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Barroso e Gilmar, um histórico de troca de

farpas
Ministros do STF já protagonizaram discussões no
plenário e ataques nos bastidores
POR O GLOBO
28/02/18 - 18h12 | Atualizado: 28/02/18 - 20h52

Os ministros do STF Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso - Montagem sobre fotos

RIO — A troca de acusações entre os ministros Gilmar


Mendes e Luís Roberto Barroso, nesta quarta-feira, é mais um
episódio dos embates entre os integrantes do Supremo Tribunal
Federal. De perfis opostos, os ministros já provocaram momentos de
tensão no plenário da Corte, com direito a críticas diretas e bate-boca
durante julgamentos.

Veja a seguir os episódios:

TROCA DE FARPAS PELA IMPRENSA


O episódio mais recente da troca de acusações ocorreu nesta quarta-
feira. Gilmar disse ao blog jornalista Andréia Sadi, do G1, que Barroso
“fala pelos cotovelos” e “precisa suspender a própria língua”:

— O Barroso que não sabe o que é alvará de soltura, fala pelos


cotovelos. Antecipa julgamento. Fala da malinha rodinha. Precisaria
suspender a própria língua — afirmou.

Barroso respondeu por meio de nota, na qual fez referência aos


frequentes encontros — muitos deles fora da agenda — entre Gilmar e o
presidente Michel Temer, assim como a proximidade dele com
políticos investigados, como o senador Aécio Neves (PSDB-MG).

“Jamais antecipei julgamento. Nem falo sobre política. Eu vivo para o


bem e para aprimorar as instituições. Sou um juiz independente, que
quer ajudar a construir um país melhor e maior. Acho que o Direito
deve ser igual para ricos e para pobres, e não é feito para proteger
amigos e perseguir inimigos. Não frequento palácios, não troco
mensagens amistosas com réus e não vivo para ofender as pessoas”,
escreveu Barroso.

DIVERGÊNCIA DE OPINIÃO

Em junho, durante o julgamento da delação da JBS, o clima azedou


entre os dois ministros, que têm posições diferentes sobre as regras das
delações premiadas. Gilmar chegou a deixar o tribunal após a discussão
com Barroso, antes de a sessão terminar.

‘Essa é a opinião de Vossa Excelência. Deixe os outros votarem’


- Gilmar MendesMinistro do STF

Barroso, que votou com a maioria pela manutenção da forma como as


colaborações são feitas, reagiu irritado quando Gilmar o acusou de não
respeitar posições divergentes.

— Essa é a opinião de Vossa Excelência. Deixe os outros votarem —


exaltou-se Gilmar.
— Sim, mas está todo mundo vontando — respondeu Barroso.

— Claro. E respeite o voto dos outros — reagiu Gilmar.

‘Não pode: acho que vou perder e vou embora. Não! Estamos
discutindo’
- Luís Roberto BarrosoMinistro do STF

— Claro, vou plenamente respeitar os votos dos outros. Estou ouvindo


Vossa Excelência. Inclusive foi Vossa Excelência que ontem suscitou: a
questão não é só essa, temos outras considerações. E em consideração
à de Vossa Excelência, eu trouxe a minha. Agora não pode: acho que
vou perder e vou embora. Não! Estamos discutindo — devolveu
Barroso.

ATAQUES DIRETOS

Em outubro, quando o STF analisava uma emenda à Constituição que


extinguiu o Tribunal de Contas do Municípios do Ceará, Gilmar e
Barroso protagonizaram uma discussão com ataques diretos, que
manteve os outros ministros em silêncio. A presidente do Supremo,
ministra Cármen Lúcia, até tentou apaziguar os ânimos, mas as
acusações continuaram. Ela, então, encerrou a sessão.

O bate-boca começou quando Gilmar ironizou a situação do Rio de


Janeiro, dizendo que o estado não era podia ser tomado exemplo.
Barroso, que é natural do Rio, não gostou e reagiu, afirmando que o
colega “não trabalha com a verdade”, “muda de jurisprudência de
acordo com o réu” e tem parceria com “a leniência em relação à
criminalidade do colarinho branco”. Na tréplica, Gilmar acusou
Barroso de ter advogado para “bandidos internacionais”.

‘Vossa Excelência, quando chegou aqui, soltou José Dirceu’


- Gilmar MendesMinistro do STF

— Gente, citar o Rio de Janeiro como exemplo... — disse Gilmar.


— Eles devem achar que é Mato Grosso, onde está todo mundo preso —
rebateu Barroso, mencionando o estado de origem de Gilmar.

— No Rio, não estão (presos)? — questionou Gilmar.

— Aliás, nós prendemos, tem gente que solta — prosseguiu Barroso.

— Solto cumprindo a Constituição. Vossa Excelência, quando chegou


aqui, soltou José Dirceu — afirmou Gilmar.

‘Vossa Excelência está ocupando tempo do plenário com um assunto


que não é pertinente para destilar esse ódio constante que Vossa
Excelência tem e agora o dirige contra o Rio’
- Luís Roberto BarrosoMinistro do STF

— É mentira. Aliás, Vossa Excelência normalmente não trabalha com a


verdade. Gostaria de dizer que José Dirceu foi solto por indulto da
presidente da República. Vossa Excelência está fazendo um comício
que não tem nada que ver com o Tribunal de Contas do Ceará. Vossa
Excelência está queixoso porque perdeu o caso dos precatórios e está
ocupando tempo do plenário com um assunto que não é pertinente
para destilar esse ódio constante que Vossa Excelência tem e agora o
dirige contra o Rio. Vossa Excelência deveria ouvir a última música do
Chico Buarque. "A raiva é filha do medo e mãe da covardia". Vossa
Excelência fica destilando ódio o tempo inteiro. Não julga, não fala
coisas racionais, articuladas. Sempre fala coisas contra alguém, sempre
com ódio de alguém, com raiva de alguém — declarou Barroso.

No dia seguinte, Barroso reconheceu que se exaltou no plenário, mas


não considerou que “tenha passado da linha”.

CRÍTICAS E DESABAFOS

Um novo embate ocorreu no dia 19 de dezembro, quando o STF


discutia questões relacionadas a investigações contra políticos. Depois
que Gilmar criticou o ex-procurador-geral Rodrigo Janot, Barroso
reagiu dizendo “vivemos uma tragédia brasileira, a tragédia da
corrupção que se espalhou de alto a baixo sem cerimônia”.

‘Criamos um monstro (o MP). E o pior: investigação mal feita. Um


vexame institucional completo de gente que não sabe investigar e foi
investido por nós desse poder.’
- Gilmar MendesMinistro do STF

— Criamos um monstro (o Ministério Público). E o pior: investigação


mal feita. Juntam áudio e não pede, perícia. Um vexame institucional
completo de gente que não sabe investigar e foi investido por nós desse
poder. É uma grande bagunça, um grande caos, com corta e cola,
contradições apontadas. Isso é vexaminoso para o tribunal e temos
obrigação de definir minimamente para que isso não prossiga —
reclamou Gilmar, acrescentando: — O populismo judicial é responsável
por esse tipo de assanhamento criminal. A história não vai nos poupar.
A covardia com que tratamos os temas vai ser cobrada.

Barroso rebateu:

— Eu não acho que há uma investigação irresponsável. Há um país que


se perdeu pelo caminho, naturalizou as coisas erradas, e nós temos o
dever de enfrentar isso e de fazer um novo país, de ensinar as novas
gerações de que vale a pena fazer honesto, sem punitivismo, sem
vingadores mascarados, mas também sem achar que ricos criminosos
têm imunidade. Porque não têm. Tem que tratar o menino pego com
100 gramas de maconha da mesma forma que se trata quem desvia
milhões de reais — afirmou.

‘Há diferentes formas de ver a vida e todas merecem consideração e


respeito. Eu gostaria de dizer que eu ouvi o áudio ‘Tem que manter isso
aí, viu’. Eu quero dizer que eu vi a fita, eu vi a mala de dinheiro, eu vi a
corridinha na televisão.’
- Luís Roberto BarrosoMinistro do STF

Na sequência, Barroso fez um desabafo:


— Há diferentes formas de ver a vida e todas merecem consideração e
respeito. Eu gostaria de dizer que eu ouvi o áudio "Tem que manter
isso aí, viu". Eu quero dizer que eu vi a fita, eu vi a mala de dinheiro, eu
vi a corridinha na televisão. Eu li o depoimento de Youssef. Eu li o
depoimento de Funaro.

E continuou:

— Portanto nós vivemos uma tragédia brasileira, a tragédia da


corrupção que se espalhou de alto a baixo sem cerimônia. Um país em
que o modo de fazer política e negócios funciona assim. O agente
político relevante escolhe o diretor da estatal ou ministro com cotas de
arrecadação. E o diretor da estatal contrata em licitação fraudada a
empresa que vai superfaturar a obra ou o contrato público para depois
distribuir dinheiros.