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TEMPO DE RASGAR,

TEMPO DE COSTURAR

CARLOS EDUARDO NUNES

1ª Edição

Câmara Brasileira de Jovens Escritores


~3~
Copyright©Carlos Eduardo Nunes

Câmara Brasileira de Jovens Escritores


Rua Crundiúba 71/201F - Cep 21931-500
Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 3393-2163
www.camarabrasileira.com
cbje@globo.com

Março de 2012

Primeira Edição

Coordenação editorial: Gláucia Helena


Editor: Georges Martins
Produção gráfica: Alexandre Campos
Projeto gráfico da capa: Heytor Alberto Valente Moore
Revisão: do autor

Contatos com o autor:


carlosenunes2003@hotmail.com

Página na Internet (Blog):


http://www.carloseduardonunes.blogspot.com

É proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por


qualquer meio e para qualquer fim, sem a autorização
prévia, por escrito, do autor.
Obra protegida pela Lei de Direitos Autorais

~4~
Não tolero mais amor em migalhas.
Em matéria de sentimentos, não aceito mais café puro, pão
com manteiga ou arroz com feijão. Quero me servir dos
melhores pratos.
Um café da manhã de emoções, com chás, leite, pães
maravilhosos, geleias e frutas. Um almoço de sensações
gostosas. Um jantar de prazeres inimagináveis.
E se não for assim, prefiro passar fome por várias estações
até que possa estar de novo em seus calorosos braços. Porque
a vida é curta, o tempo passa muito depressa, e não há mais
tempo a se perder com amores que não amam, nem com
paixões que não ardem.
Há um tempo para tudo debaixo do céu, tempo de rasgar,
tempo de costurar, tempo de viver, amar e ser feliz. Fazer de
nossos dias momentos que valham a pena deveria ser a nossa
meta. Realizar nossos sonhos, o desejo principal. E ser feliz é
uma condição que devemos impor a nós mesmos.

Este texto foi baseado no poema “Amor em migalhas” de autoria de Carlos Eduardo
Nunes. O texto original está inserido dentro deste livro.

~5~
A vida precisa de um objetivo!
Precisamos ser protagonistas de nossa própria história!

~6~
APRESENTAÇÃO

O texto original de “Tempo de rasgar, tempo de costurar” foi


escrito no ano de 2005. A ideia original é a mesma aqui
apresentada, sendo uma obra teatral. Recentemente, pensei em
fazer uma adaptação da obra no formato de um romance, mas
entendi que após tanto tempo guardada dentro da gaveta, que ela
deveria seguir no formato original.
Nesta época, para dar publicidade a meus textos, eu
publicava poesias e contos na internet, de forma que as pessoas
pudessem ler e comentar. Assim, eu mantinha um blog com
publicações regulares, alimentando as pessoas com meus textos,
mas, acima de tudo, alimentando meu ego com os comentários que
eram muito positivos.
Através do blog, conheci virtualmente Cilene Lira, que
acabara de se formar como atriz na CAL (Casa de Artes das
Laranjeiras). Através do blog ela perguntou se eu não gostaria de
escrever uma peça de teatro para o grupo que acabara de criar. Foi
assim que eu me debrucei sobre esta história, um drama romântico.
Infelizmente, no meio do texto, ela me informou que o grupo queria
uma peça no gênero comédia, cujo tema seria “manias”.
Ao concluir “Tempo de rasgar, tempo de costurar”, iniciei a
escrita de “Uma comédia em família”, baseada no modelo do
seriado “Sai de Baixo”, com os atores entrando e saindo de cena
num ritmo frenético. Contava a história de uma tia e uma sobrinha
que vinham de surpresa passar um período na casa da família, que
estava em obras, causando um grande transtorno. Mas esta história,
embora eu tenha finalizado, nunca apresentei para ninguém, pois
foram raros os momentos em que eu mesmo a julguei engraçada.
“Tempo de rasgar, tempo de costurar”, até a presente data,
é considerada em seu conjunto, como um de meus melhores textos,
~7~
senão o melhor. A história de Heitor e Estela é o resultado de um
estudo particular sobre a forma de escrever roteiros. Para tanto,
mergulhei em obras que jamais pensava existir.
Foi assim que pude ter o prazer de ler os livros de Syd Field
(Manual do Roteiro), Christopher Vogler (A Jornada do Escritor) e
Joseph Campbell (A Jornada do Herói). Este três livros modificaram
totalmente a visão que eu tinha sobre a literatura e a forma de
escrever uma história, e me ajudaram a depurar ainda mais as
maneiras de se criar personagens, de lapidar o texto.
Estou concluindo esta edição a ser publicada de “Tempo de
rasgar, tempo de costurar” em março de 2012, quase sete anos
depois de ter me debruçado sobre o computador para escrevê-lo.
Com toda certeza, não sou mais o mesmo, afinal, tanta coisa
aconteceu neste período. No entanto, preservei a essência original
da peça teatral, incluindo apenas algumas falas, incluindo uma ou
outra cena, fazendo com que a história fluísse ainda mais pelos
caminhos propostos.
Como uma peça teatral, este livro está organizado em
diálogos. Em negrito surgirão detalhes das cenas, como imaginei
que elas deveriam estar dispostas quando vier a ser encenada.
Espero que sua leitura seja prazerosa, e que a história de
Heitor e Estela possa tocar seu coração, e que você não deixe,
jamais, de acreditar no amor, em seus sonhos e, principalmente, em
você mesmo.
Carlos Eduardo Nunes

~8~
PRÓLOGO

Todo livro, por maior que seja, começa com uma pequena palavra.
É como uma longa jornada, iniciada com o primeiro passo. Às vezes
a caminhada é longa, faltam palavras, se esvai a inspiração após
um exaustivo dia. No entanto, a cada esquina, o inesperado pode
acontecer, e a inspiração, a escrita efervescente do texto, pode vir a
fluir como água corrente da mais límpida fonte, cristalina, inodora,
insípida e incolor.

~9~
Silêncio. Luz abrindo num foco central em resistência baixa.
Heitor sentado em sua sala tendo à frente sua máquina de
escrever. No chão, ao seu redor, há outras folhas de papel
amassadas.
Entra Música! (Sugiro que seja “Outono” de Vivaldi)
Heitor Uma das coisas que eu gosto mais de fazer na
vida é sentar no banco de uma pequena praça e
pensar. Pensar em nada especificamente,
procurando apenas esvaziar a mente do excesso
de pensamentos e responsabilidades. Mas nunca
consigo ficar muito tempo assim, pois sempre
acontece alguma coisa que me tira deste estado
de reflexão.
Estela entra em cena. Aproxima-se de Heitor e põe as mãos no
ombro dele, por trás.
Heitor Foi num domingo como esse que Estela apareceu
em minha vida. Era um dia comum, como outro
qualquer, onde pouco ou nada podia se esperar de
novo. Todas as manhãs de domingo, eu ia até
aquela praça, considero aquele um de meus
lugares sagrados, pois era o lugar onde eu
brincava na infância e hoje fico admirando as
crianças fazendo o mesmo. Os tempos mudaram.
Eu mesmo mudei; quase deixei de acreditar nos
meus sonhos, no meu potencial, na vida e no
amor, após dois casamentos que não deram certo.
Heitor e Estela beijam-se demoradamente. Após o beijo ela
senta-se em seu colo.
Heitor E foi aí que ela entrou. Estela estava sentada aos
pés de uma árvore, chorando, precisando de um
~ 10 ~
ombro amigo, mesmo que fosse de um
desconhecido. Eu precisava de alguém para
conversar, mesmo que fosse com uma
desconhecida.
Música sobe um pouco!
Heitor A gente nunca se esquece de alguém que
amamos.
Estela se afasta lentamente de Heitor.
Heitor Estela era uma mulher especial e apareceu em
minha vida para ocupar o lugar de musa
inspiradora. Eu sei que hoje em dia as pessoas
não acreditam mais nisso. Ela dizia que não
acreditava mais em sonhos. Adorava ler meus
textos, saber o signo das pessoas e fazer
associações com o seu. Dizia que eu era um gênio
da humanidade, um anjo que caíra do céu
justamente para protegê-la.
Estela se aproxima novamente de Heitor abraçando-o por trás.
Heitor Quando passamos a nos encontrar eu lhe dizia
que há tempos não estava tendo nenhuma
inspiração, nada tocava meu espírito criador e, por
mais que tentasse, nenhuma palavra era escrita
com algum sentido. Ela me incentivou a escrever
uma peça de teatro, trouxe livros sobre como criar
bons personagens e como dividir a narrativa de
uma história, mas eu achava que tudo o que sabia
era reunir versos, formar um poema e depois
colocá-los na gaveta junto com uma centena de
textos.
Música sobe um pouco mais!
~ 11 ~
Heitor Conhecê-la me permitiu escrever estas palavras.
Mas por uma razão muito especial, estas palavras
não são tristes, mas sim, palavras de lembrança,
porque um dia duas pessoas se conheceram em
uma praça, e isso fez toda a diferença. Entre
encontros e desencontros, hoje, trago uma certeza
comigo: de que tudo tem a sua ocasião própria, e
há tempo para todo propósito debaixo do céu. Há
tempo de rasgar e tempo de costurar...
Música sobe forte dominando a cena. Luz caindo até o black-
out.

~ 12 ~
CENA 1

Se olhamos hoje um casal, jamais imaginamos como se


conheceram. Pode ter sido numa fila de cinema, num bar, numa
boate, no trabalho, caminhando pela rua ou numa praça qualquer.
Para o amor acontecer não tem hora ou ocasião exata. Você só
precisa estar com o coração aberto e receptivo ao que a vida pode
lhe oferecer.

~ 13 ~
Luz abrindo em resistência. Heitor sentado no banco da praça
escrevendo um texto em uma folha de papel. Sugiro que haja
crianças correndo ao fundo ou crianças brincando em algum
equipamento de praça (balanço, escorrega, amarelinha, etc).
Um clima de magia se instala. É preciso que seja algo que
possa demonstrar que ele está envolvido na criação de um
poema.
Entra música (Sugiro que seja “Outono” de Vivaldi a partir de
1:10min) em sintonia com suas mãos aumentando
gradativamente. (Sugiro que o ator declame o texto como se o
estivesse escrevendo naquele momento).
Heitor Não tolero mais amor em migalhas.
Em matéria de sentimentos, não aceito mais café
puro, pão com manteiga ou arroz com feijão.

Quero me servir dos melhores pratos.


Um café da manhã de emoções, com chás, leite,
pães maravilhosos, geléias e frutas.

Um almoço de sensações gostosas. Um jantar de


prazeres inimagináveis. E se não for assim, prefiro
passar fome por uns dias até que possa estar de
novo em seus braços.
Porque não há mais tempo a se perder com
amores que não amam, nem com paixões que não
ardem...

Música pára. Heitor pára de escrever. Olha ao seu redor. Volta-


se para o papel. Tenta continuar, mas faltam-lhe palavras. (A

~ 14 ~
idéia é mostrar que sua inspiração está fugindo, e que ele não
consegue completar o poema).
Ele põe as mãos na cabeça. Faz menção de rasgar o texto.
Tenta insistir com o texto e repete o último verso:
Heitor Nem com paixões que não ardem...
Pára novamente. Olha para a caneta. Bate contra a folha de
papel. Tenta novamente:
Heitor Nem com paixões que não ardem...
Desiste. Guarda a caneta no bolso. Dobra o papel, mas
permanece com a folha nas mãos. Então Heitor olha em direção
à árvore na praça e vê uma mulher sentada na grama. Percebe
que ela está chorando e se aproxima.
Música cresce, lentamente. Transição de luz. Cena abre-se por
completo.
Heitor Posso lhe ajudar?
Estela apenas balança a cabeça negativamente, sem olhar para
ele.
Heitor Está passando mal? Algum problema?
Estela olha para ele e novamente balança a cabeça
negativamente.
Heitor Sei que pode parecer estranho alguém se
aproximar e querer ajudar, principalmente nestes
tempos em que vivemos, mas tem certeza de que
não há nada de errado?
Estela desvia o olhar em outra direção. Num tom bem baixo,
responde:

~ 15 ~
Estela Não há nada de errado. Pelo menos nada demais.
Vai passar.
Heitor Sabe, eu gosto muito desta praça. Quando eu era
apenas um garoto meus pais me traziam até aqui
para brincar. Foi neste lugar que eu ganhei essa
cicatriz.
Heitor lhe mostra o joelho.
Heitor É incrível como todo mundo que conheço tem uma
cicatriz no joelho.
Estela sorri acanhadamente.
Heitor Pelo seu sorriso acho que confirma a minha tese.
Estela Sim. Também tenho uma cicatriz no joelho. Caí da
gangorra também em uma praça quando eu tinha
apenas sete anos.
Heitor Eu caí do balanço.
Heitor ainda segura a folha de papel em uma das mãos.
Heitor expressa corporalmente a frase seguinte:
Heitor Achava que poderia fazer com que meu corpo fosse
lançado contra o ar, com as mãos livres, com muita
velocidade, sem maiores problemas. E foi como eu
pensei, mas fui arremessado diretamente até que
meus joelhos tocaram o chão.
Estela sorri com mais suavidade.
Estela Bons tempos.
Heitor Ótimos tempos. E foi nesse momento que meu pai
me deu uma palmada, dizendo que eu estava
querendo chamar a atenção das pessoas. Minha
mãe me abraçou naquele dia e disse que sempre
~ 16 ~
que eu caísse que levantasse de cabeça erguida,
independente da dor.
Ambos ficam um pequeno espaço de tempo em silêncio, como
se pensassem no passado.
Heitor Sei que nestes tempos violentos isso seria
reprovado por nossos pais, mas posso me sentar
ao seu lado?
Estela termina de limpar as lágrimas.
Estela. Pode.
Heitor se senta ao chão ao lado dela. (Sugiro uma distância de
aproximadamente um metro). Heitor deixa a folha de papel ao
seu lado. (Não entre ela e ele)
Estela A juventude passa tão depressa e a gente fica boa
parte do tempo querendo crescer logo. Lembro-me
de querer crescer para subir na árvore mais alta,
depois para poder ir ao shopping com minhas
amigas. Acho que a gente aprende muito cedo o
sentido da vida, e por isso penso que desta mesma
forma, a gente se esquece muito cedo também.
Heitor Tem razão. Porque estava chorando? Quer falar
sobre isso?
Estela Poderia lhe dizer que é amor. Poderia lhe dizer que
é a falta dele. Mas seria apenas uma forma de dizer
ou esconder o que estou sentindo. São tudo
palavras. Apenas palavras.
Heitor Brigou com seu namorado?
Estela fica em silêncio.

~ 17 ~
Heitor Quando eu era adolescente, amei muito uma
menina, mas seus pais faziam de tudo para que
não pudéssemos nos encontrar. Quando ela me
disse que não poderíamos ficar juntos, foi como se
eu tivesse perdido meu chão, meu rumo. Eu havia
feito planos e sonhava com uma vida ao lado de
alguém que eu amasse verdadeiramente. Até que
chegou o dia em que ela me manteve distante e
recusava meus convites. Confesso que também
chorei, e não foi apenas uma vez ou uma noite. Até
que certo dia eu percebi que suas atitudes só
poderiam me ferir se eu permitisse.
Estela volta a chorar.
Heitor Foi nesse momento que percebi que ninguém
merece nossas lágrimas. E foi assim que eu superei
aquele momento tão difícil, e hoje, anos depois,
penso que perdi, mas talvez possa dizer que quem
perdeu mais foi ela, porque deixou escapar a
oportunidade de ter ao seu lado alguém como eu.
Estela continua chorando.
Heitor Eu não lhe conheço, não sei seus motivos, mas
entendo suas lágrimas. Uma coisa posso lhe
afirmar: elas vão passar. Sempre passam. Em
momentos como esse me lembro das palavras de
minha mãe: independente da dor, levante-se de
cabeça erguida.
Heitor se levanta. Não percebe que deixou no chão sua folha
com o poema.
Estela abaixa novamente a cabeça. (Não quer que ele a veja
chorando).

~ 18 ~
Heitor Chore. Às vezes é a melhor coisa que podemos
fazer, mas não é a única. Neste exato momento há
pessoas que gostam de você. Vá ao encontro
delas. Pode parecer bobeira o que vou lhe dizer,
mas nunca se esqueça: depois da tempestade,
sempre surge um arco-íris em algum lugar, mesmo
que você não o veja. É difícil entender as
atribulações da vida, mas às vezes, essa é a
maneira que Deus encontra de nos mostrar novas
possibilidades.
Heitor se aproxima. Ela não está olhando para ele (continua de
cabeça baixa para que ele não a veja chorando). Ele ergue a
mão, quase toca em sua cabeça, mas desiste.
Heitor Meu nome é Heitor. Venho aqui todos os domingos
pela manhã, pois gosto muito dessa praça e ela
representou muito para mim em minha infância. É
aqui que compro meu jornal e aqui mesmo o leio.
Espero poder um dia vê-la sorrindo.
Estela Obrigado, Heitor. Meu nome é Estela.
Heitor vira as costas e caminha lentamente.
Estela Você foi um anjo que Deus me enviou neste dia tão
triste.
Mas ele estava já distante e não pôde ouvir. Caminhando,
Heitor sai de cena.
Estela enxuga as lágrimas na manga da blusa, vê a folha no
chão e a pega. Levanta-se. Olha na direção em que ele foi,
pensa em correr, mas não o avista com os olhos pois ele já está
distante.
Entra Música! Estela lê o texto em voz alta.

~ 19 ~
Heitor Não tolero mais amor em migalhas.
Em matéria de sentimentos, não aceito mais café
puro, pão com manteiga ou arroz com feijão.
Quero me servir dos melhores pratos.
Um café da manhã de emoções, com chás, leite,
pães maravilhosos, geléias e frutas.
Um almoço de sensações gostosas.
Um jantar de prazeres inimagináveis.
E se não for assim, prefiro passar fome por uns
dias até que possa estar de novo em seus braços.
Porque não há mais tempo a se perder com
amores que não amam, nem com paixões que não
ardem...
Luz caindo até um ligeiro black-out.
(Entre a cena 01 e a cena 02 passa-se uma semana).

~ 20 ~
CENA 2

Às vezes a vida nos dá uma segunda chance. Mas não é todo dia
que acontece. Então, hoje, faça o que tem que fazer. Não fique
esperando um novo dia, uma nova oportunidade.

~ 21 ~
Foco de luz mostrando uma faixa onde está escrito: “UMA
SEMANA DEPOIS”.
Luz abrindo. Outro domingo na praça. Mesmo cenário anterior.
Estela chega na praça e se senta no banco. Fica olhando ao
redor na esperança de que Heitor apareça. Levanta-se e
caminha lentamente até a árvore onde, uma semana antes,
havia se encontrado com ele.
Ela pára e fica olhando como se observasse as pessoas na
praça.
Ela volta a se sentar no banco da praça. Abre sua bolsa e pega
a folha de papel, dobrada com todo o cuidado. Abre a folha de
papel e faz menção de estar lendo novamente.
Demora-se um pouco na leitura e depois guarda novamente a
folha, dobrando-a cuidadosamente. Levanta-se, olha o relógio e
caminha, indo embora. (Estela sai de cena)
Heitor entra caminhando lentamente. Senta-se no banco
observando as pessoas. Novamente traz consigo um bloco de
anotações e uma caneta. Fica em posição de começar a
escrever.
Tenta escrever, rasga uma página do bloco, amassa e a coloca
ao seu lado, no banco. Tenta escrever novamente, mas não
consegue.
Marcos, um amigo da faculdade, entra em cena. Há tempos não
se viam.
Marcos se aproxima olhando para Heitor como se tentando
reconhecê-lo.
Marcos Heitor?
Heitor levanta a cabeça e olha na direção de Marcos. O
reconhece. Levanta-se.
~ 22 ~
Heitor Marcos? Há quanto tempo cara? O que faz por
aqui?
Marcos Estou na casa da minha irmã. Ela mudou-se para
este bairro há alguns meses.
Heitor Eu moro a dois quarteirões daqui.
Marcos É um bom bairro. Se é que existem bons bairros
para se morar hoje em dia. Temos visto cada coisa
acontecer.
Heitor Tem razão. As coisas andam realmente
complicadas.
Marcos O que tem feito da vida? Seguiu carreira?
Heitor Eu abri uma empresa de consultoria. Hoje em dia
trabalho por conta própria.
Marcos Legal. Eu trabalhei durante um tempo em uma
empresa privada e logo depois fui demitido.
Disseram que era contenção de despesas. Fiquei
cinco meses desempregado. Resolvi estudar em
casa, prestei concurso público e passei. Sabe como
é, estabilidade.
Heitor Em função da estabilidade, hoje em dia fazer
concurso público é uma boa opção.
Marcos No meu caso, foi.
Heitor Mas é importante se manter informado. O que vejo
em servidores públicos é que esta estabilidade às
vezes lhes causa um efeito inverso, ou seja, param
de buscar melhorias, fazer cursos de
especialização.
Marcos Isso realmente acontece.

~ 23 ~
Marcos aponta na direção da praça.
Marcos Está vendo aquela menina ali? É minha filha. Está
completando cinco anos. Aquela mulher é minha
esposa.
Heitor Aquela de azul?
Marcos Isso mesmo. Lembra quando a gente conversava
sobre a possibilidade de sermos um pouco mais do
que queríamos? Lembra de nossas dúvidas quanto
ao curso, se havíamos escolhido corretamente?
Heitor Claro que me lembro.
Marcos Eu não consegui, cara! Me casei com uma mulher
maravilhosa, tive minha filhinha linda. Vieram mais
responsabilidades. Tive que optar por algo mais
fácil, mais próximo do alcance de minhas mãos. Eu
não tinha mais tempo a perder. Tinha agora um
bebezinho dependendo de mim. E você, se casou?
Também cortaram suas asas?
Heitor (Rindo) Não, não cortaram minhas asas...
Marcos Não se casou?
Heitor Me casei, duas vezes, mas não deu certo.
Marcos Teve filhos?
Heitor Não.
Marcos Você ainda vai ter essa oportunidade. E nesse dia
descobrirá um sentido diferente nesta vida. Com
certeza você irá encontrar uma pessoa com quem
compartilhar seus dias e, desta vez, dar certo. A
vida a dois é muito complicada. É como uma corda

~ 24 ~
bamba. Uns dias maravilhosos, outros de quedas,
tormentas.
Heitor Não é fácil mesmo. Duas pessoas, na maioria das
vezes com pensamentos diferentes, criações
diferentes, forma de pensar diferentes, valores
diferentes, entre outras coisas. Mas penso que a
busca pelo relacionamento ideal deva ser
incessante.
Marcos O relacionamento ideal é aquele que te deixa bem,
te deixa feliz. É nisso que acredito. Somente nisso.
O resto é invenção de romancista.
Heitor É um bom ponto de vista!
Marcos Falando em romancista, você parou de escrever?
Conseguiu publicar um livro?
Heitor Vida de escritor é meio estranha, Marcos. As
palavras vão surgindo, e se torna quase impossível
não escrever. Os sentidos ficam aguçados,
qualquer situação, uma frase ouvida, algo lido em
qualquer lugar, pode vir a ser uma inspiração para
algo novo. Não cheguei a publicar nenhum livro.
Mas tenho muitos textos guardados na gaveta.
Quem sabe um dia um deles não é reconhecido e
então os demais também possam ser publicados. É
isso o que espero!
Marcos Caro amigo, acho que o importante é você não
desistir. Imagino que não seja fácil trabalhar
durante um dia inteiro e ainda ter forças para
escrever a noite, mas se este é o seu sonho, não
faça como eu, não busque o caminho mais seguro,
mais fácil. Busque seu sonho. Talento nós dois
sabemos que você tem, de sobra.
~ 25 ~
Heitor Ando num estágio complexo. Às vezes me
questiono para quê continuar escrevendo, entende?
Ficar somente empilhando textos nas gavetas não
me agrada, embora eu tenha muito orgulho da obra
que escrevi até hoje.
Marcos Heitor, sei que não sou a melhor pessoa para lhe
dar um conselho, mas não abandone esse seu
dom. Mesmo que nenhuma editora o reconheça,
mostre seus textos aos seus amigos, sua esposa,
no futuro, aos seus filhos.
Heitor Pode deixar Marcos. Foi muito bom conversar com
você. Não é todo dia que encontramos alguém para
nos colocar para cima.
Marcos Deixe eu te confessar uma coisa: eu tinha uma
inveja enorme de você na faculdade. Você foi o
cara mais inteligente que eu conheci em toda a
minha vida. Falo isso para todo mundo quando
converso sobre aquele tempo. A sua facilidade de
aprendizado era algo que chamava a atenção de
todos.
Heitor Nada disso! Eu talvez só estudasse um pouco mais
do que vocês.
Marcos Claro que não! Todo mundo sabia que você nem
precisava estudar tanto. Bastava prestar atenção às
aulas que pegava tudo, de primeira.
Heitor Não era bem assim.
Marcos Claro que era. Ainda me lembro até hoje daquela
prova final, quando você já havia passado, fez
todas as questões de sua prova e depois trocou

~ 26 ~
comigo. Eu jamais teria conseguido meu diploma
naquele ano se não fosse você.
Heitor Eu nem me lembrava mais disso.
Marcos Você não se lembrava, mas eu nunca me esqueci.
Você fez a minha prova e a sua e eu ainda tirei uma
nota maior. Será que os professores realmente
corrigem as provas, lêem e observam atentamente
todas as questões?
Heitor Isso é uma coisa que jamais saberemos.
Marcos Você marcou a minha vida, cara! Muito obrigado
mesmo. Eu precisava lhe dizer isso.
Marcos olha em direção à praça.
Marcos Minha esposa e minha filha estão me chamando.
Tenho que ir. Foi muito bom reencontrá-lo. Anote
meu telefone e a gente marca para você ir lá em
casa almoçar num domingo desses.
Heitor abre o bloco de anotações.
Marcos Três, três, nove, dois, noventa, trinta e sete.
Heitor (Anotando) Anotado.
Marcos Então a gente se vê por aí!
Heitor Tenha um ótimo dia.
Marcos caminha, saindo de cena.
Heitor guarda a caneta no bolso. Fecha o bloco de anotações.
Heitor se levanta e sai de cena.
Luz caindo até um ligeiro Black-out.
(Entre a cena 02 e a cena 03 passa-se uma semana).
~ 27 ~
CENA 3

Uma pessoa sem sonhos é um ser sem vida. Precisamos de um


objetivo, de uma bandeirada no final da caminhada. Não importa em
que posição chegaremos, já que a forma de vida dos humanos é
uma competição desumana em busca da sobrevivência. Mas temos
que cruzar a linha de chegada de cabeça erguida, fiéis a nossos
princípios. Precisamos de um objetivo. Precisamos ter a esperança
de receber a bandeirada no final da caminhada. Precisamos ser
protagonistas de nossa própria história.

~ 28 ~
Foco de luz mostrando uma faixa onde está escrito: “MAIS UMA
SEMANA DEPOIS”.
Heitor sentado num banco de praça com um bloco de
anotações em uma das mãos e na outra, uma caneta. Está
escrevendo sem se importar com as coisas ao redor,
totalmente voltado para o texto.
Amassa esta folha e coloca-a no banco juntamente com outras
já amassadas. Vira uma nova página no bloco de anotações e
volta a escrever. (Demonstrar nas ações que ele está com
dificuldade para escrever)
Estela se aproxima e fica observando-o.
Num dado momento Heitor ergue a cabeça e o seu olhar e o
olhar de Estela se encontram. Os dois ficam parados algum
tempo, olho no olho. Estela sorri suavemente.
Estela Bom dia!
Heitor Bom dia. Pelo seu sorriso parece que as coisas
estão bem melhores.
Estela Nada como um dia após o outro.
Heitor Tem razão. Deve ser por isso que dizem que o
tempo é o senhor de todas as coisas.
Estela lembrando a mesma frase que ele havia lhe dito.
Estela Sei que nestes tempos violentos isso seria
reprovado por nossos pais, mas posso me sentar
ao seu lado?
Heitor junta os papéis que estavam amassados no banco
abrindo espaço para que ela possa se sentar. Estela se senta.
Estela Fiquei te observando de longe. Você parece tão
concentrado. O que está fazendo?
~ 29 ~
Heitor Praticando Filosofia. (Tempo) Filosofia do nada.
Estela (Sorrindo) O que é isso?
Heitor É sério. É a arte de pensar sobre o nada para fugir
de tudo.
Estela (Expressão séria) Pode me dar um exemplo?
Heitor Pensar, mas sem pensar em nada especificamente,
procurando esvaziar a mente do excesso de
pensamentos menos importantes e das
responsabilidades.
Estela Parece uma filosofia interessante. Me parece algo
como se desligar de tudo.
Heitor É sim! Mas nunca consigo ficar muito tempo assim,
sempre acontece alguma coisa que acaba com
minha concentração e desvia minha atenção.
Estela Dessa vez o problema fui eu?
Heitor Foi.
Estela Desculpe.
Heitor Não precisa se desculpar. É bom vê-la por aqui
novamente.
Tempo.
Estela Estive pensando no que você me disse e acho que
tem razão. Ninguém merece nossas lágrimas.
Principalmente se for alguém que não se importa
mais com a gente.
Heitor Talvez a pior coisa que exista seja a indiferença.

~ 30 ~
Estela Concordo. É muito triste você fazer de tudo para
estar com alguém e perceber, um belo dia, que
seu esforço está sendo em vão.
Heitor Nada terá sido em vão, Estela. Mesmo que tudo
dê errado, já valeu a experiência. Da próxima vez,
os mesmos erros não serão cometidos.
Estela Você fala com tanta segurança.
Heitor Todos os dias as pessoas acordam pela manhã,
vão ao trabalho, almoçam correndo, tem que
aturar o patrão, as pressões e tantas outras
coisas. O dia passa e chega a noite. Tudo o que
esperamos é poder chegar em casa e reencontrar
o nosso amor, aquela pessoa que está com a
gente em todos os momentos.
Estela Na alegria e na tristeza.
Heitor Exatamente. Passamos a infância querendo
crescer depressa e, quando crescemos,
gostaríamos de voltar a sermos crianças. Nosso
cérebro parece ter uma estranha mania de desejar
sempre o que não temos. Já reparou que quando
está sol as pessoas reclamam do calor? Já
reparou que quando está frio todos se queixam
também?
Estela Tem razão, Heitor.
Heitor A gente passa boa parte de nosso tempo fazendo
algo que muitas vezes não gostamos, mas
disseram que precisamos fazer, e que é o nosso
jeito de ganhar a vida e, até que venha algo
melhor, temos que agüentar e tentar se superar.

~ 31 ~
Estela É porque a vida toma rumos que muitas vezes não
podemos controlar.
Heitor Sim, mas com o tempo nos acomodamos. Todo
mundo tem uma história assim. Por isso insisto
que precisamos acreditar em nossos sonhos,
mesmo quando eles parecem impossíveis.
Estela Sonhos custam caro, Heitor. E na maioria das
vezes custam caro demais.
Heitor De certa forma, sim. Alguns sonhos custam uma
boa quantidade de dinheiro, como obter a casa
própria, por exemplo. Outros custam uma boa
dose de tempo, como terminar uma faculdade.
Estela Se você me perguntasse qual o meu grande sonho
hoje, talvez eu não soubesse responder.
Heitor Isso é ruim. São nossos sonhos que fazem com
que a gente dê sentido a nossas vidas. Não
haveria razão de se viver sem sonhos,
principalmente aqueles que sonhamos quando
acordados. Sem um sonho, um objetivo na vida, o
que te motiva a se levantar todos os dias da
cama?
Estela Eu sonhava ser feliz. Ter um bom emprego, um
marido que me amasse, uma boa condição
financeira...
Heitor Exatamente como lhe ensinaram, não é mesmo?
Estela Acho que sim. Acho que eu queria ter uma vida
mais tranquila.
Heitor A maioria de nós espera um porto seguro, alguém
que confie na gente e alguém que possamos
~ 32 ~
confiar. A gente aprende desde pequeno que
devemos estudar, namorar, noivar, casar, ter um
casal de filhos, uma casa de frente para o mar.
Mas acho que poucas pessoas se perguntam se
estão felizes. Será que há algo que poderíamos
mudar?
Ambos ficam em silêncio.
Estela Acho que todo mundo gostaria de mudar alguma
coisa.
Heitor Mas ninguém faz. Ninguém quer dar o primeiro
passo. As pessoas só querem caminhar por onde
outras pessoas já passaram, mas o máximo que
vão conseguir são os mesmos resultados dos
outros. Ninguém quer inovar, ninguém quer
sonhar, seguir adiante. A maioria das pessoas
quer passar o resto de suas vidas se queixando do
governo. Está vendo aqueles homens?
Heitor aponta para uma mesa onde alguns homens de idade
jogam baralho.
Heitor Conheço alguns deles. Viveram muito, trabalharam
mais da metade de suas vidas. Hoje estão ali,
reunidos, jogando baralho. As pessoas não
acreditam mais neles. Se disserem algo, os mais
jovens falarão que eles não sabem de nada, que
seu tempo passou.
Estela Coisas de adolescentes...
Heitor Não são coisas de adolescentes. Somos todos
assim.
Estela Eu não sou assim.

~ 33 ~
Heitor É difícil acreditar que somos assim, mas somos. É
preciso que a gente comece a pensar nestas
coisas. A todo o momento as pessoas dizem que o
mundo caminha para seu fim, que estamos em
tempos muito violentos, aquecimento global,
terremotos, tsunamis, um monte de desastres.
Mas a gente não se importa com as pessoas que
estão à nossa volta e poucas vezes ouvimos o que
elas têm a dizer.
Estela Você quer mudar o mundo, Heitor?
Heitor Não, Estela! Isso é impossível para nós. Mas
acredito que possamos mudar nossas atitudes,
nossa maneira de ver a vida.
Estela Como, por exemplo?
Heitor Ainda não sei. Mas estou tentando. Acho que
devemos direcionar nossas energias para o ser
humano. Gostaria de fazer coisas que pudessem
levar as pessoas a refletirem sobre suas próprias
vidas.
Estela abre a bolsa e pega a folha de papel.
Estela Aquele domingo, depois que você levantou, eu
encontrei isso.
Estela estende o papel ainda dobrado a Heitor.
Estela Não sei exatamente o porquê, mas algo me dizia
que era seu.
Heitor pega a folha e a abre.
Estela Foi você quem escreveu?
Heitor dobra novamente a folha e a guarda no bolso.

~ 34 ~
Heitor Foi sim. Era um texto qualquer. É que eu estava
sem nada para fazer...
Estela Você sempre escreve estas coisas quando não
tem nada para fazer? Se for assim, acho que você
deveria viver na ociosidade. Por favor, não se
ocupe com mais nada!
Heitor (Rindo) Durante um bom tempo em minha vida
isso foi muito importante. Escrever me ajudou a
raciocinar, me obrigou a buscar mais
conhecimento, ler diversos livros, estudar filosofia,
buscar compreender o comportamento humano, e
aprendi coisas que meus amigos nem sabiam
existir.
Estela Seu texto me fez refletir. É meio triste, mas é lindo.
Se você tem outros como este, nunca pensou em
publicar um livro?
Heitor Escrevi muitas coisas desde a adolescência. Por
várias vezes enviei meus textos para editoras, mas
nunca obtive sucesso. Nunca me responderam,
nem mesmo para me dizer que minha obra era
muito ruim.
Estela Se todos os seus textos forem ao menos parecidos
com esse, devem ser maravilhosos.
Heitor Maravilhosos são os textos de Shakespeare, os
poemas do Drummond e outras tantas obras
fantásticas que existem por ai. Eu apenas escrevo
minhas observações sobre a vida, de acordo com
o meu ponto de vista.
Estela Sei que ainda quer ser um escritor, senão não
continuaria a escrever. Se quer realmente escrever
~ 35 ~
e ser publicado, se esse é seu sonho, acho que
não deveria desistir.
Heitor Dizem que poesia não vende. Meu tio sempre me
diz que eu deveria escrever um romance. Para ele,
deveria ser um livro que pudesse ser adaptado
para o cinema. “Escreva um romance policial”, diz
ele. Ele me diz que somente desta forma eu seria
conhecido. O que ele não entende é que eu só
queria publicar um livro, ver meu nome ali na capa
e, principalmente, ser lido.
Estela Mês passado eu fui ao teatro. Porque você não
escreve uma peça? Eu achei tão bonita a peça
que fui assistir. Acho que seria uma boa maneira
de você passar sua mensagem.
Heitor Se não percebeu, o que escrevi estava incompleto.
Não estou conseguindo me concentrar...
Estela O que está havendo? Está sem inspiração?
Heitor Estou. Não tenho conseguido terminar meus
textos.
Estela Pense no que eu lhe disse: escreva uma peça de
teatro.
Heitor Tudo bem. Se isso te alegra, vou pensar com
carinho.
Estela se levanta.
Estela Me empresta sua caneta?
Heitor pega a caneta e entrega a ela. Estela pega um pedaço de
papel e escreve.
Estende a folha na direção dele.

~ 36 ~
Estela Esse é o meu telefone. Todas as vezes que você
for escrever, sei que vai se lembrar de mim.
Portanto, se algum dia pensar em desistir, me
ligue.
Heitor Desistir? Jamais! Meus textos fazem parte de mim,
todos eles. Cada um representa uma época da
minha vida, minhas observações, minhas reflexões
sobre o que me cerca. Mas prometo que vou
pensar no que me disse.
Estela Qual seu signo, Heitor?
Heitor Gêmeos.
Estela Legal. De que dia?
Heitor Trinta e um de maio.
Estela Também sou de gêmeos. Por isso acho que
estamos nos dando bem. Sabia que você é um
gênio da humanidade?
Heitor Gênio, eu?
Estela Há tempos atrás eu dava bastante importância a
essas coisas. Como era uma adolescente curiosa,
me interessei pelo tema e me fascinava saber
sobre os gênios da humanidade, porque são
poucas datas em que as pessoas podem ser
assim chamadas.
Heitor E trinta e um de maio é uma delas?
Estela É sim. Pessoas que nascem neste dia estão
sempre experimentando e conhecendo coisas
novas. Adoram a adaptação de coisas que
instigam sua inteligência. É um pesquisador
extremamente curioso e individualista. Tem forte
~ 37 ~
capacidade de comunicação e praticidade em
expor suas idéias e metas.
Heitor Esse se parece comigo.
Estela Viu como eu tinha razão?
Heitor Vivendo e aprendendo...
Heitor se levanta. Caminham alguns passos juntos. Ficam de
frente um para o outro.
Heitor Tchau.
Estela Até algum dia. Você foi um anjo que Deus enviou
para me alegrar nestes dias.
Heitor lhe dá um beijo na testa. Estela caminha em uma direção
e ele vai para o outro lado. Luz caindo até um ligeiro black-out.

~ 38 ~
CENA 4

De onde vem a inspiração? Eu não sei. Mas é algo mágico no mais


fiel sentido que esta palavra possa representar. Há alguns minutos
não havia nada escrito aqui. De repente, no silêncio, um estalo, uma
luz se acende, as palavras surgem na mente, o cérebro ordena os
dedos a digitarem no teclado e algo novo surge. Inspiração. Penso
que precisamos disso não só para escrever, mas para estudar,
trabalhar e amar.

~ 39 ~
Entra música. (Sugiro que seja “Inverno” de Vivaldi)
Heitor sentado na máquina de escrever, tentando trabalhar.
Sucessivamente coloca uma folha na máquina, escreve um
pouco, retira, amassa e joga fora.
Heitor Quando eu era criança, meus pais me
incentivavam a ler. Eu lia os contos e fábulas
infantis, mas ainda não compreendia a
profundidade daquelas histórias. Na adolescência,
me interessei por quadrinhos de super heróis,
pelos mitos gregos e por poesia. Na época da
faculdade os livros eram extremamente técnicos.
Tempos depois comecei a ler romances. Não sei
exatamente quando, mas comecei a rabiscar meus
primeiros versos ainda nos cadernos do segundo
grau. Mas nunca me esqueci dos mitos e das
fábulas. E através de uma fábula antiga que
guardo na memória, penso que poderei passar
uma mensagem importante.
Heitor se levanta e pega um livro na estante. É um livro sobre
fábulas antigas. Folheia o livro. (Sugiro que o ator pare em
alguma página do livro como se estivesse lendo alguma
história).
Heitor É isso. Vou tentar adaptar este conto antigo pois
ele trata de problemas contemporâneos. Preciso
encontrar um fio condutor, uma linha mestra que
me conduza ao encontro de minha literatura, ao
encontro de mim mesmo.
Heitor senta-se novamente de frente para a máquina de
escrever.
Começa a bater nas teclas. Pára de escrever. Retira a folha,
amassa e joga fora.
~ 40 ~
Coloca outra folha. Recomeça a escrever. Música termina.
Heitor Era uma vez um Imperador...
Pára novamente. Retira a folha, amassa e joga fora. Coloca
outra folha.
Heitor Há muito tempo atrás, numa terra distante, um
Imperador decidiu que se ele soubesse as
respostas de três questões, que ele sempre
saberia o que fazer, não importasse o quê. Então,
ele mandou anunciar em todo o seu reino que se
alguém pudesse responder suas três questões, ele
daria uma grande recompensa.
Heitor pára de escrever. Desta vez não retira a folha e nem a
rasga.
Heitor Estas eram as três questões:
Quando é o melhor tempo para se fazer alguma
coisa?
Quem é a pessoa mais importante? Qual é o
objetivo mais importante?
Tempo.
Heitor De todo o Reino, muitas pessoas vieram até ele.
Recebeu muitas respostas, mas nenhuma o
satisfez. Finalmente, decidiu viajar para o topo de
uma montanha porque diziam que lá vivia um
velho eremita que talvez soubesse as respostas.
Tempo.
Heitor Quando o Imperador encontrou o eremita, ele fez
as três perguntas. O eremita, que estava
capinando o seu jardim, ouviu atentamente e então

~ 41 ~
retornou ao seu trabalho sem dizer uma palavra.
Como o eremita continuava a capinar, o Imperador
percebeu o quanto ele estava cansado.
“Me dê a enxada!” – disse o Imperador. “Eu vou
capinar e você pode descansar um pouco”.
Tempo. Heitor se levanta e pega o telefone. Disca um número.
Estela Alô?
Heitor Boa noite. Eu poderia falar com a Estela?
Estela É ela.
Heitor Oi Estela, é o Heitor.
Estela fingindo estar tentando se lembrar.
Estela (Tentando se lembrar) Heitor...Heitor...
Heitor O escritor que a conheceu na praça...
Estela Ah, sim!
Heitor Estou te ligando para te agradecer. Há tempos eu
não conseguia pensar em nada para escrever e
hoje, ao chegar do trabalho, me sentei à máquina
e tive uma boa idéia. Acho que vai dar certo.
Estela Parabéns. Fico feliz por isso. Tudo o que fizer, se
for de coração, vai dar certo.
Heitor Espero que sim. Quer saber sobre o que é?
Estela Claro que sim!
Heitor Vai ser uma adaptação de um conto muito antigo.
Há tempos eu pensava em escrever algo assim.
Acho que é uma boa maneira de eu passar uma
mensagem importante para as pessoas.

~ 42 ~
Estela Mas será um livro ou uma peça?
Heitor Tenho pensado muito no que me disse. Estou
escrevendo a sinopse, ainda. Mas vou escrever
um roteiro para uma peça de teatro.
Estela Que bom. Vai deixar eu ler?
Heitor Claro que sim. Mas vai demorar até que eu
termine.
Estela Esperarei ansiosa por esta leitura.
Heitor Quando poderei lhe ver novamente? Queria lhe
agradecer. Por enquanto é só uma sinopse, mas
acho que vou conseguir desenvolver. Vou começar
a montar a estrutura do texto e espero que fique
bom.
Estela Vai ficar bom. Você é capaz.
Heitor Quando podemos nos encontrar?
Estela Sábado está bom para você? No fim da tarde para
mim seria melhor. Pode ser na praia? Gostaria de
ver o sol se pôr e poder ouvir o som das ondas
quebrando nas pedras.
Heitor Ótima idéia.
Estela Então estamos combinados.
Heitor Até sábado. Obrigado por me devolver minha
inspiração.
Estela Eu que lhe agradeço, por tudo. Até sábado.
Heitor desliga o telefone. Fica um tempo pensativo. Pega o livro
(que pegou na estante), coloca-o na estante novamente. Entra
música! Volta para a máquina e recomeça a escrever.

~ 43 ~
Heitor Depois de capinar por muitas horas, o imperador
estava cansado. Quando o eremita voltou ao seu
encontro, ele pôs a enxada de lado e disse:
“Se você não pode responder minhas questões,
tudo bem. Basta me dizer que eu vou embora”.
Heitor continua a escrever, desta vez, sem parar. Luz caindo até
o black-out.

~ 44 ~
CENA 5

Por mais bruto que você seja – ou pense ser – tenho certeza de que
precisa de um pouco de romance em sua vida. Ver o pôr-do-sol na
praia ao lado de alguém especial pode ser indescritível. Conversar
sobre qualquer coisa, olhar o mar, ver as estrelas surgindo. E
existem pessoas que não acreditam no amor, porque não podem
tocá-lo. Mas essas mesmas pessoas olham para a luz de estrelas
no céu sem saber que elas já podem ter sido extintas, mas sua luz
continua viajando pelo espaço até nós e, por isso, mesmo extintas,
ainda as vemos. Algumas pessoas acreditam no brilho de algo que
pode até mesmo nem mais existir, mas não acreditam na força do
amor e na sua própria capacidade de amar.

~ 45 ~
Luz abrindo em resistência. Som de ondas quebrando.
Heitor chega primeiro ao local acompanhado de seu bloco de
anotações e duas rosas vermelhas. Ele está com as mãos para
trás de forma que ela não consiga ver as rosas. Estela chega
pouco tempo depois. Heitor estende as flores a ela.
Heitor Boa tarde.
Ele lhe entrega a flor.
Estela Boa tarde. Que romântico, Heitor! Você acertou o
meu gosto. Adoro rosas vermelhas.
Estela cheira a rosa.
Ela lhe agradece e lhe dá um abraço. Heitor e Estela sentam-se
na mureta no calçadão da praia. Ainda não é noite. Som de
ondas quebrando.
Heitor Como tem passado?
Estela Comigo está tudo bem. Fora os problemas no
trabalho, minha vida caminha bem.
Heitor Verdade?
Estela Verdade.
Heitor No meu trabalho também há muitos problemas.
Todo dia surge algo novo.
Estela Ih, nem me fale. Parece que os seres humanos
nasceram para resolver problemas. Mas
precisamos trabalhar não é? É a vida em
constante movimento.
Heitor Verdade. Tive uma boa idéia. As palavras estão
surgindo com sentido embora às vezes pense que
não vou conseguir. Escrever um roteiro é mais
difícil do que eu pensava.
~ 46 ~
Estela Talvez eu possa lhe ajudar. Meu patrão é um ator
e tem muitos livros sobre teatro e cinema. Acho
que posso pegar uns livros emprestados.
Heitor Seria uma ótima ideia! Faria isso por mim?
Estela Na segunda-feira eu pego. Da próxima vez que a
gente se encontrar eu lhe entrego. Só peço que
não empreste a ninguém.
Heitor Claro que não. Pode confiar em mim.
Estela Eu sei que posso. E a sua idéia original?
Heitor Estou conseguindo escrever. Até agora foi apenas
a primeira cena, mas estou gostando do resultado.
Meu único medo é que o entusiasmo inicial não
seja o mesmo até o final. Talvez eu faça até
mesmo um curso de roteiro ou algo parecido.
Estela Vejo que está empolgado. Isso é bom. Há muito
tempo não me sinto assim. Acho que me
conformei com minha vida e com meu trabalho.
Heitor Não diga isso. Como conversamos aquele dia, o
ser humano precisa sonhar, mesmo que este
sonho seja impossível de se realizar.
Estela Eu sei. Queria ser tão otimista quanto você, mas
eu abro os jornais e só vejo desgraça. O que mais
podemos esperar deste mundo?
Heitor Não sei. Mas se soubermos responder o que
esperar de nós mesmos, já será um bom começo,
não acha?
Ambos ficam um tempo em silêncio.
Estela Tem razão. Prometo me esforçar.

~ 47 ~
Heitor Vem sempre a esta praia? Gosta de pegar sol?
Estela Gosto de olhar o mar. Esse contraste da linha do
horizonte me fascina desde pequena. Não lhe
parece incrível imaginar que exista tanta vida
debaixo destas águas?
Tempo.
Estela Quando faço estas perguntas, algumas pessoas
dizem – ou pensam – que sou louca. Na verdade,
a maioria das pessoas não tem tempo nem mesmo
de pensar. Está todo mundo sempre tão envolvido
com o trabalho, com os problemas, que ninguém
se pergunta se está feliz, se é isso mesmo o que
querem para suas próprias vidas.
Tempo.
Estela E é por isso que todo mundo sofre.
Heitor Será que existe uma maneira de mudar isso? Será
que o mundo sempre foi assim? Será que tudo
aquilo o que nos dizem sobre como devemos
viver, o que devemos comer ou vestir está
realmente certo?
Estela Tudo certo ou tudo errado. Eu sempre lutei contra
isso, mas agora me sinto sem forças. Não quero
me sentir vítima do sistema existente. Quero poder
caminhar com minhas próprias pernas. Quero
poder voltar a confiar nas pessoas. Quero poder
seguir adiante, conhecer alguém realmente
interessante, alguém que me ame e que possa
compartilhar bons momentos comigo.
Heitor Acho que isso é o que todo mundo quer, Estela.

~ 48 ~
Estela Você já amou alguém?
Heitor Me casei duas vezes... e me separei duas vezes.
Estela Não foi isso o que eu perguntei.
Heitor As mulheres são mais românticas que os homens
e por isso a maioria delas não acredita que um
homem, ao dizer que tem sentimentos, como o
amor, por exemplo, possa estar falando a verdade.
Estela Não é bem assim...
Heitor É assim que eu penso hoje. As mulheres pensam
que todos os homens são iguais.
Estela Isso não é verdade.
Heitor Claro que é. Todas as mulheres reclamam que
todos a os homens são iguais então eu pergunto:
se todos são iguais, porque as mulheres escolhem
tanto?
Tempo.
Estela Nós mulheres somos diferentes. Os homens
parecem estar sempre buscando a beleza perfeita.
Se satisfazem com a imagem. Para as mulheres,
homem não precisa ser lindo, basta ter alguma
coisa marcante, algo especial. Pode ser um nariz
grande, olhos azuis, um sorriso bonito. A gente se
contenta com uns detalhes interessantes.
Heitor Detalhes interessantes? Você sabe por que as
mulheres se apaixonam?
Estela Coisas do coração.
Heitor Coisas do coração? Segundo uma pesquisa
recente divulgada nos Estados Unidos, quarenta
~ 49 ~
por cento das mulheres se apaixonam por atração
física. Trinta por cento porque querem ter filhos,
quinze por cento por causa de uma certa afinidade
psicológica, dez por cento precisam de alguém
para dividir as despesas e cinco por cento por
estupidez mesmo.
Estela Estupidez? Heitor, você não pode estar falando
sério.
Tempo.
Estela O que fizeram com você?
Heitor Comigo? Nada... não fizeram nada.
Estela O seu poema... ele era triste. Fala sobre migalhas
de amor...
Heitor (Interrompendo) Fala sobre cada um de nós.
Como você mesma disse, todo mundo sofre, mas
todos estão sempre sorrindo, aparentando algo
que não sentem e não são. A maioria das pessoas
reprime seus sentimentos. A maioria das pessoas
age como conta-gotas, liberando um pouco de
emoção por vez. E com isso, não se entregam,
não se doam, não fazem e não recebem o carinho
que precisam, porque se fecham e sentem um
vazio profundo.
Estela Você sente um vazio profundo?
Heitor Nós dois sentimos. Por isso estamos aqui!
Tempo. O som das ondas aumenta.
Estela Porque se separou?

~ 50 ~
Heitor Respondendo à sua pergunta anterior, já amei
muito. E me casei por amor nas duas vezes. Nos
separamos porque o amor mudou. Não vou dizer
que acabou, pois penso que o amor não acaba. Na
minha opinião, ele se transforma. Com o tempo o
relacionamento tornou-se difícil. Mas nas duas
vezes a separação foi de forma amigável.
Estela O que havia em comum entre elas?
Heitor Para lhe dizer a verdade, apenas eu. Mas isso eu
só consegui perceber há pouco tempo.
Estela O que quer dizer?
Heitor Tive muitas namoradas e tive duas esposas.
Quero dizer que enquanto buscava a pessoa certa,
não compreendia que eu permanecia o mesmo.
Controlei, fui controlado, mas meus
relacionamentos não passaram disso. Quero dizer
que sempre é preciso saber quando uma etapa
chega ao final.
Tempo. Estela olha para o céu. Está anoitecendo. Ela aponta
para o céu.
Estela Olha Heitor, lá no céu, a primeira estrela desta
noite. Faz um pedido.
Heitor Pedido?
Estela Sim, Heitor. Você não teve infância? Faz um
pedido.
Estela fecha os olhos.
Estela Primeira estrela que eu vejo, realize o meu desejo.
Tempo. Estela abre os olhos.

~ 51 ~
Heitor O que desejou?
Estela Não posso contar.
Heitor Como, não?
Estela Se eu contar ele não se realiza. E você, fez o seu
pedido?
Heitor Ainda não.
Estela Então perdeu sua oportunidade. Outras estrelas já
apareceram.
Heitor Me conta o seu desejo.
Estela Quando ele se realizar, eu te conto.
Heitor Como assim? Conta agora!
Estela Se eu contar agora ele não se realizará!
Heitor Tudo bem. Vou esperar por este dia.
Luz caindo até o black-out.

~ 52 ~
CENA 6

Vida, liberdade e felicidade. Cada um de nós tem o conceito destas


palavras e não necessariamente quer dizer a mesma coisa para
todas as pessoas. Deixemos de lado as teses, as definições, os
conceitos, e sejamos verdadeiramente livres e felizes, na prática. É
a única forma de viver plenamente.

~ 53 ~
Estela e Heitor estão sentados em uma mesa de bar. Luz baixa,
mesa iluminada por velas. Em cima da mesa há três livros e um
outro nas mãos de Heitor.
Estela Espero que estes livros lhe ajudem.
Heitor Vão ajudar muito. Nem sei como lhe agradecer o
que tem feito por mim.
Estela Não há o que agradecer. Você tem talento, só
precisa de uma oportunidade.
Heitor Eu sempre pensei a mesma coisa. Se me fosse
dada uma oportunidade eu iria agarrar com todas
as minhas forças. Não é fácil trabalhar o dia inteiro
e depois ainda reunir forças para escrever de
madrugada.
Estela Você tem muita força de vontade, Heitor. E tenho
certeza de que ainda será reconhecido como um
grande escritor.
O garçom aproxima-se deles.
Garçom Boa noite. Já foram atendidos?
Heitor Ainda não.
O garçom estende o menu e o entrega a Heitor. Heitor folheia o
menu.
Heitor Vamos comer uma pizza?
Estela Seria ótimo.
Heitor olha em direção ao garçom.
Heitor Podemos escolher dois sabores?

~ 54 ~
Garçom Sim, senhor. Basta escolher que nós fazemos. No
entanto, o valor cobrado será o maior entre os
sabores.
Heitor voltando a olhar para Estela.
Heitor Algum sabor de sua preferência?
Estela Deixa-me ver...
Heitor estende o menu para que Estela possa escolher.
Estela A metade pode ser tomates secos com rúcula?
Heitor Claro! Metade portuguesa e a outra metade
tomates secos com rúcula.
O garçom anota os pedidos.
Garçom Algo para beber?
Heitor olha para Estela.
Heitor Me acompanharia numa taça de vinho tinto?
Estela Tudo bem. Esta noite está pedindo algo diferente.
Mas não exagere, pois você está dirigindo.
Heitor volta a olhar para o garçom.
Heitor Posso ver a carta de vinhos?
Garçom Claro, senhor. Só um minuto.
O garçom sai de cena. Tempo.
Estela Andei pensando no que você me disse sobre as
pessoas e sobre sonhos. Não sei o que você tem.
Parece que me conhece há tempos. Sempre que
você fala, que pronuncia alguma palavra, parece
que sempre vai ser algo que vai mexer comigo.
Heitor Mas em momento algum eu quis lhe ofender.
~ 55 ~
Estela Não foi isso o que eu quis dizer. Quero dizer que
suas palavras, tudo isso o que você tem me dito,
tem me mostrado, me revelado coisas que antes
eu nem mesma pensava. Sobre mim e sobre os
relacionamentos entre as pessoas, enfim, sobre o
mundo.
O garçom se aproxima dois.
Garçom Com licença.
O garçom entrega a carta de vinhos nas mãos de Heitor.
Heitor folheia a carta de vinhos.
Heitor (olhando para Estela) Della Casa, seco?
Estela Pode ser.
Heitor aponta no menu o seu pedido.
Heitor Duas taças.
O garçom anota o pedido e sai de cena. Heitor e Estela voltam a
se olhar nos olhos.
Heitor Tenho aprendido muitas coisas nestes últimos
anos. Tenho aprendido a compreender o silêncio,
a ver o mundo como um lugar de infinitas
possibilidades. Isso tem me ajudado bastante.
Antes eu me sentia excluído, me sentia sozinho,
até compreender que tudo tem seu tempo.
Estela Mas é tão difícil, Heitor, essa questão do tempo.
Todo mundo quer tudo para ontem.
Heitor Eu sei. Mas depois de correr tanto, de planejar
minuciosamente o próximo passo, percebi que
independente de qualquer coisa, que há uma força
contra a qual não há como lutar. Tudo bem que
~ 56 ~
precisamos insistir em conquistar o que queremos,
lutar com todas as forças, mas as coisas
acontecem quando tem que acontecer. É nisso
que acredito hoje.
Estela Eu não sei. Queria pensar como você, mas não
consigo perceber essa força. Vejo o mundo como
um lugar de extremas dificuldades. Cada um
precisando se esforçar para sobreviver a cada dia.
Sangue, suor e lágrimas a todo custo. Trabalho,
preocupação. Não consigo enxergar a felicidade
que todos falam.
Heitor Estela, você falou sobre a felicidade. Depois de
refletir sobre a minha vida, meus casamentos
anteriores, outros relacionamentos que tive, passei
a entender a felicidade não como um estado pleno,
de ser ou estar feliz. Entendo felicidade como
momentos bons que vivemos. Podemos prolongar
esses momentos, ter muitos ao longo da vida mas,
para mim, a felicidade são momentos.
Estela Esse é um momento feliz?
Heitor O que estamos vivendo?
Estela Sim.
Heitor Com certeza! Pense bem. Eu estava numa praça
tentando escrever um poema. Me sentia sozinho.
Você estava por ali, sentada, chorando. Eu poderia
ter passado direto, não me importado com você,
como a maioria das pessoas fazem hoje em dia.
No entanto, minha aproximação, a conversa que
puxei com você, nos trouxe até aqui hoje, para
saborear uma deliciosa pizza e uma taça de vinho.

~ 57 ~
Estela Que lindo! Porque se sentia sozinho?
Heitor Porque eu não compreendia que por mais que
você faça algo por alguém, essa pessoa vai lhe
magoar de vez em quando e você vai ter que
perdoá-la por isso.
Estela Sei bem o que é isso.
Heitor Aprendi que não há nada que se compare à
liberdade. Não a liberdade de se estar sozinho,
mas uma liberdade de estar com alguém e não
estar aprisionado.
Estela Aprisionado não é um termo muito forte?
Heitor Pode ser. Lembro que quando eu era criança, via
meu pai mantendo os pássaros na gaiola
simplesmente para que eles pudessem cantar. E
quanto mais cantavam, mais meu pai se
orgulhava, mostrando para os vizinhos. Quando os
pássaros ficavam mais velhos, ele os trocava por
outro. Vê-los voando, livres, mesmo que com
dificuldades, foi minha primeira noção do que é a
liberdade. E percebi que depois de sermos
aprisionados, nunca mais somos os mesmos.
Estela Mas para você, o que é liberdade?
Heitor Você está querendo demais, muitas definições
para uma noite só. Para mim a liberdade é algo
que todo mundo deveria saber o significado, e por
uma causa bem simples: porque todo mundo
passa a vida sendo escravo de alguma coisa.
Estela Como assim?

~ 58 ~
Heitor Sempre lutei para que a liberdade fosse meu
tesouro mais importante. Lutei para arranjar um
emprego que me sustentasse. Lutei, embora sem
resultado, pela menina que amava na
adolescência, mas ela me deixou porque seus pais
a convenceram de que eu não tinha futuro. Lutei
contra o sistema que parecia se esforçar para que
eu não tivesse uma boa educação na escola.
Estela Eu sempre estudei em escola pública.
Heitor Eu também. E me esforcei para aprender o que os
professores queriam passar. Lutei pelo amor de
minha primeira e de minha segunda mulher. Lutei
para ter coragem de me separar das duas, até
poder encontrar a pessoa que foi colocada neste
mundo para me encontrar, e não era nenhuma das
duas. E ultimamente, tenho lutado para me tornar
um escritor, embora ainda sem resultados
concretos por parte das editoras, mas estou
escrevendo e tenho uma obra poética da qual me
orgulho, embora poesia não tenha valor hoje em
dia.
Tempo. O garçom traz as duas taças de vinho, serve e sai.
Ambos pegam suas taças.
Estela Proponho um brinde!
Heitor Um brinde?
Estela Sim. Vamos brindar à sua inspiração.
Batem uma taça contra a outra. Heitor sorri.
Heitor Vamos brindar à sua beleza.
Batem uma taça contra a outra. Estela sorri.
~ 59 ~
Estela Um brinde à sua inteligência!
Batem uma taça contra a outra. Heitor sorri novamente.
Heitor Um brinde à nossa liberdade!
Ambos sorriem e bebem um pouco de vinho.
Estela Sabe o que eu penso sobre os vinhos?
Heitor Não.
Estela Sabe o que eu penso sobre os homens?
Heitor Também não.
Estela Penso que os vinhos são como os homens. Com o
tempo, os maus azedam e os bons apuram,
tornando-se ainda melhores.
Ambos sorriem e bebem um pouco mais de vinho.
Heitor (Rindo) Espero que eu seja como os bons vinhos.
Estela (Rindo) É o que todo mundo espera.
Ambos sorriem.
O garçom se aproxima, trazendo a pizza. Serve um pedaço a
cada um deles. Em seguida, sai de cena. Luz caindo até o
black-out.

~ 60 ~
CENA 7

Escrever é um ato de risco. O autor se revela a pessoas que nem


mesmo conhece. E para revelar-se, cria personagens bons e maus,
simples e complexos, e cada personagem revela ao autor coisas
sobre si mesmo. Uma peça de teatro é como um grande quebra-
cabeça. A gente vai montando a história quadro a quadro. A
diferença é que os personagens durante a escrita parecem ter vida
própria. Eles falam com a gente, e nos demonstram seus
sentimentos. Os personagens criados pelo autor o ensinam a
compreender a sua própria vida e seus sentimentos. Literalmente.

~ 61 ~
Casa do Heitor.
Heitor sentado em seu sofá. Estela observa atentamente, de pé,
sua estante, cheia de livros.
Estela Você leu todos esses livros?
Heitor Quase todos.
Estela Comprou tudo isso?
Heitor Alguns eu ganhei de presente.
Estela Nossa, quantos livros!
Heitor Sempre gostei muito de ler, desde garoto. Meus
pais me incentivavam bastante. A leitura nos ajuda
a compreender as coisas, a interpretar situações, a
formar uma opinião própria.
Estela apanha um porta-retrato sobre a estante.
Estela São seus pais?
Heitor Sim.
Estela Onde eles estão?
Heitor Já não estão mais entre nós. Minha mãe faleceu
quando eu ainda era criança. Meu pai veio a
falecer há cinco anos atrás.
Estela Sinto muito.
Heitor O câncer mata lentamente, sabia? E ele acaba
fazendo com que todos ao redor sofram também.
Mas não quero falar sobre isso agora.
Estela caminha em direção ao sofá onde está Heitor.
Estela Onde estão seus textos? Você prometeu me
deixar ler...
~ 62 ~
Heitor Vou pegá-los. Promete que não vai rir?
Estela Rir de quê? Prometo que não vou chorar se eles
forem muito bonitos.
Heitor É que eu sou tímido, Estela. Sabe disso...
Estela Tímido? Está bem. Conta outra.
Heitor se levanta. Caminha até a estante, abre a gaveta e
apanha uma pasta.
Caminha de volta até o sofá onde Estela se encontra. Senta-se
ao lado dela.
Heitor Aqui está!
Estela Tudo isso?
Heitor Tem mais alguns, mas como eu sabia que gostaria
de ler, separei os melhores.
Estela Seu bobo. Sabe que não vou te criticar.
Heitor Quero sua opinião sincera. Não precisa ler agora,
pode levar para casa e ler tudo. Vai ser importante
para mim.
Estela Se é isso o que quer, vou ler com todo prazer.
Estela abre a pasta e folheia alguns textos. Heitor está ao seu
lado.
Estela Heitor, todos os seus textos são escritos à mão ou
na máquina de escrever?
Heitor São sim. Pelo menos no princípio.
Estela Por quê?
Heitor Porque me acostumei com a máquina de escrever.
Quando era pequeno eu via meu pai trabalhando
~ 63 ~
nela e hoje em dia a máquina virou relíquia. Mas
ainda funciona direitinho.
Estela Mas não é mais difícil que no computador?
Heitor Deixa eu te explicar: sempre que escrevo e acho
que o texto não está se enquadrando na frase, eu
guardo as folhas assim mesmo. Às vezes amasso,
mas depois acabo pegando tudo de volta. Elas
podem não servir neste texto, mas podem servir
em outro.
Estela Interessante.
Heitor É um processo difícil. As idéias vêm e vão. Por
isso sempre trago comigo papel e caneta. Além do
mais, quando apago uma frase no computador, ela
se perde para sempre.
Estela Mas você não tem nada contra o computador,
tem?
Heitor Claro que não! Os programas de computador
possuem recursos incríveis, mas como parte do
meu processo de criação, funciona melhor na
máquina de escrever. Mas o computador é
essencial para outras coisas. No mundo de hoje,
quem não sabe utilizar os programas básicos de
computador pode ser considerado analfabeto.
Estela Concordo plenamente. Hoje em dia é
imprescindível.
Estela continua a folhear alguns textos. Heitor continua ao seu
lado.
Estela Como está indo a peça?

~ 64 ~
Heitor Estou escrevendo e montando as cenas. Incrível
como as palavras estão surgindo.
Estela Que ótimo. Posso ver você escrevendo?
Heitor Mas eu não vou escrever agora.
Estela Porque não? Ah, escreve, vai!
Heitor Escrever o quê?
Estela Qualquer coisa. Escreve um poema para mim...
Heitor Pra você? O que quer que eu escreva?
Estela Não sei. O que vier à sua cabeça.
Heitor Mas nada vem à minha cabeça agora.
Estela Ah, Heitor, você é um poeta, é um homem
romântico. Escreve algo bem bonito para mim.
Não vai negar um pedido meu, vai?
Heitor Prometo que escrevo um poema para você, mas
não agora.
Estela Tudo bem. Quanto tempo vou ter que esperar?
Heitor Não sei. Mas prometo que vou escrever.
Estela Se não escrever vou deixar de ser sua musa
inspiradora.
Heitor Minha o quê?
Estela Musa inspiradora. Todos os grandes artistas,
autores ou pintores tinham uma musa inspiradora.
Heitor Tudo bem. Eu te aceito como minha musa
inspiradora.
Estela Não precisava aceitar. Eu já sou.

~ 65 ~
Os dois trocam olhares.
Heitor Está certo. Minha musa inspiradora quer um pouco
de água?
Estela Quero sim.
Heitor se levanta e sai de cena. Estela abre a pasta.
Separa uma folha. Luz caindo até o black-out.

~ 66 ~
CENA 8

O ato de viver é complexo porque os seres humanos são altamente


complexos. Os fatos que acontecem na vida vêm para nos ensinar,
embora muitas vezes seja doloroso. É incrível como justamente
quando as coisas estão indo bem, é que vem a tormenta e arrasa
com tudo. Tirar lições das tormentas é possível, necessário, mas
extremamente difícil.

~ 67 ~
Luz abrindo num foco central. Estela está de pé com uma folha
nas mãos. Caminhando de um lado para o outro no palco, ela
recita pausadamente o poema.
Estela Não, não quero sofrer mais,/como os pais que
apanham da vida,/e como os filhos que apanham
dos pais,/quero buscar o que me restou,/e, de tudo,
o que ficou foi o amor/da menina que nunca me
olhava/mas que admirava o meu jeito de quem
sabe o que quer./Sempre me disseram que seria
importante/se todos se dessem as mãos/mas o que
me dizem já não importa mais/chegou a minha hora
e a minha vez/chegou a hora de nos darmos as
mãos/e olhar nos olhos, um do outro/e deixar os
lábios se tocarem/com a sinceridade e a lealdade
de quem faz as coisas por que acredita nelas.
Estela termina de ler. Dá um beijo na folha. Parece estar
completamente apaixonada.
Seu telefone celular toca. É o ex-namorado dela.
Música entra! (Sugiro que seja “Primavera” de Vivaldi e que
fique o tempo necessário para uma conversa ao telefone)
Num canto da sala Estela fala ao telefone.
Música pára! Heitor entra em cena com dois copos d’água.
Estela (Falando no celular) Tudo bem, vou estar lá.
Estela desliga o celular quando Heitor está se aproximando.
Heitor lhe entrega o copo com água e senta-se de frente para a
máquina de escrever.
Estela bebe a água entornando todo o copo de uma vez. Heitor
começa a bater nas teclas da máquina.
Estela O que foi?
~ 68 ~
Heitor Nada.
Estela Como nada? O seu silêncio...
Heitor Estou tentando me concentrar.
Tempo.
Estela Ao telefone era o meu...
Heitor Namorado.
Estela Ex-namorado!
Heitor “Ex” é um prefixo de origem latina que quer dizer
colocado para fora, o que não pertence mais. Tem
certeza de que é isso mesmo? É assim que você
deve chamá-lo?
Estela (Interrompendo) Ele quer conversar comigo. Diz
que quer se explicar.
Heitor Estela, não conversamos sobre o motivo de seu
choro naquele dia. Não sei porque terminaram.
Você é uma mulher livre e independente, sabe o
que é melhor para você.
Estela Acho que vai ser importante...
Heitor Tudo na vida é importante, Estela. Depende do
ponto de vista do observador.
Estela Heitor...você está com ciúmes?
Heitor Ciúmes? De onde você tirou essa idéia?
Estela Não sei. Por um momento me pareceu que...
Heitor (Interrompendo) Estela, isso é coisa da sua
cabeça.
Estela Tudo bem. Não está mais aqui quem falou.
~ 69 ~
Tempo.
Heitor Você ainda o ama?
Estela Não. (Tempo) Não sei...
Heitor Não sabe?
Estela Passamos muito tempo juntos. Fizemos planos...
Heitor E agora se tornou difícil acreditar que nada disso
vá acontecer. Eu sei como são estas coisas. É
difícil aceitar o fim de uma etapa, ver ruir as
estruturas emotivas que criamos por um longo
tempo.
Estela Não quero falar sobre isso agora.
Heitor Tudo bem, eu entendo.
Tempo. Heitor volta-se para a máquina de escrever. Começa a
escrever.
Estela Heitor?
Heitor Sim.
Estela Quero caminhar um pouco, sentir o vento soprar
contra nossos rostos. Vem comigo!
Heitor Preciso escrever, Estela. Falta pouco para eu
terminar a peça.
Estela Depois você termina.
Heitor Preciso terminar logo. Estou pensando em entrar
em contato com um grupo teatral para ver se eles
gostariam de encenar minha peça.
Estela Deixa todo mundo pra lá. Você está passando
muitas horas debruçado sobre esta máquina. A
vida lá fora está em movimento.
~ 70 ~
Heitor Mas eu preciso...
Estela (Interrompendo) Você precisa respirar novos
ares.
Heitor Desculpe, Estela. Eu não vou.
Estela Tudo bem. Não vou mais atrapalhar você e seu
texto.
Tempo.
Estela Vou embora.
Heitor Por quê?
Estela Porque você tem um trabalho a fazer. Isso é uma
coisa importante. É o seu sonho, é sua vida. Não
quero atrapalhar. Deixa eu resolver meus próprios
problemas.
Heitor Sabe que estarei aqui se precisar.
Estela Eu sei.
Estela caminha em direção a porta. Heitor se levanta e a
acompanha.
Luz caindo até o black-out.

~ 71 ~
CENA 9

Questione, hoje e sempre. Foi a busca das respostas de três


perguntas que fizeram com que o Imperador partisse de seu lugar
comum para uma jornada em direção a um mundo novo e
inesperado. É o ponto de interrogação que move o mundo.
Questione.

~ 72 ~
Luz abrindo. Entra música. (Sugiro que seja “Verão” de Vivaldi)
Heitor sentado na sala tendo à frente sua máquina de escrever.
Bate a máquina com bastante velocidade, demonstrando que o
texto está fluindo.
Heitor O Eremita aponta em direção às árvores.
“Você viu alguém correndo?”
Aparece um homem cambaleando entre as árvores,
segurando o estômago.
Quando o Imperador e o Eremita se aproximam, ele
desmaia.
O Imperador abre a camisa do homem e vê que ele
tem um corte profundo.
O Imperador limpa a ferida usando sua própria
camisa para estancar o sangue. Quando recobrou a
consciência o homem pediu água. O imperador
correu até o riacho e trouxe água para ele. O
homem bebeu e dormiu.
O eremita e o imperador carregaram-no para a
cabana e o deitaram na cama do eremita. O
imperador, que estava cansado, também dormiu.
Música pára. Heitor pára de escrever. Levanta, caminha, sai de
cena. Volta com um copo d’água. Senta-se novamente de frente
para a máquina de escrever e põe o copo ao seu lado.
Música entra. (Sugiro que seja “Verão” de Vivaldi a partir de
1:10min)
Heitor Na manhã seguinte, quando o imperador acordou,
viu o homem ferido em pé na sua frente.
“Perdoa-me!”
~ 73 ~
“Perdoar você? O que você fez que necessita o
meu perdão?”
“Vossa Majestade não me conhece, mas eu o
tenho considerado como o meu pior inimigo.
Durante a última guerra, Vossa Majestade matou
meu irmão e roubou minhas terras. Então eu jurei
vingança dizendo que iria matá-lo. E, de fato,
ontem eu estava em uma emboscada, esperando
Vossa Majestade retornar para casa para matá-lo.
Eu esperei muito tempo, mas, por alguma razão,
Vossa Majestade não retornou. Quando eu deixei
meu esconderijo para procurá-lo seus guardas me
encontraram e me reconheceram. Então eles me
atacaram e me feriram. Eu sangrei muito, se
Vossa Majestade não tivesse me ajudado eu
certamente teria morrido. Eu tinha planejado matá-
lo e em vez disso Vossa Majestade salvou minha
vida. Eu estou envergonhado e muito agradecido.
Por favor me perdoe”.
Música pára. Heitor pára de escrever. Bebe um pouco mais de
água.
Música entra. (Sugiro que seja “Verão” de Vivaldi a partir de
1:10min)
Heitor “Eu sou agradecido por seu ódio ter acabado.
Desculpe-me também, agora que ouvi a sua
história, pela dor que tenho causado a você.
Guerra é terrível. Infelizmente não posso devolver
a vida a seu irmão. Eu perdôo você e devolverei as
suas terras. Vamos ser amigos de agora em
diante”.

~ 74 ~
O Imperador reúne os guardas e os orienta a levar
o homem para casa. O Imperador retornou para
onde estava o Eremita.
“Eu devo ir agora. Vou viajar para todos os lugares
possíveis procurando as respostas para as minhas
três questões. Eu espero algum dia encontrá-las”.
O eremita sorri e diz:
Suas questões já foram respondidas, Majestade!
Música pára. Heitor pára de escrever. Fica um bom tempo
admirando o texto que acabou de escrever. Caminha até o
telefone, tira do gancho, mas desiste de telefonar. Põe o fone
novamente no gancho.
Caminha até o sofá. Senta-se. Pega o controle remoto e liga a
televisão.
Levanta novamente. Volta ao telefone. Tira do gancho e disca
um número. O telefone chama, mas ninguém atende.
Volta ao sofá. Deita-se. Pega o controle remoto e desliga a
televisão, adormecendo em meio a seus pensamentos.
Luz caindo até o black-out.

~ 75 ~
CENA 10

Num tempo não muito distante, o sol brilhava intensamente, havia


romance no ar, havia flores nos jardins e as pessoas se
correspondiam por cartas. Isso foi até pouco tempo antes de ser
desenvolvida a internet e criados os e-mails. Surgiram as
abreviações das palavras e também dos sentimentos. Cartas de
amor deixaram de existir. E assim, os dias passaram a ser nublados
e os relacionamentos com previsão de chuvas intensas.

~ 76 ~
Estela se aproxima da porta da casa de Heitor. Ele está lá
dentro e continua a escrever.
Estela leva a mão até a campainha como se fosse tocá-la, mas
não a aperta. Abre a bolsa, pega uma carta dobrada em várias
partes e põe por baixo da porta.
Heitor continua a escrever e não percebe os movimentos na
porta. Estela parece estar chorando. Caminha lentamente. Pára,
olha novamente para a casa dele. Vira-se novamente, continua
a caminhar e sai de cena.
Heitor continua a escrever. Levanta-se, vai até a cozinha (sai de
cena). Volta com uma maçã nas mãos. Caminha até a estante.
Antes de pegar um livro, percebe a carta no chão.
Pega a carta e a abre. Começa a ler. (Sugiro que a voz na leitura
seja a de Estela).
Estela em off Querido Heitor; há dia atrás eu estava me sentindo
perdida e completamente sozinha. Uma grande
decepção me abateu e senti meu mundo ruir. Foi
talvez o pior momento de todas as minhas
relações amorosas. Foi algo que me fez pensar
muito, e conhecer você, neste momento, foi como
uma revelação de que ainda existem pessoas
boas neste mundo. Eu já não acreditava nas
pessoas e deixei de acreditar no amor também.
Logo eu, que sempre fui tão romântica.
É triste constatar que com o passar da idade os
castelos, príncipes e princesas se desfazem.
Sapos jamais viram príncipes, mas o contrário
acontece a todo o momento.
Ao longo desta vida, conheci muitos sapos.
Conheci também alguns homens que se
~ 77 ~
aproximaram vagamente de príncipes. Alguns
tocaram meu corpo com intensidade, mas não
conseguiram atingir minha alma. Outros atingiram
as profundezas de minha alma, mas não
conseguiram tocar meu corpo.
Mas ontem enquanto estava em sua casa, eu
recebi um telefonema. Meu ex-namorado dizia que
precisava conversar comigo. Acho que eu preciso
ir. Não tive coragem de lhe dizer isso olhando em
seus olhos e, por isso, escrevo esta carta. Queria
lhe agradecer pelos momentos que passamos
juntos. Isso tudo foi muito importante para mim.
Se aquele dia na praça eu não tinha nada e me
sentia sozinha, hoje sei que tenho um amigo. Sei
que tenho alguém que gosta de mim e que cuidou
do meu coração quando eu mais precisei.
Com muito carinho, Estela.

~ 78 ~
CENA 11

Muita gente tem medo do silêncio, se desesperam com a mínima


possibilidade de solidão, mas recusam os convites que a vida lhe
oferece.

~ 79 ~
Heitor sentado no banco da praça. É noite.
Heitor em off- Já faz cinco dias desde a última vez que vi Estela.
Há algo dentro de mim que diz que ela vai aparecer
a qualquer minuto. Mas há ainda outra voz que
afirma que ela não vai voltar e que se rendeu às
explicações de seu namorado, embora ela tenha
afirmado que não sabia se ainda o amava.
Hoje sinto o vento soprar contra meu rosto nesta
praça e me arrependo de não ter aceitado seu
convite e caminhado com ela naquele dia. Na
verdade, quase não consegui escrever nada
naquele dia, pois fiquei todo o tempo pensando
nela.
Onde estaria? Como estaria? E o pior, o que estaria
fazendo?
Ao invés de escrever minha peça, naquele dia,
escrevi sobre minha própria vida, sobre meus
relacionamentos anteriores. Relembrei fatos,
escrevi meus erros e meus acertos. Me senti
sozinho. E, por um momento, fui invadido por um
vazio imenso. Eu tinha terminado de contar a mim
mesmo a história da minha vida. Estava livre, mas
estava só. E esse sentimento só passou quando eu
coloquei tudo no papel. Li e reli minhas palavras até
cansar a vista, até compreender tudo aquilo o que
eu precisava.
Por conta disso, naquele mesmo dia, quando a
noite chegou, fui me encontrar com o universo. Tive
sorte, era uma noite de lua cheia e muitas estrelas
no céu. Fiquei mais de uma hora parado, tentando
não pensar em nada especificamente, procurando
~ 80 ~
apenas esvaziar a mente do excesso de
pensamentos e responsabilidades. Desta vez
consegui ficar um bom tempo assim. Mas meu
pensamento estava todo voltado para Estela.
Vi a primeira estrela daquela noite surgindo no céu.
Desta vez, não fiz muitas perguntas ou
questionamentos e deixei me levar pela emoção e
pela simplicidade das coisas. E, naquele momento,
eu fiz um pedido. Não me importava parecer
ridículo naquele momento. Chega uma hora em que
precisamos ter algo além de esperança e razão. É
preciso ter fé.
E naquela noite, diante de um céu estrelado,
descobri que a amava.

~ 81 ~
CENA 12

Um reencontro com alguém que se ama é sempre momento


especial.

~ 82 ~
Heitor em sua sala, sentado, tendo à frente sua máquina de
escrever. No chão, ao seu redor, há outras folhas de papel
amassadas.
Heitor em off A gente nunca se esquece de alguém que
amamos. Porque de todos os momentos de
nossas vidas, os bons momentos, aquela alegria,
aquela felicidade, aquele beijo, aquele sorriso ou
aquele abraço, nos marcam profundamente.
A gente nunca se esquece de alguém que nos
abandonou. Porque de todos os momentos de
nossas vidas, assim como os bons momentos, os
momentos de tristeza também nos marcam
profundamente.
A campainha toca suavemente. Heitor não responde.
Toca novamente, com mais firmeza. Heitor não responde.
Toca pela terceira vez, de forma mais demorada. Heitor de
levanta e vai atender.
Heitor abre a porta. Estela está vestida lindamente.
Estela Bom dia! Posso entrar?
Heitor faz um gesto mostrando-lhe o caminho para dentro da
sala.
Estela entra. Heitor fecha a porta.
Estela Sei que deve ter sido difícil para você entender...
Heitor Difícil? Todos os dias as pessoas se aproximam e
todos os dias elas se afastam. Na verdade, a
maioria das pessoas fica apenas o tempo
necessário para se restabelecerem.
Estela Eu não sou assim.
~ 83 ~
Heitor Eu sei disso!
Estela Vim lhe pedir desculpas.
Tempo.
Estela Não vai falar nada?
Heitor se vira e volta para a máquina de escrever.
Estela Terminou a peça?
Heitor Falta pouco. Estou na última cena.
Estela Que bom. Vai ser um grande sucesso. As pessoas
estão precisando ouvir falar e sentir um pouco de
amor.
Heitor E você?
Estela Eu sou como todas as pessoas. Acho que é isso o
que está faltando no mundo.
Tempo.
Heitor Por onde andou?
Estela Eu precisava ter uma última conversa.
Heitor E como foi?
Estela Aconteceu. Conversamos. Como você me disse
certa vez, sempre é preciso saber quando uma
etapa chega ao final.
Tempo.
Heitor Porque deixar uma carta embaixo da porta?
Estela A carta se explica. Sei que você entendeu. Não
queria brigar com você de novo. Nosso encontro
foi muito especial.

~ 84 ~
Heitor Entendi a carta, mas não compreendi os dias sem
notícias. Acho que já estava acostumado a falar
com você todos os dias.
Estela Desculpe. Tive medo de sua reação. Sei que gosta
de mim. Sei que gosta de minha companhia.
Lembrei de suas palavras e aproveitei esse tempo
para ficar sozinha comigo mesmo, pensando,
porque meu coração está me mostrando uma
situação que eu ainda não sei se devo me permitir
ou não.
Tempo.
Heitor Neste período, tive tempo suficiente para escrever.
Minha inspiração voltou e passou a dominar cada
minuto de meus pensamentos. Não importava
onde estava, seja no trabalho ou em qualquer
outro lugar, tudo o que eu queria era escrever.
Estela Fico feliz por isso.
Heitor Tenho que lhe agradecer. Fiz contato com um
grupo teatral e passei a sinopse da peça e as
cinco primeiras cenas do roteiro. Eles gostaram do
tema e estão pensando em encenar.
Estela Que ótimo! Sabia que conseguiria. Vai deixar eu
ler também?
Heitor Claro. Mas primeiro vou terminar a última cena.
Heitor volta sua atenção para a máquina de escrever.
Estela Heitor?
Heitor Sim!
Estela Está se alimentando direito?

~ 85 ~
Heitor Mais ou menos. Na medida do possível.
Estela Posso preparar um jantar para nós dois?
Heitor Aqui?
Estela Sim. Por que não?
Heitor Só se me prometer que vai deixar eu terminar de
escrever sem ficar me fazendo perguntas.
Estela Tudo bem, eu prometo.
Tempo. Heitor continua a escrever. Estela caminha de um lado
para o outro.
Estela Heitor?
Heitor pára de escrever bruscamente como se estivesse com
raiva.
Heitor (Enraivecido) Fala, Estela!
Estela Qual seu prato preferido?
Tempo. (demonstrar que ele está arrependido da maneira como
respondeu)
Heitor (Arrependido) Qualquer coisa está bom.
Estela Mas qualquer coisa não vende, Heitor.
Heitor Pode ser arroz, feijão, bife e batata-frita?
Estela Nada natural. Com salada para acompanhar?
Heitor Seria ótimo.
Estela E frutas para a sobremesa? Você não come
frutas?
Heitor Claro que como!

~ 86 ~
Estela Que fruta eu posso trazer? Qual a que você mais
gosta?
Heitor fica em silêncio concentrado no texto.
Estela Tudo bem. Vou fazer uma salada de frutas.
Heitor Está ótimo, Estela. Agora preciso escrever...
Estela Tudo bem. Volto em alguns minutos.
Estela pega sua bolsa e sai de cena. Heitor volta-se para seu
texto. Continua a escrever.
Luz caindo até um ligeiro black-out.

~ 87 ~
CENA 13

Às vezes uma palavra amiga dita na hora mais inesperada pode


fazer milagres com quem a houve. Às vezes, era tudo o que a
pessoa mais precisava ouvir, por mais que possa doer. No entanto,
as palavras ditas retornam para quem as falou, provocando as
mesmas reflexões, modificando, também, sua maneira de agir.
Aquelas eram as palavras que ambos precisavam ouvir.

~ 88 ~
Luz abrindo em resistência baixa. Heitor está em sua sala,
sentado próximo à máquina escrever, mas não escreve. Está
pensativo.
O telefone toca. Heitor se levanta e atende.
Heitor Alô!
Marcos Heitor?
Heitor Sim, é ele! Quem está falando?
Marcos É o Marcos, da faculdade.
Heitor Fala, Marcos, tudo bem?
Marcos Tudo ótimo! Heitor, estou te ligando apenas para
te dizer que aquele nosso encontro acabou me
fazendo agir. Eu fiquei te dando conselhos para
não abandonar seus sonhos, mas não me julgava
capaz de seguir nem mesmo os meus. Até que
isso invadiu meus pensamentos. Como eu poderia
ficar falando para alguém fazer algo que eu não
tinha coragem de fazer?
Heitor Marcos, não se preocupe com isso. Entendi o que
você quis dizer.
Marcos Rapaz, deixa eu te falar. Depois que conversamos,
passei toda aquela noite sem dormir. Eu já tinha
abandonado meus sonhos, estava conformado
com a vida que estava vivendo, já que tinha
comida em casa, não estava faltando nada para
minha mulher e minha filha. No entanto, minhas
palavras para você retornaram para mim como
num eco. Acho que eu estava falando aquelas
coisas não para você, mas para mim mesmo.
Heitor Marcos...
~ 89 ~
Marcos (Interrompendo) Heitor, no dia seguinte bem
cedo, liguei para o meu cunhado que é pedreiro.
Logo depois, liguei para o meu irmão, encarregado
de obras. Falei para eles da minha ideia e eles
aceitaram.
Heitor E qual a ideia?
Marcos Abrir uma empresa de pequenas reformas, com
profissionais completos, que possam resolver
problemas de instalações elétricas, hidráulicas,
fazer pinturas, ou seja, de tudo um pouco. Vou
bater na porta de vários condomínios. Esse era o
meu sonho, mas nunca tinha coragem de dar o
primeiro passo. Por enquanto, vou continuar no
emprego público, mas assim que os primeiros
contratos começarem a sair, vou administrar o
meu próprio negócio.
Heitor Isso é muito bom!
Marcos Mas foi graças a nossa conversa. Novamente,
quero lhe agradecer. Aquilo tudo foi muito
importante para mim.
Heitor Para mim também. Recentemente conheci uma
mulher. O nome dela é Estela. Estamos nos
conhecendo. Algo me diz que um relacionamento
muito especial está surgindo. Ela me inspira tanto
que agora estou escrevendo uma peça de teatro.
A forma como ela me trata é contagiante sabe?
Marcos Velho amigo, que bom ouvir isso! Não esqueça de
me convidar para o casório. Aproveite cada
momento. Esta parte do relacionamento é muito
boa, descobrindo a pessoa, seus gostos, suas
manias.
~ 90 ~
Heitor É verdade!
Marcos Preciso ir. Muito obrigado por tudo!
Heitor Marcos, pode ter certeza de uma coisa: eu é que
devo agradecer.
Heitor desliga o telefone.
Luz caindo até um ligeiro black-out.

~ 91 ~
CENA 14

Terminar um novo texto é sempre uma sensação muito boa para o


autor. Porque durante a escrita ele fica em companhia de seus
próprios personagens, dialogando como se eles lhe falassem
diretamente. Ao se concluir a escrita, uma sensação de vazio toma
conta de seu coração. A história já foi contada. A partir deste
momento, as palavras escritas neste livro não pertencem mais ao
autor.

~ 92 ~
Luz abrindo em resistência baixa. Heitor com todas as páginas
da peça em suas mãos.
Estela entra sem tocar a campainha, cheia de bolsas de
supermercado.
Estela A fila estava enorme.
Heitor (Contente) Estela... Estela...
Estela O que foi Heitor?
Heitor Estela... eu consegui terminar o texto.
Estela Que maravilha!
Estela larga as bolsas ao chão e corre de encontro a ele. Um
longo e apertado abraço.
Estela Estou ansiosa para ler.
Heitor Mas primeiro devo fazer as devidas revisões.
Quase sempre mudo alguma coisa, é um processo
trabalhoso de lapidação do texto.
Estela É bom ver está apaixonado por seu texto.
Heitor Estou. Não sei exatamente o porquê, não sei se é
porque você voltou, mas a cena final é a melhor de
todas. Quer ler junto comigo mesmo antes das
revisões?
Estela Claro.
Heitor Olha só. (Heitor apontando para o texto) Onde
estiver escrito “Imperador”, você lê. Onde estiver
escrito “Eremita” sou eu quem vai ler.
Estela Tudo bem... Imperador...
Heitor (Lendo) O eremita sorri e diz:

~ 93 ~
Suas questões já foram respondidas, Majestade!
Estela (Lendo) O que você está dizendo?
Heitor (Lendo) O eremita olha nos olhos do Imperador.
Heitor olha fixamente nos olhos de Estela.
Heitor Quais eram mesmo as perguntas?
Heitor continua olhando fixamente nos olhos de Estela.
Estela (Lendo) Quando é o melhor tempo para se fazer
alguma coisa?
Quem é a pessoa mais importante?
Qual é o objetivo mais importante?
Heitor (Lendo) Se você não tivesse me ajudado a
capinar o meu jardim ontem, atrasando o seu
retorno, você teria sido atacado no caminho para
casa. Entretanto, o tempo mais importante para
você foi o tempo que você capinou o meu jardim. A
pessoa mais importante fui eu, a pessoa com
quem você estava, e o objetivo mais importante
era simplesmente me ajudar.
(Lendo) Depois, quando o homem ferido chegou,
o tempo mais importante foi o tempo que você
dedicou cuidando da sua ferida, de outro modo ele
teria morrido e você teria perdido para sempre a
oportunidade de perdoar e fazer uma nova
amizade. Naquele momento ele era a pessoa mais
importante e o objetivo mais importante era tratar
sua ferida.
Tempo. Heitor continua olhando nos olhos de Estela.
Heitor (Lendo) Faça novamente as perguntas.
~ 94 ~
Estela (Lendo) Quando é o melhor tempo para se fazer
alguma coisa?
Heitor (Lendo) O presente momento é o único momento.
Estela (Lendo) Quem é a pessoa mais importante?
Heitor (Lendo) A pessoa mais importante é sempre a
pessoa com quem você está.
Estela (Lendo) Qual é o objetivo mais importante?
Heitor (Lendo) O objetivo mais importante é fazer a
pessoa que está ao seu lado feliz.
Estela quase chora, mas contém as lágrimas.
Heitor (Lendo) O que podia ser mais simples ou mais
importante?
E desta forma, tendo suas perguntas respondidas,
o imperador curvou-se em gratidão para o velho
eremita e foi em paz.
Heitor Fim.
Estela Seu texto é lindo, Heitor. Lindo como você! Vai ser
o maior sucesso.
Heitor Eu espero que as pessoas compreendam o texto.
Estela Vão compreender. Não é isso o que todo mundo
quer: amar e ser amado?
Heitor Acho que sim.
Estela Eu tenho certeza disso.
Luz caindo até o black-out.

~ 95 ~
CENA 15

Há um tempo para tudo debaixo do céu. De falar, de ouvir, de


escrever, de ler, de sentir, de ser, de crescer, de florescer, de
rejuvenescer, de viver...

~ 96 ~
Heitor está deitado no sofá assistindo televisão. Estela está
lendo a última página da peça.
Estela Já li duas vezes, do início ao fim. A história é
realmente muito bonita.
Heitor continua assistindo televisão.
Estela Heitor... o eremita na sua história, ele é um homem
sábio. De onde vem a sabedoria das pessoas, que
as tornam capazes de fazer tantas coisas
incríveis?
Heitor Não sei, Estela. Por que a pergunta?
Estela Porque estas coisas que você escreve, seus
poemas, esta peça, tudo isso está dentro de você.
Tudo isso faz parte do seu mundo. O que é preciso
saber para escrever estas coisas, por exemplo?
Heitor Eu não sei. Mas quando termino de escrever, eu
me sinto bem. É uma sensação de vazio, mas não
um vazio pela falta de algo. Um vazio bom, que
espera ser preenchido por pessoas como você,
que lêem e admiram.
Estela Eu considero você um homem sábio. A maneira
como coloca suas palavras, como as escreve. A
maneira como me trata...
Heitor Como eu lhe trato?
Estela Com carinho. Com respeito.
Heitor Não é assim que tem que ser?
Estela Sim. É que nem todos os homens são assim.
Heitor Se todos fossem assim, eu não teria chance
alguma com as mulheres.
~ 97 ~
Estela sorri.
Estela Isso não é verdade. Você é um homem
maravilhoso!
Heitor Você que é uma mulher maravilhosa. Na verdade,
as pessoas sempre observam nas outras aquilo o
que são. Mas voltando à sua pergunta sobre a
sabedoria, a história da humanidade fala sobre um
Rei muito sábio.
Estela Um Rei? Um Rei como o Imperador da sua peça?
Heitor Exatamente. Em todos os filmes que assistimos,
os Reis sempre demonstram sabedoria na
condução de seu povo. Se não fosse assim, com
toda certeza não teriam a mínima condição de
liberar toda uma nação. O Rei a que me refiro
chamava-se Salomão. Foi ele quem escreveu o
Livro do Eclesiastes e que particularmente
considero um dos melhores textos da Bíblia.
Heitor se levanta, desliga a televisão e pega uma Bíblia na
estante.
Heitor Vamos ler juntos como se estivéssemos
encenando uma peça?
Estela se aproxima dele e fica ao seu lado.
Heitor Cada um lê um versículo, tudo bem?
Estela Tudo bem.
Heitor lendo a Bíblia.
Heitor (Lendo) Tudo tem a sua ocasião própria, e há
tempo para todo propósito debaixo do céu.

~ 98 ~
Estela (Lendo) Há tempo para nascer, e tempo para
morrer.
Heitor (Lendo) Tempo de plantar, e tempo de arrancar o
que foi plantado.
Estela (Lendo) Tempo de matar, e tempo de curar.
Heitor (Lendo) Tempo de derrubar, e tempo de edificar.
Estela (Lendo) Tempo de chorar, e tempo de rir.
Heitor (Lendo) Tempo de gemer, e tempo de dançar.
Estela (Lendo) Tempo de espalhar pedras, e tempo de
juntar pedras.
Heitor (Lendo) Tempo de abraçar, e tempo de abster-se
de abraçar.
Estela (Lendo) Tempo de ganhar, e tempo de perder.
Heitor (Lendo) Tempo de guardar, e tempo de jogar fora.
Estela (Lendo) Tempo de rasgar, e tempo de costurar.
Heitor (Lendo) Tempo de estar calado, e tempo de falar.
Estela (Lendo) Tempo de amar, e tempo de odiar.
Heitor (Lendo) Tempo de guerra, e tempo de paz.
Heitor fecha a Bíblia. Caminha lentamente até a estante e a
guarda no mesmo lugar que tirou.
Estela Me sinto em paz com você, Heitor. Em paz como
nunca estive. Você me passa tanta segurança e é
algo que nunca senti. Eu te amo, Heitor.
Heitor Eu também te amo, Estela. Descobri isso quando
estar longe de você me causava saudade.
Descobri isso quando li sua carta e pensei que
~ 99 ~
nunca mais voltaria a vê-la. Descobri isso numa
noite estrelada. Descobri isso quando você voltou
e ali tive certeza que estava vindo, definitivamente,
para mim.
Estela Quando nos conhecemos, você me disse que ia
sempre àquela praça. Eu não sei exatamente o
porquê, se foi o seu texto ou as coisas que me
falou, mas no domingo seguinte eu voltei lá na
esperança de reencontrá-lo, mas você não estava.
Heitor Estive lá sim. Deve ter sido um desencontro de
horários.
Estela Eu passei toda a semana lendo seu poema,
imaginando nosso reencontro. Era triste, mas era
lindo. Eu precisava lhe entregar porque achava
que você tinha que terminá-lo. Apenas pela
possibilidade de revê-lo, passei uma semana bem
melhor.
Heitor fica em silêncio.
Estela Então, nos encontramos, e suas palavras foram a
cada dia me mostrando um caminho a seguir. Eu
já não sonhava, pensava não acreditar mais na
vida, no amor e nas pessoas, até você surgir.
Aquele dia, na praia, olhando a estrela, eu fiz um
pedido...
Heitor E prometeu me contar quando ele fosse realizado.
Estela Sim. Acho que chegou a hora. Eu pedi que a
estrela lhe devolvesse a inspiração. Pedi que a
estrela lhe ajudasse a coordenar seus
pensamentos. Pedi que Deus estivesse com você

~ 100 ~
em seus momentos de dúvida e não o deixasse
desistir.
Tempo.
Estela Pedi também para ser feliz. Pedi que eu, uma
mulher que há tempos não sonhava com nada,
pudesse ser sua musa inspiradora. De alguma
forma, o seu sonho passou a ser o meu sonho
também. Você me devolveu a alegria de viver.
Tempo.
Estela Apenas a possibilidade de reencontrá-lo num final
de semana já me fazia acordar e encarar mais um
dia de trabalho com mais ânimo. Apenas a
possibilidade de poder ser feliz, já me causou uma
enorme alegria.
Há um longo abraço, seguido por um beijo.
Heitor Num dos dias em que estivemos separados, para
me lembrar de você, eu fui observar o céu naquela
mesma praia, e também fiz um pedido. Pedi para
continuar a nos darmos bem. E que nossos
momentos juntos pudessem ser multiplicados e
serem belos e felizes. Acha que eu posso lhe fazer
feliz?
Estela Tenho certeza disso.
Heitor Como pode ter tanta certeza?
Estela Você já ouviu seu coração alguma vez? O meu
está dizendo isso.
Heitor Sendo assim, só o que nos resta é viver e ser feliz.
Estela Para todo o sempre?

~ 101 ~
Heitor Até que a morte nos separe!
Estela E o que acontece quando a palavra “fim” surge na
tela da vida?
Heitor Para nós dois, a partir de agora, a palavra “fim”
significa apenas para as coisas pelas quais já
passamos. De agora em diante, é o início.
Devemos encarar tudo o que passou como uma
lição.
Estela Sabe o que aprendi com você?
Heitor O quê?
Estela Aprendi que o Amor é liberdade. Aprendi que
podemos admirar e amar as pessoas, mas não
podemos controlá-las.
Heitor Como os pássaros que meu pai mantinha nas
gaiolas. Com o tempo eles paravam de cantar e
eram trocados por outro.
Estela Aprendi que ninguém pode possuir uma tarde
como aquela que vimos na praia. Assim como
ninguém pode possuir as estrelas ou o momento
em que as ondas batem nas rochas. Mas podemos
conhecer e amar. Acho que é através destes
momentos que Deus se mostra aos homens.
Heitor Aquele dia, na praia, eu lhe dei flores. Sabe por
que as pessoas dão flores de presente?
Estela Porque são belas? Demonstram amor?
Heitor Também. É porque nas flores está o verdadeiro
sentido do Amor. Quem tentar possuir uma flor
verá sua beleza murchando. Mas quem apenas

~ 102 ~
olhar para uma flor na natureza, permanecerá para
sempre com ela.
Entra música. Ambos se abraçam.
Heitor Me dê sua mão, Estela. Temos muita coisa para
construirmos juntos.
Heitor e Estela caminham lentamente. Os dois saem de cena.
Música sobe e domina a cena. Luz caindo até o black-out.
Agradecimento dos atores. Black-out.

~ 103 ~
CENA 16

POSTSCRIPTUM
O fim de uma etapa é como aquela história de um copo meio cheio
ou meio vazio. Depende do ponto de vista. É sempre necessário
saber quando uma etapa chega ao fim e entender suas maravilhas e
conseqüências. Mas esse “fim” deve ser considerado mesmo o fim
de uma etapa, ou podemos vê-lo como o início de outra?

~ 104 ~
Obs.: Sugiro que após o agradecimento dos atores, a luz da
platéia seja novamente apagada.
Heitor sentado em seu quarto tendo à frente sua máquina de
escrever. No chão, ao seu redor, há outras folhas de papel
amassadas.
Heitor em off Quando eu termino um texto, tenho uma sensação
de vazio. É como se as palavras escritas naquele
papel, não fossem mais minhas. Daí uma
necessidade de escrever novamente e, enquanto
estou escrevendo, me sinto vivo, e a rima me leva,
a história me leva.
Acho que por todas essas coisas, logo que
terminei minha primeira peça de teatro que estreou
há seis meses e foi um sucesso surpreendente,
tive que começar uma outra.
Essa outra peça, começava assim:
Entra Música! (Sugiro que seja “Outono” de Vivaldi)
Heitor Uma das coisas que eu gosto mais de fazer na
vida é sentar no banco de uma pequena praça e
pensar. Pensar em nada especificamente,
procurando apenas esvaziar a mente do excesso
de pensamentos e responsabilidades. Mas nunca
consigo ficar muito tempo assim, pois sempre
acontece alguma coisa que me tira deste estado
de reflexão.
Estela entra em cena. Aproxima-se de Heitor e põe as mãos no
ombro dele, por trás.
Heitor Foi num domingo como esse que Estela apareceu
em minha vida. Era um dia comum, como outro
qualquer, onde pouco ou nada podia se esperar de
~ 105 ~
novo. Todas as manhãs de domingo, eu ia até
aquela praça, considero aquele um de meus
lugares sagrados, pois era o lugar onde eu
brincava na infância e hoje fico admirando as
crianças fazendo o mesmo. Os tempos mudaram.
Eu mesmo mudei; quase deixei de acreditar nos
meus sonhos, no meu potencial, na vida e no
amor, após dois casamentos que não deram certo.
Heitor e Estela beijam-se demoradamente. Após o beijo ela
senta-se em seu colo.
Heitor E foi aí que ela entrou. Estela estava sentada aos
pés de uma árvore, chorando, precisando de um
ombro amigo, mesmo que fosse de um
desconhecido. Eu precisava de alguém para
conversar, mesmo que fosse com uma
desconhecida.
Música sobe um pouco!
Heitor A gente nunca se esquece de alguém que
amamos.
Estela se afasta lentamente de Heitor.
Heitor Estela era uma mulher especial e apareceu em
minha vida para ocupar o lugar de musa
inspiradora. Eu sei que hoje em dia as pessoas
não acreditam mais nisso. Ela dizia que não
acreditava mais em sonhos. Adorava ler meus
textos, saber o signo das pessoas e fazer
associações com o seu. Dizia que eu era um gênio
da humanidade, um anjo que caíra do céu
justamente para protegê-la.
Estela se aproxima novamente de Heitor abraçando-o por trás.
~ 106 ~
Heitor Quando passamos a nos encontrar eu lhe dizia
que há tempos não estava tendo nenhuma
inspiração, nada tocava meu espírito criador e, por
mais que tentasse, nenhuma palavra era escrita
com algum sentido. Ela me incentivou a escrever
uma peça de teatro, trouxe livros sobre como criar
bons personagens e como dividir a narrativa de
uma história, mas eu achava que tudo o que sabia
era reunir versos, formar um poema e depois
colocá-los na gaveta junto com uma centena de
textos.
Música sobe um pouco mais!
Heitor Conhecê-la me permitiu escrever estas palavras.
Mas por uma razão muito especial, estas palavras
não são tristes, mas sim, palavras de lembrança,
porque um dia duas pessoas se conheceram em
uma praça, e isso fez toda a diferença. Entre
encontros e desencontros, hoje, trago uma certeza
comigo: de que tudo tem a sua ocasião própria, e
há tempo para todo propósito debaixo do céu. Há
tempo de rasgar e tempo de costurar.
Música sobe forte dominando a cena. Luz caindo até o black-
out.
A cortina se fecha.
FIM

~ 107 ~
SOBRE O AUTOR

CARLOS EDUARDO NUNES nasceu na cidade do Rio de Janeiro


no ano de 1980. É formado em Engenharia Civil e pós-graduado em
Engenharia de Segurança do Trabalho pela Fundação Técnico
Educacional Souza Marques. Começou a escrever poesias por volta
dos 16 anos. Em seguida, passou a escrever contos com início,
meio e fim, sendo este o primeiro passo para iniciar a escrever seus
primeiros romances.
Participou da 2ª e 7ª Antologia de Poetas Brasileiros
Contemporâneos da CBJE (Câmara Brasileira de Jovens
Escritores), com os poemas “O Fim do Mundo” e “Um tempo que
não volta”, respectivamente.
Pela Editora CBJE o autor publicou em Outubro de 2003 seu
primeiro livro, “Palavras ao Vento”, de poesias e contos. Em maio
de 2008 foi publicado “O pássaro que aprendeu a voar”, um livro
infanto-juvenil baseado em seu conto de mesmo nome. Em julho de
2009, foi publicado o livro de contos “Tocando Sonhos”.

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Livro produzido pela
Câmara Brasileira de Jovens Escritores
Rio de Janeiro - RJ - Brasil
http://www.camarabrasileira.com
E-mail: cbje@globo.com

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