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ser que os meninos com ranqueamento mais baixo na ATE sejam proporcionalmente mais

felizes que os meninos mais bem ranqueados, já que nós (que em geral não somos criancinhas)
sabemos que é mais revigorante querer do que ter, ao que parece. Se bem que de repente isso
é só o avesso da mesma ilusão.
Hal Incandenza, embora não tenha ideia de por que de verdade o seu pai pôs a cabeça num
forno de micro-ondas especialmente alterado no Ano do Chocolate Dove Tamanho-Boquinha,
tem quase certeza de que não foi por causa da anedonia-padrão dos EU. O próprio Hal não
tem uma genuína emoção tipo intensidade-da-vida-interior desde que era pequenininho; ele
acha que termos como joie e valor são apenas variáveis em equações rarefeitas, e consegue
manipulá-los direitinho a ponto de garantir a todo mundo menos ao próprio Hal que está ali,
dentro da sua carcaça, enquanto ser humano — mas na verdade ele é bem mais robótico que
John Wayne. Um dos problemas dele com a sua Mães é Avril Incandenza achar que o conhece
do avesso enquanto ser humano, e além de tudo um ser humano internamente valioso, quando
na verdade dentro de Hal basicamente não há nada, ele sabe. A sua Mães Avril ouve os seus
próprios ecos dentro dele e acha que o que está ouvindo é ele, e isso faz Hal sentir a única
coisa que sente até o fim, ultimamente: solidão.
É questão de certo interesse perceber que as artes populares dos EUA da virada do milênio
tratam a anedonia e o vazio interno como coisas descoladas e cool. De repente são vestígios
da glorificação romântica do Weltschmerz, que significa estar cansado do mundo, ou um tédio
elegante. De repente é o fato de que quase todas as artes aqui são produzidas por gente mais
velha cansada do mundo e sofisticada e aí consumida por pessoas mais jovens que não apenas
consomem arte mas a examinam em busca de pistas de como ser chique, cool — e não esqueça
que, para os jovens em geral, ser chique e cool é o mesmo que ser admirado, aceito e incluído
e portanto assolitário. Esqueça a dita pressão-dos-pares. É mais tipo uma fome-de-pares.
Não? Nós entramos numa puberdade espiritual em que nos ligamos ao fato de que o grande
horror transcendente é a solidão, fora o enjaulamento em si próprio. Depois que chegamos a
essa idade, nós agora daremos ou aceitaremos qualquer coisa, usaremos qualquer máscara
para nos encaixar, ser parte-de, não estar Sós, nós os jovens. As artes dos EU são o nosso guia
para a inclusão. Um modo-de-usar. Elas nos mostram como construir máscaras de tédio e de
ironia cínica ainda jovens, quando o rosto é maleável o suficiente para assumir a forma
daquilo que vier a usar. E aí ele se prende ao rosto, o cinismo cansado que nos salva do
sentimentalismo brega e do simplismo não sofisticado. Sentimento é igual a simplismo neste
continente (ao menos desde a Reconfiguração). Uma das coisas de que os espectadores
sofisticados sempre gostaram em O século americano visto por um tijolo de J. O. Incandenza
é a sua tese nada sutil de que o simplismo é o último pecado realmente terrível na teologia da
América da virada do milênio. E como o pecado é o tipo de coisa de que se pode falar apenas
figuradamente, é natural que o cartuchinho pessimista de Sipróprio fosse basicamente sobre
um mito, a saber, o mito americano bizarramente persistente de que o cinismo e o simplismo
são mutualmente excludentes. Hal, que é vazio mas não é besta, teoriza privadamente que o
que passa pela transcendência descolada do sentimentalismo é na verdade algum tipo de medo
de ser realmente humano, já que ser realmente humano (ao menos como ele conceitualiza essa
ideia) é provavelmente ser inevitavelmente sentimental, simplista, pró-brega e patético de
modo geral, é ser de alguma maneira básica e interior para sempre infantil, um tipo de bebê de
aparência meio estranha que se arrasta anacliticamente pelo mapa, com grandes olhos úmidos
e uma pele macia de sapo, crânio enorme, baba gosmenta. Uma das coisas realmente
americanas no Hal, provavelmente, é como ele despreza o que na verdade gera a sua solidão:
esse horrendo eu interno, incontinente de sentimentos e necessidades, que lamenta e se
contorce logo abaixo da máscara vazia e descolada, a anedonia.281
A imagem-chave mais central e famosa de O século americano visto por um tijolo é uma
corda de piano vibrando — um ré agudo, ao que parece — vibrando e produzindo um solo
sem enfeites e bem doce mesmo, e aí um polegarzinho entra no quadro, um dedão rombudo,
úmido, pálido e no entanto craquento, com umas coisas suspeitas incrustadas num dos cantos
da unha, pequeno e sem rugas, claramente um polegar infantil, e no que ele toca a corda de
piano o som doce e agudo imediatamente morre. E o silêncio que se segue é dolorosíssimo.
Num momento posterior do filme, depois de muito seguirmos panorâmica, didática e
causticamente aquele tijolo, voltamos à corda de piano, o dedão é retirado e o doce som
agudo recomeça, extremamente puro e solo, no entanto agora de alguma maneira, quando o
volume vai aumentando, agora com algo de podre sob a superfície, há algo de enjoadamente
doce, quase passado e potencialmente pútrido naquele ré agudo e límpido enquanto o seu
volume sobe cada vez mais, o som ficando mais puro, mais alto e mais disfórico até depois de
surpreendentemente poucos segundos nós nos vermos bem no meio do puro som sem surdina
desejando e talvez até rezando pelo retorno do dedão natal, para acabar com aquilo.
Hal ainda não tem idade para saber que isso se deve ao fato de que o vazio inerte não é o
pior tipo de depressão. A anedonia de olhos mortos é apenas a rêmora do flanco central do
verdadeiro predador, o Grande Tubarão Branco da dor. As autoridades chamam essa situação
de depressão clínica ou involucional, ou transtorno disfórico unipolar. Ao contrário de
apenas uma incapacidade de sentir, um amortecimento da alma, a depressão calibre-predador
que Kate Gompert sempre sente quando entra em Abstinência da marijuana secreta é ela
própria uma sensação. Ela recebe muitos nomes — angústia, desespero, tormento, ou p. ex. a
melancholia de Burton ou a mais oficial depressão psicótica de Yevtushenko — mas Kate
Gompert, entrincheirada na batalha, a conhece apenas como Aquilo.
Aquilo é um nível de dor psíquica totalmente incompatível com a vida humana como a
concebemos. Aquilo é uma sensação de um mal radical e onipresente não só como
característica mas como a essência da existência consciente. Aquilo é uma sensação de
envenenamento que toma todo o eu nos seus níveis mais elementares. Aquilo é uma náusea das
células da alma. Aquilo é uma intuição ininerte em que o mundo é plenamente rico e dotado de
ânimo e não mapístico e também completamente doloroso, maligno e antagônico ao eu, eu
deprimido este em torno do qual Aquilo se enfuna e se coagula e que envolve em suas pregas
negras e absorve completamente, de modo que se atinge uma unidade quase mística com um
mundo que em cada partícula sua deseja o mal e a dor do eu. O caráter emocional d’Aquilo, a
sensação que Gompert descreve que Aquilo é, é provavelmente praticamente indescritível a
não ser como uma espécie de beco-sem-saída lógico em que qualquer/todas as alternativas
que associamos à ação humana — sentar ou ficar de pé, fazer ou repousar, falar ou ficar
calado, viver ou morrer — são não apenas desagradáveis mas literalmente horríveis.
Aquilo também é solidão num nível que não pode ser comunicado. Nem a pau Kate Gompert
poderia sequer começar a fazer outra pessoa entender a sensação da depressão clínica, nem
mesmo outra pessoa que esteja também clinicamente deprimida, porque uma pessoa nesse
estado é incapaz de empatizar com qualquer coisa viva. Essa Incapacidade anedônica de se
Identificar também é parte integrante d’Aquilo. Se uma pessoa com uma dor física acha difícil
cuidar de qualquer outra coisa fora aquela dor,282 uma pessoa clinicamente deprimida não
consegue nem perceber qualquer outra pessoa ou coisa como independende da dor universal
que a está digerindo célula a célula. Tudo é parte do problema, e não há solução. É um inferno
de uma só pessoa.
O termo oficial depressão psicótica faz Kate Gompert se sentir especialmente só.
Especificamente a parte psicótica. Pense nisso nos seguintes termos. Duas pessoas estão
gritando de dor. Uma delas está sendo torturada com uma corrente elétrica. A outra, não. A
gritadora que está sendo torturada com corrente elétrica não é psicótica: seus gritos são
circunstancialmente adequados. A pessoa que grita sem estar sendo torturada, por outro lado, é
psicótica, já que os terceiros que farão os diagnósticos não podem ver eletrodos ou uma
amperagem mensurável. Uma das coisas menos agradáveis de se ser psicoticamente deprimido
numa enfermaria cheia de pacientes psicoticamente deprimidos é perceber que nenhum deles é
de fato psicótico, que os gritos deles todos são completamente adequados a certas
circunstâncias cujo encanto especial é serem parcialmente indetectáveis por qualquer terceiro.
Daí a solidão: é um circuito fechado: a corrente é tanto aplicada quanto recebida internamente.
A pessoa dita “psicoticamente deprimida” que tenta se matar não o faz por entre aspas
“desesperança” ou por qualquer convicção abstrata de que os ativos e os débitos da vida não
batem. E certamente não porque a morte pareça subitamente atraente. A pessoa em que a
agonia d’Aquilo atinge um certo nível insustentável vai se matar exatamente como uma pessoa
encurralada vai acabar pulando da janela de um arranha-céu em chamas. Não se iluda sobre as
pessoas que pulam de janelas em chamas. O pavor que elas têm de cair de grandes alturas
ainda é tão grande quanto seria para você ou para mim ali parados especulativamente na
mesma janela só dando uma olhada na vista; ou seja, o medo de cair é uma constante. A
variável aqui é o outro terror, as chamas do incêndio: quando as chamas chegam perto demais,
cair para a morte se torna um terror algo menos terrível que o outro. Não é desejar a queda; é
o pavor das chamas. No entanto ninguém que esteja lá na calçada, olhando para cima e
gritando “Não faça isso!” e “Força!” entende o salto. No fundo. Você teria que ter estado
pessoalmente acuado e sentindo as chamas para entender de verdade um terror bem maior que
a queda.
Mas e então a ideia de uma pessoa que está nas garras d’Aquilo ser obrigada por um
“Contrato de Suicídio” que certa bem-intencionada casa de recuperação de abuso de
Substâncias faz ela assinar é simplesmente absurda. Porque um contrato como esse vai ter
força sobre essa pessoa exatamente até que as mesmas circunstâncias psíquicas que tornaram
o contrato necessário para começo de conversa se estabeleçam, invisível e indescritivelmente.
Que os bem-intencionados Funcionários da casa de recuperação não entendam o terror
primordial d’Aquilo só deixa o residente deprimido se sentindo mais sozinho.
Outro paciente psicoticamente deprimido que Kate Gompert conheceu no Hospital Newton-
Wellesley em Newton dois anos atrás era um homem de seus cinquenta anos. Ele era um
engenheiro civil cujo hobby eram trenzinhos elétricos — tipo da Lionel Trains etc. — para os
quais ele erigia sistemas incrivelmente intricados de trilhos e entroncamentos que ocupavam
toda a sua sala de recreação no porão. A esposa dele trazia fotos dos trens e das redes de
treliças e trilhos para a enfermaria trancada por fora, para ajudá-lo a lembrar. O homem dizia
que estava sofrendo de depressão psicótica havia dezessete anos direto, e Kate Gompert não