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SIMPÓSIO 14

Que línguas são faladas no Rio de Janeiro?


Plurilinguismo e política de línguas

Tania Conceição Clemente de SOUZA


UFRJ – Museu Nacional, Departamento de Antropologia e Faculdade de Letras,
Programa de Pós-graduação em Linguística. taniacclemente@gmail.com, Rio de
Janeiro, Brasil

Resumo
A postura do Estado nacional com relação a uma política linguística tem
sido a de impor, historicamente, o monolinguismo. Com a leva sempre crescente de
refugiados que chegam ao país, buscamos verificar até que ponto o Estado
empreende projeto de atendimento com relação à comunicação linguística a esses
que aqui chegam. Segundo dados divulgados na mídia, o Rio de Janeiro coloca em
prática uma posição pioneira, quando a Secretaria de Estado de Assistência Social
e Direitos Humanos do Rio de Janeiro lançou, em 2014, um plano inédito em todo o
país que permite formalizar políticas de atendimentos a refugiados. Em que
medida nesse plano se prevê uma política linguística? Em que medida o Estado
ignora, ou não, todos os entraves oriundos de uma imposição de uma língua única,
quando não se tem como meta uma integração – e não apenas um acolhimento – na
e pelas línguas? Sabe-se quantas e quais línguas vêm sendo faladas no Estado do
Rio de Janeiro? Com base em pressupostos teóricos da Análise de Discurso,
procuramos refletir sobre questões de ordem jurídica e política que perpassam o
universo de línguas faladas entre nós.

Palavras-chave: plurilinguismo; política linguística e política de línguas;


refugiados; acolhimento.

Este trabalho faz parte de um projeto maior - Violência, fronteiras e refúgio:


o jurídico e o político em torno da questão dos direitos humanos – e tem por
objetivo trazer alguns dados sobre a possibilidade (?) de mapeamento das línguas
faladas em território fluminense, problematizando a presença de um contingente
significativo de refugiados que nos chegam todos os dias e somam ao contingente
de imigrantes e índios urbanos1 já estabelecidos no estado.

1 Há um movimento atual (por parte das etnias) de recusa à denominação “índio”, vindo o termo a
ser substituído por “indígena”. Entretanto, uma vez que na relação com o urbano vem sendo
constituída a denominação “índios em contexto urbano”, mantivemos a expressão “índio”.
Refúgio e direitos humanos (?)

A ONU considera, hoje em dia, a pior crise migratória nos últimos 70 anos,
no que se refere à necessidade de famílias inteiras serem obrigadas a deixar a sua
pátria. O ano de 2016 bateu um recorde, alcançando um total de 21 milhões de
refugiados que tiveram que deixar o seu país, além de 40 milhões que se
deslocaram em território próprio. São vinte e quatro indivíduos que se deslocam
por minuto. No Brasil, estima-se que haja um total de 9 mil refugiados, a maioria de
Sírios, Angolanos, Colombianos, República do Congo e Palestinos2. Além de 80 mil
haitianos, com visto de permanência (dados do Alto Comissariado das Nações
Unidas para os Refugiados/ACNUR).
A saída para a crise parece estar no acolhimento. No caso do Brasil, o
ACNUR está desde 1950 auxiliando na reintegração desses necessitados e dá apoio
ao programa de Reassentamento Solidário, desenvolvido em países da América do
Sul, incluindo o Brasil, que prevê três ações: a repatriação voluntária, quando a
segurança não estiver mais em risco; auxílio e colaboração na integração local no
país de refúgio e reassentamento, reenviando o refugiado para um terceiro país,
desde que fique em segurança.3
A formulação dessas três ações nos permite pensar sobre a forma como as
políticas de estado em favor do acolhimento trabalham na individualização dos
sujeitos. Sobre a relação do sujeito com o Estado, podemos destacar um fato
essencial: o poder, o Estado, o direito coagem o sujeito, insinuam-se nele de forma
discreta. Daí resultam claros processos que derivam de uma técnica particular de
poder que Foucault (1984) designa como sendo um “governo pela
individualização”. Uma forma de poder que classifica os indivíduos em categorias,
identifica-os, amarra-os em sua identidade. Trata-se de um mecanismo coercitivo
de individualização, de isolamento. O que leva a pensar que o Estado, sem dúvida,
induz o indivíduo a uma certa “psicologia”. No caso das políticas de acolhimento,
fica claro que se trata de uma acolhida passageira: a “psicologia” do
reassentamento ou do repatriamento já determinam “o desejo” do refugiado (?).

2Tem sido registradas grandes levas de Venezuelanos que chegam ao país, mas como legalmente não podem
ser classificados como refugiados, sua presence não é mencionada em censos e documentos oficiais.
3 In: “História em Foco”, ano 1, no. 1, 2017
A respeito do deslocamento, também pertinente é retomar Bauman (2004,
passim), quando este denuncia a discriminação dos refugiados em contraste com a
elite global: aqueles dependem de uma localização que é “permanentemente
temporária”: ocupam fisicamente um determinado espaço, mas não pertencem a
ele. “Durante os dois séculos da história moderna, as pessoas que não conseguiam
transformar-se em cidadãos — os refugiados, os migrantes voluntários e
involuntários, os "deslocados" ... — foram naturalmente assumidas como um
problema do país hospedeiro e tratadas como tal. Eles são expulsos à força ou
afugentados de seus países nativos, mas sua entrada é recusada em todos os
outros. Não mudam de lugar — perdem seu lugar na terra, catapultados para lugar
algum. Quanto à sua nova localização "permanentemente temporária”, os
refugiados "estão nela, mas não são dela". Não pertencem verdadeiramente ao país
em cujo território foram montadas suas cabanas ou tendas portáteis. São
separados do restante dele por uma cortina de suspeitas e ressentimentos que é
invisível, mas ao mesmo tempo espessa e impenetrável. Estão suspensos num
vácuo espacial em que o tempo foi interrompido. Não se estabeleceram nem estão
em movimento. Não são sedentários nem nômades”. (idem: 115; 117)
Diferente da situação dos imigrantes, cujo deslocamento se dá por gesto
voluntário, para os refugiados não há outra escolha, a não ser abandonar tudo que
têm para lutar por um recomeço. Estes vão ao encontro de um lugar melhor em
que encontrem condições de moradia e cenários melhores para criarem os filhos,
mas não ficam isentos de perseguições, abusos e preconceitos. Nesse sentido, é
importante observar o contraste entre o conceito de desterritorialização sobre as
formas de subjetividade (proposto por Deleuze e Guatarri) e o de desterro. A
desterritorialização pressupõe um recomeço em um território
imaginado/planejado. A reterritorialização não se faz num espaço [social] a mais
que os territórios de origem. O agenciamento de enunciações trabalha os espaços
[físicos], para que os sujeitos “se sintam em casa”. O processo de
reterritorialização, porém, constitui uma possível linha de fuga, de resistência aos
embates do mundo atual. O desterro é não planejado, é a fuga para um lugar
nenhum, para um território outro, um território do outro. O desterro pensado nos
termos de Bauman se define como “a extraterritorialidade em que se fincam as
raízes da atual precarité da condição humana” [grifo nosso] (idem: 117).
Política linguística
Apesar de no Brasil serem faladas mais de 250 variedades de línguas,
considerando-se as línguas indígenas e as línguas de imigração, juridicamente,
através de decretos e leis, somente duas são as línguas oficiais do país: o português
e, bem recentemente, a língua brasileira de sinais, LIBRAS (lei n. º 10.436, de 24 de
abril de 2002). A postura do Estado nacional com relação a uma política linguística
tem sido a de impor, historicamente, o monolinguismo. O fato de se oficializar a
Língua de Sinais Brasileira (LIBRAS) não interfere na política do monolinguismo.
Um país bilíngue pressupõe práticas bilíngues, a fim de que os falantes da língua de
sinais possam, realmente, estar integrados em âmbito social e político. O domínio
de LIBRAS não pode ficar restrito apenas a um círculo de pessoas que se
interessam pela mesma, além dos próprios falantes. Por outro lado, trata-se de
uma língua de visibilidade, que integra a dimensão espaço-corpo, por isso a
dificuldade de se codificar a mesma em escrita. Logo, um dos critérios de se atestar
um país como bilíngue, que é, sobretudo, a escrita de leis, decretos e da
constituição nas duas línguas oficiais, não deixa de ser alcançado, mantém-se,
assim, o português como língua majoritária.
Desde o século XVIII, com o Diretório do Índio do Marquês de Pombal
(1757) até épocas mais recentes, o monolinguismo tem sido o perfil de uma
política linguística praticada pelo Estado brasileiro. Através do Diretório de
Pombal, proibiu-se o uso da língua geral, de base Tupi, e se impôs como língua
única o português. Foram razões de ordem jurídica, calcadas no Tratado de Madri 4,
de 1750 (SOUZA, 2011), que levaram a Coroa Portuguesa à tal imposição. Já no
Estado Novo (1937-1945), registra-se um dos momentos mais tensos de repressão
às línguas de imigrantes (ou alóctones), através de um plano de “nacionalização do
ensino”, cuja meta foi selar um destino a essas línguas – na forma jurídica de crime
idiomático -, sobretudo em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. (Cf: Oliveira e
Altenhofen, 2011)
Muitos são os sentidos que podem ser atribuídos à noção de política
linguística. Sentidos que se instituem desde a implantação de projetos de política
linguística propriamente ditos, até a observação de processos institucionais,

4O Tratado de Madri vem ao encontro da necessidade de Portugal e Espanha redefinirem os seus territórios,
que toma como critério decisivo a questão do idioma: a América portuguesa vai até onde se falar português.
(Souza, 2011: 243)
menos evidentes, inscritos de forma implícita nos usos diferenciados (e muitas
vezes, diferenciadores) das línguas. Não há como fugir ao político, quando se fala
em política linguística, como discutem Gadet e Pêcheux (1981[2004]) - “A questão
da língua é pois uma questão do Estado, com uma política de invasão, absorção e
de anulação de diferenças, que supõe antes de tudo que estas sejam reconhecidas:
a alteridade constitui, na sociedade burguesa, um estado de natureza quase
biológico: a ser transformado politicamente”. (idem: 37)
Política linguística, por sua vez, segundo Orlandi (2007) se diferencia de
uma Política de línguas. “Em geral, quando se fala em política linguística, já se dão
como pressupostos as teorias e também a existência da língua como tal. E pensa-se
na relação entre elas, as línguas, e nos sentidos que são postos nessas relações
como se fossem inerentes à essência das línguas e das teorias. Fica implícito que
podemos “manipular” como queremos a política linguística. Outras vezes, fala-se
em política linguística, de organizar-se a relação entre línguas, em função da
escrita, de práticas escolares, do uso em situações planificadas.” (idem: 7)
Dentro da discussão sobre Política Linguística, outras definições vêm sendo
pensadas, como é o caso, por exemplo, da divisão de políticas linguísticas em
programas: línguas indígenas (autóctones), línguas alóctones ou de
imigração/herança, ensino de português, de línguas estrangerias, caso das políticas
linguísticas internas, e Mercosul e lusofonia, que estariam no campo de uma
política externa.
No âmbito do que Hamel (1988) denomina de Política Linguística Interna,
pode-se falar, ainda, em políticas linguísticas in vivo (CALVET, 1996). Nesse caso
podemos tomar como exemplo a inserção das línguas indígenas na Constituição e a
elaboração de um plano de Educação Indígena. Foi um dos primeiros passos que o
Estado nacional deu em relação a um possível plurilinguismo. Com a perspectiva
moderna dos direitos linguísticos em voga, os artigos 210 e 230 da Constituição
Federal de 1988 reconheceu a necessidade da criação de “uma modalidade de
ensino pautada pela interculturalidade, uso das línguas maternas e participação
comunitária” (Cf: Oliveira e Altenhofen, 2011). Com isso, temos o ingresso da
comunidade indígena ao ensino, como também, a promoção, sistematização e
educação das línguas indígenas, que até então estavam fora do âmbito de interesse
do Estado.
Assim, é possível dar lugar à cooficialização, em âmbito municipal, de
línguas originárias do Brasil: desde 2002 até agora, há seis leis e um projeto de lei
voltados para a cooficializaçao das línguas nheengatu, tukano, baniwa, wapixana,
macuxi e guarani (MS) (cf: Baalbaki e Andrade, 2016: 80). Não só línguas indígenas
estão sendo cooficializadas, mas também línguas de imigração, ou de herança, o
que abre novas perspectivas para o debate e o reconhecimento dessas
modalidades de língua como línguas brasileiras.
A (co)oficialização de línguas traz implicações diversas, garantidas por lei,
mas nem sempre cumpridas, tais como o ensino básico em língua materna, a
escrita de leis, decretos e documentos oficiais em duas línguas, etc. Entretanto,
com relação às línguas indígenas, a cooficialização é um ganho político importante,
não só no reconhecimento de um pertencimento histórico dessas línguas com o
Estado nacional, como também num investimento em uma política linguística de
salvaguarda de todo um saber imaterial inscrito na materialidade de tais línguas. É
sempre bom lembrar que as línguas indígenas faladas em nosso território
somavam em torno de 1100 línguas, hoje há em torno de 180. Além de um
processo constante de silenciamento dessas línguas.
Todo esse panorama vem sublinhar questões postas pelo aumento das
línguas faladas em território nacional, em conflito com a política do
monolinguismo adotada pelo Estado brasileiro. Sobre este conflito, Orlandi (1998:
8) tece várias considerações, quando observa que “a relação língua e nação não é
direta, nem automática, nem evidente”, levando a explicitar várias situações de
usos linguísticos, que, ao final, culminam com a evidência da relação “entre o
português do Brasil, afetado por todos esses processos identitários nessas
configurações históricas da língua, e o português de Portugal, língua de
colonização.”
O que, de imediato, nosso trabalho busca focar, porém, é a questão em
torno das várias e numerosas línguas que vêm sendo faladas no Rio de Janeiro, a
partir da presença não só de índios e imigrantes, mas também da presença de
refugiados oriundos de vários lugares.
Afluência de imigrantes ao Rio de Janeiro
As primeiras levas de imigrantes, excetuando-se os colonizadores, começam
a chegar no Brasil no século XIX. “A “inauguração” da imigração europeia é
atribuída à colônia suíça de Nova Friburgo [Rio de Janeiro], cuja instituição é
sucedida pouco depois pela de Leopoldina [Bahia], entre 1819 e 1820, mas o caso de
Nova Friburgo introduziu uma inovação: é a primeira vez, de fato, que uma
empresa colonial é contratada diretamente pelo governo português junto a um
governo estrangeiro. Em 1818, uma série de medidas concretizou os acordos com a
Suíça, e em 1819 desembarcaram no Rio de Janeiro os primeiros colonos”. (CROCI,
2011: 75)
Desde então, o fluxo de imigrantes foi constante até os dias de hoje. Pelo
censo de 2000/2010 do IBGE, constata-se que os estados de São Paulo, Paraná e
Minas Gerais, juntos, receberam mais da metade dos imigrantes internacionais do
período, seguidas de Rio de Janeiro e Goiás. No Censo Demográfico 2000, as
principais Unidades da Federação de destino dos imigrantes internacionais eram
São Paulo e Paraná, seguidas de Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do
Sul. A Região Sudeste, muito embora tenha sido o espaço onde a mobilidade foi a
mais intensa, seguiu sua trajetória de diminuição no volume de imigrantes e
emigrantes, situação que foi observada em todas as suas Unidades da Federação.
Minas Gerais, apesar de ter permanecido como área de rotatividade migratória,
apresentou saldo migratório ligeiramente negativo, enquanto o Rio de Janeiro
permaneceu na categoria rotatividade migratória, com pequeno saldo migratório
positivo e o estado de São Paulo aparece com declínio no saldo migratório, mas
mantendo-se como área de baixa absorção migratória.
Por esses dados observa-se que o estado do Rio de Janeiro continua sendo
um polo de recepção de línguas alóctones, o que contribui massivamente para um
conjunto de línguas cada vez mais diversificado.

Afluência de índios ao Rio de Janeiro

A história da colonização e dominação do país é pontuada pelas marcas dos


inúmeros conflitos entre as populações indígenas e o Estado. Esses embates, ao
mesmo tempo que revelam posturas antagônicas entre os dois lados, significam os
movimentos de resistência que vêm garantindo ao índio a preservação de sua
identidade étnica. Hoje em dia esses movimentos vêm rompendo fronteiras,
quando se configura uma busca por espaços que se projetam para além da
demarcação oficial das terras indígenas. É o caso, por exemplo, do movimento de
índios de diversas etnias que vêm, em diferentes rotas migratórias, se alojando em
grandes centros urbanos, como no Rio de Janeiro, Vitória, São Paulo, etc.
À época do descobrimento, haveria em torno de três milhões de índios,
hoje, esse total não ultrapassaria 450 mil. Segundo dados do IBGE5, há um
contingente de 25000 índios urbanos vivendo no Rio de Janeiro, pertencentes a
diferentes etnias oriundas de várias regiões do Brasil. Contradizendo esses dados,
segundo informações disponíveis no site da FUNAI 6 , há apenas um total
aproximado de 330 índios Guarani, evidentemente neste total não se incluem os
índios urbanos.
A presença, porém, de índios de diferentes etnias no estado é facilmente
comprovada. Num encontro, por exemplo, realizado na Universidade do Estado do
Rio de Janeiro em 2009, foi registrada a presença de diferentes etnias, tais como:
Guajajara, Krikati, Tukano, Xukuru Kariri, Tembé, Guarani, Pataxó, Tikuna, Kaiapó
e Tabajara. Válido é afirmar que os representantes dessas etnias vivem no Rio de
Janeiro, ou como diz, com ironia, José Guajajara: “vivem em cinco complexos: Maré,
Rocinha, Alemão, Jacarezinho e Juramento7”.
A presença maciça de representantes de diferentes etnias nos grandes
centros urbanos aponta para questões de diferentes ordens. Uma dessas questões
é a comunicação entre indivíduos dessas várias etnias, sobretudo, entre as crianças
e os idosos, em geral, monolíngues. Em outros centros urbanos, onde convivem
indivíduos de diferentes etnias, a questão da língua vem se instituindo em termos
legais, como vimos acima no que se refere à cooficialização de línguas autóctones e
também alóctones em âmbito municipal. No escopo deste nosso trabalho, todo esse
contingente de indígenas que buscam centros, como o Rio de Janeiro, faz aumentar
ainda mais o total de línguas com fluência no estado.
Um balanço sobre esse recorte de línguas autóctones e alóctones, todas

5 Dados com base nos resultados da amostra dos Censos de 1991 e 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística [IBGE]. A população indígena urbana atual deve ser bem maior, estimada em 30000 indivíduos
entre 15 a 65 anos.
6 Fundação Nacional do Índio: www.funai.gov.br.
7 Denominação de cinco grandes favelas do Rio de Janeiro.
candidatas a processo de cooficialização municipal, nos faz assinalar a falta de uma
referência: qual o estatuto das línguas crioulas, faladas em várias regiões do Brasil,
incluindo o Rio de Janeiro? São modalidades de língua pouco estudadas e não
rastreadas pelos censos oficiais. Tem-se aí um tipo de discriminação dessas
línguas pelo silenciamento. Uma condição bem diferenciada das línguas de
imigração.
Com relação às línguas de imigração, ou línguas de herança, pode-se falar
que estas têm uma certa autonomia linguística. Os imigrantes, em grande maioria,
agrupam-se em colônias, com uma gestão própria, administrando escolas com
currículos bilíngues, voltadas para atender os descendentes por um lado, e por
outro, se empenham na manutenção de uma memória da língua de origem. De
onde também decorre a manutenção de práticas culturais, religiosas, valores éticos
e morais, etc. Práticas políticas de gestão de uma identidade histórica, muitas das
quais atestadas também nas comunidades de descendência africana, mas com
status - igualmente histórico - bem diferenciado.

A afluência de refugiados ao Rio de Janeiro

Com relação à presença de refugiados, um dos focos de nossa discussão é


verificar até que ponto o Estado empreende projeto de atendimento no que se
refere à comunicação linguística entre esses que aqui chegam. Segundo dados
divulgados na mídia, o Rio de Janeiro coloca em prática uma posição pioneira,
quando a Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos do Rio de
Janeiro lançou, em 2014, um plano inédito em todo o país que permite formalizar
políticas de atendimentos a refugiados.
Em que medida nesse plano se prevê uma política linguística? Em que
medida o Estado ignora, ou não, todos os entraves oriundos de uma imposição de
uma língua única, quando não se tem como meta uma integração – e não apenas
um acolhimento – na e pelas línguas? Essas são questões da ordem do discurso
que buscamos responder ao longo do de um trabalho mais dimensionado do que o
de hoje. Por ora, destacamos a única passagem do documento que fala sobre a
questão da língua:
“É de responsabilidade do Comitê buscar garantir que os(as)
refugiados(as) e solicitantes que vivam no estado do Rio de Janeiro
tenham acesso efetivo a todos os níveis de educação, com base nas
seguintes diretrizes:

“1. Promoção dos esforços necessários ao acesso à educação tal


qual assegura a legislação internacional e brasileira. 2. Estudo e
promoção das práticas de integração local de refugiados(as) nas
escolas e outros espaços educativos. 3. Pesquisa e articulação da
inserção de refugiados(as) em espaços educativos e de formação que
fomentem em médio prazo a auto-suficiência dos(as) refugiados(as).
4. Utilização de espaços educativos como veiculadores de
informação sobre a condição dos(as) refugiados(as) no Rio de
Janeiro e no Brasil.

Observação importante: Uma vez que a barreira linguística pode tornar


impossível o exercício do direito à educação, o direito à educação
primária gratuita aos(às) solicitantes de refúgio e refugiados(as) deve ser
coordenada com a aprendizagem da língua portuguesa. [grifo nosso].”

Ao sublinharmos a observação acima, chegamos à indagação sobre que


estratégias são previstas para a coordenação entre o ensino regular e a
aprendizagem da língua portuguesa. Num outro trecho do documento em exame,
acena-se com a seguinte possibilidade:

“Qualificar refugiados com domínio do português para tornarem-se


educadores tanto de português como de suas línguas nativas em
classes especiais nas suas comunidades; reativar e fortalecer as
parcerias já estabelecidas com Universidades e Centros
Universitários do Estado do Rio de Janeiro, bem como identificar
novas potenciais “colaborações, com vistas a ampliar a formação
universitária dos refugiados, ampliando as vagas disponíveis para os
refugiados e os esquemas de apoio financeiro para a condução e
conclusão dos estudos de graduação”.

O trecho acima traz como estratégia recorrer a refugiados com domínio do


português para atender a escolarização dos filhos. Vários são os questionamentos
que podemos colocar em pauta com relação a tal estratégia: que refugiados têm
domínio bastante de português para atender a escolaridade de crianças inseridas
em escolas de ensino regular, que cumprem nossos parâmetros curriculares? Em
jogo estão na escola não só falar português, mas também entender da nossa
realidade, da organização administrativa de cidades e estados, da nossa cultura,
enfim, de muitas práticas de convivência. A simples tradução de uma língua para
outra – mesmo que, de fato, hajam falantes que dominem o português – não nos
parece um recurso eficaz. Alguns conceitos teóricos estão mais próximos às
discussões no processo de tradução da língua brasileira para o refugiado ou da sua
para o português, tais como, os conceitos de autoria, heterogeneidade discursiva,
com base no ponto de vista discursivo. É possível, como dispositivo analítico, fazer
recortes relacionados à fidelidade a língua materna, língua estrangeira, língua
brasileira, língua nacional, brasileiro, estrangeiro. A prática da tradução pode ser
analisada, portanto, como um complexo de representações feitas pelo tradutor a
respeito do texto original, com miríades de outros sentidos trazidos por ele na
relação com o sujeito refugiado. “Uma tentativa de estabilização de sentidos seria o
funcionamento discursivo da suposta fidelidade à língua materna, esforçando-se
por impedir novos sentidos ou que eles deslizem para outras leituras. Assim sendo,
travando uma disputa política pelo espaço de enunciação entre línguas, a tradução
acontece no fio do político na língua”. (CALDAS, 2009)
Como se vê, em termos teóricos, é complexa a situação de tradução, mas um
outro fator – bem mais complexo – se agrega a estes: que língua(s) falam os
refugiados? Esta foi a pergunta endereçada ao Assessor de Comunicação do Setor
de Vínculos Solidários da Cáritas/RJ, que respondeu não ter como dar esta
informação já, que “As nacionalidades estão informadas nesse documento [conferir
abaixo], mas os idiomas falados pelas pessoas não são possíveis de se deduzir
fielmente a partir dessas informações, porque é comum haver um país com várias
línguas/dialetos e o refugiado saber apenas um deles”.
O documento a que se refere o assessor é a planilha abaixo, onde se
constata a procedência dos refugiados: há 52 referências de locais de origem, mas
nenhuma referência a qualquer idioma de um total de 4354 indivíduos acolhidos
no estado até setembro do corrente ano [2017].
Chegamos, assim, à questão: que indivíduos atendem ao recurso do plano
de acolhimento do Estado do RJ, quando se afirma haver “refugiados com domínio
do português para tornarem-se educadores tanto de português como de suas
línguas nativas”? A que línguas nativas se referem? Eis aí em conflito a língua
falada pelos refugiados e a modalidade de português trabalhada na escola. O mito
da possibilidade de unificação linguística apaga o movimento de relação das
línguas que aqui são faladas com o português do Brasil e, por consequência,
“falar/ensinar português” se impõe como uma das formas de “acolhimento” dos
que aqui pedem refúgio.
Embora o estado institua juridicamente um plano de acolhimento, em
termos políticos essa medida resvala para algum tipo de solução pragmática:
organizações governamentais buscam recursos para dar assistência a alguns
indivíduos dessa população, a partir de grades temáticas específicas, como por
exemplo, a criação de cooperativas de mulheres costureiras, artesãs, etc; ações
afirmativas geridas por universidades públicas, quando oferecem cursos de
português e diversas atividades culturais; algumas igrejas também se empenham
em conseguir lugar para os refugiados8 e, por fim, a ajuda de parentes e amigos
que aqui chegaram e já se estabeleceram. Não há, pois, uma política em termos de
iniciativas concretas de acolhimento. Há leis, decretos, que determinam a forma
jurídica do sujeito-refugiado, mas a sua estada e sobrevivência fica ao acaso.
Mas quem são os refugiados? Ao nos depararmos com um total
apagamento de referências étnicas quaisquer, todos parecem ser tratados como
uma massa amorfa, sem identidade, lembramos de Bauman (idem), ao citar
Hannah Arendt, é “um saco de gatos a noção de refugiados”. Em contraste, temos o
vocábulo “acolhimento”, que, dada a situação mundial dos que pedem refúgio, nos
remete mais uma vez a Pêcheux: uma política de invasão, absorção e de anulação
de diferenças.

8Casa de Apoio em paróquia de Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, abriga nove sírios. Padre Alex diz que é
chamado de pai pelos refugiados. Ele estuda árabe, o que facilita o contato e a comunicação com o grupo. Ele conta
que a ideia de criar o centro foi a guerra na Síria. "Fiquei sensibilizado com a guerra e abri a casa. Procurei a Cáritas e
disse que tinha o espaço. Comecei com um quarto e tive que ampliar porque começaram a chegar mais sírios no Rio".
(http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015)
Há, claramente, um jogo contraditório entre o acolhimento juridicamente
autorizado e a absorção politicamente negociada da diversidade, quando se elegem
“refugiados quaisquer com domínio de português”. O acolhimento jurídico, por sua
vez, não prevê o acolhimento físico. Mas por que aqui chegam?
A resposta pode estar num dos últimos trabalhos de Foucault (1984).
Deslocando o poder como objeto de reflexão, o autor busca entender como o
homem se constitui em sujeito, afirmando que tal processo não se dá por vontade
própria, mas sim pelas muitas formas de relação com o poder. A partir daí
podemos pensar, pelas formas de relação com o poder, como se chega à forma-
sujeito-refugiado: (i) por uma questão de contingência – a guerra e (ii) pela
necessidade de fuga para um não-lugar.
Um não-lugar que, como já observamos acima, está sempre prestes a se
desterritorializar, já que cada país que recebe refugiados espera pela repatriação
voluntária, pelo auxílio e colaboração na integração local no país de refúgio e
reassentamento, reenviando o refugiado para um terceiro país, desde que fique em
segurança.
E como chegar a esse não-lugar?
Como diz Foucault, pelas lutas transversais, enfrentando embates,
obstáculos e até a morte. São essas as condições que determinam uma posição
discursiva de ser sempre refugiado. O acolhimento, em verdade, se institui como
prática assistencialista (cf: nota 8), forjada por um complexo de técnicas
individualizantes. O que não é mais do que: “o poder do Estado ocidental moderno
integrou sob um nova forma política, uma velha técnica de poder que nasceu nas
instituições cristãs, a chamamos de o poder pastoral9.” ( idem: 304).

Conclusão
Tomamos a palavra “acolhimento” como base para nossa reflexão e
chegamos ao conflito. Por ora, não temos como responder que línguas são faladas
no Rio de Janeiro, levando em conta as línguas dos milhares refugiados. Temos,
apenas, os dados censitários: no Rio de Janeiro, são faladas, além da língua
9Tradução nossa. “l’État occidental modern a integré, sous une forme politique nouvelle, une vieille technique
de pouvoir qui était née dans les instituitions chrétiennes. Cette technique de pouvoir, appelons-la le pouvoir
pastoral”.
indígena guarani mbyá, as línguas de 25000 índios em contexto urbano, as
modalidades de línguas de herança, faladas por portugueses, alemães, suíços,
italianos, finlandeses, japoneses, e tantos outros.
A consecução plena deste trabalho estará investindo numa política de
línguas em sentido amplo, e colocará em xeque diversos aspectos no que se refere
ao tratamento dado às línguas: o aspecto da unidade linguística, pensado como
princípio de organização da nação; as formas de poder em relação com outros
idiomas, definido como princípio básico ao acolhimento e, por fim, a possibilidade
de dar a conhecer a diversidade (por oposição à unidade) de línguas que afetam o
português, deixando aqui traços de herança.
Enfim, esbarraremos em questões forjadas pelo aumento de línguas faladas
em território nacional em confronto com uma política em prol do monolinguismo
adotada pelo Estado brasileiro.

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