uma abstração sobre a referência
histórica. Essa visão se situa no cerne da lógica reformista do MZ e será revista,
mais uma vez, na parte III deste texto.

O ponto em questão é que esses aspectos praticamente imutáveis da consciên-


cia científica quase não são reconhecidos pelo atual modelo econômico domi-
nante. Na verdade, será argumentado que esses dois sistemas não estão apenas
dissociados, mas são diametralmente opostos em muitos aspectos; fazendo alusão
a realidade de que a economia competitiva de mercado não é realmente “con-
sertável” em seu todo, e, portanto, um novo sistema baseado diretamente nestas
realidades da “lei natural” precisa ser construído a partir do zero.

Este ensaio vai examinar e contrastar uma série de considerações “econômicas”,


tanto do ponto de vista do sistema de mercado (lógica de mercado), quanto da lógica
mecanicista ou “técnica”. Será expresso como a “eficiência” tem dois significados
muito diferentes em cada ponto de vista, argumentando-se que “a eficiência de mer-
cado”285 é apenas eficiente no que diz respeito a si mesma, em que são usados conjun-
tos de regras criados pelo homem associados, principalmente, à dinâmica econômica
clássica, que facilita o lucro e o crescimento, enquanto a “Eficiência Técnica”, que
referencia as conhecidas leis da natureza, busca a maneira mais otimizada possível
de desenvolvimento industrial, de forma a preservar o habitat, reduzir o desperdício
e, finalmente, garantir a saúde pública, baseando-se em entendimentos científicos
emergentes.286

Consumo Cíclico e Crescimento Econômico


O capitalismo de mercado, em sua operação básica, pode ser generalizado como
uma interação entre proprietários, trabalhadores e consumidores. A demanda dos
consumidores gera a necessidade de produção pelos proprietários (capitalistas),
que, em seguida, empregam trabalhadores para a realização desse ato. Esse ciclo
tem origem essencialmente na “demanda” e, portanto, o verdadeiro motor do mer-
cado é o interesse, a capacidade e o ato de todos comprarem no mercado. Todas as
recessões e depressões287 são resultado, em um nível ou outro, de uma diminuição
nas vendas. Por isso, a necessidade mais crítica em manter as pessoas empregadas
e, portanto, manter a economia em um estado de “estabilidade” ou “crescimento”,
é o consumo constante e cíclico.

123
O crescimento econômico, que é geralmente definido como “um aumento da ca-
pacidade de uma economia em produzir bens e serviços, em comparação com outro
período de tempo”288, é um interesse constante de qualquer economia nacional de
hoje e, consequentemente, da economia global. Muitas táticas macroeconômicas são
utilizadas, frequentemente, em épocas de recessão para facilitar empréstimos, pro-
dução e consumo, a fim de manter uma economia funcionando em seu nível atual
ou, preferencialmente, além dele.289 O ciclo de negócios, um período de expansão
e contração oscilante, tem sido reconhecido como uma característica da economia
de mercado, devido à natureza de “disciplina do mercado”, ou de correção, o que,
segundo os teóricos, é em parte um aumento e diminuição naturais dos sucessos e
fracassos nos negócios.290

Em suma, a taxa (aumento ou redução) de consumo é o que gera os períodos


de crescimento ou contração do ciclo de negócios, tendo, geralmente, a regulação
monetária macroeconômica como o que aumenta ou diminui a facilidade de liquidez
(normalmente por meio de taxas de juros), com o fim de “gerenciar” as expansões e
contrações. Embora a política macroeconômica monetária moderna não seja o tema
deste ensaio, é importante ressaltar aqui, como um parêntese, que o respeito recíproco
para com ambos os períodos, de expansão e de contração, do ciclo de negócios não
existiram, historicamente. Os períodos de expansão monetária (frequentemente via
crédito mais barato), que normalmente se correlacionam com períodos de expansão
econômica (já que mais moeda é colocada em uso), são saudados pelos cidadãos
como sucessos nacionais para a sociedade, enquanto que todas as contrações são
vistas como fracassos políticos.

Portanto, sempre houve um interesse dos estabelecimentos políticos (que querem


parecer bons) e das principais e influentes instituições do mercado (protegendo os lu-
cros empresariais), em preservar os períodos de expansão pelo maior tempo possível
e lutar contra todas as formas de contração. Essa perspectiva é natural do sistema
de valores inerente ao capitalismo, pois o “sofrimento” deve ser evitado em todos
os momentos, muitas vezes de maneira míope. Nenhuma empresa quer reduzir seu
tamanho voluntariamente, nem qualquer partido político quer parecer “mau”, mes-
mo que a teoria econômica tradicional nos diga que esses períodos de contração são
“naturais” e deveriam ser permitidos.

O resultado tem sido, em suma, um aumento constante da oferta de dinheiro (ou seja,
do poder de compra e do capital) em épocas de recessão, resultando em uma dívida global
maciça, tanto pública quanto privada.291 A verdade é que todo o dinheiro passa a existir
a partir de empréstimos, e cada um desses empréstimos é feito com juros, pois o emprés-
timo e a taxa de juros acumulada (lucro do banco) devem ser pagos; significando que a
própria natureza da criação monetária, por padrão, implica automaticamente um saldo
negativo. Existe sempre mais dívida do que dinheiro em circulação.292

124
Então, voltando ao ponto principal que diz respeito à necessidade de demanda e
consumo para manter o funcionamento da economia, esse processo de troca com foco
geral no crescimento está no coração do contexto de “eficiência” do mercado. Não
importa o que esteja sendo produzido ou o seu efeito sobre o estado das relações hu-
manas ou terrenas. Essas são todas, novamente, “externalidades”. Como um exemplo
concentrado dessa lógica, o mercado de ações, que em si não é nada mais do que o
comércio de dinheiro e de seus agora numerosos “derivativos”, gera um enorme PIB
e um “crescimento” através dos lucros e vendas resultantes.293

No entanto, sem dúvida, esse mercado não produz nada de valor tangível ou de
suporte à vida. O mercado de ações e as instituições financeiras agora maciçamente
poderosas são completamente auxiliares à economia produtiva real. Enquanto mui-
tos argumentam que essas instituições de investimento facilitam os negócios e os
empregos pela aplicação de capitais, esse ato, mais uma vez, só é sistemicamente
relevante no sistema atual (eficiência de mercado) e totalmente irrelevante em termos
de produção real (eficiência técnica).

Em suma, quando se trata de lógica de mercado, quanto mais volume de negócios


ou de vendas melhor - e assim é - independentemente se o item vendido é o crédito, ro-
chas, “esperança” ou panquecas. Qualquer poluição, desperdício ou outros malefícios
do tipo, são, mais uma vez, “externos”. Não há nenhuma consideração pelo papel
técnico dos processos reais de produção, das estratégias de distribuição eficientes, da
aplicação de projetos ou similares. Assume-se que tais fatores culminem, metafisica-
mente, no melhor para as pessoas e para o habitat simplesmente porque é isso o que
a “mão invisível”294 do mercado implica.

No entanto, a crescente revolução “mais com menos”295 das ciências industriais


criou uma nova realidade, onde o avanço da tecnologia industrial reverteu o padrão
de “esforço material cumulativo” no que diz respeito à eficiência. A lógica de que
“mais trabalho, mais energia e mais recursos” produzirão resultados proporcional-
mente mais eficazes tem sido contestada. Em cada vez mais circunstâncias a redução
de energia, mão de obra e materiais para realizar determinadas tarefas tem obtido
êxito, dadas as nossas aplicações científicas e técnicas modernas.296

Por exemplo, a comunicação por satélite hoje, por mais intelectualmente sofis-
ticada, em que incorpora uma grande quantidade de conhecimento elaborado, é, na
realidade física, bastante simples e eficiente em seus recursos em comparação com as
alternativas anteriores de comunicação, que em suas aplicações globais envolveram
uma enorme quantidade de materiais pesados, tais como fios de cobre pesados, jun-
tamente com a difícil tarefa, muitas vezes arriscada, de assentar esses materiais por
meio da força de trabalho humana. O que é feito hoje, em geral, com um conjun-
to de pequenos satélites globais em órbita é realmente incrível, comparativamente.

125
Essa revolução de design, que vai ao coração do que a verdadeira eficiência (técnica)
econômica significa, está em oposição direta ao consumo cíclico do modelo econômi-
co baseado em crescimento.

Mais uma vez, a intenção do sistema de mercado é manter ou elevar o volume


de negócios, já que isto é o que mantém as pessoas empregadas, que aumenta a taxa
de emprego e o chamado crescimento. Assim, em sua essência, toda a premissa de
eficiência do mercado é baseada em torno de táticas para alcançar esse objetivo e,
portanto, qualquer força que trabalhe para reduzir a necessidade de trabalho ou vol-
ume de negócios é considerada “ineficiente” do ponto de vista do mercado, ainda que
possa ser muito eficiente nos termos da verdadeira definição da própria economia,
que significa conservar, reduzir o desperdício e fazer mais com menos.

Se, hipoteticamente, reduzirmos a nossa sociedade global a uma pequena ilha


com uma população, respectivamente, pequena e com tecnologia muito limitada em
comparação a dos dias de hoje, e descobrirmos que apenas um número x de itens
de sobrevivência e comida seriam possíveis pela regeneração natural da terra, seria
uma boa ideia empregar um sistema econômico que procura aumentar a utilização de
recursos e o volume de negócios na ilha o mais rápido possível pelo bem do “cresci-
mento”? Naturalmente, a ética do uso estratégico e da preservação se desenvolveria
como um ethos em tal condição. A ideia seria reduzir o desperdício ao invés de acel-
erá-lo, o que, novamente, é a verdadeira definição de “economia” - economizar.

Obsolescência Desnecessária: Competitiva e Planejada


Quando pensamos em obsolescência, muitas vezes consideramos as rápidas mu-
danças tecnológicas ocorrendo no mundo de hoje. De tempos em tempos parece que
nossos dispositivos de comunicação e de processamento, ou seja, nossa tecnologia
computacional, passam por um rápido desenvolvimento. A “Lei de Moore”, por ex-
emplo, que demonstra, essencialmente, como o poder de processamento dobra a cada
18-24 meses, foi estendida a outras aplicações tecnológicas semelhantes, trazendo luz
à forte tendência geral de avanço científico.297

No entanto, quando se trata da produção de bens, duas formas de obsolescência


(eventual) ocorrem hoje que não são baseadas na evolução natural da capacidade tec-
nológica, mas, sim, resultado de (a) a estrutura artificial e competitiva das regras do
sistema de mercado, juntamente com (b) o impulso orientador da “eficiência” de mer-
cado em busca de volume de negócios e lucros recorrentes.

A primeira (a) poderia ser chamada de “obsolescência competitiva (ou intrín-


seca)”. Esta é a obsolescência resultante da natureza competitiva da economia, já
que cada entidade produtora se comporta de forma a manter uma vantagem difer-
encial em relação a outra, reduzindo as despesas de produção, a fim de manter o

126
preço “competitivamente” baixo para o consumidor. Esse mecanismo é chamado,
tradicionalmente, de “custo-benefício”, e tem como resultado produtos relativamente
inferiores no momento mesmo em que são produzidos. Essa necessidade competitiva
permeia cada etapa da produção, consequentemente, há uma redução da eficiência
técnica ao longo do tempo pelo uso de materiais, meios e projetos mais baratos.

Imagine, hipoteticamente, levarmos em conta todos os requisitos materiais para,


por exemplo, criarmos um carro buscando maximizar a sua eficiência, durabilidade e
qualidade da forma mais otimizada estrategicamente, com base nos próprios materi-
ais - e não no custo deles.298 O ciclo de vida do carro, então, seria determinado apenas
pelo seu desgaste natural, tendo como foco deliberado um design de atualização dos
atributos do carro quando estes se tornassem obsoletos ou danificados por circunstân-
cias decorrentes do uso natural.

O resultado seria um produto projetado para durar, reduzindo assim o desperdício


e, invariavelmente, aumentando a eficácia de sua utilidade. É fato que muitos no
mundo hoje acreditam que é isso o que, de fato, acontece no desenho e produção dos
bens, porém, isso simplesmente não é a realidade. É matematicamente impossível
que qualquer empresa competitiva produza, estratégica e tecnicamente, o melhor
bem numa economia de mercado, já que o mecanismo de “custo-benefício” garante
uma produção abaixo da ideal.

A segunda forma (b) de obsolescência é conhecida como “planejada”, e esta


técnica de produção que estimula o consumo cíclico ganhou destaque no início
do século XX, quando o desenvolvimento industrial avançava em eficiência a um
ritmo acelerado, produzindo produtos melhores mais rapidamente. Na verdade, não
havia só uma necessidade de incentivar que o público em geral comprasse mais299,
o problema resultante de um aumento da longevidade e da eficiência geral dos bens
também estava desacelerando o consumo. Mais uma vez, o fenômeno “mais com
menos” estava despontando rapidamente.

Ao invés de permitir que a vida útil de um bem fosse determinada pela sua ca-
pacidade natural, com a intenção lógica de uma lei natural de que ele existisse por
tanto tempo quanto possível, dados os recursos limitados de um planeta finito e um
interesse natural em economia de energia, materiais e recursos humanos, as corpo-
rações decidiram que seria melhor criar sua própria “vida útil” para os bens, inibindo,
deliberadamente, eficiência.300

Na década de 1930, alguns até mesmo quiseram tornar obrigatório que todas
as indústrias, de forma legal, decidissem os ciclos de vida útil não pelo esta-
do natural da capacidade tecnológica, mas pela simples necessidade contínua de
trabalho e aumento do consumo. Na verdade, o exemplo histórico mais notável

127
deste período foi o cartel da lâmpada Phoebus, na década de 1930, onde, em um
tempo em que as lâmpadas eram capazes de durar até cerca de 25.000 horas, o
cartel forçou todas as empresas a restringir a vida útil das lâmpadas para menos
de 1000 horas para garantir compras repetidas.301 Hoje, todos os principais fab-
ricantes têm a estratégia de limitar os ciclos de vida dos bens com base em mod-
elos de marketing de consumo cíclico, e o resultado não só gera um desperdício
repreensível de recursos finitos, mas também um desperdício constante de tra-
balho humano e de energia. Fora da dinâmica da economia de mercado, é ex-
tremamente difícil argumentar contra a necessidade de um desenho otimizado das
mercadorias. Infelizmente, a natureza da eficiência de mercado não permite por
padrão tal eficiência técnica.

Propriedade versus Acesso


A tradição de propriedade pessoal tornou-se um marco da cultura moderna, ex-
istindo pouco incentivo financeiro, em longo prazo, para que se utilize um sistema
de compartilhamento ou de acesso. Por mais que existam, nos dias de hoje, alguns
exemplos de compartilhamento comunitário de mercadorias302, a ética geral de “pro-
priedade” e as características de valor e investimento inerentes à propriedade tornam
tais abordagens de partilha mais custosas, em longo prazo, para quem as utiliza, em
comparação com a compra direta.

Do ponto de vista da eficiência de mercado, essa é uma coisa boa; quanto mais
compras diretas de bens, melhor. Em geral, se 100 pessoas desejam dirigir um carro,
ter 100 pessoas comprando esses carros é mais “eficiente” para o mercado do que se
100 pessoas compartilharem 20 carros em um sistema estrategicamente projetado de
acesso, permitindo uma utilização com base no tempo de uso real.

Se analisarmos os padrões, em média, de uso real de um determinado bem, de-


scobriremos que muitos tipos de produtos podem ser usados de forma intermitente.
Veículos, artigos de lazer, equipamentos para projetos e vários outros gêneros de bens,
são comumente acessados em intervalos de tempo relativamente distantes, tornando
a propriedade uma tarefa não apenas um pouco inconveniente, dada a necessidade de
armazenar esses itens, mas, também, claramente ineficiente sob a ótica da verdadeira
integridade econômica, que busca a redução do desperdício em todos os momentos.

Todos os anos, inúmeros livros são emprestados e retornam praticamente de graça


para bibliotecas em todo o mundo, não só poupando uma enorme quantidade de re-
cursos materiais ao longo do tempo, mas também facilitando o acesso ao conheci-
mento por aqueles que de outra forma poderiam não ter meios para obtê-lo. Ainda
assim, essa prática é uma rara exceção no mundo movido à eficiência de mercado
de hoje, tão clara é a desvantagem para o mercado ter qualquer coisa disponível sem
compra direta por cada pessoa.303

128
Todavia, vamos, hipoteticamente, expandir essa ideia do compartilhamento de
conhecimento para o compartilhamento (acesso liberado) de bens materiais. Do pon-
to de vista da eficiência de mercado, essa seria uma extrema inibição. Enquanto ainda
seria gerado lucro no modelo capitalista através do empréstimo de itens para as pes-
soas com base em suas necessidades, esse seria enormemente desproporcional quan-
do comparado com o lucro / consumo em uma sociedade baseada na propriedade
pessoal e separada de cada bem.

Por outro lado, a eficiência técnica seria intensa. Não apenas menos recursos se-
riam utilizados (e menos força de trabalho), uma vez que uma menor quantidade de
cada bem precisaria ser criada para satisfazer o tempo de uso dos cidadãos, mas tam-
bém a disponibilidade de tais bens poderia muito bem se estender a muitas pessoas
que de outra forma não teriam como pagar por eles, mas poderiam pagar uma taxa de
“aluguel” (aqui ainda supondo um sistema de mercado). A este respeito, a eficiência
técnica tem dois níveis - ambiental e social. Do ponto de vista ambiental, uma re-
dução drástica no uso de recursos; do ponto de vista social (todo o resto permanecen-
do igual), um aumento na disponibilidade de acesso a certos bens também ocorreria.

Então, do ponto de vista da eficiência técnica, em intenso detrimento da eficiência


de mercado, uma sociedade orientada pelo acesso compartilhado ao invés da proprie-
dade universal, seria excepcionalmente mais sustentável e benéfica. É claro que tal
prática naturalmente desafiaria valores profundamente identificados com a cultura
“proprietária” de hoje.304

Competição vs. Colaboração


O problema da sociedade buscar uma cultura competitiva ou colaborativa tem
gerado um contínuo debate durante séculos, trazendo suposições sobre a natureza
humana como uma comum defesa da competição.305 Hoje, economistas discutem,
sobretudo, a concorrência como um incentivo necessário para a contínua inovação,306
juntamente com a suposição, geralmente implícita, de que simplesmente não há o
suficiente nesse planeta para todos e, portanto, não temos escolha a não ser lutarmos
uns com os outros em algum nível, restando inevitáveis perdedores.307 ​​Apontadas
tais premissas, o contexto aqui destacado de eficiência de mercado versus eficiên-
cia técnica será explorado no que diz respeito aos benefícios e/ou consequências da
competição.

Há dois ângulos principais a serem considerados: o primeiro é (a) como a concor-


rência afeta a própria produção industrial, o segundo é (b) como ela de fato afeta a
inovação ou o desenvolvimento criativo.

(a) Se examinarmos o formato da produção industrial atual, vemos um sistema


de interação global complexo; de recursos, materiais e bens movendo-se constan-

129
temente de um local para outro para fins diversos de produção ou distribuição.
Os negócios, em sua busca por lucro e custo-benefício, procuram, a todo momen-
to, invariavelmente, trabalho, equipamentos e instalações baratas para se manter
competitivos no mercado. O que pode assumir a forma de trabalho local imigran-
te pago com um salário mínimo, um “trabalho escravizante” no exterior, fábricas
de processamento relativamente barato por todo o país, etc.

A questão fundamental é que a partir do ponto de vista da eficiência de mercado,


a taxa de lucro sobre o custo é tudo o que importa, mesmo se a produção global es-
tiver desperdiçando quantidades desproporcionais de combustível, transporte, força
de trabalho, etc.308 A noção de “eficiência proximal”, neste caso a eficiência derivada
da distância entre os pontos de produção industrial e de distribuição, não é levada em
conta, e a globalização hoje, na prática, empenha-se em uma movimentação dispen-
diosa de recursos ao redor do mundo, baseando-se quase inteiramente em um interes-
se por economia de dinheiro, e não por eficiência técnica otimizada.

Esse desprezo pela importância da “eficiência proximal” por parte das in-
dústrias, sejam nacionais ou internacionais, é fonte de muito desperdício. Hoje em
dia, a produção industrial é quase inteiramente internacional, especialmente na
era tecnológica. O grau em que isso se faz necessário, do ponto de vista técnico,
é mínimo, na pior das hipóteses. Enquanto, historicamente, a produção agrícola
tem sido regional, dada a propensão de certas regiões para a produção de certos
tipos de bens, ou, talvez, pelo ambiente mais propício para outros cultivos, essa
é uma pequena produção em relação à grande maioria de bens industriais pro-
duzidos, sem contar as diversas possibilidades tecnológicas atuais que permitem
superar tais necessidades regionais.309

“Localização”, significando a redução deliberada da distância entre e ao redor de


todas as facetas da produção e distribuição, é a maneira tecnicamente mais eficiente
para uma comunidade operar, tendo em conta as exceções óbvias, por exemplo, a ex-
tração mineral que obviamente precisa ser feita em sua fonte de origem na terra, etc.
É simples notar que, especialmente no que diz respeito às aplicações técnicas moder-
nas que atualmente não são empregadas, a grande maioria dos bens que sustentam a
vida podem ser produzidos nas proximidades de onde devam ser utilizados.

Como será descrito com mais detalhes na parte III deste texto, há uma linha de
raciocínio tecnicamente eficiente em relação à proximidade quando se trata da ex-
tração, produção, distribuição e eliminação ou reciclagem de resíduos. O resultado
ao final seria a preservação de enormes quantidades de recursos e energia humana
- preservação de uma capacidade que, de fato, poderia ser realocada no caso de
necessidade de desenvolver mais projetos, ao invés de descartada como mero des-
perdício através do modelo de mercado atual.310

130
Como uma nota final sobre esse assunto de como a competição limita a eficiência
técnica da produção industrial, aumentando o desperdício - a realidade da “multipli-
cidade” de bens é outro problema. Toda a produção de empresas concorrentes entre si
é normalmente orientada em torno de estatísticas históricas sobre qual é sua “cota de
mercado” e quantos bens elas podem, em média, vender por região; paralelamente,
o próprio fato de várias empresas, que trabalham no mesmo gênero de produção de
bens, produzirem produtos quase idênticos, com apenas pequenas diferenças, só con-
tribui para as fontes desnecessárias de desperdício.

Como também será descrito na próxima subseção, a ideia de, por exemplo,
várias empresas de telefonia celular competirem por participação de mercado com
simples variações de projetos, consequentemente gerando ineficiências relativas
nos mesmos como estratégia para obter melhor custo-benefício, aliado à ausência
geral de compatibilidade entre os componentes em vista do benefício financeiro
de estabelecer padrões de marcas e compatibilidades de sistemas, cria uma outra
complexa rede de ineficiência.311

Obviamente, a partir da perspectiva da eficiência técnica, uma única e coletiva


empresa de telefonia celular, que produzisse o estrategicamente melhor, com o design
universalmente mais adaptável e compatível, não só seria mais respeitosa com o meio
ambiente, mas também criaria um uso tremendamente mais fácil e eficiente, já que os
problemas de reparo de peças e de incompatibilidades seriam drasticamente reduzidos.

Costuma-se argumentar, no entanto, que a busca competitiva e as resultantes


variações de produtos oriundas da busca, entre empresas concorrentes, por cotas de
mercado seria uma forma de apresentar novas ideias ao público. No entanto, também
se poderia alcançar esse método por meio de sistemas de feedback direto em massa que
esclareceriam as necessidades do público, juntamente com uma campanha emergen-
te de conscientização sobre o que é possível, no momento, realizar, dada a evolução
empírica do avanço tecnológico.

(b) A segunda questão aqui, como já dito, tem a ver com a forma como a
concorrência afeta a própria inovação ou desenvolvimento criativo. Conquanto
ainda exista hoje a suposição de que recompensas distintas pela contribuição de
alguém motiva outras pessoas a buscarem a mesma recompensa, o que também
é uma comum justificativa sobre a existência de “classes”, estudos sociológicos
modernos apontam visões conflitantes.312 A ideia de que os seres humanos são
motivados por uma necessidade inerente de “vencer” os outros, ganhando, por
exemplo, mais recompensas materiais e financeiras que os outros, não tem jus-
tificativa confiável fora a visão intuitiva extraída da condição do mercado, por
design altamente competitivo e voltado para a escassez, em que a humanidade
encontra-se hoje.

131
No entanto, mais uma vez, o debate sociológico pode ser posto de lado, enquanto
o contexto é como a competição se relaciona diretamente com o mercado e a efi-
ciência técnica. Resumindo, o sistema competitivo procura sigilo quando se trata de
ideias de negócio, em geral universalmente, contra o fluxo de livre conhecimento. O
uso de patentes e direitos autorais ou “segredos comerciais” não perpetua o avanço da
inovação, como muitos defensores do mercado competitivo assumem - mas o retarda.

É muito interessante pensar sobre o que o conhecimento significa, como é ger-


ado e como é estranho alguém reivindicar racionalmente “propriedade” sobre uma
ideia ou invenção. Em nenhum momento da história humana qualquer indivíduo por
si mesmo chegou a uma ideia que não tivesse sido gerada em série por muitos an-
tes dele. A culminação histórica do conhecimento é um processo social e, portanto,
qualquer reivindicação de propriedade de uma ideia por pessoa ou corporação é in-
trinsecamente defeituosa. O termo semieconômico usual usado hoje é “usufruto”,
que significa “o direito legal de usar e aproveitar os frutos ou benfeitorias de algo
que pertence a outrem”.313 Na realidade, porém, todos os atributos de cada ideia em
existência hoje, no passado, e para sempre no futuro, têm, sem exceção, um ponto de
origem distintamente social e não pessoal.

Torna-se óbvio que a noção de propriedade intelectual, ou seja, a posse de meros


pensamentos e ideias, manifestou-se a partir do período da história humana em que
a criatividade de uma pessoa se tornou atada a sua sobrevivência pessoal. Em um
sistema econômico onde as ideias das pessoas têm a capacidade de gerar renda para
elas, a noção desse tipo de propriedade torna-se relevante. Afinal, se você “inventar”
algo no sistema moderno que possa gerar vendas e, consequentemente, ajudar na
sua sobrevivência econômica, seria extremamente ineficiente, do ponto de vista do
mercado, permitir que a ideia seja “open-source”, uma vez que os outros, buscando a
própria sobrevivência, provavelmente se aproveitariam rapidamente da invenção de
modo a explorá-la financeiramente.

Também é fácil notar como o fenômeno do “ego” se manifesta na ideia de proprie-


dade intelectual, uma vez que a base de recompensa em tal sistema tem, invariavel-
mente, um laço psicológico com o senso de autoestima pessoal. Se uma pessoa “inven-
ta” algo, transforma-o numa propriedade intelectual, explora-o por lucro e, em seguida,
compra uma casa grande e uma extensa propriedade, o seu “status” como ser humano é
tradicionalmente elevado na medida das normas estabelecidas pela cultura - essa pessoa
é considerada um “sucesso”.

No entanto, se pararmos para pensar sobre isso de um modo geral, o compartilha-


mento de conhecimento não tem um resultado negativo fora da premissa econômica
de propriedade para fins de exploração por lucro. Não há nada a perder e, sem dúvida,
muito a ganhar socialmente através da partilha de informação. Voltando ao anterior

132
exemplo deste ensaio, de empresas concorrentes de telefonia celular, perceberemos
que dentro dos limites das reuniões de diretoria, onde frequentemente marqueteiros,
designers e engenheiros consideram como em geral melhorar seu produto, o compar-
tilhamento de suas ideias é fundamental.

No entanto, imagine se essa reunião fosse estendida de uma vez a todas as empre-
sas de telefonia celular, onde elas não só poderiam remover suas artificiais e pouco
úteis perspectivas de mercado, concebidas para tomar a fatia de mercado de outras
concorrentes (como através de truques estéticos), elas poderiam trabalhar para produ-
zir cumulativamente a “melhor” combinação. Estendendo ainda mais, e se todos os
projetos fossem de “domínio público”, no sentido de que qualquer pessoa no mundo
que tivesse interesse em ajudar a melhorar uma ideia fosse capaz disso?

Os esquemas de design de um telefone celular poderiam ser expostos publica-


mente com um sistema de interação técnica, onde pessoas de todo o mundo pode-
riam ajudar, se possuíssem a habilidade, na eficiência técnica e utilidade do design.
Embora este seja um exemplo hipotético abstrato, é claro que o resultado de uma
abordagem aberta à troca de informações facilitaria uma explosão de criatividade
e produtividade nunca antes vista. Como será discutido na Parte III, a remoção do
sistema de mercado monetário é crítica para a facilitação dessa capacidade.

Trabalho por Remuneração


O núcleo do sistema de mercado é a venda do trabalho de um indivíduo como uma
mercadoria. Em muitos aspectos, a capacidade do mercado de empregar a população
tornou-se uma medida de sua integridade. No entanto, o advento da “mecanização”,
ou automação do trabalho humano, tornou-se, no decorrer do tempo, um ponto cada
vez maior de interferência.314 Historicamente, a aplicação tecnológica de máquinas
no trabalho tem sido vista como uma questão não só de progresso social, mas também
de progresso “econômico” no sentido do mercado, principalmente devido ao aumen-
to da produtividade.

O pressuposto básico é que a mecanização (ou ampla inovação tecnológica) facil-


ita a expansão industrial e, portanto, uma realocação inevitável do trabalho deslocado
pelas máquinas para novos setores emergentes. Esse é um modo usual de defender
a mecanização.315 Historicamente falando, parece que isso contém alguma verdade,
pois o problema da redução da força de trabalho humano em um setor - como foi o
caso com a automação da agricultura no Ocidente - foi superado em certa medida
pelo avanço de outros setores de atividade, como o moderno setor de serviços. No en-
tanto, essa suposição de que a inovação tecnológica gerará novas formas de emprego
em harmonia com os deslocados por ela, estabelecendo um equilíbrio, é realmente
pouco defensável se levarmos em conta a taxa de mudança na inovação, juntamente
com os interesses de redução de custos das empresas.316

133
Quanto a este último, o “papel” da mecanização do ponto de vista da eficiência
de mercado é quase que exclusivamente o de assistir a relação “custo-benefício”. A
robótica, nos dias de hoje, supera em muito a capacidade física do ser humano médio,
contando que há um rápido avanço nos processos de cálculo que continuam a exceder
largamente o raciocínio humano. O resultado é a capacidade da indústria em empregar
máquinas, o que, invariavelmente, tem mais capacidade produtiva do que o trabalho
humano, juntamente com o incentivo financeiro extremamente notável de reduzir a
dependência dos proprietários de negócios de muitas formas. Conquanto as máquinas
requeiram manutenção, elas não precisam de seguro de saúde, seguro-desemprego,
férias, proteção sindical e muitos outros atributos característicos do trabalho humano
dos dias de hoje. Portanto, na estreita lógica inerente à busca pelo lucro, é natural que
as empresas sempre busquem a mecanização, dadas as suas vantagens de custo em
longo prazo e, portanto, de eficiência de mercado.

Quanto à sugestão de que o equilíbrio será sempre finalmente encontrado entre os


novos papéis de trabalho e a mão de obra deslocada devido à inovação tecnológica,
o problema é que a taxa de mudança do desenvolvimento tecnológico excede em
muito a taxa de novas criações de trabalho.317 Este problema é único, pois também
se assume que a sociedade humana sempre necessitará novas formas de emprego.
É nesse ponto que os valores culturais subjetivos devem ser considerados. Tendo
em conta que a nossa condição sociológica atual exige o emprego humano como a
espinha dorsal da sustentabilidade do mercado, portanto, da eficiência de mercado, a
ética do “trabalho” e suas associações de identidade, culturalmente, têm perpetuado
um conceito em que a real função do trabalho - a sua verdadeira utilidade - torna-se
menos importante do que o simples ato de trabalhar.318

Assim como a eficiência de mercado não considera o que, em geral, realmente


está sendo comprado e vendido, desde que se mantenha o consumo cíclico a um ritmo
aceitável, os papéis de trabalho assumidos hoje na produção são igualmente arbitrários
do ponto de vista do mercado. Em tese, poderíamos imaginar um mundo onde as pes-
soas estão sendo pagas para fazer o que poderia ser considerado ocupações “inúteis”, do
ponto de vista de utilidade, gerando altos níveis de PIB praticamente sem uma verda-
deira contribuição social. De fato, mesmo hoje nós poderíamos voltar atrás e perguntar
a nós mesmos qual é o papel social de muitas instituições, e talvez chegar à conclusão
de que elas servem somente para manter o dinheiro em movimento, não para criar ou
realmente contribuir com qualquer coisa tangível em benefício da sociedade.

Essas são questões filosóficas complexas, pois elas desafiam a ética tradicional
dominante e a própria natureza do que o “progresso”, sob vários aspectos, realmente
significa. Por exemplo, vale a pena considerar o seguinte exercício de pensamento.
Imagine se revertêssemos nosso sistema social para o século 16, onde muitas realidades
tecnológicas modernas (século 21) eram inéditas.

134
A população daquela época teria, naturalmente, expectativas bem aquém do que
seria tecnicamente possível obter em relação ao que é geralmente aceito como pos-
sível hoje. Se esta sociedade fosse capaz de implementar da noite para o dia a capaci-
dade tecnológica massiva da era moderna, há pouca dúvida de que praticamente todo
o núcleo de sobrevivência da população poderia ser automatizado. Então a questão
passa a ser o que eles fariam com essa liberdade recém descoberta? Qual seria o
foco cultural de suas vidas se o trabalho penoso fundamental à sobrevivência fosse
removido? Será que eles inventariam novos trabalhos simplesmente porque podem?
Será que eles evoluiriam, preservando e incorporando essa nova liberdade através de
uma alteração do próprio sistema social, com a remoção do anteriormente necessário
“trabalho por remuneração”? Essas perguntas chegam à raiz do que são realmente o
progresso, objetivos pessoais, sociais e o sucesso.

No entanto, um valor cultural dominante nos dias de hoje é o de “ganhar a vida”


trabalhando, e a aplicação da mecanização, no sentido da eficiência do mercado, é
na verdade uma faca de dois gumes. Enquanto que o custo-benefício é inerente à
mecanização e, consequentemente, o aumento geral do lucro reduzindo os custos
para os empresários, a dispensa de trabalhadores humanos, conhecida hoje como
“desemprego tecnológico”, realmente funciona contra a eficiência de mercado na
medida em que os trabalhadores desempregados ficam incapazes de contribuir para
o consumo cíclico necessário que alimenta a economia, uma vez que perderam seu
poder de compra como “consumidores”.

Esta contradição dentro do modelo capitalista é singular. Do ponto de vista da


eficiência do mercado, a mecanização, portanto, representa tanto um resultado pos-
itivo quanto negativo nesse sentido, e quando percebemos que a taxa de mudança
tecnológica irá, com toda a probabilidade, dispensar as pessoas cada vez mais rapida-
mente do que novos setores de emprego poderão ser criados, a mecanização se torna
cada vez mais aparente como um fator inibidor para o capitalismo. Nessa circunstân-
cia, há, como resultante, uma diminuição da eficiência de mercado.

Entretanto, por outro lado, do ponto de vista da eficiência técnica, novamente ve-
mos grande melhora e imensas possibilidades em muitos níveis. A capacidade de pro-
dução permitida através dessa implantação mostra claramente um aumento poderoso,
em termos de eficiência, em relação não apenas ao efeito da produção industrial, mas
também um aumento da eficiência geral dos próprios bens, pela capacidade de precisão
e integridade inerente a essa produção. Além disso, uma implicação desse novo nível
de eficiência de produção é que a satisfação das necessidades da população mundial
nunca foi tão possível. É fácil ver que sem a interferência da lógica de mercado sobre
esta nova capacidade técnica, que, invariavelmente, inibe o seu potencial, o que poderia
ser considerado, relativamente, uma “abundância” da maioria dos bens de manutenção
da vida poderia ser proporcionado para a população global.319

135
Escassez vs. Abundância
“A oferta e a procura” é uma relação usual de mercado que expressa, em parte,
como o valor de um recurso ou bem é proporcional ao quanto dele existe ou está
disponível. Por exemplo, os diamantes são considerados quantitativamente mais
raros e, por conseguinte, de valor mais elevado do que a água, que pode ser en-
contrada em abundância no planeta. Da mesma forma, certas criações humanas, se
criadas em pequenas quantidades, também estão sujeitas a essa dinâmica, mesmo
que a noção de raridade seja culturalmente subjetiva, como o fato de uma única tela
de um artista renomado chegar a valer em uma venda muitas e muitas vezes o valor
dos recursos reais empregados.320

Do ponto de vista da eficiência de mercado, a escassez, em geral, é uma coisa boa.


Enquanto extrema escassez é, de fato, desestabilizante tanto para a indústria quanto
para a economia como um todo (“crises”), a forma mais otimizada dentro da qual o
sistema de mercado pode existir é uma espécie de pressão equilibrada de escassez, daí a
garantia da demanda em produzir venda. Mais uma vez, as exigências vitais das pessoas
não são reconhecidas nessa equação.

Satisfazer as necessidades humanas na forma de alimentação, habitação, circun-


stâncias de baixo estresse para a saúde mental, etc, é algo totalmente “externo” aqui
e não tem relação direta com a eficiência de mercado. Satisfazer as necessidades
humanas diretamente seria, mais uma vez, ineficiente para a lógica do mercado, uma
vez que eliminaria a pressão da escassez, que incentiva o consumo cíclico. Dito de
outra forma, há uma necessidade de desequilíbrio a fim de abastecer essa pressão de
demanda, e esse desequilíbrio pode vir de várias formas.

Dívida, por exemplo, é uma forma de escassez imposta que coloca uma pessoa
em uma posição na qual deve submeter-se frequentemente a um trabalho que pode
ser de uma natureza mais “exploradora” - isto é, a recompensa (normalmente o
salário) é grosseiramente desproporcional ao que é necessário para que o indivíduo
mantenha um padrão saudável de vida. Nesse caso, o sistema de dívida facilita uma
forma distinta de eficiência de mercado beneficiando o empregador, já que a facili-
dade de baixar os salários (custo-benefício) aumenta naturalmente com o aumento
dos níveis de dívida privada.

Quanto mais em dívida as pessoas estiverem, mais provável é que elas se sub-
metam a trabalhos com baixos salários, dessa forma gerando mais lucro para os
empresários. Na verdade, a mesma lógica pode ser aplicada ao uso de “trabalhos
clandestinos” no terceiro mundo, não regulados legalmente, que são frequen-
temente “explorados” por empresas ocidentais. Excessivas horas de trabalho,
juntamente com salários muito baixos são comuns - ainda assim essas pessoas
literalmente não têm escolha a não ser aceitar, já que não existem outras opções

136
de sobrevivência na sua região, muitas vezes devido à dívida resultante de medi-
das de austeridade.321

Na verdade, o controle no fornecimento total de dinheiro é baseado na escassez


generalizada, visto que, como dito anteriormente, todo o dinheiro de hoje é feito
através de dívidas e este dinheiro de dívida é vendido no mercado como uma mer-
cadoria por meio de “empréstimos”, com o acréscimo de juros associados de forma
a gerar lucro para os bancos. No entanto, este lucro dos “juros”, que nada mais é do
que dinheiro, não é criado na fonte de dinheiro. Por exemplo, se um indivíduo toma
um empréstimo de 100 dólares e paga 5% de juros sobre o empréstimo, o indivíduo
é obrigado a pagar 105 dólares. Mas, em uma economia onde todo o dinheiro passa
a existir através de empréstimos, essa a realidade, só existe mesmo o “principal” ($
100) na fonte de dinheiro, a “receita financeira” (US$5) é inexistente.

Portanto, existe sempre mais dívida do que o dinheiro necessário para pagá-la.
Além disso, uma vez que os pobres são os maiores responsáveis ​​pelos emprés-
timos, geralmente feitos para casas, carros, etc, e os ricos mantêm um superávit
financeiro, esta pressão geral de endividamento tende a cair sobre as classes mais
baixas, agravando o problema inerentemente insuperável de estar endividado e,
portanto, com opções limitadas. Neste modelo, a falência, por exemplo, não é um
resultado de algumas más decisões financeiras - mas é uma consequência inevitável
- como o jogo da “dança das cadeiras”.322

Então, voltando ao ponto central, a realidade da escassez no sistema econômico


atual é uma fonte de grande eficiência para o mercado, porque se as pessoas tivessem
suas necessidades básicas atendidas, ou se elas fossem capazes de atender a essas ne-
cessidades sem a pressão externa da dívida insolúvel que mantém os desequilíbrios,
o consumo cíclico, os lucros e o crescimento sofreriam. Apesar de parecer perverso
a nossa intuição e humanidade o fato de manter as pessoas com privações ser uma
condição positiva para o funcionamento do mercado, essa é a realidade.

Desnecessário dizer que, do ponto de vista da eficiência técnica, em que o ser


humano é visto como uma máquina bioquímica com uma necessidade universal por
nutrição básica, estabilidade e outros requisitos psicossociais, que se não alcançados
podem resultar em doenças, tanto físicas como psicológicas, pode-se reconhecer o
estado dissociado do bem-estar humano e social da “lógica de mercado”.323

Como último ponto sobre a questão, o mercado procura sempre a manutenção de


problemas. Na verdade, pode-se afirmar, genericamente, que a ineficiência técnica
é a condutora da eficiência de mercado. A resolução de problemas não é uma busca
do mercado, uma vez que criaria uma diminuição no faturamento e, portanto, uma
perda no ganho e de movimentação monetária. O resultado disso, em parte, é um re-

137
forço perverso que incentiva a busca ou mesmo o agravamento geral dos problemas.
Um século atrás a ideia de vender água engarrafada teria soado estranha, dada a sua
abundância geral e fato de não ser poluída. Nos dias de hoje, essa é uma indústria an-
ualmente multimilionária derivada principalmente da poluição da água que ocorreu
devido a práticas industriais irresponsáveis.324 O lucro e os empregos agora associa-
dos a essa realidade tecnicamente ineficiente de poluição e destruição de recursos,
têm aumentado, uma vez mais, a eficiência do mercado econômico necessária para
manter a continuação do consumo cíclico.

Conclusão
A eficiência de mercado, genericamente falando, nos leva a uma “macro” e “mi-
cro” realidade. Na escala macro tudo o que pode aumentar as vendas, crescimento ou
consumo, independentemente da pressão de demanda originária, ou o que está real-
mente a ser comprado e vendido, é considerado eficiente nesse contexto. Na escala
micro, essa eficiência toma a forma de condições que podem permitir o aumento do
lucro e a redução dos custos (“custo-benefício”) dos negócios.

Essa “eficiência” inerente ao capitalismo opera sem qualquer respeito pelos


custos sociais ou ambientais de seu processo, apenas para manter o consumo cí-
clico e o lucro, e o mundo que você vê ao seu redor, cheio de desordem ecológica,
privação humana e instabilidade geral, social e ambiental, tem sido o resultado
disso. Por outro lado, a eficiência técnica, que se poderia caracterizar como um
obstáculo para a eficiência do mercado, procura manter o meio ambiente, a saúde
humana e, essencialmente, o equilíbrio do mundo natural. A redução de resíduos,
a resolução de problemas, e a manutenção do alinhamento com a lei natural; é a
lógica do senso comum encarnada.

É lamentável perceber que hoje temos dois sistemas opostos de economia fun-
cionando ao mesmo tempo - e que trabalham um contra o outro, na verdade. O
sistema de mercado, que incorpora a sua tradicional lógica arcaica, é totalmente
fora de sincronia com a economia (técnica) natural na forma como existe. O re-
sultado é uma grande dissonância e desequilíbrio, sempre com novos problemas
e consequências para a espécie humana. Está claro qual sistema vai “ganhar” essa
batalha. A natureza vai persistir com as suas regras naturais, independentemente de
quanto teorizemos sobre esta ou aquela validação da forma como tradicionalmente
nos organizamos neste planeta.

A natureza não se preocupa com nossas grandes ideias monetárias e econômicas,


suas teorias de “valor”, nem com os modelos financeiros sofisticados ou equações de-
talhadas a respeito de como pensamos que o comportamento humano se manifesta e
por quê. A realidade técnica é simples: aprender, adaptar e alinhar com as leis que re-
gem a natureza, ou sofrer as consequências. É absurdo pensar que a espécie humana,

138
tendo em vista a sua evolução dentro das mesmas leis naturais às quais nossa prática
econômica (e valores) devem se alinhar, seja incompatível com tais leis. Trata-se
apenas de uma questão de maturidade e consciência.

Finalizando com uma nota à parte, há uma tendência emergente no século XXI, na
esteira de todos os crescentes e persistentes problemas ecológicos, que pretende se-
guir a chamada “economia verde”. Alguns têm até mesmo dividido esse ponto de vis-
ta econômico em setores, incluindo aplicações para a energia renovável, ecoedifícios,
transporte limpo e outras categorias de foco325. Notar-se-á que todas essas percepções
e aplicações potenciais estão, em geral, alinhadas com a perspectiva técnica ou cientí-
fica discutida neste ensaio.

Infelizmente, por mais positiva que seja a intenção dessas novas organizações
e planejadores de negócios, a ineficiência inerente ao modelo econômico capital-
ista - com toda a sua necessidade de certas formas de “eficiência” artificial para se
manter - imediatamente polui e limita profundamente todas essas tentativas, o que
explica porque tais abordagens técnicas eficientes ainda não foram realmente aplica-
das. A triste realidade é que, apesar de ser possível implementar algumas melhorias,
qualquer progresso será inerentemente limitado em um grau cada vez maior, já que,
conforme descrito, a base estrutural na qual o capitalismo de mercado funciona é
ativamente contrária às eficiências inerentes à visão das leis naturais. A única solução
lógica é repensar toda a estrutura existente, caso almejemos, em longo prazo, uma
verdadeira eficiência, prosperidade elevada e soluções de problemas.

139
Notas e Referências: Capítulo 9

[276] Fonte: Manual de instruções para a Espaçonave Terra [Operating


Manual for Spaceship Earth], R. Buckminster Fuller, 1968, Capítulo 6

[277] Ludwig von Mises em sua famosa obra Cálculo Econômico na


Commonwealth Socialista argumenta que o “mecanismo de preços” é
o único meio possível para entender como criar e movimentar merca-
dorias “eficientemente” em uma economia. Essa crítica de qualquer tipo
de sistema “planejado” tem sido apontada como sacrossanta por muitos
hoje e uma defesa do sistema capitalista. Esta questão será abordada na
parte III.

[278] Referência: Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da


Riqueza das Nações, Adam Smith, 1776, par. IV.9.51

[279] Um texto clássico que empregou esse medo básico era O Caminho
da Servidão, de F.A. Hayek. “A natureza humana” tinha uma implicação
muito clara, justificada fundamentalmente pelas tendências históricas
do totalitarismo sugeridas como associadas a economias colaborativas/
planejadas.

[280] Referência: “Um Espaço Seguro de Operação Para a Humanidade”,


Nature, 461, 472-475, 24 de setembro de 2009, doi: 10.1038 / 461472a.

[281] Enquanto alguns historiadores muitas vezes situam o alvorecer do


método científico na Grécia antiga, A Renascença, começando por volta
do século 16, parece ser um período mais importante de descoberta
significativa e aceleração. Galileu (1564 - 1642) é considerado hoje por
alguns como o “pai” da ciência moderna. No entanto, esses entendimen-
tos emergentes espalharam muito pouco interesse interesse no domínio
econômico.

[282] A interrupção dos processos dos ecossistemas pela ação humana


tem mostrado claras consequências negativas. Poluição, desmatamen-
to, perda de biodiversidade e muitas outras características comuns do
estado atual do mundo hoje revelam um desalinhamento profundo com
as realidades simbióticas / sinérgicas imutáveis do
​​ nosso habitat ao qual
estamos vinculados. Referência: http://www.globalchange.umich.edu/
globalchange1/current/lectures/kling/ecosystem/ecosystem.html

[283] Ver o ensaio Definindo a Saúde Pública.

[284] Ver o ensaio História da Economia

[285] O uso do termo “eficiência do mercado” aqui não deve ser confun-
dido com outros significados históricos. O conceito é novo para este en-
saio. Sentido tradicional: http://www.investopedia.com/articles/02/101502.
asp#axzz2H9lWlQwR

140
[286] O termo “economia” em grego [Oikonomia] significa “gestão de
uma família - parcimônia”; Assim, e·co·no·mi·zar, ou “aumentar a eficiên-
cia”.

[287] As recessões são tipicamente definidas como “um declínio signifi-


cativo na atividade econômica disseminado em toda a economia.” (http://
www.investopedia.com/ask/answers/08/cause-of-recession.asp#ax-
zz2HzEmQsvq)

[288] “Crescimento econômico” definido: http://www.investopedia.com/


terms/e/economicgrowth.asp#axzz2H9lWlQwR

[289] Uma reação comum dos bancos centrais em épocas de recessão


é aumentar a “liquidez” na economia. Liquidez é simplesmente a quan-
tidade de capital que está disponível para investimento e gastos. O
Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, tipicamente gere a
liquidez, ajustando as taxas de juros.

[290] O “ciclo de negócios” é muitas vezes pensado em cinco etapas:


crescimento (expansão), pico, recessão (contração), fundo e recuper-
ação. (http://www.investopedia.com/terms/b/businesscycle.asp#ax-
zz2IGANj1hr)

[291] De acordo com um relatório de 2010 do Fórum Econômico Mundial,


o crédito global (ou de fato, a dívida) duplicou de $57 trilhões para $109
trilhões de 2000 a 2010. Ele também prevê $210 trilhões em crédito glob-
al (dívida) em 2020. (http://www.weforum.org/reports/sustainable-cred-
it-report-2011)

[292] De acordo com o Federal Reserve, a partir de 2009 a dívi-


da total dos EUA (Pública e Privada) foi de cerca de $51 trilhões.
(https://www.federalreserve.gov/datadownload/Download.as-
px?rel=Z1&series=654245a7abac051cc4a9060c911e1fa4&file-
type=csv&label=include&layout=seriescolumn&from=01/01/1945&-
to=12/31/2010) Se compararmos isto à oferta de dinheiro existente,
conforme medido pelo M3, que é a medida mais ampla, vemos que a
partir de dezembro 2012 ela foi de cerca de $15 trilhões. * (http://www.
shadowstats.com/charts/monetary-base-money-supply ) Nota: O M3 foi
descontinuado em relatórios pelos EUA. No entanto, os seus números
podem ser extrapolados baseados em medidas que o compõem.

[293] Por exemplo, nos EUA, a indústria de “capital de risco”, que es-
sencialmente investe dinheiro em novos negócios, foi de 21% do PIB
em 2010. (http://www.nvca.org/index.php?option= comcontent & view =
artigo & id = 255 & Itemid = 103) De acordo com um artigo de 2012 na
revista The New Republic: “os seis maiores bancos em nossa economia
(EUA) agora tem ativos totais de mais de 63% do PIB” (http://www.tnr.
com/article/politics/shooting-banks#)

[294] Ver o ensaio História da Economia onde a noção da “mão invisível”

141
de Adam Smith é discutida.

[295] Como uma nota histórica, engenheiro R. Buckminster Fuller usou


esta frase (“mais com menos”) em sua discussão sobre o fenômeno em
sua obra “Manual de instruções da Espaçonave Earth”, de 1968

[296] O famoso computador ENIAC da década de 1940 continha 17.468


tubos de vácuo, junto com 70 mil resistores, 10.000 capacitores, 1.500
relés, 6.000 interruptores manuais e 5 milhões de juntas soldadas. Ele
cobria aproximadamente 168 metros quadrados de área útil, pesava 30
toneladas e consumia 160 quilowatts de energia elétrica. Custou cerca de
$6 milhões em valores atuais. Hoje, um telefone celular barato, de bolso,
calcula substancialmente mais rápido do que o ENIAC. (http://inventors.
about.com/od/estartinventions/a/Eniac.htm)

[297] Referência: A Lei de Retornos Acelerados, Ray Kurzweil (http://


www.kurzweilai.net/the-law-of-accelerating-returns)

[298] A noção de “estrategicamente otimizada” será abordada na parte


III, mas é importante notar aqui que a equação que decide o que é para
ser usado na construção de qualquer coisa, tecnicamente, não envolve
apenas as propriedades dos materiais “ideais”, mas a utilidade relativa de
materiais relacionados (com propriedades semelhantes) que podem alter-
ar o componente material necessário para o uso devido a outros fatores
de “eficiência”relacionados, como o abastecimento de recursos.

[299] Charles Kettering, Diretor da General Motors em 1929, escre-


veu sobre a necessidade de “manter o consumidor insatisfeito” (1929)
(http://www.wwnorton.com/college/history/archive/resources/documents/
ch27_02.htm). O banqueiro de Wall Street Paul Mazur escreveu: “Temos
de mudar a América de uma cultura de necessidades para uma cultura
de desejos. As pessoas devem ser treinadas a desejar... a querer coisas
novas, mesmo antes que as antigas sejam totalmente consumidas. Temos
de dar forma a uma nova mentalidade na América “. (Harvard Business
Review, 1927)

[300] Em 1932, o industrial Bernard London propagou um panfleto bem


conhecido intitulado ‘Acabando com a depressão (econômica) através
da Obsolescência Planejada’, que dispõe sobre a necessidade deste
modelo.

[301] Referência: Obsolescência Planejada: A conspiração da lâm-


pada de bulbo [Planned Obsolescence: The Light Bulb Conspiracy],
ESSA, 2012 (http://economicstudents.com/2012/09/planned-obsoles-
cence-the-light-bulb-conspiracy/)

[302] Como um exemplo simples, a partilha de bicicletas na Europa


tornou-se comum. (http://www.treehugger.com/cars/bike-sharing-now-in-
100-european-cities.html)

142
[303] Como um aparte, a única razão pela qual esta exceção da bibliote-
ca tem persistido é por causa de uma tradição posta em prática há muito
tempo, que viu a necessidade desta partilha de conhecimento como
fundamental para o desenvolvimento humano. A tradição de bibliotecas
compartilhadas remonta a milhares de anos.

[304] Em sua obra, “A era do acesso” [The Age of Access], Jeremy Rifkin
coloca questões semelhantes, afirmando: “Em uma sociedade onde
praticamente tudo é acessado, contudo, o que acontece com o orgulho
pessoal, obrigação e compromisso atrelados à propriedade? E com a au-
to-suficiência? Sendo que as propriedade estão ligadas à independência.
A propriedade é o meio pelo qual nós ganhamos um sentido de autono-
mia pessoal no mundo. Quando acessamos os meios de nossa existên-
cia, nós nos tornamos muito mais dependentes de outros. Enquanto nós
nos tornamos mais conectados e interdependentes, não corremos o
risco de, ao mesmo tempo tornarmos-nos menos auto-suficientes e mais
vulneráveis? “ (P. Tarcher / Putnam, 2000, p.130)

[305] Referência: A Influência da hierarquia social na Saúde dos pri-


matas [The Influence of Social Hierarchy on Primate Health], Ronabert
M. Sapolsky, Science 29 de abril de 2005: Vol. 308 nº. 5722 pp. 648-
652 DOI: 10.1126 / science.1106477 (http://www.sciencemag.org/con-
tent/308/5722/648.abstract)

[306] Referência: Sobre as defesas tradicionais de competição como fon-


te de inovação: Concorrência e Inovação: Uma Relação em U Invertido
(http://www.nber.org/papers/w9269)

[307] Ver o ensaio anterior, História da Economia, e seu tratamento em


Thomas Malthus, que via o mundo como incapaz de apoiar a população
e foi influente na sua opinião.

[308] O economista canadense Jeff Rubin fez esta observação bem no


que diz respeito às tendências dos preços do petróleo: “O que vamos
encontrar é que não vai fazer sentido para produzir coisas do outro lado
do mundo, não importa o quanto os custos do trabalho estão baratos lá,
quando é tão caro para transportar as coisas.” (http://www.npr.org/tem-
plates/story/story.php?storyId=104466911)

[309] Isto é mencionado de passagem, para apontar os extensos


avanços modernos em métodos agrícolas que não são baseados em
massas de terra aráveis ​​tradicionais. “Agricultura vertical”, por exemp-
lo, tem demonstrada ter imensas possibilidades em uma escala global,
removendo as restrições regionais comuns para a produção agrícola.
Sugestão de leitura: A Fazenda Vertical: Alimentar o mundo no século
XXI [The Vertical Farm: Feeding the World in the 21st Century], Dickson
Despommier, Thomas Dunne Books, 2010

[310] É importante notar, como será discutido na parte III, que essa
noção de transformar a ineficiência ou desperdício de recursos e energia

143
inerente à economia de mercado em produtividade real se situa no cerne
da capacidade da sociedade humana, não só para transcender o ambi-
ente de escassez que temos hoje, mas ultrapassá-lo bastante com uma
abundância.

[311] A coisa mais próxima hoje que tenta superar os problemas e os


resíduos gerados por componentes proprietários, ou seja, componentes
que só podem vir do fabricante, é o sistema padrão ISO. No entanto, este
sistema, na verdade, faz muito pouco para superar o verdadeiro proble-
ma e é principalmente sobre a conformidade com os padrões básicos
de qualidade, não adaptabilidade universal de componentes de toda a
indústria global. (Ref: http://www.iso.org/iso/home.html)

[312] Referência: Sem Concurso: O caso contra competição [No Contest:


The Case Against competition], Alfie Kohn, Boston, Boston: Houghton
Mifflin, 1986

[313] Fonte: Merriam-Webster.com (http://www.merriam-webster.com/dic-


tionary/usufruct)

[314] Um olhar sobre estatísticas históricas do trabalho dos EUA por


setor mostra o padrão de automação de máquinas substituindo o tra-
balho humano definitivamente. No setor agrícola, a quase totalidade do
fluxo de trabalho tradicional é agora feito por uma máquina. Em 1949, as
máquinas fizeram 6% da colheita de algodão no sul do país. Em 1972,
100% da colheita de algodão foi feita por máquinas. [Fonte: The Har-
vester Cotton in Retrospect: Labor Displacement or Replacement?, Willis
Peterson, St Paul, 1991, pp 1-2]. Em 1860, 60% da América trabalhava na
agricultura, enquanto hoje esse número é inferior a 3%. [Fonte: Why job
growth is Stalled, Fortune, 3/8/93 p.52]. Em 1950, 33% dos trabalhadores
norte-americanos trabalharam no setor industrial de manufatura, enquan-
to em 2002 havia apenas 10%. [Fonte: http://usatoday30.usatoday.com/
money/economy/2002-12-12-manufacture_x.htm] A indústria siderúrgi-
ca dos EUA, entre 1982-2002 aumentou a produção de 75 milhões de
toneladas para 120 milhões de toneladas, enquanto os trabalhadores de
aço passaram de 289.000 para 74.000. [Fonte: Será que o “Will ‘Made
in the USA’ fade away?, Nelson D. Schwartz, Fortune 24 de novembro de
2003, p. 102] Em 2003, a Alliance Capital fez um estudo das 20 maiores
economias do mundo na época, que vão desde o período de 1995 a
2002, descobrindo que 31 milhões de empregos industriais foram perdi-
dos, enquanto a produção, na verdade, aumentou em 30%. [Fonte: US
Weekly Economic Update: Manufacturing Payrolls Declining Globally: The
Untold Story, Alliance Bernstein outubro 2003] Esse padrão de aumento
da produtividade e do lucro, juntamente com a diminuição do emprego, é
um fenômeno novo e poderoso.

[315] Ver a subseção sobre o economista David Ricardo no ensaio:


História da Economia

[316] O economista Stephen Roach advertiu em 1994, “O setor de

144
serviços perdeu o seu papel como motor desenfreado da América na
criação de emprego.” (Fonte: Entrevista, 15/03/94, no livro ‘O fim dos
Empregos’ [The End of Work] por Jeremy Rifkin, Pinguim p.143) Exemplos
disso incluem: De 1983-1993, os bancos cortaram 37% de seus aten-
dentes humanos (caixas), e no ano 2000, 90% de todos os clientes do
banco usavam caixas eletrônicos (Fonte:. “Retooling Lives”, Vision, 2000
p 43) Telefonistas, quase todos, foram substituídos por sistemas de voz
computadorizados de resposta, caixas de correios estão sendo substituí-
dos por máquinas de auto-atendimento, enquanto os caixas estão sendo
substituídos por quiosques informatizados. O McDonalds, por exemplo,
tem falado sobre a automatização completa dos seus restaurantes por
muitos anos, a introdução de quiosques para substituir os atendentes de
caixa, enquanto que o uso de ferramentas de cozinha automatizadas,
como espátulas para virar hambúrguer, para desespero do pessoal da
cozinha. (Fonte: http://www.techdirt.com/articles/20030801/1345236F.sht-
mls) O fato de que eles não o fizeram é provavelmente um problema de
relações públicas, pois eles sabem quantos empregos seriam cortados
no caso dessa automação ser adotada de maneira desimpedida.

[317] Referência: A Lei de Retornos Acelerados, Ray Kurzweil (http://www.


kurzweilai.net/the-law-of-accelerating-returns) Embora o contexto deste
artigo, sobre o avanço exponencial da capacidade tecnológica, não faça
referência a mecanização, é claramente evidente assumir a sua relevân-
cia desta forma, particularmente no que diz respeito ao que pode ser
chamado de “cibernação”, que é a combinação de máquinas e computa-
dores nitidamente, criando “inteligência” em máquinas.

[318] A ligação entre ter um “trabalho” e auto-estima tornou-se cada vez


mais poderosa. Referência: Desemprego e Desesperança: A ligação
entre desemprego e suicídio (http://www.huffingtonpost.com/2011/04/15/
unemployment-and-suicide_n_849428.html)

[319] Este não é um conceito utópico uma vez que extrapolações es-
tatísticas básicas provam esta grande melhoria da eficiência e da capaci-
dade de produção, em muitos níveis. Um exemplo simples, embora não
exaustivo em suas variáveis, é a obsolescência do conceito de “horas de
trabalho”, na produção em fábricas industriais. O dia de 8 horas, comum
ao trabalho humano, poderia se manifestar em quase 24 horas de tra-
balho, por meio de automação com máquinas. Este exemplo rude mostra
como “abundâncias” podem ser criadas para produtos de suporte a vida.

[320] O quadro de Edvard Munch “O Grito” foi vendido por US $ 119 mil-
hões, em 2012. Se fôssemos comparar o valor material real do trabalho,
na forma física, foi vendido por cerca de 10-15.000 vezes o seu valor
material em tintas e tela. (http://www.huffingtonpost.com/2012/05/02/the-
scream-auction-edvard-munch_n_1472529.html)

[321] Referência: Caos Econômico, Empréstimos, Grécia e ‘Corporatoc-


racia’, John Perkins, 2011 (http://www.huffingtonpost.com/john-perkins/
economic-chaos-loans-gree_b_901949.html)

145
[322] Referência: Rede de Dívidas, Ellen Hodgson Brown, Third Millenni-
um Press, 2008

[323] Por favor, veja o capítulo anterior: Definindo Saúde Pública

[324] Referência: Água e Poluição do Ar, History.com (http://www.history.


com/topics/water-and-air-pollution)

[325] Referência: (sobre a “economia verde”) Como você define a ‘econo-


mia verde’ ?, MNN, 2009 (http://www.mnn.com/green-tech/research-inno-
vations/blogs/how-do-you-define-the-green-economy)

146
Capítulo 10

Distúrbio do Sistema de Valores

“Acredito que ganância e competição não são resultado


de um temperamento humano imutável; cheguei à conclusão
de que a ganância e o medo da escassez estão, de fato, sendo
continuamente criados e amplificados como resultado direto do
tipo de dinheiro que estamos usando...A consequência direta é
que temos de lutar uns com os outros para sobreviver.”326
- Bernard Lietaer -

Genes do Pensamento
Dado o ritmo relativamente lento de mudança do ser humano com relação à
evolução biológica, as vastas mudanças sociais que ocorreram ao longo dos últimos
4000 anos de história registrada aconteceram devido à evolução do conhecimento
- daí a “evolução cultural”. Se desejamos buscar um mecanismo para a evolução
cultural, é útil considerar a noção de “meme”.327 Definidos como “uma ideia, com-
portamento, estilo, ou o uso que se espalha de pessoa para pessoa dentro de uma
cultura”, memes são considerados análogos sociológicos ou culturais a genes,328 que
são “unidades funcionais (biológicas) que controlam a transmissão e expressão de
uma ou mais características”.

Enquanto os genes basicamente transmitem dados biológicos de pessoa para pessoa


através da hereditariedade, memes transmitem dados culturais - ideias - de pessoa para
pessoa através da comunicação humana em todas as suas formas.329 Quando reconhec-
emos, por exemplo, o poder do avanço tecnológico ao longo do tempo, e como isso
mudou drasticamente nosso estilo de vida e valores e continuará a fazê-lo, pode-se
visualizar este fenômeno emergente global como uma evolução das ideias, com infor-
mações replicantes e mutantes, alterando a cultura conforme o tempo avança.

Diante disso, poderíamos gestualmente ver o estado mental humano e suas pro-
pensões para a ação como um tipo de programa. Da mesma forma que os genes
codificam um conjunto de instruções que, em conjunto com outros genes e o ambi-
ente produzem resultados sequenciais, o processamento de memes pela capacidade

147
intelectual dos seres humanos, em comum acordo, criam padrões de comportamento
de uma forma semelhante. Enquanto o “livre arbítrio” é certamente um debate com-
plexo para se ter com relação ao que realmente desencadeia e manifesta as decisões
humanas, é fundamentalmente claro que as ideias das pessoas são limitadas pela sua
absorção (educação). Se é dado pouco conhecimento sobre o mundo a uma pessoa,
seu processo de decisão será igualmente limitado.330

Da mesma maneira que os genes podem sofrer mutações de formas que são preju-
diciais ao seu hospedeiro, como o fenômeno do câncer331, os memes também podem
gerar estruturas mentais que servem de malefícios para o hospedeiro (ou sociedade)
no que diz respeito às transmissões ideológicas / sociológicas. É aqui que o termo
“distúrbio” é introduzido. O distúrbio é definido como “um transtorno ou anormal-
idade da função”332. Portanto, quando se trata de operação social, um distúrbio im-
plicaria em enquadramentos ideológicos institucionalizados que estão desalinhados
com o sistema governante maior. Em outras palavras, eles são imprecisos no que diz
respeito ao contexto em que eles tentam existir, muitas vezes criando desequilíbrio e
desestabilização prejudicial.

Claro, a história está cheia de ideias inicialmente em transição e desestabilizadoras,


e essa evolução intelectual em curso é claramente natural e necessária para a condição
humana, pois não há tal coisa como um entendimento “absoluto”. No entanto, a dif-
erenciação a ser feita aqui é o fato de que quando as ideias persistem por um período
suficientemente longo, muitas vezes elas criam conexões emocionais, no nível pessoal
(“identidade”), e estabelecimentos institucionais, no nível cultural, que tendem a per-
petuar uma espécie de reforço circular, geralmente resistente à mudança e à adaptação.

Reconhecer nossa evolução intelectual como um processo sem fim e estar aberto a
novas informações para ajudar a nos alinhar a práticas sustentáveis é claramente uma
ética necessária, tanto no nível pessoal quanto no social, se esperamos manter uma
adaptação positiva no contexto da evolução cultural. Infelizmente, existem poderosas
forças culturais que trabalham contra este interesse no mundo de hoje. Estruturas
ideológicas e codificadas na infraestrutura social atual333 trabalham ativamente con-
tra essa necessidade crítica de adaptação cultural. Uma analogia seria a inanição de
nossas células biológicas pela remoção de oxigênio do ambiente – mas no caso cul-
tural estamos restringindo nossa susceptibilidade ao aprendizado e adaptação, com o
conhecimento sendo o “oxigênio” pelo qual nós, enquanto espécie, somos capazes de
resolver problemas e continuar o progresso.

Este distúrbio é, como será descrito, inerente à tradição do mercado capitalista.


Não são apenas as decisões que estão sendo feitas, conscientemente ou não, contra
os interesses da adaptação que perpetuam efeitos prejudiciais em muitos níveis – é
também o sistema de valores – o emprego de “identidade” e um senso normalizado de

148
tradição, que carregam um força poderosa problemática. Esta situação é agravada ain-
da mais quando o propósito almejado (ou que parece ser almejado) por tais intenções
se relaciona diretamente com nossa sobrevivência e existência. Não há nada mais
pessoal para nós do que a forma como nós nos identificamos, e o sistema econômico
que nos engloba é invariavelmente uma característica definidora de nossas mental-
idades e visão de mundo. Se há algo de errado com este sistema, então isso implica
que há algo errado com nós mesmos, uma vez que somos nós que o perpetuamos.

Distúrbio do Sistema de Valores


Assim como o câncer é em parte um distúrbio do sistema imunológico, tradições
sociológicas que persistem com uma crescente formação de problemas para a socie-
dade poderiam ser chamadas de um distúrbio do sistema de valores.334 Este distúr-
bio tem a ver com uma espécie de psicologia estruturada em certas premissas que
receberam crédito ao longo do tempo com base apenas em sua persistência cultural,
aliado ao auto-reforço de si próprias. Quanto maior o contexto social do distúrbio,
geralmente mais difícil é sua resolução – para não mencionar a dificuldade de seu
mero reconhecimento.

Na escala de um sistema social, torna-se ainda mais difícil quando a sociedade


como um todo está constantemente sendo condicionada à dinâmica de sua própria
estrutura, frequentemente criando reações de auto-preservação poderosas sempre
que sua integridade é questionada. Estes, que poderiam ser chamados de “mecanis-
mos fechados de feedback (retroalimentação) intelectual”, são o que compreendem
a maioria dos argumentos em defesa de nosso sistema socioeconômico atual, assim
como os de gerações anteriores. Na realidade, isso parece ser uma tendência soci-
ológica geral, já que, novamente, a identidade das pessoas é invariavelmente asso-
ciada aos sistemas de crenças dominantes e instituições em que elas foram criadas.

Nas palavras de John McMurtry, Professor Emérito de Filosofia da Universi-


dade de Guelph, no Canadá: “Na última idade das trevas (período medieval), pode-se
pesquisar as investigações preservadas de pensadores desta era, de Agostinho até...
Ockham, e falhar em descobrir uma única página de crítica ao quadro social estabele-
cido, por mais absurdos racionalmente possam ser a servidão feudal, o paternalismo
absoluto, o direito divino dos reis e o restante. Na ordem final atual, será que é tão dif-
erente? Podemos ver em qualquer meio de comunicação ou até mesmo em imprensa
de universidades um parágrafo de claro desmascaramento de um regime global que
condena um terço de todas as crianças à desnutrição, sendo que há mais comida do
que suficiente disponível? Em tal ordem social, o pensamenot torna-se indistinguível
da propaganda. Pode-se falar apenas sobre uma única doutrina, e uma casta sacerdo-
tal dos peritos nesta doutrina prescreve as necessidades e obrigações para todos... A
consciência social está encarcerada dentro de um tipo de lógica cerimonial, operan-
do completamente dentro da estrutura recebida de um aparato regulatório prescrito

149
exaustivamente para proteger os privilégios dos privilegiados. A censura metódica
triunfa travestida de rigor acadêmico, e o único espaço restante para pesquisar o pens-
amento torna-se o jogo de racionalizações concorrentes.”335

Tais reações também são comuns no que diz respeito às práticas estabelecidas
em áreas específicas. Por exemplo, Ignaz Semmelweis P. (1818 -1865), um médi-
co húngaro que descobriu que a febre puerperal poderia ser drasticamente reduzida
com a simples lavagem padrão das mãos em clínicas obstétricas – essencialmente
prenunciando a agora plenamente aceita teoria de doenças dos germes – foi evitado,
rejeitado e ridicularizado por sua descoberta. Não foi até muito tempo depois de sua
morte que sua realização muito básica foi respeitada. Hoje, alguns usam a frase “O
Reflexo Semmelweis” como uma metáfora para a tendência, semelhante a um re-
flexo, de rejeitar novas evidências ou novos conhecimentos porque contraria normas
estabelecidas, crenças ou paradigmas.336

No geral, uma vez que um determinado conjunto de ideias tem a confiança de


um número suficientemente grande de pessoas, torna-se uma “instituição” - e uma
vez que a instituição torna-se dominante de alguma forma, como por existir por um
determinado período de tempo, essa instituição poderia então ser considerada “esta-
belecida”. “Estabelecimentos institucionais” são simplesmente tradições sociais que
dão a ilusão de permanência, e quanto mais tempo elas persistem, geralmente mais
intensa é a defesa de seu direito de existir pela maioria da cultura.

Se examinarmos os estabelecimentos institucionais que nós aceitamos hoje –


desde atributos de sistemas macro, como o sistema financeiro, o sistema jurídico, o
sistema político e os principais sistemas religiosos – para atributos de sistemas micro,
tais como o materialismo, o casamento, celebridade, etc – devemos nos lembrar que
nenhuma dessas ideias são realmente verdadeiras no sentido físico. São estruturas
‘memes’ temporais que criamos para servir aos nossos propósitos considerando as
condições em certos momentos; e não importa o quanto nós nos vinculemos emocio-
nalmente a estas questões, não importa quão grande possa se tornar uma instituição;
não importa quantas pessoas possam acreditar em tais instituições – elas ainda são
imposições do pensamento e transitórias por natureza.

Então, voltando ao contexto do distúrbio do sistema de valor, o capitalismo de


mercado, enquanto indiscutível e profundamente dissociado da realidade física,
e fonte da vasta maioria dos problemas sociais do mundo atual, mantém-se em
seu lugar por meio de um conjunto de valores culturalmente reforçados e esta-
belecimentos de poder, aos quais a sociedade é fundamentalmente condicionada
e geralmente inclinada a defender. Ele se faz cada vez mais poderoso em sua
persuasão, já que o distúrbio do sistema de valores dominante hoje nasce de pres-
supostos relativos à crucial sobrevivência humana em si.

150
Características da Patologia
Para se fazer uma avaliação crítica de uma forma de pensar já existente, é necessário
criar um referencial básico aceito mutuamente. “O relativismo cultural”337 é uma noção
antropológica que se refere ao fato de que diferentes grupos culturais geram diferentes
percepções de “verdade” ou “realidade”. “Relativismo moral”338, que é uma noção
semelhante, tem a ver com a variação do que é considerado “correto” ou “ético”. Ao
longo da história humana, essas distinções tornaram-se crescentemente mais estreitas
e têm cada vez mais reduzido a “integridade relativa” de diversas crenças, desde a rev-
olução científica do pensamento causal do Renascimento em diante.

O fato é que as crenças não são iguais em sua validade. Algumas são mais ver-
dadeiras do que outras e, portanto, algumas são mais disfuncionais do que outras no
contexto da vida real. O método científico de chegar a conclusões é a referência defin-
itiva sobre o qual a integridade dos valores humanos pode ser medida, e esta realidade
moderna desmistifica a defesa “relativista” comum da crença humana subjetiva. Não
se trata de “certo” e “errado”, mas sobre o que funciona ou não. A integridade de
nossos valores e crenças só é tão boa quanto a forma como ela está alinhada com o
mundo natural. Esta é a base comum que todos nós compartilhamos.

Este conceito está diretamente relacionado com a sustentabilidade no contexto


mais amplo da própria sobrevivência humana, já que um sistema social sustentável
naturalmente deve ter valores sustentáveis ​​para facilitar e perpetuar a estrutura. In-
felizmente, a bagagem evolutiva de nossa história cultural manteve estruturas de va-
lores que são tão poderosas, e ainda assim tão claramente dissociadas da realidade,
que nossas suposições pessoais e sociais de felicidade, sucesso e progresso contin-
uam a ser profundamente pervertidas e existem em discordância com as leis gover-
nantes de nosso habitat e natureza humana. O ser humano, de fato, tem uma natureza
comum e enquanto nada parece 100% universal em relação às espécies, algumas
pressões e causadores de estresse podem gerar, em média, graves problemas de saúde
pública.339 Da mesma forma, se nossos valores apoiarem comportamentos que não
estão em conformidade com a nossa sustentabilidade física no planeta Terra, então,
naturalmente, podemos esperar problemas cada vez maiores em nível ambiental.340

O sistema de valores dominante que o modelo socioeconômico capitalista per-


petua é, sem dúvida, profundamente patológico à condição humana porque os me-
canismos relacionados com a sobrevivência e recompensa compõem apegos emo-
cionais e formas de auto-preservação os quais estão, essencialmente, enraizados em
uma espécie de desespero e medo primitivo. O ethos fundamental é de uma pressão
anti-social motivada pela escassez, o que obriga todos os jogadores do jogo a ser-
em geralmente exploradores e antagônicos tanto dos outros quanto do habitat. Isso
também criou pressões que evitam a facilitação dos interesses sociais devido a uma
consequente perda de lucro341, promovendo esta disparidade emocional induzida

151
pelo estresse. O resultado é um ciclo vicioso de abuso geral, egoísmo mesquinho e
descaso social e ambiental.

Claro que, historicamente, essas características cáusticas são geralmente defen-


didas simplesmente como “assim que as coisas são” - como se a nossa psicologia
evolutiva devesse ficar presa neste estado. Na verdade, se as doutrinas psicológicas
alardeadas da teoria tradicional de mercado são verdadeiras (“utilitarismo neoclássi-
co”) sobre os nossos limites aparentes em relação a uma estrutura social “viável”, en-
tão o desequilíbrio, destruição ambiental, opressão, violência, tirania, transtornos de
personalidade, guerra, exploração, ganância egoísta, materialismo fútil, concorrência
e outras realidades tão divisionistas, desumanas e desestabilizadoras são simples-
mente inalteráveis e, portanto, toda a sociedade deve não fazer nada, apenas trabalhar
em torno dessas inevitabilidades com quaisquer “controles” que possamos colocar
em prática para “gerenciar” essas realidades da condição humana. É como se o ser
humano estivesse condenado a um distúrbio mental grave e incurável - um retardo
fixo - que simplesmente não pode ser superado, de modo que tudo na sociedade deva
ser alterado em torno dele em uma tentativa de lidar com isso.

No entanto, quanto mais vivemos como seres humanos; quanto mais na história
somos capazes de ver a nós mesmos ao longo das gerações; quanto mais formos ca-
pazes de comparar os comportamentos de diferentes culturas pelo mundo e através
da história - mais claro se torna que a nossa capacidade humana está sendo inibida
diretamente por uma estrutura arcaica de recompensa e sobrevivência que continua a
reforçar valores primitivos e desesperados e, enquanto tais valores possam ter servido
a um papel evolutivo no passado, o presente e o futuro prenunciado deixam, indis-
cutivelmente, esses padrões comportamentais expostos como prejudiciais e insuste-
ntáveis, como a íntegra deste texto expressou longamente.

Paralisia da Auto-preservação
Enquanto cada um de nós, geralmente, deseja sobreviver, e em um esta-
do saudável, naturalmente preparados para defender essa sobrevivência caso
necessário, a auto-preservação no atual contexto socioeconômico estende, desnec-
essariamente, essa tendência de forma que inibe severamente o progresso social
e a resolução de problemas. Na verdade, pode-se dizer que essa preservação em
curto prazo ocorre muitas vezes às custas da integridade em longo prazo.

O exemplo mais óbvio disso tem a ver com a natureza fundamental da busca
e manutenção de uma renda, a força vital do sistema de mercado e, por extensão,
da sobrevivência humana. Uma vez que um negócio seja bem-sucedido em gan-
har participação no mercado, geralmente sustentando funcionários juntamente com
proprietários, o negócio gravita, naturalmente, para um interesse em preservar essa
cota de mercado, que gera renda, a todos os custos. Associações profundas de va-

152
lores são geradas a partir do momento em que o negócio não é mais apenas uma
entidade arbitrária que produz um bem ou serviço - é agora um meio de sustentar a
vida para todos os envolvidos.

O resultado é uma batalha constante e socialmente debilitante, não só com os con-


correntes que também buscam o mesmo mercado consumidor, mas com a inovação
e a mudança em si. Embora o progresso tecnológico seja uma progressão constante
e fluida no nível científico, o contexto da economia de mercado vê essa emergência
como uma ameaça às ideias existentes e rentáveis atualmente. Níveis enormes de
“corrupção” histórica, surgimento de cartel e monopólio e de outros movimentos
defensivos dos negócios existentes podem ser vistos ao longo da história, cada ato
buscando garantir a produção de renda, independentemente dos custos sociais.342

Outro exemplo tem a ver com a neurose psicológica construída a partir do incenti-
vo de recompensa baseada em crédito, o qual é inerente ao sistema de mercado. Em-
bora esteja intelectualmente claro que nenhuma pessoa inventa coisa alguma, dada a
realidade de que todo o conhecimento é gerado em série e, invariavelmente, é cumu-
lativo ao longo do tempo, a característica de “propriedade” da economia de mercado
cria uma tendência não só em reduzir o fluxo de informações por meio de patentes
e “segredos comerciais”, mas também reforça a ideia de “propriedade intelectual”,
apesar da real falácia dessa noção em si mesma.

No nível do sistema de valores, isso transformou-se na noção de um direito a levar


“crédito” por algo e, daí, as muitas associações do “ego” com ideias apresentadas ou
“invenções”. Hoje no mundo, esse fenômeno ganhou vida própria com uma tendência
de muitos dos que contribuem frequentemente buscarem elevar o status de seu “crédito”
pela ideia, mesmo que eles sejam, claramente, mais uma vez, parte de um continuum
maior do que eles mesmos. Enquanto o apreço pelo tempo e trabalho de uma determi-
nada pessoa pelo progresso de uma ideia é um incentivo social produtivo e fundamental
para o nosso senso de propósito em ação, a perversão da propriedade intelectual e todos
os seus atributos inventados estendem essa satisfação operante a uma distorção.

De fato, na escala mais larga de culminação do conhecimento, tais atos de “val-


orização” inevitavelmente tornam-se irrelevantes na memória histórica. Hoje, por
exemplo, quando usamos um computador moderno para auxiliar nossas vidas, nós
raramente pensamos sobre os milhares de anos de estudo intelectual que descobriram
as dinâmicas científicas essenciais envolvidas, nem a enorme quantidade de tempo
gasto por praticamente inúmeras pessoas para facilitar a “invenção” de uma ferra-
menta na sua forma atual.

É somente no contexto da manifestação do ego e da segurança da recompensa


monetária que isso se torna um valor “natural”, pela sua relação com o sistema

153
de mercado. Se as pessoas não reclamarem o “crédito”, elas não serão recom-
pensadas ​​e, portanto, não vão ganhar sua sobrevivência por essa contribuição no
mercado. Assim, essa condição tem agravado esta neurose que é invariavelmente
sufocante para o progresso através do compartilhamento do conhecimento.

Além disso, distúrbios associados à “auto-preservação” do mercado podem assumir


muitas outras formas, incluindo o uso do governo como uma ferramenta343, a poluição
do meio acadêmico e da própria informação344 (já que as instituições de ensino são sus-
tentadas por receitas também), e até mesmo as relações interpessoais cotidianas.345 O
medo inerente à perda dos meios de subsistência naturalmente substitui quase tudo e até
mesmo a pessoa mais “ética” ou “moral”, quando confrontada com o risco da não-so-
brevivência, pode, geralmente, justificar ações que seriam tradicionalmente chamadas
de “corruptas”. Essa pressão é constante e é, em parte, a fonte da frequentemente de-
nominada “criminalidade” e da paralisia social que vemos hoje.

Competição, Exploração e Guerra de Classes


Com base no ponto anterior, a exploração, que é inerente à moldura mental com-
petitiva, tem permeado a essência do que, comumente, significa ter “sucesso”. Vemos
a retórica de “levar vantagem” em muitas facetas de nossas vidas. O ato de manipular
e explorar por ganho competitivo tornou-se uma força subjacente da cultura moderna
muito além do contexto do sistema de mercado. A atitude de ver os outros e o mundo
como apenas um meio a se “conquistar”, e de manter a si próprio ou um determinado
grupo na dianteira, está gerando uma distorção psicológica que pode ser encontrada
nos relacionamentos amorosos, amizades, estruturas familiares, nacionalismo e até
mesmo em como nos relacionamos com o habitat que estamos inseridos - em que
buscamos explorar e desprezar os recursos ambientais pelo ganho pessoal de curto
prazo e vantagem. Todos os elementos de nossas vidas são, necessariamente, vistos
da perspectiva de “o que eu posso tirar disso?”.

Um estudo realizado no Departamento de Psicologia da Universidade da Cal-


ifórnia, em Berkeley, em 2011, constatou que: “... os indivíduos da classe alta
se comportam de forma mais antiética do que os indivíduos de classe baixa...
indivíduos da classe alta estavam mais propensos a infringir a lei enquanto diri-
giam, em relação aos indivíduos de classe mais baixa. Nos estudos em laboratório
que se seguiram, os indivíduos da classe alta estiveram mais propensos a apresen-
tar tendências de tomada de decisões antiéticas, levar bens de valor dos outros,
mentir em uma negociação, trapacear para aumentar suas chances de ganhar um
prêmio e endossar o comportamento antiético no trabalho quando comparados
aos indivíduos de classe mais baixa. Dados mediadores e moderadores demon-
straram que tendências antiéticas dos indivíduos da classe alta são explicados,
em parte, por suas atitudes mais favoráveis ​​à ganância.”346 Estudos dessa nature-
za são muito interessantes, pois revelam que o argumento comum, ao defender

154
o atual sistema social, sobre a natureza humana de as pessoas inevitavelmente
“serem competitivas e exploratórias”, em circunstâncias extremas, é ultrapas-
sado. Relações de classe não são relações genéticas, ainda que as nuances de
propensões individuais possam ser discutidas. Esse estudo expressa um fenôme-
no cultural global, pois é axiomático assumir que a atitude geral de desrespeito
pelas consequências negativas externas, o chamado “comportamento antiético”
expressado pela classe alta, é resultado dos ​​tipos de valores necessários para se
alcançar a posição de realmente se tornar “classe alta”.347

Na retórica poética cotidiana, essa intuição tem sido considerada verdadeira ao lon-
go dos séculos na observação de que aqueles que alcançam “sucesso” nos negócios,
muitas vezes, são “insensíveis” e “cruéis”. Parece haver uma perda geral de empatia
naqueles que alcançam esse tal “sucesso” e é óbvio, intuitivamente, o porquê desse
ser o caso, dado o distúrbio do sistema de valores da competição despreziva inerente
à psicologia do sistema de mercado. No geral, quanto mais carinhoso(a) e empáti-
co(a) você for, menor a probabilidade de você obter sucesso financeiramente - não é
diferente dos esportes em geral, onde você não ajuda um jogador adversário atingir
seus objetivos pois assim você estará mais propenso a perder.

Em geral, as classes mais baixas são socialmente mais humanas em muitos


aspectos. Por exemplo, pesquisas mostram que os pobres dão uma maior porcent-
agem de sua renda (4,3%) para a caridade do que os ricos (2,1%). Um estudo de
2010 concluiu que: “...os indivíduos de classe mais baixa são mais generosos...
caridosos... confiáveis... e prestativos... em comparação com os indivíduos da
classe alta. Dados mediadores e moderadores mostraram que os indivíduos de
classe baixa agiram de uma forma mais pró-social por causa de um maior com-
prometimento com valores igualitários e sentimentos de compaixão. São discuti-
das implicações para a classe social, comportamento pró-social e desigualdade
econômica.”348349 Um estudo realizado pelo Chronicle of Philanthropy utilizando
dados fiscais da Receita Federal dos Estados Unidos, mostrou que as famílias
que ganham entre US$50.000 e US$75.000 por ano dão uma média de 7,6% de
sua renda discricionária para a caridade. Isso se compara a 4,2% para as pessoas
que ganham US$ 100.000 ou mais. Em alguns dos bairros mais ricos, com uma
grande parcela de pessoas que ganham US$200.000 ou mais por ano, a taxa de
doação média foi de 2,8%.350351

Sucesso Status
Uma peça fundamental do modelo capitalista é a suposição implícita de que
aqueles que mais contribuem devem ganhar mais. Em outras palavras, presume-se
que para se tornar, digamos, um bilionário, você deve ter feito algo importante e
útil para a sociedade. Isso é, com certeza, manifestamente falso. A grande maioria
das pessoas extremamente ricas iniciam a sua riqueza a partir de mecanismos que

155
não são socialmente contributivos, quando detalhados e analisados, em qualquer
nível direto ou criativo.352

A engenharia, a resolução de problemas e inovação criativa quase sempre ocorrem


ao nível dos trabalhadores dos escalões inferiores do complexo empresarial, apenas
para serem capitalizados por aqueles que estão no topo (proprietários) que são hábeis
no jogo artificial de gerar um “mercado”. Não se trata de negar a inteligência ou tra-
balho duro daqueles que possuem grandes riquezas, mas mostrar que as recompensas
do sistema são realocadas para aqueles que exploram os mecanismos do mercado,
e não para aqueles que realmente projetam e criam. De fato, um dos setores mais
recompensados da economia global de hoje é o de investimento e finanças.353 Esse é
um exemplo clássico de que ser um analista de “hedge fund” (fundos de cobertura),
movendo dinheiro de um lado para o outro com o mero propósito de ganhar mais
dinheiro, com nenhuma contribuição para o desenvolvimento criativo354, é uma das
ocupações mais bem pagas no mundo de hoje.

Da mesma forma, a própria noção de “sucesso” na cultura de hoje é medida pela


riqueza material por si própria. Fama, poder e outras formas de atenção andam de mãos
dadas com a riqueza material. Ser pobre é ser abominado, enquanto ser rico é ser admi-
rado. Em quase todo o espectro social, aqueles que possuem altos níveis de riqueza são
tratados com imenso respeito. Parte disso tem a ver com um mecanismo de sobrevivên-
cia ditado pelo sistema, como o interesse pessoal em aprender a como também se tornar
um “sucesso” - mas, no geral, se transformou em um fetiche estranho, em que a ideia de
ser rico, poderoso e famoso, não importando como, é a força propulsora.

O distúrbio no sistema de valores em gratificar, em verdade, os mais cruéis e


egoístas de nossa sociedade, tanto por meios financeiros quanto pela adoração e res-
peito público, é uma das consequências mais penetrantes e insidiosas do sistema de
incentivos inerente ao modelo capitalista. Esse distúrbio não só trabalha para ignorar
um verdadeiro interesse em tipos de inovação e resolução de problemas que, ineren-
temente, não trazem retorno monetário, mas também reforça a própria existência do
sistema de mercado, justificando-se por meio da obtenção de status elevado por aque-
les que “ganham” no sistema, independentemente da sua verdadeira contribuição ou
dos custos sociais e ambientais.

O sociólogo Thorstein Veblen escreveu extensivamente sobre o assunto, refer-


indo-se a essa “virtude”, como predatória: “Quando a cultura predatória atinge um
desenvolvimento mais completo, surge uma distinção entre empregos... O homem
“honrado” deve não somente evidenciar a sua capacidade de exploração predatória,
mas também deve evitar o envolvimento com ocupações que não envolvem a ex-
ploração. Os empregos submissos, aqueles que não envolvem a destruição óbvia de
vida e nenhuma coerção espetacular de antagonistas refratários, caem em descrédito

156
e são relegados para aqueles membros da comunidade com deficiência na sua capaci-
dade predatória; ou seja, aqueles aos quais faltam solidez, agilidade, ou ferocidade...
Portanto, o bárbaro forte e capaz da cultura predatória, que é consciente do seu bom
nome... coloca seu tempo nas artes viris de guerra e dedica seu talento a conceber
formas e meios de perturbar a paz. Dessa forma é que se encontra honra.”355
William Thompson, em sua obra “Uma Investigação sobre os Princípios da Dis-
tribuição de Riqueza Mais Propícia para a Felicidade Humana”, reafirma a realidade
dessa influência associativa:
“Nossa posição seguinte é que a riqueza excessiva desperta a admiração e a imitação,
e, desta forma, se difunde a prática dos vícios dos ricos entre o resto da comunidade; ou
produz nela outros vícios decorrentes de sua situação em relação aos excessivamente ri-
cos. Sobre este ponto, nada é mais óbvio do que a operação universal do princípio mais
comum da nossa natureza - o de associação. A riqueza, como um meio de felicidade...
é admirada ou invejada por todos; o comportamento e o caráter que estão conectados
com a abundância dessas coisas boas, sempre vêm à mente associados a ela...”356

Classes e luta de classes são a consequência natural à medida que as associações


de valor à riqueza e ao poder, que se manifestam no sistema atual, tornam-se uma
questão de identidade emocional com o passar do tempo. O interesse pelo status
começa a assumir uma vida própria e gera ações de auto-preservação por parte da
classe alta, que procura manter (ou elevar) o seu status de formas que podem até não
mais se relacionar com dinheiro ou riqueza material. Auto-preservação, neste caso,
estende-se a algo como a dependência de drogas. Assim como um apostador crônico
precisa da descarga de endorfina proporcionada pela vitória para se sentir bem, aque-
les na classe alta muitas vezes desenvolvem compulsões semelhantes em relação à
percepção do estado de seu status e riqueza.

O termo “ganância” é diversas vezes usado para diferenciar aqueles que exploram
modestamente daqueles que exploram excessivamente. A ganância é, portanto, uma
noção relativa, assim como ser “rico” é uma noção relativa. O termo “privação rel-
ativa”357 refere-se ao descontentamento que as pessoas sentem quando comparam
as suas posições com as de outros e percebem que têm menos do que acreditam ter
direito. Esse fenômeno psicológico não tem fim e, no âmbito do sistema de incentivo
capitalista ao sucesso material, a sua presença como um distúrbio grave do sistema
de valores é evidente a nível de saúde mental.

A manutenção das necessidades básicas e de um padrão de vida de qualidade são


importantes para a saúde física e mental, e qualquer coisa além desse equilíbrio, no
contexto de comparação social, tem a capacidade de criar neuroses graves e distorção
social. Não só não existe “ganhador” no final, quando se trata da percepção subjetiva
de status e riqueza, como também muitas vezes há uma dissociação desses elementos
da maior parte da experiência humana, gerando alienação e desumanização de várias

157
maneiras. Essa perda de empatia não tem resultado positivo a nível social. Os valores
de recompensa predatórios inerentes ao sistema de mercado praticamente garantem
um conflito interminável e abuso.358

É claro que há o mito de que essa neurose de buscar “mais e mais” status e riqueza
seja a principal força condutora do progresso social e da inovação. Embora possa
haver alguma verdade básica para esta suposição intuitiva, a intenção, novamente,
não é a contribuição social, e sim a vantagem e o ganho financeiro. É como dizer que
ser perseguido por uma matilha de lobos famintos prontos para te comer é bom para
sua saúde, uma vez que vai mantê-lo correndo. Apesar de certas realizações estarem
indubitavelmente ocorrendo, a força condutora (intenção), novamente, tem pouco a
ver com essas realizações, e os subprodutos nocivos e a inerente paralisia de ordem
maior invalidam a ideia de que os valores de competição, ganância material e o status
são fontes legítimas de progresso social.

Na verdade, o epidemiologista Richard Wilkinson extrapolou uma comparação


entre países ricos orientada pela disparidade de renda presente em cada população.
Verificou-se que os países com menor disparidade de renda na verdade eram mais
inovadores359, e quando consideramos que a valorização da competitividade tem um
grande papel no que diz respeito a quão grave é a diferença entre ricos e pobres, é
axiomático considerar que os valores de igualdade e colaboração têm poder mais
criativo do que a retórica do incentivo econômico tradicional alegaria.

Como argumento final nesta subseção, o tema do materialismo e status também


pode ser estendido, semelhantemente, para a questão da vaidade. Apesar de ser um leve
desvio do nosso argumento principal, a cultura de hoje baseada na vaidade apresenta
relação direta com essas forças condutoras de status e medidas de “sucesso” enraizadas
nos incentivos psicológicos inerentes ao sistema capitalista. Levando em consideração
que o sistema de valores de “aquisição” é, de fato, necessário para que o modelo de
consumo funcione, é natural que o marketing e a publicidade gerem uma contínua in-
satisfação, inclusive na maneira como nos sentimos em relação a nossa aparência física.
De fato, um estudo foi realizado há alguns anos na ilha de Fiji, em que a televisão oci-
dental foi introduzida a uma cultura que nunca a tinha experimentado antes. Até o final
do período de observação, o efeito dos valores materialistas e da vaidade teve seu preço.
Uma porcentagem relevante de jovens mulheres, por exemplo, que antes adotava um
estilo de peso saudável e características cheias, tornou-se obcecada em ser magra. Tran-
stornos alimentares, que eram praticamente desconhecidos nessa cultura, começaram a
se espalhar e, especificamente, as mulheres foram transformadas.360

Polarização ideológica e Culpa


Quando o assunto “o que deu errado” com o mundo de hoje é abordado - dada a
geral pobreza, desequilíbrio ecológico, desumanidade, desestabilização econômica

158
e similares - uma polarização no debate, muitas vezes, se desencadeia. Dualidades
como “a direita ou a esquerda” ou “liberal ou conservador” são comuns, o que im-
plica que nas faixas de preferência e compreensão humanas, há uma linha rígida de
orientação que incorpora todas as possibilidades conhecidas.

Junto com isso também há a antiga, mas ainda comum, dualidade de “coletivismo
versus livre mercado”. Em suma, essa dualidade pressupõe que todas as opções de
preferência econômica devem aderir à ideia de que a sociedade deve ser baseada, ou
na suposta vontade democrática de todas as pessoas sob a forma de “livre-comércio”,
ou que um pequeno grupo de pessoas deve estar no controle e dizer às outras o que
fazer. Devido à história negra do totalitarismo que assolou o século XX, uma orien-
tação de valor baseada no medo, que rejeita qualquer coisa que sugira, mesmo que re-
motamente, a aparência de “coletivismo”, é extremamente comum hoje em dia, com
a palavra “socialismo” relacionada muitas vezes de uma maneira depreciativa.361

Como observado antes neste ensaio, o senso de possibilidades das pessoas está
diretamente relacionado ao seu conhecimento - ao que aprenderam. Se as instituições
educacionais e sociais tradicionais apresentarem toda a variação socioeconômica
dentro dos limites fechados de tais quadros de referência, as pessoas provavelmente
irão refletir essa suposição (meme) e perpetuá-la no pensamento e na prática. Se você
não é “abc”, então você deve ser “xyz” - este é o meme do pensamento comum. Até
mesmo o estabelecido sistema político dos Estados Unidos existe nesse paradigma,
pois se você não é um “republicano”, você deve ser um “democrata”, etc.

Em outras palavras, há uma inibição direta das possibilidades e, nesse contex-


to, muitas vezes, uma estrutura de valores que constrói laços emocionais com fal-
sas dualidades se manifesta. Esses valores são, hoje, em muitos níveis, obstáculos
extremos para o progresso. De fato, como um adendo, se a intenção de uma classe
dominante fosse limitar qualquer interferência das classes mais baixas, ela faria
com que o senso de possibilidades das pessoas fosse limitado.362

Por exemplo, o suposto problema da “intervenção do Estado” no livre mercado,


um tema constante dos apologistas do capitalismo, diz, essencialmente, que, já que
várias políticas e práticas do governo limitam o livre comércio de alguma forma363,
essa é a fonte do problema que gera a ineficiência do mercado. Esse jogo de culpa, de
fato, vai e volta entre os que afirmam que o mercado que é o problema e aqueles que
afirmam que é a interferência do Estado no mercado.364

O que não se fala é sobre a realidade que rompe essa dualidade de que o Estado,
na sua forma histórica, é uma extensão do próprio sistema capitalista. O governo não
criou esse sistema. O sistema criou o governo, ou, mais precisamente - os governos se
desenvolveram como um instrumento. Todos os sistemas socioeconômicos têm suas

159
raízes na base do desdobramento industrial e na sobrevivência básica. Assim como o
feudalismo, baseado em uma sociedade agrária, orientou sua estrutura de classe nas
relações com a terra para produção de subsistência, o mesmo é válido para as chama-
das “democracias” do mundo de hoje. Portanto, a ideia de que o governo de estado
não tem relação ou influência do capitalismo é uma teoria puramente abstrata, com
nenhum fundamento na realidade. O capitalismo essencialmente moldou a natureza
do aparato governamental e seu desdobramento - e não o contrário.

Então, quando as pessoas argumentam que a regulação governamental do mercado


é a raiz do problema e que o mercado deve ser “livre”, sem inibição estrutural ou jurídi-
ca, eles estão se confundindo em sua compreensão associativa. Todo o sistema legal,
que é a ferramenta central do governo, será sempre “infiltrada” e usada para ajudar nas
táticas competitivas por parte das empresas de modo a manter e aumentar vantagens,
uma vez que essa é a própria natureza do jogo. Esperar outra coisa é assumir que há
realmente limites “morais” para o ato de concorrência. No entanto, isso é completa-
mente subjetivo. Tais premissas éticas e morais não têm qualquer base empírica, espe-
cialmente quando a própria natureza do sistema socioeconômico é orientada em torno
do poder, da exploração e da competição - tudo isso sendo considerado, de fato, como
as virtudes ideais do “bom empresário”, conforme observado antes.

Se uma instituição que visa lucro ganha poder dentro do governo (que é a in-
tenção exata do “lobby empresarial”) e manipula o aparato governamental para
favorecer com vantagens os seus negócios ou indústria, então isso é simplesmente
um bom negócio. É somente quando os ataques competitivos alcançam níveis altos
de injustiça que se tomam medidas para preservar a ilusão de “equilíbrio”. Vemos
isso com leis antitruste e afins.365 Essas leis são, na realidade, não para proteger o
“livre-comércio” ou algo semelhante - mas para resolver atos extremos de intenções
competitivas inerentes ao mercado, com todos os lados disputando vantagens por
todos os meios possíveis.366

Até mesmo as próprias constituintes de todos os governos do mundo hoje são,


invariavelmente, da classe corporativa-empresarial. Assim, valores profundos dos
negócios são claramente inerentes às mentalidades de quem está no poder. Thorstein
Veblen escreveu sobre essa realidade no início do século 20:
“Os oficiais responsáveis ​​e seus principais chefes administrativos - os quais
podem ser chamados razoavelmente de “governo” ou a “administração”- são, in-
variável e caracteristicamente, retirados das classes beneficiárias; nobres, cavalheiros
ou homens de negócios que aparecem sempre com o mesmo propósito em mãos; o
ponto de tudo isso sendo que o homem comum não chega a esses recintos e não par-
ticipa desses conselhos que supostamente servem para guiar o destino das nações.”367

Assim, argumentar que o “livre mercado” não é “livre” devido à intervenção, é

160
não compreender o que a natureza de ser “livre” realmente significa, no que diz res-
peito ao sistema. A “liberdade” não é a liberdade de todos serem capazes de participar
“igualmente” do mercado aberto e toda a retórica utópica que ouvimos apologistas
do sistema capitalista falar atualmente - a liberdade real é, na verdade, a liberdade
para dominar, suprimir e bater outros negócios por quaisquer meios de competição
possíveis. Aqui, não existe “a Justiça é cega”. Na verdade, se o governo não “inter-
ferisse” por meio de leis antitruste/monopólio ou “socorresse” os bancos e similares
- todo o complexo de mercado teria se auto-destruído há muito tempo. Em parte, essa
instabilidade inerente do mercado é o que economistas, como John Maynard Keynes,
basicamente entenderam, mas, sem dúvida, de uma forma limitada.368

Individualidade Liberdade
Muitas vezes as pessoas falam sobre “liberdade” de uma forma que é mais um gesto
indescritível do que uma circunstância tangível. Ouvimos essa retórica das instituições
políticas e econômicas atuais, de onde são constantemente feitas essas associações de
“democracia” com “liberdade”, tanto no nível da prática tradicional de votação como
no do movimento de dinheiro propriamente dito através do livre comércio independen-
te. Esses memes sociopolíticos também são reforçados de forma polarizada, relativa-
mente, em que constantemente são usados exemplos de opressão e perda de liberdade
nos sistemas sociais anteriores para defender o estado atual das coisas.

As obras criativas de filósofos, artistas e escritores que foram influentes ao


expandir várias noções ideológicas dessa “liberdade”, muitas vezes em detrimen-
to da vulnerabilidade social, aumentando essa polarização dogmática, aumen-
taram ainda mais a composição desses valores.369 Em resumo, uma grande dose
de medo e força emocional existe em torno da noção de mudança social e de
como ela pode afetar as nossas vidas no rumo da liberdade e da individualidade.

No entanto, se dermos um passo atrás e pensarmos sobre o significado de


liberdade, longe desses memes culturais, descobrimos que as noções de liberdade
podem ser relativas dependendo da história humana, assim como os padrões de
vida e até mesmo a própria expressão de si mesmo. Portanto, a fim de decidir o
que é liberdade e como qualificá-la, é preciso medi-la a partir de, por um lado (a)
uma perspectiva histórica, e, por outro, pelas (b) possibilidades futuras.

(a) Historicamente, a preocupação fundamental baseia-se no medo do poder e


do abuso de poder. A história humana é, certamente, em parte, uma perpétua luta
pelo poder. Abastecida por crenças e valores religiosos e filosóficos extremamente
sectaristas, que manifestaram escravidões degradantes, subjugação das mulheres,
genocídios periódicos, perseguições por heresia (liberdade de expressão, ou o que foi
e ainda é conhecido como “livre pensamento”), direito divino de reis e semelhantes,
pode-se argumentar que a história humana, nesse contexto, é uma história de super-

161
stições perigosas e infundadas tornadas sagradas por valores/compreensões primiti-
vas daquelas épocas, em detrimento do bem-estar humano e do equilíbrio social. O
medo e a escassez desses períodos antigos parecem ter ampliado a pior parte do que
se pode considerar a “natureza humana”, muitas vezes em um ciclo vicioso em busca
de poder como uma forma de evitar o abuso de poder.

No entanto, é extremamente importante notar que temos estado em um processo


de transição para longe desses valores e crenças, em geral, arcaicos, com a cultura
global e suas instituições abraçando lentamente a causalidade científica e seu méri-
to no que diz respeito ao que é real e o que não é. Com isso, tornaram-se claras
certas tendências positivas.

Saímos do poder “divino” e supremo dos hereditariamente determinados reis e


faraós para um sistema com uma participação, ainda que muito limitada, do público
em geral através do chamado “processo democrático” na maior parte do mundo. A
exploração humana, o abuso e a escravidão perderam suas defesas comuns de supe-
rioridade religiosa, racial ou de gênero, e aprimoraram-se um pouco, na medida em
que escravidão, hoje em dia, tem a forma menos grave de “trabalho assalariado” - no
contexto mais amplo de associações com “classes” - conforme determinado pelo lugar
de cada um na hierarquia econômica. A economia de mercado, em todas as suas formas
históricas, também tem sido capaz de superar predeterminações do tipo “casta” racial,
uma vez que permite um nível de (limitada) mobilidade social na comunidade, em que
a renda adquirida facilita a “liberdade” de uma forma geral.370

Tais realidades progressistas precisam ser levadas em consideração conforme o


capitalismo, com todas suas falhas, tem servido para ajudar a melhorar certos aspec-
tos da condição social. No entanto, o que não mudou foi a premissa subjacente que
ainda é elitista e preconceituosa na forma como favorece um grupo em detrimento
de outro, tanto estrutural quanto sociologicamente. Apenas que nesse caso, o “grupo”
favorecido não tem mais muito a ver com sexo, raça ou religião - mas com uma espé-
cie de oportunismo forçado e uma mentalidade competitiva que o conduz ao topo da
hierarquia de classes, inevitavelmente às custas dos outros.

Capitalismo, pode-se argumentar, é, na realidade, um sistema de escravidão


pós-moderno com uma nova orientação de valores de “liberdade de concorrência” o
sustentando. Essa noção reinventada de “liberdade” diz, basicamente, que todos nós
somos “livres” para competir uns com os outros e ter o que pudermos. No entanto,
como observado anteriormente, tal estado de “liberdade ampla”, sem abuso, opressão
e vantagem estrutural - é obviamente impossível. Assim, enquanto os defensores do
capitalismo podem apresentar as melhoras sociais que ocorreram desde o seu advento
como evidências de sua eficácia social, temos de reconhecer que a sua forma básica
não se dá pelo interesse pela liberdade humana, mas é um eco de intolerância social

162
que esteve poluindo a cultura por milhares de anos, enraizado em uma psicologia
geral de elitismo e escassez.

Hoje, a verdadeira liberdade está diretamente relacionada à quantidade de din-


heiro que uma pessoa possui. Aqueles abaixo da linha de pobreza têm graves lim-
itações à liberdade pessoal em comparação aos ricos. De forma semelhante, enquanto
os defensores do livre mercado falam, muitas vezes, de “coerção” no contexto do
poder do Estado, a realidade da coerção econômica é ignorada. Teóricos da economia
tradicional constantemente usam uma retórica que sugere que tudo é uma questão de
escolha no mercado, e, se uma pessoa deseja ter um emprego ou não, a escolha é dela.

No entanto, aqueles em situação de pobreza, que são a maioria371, enfrentam


uma severa redução de escolhas. As pressões de sua capacidade econômica lim-
itada criam um poderoso estado coercivo no qual eles não só precisam assumir
empregos que podem não ser apreciados por eles para sua sobrevivência, como
também ficam, muitas vezes, sujeitos a uma ampla exploração, devido a esse mes-
mo desespero, em forma de salários baixos. De fato, a pobreza em geral, nesse
contexto, é uma condição muito positiva para a classe capitalista, pois garante um
custo-benefício em forma de mão-de-obra barata.

Então, novamente, enquanto é possível notar alguma melhora social ao longo


do tempo, essa é, realmente, apenas uma variação de um tema comum de elitismo
geral, exploração e intolerância. A longa história de escassez de recursos e limites de
produção presumidos também compôs esse pensamento, no sentido Malthusiano372,
em que a ideia de todos encontrarem algum nível de igualdade econômica foi consid-
erada simplesmente impossível.

(b) Contudo, a ciência moderna e o desenvolvimento exponencial da aplicação


técnica, juntamente com uma consciência mais profunda sobre a condição huma-
na373, abriram a porta para futuras possibilidades de melhoria social e, de fato, para
uma nova elevação da liberdade em maneiras nunca antes vistas. Essa tomada de
consciência apresenta um problema, já que a possibilidade de alcançar esse novo
nível está profundamente inibida pelos valores e fundações estabelecidos da ordem
social capitalista tradicional. Em outras palavras, o sistema de mercado simplesmente
não pode facilitar essas melhorias, porque a natureza do surgimento destas é contra os
próprios mecanismos do sistema.

Por exemplo, a eficiência hoje possível devido ao nível técnico e científico, se


aplicada corretamente, poderia fornecer um alto padrão de vida a todos os seres hu-
manos na Terra, e também uma remoção do trabalho perigoso e monótono através da
aplicação da mecanização cibernética.374 No mundo de hoje, a grande maioria das
pessoas passam a maior parte de suas vidas trabalhando e dormindo. Muitas dessas

163
ocupações não são apreciadas375 e são, indiscutivelmente, irrelevantes no que diz
respeito ao verdadeiro desenvolvimento e contribuição, pessoal ou social.

Assim, se queremos pensar sobre o significado da liberdade em um nível básico,


isso significa ser capaz de dirigir a sua vida da maneira que você quiser, dentro da
razão.376 Ser capaz de viver a sua vida sem se preocupar com a sua sobrevivência
básica e saúde, ou da sua família, é o primeiro passo. Da mesma forma, o trabalho
para o sistema de renda é uma das instituições mais “não-livres” que poderiam ex-
istir hoje, não só no que diz respeito à coerção econômica inerente, mas também
no que diz respeito à própria estrutura corporativa, que é literalmente uma ditadura
hierárquica de cima para baixo.

Infelizmente, mesmo com essas possibilidades presentes e reais, o distúrbio no


sistema de valores, construído a partir do modelo capitalista e o seu medo e paranóia
em relação a tudo o que é externo, continuará a combater essas possibilidades de es-
tados mais elevados de liberdade. Na verdade, a própria ideia de prestar apoio social
básico na forma de “bem-estar”, ou semelhante, é atacada, em parte, com base no
distanciamento de um mercado livre - o próprio mercado que, na verdade, provavel-
mente criou o estado de miséria daqueles que necessitam de tal assistência.

Como nota final sobre o tema da “liberdade”, a teoria capitalista, tanto histórica
quanto moderna, é desprovida de qualquer relação com os recursos da Terra e suas
leis ecológicas governantes. À parte a consciência primitiva de escassez, que é um
marcador da teoria de valor comum da “oferta e procura”, a natureza científica do
mundo está em falta nesse modelo - é “externa”. Essa omissão, emparelhada com a
realidade exploradora e minimizadora de custos inerente ao sistema de incentivos
do mercado, é o que tem gerado os vastos problemas ambientais, desde esgotamen-
to do solo, à poluição, ao desmatamento, a praticamente tudo o que podemos pensar
em um nível ecológico.

Ao analisar o desenvolvimento inicial dessa filosofia, podemos especular logica-


mente sobre como ela se tornou assim. Dada a grande base de produção agrária e o
minimalismo do início “artesanal” da produção de bens, a nossa capacidade em afetar
negativamente o meio ambiente era inerentemente limitada, na época. Nós simples-
mente não éramos uma grande ameaça, já que a grande estrutura industrial, como a
conhecemos hoje, não tinha evoluído.

Esse desenvolvimento revela que sob a superfície do capitalismo está uma velha
perspectiva, que está se tornando cada vez mais desatualizada, resultando em reper-
cussões recorrentes conforme nossa capacidade tecnológica aumenta a nossa habili-
dade de afetar o mundo. Um paralelo seria a instituição bélica. Valores competitivos
e guerra eram uma realidade tolerável quando o dano causado estava limitado aos

164
primitivos mosquetes de séculos atrás. Hoje, nós temos armas nucleares que podem
destruir tudo.377 Assim, tomando uma visão evolutiva, o capitalismo tem sido uma
orientação de práticas e valores que ajudaram o progresso de determinadas maneiras,
mas todas as evidências agora tendem a mostrar que a imaturidade inerente ao siste-
ma levará a um aumento contínuo dos problemas, se ele persistir.

A “Mercantilização” da Vida
Como um ponto final neste ensaio, a tendência crescente da mercantilização da
vida criou uma profunda distorção de valores no mundo. Desde que “liberdade” tem
sido culturalmente associada a “democracia”, e democracia, no sentido econômico,
tem sido associada com a capacidade de comprar e vender, a mercantilização de
quase tudo o que se pode pensar vem ocorrendo. Os valores tradicionais e a retórica
das gerações passadas, muitas vezes, associou o uso do dinheiro em alguns aspectos
como uma espécie de necessidade “fria”, com alguns elementos de nossas vidas con-
siderados “sagrados” e não vendáveis. O ato da prostituição, por exemplo, em que as
pessoas vendem intimidade por dinheiro, é uma situação em que os valores culturais
costumam se alienar. Na maioria dos países o ato é ilegal, mesmo que haja pouca jus-
tificativa legal já que o próprio envolvimento sexual é permitido. É somente quando
o elemento da compra entra em jogo que ele passa a ser considerado repreensível.

No entanto, tais caracteres sagrados que foram perpetuados culturalmente estão


sendo cada vez mais anulados pela mentalidade de mercado. Hoje, independente-
mente de ser legal ou não, quase tudo pode ser comprado ou vendido.378 Você pode
comprar o direito de se desviar de normas de emissões de carbono,379 você pode mel-
horar sua cela na prisão por uma taxa,380 pode comprar o direito de caçar animais em
perigo de extinção,381 e até comprar a sua entrada em uma universidade de prestígio
sem cumprir os requisitos necessários.382

Torna-se uma situação estranha quando alguns dos atos mais normais, naturais
à vida humana, tornam-se incentivados pelo dinheiro, por exemplo, seu uso para
incentivar as crianças a ler383 ou incentivar a perda de peso.384 Psicologicamente, o
que significa para uma criança ser incentivada pelo dinheiro a realizar seus atos mais
básicos? Como isso afetará o seu futuro senso de recompensa? Essas são questões
importantes em um mundo à venda, onde o princípio orientador de valores é que so-
mente quando se ganha dinheiro fazendo uma ação é que ela vale a pena ser realizada.

Tais valores de mercado aparecem como uma clara distorção social, já que a
própria essência da iniciativa e existência humana está sendo transformada. Embora
possamos não ter extrema preocupação sobre questões aparentemente triviais, como
o fato de uma pessoa poder comprar o acesso a pistas exclusivas para o transporte
coletivo enquanto dirige sozinho385, a maior manifestação de uma cultura construída
sobre bases onde tudo está à venda, é a desumanização da sociedade, já que tudo e

165
todos estão reduzidos a uma simples mercadoria a ser explorada.

Hoje, por mais chocante que possa ser, existem mais escravos no mundo do
que em qualquer outro momento da história humana. O tráfico humano foi e con-
tinua a ser uma indústria enorme de lucro, vendendo homens, mulheres e crianças
em vários contextos.

O Departamento de Estado dos EUA publicou “Estima-se que mais de 27 milhões


de homens, mulheres e crianças em todo o mundo são vítimas daquilo que agora é
frequentemente descrito com o termo genérico de ‘tráfico humano’. O trabalho que
permanece combatendo este crime é o trabalho de cumprir a promessa de liberdade
- liberdade da escravidão para os explorados e liberdade para os sobreviventes con-
tinuarem com suas vidas.”386

Por fim, enquanto a maioria das pessoas que acreditam no sistema capitalista
de livre mercado ficariam eticamente indignadas com esses vastos abusos humanos
que ocorrem no mundo, geralmente fazendo distinções entre formas de comércio
“morais” e “imorais”, o fato em questão é que o próprio conceito de mercantilização
não pode delimitar linhas objetivas, e tais realidades “extremas” são, na verdade,
simplesmente uma questão de grau de aplicação. De um ponto de vista puramente
filosófico, não há diferença técnica entre qualquer forma de exploração de mercado.
A psicologia inerente - o distúrbio do sistema de valores - perpetuou e continuará a
perpetuar um desrespeito predatório dentro da cultura, e apenas quando esse mecanis-
mo estrutural for retirado da nossa própria abordagem de organização social é que as
questões acima mencionadas encontrarão resolução.

166
Notas e Referências: Capítulo 10

[326] Bernard Lietaer é economista, autor e professor, mais conhecido


por seu trabalho em ajudar a projetar o sistema monetário da UE. Citação
da Revista YES! Entrevista com Bernard Lietaer, Beyond Greed and
Scarcity, [Além da Ganância e Escassez], Sarah van Gelder (http://www.
transaction.net/press/interviews/lietaer0497.html)

[327] Fonte: (‘meme’ definided), [‘meme’ definido], Merriam-Webster.com


(http://www.merriam-webster.com/dictionary/meme)

[328] Fonte: (‘gene’ definided), [‘gene’ definido], Merriam-Webster.com


(http://www.merriam-webster.com/dictionary/gene)

[329] O livro de Richard Dawkins, O Gene Egoísta, introduziu o termo


“meme”. Dawkins cita como inspiração os trabalhos do geneticista L. L.
Cavalli-Sforza, do antropólogo F. T. Cloak e do etólogo J. M. Cullen.

[330] A relação inversa entre o aumento da alfabetização/conhecimento


e a crença supersticiosa é clara. De acordo com o Arab Human Develop-
ment Reports das Nações Unidas, menos de 2% dos árabes têm acesso
à Internet. Os árabes representam 5% da população do mundo e ainda
assim produzem apenas 1% dos livros do mundo, a maioria deles religio-
sos. Segundo o pesquisador Sam Harris: “A Espanha traduz mais livros
para o espanhol a cada ano do que todo o mundo árabe traduziu para o
árabe desde o século IX.” É evidente supor que o crescimento da religião
islâmica em Nações árabes é garantido por uma relativa falta de infor-
mações por parte dessas sociedades.

[331] O câncer é um termo usado para doenças em que as células anor-


mais se dividem sem controle e são capazes de invadir outros tecidos.
(http://www.cancer.gov/cancertopics/cancerlibrary/what-is-cancer)

[332] Fonte: (‘disorder defined’), [‘distúrbio definido’], TheFreeDictionary.


com (http://medical-dictionary.thefreedictionary.com/disorder)
[333] Para esclarecer a noção de “codificado”, ele refere-se aos atributos
estruturais, tais como a necessidade de, por exemplo, “competir” para
ter sucesso na economia de mercado. Isto é, construído no contexto do
sistema, ou codificado.

[334] Para esclarecer a frase, o termo “valor” refere-se a uma preferência


ética no sentido pessoal ou cultural, geralmente considerada subjetiva.
Torna-se uma base para a ação. Por exemplo, uma pessoa que acredita
em uma determinada filosofia religiosa pode estabelecer valores em favor
de determinados comportamentos. Um sistema de valores é um conjunto
de valores e medidas consistentes.

[335] The Cancer Stage of Capitalism, [O estágio de câncer do capitalis-


mo], John McMurtry, Pluto Press, 1999, p.6

167
[336] Biografia geral de Ignaz P. Semmelweis: http://semmelweis.org/
about/dr-semmelweis-biography/

[337] “Relativismo cultural” é um princípio que foi estabelecido como ax-


iomático na pesquisa antropológica de Franz Boas durante as primeiras
décadas do século XX.

[338] Semelhante ao “relativismo cultural”, “relativismo moral” é geral-


mente definido como: “qualquer uma das várias posições filosóficas
relacionadas com as diferenças de julgamentos morais em torno de dif-
erentes pessoas e culturas.” (https://www.boundless.com/management/
definition/moral-relativism/)

[339] Favor ver o ensaio/capítulo “Definindo Saúde Pública”

[340] Um exemplo geral seriam os valores de consumo predominantes no


mundo de hoje. O ato de aumentar a propriedade é comum, assim como
mais propriedade ser equiparado ao aumento do sucesso e mais con-
sumo estar relacionado com o crescimento econômico. No entanto, uma
ética tão não-conservativa pode ser considerada insustentável dado que
vivemos em um planeta finito, com recursos finitos. Na verdade, tem sido
defendido por muitos que o “padrão de vida” dos Estados Unidos seria,
no esquema atual das coisas, tecnicamente impossível de ser estendido
ao resto do mundo. De acordo com algumas pesquisas: “A humanidade
está agora utilizando recursos e produzindo dióxido de carbono a uma
taxa 50 por cento mais rápida do que a Terra pode sustentar ...” Fontes:
Living Planet Report: Humanity Now Needs 1.5 Earths, [Relatório Planeta
Vivo: A humanidade precisa agora de 1,5 Terras], de 2010 (http://www.
business-biodiversity.eu/default.asp?Menue=49&News=233). The Earth
Is Full, [A terra está cheia], de 2011 (http://www.nytimes.com/2011/06/08/
opinion/08friedman.html)

[341] Deve-se entender que quanto mais problemas no mundo, maiores


as demandas por capitalizá-los e criar serviços a partir deles. Quanto
mais verdadeira a resolução de problemas, menor a capacidade para
capitalizar e, portanto, menor a manutenção ou aumento do crescimento
econômico.

[342] Um exemplo bem estabelecido de inibição de progresso em


função da manutenção de estabelecimentos de lucros existentes, foi o
bem sucedido esforço feito pela indústria do petróleo e, por extensão,
pelo governo dos EUA, para retardar o progresso em direção a veícu-
los totalmente elétricos na década de 1990. Referência: Who Killed the
Electric Car? [Quem matou o carro elétrico?], (http://www.imdb.com/title/
tt0489037/synopsis)

[343] Lobby corporativo, por sua própria natureza, é um meio de usar o


dinheiro para influenciar as decisões políticas. Referência:Corporate Lob-
byists Threaten Democracy [Lobistas corporativos ameaçam a Democra-

168
cia], Julio Godoy, IPS: (http://www.ipsnews.net/2012/08/corporate-lobby-
ists-threaten-democracy/)

[344] Um exemplo único disso foi o caso de 2007 em que a Microsoft


Corporation, insatisfeita com as informações sobre a enciclopédia pública
“Wikipedia”, trabalhou para contratar um editor para mudar a informação
pública em seu favor. Referência: Microsoft Offers Cash for Wikipedia Edit
[Microsoft oferece dinheiro para editar a Wikipedia], (http://www.washing-
tonpost.com/wp-dyn/content/article/2007/01/23/AR2007012301025.html)

[345] Um estudo realizado por uma empresa de gestão de fortunas em


Connecticut mostrou que muitos se casariam apenas por dinheiro, com
o “preço” médio pelo qual as pessoas se casariam de cerca de US $ 1,5
milhão. Referência: Survey: Most People Would Marry For Money [Pesqui-
sa: a maioria das pessoas se casariam por dinheiro], Tom Miller (http://
www.yourtango.com/20072778/survey-most-people-would-marry-for-
money)

[346] Referência: Higher social class predicts increased unethical be-


havior [Classe social superior é preditiva de maior comportamento
antiético]; Piffa, Stancatoa, Côtéb, Mendoza-Dentona, Dacher Kelt-
nera; Michigan University, 2012. (http://www.pnas.org/content/ear-
ly/2012/02/21/1118373109)

[347] Referência: How Wealth Reduces Compassion [Como Riqueza Re-


duz a Compaixão]; Daisy Grewal; Scientific American, 2012. (http://www.
scientificamerican.com/article.cfm?id=how-wealth-reduces-compassion)

[348] Fonte: Having Less, Giving More: The Influence of Social Class on
Prosocial Behavior [Dando mais, tendo menos: a influência da classe
social no comportamento pró-social]; Journal of Personality and Social
Psychology; 2010, vol. 99, No. 5, 771-784, 2012 (http://www.rotman.uto-
ronto.ca/phd/file/Piffetal.pdf)

[349] Fonte: Study: Poor Are More Charitable Than The Wealthy [Estudo:
pobres são mais caridosos que os ricos]; NPR, 2012 (http://www.npr.org/
templates/story/story.php?storyId=129068241)

[350] Referência: The Rich Are Less Charitable Than the Middle Class:
Study [Os ricos são menos caridosos que a classe média: Estudo];
CNBC, 2012 (http://www.cnbc.com/id/48725147)

[351] Referência: America’s poor are its most generous givers [Os pobres
da América são seus doadores mais generosos]; análise de Frank Greve
/ McClatchy de 2009 (http://www.mcclatchydc.com/2009/05/19/68456/
americas-poor-are-its-most-generous.html)

[352] Referência: The Engineers and the Price System [Os Engenheiros e
o sistema de preços]; Thorstein Veblen, 1921

169
[353] Referência: The 40 Highest-Earning Hedge Fund Managers [Os 40
Gestores de Fundo de Cobertura mais bem pagos]; Nathan Vardi, Forbes
(http://www.forbes.com/sites/nathanvardi/2012/03/01/the-40-highest-earn-
ing-hedge-fund-managers-3/)

[354] Há um argumento comum de que o setor financeiro é relevante


para a produção industrial por facilitar o capital pelo qual a produção é
criada, através de investimento. No entanto, a facilitação é um artifício, já
que o ato de produção na realidade física, fora do modelo capitalista, não
tem nada a ver com dinheiro ou investimento - tem a ver com educação,
recursos e engenharia. Investimento e financiamento não são reais, uma
vez que não produzem - não são necessários no que diz respeito aos
componentes reais de produção.

[355] The Instinct of Workmanship and the Irksomeness of Labor [O In-


stinto de qualidade e a chateação do Trabalho]; em Essays in Our Chang-
ing Order, Thorstein Veblen, pp.93-94

[356] Fonte: An Inquiry into the Principles of the Distribution of Wealth


Most Conducive to Human Happiness [Uma Investigação sobre os
Princípios da distribuição da riqueza mais propícios para a felicidade
humana]; William Thompson, Londres, William S. Orr, 1850, p.147

[357] Fonte: Relative Deprivation: Specification, Development, and Inte-


gration [Privação Relativa: Especificação, Desenvolvimento e Integração];
Iain Walker, Heather J. Smith; Cambridge University Press, 2001, ISBN
0-521-80132-X, Google Print

[358] Mais no ensaio/capítulo: Classismo estrutural, o Estado e a Guerra

[359] Referência: The Importance of Economic Equality [A Importância


da igualdade econômica]; Eben Harrell, Time, 2009; Veja também: The
Spirit Level, [O nível espiritual]; Richard Wilkinson & Kate Pickett, Pinguim,
Março de 2009

[360] Study Finds TV Alters Fiji Girls’ View of Body [Estudo constata que
TV altera a visão do corpo de garotas de Fiji]; Erica Goode; The New York
Times, 1999.(http://www.nytimes.com/1999/05/20/world/study-finds-tv-al-
ters-fiji-girls-view-of-body.html)

[361] Referência: Pat Robertson: Obama A ‘Socialist,’ Wants To ‘Destroy’


The United States [Pat Robertson: Obama um ‘socialista’ quer ‘destruir Os
Estados Unidos]; Paige Lavender; The Huffington Post, 2012, (http://www.
huffingtonpost.com/2012/12/14/pat-robertson-obama_n_2301228.html)

[362] Muita controvérsia existe em relação ao contínuo declínio da edu-


cação ocidental, especificamente nos EUA. Charlotte Thomson Iserbyt,
ex-conselheira sênior de política no Departamento de Educação dos
EUA, escreveu sobre o que ela chama de “The Deliberate Dumbing Down
of America” [O emburrecimento deliberado da América], Conscience

170
Press, 1999

[363] Referência: Ronald Reagan: Protectionist [Ronald Reagan: prote-


cionista]; Sheldon L. Richman, 1988 (https://mises.org/freemarket_detail.
aspx?control=489)

[364] Uma declaração notável pelo famoso economista Milton Friedman


sobre esta questão: “Governo tem três funções principais. Ele deve
fornecer a defesa militar da nação. Deve fazer cumprir os contratos entre
os indivíduos. Ele deve proteger os cidadãos contra os crimes contra a si
mesmos ou a sua propriedade. Quando o governo - em busca de boas
intenções tenta reorganizar a economia, legislar a moralidade, ou ajudar
a interesses especiais, os custos vêm em forma de ineficiência, falta de
motivação e perda de liberdade. Governo deve ser um árbitro, não um
jogador ativo.”

[365] Mesmo Adam Smith em seus escritos implica que os empresários


usam todos os meios ao seu dispor para evitar a concorrência e para
garantir monopólios: “Pessoas do mesmo ofício vez ou outra se reúnem,
mesmo para alegria e diversão, mas a conversa acaba em uma conspir-
ação contra o público, ou em algum artifício para aumentar os preços. “
Referência: An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Na-
tions [Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das
Nações], Adam Smith, New York, Modern Library, 1937 p. 128

[366] O economista Thomas Hodgskin escreveu no início do século XIX:


“Não é o suficiente, aos olhos dos legisladores, que a riqueza tenha em
si mesma mil encantos, mas eles [...] deram-na uma infinidade de privilé-
gios. Na verdade, ela já usurpou todo o poder da legislação, e a maio-
ria das leis penais agora são feitas para a mera proteção da riqueza.”
Fonte: Travels in the North of Germany, Describing the Present State of
Social and Political Institutions, the Agriculture, Manufactures, Commerce,
Education, Arts and Manners in That Country, Particularly in the Kingdom
of Hanover [Viagem no Norte da Alemanha, que descreve o estado atual
das Instituições Sociais e Políticas, da Agricultura, Produção, Comércio,
Educação, Artes e Modos naquele país, particularmente no Reino de
Hanover], Thomas Hodgskin, T. Edimburgo, Archibald Constable, 1820,
vol. 2, p.228

[367] Fonte: An Inquiry into the Nature of Peace and the terms of its Per-
petuation [Uma Investigação sobre a Natureza da Paz e os termos da sua
perpetuação], Thorstein Veblen, Direito de Harvard, pp.326-327

[368] A economia keynesiana, ao contrário das mais libertárias, escolas


de livre mercado do pensamento econômico, como a Escola Austríaca,
vê, em parte, a intervenção do governo como periodicamente necessária
para evitar certos problemas. Nas palavras do Dicionário de Negócios
online: “Esta teoria afirma ainda que os mercados livres não têm me-
canismos de auto-equilíbrio que levam ao pleno emprego. Economistas
keynesianos exortam e justificam a intervenção do governo na econo-

171
mia, através de políticas públicas que visem atingir o pleno emprego e
a estabilidade dos preços. “ Fonte: BusinessDictionary.com (http://www.
businessdictionary.com/definition/Keynesian-economics.html)

[369] Famoso romance de Ayn Rand, “Anthem” é um exemplo notável,


influente desta culminação artística de valores. Tem lugar em um futuro
distópico, onde a humanidade entrou outra idade média caracterizada
pela irracionalidade, o coletivismo e o pensamento e economia socialista.
O conceito de individualidade foi eliminado. Por exemplo, o uso da pala-
vra “eu” é punível com a morte.

[370] “Mobilidade social” está estruturalmente inibida no sistema capital-


ista, com uma porcentagem muito pequena realmente apta a alcançar a
mobilidade ascendente, estatisticamente. Mobilidade nos Estados Uni-
dos, lar do “sonho americano”, também está cada vez mais em declínio.
Referência: Exceptional Upward Mobility in the US Is a Myth, International
Studies Show [Mobilidade ascendente excepcional nos EUA é um mito,
demonstra um estudo internacional]; Science Daily (http://www.science-
daily.com/releases/2012/09/120905141920.htm) Veja também: Harder for
Americans to Rise From Lower Rungs [Mais difícil para os americanos
subir de mais baixos degraus]; New York Times, 2012 (http://www.ny-
times.com/2012/01/05/us/harder-for-americans-to-rise-from-lower-rungs.
html?pagewanted=all)

[371] Enquanto o padrão da linha de pobreza é relativo à região de


aplicação, mais de 50% do mundo, afirma um estudo de 2005 do Banco
Mundial, vivem com menos de US$2,50 por dia, ou cerca de US$912,00
ao ano. Fonte: GlobalIssues.org (http://www.globalissues.org/article/26/
poverty-facts-and-stats)

[372] Ver a seção sobre Malthus e Ricardo no ensaio/capítulo História da


Economia.

[373] Esclarecimento: Efeitos de causas sociais ou psicossociais da


relação homem-sociedade têm demonstrado algumas realidades poder-
osas sobre as origens do comportamento aberrante ou destrutivo. Veja o
ensaio/capítulo “Definindo Saúde Pública” para mais explicações.
[374] Uma extrapolação detalhada será apresentada na Parte III deste
texto.

[375] Referência: New Survey: Majority of Employees Dissatisfied [Nova


Pesquisa: maioria dos funcionários insatisfeitos]; Forbes, Susan Adams,
2012 (http://www.forbes.com/sites/susanadams/2012/05/18/new-sur-
vey-majority-of-employees-dissatisfied/)

[376] Naturalmente, não pode haver liberdade “pura” no mundo natural,


que é regido pelas leis da natureza, nem pode existir liberdade ilimitada
em uma condição social que trata de requisitos padrão de vida para a
estabilidade social. Por exemplo, uma pessoa não é “livre” para matar
outro em um sentido direto. Tais contratos e valores sociais existem em

172
torno de não abusar de outros, porque eles amenizam o desequilíbrio e a
desestabilização.

[377] Albert Einstein, foi citado como tendo dito: “Eu não sei com que
armas a III Guerra Mundial será travada, mas IV Guerra Mundial será
lutada com paus e pedras.” (The New Quotable Einstein [Novas citações
de Einstein], Alice Calaprice, Princeton University Press 2005 p.173).

[378] Referência: What Money Can’t Buy: The Moral Limits of Markets [O
que o dinheiro não pode comprar: os limites morais do Mercado]; Michael
J. Sandel, Farrar, Straus and Giroux; 2012.

[379] Referência: Os dados podem ser visualizados on-line no que diz


respeito à UE em www.pointcarbon.com

[380] Fonte: For $82 a Day, Booking a Cell in a 5-Star Jail [Por US$82 por
dia, reserva-se uma cela numa cadeia 5 estrelas”]; New York Times, 29
de abril de 2007.

[381] Fonte: Saving the Rhino Through Sacrifice [Salvando o Rhino


através de sacrifício]; Brendan Borrell; Bloomberg Businessweek; 09 de
dezembro de 2010.

[382] Fonte: At Many Colleges, the Rich Kids Get Affirmative Action:
Seeking Donors [Em muitas faculdades, os jovens ricos têm Ação Afir-
mativa: buscando doadores]; Daniel de Ouro; Wall Street Journal, 20 de
fevereiro, 2003.

[383] Fonte: Is Cash the Answer [O dinheiro é a resposta?]; Amanda Rip-


ley; Time, 19 de abril de 2010, pp.44-45.

[384] Fonte: Paying people to lose weight and stop smoking [Pagar
pessoas para perder peso e parar de fumar]; Kevin G. Volpp, Issue Brief,
Institute of Health Economics, University of Pennsylvania, vol. 14, 2009.

[385] Fonte: Paying for VIP Treatment in a Traffic Jam [Pagando por
tratamento VIP em um engarrafamento], Wall Street Journal, 21 de junho,
2007.

[386] Fonte: Trafficking in Persons Report 2012 [Relatório de Tráfico de


Pessoas de 2012], Departamento de Estado dos EUA (http://www.state.
gov/j/tip/rls/tiprpt/2012/192351.htm)

173
174
Capítulo 11

Classicismo Estrutural,
o Estado e a Guerra

“O homem é o único Patriota. Ele se coloca à parte em seu país, sob


sua própria bandeira, e zomba dos outros países, e mantém numerosos
assassinos uniformizados disponíveis a altos custos para tomar fatias
de países de outras pessoas e impedi-los de tomar fatias do seu. E nos
intervalos entre as guerras ele lava o sangue de suas mãos e trabalha para
a “fraternidade universal do homem” - com a sua boca.”387
- Mark Twain -

Visão geral
O conflito humano tem sido uma característica constante da sociedade desde o in-
ício dos registros históricos. Justificativas para isso têm variado desde suposições sobre
propensões humanas imutáveis ​​à agressão e territorialidade até a noção religiosa da
ação de poderes metafísicos polarizados, tais como forças do “bem” e do “mal”; a
história, por outro lado, revela que os casos de conflito geralmente apresentam uma
correlação racional com circunstâncias ambientais e/ou condições culturais. Da reação
imediata e amedrontada de estresse de nossa propensão à “luta ou fuga”,388 ao calmo e
calculado planejamento bélico nacional, há sempre uma razão para o conflito, sendo de
interesse do público em geral, de forma a reduzir os conflitos, uma avaliação total - tão
profunda quanto possível - da causalidade para considerarmos as soluções tangíveis.

Este ensaio examinará duas categorias gerais de “conflitos”: “guerra imperialista” e


“luta de classes”. Embora aparentemente diferentes, argumentaremos que o cerne dos
mecanismos psicológicos dessas duas categorizações é basicamente o mesmo, e que a
forma de alguns dos mecanismos reais de “batalha” é na verdade muito mais ilusória ou
dissimulada do que se reconhece. No geral, a tese central é de que a fonte dessas reali-
dades aparentemente imutáveis ​​se encontra dentro da própria premissa socioeconômica
- no contexto de uma certa psicologia reforçada e, portanto, de um esquema sociológico
- e não em determinações rígidas de nossos genes ou da falta de alguma aptidão moral.

Dito de outra forma, essas realidades não são sustentadas por grupos ideologi-
camente distintos, como o governo desonesto de um país ou alguma mentalidade de

175
negócios excepcionalmente “gananciosa” - mas, sim, por valores mais fundamentais
e subjacentes, inerentes à vida de virtualmente todos na atual condição socioeco-
nômica culturalmente perpetuada como “normal”. A única diferença é o grau em que
esses valores são aproveitados e para qual finalidade.

Guerra Imperialista: Ascensão do Estado


A Revolução Neolítica há cerca de 12.000 anos389 marcou um ponto crucial para
a sociedade humana, pois permitiu nossa transição da dependência quase exclusiva
em “viver da terra” - limitados à regeneração natural do habitat - a uma tendência
acelerada de controle ambiental e de manipulação de recursos. O desenvolvimento
da agricultura e a criação de instrumentos facilitadores do trabalho foram o começo
do que se observa hoje em dia, onde o espectro da capacidade humana de utilização
da ciência para a alteração do mundo em nosso proveito parece virtualmente ilim-
itado.390

No entanto, essa adaptação tecnológica inicialmente lenta colocou em movimento


certos padrões e mudanças que, sem dúvida, geraram muitos dos problemas reconhe-
cidos como muito comuns hoje em dia. Um exemplo é a forma como o desequilíbrio
decorrente da pobreza relativa e estratificação econômica tem se estabelecido como
uma aparente consequência desta nova capacidade. Nas palavras do neurocientista e
antropólogo Dr. Robert Sapolsky: “caçadores-coletores [tinham] milhares de fontes
selvagens de alimentos para subsistir. A agricultura mudou tudo isso, gerando uma
grande dependência de algumas dúzias de fontes alimentícias... A agricultura permi-
tiu a constituição de reservas de recursos excedentes e, portanto, a inevitável acumu-
lação desigual deles, a estratificação da sociedade e a invenção das classes. Dessa
forma, ela permitiu a invenção da pobreza.”391

Da mesma forma, o estilo de vida nômade do caçador-coletor foi lentamente


substituído por tribos sedentárias protecionistas e depois, eventualmente, por socie-
dades localizadas na forma de cidades. Nas palavras de Richard A. Gabriel na obra
Uma Breve História da Guerra: “A invenção e expansão da agricultura, juntamente
com a domesticação de animais no quinto milênio antes de Cristo são reconhecidos
como os desenvolvimentos que prepararam o palco para o surgimento, em grande
escala, das primeiras sociedades urbanas complexas. Essas sociedades, que apa-
receram quase simultaneamente por volta de 4000 A.C., tanto no Egito quanto na
Mesopotâmia, utilizavam-se de ferramentas de pedra, mas dentro de 500 anos as
ferramentas e armas de pedra deram lugar ao bronze. Com a manufatura de bronze
veio uma revolução na guerra.”392

Esse é também o período em que o conceito de “estado”, como o conhece-


mos, e a permanência da “força armada” emergiu. Gabriel continua: “Essas socie-
dades primitivas produziram os primeiros exemplos de instituições com governo
de um Estado, inicialmente como supremacias centralizadas e mais tarde como

176
monarquias... Ao mesmo tempo, a centralização exigiu a criação de uma estru-
tura administrativa capaz de dirigir a atividade social e os recursos em direção a
objetivos comuns...O desenvolvimento das instituições do Estado central e de um
aparato administrativo de suporte inevitavelmente deram forma e estabilidade às
estruturas militares. O resultado foi a expansão e a estabilização das castas guer-
reiras anteriormente livres e instáveis... Por volta de 2700 A.C. na Suméria havia
uma estrutura militar inteiramente articulada e um exército permanente organizado
semelhantemente ao moderno. O exército permanente emergiu como uma parte
constante da estrutura social e era dotado de fortes alegações de legitimidade so-
cial. E ele tem estado conosco desde então.”393

Guerra Imperialista: Ilusões


O “imperialismo” é definido como: “a política, prática ou defesa do ato de
estender o poder e o domínio de uma nação, especialmente por aquisições territo-
riais diretas, ou por ganho de controle indireto sobre a vida política ou econômica
de outras áreas.”394

Enquanto a cultura tradicional pode geralmente pensar na guerra imperialista


como uma variação da guerra em geral, assumindo outras formas de conflito nacional
armado, argumenta-se aqui que as bases de todas as guerras nacionais são, na ver-
dade, imperialistas por natureza. As milhares de guerras na história humana tiveram
a ver, principalmente, com a aquisição de recursos ou território, onde um grupo tra-
balha, ou para expandir seu poder e riqueza material, ou para proteger-se dos outros
que tentam conquistar e absorver seu poder e riqueza.

Mesmo muitos conflitos históricos, que superficialmente parecem ter fins pura-
mente ideológicos, na realidade, frequentemente ocultam ações econômicas impe-
rialistas. As Cruzadas Cristãs do século XI, por exemplo, são muitas vezes defin-
idas como conflitos estritamente religiosos ou expressões de fervor ideológico.
No entanto, uma investigação mais profunda revela um tom forte de expansão do
comércio e aquisição de recursos, sob o pretexto da guerra “religiosa”.395 Isso não
quer dizer que historicamente as religiões não têm sido uma grande fonte de confli-
tos, mas, sim, que muitas vezes há uma simplificação em muitos textos históricos,
com a relevância econômica frequentemente esquecida ou ignorada. Indiferente a
isso, a noção de cruzada “moral” como uma forma de cobertura para o imperialis-
mo econômico e nacional continua até hoje.396

De fato, há uma tendência profundamente coercitiva observada ao longo da


história quando se trata de ganhar o apoio público ao ato de guerra nacional. Por
exemplo, uma análise superficial da história mostraria que todos os atos “ofensivos”
de guerra, ou seja, a guerra iniciada por um determinado poder por qualquer razão (e
não uma resposta à invasão direta), se origina dos componentes constitutivos e asso-

177
ciados às entidades governamentais - e não dos cidadãos. Guerras tendem a começar
com algum tipo de sugestão emanando do poder do Estado; em seguida alimentada
pela mídia corporativa apoiada pelo Estado;397 com os cidadãos sendo lentamente
adestrados a apreciar a sugestão. Também é de uma grande ajuda ao Estado se houver
alguma forma de provocação emocional marcante, que possa ser manipulada para
justificar ainda mais a guerra pretendida.398

Tais táticas para a manipulação do povo podem assumir muitas formas. O uso do
medo, da honra (vingança), do paternalismo patriótico,399 a moralidade, e a “defesa
comum” são provavelmente as manobras mais frequentes. De fato, invariavelmente,
todos os atos de guerra são justificados como “defensivos” na esfera pública, mesmo
que não exista nenhuma ameaça pública racional e tangível. No entanto, há, de fato,
uma verdade essencial nesta noção de guerra “defensiva”,400 já que atos de mobi-
lização imperialista são baseados em uma forma muito real, ainda que obscura, de
medo econômico e/ou político - o medo de perder o controle ou o poder. Em outras
palavras, ainda que não haja uma ameaça imediata e direta vinda de uma determinada
nação agressora - a necessidade competitiva de longo prazo de continuamente reas-
segurar o poder existente de uma possível perda futura é um medo muito real e fun-
damentado. Então, na verdade, esta “defesa” é a da auto-preservação elitista da classe
mais alta e, portanto, em seus termos reais é moralmente injustificável à população;
logo, essas manobras são usadas para obter a aprovação pública.401

O economista e sociólogo Thorstein Veblen, em sua famosa obra de 1917, “Uma


Investigação Sobre a Natureza da Paz e Os Termos da Sua Perpetuação”, escreveu o
seguinte sobre o tema da persuasão pública: “Qualquer empreitada bélica com esper-
ança de se estabelecer deve ter a sanção moral da comunidade ou de uma maioria efe-
tiva da comunidade. Consequentemente, a primeira preocupação do estadista bélico
torna-se colocar essa força moral em marcha no sentido do empreendimento ao qual
se inclina. E há duas linhas principais de motivação (...), a preservação ou promoção
dos interesses materiais da comunidade, reais ou imaginários - e a reivindicação da
honra nacional. A estas deve ser adicionado, talvez, uma terceira: o avanço e a per-
petuação da cultura nacional.”402

Esse último ponto sobre a perpetuação da cultura nacional é melhor exemplifi-


cado com as modernas e comuns reivindicações imperialistas do ocidente de tentar
espalhar a “liberdade e democracia”. Essa afirmação assume uma posição paterna,
postulando a ideia de que o clima político atual de um país-alvo é simplesmente
demasiado desumano e de que a intervenção para “ajudar” os seus cidadãos se torna
uma “obrigação moral” da potência invasora.

Veblen continua: “Qualquer patriotismo servirá de meios e formas para a em-


preitada bélica sob uma gestão competente, mesmo que [as pessoas] não estejam

178
habitualmente propensas a um temperamento belicoso. Gerenciado corretamente, o
sentimento patriótico natural pode ser facilmente mobilizado para um empreendi-
mento bélico por qualquer órgão com estadistas razoavelmente hábeis e com obje-
tivos em comum - dos quais existem exemplos abundantes.”403 “... é [também] uma
generalização bastante segura a de que uma vez que as hostilidades tenham atin-
gido um andamento razoável pelo estadista interessado, o sentimento patriótico da
nação pode seguramente ser contado em favor da empreitada, independentemente
dos méritos da discussão.”404

Nos Estados Unidos, a frase “Eu sou contra a guerra, mas apoio as tropas”405 é
comum entre aqueles que se opõem a um determinado conflito, mas desejam serem
vistos como respeitosos para com seu país, em geral. Esta frase é algo único, pois é
de fato irracional. Pela lógica, “apoiar as tropas” significaria apoiar o papel de ser um
“soldado”, e, portanto, os atos que são necessários para essa função. O gesto implíci-
to, sem dúvida, é de que alguém apoia a necessidade de guerra e, portanto, apoia os
homens e mulheres das forças armadas que satisfazem essa necessidade. No entanto,
a própria afirmação é totalmente contraditória e existe como uma forma de “dupli-
pensar”,406 já que discordar da existência de uma certa guerra é estar totalmente em
desacordo com as ações daqueles que se envolvem nela. É semelhante a dizer: “Eu
sou contra o câncer que mata as pessoas, mas apoio o direito à vida do câncer”.

As forças armadas têm historicamente estado em alta estima com a sociedade e o


governo glorifica continuamente isto, na medida em que a suposição de “honra” as-
sume uma vida irracional própria. Na verdade, isso é agravado psicologicamente por
um cerimonialismo embutido. A honra é formalizada através de prêmios, medalhas,
desfiles, posturas de respeito e outros adornos que impressionam o público quanto ao
suposto valor das ações dos soldados e, portanto, da instituição da guerra. Isso reforça
ainda mais o tabu cultural no qual insultar qualquer elemento do aparelho de guerra é
visto como desrespeito ao sacrifício das forças armadas.

Do ponto de vista da verdadeira proteção e resolução de problemas, como seria


o “honroso” caso de um bombeiro que salva uma criança de um prédio em chamas,
essa admiração se justificaria. A posição generosa e altruísta de colocar a própria vida
em risco para o benefício de outro é, naturalmente, um ato nobre. No entanto, no con-
texto histórico da guerra, o altruísmo pessoal de um soldado não justifica grandes atos
de agressão imperialista nacional, não importa quão bem intencionados os soldados
possam ser. Além disso, essa preservação de poder do aparato governamental guiada
pelo medo gera também, naturalmente, uma “sub-guerra” contra a própria cidadania
nacional, quase sempre amplificada em tempos de guerra. Aqueles que desafiam ou
se opõem a um dado conflito nacional têm lidado historicamente com a opressão dire-
ta e, por extensão cultural, com o ressentimento público. As violações legais comuns,
ainda que ambíguas, de “traição”407 e “sedição”408 são exemplos históricos disto,

179
juntamente com o padrão de suspender os direitos dos cidadãos em tempos de guerra,
às vezes até mesmo incluindo a liberdade de expressão.409

Socialmente, o uso do “patriotismo”, como observado anteriormente, é também


muito comum no sentido de que aqueles que não apoiam uma guerra muitas vezes
são desprezados, como se, por extensão, não apoiassem a cidadania nacional, criando
uma alienação. Mais recentemente, aqueles que se opõem, e talvez até protestem,
têm sido considerados “terroristas” pelo Estado,410 uma incriminação poderosa com
consequências legais graves se for julgada verdadeira pelas autoridades.

No entanto, esta “sub-guerra” pode ser desconstruída em um mecanismo ain-


da mais profundo - o que poderia ser chamado de uma espécie de controle social
em apoio à intenção imperialista. Em muitos países hoje, seja por obrigação des-
de o nascimento411 ou por persuasão de contratos juridicamente vinculativos412,
a pressão ou motivação para se juntar ao militarismo é manipuladora em muitos
níveis. Táticas de publicidade, como “dinheiro para a faculdade” ou “realização
pessoal” são comuns, sem dúvida mirando os degraus mais baixos da hierarquia
econômica.413 Os Estados Unidos têm registro de, por vezes, gastar bilhões por
ano ($4,7 bilhões em 2009) em relações públicas globais para melhorar a imagem
pública e auxiliar no recrutamento.414

Guerra Imperialista: Fonte


Quando as tradicionais ilusões propagandeadas em defesa do ato organizado de
assassinato humano e de roubo de recursos são rejeitadas, descartando essas justi-
ficativas superficiais, tais como o patriotismo paternal, a honra e o protecionismo,
descobrimos que a guerra hoje é realmente uma característica inerente do sistema de
negócios e de propriedades orientado pela escassez. Seria falso dizer que a guerra é
um produto do capitalismo em si já que a prática da guerra o precede extensivamente.
No entanto, ao desconstruir sua premissa, vemos que a guerra é, de fato, uma carac-
terística central e imutável do capitalismo, pois é simplesmente uma manifestação
mais sofisticada das mesmas práticas e valores arcaicos, divisionistas e competitivos.

Assim como uma empresa compete com outras empresas do mesmo gênero por
renda para sua subsistência, buscando invariavelmente o monopólio e o cartel quan-
do possível, todos os governos do planeta têm como premissa fundamental, por ex-
tensão, a mesma forma de sobrevivência. Usando os EUA como estudo de caso, em
2011 o país ganhou cerca de 2,3 trilhões de dólares apenas em receitas de imposto
de renda.415 Essas receitas são importantes para o funcionamento do que é, por con-
sequência, a instituição de negócios conhecida como os “EUA”, da mesma forma
que os ganhos anuais da Microsoft afetam a sua capacidade de funcionar. Os Estados
Unidos são, na verdade, uma corporação em função e forma; com todas as empresas
registradas existentes em sua teia jurídica interna sendo consideradas filiais desta

180
instituição paterna que tradicionalmente chamamos de “governo dos EUA”.

Portanto, todas as ações do governo dos EUA, juntamente com todos os governos
que competem no mundo, devem manter naturalmente uma aguda visão de negócios
em operação. No entanto, o que separa essa “corporação-mãe” (EUA) de seus seto-
res subsidiários (empresas) é a escala de sua capacidade de preservar a si mesma e
manter uma vantagem competitiva. Sua necessidade de preservar as linhas funda-
mentais de sua economia é crucial, e um breve olhar na história de como os EUA
foram capazes de conquistar e manter o seu status de “império” global mostra essa
visão de negócios claramente. De fato, a manifestação pouco difere, em princípio, de
como uma corporação específica procura obter um monopólio comercial. Mas, nesse
caso, o ideal do monopólio global (império) não é restringido por força de lei, como
comumente ocorre com a restrição legal doméstica - é vigorosamente executado no
teatro da guerra imperialista.

Na verdade, é interessante, mas não inesperado, que essa própria auto-preservação


por ação militar poderia tornar-se um negócio lucrativo poderoso, que muitas vezes
melhora a economia do país e, consequentemente, os lucros de suas corporações con-
stituintes. Hoje, podemos estender esses benefícios econômicos para os enormes gas-
tos militares416417 juntamente com a reconstrução de áreas devastadas pela guerra por
subsidiárias comerciais dos estados conquistadores,418 o comprometimento lento da
integridade de um país através de tarifas comerciais, sanções e imposição de dívidas
para subjugar a população em benefício de indústrias transcontinentais419420 e muitas
outras convenções modernas de “guerra econômica”.

Este ponto foi provavelmente melhor expressado por um dos oficiais do exército
mais condecorado dos EUA no século 20: Major General Smedley D. Butler.421 Butler
foi o autor de um famoso livro lançado após a 1ª Guerra Mundial intitulado “War is a
Racket” (A Guerra é uma Fraude), e declarou o seguinte em relação ao negócio da guer-
ra: “A guerra é um crime. Ela sempre foi. É possivelmente o mais antigo, facilmente o
mais rentável, certamente o mais cruel. É o único de âmbito internacional. É o único em
que os lucros são contados em dólares e as perdas em vidas”.422

Ele também escreveu, em 1935: “Passei 33 anos e quatro meses em serviço militar
ativo e, durante esse período, passei a maior parte do meu tempo como um valentão
de luxo para grandes empresas, Wall Street e os banqueiros. Em suma, era um mafio-
so, um gangster do capitalismo. Ajudei a tornar o México, e especialmente Tampico,
seguro para os interesses petrolíferos norte-americanos em 1914. Ajudei a fazer de
Haiti e Cuba bons lugares para os rapazes do National City Bank coletarem receitas.
Ajudei no estupro de uma meia dúzia de repúblicas da América Central em benefício
de Wall Street. Eu ajudei a purificar a Nicarágua para a International Banking House
da Brown Brothers em 1902-1912. Eu trouxe a República Dominicana à luz para os

181
interesses açucareiros norte-americanos em 1916. Eu ajudei nas leis de Honduras
para beneficiar as empresas de frutas americanas em 1903. Na China, em 1927, eu
ajudei a Standard Oil a continuar seu trabalho sem ser molestada. Olhando para trás,
eu poderia ter dado a Al Capone algumas sugestões. O melhor que ele fez foi operar
seu esquema fraudulento em três distritos. Eu operei em três continentes.”423

O trabalho monumental de John A. Hobson (1858-1940), “Imperialismo: um estu-


do”, descreveu essa tendência como um “processo social parasita pelo qual um inter-
esse financeiro do estado, usurpando as rédeas do governo, contribui para a expansão
imperialista, a fim de prender os sanguessugas econômicos a corpos estrangeiros, de
modo a drená-los de suas riquezas para sustentar o luxo doméstico.”424

Agora, muitos pensariam nestes atos abusivos como de certa forma “corruptos”,
mas é difícil justificar esse raciocínio em uma visão ampla. O argumento ético e
moral de o que é “justo” e “injusto” não tem uma integridade convincente no âmbito
do sistema inerente ao capitalismo. Essa é uma das lamentáveis falhas de percepção
daqueles ativos pela mensagem de “paz mundial” ou de ativismo “anti-guerra”, mas
que ainda assim defendem o modelo de mercado competitivo. Em outras palavras,
“a paz mundial” parece simplesmente não ser uma possibilidade dentro do modelo
atualmente aceito de prática econômica.

Cada passo de aplicação do capitalismo global, desde sua concepção Europeia,


tem sido associado à grande violência, exploração e subjugação. O colonialismo eu-
ropeu,425 a captura de “escravos” africanos para uso e venda, a subjugação forçada de
inúmeros povos coloniais, e a criação de templos privilegiados de lucro e poder para
os diversos negócios criados ou protegidos pelo governo. Isso apenas para tocar na
superfície do seu caráter inerente de “sistema de guerra”.

Thorstein Veblen, novamente em seus escritos de 1917, fez a conexão direta com
o que ele chamou de fundação monetária ou “pecuniária” da guerra: “Surgiu durante
o argumento de que a preservação da presente lei e ordem pecuniária, com toda a sua
ligação com a propriedade e o investimento, é incompatível com um estado não-belicis-
ta de paz e segurança. Esse atual esquema de investimentos, negócios e sabotagem [in-
dustrial], deve ter uma chance bem melhor de sobrevivência em longo prazo, se forem
mantidas as atuais condições de preparação bélica e “insegurança” nacional, ou se a
paz projetada estiver em um estado um pouco problemático, suficientemente precário
para manter as animosidades nacionais em alerta ... “426 “Assim, se os propositores
desta paz geral estão, em qualquer grau, inclinados a buscar concessões no que poderia
tornar a paz duradoura, é evidente que deveria ser parte de seus esforços desde o início
mobilizar-se pela presente redução e eventual revogação dos direitos de propriedade e
do sistema de preços em que esses direitos têm seu efeito.”427 Outra evidência desse
contexto pode ser encontrada nas formas mais modernas de violência indireta. Essas

182
incluem abordagens de “guerra econômica”, como mencionado anteriormente, que
podem servir como atos de agressão completos em si mesmos, ou como parte de um
prelúdio processual para a ação militar tradicional. Exemplos vêm na forma de tarifas
de comércio, sanções, dívida por meio de coerção e muitos outros métodos encobertos
menos conhecidos para enfraquecer um país.428

As instituições financeiras globais, como o Banco Mundial e o FMI, têm pesados in-
teresses de Estado e, portanto, comerciais por trás de si, e têm o poder de alocar dívidas
para países em “resgate” às custas da qualidade de vida de seus cidadãos, muitas vezes
assumindo o controle de recursos naturais ou de indústrias por meio de privatização
seletiva ou outras formas de enfraquecimento da capacidade de um país, ao ponto de o
tornar dependente de outros garantindo vantagem a negócios exteriores.429

É simplesmente uma forma mais velada de subjugação do que se viu, por exem-
plo, com a expansão imperialista britânica por meio de sua “Companhia das Índias
Orientais” - a força comercial que tirou vantagem dos recursos regionais e mão de
obra recém-conquistados na Ásia no século XVII.430 No entanto, ao contrário da ex-
pansão do Império Britânico, a expansão do império norte-americano não ganhou seu
status apenas pela ação militar, embora essa presença ainda seja enorme no mundo.431
Em vez disso, o uso de estratégias econômicas complexas que reposicionaram outros
países em subjugação aos interesses econômicos e geoeconômicos dos Estados Uni-
dos tornou-se comum.432

Guerra de Classes: Psicologia Inerente


Passando para a “guerra de classes”, esta ideia tem sido observada na literatura
histórica durante séculos com base, em parte, nos pressupostos da natureza humana, em
parte nos pressupostos de uma falta de capacidade da Terra e dos meios de produção
para atender às necessidades de todos e, em parte, na consciência de que o sistema cap-
italista de mercado inevitavelmente garante divisão de classes e de desequilíbrio dev-
ido a seus mecanismos inerentes, tanto estruturais quanto psicológicos. A declaração
do economista fundador do livre mercado, David Ricardo, que “Se os salários devem
subir... então... lucros necessariamente vão cair”433 é um simples reconhecimento da
garantia estrutural do conflito de classes à medida que o salário refere-se à baixa “classe
trabalhadora” e os lucros à “classe capitalista” superior, enquanto um ganha, o outro
perde. Da mesma forma, mesmo Adam Smith em sua canônica A Riqueza das Nações
expressa claramente a natureza da preservação do poder no nível (psicológico) compor-
tamental, afirmando: “O governo civil, na medida em que é instituído para a segurança
da propriedade, é na realidade instituído para a defesa dos ricos contra os pobres, ou
daqueles que têm alguma propriedade contra os que não têm nada.”434

No entanto, o verdadeiro uso do governo para os fins da classe alta, ou empresar-


ial, parece ser teimosamente ignorado por Smith, Ricardo e até mesmo por muitos

183
dos economistas de hoje, que parecem incapazes disso ou não querem levar em conta
os eventos atuais. Mesmo os economistas laissez-faire mais comprometidos ainda
expressam a necessidade de um governo e seu aparato legal para existir como uma
espécie de “árbitro” para manter o jogo “justo”. Termos tais como “capitalismo cli-
entelista” são frequentemente usados ​​sob a suposição de que o “conluio” entre um
eleitorado governamental e as instituições corporativas aparentemente isoladas são
de uma natureza não-ética ou “criminosa”. Mesmo assim, como observado antes, é
ilógico supor que a natureza do governo é qualquer outra coisa em sua essência senão
um veículo para apoiar as empresas que compõem a riqueza do país. O aparato nego-
cial é na realidade o país na forma técnica, independentemente da alegação superfi-
cial de que um país “democrático” está organizado em torno dos interesses da própria
cidadania. Na verdade, pode ser bem argumentado que nenhum governo na história
tenha oferecido aos seus cidadãos um lugar legítimo de governança ou de legislação,
e dentro do contexto do capitalismo moderno, que ainda é uma manifestação de va-
lores e suposições seculares com uma clara intenção de elitismo, é interessante obser-
var a forma como esse mito da “democracia” se perpetua hoje.

Para reforçar ainda mais este ponto, um dos arquitetos da Constituição dos Estados
Unidos, James Madison, expressou sua preocupação de forma muito clara sobre a ne-
cessidade de oprimir o poder político daqueles das classes mais baixas. Ele declarou:
“Na Inglaterra, nos dias de hoje, se as eleições fossem abertas a todas as classes de
pessoas, as propriedades dos donos de terras estariam em risco. Uma lei agrária aconte-
ceria em breve. Se estas observações estiverem corretas, o nosso governo deve proteger
os interesses permanentes do país contra a inovação. Os proprietários de terra devem
ter uma participação no governo para apoiar esses interesses de valor inestimável, e
para equilibrar e verificar o outro. Eles devem ser constituídos de tal forma a proteger
a minoria dos opulentos contra a maioria. O Senado, por isso, deveria ser este corpo;
e para responder a esses propósitos, eles deveriam ter permanência e estabilidade.”435

Então, começando com esta consciência de que a própria premissa da “democ-


racia” global está profundamente inibida pelo incentivo do sistema capitalista em
manter competitivamente o poder no nível do Estado, de modo a ajudar a classe
alta na preservação do poder político e, por extensão, financeiro, é possível observar
uma imagem mais clara de quão profunda é essa guerra de classes. Provavelmente o
aspecto mais marcante disso é a forma como esses mecanismos de divisão de classes
existem em nossas vidas todos os dias, mas ainda passam despercebidos, uma vez
que estão estruturalmente integrados no próprio aparelho financeiro, político e legal.

Guerra de classes: Mecanismos estruturais


Nos dias de hoje, com 40% da riqueza do planeta nas mãos de 1% da população
mundial,436 vemos que tanto em termos estruturais do sistema quanto dos incentivos
psicológicos, existem mecanismos poderosos que mantém e até aceleram este grande

184
desequilíbrio global de riqueza. Desnecessário dizer, dada a base financeira de tudo
no mundo de hoje, que uma grande riqueza vem acompanhada de grande poder. As-
sim, como descrito antes, esse poder permite uma estratégia mais robusta de ganho
competitivo e autopreservação e, consequentemente, estende-se à própria estrutura do
sistema social, garantindo que a classe alta tenha grande facilidade na manutenção da
segurança de sua vasta riqueza, enquanto as classes mais baixas enfrentam enormes
barreiras estruturais para alcançar qualquer nível básico de segurança financeira.

Alguns mecanismos de opressão da guerra de classes são bastante óbvios. No


caso, o debate sobre a tributação e como houve um favorecimento histórico do rico
corporativo sobre o trabalhador pobre é um exemplo.437 O argumento do sistema es-
tabelecido geralmente gira em torno da ideia de que uma vez que os ricos são também
a “classe proprietária” e em parte responsáveis por gerar emprego, deve ser dada a
eles mais liberdade financeira.438 Como um aparte, é fácil ver que há pouco mérito
verdadeiro nesse argumento unilateral uma vez que a opressão financeira através da
tributação pública está de fato limitando o poder de compra do público em geral, cri-
ando, sem dúvida, um impedimento mais determinante para o crescimento econômi-
co do que a mera limitação nos cofres dos “empregadores” corporativos.439 A única
exceção a isto, que transcende o argumento dos ricos como “criadores de emprego”,
é o advento da plutonomia, que será abordado no final deste ensaio.

Deixando de lado a tributação que favorece certas classes, outros quatro fa-
tores estruturais mais críticos serão discutidos: (a) dívida, (b) juros, (c) inflação e
(d) a disparidade de renda.

(A) A dívida é uma prática social mal compreendida, a qual a maioria assume ser
uma opção na sociedade de hoje. Na realidade, todo o sistema financeiro é construído
sobre dívidas, literalmente. Todo o dinheiro na economia moderna é trazido à existên-
cia por meio de empréstimos, cuja origem provém de bancos centrais e comerciais
que essencialmente criam o dinheiro com base na demanda.440 Esse mecanismo bási-
co de criação monetária é uma força poderosa de opressão econômica. Hoje a dívida
das famílias tende a consistir de empréstimos de cartão de crédito, crédito para mora-
dia, crédito de veículos e empréstimos estudantis (educativos). Aqueles nas classes
mais baixas, naturalmente, mantêm níveis mais elevados dessa dívida consumista do
que a classe alta, uma vez que o próprio fato de ser incapaz de quitar definitivamente
os produtos sociais mais básicos, como um carro ou uma casa, leva à necessidade de
empréstimos dos bancos.

O resultado é que a pressão das dívidas é constante na vida da grande maio-


ria.441442443 Sendo o salário e os níveis de renda o que são em média, naturalmente
tão baixos quanto possível para contribuir com o ethos capitalista dominante de cus-
to-benefício sobre o qual toda a sociedade é projetada, a renda do trabalho realizado

185
pelo empregado médio tende a apenas mal satisfazer as necessidades básicas de ma-
nutenção de crédito, em conjunto com o atendimento da sobrevivência diária básica.
Assim, uma forma de “correr sem sair do lugar” se faz constante e a possibilidade
de mobilidade social acima na hierarquia de classes é profundamente impedida, sem
contar a dificuldade de simplesmente se quitar as dívidas.444

(B) Juros: Aliado à dívida, é o atributo lucrativo associado à venda do dinheiro.


Uma vez que a economia de mercado capitalista apoia a mercantilização de pratica-
mente tudo, não é nenhuma surpresa que o dinheiro em si seja vendido em troca de
lucro, o que vem na forma de juros. Quer se trate de um banco central criando din-
heiro em troca de títulos do governo ou um banco comercial fazendo um empréstimo
hipotecário para uma pessoa média, as taxas de juros estão quase sempre embutidas.

Como mencionado em artigos anteriores, isso cria a condição em que mais dívida
é gerada do que o dinheiro em circulação pode cobrir. Quando um empréstimo é
feito, só o que é chamado de “principal” é produzido. A oferta de moeda de qualquer
país consiste neste principal, que é o valor agregado de todos os empréstimos feitos
(criação de dinheiro). A taxa de juros, por outro lado, não existe. Isso significa que,
no plano social, todos aqueles que pegam empréstimos com juros devem encontrar
dinheiro na oferta de moeda preexistente, a fim de quitar a dívida quando pagar o
empréstimo. Neste processo, uma vez que todos os juros pagos estão sendo realoca-
dos do montante principal, é uma possibilidade matemática que certos empréstimos
simplesmente não poderão ser quitados. Simplesmente não há dinheiro suficiente no
sistema em qualquer que seja o momento.445

O resultado é uma pressão descendente nas classes ainda mais poderosa e sobre
aquelas que detêm tais empréstimos básicos e comuns, uma vez que sempre há essa
escassez básica na oferta de dinheiro e todos os que trabalham para atender seus em-
préstimos têm de lidar com a realidade inevitável de que alguém vai falhar no pagamen-
to dos mesmos em longo prazo. Falência é um resultado comum naqueles segmentos
da sociedade que são menos favorecidos. Ainda mais preocupante é a forma como o
mecanismo bancário reage àqueles que são incapazes de cumprir as obrigações dos
empréstimos. Na maioria dos casos, o contrato de empréstimo e o sistema legal apoiam
o poder dos bancos para “reaver” a propriedade física de quem não puder pagar.446

Se pensarmos profundamente sobre essa capacidade de “reaver”, percebemos


que é sem dúvida uma forma indireta de roubo. Se é inevitável que alguns sucum-
bam ao não cumprir com a quitação do empréstimo devido à escassez inerente à
oferta de dinheiro, com a possibilidade de a propriedade física obtida com o din-
heiro emprestado ser recuperada pelo banco através dos acordos contratuais, então
a aquisição pelo banco de tal propriedade física é inevitável ao longo do tempo.
Isto significa que os bancos, que são com certeza sempre propriedade de membros

186
da classe superior, estão tomando casas, carros e bens das classes mais baixas, sim-
plesmente porque o dinheiro criado do nada na forma de um empréstimo não está
retornando para eles. Esta é, em essência, uma forma dissimulada de transferência
de riqueza física da classe mais baixa para a classe alta. No entanto, voltando ao
assunto do juros em si, tais realidades são de pouca relevância direta para a classe
alta. Dado o excesso de riqueza inerente ao seu status financeiro, aliado à falta
de necessidade de tomar empréstimos – muitas vezes devido a esse excesso – a
pressão inerente à escassez da oferta de dinheiro em função das taxas de juros
sempre recai sobre os ombros das classes mais baixas. Além disso, os ricos são, na
verdade, ainda mais protegidos na medida em que o fenômeno dos rendimentos de
investimento via juros de grandes cadernetas de poupança, certificados de depósito
e outros meios, tornam este veículo de opressão social para os pobres em um veí-
culo de vantagem financeira para os ricos.447

(C) A inflação é geralmente definida como “A taxa em que o nível geral de preços
de bens e serviços cresce e, posteriormente, o poder de compra cai.”448 Infelizmente
esta definição comum não dá uma visão sobre a sua verdadeira causalidade. Embora
haja debate quanto às verdadeiras causas da inflação em diferentes escolas econômi-
cas,449 a “Teoria Quantitativa da Moeda”450 tem sido comprovada como a mais rel-
evante. Em suma, esta teoria simplesmente reconhece que, quanto mais dinheiro em
circulação, mais inflação ou crescimento de preços. Em outras palavras, sendo todas
as coisas iguais, se duplicarmos a oferta de moeda, os níveis dos preços também irão
dobrar, etc. O novo dinheiro dilui o valor do dinheiro existente em uma variação da
teoria de valor da oferta e procura.

Como consequência há o que poderíamos chamar de um “imposto oculto” na


poupança das pessoas e nas rendas de taxa fixa. Por exemplo, vamos supor que a
taxa de inflação é de 3,5% ao ano. Se você tem $30.000, em dez anos, isto só vai
comprar cerca de $21.000 em mercadorias.451 Embora possa parecer ter um efeito
igual para toda a sociedade, a realidade é que isso afeta profundamente os pobres
muito mais do que os ricos quando se trata de sobrevivência. Uma pessoa com 3
milhões de dólares em economias não é muito perturbada pela perda de 3,5% do
seu poder de compra. No entanto, uma pessoa com apenas $ 30.000 em poupança,
trabalhando para talvez comprar uma casa no futuro, é profundamente afetada por
este imposto oculto.

No contexto do classismo estrutural, no qual os atributos fixos do próprio siste-


ma sustentam a opressão dos pobres e ajudam os ricos, o mecanismo deste imposto
oculto também está imutavelmente inserido. A escassez inerente à oferta de dinheiro
obriga novos empréstimos constantes na economia. Aliado a isso está o agora mun-
dialmente utilizado processo de expansão monetária, conhecido como sistema de em-
préstimo de reserva fracionária.452

187
Ao contrário da crença popular, a maioria dos empréstimos não é feita a partir
de depósitos existentes de um banco. Eles são inventados em tempo real, limitados
apenas por uma percentagem fixa de seus depósitos existentes.453 Em suma, devi-
do a este processo, ao longo do tempo, é atualmente possível que para cada 10.000
dólares depositados, cerca de 90 mil dólares sejam criados através dos empréstimos
e depósitos em curso em todo o sistema bancário.454 Esta pirâmide de dinheiro, jun-
tamente com a pressão de juros que cria a escassez da oferta de moeda, revela que o
sistema é inerentemente inflacionário.

(D) As diferenças de renda na sociedade têm tanto uma causa psicológica quanto
estrutural. Psicologicamente, elas são conduzidas, em parte, pelo incentivo de lucro
básico e preservação de custo necessário para manter a competitividade e a funciona-
lidade no mercado. Em muitos aspectos, este incentivo poderia ser considerado cog-
nitivamente estrutural, já que há uma fronteira comportamental a qual todos os par-
ticipantes da economia de mercado devem aderir quando se trata de sobrevivência.
Por sua vez, o interesse de autopreservação através da relação de custo-benefício e
maximização dos lucros, enquanto básicos para o núcleo do jogo capitalista, mostram
uma clara tendência a se estender como uma filosofia de sobrevivência ou de sistema
de valores humanos em geral.

Em outras palavras, os valores sociais tornam-se alterados por esta necessidade


econômica de constante autopreservação, e muitas vezes isso se manifesta em com-
portamentos que, por abstração, podem ser condenados como “excessivos”, “egoís-
tas” ou “gananciosos” - quando, na verdade, essas características são consideradas
meras extensões ou questões de grau no que diz respeito ao condicionamento básico
de “estar à frente”.

Portanto, a tendência geral de aumento da desigualdade de renda não deveria


ser uma surpresa.455 Enquanto os Estados Unidos, com sua natureza profundamente
competitiva, são um dos destaques da extrema desigualdade de classe hoje,456 essa
tendência é muito própria de um fenômeno global.457 Ao passo que o debate sobre
as tendências históricas versus as tendências atuais pode ser realizado em relação ao
porquê deste período de tempo, o início do século 21, estar mostrando um aumento
tão amplo na diferença de riqueza - talvez seja possível concluir que certos fatores
estruturais encontraram um caminho no sistema e esses fatores estão ajudando na dis-
paridade. Podemos talvez também concluir que esses mecanismos não são anomalias
do sistema, mas representam uma evolução natural do capitalismo através do tempo.

Por exemplo, boa parte da renda agora vindo de “ganhos de capital” é um ex-
emplo disso. Embora aparentemente uma nuance minoritária da renda geral, alguns
analistas econômicos têm considerado os ganhos de capital como “ingrediente-chave
da disparidade de renda nos EUA”.458 Os ganhos de capital são definidos como “o

188
montante pelo qual o preço de venda de um ativo excede o seu preço de compra
inicial. Um ganho de capital realizado é um investimento que foi vendido com um
lucro”.459 Seu contexto mais comum é no que diz respeito à venda de ações, títulos,
derivativos, futuros e outros veículos de “negociação” abstratos.

Verificou-se que nos Estados Unidos, 0,1% da população ganha cerca de metade
de todos os rendimentos de capital,460 e tais ganhos representam aproximadamente
60% da renda dos 400 cidadãos mais ricos.461 O mecanismo de classe dos ganhos
de capital é interessante porque é uma forma privilegiada de renda. Mesmo que o
mercado de ações possa ser usado para fundos conservadores mútuos e investimen-
to em previdência para a população geral, ele na verdade é um jogo da classe mais
alta quando se trata de retornos substanciais, devido ao alto nível de capital inicial
necessário para facilitar retornos de grande valor. Como o elitismo do alto nível de
renda sobre juros, os ganhos de capital são um mecanismo de segurança para a classe
alta, que é abastecida pela riqueza substancial já existente.

Então nós temos as diferenças de renda com relação à posição na hierarquia cor-
porativa. Em um estudo realizado pelo Canadian Centre for Policy Alternatives, ver-
ificou-se que os principais CEOs do Canadá recebem em 3 horas o mesmo salário
anual de um trabalhador médio.462 Nos Estados Unidos, de acordo com pesquisa do
Economic Policy Institute “os ganhos médios anuais do 1% mais rico cresceu 156%
entre 1979 e 2007; para o 0,1% mais rico, o crescimento foi de 362%. Por outro lado,
assalariados do 90º ao 95º percentil tiveram crescimento salarial de 34%; menos de
um décimo dos que estão entre o 0,1% superior. Trabalhadores que estão nos 90%
inferiores tiveram o menor crescimento de salários: 17% de 1979 a 2007.”463

Eles continuam: “O grande aumento na desigualdade dos salários é um dos prin-


cipais propulsores da larga distribuição ascendente da renda familiar para o 1 por-
cento do topo, entre os outros motivos estão a crescente desigualdade de rendimen-
tos do capital e a participação crescente da receita indo para o capital, em vez de
para os salários e remuneração. O resultado dessas três tendências foi um aumento
maior que o dobro nos rendimentos totais nos Estados Unidos sendo recebido pelo
1 porcento superior entre 1979 e 2007 e um grande aumento na diferença de renda
entre os que estão no topo e a grande maioria. Em 2007, a renda média anual do 1
porcento superior dos domicílios era 42 vezes maior do que os rendimentos dos 90
porcento inferiores (14 vezes maior em 1979), e os rendimentos do 0,1 porcento
superior eram 220 vezes maior (47 vezes maior em 1979).”464 Padrões semelhan-
tes podem ser encontrados em outras nações industrializadas. De fato, em 2013,
até a China tem discutido o seu problema crescente de disparidade de renda, com
propostas para aliviar a diferença.465 A Organização para a Cooperação Econômica
e Desenvolvimento, em um relatório de 2011 concluiu que os países com níveis
historicamente baixos de desigualdade de renda têm experimentado um aumento

189
significativo de desigualdade nos últimos dez anos.466467

A causalidade na forma de uma definição clara de seus mecanismos estruturais é


mais difícil de mensurar, em contraposição a essa tendência geral de desequilíbrio na
renda dos empregos. A combinação do incentivo psicológico de autopreservação e de
automaximização inerentes ao sistema de valores do capitalismo, em conjunto com
a constante mudança de políticas financeiras, legais e fiscais, e demais variáveis ​​em
jogo, juntamente com a vantagem estratégica básica mantida pelas classes superiores
devido a sua segurança financeira, cria um complexo e sinergístico mecanismo de
preservação de classe e de opressão externa.

Um ponto estatístico sutil, porém revelador a ser notado, é como durante as re-
cessões recentes nos Estados Unidos, a disparidade de riqueza tem realmente aumen-
tado.468 É axiomático concluir que se o sistema econômico não possuísse qualquer
interferência estrutural em favor dos ricos, uma recessão nacional da escala como a
que ocorreu a partir de 2007 deveria ter afetado negativamente a maioria, indepen-
dentemente da classe social. No entanto, foi relatado que em 2010 que “os 5% dos
norte-americanos mais ricos, que ganham mais de US$ 180.000, acrescentaram um
pouco às suas rendas anuais no ano passado... Famílias com nível médio em $50.000
escorregaram para baixo.”469

Para finalizar a questão da desigualdade de renda, é importante observar como o


crescimento econômico nacional muitas vezes relaciona-se com os da própria classe
alta, reduzindo a relevância econômica geral das classes mais baixas. O termo “plu-
tonomia” é apropriado neste caso. A “plutonomia” é definida como “O crescimento
econômico que é alimentado e consumido pelos mais ricos da sociedade. Plutonomia
refere-se a uma sociedade em que a maioria da riqueza é controlada por uma minoria
cada vez menor; como tal, o crescimento econômico desta sociedade torna-se depen-
dente das fortunas daquela mesma minoria rica”.470

Talvez a melhor maneira de descrever a natureza da plutonomia e sua relevância


para os dias de hoje, é considerar as palavras daqueles que a adotam. Em 2005, o Citi-
group, uma poderosa instituição bancária global, produziu uma série de memorandos
internos sobre o assunto e foi bastante sincera em suas análises e conclusões.
Eles afirmaram: “O mundo está se dividindo em dois blocos - a Plutonomia e o
resto. Os EUA, Reino Unido e Canadá são as plutonomias chave - economias alimen-
tadas pelos ricos.”471 “Em uma plutonomia não existe um animal como “o consumi-
dor dos EUA” ou “o consumidor do Reino Unido”, ou mesmo o “consumidor russo”.
Há consumidores ricos, poucos em número, mas desproporcionais na fatia gigantesca
de renda e consumo que eles tomam. Há o resto, os “não-ricos”, as muitas multidões,
mas que representam surpreendentemente apenas pequenas mordidas do bolo nacio-
nal”.472 “Devemos nos preocupar menos com o que o consumidor médio - digamos,

190
o 50º percentil - vai fazer, pois esse consumidor é (nós pensamos) menos relevante
para os dados agregados do que como os ricos se sentem e o que estão fazendo. Este
é simplesmente um caso de matemática, e não de moralidade”.473

Com 20% da população americana controlando 85% da riqueza do país,474 é


claro que aqueles que utilizam esses 85% são mais importantes para o PIB ou
para o crescimento da economia. Isto significa que o sistema financeiro tem pouco
incentivo para se preocupar com as ações ou com bem-estar financeiro da maior
parte do público.

E continua: “o coração da nossa tese da plutonomia [é] que os ricos são a principal
fonte de renda, riqueza e demanda em países plutonômicos como o Reino Unido,
EUA, Canadá e Austrália...

Em segundo lugar, acreditamos que os ricos vão continuar ficando mais ricos nos
próximos anos, pois os capitalistas (os ricos) vão obter uma participação ainda maior
no PIB, como resultado, principalmente, da globalização. Esperamos que o conjunto
global de mão de obra das economias em desenvolvimento irá manter a inflação salarial
sob controle, e as margens de lucro crescentes - bom para a riqueza dos capitalistas,
relativamente ruim para o mercado de trabalho não qualificado/terceirizado. Esta é uma
boa previsão para as empresas que vendem para ou sustentam-se do rico.”475

Com relação à relevância do resto da população, o memorando diz: “Vemos a


maior ameaça à plutonomia surgir com um aumento na demanda por políticas pela
redução da desigualdade de renda, pela distribuição da riqueza de forma mais uni-
forme, e pelo desafio a forças como a globalização, que tem beneficiado o lucro e o
crescimento da riqueza.”476 “A nossa conclusão? As três alavancas que os governos
e as sociedades poderiam puxar para acabar com a plutonomia estão favoráveis. Os
direitos de propriedade ainda estão praticamente intactos, políticas fiscais continuam
de neutras a favoráveis, e a globalização está mantendo a oferta de trabalho em ex-
cesso, agindo como um freio na inflação salarial.477478 Enquanto a plutonomia por
si só pode não ser exatamente uma fonte de conflito de classes, ela é certamente
um resultado. Chrystia Freeland, autora de “Plutocrats: The Rise of the New Global
Super-Rich and the Fall of Everyone Else” (“Plutocratas: A Ascenção dos Novos
Super-Ricos Globais e a Queda de Todo o Resto”) aponta a natureza desse enquadra-
mento psicológico inerente aos da minoria opulenta:
“Você não faz isso com uma gargalhada de escárnio, fumando seu charuto, bolan-
do teorias da conspiração. Você faz convencendo a si mesmo de que o que está no seu
próprio interesse faz parte do interesse de todos os outros. Então, você se convence de
que, na verdade, os serviços governamentais, coisas como os gastos com educação,
que é o que criou a mobilidade social em primeiro lugar, precisam ser cortados para
que o déficit encolha, para que seu imposto não aumente. E o que realmente me

191
preocupa é que há tanto dinheiro e tanto poder no topo, e a desigualdade entre as pes-
soas no topo e todo o resto é tão grande, que vamos ver a mobilidade social sufocada
e a sociedade transformada.”479

Conclusão
Muito mais poderia ser dito em relação à luta em múltiplos níveis ocorrendo no
planeta Terra, principalmente centrada no poder financeiro e de mercado e sua preser-
vação institucional. Da violência física à sutil manipulação legal, o tema é consistente
e dominante. Pode até ser argumentado que o progresso em si trava uma guerra contra
isso já que as instituições corporativas estabelecidas que mantêm forte participação
de mercado em um determinado setor irão muitas vezes trabalhar impiedosamente
para acabar com qualquer coisa que possa competir com elas, mesmo que o produto
seja progressivamente melhor ou mais sustentável.480 A própria mudança e o pro-
gresso, em termos reais, não são bem recebidos no sistema capitalista, uma vez que
muitas vezes perturba o sucesso das instituições estabelecidas. A taxa incrivelmente
lenta de aplicação de novos métodos sustentáveis de aperfeiçoamento tecnológico é
um bom exemplo disso.481

Na verdade, no nível corporativo, não há apenas uma guerra permanente para


reduzir tal concorrência, mas há também a exploração contínua do público em geral.
Adam Smith já havia salientado isso em sua A Riqueza das Nações, afirmando: “O
interesse dos comerciantes é, contudo, em qualquer ramo específico de comércio ou
de manufatura, sempre diferente em alguns aspectos e até mesmo oposto ao interesse
do público...Restringir a concorrência é sempre o interesse dos comerciantes...Mas,
estreitar a competição... pode servir apenas para permitir que os comerciantes, ao
elevar seus lucros acima do que eles naturalmente iriam, cobrem, em seu próprio
benefício, um imposto absurdo sobre o resto de seus concidadãos.”482

Em nível nacional, “paz” hoje parece ser apenas uma pausa entre os confli-
tos no palco da civilização global. Há uma guerra acontecendo em algum lugar
praticamente o tempo todo e quando não há, as grandes potências estão ocupadas
construindo armas mais avançadas e/ou vendendo as antigas para outros países que
estão se posicionando da mesma forma, tudo em razão não apenas de proteção, mas
em nome de “um bom negócio” também.483 Mesmo as nações em si assumiram
uma forma de hierarquia de classes onde nações dominantes do 1º mundo subju-
gam nações pobres do 3º mundo. Termos hierárquicos comuns como superpotên-
cias, poderes, sub-poderes e estados vassalos podem ser encontrados na literatura
histórica com relação à hierarquia de classe nacional e os mecanismos estruturais
que mantêm esse gradiente em forma, e sua intenção não é muito diferente daqui-
lo que mantém as classes sociais em ordem. Por exemplo, enquanto os sistemas
de dívida e de juros, como descritos, conseguem pressionar muito bem as class-
es mais baixas, estruturalmente limitando a prosperidade e a mobilidade social,

192
o mesmo efeito ocorre para reprimir uma nação através do Banco Mundial e do
Fundo Monetário Internacional.484 Mesmo John Adams, o segundo presidente dos
Estados Unidos apontou isso em sua declaração: “Há duas maneiras de conquistar
e escravizar um país. Uma é pela espada. A outra é pela dívida”.485

Numa escala mais ampla, a verdadeira guerra que está sendo travada é em
relação a resolução de problemas e a harmonia humana. A verdadeira guerra está
em um equilíbrio de poder e justiça social. A verdadeira guerra, de fato, é em
relação a instituição da igualdade econômica.486487 Nas palavras do ex-juiz da Su-
prema Corte dos EUA, Louis D. Brandeis: “Podemos ter democracia neste país,
ou podemos ter uma grande riqueza concentrada nas mãos de uns poucos, mas não
podemos ter os dois.”488

Em qualquer lugar do mundo hoje as pessoas falam sobre a necessidade de ig-


ualdade. A maioria das pessoas instruídas no mundo não toleram preconceito racial
ou de gênero. A ideia de ser sexista ou racista tornou-se uma visão profundamente
detestada, embora não tenha sido há muito tempo que tais pontos de vista culturais
eram considerados “normais” no mundo ocidental. Parece haver um curso evolutivo
que deseja igualar a sociedade que é, por definição, o que o gesto subjacente de “de-
mocracia” deveria indicar.

Numa visão ampla, este palco de guerra multidimensional - de fato um mundo


em guerra consigo mesmo - é totalmente insustentável. Está se tornando cada vez
mais claro, dada a aceleração dos problemas sociais em questão, que o caráter da
concorrência absoluta e da autopreservação restritiva à custa dos outros - seja a
nível pessoal, empresarial, de classe, ideológico ou nacional - não será a fonte de
qualquer resolução ou o início da prosperidade humana a longo prazo. Será pre-
ciso um novo tipo de pensamento para superar essas tendências sociológicas e no
coração dessa transformação cultural dramática repousa a mudança da premissa
socioeconômica em si.

193
Notas e Referências: Capítulo 11

[387] Fonte: “O lugar do homem no mundo animal”, O que é o Homem? E


Outros Ensaios Irreverentes, Mark Twain, 1896, p.157

[388] “A resposta de lutar ou fugir” (ou a resposta ao estresse agudo)


foi descrita pela primeira vez pelo fisiologista americano Walter Bradford
Cannon. Sua teoria afirma que os animais reagem às ameaças com uma
descarga geral do sistema nervoso simpático, preparando o animal para
lutar ou fugir.

[389] Às vezes também chamada de Revolução Agrícola, que foi a


primeira revolução historicamente verificável do mundo na agricultura.
Foi a transição em larga escala de muitas culturas humanas de um estilo
de vida de caça e colheita para um de agricultura e colonização que
suportou uma população cada vez maior e é a base para os padrões da
sociedade moderna de hoje.

[390] Referência: A Aceleração Exponencial da Tecnologia da Informação


Poderia Pôr Fim as Empresas. (http://scienceprogress.org/2011/06/expo-
nentially-growing-information-technology-will-put-an-end-to-corporations/)

[391] Fonte: Por que as Zebras Não Tem Úlceras, Robert Sapolsky, W. H.
Freeman, 1998, p.383

[392] Fonte: Uma Breve História da Guerra: A Evolução das Guerras e


Armas, Richard A. Gabriel, do Instituto de Estudos Estratégicos, Escola
de Guerra do Exército dos EUA, Capítulo 1, 1992

[393] Idem.

[394] Fonte: Merriam-Webster.com (http://www.merriam-webster.com/dic-


tionary/imperialism)

[395] Referência: Desenvolvimento Econômico da Comunidade do Atlân-


tico Norte, Dudley Dillard, Prentice-Hall, New Jersey, 1967, pp.3-178.

[396] O uso da religião para gerar apoio político para atos imperiais de
guerra é bastante comum historicamente. Mesmo nos Estados Unidos
hoje, os políticos, no que diz respeito às ações militares recentes, têm
consistentemente discursado em tom de guerra religiosa ou agido em
nome de “Deus”. Estados islâmicos e judeus parecem fazer a mesma coi-
sa, junto com os estados. O conflito israelo-palestino, por exemplo, que
é geralmente reconhecido como um conflito profundamente religioso por
território “santo”, revela após uma inspeção mais próxima, que a religião,
embora pareça ser um fator real na mente do público em geral, não é
realmente a raiz do conflito. A verdadeira raiz parece ser o imperialismo
da elite e a aquisição de recursos em geral, com a religião utilizada como
meio para promover e manter o apoio público. Referência: http://www.

194
thejakartaglobe.com/globebeyond/israel-palestine-not-a-religious-con-
flict/558353

[397] Mídia estatal é comumente definida como mídia produzida por


financiamento direto do governo de um país. Enquanto isto ainda é
comum no mundo e muitas vezes sujeita à propaganda de Estado, nos
Estados Unidos, uma forma semelhante ainda mais obscura surgiu - algo
que poderíamos chamar de mídia financiada pelo estado-corporação.
Estatismo corporativo é uma forma de “corporativismo”, cujos adeptos
defendem ser o grupo empresarial a base da sociedade e do Estado. A
tradição poética da “imprensa livre” nos EUA, sendo sem “regulação” ou
“interferência”, é um valor de longa data e suposição. No entanto, levando
em consideração a realidade do aumento da concentração de grandes
empresas de mídia, como o fato de que a partir de 2012 seis empresas
controlam 90% delas - juntamente com a compreensão básica de que há
pouca ou nenhuma separação entre o governo e suas corporações por
padrão no modelo socioeconômico capitalista enraizado entre o governo
e empresas - é difícil defender a ideia de que os meios de comunicação
dominantes existem sem influência ideológica, no sentido de preservar
o status quo, uma vez que são tão ligados a ele. Com relação ao início
da guerra, a análise estatística histórica da mídia para os últimos 100
anos vai mostrar um apoio profundo por todos os principais meios de
comunicação para com os interesses do governo. * Fonte: (http://www.
businessinsider.com/these-6-corporations-control-90-of-the-media-in-
america-2012-6)

[398] O ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA Zbigniew


Brzezinski entendeu isso muito bem, e afirmou em sua famosa obra ‘O
Grande Tabuleiro de xadrez: Primazia americana e seus imperativos
geoestratégicos’: “A atitude do público americano em relação à projeção
externa do poder americano tem sido muito mais ambivalente. O público
apoiou a participação dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial,
em grande parte por causa do efeito de choque do ataque japonês a
Pearl Harbor. (Basic Books Publishing, 1998, pp.24-25)... como a América
se torna cada vez mais uma sociedade multi-cultural, ela pode achar que
é mais difícil de moldar um consenso em questões de política externa,
exceto na circunstância de uma ameaça externa direta verdadeiramente
maciça e amplamente percebida.” (Basic Books Publishing, 1998, p.211)

[399] O termo paternalismo é definido como: “Um sistema sob o qual


uma autoridade compromete-se a suprir as necessidades ou regular a
conduta daqueles que estão sob seu controle” (http://www.merriam-web-
ster.com/dictionary/paternalism). O termo “paternalismo patriótico” denota
a suposição de que uma nação soberana sabe melhor do que a outra e,
portanto, trabalha para influenciar e assumir o controle da nação para o
suposto benefício de seu povo.

[400] Nos dia atuais, o termo “guerra preventiva” é comumente usado para
justificar um ato de agressão pela reivindicação de que é um movimento
defensivo para impedir um ataque iminente de algum tipo pelo alvo.

195
[401] O ex-assessor de Segurança Nacional dos EUA, Zbigniew Brzez-
inski, expressa essa “defesa paternalista” claramente em sua obra ‘O
Grande Tabuleiro de xadrez: Primazia americana e sua imperativos
geoestratégicos’. Ele afirma no que diz respeito à necessidade de os
Estados Unidos permanecem essencialmente no controle do mundo:
“A América é agora a única superpotência global, e a Eurásia é a arena
central do globo. Assim, o que acontece com a distribuição de poder no
continente eurasiano será de importância decisiva para a primazia global
dos Estados Unidos e para o legado histórico da América.” (Basic Books
Publishing, 1998, p.194) “Para colocar em uma terminologia que remonta
à era mais brutal dos antigos impérios, os três grandes imperativos da
geoestratégia imperialista são impedir conluio e manter a dependência
de segurança entre os vassalos, para manter os clientes dóceis e pro-
tegidos, e impedir os bárbaros de se unirem. “(Ibid., p.40) “A partir de
agora, os Estados Unidos podem ter que determinar como lidar com
coalizões regionais que procuram empurrar a América para fora da Eurá-
sia, ameaçando, assim, o status dos Estados Unidos como uma potência
global.” (Ibid, p.55)

[402] Fonte: Uma Investigação sobre a Natureza da Paz e os Termos de


sua perpetuação, Thorstein Veblen, Echo Library, 1917 p.16

[403] Ibid., p.7

[404] Ibid., p.16

[405] Referência: você pode apoiar as tropas mas não a guerra? Respos-
ta das Tropas (http://www.huffingtonpost.com/paul-rieckhoff/can-you-sup-
port-the-troop_b_26192.html)

[406] “Duplipensar”, um termo cunhado por George Orwell, que descreve


o ato de aceitar simultaneamente duas crenças contraditórias como
corretas.

[407] “Traição” é definido como: “o crime de tentativa por atos explícitos


de derrubar o governo do Estado do qual o ofensor deve obediência”
Fonte: http://www.merriam-webster.com/dictionary/treason (Inglês)

[408] “Sedição” é definida como: “incitamento de resistência ou insur-


reição contra a autoridade legal” Fonte: http://www.merriam-webster.com/
dictionary/sedition (Inglês)

[409] Dos campos de concentração japoneses-americanos da Segunda


Guerra Mundial que aprisionaram mais de 127 mil cidadãos norte-amer-
icanos, (Fonte: http://www.ushistory.org/us/51e.asp), à suspensão das
liberdades civis, tais como “habeas corpus “(Fonte: http://www.salon.
com/2009/04/11/bagram_3/), até à perseguição por mera expressão
(Fonte: http://www.history.com/this-day-in-history/us-congress-pass-
es-sedition-act), a violação de direitos durante a guerra é uma constante
histórica.

196
[410] Um exemplo recente disso foi a revolta do “Occupy Movement”,
que foi considerado uma possível “ameaça terrorista” pelo FBI, como foi
revelado mais tarde. (Fonte: http://www.justiceonline.org/commentary/fbi-
files-ows.html)

[411] Israel, por exemplo, impõe recrutamento completo dos


seus cidadãos. (Fonte: http://www.aljazeera.com/news/middlee-
ast/2012/07/20127853118591495.html)

[412] Referência: “Por que sair do exército dos EUA é tão difícil?”, Time,
2012 (http://nation.time.com/2012/05/04/why-is-getting-out-of-the-u-s-ar-
my-so-tough/)

[413] Referência: “Recrutadores militares procuram em áreas isoladas


e deprimidas”, Seattle Times, de 2005 (http://community.seattletimes.
nwsource.com/archive/?date=20051109&slug=recruits09)

[414] Fonte: “Pentágono gasta bilhões em relações pública para influen-


ciar a opinião mundial”, Fox News, 2010 (http://www.foxnews.com/poli-
tics/2009/02/05/pentagon-spending-billions-pr-sway-world-opinion/)

[415] Fonte: “Federal Revenues by Source”, Heritage.com, 2012 (http://


www.heritage.org/federalbudget/federal-revenue-sources)

[416] Referência: Os 25 maiores aproveitadores da guerra do Iraque,


BusinessPundit.com, 2008 (http://www.businesspundit.com/the-25-most-
vicious-iraq-war-profiteers)

[417] Referência: Dez empresas que se beneficiam mais com a Guerra,


247WallSt.com, 2012 (http://247wallst.com/2012/02/28/ten-companies-
profiting-most-from-war/)

[418] Referência: Defensores da Guerra agora lucram com a reconstrução


do Iraque, LATimes.com, 2004 (http://articles.latimes.com/2004/jul/14/
nation/na-advocates14)

[419] Referência: Regime mortal de sanções: A guerra econômica contra


o Irã, GlobalResearch.ca, 2012 (http://www.globalresearch.ca/dead-
ly-sanctions-regime-economic-warfare-against-iran/5305921)

[420] Referência: Confissões de um Assassino Econômico: Como os EUA


Usa a Globalização para enganar os Países Pobres em trilhões, Democ-
racyNow.org, 2004 (http://www.democracynow.org/2004/11/9/confes-
sions_of_an_economic_hit_man)
[421] Referência: Banana Wars: Major General Smedley Butler, About.
com (http://militaryhistory.about.com/od/1900s/p/Banana-Wars-Ma-
jor-General-Smedley-Butler.htm)

[422] Fonte: War is a Racket (Guerra é uma Fraude), Smedley D. Butler,


William H Huff Publishing, 1935, Capítulo 1, p.1

197
[423] Originalmente na Revista “Common Sense”, 1935. Reproduzido em
“Hans Schmidt’s Maverick Marine: General Smedley D. Butler and the
Contradictions of American Military History” ( O Rebelde da Marinha de
Hans Schmidt : General Smedley D. Butler e as contradições da História
Americana Militar”. University Press of Kentucky, 1998 p.231

[424] Fonte: Imperialism: A Study (Imperialismo: Um Estudo), JA Hobson,


University of Michigan Press, Ann Arbor, 1965, p.367

[425] Referência: Definição de “Western Colonialism”: http://www.britanni-


ca.com/EBchecked/topic/126237/colonialism-Western (Inglês)

[426] Fonte: Uma Investigação sobre a Natureza da Paz e os Termos de


sua perpetuação, Thorstein Veblen, BW Hubsch de 1917 pp.366-367

[427] Ibid. p.367

[428] Referência: Nossa guerra econômica, ForeignAffairs.com (http://


www.foreignaffairs.com/articles/70162/percy-w-bidwell/our-economic-war-
fare)

[429] Como observado pela pesquisa pelo STWR em relação ao Banco


Mundial: “Na maioria dos seus países clientes, é praticamente a única
porta para acessar o comércio internacional, o financiamento do desen-
volvimento e investimento de capital privado. Isso deriva seu poder e
agenda política de seus acionistas - os governos mais ricos que com-
põem o G-7 ... que usam rotineiramente o Banco para garantir comércio
lucrativo e acordos de investimento nos países em desenvolvimento para
as suas respectivas empresas transnacionais (TNCs). “ Fonte: FMI, Banco
Mundial e Comércio, STWR (http://www.stwr.org/imf-world-bank-trade/cor-
porate-power-and-influence-in-the-world-bank.html)

[430] Referência: East India Company, Britannica.com (http://www.britan-


nica.com/EBchecked/topic/176643/East-India-Company)

[431] A partir de 2011, foi relatado que os militares dos EUA estão em
mais de 130 países, com cerca de 900 bases. Fonte: Ron Paul diz que
EUA tem militares em 130 nações e 900 bases no exterior, politifact.com,
2011 (http://www.politifact.com/truth-o-meter/statements/2011/sep/14/ron-
paul/ron-paul-says-us-has-military-personnel-130-nation/)

[432] Referência: Por que o Mundo em Desenvolvimento Odeia o Ban-


co Mundial, TheTechOnline, 2002 (http://tech.mit.edu/V122/N11/col-
11parek.11c.html)

[433] Fonte: The Principles of Political Economy and Taxation (Os


Princípios de Economia Política e Tributação), David Ricardo, 1821, Dent
Edition, 1962, p.64

[434] Fonte: Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza

198
das Nações, Adam Smith, 1776, par. V.1.2

[435] Fonte: Notes of the Secret Debates of the Federal Convention of


1787 (Notas dos Debates Secretos da Convenção Federal de 1787), Rob-
ert Yates, Alston Mygatt, p.183
[436] Referência: Um porcento detém 39 porcento da riqueza global,
RawStory.com de 2011 (http://www.rawstory.com/rs/2011/05/31/one-per-
cent-holds-39-percent-of-global-wealth/)

[437] Referência: Americanos pobres pagam em dobro ao Estado, Taxas


de impostos locais dos “1 porcento”, HuffingtonPost.com, 2012 (http://
www.huffingtonpost.com/2012/09/21/poor-americans-state-local-tax-
es_n_1903993.html)

[438] Referência: Não taxe os criadores de emprego, Cnbc.com, 2012


(http://www.cnbc.com/id/48290347/Don039tTaxtheJobCreatorsRomney)

[439] Referência: Dívida Privada acaba com a Economia, GlobalRe-


search.ca, 2012 (http://www.globalresearch.ca/private-debt-kills-the-
economy/5303842)

[440] Para um tratamento completo sobre a criação do dinheiro, veja:


Modern Money Mechanics (Mecânica Monetária Moderna), Federal Re-
serve Bank of Chicago, 1961

[441] Referência: U.S. Credit Card Debt Grows, Fewer Americans


Make Payments On Time (Dívida de cartão de crédito nos EUA cresce,
menos americanos fazem pagamentos à tempo), HuffingtonPost.com,
2012 (http://www.huffingtonpost.com/2012/11/19/us-credit-card-debt-
grows_n_2158010.html)

[442] Referência: Drowning In Medical Debt? Filing For Bankruptcy Could


Be Your Life Raft (Afogado em Dívidas Médicas? Declaração de falência
pode ser seu salva-vidas), BusinessInsider.com de 2012 (http://articles.
businessinsider.com/2012-01-27/news/306697141bankruptcy-filers-medi-
cal-debt-credit-score)

[443] Referência: The Debt That Won’t Go Away (A dívida que não se
acaba), cnbc.com, 2010 (http://www.cnbc.com/id/40680905)

[444] Referência: The American Household Is Digging Out of Debt in the


Worst Possible Way (A família americana está saindo do débito da pior
maneira possível), TheAtlantic.com, 2013 (http://www.theatlantic.com/
business/archive/2013/01/the-american-household-is-digging-out-of-debt-
in-the-worst-possible-way/272657/)

[445] Uma objeção comum a esta análise é a suposição de que a receita


de juros também é saída para a oferta de dinheiro por meio de contas
de poupança, Certificados de Depósito Bancários e outros tais investi-
mentos. No entanto, isso pressupõe que esse dinheiro está sendo criado

199
durante o tempo de pagamento. Isto não é verdade. Pagamentos de
rendimentos de juros são gerados pelos lucros existentes da instituição
financeira, assim a suposição não muda a equação. A taxa de juros
necessária para o pagamento simplesmente não existe na oferta de
dinheiro.

[446] É interessante destacar, como um aparte, que as instituições


bancárias em que os empréstimos são obtidos para uma compra - como
uma casa - são capazes de tomar a propriedade plena, independente-
mente do valor anteriormente pago. Mesmo que 99% do empréstimo seja
pago, eles ainda podem ter 100% da propriedade, se os pagamentos
finais não forem feitos.

[447] Por exemplo, uma pessoa que deposita um milhão dólares em um


Certificado de Depósito Bancário (CDB) a 3% de juros ao ano irá gerar
US$30.000 por este depósito apenas. Em termos de percentual, 3%
pode não parecer tão dramático. Em termos de valor absoluto, em com-
paração com a renda da grande maioria, é bastante considerável.

[448] Fonte: Investopedia.com (http://www.investopedia.com/terms/i/infla-


tion.asp#axzz2JypjmRJs)

[449] Referência: “Quantity Theory of Money” (Macroeconomia: Teoria


e Política), Robert J. Gordon, “Modern theories of inflation” (Modernas
teorias da inflação), McGraw-Hill, 1988

[450] Fonte: “Quantity Theory of Money” (Teoria Quantitativa da Moeda)


definida em: http://www.investopedia.com/articles/05/010705.asp#axzz-
2JypjmRJs

[451] 3,5% de depreciação anual após 10 anos. Valor original de


US$30.000 - Ano 1: US$28.950; Ano 2: US$27,937 ; Ano 3: US$
26,960; Ano 4: US26,017 ; Ano 5: US$25.107; Ano 6: US$ 24229; Ano 7:
US$23.381 ; Ano 8: US$22.563; 9 º ano: US$21.774; Ano 10 US$ 21,012.

[452] Para um tratamento completo sobre o Sistema Bancário de Reserva


Fracionária veja: Modern Money Mechanics, Federal Reserve Bank of
Chicago, 1961 (Mecânica Monetária Moderna, Federal Reserve Bank of
Chicago, 1961)

[453] Para citar a Mecânica Monetária Moderna, um texto produzido pelo


Federal Reserve Bank de Chicago: “É claro que eles [os bancos] real-
mente não pagam empréstimos do dinheiro que recebem como depósit-
os. Se fizessem isso, não poderiam criar nenhum dinheiro adicional. O
que eles fazem quando fazem empréstimos é aceitar notas promissórias
em troca de créditos para contas de operações dos mutuários... As
reservas são inalteradas pelas operações de crédito. Mas os créditos de
depósitos constituem novas adições ao total de depósitos do sistema
bancário.” (Modern Money Mechanics, Federal Reserve Bank of Chicago,
1961)

200
[454] Para citar a Mecânica Monetária Moderna: “A quantidade total de
expansão que pode acontecer... Realizada através de limites teóricos, a
reserva inicial US$10.000 distribuída dentro do sistema bancário dá ori-
gem a uma expansão de US$90.000 em crédito bancário (empréstimos
e investimentos) e suporta um total de US$100.000 em novos depósitos
sob o requerimento de 10% das reservas.” (Modern Money Mechanics,
Federal Reserve Bank of Chicago, 1961)

[455] Referência: U.S. Income Inequality: It’s Worse Today Than It Was
in 1774 (Desigualdade de Renda nos EUA: é pior hoje do que era em
1774), TheAtlantic.com, 2012 (http://www.theatlantic.com/business/
archive/2012/09/us-income-inequality-its-worse-today-than-it-was-
in-1774/262537/)

[456] Referência: The Unequal State of America: a Reuters series (O Es-


tado desigual da América: uma série Reuters), Reuters.com, 2012 (http://
www.reuters.com/subjects/income-inequality/washington)

[457] Referência: Income Inequality Around the World Is a Failure of


Capitalism (Desigualdade de Renda no mundo é um fracasso do cap-
italismo), TheAtlantic.com, 2011 (http://www.theatlantic.com/business/
archive/2011/05/income-inequality-around-the-world-is-a-failure-of-capi-
talism/238837/)

[458] Referência: The Top 0.1% Of The Nation Earn Half Of All Capi-
tal Gains (Os 0,1% mais ricos da nação recebem metade de todos os
ganhos de capital), Forbes.com de 2011 (http://www.forbes.com/sites/
robertlenzner/2011/11/20/the-top-0-1-of-the-nation-earn-half-of-all-capital-
gains/)

[459] Fonte: Investorwords.com (http://www.investorwords.com/706/capi-


talgain.html)

[460] Referência: Capital gains tax rates benefiting wealthy feed growing
gap between rich and poor (Benefícios fiscais nos lucros dos ricos au-
mentam o fosso crescente entre ricos e pobres), WashingtonPost.com de
2011 (http://www.washingtonpost.com/business/economy/capital-gains-
tax-rates-benefiting-wealthy-are-protected-by-both-parties/2011/09/06/
gIQAdJmSLK_story.html)

[461] Referência: Questioning the Dogma of Tax Rates (Questionando


o Dogma das taxas de Imposto), NYTimes.com de 2011 (http://www.
nytimes.com/2011/08/20/business/questioning-the-dogma-of-lower-taxes-
on-capital-gains.html?pagewanted=all&r=0)

[462] Referência: Top Canadian CEOs make average worker’s salary in


three hours of first working day of year (Os maiores diretores executivos
canadenses fazem nas primeiras três horas de trabalho do primeiro dia
útil do ano o equivalente ao salário médio de um trabalhador comum),
FinancialPost.com de 2012 (http://business.financialpost.com/2012/01/03/

201
top-canadian-ceos-make-average-workers-salary-in-three-hours/)

[463] Referência: CEO pay and the top 1% (Pagamento dos Diretores
Executivos e dos 1% mais ricos), Epi.org, 2012 (http://www.epi.org/publi-
cation/ib331-ceo-pay-top-1-percent/)

[464] Ibid.

[465] Referência: China Issues Proposal to Narrow Income Gap (China


publica Proposta para diminuir disparidade de renda), NYTimes.com,
2013 (http://www.nytimes.com/2013/02/06/world/asia/china-issues-plan-
to-narrow-income-gap.html)

[466] Referência: Society at a Glance 2011 - OECD Social Indicators (Um


breve olhar sobre a Sociedade - Indicadores Sociais da OCDE 2011),
Oecd.org, 2011 (https://constantdream.wordpress.com/2011/04/18/soci-
ety-at-a-glance-2011-oecd-social-indicators/)

[467] Referência:10 Countries With The Worst Income Inequality (10


países com a pior desigualdade de renda): OECD [OCDE], Huffington-
Post.com, 2011 (http://www.huffingtonpost.com/2011/05/23/10-coun-
tries-with-worst-income-inequality_n_865869.html)

[468] Os dados do censo dos EUA revelaram: “Os 20% dos norte-amer-
icanos que recebem maior salário - aqueles que ganham mais de
100.000 dólares por ano - receberam 49,4% de toda a renda gerada
nos EUA, em comparação com os 3,4% ganhos pelos 20% inferiores
dos assalariados, aqueles que caíram abaixo da linha da pobreza, de
acordo com os novos números. Essa proporção de 14,5 para 1 foi um
aumento de 13,6 em 2008, e quase o dobro de uma baixa taxa de 7,69
em 1968. No topo, os 5% mais ricos norte-americanos, que ganham
mais de US$180.000, aumentaram um pouco suas rendas anuais no ano
passado, os dados mostram. Famílias de nível mediano nos US$50.000
diminuíram.” Fonte: http://www.huffingtonpost.com/2010/09/28/income-
gap-widens-census-_n_741386.html

[469] Referência: Diferença de Renda Amplia: Censo encontra grave dif-


erença entre ricos e pobres (http://www.huffingtonpost.com/2010/09/28/
income-gap-widens-census-n741386.html)

[470] Fonte: Investopedia.com (http://www.investopedia.com/terms/p/plu-


tonomy.asp#axzz2K4wDOCp1)

[477] Fonte: Plutonomy: Buying Luxury, Explaining Global Imbalance


(Plutonomia: Comprando luxo, Explicando Desequilíbrio Global), Citigroup
Internal Memo, 16 de outubro de 2005, p.1
[472] Ibid, p.2

[473] Fonte: The Plutonomy Symposium - Rising Tides Lifting Yachts, Citi-
group Internal Memo, 29 de setembro de 2006, p.11

202
[474] Referência: Riqueza, Renda, e Poder, UCSC.edu, 2013 (http://sociol-
ogy.ucsc.edu/whorulesamerica/power/wealth.html)

[475] Fonte: Revisiting Plutonomy: The Rich Getting Richer (Revisitando


plutonomia: os ricos cada vez mais ricos), Citigroup Internal Memo, 5 de
março de 2006, p.11

[476] Fonte: The Plutonomy Symposium - Rising Tides Lifting Yachts, Citi-
group Internal Memo, 29 de setembro de 2006, p.11

[477] Fonte: Plutonomy: Buying Luxury, Explaining Global Imbalance


(Plutonomia: Comprando luxo, Explicando Desequilíbrio Global), Citigroup
Internal Memo, 16 de outubro de 2005, p.24

[478] Para uma análise mais detalhada destes documentos do Citigroup,


veja: http://www.insideriowa.com/en/opinion/index.cfm?action=dis-
play&newsID=17761

[479] Fonte: Rádio Pública Nacional (15 de outubro de 2012) “O bura-


co surpreendente entre nós e eles ‘Em Plutocratas’” (http://www.npr.
org/2012/10/15/162799512/a-startling-gap-between-us-and-them-in-plu-
tocrats)

[480] Um exemplo bem conhecido de progresso inibido para a ma-


nutenção de estabelecimentos de lucros existentes foi o bem sucedido
esforço feito pela indústria do petróleo e, por extensão, do governo dos
EUA para retardar o progresso em direção a veículos totalmente elétricos
na década de 1990. (Sugestão para assistir: “Quem matou o carro elétri-
co?”: http://www.imdb.com/title/tt0489037/synopsis)

[481] Referência: Gigantes do Petróleo relutantes em seguir a estratégia


verde de Obama (http://www.nytimes.com/2009/04/08/business/ener-
gy-environment/08greenoil.html?pagewanted=all&r=0)

[482] Fonte: Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza


das Nações, Adam Smith, Modern Library reimpressão, 1937, New York,
p.250

[483] Referência: Os EUA: mercador de armas para o Mundo em Desen-


volvimento, Time.com 2012 (http://nation.time.com/2012/08/28/theres-no-
business-like-the-arms-business-2/)

[484] Referência: Ajuste Estrutural - a principal causa da pobreza, Globa-


lIssues.org, 2013 (http://www.globalissues.org/article/3/structural-adjust-
ment-a-major-cause-of-poverty)

[485] Fonte: Heritage.com (http://www.john-adams-heritage.com/quotes/)

[486] Referência: Pobreza ‘Extrema’ nos EUA mais do que dobrou, diz

203
estudo, MoneyNews.com, 2012 (http://www.moneynews.com/Economy/
Extreme-Poverty-US/2012/03/06/id/431627)

[487] Referência: Do 1%, pelo 1%, para o 1%, VanityFair.com, 2011 (http://
www.vanityfair.com/society/features/2011/05/top-one-percent-201105)

[488] Fonte: Citado por Raymond Lonergan em Mr. Justice Brandeis,


Great American, 1941, p.42

204
Capítulo 12

Introdução ao
Pensamento Sustentável

A ação é o produto das qualidades inerentes à Natureza.


É apenas o homem ignorante que, enganado pelo
egoísmo pessoal, diz: ‘eu sou o autor’ .” [489]
- O Bhagavad Gita -

Espectro Socioeconômico
Como mencionado em ensaios anteriores, práticas sustentáveis ​​só podem aconte-
cer por meio de uma re-orientação de valores relacionadas com o pensamento suste-
ntável. Enquanto a noção de sustentabilidade é muitas vezes reduzida a um contexto
ecológico, a verdadeira e mais profunda questão é cultural. Este, portanto, torna-se
um processo de educação. É da perspectiva do Movimento Zeitgeist que o sistema
econômico utilizado em uma sociedade é a maior influência sobre os valores e cren-
ças de seu povo. Por exemplo, profundamente enraizada, mesmo nas aparentemente
antagônicas doutrinas político-religiosas do nosso tempo, reside uma corrente subter-
rânea de valores estabelecidos por premissas econômicas.490

O termo “socioeconômico”, que é a ciência social que liga os efeitos da atividade


econômica a outros processos sociais,491 poderia ter o seu significado mais espe-
cificamente ampliado para incluir também pontos de vista religiosos, preferências
políticas, iniciativas militares, lealdades tribais, costumes culturais, estatutos legais e
outros fenômenos sociais comuns. Parece que o próprio tecido de nossas vidas e, por-
tanto, nosso sistema de valores, nasce predominantemente a partir da percepção cul-
tural da nossa sobrevivência, relações sociais e das ideias de sucesso pessoal e social.

Além disso, é fundamental reafirmar que os sistemas políticos, que em sua maioria
ainda parecem priorizar os problemas das sociedades, são, na melhor das hipóteses,
secundários em importância (senão inteiramente obsoletos) quando as ramificações
reais da estrutura econômica são levadas em consideração. De fato, como será dis-
cutido em ensaios futuros, governança “política” como conhecemos, nada mais é do
que uma consequência da ineficiência econômica. Poucos dariam muita importância
a “quem estava no poder”, ou outras noções tradicionais, caso entendessem clara-
mente o processo do desenvolvimento econômico e fossem capazes de contribuir

205
e progredir sem conflito. Portanto, não há problema de maior importância do que o
sistema de desenvolvimento econômico quando se trata do comportamento e estabil-
idade dos seres humanos, tanto no nível pessoal quanto social.

Efemerização
De um modo geral, um sistema econômico existe para atender as “necessidades
e desejos”492 da população. O grau em que isto é possível depende do estado dos
recursos disponíveis ​​e da estratégia técnica utilizada para aproveitar esses recursos
para uma determinada finalidade. Neste contexto, o notável engenheiro e pensador
R. Buckminster Fuller argumentou que a verdadeira “riqueza” econômica não é o
dinheiro ou até mesmo o resultado material de uma determinada produção.493 Em vez
disso, a verdadeira riqueza é o nível adquirido de eficiência energética ou produtiva,
em conjunto com a evolução de conhecimento que promove a gestão inteligente dos
recursos da Terra. Nessa perspectiva, ele definiu e expressou uma tendência chamada
de “efemerização”,494 que indica a capacidade técnica da humanidade de fazer “cada
vez mais com menos”.

Historicamente falando, a efemerização é, em termos práticos, uma contradição


do pensamento “malthusiano”495 ainda profundamente arraigado, que afirma que, em
parte, a humanidade está sempre em desequilíbrio com a natureza e sempre haverá
uma parcela da população que deve sofrer, já que os recursos disponíveis simples-
mente não são suficientes para atender às necessidades de todos.

Como observado nos ensaios anteriores, essa visão de mundo é sempre perceptível
no sistema econômico mundial em que estamos envolvidos, dando forma a vieses
estruturais profundos,496 os quais, inevitavelmente, têm favorecido uma “classe” de
pessoas em detrimento de outras, em uma vantagem na sobrevivência. Em outras pa-
lavras, culminamos em um “jogo bélico”, construído a partir do pressuposto de escas-
sez universal e perpetuamente reforçado, que segue hoje em uma dinâmica própria,
amplamente separado de sua causa original.

A maior parte do que definimos hoje como “corrupção” encontra, frequentemente,


a sua raiz psicológica nesta consciência competitiva, tanto no nível pessoal, empre-
sarial (negócios) e no de governo, na forma de guerras, tirania e conluios para preser-
vação de poder. Na verdade, pode-se argumentar que a própria noção de “ética”,
em um mundo que decididamente trabalha para ganhar à custa de outros, torna-se
altamente relativa e quase arbitrária.

No entanto, esta tendência de efemerização, tendo aumentado rapidamente a par-


tir dos quase repentinos avanços industriais/científicos do século XX, desafia profun-
damente a visão de mundo protecionista, elitista e orientada pela escassez, sugerindo
novas possibilidades de mudança no paradigma da organização humana.

206
Estas possibilidades, em parte, revelam estatisticamente que nós agora somos
capazes de cuidar de toda a população do mundo com um padrão de vida inacessível
para a grande maioria da humanidade de hoje.497 Contudo, para que essa nova re-
alidade de eficiência seja aproveitada, as barreiras arcaicas arraigadas em nosso
modo de vida cotidiano, especialmente a nossa percepção da economia, precisam ser
reavaliadas e, provavelmente, superadas por completo.

Como observado nos ensaios anteriores, o termo “utopia” geralmente surge como
um termo pejorativo entre aqueles que tendem a recusar uma melhoria social em
grande escala, devido a um cinismo da chamada “natureza humana” ou a uma de-
scrença absoluta na capacidade técnica da humanidade para hoje ajustar-se ampla-
mente aos novos meios técnicos.

Por exemplo, uma objeção comum à cultura atual, especificamente àquela das
nações “ricas” do Primeiro Mundo, repousa no valor do que poderia ser chamado de
“violência da aquisição em massa”. Em sua raiz, essa visão toma o conceito malthu-
siano de insuficiência de recursos para as necessidades e o transpõe para assumir uma
pressão de irracionalidade aquisitiva.

Em outras palavras, assume-se que os seres humanos, empiricamente, têm “as-


pirações” materiais infinitas e que, mesmo que cada ser humano pudesse ter o que o
Ocidente considera hoje como um estilo de vida de classe alta, sem ninguém ficar de
fora, algum elemento de nossa psicologia nunca estaria satisfeito, no sentido materi-
al, e, desse modo, o interesse por “mais e mais” ganhos materiais criaria sempre um
desequilíbrio que desestabilizaria a sociedade. Daí, a existência de “ricos” e “pobres”
ser compreendida como uma consequência de nossa psicologia orientada, inerente-
mente, pelo status e pela ganância, e não como uma consequência da não disponibi-
lidade de recursos e meios.

Até que ponto isso é verdade é algo a ser questionado, dada a condição cultural
extrema em que nos encontramos hoje e tendo como referência o fato histórico de
que, fora da influência Ocidental (ou seja, Capitalista), o conceito de “apenas sucesso
material” está longe de ser universal para o ser humano.498 Na verdade, a relação entre
“sucesso” e “propriedade” foi fabricada culturalmente, com base nas necessidades do
sistema e agora é um valor básico da nossa sociedade baseada em consumo.499

Em um mundo que hoje é impulsionado pelo “crescimento econômico”, para que


se mantenham as taxas de empregos em níveis razoáveis; em um mundo que idolatra
indistintamente aqueles com grande riqueza financeira como uma indicação de suces-
so; em um mundo que acaba por recompensar comportamentos de indiferença hu-
mana e competição cruel por uma participação no mercado (em vez de contribuição
social honesta para o aperfeiçoamento humano em geral); não há mistério algum no

207
porquê de a ideia de um único ser humano ser dono de uma propriedade com, dig-
amos, 400 quartos, em 242,3 mil hectares de terras privadas, com 50 carros e cinco
aviões estacionados no jardim da frente, ter se tornado parte de uma visão ideal e
cobiçada de sucesso pessoal (e social).

No entanto, a partir de uma perspectiva de verdadeira sustentabilidade huma-


na, essa visão é pura violência e cai quase na mesma categoria da de alguém que
acumula alimentos e recursos que ele ou ela não precisa, e se recusa, por causa de
um princípio abstrato, a permitir que outros tenham acesso a estes recursos.500 Se
imaginarmos uma pequena ilha de dez pessoas onde duas pessoas decidem extrair e
acumular 1000% a mais do que o necessário para uma vida saudável, deixando oito
pessoas vivendo em pobreza extrema e/ou morrerem - você consideraria este arranjo
um ato de “liberdade pessoal” por parte dos dois primeiros - ou um ato de violência
social contra os oito restantes?

Esta questão é aqui levantada para desbancar a reação, comum a muitos, de “falácia
de abundância utópica” em relação às implicações da efemerização. Assim como nós,
como uma sociedade global, estamos percebendo as limitações físicas inerentes aos
nossos comportamentos industriais, lentamente nos ajustando para nos distanciarmos
das consequências ecologicamente desestabilizadoras, é crucial entender que um valor
baseado em um “querer infinito” é igualmente prejudicial para o equilíbrio social.

Limitações do Sistema
Ao tratar de filosofias culturais, a população humana deve ter, parcialmente,
uma clara compreensão de suas limitações e derivar suas expectativas e valores a
partir da realidade física. As limitações impostas por nosso meio ambiente existem
independentemente de valores humanos, interesses, desejos ou mesmo de necessi-
dades abstratas. Se removêssemos a humanidade do planeta Terra e observássemos
as operações ecológicas naturais da Terra com o entendimento causal e científi-
co que temos hoje, assistiríamos a um sistema sinérgico/simbiótico regido pela
dinâmica universal da natureza.

Assim, não importa o que pensamos sobre nós mesmos, nossas intenções ou
nossas “liberdades”,501 uma vez que fazemos parte desse sistema de leis físicas
ao qual estamos atados, independentemente de nossas crenças ou das normas
culturais que tomamos como verdade, ou que tenham sido impostas como “in-
evitáveis” ou “imutáveis” por nossas várias culturas. Se optamos por aprender e
nos alinhamos com a lógica inerente, encontraremos a sustentabilidade e, con-
sequentemente, a estabilidade. Se optamos por ignorar ou combater essas regras
pré-existentes, inevitavelmente reduziremos a estabilidade e os problemas sur-
girão, como tem sido o estado quase constante das coisas, atualmente, nesse in-
ício do século 21.

208
Esta tomada de consciência das limitações naturais, como hoje viemos a en-
tendê-las, através do método científico, expressa talvez a mais profunda mudança nas
“lealdades” humanas da história. Em suma, agora entendemos que, ou nos alinhamos
com o mundo natural, ou sofreremos. Infelizmente, essa forte associação referencial
ainda está em desacordo com muitas filosofias populares de hoje em dia, tais como
algumas perspectivas religiosas e políticas estabelecidas. Igualmente notável é a réplica
habitual de rotular essa percepção muito firmemente estabelecida como “totalitária” ou
“tudo-ou-nada”, uma imposição aparentemente rígida e arbitrária sobre a vida humana,
em vez de simplesmente o estado inegável e cientificamente demonstrável das coisas.

Curiosamente, o ponto principal e quase paradoxal de toda a consideração, sobre a


lei natural, é que dentro desta “caixa” racional de limitação do sistema, definida como
as “leis governantes da natureza”, nossa gama de possibilidades dentro desses limites,
através do método científico, revela também uma eficiência técnica cada vez maior
e um potencial incrível para criar abundância que supra as necessidades humanas,
em nível mundial. Além disso, dado que a humanidade é a única espécie do planeta
com a capacidade mental de alterar/afetar o ecossistema de forma verdadeiramente
profunda, essa necessidade de alinhamento se torna crítica para a sustentabilidade das
espécies, para a saúde pública e para o verdadeiro avanço na resolução de problemas.
Nada poderia ser mais perigoso do que uma cultura mundial que, dado o aumento
exponencial de nossa capacidade de afetar o equilíbrio ecológico e social através da
tecnologia, não entendesse seu poder e efeitos. Em muitos aspectos, a humanidade se
depara com uma corrida educacional contra o tempo, no que diz respeito a sua imatu-
ridade atual em lidar com os seus incríveis e recém descobertos poderes, alcançados
através da ciência e tecnologia.502

Paralelamente, é importante lembrar que, quando se trata da história do próprio


pensamento econômico, o quadro de referência tem estado mais relacionado a
suposições sobre o comportamento humano do que à gestão inteligente de recursos
e compreensão das leis gerais das ciências físicas e naturais.503 Por mais que nossos
mais inatos reflexos comportamentais e propensões genéticas sejam, certamente, rel-
evantes às consequências de um sistema socioeconômico e parte muito importante
da equação, os pressupostos acerca do comportamento humano não podem, racio-
nalmente, se manter como ponto de partida estrutural de um sistema econômico. Os
seres humanos são uma consequência das mesmas condições do sistema ecológico e
não o contrário.

Assim, em conclusão a esta introdução, se o objetivo de um sistema social é criar


um padrão cada vez melhor de vida, ao mesmo tempo em que se mantém o equilíbrio
ambiental e social, para garantir que esta qualidade não se reduza no futuro, devi-
do a possíveis consequências de escolhas irresponsáveis - como o esgotamento de
recursos, poluição, doenças, estresse negativo, desigualdade de “riqueza” e outras

209
questões - torna-se então fundamental basear a nossa metodologia sobre o conjunto
mais relevante de parâmetros técnicos que pudermos, orientada em torno do estado
atual do conhecimento científico, tanto em nível ecológico quanto humano.

210
Notas e Referências: Capítulo 12

489] Fonte: O Bhagavad Gita, Capítulo 3, Versículo 27, Tradução: Shri


Purohit Swami

[490] Um exemplo seria esta passagem das Escrituras, do Antigo Testa-


mento, que parece implicar que os “pobres” sempre existirão, não impor-
ta o que a sociedade faça: “Sempre haverá pobres na terra. Portanto eu
te ordeno ser mão aberta (caridoso) com seus irmãos e com os pobres e
necessitados em sua terra. “Deuteronômio 15:11

[491] “Socioeconômico” é definido como: “de, relativo a, ou envolvendo


uma combinação de fatores sociais e econômicos” (Fonte: http://www.
merriam-webster.com/dictionary/socioeconomic)

[492] Os padrões de consumo na sociedade moderna têm mostrado uma


natureza cada vez mais arbitrária em relação aos “desejos” humanos, tais
como a poderosa mudança de valores que ocorreu no início do século
20, com a aplicação da moderna publicidade ocidental. As “necessi-
dades” humanas, no entanto, são necessidades básicas, em grande
parte, compartilhadas por todos os seres humanos, que mantêm a saúde
física e psicológica. Enquanto muitos ainda discutem interpretações
subjetivas de tais termos, “necessidades” são essencialmente estáticas
e “desejos” são essencialmente variáveis. De um modo geral, “desejos”
são uma consequência de um sistema de valores e são culturalmente
derivados. Então, “necessidades” são, portanto, de maior prioridade, no
atendimento, que “desejos”.

[493] Fuller declara: “Riqueza ... é inerentemente regenerativa. Riqueza,


conforme demonstrado experimentalmente, é: energia combinada com
know-how do intelecto “. De Utopia ou Esquecimento, R. Buckminster
Fuller, Bantam Press, NY, 1969, p.288

[494] ‘Efemeralização’, um termo cunhado por R. Buckminster Fuller, é a


capacidade do avanço tecnológico em fazer “mais e mais com cada vez
menos ...” ao longo do tempo. Esta tendência pode ser observada em
muitas áreas do desenvolvimento industrial, do processamento de dados
(Lei de Moore) até a rápida aceleração do conhecimento humano (tecno-
logia da informação). Um exemplo comum seria as relações entre poder
de computação e tamanho dos computadores, ao longo do tempo. O
computador ENIAC, da década de 1940, cobria 1.800 metros quadrados
de área útil, pesava 30 toneladas, consumia 160 quilowatts de energia
elétrica e custou cerca de US $ 6 milhões, em valores atuais. Hoje, um
telefone celular de bolso, barato, calcula substancialmente mais rápido
que o ENIAC. Portanto - menos material e ainda mais poder. [http://inven-
tors.about.com/od/estartinventions/a/Eniac.htm]

[495] Malthusianismo é uma perspectiva ligada ao economista e cléri-


go Thomas R. Malthus que, em suma, tem a ver com a necessidade de

211
controlar / limitar o crescimento da população devido a uma suposição
empírica de escassez relativa de recursos. Idéias como “não ajudar
os pobres”, uma vez que “apenas dá falsa esperança”, e similares são
comuns a este ponto de vista. [Sugestão de Leitura: Um Ensaio sobre o
Princípio da População, Thomas Malthus, 1798

[496] Ver capítulo anterior: Classismo Estrutural, O Estado e A Guerra


[497] Enquanto essa realidade será discutido no seguinte ensaio
“Tendências Pós-Escassez, Capacidades e Eficiências”, destacando
a aceleração da eficiência em transporte, energia, design industrial,
tecnologia de cultivo de alimentos e afins, a seguinte conclusão, por
R. Buckminster Fuller, em 1969, vale a pena como referência histórica:
“[O homem] desenvolveu tão intensa mecanização, na Primeira Guerra
Mundial, que a percentagem da população total do mundo que eram
industriais subiu em 1919 para o valor de 6%. Essa foi uma mudança
muito brusca na história ... Na época da II Guerra Mundial, 20% de toda a
humanidade havia se tornado industrial ...No momento atual, a proporção
de “ricos” é de 40% da humanidade... se aumentarmos as performances
... de recursos do nível atual para a eficiência global altamente viável de
12% [mais] ... [tudo a humanidade pode ser atendida] “. De Utopia ou Es-
quecimento, R. Buckminster Fuller, Bantam Press, NY, 1969, pp.153-155

[498] Uma vez que a suposição de “infinita carência” do desejo humano


ainda é um componente central do mercado monetário baseado na visão
econômica de escassez e de desigualdade de recursos, é interessante
observar como a própria base da sua hipótese implica uma irracionali-
dade empírica do comportamento humano . Teria de ser irracional dado
o conhecimento básico da dependência da humanidade dos recursos
finitos da Terra. A história humana está repleta de contradições deste
pressuposto, especificamente em culturas que se desenvolveram em
sociedades menos industrializadas, em uma associação mais direta com
a terra, fora da influência da nossa agora comum cultura consumidora.
Culturas os Primeiros Nativos Americanos, por exemplo, realizaram o
valor do equilíbrio como uma virtude, ao invés da aquisição. Sugestão de
leitura: O Alto Preço do Materialismo, Tim Kasser, A Bradford Book, 2003

[499] Referência: Propaganda, Edward Bernays, Ig Publishing, 1928

[500] As ramificações socialmente desestabilizadoras de uma sociedade


com grande desequilíbrio de riqueza foram recentemente melhor exem-
plificadas pela ascensão do que foi reconhecido mundialmente como os
protestos “Occupy Wall Street”. (http://occupywallst.org/) O desequilíbrio
riqueza tornou-se cada vez mais reconhecido menos como um problema
subjetivo de “justiça moral”, mas sim como uma questão terrível de saúde
pública e estabilidade social.

[501] A palavra “liberdade” está entre parênteses devido ao prolífico uso


cultural. Slogans patrióticos sobre “independência” e “liberdade”, nasci-
dos, em parte, do problema histórico da tirania e abuso do governo, ex-
istem hoje criando, muitas vezes, uma visão quase neurótica e enganosa

212
do comportamento humano. Na realidade, não existe tal coisa como liber-
dade universal, no mundo, uma vez que leis físicas rígidas nos limitam. A
noção cultural de “liberdade”, como largamente propagada pela ideolo-
gia Capitalista, pode-se argumentar ser intrinsecamente perigosa para
a sustentabilidade das espécies, de muitas maneiras - especificamente
no que diz respeito à sua absoluta ignorância de fatores de ordem maior,
do sistema sinérgico, assumindo a falácia de que uma busca individual
de satisfação, com base em auto-interesse, assegura o equilíbrio social e
ecológico.

[502] Mais tarde em sua vida, o astrônomo Carl Sagan fez um comentário
de vídeo que pode ser encontrado em versões posteriores de seus
vídeos PBS (Public Broadcasting Service é uma rede de televisão es-
tadunidense de caráter educativo-cultural, em contraponto às grandes
redes comerciais que operam no país), da série “Cosmos”, afirmando
(parafraseado aqui): “É quase como se existisse um Deus e ele tivesse
dado a humanidade a opção de usar o poder da ciência para melhorar a
vida ... ou destruí-la. Cabe a nós escolher.”

[503] Ver capítulo anterior História da Economia.’

213
214
Capítulo 13

Tendências Pós-escassez,
Capacidade e Eficiência

“A atual industrial civilização mundial é prejudicada pela coex-


istência de dois sistemas intelectuais universais, que se sobrepõem
e são incompatíveis entre si: o conhecimento acumulado dos
últimos quatro séculos sobre as propriedades e inter-relações da
matéria e da energia; e a cultura monetária associada que evoluiu
a partir de costumes de origem pré-histórica.” [504]
- M. King Hubbert -

Avaliando o Projeto
Examinando a superfície da Terra, hoje, percebe-se que uma camada de rede de
comunidades, centros industriais, vias de transporte, áreas de recreação, sistemas
agrícolas e afins dominam grande parte da paisagem. Independente de pretender ser
ou não uma construção completa de um sistema, este resultado, em um determinado
ponto no tempo, constitui a aparência de um projeto topográfico.

No entanto, por outro lado, uma vez que o resultado deste “projeto” é hoje, na
verdade, uma junção consequente, principalmente, das dinâmicas empresariais -
movimentação do dinheiro em função de interesse próprio ou de grupos, baseada
em mecanismos de tomada de decisão tais como lucro, custo-benefício e a lógica
prevalecente das relações de propriedade - também se poderia argumentar que o
que se manifestou não é na verdade um “projeto”. Pelo contrário, se baseia em um
mecanismo que criou a aparência de projeto ex post facto505, uma vez que o recon-
hecido resultado estrutural não foi totalmente antecipado antes de sua construção,
como um todo.

Em outras palavras, a ordem técnica que vemos no mundo de hoje é principal-


mente o resultado de processos financeiros que têm pouca ou nenhuma percepção
de resultados estruturais em maior escala. É mais um sistema de representação506 e,
embora existam algumas exceções relativas, como a colocação de estradas, oleodu-

215
tos e similares por urbanistas financiados que simplesmente precisam ter uma visão
física ampla para serem funcionais, mesmo estas circunstâncias estão muitas vezes
se desenvolvendo em torno de reivindicações de propriedade pré-existentes e outras
formas de interferência que tendem a reduzir a eficiência do projeto como um todo.

Esta é uma observação interessante, pois uma vez reconhecido que a nossa so-
ciedade funciona sem uma preconcepção com seu próprio desenho físico, em larga
escala, começa-se a perceber o nível enorme de desperdício e ineficiência técnica
inerentes a um processo tão míope.

Para compreender isso melhor, dois pontos merecem consideração:


a) Existência de Soluções Ainda Não Aplicadas
b) Concepção Ampla vs. Concepção Espontânea

A) Existência de Soluções Ainda Não Aplicadas:


Este primeiro ponto diz respeito à tendência de que muitas inovações na resolução
de problemas não são aplicadas dentro da tradição econômica atual.507 Se métodos
ou tecnologias adicionais de melhoria de vida não se incorporaram a um sistema,
após uma quantidade de tempo considerável ou (de todo modo) depois de uma vali-
dação geral, podemos assumir com razão que há ineficiências, senão deficiências, no
próprio processo de incorporação e desenvolvimento econômicos.

Em outras palavras, esse atraso na aplicação, no mundo real, de soluções com-


provadas mede a capacidade do sistema socioeconômico de se adaptar adequada-
mente aos métodos e aplicações melhorados. Se, por algum motivo, a ordem social
em questão não é capaz de incorporar esses novos meios que promovem o equilíbrio
ecológico, melhoram a saúde pública, resolvem problemas e aumentam a prosperi-
dade, então provavelmente há um problema estrutural inerente.508

B) Concepção Ampla vs. Concepção Espontânea:


Em segundo lugar, de um ponto de vista estritamente convencional, consid-
erações diretas e totais acerca do sistema serão sempre mais eficientes e eficazes
do que a geração “espontânea” através de processos cegos ao resultado final ou
seu propósito.509

Em outras palavras, como indicado antes, um bem básico, como um carro, tem
um projeto que é concebido com antecedência, antes da produção física. Assim que o
desenho é concluído, em seguida, há a aplicação de materiais e processos reais para
a criação do produto físico real. Isso pode parecer óbvio, para a maioria, como um
processo lógico, mas a relevância de tal pré-concepção muitas vezes se perde quando
se trata de contextos de ordem maior.

Temos que nos perguntar qual seria o resultado se aplicássemos o processo pseu-

216
do-democrático de mercado, baseado em lucro a curto prazo, através de ofertas,
compra e venda, caso possível em tal escala, na criação de sistemas de bens de alta
integridade, como um avião, computador, carro, casa ou similares. Enquanto hoje os
recursos, trabalho e sistemas sub-componentes desses itens estão certamente em jogo
no livre mercado, o projeto em si não está.

O projeto é relegado, necessariamente, à disciplina de ciências em geral. Pode-se


dizer que uma linha é intuitivamente delineada entre o que é suscetível à opinião mon-
etária e o que é tangivelmente necessário para manter um nível básico de integridade
técnica do sistema. (Por favor, note que esta noção de projeto não deve ser confundida
com interesses “estilísticos” subjetivos. Projeto, como usado aqui, não é uma consider-
ação estética, mas uma questão técnica).

Imagine, hipoteticamente, se as pessoas fizessem suas “ofertas e sugestões”


para o projeto físico de construção de uma casa nos seus pequenos detalhes físi-
cos, ignorando princípios científicos. Em outras palavras, ao invés de referenciar
as leis básicas da física e da ciência natural que definem a integridade estru-
tural nuclear de qualquer edifício, nós deixássemos o mercado decidir, com todos
“comprando” e “vendendo” essas premissas em benefício pessoal, independente
de conhecimento técnico. É claro que essa ideia é um verdadeiro absurdo em tal
abstração e a maior parte dos leitores provavelmente não pode sequer imaginar
uma dinâmica tão irracional.

No entanto, é exatamente isso que está ocorrendo, como resultado de nosso


sistema econômico, em muitas outras formas menos óbvias . Por exemplo, em uma
escala “macroeconômica”, a rede comercial mundial criada pela globalização510 -
baseada no custo-benefício, que muitas vezes, dentre outras coisas, utiliza trabalho
mais barato em regiões distantes511, desperdiçando grandes quantidades de energia
no deslocamento, de ida e volta, de recursos ao redor do mundo - revela bem esta
perda de eficiência.512

Do ponto de vista de projeto pré-concebido, dada a possibilidade mais lógica de


localização do trabalho, da produção e da distribuição, na maioria dos casos, a global-
ização, na sua forma atual, é altamente ineficiente comparada a outras possibilidades.
O que não significa negar que a globalização e a integração das economias internacio-
nais, no geral, têm sido uma ocorrência produtiva dentro da evolução da economia.
Nesse contexto, serviu ao desenvolvimento industrial global razoavelmente bem. No
entanto, se pensarmos fora da caixa da lógica do mercado e analisarmos a forma
como poderíamos projetar diretamente um conjunto de sistemas mais tecnicamente
eficientes e localizados, dentro do cenário global, notaremos que o método atual não
é somente inferior, mas bastante ofensivo.
Na escala “microeconômica”, isto pode ser exemplificado em relação à inefi-

217
ciência inerente à qualidade dos componentes básicos dos bens, também devido à
prática de custo-benefício, e ao interesse inerente em produzir o chamado “melhor”
ao “menor preço” que, simplesmente, não produz o melhor de forma alguma.

Por exemplo, a proposição de um projeto esquemático de, digamos, um com-


putador portátil pode ser razoavelmente eficiente, tecnicamente. Entretanto, se os
materiais de fato utilizados para gerar o produto final são relativamente ruins em
qualidade, não importando o quão inteligente o projeto geral básico tenha sido,
haverá uma fraqueza relativa do mesmo, que provavelmente o fará quebrar mais
rápido do que se o projeto fosse também otimizado com os materiais mais “apro-
priados” do ponto de vista técnico, ao invés de se ter os materiais selecionados de
acordo com um mandato da “eficiência de mercado”.513

Outro exemplo é o fenômeno de mercado chamado patente tecnológica. Enquanto


vemos, aparentemente, uma enorme variedade, em termos de produção de bens no mun-
do de hoje, um olhar mais atento mostra uma multiplicidade vasta e desnecessária,514
juntamente com uma incompatibilidade estrutural problemática entre fabricantes de
componentes do mesmo gênero de bens.

Em outras palavras, as empresas concorrentes de hoje tendem a criar sistemas


personalizados (como um computador e seus componentes necessários) que são in-
compatíveis com o desenvolvimento de outros produtores desse mesmo gênero de
produtos. “Compatibilidade universal”,515 ou a falta dela, é mais um exemplo de
subproduto deste jogo “sob o mandato” do mercado e de que o desperdício e a in-
eficiência do sistema de grande escala são enormes. Esse padrão também é comum
no desenvolvimento de gerações de produtos comerciais existentes (“modelos”),
quando, por exemplo, são feitas melhorias em uma determinada máquina, tornando
desnecessariamente obsoletos os antigos componentes da mesma, com o intuito de
estimular o consumidor a fazer novas compras.516

É importante notar que não há algo como um produto isolado, no sistema fechado
da Terra, no que diz respeito aos recursos planetários e seu uso, e também não há
projetos de bens ou métodos de produção que existam em um vácuo. Cada bem junto
com o seu processo de produção é apenas uma extensão da totalidade da indústria.
Assim, os materiais e os projetos utilizados apenas fazem sentido no contexto da
totalidade da indústria e da gestão de recursos em todos os níveis. Esse entendimento
obriga que constantemente se visualize a indústria (logo, a própria economia) como
um único processo sistêmico de forma a garantir uma eficiência técnica máxima.

Então, com isso em mente e tendo em vista o primeiro ponto sobre por que
certas realidades não são colocadas em prática, embora sejam, em determinado
ponto no tempo, claramente exequíveis, este ensaio examinará tendências tec-

218
nológicas e capacidades projetivas socialmente relevantes que, se aplicadas cor-
retamente, podem transformar radicalmente o mundo em direção a uma condição
de abundância “pós-escassez”, que aliviaria grande parte dos problemas mundiais
tão comuns hoje em dia.

Além disso, é algo conclusivo para o TZM que o atual modelo não apenas im-
pede - ou incorpora muito lentamente - novos adventos em eficiência devido à própria
natureza dos negócios e de sua tendência em preservar a ineficiência em benefício do
lucro,517 mas também que a natureza segregada e avulsa, própria da atividade de mer-
cado, ignora, de forma inerente, considerações mais amplas para identificar e resolver
os problemas ou acelerar as melhorias.518

Eficiência de Design
Se quebrarmos a complexidade cotidiana de nossas vidas, dissecando quais as
relações mais críticas para a sobrevivência humana, sustentabilidade e prosperidade,
poderemos encontrar três coisas básicas: ciência, lei natural e recursos. “Ciência” é o
mecanismo de descoberta e validação; “Lei natural” é o conjunto de regras pré-exis-
tentes as quais estamos continuamente aprendendo e necessariamente nos adaptando,
através da ciência; enquanto os “recursos” existem tanto no contexto dos materiais
brutos do planeta, quanto na capacidade de compreensão da mente humana. No que
diz respeito ao desenvolvimento de projetos, estes três atributos são naturalmente
indispensáveis uns aos outros.

Além disso, o termo projeto industrial,519 para os fins deste artigo, será us-
ado para designar, em todas as suas facetas, o processo industrial economica-
mente orientado, desde a criação singular de um bem até a escala total da econo-
mia global. A história do projeto industrial é, em muitos aspectos, a verdadeira
história do desenvolvimento econômico. Conforme nosso conhecimento científi-
co, sempre emergente, gera inferências lógicas em relação a como melhor utilizar
nossos recursos e tempo, o cenário global, tanto físico como cultural, tem sofrido
mudanças contínuas.

Neste contexto, o interesse central do projeto industrial é essencialmente a efi-


ciência e poderia ser argumentado que há três contextos centrais de eficiência rela-
cionados: (a) eficiência do trabalho (b) eficiência material e (c) eficiência do sistema.

(A) A Eficiência do Trabalho tem uma história única. Desde o início do século 20,
vem ocorrendo uma transição relativamente rápida de um uso dominante de múscu-
los humanos e animais, como fonte da força de trabalho, para um uso de máquinas
motorizadas. Este fenômeno, chamado mecanização, conseguiu elevar a força de tra-
balho de um patamar de esforços exaustivos para um de operação de ferramentas.
Entretanto, perto do final do século 20, este avanço continuou e as máquinas não

219
eram apenas capazes de mover cargas pesadas e executar atividades físicas com-
plexas, mas também se integraram à informatização e certos níveis de inteligência
artificial (IA), e logo se mostraram capazes de também tomar decisões. Em resumo,
a acelerada tendência atual tem provado que as máquinas modernas estão superando
imensamente, em termos de produtividade, a grande maioria das ações que historica-
mente eram realizadas por seres humanos e parece que não há qualquer sinal de di-
minuição desta tendência.520 No geral, o MZ percebe esta tendência como a sugestão
de um poderoso meio pelo qual a espécie humana, caso se adapte adequadamente,
pode maximizar ainda mais a sua capacidade produtiva para atender às necessidades
de todos os seres humanos, de forma a gerar um nível nunca antes visto de liberdade
humana.521

(B) Eficiência Material significa o quão bem nós utilizamos as matérias-primas


da Terra. A ciência de materiais522 também tem uma história única, em que cada
período histórico trouxe novos padrões e possibilidades. A metalurgia, um domínio
da engenharia de materiais que estuda o comportamento físico e químico dos ele-
mentos metálicos e suas misturas,523 foi um desenvolvimento muito importante, his-
toricamente, permitindo um vasto espectro de possibilidades através da criação de
compostos e ligas. Por exemplo, o termo “Era do Bronze”,524, que foi um período na
Europa por volta de 3200-600 aC, é caracterizado pelo uso comum de cobre e ligas
de bronze para muitas finalidades.

No entanto, talvez a descoberta mais importante na compreensão da ciência dos


materiais (e talvez, uma das descobertas mais importantes da história humana) foi
o conjunto de elementos químicos que compõem toda a matéria, tal como a con-
hecemos. Reconhecidos, pela maioria, como organizados na “tabela periódica”, 118
elementos foram identificados até 2013, com cerca de 92 elementos que ocorrem
naturalmente na Terra.525 Em suma, estes elementos químicos são os blocos de con-
strução de tudo o que experimentamos como tangível no mundo ao nosso redor e
cada respectivo átomo tem certas propriedades e, portanto, aplicações idiossincráti-
cas (peculiares).

Esse conhecimento, que é extremamente novo em relação à totalidade da com-


preensão humana,526 não só permitiu uma compreensão mais profunda de como a
química permite criar uma variedade incrivelmente grande de materiais para um
uso industrial cada vez mais eficiente, mas também facilitou uma compreensão
poderosa da própria natureza da matéria e de perspectivas de manipulação em
escala atômica.

A nanotecnologia,527 que ainda está em sua infância, tem aspectos bastante


concretos em sua base teórica sobre a agregação e desagregação de materiais
diferentes, e até mesmo de sistemas de materiais (ou seja, dos próprios produtos),

220
a partir de um nível atômico.528

É claro que, por mais profundo que pareça, o estado atual relativamente bruto da
nanotecnologia se aplica principalmente ao contexto dos chamados “materiais inteli-
gentes”529 ou “meta-materiais”.530 Como será abordado mais adiante neste ensaio, o
estado atual e as tendências da ciência de materiais guardam profundas possibilidades
para o presente e para o futuro.

(C) A Eficiência Sistêmica é provavelmente o mais crucial e importante de todos


os conceitos pois, tão abstrato quanto isto possa parecer, tudo que nós conhecemos
é em si um sistema ou uma interação de dois ou mais sistemas. Talvez a melhor ma-
neira de expressar a Eficiência Sistêmica seja considerar qualquer ato banal e pensar
sobre como esse ato pode reduzir o desperdício ou aumentar a produtividade, em
qualquer um e em todos os níveis, não apenas no contexto do próprio ato percebido
individualmente. Perspectivas de sistema são bastante obscuras para a maioria, já que
nós tendemos a ver a maioria das funções e processos dentro dos limites das suas
finalidades apenas, de uma forma categórica.

Por exemplo, quando pensamos em um moderno centro de fitness (academia), com


pessoas se exercitando em várias máquinas em um mesmo local, tendemos a pensar
apenas no propósito dessa instituição e, portanto, na melhor forma de atender aos inter-
esses de saúde das pessoas que estão utilizando essas máquinas, etc. Raramente pensa-
mos de forma mais ampla e propomos: “E se todas aquelas pessoas pedalando, empur-
rando e puxando tivessem essa energia aplicada a um sistema de conversão em que o
próprio edifício poderia ser alimentado, no todo ou em parte, pela energia na forma de
eletricidade?”531

Esta forma de pensar é o cerne de uma visão de mundo através da teoria de siste-
mas. Talvez uma boa maneira de se pensar sobre essa perspectiva de rede é através da
sinergia própria da natureza. Na biosfera da Terra, excluída a interferência humana
atual, não há virtualmente nada que seja lixo. Praticamente tudo o que encontramos
na natureza está profundamente integrado e em equilíbrio, devido à natureza refinada
da própria evolução.

Esta é uma poderosa observação e o termo biomimética532 vale a pena ser men-
cionado neste contexto, já que, em muitos aspectos, o nosso desenvolvimento como
espécie nos permite aprender com os processos naturais já existentes, mesmo que
pareça termos nos dissociado de muitas maneiras. Por isso, facilitar uma integração
o mais otimizada possível, se possível reutilizando tudo, em todos os níveis, assim
como a natureza o faz, deve ser um objetivo social para a garantia da sustentabilidade
e eficiência.
Tendências Estabelecidas e Potenciais

221
Existem duas grandes tendências/realidades básicas a serem consideradas no
mundo de hoje. Para os propósitos deste ensaio, nos referiremos a elas como
“estabelecidas” e “potenciais”. Tendências estabelecidas são as tendências so-
cioeconômicas em jogo no momento da redação deste texto, e estas, no contexto
da saúde pública e do equilíbrio ecológico, apresentam-se quase inteiramente
negativas.533 As tendências potenciais, por outro lado, revelam possibilidades de
melhoria de vida e de criação de equilíbrio que poderiam ocorrer se fossem feit-
as mudanças sociais de ordem maior. Como notado anteriormente, essas duas
tendências parecem indiscutivelmente contradizer uma à outra.

No ensaio intitulado ‘Desestabilização Social e Transição’, será abordado em


detalhes e com um olhar profundo o estado atual das questões sociais. No entan-
to, que fique dito que as eficiências aqui definidas, defendidas e sugeridas não o
são de maneira a simplesmente mostrar o quão melhor o mundo “poderia ser”,
como se o que fizéssemos hoje fosse bom. Pelo contrário, exige-se um alinham-
ento a essas observações básicas se pretendemos manter a estabilidade do nosso
mundo, em vista dos degradantes padrões atuais.

Com uma população que deverá atingir mais de 9 bilhões em 2050534 e


relatórios sobre tendências de iminente escassez de alimentos,535 de água536 e
de energia,537 essas sugestões procuram não só melhorar, mas realmente mudar
o nosso curso. Em geral, é a visão do MZ que, se essas denominadas tendências
estabelecidas atuais e a prática baseada na miopia de mercado persistirem com
todas as suas características, a cultura humana não só não alcançará a aplicação
positiva dessas tendências potenciais, mas uma desestabilização crescente con-
tinuará a ocorrer.

Visão de Mundo Pós-Escassez


Nesta seção, estatísticas básicas e tendências serão apresentadas para
mostrar como podemos, como uma sociedade global, alcançar um sistema so-
cial “pós-escassez”538 . Enquanto a escassez em termos absolutos estará sempre
com a humanidade, de uma forma ou de outra, neste sistema fechado de recur-
sos terrestres, a escassez no nível das necessidades humanas e de sucesso ma-
terial básico não é mais uma defesa viável dos métodos de alocação do sistema
de mercado.539

Como um breve aparte, uma defesa comum do sistema de preços e do mercado


é que se existir alguma escassez, ela torna sem efeito qualquer outra abordagem. O
argumento é que, uma vez que nem todos podem ter xyz, xyz é escasso e, portanto,
as pessoas precisam de dinheiro (ou da falta dele) para filtrar quem ganha xyz e
quem não ganha.
O problema com essa hipótese é que ela ignora como certos recursos e, portanto,

222
as mercadorias, têm mais relevância do que outros quando se trata de saúde pública.
Comparar a escassez de um carro de luxo muito caro que satisfaz a necessidade de
status de seu proprietário mais do que sua finalidade básica de ser um modo de trans-
porte - com a escassez de alimentos, que é uma exigência central da vida para a saúde,
não é legítimo em termos reais. O primeiro interesse, embora talvez importante para
a satisfação do ego do proprietário, que provavelmente já tem suas necessidades bási-
cas atendidas para poder pagar um produto desse tipo, não é equivalente ao segundo
interesse, que corresponde àqueles que pouco ou nada têm para comer e, portanto,
não podem sobreviver. Não se pode arbitrariamente confundir essas “necessidades” e
“desejos”, como se eles fossem simplesmente a mesma coisa, na teoria. Infelizmente,
esta é a forma como o sistema de mercado se comporta.

Da mesma forma, junto com uma grande desigualdade material e financeira540


vem uma inevitável desestabilização social. Praticamente todas as dissidências pop-
ulares e revoluções de grande escala dos últimos duzentos anos tiveram alguma base
econômica, geralmente relacionada ao desequilíbrio e exploração sociais e à separação
de classes.541 E o mesmo é válido para as causas de crimes, terrorismo, vícios e outros
problemas sociais. Praticamente todas estas tendências nascem da privação, seja ab-
soluta ou relativa, e essa privação é inerente à natureza de uma sociedade baseada em
competição e escassez.

Assim, simplesmente reduzir a nossa realidade econômica ao mero comércio, ale-


gando que algum grau de escassez justifica a utilização do mercado, dos preços e do
dinheiro para realizar alocações, é ignorar a verdadeira natureza do que garante a har-
monia social, a estabilidade e a saúde pública. Será que pareceria razoável ​​renunciar
à capacidade técnica de, por exemplo, elevar 80% da humanidade a uma qualidade
de vida, em termos materiais, atualmente mantida por apenas 10%, simplesmente
porque “nem todos podem possuir uma mansão de 500 quartos”? Mais uma vez, tor-
na-se bem claro o absurdo dessa objeção quando uma perspectiva sistêmica é adotada
em relação ao que serve de base verdadeira à saúde pública e estabilidade social.

Isto colocado, abaixo há uma lista das atuais realidades de suporte à vida dis-
poníveis para a população mundial que não tem sido aproveitadas devido a fatores
inibidores inerentes à economia de mercado. Cada ponto será tratado em uma sub-
seção própria.

1) Produção de alimentos: métodos atuais de produção já produzem mais comi-


da do que o suficiente para alimentar todos os seres humanos na terra. Além disso,
as tendências atuais de tecnologias e métodos agrícolas mais otimizados também
mostram uma capacidade de aumentar ainda mais a eficiência da produção e a quali-
dade da nutrição para um estado ativo de abundância, com mínimo trabalho humano
e cada vez menos necessidades de energia, água e terra.

223
2) Água Limpa: atualmente existem processos de dessalinização e de descontam-
inação em um grau de aplicação tão vasto que nenhum ser humano, mesmo no estado
atual dos níveis de poluição, precisaria estar sem água potável, independente de onde
ele esteja na terra.

3) Energia: Dentre as energias geotérmica, eólica, solar e hídrica, associadas a


processos baseados em sistemas que podem recapturar a energia expelida e reuti-
lizá-la diretamente, há uma abundância absoluta de energia, que pode prover muitas
vezes as atuais necessidades da população mundial.

4) Acesso/Produção Material: Desde edifícios e transporte até os bens comuns,


o espectro de produção material tem experimentado uma fusão poderosa de bens de
capital, bens de consumo e trabalho humano. Com a apropriada incorporação sistêmi-
ca de cada gênero de produção, associada a processos otimizados de regeneração e
com uma transformação total de um sistema de direito de propriedade para um de
direito de acesso, torna-se claro que todas as funcionalidades conhecidas dos bens (na
forma de produtos) podem ser utilizadas por 100% da humanidade, tendo por base as
necessidades individuais e permitindo uma abundância de acesso.

Capacidade de Suporte
No entanto, antes que esses quatro temas sejam abordados em detalhe, faz-
se necessária uma análise da “capacidade de suporte” da Terra. A capacidade de
suporte é definida como “o número equilibrado e máximo de organismos de uma
determinada espécie que podem ser sustentados indefinidamente por um determi-
nado ambiente.”542

A especulação sobre a capacidade de suporte da Terra em relação aos seres hu-


manos, ou seja, quantas pessoas a Terra e sua biosfera podem suportar, tem sido
um assunto controverso por muitos séculos. Por exemplo, um relatório de 2001 das
Nações Unidas disse que dois terços das estimativas que eles avaliaram naquele mo-
mento indicaram uma faixa de 4 a 16 bilhões, com uma mediana no valor de cerca de
10 bilhões de pessoas.543

No entanto, a mudança tecnológica e sua capacidade de aumentar a eficiência


na forma como os recursos são utilizados,544 apresenta uma crescente interferência
nessas tentativas de se obter um valor empírico tangível. A realidade é que o número
de pessoas que a Terra pode suportar é altamente variável e baseado, em parte, no
estado pontual da tecnologia em um determinado momento, e quanto mais a nossa
compreensão científica e técnica progredir, maior a tendência do nosso planeta suste-
ntar mais pessoas com menos energia e recursos.
Evidentemente, isso não quer dizer que dentro de um sistema fechado como a Ter-

224
ra nós temos uma capacidade infinita de reprodução. Na verdade, destaca a relevância
do que significa ser estratégico, inteligente e eficiente em nosso uso de recursos e, por
extensão, no próprio processo industrial/econômico.

Hoje, não há nenhuma evidência de que atingimos ou estamos perto de atingir


a capacidade de suporte da Terra se levarmos em conta as tendências que revelam
o nosso vasto potencial de “fazer mais com menos”, aliado a um sistema de valores
que reconhece claramente que nós, como espécie, ocupamos um sistema fechado
da Terra, com limitações naturais totais, e que é nossa responsabilidade em relação
a nós mesmos, aos outros e às futuras gerações manter um interesse em equilíbrio,
eficiência e sustentabilidade.

Este imperativo educacional sugere que uma cultura global consciente, in-
formada, pode estabilizar sua taxa de reprodução, se necessário, sem forças ex-
ternas, caso esta relação básica for bem compreendida. É claro que muito pode-
ria ser dito sobre a influência de crenças tradicionais antigas, como as doutrinas
religiosas que parecem sugerir que a procriação permanente e constante é uma
virtude. Estes pontos de vista, que se originaram na ausência do conhecimento
que temos hoje sobre a nossa existência compartilhada em um planeta finito,
provavelmente serão superados naturalmente através da educação.545

Da mesma forma, se as atuais regiões de crescimento populacional acelerado são


analisadas, verifica-se que aqueles vivendo na privação e pobreza se reproduzem
mais rapidamente do que aqueles fora dessas condições. Embora haja controvérsias
a respeito do porquê da prevalência desses padrões, a correlação parece ser precisa.
Esta evidência sugere que a elevação do nível de vida das pessoas pode reduzir suas
taxas reprodutivas, o que estimula o imperativo social de criar um sistema de alo-
cação de recursos mais justo.

(1) Produção de Alimentos


De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a
Agricultura, uma em cada oito pessoas na Terra (cerca de 1 bilhão de pessoas)
sofre de desnutrição crônica. Quase todas estas pessoas vivem em países em
desenvolvimento, representando 15 por cento da população dessas regiões.546
Desnecessário dizer que a pobreza está claramente ligada a este fenômeno.

No entanto, deixando de lado a política e os negócios, hoje, a agricultura mundial


produz 17 porcento mais calorias por pessoa do que há 30 anos, apesar da população
ter aumentado em 70 porcento. Há comida suficiente para prover com pelo menos
2.720 quilocalorias (Kcal) por dia todo o mundo, o que é mais do que suficiente
para manter uma boa saúde da maioria.547548 Portanto, a existência, hoje em dia, de
um número tão grande de pessoas sofrendo de fome crônica, no mundo em desen-

225
volvimento, revela, no mínimo, que há algo fundamentalmente errado com o próprio
processo industrial e econômico global, e não com a capacidade de suporte da Terra
ou com a capacidade da humanidade de processar recursos suficientes.

De acordo com a Institution of Mechanical Engineers (Instituição dos Engenheiros


Mecânicos), nós produzimos [globalmente] cerca de quatro bilhões de toneladas de
alimentos, por ano. No entanto, devido a más práticas na colheita, armazenamento e
transporte, assim como desperdícios, tanto no comércio como pelos consumidores, es-
tima-se que 30-50% (ou 1,2 a 2 bilhões de toneladas) de todos os alimentos produzidos
nunca atingem um estômago humano. Além disso, esses números não refletem o fato
de que grandes quantidades de terra, energia, fertilizantes e água também se perdem na
produção de gêneros alimentícios que são simplesmente desperdiçados”.549

Nas palavras do pesquisador de desperdício de alimentos, Valentin Thurn, “o


número de calorias que acabam no lixo na América do Norte e na Europa seria sufi-
ciente para alimentar três vezes os famintos do mundo”.550

Economicamente, os padrões de geração de lixo do Primeiro Mundo podem


provocar aumentos de preços no fornecimento global de alimentos, devido ao au-
mento da demanda resultante desses padrões exagerados de geração de desper-
dício. Em outras palavras, o Primeiro Mundo contribui para a epidemia de fome no
mundo, por seus padrões de desperdícios pelo consumidor final, porque a demanda
resultante da geração exagerada de lixo aumenta os valores dos preços além do que
é acessível para muitos.

Enquanto certamente há um imperativo educacional para que o mundo consum-


idor considere a relevância de seus padrões atuais de desperdício, tanto em termos
de desperdício real de alimentos, como em seu efeito sobre os preços globais devido
ao aumento da demanda, por causa destes desperdícios, parece que os meios mais
eficazes e práticos de superar essa deficiência global é “atualizar” o próprio sistema
de produção de alimentos com métodos modernos. Isso aliado à regionalização delib-
erada do próprio processo, a fim de reduzir o vasto espectro de desperdício causado
por ineficiências na atual cadeia de abastecimento alimentar global551, poderia não só
diminuir esses problemas, em geral, como aumentar drasticamente a produtividade, a
qualidade do produto e a produção total.

Enquanto o uso ativo da terra arável e da agricultura baseada na terra deva contin-
uar (de preferência, é claro, com práticas mais sustentáveis ​​do que as atuais),552 neste
momento, uma grande pressão pode ser aliviada com o uso de métodos avançados,
sem solo, que exigem menos água, menos fertilizantes, menos (ou nenhum) pesti-
cidas, menos terra e menos trabalho. Estas instalações podem ser construídas em
ambientes urbanos ou até mesmo fora da orla costeira, no mar.553

226
Talvez o mais promissor dos arranjos é o que hoje é conhecido como agri-
cultura vertical.554 A agricultura vertical tem sido testada em várias regiões, com
níveis de eficiência extremamente positivos. Extrapolando essas estatísticas, jun-
to com o avanço da tendência paralela (aumento da eficiência) dos mecanismos
associados a este processo, revela-se que o futuro da produção abundante de ali-
mentos irá, não só (em comparação com a atual tradição, em terra) usar menos re-
cursos por unidade de produção, como causar menos desperdício, ter uma pegada
ecológica reduzida, aumentar a qualidade dos alimentos e outros; também usará
menor superfície do planeta e permitirá que tipos de alimentos, antes restritos a
certos climas e regiões, possam ser cultivados em praticamente qualquer lugar,
em sistemas verticais fechados.

Enquanto as abordagens variam, métodos comuns incluem rotação de culturas


em sistemas de caixas transparentes, com uso de luz natural, junto com sistemas
hidropônicos,555 ‘aeropônicos’556 e/ou ‘aquapônicos’557 de abastecimento de água
e nutrientes. Sistemas artificiais de luz também estão sendo usados, juntamente com
outros meios de distribuição de luz natural, tais como o uso de sistemas de espelhos
parabólicos que podem desviar a luz sem eletricidade.558 Muitas abordagens sistêmi-
cas de “conversão de lixo em energia”559, para estas estruturas, estão cada vez mais
comuns, como acontece com os sistemas avançados de energia, baseados em proces-
sos de recuperação ou em fontes locais. Entre estas várias abordagens, a capacidade é
aumentada dramaticamente já que o alimento pode ser cultivado quase 24 horas por
dia, sete dias por semana.

As objeções comuns a este tipo de agricultura têm sido quase sempre sobre o seu
lastro energético, criticando o uso de luz artificial de alguns arranjos como um uso
muito intensivo de energia. No entanto, o uso de sistemas de energia renovável, como
a fotovoltaica, juntamente com a regionalização propícia aos métodos renováveis, tais
como as próximas de fontes de ondas, marés ou geotérmicas, apresentam soluções
plausíveis de energias sustentáveis, não baseadas em hidrocarbonetos.

No entanto, é melhor pensar sobre isso em um contexto comparativo. Nos EUA,


até 20 porcento do consumo de combustíveis fósseis do país é para a cadeia alimen-
tar, de acordo com a Organização para a Alimentação e para a Agricultura da ONU
(FAO), que aponta que o uso desses combustíveis pelos sistemas alimentares, no
mundo desenvolvido, “frequentemente rivaliza com o dos automóveis”.560

Em Cingapura, um sistema de fazenda vertical,construído em um recinto trans-


parente personalizado, utiliza um sistema hidráulico automático de ciclo fechado
para rotacionar a safra em círculos, entre a luz solar e um tratamento de nutrientes
orgânicos, custando apenas US$ 3,00 por mês, em eletricidade, para cada recinto.561

227
Este sistema também é relatado como sendo dez vezes mais produtivo, por metro
quadrado, do que a agricultura convencional, com muito menos utilização de água,
mão de obra e fertilizantes, como descrito acima. Também não há custo real de trans-
porte, dado que todos os produtos são distribuídos localmente, economizando mais
recursos e energia.

No total, há uma gama de aplicações atualmente para estruturas que, em muitos


casos, não foram projetadas para tal trabalho, e estão sendo utilizadas.562 Em Chica-
go, IL, EUA, opera a maior fazenda orgânica vertical certificada do mundo. Apesar
de produzir principalmente verduras para o mercado local de Chicago, esta instalação
de 90.000 metros quadrados, utiliza um sistema ‘aquapônico’563, com tilápias for-
necendo nutrientes para as plantas. A fazenda, segundo o relatório, teria economizado
90% de água, em comparação com as técnicas agrícolas convencionais, e não produz
escoamento agrícola. Além disso, todos os resíduos, como as raízes das plantas, os
caules e até mesmo as embalagens biodegradáveis, são colaborativamente reciclados,
tornando-se uma unidade de resíduo zero.564

As estatísticas atuais variam com respeito à eficiência, muitas vezes, devido a


limitações monetárias e preocupações inerentes de rentabilidade. Tal como acontece
com muitas coisas no sistema de mercado, as tecnologias promissoras só se desen-
volvem caso se provem competitivas. Tendo em vista como essas ideias são recentes,
não podemos esperar ver muitos exemplos, nem uma otimização acentuada de tais
métodos, sem “a aceitação do mercado”.

No entanto, podemos extrapolar o potencial dos sistemas existentes, escalando


sua aplicação como se fossem incorporados em todas grandes cidades, em sua forma
relativamente mais eficiente. A lista a seguir confirma a superioridade desta aborda-
gem em relação ao modelo tradicional atual, baseado em terra, mostrando não só uma
prática mais sustentável, mas uma mais produtiva, que pode, em conjunto com os
métodos existentes, abastecer toda a população do mundo muitas vezes, com nutrição
à base de vegetais.565

Versátil:
Ao contrário da agricultura tradicional, as fazendas verticais podem ser construí-
das em qualquer lugar, até mesmo na água, usando camadas ascendentes para multi-
plicar a capacidade de produção. (Ou seja, uma fazenda de dez andares vai produzir
1/10 de uma fazenda de 100 andares.) Esta utilização de espaço é limitada, princi-
palmente, pelas possibilidades da arquitetura. Da mesma forma, o cultivo das plantas
pode ser “por demanda”, em muitos aspectos, uma vez que as restrições por causa
de diferenças regionais têm sido eliminadas já que nessas fazendas se pode cultivar
praticamente qualquer coisa.

Utilização reduzida de recursos:

228
A Agricultura Vertical usa substancialmente menos água e pesticidas e é mais
propícia para métodos baseados em nutrientes/fertilizantes não originados de hidro-
carbonetos. Seu uso de energia pode variar de acordo com sua aplicação, mas em sua
configuração mais eficiente utiliza-se drasticamente menos energia, tanto para ali-
mentar a própria fazenda, quanto no que diz respeito à necessidade, agora removida,
de excesso de fertilizantes de hidrocarbonetos e transporte baseado em petróleo, que
é um fardo pesado do atual processo baseado em fazendas.

Mais sustentável e com menos danos ecológicos:


A tradição atual da agricultura tem sido reconhecida como um dos processos eco-
logicamente mais destrutivos da sociedade moderna. Nas palavras do escritor ambi-
ental Renee Cho:
“Em 2008, 37,7% da disponibilidade global de terras e 45 porcento das terras dos
EUA eram utilizadas para a agricultura. A invasão de terras selvagens pelos seres
humanos resultou na propagação de doenças infecciosas, na perda da biodiversidade
e na degradação dos ecossistemas. Cultivo excessivo e má gestão do solo levaram à
degradação global das terras agrícolas. Os milhões de toneladas de pesticidas tóxicos
usados ​​a cada ano contaminam águas superficiais e subterrâneas, e colocam em peri-
go a vida selvagem.

A agricultura é responsável por 15 porcento das emissões globais de gases de


efeito estufa. E é responsável por um quinto do uso, nos EUA, de combustíveis
fósseis, principalmente para operar equipamentos agrícolas, transporte de alimen-
tos e produção de fertilizantes. Como o excesso de fertilizantes escorre em rios,
córregos e oceanos, pode causar a eutrofização: proliferação da floração de algas;
quando elas morrem, são consumidas por micróbios, que usam todo o oxigênio da
água; o resultado é uma zona morta que mata toda a vida aquática. Em 2008, havia
405 zonas mortas em todo o mundo ... mais de dois terços da água doce do mundo
é utilizada na agricultura”.566

Capacidades pós-escassez:
Estudantes da Universidade da Columbia que trabalharam em sistemas de
fazendas verticais determinaram que, a fim de alimentar 50.000 pessoas, seriam
necessários 30 andares de um edifício do tamanho de um quarteirão da cidade de
Nova Iorque.567 Um quarteirão dessa cidade mede aproximadamente 2,6 hect-
ares.568 Se extrapolarmos isso para o contexto da cidade de Los Angeles, CA, EUA,
com uma população de cerca de 3,9 milhões,569 com uma área total de cerca de 129
mil hectares,570 seriam necessários cerca de 78 edifícios de trinta andares, estru-
turas que cobririam 2,6 hectares de terra, para alimentar os moradores da região.
Isso equivale a separar cerca de 0,1% da área total de terras de Los Angeles para
alimentar a população.571
A Terra, tendo cerca de 29% de terra, tem cerca de 14,890 bilhões de hectares
e uma população humana de 7,2 bilhões, de acordo com dados do final de 2013.572

229
Se extrapolarmos essa mesma base de uma fazenda vertical de 30 andares cobrindo
2,6 hectares para alimentar 50 mil pessoas, necessitaríamos, em tese, de 144.000
fazendas verticais para alimentar o mundo.573 Isso equivale a 373 mil hectares de
terra para instalação dessas fazendas.574 Dado que cerca de 38% de todas as terras da
Terra atualmente estão sendo utilizadas para a agricultura tradicional (5.658.238.250
hectares),575, descobre-se que precisamos apenas de 0,006% das terras agrícolas, ex-
istentes na Terra, para atender essas exigências de produção.576

Agora, estas extrapolações são claramente teóricas e, obviamente, muitos outros


fatores devem ser levados em conta no que diz respeito à instalação de tais sistemas
de produção e suas necessárias especificidades. Além disso, dentro do dado estatísti-
co de 38% de terra em uso, muitas destas terras são para a pecuária, não apenas para
agricultura. No entanto, essas estatísticas brutas são bastante incríveis com relação
a uma possível eficiência e capacidade. Na verdade, se tomássemos como base
teórica só a terra de produção de agricultura atualmente em uso, que é de cerca de
1.783.983.810 de hectares577, e substituíssemos esse processo de cultivo com base na
terra pelos sistemas de fazendas verticais de 30 andares (lado a lado), a produção de
alimentos seria suficiente para alimentar 34,44 trilhões de pessoas.578

Dado que apenas precisamos alimentar 9 bilhões até 2050, é preciso aproveit-
ar, apenas, cerca de 0,02% desta capacidade teórica, que, poderia-se argumentar,
provavelmente torna bastante discutível quaisquer objeções aparentemente práticas,
em vista da dimensão da extrapolação acima mencionada. Como nota final, é dito que
as proteínas, que estão prontamente disponíveis no reino vegetal, são colocadas em
questão, nos dias de hoje, pela relevância da produção de carne. Do ponto de vista da
sustentabilidade, ignorando as questões morais e as práticas sem dúvida desumanas
ainda em prática na criação industrializada de gado, a produção de carne é, hoje, um
ato prejudicial ao meio ambiente.

De acordo com o ILRI, criações de gado ocupam cerca de 45% da superfície da


Terra.579 De acordo com a FAO, o setor pecuário produz mais emissões de gases de
efeito estufa do que o transporte moderno.580 Da mesma maneira, tendo em conta que
90% de todos os peixes grandes que um dia viveram nos oceanos sumiram devido ao
excesso de pesca581, tornam-se necessárias novas soluções.

Uma delas é a aquicultura, que consiste na criação direta de peixe, crustáceos e


outros semelhantes. Esta abordagem direta, se conduzida de forma sustentável, pode
incrementar a criação de peixes, ricos em proteínas, para o consumo humano, sub-
stituindo a demanda por carne de terra. Outra abordagem é a produção de “carne in
vitro”. A “carne in vitro” pode ser produzida com as tiras de fibra muscular que se
desenvolvem através da fusão de células precursoras, quer sejam células troncoem-
brionárias ou células satélites especializadas, presentes no tecido muscular. Este tipo

230
de carne é normalmente cultivada em um biorreator.

Embora ainda em fase experimental, em 2013, o primeiro hambúrguer do mundo


cultivado em laboratório foi cozido e comido em Londres.582 Outros benefícios in-
cluem a redução de doenças originárias do gado, que são muito comuns, além de ser
capaz de evitar certas características negativas à saúde da carne tradicional, como a
remoção de ácidos graxos na produção.

(2) Água Limpa


Sabendo que o corpo humano só pode sobreviver alguns dias sem água potável,583,
é fundamental tornar este recurso essencial disponível, em abundância, para todos.
Da mesma forma, este recurso é também a espinha dorsal de muitos métodos de pro-
dução industrial, incluindo a própria agricultura. A água doce ocorre naturalmente na
superfície da Terra, seja em camadas de gelo, calotas polares, geleiras, icebergs, pân-
tanos, lagoas, lagos, rios e riachos, e no subsolo como água subterrânea em aquíferos
e rios subterrâneos. De toda a água da Terra, 97% é salgada e não consumível dire-
tamente.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde: “Cerca de 2,6 bilhões de pes-


soas - metade do mundo em desenvolvimento - não têm nem mesmo um vaso sani-
tário “sofisticado” e 1,1 bilhão de pessoas não têm acesso a qualquer fonte decente de
água potável. Como consequência direta:

- 1,6 milhões de pessoas morrem todos os anos devido a doenças diarreicas


(incluindo a cólera) atribuíveis à falta de acesso à água potável e ao saneamento
básico. E 90% delas são crianças com menos de cinco anos, a maioria em países
em desenvolvimento;

- 160 milhões de pessoas estão infectadas com esquistossomose causando


dezenas de milhares de mortes por ano. 500 milhões de pessoas estão com risco
de ter tracoma, das quais 146 milhões estão ameaçadas pela cegueira e 6.000.000
são deficientes visuais;

- Helmintos intestinais (ascaridíase, tricuríase e ancilostomíase) estão asso-


lando o mundo em desenvolvimento, devido à insuficiência de água potável,
saneamento e higiene, com 133 milhões sofrendo de infecções por helmintos
intestinais em alta intensidade; existem cerca de 1,5 milhões de casos de hepatite
A clínica, a cada ano “.584

De acordo com as Nações Unidas, em 2025, cerca de 1,8 bilhões de pessoas


viverão em áreas assoladas pela escassez de água, com dois terços da população
mundial vivendo em regiões com problemas de água.585 Tal como acontece com a

231
maioria de todos os problemas dos recursos atuais do mundo, é uma questão tanto
de má gestão como de falta de aplicação industrial. Do ponto de vista da gestão, a
quantidade de água desperdiçada no mundo, devido à poluição, uso excessivo e in-
fra-estrutura ineficiente, é enorme. Cerca de 95% de toda a água que entra na maioria
das casas das pessoas vai embora, pelo ralo, em um instante.586

Uma solução sistêmica para otimizar este uso é projetar cozinhas e banheiros para
que eles recapturem água para diferentes fins. Por exemplo, a água que atravessa
uma pia ou chuveiro pode ser disponibilizada para um banheiro. Várias empresas
têm, lentamente, colocado essas idéias em prática recentemente, mas, em geral, a
maioria das infra-estruturas não fazem nada do tipo, tanto quanto não usam sistemas
de reutilização. O mesmo é verdadeiro para grandes edifícios comerciais, que podem
criar redes de reutilização em toda a estrutura, juntamente com a captura de água da
chuva para outros fins, etc.

A poluição da água é outro problema, que afeta tanto os países desenvolvidos


quanto os em desenvolvimento em vários níveis. A Agência de Proteção Ambiental
Americana (EPA) estima que 850 bilhões de litros de esgotos não tratados (resíduos)
fluem para corpos de água, por ano, contribuindo para mais de 7 milhões de doenças
a cada ano.587 O Centro do Terceiro Mundo para Gestão da Água estima que apenas
cerca de 10 a 12 porcento das águas residuais, na América Latina, são tratados ade-
quadamente. A Cidade do México, por exemplo, “exporta” suas águas residuais não
tratadas para os agricultores locais.

Enquanto os agricultores valorizam isso porque a água aumenta a produtividade


das culturas, as águas residuais são altamente contaminadas com patógenos e produtos
químicos tóxicos, o que representa um sério risco à saúde, tanto para os agricultores
quanto para os consumidores dos produtos agrícolas cultivados nessa área. Na Índia,
as principais cidades descarregam as águas residuais, sem tratamento, nos corpos de
água que servem como fonte de sua água potável. Delhi, por exemplo, descarrega suas
águas residuais diretamente no Rio Yamuna - a fonte de água potável para cerca de 57
milhões de pessoas.588

As soluções para este problema, em parte, devem abordar a questão da grande


ineficiência, provavelmente impulsionada pelas limitações monetárias da maior par-
te dos governos, para instituir sistemas de esgotos adequados, juntamente com um
design industrial que inclua técnicas de sistema de reúso, para melhor preservar e
utilizar nossos recursos existentes.

Isso de lado, a mais notável e ampla solução para compensar esses problemas
emergentes, a fim de facilitar não só um alívio dos problemas atuais com a água, que
afetam mais de 2 bilhões de pessoas, mas também para transcender a uma condição

232
de relativa abundância de água fresca, para todos os seres humanos, está em utilizar
modernos sistemas para (a) purificação e (b) dessalinização, em escalas tanto macro
como micro-industriais.

(A) Purificação:
Avanços na purificação da água estão acelerando, rapidamente, com muitas varie-
dades tecnológicas de abordagens. Talvez uma das mais eficientes hoje seja a chamada
“desinfecção ultravioleta (UV)”. Este processo é facilmente aplicável em larga escala,
tem baixo consumo de energia e funciona rapidamente.

Segundo o engenheiro Ashok Gadgil, inventor de sistemas UV portáteis, “Em


termos de uso de energia, 60 watts de energia elétrica - o que é comparável à energia
utilizada em uma lâmpada de mesa comum - é suficiente para desinfetar a água, a
uma taxa de uma tonelada por hora, ou quinze litros por minuto... Esta quantidade de
água é suficiente para satisfazer as necessidades de água potável de uma comunidade
de 2.000 pessoas”.589 Este dispositivo, desenvolvido por Gadgil para áreas rurais po-
bres, pode ser operado por painéis solares, pesa apenas 15 quilos e não gera resíduos
tóxicos.

Claro, não existe uma bala de prata. Enquanto a desinfecção UV funciona


muito bem para bactérias e vírus, é menos eficaz para outros tipos de poluição,
tais como sólidos suspensos, turbidez, coloração ou matéria orgânica solúvel.590
Em aplicações em larga escala, combina-se o UV com tratamentos mais conven-
cionais, como o cloro, como é o caso da maior fábrica de desinfecção UV de água
potável do mundo, em Nova Iorque, que pode tratar 2,2 bilhões de galões ameri-
canos (8,3 milhões de metros cúbicos), por dia.591 Isto equivale a 3.029.500.000
[mais de 3 bilhões] de metros cúbicos, por ano.

A pessoa média, nos Estados Unidos, usa 2.842 metros cúbicos de água, por
ano.592 Isso inclui a água doce utilizada para fins industriais, não apenas a de con-
sumo humano direto (beber) . A média mundial é de 1385 metros cúbicos, por
ano.593 China, Índia e Estados Unidos são atualmente os maiores usuários de água
doce do mundo e a maior parte desta água é utilizada na produção, principalmente
de agricultura.594 Na verdade, globalmente, cerca de 70% de toda a água doce é
utilizada na agricultura.595

Por uma questão de um argumento puramente estatístico, ignorando as altamente


necessárias revisões em relação ao uso estratégico da água, aos sistemas de reuti-
lização e às possibilidades de conservação através de aplicações industriais mais
avançadas e eficientes, avaliemos a simples questão do que seria necessário para
desinfectar (assumindo que fosse necessário) toda a água doce atualmente usada, em
média, no mundo, por toda a população, em todos os contextos. Dada a média mundi-

233
al de 1.385 metros cúbicos e uma população de 7,2 bilhões, chegamos a um consumo
anual total de 9,972 trilhões de metros cúbicos.

Usando a capacidade de produção da planta UV de Nova Iorque, de cerca de 3


bilhões de metros cúbicos, por ano, como base para a instalação de uma usina desse
tipo, descobrimos que seriam necessárias 3.327 plantas globalmente.596 A planta de
Nova Iorque é de cerca de 1,5 hectare (15.000m²).597 Isso significa que cerca de 4.981
hectares de terra são necessários, em teoria, a fim de instalar um processo de purifi-
cação de toda a água doce atualmente utilizada, globalmente, pela população. Claro,
desnecessário dizer, há muitos outros fatores “residuais” que entram em jogo, tais como
as necessidades de energia, juntamente com a importância crítica da localização.

No entanto, coloquemos isso em uma comparação mais ampla e reflexiva. O


exército dos Estados Unidos, sozinho, com seus cerca de 845.441 edifícios e bases
militares, ocupa cerca de 12,14 milhões de hectares de terra em todo o mundo.598
Apenas 0,04% desta terra seria necessária para desinfetar o total de água fresca em
uso de todo o mundo, se isso fosse mesmo necessário nessa escala, o que não é.

(B) Dessalinização
Colocada de lado a possibilidade realista de uma massiva e global purificação da
água doce poluída, provavelmente o meio mais poderoso para assegurar água potável
é uma conversão direta a partir de uma fonte salina, ou seja, do oceano. Em um pla-
neta composto principalmente de água salgada, esta técnica, se feita corretamente,
garante, sozinha, a abundância global.

O método mais comum de dessalinização utilizado hoje em dia é o de osmose


reversa, um processo que as moléculas de água da água salgada, deixando os íons
salinos em um subproduto de salmoura residual . De acordo com a Associação Inter-
nacional de Dessalinização: “Atualmente, a osmose reversa (RO)... responde por cer-
ca de 60 porcento da capacidade instalada, seguida pelos processos térmicos de flash
em vários estágios (MSF), com 26 porcento e de multi-efeito de destilação (MED),
com 8,2 porcento”.599 Em 2011, havia cerca de 16.000 estações de dessalinização, em
todo o mundo, e a capacidade mundial total de todas as plantas on-line (ou seja, em
operação) era de 66,5 milhões de metros cúbicos por dia, ou cerca de 17,6 bilhões de
galões americanos por dia.600

Como em tudo que é tecnológico, muitos métodos em desenvolvimento, atualmente


considerados “experimentais”, sugerem um aumento poderoso em termos de eficiência
conforme o desenvolvimento das atuais tendências. Um dos métodos, chamado de des-
salinização capacitiva (CD), também conhecido como deionização capacitiva (CDI),
tem mostrado uma operação com maior eficiência de energia, pressões mais baixas,
não há componentes de membrana e não produz uma descarga de resíduos, como as

234
práticas convencionais. Ele também pode ser facilmente escalonado simplesmente au-
mentando o número de eletrodos de fluxo no sistema.601

No geral, se examinarmos os métodos existentes, juntamente com métodos emer-


gentes, vemos uma tendência geral de aumento da eficiência de conservação e de-
sempenho energéticos.602 Tendo mencionado isso, o foco desta extrapolação para
uma utilização “pós-escassez” de dessalinização irá considerar somente os métodos
atuais e comprovados, em uso, ou seja, o sistema de osmose reversa.

A Usina Wonthaggi de Dessalinização é uma planta avançada de dessalinização, por


osmose reversa, de água do mar, em Bass Coast, perto de Wonthaggi, ao sul de Victoria,
na Austrália. Foi concluída em Dezembro de 2012. Ela pode produzir, de forma conser-
vadora, cerca de 410 mil metros cúbicos de água dessalinizada por dia (150 milhões de
metros cúbicos, por ano),603 ocupando cerca de 20 hectares (cerca de 0,2 quilômetros
quadrados de terra).604 Dado que, como observado anteriormente, o uso anual total de
água no mundo de hoje é de cerca de 9,972 trilhões de metros cúbicos, isto significa que
seriam necessárias 60.000 plantas605 para processar todo o uso de água potável. Mais
uma vez, esta extrapolação extrema serve como um argumento relativo, uma vez que
não precisamos dessalinizar tanta água na realidade.

No entanto, supondo que necessitássemos dessalinizar a água do mar constante-


mente para corresponder ao uso global atual, mil e duzentos hectares de terra seriam
necessários, no total. A Terra tem cerca de 350.016606 quilômetros de litoral, o que
significa, utilizando livremente o modelo Wonthaggi, de cerca de 20 hectares (cerca
de 0,2 quilômetros quadrados) com 100 metros por hectare, assumindo que a con-
strução seja de quatro hectares de profundidade e cinco hectares de comprimento,
paralela à costa, a planta iria ocupar 5379,2 metros ao longo da costa. Isso significa
que, assumindo 60.000 plantas de mesma dimensão, seriam necessários, aproximada-
mente, 30.000.000 de quilômetros de costa (8,5% do litoral do mundo).

Claro, isso é uma grande quantidade de litoral e naturalmente muitos outros fatores
entram em jogo quando se escolhe um local apropriado para tal planta. Mais uma vez,
não é o propósito desta extrapolação sugerir que estas estatísticas tenham qualquer out-
ro uso além de medir, em um amplo senso, o que tais capacidades significam, tendo em
conta as questões de escassez / estresse de água, que ocorrem hoje. No entanto, o fato
é que está, claramente, dentro do alcance dessas aplicações atender as necessidades das
pessoas que sofrem de escassez de água, através apenas da dessalinização, junto com
uma infra-estrutura e distribuição para alocar a água para o interior.

Como exemplo final, vamos reduzir essa extrapolação abstrata mais ainda e
aplicá-la a uma circunstância da vida real. No continente africano, por exemplo, com
cerca de 1 bilhão de pessoas desde 2013,607 cerca de 345 milhões de pessoas não têm

235
acesso suficiente à água potável.608 Se aplicarmos a taxa média global de consumo
de 1.385 metros cúbicos por ano, visando proporcionar a cada uma das 345 milhões
de pessoas esta quantidade, precisaríamos de uma produção de 477.825 milhões de
metros cúbicos anuais.

Usando a capacidade de produção anual de Wonthaggi de 150 milhões de metros


cúbicos como base, a África precisaria de 3.185 plantas de cerca de 20 hectares ao
longo da sua linha costeira para atender essa demanda, utilizando cerca de 1592 km
(há 40.500 km de costa na África). O que significa apenas 3,9% da costa da África.609

No entanto, se dividirmos esse número pela metade, e usássemos sistemas de


purificação de UV para uma parte e dessalinização para a outra, o processo de
dessalinização necessitaria de cerca de 1,9% ou 796km (494 milhas) de costa para
as instalações de dessalinização e apenas cerca de 120 hectares de terra para as
instalações de purificação, o que é uma fração minúscula do total de massa de terra
africana (cerca de 2,8 bilhões de hectares). Isto é altamente exequível e, obvia-
mente, neste e em todos os outros casos, nós maximizaríamos, estrategicamente, os
processos de purificação, por ser mais eficiente, e usaríamos a dessalinização para
a demanda restante.

Tais estatísticas brutas revelam que entre UV e descontaminação tradicional, jun-


tamente com processos de dessalinização tradicional, tal como os que já existem,
mesmo ignorando os avanços rápidos que vem ocorrendo em ambos os campos610, e
que provavelmente terão um nível exponencial de avanço de eficiência nas próximas
décadas, a ideia de escassez permanente de água no planeta Terra é um absurdo.
Ambas as extrapolações, tomadas isoladamente, assumiram a aplicação de apenas
uma ou outra em larga escala, assumindo que não há outras fontes de água potável
em existência.

Na realidade, tendo em conta a disponibilidade atual de água doce, junto com


uma simples e inteligente reordenação dos esquemas de uso e reúso nas redes de
água, de forma a preservar ainda mais a capacidade já existente, associados aos
processos tanto de dessalinização em pequena e larga escala, quanto de descontam-
inação, conforme as exigências regionais (muitas das quais podem ser alimentadas
por processos de energias renováveis, que estão avançando rapidamente ​​também),
nós temos a capacidade técnica para disponibilizar água potável de forma absoluta
e abundante globalmente.

(3) Energia
Fontes de energia renováveis ​​são fontes que são continuamente reabastecidas.
Essas fontes incluem a energia da água, eólica, solar e geotérmica. Em contraste, os
combustíveis como carvão, petróleo e gás natural são não-renováveis, ​​já que eles são

236
baseados em reservas da Terra que não apresentam uma regeneração de curto prazo.

A partir do início do século 21, o reconhecimento das possibilidades da energia


limpa e renovável tem sido substancial.611 O espectro de aplicação, escalabilidade e
grau de eficiência, juntamente com métodos avançados de armazenamento e trans-
ferência de energia, fizeram, sem dúvida, os nossos métodos atuais, em sua maioria
baseados em hidrocarbonetos, parecerem desatualizados, especialmente tendo em
conta as consequências negativas de seu uso. A energia nuclear, eficaz e considerada
uma fonte “renovável” por alguns, funciona com um risco muito elevado tendo em
conta os materiais instáveis ​​envolvidos, e os acidentes de grande escala registrados
também puseram em questão a segurança deste tipo de produção.612

No mundo de hoje, as cinco fontes renováveis ​​mais utilizadas são a energia hi-
drelétrica (via barragens), solar, eólica, geotérmica e biocombustíveis. Fontes de en-
ergia renováveis ​​representam atualmente cerca de 15% do uso global de energia, com
a energia hidrelétrica representando 97% deste valor.613

Tendo em conta que mais de 1,2 bilhão de pessoas não têm acesso à energia
elétrica em todo o mundo,614 e que há uma poluição contínua e crises periódicas
associadas com os métodos tradicionais, não-renováveis, o objetivo desta subseção é
mostrar como não são mais necessárias as perigosas realidades associadas aos com-
bustíveis fósseis e à energia nuclear. Agora podemos fornecer várias vezes energia
para o mundo com métodos limpos, renováveis, de impacto relativamente baixo, em
grande parte localizados de acordo com as necessidades de uma única estrutura, ci-
dade ou aplicação industrial.

No entanto, é importante salientar com antecedência que, no momento, não existe


uma solução única. Dado que diferentes áreas da Terra têm diferentes propensões
para o aproveitamento e uso de energias renováveis, a aplicação deve ser vista como
um sistema ou desenvolvimento em rede de uma combinação de meios. Isso posto,
afunilando as mais relevantes dentre essas possibilidades abundantes de produção,
talvez seja melhor pensar em extração / aproveitamento de energia renovável em
duas categorias: (a) de Grande Escala / Demanda Mínima e (b) de Pequena Escala e
Sistemas de Uso Totalmente Misto.

(A) de Grande Escala / Demanda Mínima:


Produção em grande escala, como aquelas para necessidades de “demanda mín-
ima” necessárias para alimentar uma cidade ou um centro industrial de alta energia,
incluem quatro meios principais: (a1) usinas geotérmicas, (a2) parques eólicos, (a3)​​
campos solares e (a4) de água (mar / hidrelétricas).

(A1) Geotérmica:
A energia geotérmica615 é energia aproveitada essencialmente do calor natural do

237
núcleo derretido da Terra, com as usinas normalmente colocadas ao redor de áreas onde
a distância dos grandes centros de calor é bastante curta.616617 Um relatório de 2006 do
MIT sobre energia geotérmica, promovendo um sistema de extração avançado chama-
do EGS, constatou que 13.000 zetajoules de poder estão disponíveis atualmente na
Terra, com a possibilidade de 2.000 zetajoules serem coletáveis com o aperfeiçoamento
da tecnologia.618

O consumo total de energia de todos os países do planeta é cerca de meio zetajoule


(0,55) por ano619 e isso significa que milhares de anos de energia planetária podem
ser supridos só com esse meio. O relatório do MIT também estimou que havia energia
suficiente nas rochas duras a 10 quilômetros abaixo [do solo] dos EUA, que, sozinha,
supriria todas as necessidades atuais do mundo por 30.000 anos.

Mesmo com um aumento de consumo esperado em 56% em 2040, a capacidade


da energia geotérmica é enorme, se devidamente explorada.620621 Da mesma forma,
a quantidade de extração de calor do interior da Terra parece ser muito pequena em
comparação com a sua reserva, tornando esta fonte virtualmente ilimitada em relação
ao consumo humano atual.622 Além disso, uma vez que a energia é produzida contin-
uamente, não há problemas de intermitência e este tipo de energia pode ser produzido
constantemente, sem a necessidade de armazenamento.

O impacto ambiental da energia geotérmica é relativamente muito baixo. A


Islândia a tem usado, quase exclusivamente, por algum tempo, e as suas usinas
produzem emissões extremamente baixas (sem carbono), quando comparado aos
métodos à base de hidrocarbonetos.623 Além do enxofre produzido, pequenos sis-
mos podem ocorrer como resultado das técnicas de perfuração. Este problema
tem sido reconhecido como induzido pelo homem624 e a melhora no processo de
engenharia é a solução, juntamente com a compreensão clara da natureza do local
de perfuração.

Quanto à localização, é teoricamente possível colocar usinas de extração de


energia geotérmica em qualquer lugar, se a capacidade de perfurar a uma pro-
fundidade suficiente existir, juntamente com outros avanços tecnológicos.625 No
entanto, hoje em dia a maioria das usinas precisa existir perto de onde as placas
tectônicas626 se encontram na Terra. Um mapa geotérmico da superfície da Terra,
feito por satélite, pode mostrar, baseado no calor emitido, esses locais ideais muito
claramente.627 Esses mapas mostram as possibilidades perto da maioria das zonas
costeiras de todo o mundo628 e, embora a maioria dos estudos sejam ambíguos
com relação a exatamente quantos locais poderiam ser disponibilizados, o potencial
reconhecido, em geral, é enorme.

O Departamento de Energia dos Estados Unidos observou que a energia geotér-

238
mica também utiliza muito menos terras do que outras fontes de energia, incluindo
as de combustíveis fósseis e as de energias renováveis ​​atualmente dominantes. Em
30 anos, o período de tempo comumente usado para comparar os impactos durante
o ciclo de vida, de diferentes fontes de energia, uma instalação geotérmica usa 404
metros quadrados de terra por gigawatt hora, enquanto uma instalação de carvão usa
3.632 metros quadrados por gigawatt hora.629 Se fôssemos fazer uma comparação
básica da energia geotérmica com o carvão, dada essa relação de metros quadrados
por gigawatt hora, nós percebermos que poderíamos colocar cerca de nove usinas
geotérmicas no espaço de uma usina de carvão.630 631

Da mesma forma, é importante notar que os métodos novos e mais eficientes para
drenar a energia geotérmica parecem estar apenas começando, no que diz respeito
ao potencial de produção. Em 2013 foi anunciado que uma estação de energia de
1.000 MW estava começando a ser construída, na Etiópia.632 Um megawatt é uma
unidade de potência, e a capacidade de potência é expressa de forma diferente da
capacidade de energia, que é expressa, neste contexto de megawatts, como megawatt
hora (MWh). Dito de outra forma, a energia é a quantidade de trabalho realizado,
enquanto potência é a taxa de trabalho sendo feito. Assim, por exemplo, um gerador
com capacidade de um MW, que opera a essa capacidade de forma consistente por
uma hora vai produzir 1 MW-hora (MWh) de eletricidade.

Isto significa que se uma estação geotérmica de 1.000 MW operasse, em plena ca-
pacidade, 24 horas por dia, sete dias por semana, em um ano (365 dias), ela produziria
8.760.000 MWh/ano.633 O uso anual do mundo atualmente, em MWh, é de cerca de
153 bilhões,634 o que significa que seriam necessárias, em abstração, 17.465 usinas
geotérmicas para atender o uso global.635

De acordo com a Associação Mundial do Carvão, há mais de 2.300 usinas de


carvão em operação ao redor do mundo.636 Usando a comparação acima mencio-
nada, tamanho/capacidade de cerca de nove usinas geotérmicas cabendo em uma
usina de carvão, o espaço de 1.940 usinas de carvão637 (ou 84% do total existente)
seria necessário, em teoria, para conter as 17.465 usinas geotérmicas. Além disso,
dado que o carvão hoje representa apenas 41% da produção de energia elétrica
mundial,638 essa extrapolação teórica também mostra que usando 84% de espaço
atualmente ocupado pelas usinas a carvão (que só produzem 41% da energia
global total), as usinas geotérmicas poderiam fornecer 100% da capacidade de
energia em uso global.

Tudo isso sem a poluição do carvão, que tem sido considerada uma das práticas
mais poluentes do mundo, além de ser provavelmente o maior contribuinte para o
aumento de CO2, de origem humana, na atmosfera.

239
(A2) Parques Eólicos
Estudos do Departamento de Energia dos Estados Unidos concluíram que o
aproveitamento do vento nos estados das Grandes Planícies, ou seja, no Texas, Kansas e
Dakota do Norte, forneceria energia suficiente para abastecer totalmente os EUA.639 De
forma mais impressionante, um estudo de 2005 da Universidade de Stanford, publicado
no Journal of Geophysical Research descobriu que, se apenas 20% do potencial eólico
do planeta fosse aproveitado, cobriria as necessidades energéticas de todo o mundo.640

Em corroboração, mais dois estudos recentes, de organizações independentes,


publicados em 2012 calcularam que com a tecnologia existente de turbinas eólicas,
a Terra poderia produzir centenas de trilhões de watts de potência. Isto, com efeito, é
muitas vezes mais do que o mundo consome atualmente.641 A energia eólica é talvez
uma das formas de energia renovável mais simples e de baixo impacto, e sua escalab-
ilidade é limitada apenas à localização.

Usando os 3.650 hectares do Centro de Energia Eólica de Alta, na Califórnia,


como base, que tem uma capacidade ativa de 1.320 MW de potência, uma pro-
dução teórica anual de 11.563.200 MWh é possível.642 Isso significa que 13.231
parques eólicos de 3.650 hectares seriam necessários para atender à atual deman-
da de 153 bilhões MWh. Isso significa que cerca de 48.190.000 hectares de terra
(com vento suficiente) seriam necessários.643 Isso equivale a 0,3% da superfície
da Terra necessária para alimentar o mundo, em abstração.644 Mais uma vez, isso
não significa sugerir uma coisa dessas como o ideal, haja visto quais terras são as
viáveis para parques eólicos, juntamente com outros fatores importantes. Isto é
simplesmente para dar uma perspectiva geral das possibilidades.

No entanto, uma realidade única da geração de energia eólica é o potencial de


aproveitamento nos litorais. Em comparação com a energia eólica terrestre, a energia
eólica litorânea tem, em média, um rendimento muito maior, já que a velocidade do
vento tende a ser maior. Esta realidade também alivia pressões terrestres dadas a es-
cassez de terras e as restrições regionais.

De acordo com a Avaliação dos Recursos da Energia Eólica Litorânea para os Es-
tados Unidos, 4.150 gigawatts (4.150.000 MW) de capacidade potencial de turbinas
eólicas em recursos litorâneos estão disponíveis nos Estados Unidos.645 Assumindo
que esta capacidade de energia fosse consistente durante um ano, nós terminaríamos
com uma conversão energética de 36.354.000.000 MWh / ano. Dado que os Estados
Unidos, em 2010, usaram 25.776 TWh de energia (25,78 bilhões de MWh),646, per-
cebemos que o aproveitamento eólico litorâneo, sozinho, excede o uso nacional em
cerca de 10,6 bilhões MWhs, ou 41%.

Intuitivamente, extrapolando este nível nacional de capacidade para o resto das

240
linhas costeiras do mundo, tendo em conta também a estatística supra mencionada,
baseada apenas no continente, que demonstrou que nós podemos, também, alimentar
o mundo várias vezes, com as usinas em terra,647 as possibilidades de abundância
energética baseadas no vento são extremamente impressionantes.

(A3) Parques Solares


A atmosfera superior da Terra recebe cerca de 1,5 ×10^21 watts-hora de radiação
solar por ano. Esta grande quantidade de energia é 23.000 vezes maior do que a
utilizada pela população humana do planeta.648 Se a humanidade pudesse capturar
um décimo de um por cento da energia solar que atinge a Terra, nós teríamos acesso
a seis vezes mais energia do que consumimos em todas as formas, hoje, quase sem
emissões de gases de efeito estufa. A capacidade de aproveitar essa energia depende
da tecnologia e de quão elevado é o percentual de absorção de radiação.

Fotovoltaicas convencionais, atualmente a forma mais comum usada principal-


mente para aplicações menores, utilizam o silício como semicondutor e existem em
uma espécie de célula plana ou folha. Fotovoltaicas concentradas (CPV) são geral-
mente mais eficientes do que as não-concentradas, no entanto, tendem a exigir uma
exposição mais direta para focar a luz adequada.

A energia solar concentrada (CPS) é uma abordagem em grande escala que uti-
liza espelhos ou lentes para concentrar uma grande área de luz solar, ou de energia
solar térmica, em uma pequena área. A energia elétrica é produzida quando a luz
concentrada é convertida em calor, que aciona um motor de calor (como uma turbina
a vapor), ligado a um gerador de energia elétrica ou semelhante. Ao contrário dos
sistemas fotovoltaicos, que convertem a energia solar diretamente em energia elétri-
ca, esta tecnologia converte a energia solar primeiramente em calor. Recentemente,
métodos de armazenamento em larga escala também foram utilizados para prolongar
o processo durante a noite.

Uma variação da CPS é a STE, ou Energia Térmica Solar. O Sistema de Ger-


ação Elétrica de Ivanpah, na Califórnia, EUA, é um campo de 1.416 hectares649, com
uma produção anual declarada de 1.079.232 MWh.650 Ainda que Ivanpah não use
qualquer forma de armazenamento, ele atende cerca de 140 mil casas na região. Se
fôssemos extrapolar, usando Ivanpah como base, seriam necessários 141.767 campos
ou 200.798.743 hectares para atender o uso teórico de energia global atual, com base
na produção declarada. Isto é 1,43% do total de terras na Terra.651

Mais uma vez, isso não significa sugerir que uma coisa dessas seja prática, nem
ignorar as diferenças de rendimento de radiação encontradas em diferentes áreas da
Terra. No entanto, os desertos, que tendem a ser altamente propícios para campos
solares, e, por outro lado, muitas vezes menos favoráveis ​​ao suporte de vida para as

241
pessoas, são cerca de um terço de toda a massa de terra do mundo, ou cerca de 4,86
bilhões de hectares. Em comparação com os cerca de 202,3 milhões de hectares,
teoricamente necessários para “alimentar o mundo”, de acordo com nossa extrapo-
lação, apenas 4,1% das terras de deserto do mundo seriam necessárias.652

Da mesma forma, outros projetos semelhantes ao campo Ivanpah têm incorporado


sistemas de armazenamento. A usina de energia solar Solana, de 280 MW, no Arizona,
combina tecnologia parabólica de espelho com armazenamento térmico de sal fundido,
e é capaz de continuar processando por até seis horas após o céu ficar escuro.653

Em geral, a taxa de avanço dos métodos de armazenamento fotovoltaicos, de en-


ergia solar térmica, e outras tecnologias existentes e emergentes continuam a avançar
rapidamente, revelando que muitas das instalações vistas como altamente eficientes
hoje serão extremamente ineficientes em uma década ou duas. Como ainda será abor-
dado, com relação a soluções de energia renováveis em escalas menores, é provável
que a verdadeira eficiência, no futuro, esteja no uso de energia solar localizada na
própria planta dos prédios e domicílios. A questão é fazer a tecnologia compacta e
eficiente o suficiente para o uso local, caso-a-caso.

No entanto, as estações de energia solar de campo, assim como as estações geotér-


micas e eólicas, têm um enorme potencial, a nível global, e não há dúvida de que,
dados os recursos e atenção adequados, teoricamente essas estações poderiam, soz-
inhas, estabelecer um nível de infra-estrutura e eficiência para alimentar o mundo.

(A4) Água/Energia Hidráulica


Pode-se dizer, de forma geral, que a extração de energia renovável à base de água
pode ter duas fontes principais: o próprio oceano e os fluxos de água do tipo rio que
usam a força gravitacional da queda ou água corrente, geralmente em um curso de
água, dentro dos continentes. Este último é geralmente referenciado na prática como
hidroelétrico e, como dito anteriormente, compõe atualmente uma grande parte da
infraestrutura de energia renovável existente.654

Por outro lado, o grande potencial do mar ainda tem sido aproveitado a uma fração
da sua capacidade. Não é exagero sugerir que a força da água do oceano poderia tam-
bém alimentar o mundo, sozinha, através do aproveitamento inteligente dos vários
movimentos mecânicos da água do mar, associados com a exploração das diferenças
de calor, conhecida como conversão de energia térmica do oceano (OTEC).655656657
Tendo em conta a razoável utilização, em larga escala, da energia hidroelétrica (repre-
sas) já existente, esta seção irá focar nas potencialidades do oceano.

Os potenciais mais pronunciados do mar neste momento parecem ser as ondas,


as marés, as correntes oceânicas, as diferenças térmicas e osmóticas. As ondas

242
são causadas principalmente pelos ventos; marés são causadas principalmente
pela força gravitacional da lua; correntes oceânicas são causadas principalmente
pela rotação da Terra; energia térmica oceânica resulta do calor solar absorvido
pela superfície do mar; e energia osmótica é quando a água doce e água salgada
se encontram, explorando a diferença de concentração de sal.

Ondas:
Verificou-se que o potencial global utilizável da energia das ondas é de cerca de
3TW658 ou cerca de 26.280TWh/ano, assumindo aproveitamento constante. Isso é
quase 20% do uso global atual. Esta quantidade de energia foi determinada, essencial-
mente, através da análise de regiões de profundidade ao longo da orla costeira continen-
tal. A estimativa de potência teórica foi de 3,7 TW, com a estimativa final líquida reduz-
ida em cerca de 20% para compensar várias ineficiências relacionadas a determinadas
regiões, como a cobertura de gelo. A produção de energia é determinada basicamente
pela altura da onda, velocidade da onda, comprimento da onda e densidade de água.

As fazendas de ondas, ou a construção de plantas para o aproveitamento de ondas,


próximas à costa, têm visto uma aplicação limitada, em larga escala, neste momento,
com apenas cerca de seis países que aplicam de forma esparsa a tecnologia.659 Os lo-
cais com maior potencial incluem a costa ocidental da Europa, a costa norte do Reino
Unido, e as costas do Pacífico da América do Norte e América do Sul, África do Sul,
Austrália e Nova Zelândia.

Marés:
Marés tem duas sub-formas: amplitude e fluxo. Amplitude de maré é essencial-
mente a “ascensão e queda” de áreas do oceano. Os fluxos de maré são correntes
criadas pelo movimento horizontal periódico das marés, muitas vezes aumentadas
pela forma do fundo do mar.

Diferentes locais da Terra têm grandes diferenças na amplitude.660 No Reino Uni-


do, uma área com altos níveis de atividade das marés, dezenas de locais são atual-
mente apontados como disponíveis, prevendo que 34% de toda a energia do Reino
Unido poderia vir de energia das marés, apenas.661 Globalmente, estudos mais anti-
gos estimaram a capacidade de marés em 1.800 TWh / ano.662 Estudos mais recentes
têm estimado a capacidade teórica (em amplitude ou fluxo) em 3 TW, assumindo que
apenas uma parte seria extraível.663

Marés, embora muito previsíveis, também estão sujeitas a períodos diários de


intermitência, com base nas mudanças de maré. Assumindo que apenas 1,5 TW pu-
desse ser aproveitado em um ano, com base em tecnologia avançada, isto significa
que cerca de 7% da energia do mundo poderia vir de marés.

243
Correntes Oceânicas:
Semelhante a correntes de marés, as correntes oceânicas têm mostrado grande po-
tencial. Essas correntes fluem de forma consistente em mar aberto e várias tecnologias
emergentes têm sido desenvolvidas para aproveitar este meio largamente inexplorado.

Tal como acontece com todas as energias renováveis, a capacidade de aproveitar


esse potencial está diretamente relacionada com a eficiência da tecnologia emprega-
da. O EOEA estima que o potencial atual seja de 400 TWh/ano.664 No entanto, há
uma boa razão para assumir que este número está desatualizado. Aplicações anteri-
ores de tecnologias de turbina/moinho para capturar esses fluxos de água precisavam
de uma corrente média de cinco ou seis nós para operar com eficiência, enquanto a
maioria das correntes da Terra são mais lentas que três nós.665 No entanto, os desen-
volvimentos recentes têm revelado a possibilidade de aproveitar a energia do fluxo
de água com menos que dois nós.666 Dado este potencial, tem sido sugerido que,
sozinhas, as correntes oceânicas poderiam alimentar todo o mundo.667

O potencial da Corrente do Golfo668 foi estimado em 13GW de potência real,


assumindo uma eficiência de conversão de 30%, utilizando a tecnologia de turbinas
mais tradicionais.669 Isto significa 13.000 MW ou, assumindo aproveitamento con-
stante do fluxo durante todo o ano, cerca de 113.880.000 MWh/ano.670 Nos Estados
Unidos, em 2011, estima-se que foram utilizados 4,1 bilhões de MWh em energia
elétrica.671 Isso significa que 30%672 do consumo de energia elétrica dos Estados
Unidos poderia ser gerado pela Corrente do Golfo, sozinha. Mais uma vez, assume-se
apenas o uso da tecnologia já estabelecida.

Osmótica:
Energia osmótica, ou por gradiente de salinidade, é a energia disponível a partir
da diferença na concentração de sal entre a água do mar e água de rio. O Centro
Norueguês para Energia Renovável (SFFE) estima que o potencial global seja de
cerca de 1.370 TWh / ano673, com outros colocando-o em cerca de 1.700 TWh/ano674
ou o equivalente a metade de toda a demanda de energia da Europa.675

Embora ainda em grande parte em sua infância, o aproveitamento da energia os-


mótica através de tecnologias que estão avançando é promissor. As usinas de energia
podem, em princípio, ser construídas em qualquer lugar onde água doce encontre a
água do mar. Elas podem gerar energia 24 horas, 7 dias por semana, independente-
mente das condições meteorológicas.

Térmica Oceânica:
A forma final, com base no oceano, digna de nota para aproveitamento de ener-
gia é a conversão de energia térmica oceânica (OTEC). Explorando as diferenças de
calor existente entre a superfície do oceano e abaixo, a água quente da superfície é

244
utilizada para aquecer um fluido, tal como amoníaco líquido, convertendo-o em va-
por, que se expande para mover uma turbina que, por sua vez, produz eletricidade. O
líquido é então resfriado com água fria das profundezas do oceano, retornando-o em
um estado líquido para que o processo possa começar novamente.

De todas as fontes de energia baseadas em oceano, OTEC parece ter o maior po-
tencial. Estimou-se que 88.000 TWh / ano podem ser gerados sem afetar a estrutura
térmica do oceano.676 Embora este número possa não expressar a capacidade total
utilizável, isso implica que bem mais da metade de todo o consumo de energia global
atual poderia ser atendido com a OTEC, apenas. Em 2013, a maior parte das plantas
existentes de OTEC estão em escala experimental ou são muito pequenas. No en-
tanto, alguns projetos maiores, de capacidade industrial, foram postos em operação,
incluindo uma planta de 10 MW na costa da China677 e uma de 100 MW perto do
Havaí.678 Uma planta de 100 MW, em alto mar, pode, teoricamente, alimentar toda a
Ilha Grande, do Havaí, sozinha,679 o que significa 186 mil pessoas, com base em um
censo de 2011.

Agora, na conclusão desta subseção de aproveitamento da energia dos oceanos,


mantendo a consistência com as estimativas anteriores para a energia solar, eólica e
geotérmica, vale a pena considerar o potencial total, combinado (em grande parte
conservador) de cada fonte observada. Enquanto isso será, obviamente, uma extrap-
olação bruta, uma vez que existem muitas variáveis ​​complexas, incluindo o fato de
que algumas aplicações ainda são semi-experimentais e difíceis de avaliar, esta figura
geral pode ajudar a digerir a perspectiva mais ampla do potencial dos oceanos para
energias renováveis. Aqui está uma lista dos potenciais globais constatados:

Ondas: 27.280 TWh/ano Marés: 13.140 TWh/ano (1,5 TW x 8760hr) Correntes


Oceânicas: 400 TWh/ano (estimativa antiga com tecnologia antiga) Osmótica: ~ 1.500
TWh/ano (média de estatísticas apontadas) Térmica Oceânica: 88.000 TWh/ano.

Somados, chegamos a 130.320 TWh/ano ou 0,46 ZJ por ano. Isto é aproximada-


mente 83% do uso global atual (0,55 ZJ). É importante notar que esses números são
derivados, em parte, de tecnologias tradicionais, sem qualquer ajuste feito para mel-
horias mais recentes. Se trouxermos a tradicional Hidrelétrica (com base em curso de
água) de volta para a equação, que, segundo a AIE, tem um potencial de 16.400 TWh/
ano,680 isto traz o total até 146.720 TWh/ano ou 96% do uso global atual.

(B) Sistemas em Pequena Escala e de Uso Total Misto


A seção anterior descreveu o vasto potencial de aproveitamento de energias
renováveis em grande escala, com Demanda Minima. Energias eólica, solar,
água/hidro e geotérmica têm demonstrado que são capazes, isoladamente, de di-
sponibilizar, ou vastamente exceder, o consumo energético anual global corrente

245
de 0,55 ZJ, deste momento.

A verdadeira questão é saber como esses métodos serão colocados em prática


de forma inteligente. Dadas as limitações regionais, associadas com outras questões
nativas, tais como intermitência, a iniciativa do design real necessita criar uma com-
binação viável de tais fontes. Algo como uma abordagem sistêmica é a solução real,
harmonizando uma fração otimizada de cada uma dessas fontes de energia renováveis​​
para atingir a total utilização da abundância global.

Por exemplo, não é inconcebível imaginar uma série de ilhas artificiais, flutuando
ao longo de locais selecionados, ao longo dos litorais, que são projetadas para, even-
tualmente, aproveitar, ao mesmo tempo, o vento, energia solar, diferenças térmicas,
ondas, correntes de maré e do oceano - tudo ao mesmo tempo e na mesma área geral.
Tais ilhas energéticas poderiam então enviar, via cabo, sua produção de energia de
volta à terra, para uso humano. Várias combinações poderiam também ser aplicadas
a sistemas baseados em terra, tais como a construção de combinações Eólica/Solar
para contemplar o fato de que muitas vezes a energia eólica é mais presente durante
a noite, enquanto a solar está disponível durante o dia.

Da mesma forma, a capacidade criativa no que diz respeito à forma como po-
demos combinar de forma inteligente vários métodos, também se estende ao que
poderíamos considerar aproveitamento de energia local. Métodos renováveis, em ​​es-
cala menor, que conduzam a estruturas individuais ou para pequenas áreas, atendem
a mesma lógica sistêmica com respeito à combinação de fontes. Esses sistemas locais
poderiam também, se fosse necessário, conectar-se aos sistemas maiores, de Deman-
da Minima, assim, compondo uma rede total, integrada, de fontes mistas.

Um exemplo comum hoje em dia, é o uso de painéis solares de estrutura simples,


tais como os de utilização doméstica. Enquanto a eficiência destes painéis ainda está
em desenvolvimento, associado com limitações de custos impostas pelo mecanismo
de investimento/lucro do mercado, a maioria das pessoas que utilizam esses sistemas
de energia solar só são capazes de atender uma parte do uso de eletricidade de sua
casa, em vez de obter 100% de provimento. (Por exemplo, a maioria dos sistemas
são aplicados para alimentar a casa durante o dia, enquanto obtém energia da rede
regional de Demanda Mínima, durante a noite). Este tipo de abordagem que busca
maximizar as possibilidades locais, em primeiro lugar, antes de recorrer ao uso de
energia em maior escala, em uma abordagem sistêmica, é a chave para a abundância
prática de energia, eficiência e sustentabilidade.

Para entender a importância disto mais a fundo, vamos expandir o exemplo de


aplicação doméstica de painéis solares para seu possível potencial teórico. Em 2011,
o consumo anual médio de eletricidade de um cliente tipo unidade residencial (casa),

246
nos EUA foi de 11.280 kWh.681 Dados 114.800.000 domicílios, em 2010,682 isto sig-
nifica que 1.295 TWh/ano foram utilizados. O consumo total de energia elétrica, em
2012, para os EUA, foi de 3.886.400.000 MWh/ano.683 Isso equivale a 3.886 TWh/
ano. Isso significa que 33% de todo o consumo de energia elétrica ocorreu nas casas
das pessoas, com a grande maioria desta energia proveniente de usinas de energia de
combustível fóssil.

Se todos os lares nos Estados Unidos fossem capazes de alimentar-se de eletrici-


dade usando painéis solares apenas, a utilização desta energia local, que é simples-
mente desperdiçada, neste momento, a redução do estresse para o sistema de Deman-
da Mínima seria dramática. Ao contrário da crença popular, a partir de 2013 esta é
uma possibilidade real, dado o estado de eficiência das células solares e tecnologias
de armazenamento.684 O problema é que a indústria de energia atual não está prepa-
rada para tal eficiência e os sistemas solares de consumo disponíveis sofrem de alta
despesa financeira, como resultado de limitadas produção em massa e concorrência.
E uma falta de iniciativa social para promover este avanço.

Vale a pena afirmar aqui que o sistema financeiro e os seus mecanismos orien-
tados por preços existem como barreiras para o desenvolvimento de onipresentes
e otimizadas residências solares, de modo amplo (bem como para todas as outras
tecnologias em desenvolvimento, depois de um certo ponto de eficácia comprovada).
Enquanto os defensores do capitalismo argumentam que o processo de investimento
para o mercado, na disponibilização de um bem, com base na demanda, geralmente
reduz o custo desse bem ao longo do tempo, tornando-o mais disponível para aqueles
que não podiam pagar antes, esquecem-se que o processo inteiro é um artifício.

Se o preço e o lucro fossem removidos do sistema, focando-se apenas na tecno-


logia e seu mérito estatístico, tanto no momento atual como em suas tendências de
eficiência (melhorias futuras), de longo prazo, estratégias apropriadas de alocação de
recursos e pesquisas poderiam ser empregadas para prover tecnologias promissoras
para a população muito mais rapidamente. No caso de painéis solares para geração de
energia em casa, dada a incrível capacidade que tem para aliviar o stress de energia no
sistema de Demanda Mínima e que, hoje, poderiam reduzir ainda mais as emissões e
poluição de combustíveis fósseis, é uma circunstância muito infeliz que essa tecnolo-
gia e sua aplicação esteja sujeita aos caprichos do mercado.685

Se examinarmos a despesa comercial de um painel solar médio, em 2013, uma


casa média, com 11.280 kWh por mês, exigiria cerca de 30 painéis, com uma efi-
ciência de célula solar de cerca de 9-15% e um sistema de bateria para a noite. Isso
custaria mais de US$20.000.686 Tal despesa é inacessível para a grande maioria, mes-
mo com os materiais básicos utilizados em sistemas fotovoltaicos tradicionais sendo
simples e abundantes, junto com a cada vez maior facilidade de fabricação.

247
Da mesma forma, é igualmente decepcionante perceber como a construção mod-
erna de casas tem feito pouco ou nenhum uso de outros métodos renováveis ​​locais
básicos, que poderiam facilitar ainda mais a capacidade do mundo real para colocar
todas as famílias (não só nos EUA, mas em todo mundo) em uma situação de inde-
pendência energética.

Observado o poder da energia solar, outras aplicações quase universais também


se aplicam. De pequenos sistemas de captação de vento687, aquecimento geotér-
mico e tecnologia de resfriamento688, combinados com projetos arquitetônicos
para uma melhor utilização da luz natural e eficiência de preservação de calor/
frio689, há um espectro de ajustes de design que poderiam tornar apartamentos
e casas não só auto-suficientes, mas também mais ecologicamente sustentáveis.
Associando isto com projetos de uso e reuso para a preservação da água, junta-
mente com outras abordagens para otimizar a eficiência de energia/recursos, fica
claro que nossos métodos atuais são extremamente dispendiosos quando com-
parados com as possibilidades.

Estendendo para o exterior, para a infra-estrutura da cidade, vemos as mesmas


falhas em quase toda parte no que diz respeito a aplicação de tais sistemas. Por exem-
plo, uma quantidade enorme de energia é usada no processo de transporte. Enquanto
o veículo elétrico tem se mostrado viável para uso global pleno, os esforços de lo-
bistas e outras limitações de mercado continuam a manter a sua aplicação bem atrás
dos normais, alimentados a gasolina. Muitos métodos baseados em sistemas também
continuam não explorados.

Além de uma necessidade geral de reorganizar ambientes urbanos para tornarem-


se mais propícios para o uso de redes de transporte de massa, eliminando a neces-
sidade de vários veículos autônomos, simplesmente reaproveitar os movimentos
motorizados de todos os meios de transporte poderia aliviar significativamente as
pressões de energia.

A tecnologia chamada de piezoelétrica,690 que é capaz de converter a pressão


e energia mecânica em energia elétrica, é um excelente exemplo de um método de
reaproveitamento de energia com grande potencial. As aplicações existentes incluem
a geração de energia por pessoas caminhando sobre pisos691 e calçadas692 piezo
elétricos. Ruas que podem gerar energia quando automóveis trafegam693 e os siste-
mas ferroviários que também podem capturar energia da passagem de trens, através
da pressão .694 O engenheiro aeroespacial Haim Abramovich afirmou que um tre-
cho de estrada com menos de um quilômetro de comprimento, quatro pistas largas
e trafegado por cerca de 1.000 veículos, por hora, pode criar aproximadamente 0.4
megawatts de potência, o suficiente para abastecer 600 casas.695

248
Outras aplicações teóricas estendem-se a praticamente qualquer coisa que en-
volva pressão ou movimento, incluindo pequenas vibrações. Por exemplo, há pro-
jetos trabalhando para aproveitar produções de energia aparentemente de pequena
escala, tais como: digitar mensagens de texto em um telefone celular em uma fonte
para carregar o telefone, enquanto o telefone está simplesmente sendo tocado ou
movido;696697 aplicações para energia colhida de fluxo de ar a partir de aviões;698 e
até mesmo um carro elétrico que usa tecnologia piezo, em parte, para carregar-se à
medida que viaja.699

Se pensarmos sobre a enorme energia mecânica desperdiçada por modos de trans-


porte de veículos e centros de alto tráfego a pé, como as ruas do centro, o potencial
dessa possível energia regenerada é bastante substancial. É esse o tipo de pensamento
sistêmico que é necessário, a fim manter a sustentabilidade, enquanto perseguimos ati-
vamente uma abundância global de energia.

(4) Produção / Acesso Material


Ao contrário das três sub-seções anteriores, que consideraram apenas métodos
existentes e estabelecidos, com relação ao potencial da humanidade para atingir
uma abundância700 em cada dado foco, esta seção irá necessariamente ser abordada
de forma diferente.

O problema com a criação de uma base para uma extrapolação geral de abundân-
cia de materiais, de uma maneira semelhante, tendo em conta as matérias-primas
em geral, é que o nível de revisão industrial necessária para alcançar o elevado
grau de eficiência requerida, é radicalmente diferente das atuais práticas tradi-
cionais. Em outras palavras, não podemos, definitivamente, extrapolar da mesma
forma, usando um processo singular ou gênero de tecnologia existente, a fim de
chegar a tal conclusão sobre o nível de produtividade possível no conjunto.

Isto porque o verdadeiro mecanismo de eficiência de geração de abundância


só pode ser encontrado na orientação sistêmica em larga escala, tendo em conta a
presente sinergia entre as leis de sustentabilidade inerentes ao mundo natural e o
nível de eficiência incorporado dentro de toda a operação da sociedade.

Por exemplo, hoje existem mais de um bilhão de automóveis no mundo.701 A par-


tir de uma visão estreita, a ideia de uma “abundância” de automóveis talvez implique,
com base na atual estrutura orientada para a propriedade, que cada ser humano no
planeta deve, então, possuir um automóvel particular. Sem rodeios, essa é a perspec-
tiva errada e uma consequência de um condicionamento não sinérgico, que é comum
no reforço do sistema de mercado da propriedade como valor. Do ponto de vista da
eficiência e da sustentabilidade é extremamente dispendioso utilizar “um automóvel

249
por pessoa”, devido ao fato de que uma pessoa realmente dirige, em média, apenas
cerca de 5% do tempo. O restante do tempo, o automóvel fica em estacionamentos,
calçadas e afins.

Na cidade de Los Angeles, Califórnia cerca de 1.977.803 automóveis foram


relatados como em uso, em 2009.702 Em abstração, com base nesta média de tem-
po de uso de 5%, seriam realmente necessários apenas 98.890 automóveis para
atender às necessidades de tempo de transporte, da demanda de uso atual, assum-
indo um sistema de compartilhamento. Em outras palavras, em princípio, seriam
necessário apenas 98.890 automóveis para atender as necessidades de transporte
de 1.977.803 pessoas.

Além disso, para fins de argumentação, com todos os outros modos de transporte
público ignorados, e com toda a população de Los Angeles (3,9 milhões de pessoas)703
necessitando se mover 5% do mês, seriam necessários apenas 195 mil automóveis, em
abstração, para atender o tempo médio de uso de 3,9 milhões de pessoas.

Da mesma forma, nos Estados Unidos, em 2008, foi registrado que 236.400.000
veículos de consumidores estavam sendo usados. Com uma população de US 313
milhões, com a utilização estatística de 5%, mais uma vez, seriam necessários 15,6
milhões de automóveis para atender a demanda de uso. Essa é uma diminuição de
83% na produção de automóveis para atender às necessidades de todos os americanos
(um aumento de 32,4% no uso, ou acesso, baseado na população total), em teoria.

Note, por favor, que é claro que bem se reconhece que tal extrapolação é apenas
especulativa, uma vez que, obviamente, muitos outros fatores complicadores estão em
jogo na vida real, os quais ajustarão muito essa equação. O ponto aqui é dar ao leitor um
senso de sinergia. O que deve ser ressaltado é o aumento observado na eficiência, onde
substancialmente menos automóveis são necessários para satisfazer as necessidades de
transporte de um número substancialmente maior de pessoas, devido a um sistema ba-
seado em reorientação sinergética (neste caso, um sistema de carro “compartilhado”).

Novamente, isto não significa descartar a necessidade de melhorar o transporte


urbano ou público, nem aborda a importância do design de um automóvel.704 Na raiz
desse problema está realmente o tema “transporte” em si, as razões pelas quais as
pessoas precisam dessa mobilidade, e como o ambiente é projetado para atender (ou
ignorar) tais necessidades. Este é um assunto enorme e dinâmico a considerar.
Além disso, afirme-se antecipadamente que não importa quais eficiências reais
ou assumidas possam existir na vida real, o objetivo de buscar a pós-escassez, tanto
como um meio de aliviar o sofrimento humano, quanto como um método para se
adaptar às práticas verdadeiramente eficientes e, portanto, sustentáveis, é sem dúvida
um ponto crítico de foco para uma sociedade em expansão. Poderia ser bem argu-

250
mentado que só uma sociedade perversa iria deliberadamente escolher perseverar
em um sistema que preserva conscientemente a escassez, por lucro e preservação do
estabelecido, quando é intelectualmente claro que tal condição já não é necessária e,
portanto, quaisquer sofrimentos humanos relacionados, daí resultantes, também não
são mais necessários.

Como foi discutido antes, a economia de mercado não é apenas uma resposta a
uma visão de mundo baseada em escassez, é também sua mantenedora. O merca-
do estruturalmente requer um alto grau de escassez, já que uma sociedade focada
em abundância acabaria por significar menos trabalho-por-renda, menor volume de
negócios e menores lucros em geral. Se a sociedade acordasse amanhã em um mundo
onde 50% do mercado de trabalho humano foi automatizado e onde todos os ali-
mentos, energia e produtos básicos poderiam ser disponibilizados sem uma etiqueta
de preço devido ao aumento da eficiência, é desnecessário dizer que o mercado de
trabalho e a economia monetária que conhecemos entrariam em colapso.

Mudança de Valores
Para pensar corretamente sobre o estado atual de nossa capacidade produtiva de
produzir bens de suporte à vida e de melhoria de padrão de vida, primeiro temos que
separar racionalmente as necessidades humanas dos desejos humanos, com a priori-
dade em atender as necessidades antes.

Embora essa distinção possa parecer uma opinião controversa para muitos - em
um mundo onde 46% da riqueza total atualmente é propriedade de 1% da popu-
lação705; um mundo onde cerca de 1 bilhão de pessoas não têm nutrição básica706;
um mundo onde 1,1 bilhão de pessoas vivem sem água potável e 2,6 bilhões não têm
saneamento adequado707; um mundo onde 100 milhões de pessoas não têm abrigo708;
um mundo onde 3 bilhões vivem com menos de US$ 2,50 por dia709 e 1,2 bilhão
não têm sequer energia elétrica710 - talvez nossas prioridades, como uma civilização
global, precisem ser direcionadas à efetiva manutenção do que poderíamos question-
avelmente nomear “civilização”. A verdade é que essa priorização não é um mero
gesto poético, é uma exigência de saúde pública.711

O processo de nossa evolução física e psicológica criou necessidades humanas.


O não atendimento dessas necessidades empíricas resulta em um espectro desesta-
bilizante de distúrbios físicos, mentais e sociais. Desejos humanos, por outro lado,
são manifestações culturais que sofreram enormes mudanças subjetivas ao longo do
tempo, revelando uma espécie de natureza arbitrária, na verdade. Mas, isso não quer
dizer que aspectos neuróticos não possam se manifestar em desejos, a ponto de as-
sumirem o papel de necessidades emocionalmente. Entretanto, isso ainda é essencial-
mente uma condição cultural.

251
Infelizmente, mais uma vez, o mercado não separa necessidades de desejos, em
sua psicologia básica, razão pela qual o argumento da escassez pode ser estendido
infinitamente em defesa de sua existência e, portanto, da necessidade proposta de
termos uma sociedade competitiva, baseada no comércio, não importando o grau de
abundância que possa ser alcançado. Sem dúvida, isso criou um tipo de neurose, de
fato, em que as pessoas assumem ter “desejos infinitos” e “mais e mais” é uma vir-
tude, ou mesmo um condutor do próprio progresso humano.

É claro que “possibilidades infinitas” são certamente uma realidade em muitos


aspectos, já que a sociedade não pode prever o que a tecnologia vai materializar, em
muitos anos, à medida que influências e preferências mudem. No entanto, possibili-
dades infinitas dizem respeito a vulnerabilidade e criatividade, enquanto continuando
a ser estratégicos e inteligentes sobre a gestão e uso de recursos. Isto não é o mesmo
que desejos infinitos, que vê o ser humano como insaciável e acrítico.

Portanto, parte dessa mudança de valores será “desfazer” o dano sociológico


provocado pela psicologia inerente à vida baseada no mercado. Um padrão de vida
relativamente alto pode ser disponibilizado para todos os seres humanos, assumindo,
em parte, uma mudança de valores básica e responsável, longe de nossos padrões
preocupantes de desperdício e aquisição frívola. É importante reafirmar que o mate-
rialismo que toleramos, em uma sociedade como a de hoje, é uma resposta direta à
necessidade econômica de manter o dinheiro em circulação, tanto quanto possível.
O papel dos negócios como os conhecemos é tanto atender os desejos/necessidades
existentes das pessoas, como inventá-los na esperança de que as pessoas se adequarão
mostrando uma nova demanda.

Um novo “widget” apresentado pelo mercado só é viável de acordo com o


interesse das pessoas em comprá-lo. E o uso de publicidade e marketing tem sido
muito influente na criação de uma cultura que vê a posse e aquisição como um
sinal de status social.712 Isso diretamente atende a necessidade de manter altos
níveis de consumismo uma vez que o PIB e o emprego estão diretamente relacio-
nados com essa pressão. Mais uma vez, quanto menos interesse há em consumir,
menor é o crescimento econômico e, portanto, menor a demanda por empregos.
Isso retarda o estado atual de uma economia de mercado e cria uma perda sistêmi-
ca de bem-estar para muitos.

Pode ser bem-argumentado que uma cultura que decidiu que a aquisição e a ex-
pansão são o caminho do progresso/sucesso, promovendo o consumo constante e
“crescimento econômico” aparentemente infinito, vai, eventualmente, atingir os lim-
ites de sustentabilidade em um planeta finito.713 Em termos claros, esta é uma tendên-
cia de desordem.

252
Sucesso e progresso social só pode significar, em parte, encontrar o equilíbrio
com o habitat e os outros seres humanos que compartilham o habitat. Infelizmente,
toda a premissa do sistema de mercado contradiz esse valor de sustentabilidade, uma
vez que o mecanismo de desenvolvimento econômico não recompensa conservação
e redução do consumo, em um sentido direto. Dito de outra forma, o mercado é uma
abordagem estrutural baseada na escassez que, paradoxalmente, busca níveis de con-
sumo sempre aumentados para operar “eficientemente”.

Assim, uma análise da nossa capacidade material para colocar bens comuns em uma
situação de abundância “pós-escassez”, para exceder as necessidades de todos os seres
humanos na Terra não pode ser discutida sem também entender revisões necessárias,
orientadas para a sustentabilidade, que reduzam, consideravelmente, a nossa pegada na
utilização de recursos, ao mesmo tempo.

Em suma, a nova abordagem de design industrial é aumentar, deliberadamente,


o desempenho por unidade, de como usamos os nossos recursos, buscando sempre
nos mover ao longo da rota de fazer “mais com menos”. Dentro dessa lógica, como
se pode perceber, uma série de aliviadores de “pressão” em direção ao aumento da
sustentabilidade e da simplificação/eficiência da produção iriam ocorrer.

Amplificadores de Eficiência
Chamaremos de “amplificadores de eficiência” o que a lista a seguir apresenta
como exemplos de mudanças estruturais, econômicas e sociais, necessárias para aux-
iliar essa eficiência otimizada.

1) Retirada da pressão por emprego para obter renda ou “ganhar a vida”.


No modelo de mercado, todo mundo está estruturalmente coagido a participar
de alguma forma de comércio para a sobrevivência, seja trocando trabalho por um
salário ou criando um produto para vender por lucro.714 Esta pressão global, enquanto
muitas vezes apontada como um mecanismo de incentivo para o “progresso” social,
na verdade, reduz muito a eficiência global, assim como reduz a criatividade e a
inovação. Isso cria um espectro de desperdício de recursos e tempo, uma vez que
o interesse na geração de renda e a pressão para produzir é frequente mesmo que a
demanda seja ausente.

A intenção e necessidade de fazer “alguma coisa” para ganhar renda para a so-
brevivência persiste independentemente da nossa realidade moderna, em que a so-
ciedade pode não necessitar que todos participem do processo econômico. Em uma
EBRLN (Economia Baseada em Recursos e Lei Natural), a ideia de todos serem
obrigados a produzir ou vender algo é vista como contraproducente, dadas as tendên-
cias de efemeralização e a necessidade de agora orientar a sociedade na direção da
sustentabilidade.

253
2) Retirada da produção visando classes sociais.
Estratificação social, que é uma consequência natural do capitalismo de mercado,
cria a necessidade de produzir um espectro de qualidades para um dado gênero de
produto.715 Este espectro não é baseado na utilidade ou na variação de um produto
de acordo com as necessidades/interesses pessoais dos indivíduos. Ao contrário, cada
padrão de qualidade se destina a ser comprado por (ou feito “acessível” a) uma deter-
minada classe de renda.

Isso cria produtos de baixa qualidade para atender a capacidade financeira dos
consumidores de baixa renda e, portanto, gera desperdício desnecessário. Neste novo
modelo estrategicamente sustentável, nenhum produto é criado para ser “barato”,
através de padrões relativos, simplesmente porque ele se encaixa nos padrões de-
mográficos de compra das classes baixas. Numa LNEBR, não há classe baixa, de-
mograficamente.

3) Retirada das ineficiências inerentes às práticas competitivas.


A concorrência entre empresas produz quatro formas básicas de ineficiências
desnecessárias e resíduos daí resultantes:
(A) Incompatibilidade de componentes e acessórios patenteados
(falta de padronização).

(B) Multiplicidade de desperdício de mercadorias por empresas


concorrentes do mesmo gênero.

(C) Fragilidade incentivada de produtos para promover volume de


negócios (obsolescência planejada).

(D) Fragilidade inerente de produtos devido à busca de custo-


benefício (obsolescência intrínseca).

Com relação a (a), em uma economia sustentável existiria uma padronização uni-
versal de todos os componentes e acessórios de gênero relacionados, sempre que
possível. Em 1801, um homem chamado Eli Whitney foi talvez o primeiro a aplicar a
padronização de uma forma impactante. Ele produzia mosquetes e, na sua época, não
havia nenhuma maneira para intercambiar as peças de diferentes mosquetes, apesar
de seguirem o mesmo projeto global. Se uma parte de um mosquete quebrasse, toda
a arma era inútil. Whitney desenvolveu ferramentas para fazer isso e, depois de 1801,
todas as peças passaram a ser inteiramente intercambiáveis.

Enquanto a maioria diria que essa ideia de senso comum seria prolífica em

254
toda a comunidade industrial global de hoje, a perpetuação de componentes e
acessórios patenteados por empresas que querem que o consumidor volte a com-
prar qualquer componente necessário diretamente delas, ignorando a possibili-
dade de compatibilidade com outros produtores, cria não só um grande desper-
dício, mas também um grande inconveniente.

Da mesma forma, com respeito ao item (b), uma multiplicidade de desperdício de


produtos de um gênero, por parte das empresas concorrentes, é gerada em todos os
momentos, no modelo atual. Embora menos óbvia para muitos, a natureza geral da
concorrência de mercado mantém novas ideias invisíveis aos concorrentes, durante
o desenvolvimento. Então, um bem é produzido para ser comprado, que, provavel-
mente, tem alguma melhora global de uma determinada característica. Uma vez que
essa característica esteja no mercado, é então reconhecida e avaliada, por empresas
concorrentes, e a corrida pela melhoria contínua segue adiante, indo e voltando.

Enquanto muitos defendam que esta “guerra criativa” é uma força motriz do
desenvolvimento/inovação de um determinado produto ou finalidade, a conseqüência
negativa, e desnecessária, é a rápida e desperdiçadora obsolescência física inerente
a cada “ciclo” de produção. Em outras palavras, se uma melhoria notável de carac-
terística de telefone celular é obtida por uma empresa, nos calcanhares de um grande
lançamento, por outra empresa, que já começou a produção em massa de sua versão
do telefone sem essa atualização, um estado imediato de obsolescência é produzi-
do, resultando em produtos menos otimizados, que poderiam ter sido evitados se os
produtores tivessem trabalhado em conjunto, como um todo industrial, em vez de
escondendo o progresso e competindo.

Embora possa ser argumentado, também, que é somente através de preços e pa-
drões de interesse do consumidor, que o conhecimento do que está em “demanda”,
ou não, pode ser obtido, a verdade da questão é que a comunicação poderia ser feita
mais facilmente entre o mecanismo de design e o público consumidor também.716
Isto evita a técnica de aceitação/rejeição do”preço-demanda” que também é um des-
perdício, uma vez que também requer que a produção ocorra, em muitos casos, antes
da procura real ser totalmente compreendida.

Como ponto final, um sistema de projeto/produção globalmente interligado,


com dados compartilhados, orientado de forma não-competitiva, também facilitar-
ia ainda mais a capacidade de prefigurar melhorias de características componentes
ao longo do tempo. Isso significa que a indústria seria capaz de entender que mu-
danças estão vindo com base em tendências progressivas e design mais eficiente,
antecipando as mudanças iminentes.

No que diz respeito a (c), ou o que foi denominado “obsolescência programa-

255
da”, o interesse em ver os produtos falharem ou serem menos otimizados, para
motivar compras repetidas de um mesmo bem básico, não seria mais incentivado.
A prática de obsolescência deliberadamente concebida tem sido uma parte oculta
da abordagem industrial desde meados do século XX, quando o interesse na criação
de crescimento econômico era alto.717

Em um EBRLN, este interesse é removido, pois não há incentivo do mercado para


estimular compras repetidas e, portanto, estratégias mais otimizadas de eficiência,
durabilidade e sustentabilidade podem ser aplicadas.

No que diz respeito a (d) ou “obsolescência intrínseca”, como é chamada aqui, toda
a competição por participação de mercado procura reduzir os custos de produção, em
qualquer grau possível, a fim de permanecer acessível no mercado e, portanto, persuadir
o público consumidor a comprar uma versão ou “marca” de um bem em detrimento de
outra. Este foi sinalizado, na cultura de marketing norte-americana, como “produzir os
melhores produtos possíveis com os preços mais baixos possíveis.”

Essa ineficiência inerente, de buscar a redução de custos, cria, como resultado


sistêmico, produtos menos eficientes imediatamente após a produção, no sentido
técnico. Ângulos cortados, em design e produção, com objetivo de preservar dinheiro
pode ser considerado “economicamente eficiente”, em um contexto de mercado, mas
é, claramente, economicamente ineficiente no mundo real (contexto físico), pois cria
desperdícios desnecessários, ao longo do tempo. Isso não quer dizer que não há lim-
ites para a otimização da produção, dado o fato de que o design verdadeiro só pode
ser feito como um todo, no que diz respeito ao estado dos recursos, em um determi-
nado momento e com as limitações associadas. Isso quer dizer que o uso de mero
“custo-benefício” com fins lucrativos para limitar a qualidade do produto é um meio
totalmente sem base científica para essa tomada de decisão.

4) Remoção das relações de propriedade que criam isolamento de uso, em favor do


acesso compartilhado.
Conforme expresso no exemplo anterior, sobre automóveis e seu tempo de uso,
numa EBRLN o sistema de propriedade é substituído por um sistema de acesso que
cria um meio mais fluido, de uso compartilhado de bens que não são necessários
o tempo todo, para uma única pessoa. Os exemplos mais comuns seriam o uso de
domicílios de férias, transportes e equipamentos, ferramentas, equipamentos de pro-
dução e afins, cujo uso seja sazonal.
Como um aparte, além de uma redução global geral de produção por unidade
de tempo de utilização por pessoa, isto pode auxiliar com formas maiores de efi-
ciência bem como conveniência. Podemos imaginar aeroportos ou estação de trens,
por exemplo, sendo redesenhados para facilitar o acesso a vários produtos, no local,
tanto que a ideia de “montar” uma mala não seria mais necessária. Esta mudança,

256
aparentemente pequena, sozinha, teria um impacto positivo em filas, bem como em
armazenagem e máquinas de processamento de bagagem em trânsito, etc. A cadeia de
alívio é realmente muito extensa, quando pensamos em detalhes.

Roupas, equipamentos de comunicação, itens de lazer e similares, poderiam ser


disponibilizados no aeroporto de destino ou instalações semelhantes, na chegada.
Enquanto isso possa ser estranho para muitos, como uma ideia, especialmente tendo
em conta a natureza orientada ao “personalismo”, da nossa cultura, a redução do de-
sconforto, ao não ter mais que carregar grandes sacos e similares, poderia promover
esses valores modernos, dada a facilidade incrementada. De qualquer maneira, ele se
resume a uma escolha pessoal. Na abstração, uma pessoa poderia, literalmente, viver
sem a necessidade de mover-se em torno da propriedade, em tudo, movendo-se ao
redor do mundo à vontade, sem inconveniências orientadas à propriedade.

Mais uma vez, facilitando meios de acesso, onde as coisas possam ser compar-
tilhadas, permitirá que muitos mais possam obter o uso de bens, que de outra forma
não teriam, no modelo atual, juntamente com menos sendo produzido, em proporção.
A EBRLN procura criar abundância de acesso, não uma abundância de propriedade.

Também é importante notar que a propriedade não é um conceito empírico, en-


quanto o acesso é. Propriedade é um artifício protecionista. O acesso é a realidade da
condição humana/social. Para que alguém verdadeiramente “possuísse”, por exemplo,
um computador, teria que criar pessoalmente as ideias tecnológicas que o fizeram ser
fabricado, juntamente com as ideias que compõem as ferramentas para sua produção.
Isto é literalmente impossível. Não existe tal coisa como uma propriedade empírica, na
realidade. Há apenas acesso e partilha, não importa qual sistema social é empregado.

5) Design voltado à reciclagem é obrigatório e incentivado, maximizando a reuti-


lização de recursos.
Ao contrário do que nos diz nossa intuição, não há tal coisa - resíduos - no mundo
natural. A humanidade tem dado muito pouca atenção ao papel da reutilização de
materiais e como todas as nossas práticas de projeto devem levar isso em conta.

Como um aparte, o estado mais elevado dessa reciclagem acabará vindo na forma
de nanotecnologia. A nanotecnologia acabará por permitir a capacidade de criar pro-
dutos partindo do nível atômico e desmontar os produtos de volta, em átomos brutos.
É claro que, embora esta abordagem pareça estar em desenvolvimento, para o futuro,
não estamos sugerindo que tal nanotecnologia seja necessária, neste momento, para
sermos regenerativos ou abundantes, com sucesso.

Hoje, a reciclagem industrial é mais uma reflexão tardia que um foco. As em-
presas continuam a fazer coisas, cegamente, como materiais de revestimento com

257
determinados produtos químicos que, na verdade, distorcem as propriedades desses
materiais, tornando o material menos reaproveitável por métodos atuais de recicla-
gem. Em geral, a estratégia de reciclagem é uma “semente núcleo” de manutenção da
abundância. Cada aterro, na Terra, é apenas um desperdício de potencial.

A lei da conservação de massa afirma que, para qualquer sistema fechado, em


todas as transferências de material e de energia, a massa do sistema deve manter-se
constante ao longo do tempo, uma vez que não é possível alterar a quantidade de
massa do sistema, se não for adicionada ou removida. A quantidade de massa é “con-
servada” ao longo do tempo. Esta lei natural implica que a massa não pode ser criada
nem destruída. O uso de recursos da sociedade humana é, talvez, melhor pensado
como um processo de rearranjo inteligente, ao invés de “uso” e “descarte”.

6) O uso de materiais, para um determinado volume de produção, será estrategica-


mente calculado para garantir a utilização dos materiais mais propícios e abundan-
tes conhecidos.
Conforme será mais detalhado no ensaio “O Governo Industrial”, um novo
modelo de avaliação é criado, que orienta o uso dos materiais com base em certos
parâmetros de eficiência. Os dois mais importantes são a “utilidade” e o estado geral
de “abundância” de um material.

Utilidade está relacionada a quanto é apropriado o uso proposto, com base nas
propriedades do material. Abundância refere-se a quanto do material está disponível
e, portanto, o seu estado de escassez. Juntos, pesa-se o valor de utilidade contra o
valor de quão acessível e de baixo impacto o material é, em comparação com outros
materiais que podem ser mais ou menos favoráveis ​​e mais ou menos abundantes.
Em outras palavras, é uma comparação da eficiência sinergética, que garante que os
materiais utilizados são otimizados para o propósito.

Provavelmente o melhor exemplo disso é a construção de lares ou domicílios. O


uso comum de madeira, tijolo, parafusos, e da vasta gama de peças típicas de uma
casa comum é comparativamente ineficiente em relação ao uso dos mais modernos,
simplificados e abundantes materiais pré-fabricados ou capazes de ser moldados.

Relata-se que um lar tradicional, de 2.000 pés quadrados (aproximadamente 610


metros quadrados), consome cerca de 40 a 50 árvores. Compare isso com as casas
que agora podem ser criadas com processos de pré-fabricação, como extrusão em
molde, com polímeros simples, amigáveis à Terra, concreto e outros materiais facil-
mente moldáveis ​​e transportáveis. Essas novas abordagens têm uma pegada muito
pequena, em comparação com a nossa destruição das florestas mundiais para obter
madeira. A construção civil atual é um dos processos industriais mais intensivos em
recursos e geradores de desperdício, e não precisa ser assim.

258
7) Design que contribua para a automação do trabalho.
Quanto mais em conformidade com o estado atual dos processos de produção
eficientes e rápidos, mais abundância podemos criar. A maioria das abordagens de
fabricação normalmente dividem o trabalho em três categorias: produção humana,
mecanização e automação. Produção humana significa feito à mão. Mecanização sig-
nifica usar máquinas para apoiar o trabalhador humano. Automação significa que não
há interação humana no processo.

Imagine se você precisasse de uma cadeira e houvesse três projetos. O pri-


meiro é elaborado e complexo e só poderia ser feito à mão, naquele momento. A
segunda é mais simples, onde as suas partes poderiam ser feitas, em sua maioria,
por máquinas, mas teria de ser montado à mão, no final. O terceiro é uma cadeira
que é produzida por um processo de máquina, totalmente automatizado.

Este último tipo de design de cadeira seria o objetivo de projeto nesta nova abord-
agem. O que deveria ser feito seria reduzir a variedade de configurações de máquinas
de automação necessárias. Imagine, se você desejar, uma fábrica de processamento
baseada em robótica que possa não só produzir carros, mas possa produzir virtual-
mente qualquer tipo de máquina industrial/produto, compostos pelo mesmo conjunto
básico de matérias-primas. Isso aumentaria a produção substancialmente.

Uma maneira fácil de entender essa tendência de simplificação é considerar o


poder do software digital e como uma peça de hardware (ou seja, o computador),
pode agora servir a um número enorme de funções programáveis. Esta “desmaterial-
ização”, como poderia ser chamada, é melhor exemplificada pelo moderno telefone
celular. Devido às vastas quantidades de programa de aplicações que já estão dis-
poníveis para tais “telefones inteligentes”, desde aplicações médicas até sintetiza-
dores musicais completos, a funcionalidade destes pequenos computadores portáteis
pode agora assumir quase incontáveis papéis.

Tais funções, há muito tempo atrás, antes da era digital, teriam, geralmente, re-
querido uma configuração de hardware para cada tarefa. Hoje, qualquer sistema op-
eracional básico pode executar um número dramaticamente grande de funções pro-
gramadas, tudo contido num dispositivo pequeno. Esta lógica se aplica à natureza das
máquinas de produção física, sendo simplesmente uma questão de tempo antes que
o ato de produzir uma vasta gama de produtos possa ser feito por sistemas mecânic-
os, pequenos e modulares, assim como um sistema operacional digital pode realizar
quase incontáveis funções programadas.

8) Soluções úteis de problemas resultam do item anterior: processos econômicos


ineficientes são reduzidos, se não eliminados.

259
Esta ideia é muitas vezes difícil de compreender plenamente: como a cadeia de
causalidade resultante de uma ineficiência geral pode ser vasta e complexa. Por ex-
emplo, a resolução da escassez de água, apenas, tem um enorme potencial preventivo
de doenças. A quantidade de trabalho e de recursos, antes utilizados para o tratamento
dessas doenças, então resolvidas, pode encontrar outras aplicações. A abundância de
energia tem a mesma consequência, já que a energia é o motor de toda a atividade hu-
mana. Um claro e confiável estado de abundância absoluta de energia renovável teria
enormes efeitos sobre a capacidade de produção e abundância desta sociedade futura.

Da mesma forma, a busca da satisfação das necessidades humanas e a remoção de


ocupações de “trabalho-por-renda”, que muitas vezes não têm nenhuma função técni-
ca verdadeira, desencadeariam uma nova possibilidade educacional, reforçada por um
incentivo para perseguir interesses pessoais e, portanto, a liberdade de não se sentir
pressionado para longe de áreas de interesse, já que a sobrevivência e o bem-estar já são
atendidos pelo próprio modelo social. É difícil imaginar a explosão de criatividade pos-
sível quando esta pressão é removida e a sociedade fica livre para pensar com clareza.

9) Revigorar a “mente coletiva/de grupo”, significando conexão humana e partilha


de ideias, trazendo progressos cada vez mais acelerados.
De modo similar ao ponto anterior, a Internet tornou-se uma ferramenta poderosa
para pesquisa e expansão de ideias. Embora a pesquisa e desenvolvimento “open-
source” já receba uma quantidade razoável de atenção hoje, a capacidade de aprove-
itar o poder comunicativo da internet para criar um diálogo global sobre qualquer
tecnologia ou ideia vai facilitar um tipo de desenvolvimento interativo nunca antes
visto, uma vez que seja colocado em foco.

Os Reinventores do Jogo (‘Game Changers’)


A discussão de tecnologias avançadas que podem transformar radicalmente o
desenrolar do futuro e ajudar na busca da pós-escassez não tem sido o foco deste
ensaio, uma vez que se torna muito fácil simplesmente assumir a realidade das espec-
ulações. Um grande número de “futuristas” têm feito exatamente isso com resultados
mistos e muitas vezes deixando o público com expectativas iminentes e prematuras,
esperando por esta ou aquela nova tecnologia para finalmente avançar.

No entanto, descartar esses potenciais é igualmente precipitado. A realidade da


questão é que a nossa capacidade de acelerar essa mudança deriva do nosso foco.
Assim como o Projeto Manhattan foi capaz de colocar inúmeros cientistas juntos
com um único objetivo (tão violento quanto ele possa ter sido - construir a bomba
atômica), a ideia de projetos em redes, globais, para rapidamente acelerar novas pos-
sibilidades técnicas é apenas uma questão de escolha. Podemos apenas imaginar o
progresso de qualquer determinado projeto se mentes suficientes se reunirem para
persegui-lo de uma vez, de forma organizada. Esta abordagem “open-source” global,

260
sozinha, provavelmente tem possibilidades ilimitadas.

Da mesma forma, não há falta de tecnologias de transformação ou “disruptivas”


no horizonte que possam alterar radicalmente a paisagem industrial. Inteligência ar-
tificial, robótica, biotecnologia, impressão 3D, computação infinita e nanotecnologia
são apenas alguns exemplos. Cada um desses processos em desenvolvimento tem
vastas implicações para o aumento da eficiência. É muito difícil saber exatamente
como eles vão se desdobrar ou, mais importante, como eles vão encontrar sinergia
entre si, mas nós sabemos que as tendências de desenvolvimento estão aumentando
exponencialmente, na maioria dos casos.

Por exemplo, uma fusão de impressão em 3D, nanotecnologia, robótica e IA


(Inteligência Artificial) vai alterar para sempre o estado do processo de fabricação,
tanto que uma pessoa poderia, talvez, ter um sistema de manufatura do tamanho
de sua garagem, em sua casa, para a produção de praticamente qualquer coisa que
ela possa precisar. Mais uma vez, enquanto tais especulações futuristas, e aparen-
temente de “ficção científica”, são desnecessárias para justificar a nossa moderna
e tangível capacidade para criar abundância, esses meios novos e emergentes não
devem ser negligenciados uma vez que eles são configurados para ter um grande
impacto, se utilizados corretamente.718

No século 19, o alumínio era mais valioso do que o ouro, embora seja tecnica-
mente um dos elementos mais abundantes no mundo. No entanto, antes da descoberta
da eletrólise, era extremamente difícil de extrair. Uma vez que este processo técnico foi
descoberto, quase da noite para o dia a escassez do material despencou. Hoje, temos
a tendência de usar o alumínio com uma mentalidade de descartável. Tais mudanças
históricas dramáticas são importantes de se manter em mente já que o mesmo tipo de
avanço está ocorrendo em muitas disciplinas, muitas vezes oculto da compreensão da
maioria das pessoas e muito além de suas expectativas. Da mesma forma, as tecnolo-
gias acima mencionadas estão em ritmo para mudar radicalmente o mundo.

Avaliação dos Recursos Brutos


Como se observou, a avaliação do estado dos recursos naturais para obter o grau
de capacidade total/máxima de acordo com a população humana não pode ser feita
simplesmente extrapolando em torno dos métodos atuais. Precisamos ter um senso
geral dos níveis atuais de estoque de todos os recursos relevantes da Terra, e depois
digeri-los com relação aos amplificadores de eficiência acima mencionados que, de
fato, mudam, radicalmente, a maneira como as práticas industriais e de consumo se
desenvolvem. Também é importante notar que a ciência moderna trouxe uma grande
quantidade de sintéticos ao uso e que a utilização de polímeros, meta-materiais e out-
ros avanços rápidos em química, física e engenharia estão se acelerando. O resultado
final é que muitos dos recursos considerados problemáticos, tais como metais de

261
terras raras, estão encontrando substituições por outros altamente abundantes.

É importante ressaltar que a maioria das perspectivas sobre as tendências de


uso dos recursos atuais são bastante negativas por aqueles que pensam no con-
texto do modelo atual.719 Não há falta de relatórios negativos e com razão. Temos
abusado e usado mal os nossos recursos em vasto grau, presos a um paradigma
cego de vida que tem pouca compreensão estrutural de suas conseqüências.720
No entanto, mais uma vez, este é realmente um problema de má gestão, não uma
questão quantitativa ou empírica.

Também é importante notar que não é o quanto ou quão pouco há de qualquer


coisa, em termos absolutos. Em vez disso, o qualificador tem a ver com a forma como
estamos atingindo o objetivo procurado. Por exemplo, a quantidade disponível de
petróleo na Terra, hoje, que seria necessária para o seu uso, não como energia (já que
neste modelo não é necessário para gerar energia, como observado), é tão relevante
quanto a nossa incapacidade/capacidade de encontrar outras maneiras de alcançar os
mesmos objetivos alcançados via o petróleo, mas sem ele.

Outro exemplo é a madeira serrada. Se a construção de casas transcender com-


pletamente o uso de casas com estrutura de madeira, a nível mundial, utilizando,
em seu lugar, processos amigáveis à Terra, tais como concreto e polímeros, vindo
de matérias-primas ubíquas e abundantes, de repente, um recurso hoje escasso se
torna, potencialmente, excepcionalmente abundante, relativamente falando.

Seguindo em frente, os recursos naturais são melhor organizados, inicialmente,


dividindo-os em (a) bióticos e (b) abióticos. Recursos bióticos são derivados da bios-
fera e são freqüentemente chamados de “recursos vivos”.721 Exemplos de recursos
bióticos são florestas, plantas, animais, etc. Por algumas definições, também incluem
recursos provenientes de vida, no passado distante, como os combustíveis fósseis.
Recursos abióticos são muitas vezes considerados recursos “não-vivos” e incluem
água, solo, minerais e afins.

(A) Em geral, os recursos bióticos do planeta têm sofrido muito devido à crescente
industrialização. A exaustão das florestas, a perda da biodiversidade, a perda de pop-
ulações de peixes e outras questões colocaram a sustentabilidade de muitos desses
recursos em questão. Em todos os casos, o problema não é uma oferta limitada desses
recursos; é um flagrante desrespeito a qualquer equilíbrio com a regeneração natural
e respeito ao meio ambiente básico. A solução para esses declínios é, obviamente,
desviar-se de suas atuais taxas de uso. Isto pode ser feito por simples substituição por
outros materiais comparáveis aos
​​ que são extraídos a uma velocidade insustentável.

Nos ensaios - Fatores Econômicos Verdadeiros e o Governo Industrial -, esse

262
processo é descrito em detalhes. Em suma, não há recursos bióticos que estão sen-
do usados ​​hoje que não possam ter sua taxa de consumo diminuída por ajuste es-
tratégico consciente. A madeira não precisa ser usada hoje em dia para todos os
fins atuais. Nem todo mundo precisa comer os peixes do oceano selvagem uma
vez que processos de fazendas aquáticas avançados e humanitários já existem. Nós
já discutimos como a capacidade de produzir uma abundância vegetal, com a ag-
ricultura vertical, e como a mudança para carne in-vitro pode ser mais saudável e
sustentável do que os métodos atuais de criação de gado, que são prejudiciais ao
meio ambiente.

Com esses alívios, poderíamos ver uma grande melhoria global, em recursos,
na biodiversidade, na preservação da vida - salvando derivados das florestas, para
uso da medicina e assim por diante. As outras energias renováveis, em grande parte
inexploradas, mencionadas antes, também podem deslocar rapidamente os com-
bustíveis fósseis de seu uso como energia, hoje. Então, a questão é realmente uma
questão de escolha inteligente.

(B) Os recursos abióticos têm uma realidade de gestão diferente, mas similar. Nós
já abordamos a nossa capacidade técnica para contornar ou resolver o problema da
escassez de água com métodos de purificação e do nosso solo, que está se esgotando
rapidamente722, com a agricultura sem solo. No geral, os principais recursos que não
consideramos são os minerais valiosos que utilizamos para construir muitos dos bens
que utilizamos. Estes minerais são compostos, na sua maioria, de elementos da Terra
e são extraídos de rochas da crosta terrestre. Muito progresso na versatilidade de uso
também foi alcançado pela indústria de extração de elementos e formação de ligas
metálicas. Uma liga é uma mistura de metais feita pela combinação de dois ou mais
elementos metálicos, tais como a formação do aço.

Há cerca de 5.000 minerais conhecidos723 e o número de ligas possíveis é enorme,


com muitos milhares em uso hoje. Tanto quanto análises, a Pesquisa Geológica
Britânica [British Geological Survey (BGS)] emite, a cada ano, uma avaliação es-
tatística mundial de minerais/elementos/compostos químicos em relação à extração
global e uso em produção.724 Setenta e três deles são documentados no seu relatório
2007-2011 e, portanto, estes podem ser considerados os mais utilizados para a pro-
dução industrial global.725 Destes, a BGS, por sua vez atualiza uma “lista de risco”
de tais materiais com base no estresse ou estresse antecipado de seu suprimento.

O gráfico acima expressa o risco médio de muitos elementos de alto risco, de


acordo com sua análise.

A BGS afirma: “A ... lista fornece uma indicação simples e rápida do risco relati-

263
Reproduzido da Lista de Riscos da Pesquisa Geológica Britânica 2011 [726]
vo, em 2012, no fornecimento de ... elementos ou grupos de elementos que precisa-
mos para manter nossa economia e estilo de vida. A posição de um elemento na lista
é determinada por um número de fatores que possam afetar a disponibilidade. Estes
incluem a abundância natural dos elementos na crosta terrestre, a localização da pro-
dução atual e reservas, e a estabilidade política desses locais ... as taxas de reciclagem
e substituição dos elementos tem sido considerada na análise. “727

O qualificador de estabilidade política/governança não é realmente relevante,


empiricamente. Este é um problema cultural. Refira-se antecipadamente que uma
EBRLN é alcançada através da cooperação global e os padrões comuns de guerra, a
“maldição dos recursos”, e interrupções na cadeia de fornecimento por tais pressões
artificiais, pressões comuns de auto-preservação das potências mundiais, já não seri-
am um problema.

264
Em geral, a BGS legitimamente conclui que a substituibilidade e reciclagem são
as soluções e os recursos escassos essencialmente sofrem de uma falta de reciclagem e
uma falta de substituições adequadas sendo feitas. Ao invés de considerar cada material
observado, o primeiro da lista, os metais de terras raras, será usado como exemplo pelo
qual a resolução de problemas pode ser considerada, assim como para todos os outros.

Há dezessete metais de terras raras, que são consideradas os mais alarmantes de


todos os elementos.

Reciclagem
A primeira grande falha é que apenas um por cento de todos os minerais de terras
raras são reciclados hoje, de acordo com algumas estimativas.728 Dado o seu uso co-
mum em eletrônica, a reciclagem de lixo eletrônico também tem sido desanimadora.
Com base em estatísticas da EPA, nos EUA, em 2009, apenas 25% dos produtos
eletrônicos de consumo foram recolhidos para reciclagem.729 Da mesma forma, os
produtos criados que usam a maior parte destes materiais tão valiosos quase não são
projetados para ser reciclados, em sua maior parte.730

De acordo com uma organização chamada SecondWave Reciclagem, “para cada


um milhão de telefones celulares reciclados, podemos recuperar £ 75 de ouro, £ 772
de prata e £ 33.274 de cobre... Se os Estados Unidos reciclassem os 13 milhões de
celulares que são jogados fora anualmente, poderíamos economizar energia sufici-
ente para abastecer mais de 24 mil casas durante um ano”.731

Substituições
Talvez mais importante, agora é possível fabricar versões sintéticas destes me-
tais com suas propriedades obtidas de materiais abundantes, muito comuns, em um
laboratório.732733 A nanotecnologia está provando ser muito promissora nesta abor-
dagem.734 Muitas indústrias diferentes têm trabalhado ativamente para resolver a
questão em cada aplicação, por exemplo, agora é possível fazer lâmpadas de LED
sem esses metais.735 No geral, vemos o esforço para resolver este problema se in-
crementando e o fato é que a resolução é simplesmente uma questão de criatividade,
foco e tempo.736

Reorientação industrial também é importante ser acrescentada a essa equação


de resolução de problemas como uma camada maior de formas de substituibilidade.
Enquanto isso, atualmente, pode não ser aplicável aos metais de terras raras, os com-
ponentes de larga escala em várias tecnologias estão mudando rapidamente. É uma
iniciativa de projeto de engenharia para se concentrar ativamente na inovação de
componentes que podem ignorar essas necessidades. No entanto, dada a taxa de mu-
dança para substituição de metais raros da Terra através da síntese, parece ser apenas
uma questão de tempo antes que este problema seja resolvido através de uma combi-

265
nação de uso estratégico, reciclagem e síntese.

Além disso, nunca é demais reiterar que a grande falha da indústria global tem sido
não fazer adequadas comparações de propósitos quando opta por utilizar um deter-
minado material. Em outras palavras, não é inteligente usar um metal muito raro em
um produto geralmente arbitrário e passageiro. Como não existe uma base de dados
referencial, que mostre as taxas ativas de emprego, declínio e similares, as empresas
tomam suas decisões com base em meras relações de custo que têm muito pouco valor
no sentido de uma utilização estratégica por comparação. Embora seja verdade que o
preço pode refletir escassez e dificuldade de aquisição de um determinado mineral ou
elemento, uma realidade tão terrível surge apenas quando o problema se materializa
de forma aguda. Em outras palavras, nenhuma previsão real existe no preço e no mo-
mento em que o preço reflete o que era na verdade uma realidade técnica observável a
qualquer momento, muitas vezes é tarde demais e a escassez se torna um problema real.

Em um sistema de gestão de recursos ativamente ciente, isto não iria ocorrer. Não
apenas esses materiais seriam constantemente comparados na avaliação de projetos,
como qual é o material mais adequado para uma determinada utilização, qualquer
problema prenunciado poderia ser visto a partir de um longo período de distância e,
por conseguinte, a eficiência pode ser melhor maximizada.737

Terras
Diferentemente de avaliações anteriores, a questão do acesso à terra tem uma con-
sideração diferente. A Terra tem uma quantidade finita de solo habitável e, portanto, o
método pelo qual os seres humanos têm acessado e compartilhado terras, ao longo do
tempo, é a questão real. Escusado será dizer que nem todo ser humano pode ter a sua
própria terra privada. Da mesma forma, a doença produzida pelo materialismo, rique-
za e status, que se manifesta em vastas e enormes fazendas dos super-ricos, caem na
mesma categoria irracional - totalmente alheios à sustentabilidade e equilíbrio social.

Hoje, o sistema de propriedade cria uma orientação estática ao acesso à terra, com as
pessoas normalmente adquirindo terras e ficando nelas indefinidamente. Essa tendência
de “colonizar” parece ser também agravada pelos papéis de trabalho e requisitos de
demarcação da maioria, no mundo. A tradição de deslocar-se para o emprego no centro
da cidade ainda é muito comum e, portanto, sua casa precisa ser nas proximidades. Em
uma EBRLN (Economia Baseada em Recursos e Lei Natural), tais pressões são muito
aliviadas e a ideia de viajar o mundo constantemente é uma opção concreta.
Os analistas descobriram que se necessitássemos ajustar as 7 bilhões de pessoas
do mundo em uma única cidade, modelada a partir de Nova York, todos os habitantes
terrestres caberiam no estado americano do Texas.738 Embora claramente imprat-
icável, esta simples estatística revela o grande grau de variação possível a respeito
de como os seres humanos podem organizar-se topograficamente em uma sociedade

266
global. O problema não é a quantidade de espaço físico necessário para 7.000.000.000
ou muitas vezes mais. O problema é organização inteligente, design e educação.

Isto observado, o método de acesso para uma LNEBR é criar um sistema de


partilha interativa. O fundamento dessa ideia será muito expandido no ensaio “O
Governo Industrial”. Em suma, as pessoas podem viajar de um destino para out-
ro, desfrutando de um determinado local por um período, antes de provavelmente
mudar-se. Tais sistemas já existem no sistema atual, em que uma rede de pessoas
e domicílios está disponível para compartilhamento.739

Naturalmente, muitos orientados ​​para um espírito de “casa”, que têm um tradi-


cional romantismo, não devem ter medo de perder essa segurança emocional. Não há
nenhuma razão para que um local “permanente” para uma pessoa ou família não pos-
sa existir, como encontramos no mundo de hoje. De fato, em uma sociedade baseada
na abundância de acesso, encontrar e viver em uma moradia permanente provavel-
mente seria muito mais fácil do que em uma sociedade com propriedades privadas.

Ainda, as estatísticas provam que as pessoas de hoje gostam muito de se movi-


mentar, explorar e desfrutar de novos lugares. Se não fosse por seu trabalho-por-ren-
da e limitações monetárias, está claro que muito mais viagens seriam feitas, pela
grande maioria. Uma vez que um tal sistema de acesso é posto em movimento, a
rede de lugares disponíveis para ficar e visitar iria abrir e fechar em um fluxo natural,
assim como os hotéis trabalham. Quando um hotel tem suas reservas completas para
um determinado dia, naturalmente outros que procuram visitar a região procuram
outro lugar. Conforme a demanda flui e reflui, o feedback é utilizado para a produção
de novas estruturas e similares, não sendo diferente, uma vez mais, de que como é
feito hoje, no mercado de férias.

Os imperativos educacional e de valor estão na ideia de dividir o mundo. Muitos


hoje considerariam isto ser grosseiramente idealizado. A ideia de se mover livremente
sobre o planeta, mantendo-se praticamente em qualquer lugar, sem a obrigação de
sentir a necessidade de voltar para qualquer lugar central, parece ser uma fantasia.
No entanto, é muito possível. Além disso, desde que a comunicação à distância está
aumentando exponencialmente, engajar-se em qualquer tarefa social/comunitária ou
interesse criativo pode ocorrer em praticamente qualquer lugar também.

Mais uma vez, esta é uma escolha de valor. Se uma pessoa desejar manter sua
família em um único lugar, pelo resto de suas vidas, há espaço mais do que suficiente
no planeta (dadas as estatísticas sobre o Texas apontadas) para prover ambas as pos-
sibilidades, assumindo uma revisão inteligente de layout das cidades, conservação
responsável e um interesse sincero em ser eficiente. De qualquer modo, o mesmo
sistema de acesso pode ser utilizado para localizar e ocupar um determinado local,

267
seja de forma temporária ou permanente.

Petróleo
Em conclusão a este ensaio, questões que envolvem a dependência da socie-
dade moderna no uso do Petróleo são importantes de serem solucionadas. Petróleo
é provavelmente o recurso industrial mais utilizado, hoje, no planeta, sendo usado
principalmente para o transporte.

Conforme descrito antes, entre a tecnologia de baterias, design melhorado e os


vastos meios renováveis ​​que temos hoje, não há nenhuma razão técnica legítima para
ainda precisarmos de gasolina para mover automóveis. O conjunto de carros elétri-
cos disponíveis atualmente, também é um testemunho claro com relação a este fato.
Aviões e outras máquinas acionadas, extremamente grandes, ainda podem precisar
de tanta força de petróleo como atualmente, mas as tendências mostram que é apenas
uma questão de tempo e foco para que os aviões sejam capazes de usar a energia so-
lar740 juntamente com armazenamento avançado significativo para aplicações comer-
ciais de grande escala e peso.

No entanto, devemos sempre tentar pensar fora da caixa quando se trata de eficiên-
cia e sustentabilidade. No contexto deste transporte de larga escala e alto uso de energia,
surge a pergunta: “existe um substituto para viagens de avião que transcenda tais ne-
cessidades de alta concentração energéticas?” A resposta é sim. Tecnologia de levitação
magnética é muitas vezes mais rápida e utiliza uma fracção da energia.741

Assim, mesmo que um pouco de petróleo seja utilizado, com finalidades energéti-
cas, aqui e ali, essas novas abordagens poderiam reduzir a sua pegada de uso exponen-
cialmente, se forem realizadas corretamente. Só nos Estados Unidos, 70% do petróleo
utilizado, no total, vai para o transporte, na forma de gasolina, diesel e combustível de
aviação.742 Da mesma forma, se uma nova condição de paz puder ser negociada no pla-
neta Terra, com uma pressão concentrada para reduzir os armamentos e os preparativos
para a guerra, uma extensa economia de petróleo também ocorrerá.

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos é um dos maiores consumidores


individuais de energia do mundo, responsável por 93% de todo o consumo de com-
bustível do governo dos Estados Unidos, em 2007.743 O Exército dos EUA usa mais
energia do que a maioria dos países. Os militares também são um dos maiores polui-
dores do mundo.744 Então, trabalhar para encerrar todas as forças militares facilitaria
um grande aumento na abundância deste recurso.

No entanto, como já se referiu, o petróleo também está poluindo de várias formas,


de modo que usá-lo para a combustão, como temos feito, não é ambientalmente inteli-
gente. A solução real é revisão social. Enquanto a construção da sociedade humana hoje

268
tem uma vasta dependência do petróleo e gás, em geral, para gerar todos os tipos de
produtos de plásticos a fertilizantes, engenheiros criativos têm, lentamente, enfrentado
este desafio dele ser a fundação central destas necessidades químicas por muitos anos.

Plásticos, que são onipresentes no mundo de hoje, têm estado, quase exclusiva-
mente, no território de petróleo há algum tempo. No entanto, recentemente, cientistas
holandeses inventaram meios para substituir os plásticos à base de petróleo, utili-
zando matéria vegetal.745746 Da mesma forma, uma organização chamada Evocative
tem sido capaz de usar os cogumelos para gerar materiais totalmente sustentáveis,
que também podem servir para substituir muitos usos do petróleo para isolamento e
outros semelhantes.747

No geral, uma grande quantidade de trabalhos científicos está tratando de sub-


stitutos para o petróleo. E a maioria são sobre os óleos e gorduras vegetais, porque
eles têm essencialmente a mesma estrutura química de base, como a do petróleo.
Portanto, a verdadeira questão novamente é o foco. Hoje, garrafas de plástico,
comercialmente disponíveis, que não são baseadas em petróleo (“bioplástico”) es-
tão se tornando muito mais comuns748, por isso é claro que a verdadeira solução
para evolução de nossa dependência material de petróleo é uma questão de intenção
por parte da comunidade científica.

A agricultura é outra preocupação. Fertilizantes e pesticidas exigem petróleo e gás


natural e é bem argumentado que a civilização moderna, dada a sua taxa de consumo de
alimentos e de crescimento, com base em métodos atuais, não seria capaz de funcionar
sem esses meios de base. Isto provavelmente é verdade. No entanto, é em parte por
isso que a seção de agricultura vertical anterior é tão importante. Ao invés de procurar
substituir esses meios, no contexto da agricultura tradicional, a solução é contornar o
problema com os novos métodos.

No geral, se você pensar em qualquer coisa que petróleo e hidrocarbonetos fazem


hoje, você pode encontrar um substituto de preservação da aplicação atual dele (ou
seja, os plásticos à base de óleo de plantas que funcionam na maioria dos contextos
industriais existentes) ou uma abordagem completamente nova com base em méto-
dos revistos que contornem o problema por completo (ou seja, a agricultura vertical
e a sua pouca necessidade de tais fertilizantes). Para não mencionar que, se sim-
plesmente retirarmos petróleo e gás dos principais usos para combustão, então você
liberará tanto dele que, desconsiderada a preocupação ambiental, o recurso se torna
muito mais abundante, dando ainda mais tempo para encontrarmos novas soluções
para eliminar toda e qualquer das realidades ambientalmente insustentáveis.

Apologias Tecno Capitalistas


Na raiz do aumento da capacidade de abundância, como observado antes, está a

269
efemerização ou “fazer mais com menos”. A Lei de Moore, que é o fenômeno em que
o desempenho do computador ou chip dobra a cada 18 meses, essencialmente, foi es-
tendida, nos dias de hoje, para também incluir qualquer tipo de tecnologia baseada na
informação.749 Por exemplo, as aplicações para a automação do trabalho, que são uma
combinação de robótica e programação, os quais são definidos por informações, na sua
origem, revelam como os meios de produção, em si, estão se tornando uma tecnologia
da informação e, portanto, sujeitos a um crescimento exponencial também.

Em termos financeiros, o resultado deste padrão tem sido preços mais baratos
conforme a eficiência inerente reduz os custos, em qualquer grau permitido. Isto pode
ser visto no aumento acentuado em tecnologias de baixo custo e agora onipresentes,
como os telefones celulares. Em absoluta abstração, com todas as coisas sendo iguais,
assumindo a sociedade mantendo apenas seu espectro atual de uso de bens, muitas
tendências na produção têm a capacidade de se aproximar de valor “quase zero”.
Diante disso, surge a pergunta: em que ponto de tal redução de valor de troca (preço)
o valor em si se tornará tão minúsculo, tornando-se irrelevante, por si só, como um
fator econômico? Podemos esperar que este potencial ocorrerá neste previsto grau tão
elevado, no sistema de mercado?

A resposta é não. O mercado nunca irá criar reduções de tão larga escala,
dramáticas, pós-escassez, em geral, devido à sua necessidade central da escassez
para manter o volume de negócios monetários e, portanto, manter as pessoas em-
pregadas. É interessante notar que muitos nos movimentos de tecnologia moderna
ainda justificam a existência do capitalismo de mercado, como um meio para gerar
“abundância”, ao observar este fenômeno geral de redução de custos. Como argu-
mentam, o desdobramento de uma determinada produção e sua demanda aumen-
tada facilitam “melhores” métodos de produção e, portanto, mais economia pela
empresa significa mais economia por parte do consumidor. Isso, então, faz com que
alguns produtos tornem-se disponíveis, ao longo do tempo, para aqueles que não
teriam sido capazes de pagá-los antes. Se tomada pelo valor de face, esta obser-
vação sugere que todos os bens se aproximarão do valor zero, ao longo do tempo,
conforme um dado mercado aumente em demanda.

O primeiro problema, porém, é que este argumento simplesmente ignora a vasta


gama de ineficiências técnicas generalizadas, que podem também, se abordadas e
resolvidas, criar esses mesmos custos reduzidos. Em outras palavras, ele junta duas
variáveis, erroneamente, “eficiência de mercado” e “eficiência técnica”. A global-
ização é um exemplo comum. Enquanto o trabalho do Terceiro Mundo, barato, prim-
itivo, pode ser útil para reduzir o custo de um determinado produto, para o mercado
consumidor americano, o desperdício de energia, desperdício de recursos e condições
desumanas, possivelmente criadas/exploradas, para gerar aquela “vantagem de
preço”, realmente apresenta profunda e cáusticas ineficiências, na visão ampla.

270
Como um aparte, embora seja verdade que certos tipos de tecnologias, geralmente
relacionadas ao computador, são hoje amplamente disponíveis para muitos, que de out-
ra forma não seriam capazes de pagá-las, este é um resultado de engenhosidade científi-
ca e não do mercado. Muitos economistas tradicionais hoje fazem a afirmação, constan-
temente, de que “se não fosse pelo capitalismo ...”, etc. A verdade é que o mercado não
é nada mais do que um sistema de incentivos e entregas e, embora a motivação de lucro
possa, às vezes, incorporar altos níveis de avanço técnico que atingem um potencial de
produção superior, fortalecendo este fenômeno “mais com menos”, este é, todavia, um
possível resultado dentre muitos. Muitos outros meios altamente rentáveis podem ser
utilizados, que têm zero ou valor negativo na própria busca da pós-escassez.

Talvez a melhor maneira de pensar sobre isso seja como uma fronteira de au-
to-limitação. A meta de lucro com base em custo-benefício é permanecer “compet-
itivo” contra outros produtores, enquanto, naturalmente, procurando rendimento
máximo para manter os funcionários pagos e a estrutura da empresa intacta. Essa é a
equação do incentivo. Obviamente, nenhuma empresa quer tornar-se obsoleta perse-
guindo um estado de extrema eficiência.

Da mesma forma, a cultura do lucro é míope por natureza. Isso significa que,
quando confrontados com uma decisão sobre custo-benefício, o caminho mais fácil e
mais imediato para realizar essa mudança provavelmente será o seguido. Isso pode,
mais uma vez, significar a diferença entre atualizar uma operação técnica, para ser
mais eficiente em seu processo de produção real - ou simplesmente a terceirizar para
um país em desenvolvimento em que pode ser pago muito pouco, devido à pobre-
za existente - se parecer melhor no papel, como medida para redução de custos. O
mercado não vê diferença entre os dois. As decisões são baseadas apenas no valor
comercial e os fins tendem a justificar os meios.

Assim, com o tempo, o processo de mercado pode, de fato, continuar a tornar


certos bens de alta demanda mais acessíveis para aqueles que não podiam pagar por
eles antes. No entanto, isso não é prova de que os frutos de uma verdadeira sociedade
orientada para pós-escassez possam ser obtidos, por inteiro, no mesmo quadro. Será
somente através de uma revisão direta da sociedade, para aceitar a intenção pós-es-
cassez, eliminando o interesse de preservar a escassez, que é comum hoje em dia,
que os verdadeiros progressos em abundância serão realizados. Esta conclusão não
está também tratando a vasta gama de outros problemas de eficiência em larga escala,
inerentes ao capitalismo de mercado, no que diz respeito à sustentabilidade cultural e
ambiental, que foram discutidas em profundidade em outros ensaios.

Como nota final, o debate sobre “desemprego tecnológico” provou ser uma reve-
lação poderosa, nesse embate das intenções percebidas, também. Apologistas do cap-

271
italismo têm se escondido atrás da ideia de que, enquanto a tecnologia substitui o tra-
balho humano, também o está criando. Embora isso possa ter sido verdade no passado,
mais lento, uma realidade altamente enviesada tornou-se cada vez mais aparente.750

Por um lado, os aumentos exponenciais que ocorrem hoje provaram estar superan-
do a adaptação educacional humana, em muito. Não há uma relação 1:1 entre a perda
de empregos para o processo de criação de empregos, que está ocorrendo no mundo
moderno. As perdas de emprego hoje e as possibilidades de perda de trabalho no
futuro são enormes, quando as aplicações de máquinas são revisadas de forma ob-
jetiva, tendo em conta as tendências exponenciais. O interessante é que este mesmo
processo de automação é uma grande parte da criação de abundância, mesmo que as
empresas, na lógica da busca do lucro, o estejam usando para economizar dinheiro. O
resultado é uma dicotomia complexa, com menos trabalhadores humanos e, portanto,
menos dinheiro disponível como poder de compra.

De todos os sintomas de falha do modelo capitalista, esse fenômeno do “desem-


prego tecnológico” pode ser o mais profundo, conforme ele revela, sem dúvida, uma
colisão de funções do sistema. O capitalismo pressupõe que a procura por trabalho
humano será quase constante e inteiramente abrangente. No entanto, se é mais barato
empregar máquinas para fazer papéis humanos, como é que vamos conseguir “din-
heiro para gastar” para os seres humanos que já foram retirados da força de trabalho,
devido a essas mesmas máquinas? Como podem as máquinas continuar a produzir
sem o “combustível” da circulação monetária?

No fim, o argumento de valor reduzido no contexto capitalista simplesmente não


funciona, pois supõe um ajuste do balanço direto entre custo reduzido do valor do
preço (poupança de dinheiro devido à mecanização para reduzir o preço final do bem)
para atender o poder de compra cada vez menor dos consumidores agora mal empre-
gados (aqueles cujos postos de trabalho foram eliminados devido à mecanização).

A única maneira que isso poderia funcionar é se a motivação do lucro, em si,


fosse removida, o que é praticamente impossível se quisermos ainda pensar dentro
do contexto de uma economia de mercado. A única razão das companhias empre-
garem a tecnologia para substituir o trabalho humano, para começar, é para poupar
dinheiro e aumentar a sua posição competitiva na economia global, em algum grau.
Esta intenção prejudica qualquer tipo de equilíbrio de distribuição entre poder de
compra e redução de custos.

272
Notas e Referências: Capítulo 13

[504] Fonte: Dois Sistemas Intelectuais: O da Matéria-Energia e o da Cul-


tura Monetária, M. King Hubbert, 1981

[505] “Ex Post Facto” é um termo latino que significa “feito, fabricado, ou
formulado após o fato”.

[506] “Proxy”, definido como “a agência, função ou mandato de um


deputado que atua como um substituto de alguém” (http://www.merri-
am-webster.com/dictionary/proxy), é usado neste contexto para descrever
a economia de mercado como um sistema que serve para auxiliar oper-
ações industriais e, em muitos aspectos, da sociedade, indiretamente.
Em outras palavras, o sistema de comércio, do lucro, da concorrência e
todos os demais atributos do mercado monetário são apenas mecanis-
mos que orientam o comportamento de uma certa maneira, sem dúvida,
míope, na ausência de qualquer tipo de perspectiva mais ampla do
sistema.

[507] Um exemplo clássico é o carro elétrico que existe desde o sécu-


lo 19, mostrando eficácia em grande escala, no século 21, através de
melhorias tecnológicas. No entanto, a mudança global do motor a gás,
poluente, para o motor elétrico, limpo, claramente foi sufocada pelas
indústrias estabelecidas, para preservação de lucros relacionados aos
fabricantes de automóveis e fornecedores de energia. Também é inter-
essante notar que o próprio fundamento da eficiência do mercado é o
mecanismo do lucro. Com este mecanismo “proxy”, as ações são tom-
adas apenas se forem “rentáveis”. Na vida real, podemos ver uma vasta
gama de ações necessárias para apoiar a integridade social e ambiental
que não têm relevância para a busca do lucro. Em outras palavras, se
dinheiro não pode ser produzido em um determinado ato, esse ato não é
considerado de valor, na visão do proxy.

[508] Um exemplo clássico, em grande escala, é a existência de pobre-


za. A fim de justificar a pobreza, fisicamente, deve haver uma deficiência
clara na capacidade do mundo natural para atender às necessidades
daqueles que vivem na pobreza. Se se verificar que há uma capacidade
de eliminar a pobreza como a conhecemos, significando suficiente co-
mida, abrigo, água e outros recursos e serviços, que podem, de fato, ser
disponibilizados, sem remover esses meios básicos de vida dos outros,
então a justificativa da pobreza deve encontrar outra fonte. No sistema
atual, essa justificativa é essencialmente teórica e determinada apenas
pelo mecanismo do próprio mercado, o que implica que, se uma pessoa
é incapaz de competir o suficiente para obter o seu próprio padrão de
vida viável, então ela não é, portanto, merecedora daquele padrão de
vida. Portanto, a razão da pobreza existir, como neste exemplo, é resulta-
do do sistema de mercado e sua estrutura, não da vida real, das reali-
dades físicas.

[509] A principal exceção a isso seria uma situação em que o projeto


do sistema assumido simplesmente não é compreendido corretamente

273
naquela época. Em outras palavras, se o objetivo ou a função de um
dado sistema não está totalmente percebido, então, naturalmente, o siste-
ma pode apenas ser concebido para esse nível de compreensão.

[510] A globalização é definida como: “o desenvolvimento de uma econo-


mia global cada vez mais integrada, marcada, especialmente, pelo livre
comércio, livre fluxo de capitais e o acesso aos mercados de trabalho
estrangeiros, mais baratos”. (http://www.merriam-webster.com/dictionary/
globalization)

[511] Referência: Globalização: Entre Equidade e Exploração (http://www.


pbs.org/wnet/wideangle/episodes/land-of-wandering-souls/globaliza-
tion-between-fairness-and-exploitation/3073/)

[512] Referência: Por que a globalização é intensiva em energia e causa


estragos nos preços do petróleo (http://www.csmonitor.com/Environment/
Energy-Voices/2013/0228/Why-globalization-is-energy-intensive-and-
wreaks-havoc-on-oil-prices)

[513] Este é um exemplo bastante subjetivo, de como, de preferência, um


projeto planejado deve ser completo o suficiente para levar em conta os
materiais físicos reais e suas características, decididas até a mais ínfima
parte relevante. Na verdade, isso só acontece até um certo grau, com
muitos componentes de um determinado produto incluídos, como um
meio para manter um produto “barato” e competitivo no mercado aberto.
Um exemplo seria os pneus de um carro. Enquanto uma especificação
geral de categoria de pneus pode ser sugerida, o uso de pneus “bara-
tos” poderia prevalecer devido a um interesse de limites de custos pelo
consumidor ou até mesmo pelo produtor.

[514] Um exemplo de multiplicidade é como uma dada produção de


produtos, hoje, ajusta a qualidade baseado em um alvo demográfico. Há
deliberadamente mercadorias de má qualidade continuamente projeta-
dos para aqueles com poder de compra limitado e bens que são mais
otimizados, que são mais duradouros e eficazes, destinados para aque-
les que podem pagar essa qualidade. Enquanto nativo à lógica inerente
do sistema de mercado e resultante estratificação de classe , este tipo
de resíduos são realmente desnecessários, se a sociedade tivesse a
intenção de compartilhar idéias do projeto em sua totalidade, buscando
a otimização da forma mais estratégica possível. Em uma EBRLN, este
seria o caso, com a remoção do mercado e, por conseguinte, do grande
desperdício produzido por este tipo de multiplicidade com base de-
mográfica.

[515] Ver capítulo Verdadeiros Fatores Econômicos para saber mais sobre
este assunto.

[516] Aqui está um exemplo: Fúria com manobra da Apple - plano para
tornar todos os acessórios do iPhone obsoletos, mudando o projeto de
soquete (http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2162867/Apple-
slammed-iPhone-5-charger-Rip-plan-make-ALL-accessories-obsolete.

274
html)

[517] Um exemplo histórico clássico desta propensão foi o que mais tarde
foi chamado de “Guerra das Correntes”. Em resumo, sabendo que sua
corrente contínua (DC), de distribuição de energia elétrica, era inferior ao
sistema emergente de corrente alternada (AC), apresentado por Nikola
Tesla, o inventor Thomas Edison se envolveu em uma ampla campanha
de desinformação para suprimir a popularidade da AC, visando preservar
a sua participação financeira na infra-estrutura DC existente. Edison foi
tão longe quanto ir ao Congresso dos Estados Unidos buscando proibir a
corrente alternada, juntamente com a matança de animais publicamente
por eletrocussão com AC.

[518] Embora a existência do governo tenha servido tanto como um regu-


lador de assuntos de negócios, bem como um conspirador ativo em tais
assuntos, dada a sua existência como um negócio em si, tem havido mui-
to poucas ações globais que uniram o sistema industrial . Um exemplo foi
o Protocolo de Montreal, que, talvez pela primeira vez na história, uniu o
mundo com um interesse básico em proteção ambiental (Esgotamento da
Camada de Ozônio ).

[519] O desenho industrial é tradicionalmente definido, como “é o uso tan-


to da arte como da ciência aplicada para melhorar a estética, ergonomia,
funcionalidade e / ou usabilidade de um produto”

[520] Esta questão será abordada no final deste capítulo. Sugestão de


leitura: Relatório Sugere que Quase Metade dos EmpregEUA são Vul-
neráveis a​​ Informatização (http://www.technologyreview.com/view/519241/
report-suggests-nearly-half-of-us-jobs-are-vulnerable-to-computerization/)

[521] Ver o mundo como uma associação de “sucesso” e de “status” com


a posse de bens materiais, como é comum hoje em dia, muitas vezes
polui considerações de reduções positivas de stress, possibilidades
de tempo livre, alívio de conflitos da automação de trabalho. Será que
alguém quer ter uma vida com liberdade da monotonia, estresse e fadiga,
ou quer ter vastas, excessivas posses de bens materiais? Esta questão
apresenta um conflito de sistemas de valores e o termo “adaptação” aqui
é para sugerir que as pessoas podem estar dispostas a reduzir a com-
plexidade da indústria, um pouco, tendo menos “desejos” materiais , em
favor de um estilo de vida mais “simples”. Isto não visa sugerir que tudo o
que temos hoje não poderia estar disponível em um EBRLN. Mas sim diz-
er que uma visão de mundo que é menos materialista poderia prevalecer,
para fazer essa transição para um tipo de economia automatizada mais
simples, para não mencionar que seria mais ecologicamente sustentável,
dado o desperdício hoje inerente.

[522] A ciência dos materiais é um campo interdisciplinar envolvendo as


propriedades da matéria e suas aplicações a várias áreas da ciência e
engenharia. (http://www.sciencedaily.com/articles/m/materials_science.
htm)

275
[523] Metalurgia definida: http://www.sciencedaily.com/articles/m/metal-
lurgy.htm

[524] Referência: Idade do Bronze: http://www.thefreedictionary.com/


Bronze+Age

[525] Fonte: “Novo Elemento 115 Ocupa um Lugar na Tabela Periódica”,


Time, 2013 (http://science.time.com/2013/08/28/new-element-115-takes-a-
seat- at-periódica-mesa-/)

[526] Em 1789, Antoine Lavoisier publicou uma lista de 33 elementos


químicos, agrupando-os em gases, metais, não-metais e terras. Em 1870,
o professor de química russo Dmitri Mendeleev produziu a primeira “tabe-
la periódica”, com cerca de duas vezes mais, com um novo elemento
sendo descoberto a cada ano, em média, a partir daí.

[527] Nanotecnologia definida: a ciência da manipulação de materiais em


escala atômica ou molecular.

[528] Referência: Michio Kaku: Pode a Nanotecnologia Criar a Utopia?


(http://betanews.com/2012/11/08/star-trek-replicator-is-closer-to-reality-
than-you-think/)

[529] “Materiais Inteligentes”, como um termo, é bastante novo e am-


bíguo. Uma definição comum seria: “Materiais que podem alterar sig-
nificativamente as suas propriedades mecânicas (tais como a forma, a
rigidez e a viscosidade), ou as suas propriedades térmicas, ópticas, ou
eletromagnéticos, de uma forma previsível ou controlável, em resposta ao
seu ambiente. Materiais que executam funções de detecção e atuação,
incluindo piezoelétricos, eletro-restritores, magneto-restritores e ligas com
memória de forma. “ No entanto, um material “inteligente” não é neces-
sariamente um produto de nanotecnologia, ainda que a nanotecnologia
possa ser comum como meio de produção.

[530] “Metamateriais” são definidos geralmente como “materiais com-


postos exóticos que exibem propriedades além daquelas disponíveis em
materiais naturais. Em vez de materiais com construção ao nível químico,
tal como é feito habitualmente, estes são construídos com dois ou mais
materiais ao nível macroscópico. “ Uma das suas características definido-
ras é que os resultados de resposta eletromagnética, ao combinar dois
ou mais materiais distintos, de uma maneira específica que estende a
gama de padrões electromagnéticos, devido ao fato de que eles não são
encontrados na natureza.

[531] Na verdade, essa ideia foi de fato proposta, mas foi aplicada muito
raramente, até agora. “Na Academia: Energia Limpa a partir do Poder
dos Músculos”, Time, de 2010 (http://content.time.com/time/business/arti-
cle/0,8599,2032281,00.html)

[532] Biomimética (de bios, significando vida e mimetismo, ou seja, para


imitar) é uma disciplina de projeto que busca soluções sustentáveis ​​

276
emulando padrões e estratégias da natureza, testados pelo tempo, por
exemplo, uma célula solar inspirada por uma folha. (http://biomimicry.org/
what-is-biomimicry/)

[533] Duas amplas tendências dignas de nota seriam a ecológica e a


social. Em relação a ecológica, constatou-se que a maioria, se não todos
os sistemas de apoio, importantes para a vida, estão atualmente em
declínio. Ref: Dados Mostram Todos os Sistemas da Terra em Rápido
Declínio (http://www.ipsnews.net/2011/07/data-shows-all-of-earths-sys-
tems-in-rapid-decline/ ). Sobre as tendências sociais - um observação
estatística notável é o aparente aumento geral na desestabilização social
ou de “levantes” que vêm ocorrendo nos últimos 30 anos. Um programa
de rastreamento de novos relatos chamado (GDELT), mostra um aumento
surpreendente em tais eventos. Ref: Mapa Mostra Protestos em Todo o
Mundo Aumentando, com Detenções (http://theglobalobservatory.org/
analysis/576-mapping-some-of-the-worlds-unrest-.html)

[534] Fonte: UN Eleva “Baixa” Projeção Populacional para 2050 (http://


www.worldwatch.org/node/6038)

[535] Referência: Tendências de Rendimentos são Insuficientes para


Dobrar a Produção Global das Colheitas, em 2050 (http://www.washing-
tonpost.com/blogs/wonkblog/wp/2013/07/01/this-unsettling-chart-shows-
were-not-growing-enough-food-to-feed-the-world/)

[536] Referência: A Crise Mundial da Água que está Chegando (http://


www.theatlantic.com/international/archive/2012/05/the-coming-global-wa-
ter-crisis/256896/)

[537] A economia de hidrocarbonetos e seu grau de escassez tem sido


um assunto controverso por muitas décadas. O debate sobre o estado
atual da oferta, a nível mundial, tem vasta desacordo. “Peak Oil”, que tem
sido o contexto categórico deste debate, se estende por muitas déca-
das, com a principal conclusão sendo que esta forma de energia é finita.
Esgotamento Regional, como o pico nos Estados Unidos, na década de
1970, no que diz respeito aos campos de petróleo convencionais, fornece
evidências axiomática de que outras regiões e, portanto, o próprio mundo
acabará por atingir o pico, com muitos analistas vendo isso ocorrer em
um futuro muito próximo. Isso, juntamente com o crescimento da pop-
ulação e aumento da demanda, agrava o problema, se for exato. Ref:
(http://www.independent.co.uk/news/science/world-oil-supplies-are-set-
to-run-out-faster-than-expected-warn-scientists-6262621.html)

[538] O termo “pós-escassez” denota um estado que elimina a escassez


de acesso de um determinado recurso ou processo, geralmente por meio
de uma eficiência otimizada em relação ao design de produção e uso
estratégico. Escusado será dizer que a ideia de alcançar a pós-escassez
global - ou seja, uma quantidade infinita, abundante, de tudo para todos
- é legitimamente considerada uma impossibilidade, mesmo nas visões
mais otimistas. Portanto, este termo, como usado aqui, realmente destaca
um ponto de foco.

277
[539] A economia monetária está enraizada em ver o mundo a partir do
ponto de vista da escassez ou das ineficiências. Baseia-se em torno de
gerenciamento de escassez através de um sistema de preços e valores
relacionados. Quanto mais um item é escasso, mais é valorizado.

[540] A seguinte citação do historiador Jerry Z. Muller trata esta realidade


bem: “A desigualdade está realmente aumentando em quase todo o
mundo capitalista pós-industrial. Mas apesar do que muitos de esquerda
pensam, este não é o resultado da política, nem é provável que a política
possa revertê-la, já que o problema é mais profundamente enraizado e
intratável do que geralmente é reconhecido. A desigualdade é um pro-
duto inevitável da atividade capitalista, e expandir a igualdade de opor-
tunidades só a aumenta - porque alguns indivíduos e comunidades são
simplesmente mais capazes do que outros em explorar as oportunidades
para o desenvolvimento e progresso que o capitalismo oferece” (http://
www.foreignaffairs.com/articles/138844/jerry-z-muller/capitalism-and-in-
equality)

[541] Tanto a privação relativa como a absoluta, ou seja, pobreza abjeta e


situação socioeconômica familiar relativa, mostram uma forte correlação
histórica com a desestabilização social e protesto. “Occupy Wall St “, que
desencadeou um movimento de protesto global em 2011, foi baseado,
mais especificamente, em torno da desigualdade de renda. Seu slogan
mais notável: “Nós somos os 99%”, denotada as enormes diferenças de
riqueza entre os 99% da população e os 1%, juntamente com o inerente
abuso de poder, devido a esse desequilíbrio.

[542] A capacidade de transporte definida: http://dictionary.reference.


com/browse/carrying+capacity

[543] Fonte: Monitoramento Populacional Mundial 2001, das Nações Uni-


das (http://www.un.org/esa/population/publications/wpm/wpm2001.pdf)

[544] Ver capítulo Introdução ao Pensamento Sustentável, seção “Efemer-


alização”

[545] Atualmente, um grande medo persiste: que cercear ou a tentativa


de controlar a população em padrões reprodutivos mais estáveis é,​​ per
se, uma imposição necessariamente violenta. As gerações futuras vão
entender, como resultado do acesso a mais informações sobre a capaci-
dade de suporte do planeta, que a não controlada “liberdade” de repro-
dução é, em muitos aspectos, em si um ato violento contra os filhos que
ainda não nasceram, e a própria raça humana, quando o fornecimento de
recursos e a integridade ambiental não são considerados no processo.

[546] Fonte: Globalmente, quase 870 milhões cronicamente subnutri-


dos - novo relatório da fome, FAO (http://www.fao.org/news/story/en/
item/161819/ )

[547] Fonte: Reduzindo pobreza e fome ..., FAO (http://www.fao.org/do-

278
crep/003/y6265e/y6265e03.htm)

[548] Fonte: Quantas Calorias Eu Devo Comer ?, MNT (http://www.medi-


calnewstoday.com/articles/245588.php

[549] Fonte: Alimentando os 9 bilhões: A tragédia dos desperdícios, IME,


(http://www.imeche.org/knowledge/themes/environment/global-food)
[550] Fonte: Autor: o desperdício de alimentos europeu contribui para a
fome no mundo, dw.de (http://www.dw.de/author-european-food-waste-
adds-to-world-hunger/a-15837215)

[551] Referência: Os desperdícios alimentares dentro de cadeias de


abastecimento alimentar: quantificação e potencial para a mudança 2050
(http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2935112/)

[552] Solo superficial é a camada superior de solo que possui a maior


concentração de matéria orgânica e de microrganismos e é a partir da
qual as plantas obtêm a esmagadora maioria dos seus nutrientes. Hoje,
ele está desaparecendo em um ritmo alarmante, principalmente devido a
práticas agrícolas convencionais, como a monocultura (a prática de plan-
tio de uma única planta, seguidas vezes). Da mesma forma, a erosão do
solo está aumentando rapidamente, com um grande número de efeitos
problemáticos devido às práticas agrícolas ineficientes. Referência:
(http://www.ewg.org/losingground/)

[553] Ref: http://newearthdaily.com/floating-vertical-farms-could-feed-the-


world-with-cheap-plentiful-produce/

[554] Dickson Despommier, um professor de ciências da saúde ambien-


tal e microbiologia, na Universidade de Columbia, tornou notável a ideia
de agricultura vertical, em torno de 1999.

[555] Definido: “O cultivo de plantas em solução nutritiva, em vez de no


solo” (http://www.thefreedictionary.com/hydroponics)

[556] Definido: Uma técnica para o cultivo de plantas sem solo ou meio
hidropônico. As plantas são mantidas acima de um sistema que constan-
temente nebuliza as raízes com água carregada de nutrientes. Também
chamada aerocultura. (http://www.thefreedictionary.com/aeroponic)

[557] Definido: Aquicultura é o cultivo simbiótico de plantas e animais


aquáticos em um sistema de re-circulação. (http://www.growingpower.
org/education/what-we-grow/aquaponics/)

[558] Fonte: O que é a agricultura vertical ?, Jake Cox, 2009, (http://www.


onearth.org/blog/what-is-vertical-farming)

[559] Referência: Lixo vira Energia, alternative-energy-news.info (http://


www.alternative-energy-news.info/technology/garbage-energy/)

[560] Fonte: Tudo Sobre: Alimentação e combustíveis fósseis, cnn.com

279
(http://edition.cnn.com/2008/WORLD/asiapcf/03/16/eco.food.miles/)

[561] Fonte: Alimentando 9 Bilhões: Pecuária Vertical - Cingapura (http://


www.offgridworld.com/feeding-9-billion-vertical-farming-singapore-video/)

[562] Fonte: ‘Mega’ Fazenda Vertical Indoor: Subúrbio de Chicago é o


Novo Lar para a |Maior dessas Usinas, da Nação (http://www.huffington-
post.com/2013/03/28/mega-indoor-vertical-farm_n_2971328.html)

[563] A aquaponia é um sistema de produção de alimentos que com-


bina aquicultura convencional (criação de animais aquáticos, tais como
caracóis, peixes, lagostas e camarões em tanques), com hidroponia
(cultivo de plantas em água), em um ambiente simbiótico.
[564] Fonte: maior fazenda vertical do mundo é certificada como
orgânica (http://www.forumforthefuture.org/greenfutures/articles/
world%E2%80%99s-largest-vertical-farm-certified-organic)

[565] É interessante notar que todas as principais necessidades nutri-


cionais são tecnicamente disponíveis no gênero de produção vegetal.
Ao contrário da crença popular, produtos de origem animal não são
necessários para manter uma dieta humana de alta qualidade. As seis
principais classes de nutrientes (carboidratos, gorduras, fibras, minerais,
proteínas, vitaminas), omitindo a água, podem ser encontradas na comu-
nidade vegetal. (Este não é um argumento a favor do “vegetarianismo”, é
apenas um fato.)

[566] Fonte: Fazendas Verticais: Da Visão à Realidade (http://blogs.ei.co-


lumbia.edu/2011/10/13/vertical-farms-from-vision-to-reality/)

[567] Fonte: Campo, a Versão da Cidade: Fazendas ‘no Céu’ Ganham


Novo interesse (http://www.nytimes.com/2008/07/15/science/15farm.
html?r=0

[568] Em geral, em NYC a extensão média de um bloco norte-sul é de


1/20 de uma milha, ou 264 pés. Um bloco de leste-oeste é de cerca de
1/5 de uma milha, ou 1.056 pés. Assim, um bloco ao quadrado seria 264
x 1056 = 278.784 metros quadrados, o que equivale a 6,4 acres.

[569] Fonte: United States Census Bureau, 2013 (http://www.census.gov/)

[570] A cidade de Los Angeles tem 498,3 quilômetros quadrados que se


converte em 318.912 hectares.

[571] 78 edifícios, ocupando 6,4 hectares cada um, é igual a 499,2 hect-
ares utilizados totais. 499,2 hectares é 0,15% da área total de Los Ange-
les (318912)

[572] Fonte: worldometers.info (http://www.worldometers.info/world-popu-


lation/)

[573] 7,2 bilhões (população total) dividido por 50.000 (capacidade de

280
produção de uma fazenda vertical de 30 andares) é igual a 144.000
estruturas necessárias.

[574] 6.4 (acres utilizados por fazenda) vezes 144.000 (fazendas verticais)
= 921.600 acres

[575] Fonte: Pecuária Utiliza Quase Metade dos Solos da Ter-


ra, Novos Mapas Mostram (http://news.nationalgeographic.com/
news/2005/12/1209_051209_crops_map.html)

[576] 921.600 (acres de terra necessário para colocar as fazendas vertic-


ais) é 0,006581% do 13.981.811.200. (Total de hectares de terra utilizados
para a agricultura tradicional, tanto para vegetais como para animais)

[577] Fonte: Pecuária Utiliza Quase Metade dos Solos da Ter-


ra, Novos Mapas Mostram (http://news.nationalgeographic.com/
news/2005/12/1209_051209_crops_map.html)

[578] 6.4 acres (que é o que foi determinado como espaço suficiente
para alimentar 50.000 pessoas) comparado com 4.408.320.000 (to-
tal de terras usadas atualmente, apenas para cultivo em terra), temos
688.800.000 vezes. 688,8 milhões, o que representa o número de
possíveis instalações, onde cada uma pode produzir alimentos suficien-
tes para alimentar 50 mil pessoas. Corresponde a uma capacidade de
34.440.000.000.000 pessoas que podem ser alimentadas. (688800000 x
50.000 = 34.440.000.000.000)

[579] Fonte: Pecuária e alterações climáticas (http://cgspace.cgiar.org/


bitstream/handle/10568/10601/IssueBrief3.pdf)

[580] Fonte: Pecuária: uma grande ameaça ao meio ambiente (http://


www.fao.org/newsroom/en/News/2006/1000448/index.html)

[581] Fonte: Estoque de Grandes Peixes caem 90 por cen-


to desde 1950, diz estudo (http://news.nationalgeographic.com/
news/2003/05/0515_030515_fishdecline.html)

[582] Fonte: primeiro hambúrguer cultivado em laboratório do mundo


é comido em Londres (http://www.bbc.co.uk/news/science-environ-
ment-23576143)

[583] Água doce é definida como água que não contém sal e pode ser
utilizada para consumo humano e em outros processos, tais como agri-
cultura. (http://www.merriam-webster.com/dictionary/freshwater)

[584] Fonte: Saúde através da água potável e do saneamento básico


(http://www.who.int/water_sanitation_health/mdg1/en/)

[585] Fonte: Crise da Água Doce (http://environment.nationalgeographic.


com/environment/freshwater/freshwater-crisis/)

281
[586] Fonte: Água: Use Menos-Poupe Mais, Jon Clift & Amanda Cuthbert
de 2007

[587] Fonte: Compliance and Enforcement National Priority: Clean Wa-


ter Act, Wet Weather, Combined Sewer Overflows (http://www.epa.gov/
compliance/resources/publications/data/planning/priorities/fy2008priority-
cwacso.pdf)

[588] Fonte: Qualidade da Água: Uma Crise Global Ignorada (http://www.


businessweek.com/articles/2013-03-21/water-quality-an-ignored-glob-
al-crisis )

[589] Fonte: Ashok Gadgil para água potável (http://www.renegademedia.


info/books/ashok-gadgil.html)

[590] Fonte: Desinfecção Ultravioleta (http://www.nesc.wvu.edu/pdf/dw/


publications/ontap/2009_tb/ultraviolet_dwfsom53.pdf)

[591] Fonte: Estratégia de Desinfecção Multi-barreira - New York City (Es-


tudo de Caso) (http://www.trojanuv.com/uvresources?resource=403)

[592] Fonte: http://www.waterfootprint.org/

[593] Fonte: Ibid.

[594] Fonte: Quais Nações Consomem Mais Água? (http://www.scientifi-


camerican.com/article.cfm?id=water-in-water-out)

[595] Fonte: worldometers.info (http://www.worldometers.info/water/)

[596] 9 trilhões 972.000 milhões dividido por 3 bilhões

[597] Fonte: Unidade de Desinfecção Ultravioleta de Água Catskill-Dela-


ware (http://en.wikipedia.org/wiki/Catskill-Delaware_Water_Ultraviolet_Dis-
infection_Facility)
[598] Fonte: A Rede Mundial de Bases Militares dos EUA (http://www.
globalresearch.ca/the-worldwide-network-of-us-military-bases/5564)

[599] Fonte: Dessalinização Visão Geral (http://www.idadesal.org/desali-


nation-101/desalination-overview/)

[600] Fonte: Ibid.

[601] Fonte: Eletrodos de fluxos podem permitir dessalinização da água


do mar em grande escala (http://www.rsc.org/chemistryworld/2013/03/
sea-water-desalination-capacitive-deionisation)

[602] Fonte: Avanços em Dessalinização (http://www.weat.org/sanantonio/


files/06%20-%20Summer%20Seminar%202013%20-%20Jim%20Lozi-
er%20-%20Adv%20in%20Desal.pdf)

282
[603] Fonte: Planta de Dessalinização Victorian (http://en.wikipedia.org/
wiki/Victorian_Desalination_Plant)

[604] Fonte: Planta de Dessalinização Wonthaggi (http://www.onlymel-


bourne.com.au/melbournedetails.php?id=31996#.UljSCWRDp94)

[605] 9 trilhões, 972 milhões dividido por 150 milhões

[606] Fonte: O Paradoxo do Litoral (http://grokearth.blogspot.


com/2012/04/coastline-paradox.html)

[607] Fonte: A população mundial (http://en.wikipedia.org/wiki/World_pop-


ulation)

[608] Fonte: water.org (http://water.org/water-crisis/water-facts/water/)

[609] Além disso, é importante notar que plantas flutuantes, fora da cos-
ta, também são tecnicamente possíveis. (http://www.bmtdesigntechnolo-
gy.com.au/design-solutions/floating-desalination-plant/)

[610] Uma tecnologia avançada chamada “Slingshot”, inventado por


Dean Kamen, é um sistema de purificação de água em pequena escala
que pode produzir água potável a partir de praticamente qualquer fonte,
incluindo água do mar, por meio de destilação por compressão a vapor.
Ela não requer filtros e pode até mesmo operar utilizando esterco de vaca
como combustível.

[611] Fonte: Tipos de Energia Renovável (http://www.renewableenergy-


world.com/rea/tech/home)

[612] Fonte: Poluição nuclear marítima de Fukushima “foi a pior do mun-


do” (http://phys.org/news/2011-10-fukushima-nuke-pollution-sea-world.
html)

[613] Fonte: Energia Renovável (http://www.energyzone.net/aboutenergy/


renewableenergy.asp)

[614] Fonte: Energia - Os Fatos (http://web.worldbank.org/WBSITE/


EXTERNAL/TOPICS/EXTENERGY2/0,,contentMDK:22855502~pageP-
K:210058~piPK:210062~theSitePK:4114200,00.html)

[615] A energia geotérmica, neste contexto, não deve ser confundida com
processos de aquecimento / arrefecimento geotérmicos, de pequena es-
cala, que utilizam o calor de poucos metros abaixo da superfície (ou seja,
bombas de calor geotérmicas).

[616] Fonte: Energias Geotérmicas - Fatos (http://geothermal.marin.org/


pwrheat.html#Q1)

[617] Fonte: Vídeo - De Volta ao Básico: O que é Energia Geotérmica?


(http://www.renewableenergyworld.com/rea/video/view/back-to-basics-

283
video-what-is-geothermal-energy-anyway)

[618] Fonte: Futuro da Energia Geotérmica (http://www.slb.com/~/media/


Files/geothermal/tech_papers/sanyal_future_of_geothermal_energy-2010.
pdf)

[619] Fonte: projetos da EIA de consumo mundial de energia vão aumen-


tar 56% até 2040 (http://www.eia.gov/todayinenergy/detail.cfm?id=12251)

[620] Fonte: Ibid.

[621] Fonte: Energia Geotérmica Poderia Fornecer Toda a Energia que


o Mundo Necessitará, Para Sempre (http://www.renewableenergyworld.
com/rea/news/article/2010/09/geothermal-energy-is-the-solution-for-the-
future)

[622] Fonte: FAQs Energias Geotérmicas [N.T.: FAQs = Questões Fre-


quentemente Perguntadas] (http://www1.eere.energy.gov/geothermal/
faqs.html)

[623] Fonte: Energia Geotérmica - Emissões de pouca preocupação


(http://thinkgeoenergy.com/archives/1733)

[624] Fonte: Como Pode Perfuração Geotérmica Provocar Terremotos?


(http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=geothermal-drill-
ing-earthquakes&page=2)

[625] Fonte: Primeiro relatório de mapeamento geotérmico - financiado


por Google.Org - confirma vastas fontes de energia limpa, de costa a
costa (http://www.smu.edu/News/2011/geothermal-24oct2011)

[626] Fonte: Placas Tectônicas (http://science.nationalgeographic.com/


science/earth/the-dynamic-earth/plate-tectonics-article/)

[627] Fonte: Primeiro relatório de mapeamento geotérmico - financiado


por Google.Org - confirma vastas fontes de energia limpa, de costa a
costa (http://www.smu.edu/News/2011/geothermal-24oct2011)

[628] Fonte: geni.org (http://www.geni.org/globalenergy/library/renew-


able-energy-resources/geothermal.shtml)

[629] Fonte: geo-energy.org (http://geo-energy.org/geo_introduction.aspx)

[630] 3.626 m2 / 404 m2 = 8.975 metros quadrados

[631] É interessante notar que a energia geotérmica, e, de fato, todas as


outras energias renováveis ​​abordadas neste texto, inerentemente combi-
nam extração ou aproveitamento local com a transformação e distribuição
de energia na localização. Todas as fontes de hidrocarbonetos, por outro
lado, exigem tanto a extração (por exemplo, minas de carvão) como
instalações de processamento / produção de energia (ou seja, refinarias

284
/ plantas de energia), quase sempre em locais separados. De acordo
com o atual exemplo, a terra de mineração necessária para a extração de
carvão é omitida da equação. Em suma, as energias renováveis ocupam
​​
substancialmente menos terra e tem um impacto ambiental excepcional-
mente inferior a este respeito.

[632] Fonte: O Relatório de Captura de Carbono (http://www.dailyethiopia.


com/index.php?aid=1498)

[633] 8760 (horas em um ano) x 1000 (MWh) = 8.760.000 MWh / ano.

[634] 0,55 zettajoules é convertido para cerca de 153 mil milhões MWh

[635] 153 mil milhões MWh (uso global total) / 8.760.000 MWh (capaci-
dade da usina geotérmica) = 17.465 usinas geotérmicas.

[636] Fonte: worldcoal.org (http://www.worldcoal.org/resources/frequent-


ly-asked-questions/)

[637] 17.465 / 9 = 1940,5

[638] Fonte: worldcoal.org (http://www.worldcoal.org/coal/uses-of-coal/


coal-electricity/)

[639] Fonte: “U.S. National Renewable Energy Laboratory”. [N.T.: Labo-


ratório Nacional de Energias Renováveis dos EUA] 06 de Fevereiro de
2007

[640] Fonte: Avaliação da energia eólica global (http://www.stanford.edu/


group/efmh/winds/globalwinds.html)

[641] Fonte: A Terra Tem Suficiente Potencial de Energia Eólica Para Ali-
mentar Todos Da Civilização (http://www.businessinsider.com/the-earth-
has-enough-wind-energy-potential-to-power-all-of-civilization-2012-9)

[642] 8.760 (horas em um ano) x 1.320 (MW) = 11.563.200 MWh / ano.

[643] 13.231 x 9.000 acres = 119.079.000

[644] 119.079.000 hectares é 0,32% de 36.794.240.000 hectares (total de


solos na Terra)

[645] Fonte: Avaliação Recursos Energéticos da Energia Eólica offshore


[N.T.: no mar, não no litoral] para os Estados Unidos (http://www.nrel.gov/
docs/fy10osti/45889.pdf)

[646] Fonte: Energia nos Estados Unidos (http://en.wikipedia.org/wiki/En-


ergy_in_the_United_States)

[647] Fonte: A Terra Tem Suficiente Potencial de Energia Eólica Para Ali-
mentar Todos Da Civilização (http://www.businessinsider.com/the-earth-

285
has-enough-wind-energy-potential-to-power-all-of-civilization-2012-9)

[648] Fonte: thefreedictionary.com (http://encyclopedia2.thefreedictionary.


com/solar+energy)

[649] Fonte: Maior usina de energia solar do mundo inflama-se pela pri-
meira vez (http://reneweconomy.com.au/2013/worlds-biggest-solar-ther-
mal-power-plant-fires-first-time-89135)

[650] Fonte: Sistema Solar de Geração Elétrica Ivanpah (http://www.nrel.


gov/csp/solarpaces/projectdetail.cfm/projectID=62)
[651] 153 bilhões MWh / 1,079,232MWh = 141.767 plantas @ 3.500
acres = 496.184.500 hectares. 496.184.500 hectares é 1,43% de
36.794.240.000 (terra total)

[652] Referência: Alguma Coisa Está Impedindo uma Implantação Ver-


dadeiramente Maciça de Energia Solar no Deserto? (http://www.scientifi-
camerican.com/article.cfm?id=challenges-for-desert-solar-power)

[653] Fonte: Usina Solar gera energia por seis horas depois do sol se por
(http://www.kcet.org/news/rewire/solar/concentrating-solar/solar-plant-gen-
erates-power-for-six-hours-after-sunset.html)

[654] Fonte: Use e Capacidade de Aumentos Globais de Hidrelétricas


(http://www.worldwatch.org/node/9527)

[655] Fonte: As correntes oceânicas podem alimentar o mundo [de


energia], dizem cientistas (http://www.telegraph.co.uk/earth/energy/renew-
ableenergy/3535012/Ocean-currents-can-power-the-world-say-scientists.
html)

[656] De acordo com Michael Bernitsas, professor da Universidade de


Michigan, Departamento de Arquitetura Naval e Engenharia Marinha: “...
se pudéssemos aproveitar 0,1 por cento da energia do oceano, podería-
mos atender as necessidades energéticas de 15 bilhões de pessoas . “
[http://www.alternative-energy-news.info/renewable-energy-from-slow-wa-
ter-currents/]

[657] Fonte: Nossas Tecnologias Atuais (http://voith.com/en/VoithOcean-


CurrentTechnologies(1).pdf)

[658] Fonte: Avaliação do Potencial Global de Energia das Ondas (http://


www.oceanor.no/related/59149/paperOMAW201020473final.pdf)

[659] Fonte: Fazenda de Ondas (http://en.wikipedia.org/wiki/Wave_farm)

[660] Fonte: Energia Tidal [N.T.: relativo a maré] (http://ei.lehigh.edu/learn-


ers/energy/tidal2.html)

[661] Fonte: lunarenergy.co.uk (http://www.lunarenergy.co.uk/factsFigures.


htm)

286
[662] Fonte: Energia do Oceano: Perspectivas e Potencial, Isaacs &
Schmitt, com 15% de fator de utilização e fator de capacidade de 50%.
[http://www.crpm.org/pub/agenda/1384nathalierousseau.pdf

[663] Fontes Renováveis ​​de Energia e Mitigação das Mudanças Climáti-


cas, Ottmar Edenhofer, 2012, pp505-506

[664] Fonte: Energia do Oceano: Publicação de Posição, por IPCC (http://


ec.europa.eu/research/energy/pdf/gp/gpevents/wrec/wrec2008ocean-hy-
droallaweinsteinen.pdf)

[665] Fonte: As correntes oceânicas podem alimentar o mundo [de


energia], dizem cientistas (http://www.telegraph.co.uk/earth/energy/renew-
ableenergy/3535012/Ocean-currents-can-power-the-world-say-scientists.
html)

[666] Fonte: ‘Fish Tecnologia’ Projeta Energia Renovável a partir das Cor-
rentes de Água Lenta (http://michigantoday.umich.edu/a7334/)

[667] Fonte: As correntes oceânicas podem alimentar o mundo [de


energia], dizem cientistas (http://www.telegraph.co.uk/earth/energy/renew-
ableenergy/3535012/Ocean-currents-can-power-the-world-say-scientists.
html)

[668] Fonte: Gulf Stream [N.T.: Corrente do Golfo] (http://en.wikipedia.org/


wiki/Gulf_Stream)

[669] Fonte: Avaliação Teórica do Potencial de Energia de Corrente


Oceânica para o Sistema da Corrente do Golfo (http://www.researchgate.
net/publication/256495742_Theoretical_Assessment_of_Ocean_Current_
Energy_Potential_for_the_Gulf_Stream_System)

[670] (8.760 horas por ano) x 13.000 MW = 113 milhões e 880 mil MWhs /
ano

[671] Fonte: Energia nos Estados Unidos (http://en.wikipedia.org/wiki/En-


ergy_in_the_United_States#Consumption)

[672] 4,1 bilhões / 133,880 milhões

[673] Fonte: Energia Osmótica (http://www.sffe.no/?p=2446)

[674] Fonte: Primeira usina de osmose entra em operação, na Noruega


(http://www.newscientist.com/article/dn18204-first-osmosis-power-plant-
goes-on-stream-in-norway.html#.UmCJ-WRDp94)

[675] Fonte: Osmotic Power Play: Equipes de Recuperação de Ener-


gia com GS Engineering & Construction Corp para desenvolver fontes
altamente disponíveis de energia renovável (http://www.marketwatch.
com/story/osmotic-power-play-energy-recovery-teams-with-gs-engi-

287
neering-construction-corp-to-develop-highly-available-renewable-ener-
gy-source-2013-10-15?reflink=MWnewsstmp)

[676] Fontes Renováveis ​​de Energia e Mitigação das Mudanças Climáti-


cas, Ottmar Edenhofer, 2012, P507

[677] Fonte: Energia Térmica Oceânica vai estrear fora da costa de China
(http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=ocean-thermal-power-
will-debut-off-chinas-coast)

[678] Projeto OTEC, de 100 MW, previsto para Oahu Oeste:

[678] Fonte (http://www.bizjournals.com/pacific/print-edi-


tion/2012/10/05/100-mw-otec-project-planned-for-west.html?page=all)

[679] Fonte: Conversão de Energia Térmica do Oceano Poderia


Abastecer Toda a Ilha Grande do Havaí (http://www.huffingtonpost.
com/2013/09/16/ocean-thermal-energy-conversion-hawaii_n_3937367.
html)

[680] Fonte: Informações Esseciais sobre Energias Renováveis: Hidrelétri-


cas (http://www.iea.org/publications/freepublications/publication/Hydro-
powerEssentials.pdf)

[681] Fonte: eia.gov (http://www.eia.gov/tools/faqs/faq.cfm?id=97&t=3)

[682] Fonte: Número Total de Domicílios dos EUA (http://www.statistic-


brain.com/us-household-statistics/)

[683] Fonte: Lista de países, por consumo de eletricidade (http://en.wiki-


pedia.org/wiki/List_of_countries_by_electricity_consumption)
[684] Enquanto o estado atual de eficiência solar do CPV, em 2013, é de
44,7% [http://www.soitec.com/en/news/press-releases/world-record-solar-
cell-1373/ ], com produtos disponíveis aos consumidores com média de
apenas cerca de 18% [http://sroeco.com/solar/most-efficient-solar-pan-
els], métodos mais avançados estão sugerindo eficiência de 80%. [ http://
www.extremetech.com/extreme/168811-new-nano-material-could-boost-
solar-panel-efficiency-as-high-as-80 ] Da mesma forma, o armazenamen-
to em bateria, para uso doméstico, tem avançando via emergentes super
capacitores de graphene [http://www.gizmag.com/graphene-based-su-
percapacitor/28579/ que podem ser carregadas mais rápido, duram
muitas vezes mais do que as baterias convencionais, são menos poluente
e ocupam menos espaço.
[N.T.: CPV - Concentrated photovoltaics: Ao contrário dos sistemas foto-
voltaicos convencionais, ele usa lentes e espelhos curvos para concen-
trar a luz solar em pequenas, mas altamente eficientes, células solares
multi-junção (MJ) ] Outra tecnologia de bateria que está avançando é
denominada LMB, desenvolvida por Donald Sadoway e MIT.

[685] Vale ressaltar mais uma vez que todos os estabelecimentos


comerciais perpetuam-se principalmente pelos mercados que criaram

288
anteriormente. Uma nova invenção que possa interferir na infra-estrutura
existente, geradora de lucro, de uma determinada empresa. está frequen-
temente sujeita a influências que retardam ou mesmo suprimem essa tec-
nologia que possa interferir no lucro. Enquanto muitos vêem este tipo de
comportamento como uma forma de “corrupção”, a verdade da questão
é que o próprio mecanismo de lançar um dado produto no mercado está
sujeito a limitações financeiras impostas, que atingem o mesmo objeti-
vo. Por exemplo, se o novo produto não pode ser considerado rentável,
durante o curso de seu desenvolvimento, independentemente do seu
verdadeiro mérito, ele será abandonado. O ritmo extremamente lento
[de desenvolvimento] das energias renováveis, no​​ seu conjunto, embora
o princípio da maioria das fontes tem sido conhecido por centenas de
anos, é um resultado direto de investimento monetário, ou da falta dele, e
quanto mais eficiente a tecnologia, menos lucro pode ser realizado com
ela, no longo prazo.

[686] Fonte: Guia de Custos de Sistemas Off-Grid [N.T.; Fora da Rede,


autônomos] (http://www.wholesalesolar.com/StartHere/OFFGRIDBallpark-
Cost.html)

[687] Exemplo: Economizando energia no Oeste de Michigan com Turbi-


nas de Vento Honeywell (http://www.freepowerwindturbines.com/honey-
well_wind_turbine.html)

[688] Referência: Bombas de Calor Geotérmicas (http://energy.gov/ener-


gysaver/articles/geothermal-heat-pumps)

[689] A abordagem de design chamada “solar passiva” é um bom exem-


plo de projeto. [http://en.wikipedia.org/wiki/Passive_solar_building_design

[690] Referência: thefreedictionary.com (http://www.thefreedictionary.com/


piezoelectric)

[691] Referência: Pisos Geradores de Energia para Alimentar Metrôs


de Tóquio (http://inhabitat.com/tokyo-subway-stations-get-piezoelec-
tric-floors/)

[692] Referência: Seis Passeios que Trabalham Enquanto Você Caminha


(http://www.treehugger.com/clean-technology/six-sidewalks-that-work-
while-you-walk.html)

[693] Referência: Rodovia de Israel Equipada com Sistema Gerador


Piezoelétrico Piloto (http://www.greenoptimistic.com/2009/10/06/isra-
el-piezoelectric-highway/#.UmHNTmRDp94)

[694] Referência: Novas Ferrovias Piezoelétricas Coletar a Energia Gera-


da por Trens que Passam ()

[695] Referência: “Geradores” Piezoelétricos Sob Rodovias Poderiam For-


necer Energia para Impulsionar Carros Elétricos (http://www.greenproph-
et.com/2010/09/piezoelectric-generators-electric-cars/)

289
[696] Referência: Coletores de energia cinética piezoelétrica para celu-
lares (http://www.energyharvestingjournal.com/articles/piezoelectric-kinet-
ic-energy-harvester-for-mobile-phones-00002142.asp?sessionid=1)

[697] Referência: Laura Ipsen da Cisco: Sucesso de rede inteligente re-


quer infotecnologia, tecnologia esperta de energia (http://www.smartplan-
et.com/blog/science-scope/charge-your-phone-by-typing-on-it/8797 )

[698] Referência: Captação de energia a partir do fluxo de ar do veículo


usando piezoelectricidade (http://www.gizmag.com/harnessing-vehi-
cle-air-flow-energy/13414/)

[699] Referência: Veículo Conceito P-Eco Elétrico Alimentado por Piezo-


eletricidade (http://psipunk.com/p-eco-electric-concept-vehicle-pow-
ered-by-piezoelectricity/)

[700] Como será explicado ainda mais nesta seção, o estado de


abundância procurado tem a ver com o tempo de uso e acesso, não
propriedade definitiva. Uma sociedade de acesso é muito diferente de
uma proprietária, em muitas maneiras profundas, especialmente quando
se trata de sustentabilidade, valores e comportamento humano. Alimen-
tos, energia e água já assumem um estado de acesso uma vez que tais
“itens” são perecíveis ou parte de um continuum que os separa da pro-
priedade de “bens” físicos da forma como nós tradicionalmente pensam-
os nisso.

[701] Fonte: Número de Carros no Mundo Todo Ultrapassa 1 Bilhão; O


Mundo Pode Gerenciar Tantas Rodas Assim? (http://www.huffingtonpost.
ca/2011/08/23/car-population_n_934291.html)

[702] Fonte: Perfil de Transportes da Cidade de Los Angeles (http://www.


gu.se/digitalAssets/1344/1344071city-of-la-transportation-profile.pdf)

[703] Fonte: United States Census Bureau, 2013 (http://www.census.gov/)

[704] Muitas outras influências e resultados podem surgir como efeito


da crescente eficiência em tal contexto. Por exemplo, com cerca de 1,2
milhões de mortes ocorrendo anualmente de acidentes automobilísticos,
muitas iniciativas de design para ajudar a segurança no futuro poderiam
alterar drasticamente essa realidade. O uso de carros sem motoristas,
conduzidos por sensores, que são agora uma realidade, poderia acabar
com tais mortes imediatamente. Considerando os cerca de 50 milhões de
acidentes de automóveis em todo o mundo a cada ano, o resultado é não
apenas vidas poupadas, mas despesas médicas poupadas, pedidos de
seguro, ações judiciais, entrada de dados, recursos, tempo, o desgaste
do estresse e dor que resultam de lesão ou morte, e uma enorme varie-
dade de outros alívios.

[705] Fonte: 46 por cento da riqueza global possuída pelos 1 por


cento mais ricos: Credit Suisse (http://profit.ndtv.com/news/economy/

290
article-46-per-cent-global-wealth-owned-by-richest-1-per-cent-credit-su-
isse-369109)

[706] Fonte: ONU: Um bilhão em todo o mundo enfrentam a fome (http://


www.cnn.com/2009/WORLD/europe/11/15/un.hunger/)

[707] Fonte: Crise da Água: Rumo a uma maneira de melhorar a situação


(http://www.worldwatercouncil.org/library/archives/water-crisis/)

[708] Fonte: Uma quantidade estimada em 100 milhões de pessoas em


todo o mundo estão desabrigadas. Fonte: Comissão de Direitos Humanos
das Nações Unidas, 2005. (http://www.homelessworldcup.org/content/
homelessness-statistics)

[709] Fonte: Causas da Pobreza (http://www.globalissues.org/issue/2/


causes-of-poverty)

[710] Fonte: Aqui está o porquê de 1,2 bilhão de pessoas ainda não
terem acesso a eletricidade (http://www.washingtonpost.com/blogs/wonk-
blog/wp/2013/05/29/heres-why-1-2-billion-people-still-dont-have-access-
to-electricity/)

[711] A estabilidade social está diretamente correlacionada à saúde públi-


ca. Por exemplo, a desigualdade social pode, como costuma acontecer,
manifestar-se como comportamento violento, protestos civis e até mesmo
guerra, assim como áreas atingidas por saneamento precário e pobreza
podem trazer doenças que podem se espalhar para áreas que dispõem
de um bom saneamento, e ainda assim causarem contaminação (talvez
até mesmo uma epidemia). Aliviar o estresse econômico e melhorar a
saúde pública é um imperativo global para a verdadeira segurança.

[712] Ver o ensaio Transtorno do Sistema de Valores.

[713] Fonte: A perda de biodiversidade global em curso e a necessidade


de ir além das áreas protegidas: uma avaliação das deficiências técnicas
e práticas de áreas protegidas na terra e no mar (http://www.int-res.com/
articles/theme/m434p251.pdf)

[714] As únicas duas exceções a isso são, ou ir viver fora da própria


civilização, o que, devido a leis de propriedade, é essencialmente impos-
sível, ou obter riqueza suficiente para começar, através do mercado ou
herança, onde não haveria necessidade de mais comércio para a sobre-
vivência. Este último, é claro, não está aberto a todos em uma economia
de mercado de qualquer tipo.

[715] Todos os bens criados assumem uma relação de classe. O espec-


tro pode variar desde o tipo de produção extremamente pobre encontra-
da em uma loja de “99 Centavos”, onde se pode comprar um relógio de
plástico que tem pouca integridade, vs um item de extremo luxo que só
pode ser adquirido pelos mais ricos do mundo. Thorstein Veblen inspirou
o termo “Veblen Good” devido a sua observação do prestígio gerado a

291
partir de produtos de preço extremamente alto, que transcendem a utili-
dade. http://www.investopedia.com/terms/v/veblen-good.asp

[716] Isso será discutido no ensaio ‘O Governo industrial’.

[717] Referência: Acabando com a depressão (econômica) através da


obsolescência planejada [Ending the Depression Through Planned Obso-
lescence], Bernard London, 1932

[718] Com relação a esses materiais, nanotecnologias emergentes, como


nanotubos de carbono (CNT), que podem ser organizadas para criar o
que foi denominado “Buckypaper”, é um exemplo de um enorme po-
tencial. “Buckypaper” é um agregado macroscópico de nanotubos de
carbono, que deve seu nome a R. Buckminster Fuller. Papel fino e leve,
tem um décimo do peso e é ainda potencialmente 500 vezes mais forte
que o aço, quando suas folhas são empilhadas para formar um compos-
to. Ele também pode conduzir a eletricidade como o cobre ou silício. Este
material sintético, feito de carbono abundante, poderia ser a base de uma
nova, a escassez de transcender revolução dos materiais sintéticos.

[719] Referência: Dois terços dos recursos do mundo são “super-utiliza-


dos” ‘(http://www.theguardian.com/science/2005/mar/30/environment.
research)

[720] Em 2011 um estudo intitulado “A perda contínua da biodiversidade


global e a necessidade de ir além de áreas protegidas: a avaliação das
deficiências técnicas e práticas de áreas protegidas na terra e no mar”,
a seguinte conclusão foi feita: “Em um cenário de negócios como de
costume, as nossas demandas em relação ao planeta Terra poderiam
alcançar a produtividade de 27 planetas em 2050. “ Não há falta de
outras fontes com estatísticas negativas sobre os “excessos” em revistas
revisadas por pares.

[721] Fonte: biology-online.org (http://www.biology-online.org/dictionary/


Bioticresource)

[722] Fonte: Os fatos sobre o solo: está desaparecendo (http://www.


seattlepi.com/national/article/The-lowdown-on-topsoil-It-s-disappear-
ing-1262214.php)

[723] Fonte: Mineral (http://en.wikipedia.org/wiki/Mineral)

[724] Fonte: Estatísticas de minerais do mundo (http://www.bgs.ac.uk/


mineralsuk/statistics/worldStatistics.html)

[725] Fonte: Produção Mineral Mundial 2007-2011 (http://www.bgs.ac.uk/


downloads/start.cfm?id=2701)

[726] Fonte: Lista de Risco 2012: Um índice de risco de abastecimento


atualizado para elementos químicos ou grupos de elementos que são de
valor econômico (http://www.bgs.ac.uk/mineralsuk/statistics/risklist.html)

292
[727] Ibid.

[728] Fonte: Reciclagem de Terras Raras (http://www.molycorp.com/tech-


nology/rare-earth-recycling/)

[729] Fonte: Estatísticas sobre a Gestão Eletrônicos usados e de fim de


linha (http://www.epa.gov/osw/conserve/materials/ecycling/manage.htm)

[730] Fonte: Sujo, perigoso e destrutivo - os elementos de um boom


tecnológico (http://www.theguardian.com/commentisfree/2011/sep/26/ra-
re-earth-metals-technology-boom)

[731] Fonte: Por que reciclar telefones celulares? Porque não basta jogá-
los fora? (http://secondwaverecycling.com/why-recycle-cell-phones-why-
not-just-throw-it-away/)

[732] Fonte: Nanosys: Podemos substituir alguns metais terras-raras


(http://www.fastcompany.com/1705030/nanosys-we-can-replace-some-
rare-earth-metals)

[733] Fonte: Células solares de película fina de materiais abundantes na


Terra (http://www.intechopen.com/download/get/type/pdfs/id/39155)

[734] Fonte: Novo nano material poderia substituir minerais de terras raras
em células solares e OLEDs (http://inhabitat.com/new-nano-material-
could-replace-rare-earth-minerals-in-solar-cells-and -oleds /)

[735] Fonte: Novo material pode levar uma lâmpada de LED mais barata
e ecológica (http://www.gizmag.com/silicon-led-rare-earth-element-alter-
native/27933/)

[736] Fonte: Substitutos minerais de terras raras poderiam derrotar o es-


trangulamento Chinês (http://www.wired.co.uk/news/archive/2013-07/31/
race-for-rare-earth-minerals)

[737] Isto é desenvolvido no ensaio ‘O Governo Industrial’.

[738] Fonte: Se a população mundial vivesse em uma única cidade ...


(http://persquaremile.com/2011/01/18/if-the-worlds-population-lived-in-
one-city/)

[739] Referência: airbnb.com (https://www.airbnb.com/)

[740] Referência: Avião alimentado por energia solar conclui pri-


meira etapa de voo nos EUA (http://www.npr.org/blogs/thet-
wo-way/2013/05/05/181407952/solar-powered-airplane-completes-first-
leg-of-us-flight)

[741] Referência: De Nova Iorque a Pequim em duas horas sem sair do


chão? (http://www.gizmag.com/et3-vacuum-maglev-train/21833/)

293
[742] Referência: Petróleo (http://www.instituteforenergyresearch.org/ener-
gy-overview/petroleum-oil/)

[743] Fonte: Coronel Gregory J. Lengyel, USAF, The Brookings Institution,


Departamento de Estratégia Energética Defesa [Department of Defense
Energy Strategy], agosto de 2007.

[744] Referência: O elefante na sala: A força militar dos EUA é uma


das maiores fontes de CO2 do mundo (http://www.washingtonsblog.
com/2009/12/removing-war-from-global-warming.html)

[745] Fonte: Quem precisa de óleo quando os cientistas podem fazer


plástico a partir de plantas? (http://gizmodo.com/5885953/who-needs-oil-
when-scientists-can-make-plastic-from-plants)

[746] Fonte: Nanopartículas de ferro imobilizadas como catalisadores


para a produção sustentável de Olefinas de baixa densidade (http://www.
sciencemag.org/content/335/6070/835.abstract)

[747] Fonte: Materiais derivados de Cogumelo (http://www.ecovativede-


sign.com/mushroom-materials/)

[748] Referência: Coca-Cola e Ford se unem para extrair supri-


mentos para plástico à base de plantas (http://www.greenbiz.com/
blog/2012/06/14/coca-cola-nike-ford-join-forces-juice-supply-plant-
based-plastic)

[749] Referência: Grande Ideia: Tecnologia cresce exponencialmente


(http://bigthink.com/think-tank/big-idea-technology-grows-exponentially)

[750] Referência: Chegando a um escritório perto de você (http://www.


economist.com/news/leaders/21594298-effect-todays-technology-tomor-
rows-jobs-will-be-immenseand-no-country-ready)

294
Capítulo 14

Fatores Econômicos Reais

“O mundo mudou muito mais nos últimos 100 anos do


que em qualquer outro século na história. A razão não é
política ou econômica, mas tecnológica -tecnologias que
fluíram diretamente de avanços na ciência básica.” [751]
- Stephen Hawking -

Visão geral
Em grego economia significa “regras ou administração da casa, do lar”.752 O atrib-
uto qualitativo que define uma economia é o seu nível de “eficiência”. Ao contrário
da prática da “eficiência de mercado” comum hoje em dia, esta forma de eficiência
refere-se a sistemas físicos, e não às inter-relações do “dinheiro”, do “mercado” e de
outros artifícios indiscutivelmente culturais.753

Neste processo de avaliação física, chegamos inevitavelmente a um conjunto de com-


ponentes inter-relacionados apropriadamente denominados fatores econômicos. Mais
uma vez, estes componentes, diferentemente das grandes teorias financeiras em jogo no
mundo moderno de hoje, não têm nada a ver com o ato de comércio ou similares. Ao
contrário, eles influenciam nos processos técnicos reais, portanto, tendências, potencial-
idades e necessidades de medição necessárias para a organização do sistema otimizado
de extração industrial, produção, distribuição, design, protocolos de reciclagem e afins.

No entanto, por uma questão de compreensão, mesmo que esta forma de pensa-
mento econômico seja um amplo afastamento das teorias econômicas de base mon-
etária tradicionais que perduram até hoje, este ensaio ainda enquadrará esses com-
ponentes da economia baseada em recursos no contexto das distinções categóricas
tradicionais, “microeconômica” e “macroeconômica”, como seria encontrado nos
livros didáticos comuns no que diz respeito à economia monetária.

Os componentes macroeconômicos têm a ver com a maior quantidade de asso-


ciações de sistemas físicos possíveis que possamos compreender.

295
Os componentes microeconômicos estão relacionados com indústrias ou setores
específicos, geralmente associados a uma boa produção, distribuição regional e espe-
cificidades regenerativas. (Isso será abordado em detalhes mais adiante neste ensaio.)
Por extensão do sistema, componentes macroeconômicos naturalmente governam
a lógica relacionada aos componentes microeconômicos também. Por exemplo, o
atributo macroeconômico de gestão global de recursos tem uma influência universal
sobre o bom desenrolar das operações microeconômicas, tais como a eficiência de
design de produto (que invariavelmente utiliza tais recursos globais).

No entanto, antes que esses fatores componentes sejam abordados, uma discussão
mais aprofundada sobre sistemas é necessária, juntamente com um relato de quais são
os nossos objetivos sociais reais.

Teoria Geral dos Sistemas


A Teoria Geral de Sistemas é uma ideia que provavelmente foi tornada mais
famosa pelo biólogo Ludwig Von Bertalanffy. Ele declarou: “... existem modelos,
princípios e leis que se aplicam a sistemas generalizados ou suas subclasses, indepen-
dentemente do seu tipo particular, da natureza de seus elementos componentes, e das
relações ou” forças” entre eles. Parece legítimo pedir uma teoria, não de sistemas de
um tipo mais ou menos especial, mas de princípios universais que se aplicam a siste-
mas em geral.”754 Enquanto os teóricos de sistemas, ao longo dos anos, empregaram
uma grande quantidade de complexidade intelectual e elaboração, o reconhecimento
básico é bastante simples e intuitivamente fácil de entender.

O corpo humano, por exemplo, é composto por várias interligações de sistemas


que não só regulam naturalmente processos específicos para um dado propósito (tais
como o coração e o seu papel na circulação sanguínea), mas estes sistemas sem-
pre têm inter relações em graus menores e maiores, também. No caso do coração,
o sangue que ele faz circular tem seu próprio conjunto de propriedades químicas
definidas e comportamentos de sistema (relação de sistema de menor grau), enquanto
o próprio coração também é uma parte componente da ordem total do organismo
humano (relação de sistema de maior grau) e portanto, se conecta com, por exemplo,
os pulmões, que auxiliam na distribuição de oxigênio através da corrente sanguínea.

Estendendo este exemplo para relações de maior grau, este sistema humano está
ligado a um sistema ecológico,755 que invariavelmente tem uma correlação direta
com a saúde humana. Ilustrativamente, métodos industriais ruins, existentes dentro
deste sistema ecológico, podem introduzir, por exemplo, a poluição no ar, causando
condições que podem estabelecer o cenário para problemas pulmonares ou outros
malefícios para a saúde humana.

É claro, as relações de sistema para a saúde humana não são apenas “físicas”, no

296
sentido tradicional do termo, elas também são psicologicamente e sociologicamente
causais. A ciência tem compreendido melhor como as propensões humanas de apren-
dizado e comportamentais são geradas através de ambas as influências genética e am-
biental, invariavelmente envolvendo um contexto de sistemas maiores. Por exemplo,
como observado em ensaios anteriores, problemas de dependência, como no caso de
drogas ou álcool, podem frequentemente encontrar-se ligados a estresse precoce e
perda emocional.756 Na verdade, a própria base para a compreensão da saúde pública
é um reconhecimento de sistemas, sem exceção.

Agora, ligando todos os sistemas está o que poderia ser chamado de “princípios
generalizados de gerenciamento”. Em termos científicos, um princípio ou teoria
“generalizado” é uma característica fundamental ou suposição que governa um siste-
ma inteiro. Uma busca notável, em curso, da ciência moderna, tem sido a procura por
princípios de gerenciamento universal que se aplicam a todos os sistemas conhecidos
no universo, como os sinalizados na citação anterior por Ludwig Von Bertalanffy.

Enquanto uma grande quantidade de debate teórico existe com relação ao com-
portamento complexo de certos sistemas (encontramos confrontos de perspectiva en-
tre, por exemplo, “a mecânica clássica” e “a mecânica quântica”), os entendimentos
relevantes para a organização econômica eficiente (um projeto de sistema destinado
a otimizar o bem-estar humano e a sustentabilidade ecológica/social de longo prazo)
não têm necessidade de se perder em tal abstração. Assim, as relações econômicas
apresentadas neste ensaio são bastante óbvias e fáceis de validar.

No entanto, afirme-se que quando a visão sistêmica do mundo é verdadeiramente


entendida em suas profundas ramificações de imutável interconectividade e, portanto,
interdependência / co-responsabilidade de literalmente tudo no universo conhecido,
noções culturais tradicionais, baseadas na divisão humana ou social, como a lealdade
religiosa, lealdade de raça, classe, estados-nação, patriotismo e outras manifestações
nascidas de um mundo indiscutivelmente ignorante desta realidade no passado, não
podem criar a longo prazo nada além de confusão, desajustes e conflitos.

Perceber e se esforçar para pensar no contexto de sistemas interconectados é fun-


damental para o desenvolvimento intelectual, criando assim um imperativo educa-
cional para que as pessoas também aprendam mais como “generalistas” em oposição
a “especialistas” rígidos, que é o padrão atual devido à estrutura de nossos papéis
tradicionais de trabalho. Infelizmente, nosso sistema educacional de hoje tem sido
moldado e estruturado não para criar entendimentos coerentes do mundo, mas ao
contrário, direciona o foco para especialidades isoladas e estreitas, que reduzem a
compreensão de sistemas, consequentemente.757

Então, voltando ao contexto específico da criação de um modelo econômico, esta

297
relevância sistêmica cria, inerentemente, uma causalidade essencialmente “auto-ger-
adora”, que reduz grandemente a subjetividade. Quando nós relacionamos as con-
cepções atuais do sistema humano ao sistema ecológico, descobrimos um processo
de cálculo objetivo em relação ao que é possível e sustentável, tanto na estrutura geral
dos processos industriais quanto na estrutura de valores da própria sociedade.

No final, uma vez que esta realidade é entendida, sabendo que nós nunca podere-
mos ter uma compreensão absoluta do sistema de gerenciamento total, universal, nossa
tarefa é, portanto, derivar um modelo econômico que melhor se sobreponha a tais pro-
priedades e relacionamentos conhecidos do mundo físico, adaptando-o e ajustando-o o
mais eficientemente possível, conforme novo retorno de informações continuar a provar
ser ele válido. Dito de outra forma, a criação de um modelo econômico é realmente um
processo de alinhamento estrutural com o sistema ecológico existente, em operação no
planeta Terra. O grau em que somos capazes de conseguir isso, define o nosso sucesso.

Metas Sociais
Enquanto hoje, diversas culturas globais mostram muitas características e inter-
esses únicos, há ainda um conjunto básico, e praticamente universal, de necessidades
comuns, que giram em torno da sobrevivência. Na prática, este conjunto compreende,
essencialmente, a base da “saúde pública”, em sua definição mais ampla.

Abaixo está uma lista de “metas” sociais, aparentemente óbvias, que este novo
modelo econômico trabalharia para atender, com explicações detalhadas a seguir. Em
geral, são metas que compõem a busca pela melhoria na qualidade de vida de toda a
humanidade, enquanto mantém-se a verdadeira sustentabilidade a longo prazo.

Metas:
(1) Eficiência Industrial Otimizada; Busca Ativa da “Abundância Pós-Escassez”.
(2) Manter Otimizado o Equilíbrio Ecológico/Cultural e a Sustentabilidade.
(3) Libertação Deliberada da Humanidade de Trabalhos Monótonos e Perigosos
(4) Facilitar a Adaptação Sistêmica Ativa a Variáveis Emergentes.
​​

(1) Eficiência Industrial Otimizada; Busca Ativa da “Abundância Pós-Escassez”:


Ao contrário do atual mandato econômico, voltado à manutenção da ineficiên-
cia pelo bem da circulação monetária, crescimento econômico e preservação do
poder,758 este objetivo visa otimizar, tanto técnica quanto estruturalmente, todos
os processos industriais para trabalhar e criar o que poderia ser denominado uma
abundância pós-escassez.

Em suma, uma abundância pós-escassez é um estado idealizado que elimina a


escassez de um determinado recurso ou processo, geralmente por meio de uma efi-
ciência otimizada em relação ao design de produção e uso estratégico. Desnecessário

298
dizer que a ideia de alcançar a pós-escassez universal, o que significa uma quanti-
dade abundante de tudo para todos, é legitimamente uma impossibilidade, mesmo
nas visões mais otimistas. Portanto, este termo, como usado aqui, realmente destaca
um ponto de foco.759

Exemplos comuns de realidades pós-escassez atuais, que foram abordados em


profundidade em um ensaio anterior,760 incluem a capacidade, estatisticamente
comprovada, de gerar uma abundância de nutrição para a população mundial, uma
abundância de energia para uso humano responsável, uma abundância de domicílios
para abrigar, com um alto nível de qualidade, cada família na Terra, junto com uma
abundância de bens, tanto com base nas necessidades (ou seja, ferramentas) como
com base em desejos razoáveis (itens de luxo / com características especiais)761, para
permitir uma qualidade de vida, em constante e crescente melhoria, desconhecida
hoje por provavelmente 99% da humanidade.

Estas e muitas outras possibilidades têm sido comprovadas como realidades es-
tatísticas, para a população atual da Terra e além, realizadas através do que R. Buck-
minster Fuller gestualmente chamou de “Revolução da Ciência do Design”,762 ou o
re-design da nossa infra-estrutura social para permitir esta nova e profunda eficiência.

É desnecessário dizer que este re-design social sugere uma ruptura radical com as
normas sociais atuais e tradições estabelecidas, incluindo a própria natureza da nossa
estrutura socioeconômica/governamental, em si. (O assunto complexo da transição
será discutido em um ensaio posterior.)763

(2) Manter Otimizado o Equilíbrio Ecológico e a Sustentabilidade:


A manutenção da sustentabilidade ambiental é de importância óbvia dado que a
espécie humana não é independente de seu habitat e é estritamente sustentada por ele.
Na verdade, a própria evolução revela que nós somos, na verdade, gerados a partir
do habitat, expressando ainda mais profundamente a conexão simbiótica/sinérgica.

Qualquer perturbação negativa desses sistemas ecológicos interconectados irá


provavelmente resultar em distúrbios negativos proporcionais de nosso bem-estar, ao lon-
go do tempo. Portanto, certificar-se de que o sistema econômico sendo praticado tem um
respeito estrutural e inerente por essas ordens naturais é fundamental para a saúde pública
e a sustentabilidade a longo prazo. Esse aspecto por si só é, de fato, um indicador da
própria validade prática de um sistema econômico como uma estrutura de suporte da vida.

Vale reiterar que o atual modelo de economia de mercado não mantém, literal-
mente, nenhum reconhecimento estrutural destas leis de ordem natural. O mercado
simplesmente presume que esse equilíbrio será mantido através de mecanismos cor-
retamente apontados como metafísicos, relacionados somente à dinâmica do merca-

299
do monetário,764 uma suposição falsa.

(3) Libertação Deliberada da Humanidade do Trabalho Monótono, Perigoso e


Desrespeitoso:
Como foi descrito em detalhes técnicos num ensaio anterior765 com respeito à
tendência poderosa e orientada à efemerização, do que é chamado de mecanização
(significando a aplicação de máquinas, substituindo papéis de trabalho normalmente
feitos pelos seres humanos), a necessidade de esforços humanos, do sofrimento em
ocupações monótonas, irrelevantes ou perigosas se tornou cada vez menor.

Esta nova realidade técnica também criou tendências que antes eram inimag-
ináveis, como o fato de que a aplicação de automação tem provado agora ser mais
eficiente que o trabalho humano, tornando a tradição persistente de “ganhar a vida”
uma convenção social cada vez mais irresponsável, uma vez que nós agora podemos
fazer mais com menos pessoas, em praticamente todos os setores.

Da mesma forma, também é importante considerar o padrão de emprego huma-


no ao longo do tempo geracional, reconhecendo que o prejuízo social vigente do
“desemprego” é inteiramente uma manifestação da aplicação da tecnologia ao tra-
balho.766 O grande mito do século 20, propagado por economistas do mercado, é
que a tecnologia cria empregos na mesma proporção que os trabalhos são eliminados
por ela.767 Isto está provado agora como estatisticamente incorreto, já que o aumento
exponencial na tecnologia da informação e sua tradução em eficiência das máquinas
sempre avançando prova a falácia desta observação, que uma vez pareceu verdadei-
ra.768 Hoje, a crise do trabalho do século 21 não mostra nenhum sinal de se acalmar769
e só vai encontrar solução através de uma reestruturação dos métodos de trabalho
industrial, alterando dramaticamente a tradição de “trabalhar para viver”.770

(4) Facilitar a Adaptação Sistêmica Ativa a Variáveis Emergentes:


​​
Enquanto esse objetivo pode parecer mais abstrato do que as metas anteriores,
reconhecer a realidade emergente da evolução intelectual e industrial é fundamental.
Devemos, estruturalmente, permitir a adaptação.

O auge intelectual agregado do conhecimento humano é e, como as tendências


mostram atualmente, sempre será, incompleto. Muitas práticas que poderiam ser
consideradas “sustentáveis”, ou de acordo com a saúde pública hoje, podem muito
bem vir a ser descobertas como sendo prejudiciais em um sentido relativo ou abso-
luto, no futuro. Um exemplo seriam as décadas passadas de combustão do petróleo.
Enquanto poucas retroações negativas foram encontradas durante o seu uso inicial,
hoje há um forte impulso para superar o uso de energia de hidrocarbonetos, devido
às consequências crescentes resultantes de seu emprego como a principal fonte de
energia para a sociedade - especialmente tendo em conta o estado atual de alterna-

300
tivas mais limpas e mais abundantes.

Portanto, o sistema industrial/econômico deve ser dinamicamente atualizável, possi-


bilitando a rápida correção de erros e melhoria conforme o progresso se desenrola. Mais
uma vez, este tipo de flexibilidade está atualmente em falta na economia de mercado
de hoje, uma vez que tais mudanças frequentemente têm um efeito desestabilizador na
rentabilidade das indústrias relacionadas. A mudança, em geral, é extremamente lenta
no período moderno, a este respeito, devido à paralisia que se origina da preservação da
distribuição do mercado e poder de grupos. Pode ser bem argumentado que o progresso
é muitas vezes prejudicial aos esquemas existentes de lucros.

Fatores Macroeconômicos:
Na teoria econômica tradicional, baseada no mercado, a macroeconomia trata
das influências e políticas mais amplas que afetam, em parte, a dinâmica e os resul-
tados prováveis ​​da condição microeconômica. Isso geralmente refere-se a medidas
de crescimento, níveis de emprego, taxas de juros, dívidas nacionais, moedas e afins.

No contexto de uma EBRLN (Economia Baseada em Recursos e Leis Naturais),


também podemos estabelecer componentes econômicos que poderiam ser categori-
camente pensados da mesma forma, mas desta vez isso tem a ver com as pressões
de gerenciamento de maior ordem do mundo físico, diretamente, junto com a forma
como estes princípios físicos se relacionam com as ações mais “microeconômicas”
de boa produção, design, distribuição e afins. Em outras palavras, é uma estrutura de
regulagem abrangente, apoiada pela ciência essencialmente física, para garantir que
a verdadeira eficiência econômica seja mantida e aperfeiçoada.

No núcleo da abordagem macroeconômica (e, por extensão, microeconômica)


repousa o próprio método do pensamento e análise. Este é “O Método Científico”.
Frequentemente é dito que nada na ciência pode ser provado, só refutado. Esta é a
beleza do método, já que o seu ceticismo inerente de suas próprias conclusões, se
não for inibido por vieses humanos, pode assegurar progressos e ajustes contínuos.
A ciência dá um veículo para chegar a conclusões, não “as produz”, e é nesta lógica,
baseada em sistemas, que todas as decisões econômicas devem ser orientadas consid-
erando ambas, possibilidades e restrições.771

Inerente ao método científico no âmbito da “política macroeconômica” para uma


EBRLN estão o que poderíamos considerar reconhecimentos que abrangem toda a
Terra. Esses componentes têm a ver, essencialmente, com o seguinte:

(1) Gestão Global de Recursos


(2) Avaliação Global de Demanda
(3) Protocolos Globais de Produção e Distribuição

301
Esses três fatores são considerados “macroeconômicos”, pois incorporam con-
siderações centrais, quase universais, independentemente do que uma dada produção
implica especificamente ou onde ela está no planeta. (Deve também ser reconhecido
imediatamente que o conceito de uma “economia nacional” não é mais viável nesta
perspectiva nem nunca foi, na verdade, tecnicamente falando.)

(1) Gestão Global de Recursos:


A Gestão Global de Recursos é o processo de acompanhamento do uso dos re-
cursos e, portanto, trabalha para prever e evitar a escassez e outros problemas. Com
efeito, não é diferente da lógica subjacente em sistemas de inventário mais comuns
que podemos encontrar na arena comercial hoje. No entanto, este sistema tem a ver
primariamente com o rastreamento da taxa de geração natural para manter o equilíbrio
dinâmico.772

Todos os recursos naturais conhecidos, seja madeira, minério de cobre, água, óleo,
etc, têm as suas próprias taxas de regeneração natural, se houver. Em certos casos,
como para metais ou minerais, as taxas de regeneração são de tão larga escala que
seria mais apropriado simplesmente assumir de imediato uma fonte finita.773 No ger-
al, o processo começaria com um levantamento completo dos recursos da Terra, em
qualquer grau tecnicamente possível, acompanhado em tempo real, em qualquer grau
tecnicamente possível.

O catálogo de recursos componentes monitorados incluiria todas as formas, desde


recursos bióticos, como árvores, até recursos abióticos, como minérios de ferro e
assim por diante. Poluição e outros distúrbios ecológicos da integridade dos recursos
também seriam contabilizados. Embora essa abordagem totalmente sistêmica para
esta contabilização e rastreamento de recursos em toda a Terra possa parecer uma
tarefa difícil, na verdade é muito viável nos dias atuais, com tais tecnologias já sendo
empregadas pelas respectivas indústrias, no ambiente corporativo.

(2) Avaliação Global de Demanda:


A Avaliação Global de Demanda é o processo de atender as demandas da popu-
lação humana. Em suma, este processo poderia ser dividido em uma série de pesqui-
sas regionais, juntamente com o lançamento de publicações que informem o público
a respeito de novos projetos possíveis, no consumo ou produção industrial.

Enquanto a atual prática cultural, que consiste em publicidade pública por empresas
que buscam o lucro, muitas vezes impondo valores orientados a status/vaidade sobre a
população, em muitos aspectos, em vez de servir para ajudá-los com necessidades exis-
tentes, o processo de engajamento em uma EBRLN lida explicitamente com a criação
da consciência das novas possibilidades técnicas que forem surgindo, além de permitir
o consenso público para decidir o que é de interesse produzir e o que não é.774

302
Isto poderia ser chamado de “o mercado” de uma EBRLN. De muitas maneiras,
ele também pode ser considerado o mecanismo de “governança” da sociedade em
si, uma vez que este tipo de interação social para a tomada de decisão não tem de
ser restrito ao mero design e produção de produtos.775 Afinal, o núcleo de qualquer
sociedade são realmente os mecanismos técnicos que permitem a ordem, bem-estar
e qualidade de vida.

Muitas vezes esquecemos qual realmente é a finalidade de um governo, nos dias


de hoje. Na sua essência, é um meio de auxiliar a organização econômica para mel-
horar a vida, aliviar o stress e criar segurança. O problema é que o governo hoje tem,
necessariamente, se transformado em um sistema essencialmente de corrupção orga-
nizada e de protecionismo tipo “máfia”, ao invés de um facilitador de suporte de vida.

Nesta nova abordagem, um sistema puramente técnico/interativo é estabelecido,


o qual trabalha, em atitude, de forma semelhante a como a noção de “democracia
direta”776 tem sido proposta para funcionar nos dias de hoje, onde os processos de
tomada de decisão envolvem a participação do grupo de forma direta, objetivo por
objetivo. Com o aumento exponencial do poder de cálculo baseado em computador,
este tipo de “pensamento” social agregado é agora possível.

Os detalhes desse sistema interativo, juntamente com uma expansão de um con-


ceito integral denominado “design automatizado”, ou os sistemas baseados em cál-
culo de utilidade (neste contexto, o sistema sendo um produto em questão), serão
abordados em um ensaio seguinte.777 No entanto, deixe-se afirmado que todos os
projetos têm uma lógica interna para aquilo que funciona, o que é sustentável e o que
reduz retroações negativas (ou problemas). É esta nova base de comparação referen-
cial técnica que orienta o processo de design industrial.

Agora, uma nota final que vale a pena mencionar de passagem, é que na econo-
mia de mercado atual, o processo de avaliação de demanda é orquestrado de forma
profundamente acidental via o que é tradicionalmente chamado de “mecanismo de
preços”.778 Muitos, em escolas econômicas tradicionais, chegam a argumentar que a
variabilidade dinâmica de interesses humanos torna tecnicamente impossível calcular
essa demanda sem o mecanismo de preços. Enquanto isso pode ter sido em parte ver-
dadeiro no início do século 20, quando foram feitas essas afirmações, a época de cál-
culos avançados de computador, juntamente com modernas tecnologias de detecção
e rastreamento, removeram essa barreira de complexidade.779

(3) Protocolos Globais de (a) Produção e (b) Distribuição:


Protocolos Globais de Produção e Distribuição abordam o raciocínio pelo qual o
sistema industrial global pode ser instalado, no contexto da infra-estrutura da super-
fície da Terra. Esta simples noção tem a ver com o local onde estas instalações estão

303
localizadas e porque. Um fator econômico básico a considerar aqui é o que chamare-
mos de “estratégia de proximidade”.

No sistema atual, a orientação a propriedade força as instalações de produção


e distribuição a ser espalhadas e bastante aleatórias em sua localização. O advento
da globalização e a busca constante pela eficiência de custos pelas corporações, via
mão de obra e recursos baratos, cria uma enorme ineficiência e desperdício, para não
mencionar uma base para a exploração desumana do trabalho e outros problemas.

Em uma EBRLN, a organização de processos industriais globais é baseada em


otimizar a eficiência em todos os momentos, criando uma rede de instalações logi-
camente baseada em fatores relacionados com o propósito de tais instalações. Isto é
realmente simples de considerar uma vez que as variáveis ​​relacionadas podem ser
quantificadas em importância com bastante facilidade. Uma vez que a menor distân-
cia entre dois pontos é uma linha reta, associado com a capacidade técnica moderna
para produzir muitos produtos sem a necessidade de condições regionais (por exemp-
lo, sistemas avançados fechados de produção de alimentos), uma preocupação central
para reduzir a energia e o desperdício é a produção local, tanto quanto possível.

(3a) Protocolos Globais de Produção: A melhor maneira de expressar isso é


fornecer um exemplo específico através do qual variações podem encontrar um
contexto comum. Vamos usar o exemplo da indústria têxtil, especificamente a fab-
ricação de roupas.

Hoje, 98% das roupa usadas pelos norte-americanos são importadas, principal-
mente da China.780 A maioria das roupas ainda são feitas de algodão. De onde é que a
China gosta de obter boa grande quantidade de seu algodão? - Estados Unidos.781 En-
tão, hoje, os Estados Unidos produzem uma mercadoria crua central para a indústria
têxtil, a embarcam para a China para fazer as roupas, apenas para tê-los enviados de
volta aos EUA quando terminam.

Podemos usar a imaginação com respeito aos milhões de barris de petróleo des-
perdiçados apenas neste movimento de materiais, ao longo do tempo, quando tal
colheita e produção poderiam muito facilmente ser locais. Mais uma vez, este é um
produto de mecanismos econômicos internos da economia de mercado, que não le-
vam em conta os verdadeiros relacionamentos econômicos da Terra (que exigem efi-
ciência física e redução de resíduos), não a eficiência financeira e uma redução de
custos monetários. Esta é uma clara desconexão.

(3b) Protocolos Globais de Distribuição: A mesma lógica se aplica à base de dis-


tribuição de pós-produção. Uma vez que os produtos são criados, eles devem ser
disponibilizados a nível regional da maneira mais eficiente possível, com base na

304
demanda e proximidade. Uma vez estabelecida por necessidades regionais, a dis-
tribuição tem três componentes básicos:

3b1) Localização das Instalações


3b2) Método de Acesso
3b3) Rastreamento/Feedback

3b1) Localização das Instalações


A Localização das Instalações é baseada na proximidade lógica de uma concen-
tração de população. Isto é melhor exemplificado com a prática atual de (geralmente)
colocar mercearias em pontos de conveniência média, próximos de uma comunidade,
embora mesmo esta estratégia seja muitas vezes comprometida pela lógica inerente
do mercado.782 No entanto, outros fatores tecnológicos poderiam ser considerados
para facilitar a circulação de mercadorias e reduzir o desperdício, junto com o acesso
mais conveniente. Enquanto as instalações locais, contendo as mercadorias mais co-
mumente necessárias, podem existir nas proximidades em torno de uma comunidade,
sistemas de entrega, tais como estruturas de tubos pneumáticos automáticos, para
produtos de médio porte, poderiam ser instalados em casas da mesma maneira que o
encanamento é construído em uma casa hoje.

Outras variações poderiam incluir sistemas de acesso com base nas necessidades
específicas, regionais, como no caso de atividades recreativas. Facilidades de acesso
podem ser colocadas no local para vários interesses, tais como recursos para esportes,
fornecendo equipamentos necessários no momento e local de utilização.

3b2) Método de Acesso


O Método de Acesso é melhor descrito como um sistema compartilhado de “bib-
lioteca”. Isso não quer dizer que todos os itens recuperados devem ser “devolvidos” a
estas facilidades de acesso, mas sim mostrar que eles podem ser, se for conveniente. É,
certamente, uma prática bem-vinda, uma vez que este processo de “compartilhamento”
é um elemento facilitador poderoso, tanto de eficiência na preservação como de eficiên-
cia no acesso público. Em outras palavras, menos produtos são necessários para atender
os interesses da maior parte da população, por meio de sistemas de compartilhamento,
em comparação com o sistema de propriedade universal 1:1 praticado hoje.

Um exemplo comum seriam necessidades de ferramentas especializadas que são


utilizadas relativamente pouco pela população. Equipamentos de produção para um
projeto específico e equipamentos de recreação que podem ser usados apenas algu-
mas vezes por ano, são exemplos simples. Do outro lado do espectro, as necessidades
diárias, tais como tecnologias de comunicação pessoal e semelhantes, são disponibili-
zados da mesma maneira, com a expectativa de retorno provavelmente apenas quan-
do o item falhar, de modo que possa ser reciclado ou reparado. Este conceito de

305
passar de uma sociedade orientada a propriedade para uma orientada a acesso é uma
noção poderosa. Hoje, algumas indústrias de “aluguel” já tem visto os frutos deste
conceito, na forma de conveniência, mesmo em um sistema de mercado.783

Mais uma vez, em comparação com o modelo atual, essas instalações existem
como as “lojas” fazem hoje, com demanda regional dinamicamente calculada, para
garantir abundância de suprimento e evitar a escassez e derrapagens. A diferença é
que nada é “vendido” e o ethos é de um sistema estrategicamente eficiente e interati-
vo de partilha, com, novamente, retornos ocorrendo quando a vida do produto expira
ou quando o produto não é mais necessário.

Como um aparte, há uma reação comum a essa ideia dizendo que problemas
como o “entesouramento” ou algum tipo de abuso se seguiria. Esta suposição é ba-
sicamente a sobreposição das consequências do mercado monetário em curso sobre
o novo modelo, erroneamente. As pessoas no mundo de hoje, impulsionadas pela
escassez, acumulam e protegem impulsivamente quando elas têm algo, por temer ou
desejar a exploração de bens pelo seu valor de mercado. Na EBRLN, não há valor de
revenda no sistema, pois não há dinheiro.784 Portanto, a ideia de acumular qualquer
coisa seria uma inconveniência ao invés de uma vantagem.785

3b3) Rastreamento / Feedback


O Rastreamento e Feedback, como indicado acima, é parte integrante da ma-
nutenção do sistema, tanto a nível regional como global, tão fluido quanto possível,
quando se trata não só do atendimento da demanda regional, por meio de suprimen-
tos adequados, mas também mantendo em ritmo com as mudanças nas tecnologias
de extração, produção, distribuição e novas demandas. Naturalmente, estes fatores
são altamente sinergéticos. Sistemas de sensores, programas e outras tecnologias de
rastreamento de recursos têm tido rápido desenvolvimento, para vários usos indus-
triais.786 Sistemas modernos de registros comerciais já estão bastante avançados no
contexto apropriado, quando se trata de demanda e distribuição. A questão é ape-
nas a sua escalabilidade, em certos contextos, para contabilizar todos os atributos
necessários.

Em conclusão a esta seção de fatores macroeconômicos, a consideração primor-


dial é a eficiência em todos os níveis e isso tem sua própria lógica causal, como ob-
servado anteriormente, quando considerados na maior interconectividade sistêmica,
ecológica e física, inerente ao mundo natural. Esta eficiência tem a ver com a redução
de resíduos e a satisfação das necessidades humanas, sempre orientados em suas pos-
sibilidades pelo estado atual da tecnologia, através do método científico.

Fatores Microeconômicos:
Tendo em conta estes chamados conceitos macroeconômicos, é importante reaf-

306
irmar que os princípios subjacentes, relativos à máxima eficiência, produtividade e
sustentabilidade são os mesmos ao longo de todo o modelo, de ponta a ponta. Isto
é, novamente, a linha de pensamento que deriva do método científico, calculada no
quadro quase-empírico da própria lógica da lei natural.

Agora, enquanto a teoria econômica tradicional, baseada no mercado, considera


“a microeconomia” como um estudo sobre o comportamento dos indivíduos, das
famílias e das empresas que tomam decisões baseadas nos mercados, determinações
de preços e outros fatores baseados essencialmente no movimento de dinheiro de
várias maneiras, o contexto microeconômico de uma EBRLN é bastante diferente.

Considerações microeconômicas, neste novo modelo, giram em torno dos méto-


dos efetivos de um bom design e produção, em si. Estas são basicamente organizadas
em torno de dois fatores:

1) Eficiência no Design do Produto


2) Meios de Eficiência da Produção

1) Eficiência no Design do Produto


A Eficiência no Design do Produto relaciona-se com a integridade do próprio de-
sign. Hoje, a eficiência de custos e as ineficiências técnicas resultantes, associadas ao
processo corporativo de concorrência, e a grande duplicação desnecessária de bens
específicos, criou um clima de desperdício desnecessário e limitada expectativa de
vida dos produtos. Há também, como será discutido em maiores detalhes em um
momento, poucos protocolos de reciclagem embutidos, se houver, durante estes de-
signs de produtos. Isto é importante porque a reciclagem avançada ajudaria em mais
preservação de materiais, no longo prazo, aumentando a eficiência a longo prazo.

Da mesma forma, as tecnologias proprietárias, que servem ao interesse de preser-


var as quotas de mercado para uma empresa em particular, criaram um ambiente onde
há muito pouca compatibilidade dos componentes entre os múltiplos fabricantes dos
mesmos produtos básicos.

Portanto, cinco fatores componentes são relevantes aqui:

1a) Durabilidade Otimizada


1b) Adaptabilidade Otimizada
1c) Padronização Universal
1d) Protocolos Integrados de Reciclagem
1e) Propício para Automação

1a) Durabilidade Otimizada:

307
Durabilidade otimizada significa simplesmente que qualquer bem produzido é
feito com a intenção de durar tanto tempo quanto possível, da forma mais estratégica
possível. A noção de estratégico é importante aqui pois isso não quer dizer que todos
os gabinetes de computador, por exemplo, devem ser feitos de titânio, simplesmente
porque ele é muito forte. Mais uma vez, este é um cálculo de design sinérgico, onde
a noção de o “melhor” material para um determinado propósito é sempre relativa às
necessidades paralelas de produção que também podem exigir esse tipo de material.
Portanto, a decisão de usar um material específico deve ser avaliada não apenas em
seu uso para o bem específico, mas também comparando-o com as necessidades de
outras produções que exigem eficiência similar. Nada existe fora desta comparação
centrada em sistemas. Todas as decisões industriais são tomadas com a consideração
do maior grau sistêmico de relevância.

Esse interesse para criar o “estrategicamente melhor” é critico para a sustentab-


ilidade humana, especialmente quando se tem relatado que estamos usando nossos
recursos naturais hoje mais rápido do que o planeta os está gerando, devido a tais
ineficiências.787 A moderna cultura do “descartável” não só é dirigida por um sistema
de valores hedonistas, míope, imposto pela publicidade moderna e as atuais medidas
de “riqueza” e “sucesso”, mas também é necessário para manter o sistema de trabalho
remunerado, uma parte fundamental da manutenção do funcionamento da economia
de mercado.

1b) Adaptabilidade Otimizada:


A Adaptabilidade Otimizada é na verdade um sub-componente do “rendimento
otimizado”, no contexto da engenharia de design. Hoje, de automóveis a telefones
celulares, aumentos de eficiência por avanços tecnológicos continuam ocorrendo
rapidamente. No entanto, mesmo com esta rápida taxa de mudança, outros atribu-
tos de ordem maior permanecem os mesmos por períodos de tempo relativamente
longos, por tendências históricas. Em outras palavras, diferentes componentes
da produção têm diferentes taxas de mudança e isso significa que um sistema de
“adaptabilidade” e “atualização” ativa pode ser prefigurado por meio de análise de
tendências, com as expectativas resultantes incluídas em um design existente no
melhor grau possível.

Um exemplo seria a taxa de mudança do chip de processamento de um sistema


de computador (CPU). O avanço do poder de processamento do chip vem se acele-
rando rapidamente, devido à lei de Moore. Como resultado, muitos aplicativos de
software, conforme eles melhoram para utilizar estas novas velocidades habilitadas,
não vão funcionar em sistemas de computador com chips mais antigos. Isso normal-
mente força o usuário a comprar um novo sistema de computador, mesmo que a única
questão verdadeira seja a CPU, não todo o sistema. Embora outros fatores possam
estar em jogo, tais como a compatibilidade do sistema com o novo chip, raramente as

308
pessoas atualizam apenas esses chips, mesmo que seja viável.
Este tipo de adaptação é critica hoje, em todos os níveis, o que faz alusão ao próx-
imo componente econômico: “padronização universal”.

1c) Padronização Universal:


A Padronização Universal é um conjunto de protocolos otimizados, gerados a
partir do feedback industrial de massa, de forma colaborativa, que trabalha para criar
compatibilidade uniforme, universal, de todos os componentes associados a um de-
terminado gênero de produto. Hoje, essa falta de padronização é uma fonte não só
de grande desperdício, mas de grande instabilidade no funcionamento dos produtos
comuns, uma vez que o ethos competitivo e a intenção de propriedade restringem a
eficiência de uma maneira poderosa.

Esta prática tem sido justificada sob o pretexto de “progresso” no design, com a
premissa de que as empresas concorrentes, incentivadas por ganhos financeiros, vão
“superar” umas as outras e, portanto, ser mais produtivas na inovação. Embora possa
haver alguma verdade nisso, o atraso, o desperdício e a instabilidade causados não
justificam a prática. Além disso, tem sido, e sempre será, o compartilhamento de in-
formações, a longo prazo, que tem provocado a inovação, tanto pessoal como social.

A criação de um banco de dados de componentes conhecidos, por indústria,


com informações ativamente compartilhadas, em todo o mundo, como um ponto de
referência de design e feedback, na criação de peças e produtos comuns, não é uma
tarefa difícil e certamente não iria inibir o avanço tecnológico ou engenhosidade. De
qualquer forma, ele apresentaria informações e perspectivas mais diversificadas e,
portanto, melhores decisões poderiam ser tomadas, mais rapidamente.

1d) Protocolos Integrados de Reciclagem:


Isto significa simplesmente que o estado atual da reutilização de componentes e
materiais é otimizado diretamente e considerado estrategicamente, na própria con-
cepção do produto. Novamente, isto não acontece nos dias de hoje, de qualquer forma
eficaz. Um levantamento de aterros sanitários do mundo encontra muitos componen-
tes úteis que foram descartados em conjunto com sistemas maiores (produtos). Uma
vez que uma corporação normal, que produz esses itens, raramente encoraja a sua
devolução para reprocessamento direto, este é o resultado inevitável.

Além disso, enquanto os sistemas de reciclagem de plástico tradicional, vidro,


papel e outros estão operando com eficiência moderada, este processo é muito bruto
e ineficaz em relação a regeneração direta, conectada à indústria. Em uma EBRLN,
considerações de reciclagem otimizadas para reutilizar materiais, pré-formatados
ou não, seria o padrão. No final, “aterros” não existiriam nesta abordagem, já que
há uma maneira de reutilizar praticamente tudo o que se produz, se tivéssemos o

309
interesse em fazê-lo.
1e) Propício para Automação:
Isto significa que o design de um dado produto considera o estado de automação
do trabalho, procurando remover o envolvimento humano, sempre que possível, us-
ando um projeto mais eficiente e muitas vezes menos complexo. Em outras palavras,
parte da equação da eficiência é fazer com que a fabricação seja fácil de produzir por
meios automatizados, levando em conta o estado atual das técnicas de automação.
Procuramos simplificar a maneira com que os materiais e os meios de produção são
usados, ​​para que o número máximo de produtos possam ser fabricados com a menor
variação de materiais e equipamentos de produção. Mais sobre o assunto na próxima
seção.

(2) Meios de Eficiência da Produção:


Meios de Eficiência da Produção, como um componente econômico, referem-se
às ferramentas reais e aos métodos utilizados na própria produção industrial. Enquan-
to isso também poderia ser considerado um fator macroeconômico, em muitos aspec-
tos, ele é considerado um fator microeconômico baseado no fato de que se relaciona
com a produção específica, direta, bem como com os papéis do trabalho humano.

Os meios de produção de qualquer coisa estão diretamente relacionados com o


estado da tecnologia. A partir da Revolução Neolítica, com o advento de ferramentas
de pedra, até o nascimento, hoje, da “cibernética” e das máquinas que “pensam”, que
podem analisar, executar e resolver problemas, a fundação central de todo “trabalho”
tem sido um compromisso com ferramentas tecnológicas auxiliares disponíveis.

A tendência tem sido um alívio do trabalho, em geral, com uma redução geral da
participação do trabalho humano em cada setor como relatado para capacidades. Há
duzentos anos, a indústria agrícola utilizava a maioria das pessoas, nos Estados Uni-
dos. Hoje, apenas uma fração muito pequena está trabalhando na agricultura devido
à aplicação de máquinas e automação. Este fenômeno e tendência de “mecanização”
são importantes porque hoje eles estão desafiando a própria base do sistema de tra-
balho por renda, pois conjuntamente estão prenunciando que a produtividade está
caminhando para um ponto que poderia ser chamado de “pós-escassez”.

Hoje, somos mais produtivos, com menos pessoas em um determinado setor, em


relação ao tempo e capacidade, devido à aplicação de tecnologias de automação.
De muitas maneiras, esta realidade marca uma das mudanças mais significativas em
nossa evolução social, desafiando o próprio tecido do nosso sistema social vigen-
te, revelando imensas possibilidades para o futuro, tanto quanto a criação de uma
abundância estratégica.

Assim, em uma EBRLN, essa capacidade é maximizada, reduzindo a força de

310
trabalho humano como a conhecemos, por uma aplicação abundante e expansão da
automação, aumentando vastamente a produtividade. O envolvimento do trabalho
humano, enquanto ainda necessário, mesmo em fases mais avançadas, é reduzido
à fiscalização geral destes sistemas automatizados, conforme eles são implantados.
Fábricas também já não estão limitadas por restrições tradicionais derivadas de um
calendário de cinco dias por semana, de oito horas de duração, uma vez que não
há nenhuma razão, dada a possível redução maciça da contribuição humana. Estes
sistemas agora podem funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana, se necessário.

Como um aparte, a seguinte questão é muitas vezes colocada: “Quantas pessoas


são necessárias para supervisionar os fluxos de operações e lidar com a resolução de
problemas?” Esse tipo de pergunta pode ser respondida por meio da avaliação das
tendências estatísticas atuais, calculando a média entre elas e, em seguida, extrapo-
lando-as para o futuro.

No entanto, há uma confusão comum entre “trabalho” no sentido de labuta cor-


riqueira pela qual o incentivo monetário é uma recompensa normal, e o “trabalho”
que todos os seres humanos, devido ao interesse criativo puro e intenção contributiva,
desempenham tão bem. Uma profunda mudança de valor, assumida pelo MZ, é que
o progresso da clássica distinção de “trabalho” vai se transformar em um tipo de
contribuição social, que é, na verdade, prazerosa e interessante para as pessoas. Hoje,
em todo o mundo, o interesse humano em explorar, criar e melhorar existe, indepen-
dentemente da imposição monetária.

No entanto, devido a uma pressão constante por renda, no modelo atual, quase
todos esses atos assumem o contexto necessário de uma busca de dinheiro para so-
brevivência. Pode-se argumentar que isto poluiu o sistema mais natural de incentivo
humano para explorar, aprender e criar, sem essa pressão.

Isso observado, a noção de “trabalho”, no contexto de supervisão das operações,


sistemas de reparos e outras manutenções, provavelmente não seria reduzido ao tipo
de trabalho penoso que tantas vezes consideramos a realidade do “trabalho”, nos dias
atuais. Em vez disso, o ato é respeitado como uma forma de contribuição pessoal para
proveito pessoal e social, uma vez que todo ato envolvido neste tipo de sistema tem
um benefício pessoal direto para as pessoas que trabalham para mantê-lo funcionan-
do sem problemas.

Mais uma vez, esse incentivo é quase inexistente no modo atual, uma vez que o
sistema capitalista é projetado para que todos os benefícios de lucro sejam apropria-
dos pelos proprietários das empresas, com os frutos da produção muitas vezes nunca
relacionando-se ao trabalhador, em um sentido direto, mas via meras recompensas sal-
ariais abstratas. Hoje, as relações empregado/proprietário existem como uma espécie

311
de “guerra de classes”, com a animosidade entre os grupos sendo uma ocorrência co-
mum.788 Nesta nova abordagem, todos os atos de contribuição beneficiam a pessoa que
executa o ato e a comunidade em geral. Eles estão conectados diretamente.

Isto sendo compreendido, apenas uma pequena fração da população seria


“necessária”, por assim dizer, para se envolver na manutenção dos sistemas centrais,
provavelmente cerca de 5% da população, quando os métodos industriais alcançarem
as possibilidades modernas. Estes 5% poderiam, então, ser repartidos entre toda a
população. Assim, se uma determinada população, de uma região da cidade fosse de
50.000 pessoas, o sistema industrial exigiria 2.500 pessoas, assumindo uma semana
de trabalho tradicional, de oito horas por dia, durante cinco dias por semana. Isso se
traduz em 100 mil horas sendo trabalhadas por semana. Em termos da população
total, esta responsabilidade de trabalho equivaleria a uma obrigação mútua de cada
pessoa “trabalhar” apenas duas horas por semana.

Claramente, isto é um cenário hipotético, uma vez que, em um sistema tão avançado,
um sistema que serve a todos, os valores humanos mudariam muito e muitos, provavel-
mente, se sentiriam honrados em assumir mais horas, reduzindo a obrigação dos outros.
Mais uma vez, estamos falando de manutenção de estruturas, aqui, em oposição a um
“trabalho” imersivo, como é atualmente entendido e necessário. Na realidade, uma so-
ciedade livre, desta natureza, poderia criar uma erupção de avanço criativo e progresso
nunca antes visto, com pessoas trabalhando para contribuir em formas vastas e robus-
tas. Por quê? Porque, mais uma vez, esses indivíduos também estariam ajudando a si
próprios, diretamente, no processo. Qualquer invenção ou avanço na eficiência serve a
toda a comunidade, neste modelo. O interesse próprio se torna interesse social.

Assim, para concluir este ponto, estes novos meios de produção tratam de fo-
calizar o núcleo do trabalho em produtividade técnica verdadeira, que tem retornos
sociais/pessoais diretos, com o mais pródigo foco em automação, e com tanto aumen-
to de eficiência, via tecnologia e automação, quanto possível.

Conclusão
Como com qualquer coisa com esta brevidade, temos uma incompletude inev-
itável. Outros fatores, tanto macro quanto micro, podem ser expressos com mais
pormenores. No entanto, se a pessoa segue este fluxo básico de pensamento, uma
linha de pensamento regida pela lógica científica para assegurar otimizadas eficiência
física e sustentabilidade, esses outros parâmetros inevitavelmente surgem.

Em suma, o resultado deste sistema de EBRLN requer o mesmo tipo de engaja-


mento respeitoso como com qualquer outro sistema natural. Assim como a nossa com-
preensão da floresta, de sua regeneração e biodiversidade levou a uma filosofia básica
para participar desse ecossistema, com respeito às suas vulnerabilidades, para garantir

312
sua integridade a longo prazo, a mesma lógica se aplica à EBRLN como um todo.
Este modelo social é uma tentativa de espelhar o mundo natural, da forma mais
direta possível, e pode ser considerado um “sistema natural” como qualquer outra
coisa que encontramos na natureza, como um ecossistema. Ele será perfeito? Não.
Mas o fundamento lógico está lá para permitir melhoria constante, muito além do
estado das coisas de hoje.

A seguinte árvore de síntese, como um esboço geral para este ensaio, foi gerada
para revisão:

EBRLN: Uma Visão Geral do Modelo Econômico:


- Metas do Sistema (Social)
- Componentes Macro Econômicos
(a) Gestão Global de Recursos
(b) Avaliação Global de Demanda
> Criando Consciência das Novas Possibilidades Técnicas
> Consenso público para decidir o que é interessante produzir
(c) Protocolos Globais de Produção e Distribuição
> Produção Global
> Localização Estratégica
> Distribuição Global
> Localização de Instalações
> Método de Acesso
> Rastreamento & Feedback

- Componentes Micro Econômicos


(a) Boa Eficiência Específica
> Durabilidade Otimizada
> Adaptabilidade Otimizada
> Padronização Universal
> Protocolos Integrados de Reciclagem
> Estímulo à Automação
(b) Meios para Eficiência de Produção
> Mecanização Aplicada

313
Notas e Referências: Capítulo 14

[751] Stephen Hawking, Uma Breve História da Relatividade, Time Maga-


zine, 31 de dezembro de 1999

[752] O termo “economia” em grego [oikonomía] significa a “gestão de


uma casa familiar; parcimônia” - daí [e·con·o·mize], ou “aumentar a efi-
ciência”.

[753] Ver o artigo Eficiência de Mercado vs. Eficiência Técnica.

[754] Ludwig Von Bertalanffy, Teoria Geral dos Sistemas: Fundações,


Desenvolvimento, Aplicações [Ludwig Von Bertalanffy, General System
theory: Foundations, Development, Applications], New York: George Bra-
ziller de 1976, p.32

[755] Ecologia é definida como: o ramo da biologia que lida com as


relações e interações entre os organismos e seu ambiente, incluindo out-
ros organismos. (http://dictionary.reference.com/browse/ecology)

[756] Dr. Gabor Maté, em sua obra O Império dos Fantasmas Famintos
[In the Realm of Hungry Ghosts](North Atlantic Books, 2012) apresenta
uma enorme quantidade de pesquisas a respeito de como “perdas emo-
cionais” que ocorrem na infância e juventude afetam o comportamento na
vida adulta, especificamente a propensão para o vício.

[757] Referência: “Educação e Modelo de Mercado”, John McMurtry, Jor-


nal de Filosofia da Educação Volume 25, Issue 2, pps 209-217, 1991 On-
line: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1467-9752.1991.tb00642.x/
abstract

[758] Ver o ensaio Eficiência de Mercado vs. Eficiência Técnica.

[759] A questão de grau, de fato, torna-se arbitrária. Mesmo que só


possível com alguns conjuntos de recursos, isso não muda o objetivo e
a importância da busca da pós-escassez. Melhoria social tem sido, em
geral, baseada em tais alívios.

[760] Ver o ensaio Tendências Pós-Escassez, Capacidades e Eficiências.

[761] A mentalidade fisicamente insustentável de propriedade excessiva


e “entesouramento”, comum ao ideal da cultura atual de elevado status
social e sucesso, precisa hoje de alívio.

[762] Sugestão de leitura: R. Buckminster Fuller, Critical Path, de St. Mar-


tin Press, 1981

[763] Ver o ensaio Transição & A Economia Hibrida.

314
[764] Ver o ensaio História da Economia, onde a noção da “mão invisível”,
de Adam Smith, é discutida.

[765] Ver o ensaio Tendências Pós-Escassez, Capacidades e Eficiências.

[766] Os economistas provavelmente contestam esta afirmação, hoje,


com a alegação de “outsourcing” e outras questões envolvidas na
equação (juntamente com outras distinções estreitas e truncadas). Na
verdade, olhando para o trabalho humano sem fronteiras, na escala
global, ao longo do tempo geracional, vemos que tem sido a tecnologia e
unicamente a tecnologia que tem mudado tanto os métodos de produção
quanto o que é interessante produzir. Se estes progressos não tivessem
ocorrido, a humanidade jamais teria experimentado a Revolução Neolítica
e, portanto, ainda estaria caçando e coletando de uma forma primitiva.

[767] Essa suposição é parte do que tem sido historicamente chamado


de “A Falácia Ludita”. É interessante notar que, mesmo se fosse para
acolher a alegação da Falácia Ludita, de que novos postos de trabalho
são criados para compensar, de forma igual, os postos de trabalho elim-
inados em um setor agora mecanizado, cada vez mais está se tornando
perceptível que esses postos de trabalho, sem dúvida, têm pouca ou
nenhuma relevância real para a viabilização e função de suporte de vida.
Assim, os “novos postos de trabalho criados” invariavelmente servem
como uma espécie de desperdício de energia humana. Uma coisa é a
pessoa realizar atos que sejam de interesse na sua vida, por sua própria
vontade. Outra é ser coagida a tal trabalho sem sentido, simplesmente
porque você deve “trabalhar para viver”. Sugestão de leitura: David Grae-
ber, sobre o fenômeno dos trabalhos inúteis [On the Phenomenon of Bull-
shit Jobs], Revista Strike, 2013 (http://www.strikemag.org/bullshit-jobs/)

[768] A questão aqui é a taxa de aceleração tecnológica. Cem anos


atrás, esta taxa de variação era muito menor, enquanto hoje a taxa de
mudança está aumentando exponencialmente. Enquanto as mudanças
sociais na indústria e no trabalho foram capazes de compensar de forma
dinâmica esta alteração no passado, devido ao ritmo relativamente lento,
conforme o tempo avança, vai se tornar cada vez mais difícil de manter o
“trabalho-por-renda” como o conhecemos na atual tradição. Isto também
ocorre porque a curva de crescimento exponencial reduz o custo de fer-
ramentas de automação ao longo do tempo, criando uma inevitabilidade
geral de que o trabalho humano, em um determinado setor, não só será
superado em desempenho por máquinas, mas ele vai ser mais barato a
longo prazo. Sugestão de leitura: http://www.kurzweilai.net/the-law-of-ac-
celerating-returns

[769] Notícias e relatórios estatísticos sobre uma crise de desemprego


global emergente têm sido abundantes no início do século XXI especial-
mente com adultos jovens. Referência: Geração sem empregos (http://
www.economist.com/news/international/21576657-around-world-almost-
300m-15-24-year-olds-are-not-working-what-has-caused)

315
[770] Referência: Poderia a Automação levar ao Desemprego Crônico?
Andrew McAfee soa o alarme (http://www.forbes.com/sites/singulari-
ty/2012/07/19/could-automation-lead-to-chronic-unemployment-andrew-
mcafee-sounds-the-alarm/)

[771] Ver o ensaio A Visão Científica do Mundo.

[772] Equilíbrio Dinâmico é definido como: “A condição em que todas


as influências que atuam são canceladas por outras, resultando em um
sistema estável, equilibrado ou imutável.” Fonte: http://www.thefreedictio-
nary.com/dynamic+equilibrium

[773] Por exemplo, metais como o cobre são agora amplamente aceitos
como tendo se originado em estrelas, com a terra coletando esses mate-
riais enquanto se formava.

[774] Hoje em dia, é somente através de preços e rentabilidade que a


demanda é acessada. Muito raramente o público é convidado a partici-
par de projetos futuros.

[775] Isto será abordado adiante no artigo: O Governo Industrial

[776] Ao contrário da “Democracia Representativa”, onde representantes


eleitos tomam decisões, a Democracia Direta permite que as pessoas
votem em questões. Esta associação é usada livremente aqui já que a
noção tradicional de democracia direta é muito antiga. O sistema sugeri-
do tem a ver com a participação do público no design cumulativo de
bens para satisfazer as necessidades, em parte.

[777] Ver o ensaio O Governo Industrial.

[778] Ludwig von Mises, em sua famosa obra Cálculo Econômico na


Comunidade Socialista, defende que o “mecanismo de preços” é o único
meio possível para entender como “eficientemente” criar e movimentar
mercadorias em uma economia. Essa crítica de qualquer tipo de sistema
“planejado” tem sido apregoada como sacrossanta por muitos hoje e
como uma justificação do sistema capitalista.

[779] Ver o ensaio O Governo Industrial.

[780] Fonte: Roupa ‘Made in America’: EUA deveriam fabricar mais


roupas? (http://abcnews.go.com/Business/MadeInAmerica/made-ameri-
ca-clothes-clothing-made-usa/story?id=13108258)

[781] Fonte: China disse comprar um milhão de toneladas de algodão dos


EUA para reservas (http://www.bloomberg.com/news/articles/2012-06-15/
china-said-to-buy-1-million-tons-of-u-s-cotton-for-reserves-1-)

[782] Referência: Por que os concorrentes abrem suas lojas ao lado dos
outros? - Jac de Haan (http://ed.ted.com/lessons/why-do-competitors-

316
open-their-stores-next-to-one-another-jac-de-haan)

[783] Sistemas de compartilhamento de bicicletas e carros são exemplos


comuns. A “ZipCar” é uma empresa que fornece acesso local a veícu-
los de aluguel, em um contexto regional, com base na necessidade. Da
mesma forma, a Europa tem visto um aumento no aluguel de bicicletas
de rua no local, bem como várias estações de estacionamento/acesso,
estrategicamente localizadas em toda a cidade.

[784] A explicação resumida do porquê uma economia monetária é es-


truturalmente incompatível com o nível de eficiência e os objetivos deste
novo modelo é detalhada no artigo: “Tendências Pós-Escassez, Capaci-
dades e Eficiências”

[785] O assunto da aparentemente imprevisível aberração comportamen-


tal humana (ou seja, “crime”) é tratado no ensaio “Estilo de Vida, Liber-
dade e O Fator Humanidade”

[786] Referência: HP inventa um sistema nervoso central para a Terra.


http://www.fastcompany.com/1548674/hp-invents-central-nervous-sys-
tem-earth-and-joins-smarter-planet-sweepstakes

[787] Fonte: Relatório: Consumo insustentável dos recursos da Terra


(http://www.cbsnews.com/news/report-consumption-of-earths-resourc-
es-unsustainable/)

[788] Ver o ensaio Classismo Estrutural, o Estado e Guerra.

317
318
Capítulo 15

O Governo Industrial

“A política moderna é a política de negócios... Isso é


verdade tanto sobre política externa como interna. A leg-
islação, a vigilância da polícia, a administração da justiça,
o serviço militar e diplomático, todos estão principal-
mente preocupados com relações de negócios, interesses
pecuniários, e eles têm pouco mais do que uma postura
incidental sobre outros interesses humanos.” [789]
- Thorstein Veblen -

Governança Política Vs. Técnica


A natureza e os desdobramentos do modelo politicamente conduzido da democra-
cia representativa, a criação de legislação e a aplicação sancionada da lei surgem de
tendências naturais inerentes ao ato de comércio e negócios, operando dentro de uma
ordem social orientada pela escassez.

O desenvolvimento dessa regulamentação comercial e a lógica por trás da própria


existência da “governança do Estado” é muito fácil de se traçar historicamente. Após
a revolução Neolítica, os padrões antes nômades da humanidade mudaram para uma
nova tendência para plantar, se estabelecer e criar cidades. A especialização flores-
ceu e o comércio foi, portanto, inevitável. No entanto, dada a possibilidade de dese-
quilíbrio e disputa, conforme as populações regionais cresceram e recursos regionais
muitas vezes tornaram-se mais escassos, uma prática de segurança e regulamentação
se manifestou para proteger a terra, a propriedade, a integridade do comércio e afins
de uma comunidade.

O uso de um “exército”, que é sancionado para proteger por decreto público, tor-
nou-se padronizado, juntamente com um complexo de autoridade legal ou regulatória
adjacente, sancionado para essencialmente dar poder a um determinado grupo de
oficiais que facilita essas criações de políticas, aplicações da lei, julgamentos, práticas
punitivas e similares.

Isso é mencionado aqui por haver muitas escolas de pensamento econômico no


início do século XXI que falam sobre reduzir ou mesmo remover o aparelho estatal

319
inteiramente, falsamente supondo que o Estado em si é uma entidade distinta e o pon-
to de partida da culpa por atuais adversidades sociais ou ineficiências econômicas. No
entanto, do outro lado do espectro do debate, há um clamor geral por uma maior reg-
ulação estatal do mercado para garantir mais limites à manipulação nos negócios e,
portanto, trabalhar para evitar o que tem sido muitas vezes percebido como “capital-
ismo de compadres”790. A verdade da questão é que essa polarizante, falsa dualidade
entre o “Estado” e o “mercado” é cega para a verdadeira raiz do que está realmente
causando problemas, não percebendo que o par sinergético estado-mercado é, na ver-
dade, um sistema de poder único em operação, de uma vez só.

Independentemente do mérito de qualquer argumentação específica quanto ao fa-


vorecimento do “livre mercado” versus o favorecimento da “regulação estatal”, todas
as transações comerciais têm, historicamente, requerido algum nível de mediação le-
gal. Isso porque todas as transações são uma forma de concorrência e toda concorrên-
cia atrai a possibilidade de fraude ou abuso, dada a pressão natural de circunstâncias
externas e da natureza da sobrevivência em si, dentro dos limites do mercado baseado
na escassez. O fato é que qualquer forma de comércio que exista nessa visão de mun-
do reforçada pela escassez constantemente manifestará o chamado comportamento
“corrupto” ou desonesto. Ele é firmemente incentivado. O grau de corrupção em si
torna-se até mesmo uma questão de opinião, na verdade. A linha entre perspicácia
aceita nos negócios e flagrante persuasão desonesta não é uma distinção fácil de se
fazer hoje, em uma visão ampla.

Portanto, algum tipo de poder de decisão primordial sempre foi concedido a um


grupo para mediação de conflitos e esta é a semente do poder governamental como o
conhecemos. No entanto, o ponto principal de toda a situação é que, em um mundo
onde tudo é alimentado pelo dinheiro; em um mundo onde, na verdade, tudo está
à venda, a rápida “corrupção” de qualquer regulamentação ou poder estabelecido
também é essencialmente garantida, ao longo do tempo, em menor ou maior grau.791

Dito de outra forma, haverá sempre a necessidade de regulação legal das tran-
sações no mercado, por alguma instituição sancionada publicamente. E a ética de
mercado irá sempre corromper tal regulamento, em certa medida, com a influência
do dinheiro, porque o dinheiro e os negócios são realmente o que fazem o mundo se
mover. Isso é simplesmente o que é de se esperar quando toda a base psicológica da
existência baseia-se na sobrevivência através de atos de autointeresse competitivo,
orientados pela premissa universal da escassez empírica, sem reais garantias estru-
turais dadas aos membros da sociedade para alguma tranquilidade na sobrevivência.
Pensar que qualquer agência reguladora não seria suscetível a esse tipo de corrupção;
pensar que política de Estado e, portanto, coerção não poderia ser ‘comprada’, como
qualquer outra mercadoria, é negar o fundamento filosófico básico inerente à noção
do mercado de “liberdade” em si.

320
Portanto, reclamar da regulação estatal ou de sua falta é, em última instância, uma
questão discutível no amplo